Os Pré-Socráticos

Dualismo Grego
A característica fundamental do pensamento grego está na solução dualista do problema metafísico-teológico, isto é, na solução das relações entre a realidade empírica e o Absoluto que a explique, entre o mundo e Deus, em que Deus e mundo ficam separados um do outro. Conseqüência desse dualismo é o irracionalismo, em que fatalmente finaliza a serena concepção grega do mundo e da vida. O mundo real dos indivíduos e do vir-a-ser depende do princípio eterno da matéria obscura, que tende para Deus como o imperfeito para o perfeito; assimila em parte, a racionalidade de Deus, mas nunca pode chegar até ele porque dele não deriva. E a conseqüência desse irracionalismo outra não pode ser senão o pessimismo: um pessimismo desesperado, porque o grego tinha conhecimento de um absoluto racional, de Deus, mas estava também convicto de que ele não cuida do mundo e da humanidade, que não criou, não conhece, nem governa; e pensava, pelo contrário, que a humanidade é governada pelo Fado, pelo Destino, a saber, pela necessidade irracional. O último remédio desse mal da existência será procurado no ascetismo, considerando-o como a solidão interior e a indiferença heróica para com tudo, a resignação e a renúncia absoluta.

O Gênio Grego
A característica do gênio filosófico grego pode-se compendiar em alguns traços fundamentais: racionalismo, ou seja, a consciência do valor supremo do conhecimento racional; esse racionalismo não é, porém, abstrato, absoluto, mas se integra na experiência, no conhecimento sensível; o conhecimento, pois, não é fechado em si mesmo, mas aberto para o ser, é apreensão (realismo); e esse realismo não se restringe ao âmbito da experiência, mas a transpõe, a transcende para o absoluto, do mundo a Deus, sem o qual o mundo não tem explicação; embora, para os gregos, o "conhecer" - a contemplação, o teorético, o intelecto - tenham a primazia sobre o "operar" - a ação, o prático, a vontade - o segundo elemento todavia, não é anulado pelo primeiro, mas está a ele subordinado; e o otimismo grego, conseqüência lógica do seu próprio racionalismo, cederá lugar ao pessimismo, quando se manifestar toda a irracionalidade da realidade, quando o realismo impuser tal concepção. Todos esses elementos vêm sendo, ainda, organizados numa síntese insuperável, numa unidade harmônica, realizada por meio de um desenvolvimento também harmônico, aperfeiçoado mediante uma crítica profunda. Entre as raças gregas, a cultura, a filosofia são devidas, sobretudo, aos jônios, sendo jônios também os atenienses.

Divisão da História da Filosofia Grega
Os Períodos Principais do Pensamento Grego Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos: I. Período pré-socrático (séc. VII-V a.C.) - Problemas cosmológicos. Período Naturalista: présocrático, em que o interesse filosófico é voltado para o mundo da natureza; II. Período socrático (séc. IV a.C.) - Problemas metafísicos. Período Sistemático ou Antropológico: o período mais importante da história do pensamento grego (Sócrates, Platão, Aristóteles), em que o interesse pela natureza é integrado com o interesse pelo espírito e são construídos os maiores sistemas filosóficos, culminando com Aristóteles; III. Período pós-socrático (séc. IV a.C. - VI p.C.) - Problemas morais. Período Ético: em que o interesse filosófico é voltado para os problemas morais, decaindo entretanto a metafísica; IV. Período Religioso: assim chamado pela importância dada à religião, para resolver o problema da vida, que a razão não resolve integralmente. O primeiro período é de formação, o segundo de apogeu, o terceiro de decadência.

Primeiro Período
O primeiro período do pensamento grego toma a denominação substancial de período naturalista, porque a nascente especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior, julgando-se encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas; e toma, outrossim, a denominação cronológica de período pré-socrático, porque precede Sócrates e os sofistas, que marcam uma mudança e um desenvolvimento e, por conseguinte, o começo de um novo período na história do pensamento grego. Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a.C., e termina dois séculos depois, mais ou menos, nos fins do século V. Surge e floresce fora da Grécia propriamente dita, nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor, do Egeu (Jônia) e da Itália meridional, da Sicília, favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico. Os filósofos deste período preocuparam-se quase exclusivamente com os problemas cosmológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. Pelo modo de a encarar e resolver, classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: Escola Jônica; Escola Itálica; Escola Eleática; Escola Atomística.

Escola Jônica
A Escola Jônica, assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor, compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores. A escola jônica, é também a primeira do período naturalista, preocupando-se os seus expoentes com achar a substância única, a causa, o princípio do mundo natural vário, múltiplo e mutável. Essa escola floresceu precisamente

em Mileto, colônia grega do litoral da Ásia Menor, durante todo o VI século, até a destruição da cidade pelos persas no ano de 494 a.C., prolongando-se porém ainda pelo V século. Os jônicos julgaram encontrar a substância última das coisas em uma matéria única; e pensaram que nessa matéria fosse imanente uma força ativa, de cuja ação derivariam precisamente a variedade, a multiplicidade, a sucessão dos fenômenos na matéria una. Daí ser chamada esta doutrina hilozoísmo (matéria animada). Os jônios antigos consideram o Universo do ponto de vista estático, procurando determinar o elemento primordial, a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. Os mais conhecidos são: Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto. Os jônios posteriores distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois, senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos. Os mais conhecidos são: Heráclito de Éfeso, Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômenas.

Tales de Mileto (624-548 A.C.) "Água"
Tales de Mileto, fenício de origem, é considerado o fundador da escola jônica. É o mais antigo filósofo grego. Tales não deixou nada escrito mas sabemos que ele ensinava ser a água a substância única de todas as coisas. A terra era concebida como um disco boiando sobre a água, no oceano. Cultivou também as matemáticas e a astronomia, predizendo, pela primeira vez, entre os gregos, os eclipses do sol e da lua. No plano da astronomia, fez estudos sobre solstícios a fim de elaborar um calendário, e examinou o movimento dos astros para orientar a navegação. Provavelmente nada escreveu. Por isso, do seu pensamento só restam interpretações formuladas por outros filósofos que lhe atribuíram uma idéia básica: a de que tudo se origina da água. Segundo Tales, a água, ao se resfriar, torna-se densa e dá origem à terra; ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que retornam como chuva quando novamente esfriados. Desse ciclo de seu movimento (vapor, chuva, rio, mar, terra) nascem as diversas formas de vida, vegetal e animal. A cosmologia de Tales pode ser resumida nas seguintes proposições: A terra flutua sobre a água; A água é a causa material de todas as coisas. Todas as coisas estão cheias de deuses. O imã possui vida, pois atrai o ferro. Segundo Aristóteles sobre a teoria de Tales: elemento estático e elemento dinâmico. Elemento Estático - a flutuação sobre a água. Elemento Dinâmico - a geração e nutrição de todas as coisas pela água. Tales acreditava em uma "alma do mundo", havia um espírito divino que formava todas as coisas da água. Tales sustentava ser a água a substância de todas as coisas.

Anaximandro de Mileto (611-547 A.C.) "Ápeiron"
Anaximandro de Mileto, geógrafo, matemático, astrônomo e político, discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza, põe como princípio universal uma substância indefinida, o ápeiron (ilimitado), isto é, quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. Deste ápeiron (ilimitado) primitivo, dotado de vida e imortalidade, por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos. Supõe também a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens. Anaximandro imagina a terra como um disco suspenso no ar. Eterno, o ápeiron está em constante movimento, e disto resulta uma série de pares opostos - água e fogo, frio e calor, etc. - que constituem o mundo. O ápeiron é assim algo abstrato, que não se fixa diretamente em nenhum elemento palpável da natureza. Com essa concepção, Anaximandro prossegue na mesma via de Tales, porém dando um passo a mais na direção da independência do "princípio" em relação às coisas particulares. Para ele, o princípio da "physis" (natureza) é o ápeiron (ilimitado). Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo habitado, a introdução na Grécia do uso do gnômon (relógio de sol) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega). Ampliando a visão de Tales, foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total. Diz-se também, que preveniu o povo de Esparta de um terremoto. Anaximandro julga que o elemento primordial seria o indeterminado (ápeiron), infinito e em movimento perpétuo. Fragmentos "Imortal...e imperecível (o ilimitado enquanto o divino) - Aristóteles, Física". Esta (a natureza do ilimitado, ele diz que) é sem idade e sem velhice. Hipólito, Refutação.

Anaxímenes de Mileto (588-524 A.C.) "Ar"
Segundo Anaxímenes, a arkhé (comando) que comanda o mundo é o ar, um elemento não tão abstrato como o ápeiron, nem palpável demais como a água. Tudo provém do ar, através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida; o fogo é o ar rarefeito; a água, a terra, a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar. As diversas coisas que existem, mesmo apresentando qualidades diferentes entre si, reduzem-se a variações quantitativas (mais raro, mais denso) desse único elemento. Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres, os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista. Dedicou-se especialmente à meteorologia. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe sua luz do Sol. Anaxímenes julga que o elemento primordial das coisas é o ar. Fragmentos "O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio, e o ralo e o frouxo (é assim que ele expressa) é quente". (Plutarco). "Com nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém". (Aécio).

Heráclito de Éfeso Vida de Heráclito
Heráclito nasceu em Éfeso, cidade da Jônia, de família que ainda conservava prerrogativas reais (descendentes do fundador da cidade). Seu caráter altivo, misantrópico e melancólico ficou proverbial em toda a antigüidade. Desprezava a plebe. Recusou-se sempre a intervir na política. Manifestou desprezo pelos antigos poetas, contra os filósofos de seu tempo e até contra a religião. Sem ter sido mestre, Heráclito escreveu um livro Sobre a Natureza, em prosa, no dialeto jônico, mas de forma tão concisa que recebeu o cognome de Skoteinós, o Obscuro. Floresceu em 504-500 a.C. - Heráclito é por muitos considerados o mais eminente pensador pré-socrático, por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos), regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal, harmonia feita de tensões, "como a do arco e da lira".

Filosofia de Heráclito
Heráclito concebe o próprio absoluto como processo, como a própria dialética. A dialética é: A. Dialética exterior, um raciocinar de cá para lá e não a alma da coisa dissolvendo-se a si mesma; B. Dialética imanente do objeto, situando-se, porém, na contemplação do sujeito; C. Objetividade de Heráclito, isto é, compreender a própria dialética como princípio. É o progresso necessário, e é aquele que Heráclito fez. O ser é o um, o primeiro; o segundo é o devir - até esta determinação avançou ele. Isto é o primeiro concreto, o absoluto enquanto nele se dá a unidade dos opostos. Nele encontra-se, portanto, pela primeira vez, a idéia filosófica em sua forma especulativa; o raciocínio de Parmênides e Zenão é entendimento abstrato; por isso Heráclito foi tido como filósofo profundo e obscuro e como tal criticado. O que nos é relatado da filosofia de Heráclito parece, à primeira vista, muito contraditório; mas nela se pode penetrar com o conceito e assim descobrir, em Heráclito, um homem de profundos pensamentos. Ele é a plenitude da consciência até ele uma consumação da idéia na totalidade que é o início da Filosofia ou expressa a essência da idéia, o infinito, aquilo que é.

O Princípio Lógico
O princípio universal. Este espírito arrojado pronunciou pela primeira vez esta palavra profunda: "O ser não é mais que o não-ser", nem é menos; ou ser e nada são o mesmo, a essência é mudança. O verdadeiro é apenas como a unidade dos opostos; nos eleatas, temos apenas o entendimento abstrato, isto é, apenas o ser é. Dizemos, em lugar da expressão de Heráclito: O absoluto é a unidade do ser e do não-ser. Se ouvimos aquela frase "O ser não é mais que o não-ser", desta maneira, não parece, então, produzir muito sentido, apenas destruição universal, ausência de pensamento. Temos, porém, ainda uma outra expressão que aponta mais exatamente o sentido do princípio. Pois Heráclito diz: "Tudo flui (panta rei), nada persiste, nem permanece o mesmo". E Platão ainda diz de Heráclito: "Ele compara as coisas com a corrente de um rio - que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente"; o rio corre e toca-se outra água. Seus sucessores dizem até que nele nem se pode mesmo entrar, pois que imediatamente se transforma; o que é, ao mesmo tempo já novamente não é. Além disso, Aristóteles diz que Heráclito afirma que é apenas um o que permanece; disto todo o resto é formado, modificado, transformado; que todo o resto fora deste um flui, que nada é firme, que nada se demora; isto é, o verdadeiro é o devir, não o ser - a determinação mais exata para este conteúdo universal é o devir. Os eleatas dizem: só o ser é, é o verdadeiro; a verdade do ser é o devir; ser é o primeiro pensamento enquanto imediato. Heráclito diz: Tudo é devir; este devir é o princípio. Isto está na expressão: "O ser é tão pouco como o não-ser; o devir é e também não é". As determinações absolutamente opostas estão ligadas numa unidade; nela temos o ser e também o não-ser. Dela faz parte não apenas o surgir, mas também o desaparecer; ambos não são para si, mas são idênticos. É isto que Heráclito expressou com suas sentenças. O não ser é, por isso é o não-ser, e o não-ser é, por isso é o ser; isto é a verdade da identidade de ambos. É um grande pensamento passar do ser para o devir; é ainda abstrato, mas, ao mesmo tempo, também é o primeiro concreto, a primeira unidade de determinações opostas. Estas estão inquietas nesta relação, nela está o princípio da vida. Com isto está preenchido o vazio que Aristóteles apontou nas antigas filosofias - a falta de movimento; este movimento é aqui, agora mesmo, princípio. É uma grande convicção que se adquiriu, quando se reconheceu que o ser e o nada são abstrações sem verdade, que o primeiro elemento verdadeiro é o devir. O entendimento separa a ambos como verdadeiros e de valor; a razão, pelo contrário, reconhece um no outro, que num está contido seu outro - e assim o todo, o absoluto deve ser determinado como o devir. Heráclito também diz que os opostos são características do mesmo, como, por exemplo, "o mel é doce e amargo" - ser e não-ser ligam-se ao mesmo. Sexto observa: Heráclito parte, como os céticos, das representações correntes dos homens; ninguém negará que os sãos dizem do mel que é doce, e os que sofrem de icterícia que é amargo - se fosse apenas doce, não poderia modificar sua natureza através de outra coisa e assim também para os que sofrem de icterícia seria doce. Zenão começa a sobressumir os predicados opostos e aponta no movimento aquilo que se opõe - um por limites e um sobressumir os limites; Zenão só exprimiu o infinito pelo seu lado negativo - , por causa de sua contradição, como o não verdadeiro. Em Heráclito, vemos o infinito como tal expresso como conceito e essência: o infinito, que é em si e para si, é a unidade dos opostos e, na verdade, dos universalmente opostos, da pura oposição, ser e não-ser. Tomamos nós o ente em si e para si, não a representação do ente, do pleno, assim o puro ser é o pensamento simples, em que todo o determinado é negado, o absolutamente negativo - nada é o mesmo, apenas este igual a si mesmo - , passagem absoluta para o oposto, ao qual Zenão

não chegou! "Do nada, nada vem." Em Heráclito o momento da negatividade é imanente; disto trata o conceito de toda a Filosofia. Primeiro tivemos a abstração de ser e não-ser, numa forma bem imediata e universal; mais exatamente, porém, também Heráclito concebeu as oposições de maneira mais determinada. É esta unidade de real e ideal, de objetivo e subjetivo; o objetivo somente é o devir subjetivo. Este verdadeiro é o processo do devir; Heráclito expressou de modo determinado este pôr-se numa unidade das diferenças. Aristóteles diz, por exemplo, que Heráclito "ligou o todo e o não-todo" (parte) - o todo se torna parte e a parte o é para se tornar o todo - , o "que se une e se opõe", do mesmo modo, "o que concorda e o dissonante"; e de que de tudo (que se opõe) resulta um, e de um tudo. Este um não é o abstrato, a atividade de dirimir-se; a morta infinitude é uma má abstração em oposição a esta profundidade que vemos em Heráclito. Sexto Empírico cita o seguinte que Heráclito teria dito: A parte é algo diferente do todo; mas é também o mesmo que o todo é; a substância é o todo e a parte. O fato de Deus ter criado o mundo Ter-se dividido a si mesmo, gerado seu Filho, etc. - todos estes elementos concretos estão contidos nesta determinação. Platão diz, em seu Banquete, sobre o princípio de Heráclito: "O um, diferenciado de si mesmo, une-se consigo mesmo" - este é o processo da vida, "como a harmonia do arco e da lira". Deixa então que Erixímaco, que fala no Banquete, critique o fato de a harmonia ser desarmônica ou se componha de opostos, pois que a harmonia se formaria de altos e baixos, mas da unidade pela arte da música. Mas isto não contradiz Heráclito, que justamente quer isto. O simples, a repetição de um único som não é harmonia. Da harmonia faz parte a diferença; é preciso que haja essencial e absolutamente uma diferença. Esta harmonia é precisamente o absoluto devir, transformar-se - não devir outro, agora este, depois aquele. O essencial é que cada diferente, cada particular seja diferente de um outro - mas não de um abstrato qualquer outro, mas de seu outro; cada um apenas é, na medida em que seu outro em si esteja consigo, em seu conceito. Mudança é unidade, relação de ambos a um, um ser, este e o outro. Na harmonia e no pensamento concordamos que seja assim; vemos, pensamos a mudança, a unidade essencial. O espírito relaciona-se na consciência com o sensível e este sensível é seu outro. Assim também no caso dos sons; devem ser diferentes, mas de tal maneira que também possam ser unidos - e isto os sons são em si. Da harmonia faz parte determinada oposição, seu oposto, como nas harmonia das cores. A subjetividade é o outro da objetividade, não de um pedaço de papel - o absurdo disto logo se mostra - , deve ser seu outro, e nisto reside sua identidade; assim cada coisa é o outro do outro enquanto seu outro. Este é o grande princípio de Heráclito; pode parecer obscuro, mas é especulativo; e isto é, para o entendimento que segura para si o ser, o não-ser, o subjetivo e objetivo, o real e o ideal, sempre obscuro.

Os Modos da Realidade
Heráclito não ficou parado, em sua exposição, nesta expressão em conceitos, no puro lógico, mas além desta forma universal, na qual expôs seu princípio, deu à sua idéia também uma expressão real. Esta figura pura é precipuamente de natureza cosmológica, ou sua forma é mais a forma natural; por isso, é incluído ainda na Escola Jônica, e com isto deu novos impulsos à filosofia da natureza. Sobre esta forma real de seu princípio os historiadores, contudo, não estão de acordo entre si. A maioria diz que ele teria posto a essência ontológica como fogo, outros dizem que como ar, outros dizem que antes o vapor que o ar; mesmo o tempo é citado, em Sexto, como o primeiro ser do ente. A questão é a seguinte: Como compreender esta diversidade? Não se deve absolutamente crer que se deva atribuir estas notícias à negligência dos escritores, pois as testemunhas são as melhores, como Aristóteles e Sexto Empírico, que não falam destas formas de passagem, mas de modo bem determinado, sem, no entanto, chamar a atenção para estas diferenças e contradições. Uma outra razão mais próxima parece-nos resultar da obscuridade do escrito de Heráclito, o qual, na confusão de seu modo de expressão, poderia dar motivos para mal-entendidos. Mas, considerando mais detidamente, esta dificuldade desaparece; esta mostra-se mais para uma análise superficial; no conceito profundo de Heráclito acha-se a verdadeira saída deste empecilho. De maneira alguma podia Heráclito afirmar, como Tales, que a água ou o ar ou coisa semelhante seria a essência absoluta; e não o podia afirmar como um primeiro donde emanaria o outro, na medida em que pensou ser como idêntico como o não-ser ou no conceito infinito. Assim, portanto, a essência absoluta que é não pode surgir nele como uma determinidade existente, por exemplo, a água, mas a água enquanto se transforma, ou apenas o processo. A. - Processo abstrato, tempo. Heráclito, portanto, disse que o tempo é o primeiro ser corpóreo, como exprime Sexto. "Corpóreo" é uma expressão inadequada. Os céticos escolhiam muitas vezes as expressões mais grosseiras ou tornavam os pensamentos grosseiros para mais facilmente liquidá-los. "Corpóreo" significa sensibilidade abstrata; o tempo é a intuição abstrata do processo; diz que ele é o primeiro ser sensível. O tempo, portanto, é a essência verdadeira. Na medida em que Heráclito não parou na expressão lógica do devir, mas deu a seu princípio a forma de um ente, deduz-se disto que primeiro tinha que oferecer-se a forma do tempo; pois precisamente, no sensível, no que se pode ver, o tempo é o primeiro que se oferece como o devir; é a primeira forma do devir. Enquanto intuído, o tempo é o puro devir. O tempo é puro transformar-se, é o puro conceito, o simples, que é harmônico a partir de absolutamente opostos. Sua essência é ser e não-ser, sem outra determinação ser puro e abstrato não-ser, postos imediatamente numa unidade e ao mesmo tempo separados. Não como se o tempo fosse e não fosse, mas o tempo é isto: no ser imediatamente não-ser e no não-ser imediatamente ser - esta mudança de ser para não-ser, este conceito abstrato, é, porém, visto de maneira objetiva, enquanto é para nós. No tempo não é o passado e o futuro, somente o agora; e este é, para não ser, está logo destruído, passado - e este não-ser passa, do mesmo modo, para o ser, pois ele é. É a abstrata contemplação desta mudança. Se tivéssemos de dizer como aquilo que Heráclito reconheceu como a essência existe para a consciência, nesta pura forma em que ele o reconheceu, não haveria outra que nomear a não ser o tempo; é, por conseguinte, absolutamente certo que a primeira forma do que devém é o tempo; assim isto se liga ao princípio do pensamento de Heráclito.

B. - A forma real como processo, fogo. Mas este puro conceito objetivo deve realizar-se mais. No tempo estão os momentos, ser e não-ser, postos apenas negativamente ou como momentos que imediatamente desaparecem. Além disso, Heráclito determinou o processo de um modo mais físico. O tempo é intuição, mas inteiramente abstrata. Se quisermos representar-nos o que ele é, de modo real, isto é, expressar ambos os momentos como uma totalidade para si, como subsistente, então levanta-se a questão: que ser físico corresponde a esta determinação? O tempo, dotado de tais momentos, é o processo; compreender a natureza significa apresentá-la como processo. Este é o elemento verdadeiro de Heráclito e o verdadeiro conceito; por isso, logo compreendemos que Heráclito não podia dizer que a essência é o ar ou a água ou coisas semelhantes, pois eles mesmos não são (isto é o próximo) o processo. O fogo, porém, é o processo: assim afirmou o fogo como a primeira essência - e este é o modo real do processo heracliteano, a alma e a substância do processo da natureza. Justamente no processo distinguem-se os momentos, como no movimento: 1. o puro momento negativo, 2. os momentos da oposição subsistente, água e ar, e 3. a totalidade em repouso, a terra. A vida da natureza é o processo destes momentos: a divisão da totalidade em repouso da terra na oposição, o pôr desta oposição, destes momentos - e a unidade negativa, o retorno para a unidade, o queimar da oposição subsistente. O fogo é o tempo físico; ele é esta absoluta inquietude, absoluta dissolução do que persiste - o desaparecer de outros, mas também de si mesmo; ele não é permanente. Por isso compreendemos (é inteiramente conseqüente) por que Heráclito pode nomear o fogo como o conceito do processo de sua determinação fundamental. C. - O fogo está agora mais precisamente determinado, mais explicitado como processo real; ele é para si o processo real, sua realidade é o processo todo no qual, então, os momentos são determinados mais exata e concretamente. O fogo, enquanto o metamorfosear-se das coisas corpóreas, é mudança, transformação do determinado, evaporação, transformação em fumaça; pois ele é, no processo, o momento abstrato do mesmo, não tanto o ar como antes a evaporação. Para este processo Heráclito utilizou uma palavra muito singular: evaporação (anathymíasis) (fumaça, vapores do sol); evaporação é aqui apenas a significação superficial - é mais: passagem. Sob este ponto de vista, Aristóteles diz de Heráclito que, segundo sua exposição, o princípio era a alma, por ser ela a evaporação, o emergir de tudo, e este evaporar-se, devir, seria o incorpóreo e sempre fluído. As determinações mais próximas deste processo real são, em parte, falhas e contraditórias. Sob este ponto de vista, afirma-se, em algumas notícias, que Heráclito teria determinado o processo assim: "As formas (mudanças) do fogo são, primeiro, o mar e, então, a metade disto, terra, e a outra metade, o raio" - o fogo em sua eclosão. Este é universal e muito obscuro. A natureza é assim esse círculo. Neste sentido ouvimo-lo dizer: "Nem um deus nem um homem fabricou o universo mas sempre foi e é e será um fogo sempre vivo, que segundo suas próprias leis (métro) se acende e se apaga.". Compreendemos o que Aristóteles cita, que o princípio é a alma, por ser a evaporação, este processo do mundo que a si mesmo se move; o fogo é a alma. No que se refere ao fato de Heráclito afirmar que o fogo é vivificante, a alma, encontra-se uma expressão que pode parecer bizarra, isto é, que a alma mais seca é a melhor. Nós certamente não tomamos a alma mais molhada como a melhor, mas, pelo contrário, a mais viva; seco quer dizer aqui cheio de fogo: assim a alma mais seca é o fogo puro, e este não é a negação do vivo, mas a própria vida. Para retornar a Heráclito: ele é aquele que primeiro expressou a natureza do infinito e que compreendeu a natureza como sendo em si infinita, isto é, sua essência como processo. É a partir dele que se deve datar o começo da existência da Filosofia; ele é a idéia permanente, que é a mesma em todos os filósofos até os dias de hoje, assim como foi a idéia de Platão e Aristóteles. "Os homens são deuses mortais e os deuses, homens imortais; viver é-lhes morte e morrer é-lhes vida". "Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos".

Pitágoras de Samos
Pitágoras, o fundador da escola pitagórica, nasceu em Samos pelos anos 571-70 a.C. Em 532-31 foi para a Itália, na Magna Grécia, e fundou em Crotona, colônia grega, uma associação científico-ético-política, que foi o centro de irradiação da escola e encontrou partidários entre os gregos da Itália meridional e da Sicília. Pitágoras aspirava - e também conseguiu - a fazer com que a educação ética da escola se ampliasse e se tornasse reforma política; isto, porém, levantou oposições contra ele e foi constrangido a deixar Crotona, mudando-se para Metaponto, aí morrendo provavelmente em 497-96 a.C. Segundo o pitagorismo, a essência, o princípio essencial de que são compostas todas as coisas, é o número, ou seja, as relações matemáticas. Os pitagóricos, não distinguindo ainda bem forma, lei e matéria, substância das coisas, consideraram o número como sendo a união de um e outro elemento. Da racional concepção de que tudo é regulado segundo relações numéricas, passa-se à visão fantástica de que o número seja a essência das coisas. Mas, achada a substância una e imutável das coisas, os pitagóricos se acham em dificuldades para explicar a multiplicidade e o vir-a-ser, precisamente mediante o uno e o imutável. E julgam poder explicar a variedade do mundo mediante o concurso dos opostos, que são - segundo os pitagóricos - o ilimitado e o limitado, ou seja, o par e o ímpar, o imperfeito e o perfeito. O número divide-se em par, que não põe limites à divisão por dois, e, por conseguinte, é ilimitado (quer dizer, imperfeito, segundo a concepção grega, a qual via a perfeição na determinação); e ímpar, que põe limites à divisão por dois e, portanto, é limitado, determinado, perfeito. Os elementos constitutivos de cada coisa - sendo cada coisa número - são o par e o ímpar, o ilimitado e o limitado, o pior e o melhor. Radical oposição esta, que explicaria o vir-a-ser e o múltiplice, que seriam reconduzidos à concordância e à unidade pela fundamental harmonia (matemática), que governa e deve governar o mundo material e moral, astronômico e sonoro. Como a filosofia da natureza, assim a astronomia pitagórica representa um progresso sobre a jônica. De fato, os pitagóricos afirmaram a esfericidade da Terra e dos demais corpos celestes, bem como a rotação da Terra, explicando assim o dia e a noite;

não há qualidades. também uma pluralidade". foi preciso que também a Unidade tivesse vindo a ser. há também uma pluralidade. se se trata de sua qualidade. como tal. e as práticas ascéticas e abstinenciais. dominam no pitagorismo o conceito de harmonia. se o Uno existe. E tal é. por outro lado. Mas identificam esse limite com o fogo de Heráclito. pois. Portanto. Remetem-se. Mas estes são apenas. que não se deve confundir com o Sol. as superfícies e os corpos. pai de todas as coisas. a isso opõe-se o absolutamente Determinado. Mas esse presentimento estava ainda longe da aplicação exata. sutil. imóvel. feminino. problemas secundários. agitado. etc. 2) que tampouco tem limites. agitado. depois os números geométricos ou grandezas (formas espaciais). é uma especulação totalmente insólita. direita. ilimitado.). Como é possível uma pluralidade? Pelo fato de o não-ser ter um ser. feminino. cuja tarefa é. A harmonia das esferas. tratava-se sempre de elementos e de sua combinação. a possibilidade de uma investigação exata em física. pelo menos em certo sentido. que reaparece aqui pela última vez. dois a opinião. bom. delimitado e movido pelo fogo de Heráclito. A contribuição original dos pitagóricos é. o domínio da química e das ciências naturais. inicialmente. toda coisa nasce de dois fatores opostos. o Ápeiron de Anaximandro. quatro a justiça.] Se se pergunta a que se pode vincular a filosofia pitagórica. etc. na origem há a descoberta das analogias numéricas no universo. No mesmo sentido. Os matemáticos pitagóricos acreditavam na realidade das leis que haviam descoberto. só existe em nossos nervos e em nosso cérebro. com analogias fantasiosas. múltiplo. nesse caso. trevas. curvo. Nos outros sistemas de física. Portanto. Os eleatas dizem: "Não há não-ser. esquerda. nesse sentido. este é análogo ao ser potencial da hyle de Aristóteles. ilimitado. mas delimitações do ilimitado. estritamente. se se trata de sua quantidade. identificam o não-ser ao Ápeiron de Anaximandro. do qual se pode dizer que é impar. compõe-se somente das relações numéricas quanto ao ritmo. reto. o Péras. quente. cinco o casamento. a imagem. que fazia nascer todas as coisas de uma dualidade. não quantidades de elementos (água. agora. e a pluralidade do ser. De outro lado. a Anaximandro. e a delimitação. enfim. contra o eleatismo. Nossa ciência é. dissolver o indeterminado em tantas relações numéricas determinadas. portanto: delimitado. E acreditavam discernir a essência verdadeira das coisas em suas relações numéricas.e afirmaram também a revolução dos corpos celestes em torno de um foco central. enfim. portanto a diversidade. os números quadrados. bastava-lhes que fosse afirmada a existência da Unidade para deduzir dela também a pluralidade. 5): delimitado. inqualificado e qualificado. par. [Teoria das cordas sonoras. o número é a essência própria das coisas. masculino. do qual a música é. ímpar. I. Na química. fora de nós ou em si mesma (no sentido de Locke). direita. em todo caso. para a qual Ecphantus na Antiguidade passa por ter aberto o caminho. o não-ser é noite e. da unidade procede a série dos números aritméticos (monádicos). reto. encontra-se. denso. depois. De um lado têm-se. curvo. ablongo. três a superfície. há também uma pluralidade. À primeira vista. com relação à metempsicose e à reincarnação das almas. ablongo. Mas ambos compõem o Uno. esquerda. O ponto de partida que permite afirmar que tudo o que é qualitativo é quantitativo encontra-se na acústica. É um procedimento análogo: ataca-se o conceito da Unidade existente porque comporta os predicados contraditórios e é. davam nascimento a uma série limitada de números. àquilo que não tem nenhuma qualidade. uma invenção extremamente importante: a significação do número e. ao absolutamente Indeterminado. evidentemente. os gnómones. dois é a linha. que não está em parte nenhuma. modo dórico. e as partes múltiplas. Mas. retomaram então a idéia heraclitiana do pólemos. Assim. dualismo. Isso lembra o quadro-modelo de Parmênides. Identificaram essas noções com termos filosóficos já usuais. masculino. Desde que se têm o ponto. A música. mau. é preciso partir do eleatismo. conforme se considere o elemento harmônico ou o elemento rítmico. que. é o melhor exemplo do que queriam dizer os pitagóricos. Simbolizava a gênese de todas as coisas a partir da oitava. não há nada além de quantidades. dez a perfeição. quadrado. uno. Cosmogonia. Parmênides chamava Aphrodite. e o número. frio. etc. relação de intervalos. Os pitagóricos: "A própria unidade é o resultado de um ser e de um não-ser. o Ser e a Unidade dão a Unidade existente. ativo. bom. Nela. a essa força. pois. é essencialmente uma força calculadora. Trata-se de encontrar fórmulas matemáticas para as forças absolutamente impenetráveis. o primeiro sistema de Parmênides. pois. quadrado. mau. Se houvessem tomado emprestado de Heráclito a palavra lógos. etc. Contentou-se. Dizem. portanto. tiveram de erigir a noção de número. isso porque os ímpares.] A música. portanto. Chamar o Ápeiron de Par é sua grande inovação. e quanto à tonalidade. provisoriamente. 3) portanto. portanto. logo. [Simbolismo dos números pitagóricos: um é a razão. portanto. múltiplo. do Ápeiron. é dito da Unidade (supondo que não existe pluralidade): 1) que ela não tem partes e não é um todo. logicamente conexo com a filosofia pitagórica. impossível. Pelo que diz respeito à moral. delimitado e ilimitado. 4) que não pode nem mover-se nem estar em repouso. passivo. aqui. a linha. portanto há. um é o ponto. As qualidades nasciam por combinação ou por dissociação. tudo é uma unidade". portanto. O ser é luz e.. pitagórica. a Unidade veio a ser. Para defender essa idéia contra a doutrina unitária dos eleatas. Lembramo-nos da dialética de Parmênides. Para compreendermos seus princípios fundamentais. De novo. e da Harmonia que une as qualidades opostas. par. exclusivamente com o auxílio de números. afirma-se que as qualidades residem na diversidade das proporções. luz. foi em todo caso formado por dois princípios. portanto. um conceito contraditório. Decompuseram os dois elementos de que nasce o número em par e ímpar. temos uma mistura de atomismo e de pitagorismo. O Universo e os planetas esféricos. luz. ponto de vista inteiramente novo. assim. Notável quadro estabelecido por Aristóteles (Metaf. trevas. fogo. quatro o volume. O ponto de partida me parece ser a apologia da ciência matemática contra o eleatismo. con efeito. imóvel. Portanto. teriam entendido por ela a proporção (aquilo que fixa as . ímpar. uno. não-ser e. agora. poder-se-ia exprimir o ser do universo. têm-se também os objetos materiais.

Consta que Pitágoras. . houve com certeza alguém que construiu essa doutrina. também. Acontece com Pitágoras o que aconteceu com Shakespeare. porque há. porém. levado o filho à Pítia de Delfos. natural de Tiro. Afirma-se. Foi depois discípulo de Sonchi. e ouvinte das conferências de Anaximandro. que Pitágoras nasceu em Samos. também. o que fez o sábio exilar-se na Magna Grécia (Itália). mas provocaram. posteriormente. e se essa seita foi tão combatida. um sacerdote egípcio. Em 1917. ou Pythaia. Isso lembra a palavra de Leibniz. a inimizade de Policrates.600 anos vem. ou seja.C. já em tempos de César. Relata a lenda que Pitágoras. sem dúvida. há 2. naquele mesmo século em que surgiram tantos grandes condutores de povos e criadores de religiões. tomando um rumo que permaneceu ignorado. inúmeras viagens e peregrinações. e freqüentou as aulas ministradas por famosos mestres de então. Inúmeras são as divergências sobre a verdadeira nacionalidade de Pitágoras. cuja existência foi tantas vezes negada. foi finalmente destruído. que se julgou a princípio fosse a porta de uma capela cristã subterrânea.proporções. combatido pelos democratas de então. proliferavam os templos pitagóricos. essa ordem. Observa-se. que este realizou. enquanto outros afirmam que conseguiu fugir. tendo voltado para Samos já com a idade de 56 anos. Sua idéia fundamental é esta: a matéria. afirma-se. Tendo esta. que. Antes de sua localização na Magna Grécia. vamos a seguir relatar algo. onde se reuniam os membros de uma seita misteriosa. Posteriormente verificou-se que se tratava de uma construção realizada nos tempos de Cláudio. que conheceu o pensamento das antigas religiões do Oriente. Notas Biográficas sobre Pitágoras A doutrina e a vida de Pitágoras. ao nosso ver. ao dizer que a música é "exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi" (¹). chamava-se Pitágoras. que realizou um retiro no Monte Carmelo e na Caldéia. que antes. certa vez. Dentre as religiões de mistérios. pondo de lado esses escrúpulos ingênuos de certos autores. influindo no pensamento Ocidentel. relata-se que esteve em contato com os órficos. então tirano de Samos. Zoroastro (Zaratustra). onde. deve-se mais ao fato de ser secreta do que propriamente por suas idéias. a lenda que o hierofante Adonai aconselhou-o a ir ao Egito. como já esteve no passado. que desde criança se revelava prodigioso. outros. de caráter iniciático. conhecido Zaratos. contando-nos a lenda que. como se houvesse maior validez na negação da sua historicidade do que na sua afirmação. Mas. em seu incêndio. a historicidade de Pitágoras (como alguns o fazem). ainda. tendo sido daí conduzido para a Babilônia. quando foi feito prisioneiro pelas tropas de Cambísis. não impede que seja o pitagorismo uma realidade empolgante na história da filosofia. sob os trilhos da estrada de ferro. irremediavelmente infectada de idéias estranhas que. entre 592 a 570 antes da nossa era. em sua juventude. desde os tempos da antiguidade. Os pitagóricos teriam podido dizer o mesmo do universo. fundou o seu famoso Instituto. em torno dessa lenda. O fato de negar-se. ainda. que se realizaram sobre a doutrina de Pitágoras. quando de sua estada nessa grande metrópole da antiguidade. recomendado ao faraó Amom. (¹) O exercício de aritmética oculto do espírito que não sabe calcular. Tal é a resposta dada ao problema de Anaximandro. já em decadência. cujo nome significa o Anunciador pítico (Pythios). peremptoriamente. perto de Porta Maggiori. porque aí é que funda o seu famoso Instituto. pois uns afirmam ter sido ele de origem egípcia. teve como primeiros mestres a Hermodamas de Samos até os 18 anos.. foi iniciado nos mistérios egípcios. mebora esteja. no Peloponeso. segundo uns. averigou-se ser pitagórica. esta sacerdotiza vaticinou-lhe um grande papel. Se não existiu Pitágoras de Samos. A força mística do grande filósofo e reformador religioso. era filho de Menesarco e de Partêmis. Não consideramos apenas lenda o que se escreveu sobre essa vida maravilhosa. nessas descrições. onde. por não se ter às mãos documentação bastante. hoje cara aos pitagóricos. afinal. depois Ferécides de Siros. que liga Roma a Nápoles. tendo sido. desvirtuam o pensamento genuíno de Pitágoras de Samos. os quais tendem a mostrar o grande papel que exerceu na história. muito de histórico do que é fruto da imaginação e da cooperação ficcional dos que se dedicaram a descrever a vida do famoso filósofo de Samos. o assírio Zaratustra ou Zoroastro. aluno de Tales. Podemos assim parafrasear o que foi dito quanto a Shakespeare. que preferem declará-lo como não existente. junto com os seus mais amados discípulos. Conta-nos. que ainda existe e tem seus seguidores. somente por relações numéricas adquire tal ou tal qualidade determinada. Carcopino (La Brasilique pythagoricienne de la Porte Majeure) dá-nos um amplo relato desse templo. o qual. em Mileto. poderosamente. em Babilônia. Numa obra. que é representada inteiramente destituída de qualidade. Sabe-se hoje. em Crotona. o que levou a mãe a devotar-se com o máximo carinho à sua educação. em nossos dias. a doutrina pitagórica foi a que mais se difundiu na antiguidade. E foi inegavelmente essa descoberta tão importante que impulsionou novos estudos. em todas as fontes que nos relatam a vida de Pitágoras. nos santuários de Mênfis. Confúcio e Lao Tsé. O vir-a-ser é um cálculo. tendo então conhecido a famosa sacerdotiza Teocléia de Delfos. como foi Gautama Buda. por volta de 41 a 54 d. jaz envolta num véu de mistério. com base histórica. pereceu Pitágoras. e que. mas sem poder dizer quem faz o cálculo. cuja influência atravessa os séculos até nossos dias. tendo. É aceito quase sem divergência por todos que se debruçaram a estudar a sua vida. ademais. sinteticamente. como o Péras fixa o limite). por casualidade. e que nada mais era do que um templo. Suas lições atraíram-lhe muitos discípulos. síria ou. foi descoberta uma cripta. durante vinte e cinco séculos. Mas é na Itália que desempenha um papel extraordinário. Dióspolis e Heliópolis. Foi em sua viagem a essa metrópole da Antiguidade.

sobretudo. De acordo com essa concepção.o Número A partir do próprio Pitágoras. o pitagorismo pressupunha uma identidade fundamental. que. "Todas as coisas são números". na segunda metade do século VI a. teria sido antes de mais nada um reformador religioso. em substituição às representações literais mais arcaicas. são essências realizadas (usando-se um vocabulário filosófico posterior). em algumas regiões do mundo grego. A representação figurada permitia explicitar a lei de composição dos números e torna-se um fator de avanço das investigações matemáticas dos pitagóricos.que se supunha descendente dos deuses protetores das polis. são entidades corpóreas constituídas por unidades contíguas e a prenunciar os átomos de Leucipo e Demócrito. a fim de efetivar sua purificação. quando os pitagóricos falam que as coisas imitam os números estariam entendendo essa imitação (mimesis) num sentido realista: as coisas manifestariam externamente a estrutura numérica inerente. Pitágoras teria chegado à concepção de que todas as coisas são números através inclusive de uma observação no campo musical: verificou no monocórdio que o som produzido varia de acordo com a extensão da corda sonora. "O que fala. Pitágoras deve ter falecido entre 510 e 480. originário da Trácia. "Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem". o pitagorismo primitivo concebe a extensão como descontínua: constituída por unidades indivisíveis e separadas por um "intervalo". deus libertador que completava a libertação preparada pelas práticas catárticas (entre as quais se incluia a abstinência de certos alimentos). recolhe".que descreve o cenário cósmico. porque basicamente intelectual.o mal seja entendido sempre como desarmonia. de acordo com ela. A religião órfica pressupunha. já que ela foi objeto de uma série de relatos tardios e fantasiosos. Essa similitude profunda entre os vários existentes era sentida pelo homem sob a forma de um "acordo com a natureza". a retornar à sua pátria celeste. meros símbolos a exprimir o valor das grandezas: para os pitagóricos. depois do pitagórico Filolau. pois realizou uma modificação fundamental na doutrina órfica. de caráter iniciático.C. ou seja. depois da derrota da liga crotoniata. para garantir seu papel de líderes populares e para enfraquecer a antiga aristocracia . Natural que dentro de tal concepção . às estrelas. que descobre a estrutura numérica das coisas e torna. porém. A sociedade pitagórica continuou após a sua morte. descobriu que há uma dependência do som em relação à extensão. mas não a carregues". transferindo-se para Crotona (na Magna Grécia) fundou uma confraria científico-religiosa.vista por alguns autores como o fundamento do "mito helênico" . onde se processa a purificação da alma . será qualificada como uma "harmonia". os tiranos favoreciam a expansão de cultos populares ou estrangeiros. Pitágoras criou um sistema global de doutrinas. entre todos os seres. Segundo a cosmologia pitagórica . usadas pelos gregos e depois pelos romanos. das divindades "oficiais" -.era uma religião essencialmente esotérica. as regras da vida individual e do governo das cidades. (Pitágoras) Salvação pela Matemática Pitágoras de Samos. (Pitágoras) Em Todas as Coisas. cuja finalidade era descobrir a harmonia que preside à constituição do cosmo e traçar. "Ajuda teus semelhantes a levantar sua carga. de onde caíra. fugindo à tirania de Polícrates. em lugar do deus Dioniso colocou a matemática. transformando o sentido da "via de salvação". assim. garantida pela presença do divino em tudo. uma teve enorme difusão: o culto de Dioniso. (Pitágoras) A Pátria Estelar Dentre as religiões de mistério. A grande novidade introduzida certamente pelo próprio Pitágoras na religiosidade órfica foi a tranformação do processo de libertação da alma num esforço puramente humano.como virão a ser mais tarde -. Estes não seriam.esse "intervalo" resultaria da respiração do universo que. portanto . sustentada pela ordem e pela proporção. Os primeiros números. em geral. Parece certo. verificou-se. (tão importante como propiciadora de vivências religiosas estáticas) em relação à matemática. os números são reais. e que passou a constituir o núcleo da religião órfica. Para libertar-se. bastavam para justificar o que há de essencial no universo: o um é o ponto. que se tornou figura legendária na própria Antiguidade. inalaria o ar infinito (pneuma ápeiron) em que estaria imerso.de Orfeu.entre a alma ignea e imortal e os corpos pereciveis através dos quais ela realizava sua purificação. por sua própria natureza. Os historiadores mostram que um dos fatores concorreram para esse fenômeno foi a linha política adotada. e que se manifesta como beleza. o homem necessitaria da ajuda de Dioniso. como os referentes às suas viagens e a seus contatos com culturas orientais. que ele teria deixado Samos (na Jônia). contudo. na transmigração da alma através de vários corpos. os pitagóricos adotaram uma representação figurada dos números. pelos tiranos. da música.não só de natureza como também de valor . entendido como unidade harmônica. Assim. do ciclo das reincarnações. vivo. Mínimo de extensão e mínimo de corpo. A purificação resultaria do trabalho intelectual. semeia . Partindo de idéias órficas. (Pitágoras) O Pitagorismo Durante o século VI a. que primeiro teria recebido a revelação de certos mistérios e os teria confiado a iniciados sob a forma de poemas musicais . são a própria "alma das coisas". Da vida de Pitágoras quase nada pode ser afirmado com certeza. O orfismo . Ou seja. uma distinção . uma revivescência da vida religiosa.C. Os órficos acreditavam na imortalidade da alma e na metempsicose.Segundo as melhores fontes. mínimo de .o que escuta. tendo desaparecido quando do famoso massacre de Metaponto. A alma aspiraria. representados figurativamente. portanto. a alma semelhante ao cosmo. de natureza divina. as unidades comporiam os números.

principalmente os pitagóricos. permanentemente soante. nela seu puro pensamento torna-se o movimento do conceito em si mesmo. Zenão falou e voltou-se contra o movimento como tal ou puro movimento. pelo fato de (exceto sua viagem a Atenas) ter sua residência fixa em Eléia. descontínuo e divisível dos pitagóricos.o pensamento pitagórico evoluiu e expandiu-se. é o nada para ela. Pois até agora só vimos nos eleatas a proposição: "O nada não possui realidade. "Educai as crianças e não será preciso punir os homens". Diz-se que ele se postou como se quisesse dizer ainda algo aos ouvidos do tirano. quando se pressupunha que os valores correspondentes à hipotenusa e aos catetos eram números primos entre si. não é. Em sua vida não apenas era algo de muito respeito em seu Estado. (Pitágoras) Zenão de Eléia . e ao perguntar pelos inimigos do Estado. torturado e. aquelas esferas produziram. Ao contrário de Heráclito.ela aponta. Nasceu em Eléia (Itália). como V¯². Parmênides afirmou: "O universo é imutável. tendo. De modo violento e furioso de sua reação. ou ela não é nada".Vida. liquidá-lo e assim libertar-se. para lá colher fama. mordendo-lhe. Este o amava muito e o adotou como filho. em seu movimento. a quantidade e sua expressão espacial. Ele é o mestre da Escola Eleática. Defendeu o ser uno. O "escândalo" dos irracionais manifestava-se no próprio teorema de Pitágoras (o quadrado construído sobre a hipotenusa é igual a soma dos quadrados construídos sobre os catetos). desde que se atribuísse valor 1 ao cateto de um triângulo isósceles. as poderosas admoestações ou também as torturas horríveis e a morte de Zenão ergueram os cidadãos e levantaram-lhes o ânimo. Ou então. o três gera a superfície. chamando então o tirano mesmo a peste do Estado. A característica de Zenão é a dialética. Também Zenão era um eleata. unidade de extensão.Escreveu várias obras em prosa: Discussões. Seu pai verdadeiro chamava-se Teleutágoras. o que se evidenciava pelo aparecimento na tradução aritmética da relação entre elas. de valores sem possibilidade de determinação exaustiva. Sobre a Natureza. mas também em geral era célebre e muito respeitado como professor. Atribuiu-se-lhe orgulhosa auto-suficiência. mas somente é ser. Em Zenão. aquelas linhas não apresentavam "razão comum" ou "comum medida". esta sido traída. no entanto. influenciando praticamente todo o desenncolcimento da ciência e da filosofia gregas. surgem grandezas inexprimíveis naquela concepção de número. a hipotenusa seria igual a V¯². Nisto consistia o movimento determinado. Zenão erigiu-se em defensor de seu mestre. contínuo e indivisível de Parmênides contra o ser múltiplo. acabava-se por se concluir pelo absurdo de que um deles não era afinal nem par nem ímpar. é o mais jovem e viveu particularmente em convívio com Parmênides. Obras e Pensamento Zenão floresceu cerca de 464/461 a. dando leis à sua pátria. para arrancar-lhe a confissão dos nomes dos outros conjuradores. a orelha e . O principal impasse enfrentado por essa aritmo-geometria baseada em inteiros (já que as unidades seriam indivisíveis) foi o levantado pelo números irracionais. quanto na base mesma da matemática. faze aquilo que te parece justo". Essa geometrização do cosmo estava aliada. seria a própria tessitura do que o homem considera "silêncio". tranqüila em si mesma.e em grande parte por causa deles . Zenão. Platão o lembra: de Atenas e de outros lugares vinham homens a ele para entregar-se à sua formação. no pitagorismo. Tanto na relação entre certos valores musicais (expressos matematicamente). Quando o tirano. Zenão delatou primeiro todos os amigos do tirano como participantes da conjuração. ao mesmo tempo. por não revelar o nome dos comparsas. no 'não-ser é' se contradizem sujeito e predicado". Assim. também descobrimos tal afirmar e sobressumir daquilo que o contradiz. o fez torturar de todos os modos. é a razão que realiza o começo . a associar intimamente os aspectos numéricos e geométrico.é o iniciador da dialética. Explicação Crítica de Empédocles. Parmênides. . Contra os Físicos. pelo contrário.corpo. (Pitágoras) O Escândalo dos "Irracionais" A primitiva concepção pitagórica de número apresentava limitações que logo exigiriam dos próprios pitagóricos tentativas de reformulação. e aquilo que é surgir e desaparecer cai fora". Com efeito. a relação entre o lado e a diagonal do quadrado (que é a da hipotenusa do triângulo retângulo isósceles com o cateto) tornava-se "irracional". Apesar desses impasses . presos a esferas homocêntricas. . "Pensem o que quiserem de ti. porém. acabou preso. a fortaleza de sua alma tornou-se célebre pela sua morte. Tendo conspirado contra a tirania e o tirano (Nearco?). pleno para aquela mudança. Essa "harmonia das esferas". enquanto o quatro produz o volume. negando-se a viver por mais tempo na grande e poderosa Atenas. Ela teria salvo um Estado (não se sabe se sua pátria Eléia ou se Sicília) de seu tirano. diante de seu povo. o dois determina a linha. Já por sua própria notação figurativa evidencia-se que a primitiva matemática pitagórica constitui uma aritmo-geometria. começar com esta afirmação. pressupondo o universo harmonicamente constituído por astros que desenvolvem trajetórias. interveio na política. sacrificando da seguinte maneira sua vida: Teria participado de uma conjuração para derrubar o tirano. a alma pura da ciência . Dessa maneira.C. naquilo que é afirmado como sendo sua destruição. para caírem sobre o tirano. sons de acorde perfeito. às concepções musicais também desenvolvidas pela escola: separadas por intervalos equivalentes aos intervalos musicais.Considerado criador da dialética (entendida como argumentação combativa ou erística). pelo contrário. pois na mudança seria posto o não-ser daquilo que é. diz: "Afirmai vossa mudança: nela enquanto mudança. estreitamente vinculada à sua religião astral foi o ponto de partida das várias doutrinas que os gregos formulariam. contra as críticas dos adversários. Sua astronomia. perdeu a vida. Segundo muitas lendas. mas não o vemos.

pois o igual não é nem pior nem melhor que o igual . passo a passo. nem vai para coisa alguma. Ser e não-ser situam-se assim. um e esférico. só que nós deixamos valer como ser também o finito. o poder de Deus. "pois para ele nenhuma outra coisa advém. Ou também partimos das coisas finitas para as espécies. determinado como algo unilateral. então Ihe é próprio que seja um. na medida em que dele houvesse dois ou ainda mais." Com a aceitação da igualdade. não passa para o ser. se houvesse mais deuses". estes diferentes não são expressos como diferentes. espaço. assim. Como Deus é em toda parte igual. Nós dizemos que Deus é imutável. idêntico a si mesmo e esférico nem ilimitado nem limitado. de um lado temos. portanto. sem que sua unidade seja concebida como a de diferentes. como no modo como o infinito se manifesta no finito? Os eleatas distinguem-se. por exemplo. o negativo. É a mesma separação. em seu pensamento. pois não é aqui assim. surja" (ele relaciona isto com a divindade). pressupõe-se uma multiplicidade de tempo. pois. Ou passamos do finito para o infinito. mas assim já é. assim não é o ente. as coisas finitas e a mudança. ele cortou a língua com os próprios dentes e a cuspiu no rosto do tirano. Se. ele não teria poder sobre eles. pelo fato de terem posto mãos à obra de maneira especulativa ." Assim Zenão também mostra: "O um não se move. até o dia de hoje. como é apenas um. negando-se predicados. pois não se parece nem com o não-ente nem com o múltiplo. deuses. inversamente. nosso caminho é trivial e mais óbvio. e é assim. uma dialética que se pode denominar de raciocínio metafísico. que. ou se. segurando-o assim. mas enquanto Ihe faltasse o poder sobre os outros não seria Deus. as partes de Deus dominariam uma sobre a outra" (uma estaria onde a outra não está. mas em toda parte igual. pois. do ser. deve ter seu fundamento no infinito. assim como se pressupõe o ser. que repousaria sobre a proposição ex nihilo nihil fit. mas sem qualquer determinação. b) Movido. lado a lado. No que se refere às determinações deve-se observar que elas. "que. ele não é limitado. gêneros. enquanto algo negativo. porém. desaparece a diferença entre o que produz e aquilo que é produzido. uma parte teria determinações que faltariam às outras). depois disso teria sido triturado num pilão. 1) Segundo seu elemento tético. possui ele a forma esférica. Do nada é imediatamente nada. 0 ilimitado é o indeterminado. igualdade como igualdade pressupõe o movimento do pensamento e a mediação. ele nao é nem infinito (ilimitado) nem limitado. ao igual. e o gênero mais alto é então Deus. se houvesse diversos. pois um dever-se-ia mover para o outro. pois se do mais fraco se originasse o mais forte ou do menor o maior ou do pior o melhor. pois ele é eterno e um. Pois imóvel é a) o não-ente" (no não-ente não se realiza nenhum movimento. do ser. enquanto o ser supremo.o especulativo tem lugar no fato de afirmarem que a mudança não é . "Tampouco pode surgir o desigual do desigual. a imutabilidade nesta unidade abstrata e absoluta consigo mesma. válido. a) ilimitado é o não-ente. de argumentar é ainda. por conseguinte." Diz ainda: "Já que é eterno. como deve ela ser concebida. houvesse mais deuses. a supressão do ser. 0 princípio da identidade Ihe serve de fundamento: "O nada é igual ao nada. Em todas estas formas que nos são bem familiares está contida a mesma dificuldade da questão que se levanta no que diz respeito ao pensamento eleático: De onde vem a determinação. pois este não possui nem meio. não utilizamos a dialética que usa a Escola Eleática. Aristóteles conclui que." Movido só é o que é diferente de outro. Em Zenão a desigualdade é o outro membro em oposição a igualdade." Do fato de nada poder provir. da . diz ele. pelo contrário. Esta a maneira comum de nós raciocinarmos. Pois. o que é impossível. portanto. impossíveis. Já que os iguais devem ter entre si as mesmas determinações. Este modo. mas. o um da Escola Eleática é apenas esta abstração. é demonstrada a unidade de Deus: "Se Deus é o mais poderoso de tudo. Em Xenófanes e Parmênides tínhamos ser e nada. o imóvel é negativo.ou não se distingue dele. desta maneira. b) Dar-se-ia delimitação mútua. inteiramente igual à que vimos em Xenófanes e Parmênides. não está nem em repouso nem se movimenta. que os momentos e as oposições são expressos mais como conceitos e pensamentos. originar-se-ia o não-ser do ente. ele já está mais avançado no sobressumir das oposições e determinações. porém. do igual. ouve. em toda parte. "O um. quando algo é. devem ser mantidas afastadas do ser positivo e apenas real. Vemos. terem mostrado que. portanto. portanto.cerrando os dentes até ter sido trucidado pelos outros. nas assim chamadas demonstrações da unidade de Deus.e pelo fato de. ou nada existe fora de Deus. nem fim. é em toda parte igual. Em tudo isto. Já em seu elemento tético vemos progresso. nem uma parte tal coisa é o ilimitado. Se. Outros narram que ele teria ferrado os dentes em seu nariz. seria o nãoente. eles seriam mais poderosos e mais fracos um em face do outro. "É impossível". o pior viesse do melhor. vê e possui também. então só há um Deus. com a falta de movimento estaria posto o não-ser ou o vazio. apenas com esta diferença fundamental. os outros sentimentos. ele mesmo. que deixa o finito de lado. algo incompreensível: pois do um. o negativo de lado. portanto. a partir daí. Outros ainda dizem que. tanto no um mesmo. tendo suas respostas sido seguidas de enormes torturas. está afastada a determinação do negativo. a reflexão em si. dizendo que o finito. Deus se comporta assim. pois não se pode atribuir. nem em repouso nem em movimento. ser. porém. O ser. a filosofia de Zenão é. e deixamos. raciocinando-se. de nosso modo de refletir comum. de outro lado. o que os eleatas desprezaram. nem vice-versa. "o que é impossível. quer do igual quer do desigual." Isto foi denominado panteísmo (spinozismo). em tal tipo de raciocínio. "Sendo um. Em seguida. nem é imóvel. reprimi-la-ia. não seria capaz de tudo o que quisesse. a mudança apenas se atribui às coisas finitas (isto como que sendo uma proposição empírica). Ser é a igualdade expressa como imediata. Para ir a esta abstração fazemos um outro caminho. A isto vemos ligada uma outra espécie de raciocínio metafísico: são feitas pressuposições. Ambas as coisas são. nada pode provir". Deus é eterno. nem começo. o mais antigo. Deus é e se ele é de tal natureza. não fosse assim. em seu conteúdo. ou tudo é eterno. é o não-ente. este afundarse no abismo da identidade do entendimento. "pois teria que surgir ou do igual ou do desigual. por exemplo. é apenas afirmativamente. para lhe mostrar que dele nada arrancaria. em outra parte de outro modo. a mudança é em si contradição. que dele se produza mais do que deve ser produzido. não seriam. somente é o múltiplo. Como. pois faz parte da natureza de Deus não ter acima de si nada mais poderoso. enquanto limitado.

através da distinção que faço de que um lado é o verdadeiro. o vazio. o sistema que se opõe está errado. devendo então. baseando-se em razões exteriores. levar a guerra para território inimigo. Mas o mesmo deveria acontecer com o resto. leis. Conforme a representação corrente da ciência. Isto é a determinação mais exata da dialética objetiva. pelo contrário. em que proposições são resultado da demonstração. considera o objeto em si mesmo e o toma segundo as determinações que possui. na negação absoluta. como o nada. não ser negada apenas uma determinação. A consciência mais alta é a consciência sobre a nulidade do ser enquanto algo determinado em face do nada. ou o igual (como diz Melisso) é a essência. pois ele nega predicados que se opõem. é o nada do movimento. a multiplicidade está sobressumida. A esta dialética verdadeira pode juntar-se o que os eleatas fizeram. no que vimos. para esta proposição aquela sempre parecerá algo de estranho. mas ela deve ser considerada também de seu lado positivo. que tudo é um: mas que nos procura enganar com uma expressão. assim. A gente se põe inteiramente dentro da coisa.multiplicidade. Isto. onde encontram. Zenão põem como fundamento a proposição: Nada é nada. ela é posta através da negação. parte em Heráclito e. e.conseqüência que. Enquanto nós deixamos valer. eu declaro isto como imediatamente verdadeiro. para demonstrar que disto resultariam muito mais coisas discordantes que da proposição de Parmênides. Nesta consideração. porque previu que o ser é o oposto do nada. Do mesmo modo. também ela finita. portanto. também é determinação. avançando até a afirmação de que só o um é e de que o negativo não é . o negativo. isto é. a outra consciência tem razão em afirmar uma outra: coisa como imediatamente verdadeira. fortalecido. A outra dialética. Antes é negado o movimento e a essência absoluta aparece como em repouso. idéia. assim negou ele do um o que deveria dizer-se do nada. que se suprime (sobressume): esta dialética encontramos precipuamente junto aos antigos. Podem ser então razões bem exteriores. este movimento distinto do compreender deste movimento. mas o outro sistema tem o mesmo direito de dizer assim. razões. numa determinação. Sendo a essência absoluta posta como o um ou o ser. o movimento. mas apenas o ser para o outro é. Como movimento: Verifiquei algo e vejo que é o nulo. é a demonstração o movimento da convicção. ligação através de mediação. a essência do com-preender. 2) Já lembramos que também encontramos a verdadeira dialética objetiva igualmente em Zenão. Assim a coisa é facilitada: "O outro sistema não possui verdade. mas em si mesmo. Eu não devo demonstrar sua não-ver dade através de um outro. os eleatas foram mais conseqüentes. já há a consciência mais alta de que uma determinação é negada de que esta negação mesma é novamente uma determinação. não segundo circunstâncias exteriores. eles afirmam um dos predicados que se opõem. e então é puramente infinita. ou seja. em nossa representação. de tal modo que apresentaria falhas apenas de um lado. ao menos é quem está em seu começo. mas ambas as negações que se opõem. demonstrada para o puro conceito do conteúdo. e ao nada se atribuem os mesmos predicados que ao ser: o puro ser não é movimento. nos sofistas. antes contra aqueles que procuram tornar ridícula (komodeiñ) a proposição de Parmênides. não de maneira que se suprima a si mesma. Platão fá-lo falar assim sobre isto: faz Sócrates dizer que Zenão afirma em seu escrito o mesmo que Parmênides. não menos. Como sempre é o caso quando um sistema filosófico refuta o outro. a realidade do mundo finito. b) não é um movimento apenas de nossa intuição. mas a partir da coisa mesma. ou é negada enquanto finita. algo exterior. mas em si mesmo. sem pressuposições. isto é. também o ser em oposição ao não-ser é uma determinação. Parmênides. Mas. A dialética como tal é a) dialética exterior. ele se demonstra a si mesmo. ainda que deva ser por nós admirada. que contenha em si uma contradição. Nesta dialética não vemos afirmar-se o pensamento simples para si mesmo.o lado negativo da dialética. 0 um é igualmente o não dos muitos: tanto no nada como no um. isto é. Diz que combateu aqueles que afirmam o ser do múltiplo. Este lado possui a dialética na consciência de Zenão. Zenão possui o aspecto importante de ser o descobridor da dialética: se não é ele propriamente. que o múltiplo não é. No Parmênides de Platão (127-128). porém. . Zenão responde que escreveu isto. através dos quais se torna vacilante o que em geral vale como firme. Esta dialética mais alta encontramo-la em Platão. por exemplo. Aqui isto surge apenas referido a algumas determinações não com referência às determinações do um e do ser mesmo. esta dialética é muito bem descrita. que raciocina. é determinada como o negativo e. ser-em-si. o descobridor da dialética em sua plenitude. o outro sem importância (nulo) (parte-se de uma determinada proposição). através de minha afirmação. o afirmativo que nela se esconde ainda não aparece. mas. torna-se norma quando se concede: "No correto está o incorreto e no falso também o verdadeiro". isto é. A dialética verdadeira não deixa nada sobrando em seu objeto. com isto não permanece verdade alguma. 0 resultado desta dialética é zero. A dialética subjetiva. em seu Parmênides. 0 um é o mais poderoso e nisto determinado propriamente como o destruir absoluto. Mas uma outra consciência não verifica aquilo. mostra que possui determinações opostas. uma grande abstração Particularmente digno de nota é o fato de que. quando mostram quantas coisas ridículas e que contradições contra si mesmos resultam de suas afirmações. Eles põem-no fixamente. o nada não é. demonstrei isto. de neles apontar razões e aspectos. procurando dar a impressão de que está dizendo algo de novo. esta somente se suprime através de um outro. dever-ser. o primeiro sistema é posto como fundamento e a partir dele se entra em debate contra o outro. isto se dá. O falso não deve ser apresentado corno falso porque o oposto é verdadeiro. ficaram parados na idéia de que através da contradição o objeto se torna nulo. em Zenão. contudo. Xenófanes. a certeza da consciência individual e a certeza como refutação . é. sua nulidade não aparece nela mesma. Aquela dialética é uma mania de contemplar objetos. suprimem com isto essa determinação. conclui-se. segundo o pressuposto. Sócrates diz que Parmênides afirma em seu poema que tudo é um: Zenão. Portanto. pois o poder é também o não-ser absoluto de um outro. Isto pressentiu Zenão. o oposto. Mas junto a eles ainda não vingou a determinação. no movimento. então. Esta convicção racional vemos despertar em Zenão. como a essência. porque não concorda com o meu". porém. que ele é o nulo. assim. mas ele se dissolve segundo sua natureza inteira. é a consideração imanente do objeto: ele é tomado para si. De nada ajuda demonstrar meu sistema ou minha proposição e então concluir: portanto.

Mas estes dois estão postos numa unidade. o Cínico. O movimento que seria o percurso destes momentos infinitos nunca termina. 1) Primeira forma: Zenão diz que o movimento não tem verdade alguma. Mas a estória é continuada também assim: a um aluno que se contentara com esta refutação. de todo ser para si. o não-ente. também não é. que. a realidade do tempo e do espaço. sobressumir-se. de negatividade para continuidade. porque o movido deveria atingir primeiro a metade do espaço como sua meta. o momento no tempo contínuo seja posto ou que seja afirmado o agora do tempo como uma continuidade. não actu. um posto segundo sua essência. portanto. pois. Aristóteles diz isto de maneira tão breve por ter tratado antes amplamente o objeto e tê-lo exposto detidamente. assim o múltiplo é infinito. entretanto. O que se move deve atingir uma determinada meta. não poderiam ser divididos ao infinito . o puro aparecer em si mesmo é o objeto e surge como um pensado. Mas o caráter exaustivo que vemos no Parmênides de Platão não Ihe corresponde. que ele é fenômeno. a contradição. para passar para o infinito. no movimento. se não tem tamanho e grandeza. levantou-se em silêncio e caminhou de cá para lá . este espaço possui assim uma metade. pelo contrário. deve. mas põe o oposto nela . infinito é o negativo do múltiplo. Da mesma maneira a gente não deve satisfazer-se com a certeza sensível. mas o movimento é não verdadeiro. Que o movimento existe. mas presente no conceito . Pelo contrário. nada poderia acrescentar ao tamanho do outro. Neste sentido. enquanto limite indiferente. mas apenas divisíveis. Os aspectos mais exatos desta dialética nos conservou Aristóteles. é eliminação de toda diferença. o outro não seria por isso diminuído. É um inacabado ultrapassar. uma duração (dia. Pelo fato de espaço e tempo serem absolutamente contínuos. que não pode ser atingido. do mesmo modo. nem mais múltiplo. . Isto deve ser compreendido de maneira mais universal. o que é movido nunca atinge sua meta. se o professor havia discutido com argumentos. Na nossa representação não parece contraditório que o ponto no espaço ou. Zenão nem teve a idéia de negar o movimento. é posta. portanto. nunca se pode parar com a divisão. Zenão toca aqui na divisibilidade infinita do espaço. enquanto esta aparece. pois. segundo a grandeza" (tò mégethos). a continuidade é absoluta homogeneidade. mas é algo limitado. também devem estar efetivamente divididos infinitamente. A resposta geral e a solução de Aristóteles é que espaço e tempo não são divididos infinitamente. fora da representação que não pode atingi-lo. Até o infinito . estas devem ser percorridas e. ser afirmado um deles como o essencial. quando é o múltiplo. átomos. então é grande e pequeno: grande. É a continuidade de um espaço. de todo negativo. nem massa (ónkos). o movimento foi tratado particularmente por Zenão. e nele o limite que o divide ao meio.uma resposta geral para a representação. Com isto quer ele dizer que não se Ihe deveria atribuir verdadeiro ser. ele o dá a si. dynámei.ele as refutou pela ação. portanto. de maneira muito simples. o que é infinito não é mais grande.é novamente divisível em duas metades. é o positivo que é posto. este caminho é um todo. Mas o limite que divide ao meio não é limite absoluto ou em si e para si. de maneira objetiva e dialética. a saber. no processo. Aristóteles afirma que Zenão teria negado o movimento pelo fato de possuir contradição interna. é pressuposta a continuidade do espaço. não se conseguiu ainda passar além dela e a questão fica esquecida no indeterminado. mas com isto novamente não é posto o limite da continuidade. enquanto são divisíveis (potentia. mas seu conceito contradiz-se a si mesmo. "Aqui mostra ele que o que não tem tamanho. Vemos desaparecer para a consciência de Zenão o simples pensamento imóvel para tornar-se ele mesmo movimento pensante. ano). o oposto é também posto para a representação. o puro ser para si. um determinado . também é posto já o fenômeno da contradição.limite que divide ao meio. ter atingido antes a metade desta metade. assim o que foi acrescentado não é nada.um passar além de uma determinação oposta para outra. mas é preciso compreender. energeía). o que é movido deve antes ter percorrido a metade. "Ele demonstra que. portanto. pois ele é contradição. de outro modo. Para percorrer o todo. nada". portanto.uma consciência dele. o absoluto distinguir-se e a supressão de toda igualdade e homogeneidade com outro.e cada tempo e espaço sempre tem uma grandeza . Pois se fosse acrescentado a um outro não aumentaria a este. Mas esta metade é novamente um todo. isto nem está em questão. Cada grandeza . na medida em que combate o movimento sensível. sua dialética mesma em si. o movimento possui certeza sensível.nenhum espaço limitado. e o movimento é: tornar-se outro. A igualdade consigo mesmo. nem espessura. ou Zenão afirma o avanço neste limitar. O mesmo aconteceria ao ser retirado. A coisa tem. É para esta contradição que Zenão chama a atenção. Primeiro Zenão põe o progresso contínuo de maneira tal que não se atinge nada igual a si. de maneira que não tem mais grandeza". Destes dois momentos pode. Diógenes o castigou pela simples razão de que. ele só poderia deixar valer uma refutação também com argumentos. a metade ainda é continuidade e assim até o infinito. deve-se ultrapassar a multiplicidade. continuidade. Mas não se deve entender isto assim como se o movimento não fosse . sempre surge este mesmo estado de coisas. seu questionar vai em busca de sua verdade. É conhecido como Diógenes de Sínope. como existem elefantes. enquanto se move. Zenão mostra então que a representação do movimento contém uma contradição e apresenta quatro modos de refutação do movimento. não há elefantes. O movimento. Vemos aqui desenvolvido o infinito aparecer. espaço e tempo. O fato de a dialética ter tido atraída sua atenção primeiro para o movimento é a razão de a dialética mesma ser este movimento ou o movimento mesmo ser a dialética de todo ente.como nós dizemos. pois. Agora a meta é o fim desta metade. O mais fácil é mostrá-la no movimento. "pequeno. e. refutou tais provas da contradição do movimento. (consideramos a forma dos momentos) em suas diferenças da pura igualdade consigo mesmo e da pura negatividade . é novamente continuidade. o ponto é. de continuidade para negatividade.do ponto contra a continuidade.A dialética da matéria de Zenão não foi até hoje ainda refutada. elas estão diante de nós. mesmo onde colocamos um espaço o menor possível.com isto nos representamos um além. Os argumentos repousam sobre a infinita divisão do espaço e do tempo. Pois o movimento e a essência. não há rinocerontes. não é. Mas esta continuidade também novamente nada é de absoluto. no espaço e no tempo. Parece. e assim até o infinito. primeiro em sua contradição .

Os antigos gostavam de vestir as dificuldades com representações sensíveis. são limitados. mas no mundo do espirito que se manifesta a verdadeira e objetiva diferença. enquanto realiza para si apenas uma parte. 0 pensamento produziu a queda original. b) é apenas posto como verdadeiro (como sendo) o que cada parte faz para si. Nesta representação são admitidos dois pontos de tempo e dois de espaço que estão separados entre si . pois o rápido. no mesmo tempo. um momento. Para determinar qual deles se move é preciso mais de dois lugares. quando o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal. partindo do mesmo ponto. movendo-se. porém. o movimento mais rápido nada ajuda ao segundo corpo para percorrer o espaço intermediário que o separa do outro. Mas o espaço (uma milha). também o mais vagaroso sempre tem à sua disposição. Aqui o tornar-se outro foi sobressumido. é o que acontece quando caminho dois pés para o leste e outro. um a partir do fim do estádio. na realidade unidos. pois pelo movimento de ir para frente e para trás há aqui coisas opostas que se suprimem. repousa. Mas uma coisa é correta: o movimento é absolutamente relativo. o mover-me é movimento com relação ao navio. De dois corpos que se movem numa direção. mas o limitar é. porém. isto é. No aqui agora como tais. Zenão apenas faz valer o limite. na distância de ambos. se admite que tempo e espaço são contínuos. No argumento agora em questão é retido o aspecto inverso. a interrupção da continuidade. Nos dois primeiros argumentos a continuidade no avançar é o que predomina: não existe limite absoluto. transgredir todos os limites. alcançará o vagaroso. ainda que tenha andado quatro pés. a divisão. na medida em que são dois também não dois . se. se Ihe for permitido ultrapassar o limite. o olho repousa ou se move. um ponto é tão bem um aqui como o outro. é falso. deixou atrás de si novo espaço que o segundo novamente deverá percorrer numa parte desta parte do tempo. e isto ele demonstra assim: o que segue necessita de uma determinada parte do tempo para "alcançar o lugar de onde partiu o que está em fuga"." A resposta é correta e contém tudo. no que se move e no que está em repouso.no mesmo ponto. com velocidade igual. Se num navio caminho na direção oposta da direção em que se move o navio. Isto acontece também na mecânica: pergunta-se qual se move de dois corpos. conforme uma proposição de Newton: se dois corpos giram. no espaço absoluto. em círculo. a coisa percorre uma mesma extensão em tempo igual. no começo desta determinada parte do tempo. dos quais um está na frente e outro o segue numa determinada distância. Zenão. Aristóteles. por isto surge a contradição. se não se concede isto. nulo. ele está aqui. "É algo não verdadeiro. que trata disto. porém. mais rapidamente que aquele.aqui ambos devem ser somados. ao menos três. igualmente. Desta maneira. O que gera a dificuldade sempre é o pensamento. A. não são distintos entre si. um em direção do outro. este já avançou para mais longe. o outro a partir do meio. não há diferença. um espaço maior ou menor. Newton quer decidir isto por uma circunstância exterior. No espaço. O erro da conclusão consiste no fato de admitir que. etc. vencido por A.portanto. e "com isto ele já sempre conseguiu uma vantagem". e assim ao infinito. diz: "O mais vagaroso nunca poderá ser alcançado nem mesmo pelo mais rápido". isto. será percorrido por B na metade de uma hora. mas repouso: o que sempre está no aqui e agora. com velocidade igual. Se. nenhuma passagem para outro. então B chegou numa hora onde A estava no começo da hora. um em torno do outro. contudo. não saí do ponto em que estava. Cada lugar é lugar diferente . o homem dos pés velozes. caminha dois pés para o oeste. B percorre numa hora duas milhas. ao contrário. de maneira tal que dois pontos do tempo ou dois pontos de espaço se relacionam entre si de maneira contínua. por exemplo. não se pode tirar a conclusão a que Zenão chegou. não consegue ultrapassar seu espaço. Aqui a distância de um corpo é a soma do afastar se de ambos. os fios estendidos (tensio filorum). contudo. 0 movimento é. o limitado. porém. a igualdade do aqui e afirmada aqui contra a opinião da diferença. Assim que dizemos que sempre é o mesmo. isto aqui e isto aqui e mais um outro. 4) "O quarto argumento" e tomado de corpos iguais que se movem no estádio ao lado de um igual. e. uma milha.são idênticos. Não é neste estado de coisas. ambos são positivos. Ou avancei e retrocedi dois pés . são limites um para o outro. assim estamos distantes um do outro quatro pés . Se estão separados entre si por duas milhas. katà tò íson). o momento da separação de espaço e tempo em sua total determinação. e aqui e aqui. surge a pergunta se um repousa ou se ambos se movem.2) "O segundo argumento" (que também é pressuposição da continuidade e posição da divisão) chama-se "argumento de Aquiles". e assim se vai até o infinito. e isto porque "o que se move sempre está no mesmo agora" e no aqui igual a si mesmo. o comum. A continuidade. a saber. contudo. então eles são. o ser limitado é posto como tal. mas apenas continuidade absoluta. não chamamos movimento. o absoluto ser-limitado. Sobre este terceiro argumento diz Aristóteles que ele se origina do fato de se aceitar que o tempo consiste de "agoras". 3) "O terceiro argumento" tem a forma que Zenão descreve assim: "A flecha em vôo repousa". Esta quarta forma diz respeito à contradição no movimento oposto. diz brevemente sobre o mesmo: "Este argumento representa a mesma divisão infinita'' ou o infinito ser dividido através do movimento. no "nãodistinguível" (en tõ nyn. a isto. sabemos que o segundo alcançará o primeiro. que deve ser atribuído inteiramente a cada parte.isto é. mas também ressarce este prejuízo. o tempo de que necessita. porque separa em sua distinção aqueles momentos de um objeto. . disto se deveria concluir que a metade do tempo é igual ao dobro. não conquista um outro espaço. o aqui é sempre o mesmo aqui. mas repouso com relação a outra coisa. Ou deve-se dizer da flecha que sempre está no mesmo espaço e no mesmo tempo. É uma dificuldade superar o pensamento e é somente ele que causa esta dificuldade. o mesmo. pois. Ou.. A oposição possui aqui uma outra forma: a) mas também novamente o universo. a diferença é apenas aparente. portanto. Durante o tempo em que o segundo atingiu o ponto onde o primeiro se achava. é inteiramente o mesmo. nem espaço limitado.

é uma enorme humildade do espírito não ter confiança no conhecimento. Nào é. pois este havia discernido o dualismo do movimento em Anaxágoras e recorrido à ação mágica. é definido como pleno. determinações da reflexão. Ele afirma: Voltando-se para o mundo. nada verdadeiro". porque é obra nossa. AN de NA pela ordem. nada vale. São chamadas também idéai ou skhémata. Segundo Kant. ele as tinha em sua consciência e nelas mostra o aspecto contraditório. a impermeabilidade. haveria um não-ser. não se pode fazer abstração delas. 2) a rarefação e a condensação só se explicam pelo espaço vazio. não haveria mais ser. Somente nossos sentidos nos mostram coisas qualitativamente diferentes. Este conteúdo também é nulo em Zenão. Mas se há movimento deve haver um espaço vazio. que indica diferença de grandeza e de peso. polido. odor. Todas as outras qualidades são secundárias. a proposição universal da escola eleática foi. o peso deve pertencer igualmente a todos. Mas. táxis). em Kant. seu grande poder de trabalho. pela ordem (diathigé. tão bons ou tão maus como os pardais. Isto é então a grande diferença. O que resta são os átomos. as honras que recebeu de seus concidadãos. rugoso. portanto. à mesma massa. mas. que o ser deve ser semelhante a si mesmo em todos os pontos. etc. voltando-se para ele. o que acrescentamos. . não haveria movimento. produzidas pela ação das qualidades primárias sobre os órgãos de nossos sentidos. Cresce quando Ihe são acrescentados novos átomos. é preciso que sejam de natureza idêntica. etc. poderia haver uma infinidade deles. Como todos os seres são da mesma natureza. a forma. Se o espaço é absolutamente pleno. pois. pois. thésis). portanto. a ruína material. o número. Percebe-se. Pode-se. o que é uma contradição. que Empédocles foi utilizado a fundo. Demócrito de Abdera De sua vida sabemos poucas coisas seguras. o que eqüivale a dizer que o não-ser é tão real quanto o ser. 4) em um vaso cheio de cinza pode-se ainda derramar tanta água quanta se ele estivesse vazio. tornou se universal. Em Kant é o elemento espiritual que arruína o mundo. Com efeito: 1) o movimento espacial só pode ter lugar no vazio. isto que pensa Kant. Se deve subsistir um pleno.enquanto seres sensíveis. som. todo o resto é não-verdadeiro". o que aparece em si que é não-verdadeiro. Z de N pela posição. Demócrito e Leucipo partem do eleatismo. remeter todas as qualidades a diferenças quantitativas. não haveria mais nenhuma grandeza. Anaxágoras reconhecia quatro elementos. Se toda grandeza fosse divisível ao infinito. Todas as qualidades são nómo. O ser é a unidade indivisível. Uma tradição tardia afirma que ele ria de tudo. O não ser é. Mas o ponto de partida de Demócrito é acreditar na realidade do movimento porque o pensamento é um movimento. portanto. dureza. moleza. peia posição (tropé. dos quais são apenas as impressões: cor. Na Bíblia diz Cristo: "Pois não sois melhores que os pardais?" Nós o somos enquanto pensamos . Demócrito adota uma posição adversa. O fogo é feito de átomos pequenos e redondos. os seres só diferem pela quantidade. só nossa aplicação. gosto. é nosso pensar. O elemento universal da dialética. Mas o movimento demonstra o ser. quando o pensamento se dirige para o mundo exterior (para o pensamento também o mundo dado no interior é algo exterior). Ele captou as determinações que contém nossa representação do espaço e tempo. isto é. portanto: "0 verdadeiro é apenas o um. é a atividade de nosso pensamento que atribui ao exterior tantas determinações: o sensível. Temos aqui a distinção que reaparece em Locke: as qualidades primárias pertencem às coisas em si mesmas. a atividade de nosso espírito o elemento mau . Demócrito esforçou-se por caracterizá-los a partir de seus átomos da mesma natureza. pesado. É preciso. se há separação no espaço. os elementos . com suas formas infinitamente diversas . o stereón. dotado de uma forma. pois o pleno não pode acolher em si nada que Ihe seja heterogêneo. A difere de N pela forma. é preciso que a divisão não possa ir ao infinito. As antinomias de Kant nada mais são do que aquilo que Zenão aqui já fizera.este lado não possui verdade em si mesmo". Uma coisa nasce quando se produz um certo agrupamento de átomos. também o pleno. o mundo é em si absolutamente verdadeiro. Se um átomo fosse o que o outro não é. nastón (de nasso. O peso pertence a cada corpo (como medida de todas as quantidades). com os sofistas. ou aperto). são: a extensão. O pleno é aquilo que não contém nenhum Kenón. portanto. O sentido da dialética de Zenão possui maior objetividade que esta dialética moderna. Elas só se distinguem pela forma (rhysmós. skhéma). Só nosso conhecimento é fenômeno. nos outros elementos estão misturados átomos diversos. fora de nossa representação. recorre-se à teoria das aporrhoaí. um ser. Viagens extraordinárias. . desaparece quando esse grupo se desfaz. A dialética de Zenão ainda se conteve nos limites da metafísica: mais tarde. mas muitas lendas. No todo é o mesmo princípio: "O conteúdo da consciência é apenas um fenômeno. Esse é seu ponto de ataque: o movimento existe porque eu penso e o pensamento tem realidade. se dois corpos pudessem ocupar o mesmo lugar no espaço. se esses seres devem agir uns sobre os outros pelo choque. 3) o crescimento só se explica porque o alimento penetra nos interstícios do corpo. O mundo torna-se não-verdadeiro pelo fato de Ihe jogarmos em cima uma massa de determinações. A principal diferença está na forma.Isto é então a dialética de Zenão. é o mundo. a cinza desaparece nos interstícios vazios da água. Se somente o não ser existisse. o mesmo peso. como a filosofia kantiana chegou ao resultado: "Conhecemos apenas fenômenos". Pois Zenão e os Eleatas afirmaram sua proposição com a seguinte significação: "O mundo sensível é em si mesmo apenas mundo fenomenal. O ser. Toda ação de uma coisa sobre outra se produz pelo choque dos átomos. não pode haver movimento. segundo Zenão. fazer abstração da natureza dos corpos na medida em que é apenas a ação dos nervos sobre os órgãos sensoriais. O ser não pertence mais a um ponto do que a outro. fazemos dele um fenômeno. os corpos são idênticos a esses predicados. sua solidão. tanto quanto o não-ser. pois o menor poderia acolher em si o maior. isto é. como Pitágoras. porém. Demócrito afirma. nosso acréscimo o arruína para nós. mas nisto também reside uma diferença. muda quando muda a situação ou a disposição desse grupo ou quando uma parte é substituida por outra.

Rosenkr. o de Demócrito é o mais lógico: pressupõe a mais estrita necessidade presente em toda parte. É disso que nos preserva a respiração. todo esse universo cheio de ordem e de exata finalidade. e eu vos farei um mundo' ". esta hipótese. isso seria equivalente ao repouso absoluto. Cada um desses conglomerados que se separam da massa dos corpos primitivos é um mundo. Teoria das percepções dos sentidos. eles se encontram. perpetuamente agitados. Nascimento dos seres animados. . Ele retorna ao primeiro sistema de Parmênides. o materialismo. opera-se por meio das aporrhoaí. De todos os sistemas antigos. o fogo interior escapa. produz-se um movimento giratório. Estes nasceram e perecerão. não procura logo de início. que nos traz constantemente de fora novos átomos de fogo e de alma para substituir os átomos desaparecidos e que prende no interior do corpo aqueles que quereriam escapar. como o espaço é infinito e a queda regular não há medida para essa velocidade. seu movimento. no começo. a terra e o ar podem nascer um do outro por dissociação. os outros permanecem juntos. a realidade do movimento. O pensamento é um movimento. com Empédocles. que o "acaso cego" reinaria entre os materialistas. O sono . não se pode indicar sua velocidade. a velocidade sendo desigual. A teoria dos poros e das aporrhoaí preparava a do kenón. o ar. uma queda regular e eterna no infinito do espaço. O contato não é imediato. Esta é uma maneira muito pouco filosófica de se exprimir. Naturalmente. Não contestarei então que a teoria de Lucrécio ou de seus predecessores.. efeitos que parecem os desígnios de uma sabedoria suprema.morte aparente. sob o efeito combinado de forças opostas. entre todos os átomos corporais se intercala um átomo de alma. provavelmente também sua dedução a partir da realidade do pensamento. sem muita imprudência: 'Dai-me a matéria. há infinitos mundos. mas um conjunto de leis rigorosas. Só então o pensamento se desprende de toda a concepção antropomórfica do mito. Ihe é comum com Anaxágoras e Empédocles. Pouco a pouco ela tomou uma posição fixa no centro do universo. Essas partículas de fogo estão espalhadas por todo o corpo. entrelaçando-se e formando uma espécie de conglomerado. vertical. Demócrito. Disso resulta a morte. Parece-me que se poderia dizer aqui. 48. . censurou-se desde a Antigüidade esse ponto de partida. Eis como Demócrito se representa a formação de um mundo dado: os átomos flutuam. alguns são repelidos. Do mesmo modo. p. o fogo. enfim. a massa entra em rotação. Não há acaso. Estas penetram no corpo pelos sentidos e espalham-se por todas as partes. como a hipótese do Nous ou as causas finais de Aristóteles. da espécie mais comum..distinguem-se apenas pela grandeza de suas partes. ultrapassar as forças mais simples. É por isso que a água. mas o ar que os leva é por sua vez levado em um rápido turbilhão. Duas condições . é que uma massa produzida pelo choque de átomos heterogêneos se separou. Toma emprestado de Heráclito a crença absoluta no movimento. primeiramente. História Natural do Céu. lisos e arredondados (de fogo). Assim a terra se solidifica. tem muita analogia com a minha. a idéia de que todo movimento pressupõe uma contradição e de que o conflito é o pai de todas as coisas. embora não racionais. Os átomos pesados caem e fazem subir os átomos leves com sua pressão. O que é preciso dizer é que há uma causalidade sem finalidade. Sinto o prazer de ver um todo bem ordenado nascer sem o auxílio de fábulas arbitrárias. Com Anaxágoras. pelo efeito de leis mecânicas bem conhecidas. Leucipo. e esse todo é tão semelhante ao universo que temos sob os olhos que não posso impedir-me de tomá-lo por ele mesmo. Se a respiração cessa. Isso não acontece em um instante. é antes de tudo de Parmênides que ele procede. O sol e a lua. Demócrito pensa. que somente o semelhante age sobre o semelhante. concursu quodam fortuito. O ponto de partida de Demócrito. os mais leves são repelidos para o vazio exterior. bem entendido. parte das qualidades reais da matéria. certas partes sendo atraídas para o centro pela rotação. a formar turbilhões na regularidade das combinações que se faziam e se desfaziam? Se tudo caía na mesma velocidade. A essência da alma reside em sua força animadora. aqueles que se elevam formam o céu. Demócrito deduz todo movimento do espaço vazio e do peso.. neste eles secam pouco a pouco e se inflamam pela rapidez do movimento (astros). em um estágio antigo de sua formação. pelo choque. em certo sentido. movia-se de um lado para outro. Alguns formam massas espessas. as partículas do corpo terrestre são pouco a pouco arrancadas pelos ventos e pelos astros e se acumulam em água nos ocos. Quando os átomos em equilíbrio são tão numerosos que não podem mais se mover. quando ela era ainda pequena e leve. dizendo que o mundo teria sido movido e teria nascido por "acaso". Os átomos centrais formam a terra. não há nem interrupção brusca nem intervenção estranha no curso natural das coisas. é esta que move os seres animados. Como os átomos vieram a operar movimentos laterais. tem em comum os ápeira ou matérias originais. ser feita da matéria mais móvel. foram apanhados pelas massas que se moviam em torno do núcleo terrestre e desse modo viram-se atraídos para nosso sistema sideral. as partes mais leves são empurradas para o alto. pois. uma hipótese cientificamente utilizável. É a concepção mais terra-a-terra. Epicuro. Estes se movem perpetuamente. como se fossem expulsos. de átomos sutis. pois. A matéria que se move segundo as Ieis mais gerais produz. com o auxílio de um mecanismo cego. os elementos repelidos para fora depositam-se no exterior como uma película. segundo o qual o mundo se compunha de ser e de não-ser. é este que domina todas as suas concepções fundamentais. A alma deve. Esse turbilhão aproxima. sempre foi da maior utilidade. Vejo as substâncias se formarem em virtude de leis conhecidas de atração e modificarem. O movimento original é. disso nasce a representação das coisas. o que é de mesma natureza. Esse invólucro vai-se tornando cada vez mais fino. tem-se. pode ocorrer que a vida seja restaurada depois da desaparição de uma parte da alma. anánke sem intenções. Leia-se Kant. Cada vez que nasce um mundo.. no espaço infinito.: ''Admito que a matéria de todo o universo está em um estado de dispersão geral e faço dele um perfeito caos. Por causa de sua sutileza e de sua mobilidade arriscam-se a serem arrancados do corpo pelo ar circundante. É um grande pensamento reconduzir às manifestações inumeráveis de uma força única.

. Inquietações conjugais: adoção de filhos. Vauvenargues diz com razão que os grandes pensamentos vêm do coração. o que imputou ao pai de todas as tendências racionais uma reputação de grande mágico. lembram Aristóteles e sua metropathía. ele não perde o senso da poesia. É aqui que começam as verdadeiras dificuldades do materialismo. .. mesmo depois que se descobriu o prõton pseudos. que considera como profetas da verdade (isso Ihe parece um fato natural). Uma plena virilidade do pensamento e da investigação aparece cm Demócrito. ele foi. Não acreditamos nos contos. Uma seqüência infinita de anos. Assim. resultado do estudo cientifico. Aitíai. Pitágoras. Se este é o inventor da idéia principal. percebemos as coisas por meio das partes de nosso ser que Ihes são análogas. agora. de uma completa clareza. e sem dúvida um século anticósmico devia considerar os escritos de Demócrito. A tradição não prova nada. O cristianismo nascente. por um lado. não passa de um dado extremamente mediato. é raro que um escritor considerável tenha tido de sofrer tantos ataques devidos o razões diversas. Características do Pensamento de Demócrito Gosto pela ciência. é por não conhecer a natureza. Sobre a questão da criação do mundo. de repente. Arrojo poético (poesia do atomismo). Se o movimento a aquece ou a esfria excessivamente. Paz de espírito. podemos entretanto atribuir também a Demócrito uma grande diversidade de concepções. para cuja produção cooperamos sempre. O absurdo consiste em partir do dado objetivo. Não são indignos de Demócrito. seu juízo sobre os poetas. É uma prodigiosa petição de princípios. A ética de Demócrito é conservadora. simplesmente para reparar os erros do passado para com ele. sob sua marca. o materialismo é uma hipótese preciosa e de uma verdade relativa. . aqui e ali. e a terra acaba por ser o que é. mas. todo dado objetivo é determinado de várias maneiras pelo sujeito pensante e desaparece totalmente quando se faz abstração do sujeito. Clareza. percebe exatamente os objetos. Viagens. logrou executar o enérgico desígnio de Platão. um tom desenvolto de homem do mundo e uma bela forma.são necessárias: uma certa força da impressão e a afinidade do órgão que a recebe. . e todos os seus resultados permanecem verdadeiros para nós. Juntase a isso a obscuridade em que nos encontramos a respeito de Leucipo. a representação. É na moral que está a chave da física de Demócrito. é uma representação cômoda nas ciências naturais. A percepção é idêntica ao pensamento. igualmente. graças às quais se apresenta como extenso no espaço e agente no tempo. Assim o Sistema da Natureza começa nestes termos: "O homem é infeliz porque não conhece a natureza". que passou pelo mecanismo do cérebro e acomodou-se às formas do tempo. Uma e outro são modificações mecânicas da matéria da alma. se não no absoluto. Enfim. se a alma é levada por esse movimento à temperatura conveniente. Inquietações morais: ascetismo. deduzir o único dado imediato. a cada mil anos uma pedrinha é juntada às outras. porque ele próprio começa a sentir seu prõton pseudos. assim como os de Epicuro. as representações são falsas e o pensamento é malsão. introduzindo. Sentir-se liberto de todo Incognoscível. "Contenta-te com o mundo tal como é". Sentimento de um progresso poderoso. enfim. Trata-se do mundo que é o nosso. suspendia sua montaria apertando-a entre as pernas e se suspendia a si mesmo por meio de sua peruca. o pensamento é sadio. Tudo o que é objetivo. enquanto. Inquietações míticas: racionalismo. Fé absoluta em seu sistema. Mais tarde. extenso. se o homem é infeliz. comparou-se o materialismo ao Barão de Crac (sic). Demócrito é perfeitamente claro. Inquietações políticas: quietismo. Anotações sobre Demócrito Deveríamos a Demócrito muitos sacrifícios fúnebres. como a encarnação do paganismo. O materialismo é o elemento conservador na ciência como na vida. Aversão ao bizarro. Todos esses ataques se desenrolam em um terreno que não podemos mais defender. Por outro lado. É um problema psicológico saber se foi ele que os escreveu. Não recendem a estoicismo nem a platonismo. agente. que. Simplicidade do método. É o que prova sua própria descrição. do espaço e da causalidade. que puxava para cima. o contrabando de seus escritos de magia e de alquimia. é o cânon moral que o materialismo produziu. Todos os materialistas pensam que. mas sentimos sua força poética. Com efeito. os obscurantistas da Antigüidade se vingaram dele. tudo aquilo que o materialismo considera como seu fundamento mais solido. que o veneno já estava por demais alastrado. O Mal excluído de seu sistema. um concreto extremamente relativo. quando atravessava o rio a cavalo. Teólogos e metafísicos acumularam sobre seu nome suas acusações inveteradas contra o materialismo. potanto material. o último elo aparece como o ponto de partida de que já dependia o primeiro elo da corrente. Os fragmentos de Moral (= Estudos Éticos) têm. na verdade. Entretanto. O divino Platão chegou mesmo a considerar seus escritos tão perigosos que pretendia destruí-los em um auto-de-fé privado e só foi impedido disso por considerar que já era tarde demais. foi reservado à nossa época negar também a grandeza filosófica do homem e atribuir-lhe um temperamento de sofista. Somente o semelhante sente o semelhante. É de um tal dado que o materialismo quer. Sobre o problema da origem do mundo.

pois que as poucas passagens no Timeu e alhures. levantadas pelo seu concidadão Protágoras e outros. sem dúvida. por outro lado. quase morrera de fome. ele era jovem. Se Demócrito morreu. da mesma forma que ele. contudo. Ele se desempenha com excessiva rapidez dos encargos de construir o mundo e a moral. Queria sentir-se no mundo como em um quarto claro. pois. Demais. detestavam qualquer tipo de estudo. pois era também jônio do Norte. outros aspectos do seu sistema. bem como. foi possível para Trasilo. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. Isto deve-se ao fato de ele ter escrito em Abdera. Racionalista encarnado. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. Parece. cedo demais. entretanto. Demócrito foi discípulo de Leucipo. defrontou-se com as dificuldades referentes ao conhecimento. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. deu grande atenção ao problema do comportamento. e as suas obras na realidade nunca foram bem conhecidas em Atenas. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. o espetáculo dos sacrifícios. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. Fez menção a Anaxágoras. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. Quanto à data do seu nascimento. temos apenas conjeturas para nos orientar. Para nos. sabemos menos a seu respeito do que de Sócrates. um racionalista confiante. crê na capacidade liberadora de seu sistema e elimina dele tudo aquilo que é mau e imperfeito.. uma abundância infinita de pontos de vista diversos. como Sócrates.– É a meta de sua filosofia. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. Apolodoro de Quizico. não sabemos. Não é certo que Platão haja conhecido alguma coisa sobre Demócrito. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. até o dia em que seus parentes tomam as dores do morto e em que se elevam monumentos em honra daquele que. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. de fato. na biblioteca da Academia. como se diz. conhece bem Demócrito. Ele se atrela a este. É que sua vontade é a mola de sua investigação. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. deve igualmente ser incluído entre os melancólicos. Um membro posterior da escola.. Sente-se impelido a correr o mundo. quando. não obstante. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. Aristóteles. no qual parece que o reproduz. ao qual também os sofistas deram impulsos. a viver das esmolas de seu irmão. Se disse isto. porém. e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. Em uma das principais obras. seu contemporâneo. Diz-se ter visitado o Egito. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. isto ocorrera. o que quer é terminá-la e atingir o conhecimento último. Retorna pobre e sem recursos. Os problemas mais profundos Ihe permanecem ocultos. conservou. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. e sem dúvida alguma na Jonia. organizada em tetralogias. Sua cidade natal o toma por um pródigo. Sabemos. através dos scus fragmentos. onde teriam tido a possibilidade de serem preservadas. ele era um autor volumoso. era natural de Abdera na Trácia. acomodava à sua maneira os deuses. pois deixavam subsistir um elemento irracional. quando Anaxágoras era velho. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão . a de Glauco de Régio. esse Humboldt do mundo antigo. como aquelas de Anaxágoras e outrem. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. Demócrito. outrossim. Os sistemas anteriores não Ihe davam isso. É. é como se não tivesse escrito quase nada. de seus raros predecessores. Demócrito e suas Teorias Demócrito fez uma tentativa bem independente de reconstrução. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. segundo a suposição dele. fazer uma edição das obras de Demócrito. pai do racionalismo. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. e obscurece o fato de que. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. e condenou sem indulgência a intrusão de um mundo mítico. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. Eis por que ele procurou remeter tudo àquilo que é mais fácil de compreender. e é isso que Ihe dá sua segurança e sua confiança em si. Como Protágoras. e temos uma prova contemporânea. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. e. reduzido. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. aquilo que lhe parecia inteligível e simples. desprezado em vida. Ao contrário de Sócrates. Recusam-lhe uma sepultura honrada. A meta é o otium litteratum: "ter a paz" Demócrito. sob o reinado de Tibério. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". a Anaxágoras. e nós ainda podemos constatar. que era um dos maiores escritores da Antigüidade. ao passar em revista os sistemas anteriores. que geralmente fora atribuída em Atenas. são facilmente explicadas pelas influências pitagóricas que afetaram a ambos.. Por isso.C. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. Ainda não havia notado. É certo. com a idade de noventa ou cem anos. a queda e o choque. Como Sócrates.aquilo que Ihe era homogêneo. como um mendigo. Disse também algures que. o que parece muito provável. porém. Os epicuristas. que também os pitagóricos foram seus mestres. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. etc.

Chegou. como eles. Não podemos conhecer a realidade deste modo. portanto. bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. porém. e é bastante idêntico a Leucipo que disse algo de parecido. há os átomos e o vazio. Não é. Parmênides afirmara claramente que o paladar. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. considerado como o sentido pelo qual sentimos o calor e o frio. o paladar e o tato. por convenção há a cor". ao ouvido junto com aquelas porções do ar que se Ihe assemelham. isto não seria assim. então é possível que este fragmento também seja apócrifo. Seja como for. "Há". contudo. as nossas sensações não representam nada de externo. a audição. que asseverou serem todas as sensações igualmente verdadeiras para o objeto sensível. A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. o molhado e o seco e outros que tais. pois. entre nós e os objetos da visão. mas somente o vazio. e é provável que ele seja o autor da doutrina minuciosa dos átomos com respeito a este assunto. e é realmente verdade se entendermos por tato o sentido que percebe qualidades. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. está separado daquele". pois "a verdade jaz num abismo" (fragmento 117). e o fato. Sexto Empírico e Plutarco afirmaram claramente que Demócrito argüiu contra Protágoras. e era isto que exigia uma solução. . exatamente como fizeram os pitagóricos e Sócrates. A imagem na pupila do olho era considerada como a coisa essencial em visão. Deveras. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. pelo contrário. o olfato. mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou Ihe opõem resistência". afirmou Demócrito (fragmento 9). O som é uma torrente de átomos que jorram do corpo sonante e produzem movimento no ar entre ele [corpo] e o ouvido. Nisto. deve ser cautelosamente distinguido do sentido próprio do tato. Teoria do Conhecimento Demócrito procedeu como Leucipo ao fazer uma avaliação puramente mecânica da sensação. "Por convenção (nómo)": disse ele (fragmento 125). Este é o motivo por que vemos as coisas a distância de um modo embaraçado e indistinto. não podemos vê-las de modo algum. Este. está fora da discussão. Na realidade. e o olfato explica-se semelhantemente. apesar de serem causadas por algo fora de nós. Demócrito. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. na realidade (etee). posto que elas não têm uma contrapartida real fora do objeto sensível. ressalva a possibilidade de ciência. mas sim o cabeça de uma escola regular. "Pelos sentidos". uma semelhança exata do corpo do qual provém. Esta é a razão por que a mesma coisa às vezes dá a sensação de doce e às vezes de amargo. skhémata) dos átomos que entram em contato com os órgãos desse sentido. que deriva mormente de Anaxágoras.Protágoras. temos que considerar a doutrina do conhecimento "legítimo" e "ilegítimo". A audição explica-se de uma maneira similar. apesar de não haver razão de se acreditar que ele tenha elaborado uma teoria sobre o assunto. portanto. por conseguinte. todavia. Uma vez que a alma se compõe de átomos como qualquer outra coisa. Aristóteles afirma que Demócrito reduziu todos os sentidos ao tato. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. A originalidade de Demócrito. "nós na verdade não conhecemos nada de certo. rejeita a sensação como fonte de conhecimento. Se não houvesse ar. O legítimo. Esta é a resposta de Demócrito a Protágoras. naturalmente. "poderíamos ver uma formiga rastejando no firmamento". A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. Ademais. porém. por exemplo. está em conformidade com a tradição eleática onde repousa a teoria atômica. por convenção há o quente e por convenção há o frio. as cores. que acima foi descrito. se a distância for grande. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. doce para mim e amargo para você. Disto decorre que os objetos da visão não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver. foi-nos preservada através de suas próprias palavras. Para compreender esta questão. o problema do comportamento tornara-se premente. ensinando e escrevendo em Abdera. As diferenças de cor devem-se à lisura ou aspereza das imagens ao tato. A possibilidade de ciência havia sido negada. Demócrito foi obrigado a ser explícito com referência à questão. o som e outros semelhantes eram apenas "nomes" (onómata). afirmando que existe uma outra fonte de conhecimento que não a dos sentidos próprios. As diferenças de paladar são devidas às diferenças nas figuras (eide. é tanto amargo quanto doce. tamanho e peso. tais como forma. Demócrito. Por outro lado. considera falsas todas as sensações dos sentidos próprios. embora não com os mesmos detalhes. diz ele (fragmento 11). De modo idêntico. a sensação deve consistir no impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma. felizmente. e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. o tato. Sua doutrina. cuja verdadeira natureza não pode ser apreendida pelos sentidos próprios. pois está sujeita às distorções causadas pela interferência do ar. mas as "imagens" (deíkela. por convenção há o amargo. é afetado de acordo com a forma e o tamanho dos átomos chocando nele. É aqui que Demócrito entra nitidamente em conflito com Protágoras. é "não mais tal do que tal" (oudèn mãllon toion è toion). e por que. Ao ilegítimo pertencem todos estes: a visão. Seguindo o exemplo de Protágoras. Vê-se que esta doutrina tem muito em comum com a distinção moderna entre as qualidades primárias e secundárias da matéria. eídola) que os corpos estão constantemente emitindo. Ele diz que o mel. Porém. "há o doce. "duas formas de conhecimento (gnóme): o legítimo (gnesíe) e o ilegítimo (skotíe).

ter certeza sobre quais dos preceitos morais a ele atribuídos são genuínos. Para atingi-lo. escolhe os mais divinos. pois. Para Demócrito. Isto quer dizer fundamentalmente que a felicidade não deve ser procurada nos bens exteriores. O "conhecimento legítimo" é. que é a alegria. mas uma espécie de sentido interno. Os prazeres dos sentidos são prazeres verdadeiros tão breves como as sensações são verdadeiro conhecimento. e seus objetos são como os "sensíveis comuns" de Aristóteles. Não há dúvida de que o tratado Sobre a Boa Disposição ou Bem-Estar (Perí Euthymíes) era seu. se fosse preciso uma demonstração. cuja concepção Sócrates rejeita enfaticamente.Ao mesmo tempo. hedonismo vulgar. que os átomos fora de nós poderiam afetar diretamente os átomos da nossa alma sem a intervenção dos órgãos dos sentidos. Como seria de esperar de um seguidor dos pitagóricos e de Zenão. Segundo um comentário de Arquimedes. da mesma natureza do "ilegítimo". Para o nosso presente objetivo. o sossego do corpo. como Leucipo houvera feito. Teu tiro é uma capitulação. a alma é a moradia do daímon" (fragmento 171). então as partes cortadas serão iguais. contentou-se em adotar a crua cosmologia dos jônios. escolhe os humanos" (fragmento 37). porém. o que é o maior absurdo". a Terra era ainda um disco. a doutrina da felicidade ensinada por Demócrito é intimamente afim com a de Sócrates. Vemos mais uma vez como foi importante a obra de Zenão como um fermento intelectual. pois. as nossas informações são extremamente escassas para possibilitar mesmo uma reconstrução aproximada do seu sistema. mas o agradável é diferente para gente diferente" (fragmento 69). como foi dito. devemos lembrar que a palavra daímon. a fazer uma separação absoluta entre os sentidos e o conhecimento. embora dê mais ênfase ao prazer e à dor. pitagórico. Demócrito parece ter contribuído valiosamente à ciência natural. Deve ter conhecido ainda o sistema mais cientifico de Filolau. Se aplicarmos este critério aos prazeres. se pudéssemos restabelecê-las integralmente. Os homens puseram a culpa na sorte. como Sócrates. "A felicidade não reside em rebanhos. O que devemos nos esforçar por conseguir é o "bem-estar" (euestó) ou a "alegria" (euthymíe). Isto não é. e facilmente se transformam ao contrário. o aspecto individual de týkhe. Foi utilizado livremente por Sêneca e Plutarco. quanto ao resto. Infelizmente. Ela é totalmente retrógrada e demonstra. que "a ignorância do melhor" (fragmento 83) é a causa do erro. que é composto de círculos iguais e não desiguais. É. como o fizera do ilegítimo. julgar e discernir o valor dos diferentes prazeres. mas esta é apenas uma "imagem" que inventaram para justificar a sua própria ignorância (fragmento 119). parece que Demócrito prosseguiu afirmando que o volume do cone era a terça parte do volume do cilindro sobre a mesma base e do mesmo peso. Se forem iguais. não é necessário discutir detalhadamente a cosmologia de Demócrito. ele o confirma desta forma: "Se um cone fosse cortado por um plano em linha paralela à base. chegando assim a conhecê-los como realmente são. Demócrito ocupou-se com o problema da continuidade. Ele também aderiu a Anaxágoras defendendo que a Terra era sustentada no ar "como a tampa de uma tina". "Pobre Mente". 0 grande principio que nos deve guiar é o da "simetria" ou "harmonia". A idéia da forma esférica da Terra era amplamente difundida na época de Demócrito. os prazeres dos sentidos são de duração demasiado curta para preencher uma vida." O conhecimento "legítimo" não é. Demócrito afirmou. e não há nada que os impeça de ter contato imediato com os átomos externos. que é a saúde. pois ele terá muitas incisões em forma de degraus e muitas asperezas. sem dúvida. devemos ser capazes de ponderar. e este é um estado da alma. De um lado. e alguns fragmentos importantes do tratado sobreviveram. imagina ele os sentidos dizerem (fragmento 125). Este é. o que se deveria pensar das superfícies das duas partes cortadas? Seriam iguais ou desiguais? Se forem desiguais. poderemos alcançar o sossego. "Quem escolhe os bens da alma. Defendeu. "é por causa de nós que conseguiste as provas com as quais atiras contra nós. cujo sossego se deve procurar principalmente nos bens da alma. A perda da edição completa das suas obras feita por Trasilo é talvez a mais deplorável . tem sido usada no sentido equivalente de "boa sorte". Teoria do Comportamento As concepções de Demócrito sobre o comportamento seriam até mais interessantes do que a sua teoria do conhecimento. que o seu real interesse está em outro sentido. Em uma passagem digna de nota (fragmento 155). farão irregular o cone. Para compreender isto. Os átomos da alma não se restringem a algumas partes específicas do corpo. que significava propriamente um espírito protetor do homem. e Demócrito recusou-se. quem escolhe os bens do 'tabernáculo' (isto é. Por outro lado. pensamento. "O melhor para o homem é levar a vida com o máximo de alegria e o mínimo de aborrecimentos" (fragmento 189). afinal de contas. e o sossego da alma. e. e Sócrates é descrito no Fédon tomando-a por certa. "O bom e o verdadeiro são a mesma coisa para todos os homens. mas nele penetram em qualquer direção. não se pode ignorar que Demócrito dera uma explicação puramente mecânica deste conhecimento legítimo. e a palavra grega que traduzimos por "felicidade" (eudaimonía) baseia-se neste uso. com efeito. Nós somente podemos ter certeza de superar a dor pelo prazer se não procurarmos os nossos prazeres nas coisas "mortais" (fragmento 189). o corpo). apesar de tudo. que ele estava empenhado em problemas tais como aqueles que finalmente deram origem ao método infinitesimal do próprio Arquimedes. [O tratado] partia (fragmento 4) do princípio de que o prazer e a dor (térpsis e aterpsíe) são o que determina a felicidade. Além disso. que foi um verdadeiro gênio neste campo. nem em ouro. É muito difícil. É evidente. porém. cujo teorema foi demonstrado primeiro por Eudoxo. e o cone terá a aparência de um cilindro. Ele herdara a teoria dos átomos e do vazio de Leucipo. como Sócrates.

Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. foi possível para Trasilo. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. culminando em Aristóteles. Os Sofistas Período Sistemático O segundo período da história do pensamento grego é o chamado período sistemático. Por isso. o século IV a. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. não é o tipo de material que se requer para a interpretação de um sistema filosófico. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. que foram dignas de constar nas antologias. O interesse dos filósofos gira. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. Sabemos. que sobreviverão também no período seguinte e além ainda. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. Quanto à data do seu nascimento. outros aspectos do seu sistema. bem como. isto ocorrera. respectivamente.teve duração bastante curta. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. ele era jovem. porém. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. Com efeito. Por outro lado. Fez menção a Anaxágoras. Se disse isto. especialmente a Academia por motivos éticos e religiosos. que geralmente fora atribuída em Atenas. Ao mesmo tempo. É certo. e temos uma prova contemporânea. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. Demais. temos apenas conjeturas para nos orientar. Em uma das principais obras. o único fato importante com referência a Demócrito é que ele também sentiu a necessidade de uma resposta a Protágoras. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. cedo demais. detestavam qualquer tipo de estudo. era natural de Abdera na Trácia. o que parece muito provável. através de Sócrates e Platão . como se diz. sob o reinado de Tibério. e obscurece o fato de que. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. e sem dúvida alguma na Jonia. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão Protágoras. Parece. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. da metafísica passa-se à gnosiologia e à moral. Um membro posterior da escola. Apolodoro de Quizico.. precursoras. até então limitado à natureza exterior. não sabemos. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. Demócrito foi discípulo de Leucipo. que fixam o conceito de ciência e de inteligível. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia.C. Os epicuristas. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. quando Anaxágoras era velho. sendo principais a cínica e a cirenaica. que também os pitagóricos foram seus mestres. Disse também algures que. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. quando. e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. nesse período realiza-se a sua grande e lógica sistematização. Abraça. não podemos deixar de reconhecer que é sobretudo pelo seu mérito literário que lamentamos a perda das obras. e em seus desenvolvimentos neoplatônicos em especial .C. substancialmente. Este. daí derivando as chamadas escolhas socráticas menores. a de Glauco de Régio. entretanto.depois do qual começa a decadência . com a idade de noventa ou cem anos. a Anaxágoras. deles procedendo a Academia e o Liceu . não obstante. e compreende um número relativamente pequeno de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. do estoicismo e do epicurismo do período seguinte. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. É possível que tenham sido abandonadas à ruína porque Demócrito chegara a compartilhar do descrédito que o prendera aos epicureus. Esse período esplêndido do pensamento grego . e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. organizada em tetralogias. pela importância e o lugar central destinado ao homem e ao espírito no sistema do mundo. então é possível que este . fazer uma edição das obras de Demócrito. Tem-se a impressão de que ele se situa à parte da corrente principal da filosofia grega. e através também da precedente crise cética da sofística. porém. mas em torno do homem e do espírito. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto.apesar de o aristotelismo ter superado logicamente o platonismo. de preferência. Diz-se ter visitado o Egito. segundo a suposição dele. como Sócrates.das muitas perdas desse tipo. não em torno da natureza. Se Demócrito morreu. O que temos dele foi preservado principalmente porque ele foi um grande criador de frases notáveis. Do nosso ponto de vista. outrossim. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. Daí ser dado a esse segundo período do pensamento grego também o nome de antropológico. e é muito duvidoso se de fato conhecemos as suas idéias mais profundas. Como Protágoras. Platão e Aristóteles. e é a esta que devemos agora retornar.

à paixão de cada um em cada momento. não lhe interessa. não é mister justiça e retidão. mediante graves crimes. pois a verdadeira justiça conforme à natureza material. em situação semelhante. portanto.segundo os sofistas. isto é. capital democrática de um grande império marítimo e cultural. até o ateísmo. assim é bem o que satisfaz ao sentimento. Os sofistas maiores foram quatro. a posição da sofística é extremista também. devia ter a oratória e.chegam até o extremo. na justiça para com os outros. Desta maneira. não é o direito fundado sobre a natureza racional do homem. que a causa seja justa ou não. de repente.bem como a moral natural .pode-se dizer . ensinando aos homens ávidos de poder político a maneira de consegui-lo. chefe de escola e teórico da sofística. não a natureza humana racional. destruidor da ciência. quer política. embora sem importância filosófica. a sua força. Os menores foram uma plêiade. A respeito da religião e da divindade. A moral.que a submissão à lei torne os homens felizes. A sofística move uma justa crítica.a segunda metade do século V a. A época de ouro da sofística foi . portanto. pois em uma sociedade em que estão em jogo apenas forças brutas. Mas este direito natural . naturalmente. mas como meio para fins práticos e empíricos e. Moral. a Atenas de Péricles. Górgias declara plena indiferença para com todo moralismo: ensina ele a seus discípulos unicamente a arte de vencer os adversários. destruidor da moral. mas prudência e habilidade. Protágoras foi o maior de todos. os sofistas estabelecem uma oposição especial entre natureza e lei. E tentam criticar a vaidade desta lei. interessado. oprima o fraco em seu proveito. têm freqüentemente conseguido grande êxito no mundo e. bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. os sofistas não só trilham a mesma senda dos filósofos racionalistas gregos do período precedente e posterior. no prazer e no domínio violento dos homens. uma enciclopédia. em nome do direito natural. e era isto que exigia uma solução. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. mortificador. aliás. bem como a sua utilidade comumente celebrada: não é verdade . Como é verdadeiro o que tal ao sentido.fragmento também seja apócrifo. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. a única regra de conduta é o interesse particular. como acontece todas as vezes que o povo sente. contingente. Seria. Então a realização da humanidade perfeita. Direito e Religião Em coerência com o ceticismo teórico. portanto. aliás. não está na ação ética e ascética. superficial. no domínio de si mesmo. Ademais. e entendendo por natureza. mas a natureza humana sensível. o problema do comportamento tornara-se premente. desinteressado. houve um triunfo político da democracia. mas no engrandecimento ilimitado da própria personalidade. uma pura convenção. como norma universal de conduta . como a lei que potencia profundamente a natureza humana. O conteúdo desse ensino abraçava todo o saber. mas . mas sobejamente retribuído. continuando até depois de Sócrates. o ensinamento dos sofistas não era ideal. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. segundo o ideal dos sofistas. a única forma de vida social possível num mundo em que estão em jogo unicamente forças brutas. a experiência ensina que para triunfar no mundo. Seja como for. e sim sobre a sua natureza animal. em tal regime. a sofística sustenta o relativismo prático. por conseguinte. materiais. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo.de harmonia com o ceticismo deles . pelo menos . ensinando e escrevendo em Abdera. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. É esta. a força e a violência podem ser o único elemento organizador. Os sofistas. ao impulso. tornaram-se mestres de eloqüência. A originalidade de Demócrito. compreende-se a importância que. contra o império persa. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides.C. sequiosos de conquistar fama e riqueza no mundo. atenienses. Esse domínio violento é necessário para possuir e gozar os bens terrenos. A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio.é concebida pelos sofistas não como lei racional do agir humano. portanto. mas sim o cabeça de uma escola regular. instintiva. os mestres de eloqüência. o direito natural é o direito do mais poderoso. muitas vezes arbitrário. na verdade tão mutável conforme os tempos e os lugares. animal. o poderoso. contra o direito positivo. mas como um empecilho que incomoda o homem. um prejuízo a igualdade moral entre os fortes e os fracos. ao empirismo gnosiológicos correspondem o hedonismo e o utilitarismo ético: o único bem é o prazer. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. Ao sensualismo. O centro foi Atenas. a cultura. não para si mesma. passional. Então.dizem . que deriva mormente de Anaxágoras. quer moral. exige que o forte. Diversamente dos filósofos gregos em geral. o único sistema jurídico admissível. tirânico. Quanto ao direito e à religião. E visto que o domínio pessoal. considerando a lei como fruto arbitrário. pois grandes malvados. instintiva. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. A Sofística Após as grandes vitórias gregas. de retórica. A possibilidade de ciência havia sido negada. visto estes bens serem limitados e ambicionados por outros homens. depende da capacidade de conquistar o povo pela persuasão. como na gnosiologia e na moral.

Aprendeu a arte paterna. até estabelecer-se em Larissa na Tessália. na acusação movida contra ele por Mileto.diversamente dos sofistas. onde teria morrido com 109 anos de idade.pátria de Demócrito . criaram descontentamento geral. onde salvou a vida de Alcebíades e em Delium. hostilidade popular. mas também ela não teve um marido ideal no filósofo. A prova de cada uma destas proposições e um enredo de sofismas. mediante o ensinamento da retórica. negador dos valores teoréticos e morais.A Vida . Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. podemos dizer que Sócrates não teve. Sócrates desdenhou defender-se diante dos juizes e da justiça humana. partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber.praticamente. quarenta dedicados à sua profissão. não se deixou distrair pelas preocupações domésticas nem pelos interesses políticos. vivendo justamente e formando cidadãos sábios. Quanto à família. na Sicília. humilhando-se e desculpando-se mais ou menos. sem recompensa alguma.C . Inteiramente absorvido pela sua vocação. Górgias declara que a sua arte produz a persuasão que nos move a crer sem saber. segundo a via real do pensamento grego. inferiu Protágoras a relatividade do conhecimento. se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer. Quanto à política. parteira. e a sua obra sobre os deuses foi queimada em praça pública. E preferiu a morte. Ensinou na Sicília. e especialmente em Atenas. o homem é a medida de todas as coisas. mas dedicou-se inteiramente à meditação e ao ensino filosófico. que deveria estabelecer o que é verdadeiro e o que é bem! Quem valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas. uma mulher ideal na quérula Xantipa.correlacionado com Empédocles .. Górgias de Leôncio Górgias nasceu em Abdera. Tinha ele diante dos olhos da alma não uma solução empírica para a vida terrena. em Atenas. é mais ou menos o que acontece com o jornalismo moderno. irônica e a conseqüente educação por ele ministrada. e a um outro o de Górgias. que contrastavam com o seu temperamento crítico e com o seu reto juízo.C. sobretudo entre os jovens. Nasceu Sócrates em 470 ou 469 a. onde carregou aos ombros a Xenofonte. Protágoras de Abdera Protágoras nasceu em Abdera . mais eloqüente que Protágoras.). Julgava que devia servir a pátria conforme suas atitudes. foi um filósofo ocasional. temperados . foi ele valoroso soldado e rígido magistrado. honestos. Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula. em Atenas.representa a maior expressão prática da sofística. dos quais. para pedir auxílio contra os siracusanos. onde foi processado e condenado por impiedade. na qual desenvolve as três teses: Nada existe. gravemente ferido. cuja escola conheceu . capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo. Sócrates . É autor duma obra intitulada "Do não ser". e não a persuasão que nos instrui sobre as razões intrínsecas do objeto em questão. para a imortalidade. a liberdade de seus discursos. Protágoras recorre à convenção estatal. ensinando na sua cidade natal. teoricamente. e sim o juízo eterno da razão. Refugiou-se então na Sicília. pois. outros pueris.C. Diante da tirania popular. sutis uns. social. em 480-375 a. Combateu a Potidéia. em geral. filho de Sofrônico. porém. na Magna Grécia. e de Fenáreta. servem-se da injustiça e do muito mal que existe no mundo. orientando-a para os valores universais. foi Sócrates. Menos profundo. conservou-se afastado da vida pública e da política contemporânea. em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles. em outras cidades da Grécia. porém. na moldura da alta cultura ateniense da época. Entretanto. onde teve grande êxito. Em 427 foi embaixador de sua pátria em Atenas. Mas. Em suma. inimizades pessoais. não obstante sua pobreza. escultor. a sua atitude crítica. Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação. que agiam para o próprio proveito e formavam grandes egoístas.pelo ano 480. ocupado com outros cuidados que não os domésticos. relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial. Esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas. Subjetivismo. apesar de sua probidade. No Górgias de Platão. onde morreu com setenta anos (410 a. bem como de certos elementos racionários. e foi honrado e procurado por Péricles e Eurípedes. para negar que o mundo seja governado por uma providência divina. mas na sua forma conhecida. aparecia Sócrates como chefe de uma aristocracia intelectual. tomou forma jurídica. se a conhecêssemos não a poderíamos manifestar aos outros. teve de fugir de Atenas. Acusado de ateísmo. conforme as disposições subjetivas dos órgãos. não na sua realidade física. Viajou por toda a Grécia. Formou a sua instrução sobretudo através da reflexão pessoal. exagerador dos artifícios da dialética eleática. Para remediar este extremo individualismo. por certo. Platão deu o nome de Protágoras a um dos seus diálogos. Os sofistas. a feição austera de seu caráter. Anito e Licon: de corromper a mocidade e negar os deuses da pátria introduzindo outros.

se personificava na voz interior divina do gênio ou demônio. o particular. pode-se dizer que Sócrates é o protagonista de todas as obras platônicas embora Platão conhecesse Sócrates já com mais de sessenta anos de idade. Como é sabido. É a ironia socrática. assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância. Este conceito ou idéia geral obtém-se por um processo dialético por ele chamado indução e que consiste em comparar vários indivíduos da mesma espécie.isto é. uma definição geral do objeto em questão. foi filósofo grande demais para nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates. assentou-se com indômita fortaleza de ânimo diante do tribunal. cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates. antes. mas sem profundidade. com 71 anos de idade. Sócrates. distingue as duas ordens de conhecimento. sensitivo e intelectual. que remonta do indivíduo à noção universal. identificando a vontade com a inteligência. estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico. É a parte culminante da sua filosofia. Com efeito. É que o deus da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o dom da morte. mas é um meio de generalização. Morreu Sócrates em 399 a. virtude e ciência. A psicologia serve-lhe de preâmbulo. Platão.o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. que vai do fenômeno à lei.pois uma lei vedava as execuções capitais durante a viagem votiva de um navio a Delos . multiplicava ainda as perguntas. governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações.Declarado culpado por uma pequena minoria. "Conhece-te a ti mesmo" . permanente. depois de ter sorvido tranqüilamente a cicuta. A este processo pedagógico. concluíram os sofistas pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber. A virtude adquiri-se com a sabedoria ou. E alcançava em Sócrates intensidade e profundidade tais. apenas esboçado. pedreiro o que sabe edificar. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral.que se teria realizado pouco antes da morte e foi descrito por Platão no Fédon com arte incomparável. formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus. c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem. Doutrinas Filosóficas A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates. dirigindo-as agora ao fim de obter. No segundo caso. Insistindo no perpétuo fluxo das coisas e na variabilidade extrema das impressões sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo se transformam. não obstante a sua devoção para com o mestre e a exatidão das notícias. um legislador. que é o desejo da ciência mediante a virtude. Praticamente. Moral. determinando o verdadeiro objeto da ciência. No primeiro caso. Xenofonte. o conceito que se exprime pela definição. Seja como for. também inteligente deve ser a causa que o produziu. a natureza.C. não entendeu o pensamento filosófico de Sócrates. Em psicologia. Tendo que esperar mais de um mês a morte no cárcere . Sócrates ensina a bem pensar para bem viver. o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia. que a promulgou e sancionou. em memória da profissão materna. tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido). um conceito. sendo mais um homem de ação do que um pensador. fim supremo do homem. justo será o que sabe a justiça". que revestia uma dúplice forma. "Se músico é o que sabe música. é o inteligível. o indivíduo que passa. E passou o tempo preparando-se para o passo extremo em palestras espirituais com os amigos.o discípulo Criton preparou e propôs a fuga ao Mestre. ignorância e vício são sinônimos. nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas por ele. por indução dos casos particulares e concretos. Esta doutrina. Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa. recusou. E exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo . b) com o argumento.como sendo o ápice da sabedoria. Sócrates não deixou nada escrito. bem como o seu biógrafo genial. Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma. mas é também Providência. Apesar destas doutrinas elevadas. pelo contrário. na exposição polêmica e didática destas idéias. que facilitava a parturição das idéias. Sócrates restabelece-lhe a possibilidade. mas não define o livre arbítrio. conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir. estável. que o condenou à pena capital com o voto da maioria. uma das mais características da moral socrática. As notícias que temos de sua vida e de seu pensamento. a essência da coisa. declarando não querer absolutamente desobedecer às leis da pátria. torna-te consciente de tua ignorância . Em teodicéia. denominava ele maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito. a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética. autor de Anábase. é a prática da virtude. Xenofonte. devemo-las especialmente aos seus dois discípulos Xenofonte e Platão . de feição intelectual muito diferente. da causa eficiente: se o homem é inteligente. eliminar-lhes as diferenças individuais. em seus Ditos Memoráveis. de estilo simples e harmonioso. foram: "Devemos um galo a Esculápio". Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade da alma . legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. Método de Sócrates É a parte polêmica. é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. Sócrates adotava sempre o diálogo. Deus não só existe. com ela se identifica. Por onde se vê que a indução socrática não tem o caráter demonstrativo do moderno processo lógico. que se concretizava. Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar. porém. O objeto da ciência não é o sensível. . as qualidades mutáveis e reter-lhes o elemento comum. Suas últimas palavras dirigidas aos discípulos.

superado. cumpre desembaraçar o espírito dos conhecimentos errados. universal. não de direito. com finalidades práticas. para organizar racionalmente a própria vida. que declara auxiliar os partos do espírito. assim é o fundador. para realizar o próprio fim. Este conceito é. esta intimidade da ciência . no sentido de que o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o sábio. em prática. maiêutica. como Alcibíades e Eurípedes. sem metafísica. a respeito da metafísica.bem como ignorância e vício . dada a sua revalidação da ciência. todavia. mediante a razão. Tudo isto tem que ser criticado. opinião comum. ação racional. a favor da reflexão livre e da convicção racional. depois. antes de tudo. ceticismo sistemático. no entanto. Vale dizer que o agir humano . nem pode precisar este bem. como sua mãe auxiliava os partos do corpo. de admirar que um homem. Escolas Socráticas Menores A reforma socrática atingiu os alicerces da filosofia. de par com os sofistas. em particular da ciência moral. alguns. mediante a doutrina de que eticidade significa racionalidade. determinado precisamente mediante a definição. Esta interioridade do saber. Esta ignorância não é. uma moral. não particulares. desenvolverão uma gnosiologia acabada. ativismo. porém. É a famosa maiêutica de Sócrates. pode-se esquematicamente resumir nestes pontos fundamentais: ironia. no entanto. desenvolveram exageradamente algumas de suas partes com detrimento do conjunto. ignorância. ciência. a indução: isto é. A filosofia socrática. antes de tudo. A única ciência possível e útil é a ciência da prática. conceptual é. saídos das escolas anteriores não lograram assimilar toda a doutrina do mestre. O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro. Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na imposição extrínseca de uma doutrina ao discente. a ética une pela primeira vez e com laços indissolúveis a ciência dos costumes à filosofia especulativa. lei positiva. mas o mestre deve tirá-la da mente do discípulo.assim a ética socrática carece de um conteúdo racional. Sócrates. ainda que com finalidade diversa. morais. Virtude é inteligência. rotina. já aureolado pela austera grandeza moral de sua vida. mas é a certeza objetiva da própria razão . científico. Mas. precisa . Sublime nos lineamentos gerais de sua ética.bem como o conhecer humano . da opinião à ciência. a qual é um valor universal. Dentre estes. Sócrates achou apenas a forma conceptual da ciência. Se o fim do homem for o bem . Antes de tudo. A doutrina do conceito determina para sempre o verdadeiro objeto da ciência: a indução dialética reforma o método filosófico. isto é. um poderoso impulso para o saber. mas apenas metódico. reivindica a independência da autoridade e da tradição. embora o pensamento socrático fique. pragmatismo. pela novidade de suas idéias. razão. para construir uma ética é necessário uma teoria. portanto. precisamente porque lhe falta uma metafísica. O fim da filosofia é a moral. espiritual. uma grande metafísica e. no pensamento de Sócrates. expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência. no agnosticismo filosófico por falta de uma metafísica. Sócrates não elaborou um sistema filosófico acabado. havia verdadeiros filósofos que se formaram com os seus ensinamentos. o itinerário. representando o ideal e a conclusão do processo gnosiológico socrático. É sabido que Sócrates levava a importância da razão para a ação moral até àquele intelectualismo que. definição. acima das leis mutáveis e escritas. dos preconceitos. o prático depende.afora a teoria geral de que a ciência está nos conceitos . o ignorante. necessidade de superá-la pela aquisição da ciência. fonte primordial de todo direito positivo. de fato. a qual. esta felicidade. que se concretizava no seu ensinamento dialógico. de um ceticismo de fato. pois. a existência de uma lei natural . Sócrates. por Aristóteles. sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude.patenteiam-se no famoso dito socrático "conhece-te a ti mesmo" que. não o seu conteúdo. toda a especulação grega que se seguiu. pois. remontar do particular ao universal. donde é preciso extraí-la. Estes dois filósofos. opiniões. A gnosiologia de Sócrates.como ensinavam os sofistas. Entretanto. consciência de si mesmo quer dizer. tradição. malvado. racionalismo.se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência. tenha. dele depende. consciência da própria ignorância inicial e. da crítica. como Xenofonte.independente do arbítrio humano. logo. como a gnosiologia socrática carece de uma especificação lógica. no dizer de Sócrates. pela razão imanente e constitutiva do espírito humano. limita-se à gnosiologia e à ética. além de simples amadores. que está contra todo voluntarismo. não sentimento. sentimentalismo. mas dirigida para os valores universais. Esta feição utilitarista empana-lhe a beleza moral do sistema. do teorético. Não é. Entre os seus numerosos discípulos. pela ausência de uma metafísica. partindo dos pressupostos socráticos. não descendo até à animalidade . subindo até à razão. introspecção.Sócrates reconhece também. além dos vulgarizadores da sua moral (socratici viri). em geral. descobriu o método e fundou uma grande escola. este é o momento da ironia. por conseguinte. que será percorrido por Platão e acabado. significa precisamente consciência racional de si mesmo. nem deixou algo de escrito. enfim. mediante o . se o fim da filosofia é prático. e nos dá a essência da realidade.realizando-se o bem mediante a virtude. O moralismo socrático é equilibrado pelo mais radical intelectualismo. portanto. Por isso. direta ou indiretamente. e a virtude mediante o conhecimento Sócrates não sabe. costume. indução. por sua vez. a ciência. totalmente.que não é absolutamente subjetivista. Gnosiologia O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo humano. mediante a doutrina do conceito. a gnosiologia deve preceder logicamente a moral. da experiência ao conceito. identificando conhecimento e virtude . ele é cético a respeito da cosmologia e. é mister conhecê-lo.tornava impossível o livre arbítrio. A Moral Como Sócrates é o fundador da ciência em geral. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro. trata-se. Traçou. exercido sobre os contemporâneos tamanha influência. Entretanto. Como os sofistas.

se a acusação não fosse considerada procedente pelo júri. por haver sido essa também uma acusação de impiedade. foi a que segue: "A seguinte acusação escreve e jura Meleto. Fora desta escola começa a decadência e desenvolver-se-ão as escolas socráticas menores. Julgar tratar-se do Meleto que. dominado pelas altas especulações de Platão e Aristóteles . vegetaram na penumbra. podemos considerar Meleto de Sócrates o mesmo Meleto de Andócides. o seu mais ilustre continuador foi o sublime Platão. sustentando-o com a autoridade de seu nome. como se deste tivesse se originado a idéia da pena de morte para persuadir Sócrates a abandonar a cidade antes que o processo tivesse seguimento.C. fique apenas no campo da suposição. pois um jovem poeta de 399 a. 425) que desenvolveu o utilitarismo do mestre em hedonismo ou moral do prazer. que. não disse que Meleto era um desses homens. 2. por último. São bem conhecidas as excentricidades de Diógenes. neste caso.mesmo diferenciando-se bastante entre si . do povoado de Piteo. O acusador era Meleto. juntamente com Trasíbulo e outros. Estas . Meleto era o acusador oficial. com seu nome sendo citado sempre com evidente desapreço.. nascera por volta de – 150 a. No Eutífron. A escola de Megara. (n. já que nada corrobora realmente esta pretensão. dava a impressão de conhecer Sócrates. verdadeiros continuadores da tradição socrática. assim solucionando o problema que tanta discussão tem provocado.C. Contudo.. que se vale do nome de Meleto. e culmina em Aristóteles. a fim de engrandecer o mestre desaparecido. A escola cirenaica ou hedonista. Ânito. que conforme ele mesmo afirma na Apologia. assumindo. A escola socrática maior é a platônica. onde fora afixada a acusação por Meleto. juntamente com outros quatro homens recebera a ordem de deter a Leon de Salamina. se prestaram a deter Leon de Salamina. Ânito era filho de Antemione. que foi por ele zelosamente preparado nas reuniões dos diversos cidadãos. existe outro obstáculo. ao ser inquirido pelo adivinho Eutífron a respeito de quem era aquele que o acusava. c. em 404 a. fundada por Aristipo. que a ele alude como se Meleto fosse seu subordinado. que tentou uma conciliação da nova ética com a metafísica dos eleatas e abusou dos processos dialéticos de Zenão.juntamente com o elemento vital do pensamento precedente.concordam todas pelo menos na característica doutrina socrática de que o maior bem do homem é a sabedoria. além de considerar que Sócrates insiste no fato de que Meleto é desconhecido. filho de Meleto. Sócrates é culpado de não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado. mais tarde recresceram transformadas ou degeneradas em outras seitas filosóficas.o conceito . regressou de File com estes e tomou parte da .. ao se aproximar do Pórtico do Rei. À parte o problema da mudança de lado .C. também Ânito e Lícon.C. Apologia de Sócrates Introdução à Apologia de Sócrates De acordo com Diógenes Laércio. em 399 a. não resta dúvida. porém nada exigia que o acusador oficial fosse o mais respeitável. filho de Sofronisco. O pouco que conhecemos ou podemos presumir a respeito de Lícon é que pouca importância e autoridade teve no decorrer do processo. e. contra Sócrates. Pena: a morte" A cidade de Atenas não podia mover ações. o mais importante dos acusadores. Estas escolas. o vértice e a conclusão da grande metafísica grega. e já havia exercido importantes cargos e magistraturas. valoriza o pensamento dos pré-socráticos desenvolvendo-o em sistemas vários e originais. chegou a tomar parte da acusação contra Andócides.pensamento socrático. em janeiro de 399 a. com os mesmos direitos à palavra no decorrer do processo. A escola cínica. Acredito chamar-se Meleto. de acordo com a própria informação de Andócides: esse Meleto foi um dos que. também. do povoado de Piteo. Desse modo. fundada por Euclides (449-369). total responsabilidade. das quais as mais conhecidas são: 1. degenerou. e sim escrita por Platão. já então tido como um fanático religioso. Exceto se reputarmos que essa defesa não seja de fato de Sócrates. São fundadores das escolas socráticas menores. c. pouco provavelmente chamaria a atenção de Aristófanes em 405 a. barba rala e nariz em forma de bico de pássaro". de introduzir novos cultos. representa o desenvolvimento lógico do elemento central do pensamento socrático . 3. que derrotara e expulsara esses mesmos Trinta Tiranos –. Mas não há elementos em que basear essa suposição.. mas não só ele. E.de partidário dos Trinta Tiranos tornar-se aliado de Ânito. por ordem dos Trinta Tiranos. tendo sido o único a recusar-se a obedecer. sobra a dificuldade de explicar por que motivo Sócrates. é culpado de corromper a juventude. a acusação apresentada contra Sócrates.C. vemos que Sócrates. do povoado de Alópece. porém. existem muitas dúvidas. em verdadeiro desprezo das conveniências sociais. mas um cidadão podia. A respeito de saber com exatidão quem era esse Meleto. comerciante de couro. logicamente. mas somente aquele que assinava a acusação. a influência exercida por Ânito constituiu o elemento mais respeitável no desfecho do processo. embora. Dentre os herdeiros de Sócrates. talvez porque seja um homem jovem e desconhecido. fundada por Antístenes (n. Isto aparece imediatamente nas escolas socráticas. sendo uma delas se se tratava do personagem citado por Aristófanes.C.C. Após ter sido enviado ao exílio pelos Trinta Tiranos. que. é aquele que. hábil ou temível. o herdeiro genuíno de suas idéias. 445). porém. no célebre processo por causa da mutilação da estátua de Hermes e da profanação dos Mistérios. respondeu: "Sei bem pouco a respeito dele. sendo estratego em 410 a. de cabelos lisos. exagerando a doutrina socrática do desapego das coisas exteriores. durante o segundo período. seria muito conveniente.

Apologia de Sócrates . se quiseres me ouvir. sendo fiel guardião dos domínios de Hades. revela-se. e os jovens. outro aspecto de Zeus. Sócrates dera. e não se pode afirmar. que com muita facilidade te dedicas à maledicência. assim. é necessário recordar que Sócrates manteve relações com os Trinta Tiranos: estes não Ihe teriam ordenado a prisão de Leon de Salamina se não o considerassem um deles. seu filho. isto é. porém. havia sido seu discípulo. minianos e jônios. e a superioridade da inteligência sobre os direitos da assembléia popular e soberana? É isso que causou a condenação de Sócrates. da mesma maneira que se dá com condenações por motivos políticos. que tenhas cuidado". vindo a ser. que consistia em saber que não se sabe? Qual a postura dos políticos diante disso? Que direitos seriam mais opostos aos da democracia do que aqueles originados da experiência e da competência. o qual. a superioridade do saber sobre a aclamação do povo. portanto. proclamada superior até mesmo pelo oráculo. Depois da restauração do regime democrático. No que concerne à condenação por motivos religiosos. o homem que sempre se recordava de haver sido discípulo de Arquesilau. Ártemis é filha de Zeus. mediante palavras e atos. Zagreus torna-se Zeus. expulso de Atenas em decorrência de um processo parecido com o seu. insiste no fato de que. Ademais. Desde a época de Sócrates. de fato. considerando-se a anistia garantida até mesmo pelo próprio Ânito. O que significava aquela sabedoria. representa Hécate. e era necessário arranjar o pretexto para executá-lo. iriam acabar desrespeitando qualquer autoridade que não se identificasse com a inteligência e a sabedoria. isso presumindo que existisse alguma. Some-se a isto que Sócrates jamais desejou exercer nenhuma magistratura. e eu te aconselho. lunar e noturno. em sua defesa. e também Alcebíades. era a suprema deusa e gerava uma vez por ano a Dionisos – Zagreus. Dessa maneira. embora não seja verdade que permanecesse fora do âmbito do governo. enquanto Sócrates pôde permanecer. não era possível levar em conta as culpas passadas de Sócrates para condená-lo. que voltara a ser assunto pela recente inclusão de seu nome entre os envolvidos na profanação dos Mistérios. A bem da verdade. afirmara-se o culto patriarcal. que era sempre devorado pelo tempo. lua cheia a lua minguante. Numerosas revoltas começaram a eclodir com a chegada de contínuas levas de dórios. e sim afastá-lo de Atenas. constituindo as sacerdotisas os verdadeiros líderes das povoações e os homens. venerada como Réia. Crísias. em que Zeus era o deus-pai. executando os trabalhos mais necessários à sobrevivência e à defesa. em seus três aspectos: lua crescente. Tanto isso é verdade que. pois com freqüência era visto discutindo em público. nem participar de alguma forma do governo de sua cidade. um movimento reacionário em termos de culto. que acabaram por fomentar a rebelião de Zagreus contra seu pai e mãe. nessa época de instalação do regime democrático. em cujas culturas o patriarcalismo era arraigado. o líder máximo. como o próprio Sócrates repete. Era todo o ensinamento socrático que se tornava perigoso. tornou-se um dos mais eminentes cidadãos de Atenas. o mais feroz dos Tiranos. isto é. As mais importantes orientações da vida eram subvertidas por seu orgulho de ter consciência da sua ignorância. ou o Agnos-Deus. e permanece virgem. Anfitrite é esposa de Posêidon. em seu comentário à Apologia. ó Sócrates. onde manifesta uma ameaça velada a este: "Afigura-se-me. Nessa fase seria de fato correto crer que alguém sofresse um processo por questões religiosas. Réia vem a ser adorada como Hera. pelos testemunhos que possuímos. por conseguinte. a exigência de que o piloto do barco conheça seu ofício. A Tripla Deusa. poderíamos presumir que Sócrates teria adotado a defesa do culto da deusa. e seus aspectos: marinho. segundo comprova sua atuação no Mênon. que em vez de escolher o exílio preferiu a proposta de uma multa irrisória. quando afirma "que esses novos deuses da cosmologia jônica eram uma antiga história e que poderia ser uma violação da anistia colocá-los de novo à luz do dia".Preâmbulo . e se isso não ocorreu deveu-se à demasiada teimosia do próprio Sócrates. convinha afastar de Atenas o mestre de Crísias. vemos o réu inverter a ordem das acusações e colocar em primeiro lugar a última imputação: corromper os jovens. Mas é preciso frisar que o propósito. não era matá-lo. Ártemis e Cérbero.expedição armada contra o governo dos tiranos. e não os novos fatos. Se a acusação tivesse se dado em épocas mais antigas. Ânito manteve relação com Sócrates. patente mostra de sua obstinada repulsa aos governos democráticos. seu culto tendo sido de novo extinto durante o período de estabelecimento do culto olímpico. que pode significar tanto o deus desconhecido quanto o deus-carneiro. Querofonte foi obrigado a se exilar. um dos aspectos de Zeus. desprezando a economia doméstica e a riqueza. bem pouco confiável. e a argumentação de Burnet. Portanto. o texto da sentença preocupa-se muito mais em esconder do que apresentar as verdadeiras causas. esposa de Cronos. o Deus-Agnes. como Anfitrite. Coloquemos a questão com mais clareza: as lendas referem a revolta patriarcal contra o matriarcado. condenado. as múltiplas facetas da deusa prevaleciam. por sua vez. mas à época de Sócrates tudo isso já se encontrava devidamente solidificado. provocando ainda o desapreço por tudo que não buscasse a sabedoria. fora discípulo de Anaxágoras. seus instrumentos de fertilização e prazer. mas sim por questões evidentemente políticas. durante o mandato dos Trinta. quanto a Cérbero. que juntamente com Trasíbulo fora seu principal defensor. Portanto. A opinião de Platão a esse respeito é bem clara: não foi por razões religiosas que Sócrates recebeu a condenação. E mais: Sócrates menciona a seu favor sua participação no caso do exílio de Querofonte. que fosse singularmente prudente ou diplomático em sua maneira de discutir.

na minha defesa. que poderia ser talvez pior. uma súplica premente. um pedido. possa ser extirpada. homem de muita sabedoria. na qual um certo Sócrates aparece andando de lá para cá. pois à lei é necessário obedecer e defenderse. e esses me causam bem mais temor do que Ânito e seus amigos. sou um orador. serão expressões espontâneas. Acontece que venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade. Nisso reside o mérito de um juiz. se conseguir acarretar-vos algum benefício com a minha defesa. que transforma as razões mais fracas nas mais consistentes. A Defesa de Sócrates Primeira Parte Diversidade Entre Duas Antigos e os Recentes Categorias de Acusadores: os Em princípio. Que tudo se passe de acordo com a vontade do Deus. e que examineis com atenção se o que digo é justo ou não. embora deva fazê-lo em tão curto prazo. porém os outros – os que. será excelente para vós e para mim. as pessoas acreditam que quem se dedica a tais investigações não admite a existência dos deuses. o que é mais grave. os que já me acusam há bastante tempo e dos quais tenho falado a respeito. De verdades. a mim próprio. e acusar de mentiroso a quem não responde. procuraram colocarvos contra mim. sem dúvida me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha criação. Não faltaria quem. peço-vos nesta oportunidade a mesma tolerância. e de outro. nem se pode exigir que ao menos alguns deles venham até aqui. e outro amontoado de tolices. procurando transformar a mentira em verdade e ensinando-a às pessoas". acompanhando Meleto. Estes. e investigando o que existe embaixo da terra e no céu. ao ouvi-los. que não me ocupo desses assuntos. em dizer a verdade. ó atenienses. e recorro à maioria de vós para que sirvam de . E esses acusadores são muito numerosos e me acusaram há bastante tempo. que é de justiça a meu ver. sem que eu contasse com alguém para me defender. contudo. me espantou das muitas perfídias que proferiram: a recomendação de precaução para não vos deixardes seduzir pelo orador formidável que sou. de mim. vós ouvireis a verdade inteira. é legítimo que eu me defenda das calúnias das primeiras acusações que me foram dirigidas e dos primeiros acusadores. e em outros lugares. não ouvireis discursos como os deles. E o que é mais assombroso é que seus nomes não podem sequer ser citados. atenienses. o de um orador. eis o que me pareceu a maior de suas insolências. são os acusadores que mais receio. ó atenienses. a fim de me defender só posso lutar contra sombras. Defender-me-ei. Assististes a alguma coisa semelhante na comédia de Aristófanes. completamente estrangeiro à linguagem do local. que propalaram essas coisas acerca de mim. porque deposito confiança na justiça do que digo. aprimorados em substantivos e verbos. e. Com efeito. em resumo. como crianças que deviam ser educadas. tal o poder de persuasão de sua eloqüência. nos termos que me ocorrerem. embora estes sejam acusadores perigosos. Bem sei quanto isto é difícil e tenho plena consciência da enorme dificuldade que me espera. porque. que influência tiveram meus acusadores em vosso espírito. que especula a respeito das coisas do céu. se é o que entendem. sempre faltando com a verdade. repito-o. caluniaram-me quando vós tínheis aquela idade em que é bastante fácil – alguns de vós éreis crianças ou adolescentes – dar crédito às calúnias. e depois das mais recentes acusações e dos novos acusadores. nem acusar ninguém por difamação. e assim descobrirei se aquela calúnia. Ainda mais porque esses acusadores fizeram-se ouvir por vós antes e mais demoradamente do que aqueles que vieram depois. junto das bancas. esses todos não podem ser encontrados. Mas os primeiros são muito mais perigosos. procuraram convencer-vos de acusações não menos caluniosas contra mim: que existe um certo Sócrates. eu admitiria que. sinto-me. porém. Faço-vos. se ouvirdes. fizesse contra mim uma acusação tão grave! Eu só vos asseguro. assim. senhores.Desconheço atenienses. atenienses. os que me acusam há pouco tempo. quase me fizeram esquecer quem sou. não ficaria bem a um velho como eu vir diante de vós modelar seus discursos como um rapazinho. vós deveis vos certificar de que existem duas categorias de acusadores: de um lado. Mas não por Zeus. Se eu fosse de fato um estrangeiro. ao mostrar-me um orador nada formidável. E se eu for bem-sucedido. na qual Meleto se baseou para redigir sua acusação neste processo. ó atenienses. por inveja ou por vício em fazer falsas acusações. que martiriza meu coração há tanto tempo. E não digo isso por julgar aquelas ciências coisas vis. em verdade. a mesma linguagem que habitualmente emprego na praça. que não consigo compreender nem um pouco. que esquadrinha todos os segredos obscuros. Pois muitos que se encontram entre vós já me acusaram no passado. A acusação possui mais ou menos este teor. salvo se essa gente chama formidável a quem diz a verdade. e. talvez melhor. exceto o de um comediógrafo. ó atenienses. aqueles que convivendo com a maior parte de vós. portanto. e assim. não a estranheis nem vos revolteis por isso. e então reconhecereis que devo defender-me destes em primeiro lugar. não corarem de me haver eu de desmentir prontamente com os fatos. onde tantos dentre vós me haveis escutado. se é mesmo verdade que haja cientistas de tais ciências. nem espere outra coisa qualquer um de vós. Que afirmavam meus detratores? Façamos de conta que se trate de uma acusação juramentada de acusadores reais e dos quais seja preciso ler o texto: "Sócrates é réu de haver-se ocupado de assuntos que não eram de sua alçada. ó cidadãos. Portanto. afirmando que caminha em cima das nuvens. em estilo florido. Defesa Contra os Antigos Acusadores Calúnia a Respeito do Saber de Sócrates Vamos começar desde o início e examinar que tipo de acusação motivou essa calúnia. Seja como for. não disseram nenhuma. em contraste com eles. porém. para a minha linguagem. Verdadeiramente. de verdades eles não disseram alguma. Uma. ou os que pretenderam convencer os outros por estarem verdadeiramente convencidos e de boa fé –. sobretudo. acusaram-me obstinadamente.

pois não desejamos julgar-te irrefletidamente". como não sabia. talvez sejam possuidores de uma sabedoria sobre-humana. não. das virtudes do homem e cidadão? Acredito que pensaste a respeito disso quando puseste os filhos no mundo. enquanto eu. Fui ter com um daqueles que possuem reputação de sábios. juntamente com muitos outros. Ao passo que esses. não se deveu ao fato de que nada fizeste fora do comum. ao arrepio de minha vontade. e este homem aparentava ser sábio. como também muitos dos que se encontravam presentes. E a respeito de ser sábio. – de onde é e quanto cobra para ensinar? – Eveno de Paros. que tivesse a capacidade de Ihes ensinar as virtudes para serem acrescentadas à sua natureza. Resumindo: nada existe em tudo isso que corresponda à verdade. ó atenienses. julgando que somente assim poderia desmentir o oráculo e responder ao vaticínio: "Este é mais sábio que eu e afirmastes que era eu". que possui muita sabedoria e veio morar em Atenas. fosse mais sábio que ele. Peço que revelem publicamente quantos de vós já me ouviram falar a respeito dessas coisas. aos quais seria mais fácil. Pesquisa Junto aos Políticos Saberão agora o motivo pelo qual vos relato isso: meu intento é pôr-vos a par de onde se originou a calúnia contra mim. A pitonisa respondeu que não existia ninguém. uma sabedoria estritamente humana. contudo eu não sei. fiz a experiência que irei descrever-vos. É possível que alguns entre vós creiam que eu esteja brincando. não o era. Por fim. Mesmo que. o que fazes então? Que motivo originou essas calúnias? Com certeza. isto também não passa de mentira. Ouvi também referências a outro homem. em virtude de este haver falecido. mas teus filhos são homens. Sabeis que tipo de homem era Querofonte e de como era determinado em suas resoluções Dirigiu-se em certa ocasião a Delfos e atreveu-se a perguntar ao oráculo se existia alguém mais sábio que eu. que não é meu depoimento. que nós. tantas vozes não teriam se erguido se tivesses te comportado como todos se comportam Conte o que fizestes. entre os que possuem reputação de serem mais sábios que aqueles. e convencem esses jovens a preferir a sua companhia à dos seus. ó atenienses. comecei a investigar acerca disso. estou falando sério. Mas enquanto estava analisando este – o nome não é necessário que eu vos revele. também não julgava saber. de Paros. o próprio deus de Delfos. Como testemunho deste fato se prestará o irmão de Querefonte. refleti da seguinte maneira: "Que pretende o deus dizer? Qual é o significado oculto do enigma? Tendo em vista que eu não me considero sábio. ao menos numa pequena coisa.testemunhas. parabenizei esse tal de Eveno. invocarei como testemunha. receio possuir esta única sabedoria. ao contrário. este com que. E longamente me mantive nesta dúvida. Aí procurei um outro. basta dizer que era um de nossos políticos –. se teus dois filhos fossem dois potros ou duas vitelas. se é de fato possuidor dessa doutrina e a ensina a tão baixo preço. apenas com o intuito de caluniar-me. e quem diz o contrário mente. que quer dizer o deus ao afirmar que sou o mais sábio dos homens? Com certeza não mente. Escutai-me. embora possais ter a impressão de que eu esteja proferindo palavras por demais fortes. é verdade que adquiri renome por possuir certa sabedoria. e então compreendereis que tudo o mais que dizem sobre mim possui o mesmo valor. e sem ter de gastar dinheiro. ou seja. partiu no último exílio em vossa companhia e regressou também em vossa companhia. se muitos te acusaram. mas o de uma testemunha que merece toda a vossa confiança. neste sentido. se me afigure coisa em absoluto nada condenável. . no entender de muitas pessoas e especialmente de si mesmo. No íntimo. Procurei fazê-lo compreender que embora se julgasse sábio. E seu preço é cinco minas – respondeu-me. se ouvistes alguém declarar que instruo os homens em troca de dinheiro. E que tipo de sabedoria é essa? Possivelmente. e eles se tomariam cavalariços ou agricultores. diante de vós. recebendo em troca dinheiro e ainda por cima gratidão. nem de belo. Afastei-me dali e cheguei à conclusão de que era mais sábio que aquele homem. Após ter ouvido a resposta do oráculo. mas talvez não o fosse de verdade. Esses valorosos homens percorrem as cidades com o propósito de instruir os jovens. De minha sabedoria. analisando e raciocinando em conjunto. não só ele passou a me odiar. eu e ele. e de sua natureza. portanto. enfim. Todos vós conheceis Querefonte. mas afirmo que não a conheço. porque não sei. homem que gastou mais dinheiro com sofistas do que qualquer outro ateniense. filho de Hipônico. mas aquele acreditava saber e não sabia. Ó atenienses. Em vista disso. que educação. Peço-vos para não fazer algazarra. nem acredito sabê-lo. de quem vos falava há pouco. fazer-se instruir por um de seus concidadãos. e o soube por intermédio de Cálias. Perguntei a ele: – Cálias. ou seja. se de fato se trata de sabedoria. se alguém se propõe a instruir homens como fazem Górgias de Leontini. Pródico de Ceo e Hípias de Élida. terias de contratar e pagar uma pessoa que tomasse conta deles. Procurarei esclarecer-vos a respeito da causa dessas calúnias contra mim. pois ele não pode mentir". então: tencionas proporcionar-lhes? Quem entende das virtudes que Ihes são necessárias. e também este me dedicou ódio. e me ocorreu exatamente a mesma coisa. Existe alguém capaz de fazê-lo? – Claro que sim – respondeu-me. Era meu amigo desde o tempo da juventude e pertencente ao vosso partido popular. O Que é o Saber de Sócrates O Oráculo de Delfos Algum de vós poderia questionar-me: "Ó Sócrates. Eu mesmo me orgulharia se fosse capaz de tal coisa. e tive a impressão de que. mais ainda. a partir daquele momento. podíamos não saber nada de bom. – E quem é ele? – indaguei-lhe. e. ó cidadãos.

e ele quer dizer. seria de fato um verdadeiro milagre se eu tivesse a capacidade de arrancar-vos do coração esta calúnia que possui raízes tão firmes e profundas. mas não conhecem nada do que dizem. a fama de sábio. as pessoas julgavam que eu fosse sábio naqueles assuntos em que somente punha a descoberto a ignorância dos demais. e se regozijam em assistir a esta minha análise dos homens. que todos passaram a me odiar e que. ó cidadãos. ambiciosos. que de sua arte tinha a consciência de não conhecer nada. julgavam-se os mais sábios dos homens até mesmo em outras coisas em que realmente não o eram. é outra. tenha admitido que sua sabedoria nao possui valor algum".Não obstante isso. Pesquisa Junto aos Artesãos No final. que muito pouco ou nada vale a sabedoria do homem. E outros. e respondi a mim e ao oráculo que convinha continuar tal qual eu era. se me afiguraram melhores e mais sábios. E não me equivoquei. deparam-se com numerosos homens que julgam saber alguma coisa e sabem pouco ou nada. Em seguida aos políticos. declarando que Sócrates é homem por demais infame e corruptor dos jovens. e que também ensina a não acreditar nos deuses e apresenta como melhores as piores razões. Resumindo. o que faz e o que ensina este Sócrates para corromper os jovens?". porque. é que esses homens demonstraram ser pessoas que dão a impressão de saber tudo. é levo uma existência miserável por conta deste meu serviço ao deus. Desta maneira. que dizem de fato muitas coisas belas. ó atenienses: quem sabe é apenas o deus. dominados pela paixão e numerosos como são. náo se refere propriamente a mim. em nome do oráculo. e todos da mesma opinião nesta difamação a meu respeito e com argumentos que podem parecer também convincentes. Contudo. e isto eu percebi com clareza. e eles sabiam que eu os considerava conhecedores de numerosas e belas coisas. com a certeza de ser mais sábio que eles." Por isso. de acordo com a palavra do deus. De forma que eu. só para não evidenciar que estão confusos. embora notando. é muito sábio entre vós aquele que. Lícon por causa dos oradores. se existe alguém entre os atenienses ou estrangeiros que possa ser considerado sábio e. por sua própria conta. sem ocultar-vos nada. E se alguém indaga: "Afinal. além de afirmar que ele especula sobre as coisas que se encontram no céu e as que ficam embaixo da terra. ó atenienses. igualmente a Sócrates. os filhos das famílias mais ricas. fui procurar os poetas. porque o desconhecem. "deves visitar todos aqueles que possuem reputação de sabedoria. com desagrado e assombro. "Se almejas saber o que o oráculo quer dizer". como se tivesse dito: "Ó homens. analisar alguma pessoa. Logicamente. conforme minha pesquisa. nem mesmo esquivando-me dela. também os artesãos famosos apresentavam o mesmo defeito dos poetas: por conhecerem muito bem sua arte. como eles. Ânito e Lícon: Meleto profundamente irado por causa dos poetas. e indaguei aos próprios poetas o que eles pretendiam dizer. por intermédio de seu oráculo. todas as outras pessoas presentes discorriam melhor a respeito do que os poetas haviam escrito que os próprios autores. e entre as calúnias. A verdade. pareceram-me quase todos em maior erro. e a partir destas inimizades surgiram muitas calúnias. não querem dizer a verdade. O Verdadeiro Saber Consiste em Saber Que Não se Sabe Em virtude desta pesquisa. seguemme de livre e espontânea vontade. lançaram-se contra mim Meleto. descobri que não era por nenhum tipo de sabedoria que eles faziam versos. É por esta razao que ainda hoje procuro e investigo. nem sabedor de minha sabedoria nem ignorante de minha ignorância. finalmente. de contar-vos a verdade! Mas é obrigatório que eu a diga. sem escrúpulo algum encheram vossos ouvidos com suas calúnias. é . fiz numerosas e perigosíssimas inimizades. dizia a mim mesmo. dizem as coisas que comumente são ditas contra todos os filósofos. e eu a revelo por completo. não me restou mais tempo para realizar alguma coisa de importante nem pela cidade nem pela minha casa. e aproximadamente o mesmo. a verdade. como os adivinhos e vaticinadores. indaguei a mim mesmo se deveria permanecer tal como era. diante disto. Este é o motivo pelo qual. nada respondem. ó atenienses. porque dessa maneira aprenderia alguma coisa com eles. mas só usa meu nome como exemplo. A verdade. E tomado como estou por esta ânsia de pesquisa. Porém. Mas desejo terminar de relatar-vos minhas peregrinações e as fadigas que sofri para convencer-me de que a palavra do oráculo era incontestável. porém. Ânito por causa dos artesãos e dos políticos. até mesmo em outros assuntos de maior realce e dificuldade. Esta é. Então afastei-me deles. ao afirmar que Sócrates é sábio. cada um deles julgava-se extremamente sábio. devo dizer-vos de novo a verdade. e. ambas as coisas. venho em ajuda ao deus provando que nao há sábio algum. pelo mesmo motivo que era mais que os políticos. ó atenienses. E compreendi também que os poetas. naturalmente. contudo. porém. sem fama alguma. Sócrates. e. dirigi-me aos artesãos. eles conheciam coisas que eu não conhecia. como vos disse desde o início. juro-vos que este foi o resultado da minha pesquisa: os que eram famosos por possuírem maior sabedoria. é o que ocorre entre os poetas. como acho que ninguém o seja. aqueles que são analisados por eles voltam-se contra mim e não contra quem os analisou. inúmeras vezes procuram imitarme e tentam. Peguei suas melhores poesias. Por sinal. afigurava-se-me impossível deixar de atentar para as palavras do deus. convencido de que diante daqueles confirmaria minha ignorância e sua superioridade. mas por uma propensão e inspiração natural que eu desconheço. e nisso eram mais sábios do que eu. pelo fato de fazerem poesias. porém. embora saiba que sou odiado por muitos exatamente por isso. tanto os que escreviam ditirambos' e tragédias como os demais. e este importante defeito deslustrava toda sua sabedoria. Estou com vergonha. e então. continuei diligentemente com minha pesquisa. toda vez que participava de uma discussão. As Muitas Inimizades e a Acusação Vós tendes conhecimento de que os jovens que dispõem de mais tempo que os outros. conforme a palavra do deus. as que considerava mais bem construídas.

aqueles que são peritos em cavalos. então. de não crer nos deuses nos quais a cidade crê e também de praticar cultos religiosos extravagantes". Defesa Contra Meleto No que diz respeito aos meus primeiros acusadores. demonstrei que nunca tiveste preocupação com as coisas pelas quais me trouxeste diante deste tribunal. meu amigo. deve ter conhecimento. SÓCRATES: — Crês que todos. ó Meleto. e que esta é a calúnia contra mim e esta a causa. dize aos juizes o que os faz melhores. pois esta é uma preocupação tua e descobriste quem os corrompe. Com certeza o sabes. Meleto. e prova suficiente do que afirmo: que nunca te preocupaste com estes assuntos? Vamos. MELETO: — Estes. como ele mesmo se define. digam Ânito e tu mesmo que sim ou não. Mais ainda. E procurarei provar-vos que isso é a pura verdade. viver entre bons cidadãos ou entre maus cidadãos? Amigo. Também a lei deseja que respondas. isso é o bastante para a defesa das culpas a mim atribuídas. realmente. SÓCRATES: — Como sou infeliz! Mas responde-me a isto: também com os cavalos crês que seja assim? Que todos os homens os tornem melhores e somente um os mutile? Ou. ou faço isto sem querer? MELETO: — Afirmo que é por querer. Meleto. SÓCRATES: — Todos os atenienses que te ouvem tornam os jovens bons e belos. SÓCRATES: — Dize. prossegue. conforme dizes. ó Sócrates. Pode existir alguém que prefira receber o mal? MELETO: — Não. que o réu é o próprio Meleto. ou alguns sim e outros não? MELETO: — Todos. Meleto. Meleto. ao contrário. SÓCRATES: — Afirmas. Indagai quanto quiserdes. Agora dize-me. sem saber o que dizer? E isto não te se afigura vergonhoso. por Hera! E grande a quantidade de bons educadores! Também estes que estão nos ouvindo tornam os jovens melhores ou não? MELETO: — Sim. aos juizes o que os torna melhores. com o intuito de fazer crer que se preocupa com coisas com as quais. que somente um os torne melhores. com os cavalos e com todos os seres vivos? Com certeza é assim. não é difícil o que te pergunto. conforme afirmas. Vês. Os maus não prejudicam aqueles que Ihes são próximos? E os bons não Ihes fazem o bem? MELETO: — Com toda a certeza. trouxeste-me a este tribunal porque corrompo os jovens por querer è os torno maus. Declarou mais ou menos isto: "Sócrates é réu de corromper os jovens. Analisemos esta acusação minuciosamente. excelente homem. ou poucos. procurarei em seguida defender-me de Meleto. o que mais convém. como ficas calado. já que demonstrei a contento que tu nunca te preocupaste com os jovens. então. Não julgas de suprema importância que os jovens consigam se tornar os melhores possíveis? MELETO: — Julgo. SÓCRATES: — Quer dizer. mostra-te e responde. Vou começar desde o início e como se na verdade dissesse respeito a outra espécie de acusadores. e que os demais se sirvam dos cavalos e os mutilem? E não acontece assim. Portanto. responde: que os faz melhores? MELETO: — As leis. responde. Meleto afirma que corrompo a juventude. ó atenienses. todos. Mas. SÓCRATES: — E os senadores? MELETO: — Também os senadores. os juizes. SÓCRATES: — Não se trata disto. SÓCRATES: — Dizes bem. então. agora ou depois. e dos acusadores que virão depois. que talvez aqueles das Assembléias Populares corrompam os jovens? Ou também aqueles os tornam melhores? MELETO: — Também aqueles. na verdade. em primeiro lugar.outra prova de que digo a verdade. analisemos também o ato de acusação deste. homem digno e patriota. ó Meleto. Indago-te qual é o homem que. das leis. Vamos. e eu digo. . e recebereis sempre a mesma resposta. ó excelente homem. SÓCRATES: — Pode existir alguém que esteja com eles e que prefira receber o mal em lugar do bem? Responde. exceto eu. Seria uma grande felicidade para os jovens se correspondesse à verdade que somente um Ihes causa danos e todos os outros os educam e melhoram. que estes possuem a capacidade de educar os jovens e torná-los melhores? MELETO: — Afirmo. sou eu quem os corrompe. nunca se preocupou. É isto que queres dizer? MELETO: — Exatamente isto. SÓCRATES: — Então. porque aborda com leviandade assuntos sérios e tão inescrupulosamente leva homens diante do tribunal. e por este motivo citaste-me diante do tribunal e me acusaste. também estes. Meleto Não Sabe o Que é Educar Nem Corromper Meleto.

não o quiseste fazer de forma alguma e me trazes aqui. mesmo que não sejam os da cidade. uma vez advertido. pois se naqueles que acredito são deuses. embora tenhas sido obrigado pelos juizes. pensas de fato que eu não acredite em deus algum? MELETO: — Em nenhum. mas não em demônios? MELETO: — É completamente impossível. se estes demônios são deuses. E não consideramos estes demônios filhos dos deuses? MELETO: — Logicamente. são também filhos bastardos gerados por ninfas ou outras mães. eu mesmo respondo. é impossível. quem poderá pensar que existam filhos de deuses e de deuses não? Seria disparate igual se pensasse que os mulos fossem filhos de jumentos e cavalos e que estes últimos não existissem. porque não consigo compreender a quais deuses eu ensino que os jovens devem acreditar. pois afirma que o sol é uma pedra e a lua é feita de terra. Ó atenienses. recordai-vos de não me interromper se continuo a raciocinar à minha maneira. tendo eu os anos que tenho. por que são outros ou por que afirmas que não acredito de maneira alguma nos deuses e ensino isto aos jovens? MELETO: — Eu afirmo que não acreditas de maneira alguma nos deuses. então. em acusar também Anaxágoras? E tens em tão pouca estima e reputas tão ignorantes nas letras a estes juizes. Meleto Acusa Sócrates de Ateísmo e se Contradiz Neste momento. eu digo exatamente isto. como já vos exortei no começo. devo obrigatoriamente crer em demônios. Apesar disso. mas em outras divindades novas? Não é. Portanto. se não queres responder. Meleto. que o sol e a lua sejam deuses? MELETO: — Com certeza. é isto que afirmas e que juraste no teu ato de acusação. tanto para mim como para estes juizes. creio que não consegues persuadir nem a ti mesmo. Ou seja. mesmo se fraco de intelecto. afirmo a sua existência. ó atenienses. Mas se acredito em coisas demoníacas. e não censurados. Na verdade. na tua idade. não sou ateu e. por conseguinte. no caso de saber disso. Tens evitado encontrar-te comigo e advertir-me. Se eu os corrompo sem querer. SÓCRATES: — Em nome desses mesmos deuses a respeito dos quais agora falamos. SÓCRATES: — Quanta satisfação me proporcionou tua resposta. quando declaras que eu. e que eu ignore essas coisas a ponto de não saber que se se torna mau a um deles corre-se o risco de receber algo mau dele e que. com certeza. se este as apresentasse como suas. e que os bons façam o bem. cidadãos de Atenas. como afirma com clareza a acusação que apresentaste contra mim. não corrompo os jovens. De outra forma. ó Meleto. Por isso. conforme dizes. não posso ser culpado disso. tudo isto se me afigura desaforado e atrevido. embora não acreditando na existência dos deuses. não mais farei o que fazia sem querer. e não criai tanta agitação por causa de uma palavra. analisai comigo de que maneira creio que ele se contradiz. ó Meleto. explica-te com maior clareza. É como se alguém desejasse por-me à prova compondo uma espécie de enigma: "Dar-se-á conta Sócrates. é neste ponto que eu digo que fazes enigmas e brincadeiras. e quem escreveu esta acusação foi desaforado e a escreveu por atrevimento e desrespeito juvenil. dize-nos. faço-o sem querer. mas sim nas coisas relativas a cavalos? E que não acredite na existência de flautistas. de que maneira. de acordo com tua opinião. SÓCRATES: — Ninguém acredita em ti. SÓCRATES: — Ó excelente Meleto! Por que dizes que não acredito. mas sim que faça com que seja afastado. então. embora as leis estabeleçam que aqui sejam trazidos somente os que devem ser castigados. é bastante evidente aquilo que eu afirmava: que Meleto nunca se preocupou com essas coisas. por faltas involuntárias. ensinando estas coisas que os corrompo? MELETO: — Sim. aquele grande sábio. Existe alguém. é por causa disso que me trazes a este tribunal. E vós. se os corrompo. ó Meleto. principalmente àqueles mais próximos deles. a fim de advertir-me ou censurar-me. se afirmas que existem demônios. parece-me que Meleto se contradiz na acusação. Há quem não acredite na existência de cavalos. ó atenienses. ou. que o estou ridicularizando e me contradigo? Ou conseguirei enganá-lo e a todos aqueles que me ouvem?" Com efeito. SÓCRATES: — Ora. ensinando-os a não acreditar nos deuses nos quais a cidade acredita. E isto significa desejo de se divertir. eu corrompo a juventude? Não o faço. meu bom Meleto. a ti e aos outros que aqui se encontram. ou é necessário dizer que não sabias do que me acusar? Mas que consiga convencer quem quer que seja.SÓCRATES: — Quer dizer. ó Meleto. mas também de acreditar nos deuses". ó Meleto. já que não contestas. como se declarasse: "Sócrates é réu de não acreditar nos deuses. não existe lei alguma que poisa me obrigar a vir até aqui. que a . e sim outros. que pensas conhecer melhor do que eu que os maus sempre causam algum mal. que tenhas escrito contra mim uma acusação como esta. se estes demônios são filhos dos deuses. ó juizes. a ponto de não saberem que os livros de Anaxágoras de Clazomena estão repletos destes ensinamentos? E por que motivo os jovens iriam aprender de mim estas coisas que por uma simples dracma podem comprar na ágora e zombarem de Sócrates. de maneira que em ambos os casos mentes. Mas responde ao menos à pergunta seguinte: existe quem possa acreditar em coisas demoníacas. Meleto. Responde. exceto que haja sido para pôr-me à prova. SÓCRATES: — Pensas. acusas-me de acreditar em coisas demoníacas e de ensiná-las. Nem acredito que possas persuadir a ninguém. mas sim que existam sons de flauta? Não ha ninguém. ainda mais sendo tão extravagantes? Por Zeus. eu me empenhe em torná-los maus? Não me persuadirás disto. não é assim? Com certeza é assim. e naquilo que afirmas. da mesma maneira que os outros homens. tua sabedoria sendo maior que a minha. e é claro que. Parece-me que aceitas. que acredite na existência de fatos humanos e não em homens? Fazei com que responda. uma vez que digo existirem demônios.

Portanto. morrerás". por acaso. seus filhos prosseguindo a praticar os ensinamentos de Sócrates. não te envergonhas de haveres exercido tal atividade. somente por isto o diria. não pretendemos dar. teriam sido néscios todos os heróis que morreram em Tróia. de que não deveis vos preocupar nem com o corpo. o analisaria. ó cidadãos. Por outro lado. isto é impossível. ó atenienses. desde que não empregues mais teu tempo nessas pesquisas. à exceção de na desonra e na vergonha. com este meu caminhar não faço outra coisa a não ser convencer-vos. deve ficar e enfrentar os riscos e não pensar na morte. uma vez aqui trazido. é ordem do deus e estou convencido de que haja para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência ao deus. não será nem Meleto nem Ânito. e. que me sois mais estritamente próximos. vós sabeis. disse-lhe. Isto. a fim de que ela . nunca acontecerá que eu fuja diante daqueles de que não sei se por acaso não são bens. ó atenienses. existiriam então motivos para trazer-me aqui no tribunal como sendo um desumano que não cresse nos deuses. Anfípolis e Délio. como dizia. tivesse desertado do posto a mim designado pelo deus. ateniense. contra a vontade de Ânito que. e se me atrevesse a dizer que em alguma coisa sou mais sábio que os outros. ao receber ordens do deus. e também com vós.mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar em coisas divinas e. não pararei de filosofar. ou. lá fiquei. ao ouvir este raciocínio de Ânito. em verdade. esta calúnia e esta raiva das pessoas. não o deixaria afastar-se nem iria embora. se. a mais vergonhosa das ignorâncias. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar nem em demônios. nem com as riquezas. por temor à morte ou a outra desgraça semelhante. também morrerás'. aí. e enquanto tiver ânimo. não pararei de estimular-vos e censurar-vos. se bem me lembro: 'Ó filho. logo após ter castigado a quem matou. as infames. dado que significa pensar saber aquilo que não se sabe. desde o início. estando ele ávido do sangue de Heitor. tamanho desdém mostrou pelo perigo. e o mais néscio de todos seria o filho de Tétis que. para que se tornem tão boas quanto possível?" E se algum de vós retrucasse que cuida de fato delas. de outra forma. desde o começo. e se me afigurasse que não possui virtude mas apenas afirma possuí-la. atenienses. uma deusa. declarava não ser necessário que eu viesse até este tribunal. ao passo que em Potidéia. agora. sem se envergonhar. tendo a capacidade de fazer algum bem. fama e honras. Algum de vós poderia talvez altercar-me: "Sócrates. Ao ouvir tais palavras. quando sua mãe. E. aqui. Seria algo. nem em heróis. recear a morte não passa de julgar ser sábio e não sê-lo. acredito distinguir-me por este motivo e precisamente neste ponto da maior parte dos homens. se vingares a morte do teu companheiro Pátroclo e matares Heitor. dizia. nem com qualquer outra coisa antes e mais que com a alma. nem te ocupes mais de filosofia. isto é o bastante para demonstrar que não sou culpado das acusações de Meleto. creio. que agora coloca em risco tua vida?" Eu responderia a este: "Não falas bem se pensas que alguém. como ocorre diante dos males que sei que são nefastos. Aquiles negligenciou o perigo e a morte. Obedecer ao Deus Permanecer no Lugar Adequado. nem em outra desgraça qualquer. Por isso. que meu comportamento seria anormal e excêntrico se. ao contrário. com esta condição me deixásseis em liberdade. eu vos responderia: "Ó atenienses. ela não seja o maior de todos os bens que podem ser dados ao homem e. estariam inapelavelmente perdidos e corrompidos. da verdade e da tua alma. outros ainda irão perder. Acreditas que Aquiles tenha pensado na morte e no perigo?" É assim que deve ser. e a quem quer que eu encontrasse de vós. contudo. pela qual deveria viver filosofando e dedicando-me a conhecer a mim mesmo e aos outros. em qualquer ocasião. atenienses. digo. mesmo sendo pequeno. nem em deuses. O que eu vos disse. que és o melhor dos homens. não havendo perigo que causem somente a minha perda. eu o envergonharia demonstrando-lhe que considera infames as coisas mais estimáveis e de valor. nem que para isso me torne objeto de desprezo'. mas o interrogaria. daquele momento em diante. A Missão Divina Fazer o Que é Justo. mas obedecerei primeiro ao deus do que a vós. deva calcular os riscos de vida ou de morte e não deva olhar o injusto e se pratica as ações de homem honesto e corajoso ou de infame e mau. já que desobedece ao oráculo. acredito. e se fores surpreendido a praticar ainda estas coisas. cidadão da maior cidade e mais célebre por sabedoria e poder. que um profundo ódio ergueu-se contra mim. Chega. jovens e velhos. se consigo safar-me da condenação. considerando ser aquele seu lugar mais honroso. receiam-na como se soubessem que ela é a maior das desgraças. como qualquer outro. anormal e. arriscando minha vida. que onde alguém se haja instalado. e se algo me causará dano. E não é ignorância. e vindo de muitas pessoas. ninguém sabe se. o impugnaria. acompanhando este teu raciocínio. se. Pessoas estas que já causaram a perda de tantos outros e valorosos homens. não te envergonhes de pensar em acumular o máximo de riquezas. receia a morte e julga ser sábio sem sê-lo. ou onde tenha sido instalado por quem ordena. eu vos amo. Em verdade. quando os comandantes que vós elegestes me designaram uma posição. também nada penso saber a esse respeito. seja deus. atenienses ou estrangeiros. vós não desconheceis. de fato. assim diria: "E tu. acreditar saber o que não se sabe? Ora. conversando da minha maneira habitual. e declarou: 'Rapidamente eu morra. mesmo que me concedesses a liberdade. atenção a Ânito e deixamos-te livre. repito. tu. me dissésseis: "Ó Sócrates. porque. seja homem. e enquanto for capaz. sem te preocupar em cuidar da inteligência. isto bem sei que é coisa vergonhosa e indecente. mas sim este ódio. Declaro-vos. pois não se faz necessária uma defesa muito longa. E agiria assim com qualquer um que eu quisesse: jovens ou velhos. Com efeito. receando muito mais viver miseravelmente sem vingar o amigo. que era impossível não condenar-me à morte. que. que como não sei nada de preciso a respeito das coisas do Hades. ao menos conforme pude ouvir e interpretar essa mesma ordem. Mas ser injusto e desobedecer a quem é melhor que nós. é verdade.

absolver-me-eis ou não. não encontrarão facilmente um outro igual a mim. que não necessitais pecar. que existe em mim não sei que espírito divino e demoníaco. além de não ceder. ó atenienses. talvez. pondo-me frente a frente com uma testemunha. Escutai o que me sucedeu e vereis então que diante do que é justo não sou homem de ceder a ninguém por temor à morte. ou ao desterro. ó cidadãos. os Trinta mandaram-me chamar. e vós a intigá-los e a gritar. Os oradores habituais já estavam prontos para suspender-me da função e aprisionar-me. e tente impedir que muitas vezes se cometam injustiças as leis na cidade. e em seguida acolhestes todos ao meu parecer. também Meleto. demonstrei que a morte. estou pronto a morrer. para convencer-vos a buscar a virtude. que. sempre faz com que eu desista do que estou para fazer. tanto para os cidadãos individualmente como para o Estado. não com palavras. e sempre. condenando-me à morte. então diz coisas insensatas.se torne excelente e muito virtuosa. mesmo que por breve tempo. mas falo por vós. mas pelo seu próprio tamanho. a mim que sou como vos disse. e se desejais me ouvir. de convencer-vos. Se ao falar desta maneira corrompo os jovens. que se eu tivesse. podereis me reconhecer por isso: que não parece humano que haja descuidado todos os meus negócios e ainda agüentar por tantos anos que tenham sido descuidadas as coisas da minha casa. então me falte coragem. mas do que mais necessitais: fatos. E davam ordens semelhantes a vários outros homens. permiti que vos diga. mas da virtude se originam as riquezas e todas as outras coisas que são venturas para os homens. de maneira alguma estou falando em minha defesa. pois é a verdade. ao arrepio da lei. E o motivo disso me haveis ouvido dizer várias vezes e em vários lugares. desta não tiveram o despudor de me acusar. como alguém poderia achar. E não me desprezei se falo assim. Logo. dormireis tranqüilamente. e sim com fatos. Não promoveis algazarra. mas a qualquer outra multidão. me poreis a salvo. a respeito do qual. e depois. para que este viesse a morrer. não digo a vós. não fazei assim. e que. julguei que era meu dver correr aquele risco mantendo-me ao lado do direito e do justo em vez de apoiar-vos e deliberar o injusto por temer a prisão e a morte. E isto ocorreu quando a cidade ainda era regida por uma democracia. e votei contra.Então eu me opus. Falarei um pouco grosseiramente. e não palavras. Restam-me algumas outras coisas a dizer-vos. Assim parece-me que o deus me colocou aos flancos da cidade. tende a certeza de que nunca agirei de outra maneira que esta. eu dou: a minha pobreza. cuidando das vossas. ó atenienses. mas muito mais vezes devesse morrer. um por um. Pois se me matardes. e é também preciso que aquele que luta em defesa do que é justo. mas se alguém afirma que falo diferentemente e não deste modo. Não penso que seja possível que um homem de bem receba o mal de um malvado. com jeito de estar se divertindo. tudo em que este homem crer e outros crerem serão grandes males. não riam da comparação. condenar-me à morte. Convencei-vos: se me condenardes à morte. como fazem alguns dos freqüentadores dos tribunais. mas que vos limitásseis a ouvir. pois. Não existe homem que possa se salvar ao opor-se com sinceridade. E a prova cabal de que é verdade o que vos declaro. de falar-vos. se. lembrai-vos de meu pedido de que não causásseis balbúrdia diante do que eu dissesse. de viver de forma privada e não exercer funções públicas. que me acusaram tão despudoradamente de tantas outras culpas. mas vistes que meus detratores. tenha sido colocado de fato pelo deus aos flancos da cidade como aos flancos de um cavalo grande e de boa raça. ou não dareis. um pouco lerdo e necessitado de estímulo. nem por vós nem por mim. penso que seja um mal bem mais grave aquele que é cometido por esses que tentam condenar à morte um homem inocente. Repugnância e Abstenção Socrática da Política Comum É possível que pareça estranho eu me encontrar sempre próximo e me dar tanto ao trabalho de fornecer conselhos a este ou àquele em particular. toda vez que eu a ouço. não o creio eu. se a palavra não soar por demais vulgar. de que nunca exerci em nossa cidade magistratura alguma. está certo. ó cidadãos. Sabeis perfeitamente. que outro como eu não nascerá facilmente. condenar-me-eis à morte. ó cidadãos. um ferrão. É como uma voz que possuo dentro de mim desde criança. aí sim haveria uma razão. Poderá sim. exceto uma vez em que fiz parte do Conselho. espoliar-me dos direitos civis. mas de não cometer injustiças ou . e parece-me que faz muito bem em agir dessa forma. aqueles dez capitães que não haviam recolhidos os náufragos e os mortos depois da batalha naval das Arginusas. E nem o poderiam. me ocupado dos negócios de Estado. depois que surgiu a oligarquia. contra o dom do deus. estando por perto como estaria um pai ou irmão mais velho. se o deus não vos mandar algum outro para substituir-me. ao contrário. e golpeais como a matar um inseto inoportuno. Que se desta vida tirasse algum proveito e se pelos conselhos que dou recebesse alguma compensação. Não. em todo lugar. e nunca me convence a realizar qualquer outra coisa. justamente no dia em que era o vosso desejo julgar em conjunto. Mais tarde. Afirmo. A mim não causarão dano nem Meleto nem Ânito. Ademais. não possui importância alguma para mim. nunca paro de exortar-vos. de qualquer forma. E naquela ocasião. que provasse ter eu recebido uma única vez compensação ou de havê-la solicitado. estando a vosso lado. Tendes conhecimento. no decorrer de todo o resto de vossa existência. Mas se estais irritados comigo como o que está em vias de adormecer com quem o desperta. lutando para que nada fosse feito contra a lei. ao se tratar de aconselhar a cidade e de ir à tribuna para falar ao povo. Daquilo que afirmo eu mesmo posso oferecer-vos provas cabais. erguereis a voz. creio que vos será útil escutar. teria sido morto também num curto espaço de tempo e não teria realizado nada de útil. aponta no ato da acusação. na tentativa de envolver em seus atos cruéis o maior número de pessoas possível. somente uma. É essa voz que me impede de me ocupar das coisas do Estado. Por tudo isso. e de que das riquezas não se origina a virtude. mas. Ânito. por algum tempo. mesmo que não só uma. e que. se de fato pretende escapar da morte. às quais. mas com sinceridade. ó cidadãos atenienses: ou dareis ouvidos a Ânito. levaram-nos à sala do Tolo e ordenaram que retirássemos de Salamina o Leon de Salamina. não me causareis maior dano que podeis causar a vós mesmos. isto significará que minhas palavras são nocivas. E se for eu mesmo a pessoa indicada pelo deus para presentear a cidade. por obediência a Ânito. e a mais outros quatros.

ó atenienses. ao passo que eu não me porto desta maneira. ao envelhecerem. Por conseguinte. que se manifeste. Com efeito. principalmente se é uma pessoa que .de quem era irmão Teages. se já corrompi algum. e aqui caberia aquele dito de Homero: 'Que não de carvalho. como é possível que a alguns agrade estar comigo tanto tempo? Vós ouvistes.É possível que alguém. como afirmam Meleto e Ânito. os corrompidos. quando falo ou atendo àquilo que acredito ser meu ofício. que. em defesa daquele que causa o mal de seus familiares. e. nem para provar que sou corajoso diante da mote. e ali Adimanto. E conseguiria indicar vários outros que Meleto poderia apresentar como testemunhas na sua acusação. repito-vos. E poderia nomear muitos outros. um se torne de boa formação moral ou não. as razões que posso apresentar em minha defesa. seja velho. seria ainda necessário que estes. nem nunca ensinei coisa alguma. e que viessem à tribuna para acusar-me e para exigir minha punição. são verdadeiras e demonstráveis. nem de pedra nasci. Acredito que só por causa disso. embora possuíssem alguma boa . algum dia. cumpro as ordens do deus. não poderá falar com o irmão a meu favor. Ali está Críton. quer que seja. se os que lhe são caro sofreram algum mal por mim causado. esteja arriscando a vida . ao pensar em si mesmo. deixei-os ir e voltei para casa. que outra razão podem ter para me defender exceto esta. tomassem consciência de que quando eram jovens eu os aconselhei a praticar o mal. que talvez esteja entre vós. tanto em público. e pessoas desse tipo. e aí está Parálio. e ali estão outros. ó cidadãos. ao que parece. Sócrates se distingue da maioria dos homens. Eu também possuo família. possa irritar-se comigo se. filho de Aríston. eu já teria morrido. são bem poucos diferentes destas. apesar de prepotente. deseja escutar-me. pais. já que não prometi ensinamento algum a ninguém. tenho três filhos. Nicóstrato. Diante disso. ou por outra virtude qualquer. e como Teódoto faleceu. em particular. e que me fizessem pagar por isso. quando eram réus em um processo. eu também trouxe alguém da minha família. não me pareceu honroso agir dessa maneira. irmãos. ao ter de enfrentar um processo menos arriscado do que este. desta forma. seria vergonhoso. Nunca fui mestre de quem. e outros. fazendo-o como homem de bem. meu dever mais alto? Com certeza. e nem mesmo àqueles que os caluniadores chamam de meus discípulos. são estas. tivesse lutado em defesa da justiça e tivesse considerado esta defesa. e. filho de Demódoco. verdadeiro ou falso que seja.e ainda Antífon de Cefísia. de seus Pais e Irmãos Credes que eu teria vivido por tantos anos se houvesse me ocupado de assuntos públicos e. meu contemporâneo e conterrâneo com sei filho Critóbulo. que os apresente agora. mas aqueles que não foram corrompidos. quem quer que me indague e deseje ouvir as minhas respostas. alguma coisa que todos os outros não tenham aprendido ou ouvido. mas de criaturas humanas'. Ora. porém. um homem que diante do justo nunca cedeu a quem quer que fosse. nem por desprezo. cedo-lhe o lugar. A uma pessoa assim. quando saímos do Tolo e os outros quatro se dirigiram para Salamina a fim de retirar Leon. porque corre pela cidade que. enraivecido com minha atitude. pobres e ricos. tenhais a certeza de que este não diz a verdade.crueldades. Porém. de quem ali se encontra o irmão Platão. e. se aquele que entre vós possuem fama de se distinguirem pela sabedoria e coragem. como privadamente. se procedessem dessa maneira. não me obrigou a cometer um ato injusto. que enviassem hoje para cá as pessoas de sua família. seja jovem. não existe homem que o tivesse conseguido! Em verdade. embora. todos falarão a favor do corruptor. além disso. eu mesmo presenciei muitas vezes. se recebo dinheiro. que é verdadeira e justa: a certeza de que Meleto mente e eu digo a verdade? Epílogo .E aquele governo. dadas por intermédios de vaticínios e sonhos. a ninguém. enfim. e algumas mais. e Aantodoro. filho de Teozótides. se existe alguma testemunha deste tipo. E não é por orgulho que me comporto assim. poderei responder da seguinte maneira: "Meu estimado amigo. mas pela minha reputação. não é desagradável. eu os vejo. sempre fui o mesmo. se deixe influenciar pelo amor-próprio ferido e. e também Lisânias de Esfeto. porque estou da mesma maneira à disposição de todos. É possível que alguém entre vós. ao fazer intimamente esta comparação. emita seu voto com raiva. cujos irmãos viveram comigo familiarmente. nunca me refutaram. que são agora anciãos. um já crescido e dois ainda crianças. não será justo que eu receba elogios ou impropérios. como é necessário. .Sócrates não quer Misericórdia Cidadãos. tenham alguma razão para me defender. e não é verdade que. suplicou clemência aos juizes. Talvez esses. em quaisquer aspectos. não afirmo categoricamente que há. e por outros meios de que se serve a providência divina para ordenar ao homem que faça alguma coisa. Muitos destes estão presentes. se não quisessem fazê-lo diretamente. ó atenienses. E disto que relatei possuo muitas testemunhas. atenienses. mas não os trouxe aqui para despertar vossa misericórdia e absolver-me". O Testemunho dos Discípulos. com seu filho Ésquino. eu falo e se não recebo. isto sim me importa acima de qualquer coisa. em toda minha existência. pela vossa e de toda a cidade. se ele se esqueceu disso. nas poucas vezes que me ocupei de coisas públicas. não me atemorizou. trouxe ao tribunal os filhos e vários de seus parentes e amigos. irmão de Teódoto. que eu disse toda a verdade: têm prazer de ouvir-me quando submeto à prova aqueles que pensam serem sábios e não o são. atenienses. ainda mais na minha idade e com o meu nome. pai de Epígeno. de quem temos aqui o irmão Apolodoro. fico calado. se entre os homens que me freqüentam. Ao fazer isso. E estas coisas. vereis que todos farão o contrário. E se há quem diga que aprendeu ou ouviu alguma coisa de mm. se aquele governo não tivesse sido deposto logo em seguida. Se de fato eu corrompo os jovens.

não fostes capazes de agüentar minha companhia e os meus discursos. riquezas. nem juraram que favorecerão a quem lhes paga. pois acreditava que seria condenado por muito mais votos. e não precisam ser sustentados como eu precioso. Penso nunca haver prejudicado ninguém por querer. Não iríeis querer então. estaríeis convencidos. ó atenienses. ó atenienses? Não é evidente que seja a mesma que me foi imposta? Qual será então? Que pena merecerei ou que multa. desta acusação. Porque é evidente que se eu. e deixo a vosso critério.A Pena Do Esperado da Pena Se eu não estou abalado. entre outras razões. mas algo bastante diferente. pensa que mereço a pena capital. ó atenienses. ó atenienses. peço se alimentado no Pritaneu. e também a mim. com cavalo. e eu menos ainda. mas que farão justiça de acordo com as leis.reputação. cargos militares e políticos e todas as outras magistraturas. aquilo a que faço jus. Contudo. talvez seja precisamente esta pena que desejastes para mim. ó atenienses. mas sim mostrar a todos que julgais com maior rigor quem encena esses dramas lastimosos e cobre a cidade de ridículo do que quem suporta com serenidade o próprio destino. que temos fama de sermos ainda alguma coisa. nem vos nem eu. E também pensa em prejudicar a mm mesmo ao declarar que sou merecedor da pena e pedir que esta pena seja aplicada a mim. atenienses não seria mantê-lo no Pritaneu com muito maior razão do que aqueles que. Porque sei muito . O que. pois sempre me considerei por demais honesto para conseguir salvar-me se me dedicasse a tais coisas e convencido de que não teria sido útil nem para mm nem para vós. ó cidadãos. eu teria de estar imbuído de uma bem ingênua vontade de viver se fosse assim tão irracional a ponto de não poder nem mesmo fazer este raciocínio. e. tivemos muito pouco tempo para nos entendermos. não nos portamos dessa maneira é o que compete a nós. não é fácil livrar-se em tão breve espaço de tempo de acusações tão graves. com apenas mais trinta votos a meu favor teria sido absolvido. e porque sempre acudi rapidamente aonde quer que eu reputasse poder proporcionar o maior bem a cada um de vós em particular. Ao que me parece. como se achassem que iriam sofrer sabe-se lá que tortura se devessem morrer e como se tornassem imortais se não fossem condenados à morte por vós. penso haver escapado das mãos de Meleto. E eu. tentando convencer-vos de que. e que vos esforçásseis ao máximo para trabalhar em prol da cidade. mesmo nestas minhas palavras de agora. envergonham a toda a cidade. Portanto. tenham conseguido triunfos nos Jogos Olímpicos. e ao do deus. o que aprendi. se é que devo ser recompensado como mereço. Estes. de acordo com o direito. como as que há entre outros povos. deixar-nos fazê-lo. e não por tão poucos. então. e mais. Os juízes não se encontram aqui para favorecer o justo. têm atitudes excepcionais. Que mereço por sempre haver agido desta forma? Algum grande bem. Porque estes vos proporcionam felicidade. que outros a agüentariam de bom grado? E ainda. E é justamente o contrário que sucede. livrar-me da condenação. eu teria sido multado em mil dracmas por não haver conseguido um quinto dos votos. não faremos coisas boas e piedosas. procurásseis ser os melhores e mais sensatos possível. em verdade. embora sendo meus concidadãos. o que é bastante evidente. se Ânito e Lícon não tivessem vindo para me acusar. exilado. no entanto. Por isso. que pena apresentarei em oposição à vossa. eu que sou acusado por Meleto. Não considero justo. Porém. que eu cometesse diante de vós atos que reputo desonestos. por meio de súplicas procurasse convencer-vos e obrigar-vos a violar o juramento. Se. se nos comportássemos assim. sim. ó cidadãos. que excelente vida seria a minha. Segunda Parte . e por ter desprezado aquilo que atrai a maioria. Portanto. a serviço da eterna magistratura dos Onze? Uma pena em dinheiro e permanecer enjaulado enquanto não for paga? Mas é exatamente a mesma coisa que a anterior. injustos e vis. devo pedir. mudando sempre de país para país. com o que acaba de ocorrer. que proíbem que uma pena de morte seja aplicada em apenas um dia. seria culpado de não crer nos deuses. E por temer o que eu deveria agir dessa forma? Talvez por temer sofrer aquilo que Meleto exige para mim e que eu declaro não saber se é bom ou mau? E em troca desta pena devo escolher outra entre aquelas que eu sei serem más? Deverei solicitar a prisão? E por que motivo deverei viver preso. julgar o que será para vós e para mim o melhor. por não haver usufruído em paz. mas. de impiedade. antes de qualquer coisa e de vós mesmos. o de terem votado pela minha condenação. mediante súplicas. não é necessário que vos habitueis a isso. E acredito que se houvesse leis entre nós. biga ou quadriga. atenienses. Nem vos conviria. ao longo da minha existência. Não. que enquanto vós. mas para julgar o justo. Que será apropriado para um pobre benfeitor que precisa de tempo para aconselhar-vos nos vossos assuntos? O que mais seria conveniente a esse homem. então. e as agitações e conspirações que acontecem nas cidades. Este homem. aqui presente. não é isso. nesta idade. tanto que qualquer forasteiro poderia imaginar que aqueles atenienses que se distinguem por sua virtude e que seus concidadãos elegem à magistratura e outras honras não são em nada melhores que as mulheres. e mesmo assim não logrei convencer-vos. ao fato de não haver sido apanhado de surpresa. e sim em mais. isso deve-se. porque não possuo dinheiro para pagá-la. Acredito nos deuses mais do que qualquer um dos meus acusadores. talvez julgais notar quase o mesmo sentimento de ofensivo orgulho que acreditáveis ter percebido quando falava a respeito de suplicar e despertar comiseração. e não só haver escapado delas. Pedirei o exílio? Sim. me causa mais estranheza é o grande número de votos favoráveis a mm . tentar influir nos juízes e. perseguido em todos os lugares. mesmo assim. interesses particulares. que minha companhia foi tão desagradável que procuras agora livrar-vos dela. mas sim infomá-los e convencê-los. eu vos ensinaria que.

se vos dissesse que significaria desobedecer ao deus e que. não de discursos. homens que me mandais matar. por Zeus. quando eu ia cometer um erro. eu e os meus acusadores. sim. aqueles que desejarem injuriar a cidade vos impingirão a fama e a acusação de terdes matado Sócrates. a da divindade. Neste momento. eles igualmente. lamentos e gemidos. ao contrário. Ora. senhores. nada obsta que nos entretenhamos enquanto dispomos de tempo. eles. eles serão tanto mais importunos quanto são mais jovens. Agora. foi algo prodigioso. Críton. os jovens acorrerão a fim de me ouvir. atenienses. Mas não possuo dinheiro e não posso fazer isso. um sábio. gostaria de conversar com respeito ao que se acaba de suceder. Quer no tribunal. e que uma vida desprovida de tais análises não é digna de ser vivida. mas de atrevimento e descaramento. dignos de crédito e confiança. condenado por vós à morte. Quero explicar-vos. Se esperásseis mais algum tempo. Com efeito. de fato. em cada perigo. eu vo-lo asseguro. mas aos que votaram pela minha morte. e se não os repelir. Não dirijo essas palavras a todos vós. ó atenienses. que sou um velho vagaroso. chamar-me-ão de sábio. Eu vos afianço. em vez de tapar a boca dos outros. poderia ter-me aplicado uma multa que conseguisse pagar. Algum de vós talvez pudesse contestar-me: "Em silêncio e quieto. porque muito mais difícil é escapar à maldade. Não se tenha por difícil escapar à morte. é a mais honrosa e mais fácil. . ó Sócrates. que eles mesmos garantirão. Por certo. mas o resultado será inteiramente oposto. muitas vezes se pode escapar à morte arrojando as armas e suplicando piedade aos perseguidores. serei perseguido por seus pais e demais parentes. evitareis que alguém vos repreenda a má vida. até agora eu os continha e vós não os percebíeis. Eu aceito a pena imposta. enm é inteiramente eficaz nem honrosa. não devo eu. Aos que o Absolveram Com os que votaram pela absolvição. E esses homens. como a amigos. Contudo. por conseguinte. Para esses mesmos. porque. apesar de que eu não o seja. convencendo os mais velhos. Se imaginais que. e vossa irritação será maior. ágeis e velozes. assim. não deve ninguém lançar mão de todo e qualquer recurso para escapar à morte. preparar-se para ser o melhor possível. ficai comigo mais um pouco. tais como costumais ouvir dos outros. porém. ela corre mais ligeira que a morte. e. nas batalhas. quero fazer-vos um vaticínio. acreditar-me-iam menos ainda. por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir. meditar todos os dias sobre a virtude e acerca dos outros assuntos que me ouvistes discutindo e analisando a meu respeito e dos demais. quer na guerra. não acreditaríeis e pensaríeis que estivesse sendo sarcástico. nem enquanto subia aqui para o tribunal. fazendo e dizendo uma porção de coisas que declaro indignas de mm. se antes achei que o perigo não justificava indignidade alguma.Após a Condenação Aos que Votaram Contra Por não haverdes aguardado mais um pouco. Multo-me então em trinta minas. matando homens. tem muitos outros meios de escapar à morte quem ousa tudo fazer e dizer. Vós o fizestes supondo que vos livraríeis de dar boas contas de vossa vida. a própria natureza satisfaria o vosso desejo. eu. se eu os repelir. exceto se desejeis multar-me de uma quantia que eu tenha a possibilidade de pagar. não teria me infligido mal algum. pela mais lenta das duas. Terceira Parte . serão garantes dessa quantia. o sentido exato de que me aconteceu agora. ao sair de casa. não seria possível que eu vivesse em silêncio. esta outra. se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer para escapar à justiça. despeço-me de vós que me condenastes. no entanto. é evidente que. ó atenienses. Porque. tampouco me pesa agora da maneira por que me defendi. que o castigo os vos alcançará logo após a minha morte e será. fomos apanhados. O que me ocorreu senhores juízes. adito o seguinte: talvez imagineis. A usual inspiração. porém é difícil convencer-vos. Por conseguinte. essa não é uma forma de libertação. eu. Acerca do futuro. Engano! Perdi-me por falta. já distante da vida e próxima da morte. muito mais folgo em morrer após a defesa que fiz. Bem sabeis a minha idade. a vós é que chamo com tino de juízes. nem quando ia dizer alguma coisa. a malvadez. quando estão para morrer. e há quem o faça. que me perdi por falta de discursos com que vos poderia persuadir. como o maior dos males. Sim. muito mais duro que a pena capital que me impusestes. meus condenadores. tinha de ser assim e penso que não houve excessos. que Platão. condenados pela verdade a seu pecado e a seu crime. do que folgaria em viver após fazê-la daquele outro modo. não poderias viver após ter saído de Atenas?" Isso seria simplesmente impossível. pela mais ligeira. serão estes mesmos que me farão perseguir. multo-me em uma mina de prata. agora. Mas vedes. Se eu possuísse dinheiro. Por outro lado. mas a advertência divina não se me opôs de manhã. Portanto. sempre foi rigorosamente assídua em opor-se a ações mínimas. vamos partir. os que vos quiserem censurar. se vos dissesse isto. Critóbulo e Apolodoro querem que eu me multe em trinta minas. Com este vaticínio. acaba de me ocorrer o que vós estais vendo. o que se poderia considerar.bem que aonde quer que eu vá. não estou habituado a considerar-me merecedor de mal algum. Serão mais numerosos os que vos pedirão contas. estais enganados. é isto que vos digo. senhores. como aqui. enquanto os magistrados estão ocupados e antes de ir para onde devo morrer. eis-me chegado àquele momento em que os homens vaticinam melhor. Poderei pagar-vos apenas uma mina de prata. Se vos dissesse que esse é o maior bem para o homem.

e os deuses não descuidam de seu destino. ¹ Rei lendário de Creta. Verdade é que não me acusaram e condenaram com esse modo de pensar. lá distribuem a justiça. passar o tempo examinando e interrogando os de lá como aos de cá. se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha. cantava e tocava a lira com tal perfeição que até as feras se aquietavam e vinham deitar-se a seus pés. na mocidade. do outro lado. vejo claramente que era melhor para mim morrer agora e ficar livre de fadigas. filho de Europa e de Zeus. se isso é verdade. senhores juízes. marido de Pasífae. Platão nasceu em Atenas. castigai-os. mal algum. como se costuma dizer. o que é mais. ² Célebre aedo da era pré-homérica. Platão estudou também os maiores présocráticos. deveis bem esperar da morte e considerar particularmente esta verdade: não há. quer na vida. se vós. manifestando-se na expressão estética de seus escritos. digo que é uma vantagem. que o acompanhou durante a vida toda. Ajax de Telamon e outros dos antigos. Morrer é uma destas duas coisas: ou o morte é igual a nada. por serem imortais pelo resto do tempo. não me seria desagradável comparar com os deles os meus sofrimentos e. toda a duração do tempo se apresenta como nada mais que uma noite. Éaco. que maior bem haveria que esse. em Mégara. só tenho um pedido a lhes fazer: quando meus filhos crescerem. tanto assim que várias partes de suas obras não têm verdadeira importância e valor filosófico. Disso tenho agora uma boa prova. estou pronto a morrer muitas vezes. se eu. que tenham morrido por um sentença iníqua. repreendei-os. contrapondo a essa as demais noites e dias de nossa vida. e meus filhos também. Aos vinte anos. se devêssemos identificar uma noite em que estivéssemos dormindo tão profundamente que nem mesmo sonhássemos e. Platão travou relação com Sócrates . senhores juízes. Depois da morte do mestre. para sujeitar a exame aquele que comandou a imensa expedição contra Tróia. Quanto não se daria. se não fosse uma ação boa o que eu estava para praticar. para o homem bom. com quem seria uma felicidade indizível estar junto. se a tradição está certa. que maravilhosa vantagem seria a morte! Bem posso imaginar que. Se. Por isso é que a advertência nada me impediu. conversando com eles. . Se não há nenhuma sensação.. a morte é como a mudança daqui para outro lugar e está certa a tradição de que lá estão todos os mortos. e não sente nenhuma sensação d coisa nenhuma. por não cuidarem do que devem e por suporem méritos. Platão retirou-se com outros socráticos para junto de Euclides. ao chegar ao Hades. O meu não é conseqüência do acaso. origem de seitas místicas. entretanto isto prejudicou sem dúvida a precisão e a ordem do seu pensamento. atormentai-os com os mesmíssimos tormentos que eu vos infligi. entre outros motivos. livre dessas pessoas que se intitulam juízes. bem posso imaginar que. porque a usual advertência não poderia deixar de opor-se. porque. sujeitando-os a exame! Os de lá absolutamente não matam por uma razão dessas! Os de lá são mais felizes que os de cá. então. eu de modo especial acharia lá um entretenimento maravilhoso. é chegada a hora de partirmos. A Vida e as Obras Diversamente de Sócrates . segundo consta. livre curso ao seu talento poético. cuida que é. A que devo atribuir isso? Vou dizer-vos: é bem possível que seja um bem para mim o que aconteceu e não é forçoso acreditar que a morte seja um mal. de pais aristocráticos e abastados. é segredo para todos. mas na suposição de que me causavam dano: nisso merecem censura.manifestação característica e suma do gênio grego deu. Quem segue melhor destino. Se vós assim agirdes. sábio legislador. senhores juízes? Se. Triptólemo e outros semideuses que foram justiceiros em vida. se a morte é isso. não valeria a pena a viagem? Quanto não daria qualquer de vós para estar na companhia de Orfeu. a que se deu o nome de orfismo. eu terei recebido de vós justiça. Hesíodo e Homero? Por mm. se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude. em nenhuma ação ou palavra.¹ Radamanto. No entanto. a ver quem deles é sábio e quem. ou Ulisses. homens e mulheres. Atribuía-se-lhe a invenção da lira e dos rituais mágicos e divinatórios. sem ter nenhum. Vós também. em 428 ou 427 a.mais velho do que ele quarenta anos . assim sendo. ou Sísifo? Milhares de outros se poderiam nomear. se estiverem supondo ter um valor que não tenham. não o sendo. Não me insurjo absolutamente contra os que votaram contra mm ou me acusaram.e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre. quantas vezes ela me conteve em meio de outros discursos! Mas hoje não se me opôs vez alguma no decorrer do julgamento.no entanto. a gente vai encontrar os verdadeiros juízes que. Logo.² Museu. quer na morte. já não digo um homem comum. Façamos mais esta reflexão: há grande esperança de que isto seja um bem. trata-se duma mudança. do lugar deste mundo para outro lugar. Minos. como vos fiz eu. quando encontrasse Palamedes. eu.C. mas o próprio rei da Pérsia acharia fácil enumerar tal noite entre as outras noites e dias. exceto para a divindade. de antiga e nobre prosápia. pensar e dizer quantos dias e noites de nossa existência vivemos melhor e mais agradavelmente do que naquela noite. que era filho do povo. Temperamento artístico e dialético . uma emigração da alma. Bem. juiz dos Infernos com Éaco e Triptólemo. eu para a morte. ou. Quando discípulo de Sócrates e ainda depois. vós para a vida.

mais ou menos. apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação. o mito e a poesia confundem-se muitas vezes com os elementos puramente racionais do sistema. muitos são apócrifos. os valores de beleza. esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. Deve. até o tempo do imperador Justiniano (529 d. isto é. então. outros de autenticidade duvidosa. de que admirou a veneranda antigüidade e estabilidade política. errôneo. angustioso.Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico. do socratismo ao aristotelismo.). Foi assim que o filósofo. onde surgiu. onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento). para chegar ao conhecimento intelectual. que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio. erro e mal-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo. dos jardins de Academo. em face do mal. ainda que as conclusões sejam. nascer e perecer de todas as coisas. a paixão contrasta com a razão. e se distinguem diametralmente de seus opostos. religioso da filosofia. racional em geral. Este fim prático realiza-se. através da especulação. universal. isto é. não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou com desterro de Dion. conceptual. não pode explicar o conhecimento intelectual. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates . parte do conhecimento empírico. Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento. que. voltou duas vezes . a precisão. conhecimento das coisas pelas causas. da qual a filosofia .C. Visitou o Egito. universal e imutável. considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo.C. pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser. Segundo Platão. o conhecimento humano integral fica nitidamente dividido em dois graus: o conhecimento sensível. a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita. sem saber porque o estão. lógica e formal. que estão efetivamente presentes no espírito humano. Mas diversamente de Sócrates. tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion. o saber sensível. que ilumina o primeiro conhecimento. o absoluto (do conceito). sensível. voltou a Atenas. onde conheceu Dionísio o Antigo.como lemos no Fédon . a opinião verdadeira e o conhecimento intelectual. Morreu o grande Platão em 348 ou 347 a. mutável e relativo. Adquiriu. precisamente porque é ciência.não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. ao passo que o segundo. pelo eros platônico. o sentido se opõe ao intelecto. tem o caráter científico.. até a sua morte. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos . todavia. porém. segundo certa ordem cronológica. da desordem que se manifesta em especial no homem. a toda a realidade. após a morte de Dionísio o Antigo. no seu valor. ao campo antropológico e moral . porém. mas que dele não se pode derivar. que correm sob o seu nome. de que o saber intelectual transcende. Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. Caído. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo. No fundador da Academia. Platão foi preso por Dionísio. assim em Platão a filosofia tem um fim prático. Platão. atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. não sabe que o é. com oitenta anos de idade. ao contrário de Sócrates. isto é. sabe que o é. Este caráter íntimo. Platão como Sócrates. cair no erro sem o saber. Poder-se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim. ao contrário. do conhecimento da ciência. em Platão é tornado especialmente vivo. particular. embora verdadeiro. a Sicília. e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388). para o qual é atraído por um amor nostálgico. verdade e bondade.à Dion. poder construir indutivamente o conceito da sensação. A diferença essencial entre o conhecimento sensível. Faltam-lhe ainda o rigor. absoluto.Daí deu início a suas viagens. Platão fundava a sua célebre escola. imutável. Assim.em 366 e em 361 . A forma dos escritos platônicos é o diálogo. interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. e o conhecimento intelectual. como também Platão. a Itália meridional. Dos 35 diálogos. Sócrates estava convencido. cunhado daquele. Em Atenas. Platão. O conhecimento sensível deve ser superado por um outro conhecimento. que representa a evolução do pensamento platônico. foi vendido como escravo. Voltando para Atenas. Libertado graças a um amigo. estando. O conhecimento sensível. na segunda. conceptual. fealdade. moral. pois. O Pensamento: A Gnosiologia Como já em Sócrates. e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos. além de ser um conhecimento verdadeiro. transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim. filosófico. está nisto: o conhecimento sensível. que tem por sua característica a universalidade. não admite que da . a imutabilidade. donde pode passar indiferentemente o conhecimento diverso. mutável e relativo. mas julgava. tomou o nome famoso de Academia. que limitava a pesquisa filosófica.em três grupos principais. porém. no entanto. da opinião do vulgo e dos sofistas. o conhecimento conceptual. como efetivamente. que falta a gnosiologia socrática. e ainda menos pode o conhecimento sensível explicar o dever ser. da opinião. Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica. porém. humano. ao ensino filosófico e à redação de suas obras. chegar à contemplação do inteligível. perto de Colona. porquanto no conhecimento humano. particular. A gnosiologia platônica. Estas duas viagens políticas a Siracusa. o método. ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão. pelo ano de 387. na desgraça do tirano pela sua fraqueza. é a grande ciência que resolve o problema da vida. onde o corpo é inimigo do espírito. intelectualmente. transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. onde levantou um templo às Musas. não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso. idênticas. uma herdade. povoado da Ática.

embora superior à matéria. donde dependem todas as demais idéias. desenvolvendo. A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos e na importância de explicar os atributos do ente de Parmênides . pois. e estas contrapõe-se a matéria obscura e incriada. uma base real. imutáveis e eternos (Sócrates). com ele. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias. isto é. é a realidade suprema. a idéia do Bem. como de um cárcere. a alma humana. em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos. Deve portanto. transferidos da ordem lógica à ontológica. material. Do mesmo modo. dá ao conhecimento racional. o mundo dos inteligíveis. Teoria das Idéias Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos. a ordem e a harmonia. diversamente de Sócrates.opinião verdadeira . que está no vértice. negar a existência do fieri. durante a vida terrena. Deste mundo material e contigente. para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na sua efetiva realidade. assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem. Ele.no dizer de Platão . Portanto. sensível. de natureza espiritual. devido à sua natureza inferior. esta libertação. lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível. Este mundo ideal. além do fenomenal. através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. ao Demiurgo e à matéria). formas abstratas do pensamento. donde têm de ser oportunamente tirados. todavia. logo. são realidades objetivas. imutáveis. dá ao conhecimento empírico. de superioridade. no sentido platônico.particular. caído no mundo material como que por uma espécie de queda original. dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte. As Almas A alma. um objeto próprio: as idéias eternas e universais. exagerando. representações intelectuais. personalizados. existir. que se obtém mediante a divisão e a classificação. portanto. Desta personalidade e atividade criadora . ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. contigente e transitório (Heráclito). um objeto adequado ao conhecimento conceptual. libertar-se do corpo. no máximo. assim como o Demiurgo. como as concebiam Heráclito e os sofistas . serão universais. mas apenas é possível. relembrar conforme a lei da associação. Visto serem as idéias conceitos personalizados. o dever ser. quer dizer. No entanto. e sim a ocasião para fazê-los reviver. A Metafísica . terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência. que são os conceitos. absoluto. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica.transcende inteiramente o mundo empírico. ou alguns conceitos da mente. centro em torno do qual gravita todo o seu sistema. exasperando a doutrina da maiêutica socrática. E. é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser. o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores. racional . modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes. que é papel da dialética (lógica real.é. Ora. no sistema platônico. Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. em que vivemos. uma base e um fundamento reais. Assim. A ciência é objetiva. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia. não há ciência. sem. necessários.sensação . O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem. de um mal radical. Estas realidades chamam-se Idéias. melhor.As Idéias O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias. As idéias não são. relativa . ordenadora . religiosos e místicos.se possa de algum modo tirar o conceito universal. deveria ser. Logo. tudo no mundo é individual. inatos no espírito humano. tanto no homem como nos outros seres. Além disso. para ser verdadeiramente tal. de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos. e todos os valores (éticos. dotado o Demiurgo o qual. conceptual. um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis. em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma. imutável. é inferior às idéias. Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas idéias respectivas.que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. Deve. à qual comunica o movimento e a vida. mutável. à opinião verdadeira. inteligível. Esse conhecimento. desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria. deveria representar o verdadeiro Deus platônico. diz que os conceitos são a priori. e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes constituem a origem. situado na esfera celeste. um outro mundo de realidades.ou. em geral. Tal a célebre teoria das idéias. porquanto Platão é um pampsiquista. são ordenadas em sistema hierárquico. se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível. Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas. Todas as idéias existem num mundo separado. anima toda a realidade. pelo contrário. um conhecimento sensível verdadeiro . falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. os nossos conceitos são universais. E. aliás. Aqui devemos lembrar que Platão. do outro. de um lado. ontológica) esclarecer. estando no vértice a idéia do Bem. alma de toda filosofia platônica. começa e progride . científico.

depende da religião. É a clássica concepção grega do eterno retorno. ao redor. espacial . que residiria no peito. mutável. não no sentido do progresso. ao contrário. o mundo físico percorre uma grande evolução. Logo. a alma do corpo. o cosmos platônico. de racional no vira-ser da experiência. morrer aos sentidos. destarte. o inteligível. beleza . dotado de atividade sensitiva e vegetativa. e a concupiscível (apetite). a natureza do homem é racional. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas. tudo recomeça de novo. O Mundo O mundo material. para o espírito. E. derivando daí a virtude da temperança. ao mundo. antes de tudo. separando-se. segundo Platão. na razão realiza o homem a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem. a alma concupiscível. a virtude suma. as almas dos astros.depende tudo quanto há de positivo. etc. da razão. a saber. de fato. bondade. e assim por diante. que o mortifica inteiramente.indeterminada. Conforme a cosmologia pampsiquista platônica. e é o devir ordenado.ser. A terra está no centro. A alma não encontra no corpo o seu complemento. virtude fundamental. os astros. Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são subordinadas à alma racional. o intelecto é impedido pelo sentido da visão das idéias. O mundo. passiva. o homem realiza a sua verdadeira natureza: a contemplação intuitiva do mundo ideal. dos homens. Noutras palavras. irracional. donde a virtude da fortaleza. ao mesmo tempo. Moral Segundo a psicologia platônica. deve principiar a sua vida moral sujeitando o corpo ao espírito. e mediante a morte libertadora. que desvencilha para sempre a alma do corpo. antes de tudo. em forma de esfera e. na separação da alma do corpo.depende. juntamente com a sapiência. e é a opinião verdadeira. pois. Segundo Platão. ao corpo.ou partes da alma: a irascível (ímpeto). pois. para que se realize a sabedoria. a justiça. o universo sensível. deve existir um princípio de uma e outra. na morte. Então a realização da natureza humana não consiste em uma disciplina racional da sensibilidade. mas na sua final supressão. tudo que há de negativo na experiência. segundo Platão. condenadas eternamente. em especial. conexa ao clássico dualismo grego. mas um obstáculo . e agir racionalmente é filosofar. a filosofia. E diga-se o mesmo da vontade a respeito das tendências. informe. Quanto ao destino das almas depois da morte. a união da alma espiritual com o corpo é extrínseca. temperança. as idéias e a matéria. à espera de que a morte solte definitivamente a alma dos laços corpóreos. No seu conjunto. a vontade no impulso. visto que a alma humana racional se acha. As que cometeram pecados inexpiáveis. Consoante a astronomia platônica. essencial da alma é a de conhecer o mundo ideal. tais funções seriam desempenhadas por outras duas almas . dependentes e inferiores. o destino da alma depende da sua filosofia. unida a um corpo. As que cometeram pecados expiáveis. felicidade e virtude. embora a esta naturalmente inferior.que Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso de alma e de corpo: o intelecto encontra um obstáculo nos sentidos. Em todo caso. e se realiza com a morte. explicando-se deste modo o movimento circular deles. dos mistérios órfico-dionisíacos. e. o mundo. chegado o grande ano do mundo.prudência. a contemplação. transcendental: contemplação em que se realiza a natureza humana. então. Temos.mediante a filosofia. fortaleza.assim como a alma racional residiria na cabeça. que devem ser trabalhosamente relembradas. como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não-saber. Mas a alma está no corpo como num cárcere. apenas mediante uma disciplina ascética do corpo. por conseqüência. haveria. chamadas depois cardeais . unida ao corpo e aos sentidos. do bem e do mal. cravados em esferas ou anéis rodantes. que domina também a grande concepção platônica. Em geral. e filosofar é suprimir o sensível. uma alma do mundo e. e domine também a alma irascível. O dualismo dos elementos constitutivos do mundo material resulta do ser e do não-ser. Agir moralmente é agir racionalmente. está entre o ser (idéia) e o não-ser (matéria). Tal harmônica distribuição de atividade na alma conforme a razão constituiria. uma classificação. mas no da decadência. para impedir que o primeiro seja obstáculo ao segundo. Entretanto. que é. que residiria no abdome . 2. introduzindo no caos a alma. na realidade. uma dedução das famosas quatro virtudes naturais. resulta da síntese de dois princípios opostos. as estrelas e os planetas. transparentes. a idéia. eis o pensamento de Platão: em geral. um ciclo de dez mil anos. distingue ele três categorias de alma: 1. que aparecem no mundo. é necessário que a alma racional domine. sendo que a alma racional é. Entretanto.sobre a base da metafísica platônica da alma. são esféricos. Da idéia . que é separação espiritual da alma do corpo. neste mundo. Da matéria . partes da alma. esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento. depois. da ordem e da desordem. . A faculdade principal. o seu instrumento adequado. terminados os quais. a única virtude verdadeiramente humana e racional. verdade. e da qual depende totalmente a ação moral. princípio de movimento e de ordem. de fato. justiça . até violenta.

a dos trabalhadores ocupa o ínfimo lugar. são a República. todas as atividades presididas pelas Musas . ascética do estado platônico.consoante seu pensamento . antes de tudo. o comunismo dos bens. não uma sociedade de indivíduos semelhantes e iguais. no organismo do estado. traça o seu estado ideal. Se a natureza do estado é. seria mister acrescentar uma quarta categoria de almas. sendo estes naturalmente superiores àqueles . as quais. mas. libertados da vida temporal para sempre. a justificação da sociedade e do estado? Platão acha-a na própria natureza humana. o Político e as Leis. E não hesita em sacrificar totalmente os interesses inferiores aos superiores. visto a alma concupiscível estar sujeita à alma racional. a ordem da sociedade humana. econômicos e. As que viveram conforme à justiça. conhecem a realidade das coisas. videntes de idéias. a de organismo ético-transcendente. a direção da república. a educação deve. sobretudo. enfim.tornada depois sinônimo de imanentismo. a dos produtores. é necessária porquanto os trabalhos materiais. o reino do espírito. À classe dos filósofos cabe dirigir a república. mas dessemelhantes e desiguais. sociais. contemplam eles o mundo das idéias.um altíssimo valor moral terreno. O estado deve. por conseqüência. especialmente. Na República.pelo povo. e estão. pois este fim supremo é unicamente a contemplação das idéias. as dos filósofos. estão efetivamente em contraste com os interesses coletivos. espiritual.diz Platão . à altura de orientar racionalmente o homem e a sociedade para o fim verdadeiro. que representam um desenvolvimento social e uma sistematização estável da divisão do trabalho no âmbito de um estado. Platão tende a desvalorizar a grandeza militar e comercial. Segundo Platão. a ação oposta. mas pela grande importância e função moral por ele atribuída ao estado. da ginástica. a quem cabem as virtudes mais elevadas. Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e. Deveria ela equilibrar. os guerreiros receberam a educação. A educação das classes superiores importa. educá-los para a virtude.. pelo desprezo com que era considerado por Platão . não. pois. em castas. encarnam-se de novo. o estado em nada se interessa . e ocupar-se com o seu bem estar material apenas secundária e instrumentalmente.submetida às duas precedentes. político-religioso.agricultores e artesãos . consistindo sua virtude apenas na obediência. Esta educação é dispensada essencialmente às classes superiores . cultivada apenas para fins práticos e morais. mas o sábio. À classe dos produtores. são incompatíveis com a condição de um homem livre em geral. todavia. Na hierarquia das classes. se preocupa com espiritualizar os homens. em geral. As almas destas últimas duas categorias nascem de novo. Os guerreiros representam a força a serviço do direito. respectivamente. Na concepção ideal. com a sua natureza gentil e civilizadora. Com efeito. porém. à primeira vista. estatais. consoante Platão. Tinha ele compreendido bem que os interesses particulares. A música . idolatrando a grandeza moral. A essência do estado seria então. a ordem ideal do mundo e. a família. por conseguinte. . porquanto cada homem precisa do auxílio material e moral dos outros. etc. fundamentalmente. por isso. de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos. ética. portanto.o homem prático e empírico. promover. e.ao menos positivamente . fortificadora. Desta maneira é concebido o estado educador de homens virtuosos. Três são. Qual é. o indivíduo ao estado.3. consequentemente. dos quais e juntamente com os quais. tal instituição. À classe dos guerreiros cabe a defesa interna e externa do estado. e.não certamente por estes motivos. inteiramente entregues à conservação moral e física do estado. Tal especificação e concretização da divisão do trabalho seria representada pela instituição da escravidão.abrangendo também a poesia. o fim supremo.é. pois. Platão reconhece a . portanto. pode causar impressão. ateísmo . Ao contrário. estas classes: a dos filósofos.e pelos gregos em geral . que Platão propugna para as classes superiores. o estado ideal deveria ser dividido em classes sociais. cabe a conservação econômica do estado.o trabalho material. estar substancialmente nas mãos do estado. não realiza tanto as obras exteriores. como veículo dos valores transcendentais da Idéia. privados. a dominação e a riqueza. servis. representado pelos filósofos. materialismo. o bem espiritual dos cidadãos. pela plebe. a obra fundamental de Platão sobre o assunto. Tal atividade política constitui um dever para o filósofo. e. cuja formação é inteiramente material e subordinada. Entretanto. essencialmente. como única e total expressão da eticidade transcendente. porquanto representa precisamente . a sua finalidade primordial é pedagógicoespiritual. segundo as virtudes que se referem a cada classe. irascível e concupiscível no organismo humano. A Política Os escritos em que Platão trata especificamente do problema da política. o pensador. em chocante contraste com os estados e a política deste mundo. a riqueza. o verdadeiro político não é . a distinção em classes. a dos guerreiros. dos filósofos. da razão. música e ginástica. O grande. a história. corresponderiam respectivamente às almas racional. das mulheres e dos filhos.especialmente aos filósofos. domésticos. para receber a pena ou o prêmio merecidos. Segundo o pensamento que lemos no Fédon. Platão foi levado a esta concepção política . também das outras duas classes. pelo vulgo.eticamente considerados. então.

Apesar de repelir os deuses da mitologia popular e poética. sendo considerada a arte como uma espécie de loucura divina. uma espécie de revelação superior. É este o último esforço grandioso do pensamento grego para resolver o problema filosófico. aquele mesmo ideal inteligível que a filosofia atinge abstratamente. A doutrina pitagórica da salvação está muito próxima dos mistérios do orfismo. já que Pitágoras acredita que os números são o princípio e a chave de todo o universo. subordinados ao Demiurgo. deuses eternos. Para Entender Platão Platão. que tem por objeto a Beleza eterna e os graus que levam até ela . que viveu no século V antes de nossa era e que sabemos ter sido um ilustre matemático. Seja como for. o pensamento de seu mestre Sócrates.dada esta sua inferior natureza teorética. mais ou menos. Chegamos assim ao princípio da era vulgar. na sua pureza lógica. de mania.. como também uma tendência para uma sempre maior sistematização do pensamento platônico. não pode tornar-se objeto de religião. Seu culto essencial é representado pela ciência e. narrados em torno dos deuses e dos heróis. a arte nos atrai para o verdadeiro.embora transcendente. média e nova. isto é. animados e racionais.importância da ginástica. como para o falso. no conjunto do seu pensamento. mas não passa de uma importância instrumental e parcial. espiritual e ético. orienta-se para o ecletismo.em antiga. amor à sabedoria). No entanto. a Academia. em oposição ao seu gênio e ao gênio artístico grego. A Academia A escola filosófica fundada por Platão. as aparências coloridas do universo. e subordinadas a esta espécie de Deus supremo. As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. a arte deveria ser. desenvolvendo o dualismo no panteísmo emanatista. inclusive Homero. Os pitagóricos acreditam na . Ao lado. É governada por discípulos. até querer banidos de seu estado ideal os poetas. fundador de sociedades iniciáticas que visam à salvação de seus membros. algo como que uma filosofia. pois. inicialmente. Tratemos. gnosiologicamente. Atuando cegamente sobre o sentimento. Pitágoras (que teria inventado a palavra filosofia. sobretudo graças a Carnéades (213-128 a. os assim chamados deuses visíveis. Daí a sua aversão ao culto idolátrico dos exercícios físicos. como a ciência. este absoluto . que Platão já tinha valorizado no mito.C. ou seja. A antiga academia dura até o ano de 260 a. encontramos em Platão uma tentativa de valorização da arte em si. que não só reencontramos em Platão. Todavia. Por conseqüência. porquanto deveria atingir intuitivamente.cronologicamente e logicamente . assim como a natureza do som é função do comprimento da corda que vibra. sucessores de Platão. é o primeiro grande filósofo da tradição ocidental a deixar uma obra escrita considerável. Em todo caso. pelos mitos fantásticos e imorais. dissimulam relações numéricas que constituem o fundo das coisas: idéia capital. Platão hostiliza o antromorfismo. provavelmente também pela influência de Aristóteles . sobreviveu-lhe por quase um milênio. pois . O motivo prático é que a arte . prático outro.. também é um místico.C. A ela pertencem homens insignes e de grande doutrina. Platão pode. a academia platônica sobreviverá ainda e tomará uma última forma e feição com o neoplatonismo.o Bem e as idéias . encarnada em formas sensíveis. infinitamente diversas.torna-se outro tanto danosa no campo moral. cópia não de essências. O motivo teorético é que a arte resultaria como cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico.de saída. cujas divindades são os astros e o cosmo. Quanto à avaliação da religião positiva.C. Segue-se na média academia.C.deveria ser um itinerário especial do espírito para o Absoluto e o inteligível. precisamente denominados pré-socráticos. pois o prevalecer da cultura física do corpo torna os homens grosseiros e materiais. como também o pensamento dos filósofos anteriores. anteriores e contemporâneos . prevalece a desvalorização por dois motivos. que toma uma orientação cética. a nova academia volta ao antigo dogmatismo e. aceita francamente o politeísmo.a religião helênica. nascido em 428 a. impura fonte gnosiológica . A arte. a obra de Platão só pode ser entendida em função de outros pensamentos. Costuma-se dividila . semelhante à religião e ao amor. de evocar Pitágoras de Samos. teorético um. É um politeísmo estranho. dadas a sua impersonalidades e inatividade a respeito do mundo. sua matemática desemboca numa metafísica. mas de fenômenos. até o VI século d. pela virtude que deriva necessariamente da ciência. e valorizando o elemento religioso positivo. reitores. Vai-se acentuando a importância da experiência. Na realidade.reformada e purificada . portanto. denominadas por Platão. quase um século. segundo os interesses do último Platão. para o bem como para o mal. bem como à idéia do Bem e às outras idéias.). como religião do seu estado ideal. que é já uma cópia do mundo ideal. conceptual. Entretanto. estão as demais idéias. nem sequer da religião assim chamada natural.como o amor. conservar . Finalmente. prevalecendo simpatias pitagóricas . mas que está na origem da ciência moderna. inferior à ciência. depois. que foi um dos indícios da decadência grega. A Religião e a Arte A idéia do Bem seria o centro da religião platônica.

4. Sócrates fá-lo compreender que. E as perguntas feitas por Sócrates levam o interlocutor a descobrir as contradições de seus pensamentos e a profundidade de sua ignorância. porém. aos quais traiu para assumir a liderança do outro partido). A encarnação é tão somente um encarceramento provisório para a alma. devemos nos interessar. como punição de faltas passadas. torna-se discípulo de um cidadão de origem modesta. com a capitulação de Atenas. a noite ao dia. pois ninguém é "maus voluntariamente". aristocrata jovem e belo. 3. acha que os elementos constitutivos do mundo são ordenados por uma Inteligência cósmica. Esta máxima gravada no frontão do templo de Delfos.com inigualável poder marítimo . "O Ser é. todavia. que. Sócrates tem sessenta e três anos quando.. Devemos agora. Em outras palavras: não existe verdade absoluta. Diremos uma palavra sobre os sofistas. por iniciativa de um certo Anytos (filho de um rico empreiteiro e antigo amigo dos Trinta. Se conhecessem verdadeiramente a justiça. antes de tudo. o real é o Ser único. cujo ceticismo é engendrado pela multiplicidade de doutrinas contraditórias. segundo um ritmo regular. pertencem a um mundo que não o das aparências.É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de . mas tão somente opiniões relativas ao homem (este vinho. "Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". Sócrates não pretende. velho e muito feio (seus olhos salientes e seu nariz achatado são célebres). Ajuda-nos tão somente a refletir. mereça ser finalmente libertada de toda materialização. mas uma cidade cuja potência é antes moral e espiritual do que material. o não-ser é a mudança (mudar é deixar de ser o que se é para ser o que não se é). sem exceção. de novo no poder. o arrasamento dos famosos muros (uniam a cidade ao Pireu) pelos esparciatas vencedores. Duas doutrinas se opõem radicalmente entre si. recordemos o acontecimento fundamental da juventude de Platão. Para Heráclito de Éfeso. ajudá-los a trazer à luz o que já trazem em si mesmos. "Planta rei". só reencontra a filosofia a partir de preocupações de caráter político. a tomar consciência dos nossos próprios pensamentos. Na realidade. significa a arte de interrogar. segundo o testemunho de Platão. elementos eternos. corpo = túmulo). um esforço de definição. Muitas outras doutrinas dessa época tentam explicar o mundo. Sócrates. A morte anuncia o renascimento num outro corpo até que a alma. o Nous. Sócrates. É um jovem aristocrata que une aos seus dons intelectuais e físicos (duas vezes coroado nos jogos atléticos nacionais. não pretende ensinar coisa alguma sobre a natureza humana. que foi professor de Péricles. dos problemas que eles colocam. condena Sócrates a beber a cicuta como corruptor da juventude e adversário dos deuses da cidade. ar e fogo). em 407. pelo abuso da retórica (um orador hábil pode demonstrar o que quiser) e. ignora o que acreditava saber.metempsicose. eterno. do último rei de Atenas. Anaxágoras. que era parteira. assinalam a importância da catástrofe. torna-se prisioneira de um corpo (soma = sema. Tal é a maiêutica socrática. Por exemplo: partindo dos aspectos os mais diversos da justiça. na verdade. cujas combinações mutáveis são infinitas. segundo ele. que. "Conhece-te a ti mesmo". elaborar uma cosmologia. Condenação injusta e escandalosa que exprime uma incompatibilidade trágica entre o poder político e a sabedoria do filósofo. A destruição da frota. Platão. ao pé da letra. ele se comparava à sua mãe. A alma. Na Atenas vencida. Protágoras de Abdera.C. Platão vai sonhar com a reconstrução de uma cidade. a uma brilhante carreira política. "Reconheço que todos os Estados atuais. Segundo sua perspectiva racionalista. ele funda todas as suas esperanças na verdade tão somente. é amargo para o enfermo). por aquilo que nos concerne diretamente. 2. a peste. imóvel. Acontecimento político: é o partido popular. O fluxo que faz do universo uma torrente é constantemente produzido e destruído por um Fogo cósmico. se Sócrates é o primeiro a reconhecer sua própria ignorância. tudo muda infinitivamente. que "o homem é a medida de todas as coisas". Tal é a ironia. a mobilidade não passa de uma ilusão que engana nossos sentidos. Demócrito tenta conciliar as duas doutrinas por intermédio de sua filosofia de átomos. seus ancestrais paternos. ele procura depreender o conceito de justiça. esboroa-se na época em que Platão atinge a idade adulta. Platão a ele se une. portanto. Aborda com humildade fingida os sofistas inflados de falso-saber. são mal governados. e constata que os Trinta acumulam injustiças e violências. de um modo geral. Nada ensinava e limitava-se a partejar os espíritos. Seu método é. Alain falou a propósito desse "choque dos contrários": Platão. a idéia geral que contém os caracteres constitutivos da justiça. tudo flui: a morte sucede à vida. Muitas vezes. como Empédocles ou Heráclito. Daí as resoluções que Platão nos apresenta na sétima carta. que por ocasião do nascimento de Platão se encontra no apogeu . A verdade e a justiça (das quais Sócrates será o símbolo) não possuem bom aspecto. Um dos mais célebres. Estava destinado. Sócrates possui tal confiança no saber e na verdade que está firmemente persuadido que os injustos e os maus não passam de ignorantes. E isto é significativo e simbólico. no entanto. só há salvação pelo saber. Mas Atenas. pelo incremento do individualismo e decadência dos costumes após Péricles. simultaneamente purificada pela virtude e pela prática de ritos iniciáticos. é a palavra-chave do humanismo socrático. ele se retrai. caracterizar os grandes traços da filosofia de Sócrates: 1. isto é. eles a praticariam. delicioso para o amador. deve-se deixar aos deuses o cuidado de se ocupar com o universo. uma cidade que seja a encarnação da Justiça. portanto. A esta filosofia da mobilidade universal se opõem Parmênides e seu discípulo Zenão de Eléia: para eles. água. o nascimento mais prestigioso: sua mãe descendia de Sólon. de fato. O verdadeiro ponto de partida da filosofia de Platão é a morte de Sócrates em 399 a. enquanto o ódio que dissocia e o amor que unifica seriam os princípios motores do universo. faz perguntas e sempre dá a impressão de buscar uma lição no interlocutor. não quer nos comunicar um saber que não possuiríamos. o jovem Platão é convocado por parentes e amigos a participar do governo autoritário dos Trinta. seu encontro com Sócrates.. é belo e vigoroso: apelidam-no "Platão" em virtude de seus ombros largos). a vigília ao sono. o não-ser não é". Empédocles vê na matéria quatro elementos (terra. Ao mesmo tempo que convida o interlocutor a tomar consciência de seu próprio pensamento. Platão tinha quatro anos quando começaram as guerras do Peloponeso e trinta e um quando eles terminaram. dizia. Para compreender isto. de preferência..

Platão concede ao mundo sensível uma certa realidade.não o homem. o pensamento intuitivo.. diz Platão. as Idéias. no dia em que os filósofos forem reis ou no dia em que os reis forem filósofos). Podemos mostrar de duas maneiras que a intuição fundamental de Platão se prende ao ensinamento de Sócrates: a) Recordemos o ensinamento socrático sobre a definição. Como diz muito bem André Bonnard. mas Deus é que é a medida de todas as coisas. o Timeu. um outro mundo onde exista o Homem em si. o Fédon. Em suma. Platão pensa igualmente que a emoção amorosa. é preciso que exista algo além dos homens particulares e diferentes entre si que nós reconhecemos. reconcilia Parmênides e Heráclito ao admitir a existência de dois mundos: o mundo das idéias imutáveis. restam-nos.C. Resgatado por Anikeris de Cítera por vinte minas. elas foram aprisionadas no corpo. Dionísio I. isto é. contra Trasímaco e Gláucon (na República) o valor absoluto da Idéia de justiça. os militares nos quais a Justiça será coragem. podemos ligar à distinção dos dois mundos algumas observações sobre o mito platônico: . É então que ele funda. os chefes cuja Justiça é. e..de seu antigo contato com as Idéias. de certo modo. Desse modo. a cidade que vê triunfar a injustiça e a mentira é "um mundo ao inverso. a República. Devemos representar a Academia como uma espécie de Universidade onde se ensina matemáticas (não entra aqui quem não for geômetra). em seguida pelos belos corpos. como fazem os geômetras. À doutrina das Idéias também se correlaciona a esperança da imortalidade da alma. É no mundo invisível que a justiça e a verdade triunfam". A ascensão dialética. a obra escrita de Platão. por punição de alguma falta. A política de Platão distingue. e o mundo das aparências sensíveis.que. uma essência universal do homem. A justiça política é uma harmonia semelhante à justiça do indivíduo. secreto. o pensamento discursivo (dianoia) que constrói o raciocínio partindo de figuras. só é belo porque participa da Beleza em si. A morte de Sócrates feriu-o mortalmente. mostra que. Uma vez que a alma é feita para as Idéias . uma escola de filosofia à portas da cidade. segundo a doutrina órfico-pitagórica. A idéia platônica é uma promoção ontológica do conceito socrático. fê-lo expor no mercado de escravos para ser vendido. Mas uma outra solução seria o próprio filósofo encarregar-se do governo da cidade (a Justiça reinará. uma definição do homem em geral. o Banquete. no mais alto grau. a vontade e o espírito. aos quarenta anos. Esses trabalhos esotéricos de Platão constituem a mais pura jóia da filosofia de todos os tempos. a Justiça em si. uma vez que as Idéias constituem absolutos referenciais . a coragem é a justiça da vontade e a sabedoria é a justiça do espírito. Platão dá realidade ao conceito socrático. como Sócrates o estabeleceu. mas "escritas em caracteres mais fortes" na escala do Estado. Platão morre em 348 a. sobre o conceito. por exemplo. Ela também se encontra em cada uma das virtudes particulares: a temperança nada mais é que uma sensibilidade regulamentada segundo a justiça. mas ele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia ou. uma sombra. Sabedoria e que são filósofos longamente instruídos.a sensibilidade. uma vez que guardaram uma lembrança obscura . finalmente. não se revelou muito adequado para se tornar o rei filósofo que Platão quisera fazer dele. o jovem escravo que Sócrates interroga no Mênon descobre propriedades geométricas quase sem ajuda. Este último. as opiniões estabelecidas (pistis). em seguida. E Sócrates. Depois. para ele. Os temas principais do platonismo podem ligar-se à distinção entre o mundo das Idéias eternas e o mundo das aparências mutáveis. Talvez a solução seja a evasão do filósofo que "foge daqui debaixo" para se refugiar na meditação pura (tal é o filósofo cujo retrato nos é traçado no Teeteto. as simples impressões sensíveis (eikasia). seus diálogos célebres tais como o Górgias. o único mundo verdadeiro. cunhado do novo tirano.é preciso renunciar do oportunismo e à imoralidade dos sofistas.de todas as idéias a mais fácil de reconhecer .por que não seria eterna como as Idéias que ela tem por vocação contemplar? Do mesmo modo. eternas. o Fedro. pode ser redespertada . Acrescenta-se que o mundo das Idéias é. no fundo. Entre todas as formas de governo. Platão sustenta contra Cálicles (no Górgias). atesta a existência desse mundo invisível. elas continuam capazes de reminiscência. por exemplo. Todavia. por exemplo. as Leis. na ilha de Egina. o Político. reservado aos iniciados) dado por Platão a seus discípulos só nos é conhecido atualmente pelas críticas de Aristóteles. o Teeteto. à imagem de todas as sociedades indo-européias primitivas. Platão prefere a aristocracia e. antes de tudo. o Sofista. filósofo puramente contemplativo que nem sabe onde se reúne o Conselho e cujo corpo está apenas presente na Cidade). perto de Colona. Assim. Um belo efebo. objeta Platão a Protágoras . "esse belo risco a ser corrido". depois pelas belas almas e pelas belas virtudes conduz à redescoberta do Belo em si (leia-se o Banquete). porém. para que haja. As almas outrora contemplaram às Idéias à vontade. Dionísio I prendeu Platão e.visto que sua união com o corpo é acidental e monstruosa . no entanto. perpetuamente mutáveis. todavia. b) Mas é sobretudo a vida e a morte de Sócrates que suscitam o idealismo platônico. Tal é o sonho que Platão tentaria realizar em Siracusa. Finalmente. poderíamos dizer que ela é fundamentalmente um dualismo. Platão. três classes sociais: os artesãos dos quais a Justiça exige a temperança. o idealismo platônico "traz a marca de um grave traumatismo. a emoção que rebata a alma diante da Beleza . filosofia e a arte de governar as cidades segundo a justiça. a iluminação direta pela Idéia (noesis). nos jardins de Academos. Encontrara aí um discípulo estusiasta na pessoa de Dion. mais exatamente. Se quiséssemos resumir a filosofia de Platão em uma palavra. é o itinerário pelo qual nos levamos do mundo sensível ao mundo das Idéias: no mais baixo grau. as Idéias contam mais que a vida. pela tranqüilidade quase contente de sua morte. A teoria platônica da alma está ligada à doutrina das Idéias. Platão retornou a Atenas. um pouco mais acima. é preciso tomar a palavra em seu sentido etimológico: governo dos melhores. um mundo de pernas para o ar".é o meio de uma conversão dialética: o amor por um belo corpo. O ensino esotérico (isto é. o Parmênides.justiça política e individual". a cidade que condena Sócrates à morte. A justiça é a hierarquia harmônica das três partes da alma . nele.

ao contrário. isto é. c) O mito indica que o pensamento filosófico vem se abeberar nas fontes das crenças religiosas tradicionais. como preceptor do Príncipe Alexandre. d) Finalmente. procedimento pedagógico paradoxal. agudeza de penetração. refazimento da ética de Aristóteles. social e política.C. inteiramente recolhido na elaboração crítica do seu sistema filosófico. onde ficou por vinte anos. Preveniu ele a condenação. os motivos políticos. rei da Macedônia. em Siracusa. corresponde muito bem à intenção do autor. por certo. sem enfeites míticos ou poéticos. seu filho. no verão de 322. Aristóteles foi essencialmente um homem de cultura. em amena palestra. Morto Alexandre em 323. o belo não é senão o "esplendor do verdadeiro" e a arte está em segundo lugar em relação à filosofia. mais uniforme e linear a de Aristóteles. que lhe foram úteis na construção do seu grande sistema. Tinha pouco mais de 60 anos de idade. III. Escritos metafísicos: a Metafísica famosa. de estudo. e pertencentes à filosofia teorética. Daí o nome de Liceu dado à sua escola. treze anos depois da morte de Platão. inacabada. foi acusado de ateísmo. A respeito do caráter de Aristóteles. temos naturalmente muito menos a revelar do que em torno do caráter de Platão. estéticos e místicos tiveram grande influência. no seu estado atual. Aristóteles A Vida e as Obras Este grande filósofo grego. ao qual é dedicada. sugerido pelo mundo das imagens! b) O mito é o único meio de exposição para os problemas de origem (acontecimentos sem testemunhos) e dos fins últimos (que ainda não existem!). juntamente com a metafísica. Aristóteles. Nesse período estudou também os filósofos pré-platônicos. Esta escola seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia platônica. salvo uns apócrifos e umas interpolações. em oito livros. vigor de raciocínio. Aí ficou três anos. Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência. fruto de muita observação e de profundas meditações. perto do templo de Apolo Lício. numa linguagem de imagens uma verdade filosófica estranha ao mundo sensível! É o mundo das Idéias eternas transposto em imagens sensíveis. existem entre a poesia e a verdade. até à famosa expedição asiática. poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade literária". a sua escola. organizando outras em corpo coerente de doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua admirável inteligência. Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do modo seguinte. A primeira edição completa das obras de Aristóteles é a de Andronico de Rodes pela metade do último século a. nasceu em Estagira. em dez livros. éticos. devido a Eudemo. substancialmente autêntica. que a colocou depois da física. Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam. incompleta. Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macedônia. O seu problema fundamental é o problema do ser. que. em especial da segunda. perfeição maravilhosa da terminologia filosófica. V. dependem também as vicissitudes exteriores das duas vidas.a) O mito. Do diferente caráter dos dois filósofos. em 335. em 367. Aristóteles faleceu. então jovem de treze anos. poder admirável de síntese. Escritos lógicos: cujo conjunto foi denominado Órganon mais tarde. Escritos sobre a física: abrangendo a hodierna cosmologia e a antropologia. A poesia mítica é uma mensagem metafísica. II.manifestam um grande rigor científico. O nome de metafísica é devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico. em três livros. em 384 a. sem se deixar distrair por motivos práticos ou sentimentais. a Ética a Eudemo. de pensamento. Escritos retóricos e poéticos: a Retórica. a Política. provavelmente publicada por Nicômaco. desfez-se politicamente o seu grande império e despertaram-se em Atenas os desejos de independência. é apenas uma parte da obra de Aristóteles. exposição e expressão breve e aguda. a Poética. no ano seguinte. como a sua cultura e seu gênio universal. Escritos morais e políticos: a Ética a Nicômaco. constituindo algumas desde os primeiros fundamentos. Escreveu sobre todas as ciências. variada e romanesca a de Platão. segundo Platão. malvisto pelos atenienses. faculdade de criação e invenção aliados a uma vasta erudição histórica e universalidade de conhecimentos científicos. chefiada por Demóstenes. tendo presente a edição de Andronico de Rodes. em que. filho de Nicômaco. não o problema da vida. Aristóteles fundava. até à morte do Mestre. compêndio das duas precedentes. em dois livros.C. retirando-se voluntariamente para Eubéia. entretanto. também chamada peripatética devido ao costume de dar lições. a filosofia é essencialmente teorética: deve decifrar o enigma do universo. traduz uma espécie de narração poética legendária. que Platão não conseguiu. que considerava a lógica instrumento da ciência. O grande estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções. foi para Atenas e ingressou na academia platônica. para se dedicar à investigação científica. em face do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do mistério. de pesquisas. As obras de Aristóteles as doutrinas que nos restam . o mito ressalta as relações que. no litoral setentrional do mar Egeu. que se foi isolando da vida prática. não por Aristóteles. IV. a Grande Ética. médico de Amintas. colônia grega da Trácia. em catorze livros. clara e ordenada. após enfermidade. De volta a Atenas. referentes à metafísica geral e à teologia. A atividade literária de Aristóteles foi vasta e intensa. "Assimilou Aristóteles escreve magistralmente Leonel Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho próprio. estourando uma reação nacional. O . de que foi ele o criador. Aos dezoito anos. O nome. conseguindo um êxito na sua missão educativo-política. É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles mediante seus apontamentos manuscritos. O Pensamento: A Gnosiologia Segundo Aristóteles. I. passeando nos umbrosos caminhos do ginásio de Apolo. pois a inteligência abstrata só compreende o eterno e não pode bastar para evocar o que pertence à história.

bem como segundo Platão . como ciência especial. isto é. é o silogismo. conceptual como a de Platão mas parte da experiência. psicologicamente existe primeiro o particular. Geralmente. a ciência. entretanto. necessidade objetiva. é denominada por ele analítica e representa a metodologia científica. é dedutiva. da passagem da potência ao ato. conhecidos sensivelmente. uma resenha de todos os casos os fenômenos particulares para poder tirar com certeza absoluta leis universais abrangendo todas as essências. um ato puro enfim. a posteriori. O erro começa de uma falsa elaboração dos dados dos sentidos: a sensação.devem ser. destarte. mas abandonando a solução do mestre. porém. Todas as partes se compõem. A Teologia Objeto próprio da teologia é o primeiro motor imóvel. Com efeito. isto é. indiscutível. pois não pode haver ciência em torno do individual e do contingente. O seu processo característico. porquanto os sentidos por si nunca nos enganam. de outra forma teria que ser movido por sua vez. que corresponde a uma derivação real. as verdades evidentes. ao sensível: mas. da representação sensível. Os caracteres desta grande síntese são: 1. donde temos a ciência? Aristóteles reconhece que é impossível uma indução completa.Sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema. e que é o elemento constitutivo da ciência. o inteligível. abrangendo. é anterior ao particular. sem um primeiro motor imóvel. segundo Aristóteles. em estilo lapidar e conciso e criando uma terminologia filosófica de precisão admirável. por último. 2.conceito e juízos . realidade do vira-ser. o processo dedutivo e indutivo aplica-os. Quanto ao juízo. Os elementos primeiros. uma doutrina da indução. os princípios supremos. Limitar-nosemos mais especialmente aos problemas gerais da lógica de Aristóteles. Trata Aristóteles os problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o nome de Órganon. pois. cuja verdade imediata ele defende. contraditório. d) indica. seu nexo. sobre a base socrático-platônica. consoante Platão. de um modo e de outro. A necessidade deste primeiro motor imóvel não é absolutamente excluída pela eternidade do vir-a-ser. são fruto de uma visão imediata. o objeto da ciência aristotélica é a forma. b) passa a enumerar-lhes as soluções históricas. explicação do condicionado mediante a condição. de cujo sistema é banida toda forma de inatismo. clássico. mas o ponto de partida da dedução é tirado . Então só resta possível uma indução incompleta. portanto. ontologicamente. compreende-se que Aristóteles. baseada sobre a imediata experiência. analítico. onde o fenômeno particular depende da lei universal e o efeito da causa. a filosofia prática divide-se em ética e política. metafisicamente. demonstrativa. as formas são imanentes na experiência. a filosofia aristotélica é dedução do particular pelo universal. que não tem princípio e fim no tempo. No sentido estrito. causa absoluta. Como é que se formam os princípios da demonstração. isto é. A teorética. buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas. realistas: tudo que se pode aprender precede a sensação e é independente dela. por sua vez. é a priori.reminiscência. Deus. Assim sendo. é sempre verdadeira. apodíctica. a filosofia . divide-se em física. Também aqui se segue a ordem da realidade. com rara habilidade. isto é. a posteriori. ao contigente. o contigente. do mundo. em geral. da representação sensível. passagem da potência ao ato. que constituem precisamente o objeto próprio do nosso conhecimento sensível. Este vir-a-ser. em que está a solução do seu problema. Unidade do conjunto . de que constituem a essência. um motor já em ato. isto é. em seguida. ao lado e em conseqüência da doutrina de dedução. passagem da potência ao ato. nos indivíduos. Objeto essencial da lógica aristotélica é precisamente este processo de derivação ideal. Pode considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia científicas. mesmo admitindo que o mundo seja eterno. são as essências imutáveis e a razão última das coisas.mediante o intelecto da experiência. no sentido de que os elementos do juízo os conceitos são tirados da experiência. bem como a platônica. mas pode-se integrar logicamente segundo o espírito profundo da sua filosofia. portanto. c) propõe depois as dúvidas. porque aí está a sua gnosiologia. requer finalmente um não-vir-a-ser. que é o nosso primeiro conhecimento. Aristóteles. portanto. fica eternamente inexplicável. e) refuta. no estudo de uma questão. uma verdadeira síntese. entretanto. a "desindividualização" do universal do particular. dividir-seia em teorética. porquanto o primeiro elemento depende do segundo. racional. é essencialmente dedutiva. intuição intelectual. em relação com a sua doutrina do contato imediato da alma com as idéias . a coisa parece mais complicada. 3. gnosiologicamente. Aristóteles procede por partes: a) começa a definir-lhe o objeto. toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias. A formação do conceito é. em que o universal é imanente. tirada da experiência. Entretanto. colhido imediatamente pelo intelecto humano mediante a sua evidência. matemática e filosofia primeira (metafísica e teologia). substituindo à linguagem imaginosa e figurada de Platão. a saber. pois. do inteligível.objeto próprio da filosofia.tem como objeto o universal e o necessário. o universal. a poética em estética e técnica. prática e poética. na lógica. como o conceito. o necessário. ato puro. mais positivo. Filosofia de Aristóteles Partindo como Platão do mesmo problema acerca do valor objetivo dos conceitos. rejeitara a experiência como fonte de conhecimento certo. origem extra-temporal. Aristóteles constrói um sistema inteiramente original. motor imóvel. em que unicamente temos ou não temos a verdade. Sob o ponto de vista metafísico. as sentenças contrárias. ela não está efetivamente acabada. A filosofia. os juízos imediatamente evidentes. como idéia era o objeto da ciência platônica. as formas e suas relações. seja constrangido a elaborar. se correspondem. idealista. tirados da experiência. a coisa parece simples: a indução nada mais é que a abstração do conceito. também os elementos primeiros do conhecimento . mas certíssima. A lógica aristotélica. todo o saber humano. Quanto aos elementos primeiros do conhecimento racional. Foi dito que. Observação fiel da natureza • Platão.conforme Aristóteles. Por certo. ambas objetivas. o sensível. razão . os conceitos. o universal e o necessário. A ciência platônica e aristotélica são. enquanto é vir-a-ser. A filosofia aristotélica é. Segundo Aristóteles. em todas as suas obras. a própria solução. a quem Aristóteles chega através de uma sólida demonstração. do movimento. se confirmam. o pensamento do pensamento. Por certo. Rigor no método • Depois de estudas as leis do pensamento. Aristóteles é o criador da lógica.

este justo meio. a que é necessária à virtude. os escravos. as diversas paixões predominantes dos vários indivíduos. além. enquanto qualquer outra atividade teria fim extrínseco. naturalmente. mas implicam. entre duas paixões opostas: porquanto o sentido poderia esmagar a razão ou não lhe dar forças suficientes. o fim do homem é a felicidade. como . atividade teorética. maior valor uma outra doutrina aristotélica: precisamente a da virtude concebida como hábito racional. concebido como primeiro motor imóvel. que é pensamento puro. não conhece o mundo imperfeito. Da análise do conceito de Deus. embora se apresente especulativamente assaz discutível é aquela pela qual a virtude é precisamente concebida como um justo meio entre dois extremos. afetivo. realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente. É uma distinção e uma hierarquia. igual para todos e sempre. pensamento de si. político. o racionalismo. passional. por natureza. a prática. sendo naturalmente animal social. Noutras palavras. a vontade. E nesta autocontemplação imutável e ativa. então. porquanto a coletividade é superior ao indivíduo. concebido. natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar. torna-se de fácil execução . porquanto a família. Aristóteles. e não pode. não é unicamente ciência. A Política A política aristotélica é essencialmente unida à moral. do intelecto. A virtude ética não é. isto é. Se Deus é mera atividade teorética. que constituem propriamente o objeto da moral. portanto. isto é. conhecer a si próprio e pensar em si mesmo. o exercício e. um costume moral. que deve ser governado pela razão. Unicamente no estado efetua-se a satisfação de todas as necessidades. a virtude não é inata. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política. e a esta é necessária a razão. que precede cronologicamente o estado. pois. isto é. Visto ser a razão a essência característica do homem. Deus. Segundo Aristóteles. portanto. e. tem. e variável conforme as circunstâncias. a matéria. O estado. que têm uma importância essencial em relação a toda a filosofia e especialmente à moral. estabilizase. visto ser a virtude ação consciente segundo a razão. mas unicamente conhecer e pensar. a política é a doutrina moral social. razão pura. como ato puro. da natureza e do universo. por conseqüência. a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. Pelo que diz respeito à virtude. como pensamento de si mesmo. consegue a felicidade mediante a virtude. não é abstrato. auto-suficiente. como não é inata a ciência. e. o seu bem. contudo. ativas. uma atividade segundo a razão. do chefe a que pertence a direção da família. uma disposição constante. na ação de um homem. com o pensamento e a vontade. isto é. tendo como objeto unicamente a própria perfeição. uma vez adquirida. relativo a cada qual. Naturalmente. ser completamente resolvido na razão. como causa eficiente e formal (exemplar). Deve ele guiar os filhos e as mulheres. mas adquiri-se mediante a ação. metafísico. condição e complemento da atividade moral individual. Aristóteles distingue duas categorias fundamentais de virtudes: as éticas. ao contrário. Deus é. O estado é um organismo moral. o real puro. não são mera atividade racional. popular. certamente. Como já foi mencionado. em razão da imperfeição destes. teoréticas. é aquilo que move sem ser movido. como as partes precedem o todo. Deus não atua sobre o mundo. mas uma ação com ciência. o bem comum superior ao bem particular. atraente. não é criador. como as virtudes intelectuais. todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza. Se o agir. pois o homem. conquistado através do precedente raciocínio. porém. E assim consegue ele a felicidade e a virtude. Deus não pode agir e querer. mecaniza-se. o querer têm objeto diverso do sujeito agente e "querente". Aristóteles sustenta o primado do conhecimento. de que se falou quando das obras dele. é distinta da moral. pensamento de pensamento. da filosofia. não pode realizar a sua perfeição sem a sociedade do estado. sobre a ação. aquela a coletividade. é superior ao indivíduo. é aquilo que é movido. e menos ainda opera sobre ele. a sua felicidade. de que acima se falou. As virtudes intelectuais. A ética é a doutrina moral individual. logo. a mulher. A razão aristotélica governa. da vontade. são superiores às virtudes éticas. e. no dizer de Aristóteles. como queria o ascetismo platônico. uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. todavia. tem também um fim econômico. A característica fundamental da moral aristotélica é. Deve fazer frutificar seus bens. reta. um elemento sentimental. está a beatitude divina. a racionalidade do mundo. ele. A Moral Aristóteles trata da moral em três Éticas. porquanto esta tem como objetivo o indivíduo. a sua lei. mas uma aplicação da razão. que a transcendem. além de um fim educativo. Deus é unicamente pensamento. Visto que o estado se compõe de uma comunidade de famílias. voltando-se para ele. teoréticas. os bens. não as aniquila e destrói. Consoante sua doutrina metafísica fundamental. e só assim. As virtudes éticas. A política. e as dianoéticas. morais.como o vício. antes de tratar propriamente do estado será mister falar da família. consequentemente. isto é. mas. domina as paixões. mais precisamente é ela um hábito segundo a razão. incompatível com o ser perfeito. práticas. a vida. que exige o conhecimento absoluto. De Deus depende a ordem. a família compõe-se de quatro elementos: os filhos.metafísica de todo devir. assim como estas se compõem de muitos indivíduos. Uma doutrina aristotélica a respeito da virtude doutrina que teve muita doutrina prática. como causa final. pode deduzir logicamente a natureza essencial de Deus. no mesmo tempo. mas unicamente como o fim último. nem providência do mundo. que vem anular aquele mesmo Absoluto a que logicamente chegara. isto é. fundamentalmente. para dar uma explicação filosófica da relatividade do mundo pondo ao seu lado esta realidade independente dele. a política. e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. por conseqüência. Em Aristóteles o pensamento grego conquista logicamente a transcendência de Deus. antes de tudo. que é precisamente uma atividade conforme à razão. sem se mover a si mesmo. torna-se quase uma segunda natureza e. Logo. porque o fim último do estado é a virtude. à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim. mas concreto. contemplativas. E. permanece o dualismo. Se a virtude é. o possível puro.

que deve desenvolver harmônica e hierarquicamente todas as faculdades: antes de tudo as espirituais. tempo e liberdade. No entanto.ao estado. De qualquer maneira a condição indispensável para uma boa constituição. a propriedade particular e a família. mítica. Aristóteles. físicas. negativas e positivas. Aristóteles considera a arte a poesia de Homero que tem por conteúdo o universal. tornando intuitivo. universal. necessária e universalmente. bem como aptas qualidades espirituais. que ele não conhece. as questões gerais da . conseqüentemente. esse inteligível. Por isso. o sensível. depende a eficácia espiritual pedagógica. num particular. cujo caráter e valor estão na unidade. como Platão. A Religião e a Arte Com Aristóteles afirma-se o teísmo do ato puro. político. este inteligível recebe como que uma nova vida através da fantasia criadora do artista. A arte é. O estado não é uma unidade substancial. do inteligível imanente no sensível. O comunismo como resolução total dos indivíduos e dos valores no estado é fantástico e irrealizável. a felicidade dos súditos mediante a ciência. como Platão. E não fica nenhum outro objeto religioso. e admite. As leis da obra de arte serão. o universal. e sim uma síntese de indivíduos substancialmente distintos. acomodada às situações históricas. agora. imitação de uma imitação. tradicional. é que o fim da atividade estatal deve ser o bem comum e não a vantagem de quem governa despoticamente. Explica e justifica a religião positiva. mas constata que na sociedade são necessários também os trabalhos materiais. as materiais. às circunstâncias de um determinado povo. pelo fato de ser o homem um animal naturalmente social. que exigem indivíduos particulares. não está em condições de se tornar objeto de religião. reconhece Aristóteles que a melhor forma de governo não é abstrata. Quanto à forma exterior do estado. Deste seu conteúdo inteligível. E critica. Não obstante esta concepção filosófica da divindade. O estado surge. como obra política para moralizar o povo. purificadora da arte. e. o inteligível. visto ser necessário. e sim imitação direta da própria idéia. e não máquinas. excluídas pelas próprias características qualidades materiais de tais indivíduos. platônicos. graças ao artista. que faz da guerra a tarefa precípua do estado. Na arte. o imutável. deve ser encarnado. a democracia. ao lado do Ato Puro e a ele subordinado. mais do que as transcendentes idéias platônicas. subordinadamente. antes de tudo. Aristóteles distingue três principais: a monarquia. mas o que por natureza deve. A Metafísica A metafísica aristotélica é "a ciência do ser como ser. a forma de governo clássica da Grécia. O estado provê. pois os homens têm necessidades materiais. mas em seus aspectos universais e necessários. bem como o mundo mutável e material. mediante um treinamento profissional. de outro modo irrealizáveis. Se se quiser a unidade absoluta. cujo caráter e valor estão na liberdade. para tanto. ainda que encarnado fantasticamente num particular. O objeto da arte não é o que aconteceu uma vez como é o caso da história . visa a conquista e a guerra. estes últimos seriam os escravos. como é o fenômeno. como o trabalho. e a diferença entre as várias artes é estabelecida com base no objeto ou no instrumento de tal imitação. isto é. isto é. Exporemos portanto. então. salva o direito privado. Daí a escravidão. conservação e engrandecimento. sem direitos políticos. O fim da educação é formar homens mediante as artes liberais. até sem correção alguma. Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas. cujo caráter e valor estão na qualidade. só este último possui aquela unidade substancial que falta aos dois precedentes. deve promover a virtude e. possuidores. e sim concreta: deve ser relativa. não cria. que é o governo de um só. e cuja degeneração é a tirania. intelectuais e. importantíssimas a poesia e a música. dos trabalhadores. não exclui uma espécie de politeísmo. Mas o seu fim essencial é espiritual. acontecer. Aristóteles não nega a natureza humana ao escravo. evidência e vivacidade de expressão. a educação militar de Esparta. diversamente de Platão. íntimo sentimento do conteúdo. e cuja degeneração é a oligarquia. No entanto. dessa forma. é-lhe essencial a propriedade. e cuja degeneração é a demagogia. universal é encarnado. concretizado pelo artista num sensível. será mister reduzir o estado à família e a família ao indivíduo. esses seres divinos não parecem e não podem ter função religiosa e sem física. se exclui filosoficamente o antropomorfismo. este Deus. para que a propriedade seja produtora. Não obstante a sua concepção ética do estado. Compreende-se. como seja tarefa essencial do estado a educação. de conformidade com o fundamental realismo grego. que é o governo de poucos. condena o estado que. No entanto. isto é. porém. defesa e segurança. Também Aristóteles. portanto. a satisfação daquelas necessidades materiais. a que fica assim tirada fatalmente a possibilidade de providenciar a cultura da alma. o estado em particular. pelo seu efetivo isolamento do mundo. num particular e. isto precisamente porque o inteligível. que é o governo de muitos. particularmente de Atenas. concretizado num sensível. Aristóteles como Platão considera a arte como imitação. inicialmente. ou dos princípios e das causas do ser e de seus atributos essenciais". Vejamos. a forma. pois. como superior à história e mais filosófica do que a história de Heródoto que tem como objeto o particular. produção mediante a imitação. imitação da forma imanente na matéria. são apenas meios para a paz e o lazer sapiente. Não. duas classes reconhece: a dos homens livres. e não diz que ela teria um fundamento racional na verdade filosófica da existência da divindade. destarte. Se bem que a arte seja imitação da realidade no seu elemento essencial. a que o homem se teria facilmente elevado através do espetáculo da ordem celeste. e põe a conquista acima da virtude. Eis porque Aristóteles. Ela abrange ainda o ser imóvel e incorpóreo. Entretanto. com o seu profundo realismo. Aristóteles admite a religião positiva do povo. os deuses astrais. seja embora real. enquanto a guerra. admite que os corpos celestes são animados por espíritos racionais. e como fruto da tendência humana para as representações antropomórficas. As preferências de Aristóteles vão para uma forma de república democráticointelectual. ao invés de se preocupar com uma pacífica educação científica e moral. não governa. a aristocracia. são necessários instrumentos inanimados e animados. a dos cidadãos e a dos escravos. precisamente. o mutável. princípio dos movimentos e das formas do mundo. além de imitação do universal verossimilhança e necessidade coerência interior dos elementos da representação artística.

isto é. a realização do possível. Aristóteles explica o indivíduo. a alma é que move o corpo. portanto. imutáveis. mas vice-versa. Os elementos constitutivos da realidade são. universal particularizado. é um mero possível. o vir-a-ser. a segunda e a terceira todo o ser em que está presente a matéria. Diversamente da idéia platônica. vivente. Por exemplo. a individualidade. substâncias.um sínolo . O primeiro é potência. é composta de indivíduos. é o substrato imutável. porém. na natureza em que vivemos. que é precisamente síntese . de uma potencialidade anterior.e culmina no que não pode vir-a-ser. perfeição.bem como a matéria não pode ser atuada . metafísica especial. Deus. que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma. que tem por princípio a alma racional. tem esta como objeto o mundo que vem-a-ser . por uma substância em ato.da matéria e da forma constitui a substância. de realidade dos vários seres. II. A causa eficiente. a essência. não-ser atual. que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro. particular e universal. que tanto atormenta Platão. mais tarde. Daí a necessidade de um terceiro princípio.de matéria e de forma. ato puro.metafísica. que é de duas espécies.imanente no segundo . imperfeição. a causa eficiente. III. I.a não ser por um outro indivíduo.por Aristóteles especialmente quando da doutrina da matéria e da forma. e as determinações que se realizam neste substrato. porém. como as idéias platônicas. A matéria aristotélica. Aristóteles faz o primeiro . que constitui precisamente a substância. potência realizada.de potência e de ato. chamada matéria-prima. absolutamente imóvel. é precisamente a sensibilidade e a locomoção. pois ela é também condição indispensável para concretizar a forma. Esta realização do possível. A característica da vida animal. a forma é.deriva da forma. o segundo é atualidade . que é precisamente a alma. Um substrato comum. Todo ser. consiste ou na sucessão de várias formas na mesma essência. portanto.sínolo . a mudança. forma. Com respeito à matéria. não existe por si. é portanto uma síntese . ser efetivo. produzindo esta síntese o indivíduo. portanto. movido e motor. princípio de ordem e finalidade.enquanto tal . depende da matéria. surge o movimento. a característica da vida do homem. depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico. é a nutrição e a reprodução.a idéia . a coisa movida . que tem por princípio a alma vegetativa. a única realidade efetiva no mundo. que não seja o Ser perfeitíssimo. O motor pode ser unicamente ato. em que a forma introduz as determinações. e ato significa realidade. vamos logo falar. forma do corpo. A Psicologia Objeto geral da psicologia aristotélica é o mundo animado. é um absolutamente interminado. A primeira e a última abraçam todo o ser. A mudança é. que representam a potência e o ato no mundo. visto ser impossível que o menos produza o mais. Um ser desenvolve-se. mero princípio de decadência. segundo Aristóteles diversamente de Platão todo ser vivo tem uma só alma. aperfeiçoa-se. o segundo forma (substancial). porém. o ser vivo diversamente do ser inorgânico possui internamente o princípio da sua atividade. perfeição. Aristóteles não nega o vir-a-ser de Heráclito. que tem por princípio a alma sensitiva. que tem por princípio a alma e se distingue essencialmente do mundo inorgânico.e desenvolvida . A mudança. a que é submetido tudo que tem matéria. a forma aristotélica não é separada da matéria. para poder explicar a realidade efetiva das coisas. ingrediente necessário para a existência da realidade material. que é intuitiva. o princípio superior cumpre as funções do princípio inferior. Todas estas três almas são objeto da psicologia aristotélica.o sinolo . A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica: potência significa possibilidade. O primeiro elemento é chamado matéria (prima). já iniciada pelos últimos pré-socráticos e grandemente aperfeiçoada por Demócrito e Platão. a mudança. entre a matéria e a forma.. potência. as qualidades acidentais. capacidade de ser. Podem-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da metafísica aristotélica: potência e ato. doutrina que culmina no motor primeiro.pode ser unicamente potência.um sínolo . isto é. isto é. ainda que a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria. pode ser levada a efeito unicamente por um ser que já está em ato. propriamente.de matéria e forma. Deus. forma concretizada da matéria. em geral. a causa final.realizadora. Mesmo que um ser se mova a si mesmo. conforme o grau de perfeição. passando da potência ao ato. Daí uma quarta causa. ainda que haja nele funções diversas faculdades diversas . a natureza que ele assume. Desta doutrina da matéria e da forma. Enfim. em que a mudança se realiza. Aqui nos limitamos à psicologia racional. Ao contrário. Eis a grande doutrina aristotélica do motor e da coisa movida. De sorte que. em diversas proporções. a substância física. portanto. aquilo que move deve ser diverso daquilo que é movido. deve ser composto de um motor e de uma coisa movida.natureza e homem . mas une-os em uma síntese conclusiva. Esta doutrina fundamental da potência e do ato é aplicada . a forma sem a matéria. matéria. que é precisamente a síntese da forma e da matéria. A matéria sem forma. causa concomitante de todos os seres reais. por sua vez. Da relação entre a potência e o ato. A característica essencial e diferencial da vida e da planta. matéria e forma. a pura matéria. especificadora da matéria . Então não existe. e. IV. para depois chegarmos àquela que foi chamada. racional. por sua vez. nem o ser de Parmênides. que possui já o que a coisa movida deve vir-a-ser. a forma e a matéria. A síntese . eternas. Segundo Aristóteles. possibilidade de assumir várias formas. estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir dos indivíduos e das substâncias que não podem ser atuados . A realidade. pois.igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie . é o pensamento. portanto. a potência o ato. visto que a alma racional cumpre no homem também as funções da vida sensitiva e vegetativa. e esta. pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais. que tem por objeto específico o homem. Mediante a doutrina da matéria e da forma. esta passagem da potência ao ato é atualização de uma possibilidade. matéria enformada. Por conseqüência. inteligível. e sim imanente e operante nela. A essência . Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular.a matéria. as formas aristotélicas são universais. elemento imutável da mudança. o imperfeito o perfeito. O indivíduo é. não é o puro não-ser de Platão. isto é. deve operar para um fim. em que se sucedem os acidentes. pressupõe uma realidade imutável. que são uma síntese .

é evidente que fora do mundo não há espaço nem tempo: espaço e tempo vazios são impensáveis. o mutável. o corpo humano não é obstáculo. a existência dos seres fora de Deus. Acima do conhecimento sensível está o conhecimento inteligível. O sensível próprio é percebido por um só sentido. quanto a tal. cognoscitiva. Quanto às ciências químicas.mudança de lugar. Admitidas as precedentes concepções de espaço e de tempo . político. as essências. a realização da forma na matéria. sensitivo e intelectivo. a ação do objeto sensível sobre o órgão que sente. como enigma insolúvel e inexplicável. pois.isto é. na própria teoria aristotélica. na sensação propriamente dita. que a ele confluem. Mas a alma humana desempenha também as funções da alma sensitiva e vegetativa. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade. Por conseqüência. respectivamente.por ele propugnado com base na finalidade. O dualismo primitivo e irredutível entre Deus. porém. moralista. e a matéria. metafísico. que tem um valor teorético. é a análise dos vários tipos de movimento. o necessário. no grau sensível bem como no grau inteligível. unificar as várias sensações isoladas. que já sabemos ser passagem da potência ao ato. A sensação embora limitada é objetiva. O conhecimento sensível. a medida . deve ser espiritual e. dependente do sentimento. e são logicamente separáveis da sua filosofia. porquanto se manifesta efetivamente com atos diversos. que prestará a estrutura física à Divina Comédia de Dante Alighieri. sem idéias inatas. especificamente diverso do primeiro.porquanto se dão atos diversos. mas um espírito que anima um corpo animal. em torno dos quais fez ele investigações profundas. sendo superior a estas. as sensações específicas são percebidas. o imutável. Mas o fato físico transforma-se num fato psíquico. e dessa depende a prática. Sua moral. contemplativa e ativa.acrescimento e diminuição. A vontade é o impulso. diversamente de Platão. que. figura. patriarca das ciências naturais. cognoscitiva e operativa. segundo Aristóteles. que é constituída pelo segundo. as formas das coisas e os princípios primeiros do ser. Movimento substancial . físicas e especialmente astronômicas. é.mudança de forma.como sendo relações de substâncias. começa com a síntese. as doutrinas aristotélicas têm apenas um valor histórico. mas instrumento da alma racional. sempre o que é mais belo". quer dizer. por isso. conhecendo o imaterial. o limite imóvel do corpo "circundante" com respeito ao corpo circundado. são percebidas por mais sentidos. Objeto do intelecto é o universal. pelo que ela é espírito. duas são as atividades práticas da alma: apetite e vontade. sendo embora uma e única. Esse apetite é concebido precisamente como sendo um movimento finalista. O espaço é definido como sendo o limite do corpo. Movimento quantitativo . Aristóteles distingue quatro espécies de movimentos: 1. Analogamente às atividades teoréticas. etc. se desdobra em dois graus. E assim. o sensível comum.mudança de propriedade. como a cera recebe a impressão do selo sem a sua matéria. isto é. é defeituosa e mais gravemente defeituosa ainda que a teodicéia. Especialmente célebre é a sua doutrina astronômica geocêntrica. conforme Aristóteles. tendo a função de coordenar. ainda que rejeite o inatismo platônico. as qualidades gerais das coisas tamanho. condicionando todas as demais espécies de mudança. pressupões um fato físico. O tempo é definido como sendo o número . O apetite é a tendência guiada pelo conhecimento sensível. representações. o contingente. "A natureza faz. A Cosmologia Uma questão geral da física aristotélica. Como se vê. do "antes" e do "depois". primeiro escritor da história da filosofia. ato puro. Uma terceira questão fundamental da filosofia natural de Aristóteles é a concernente ao teleologismo . deve ser imperecível. em virtude da específica faculdade e atividade sensitivas da alma. Movimento espacial . contrapondo-lhe a concepção do intelecto como tabula rasa. nascimento e morte. sem obrigação nem sanção. movimento. princípio potencial.do movimento segundo a razão. a saber. a sensação. repouso. o imaterial. Vista Retrospectiva . não é um espírito puro.finalismo . que é a forma do corpo. Cada uma destas. imediata ou à distância. se se tiver presente que o homem é um animal racional. a alma humana. ele é o verdadeiro fundador da ciência moderna e "ainda hoje está presente com sua linguagem científica não somente às nossas cogitações. e é próprio da alma animal. Movimento qualitativo . ativa. o material. e se tornam. tem várias faculdades. sobretudo na parte que trata das relações de Deus com o mundo. uma verdadeira contradição e deixa subsistir. uma idéia da envergadura de seu gênio excepcional. o apetite guiado pela razão. Outra especial e importantíssima questão da física aristotélica é a concernente ao espaço e ao tempo. mudança. 4. o aspecto. percepções. e é própria da alma racional. através do movimento de um meio. O homem é uma unidade substancial de alma e de corpo. a falsidade. realização de uma possibilidade. pelos vários sentidos. por sua vez depende do conhecimento sensível. Objeto do sentido é o particular. de fenômenos . 2. Nem por isso podemos deixar de apontar as lacunas do seu sistema. isto é. Criador da lógica. O sentido recebe as qualidades materiais sem a matéria delas. Fim de todo devir é o desenvolvimento da potência ao ato. 3. Assim. Juízo sobre Aristóteles É difícil aquilatar em sua justa medida o valor de Aristóteles. o ser absoluto. enquanto possível. autor do primeiro tratado de psicologia científica. o pensamento. a inteligência. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teorética e prática. isto é. ou a possibilidade da falsidade. O senso comum é uma faculdade interna. A influência intelectual por ele até hoje exercida sobre o pensamento humano e à qual se não pode comparar a de nenhum outro pensador dá-nos. sempre verdadeira com respeito ao próprio objeto. que ele descortina em a natureza. Aristóteles aceita a essencial distinção platônica entre sensação e pensamento. como filosofia da natureza. funções. com o juízo. a atividade fundamental da alma é teorética. a alma humana. em que a primeira cumpre as funções de forma em relação à matéria. senão também à expressão dos sentimentos e das idéias na vida comum e habitual".

homogêneos. em que dominava o vínculo da amizade. discípulos e amigos. a paz. concebe os elementos últimos constitutivos da realidade como corpúsculos inúmeros. A filosofia é a arte da vida. Tito Lucrécio Caro . ajudas materiais. que se tornaram centro das reuniões aristocráticas dos seus admiradores. os vórtices e . espontâneos (clinamen). a evidência sensível é o único critério de verdade no campo teorético. pela teoria da abstração e da inteligência ativa. que seriam imagens em miniatura das coisas.no tamanho. homens famosos. deu vida a uma sociedade genial. que venerava Epicuro como uma divindade. a origem e a variedade das coisas. é natural que o critério fundamental e único da verdade seja a sensação. a percepção sensível. mecanicista. arrancar-seiam destas e chegariam até à alma imediatamente. nas dificuldades insolúveis de um realismo exagerado. provavelmente. retoma o mesmo problema no pé em que o pusera Platão e dá-lhe. pela qual também os deuses vêm a ser compostos de átomos. nas extravagâncias dum idealismo extremo. desde logo. e fruir dessa formosura na própria existência pessoal. ou mediatamente através dos sentidos. da física . onde encontramos. Igualmente. a sua doutrina. daí derivam encontros e choques de átomos e. missões. que é imediata. conforme o desejo do mestre. também subordina a teoria à pratica. Todo o nosso conhecimento deriva da sensação. imutáveis. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica Também o epicurismo . Aliás. Cedo dedicou-se à filosofia. Também segundo Epicuro. Platão dá um passo além. em 341 a.desinteressam-se por completo dos homens. Precisamente. da morte. eternos. nasceu em Atenas.C. mas teve escasso desenvolvimento.o poeta entusiasta. A gnosiologia (lógica. procurando determinar a relação entre o conceito e a realidade.Com Sócrates entre a filosofia em seu caminho definitivo.C. Portanto. mensais e anuais. uma solução satisfatória e definitiva nos grandes lineamentos. A associação espalhou-se depois. autor de De rerum natura. O epicurismo teve. O problema do objeto e da possibilidade da ciência é posto em seus verdadeiros termos e resolvido. é uma complicação de sensações. por conseqüência. Se não houve pensadores epicuristas notáveis depois de Epicuro no mundo clássico nem depois. evidente. A ele devemos as melhores notícias sobre o sistema epicurista. Faleceu em 270 a. a apatia.C. houve todavia. a ciência à moral. indivisíveis (átomos). Estas nos dão o ser. pela doutrina do conceito. recorre Epicuro à física atomista.C. no peso. física e ética. Entretanto. para garantir ao homem o bem supremo. dum lado. semelhante ao dos deuses. resolvese numa física. canônica) epicurista é rigorosamente sensista. sem causa. Em seus jardins. O mestre pareceu aos discípulos como que um redentor. o ideal da fidalguia antiga: fazer da formosura o princípio inspirador da vida. Dada tal gnosiologia coerentemente sensista.diz Epicuro . para a cultura superior. em todos os tempos e lugares. O processo cognoscitivo da sensação é explicado mediante os assim chamados fantasmas. democritiana.libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida. não é excluído o fato de que a necessidade universal oprimiria o homem ainda mais do que o arbítrio divino. nas suas linhas gerais. e . pela maior parte perdidos. a alma . A mãe praticava a magia. que constitui a realidade originária. nos jardins da sua vila. mas sempre materiais perece com o corpo. a serenidade. a metafísica epicurista é rigorosamente materialista: quer dizer. iguais qualitativamente e diversos quantitativamente . na figura. gravada nas jóias.como o estoicismo . os quais aplicaram a sua doutrina à vida e dela fizeram a substância de sua arte. gosto para a formosura. pertencentes a classes sociais elevadas. a psicologia e a lógica. mas conservou-se fortemente organizada. fundador da escola que tomou o seu nome. Epicuro. intuitiva.. nem com o além-túmulo: seria igualmente absurdo preocupar-se com aquilo que se segue à morte. de Deus e fazer com que ele atue de conformidade. mas encalha. sobretudo. do ateniense Néocles.habitadores felizes de intermundos . a sua imagem. Como a gnosiologia epicurista é rigorosamente sensista. que queria os discípulos fiéis até a letra do sistema. em sua honra celebravam-se festas comemorativas. rápida e vasta difusão no mundo romano.I século a. O Epicurismo Epicuro. mediante uma estável constituição. os átomos estão no espaço vazio. como com aquilo que precede o nascimento. nenhuma preocupação com a morte. A escola epicurista durou até o IV século d. Epicuro expôs a sua doutrina num grande número de escritos. Epicuro foi pessoa fidalga e refinada. indispensável para que seja possível o movimento e. resumida em catecismos. A originalidade deveria manifestar-se na vida. com setenta anos de idade. daí. . sendo iniciado por Nausífanes de Teo no sistema de Demócrito. infinito. E foi um mestre eficaz de sabedoria aristocrática. Em 306 abriu a sua famosa escola em Atenas. do além-túmulo. e foi criado em Samos.divide a filosofia em lógica. senso refinado.formada de átomos sutis. Em torno desta questão fundamental. cartas. da mesma forma o sentimento (prazer e dor) será o critério supremo de valor no campo prático. indivíduo material. num sereno lazer. Os átomos são animados de movimento necessário para baixo. o mais precioso legado da civilização grega que declinava à civilização ocidental que surgia. consequentemente. a sua filosofia foi considerada como uma religião. de outro. feita de nobreza de sentimentos. no movimento uniforme retilíneo para baixo introduz Epicuro desvios múltiplos. As amizades dos epicuristas ficaram famosas como as dos pitagóricos. invisíveis. Aristóteles. é tarefa do conhecimento do mundo. seguindo as pegadas de Demócrito.. que entende com a metafísica. Como a sensação. com o seu espírito positivo e observador. se vão desenvolvendo harmoniosamente as outras partes da filosofia até constituírem em Aristóteles esta grandiosa síntese do saber universal.

praticamente ateu. estéticos e intelectuais. o instinto da reprodução. O mundo e a vida são um espetáculo: melhor é ser espectadores e atores. Assim. Estes. do prazer imediato. sujeitos ao nascimento e à morte. sabiamente. ela não é. afinal. da paixão. filosoficamente. porquanto acarretam fatalmente inquietação e agitação. para estar tranqüilo. no entanto. do vulgo. No entanto. Epicuro admite a divindade transcendente. O universo não é concebido como finito e uno. no sono. É mister dominar os prazeres. visto ser o desejo inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade. Verdade é que Epicuro mira os prazeres estéticos e intelectuais. no isolamento do mundo. e a morte é a ausência de sensibilidade. especialmente durante o sono. aos prazeres positivos. na insensibilidade. portanto. Em que consiste. diversamente do imanentismo estóico. da emoção.por exemplo. A Moral e a Religião A moral epicurista é uma moral hedonista. do indeterminismo universal. se ele faz uma afirmação profunda. Nisto estão toda a sabedoria.como na Academia e no Liceu. mas negativo. quando for preciso. a vida ideal do sábio. no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento. portanto. Aqui. Nesse mundo o homem. e nada mais seriam que complicações de prazeres sensíveis. na unidade da amizade.por exemplo. Os deuses de Epicuro são muitos. dar uma unidade estética e racional à vida. quando ela é nós não somos mais. por conseguinte. mais do que ao mundo. sem alma imortal. ter a faculdade de gozar e não a necessidade de gozar. renunciando a todos os desejos possíveis. a ambição. A prova da existência da divindade estaria no fato de que temos na mente humana a sua idéia. que representa o ideal supremo na concepção grega da vida. preenchida com as mais nobres ocupações . Mas precisamente ainda. a vida se inspirava nos mais requintados costumes. O epicurismo. É de fato.como pensava Demócrito. que é uma simples combinação da contingência. Este prazer imediato deveria ficar sempre essencialmente sensível. vivendo ocultamente. A filosofia toda está nesta função prática. não defende o suicídio que poderia justificar com maior razão do que os estóicos. e na morte.desceriam até nós dos intermundos. não tem a coragem de ensinar a renúncia aos prazeres positivos espirituais. espalhado pelo espaço infindo.como os fantasmas de todas as outras coisas . E sustenta isto em contradição com a sua ascética radical. nenhum prazer deve ser recusado. porque quando nós somos. aliás geralmente desvalorizado no mundo grego. do filósofo. perturbam a serenidade e a paz. esteticamente. O prazer espiritual diferenciarse-ia do prazer sensível. não ser perturbado no espírito. mesmo quando Epicuro fala de prazeres espirituais. de fato. O único bem é o prazer. esse prazer imediato. na apatia. Epicuro. paz e contemplação. a não ser por causa de conseqüências dolorosas. que encontra precisamente a mais perfeita realização nestes bens espirituais. não teriam explicações se os átomos caíssem todos com movimentos uniforme e retilíneos para baixo . mas ainda renuncia os terceiros. mas também na ação (cfr. até um verdadeiro pessimismo e ascetismo. a virtude ética de Aristóteles). e. como o único mal é a dor. Epicuro é também hostil à atividade pública. porquanto o primeiro se estenderia também ao passado e ao futuro e transcende o segundo. Almejava. pelos mesmos motivos. Os fantasmas dos deuses proviriam dos próprios deuses . inversamente. físicos e espirituais. que é unicamente presente. refletido. em vigiar-se. trata-se do prazer imediato. renuncia os segundos. representa. O sábio satisfaz os primeiros. critério único de moralidade é o sentimento. deve adaptar-se para viver como melhor puder. e precisamente em uma vida curta e refinada. Não sofrer no corpo. está certamente em contradição com a sua metafísica materialista. O verdadeiro prazer não é positivo. a maneira grega. melhor é conhecer do que agir. os quais exigem muito pouco e cessam apenas satisfeito. se ensina a renúncia. Epicuro divide os desejos em naturais e necessários . que não pode ser senão cópia de realidade. a amizade genial. uma norma de vida ordinária e espiritual. de sofrimento. porém. O fim supremo da vida é o prazer sensível. mas infinito e resultante de mundos inúmeros divididos por intermundos. porém. racionado? Na satisfação de uma necessidade. ou de nenhum sofrimento menor. A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte. como é desejado pelo homem vulgar. nos jardins de Epicuro. avaliado pela razão. que aspira a liberdade e à paz como bens supremos. a virtude dianoética de Aristóteles). Em realidade.os mundos. à política considerando a família e a pátria como causas de agitações e inimigos da autarquia. refletido. na conversa arguta e delicada: numa palavra. satisfazendo suas necessidades essenciais. Dado este conceito da vida concebida como liberdade. Nunca nos encontraremos com a morte. . considerado vulgarmente como propulsor de devassidão e sensualidade. pois todo mal e todo bem se acham na sensação. a não ser em vista de um prazer. como os mais altos prazeres. é natural que Epicuro seja hostil ao matrimônio e à família. portanto. na remoção do sofrimento. bem como contradiz a sua metafísica materialista com a sua moral. Epicuro. não naturais e não necessários . na quietude. sem providência divina. e nenhum sofrimento deve ser aceito. a virtude. e não se deixar por eles dominar. escolhido prudentemente. consistiria na renúncia a todos os desejos possíveis. Mediante o clinamen Epicuro justifica ainda o livre arbítrio. consistindo na ausência do sofrimento. para os quais não há lugar no seu sistema. Não obstante o seu materialismo teórico e o seu ateísmo prático. No epicurismo não se trata. que é precisamente liberdade e paz. que nasce de exigências não satisfeitas. o bem espiritual não consiste unicamente na contemplação (cfr. a moral epicuristas.

no período helenista e depois ainda. nem a da afirmação. O advento de uma semelhante filosofia foi favorecido pela permanência e pela coexistência. Persiste nos céticos uma fé nostálgica e realista e o conceito da objetividade da ciência: o ser. inteiramente voltada para a prática e para a ação. cuja escola terminou pouco depois do seu discípulo Timon. mas não é atacada pelo ceticismo. a segunda afirma-se de modo original graças a Carnéades. O ceticismo critica o conhecimento sensível. e também a opinião. a grande metafísica platônico-aristotélica é posta de lado. O estoicismo procura realizar a apatia ainda mediante uma metafísica positiva. como uma suma de elementos estóicos.sempre acordados e sentados em jovial convívio. embora imperfeita. O pragmatismo eclético foi. característico . que concebem a filosofia popularmente. enfim. semelhantes e diversos ao mesmo tempo dos fins éticos-ascéticos dos céticos. geralmente. É o ecletismo filosofia de espíritos pragmáticos ou decadentes. A primeira escola cética serve-se. mas porque eles encarnam o ideal estético grego da vida. a terceira. de várias escolas filosóficas. especialmente do que o estoicismo. embora imensamente inferior ao ceticismo.o mal da religião. faz uso da dialética eleática. Chega-se. O ceticismo clássico começa com Pirro de Elis (365-275 a. do relativismo sofista. mesmo negativa. dotados de corpos luminosos. de tendência pirroniana. uma espécie de puro amor de Deus dos ascetas e dos místicos. com os fins práticos de uma filosofia da renúncia. portanto será não a filosofia. Ceticismo e Ecletismo O ceticismo apresenta-se mais coerente do que as escolas precedentes. cuja grande obra.constituídos de átomos etéreos. tendo forma humana belíssima. sorvendo ambrósia. imortais diversamente dos deuses estóicos .C. O epicurismo tende a realizar o mesmo fim com uma metafísica negativa. nos espaços entre mundo e mundo. fora do mundo e dos mundos. teria praticado .segundo ideal grego da vida . Encarna-se na média academia com Argesilau e Carnéades. da tese e da antítese. E. Então. pois a filosofia é escolha. na beata solidão dos intermundos. que é inacessível ao homem".C. Através da mais absoluta indiferença. feita de abstratas generalidades ou de particularidades secundárias. em ordem cronológica. Epicuro venera os deuses. não filosóficos. da indiferença. É o ceticismo a última palavra da sabedoria antiga. . Vivem. como o ceticismo. portanto. se os deuses não proporcionam ao homem nenhuma vantagem prática. contemplados . uma religião desinteressada. negando todo absoluto e transcendente. O ecletismo apresenta-se como um sistema afim. que vive no mundo de estátuas divinas. É uma teologia refinada de ateniense e de artista. substitui ao critério da verdade o da verossimilhança. melhor ainda. Deste modo. escapando destarte a fatal destruição dos mundos. e a coerência materialista do epicurismo. peripatético. perturbados. encarnando na serenidade do mármore o ideal grego contemplativo e estético da vida.de sorte que se torna fácil a síntese eclética. A felicidade não é mais uma coisa positiva. ideal que tem uma expressão concreta precisamente nas belas divindades do panteão helênico.beatos. O nem-nem dos céticos é mudado em e-e pelos ecléticos. em princípios da era vulgar. o objeto. favorecido pelo contato do pensamento grego com a romanidade dominante. proporcionam-lhe contudo o bem da elevação.529 D. construção. à destruição de todos os valores. tudo vale igualmente. mas pode ser alcançada unicamente negando o saber. prática e teorética. conversando em grego! Mas . sem qualquer metafísica. destarte. Substancialmente. mas não se podem conhecer por falta de meios. surge de novo na forma pirroniana com Enesidemo e Sexto Empírico. O ecletismo apresenta-se como uma síntese prática ou. E isto basta aos fins ético-empíricos dos ecléticos. moralisticamente. sutis e luzentes. Também o ecletismo. proclamado ateu. enfim. e sim o jus. enfim. acadêmicos e também peripatéticos. dada a natureza crítica do ceticismo. que importa na contemplação do ideal. segundo os elementos de uma ou de outra escola na síntese prática do próprio ecletismo. O ceticismo visa sempre um fim último ético-ascético.entre os limites impostos pelo pensamento grego e pelo seu pensamento . não para receber auxílio. se nada é verdadeiro.) . para não serem contaminados.como acontece nos períodos de decadência especulativa . do sossego. organismo especulativo. que implica sempre numa crítica. sistema.C. e não justaposição mecânica de peças sem vida. esvaziadas do seu conteúdo original. um ecletismo estóico. ou não têm a força da crítica. depois acadêmico e. incoerente. embora acriticamente. O Período Ético (300 a.como as idéias transcendentes de Platão e ato puro de Aristóteles . e por demais despersonalizadas. Epicuro. existem.não atuam sobre o mundo e a humanidade. Temos precisamente. É preciso venerá-los para imitá-los. desesperada por não ter podido resolver o problema da vida mediante a razão. que surgiram em tempos diferentes. procura-se realizar finalmente tão almejada paz. Diz Argesilau: "Deus unicamente conhece a verdade. nem está no saber e não se pode alcançar mediante o saber. bem como o intelectual. mais ou menos).. Contém muito menos elementos céticos e epicuristas.

o helenismo. E. o segundo a forma . pelo ano 300. a filosofia torna-se uma preparação para a morte. como no precedente. mas afirmações dogmáticas. o estoicismo pode-se dividir em três períodos: um período antigo ou ético. a de escritor. como na idade moderna. literatura. desenvolve-se naturalmente a técnica. A arte resolve-se no virtuosismo e na imitação. da escola cética.Graecia capta ferum victorem cepit. enfim exporemos o pensamento latino. física. Nesta civilização cosmopolita encontram-se dois valores universais: o pensamento e a arte dos gregos. Iniciou. mais ou menos). na história da filosofia denomina-se período ético. Na história da civilização e da cultura. Em seus escritos já se encontram a clássica divisão estóica da filosofia em lógica. elementar. filosofia moral e moral prática. o vigor especulativo. história. Os dois últimos. Finalmente. uma orientação moral. A grandeza verdadeira e original do pensamento latino é o jus. o homem volta-se para o transcendente e para o eterno. de Atenas. a primazia da ética e a união de filosofia e vida. um período recente ou religioso. o qual. à erudição e às ciências especiais que se desenvolvem. do lugar onde ele costumava ensinar: pórtico em grego.Características Gerais O Estoicismo O Pensamento: A Gnosiologia e a Metafísica A Moral e a Política Características Gerais O terceiro período do pensamento grego abrange os três séculos que decorrem da morte de Aristóteles ao início da era vulgar. menosprezando o grande desenvolvimento filosófico platônicoaristotélico. toda moral. em que não há mais metafísica alguma. que procura na filosofia um conforto. funda a sua escola. Os motivos desta filosofia pragmatista devem ser procurados na decadência espiritual e moral da época. consequentemente. Primeiramente (estoicismo e epicurismo). como julga Platão. Não filosofia teorética.ecletismo e estoicismo. geografia. bastante divergentes do estoicismo clássico. valor universal como a filosofia grega. nem moral. bem como na profunda tristeza dos tempos e na profunda sensibilidade diante do mal. leva para ele. Em conclusão. Seu pai. uns tratados socráticos. e anacrônica. mercador. do temor de além-túmulo. antes de tudo. Trataremos. por conseqüência. . em segundo lugar. O interesse teorético.perdidos seus bens . helênica. O fundador da antiga escola estóica é Zenão de Citium (334-262 a. que se chamou estóica. da escola epicuréia. ciências naturais. encontrando-a na renúncia ao mundo e à própria vida. voltando-se para a sofística. um período médio ou eclético. retorna-se à metafísica naturalista dos pré-socráticos. juntamente com a atividade didática. anuladas. pelo que diz respeito à filosofia. o direito romano. ao passo que a metafísica esmorece. em que a metafísica tem apenas uma função negativa. Do contingente e do temporal.dedica-se à filosofia. entre os quais o cínico Crates. depende de cultura grega. como opina Aristóteles. física e ética. e precisamente desse terceiro período . cínica e cirenaica. medicina. freqüentando por algum tempo várias escolas e mestres. como na escola eclética. matemática. libertar o homem das preocupações transcendentais. em terceiro lugar. anula-se toda metafísica e. e a sabedoria é desapego da ação. stoá. aí . e. O primeiro valor dá o conteúdo. Tudo isto torna dolorosa a vida do homem. Aos vinte e dois anos vai para Atenas. em contradição consigo mesma e com a moral. porém. o jus e a política dos romanos. que lhe despertam o entusiasmo para com os estudos filosóficos. porquanto o interesse filosófico é voltado para os problemas morais. depois (ceticismo e ecletismo). não sistemas críticos. bem como à moral das escolas socráticas menores. isto é. este período toma o nome de helenismo. da escola estóica. O Estoicismo Em seu conjunto. faltando ao homem interesse e a força para a especulação pura. astronomia.. mas filologia. a saber. significando a expansão da cultura grega. com relação às ciências especiais. ciência e técnica. No terceiro período do pensamento grego não se encontram mais alguns poucos e grandes pensadores. restringem-se ao particular. e. em que ainda há uma metafísica. mas vastas orientações e escolas. em que a metafísica e moral são sincretistas. portanto. no mundo civilizado.C. a cultura helenista reduz-se à erudição e ao virtuosismo.

A mente humana é concebida como uma tabula rasa. da metafísica e. Como em Aristóteles. fazendo emergir todas as qualidades da matéria. uma ética. não é o prazer. à riqueza e à pobreza. indiferença e renúncia a tudo. não obstante as repetidas e múltiplas declarações estóicas em louvor da razão. todavia. quer se trate de piedade. moralizadoras. a tranqüilidade da alma. necessidade. rigoristas. que se manifesta no mundo. Não obstante esse absorvente moralismo. diversamente de Aristóteles. uma complicação quantitativa de elementos sensíveis. E compreende-se o seu vasto êxito em todos os tempos. em correspondência com o discurso interior e exterior. logo. que anda como um deus entre os homens. mas. isto é. da serenidade. na ética. a independência interior. ordem são afirmados ao lado dos conceitos opostos de fado. Deus. Como se vê. a sabedoria. a ética é o fim último e único de toda a filosofia.pois o prazer é julgado insana vaidade da alma. segundo uma ordem teológica. metafísica. morbo e vício da alma . em especial no homem. na filosofia estóica. pois. para assegurar ao homem a felicidade. o único bem do homem. é sempre e substancialmente má. porquanto é radicalmente materialista: se tudo é material. mal se for ligado ao vício. Daí a guerra justificada do estoicismo contra o sentimento. a felicidade. e os estóicos não são filósofos. salvo e pensamento. a paixão. providência. Dada a indiferença estóica do suicídio como voluntário e moral afastamento do mundo. mas sim uma turma bastante uniforme de pensadores medíocres. Tudo aquilo que não é virtude nem vício. contraditória. incoerentemente declaram racional o fogo . pode tornar-se bem se for unido com a virtude. mas a virtude. O conceito. seguindo-se o aniquilamento da ciência. . uma tendência irracional. espírito. uma necessidade mecânica. uma emoção. no fundo. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica O estoicismo não apresenta o fenômeno de um grande filósofo. surge pela influência de outras escolas e para responder às objeções dessas escolas. Devendo os estóicos. inteiramente absorvidos na prática. O ideal ético estóico não é o domínio racional da paixão. para dar lugar unicamente à razão: maravilhoso ideal de homem sem paixão. e a lei desse princípio material só pode ser. A virtude estóica é.A escola estóica média ou eclética. que constituem os únicos bens verdadeiros: indiferença e renúncia à vida e à morte. sacerdotal. a dor. inclusive da política e da religião. toda atividade é movimento. imaginam-no como espírito ordenador. como o Sol faz brotar da semente a planta. quanto pela sua irracionalidade e desordem intrínseca. Na lógica trata-se da gnosiologia. fornecer alguma base à sua ética do dever. mas pragmatistas. mas apenas indiferença. A felicidade do homem virtuoso é a libertação de toda perturbação. e cujo curso é fatalmente determinado. não é nem bem nem mal. A Moral e a Política No pensamento dos estóicos. o conhecimento é limitado ao âmbito dos sentidos. a virtude. as propriedades das coisas. destino. ao prazer e ao sofrimento . numa palavra. O conhecimento intelectual nada mais pode ser que uma combinação. assim o mal único e absoluto é o vício. a indiferença e a renúncia a todos os bens do mundo que não dependem de nós. em outras palavras.substância metafísica da realidade -. uma física. pois. como a filosofia estóica chega a ser substancialmente pragmatista e. mas a sua destruição total. o fim supremo. o estoicismo. da indiferença universal. por conseguinte. para firmar a virtude e. a filosofia é cultivada exclusivamente em vista da moral. todavia. à saúde e à doença. devem-se conceber materialisticamente também Deus. da serenidade. mecanicismo. o vício. Entende-se. conforme a concepção de Heráclito. a única atitude do sábio estóico deve ser o aniquilamento da paixão. pois. a física iguala a metafísica. Com o desenvolvimento do estoicismo. ao repouso e à fadiga. Os estóicos dividem a lógica em dialética e retórica. donde derivam o desejo. e sim como sendo ela própria um bem imediato. mas como uma missão e uma prática religiosa. A paixão. E não tanto pelo dano que pode acarretar ao vicioso. no fundo. a tarefa essencial da filosofia é a solução do problema da vida. a alma. não é concebida como necessária condição para alcançar a felicidade. Podem-se. agrupar na escola estóica nova ou religiosa os que entendiam absolutamente a filosofia. atribuem-lhe arbitrariamente os atributos divinos da sabedoria e da providência. Por conseguinte. até a apatia. Como o bem absoluto e único é a virtude. logo. o conhecimento parte dos dados imediatos do sentido.quer se trate de ódio. é destruído. a autarquia. A metafísica estóica reduz-se à física. da autarquia do sábio. a emoção. ainda que se acabe por repudiá-lo como perturbador da indiferença. às honras e à obscuridade. a metafísica dos estóicos é uma metafísica elementar. seguido por uma série de discípulos mais ou menos originais. razão da vida. amiúde apresentando-se como a filosofia dos não filósofos que têm pretensões filosóficas. há o vício quando à indiferença se ajunta a paixão. metafísicos. acaba não sendo mais filosofia. De tal forma. naturalmente. não como ciência. a virtude acaba por se tornar meio para a felicidade da tranqüilidade. também da moral. No dizer dos estóicos. moralistas. isto não se concilia. à maneira de Demócrito. como geralmente acontece. que nasce da virtude negativa da apatia. os estóicos distinguem na filosofia uma lógica. decadente. que devem ser aniquilados. e dar uma explicação à razão. pois é movimento irracional. Esta matéria está em perpétuo vir-aser.

torna-se cosmopolita por natureza. se a ordem do universo é racional. A sabedoria estóica é ação negadora da expansão das forças espirituais. morte moral. supremo. salvo o seu pensamento cujo conteúdo é. A serenidade. virtude corrosiva. esta mesma renúncia -. em definitivo. político por natureza. os estrangeiros e os inimigos. Pelo que diz respeito à política. Mas é uma virtude absolutamente negativa. inteiramente fechado na sua torre de marfim. Com efeito. quando o homem se torna indiferente a tudo. em civilização humana e moral. Abre-se caminho a um sentimento de caridade. magoado pela possível e freqüente carência dos bens terrenos. destinada a resolver-se na matéria. O estóico pratica esta indiferença e renúncia para não ser perturbado. porque. a paz. esse cosmopolitismo. pois sabe que tudo é efeito de um determinismo universal. que são o verdadeiro. a serenidade. nada lhe acontece que não seja por ele querido. pois no sistema estóico. E até começam a nascer instituições caritativas para com os pobres e os doentes. o sossego. clássico. Tal cosmopolitismo foi fecundo em progresso. é uma pura palavra. de uma dura virtude. com a virtude da fortaleza que o estoicismo reconhece e louva. apenas para os concidadãos. e se conforma com o demais. sem dúvida. sem saudades e sem esperanças. e para não perder. O sábio é beato. livres e íntegros. e a tudo renuncia. em virtude da doutrina que afirma a identidade da natureza humana. conceitos que deveriam ser deduzidos da natureza racional do homem. Não Deus. promove todavia os conceitos de sociedade universal. que existe. e nem se pode explicar racionalmente o suicídio. de direito natural. Destarte. a que os estóicos não podem fornecer uma base racional e metafísica.porém. não lhe resta efetivamente mais nada. como precisamente afirmam os estóicos. a apatia dos estóicos seria. até para os infelizes e os escravos. Diz o estóico Musônio: "O mundo é a pátria comum de todos os homens". . fruto de uma fatigosa conquista. de perdão. não a alma. de tal maneira. manifesta-se na filosofia estóica um racionalismo cosmopolita radical a propósito da sociedade estatal: o homem. único bem da alma. sentimento este inteiramente desconhecido ao mundo antigo. porém. de lei racional. onde campeia solitária uma justiça.

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