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Posturas teóricas subjacentes
à pesquisa qualitativa

Perspectivas da pesquisa no campo da pesquisa qualitativa, 68


Significado subjetivo: interacionismo simbólico, 69
A construção das realidades sociais: etnometodologia, 71
A composição cultural da realidade social e subjetiva: modelos estruturalistas, 73
Rivalidade entre paradigmas ou triangulação de perspectivas, 75
Aspectos comuns das diferentes posturas, 76
Feminismo e estudos de gênero, 78
Positivismo e construcionismo, 79

OBJETIVOS DO CAPÍTULO
Após a leitura deste capítulo, você deverá ser capaz de:
✓ conhecer as principais teorias de embasamento da pesquisa qualitativa.
✓ reconhecer as características comuns e distintivas destas teorias.
✓ compreender a diferença entre positivismo e construtivismo.
✓ considerar a contribuição das teorias feministas para a pesquisa qualitativa.

PERSPECTIVAS DA PESQUISA lico trata do estudo dos significados sub-


NO CAMPO DA PESQUISA jetivos e da construção individual de sig-
QUALITATIVA nificado. A etnometodologia interessa-se
pelas rotinas da vida cotidiana e na pro-
Conforme o que foi aprendido com dução dessas rotinas. As posturas estrutu-
a leitura do Capítulo 2, várias abordagens ralistas ou psicanalíticas partem de pro-
de pesquisa resumem-se sob a rubrica da cessos de inconsciência psicológica ou so-
pesquisa qualitativa e distinguem-se em cial. É possível distinguir as abordagens
suas suposições teóricas, na forma como que colocam em primeiro plano o “ponto
compreendem seu objeto e em seu foco de vista do sujeito” daquelas que buscam
metodológico. Em geral, essas abordagens descrições de determinados ambientes
apontam em direção a três posturas bási- (cotidianos, institucionais, ou, de um mo-
cas. A tradição do interacionismo simbó- do mais geral, sociais). Além disso, encon-

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tramos estratégias interessadas na forma essa postura; o trabalho de Blumer (1969)
como a ordem social é produzida (por sobre a “postura metodológica do interacio-
exemplo, as análises etnometodológicas nismo simbólico” teve grande influência
da linguagem), ou orientada para a re- nas discussões metodológicas da década de
construção das estruturas profundas que 1970.
geram a ação e o significado a partir da
psicanálise ou da hermenêutica objetiva.
Cada uma dessas posturas conceitua, Pressupostos básicos
de diferentes maneiras, o modo como es-
tes sujeitos em estudo – suas experiências, Quais os pressupostos básicos desta
ações e interações – relacionam-se ao con- abordagem? Blumer resume os pontos de
texto no qual são estudados. partida do interacionismo simbólico como
“três premissas simples”:

SIGNIFICADO SUBJETIVO: A primeira premissa é a de que os seres


INTERACIONISMO SIMBÓLICO humanos agem em relação às coisas com
base nos significados que as coisas têm
para eles (...) A segunda premissa é a de
Na primeira perspectiva, o ponto de que o significado destas coisas origina-se
partida empírico consiste no significado na, ou resulta da, interação social que uma
subjetivo atribuído pelos indivíduos a suas pessoa tem com as demais. A terceira pre-
atividades e ambientes. Essas abordagens missa é a de que esses significados são
de pesquisa referem-se à tradição do intera- controlados em um processo interpreta-
cionismo simbólico: tivo e modificados através desse proces-
so, que é utilizado pela pessoa para lidar
com as coisas com as quais se depara.
O nome dessa linha de pesquisa socioló- (1969, p. 2)
gica e sociopsicológica foi cunhado em
1938 por Herbert Blumer (1938). Seu
foco está nos processos de interação –
Qual o significado disso para a situa-
ação social caracterizada por uma orien- ção da pesquisa? A consequência é que as
tação imediatamente recíproca –, sendo diferentes maneiras pelas quais os indiví-
que as investigações destes processos ba- duos revestem de significado os objetos, os
seiam-se em um conceito particular de eventos, as experiências, etc., formam o
interação que enfatiza o caráter simbóli- ponto de partida central para a pesquisa
co das ações sociais. (Joas, 1987, p. 84) nessa abordagem. A reconstrução desses
pontos de vista subjetivos torna-se o ins-
Conforme demonstrado por Joas, essa trumento para a análise das esferas sociais.
postura desenvolveu-se a partir da tradi- Outro pressuposto central está formulado
ção filosófica do pragmatismo norte-ame- no assim chamado teorema de Thomas, que
ricano. De um modo geral, ela representa traz um maior embasamento ao princípio
a compreensão da teoria e do método da metodológico1 recém-mencionado. O teo-
Escola de Chicago (W.I. Thomas, Robert rema de Thomas:
Park, Charles Horton Cooley e George
Herbert Mead) na sociologia norte-ameri- (...) afirma que, quando uma pessoa de-
cana. De maneira geral, essa abordagem fine uma situação como sendo real, esta
situação é real em suas consequências,
desempenha um papel central na pesquisa
conduz diretamente ao princípio metodo-
qualitativa tanto recente quanto historica- lógico fundamental do interacionismo
mente. Sociólogos como Anselm Strauss, simbólico: os pesquisadores precisam en-
Barney Glaser, Norman K. Denzin, Howard xergar o mundo pelo ângulo dos sujeitos
Becker e outros referem-se diretamente a que estudam. (Stryker, 1976, p. 259)

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A partir desse pressuposto básico, o im- ficamente e, necessariamente, interpreta-


perativo metodológico é traçado para a re- dos a partir desse ângulo (por exemplo,
construção do ponto de vista do sujeito em 1989a, p. 19-24).
aspectos distintos. O primeiro aspecto en-
contra-se na forma das teorias subjetivas
empregadas pelas pessoas para explicar a si Avanços recentes na psicologia:
mesmas, o mundo, ou ao menos uma de- teorias interpretativas como
terminada área de objetos enquanto parte
deste mundo. Há, portanto, uma volumosa
programa de pesquisa
literatura de pesquisa sobre as teorias sub-
jetivas da saúde e da doença (para panora- O objetivo da análise de pontos de
mas gerais, ver, por exemplo, Flick, 2003), vista subjetivos é buscado de forma mais
sobre as teorias subjetivas na pedagogia e consciente dentro da estrutura da pesqui-
nas ações de aconselhamento. O segundo sa sobre as teorias subjetivas. Aqui, o pon-
aspecto encontra-se na forma de narrativas to de partida é o de que, na vida cotidiana,
autobiográficas, trajetórias biográficas que os indivíduos – assim como os cientistas –
são reconstruídas a partir da perspectiva dos desenvolvem teorias a respeito do modo
sujeitos. No entanto, é fundamental que como o mundo e suas próprias atividades
estas possibilitem o acesso aos contextos funcionam. Eles aplicam e testam essas te-
temporais e locais, reconstruídos a partir do orias em suas atividades, revendo-as, se
ponto de vista do narrador. necessário. Nessas teorias, os pressupostos
são organizados de uma forma interdepen-
dente e apresentam uma estrutura argu-
mentativa que corresponde à estrutura dos
Avanços recentes na sociologia: enunciados das teorias científicas. Esse tipo
interacionismo interpretativo de pesquisa procura reconstruir essas teo-
rias subjetivas. Com este propósito, desen-
Há poucos anos, Denzin defendeu volveu-se um método de entrevista especí-
uma postura que parte do interacionismo fico (ver Capítulo 13: entrevista semipa-
simbólico, mas que integra diversas corren- dronizada). Para reconstruir as teorias sub-
tes alternativas e mais recentes. Encontra- jetivas de forma a aproximá-las o máximo
mos, aqui, considerações fenomenológicas possível do ponto de vista do sujeito, cri-
(seguindo Heidegger), formas estruturalis- am-se métodos especiais para uma valida-
tas de pensar (Foucault), críticas feminis- ção (comunicativa) da teoria reconstruída
tas e pós-modernas da ciência, a aborda- (ver Capítulo 28).
gem das “descrições densas” (Geertz, 1973) A concentração nos pontos de vista
e a dos conceitos oriundos da literatura2. do sujeito e no significado atribuído por
Denzin especifica ou delimita esta aborda- eles às experiências e aos eventos, assim
gem em dois aspectos. Ela “deve ser em- como a orientação em relação ao significa-
pregada apenas quando o pesquisador qui- do dos objetos, das atividades e dos even-
ser analisar a relação existente entre os pro- tos, alimenta grande parte da pesquisa qua-
blemas pessoais (por exemplo, o espanca- litativa. A combinação da pesquisa volta-
mento de esposas ou o alcoolismo) e as po- da para o sujeito com o interacionismo sim-
líticas e instituições públicas criadas para bólico, como foi feita aqui, certamente não
tratar dessas questões pessoais” (1989a, p. pode ser adotada sem restrições. Por exem-
10). Em outro aspecto, Denzin restringe a plo, na pesquisa recente sobre teorias sub-
perspectiva adotada ao enfatizar por repe- jetivas, a referência ao interacionismo sim-
tidas vezes o fato de que os processos em bólico normalmente permanece bastante
estudo devam ser compreendidos biogra- implícita. Além disso, a partir das tradições

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de Blumer e Denzin originam-se outras mento oriundo do senso comum sobre as
perspectivas de pesquisa que se interessam estruturas sociais e do raciocínio socioló-
mais pelas interações do que pelos pontos gico prático. (1967, p. vii)
de vista subjetivos (por exemplo, as con-
tribuições para Denzin, 1993). Para esses O interesse nas atividades cotidianas,
estudos interacionistas, no entanto, conti- na realização destas atividades e, mais do
nua sendo fundamental a concentração do que isso, na constituição de um contexto
foco nos significados subjetivos dos obje- de interação localmente orientado, no qual
tos para os participantes das interações. No ocorrem estas atividades, caracterizam o
que diz respeito aos métodos, essa abor- programa etnometodológico de pesquisa
dagem utiliza principalmente diversos ti- em geral. Esse programa é realizado, prin-
pos de entrevistas (ver Capítulos 13 e 14) cipalmente, nas pesquisas empíricas de
e observação participante (ver Capítulo análise de conversação (ver Capítulo 24).
17). Essas duas posturas – o estudo dos
pontos de vista subjetivos e o fundamento
teórico do interacionismo simbólico – de- Pressupostos básicos
finem um pólo no campo da pesquisa qua-
Quais são os pressupostos básicos
litativa.
dessa abordagem? As premissas da etnome-
todologia e da análise de conversação fo-
ram resumidas por Heritage em três pres-
A CONSTRUÇÃO DAS supostos básicos:
REALIDADES SOCIAIS:
ETNOMETODOLOGIA (1) A interação organiza-se estrutural-
mente; (2) as contribuições da interação
As limitações no interesse do intera- são moldadas pelo contexto, mas também
cionismo pelos pontos de vista dos sujeitos transformadoras deste contexto; e, (3) as-
são superadas teórica e metodologicamente sim, duas propriedades são inerentes aos
no esquema teórico da etnometodologia. detalhes da interação, de modo que ne-
Harold Garfinkel (1967) foi o fundador nhum tipo de detalhe na interação conver-
sacional possa ser descartado a priori
dessa escola que se dedica à questão de
como desordenado, acidental ou irrele-
como as pessoas produzem a realidade so- vante. (1985, p.1)
cial nos processos interativos e por meio
destes. A preocupação central aqui está na A interação é produzida de uma ma-
análise dos métodos empregados por mem- neira bem ordenada, sendo que o contex-
bros na produção da realidade na vida co- to constitui a estrutura da interação que é,
tidiana3. Garfinkel fornece a seguinte defi- ao mesmo tempo, produzida na interação
nição dos interesses de pesquisa relaciona- e por meio dela. As decisões acerca do que
dos à etnometodologia: seja relevante para os membros da intera-
ção social apenas podem ser tomadas por
Os estudos etnometodológicos analisam meio de uma análise da interação, e não
as atividades cotidianas como métodos pressupostas a priori. O foco não é o signi-
dos seus membros que visam a tornar es- ficado subjetivo para os participantes de
sas mesmas atividades visivelmente raci-
uma interação ou de seus conteúdos, mas
onais e relatáveis a todo tipo de propósi-
to prático, ou seja, “explicáveis” enquan-
a forma como essa interação é organizada.
to organizações de atividades cotidianas O tema de pesquisa passa a ser o estudo
triviais. A reflexividade desse fenômeno das rotinas da vida cotidiana, em vez dos
é uma característica singular das ações e eventos extraordinários conscientemente
das circunstâncias práticas, do conheci- percebidos e revestidos de significado.

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A fim de revelar os métodos por meio Avanços recentes da


dos quais a interação é organizada, o pes- etnometodologia nas ciências
quisador procura adotar uma postura de sociais: estudos sobre o trabalho
indiferença etnometodológica (Garfinkel e
Sacks, 1970), devendo abster-se de uma A pesquisa etnometodológica tem se
interpretação a priori, assim como da ado- concentrado e se restringido cada vez mais
ção das perspectivas dos atores ou de um à análise crescentemente formal de con-
dos atores. Para compreender-se a perspec- versação. Desde a década de 1980, o se-
tiva da etnometodologia – o contexto de- gundo foco principal, nos “estudos sobre o
sempenha um papel-chave no cenário onde trabalho”, tem sido a análise dos proces-
a interação se realiza. Um estudo empírico sos de trabalho (ver Bergmann, 2004a;
demonstra tal relevância para os partici- Garfinkel, 1986). Aqui, os processos de tra-
pantes da interação. Wolff e colaborado- balho são estudados em um sentido amplo
res ilustram isso muito claramente: e particularmente dentro do contexto do
trabalho científico em laboratórios, ou, por
O ponto de partida fundamental de um exemplo, no modo como os matemáticos
procedimento etnometodológico (...) é constroem suas provas (Livingston, 1986).
considerar cada evento como constituído Nesses estudos, aplicam-se vários métodos
por meio de esforços de produção dos
para a descrição mais precisa possível dos
membros ali mesmo. Esse é o caso não ape-
nas para os fatos reais na interação, como, processos de trabalho, entre os quais a aná-
por exemplo, no desenrolar das sequências lise de conversação é apenas uma aborda-
de perguntas e respostas, mas também gem. Com base em um estudo das práticas
para compreender os assim chamados interativas, o âmbito é ampliado para uma
macrofatos, como o contexto institucional preocupação com o “conhecimento corpori-
de uma conversação. (1988, p. 10) ficado”, materializando-se nessas práticas,
assim como em seus resultados (Bergmann,
Deixe-me ilustrar isso um pouco mais, 2004a). Esses estudos contribuem para o
a partir de um exemplo. De acordo com contexto mais amplo da pesquisa recente
essa noção, uma conversa de aconselha- sobre a sociologia do conhecimento cientí-
mento torna-se aquilo que ela é (diferente fico (ver Knorr-Cetina e Mulkay, 1983). De
de outros tipos de conversa) por meio dos um modo geral, a sociologia do conheci-
esforços dos membros para criar esta situ- mento científico desenvolveu-se a partir da
ação. Dessa forma, não estamos preocupa- tradição da etnometodologia.
dos com a definição a priori atribuída pelo
pesquisador à situação. Em vez disso,
estamos interessados nas contribuições Avanços recentes na psicologia:
conversacionais dos membros, uma vez que psicologia discursiva
é por meio da organização alternada da
fala que a conversa se constitui na forma Partindo-se da análise de conversação
de uma consulta. O contexto institucional, e dos estudos laboratoriais, desenvolveu-
no entanto, torna-se também relevante na se um programa de “psicologia discursiva”
conversa, sendo constituído nas contribui- na psicologia social britânica (ver Harré,
ções dos membros e por meio de tais con- 1988; Potter e Wetherell, 1988). Aqui, fe-
versas. Apenas as práticas específicas do nômenos psicológicos como a cognição ou
conselheiro e do cliente transformam a con- a memória são estudados por meio da aná-
versa em uma consulta, e uma consulta em lise de discursos relevantes que tratam de
uma consulta dentro de um contexto espe- determinados assuntos. Esses discursos
cífico (por exemplo, em um “serviço socio- variam de conversas cotidianas a textos da
psiquiátrico”). mídia. A ênfase encontra-se nos processos

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Introdução à pesquisa qualitativa 73
comunicativos e construtivos das intera- Pressupostos básicos
ções. O ponto de partida metodológico
consiste em analisar os “repertórios inter- Faz-se aqui uma distinção entre a su-
pretativos” que os participantes de certos perfície da experiência e da atividade, por
discursos utilizam para elaborar e para um lado, e as estruturas profundas das ati-
defender uma versão específica da realida- vidades, por outro. Enquanto a superfície é
de: “Repertórios interpretativos são agru- acessível ao sujeito participante, as estrutu-
pamentos de termos, de descrições e de fi- ras profundas não são acessíveis às refle-
guras de linguagem nitidamente discer- xões individuais cotidianas. A superfície está
níveis, reunidos, seguidamente, em torno associada às intenções e ao significado sub-
de metáforas ou de imagens vívidas. Podem jetivo relacionado às ações, ao passo que as
ser pensados como blocos de uma constru- estruturas profundas são vistas como gera-
ção utilizados para a fabricação de versões doras de atividades. Estruturas profundas
de ações, de estruturas próprias e de es- como essas estão contidas em modelos cul-
truturas sociais na fala” (Potter e Wetherell, turais (D’Andrade, 1987), em padrões
1998, pp. 146-147). Os conteúdos e os pro- interpretativos e em estruturas latentes de
cedimentos dos processos cognitivos são significado (Reichertz, 2004), e, por fim, na-
reconstruídos a partir desses discursos, bem quelas estruturas latentes que, de acordo
como os caminhos nos quais as memórias com a psicanálise, permanecem inconscien-
sociais ou coletivas relativas a certos even- tes (König, 2004). A psicanálise procura re-
tos são construídas e mediadas. velar o inconsciente tanto na sociedade
Nessas abordagens, a perspectiva per- quanto no processo de pesquisa. Analisar
manece restrita à descrição do como na ela- esse processo e a relação do pesquisador
boração da realidade social. As análises com quem é entrevistado ou observado tor-
etnometodológicas frequentemente forne- na-se um recurso para a descoberta da for-
cem descrições impressionantemente exa- ma como funciona a “produção social da
tas sobre como a interação social é organi- inconsciência” (Erdheim, 1984). Para essas
zada, sendo capazes de, assim, desenvol- análises, as regras de ação implícitas e ex-
ver tipologias das formas conversacionais. plícitas são de particular importância. Quan-
Contudo, o aspecto da imputação subjeti- to à hermenêutica objetiva, aqui apresenta-
va de significado segue bastante negligen- da como um exemplo das outras aborda-
ciado, assim como a questão sobre qual seja gens mencionadas, argumenta-se:
o papel que contextos preexistentes, como
as culturas específicas, desempenham na Com base em regras, que podem ser
construção das práticas sociais. reconstruídas, os textos de interação cons-
tituem as estruturas de significado objeti-
vo, as quais representam as estruturas la-
A COMPOSIÇÃO CULTURAL DA tentes de sentido da própria interação.
REALIDADE SOCIAL E SUBJETIVA: Essas estruturas de significado objetivo de
textos de interação, em geral protótipos
MODELOS ESTRUTURALISTAS das estruturas sociais objetivas, são a re-
alidade (e existem) analiticamente (mes-
A pesquisa qualitativa baseia-se, ain- mo se não empiricamente) independente
da, em um terceiro tipo de abordagem teó- da representação intencional concreta dos
rica. Um aspecto comum deste é que – em- significados da interação por parte dos
bora com variados graus de ênfase – su- sujeitos que participam da interação.
põe-se que os sistemas de significado cul- (Oevermann et al., 1979, p. 379)
tural, de alguma forma, componham a per-
cepção e a elaboração da realidade subje- Com a finalidade de reconstruir re-
tiva e social. gras e estruturas, são aplicados vários

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procedimentos metodológicos para a aná- bém aos interesses daqueles que estiverem
lise de significados “objetivos” (ou seja, sendo estudados e constituindo um tópico
não-subjetivos). Entre esses procedimen- no texto. De acordo com essa visão, os tex-
tos, podemos encontrar: análises linguísti- tos não são nem o mundo per se, nem uma
cas, para extrapolar os modelos culturais; representação objetiva de partes deste
análises estritamente sequenciais de ex- mundo. São, antes, resultantes dos interes-
pressões e de atividades para revelar sua ses daqueles que produziram o texto, bem
estrutura objetiva de significados; e a “aten- como daqueles que o leram. Leitores dis-
ção equilibradamente suspensa” do pesqui- tintos – dependendo das perspectivas que
sador no processo psicanalítico de inter- trazem para o texto específico – solucio-
pretação. nam, de formas diferentes, a imprecisão e
Particularmente, a hermenêutica ob- a ambiguidade contidas em cada texto.
jetiva a partir de Oevermann e colabora- Com base nesse contexto, as restrições for-
dores (1979) atraiu imensa atenção e esti- muladas acerca do conceito hermenêutico
mulou uma pesquisa abundante nas regi- objetivo da estrutura – de que “entre as
ões de língua alemã (ver Capítulo 25). estruturas superficiais e profundas do uso
Entretanto, há um problema ainda não so- da linguagem (...) existe um ‘hiato’
lucionado nos fundamentos teóricos da metodológico na hermenêutica objetiva
abordagem, que é a relação pouco nítida que, na melhor das hipóteses, pode ser pre-
dos sujeitos ativos com as estruturas a se- enchido ensinando-se e tratando-se o mé-
rem extrapoladas. Luders e Reichertz 1986, todo como arte” (Bonß, 1995, p. 38) – tor-
p. 95), por exemplo, criticam a “metafísica nam-se ainda mais relevantes.
das estruturas”, que são estudadas prati-
camente como “estruturas autonomamen-
te ativas”. Outros problemas referem-se à Avanços recentes na psicologia:
simplicidade da equação sobre texto e representações sociais
mundo (“o mundo como texto”) e à supo-
sição de que, se houvesse um aprofunda- O que ainda permanece obscuro nas
mento suficiente das análises, estas con- abordagens estruturalistas é a relação en-
duziriam às estruturas geradoras das tre o conhecimento social implícito e o co-
atividades do caso em estudo. Essa suposi- nhecimento e as ações individuais. Para
ção baseia-se no pano de fundo estrutura- responder a essa questão, pode-se utilizar
lista da abordagem de Oevermann. um programa de pesquisa em psicologia
social que tenha sido aplicado ao estudo
da “representação social” de objetos (por
Avanços recentes nas ciências exemplo, teorias científicas sobre objetos
sociais: pós-estruturalismo culturais e processos de mudança: para um
panorama, ver Flick, 1998). Tal programa
Após Derrida (1990/1967), tais su-
lidaria com o problema de como esse co-
posições estruturalistas foram questiona-
nhecimento social e culturalmente compar-
das também na pesquisa qualitativa.
tilhado influencia os modos individuais de
Lincoln e Denzin (2000, p.1051), por
percepção, de experiência e de ação. Uma
exemplo, questionam se o texto elaborado
representação social é entendida como:
para fins de interpretação, assim como o
texto formulado enquanto resultado da um sistema de valores, de ideias e de prá-
interpretação, não corresponde apenas aos ticas com uma função dupla: primeira-
interesses (da pesquisa ou do que quer que mente, estabelecer uma ordem que ha-
seja) do intérprete – ou seja, questionam bilitará os indivíduos a orientarem-se em
em que medida esse texto corresponde tam- seu mundo material e social e controlá-

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Introdução à pesquisa qualitativa 75
lo; e, em segundo lugar, possibilitar a jeitos envolvidos em uma situação em es-
comunicação entre os membros de uma tudo e dos significados que essa situação
comunidade por meio do fornecimento de representa para eles. O contexto situacio-
um código para o intercâmbio social e de nal, as interações com outros membros e –
um código para a nomeação e a classifi-
tanto quanto seja possível – os significa-
cação, sem ambiguidades, dos diversos
aspectos de seu mundo e de sua história
dos sociais e culturais são reconstruídos,
individual e grupal. (Moscovici, 1973, p. passo a passo, a partir desses significados
xvii) subjetivos. Conforme demonstra o exem-
plo sobre aconselhamento, nessa perspec-
tiva, o significado e o curso do evento
Essa abordagem é cada vez mais uti-
“aconselhamento” é reconstruído a partir
lizada enquanto esquema teórico para os
do ponto de vista subjetivo (por exemplo,
estudos qualitativos que tratam da cons-
uma teoria subjetiva do aconselhamento).
trução social de fenômenos como a saúde
Se possível, revela-se o significado cultu-
e as doenças, a loucura e a mudança
ral da situação “aconselhamento” por esse
tecnológica na vida cotidiana. Aqui, outra
caminho.
vez, as regras sociais derivadas do conhe-
Na segunda perspectiva, parte-se da
cimento social sobre cada tema são estu-
interação no aconselhamento, estudando-
dadas sem serem entendidas como uma re-
se o discurso (de ajuda, sobre determina-
alidade sui generis. Do ponto de vista
dos problemas, etc.). Aqui, os significados
metodológico, são utilizadas diferentes for-
subjetivos dos participantes são considera-
mas de entrevistas (ver Capítulo 13) e de
dos menos interessantes em relação ao
observação participante (ver Capítulo 17).
modo pelo qual a conversa é formalmente
organizada como uma consulta, assim
como a maneira pela qual os participantes
RIVALIDADE ENTRE PARADIGMAS determinam mutuamente seus papéis en-
OU TRIANGULAÇÃO quanto membros. Os contextos culturais e
DE PERSPECTIVAS sociais externos à interação só se tornam
relevantes no contexto do modo como são
As diferentes perspectivas na pesqui- produzidos ou continuados na conversa.
sa qualitativa e seus pontos de partida es- Na terceira perspectiva, questiona-se
pecíficos podem ser dispostos em um es- sobre quais sejam as regras implícitas ou
quema, conforme demonstra a Figura 6.1. inconscientes que governam as ações ex-
Na primeira perspectiva, parte-se dos su- plícitas na situação e as estruturas latentes

Figura 6.1 Perspectivas da pesquisa na pesquisa qualitativa

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ou inconscientes geradoras de atividades. • Verstehen como princípio epistemológico.


O foco principal está na cultura pertinente A pesquisa qualitativa visa à compreen-
e nas estruturas e regras que ela oferece são do fenômeno ou evento em estudo a
aos indivíduos nas situações e para estas. partir do interior. Procura-se entender o
As opiniões subjetivas e as perspectivas ponto de vista de um sujeito ou de dife-
interativas são de particular relevância en- rentes sujeitos, o curso de situações so-
quanto meios de exposição ou de recons- ciais (conversas, discursos, processos de
trução de estruturas. trabalho) ou as regras culturais ou soci-
Para o esclarecimento das perspecti- ais relevantes para uma situação. A ma-
vas, além dessas justaposições, existem neira como se expressa essa compreen-
duas maneiras de responder a diferentes são em termos metodológicos e o foco
perspectivas de pesquisa. Primeiramente, escolhido dentre os aspectos menciona-
pode-se adotar apenas uma posição e sua dos dependerão da postura teórica que
perspectiva sobre o fenômeno em estudo sustenta a pesquisa.
como sendo “únicas”, e rejeitar criticamen- • A reconstrução de casos como ponto de
te as demais perspectivas. Esse tipo de de- partida. Um segundo aspecto comum
marcação vem, há muito tempo, determi- às diferentes posturas é o fato do caso
nando a discussão metodológica. Na dis- único ser analisado, de forma mais ou
cussão norte-americana, posturas distintas menos consistente, antes da elaboração
foram formalizadas em paradigmas e, en- de enunciados comparativos ou gerais.
tão, justapostas em termos de paradigmas Por exemplo, primeiramente, recons-
concorrentes, ou até mesmo de “guerras trói-se a teoria subjetiva única, a con-
de paradigmas” (ver Guba e Lincoln, 1998, versa única e seu curso ou o caso único.
218). Mais tarde, outros estudos de caso e
Como alternativa, diferentes perspec- seus resultados são utilizados compa-
tivas teóricas podem ser compreendidas rativamente para o desenvolvimento de
como caminhos distintos de acesso ao fe- uma tipologia (das diferentes teorias
nômeno em estudo. Qualquer perspectiva subjetivas, dos diferentes cursos de con-
pode ser examinada acerca de qual parte versa, das diferentes estruturas de
do fenômeno é por ela revelado e qual par- caso). O que em cada caso é entendido
te permanece excluída. Partindo-se desse como “caso” – um indivíduo e seus pon-
entendimento, pode-se combinar e suple- tos de vista, uma interação delimitada
mentar diferentes perspectivas de pesqui- local e temporalmente, ou um contex-
sa. Essa triangulação de perspectivas (Flick, to social ou cultural específico no qual
1992; 2004a) amplia o foco sobre o fenô- um evento se desdobra – depende da
meno em estudo, por exemplo, pela recons- postura teórica utilizada para a análise
trução dos pontos de vista dos participan- do material.
tes e pela análise posterior do desdobra- • A construção da realidade como base. Os
mento das situações compartilhadas nas casos ou tipologias reconstruídos contêm
interações. vários níveis de construção de realida-
de: os sujeitos, com suas opiniões sobre
um determinado fenômeno, explicam
ASPECTOS COMUNS DAS parte de sua realidade; em conversas e
DIFERENTES POSTURAS discursos, os fenômenos são produzidos
interativamente e, assim, a realidade é
Apesar das diferenças de perspectiva, construída; estruturas latentes de senti-
podem-se resumir os pontos a seguir como do e regras relacionadas contribuem
aspectos comuns que permeiam essas pos- para a construção de situações sociais
turas teóricas distintas: com as atividades que geram. Portanto,

Flick - Parte 1-Fim.p65 76 13/10/2008, 09:22


Introdução à pesquisa qualitativa 77
a realidade estudada pela pesquisa qua- construções de estruturas latentes de
litativa não é uma realidade determina- significado só podem ser formuladas a
da, mas sim construída por diferentes partir de textos fornecidos com o de-
“atores”: a definição sobre qual é o ator talhamento necessário. Em todos esses
considerado crucial para essa constru- casos, os textos são a base da recons-
ção depende da postura teórica adotada trução e da interpretação. O status con-
para o estudo desse processo. ferido ao texto depende da postura teó-
• O texto como material empírico. No pro- rica do estudo.
cesso de reconstrução de um caso, são
produzidos textos nos quais são proces- A Tabela 6.1 apresenta um resumo das
sadas as análises empíricas reais. A opi- posturas teóricas e seus aspectos comuns.
nião dos sujeitos é reconstruída como Assim, a lista de aspectos da pesquisa
suas teorias subjetivas, ou são formula- qualitativa discutida no Capítulo 2 pode
das dessa maneira; o curso de uma agora ser complementada conforme apre-
interação é gravado e transcrito; as re- sentado no Quadro 6.1.

TABELA 6.1
Posturas teóricas na pesquisa qualitativa

Pontos de vista Elaboração das Composição cultural


dos sujeitos realidades sociais das realidades sociais

Base teórica Interacionismo Etnometodologia Estruturalismo,


tradicional simbólico psicanálise
Avanços recentes Interacionismo Estudos sobre Pós-estruturalismo
nas ciências sociais interpretativo trabalho
Avanços recentes Programa de pesquisa Psicologia discursiva Representações sociais
na psicologia “Teorias Subjetivas”
Aspectos comuns • Verstehen como princípio epistemológico
• Reconstrução de casos como ponto de partida
• Construção da realidade como base
• Texto como material empírico

QUADRO 6.1 Aspectos da pesquisa qualitativa: lista completa

• Apropriabilidade de métodos e de teorias


• Perspectivas dos participantes e sua diversidade
• Reflexividade do pesquisador e da pesquisa
• Variedade de abordagens e de métodos na pesquisa qualitativa
• Verstehen como princípio epistemológico
• Reconstrução de casos como ponto de partida
• Construção da realidade como base
• Texto como material empírico

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78 Uwe Flick

Até aqui, delineei as principais pers- das vozes das participantes). Ussher (1999)
pectivas de pesquisa que percebo na pes- utiliza a psicologia da saúde para lidar com
quisa qualitativa atual, de acordo com seus questões específicas dentro da pesquisa
pressupostos teóricos fundamentais. Na qualitativa feminista. Kitzinger (2004)
parte restante deste capítulo, tratarei de apresenta uma abordagem da análise de
dois pontos de referência principais para conversas feminista com o objetivo de ana-
as discussões teóricas na pesquisa quali- lisar as vozes em seu contexto interacional.
tativa. Wilkinson (1999) discute os grupos focais
como uma metodologia feminista. May-
nard (1998) desafia novamente a ligação
FEMINISMO E próxima entre a pesquisa feminista e a pes-
ESTUDOS DE GÊNERO quisa qualitativa questionando, por exem-
plo, o porquê da incompatibilidade de uma
Mais do que uma perspectiva de pes- combinação entre pesquisa qualitativa e
quisa, a pesquisa feminista surgiu como pesquisa quantitativa no esquema da pes-
uma crítica fundamental da ciência social quisa feminista. Mais recentemente, Gilde-
e da pesquisa em geral. A pesquisa con- meister (2004) discute os estudos de gê-
centrou-se na ignorância sobre a situação nero como um passo além dos estudos fe-
de vida das mulheres e a dominância mas- ministas e de mulheres enquanto progra-
culina. A pesquisa feminista e a pesquisa ma de pesquisa. Aqui, “encontra-se consis-
qualitativa foram, muitas vezes, sinônimas tentemente indicado (...) que o gênero é
em função dos métodos abrirem-se mais uma categoria social, e que é sempre, de
às vozes das mulheres e a suas necessida- algum modo fundamental, uma questão de
des em geral. Mies (1983) destaca razões relações sociais. Por essa razão, o foco não
pelas quais a pesquisa feminista está mais está mais em lidar com a diferença enquan-
ligada à pesquisa qualitativa do que à quan- to uma questão substancial ou essencial,
titativa. A pesquisa quantitativa normal- mas na análise das relações de gênero do
mente ignora as vozes femininas, conver- ponto de vista de suas organizações hie-
te-as em objetos que são estudados de um rárquicas e sua desigualdade social” (p.
modo valorativamente neutro, não sendo 123). Nesse contexto, gênero é visto, ao
analisadas especificamente como mulheres. mesmo tempo, como uma categoria estru-
A pesquisa qualitativa permite que as vo- tural e como uma construção social. No
zes das mulheres sejam ouvidas e que os primeiro caso, o interesse maior está na
objetivos sejam concretizados. Segundo desigualdade social resultante do gênero
Ussher (1999, p. 99), a pesquisa feminista (diferenças); neste último, o interesse con-
enfoca uma “análise crítica das relações de centra-se mais na produção do gênero
gênero na pesquisa e na teoria (...) uma (West e Zimmermann, 1991) e em como
valorização das dimensões moral e políti- as distinções sociais de gêneros são cons-
ca da pesquisa (...) e o reconhecimento da truídas nas práticas diárias e institucio-
necessidade de mudança social para me- nais. Por exemplo, os estudos sobre tran-
lhorar as vidas das mulheres.” Isso leva não sexualidade tornaram-se uma abordagem
apenas à definição de uma questão de pes- especial para demonstrar como a norma-
quisa (desigualdades de gênero, por exem- lidade é construída interacionalmente e
plo), mas ao desafio da maneira como a como pode ser desconstruída por meio da
pesquisa é feita, em vários níveis. Skeggs análise do esgotamento dessa normali-
(2001) e Smith (2002) delineiam um en- dade:
tendimento feminista da etnografia no ní-
vel da coleta de dados, bem como na aná- A estrutura profunda interacional, na
lise e na apresentação das descobertas (e construção social do gênero, foi particu-

Flick - Parte 1-Fim.p65 78 13/10/2008, 09:22


Introdução à pesquisa qualitativa 79
larmente bem ilustrada pela pesquisa deve e pode ser realizada de uma forma
transexual (...). Este tipo de pesquisa in- livre de valores e, portanto, objetiva; e, por
vestiga, no ponto do esgotamento da nor- fim, é observada uma clara distinção entre
malidade, como a bissexualidade é enunciados científicos e normativos. O
construída na prática cotidiana, e metodo-
positivismo está normalmente associado
logicamente, por que, na mudança de um
gênero para o outro, os processos impli-
com o realismo; ambos admitem que as
cados na ‘produção do gênero’ podem ser ciências naturais e sociais devam e possam
analisados como se estivessem em câmera aplicar os mesmos princípios de coleta e
lenta. (Gildemeister, 2004, p. 126) de análise de dados e que exista um mun-
do lá fora (uma realidade externa) distin-
Pesquisadores feministas têm contri- to das descrições que possamos fazer dele.
buído para a reflexão sobre os métodos O uso da palavra “positivismo” é muitas
qualitativos por meio do desenvolvimento vezes criticado: Hammersley (1995, p. 2)
de um programa de pesquisa para a análi- observa que “tudo o que se pode inferir ra-
se das questões de gênero, das relações de zoavelmente a partir do uso não explicado
gênero, da desigualdade e da negligência da palavra ‘positivismo’ na literatura da
da diversidade. Esse programa foi desen- pesquisa social é que o escritor desaprova
volvido, ao mesmo tempo, nos níveis da o que quer que seja aquilo a que ele ou ela
epistemologia, da metodologia e dos mé- esteja se referindo”.
todos de pesquisa, e teve uma influência O construcionismo social (ou constru-
valiosa na pesquisa qualitativa em geral. tivismo) está justaposto (ver também Flick,
2004b), para essa postura. Diversos pro-
gramas com diferentes pontos de partida
POSITIVISMO E encontram-se agrupados sob esses rótulos.
CONSTRUCIONISMO O que é comum a todas as posturas
construcionistas é que elas analisam a re-
Essa distinção, em grande parte, for- lação com a realidade ao tratarem dos pro-
ma a base da discussão epistemológica da cessos construtivos em suas abordagens. Os
pesquisa qualitativa, e, como Oakley exemplos dessas construções podem ser
(1999) demonstra, muitas vezes está tam- considerados em níveis distintos:
bém ligada ao contexto do feminismo na
pesquisa qualitativa. O positivismo como 1. Na tradição de Piaget, a cognição, a
programa epistemológico provém original- percepção do mundo e o conhecimen-
mente das ciências naturais e, por isso, é to sobre ele são vistos como construc-
empregado mais como um contraste nega- tos. O construtivismo radical (Glaser-
tivo para distinguir-se uma pesquisa em feld, 1995) leva essa noção até o pon-
particular daquela detalhada nas discus- to em que toda forma de cognição –
sões das ciências sociais. em função dos processos neurobioló-
Bryman (2004, p. 11) resume diver- gicos implicados – tem acesso direto
sos pressupostos do positivismo: apenas o apenas a imagens do mundo e da rea-
conhecimento acerca dos fenômenos con- lidade, mas não de ambos.
firmado pelo sentido pode ser garantido 2. O construtivismo social, na tradição de
como conhecimento (fenomenologia); as Schutz (1962), Berger e Luckmann
teorias são utilizadas para gerar hipóteses (1966) e Gergen (1985; 1999), ques-
que podem ser testadas e para permitir que tiona acerca das convenções sociais,
as explicações de leis possam ser avaliadas da percepção e do conhecimento da
(dedutivismo); o conhecimento pode ser vida cotidiana.
elaborado reunindo-se fatos que fornecem 3. A sociologia construtivista da ciência
a base para as leis (indutivismo); a ciência na tradição de Fleck e colaboradores

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80 Uwe Flick

(1979), a pesquisa “laboratório-cons- trato de determinados fatos, mas que os


trutivista” contemporânea (Knorr- conteúdos são construídos em um proces-
Cetina, 1981), busca estabelecer como so de produção ativa. Essa interpretação
o social, o histórico, o local, o prag- foi, ainda, desenvolvida no construtivismo
mático e outros fatores influenciam a radical cujas “teses principais” foram for-
descoberta científica de tal modo que muladas por Glasersfeld (1992, p. 30), con-
os fatos científicos podem ser conside- forme segue:
rados como constructos sociais (“pro-
dutos locais”). 1. Aquilo a que chamamos “conhecimen-
to” em nenhum sentido representa o
O construcionismo não é um progra- mundo que presumivelmente existe
ma unificado, mas vem se desenvolvendo além do nosso contato com ele. (...) O
de maneira paralela em um considerável construtivismo, como o pragmatismo,
número de disciplinas como a psicologia, conduz a um conceito modificado de
a sociologia, a filosofia, a neurolobiogia, a cognição/conhecimento. Consequen-
psiquiatria e na ciência da informação. Ele temente, o conhecimento está rela-
orienta muitos programas de pesquisa qua- cionado ao modo pelo qual organiza-
litativa com a abordagem de que as reali- mos nosso mundo experimental.
dades que estudamos são produtos sociais 2. O construtivismo radical em nenhum
de atores, de interações e de instituições. sentido nega uma realidade externa.
(...)
3. O construtivismo radical está de acor-
A construção do conhecimento do com Barkeley quanto ao fato de que
não seja razoável confirmar-se a exis-
Tomando-se três autores principais, tência de algo que não possa (em al-
pode-se esclarecer como a gênese do co- gum momento) ser percebido. (....)
nhecimento e suas funções podem ser des- 4. O construtivismo radical adota a ideia
critas de um ponto de vista construcionista. fundamental de Vico de que o conhe-
Schutz (1962, p. 5) parte da seguinte pre- cimento humano é um constructo hu-
missa: “Todo o nosso conhecimento sobre mano. (...)
o mundo, tanto no senso comum como no 5. O construtivismo renuncia a alegação
pensamento científico, envolve construtos, de que a cognição é “verdadeira” no
ou seja, um conjunto de abstrações, de ge- sentido de que reflete a realidade ob-
neralizações, de formalizações e de ideali- jetiva. Em vez disso, requer apenas que
zações, específico para o nível adequado o conhecimento seja viável no sentido
da organização do pensamento”. Schutz vê de que deva ajustar-se ao mundo ex-
cada forma de conhecimento como cons- perimental daquele que o conheça
trução elaborada por meio de seleção e de (...).
estruturação. As formas individuais dife-
renciam-se de acordo com o grau de estru- Visto dessa forma, o conhecimento or-
turação e de idealização, e isso depende ganiza as experiências que primeiramente
de suas funções. As construções serão mais permitem a cognição do mundo além do
concretas conforme a base da ação coti- sujeito ou organismo do experimento, sen-
diana, ou mais abstratas conforme um mo- do essas experiências estruturadas e com-
delo para a construção de teorias cientí- preendidas por meio dos conceitos e dos
ficas. Schutz relaciona processos distintos contextos construídos por esse sujeito. Se
que têm em comum o fato de que a for- o quadro que é formado a partir disso é
mação do conhecimento sobre o mundo correto ou verdadeiro é algo que não pode
não deve ser compreendida como mero re- ser determinado. Mas sua qualidade pode

Flick - Parte 1-Fim.p65 80 13/10/2008, 09:22


Introdução à pesquisa qualitativa 81
ser avaliada por sua viabilidade, ou seja, papel da linguagem nessas relações, e, so-
pelo alcance com que o quadro ou modelo bretudo, tem funções sociais. As eventuali-
permitem ao objeto encontrar seu caminho dades dos processos sociais implicados têm
e agir no mundo. Aqui um ponto impor- influência naquilo que permanecerá como
tante de orientação consiste na pergunta uma explicação válida ou conveniente. Os
sobre como funciona a “construção de con- atos relativos à pesquisa constituem tam-
ceitos” (Glasersfeld, 1995, p. 76-88). bém parte da construção social daquilo que
Para o construcionismo social, os pro- podemos tratar ou encontrar na pesquisa
cessos de mudança social na gênese do co- social. E os atos relativos à escrita contribu-
nhecimento assumem uma significação es- em para essa construção social das esferas
pecial e, particularmente, os conceitos que em estudo. Essas questões serão explicadas
são utilizados. Consequentemente, Gergen mais detalhadamente em relação à pesqui-
formula o seguinte: sa qualitativa no capítulo seguinte.

pressupostos para um construcionismo


social: os termos pelos quais damos con-
ta do mundo e de nós mesmos não são Pontos-chave
ditados pelos objetos estipulados por es-
sas nossas considerações (...). Os termos • Três perspectivas de pesquisa com conse-
e os padrões pelos quais alcançamos uma quências distintas em função dos métodos
compreensão do mundo e de nós mesmos utilizados para a adoção destas perspectivas
são artefatos sociais, produtos das trocas na pesquisa empírica resumem as posturas
histórica e culturalmente situadas entre teóricas na pesquisa qualitativa.
as pessoas (...). O grau em que uma de- • Os pressupostos básicos e os avanços recen-
terminada consideração acerca do mun-
tes descrevem essas perspectivas.
do ou de si mesmo sustenta-se através do
• Podem-se inferir alguns aspectos comuns
tempo não depende da validade objetiva
dessa consideração, mas sim das vicissi-
entre essas perspectivas de pesquisa.
tudes dos processos sociais (...). A lingua- • Ao seguir através dessas perspectivas de pes-
gem obtém sua significação nos assuntos quisa, encontram-se duas contribuições que
humanos a partir da maneira como fun- desafiam a prática de pesquisa na fundamen-
ciona dentro dos padrões de relaciona- tação de uma estrutura teórica: o feminismo
mento (...). Avaliar as formas existentes desafia as normalidades e as rotinas das vi-
de discurso significa avaliar os padrões da das cotidianas que estudamos, assim como
vida cultural; essas avaliações dão voz a da prática da pesquisa.
outros enclaves culturais. (Gergen, 1994, • A distinção entre o positivismo e o constru-
p. 49-50) cionismo destaca as diferenças entre a pes-
quisa qualitativa e as ciências naturais (e aque-
O conhecimento é construído em pro- las ciências sociais que são produzidas de
cessos de mudança social, é baseado no acordo com o modelo das ciências naturais).

Exercício 6.1
1. Procure um estudo publicado e identifique qual das perspectivas de pesquisa discuti-
das neste capítulo serviu como orientação ao pesquisador.
2. Reflita sobre sua própria pesquisa e identifique quais são os tópicos deste capítulo
relevantes ao estudo.

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82 Uwe Flick

NOTAS LEITURAS ADICIONAIS

1. Um ponto de partida é o pressuposto in- As duas primeiras referências oferecem


teracionista simbólico: “Deve-se conseguir visões gerais das posturas mais tradicionais
entrar no processo de definição do ator aqui discutidas, enquanto as quatro últimas
para entender sua atuação” (Blumer, 1969, representam os avanços mais recentes.
p. 16).
Blumer, H. (1969) Symbolic Interactionism:
2. “Epifania”, no sentido de James Joyce, Perspective and Method. Berkeley, CA: University
como “um momento de experiência pro- of California.
blemática que ilumina as características
Garfinkel, H. (1967) Studies in Ethnometho-
pessoais, e, muitas vezes, significa um pon-
dology. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall.
to crítico na vida de uma pessoa” (Denzin,
1989a, p. 141). Denzin, N.K. (1989a) Interpretative Interactio-
3. Quanto à abordagem geral e aos interes- nism. London: SAGE.
ses de pesquisa a ela vinculados, Bergmann Denzin, N.K. (2004b) “Symbolic Interactio-
afirma: nism”, in U. Flick, E.v. Kardorff, I. Steinke (eds),
“A etnometodologia caracteriza a meto- A Companion to Qualitative Research. London:
dologia aplicada pelos membros de uma SAGE. pp. 81-87.
sociedade para o procedimento de ativi- Flick, U. (ed.) (1998) Psychology of the Social.
dades, que simplesmente constrói a reali- Cambridge: Cambridge University Press.
dade e a ordem social, sendo entendida
como determinada e pressuposta para os Reichertz, J. (2004) “Objective Hermeneutics
and Hermeneutic Sociology of Knowledge”, in
atores. A realidade social é compreendida
U. Flick, E.v. Kardorff, I. Steinke (eds), A
por Garfinkel como uma realidade procedi-
Companion to Qualitative Research. London:
mental, ou seja, uma realidade que é cons-
SAGE. pp. 290-295.
truída localmente (naquele momento e lo-
cal, no curso da ação), endogenamente (ou
seja, originando-se no interior da situa-
Feminismo e estudos de gênero
ção), audiovisualmente (ou seja, no ouvir
e na fala, na percepção e na ação) pelos Gildemeister, R. (2004) “Gender Studies”, in U.
participantes na interação. O objetivo da Flick, E.v. Kardorff, I. Steinke (eds), A Compa-
etnometodologia é compreender o ‘como’, nion to Qualitative Research. London: SAGE. pp.
ou seja, os métodos dessa produção da 123-128.
realidade social em detalhes. Questiona,
por exemplo, como os membros de uma
família interagem de modo que possam ser Positivismo e construcionismo
percebidos enquanto uma família” (1980,
p. 39). Flick, U. (2004b) “Constructivism”, in U. Flick,
E.v. Kardorff, I. Steinke (eds), A Companion to
Qualitative Research. London: SAGE. pp. 88-94.

Flick - Parte 1-Fim.p65 82 13/10/2008, 09:22


Introdução à pesquisa qualitativa 83

7
Base epistemológica:
construção e compreensão de textos

Texto e realidades, 83
O texto como concepção do mundo: construções de primeiro e segundo graus, 84
As construções sociais como pontos de partida, 85
A concepção do mundo no texto: mimese, 86
A mimese na relação entre a biografia e a narrativa, 88

OBJETIVOS DO CAPÍTULO
Após a leitura deste capítulo, você deverá ser capaz de:
✓ entender que a relação entre as realidades sociais em estudo e a representação nos textos
utilizados para estudá-las não constitui uma simples relação individualizada.
✓ reconhecer a existência de diferentes processos de construção social envolvidos.
✓ identificar a mimese como um conceito eficaz para a descrição destes processos.
✓ empregar isso a uma forma proeminente de pesquisa qualitativa.

No capítulo anterior, argumentou-se texto e realidades? Este capítulo irá esbo-


no sentido de que o verstehen, a referência çar e responder essas questões.
a casos, a construção da realidade e a utili-
zação de textos como material empírico
constituem aspectos comuns da pesquisa TEXTO E REALIDADES
qualitativa que se interpõem nas diferen-
tes posturas teóricas. A partir desses aspec- Os textos servem a três finalidades no
tos, surgem várias questões. Como é possí- processo de pesquisa qualitativa: represen-
vel entender-se o processo de construção tam não apenas os dados essenciais nos
da realidade social no fenômeno em estu- quais as descobertas baseiam-se, mas tam-
do, mas também no processo de estudá- bém a base das interpretações e o meio
lo? Como a realidade é apresentada ou pro- central para a apresentação e a comunica-
duzida no caso que é (re)construído para ção de descobertas. Esse é o caso não ape-
fins investigativos? Qual a relação entre nas para a hermenêutica, que faz da textua-

Flick - Parte 1-Fim.p65 83 13/10/2008, 09:22


84 Uwe Flick

lização do mundo um programa, mas, de textos como formas de fixação e de objeti-


uma forma mais geral, para os métodos vação de suas descobertas, devem prestar
atualmente em uso na pesquisa qualitati- mais atenção a esses tipos de questões. Ra-
va. Qualquer uma das entrevistas abrange ramente citada, a questão da produção de
os dados, que são transformados em trans- novas realidades (por exemplo, a vida como
crições (isto é, textos), cujas interpretações narrativa) na geração e na interpretação
são elaboradas posteriormente (nas obser- de dados como textos e de textos como
vações, as notas de campo são, normalmen- dados precisa ser mais discutida.
te, o banco de dados textuais); ou a pes-
quisa é iniciada a partir da gravação de
conversas e de situações naturais para as- O TEXTO COMO CONCEPÇÃO
sim chegar-se às transcrições e às interpre- DO MUNDO: CONSTRUÇÕES DE
tações. Em cada caso, constatamos que o PRIMEIRO E SEGUNDO GRAUS
texto é o resultado da coleta de dados e o
instrumento para a interpretação. Se a pes- A impossibilidade de redução da re-
quisa qualitativa pressupõe a compreensão lação existente entre o texto e a realidade
das realidades sociais por meio da inter- a uma simples representação de determi-
pretação de textos, duas questões passam nados fatos tem sido discutida durante um
a ser particularmente relevantes: o que bom tempo em diferentes contextos como
acontece na tradução da realidade para o uma “crise de representação”. Na discus-
texto, e o que acontece na retradução dos são em torno da questão sobre até que pon-
textos para a realidade ou na interferência to o mundo possa ser representado em sis-
a partir de textos para realidades? temas de computadores ou em sistemas
Nesse processo, o texto é substituído cognitivos, Winograd e Flores (1986) ex-
pela realidade que é estudada. Assim que pressam sérias dúvidas em relação a essa
o pesquisador houver reunido os dados e ideia básica da representação, enquanto
os tiver transformado em texto, esse texto Paul Ricoeur vê essas discussões como um
é utilizado como substituto para a realida- tópico geral da filosofia moderna. Partin-
de em estudo no processo posterior. Origi- do dos debates na etnografia (por exem-
nalmente, as biografias eram estudadas; plo, Clifford e Marcus, 1986), essa crise é
entretanto, agora a narrativa produzida na discutida, para a pesquisa qualitativa, como
entrevista está disponível para a interpre- uma dupla crise de representação e de
tação. A partir dessa narrativa, resta ape- legitimação. Em termos da crise de repre-
nas o que foi “captado” pela gravação e o sentação, e como uma consequência da vi-
que está documentado pelo método de rada linguística nas ciências sociais, duvi-
transcrição escolhido. O texto produzido da-se que os pesquisadores sociais possam
dessa forma é a base das interpretações “apreender diretamente a experiência vi-
posteriores e das descobertas daí obtidas: vida. Argumenta-se agora que tal experi-
verificar novamente as gravações acústicas ência é elaborada no texto social escrito
seria tão incomum quanto voltar a verifi- pelo pesquisador. Essa é a crise da repre-
car os sujeitos entrevistados (ou observa- sentação (...) Ela (...) estabelece o vínculo
dos). É difícil estabelecer um controle do direto entre a experiência e a problemáti-
quanto e do que esse texto contém e re- ca do texto” (Denzin e Lincoln, 2000b, p.
produz do assunto original (por exemplo, 17). A segunda crise é a da legitimação, na
de uma biografia). As ciências sociais, que qual os critérios clássicos para a avaliação
necessariamente transformaram-se em da pesquisa são rejeitados no caso da pes-
uma ciência textual e que pressupõem os quisa qualitativa ou – seguindo o pós-mo-

Flick - Parte 1-Fim.p65 84 13/10/2008, 09:22


Introdução à pesquisa qualitativa 85
dernismo – a possibilidade de legitimação desde o início, fatos selecionados por ati-
do conhecimento científico é, em geral, vidades de nossa mente a partir de um con-
rejeitada (ver Capítulo 30). texto universal. São, portanto, sempre fa-
O ponto crucial nessas discussões é tos interpretados, quer sejam fatos obser-
vados isolados de seus contextos por meio
até onde, especialmente na pesquisa soci-
de uma abstração artificial, ou fatos consi-
al, ainda somos capazes de supor a exis- derados dentro de seus cenários específi-
tência de uma realidade fora dos pontos cos. Tanto em um caso como no outro, eles
de vista subjetivos ou socialmente compar- carregam seus horizontes interpretacionais
tilhados, na qual possamos validar sua “re- interiores e exteriores. (1962, p. 5)
presentação” em textos ou em outros pro-
dutos de pesquisa. As diversas variedades Aqui, podemos traçar paralelos com
do construtivismo ou construcionismo so- Goodman (1978). Para Goodman, o mun-
cial (para um breve panorama, ver Flick, do é socialmente construído através de di-
2004b) rejeitam tais suposições. Em vez ferentes formas de conhecimento – do co-
disso, partem da ideia de que as realida- nhecimento cotidiano à ciência e à arte
des são produzidas ativamente pelos par- como diferentes “modos de concepção do
ticipantes através dos significados atribuí- mundo”. De acordo com Goodman – e
dos a certos eventos e objetos, e de que a Schutz – a pesquisa social é uma análise
pesquisa social não pode fugir dessas atri- desses modos de concepção do mundo e
buições de significados se quiser lidar com dos esforços construtivos dos participan-
as realidades sociais. As perguntas que são tes em sua vida cotidiana. Uma ideia cen-
feitas, e que devem ser feitas, nesse con- tral nesse contexto é a distinção elaborada
texto, são: O que os próprios sujeitos soci- por Schutz entre as construções de primei-
ais consideram ser real e como? Quais as ro e segundo graus. De acordo com Schutz,
condições em que essa avaliação se susten- “os constructos das ciências sociais são, por
ta? E sob que condições os pesquisadores assim dizer, constructos de segundo grau,
mantêm essa avaliação da realidade das ou seja, são constructos dos constructos
coisas por eles observadas desta maneira? produzidos pelos atores na cena social”.
Desta maneira, os pontos de partida Nesse sentido, Schutz afirma que “a explo-
para a pesquisa são as ideias dos eventos ração dos princípios gerais de acordo com
sociais, das coisas ou dos fatos que encon- os quais, na vida diária, o homem organi-
tramos em um campo social em estudo e za suas experiências, e, particularmente,
pela forma como essas ideias comunicam- aquelas relacionadas ao mundo social, con-
se umas com as outras (ou seja, a competi- siste na primeira tarefa da metodologia das
ção, o conflito, o sucesso são compartilha- ciências sociais” (1962, p. 59).
dos e considerados reais). De acordo com essa visão, a percep-
ção e o conhecimento cotidianos constitu-
em a base para os cientistas sociais desen-
AS CONSTRUÇÕES SOCIAIS volverem uma “versão do mundo” (Good-
COMO PONTOS DE PARTIDA man, 1978) mais formalizada e generali-
zada. Da mesma maneira, Schutz (1962,
Conforme Alfred Schutz já enunciou, p. 208-210) admite a ideia de “realidades
os fatos apenas tornam-se relevantes por múltiplas”, das quais o mundo da ciência é
meio de sua seleção e interpretação: apenas uma, estando organizado, em par-
te, de acordo com os mesmos princípios
A rigor, coisas como fatos, pura e simples- da vida e, em parte, de acordo com outros
mente, não existem. Todos os fatos são, princípios.

Flick - Parte 1-Fim.p65 85 13/10/2008, 09:22


86 Uwe Flick

Construção mese, que pode oferecer insights para uma


Textos como ciência social baseada em textos. A mimese
versões refere-se à transformação de mundos (ori-
do mundo
ginalmente, por exemplo, em Aristóteles,
naturais) em mundos simbólicos. Em um
Experiência primeiro momento, foi entendida como a
Ambiente, Interpretação “imitação da natureza”; entretanto, esse
eventos e Compreensão, conceito foi discutido de forma mais am-
atividades atribuição de pla (Gebauer e Wulf, 1995). Um exemplo
naturais significado sucinto de mimese, e largamente utiliza-
e sociais do, é a apresentação das relações naturais
ou sociais nos textos dramáticos ou lite-
Figura 7.1 Compreensão entre construção
e interpretação. rários, ou no palco: “Nessa interpretação,
a mimese caracteriza o ato de produção de
um mundo simbólico que abarca tanto ele-
mentos práticos quanto teóricos” (1995, p.
3). No entanto, o interesse nesse conceito
Particularmente, a pesquisa das ciên- agora vai além das apresentações em tex-
cias sociais enfrenta o problema de depa- tos literários ou no teatro. Discussões re-
rar-se com o mundo que deseja estudar centes tratam a mimese como um princí-
sempre e somente naquelas versões desse pio geral com o qual se traça, em detalhes,
mundo construído pelos sujeitos que inte- a compreensão do mundo e dos textos:
ragem de forma comum e competitiva. O
conhecimento científico e as apresentações O indivíduo “assimila-se” ao mundo por
de inter-relações incluem diferentes pro- meio de processos miméticos. A mimese
cessos de construção da realidade – cons- possibilita que os indivíduos saiam de si
truções cotidianas e subjetivas, por parte mesmos, tracem o mundo exterior den-
daqueles que estão sendo estudados; e tro de seu mundo interior e dêem expres-
construções científicas (isto é, mais ou são a sua interioridade. Estabelece uma
menos codificadas) por parte dos pesqui- proximidade, de outra maneira inatingí-
sadores na coleta, no tratamento e na in- vel, com os objetos, sendo, assim, uma
condição necessária da compreensão.
terpretação de dados, bem como na apre-
(Gebauer e Wulf, 1995, p. 2-3)
sentação de descobertas (ver Figura 7.1).
Nessas construções, as relações pres-
Ao aplicar essas considerações à pes-
supostas são traduzidas: a experiência coti-
quisa qualitativa e aos textos utilizados
diana é traduzida em conhecimento por
dentro da pesquisa, os elementos miméti-
aqueles que estão sendo estudados, enquan-
cos podem ser identificados nos seguintes
to os relatos dessas experiências ou eventos
aspectos:
e atividades são traduzidos em textos pelos
pesquisadores. Como tornar esses proces-
• na transformação da experiência em
sos de tradução mais concretos?
narrativas, relatos, etc., por parte das
pessoas que estão sendo estudadas;
• na construção de textos a partir dessa
A CONCEPÇÃO DO MUNDO base, e na interpretação de tais cons-
NO TEXTO: MIMESE truções por parte dos pesquisadores;
• por último, quando essas interpretações
Para respondermos essa pergunta, são realimentadas em contextos cotidia-
buscaremos na estética e nas ciências lite- nos, por exemplo, na leitura das apre-
rárias (ver Iser, 1993) o conceito de mi- sentações dessas descobertas.

Flick - Parte 1-Fim.p65 86 13/10/2008, 09:22


Introdução à pesquisa qualitativa 87
Para analisar os processos miméticos história de vida que merece ser conta-
na construção e na interpretação de textos da. A mimese1 é essa compreensão pré-
de ciências sociais, as considerações de via do que seja a ação humana, de sua
Ricoeur (1981; 1984) oferecem um ponto semântica, seu simbolismo, sua tempo-
de partida produtivo. Em relação aos tex- ralidade. A partir dessa compreensão
tos literários, Ricoeur separa o processo prévia, que é comum aos poetas e seus
mimético – “de forma brincalhona, porém leitores, surge a ficção, e, com ela, vem
com seriedade” – em três etapas: mimese1, a segunda forma de mimese, que é tex-
mimese2 e mimese3: tual e literária.” (Ricoeur, 1981, p. 20).
• A transformação mimética no “proces-
A hermenêutica, no entanto, preocupa-se samento” de experiências de ambien-
com a reconstrução de todo o arco de ope- tes sociais ou naturais em textos – quer
rações através do qual a experiência prá- seja nas narrativas cotidianas relatadas
tica arranja-se com trabalhos, autores e a outras pessoas, em determinados do-
leitores (...) Surgirá como um corolário,
cumentos, ou na produção de textos
ao final desta análise, que o leitor seja
aquele operador por excelência que ado-
para fins de pesquisa – deve ser enten-
ta, por meio de uma ação – o ato da leitu- dida como um processo de construção,
ra –, a unidade do transversal, partindo mimese2: “Esse é o reino da mimese2
da mimese1 para a mimese3 através da entre a antecedência e a descendência
mimese2. (1984, p. 53) do texto. Nesse nível, a mimese pode
ser definida como a configuração da
A leitura e a compreensão de textos ação” (1981, p. 25).
tornam-se um processo ativo de produção • A transformação mimética de textos em
da realidade que envolve não apenas o compreensão ocorre por meio de pro-
autor dos textos (no nosso caso, de ciência cessos de interpretação, mimese3 – na
social), mas também a pessoa a quem eles compreensão cotidiana de narrativas,
são escritos e que os lê. Transferindo-se documentos, livros, jornais, etc., exata-
para a pesquisa qualitativa, isso significa mente da mesma forma que nas inter-
que, na produção de textos (sobre deter- pretações científicas dessas narrativas,
minado assunto, interação ou evento), a documentos de pesquisa (protocolos,
pessoa que lê e interpreta o texto escrito transcrições, etc.), ou textos científicos:
está tão envolvida na construção da reali- “A mimese3 assinala a interseção entre
dade quanto a pessoa que redige o texto. o mundo do texto e o mundo do ouvin-
No entendimento de Ricoeur, podem-se dis- te ou leitor” (1981, p. 26).
tinguir três formas de mimese em uma ci-
ência social baseada em textos: De acordo com essa visão formulada
por Ricoeur, ao lidar com textos literários,
• As interpretações cotidianas e científi- os processos miméticos podem ser situa-
cas são sempre baseadas em uma con- dos, na compreensão da ciência social,
cepção prévia da atividade humana e como a interação da construção e da inter-
dos eventos sociais e naturais, mimese1. pretação de experiências (Figura 7.2).
“Qualquer que possa ser a categoria des- A mimese abrange a passagem da
sas histórias, que são, de alguma for- compreensão prévia através do texto até a
ma, anteriores à narração que a elas interpretação. O processo é realizado no
podemos dar, a mera utilização da pa- ato da construção e da interpretação, bem
lavra ‘história’ (tomada neste sentido como no ato da compreensão. A compreen-
pré-narrativo) atesta a nossa compreen- são, enquanto processo ativo de constru-
são prévia de que a ação seja humana, ção, envolve aquele que compreende. Con-
até o ponto em que caracteriza uma forme essa concepção de mimese, esse pro-

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88 Uwe Flick

Construção
Textos como versões
do mundo

mimese3
mimese2

Experiência
Interpretação
Ambiente, eventos
Compreensão,
e atividades naturais
atribuição de significado
e sociais
mimese1
Figura 7.2 Processo da mimese.

cesso não se limita ao acesso a textos lite- Assim, Gebauer e Wulf discutem a
rários, estendendo-se à compreensão como mimese nos termos da construção do co-
um todo e, portanto, também à compreen- nhecimento em geral. Por sua vez, Ricoeur
são enquanto conceito de conhecimento na utiliza-a para analisar os processos de com-
estrutura de pesquisa da ciência social. Esse preensão da literatura de um modo parti-
tópico foi esclarecido por Gebauer e Wulf cular, sem invocar a ideia limitada e estrita
(1995) em sua discussão geral sobre a da representação de determinados mundos
mimese, ao referirem-se à teoria de em textos, e sem o conceito restrito da re-
Goodman (1978) sobre as diferentes for- alidade e da verdade1.
mas de concepção do mundo e as versões
de mundo resultantes como consequência
do conhecimento: A MIMESE NA RELAÇÃO ENTRE
A BIOGRAFIA E A NARRATIVA
O saber, nos termos desse modelo, é uma
questão de invenção: os modos de orga- Para maior esclarecimento, essa ideia
nização “não são encontrados no mundo, do processo mimético será aplicada a um
mas, sim, formam um mundo”. A com- procedimento comum na pesquisa quali-
preensão é criativa. Com o auxílio da teo- tativa. Grande parte da prática de pesqui-
ria de Goodman sobre a concepção do sa concentra-se na reconstrução de histó-
mundo, a mimese pode ser reabilitada em rias de vida ou biografias, a partir de en-
oposição a uma tradição que rigidamente trevistas (ver Capítulo 14). O ponto de par-
a privou do elemento criativo – e que, por tida é a suposição de que uma narrativa
si só, baseia-se em pressuposições falsas:
seja a forma apropriada de apresentação
o objeto isolado do conhecimento, a su-
posição de um mundo existente fora dos
de uma experiência biográfica (para mais
sistemas de codificação, a ideia de que a detalhes, ver os Capítulos 14, 15 e 16).
verdade é a correspondência entre os Nesse contexto, Ricoeur mantém “a tese de
enunciados e um mundo extralinguístico, uma qualidade narrativa ou pré-narrativa
o postulado de que o pensamento pode da experiência como tal” (1981, p. 20).
ser traçado de volta a uma origem. Nada Quanto à relação mimética entre as histó-
dessa teoria permaneceu intacto após a rias de vida e as narrativas, Bruner destaca
crítica de Goodman: os mundos são
construídos “a partir de outros mundos”. que a mimese entre a vida assim denomi-
(1995, p. 17) nada e a narrativa é uma questão de duas

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Introdução à pesquisa qualitativa 89
vias (...) A narrativa imita a vida, a vida constrói-se e interpreta-se uma versão das
imita a narrativa. Nesse sentido, a “vida” experiências. Não é possível, dessa manei-
é o mesmo tipo de construção da imagi- ra, verificar-se em que medida a vida e as
nação humana que a “narrativa”. É experiências realmente aconteceram con-
construída pelos seres humanos através
forme o que foi relatado. Mas é possível
do raciocínio ativo, pelo mesmo tipo de
raciocínio por meio do qual construímos
averiguar quais as construções que o sujei-
narrativas. Quando alguém lhe conta sua to narrador apresenta de ambas, e quais
vida (...) é sempre uma realização versões evoluem na situação de pesquisa.
cognitiva, em vez de um relato cristalino No que se refere à apresentação das des-
de algo oferecido univocamente. No fim, cobertas dessa reconstrução, essas experi-
trata-se de uma realização narrativa. Não ências e o mundo no qual elas foram pro-
existe, psicologicamente, algo como “a duzidas serão apresentados e vistos de um
vida em si mesma”. É, no mínimo, uma modo específico – por exemplo, em uma
realização seletiva de recordação da me- (nova) teoria com pretensões de validade.
mória; mais do que isso, relatar a vida de “A ação mimética implica a intenção de
alguém é uma façanha interpretativa.
expor um mundo simbolicamente produ-
(1987, p. 12-13)
zido de tal forma que ele seja percebido
Isso significa que uma narrativa bio- como um mundo específico” (1995, p.
gráfica da própria vida de alguém não é 317). A mimese torna-se relevante nas in-
uma representação de processos factuais. terseções do mundo gerado simbolicamen-
Torna-se uma apresentação mimética de te na pesquisa, e do mundo da vida cotidi-
experiências que são construídas na forma ana ou dos contextos que a pesquisa inves-
de uma narrativa para esse propósito – na tiga empiricamente: “A mimese é, por na-
entrevista. A narrativa, em geral, fornece tureza, intermediária, estendendo-se entre
uma estrutura na qual as experiências um mundo simbolicamente produzido e
podem ser situadas, apresentadas e avalia- outro” (1995, p. 317).
das – em resumo, na qual elas são vividas. Seguindo as opiniões de vários dos au-
O assunto estudado pela pesquisa qualita- tores aqui mencionados, a mimese evita
tiva (aqui) já está construído e interpreta- aqueles problemas que fizeram com que o
do na vida cotidiana na forma em que ela conceito de representação acabasse em
deseja estudá-lo, isto é, como uma narra- uma crise e se transformasse em uma ilu-
tiva. Na situação de entrevista, essa forma são2. A mimese pode ser desconectada do
cotidiana de interpretação e de construção conceito da apresentação e da compreen-
é aplicada para transformar essas expe- são literárias e utilizada, nas ciências soci-
riências em um mundo simbólico – as ais, como um conceito que considera que
ciências sociais e seus textos. As experiên- as coisas, para serem compreendidas, são
cias são, então, reinterpretadas a partir sempre apresentadas em níveis diferentes.
desse mundo: “Na referência mimética, faz- Os processos miméticos podem ser identi-
se uma interpretação a partir da perspec- ficados no processamento das experiênci-
tiva de um mundo simbolicamente produ- as nas práticas cotidianas, em entrevistas
zido de um mundo anterior (mas não ne- e, por meio destas, na construção de ver-
cessariamente existente), que, por si só, já sões do mundo que sejam textualizadas e
tenha sido sujeito à interpretação. A mi- textualizáveis (ou seja, acessíveis às ciên-
mese traduz, de uma nova maneira, mun- cias sociais, assim como na produção de
dos já traduzidos” (Gebauer e Wulf, 1995, textos para fins de pesquisa). Nos proces-
p. 317). sos miméticos, são produzidas versões do
Na reconstrução de uma vida a partir mundo que podem ser compreendidas e in-
de uma questão de pesquisa específica, terpretadas na pesquisa social.

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90 Uwe Flick

Estudo de caso:
A mimese na construção social do eu e a tecnologia

Estudou-se a representação social da tecnologia e a forma como esta se integrou na vida


cotidiana e a transformou (ver Flick, 1995). O estudo envolveu vários grupos (engenheiros
de informação, cientistas sociais e professores) em três contextos (França, Alemanha Ori-
ental e Ocidental). Foi solicitado aos indivíduos desses grupos que relatassem histórias
sobre os primeiros encontros com a tecnologia que tivessem lembrança. Essas histórias não
foram apenas representações dos eventos, mas também revelaram as formas como os con-
tadores das histórias vêem a si mesmos em relação à tecnologia. Nessas histórias, podemos
encontrar os processos miméticos de construção da realidade, da personalidade e da
tecnologia. Por exemplo, os engenheiros de informação contam uma história que demons-
tra formas bem-sucedidas na condução de atividades técnicas (por exemplo, na reparação
exitosa de um aparelho eletrônico quebrado) ou no seu domínio ativo de máquinas (por
exemplo, ao aprender a dirigir um grande caminhão, quando garoto). As histórias dos
cientistas sociais tratam dos fracassos em função do dispositivo ou experiências mais ou me-
nos passivas na utilização de brinquedos, enquanto os professores relatam como observa-
vam o manuseio de tecnologias por parte de seus parentes (por exemplo, o avô cortando
madeira ou o tio trabalhando com uma serra circular). Em todos os grupos, encontramos
narrativas de situações que mostravam o papel da tecnologia na família. Enquanto essas
narrativas encontram-se relacionadas a uma decisão por uma profissão técnica no caso dos
engenheiros de informação, as consequências são opostas no caso dos outros grupos. Por
exemplo, uma engenheira de informação conta como ela decidiu tornar-se engenheira de
informação contra a vontade de seu pai e contra o clima antitecnologia que ela sentia na
família, ao passo que um professor relatou sobre as expectativas de seu pai de que ele
devesse escolher uma profissão técnica e que ele teve de desapontar.
Os temas comuns para as pessoas entrevistadas na Alemanha Ocidental podem ser situ-
ados junto à dimensão da atuação com a tecnologia em contraste com a observação de outras
pessoas na mesma situação, enquanto as histórias do conjunto de pessoas entrevistadas na
Alemanha Oriental situam-se junto à dimensão de domínio e fracasso e em torno do tema de
fundo da família e da tecnologia. Conjuntamente a este último tópico, os entrevistados
franceses contam histórias que podem ocupar a dimensão do êxito em contraste com o fra-
casso. Como linhas de tópicos gerais para todas as histórias, podemos notar a dimensão
êxito-atividade-fracasso e o tema de fundo da família e da tecnologia.
Para usar esse conceito na descrição do processo da construção social de objetos, pro-
cessos, etc., os pesquisadores podem observar o que as pessoas dizem quando questionadas
sobre seu primeiro encontro com a tecnologia, por exemplo. As perguntas relevantes neste
caso são: Que tipo de versão eles constroem daquele encontro? Em que tipo de contexto
eles inserem essa experiência? Quais os tipos de processos ou de mudanças sociais ocorridos
a partir desse encontro entre os seres humanos e a tecnologia que os entrevistados mencio-
nam na ocasião ou tentam explicar ao pesquisador ou a si mesmos? Abordando novamente
as narrativas apresentadas acima, os aspectos miméticos podem ser observados, por um
lado, nas interpretações retrospectivas dos entrevistados de suas próprias relações com a
tecnologia, como formação ativa, atuação exitosa ou fracassada. Por outro lado, as relações
com suas famílias são interpretadas e utilizadas para a reconstrução e a contextualização
do próprio acesso do indivíduo à tecnologia. Aqui, a tecnologia torna-se um instrumento
interpretativo da própria autoimagem (a favor ou contra a tecnologia), bem como de uma
relação social específica – o contexto familiar do indivíduo. À primeira vista, isso pode
parecer circular, mas, ao contrário, deve ser compreendido como os dois lados da mesma

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Introdução à pesquisa qualitativa 91

moeda. Os contextos são utilizados para encaixar objetos ou experiências específicos, e


esses objetos ou experiências são também usados para a interpretação e a compreensão
destes contextos. Tanto a autoimagem, como a relação social, tornam-se instrumentos para
interpretar a própria relação de uma pessoa com a tecnologia, pelo menos em situações de
primeira experiência. A tecnologia presta-se para a interpretação e a construção de uma
parte das experiências e dos contatos sociais de um indivíduo, sendo esses utilizados para
interpretar-se o próprio encontro do indivíduo com a tecnologia. As interpretações miméticas
são duplas: por um lado, o encaixe de experiências relacionadas à tecnologia em contextos
sociais e autorrelacionados sublinha a construção subjetiva da tecnologia como fenômeno
social; por outro lado, a tecnologia é usada para interpretar e ancorar experiências sociais
e autobiográficas (mimese1, segundo Ricoeur). A tecnologia é, aqui, o tema ou meio através
do qual essas situações são retrospectivamente reconstruídas. As situações são pontos de
partida para fixarem-se retrospectivamente os novos aspectos da tecnologia como fenômeno.
Nessa fixação retrospectiva, bem como na distribuição e na diferenciação sociais entre gru-
pos sociais e contextos culturais, a representação social da tecnologia torna-se evidente.

A diferenciação de Ricoeur das diver- sentação, na pesquisa e no texto terminou


sas formas de mimese e a distinção de em crise. Essa noção pode ser substituída
Schutz entre as construções cotidianas e pelo círculo de vários estágios da mimese,
as científicas podem contribuir ainda mais de acordo com Ricoeur, de modo a levar
para o esquema reivindicado por Goodman em consideração as construções daqueles
com a suposição de diferentes versões do que participam da compreensão científica
mundo construídas de modo cotidiano, (ou seja, o indivíduo em estudo, o autor
artístico e científico. Isso permite ao pes- dos textos a seu respeito e o leitor). A dife-
quisador evitar as ilusões e as crises carac- rença entre a compreensão cotidiana e a
terísticas da representação, ainda que sem científica na pesquisa qualitativa está na
desconsiderar os elementos construtivos no sua organização metodológica no proces-
processo de representação (ou melhor, so de pesquisa, a qual será tratada com
apresentação), assim como no processo de mais detalhes nos capítulos seguintes.
compreensão.
A pesquisa qualitativa, que adota co-
mo princípio epistemológico a compreen-
são percebida em diferentes procedimen- Pontos-chave
tos metodológicos, já se confronta com a
construção da realidade por parte de seu • Os textos constituem o material básico da
“objeto”. As experiências não são simples- maior parte da pesquisa qualitativa.
mente refletidas nas narrativas ou nos tex- • A produção de textos no processo de pes-
tos de ciências sociais produzidos sobre quisa é um caso especial da construção soci-
elas. A ideia de refletir a realidade na apre- al da realidade.

Exercício 7.1
1. Explique a diferença entre a construção de primeiro grau e a construção de segundo
grau de uma entrevista biográfica.
2. Descreva as três formas de mimese do mesmo exemplo.

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92 Uwe Flick

• A concepção do mundo e a mimese são dois LEITURAS ADICIONAIS


conceitos para a descrição do processo de
construção social de texto e de realidades. A postura epistemológica que apare-
• O modelo de Ricoeur das três formas de ce brevemente delineada aqui está basea-
mimese descreve o processo da construção da nas últimas quatro referências e encon-
social passo a passo. tra-se mais detalhada e colocada em ter-
• As narrativas sobre biografias são exemplos mos empíricos na primeira referência.
dessa construção em que a mimese desem-
penha um papel central. Flick, U. (1995) “Social Representations”, in R.
Harré, J. Smith, L. Van Langenhove (eds),
Rethinking Psychology. London: SAGE. pp. 70-
96.
NOTAS
Gebauer, G., Wulf, C. (1995) Mimesis: Culture,
1. “Nesse sentido, a mimese está à frente dos Art, Society. Berkeley, CA: University of Califor-
nossos conceitos de referência, o real e a nia Press.
verdade. Engendra uma necessidade ain- Goodman, N. (1978) Ways of Worldmaking.
da não contemplada de maior reflexão” Indianapolis: Hackett.
(Ricoeur, 1981, p. 31). Ricoeur, P. (1984) Time and Narrative, Vol. 1.
2. “A mimese, que me parece menos fecha- Chicago: University of Chicago Press.
da, menos aprisionada e mais rica em
Schutz, A. (1962) Collected Papers, Vol. 1. Deen
polissemia e, por isso, mais móvel e mais
Haag: Nijhoff.
mobilizadora para uma investida da ilu-
são representativa” (Ricoeur, 1981, p. 15)

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