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Resumo Ensaios de Antropologia e de Direito Texto Kant de Lima

O autor busca apresentar as possibilidades de pesquisas e as
contribuições que a Antropologia pode trazer para a compreensão do Direito
brasileiro. Ele começa o texto apresentando a Antropologia enquanto ciência
humana. Trata da sua evolução ao longo do tempo, focando em como a
Antropologia estuda seu objeto e também nas críticas, muitas vezes pela própria
antropologia, que geraram mudanças nessa disciplina. A segunda parte do texto
trata das contribuições da antropologia para a pesquisa jurídica no Brasil. Nesta
parte o texto se divide em três pontos, o saber jurídico no Brasil, como ele se
constitui e se reproduz; a aplicação desse saber através de instituições e práticas
especializadas; a relação desse saber jurídico e sua aplicação e a existência de
outros saberes jurídicos existente na sociedade e por ele dominados, o problema
do acesso ao Direito

1. Introdução
O autor apresenta a antropologia como uma ciência cuja questão central
é a comparação, baseada no estranhamento e diferença, o ponto central de
todo saber antropológico. Além disso, ela é uma ciência europeia e, portanto,
comprometida com os valores ocidentais. Por conta dessa configuração, a
própria discussão interna da Antropologia sobre seus métodos levantou o
problema das categorias do seu discurso enquanto capazes de traduzir o
“Outro” o seu objeto de estudo. A discussão metodológica buscou
compreender as relações entre sujeito e objeto nesse campo de estudo.
Segundo o autor, a Antropologia compreende seu discurso como “um
discurso comparativo e fundamentalmente valorativo, enunciado por
um sujeito preso a um sistema de valores (antropólogo) sobre um
sujeito também enredado em um sistema de valores (objeto de estudo)”.
Essa reflexão possibilitou a antropologia de se libertar das pretensões das
Ciências Naturais. A diversidade dos costumes encontrados nas
investigações liberta a reflexão antropológica de categoriais do Natural,
encarando os fatos culturais por ela estudados como arbitrários. Agora, o seu
objeto deixa de ser o domínio do natural, mas “a vida humana em sociedade,
fundada na heterogeneidade e na oposição”.
Outro resultado apresentado pelo autor dessa reflexão metodológica é a
reconstrução da Antropologia como uma ciência que visa entender o Outro
para conhecer a nossa própria sociedade. Entender as nossas categorias e
nossa sociedade, vista por tanto tempo como algo natural, a partir da sua
comparação com outras. Porém, um problema que persiste após essas
reflexões é o do antropólogo-nativo. Para o autor, as antropologias das
sociedades periféricas não possuem um padrão de comparação no seu
espaço teórico que consegue ser percebido como “natural”, tal como
acontece na Antropologia europeia e dos EUA. Isso porque o sujeito agora é
o que antes era objeto de estudo, pertence ao Outro e deve “produzir um
discurso compreensível por todos”. O problema aqui são as possibilidades de
se construir uma ciência comparativa, na qual aquele que compara faz parte
do objeto comparado.
2. A tradição antropológica e o Estudo do Direito.
Nessa parte o autor realiza uma retrospectiva dos estudos
antropológicos sobre o direito apresentando-os conforme as mudanças
dos quadros teóricos da antropologia. Antes do início o autor faz
novamente uma ressalva sobre o estudo comparativo antropológico. Ele
aponta que a comparação nunca foi propriamente com o objetivo de
conhecer diferenças percebidas em outras sociedades a partir das
sociedades europeias, mas sim de se reconhecer, de encontrar
instituições e práticas semelhantes. Tanto o é que as reações ao não se
encontrarem o mesmo são sempre valoradas negativamente como
atrasada, impura, primitiva. Para ele tal prática ocultou durante certo
tempo os valores e instituições do observador utilizados para a
comparação.
Seguindo para os estudos sobre Direito o autor começa pelo marco
teórico do evolucionismo. Ele caracteriza esse marco teórico como aquele
que atribui “ao tempo a responsabilidade por transformações necessárias,
vistas como estágios de evolução social”, que considerava a sociedade
europeia como o topo dessa cadeia evolutiva e na parte mais baixa as
sociedades de comunismo primitivo, promiscuidade sexual, anarquia
apolítica, etc. É apresentado que ao longo dos estudos esse quadro
teórico deixa de se sustentar, pois as informações disponíveis sobre as
sociedades “primitivas” demonstravam sociedades complexas. Por conta
disso, esse marco teórico se propôs a criação de vários esquemas
evolutivos para dar conta da diversidade.
A questão fundamental na Antropologia do Direito nesse quadro
teórico era como descrever e classificar as diferentes formas de controle
social. O modelo do evolucionismo aqui operou de duas formas: a de
ordem espacial, colocando a sociedade europeia no espaço dos outros
continentes e temporal, colocando as sociedades contemporâneas no
passado europeu. Toda a diferença que pertence ao outro é reduzida
dessa forma em um “processo de reconhecimento da própria sociedade,
identificada como a única Humanidade possível”. E toda a sociedade que
é reduzida à primitiva é feita com base em ausências; as categorias,
Política, Escrita, Ecocomia, “faltam” no exótico, no outro, em comparação
com as da nossa sociedade.
No avanço da antropologia, com mudanças metodológicas, como
a observação in loco, o Outro, exótico, passa a se tornar familiar. A
reflexão da antropologia passa a incorporar as teorias sócias-nativas ao
discurso antropológico para explicar as suas observações. Passa-se a
não mais tratar de ausências e explicar assim a sociedade do outro
somente pela a nossa, mas de entender que fenômenos sociais não
podem ser explicados separadamente do seu contexto e significação
específicos. Não se trata de abandonar as categorias da nossa sociedade
que usamos para realizar a comparação, mas de “reconhecer a
funcionalidade e a interdependência dos fatos sociais”. Aqui o direito
aparece não só como “um caso privilegiado de controle social, mas
também como o produtor de uma ordem social definida”.
O autor aponta que o avanço dessa perspectiva acaba por tonar o
outro como específico demais. Ele é “familiar, mas “diferente” e essa
perspectiva, com o foco no diferente e nas especificidades das
sociedades para explicar seus fenômenos resulta na tentativa de minar
qualquer generalização. “ O outro resgata a sua identidade às custas de
uma diferença irredutível que nada pode nos ensinar”. Porém, o avanço
metodológico da questão da comparação leva a um novo caminho. Após
“tornar o exótico, semelhante, mas primitivo, para depois torna-lo familiar,
mas diferente há que tornar o familiar, exótico, e finalmente”
comtemplar o eu com os olhos do outro, “implodindo a Natureza na
Cultura”. A última etapa que o autor apresenta é justamente o que é dito
no início como papel da antropologia, com um desdobramento: entender
a nossa sociedade e seus fenômenos, os comparando com os de outra
sociedade, se desdobra no estranhamento das categorias da nossa
própria sociedade.
Antes da conclusão dessa parte, o autor faz uma breve divagação
sobre a possibilidade de generalização. Ele entende que a sofisticação
metodológica da antropologia na construção dos seus objetos permitiria
uma discussão mais rica em termos de generalização sociológica. Mesmo
que o método leve a um trabalho em pequena escala o ganho de
qualidade não se dá pelo um aumento da quantidade empírica, mas por
uma sofisticação teórica e a antropologia servira como uma experiência
qualitativa de “generalizações ocas e das especificidades rasteiras”.
O autor conclui essa parte afirmando que é após essa trajetória
que a antropologia volta seus olhos para o direito atualmente.
“Incrementando o exercício da diferença dentro da própria sociedade,
refunda-se as classificações sempre etnocêntricas a que está submetida
em sociedades modernas, urbanas, industrias, divididas em classes
sociais”. Refutam-se os adjetivos primitivos e as reduções e as noções de
progressiva centralização e racionalização do poder. Além disso, o
método antropológico é crítico com seus próprios resultados e os das
outras Ciências sociais. Há uma constante revisão do seu próprio
conhecimento, um constante desvendamento das suas próprias
categorias que organizam seu saber e sistemática implosão dos seus
objetivos enquanto disciplina científica.
3. A contribuição da antropologia para a pesquisa jurídica no brasil.
Ele primeiro aponta que o estudo do Direito se dá pela reflexão
etnográfica (aqui tanto de observação participante como etnografia de
textos), descrevendo e interpretando fenômenos observados explicitando
as categorias nativas e as do saber antropológico utilizadas pelo
pesquisador. No caso do Direito em específico deve-se seguir pelo
estranhamento do familiar para estabelecer diferenças e descobrir
significados, o que, segundo o autor, não é uma tarefa fácil em um campo
fechado e dominado pelo dogmatismo.
Inicialmente o autor aponta algumas questões preliminares ao
estudo do Direito. Para ele o “mundo do Direito” é um domínio que é
afirmado como à parte das relações sociais, no qual só penetrariam os
fatos considerados como jurídicos. Apesar dessa definição formal, não se
deve considerar fácil a definição do campo de análise, dos “nativos”: o
campo do direito é um campo que está ligado a diversas outras áreas, por
exemplo as Faculdades de Direito ligadas a ministérios, e o próprio direito
é parte do controle social e também é responsável por produzir uma
ordem social, dessa forma, não se deve menosprezar a importância da
contextualização na sociedade para compreender o objeto. Além disso,
como outra observação preliminar o autor ressalta a necessidade de se
compreender a representação que o Direito tem na nossa sociedade,
quais as expectativas em relação a ele, seu significado e papel. Por último,
a necessidade de encara-lo não como um saber monolítico, mas
fragmentado em diversas subáreas.
Após a apresentação dessas questões preliminares o autor passa
a sua reflexão que abordará três pontos: o saber jurídico, a aplicação
desse saber e a relação entre esse saber e sua aplicação e outros saberes
jurídicos eventualmente existentes na sociedade e por eles dominados. A
análise é feita com dados de pesquisa de campo e da experiência do autor
como bacharel de Direito.
Inicialmente, o autor define saber jurídico como “um saber que se
difunde e perpassa todas as esferas e camadas sociais, enquanto um
sistema de representações sobre a sociedade, seus fundamentos e seu
modo de existência e operação”. O saber jurídico não é algo restrito a
alguns, mas perpassa tanto a organização da sociedade como um todo
como representações que temos sobre a sociedade, está envolvida na
nossa atividade cotidiana. O que é restrito nas mãos de alguns é a
manipulação técnica desse saber. O autor aponta como uma
consequência dessa situação na qual o direito se encontra espalhado pela
sociedade é a de que nossa convivência não se baseia em acordos em
comum, mas deverá seguir uma adequação à formulas legais
desconhecidas para ter alguma eficácia. Por conta disso, o autor classifica
essa saber como difuso e eficaz em produzir conteúdo e orientações
formais para a ação social. No caso do Brasil, nossa sociedade é
apresentada como legalista e formal, pois nossa prática social estaria
perpassada densamente por normas, mas ao mesmo tempo dotada de
um certo clientelismo, já que por desconhecermos muitas dessas normas
para termos alguma chance de sucesso devemos apelar para a habilidade
e prestígio de “patronos”.
Dando sequência o autor define que o saber jurídico, pela sua
forma de instituição, implica um distanciamento formal da realidade social,
que deve ser reduzida às suas configurações normativas. Ou seja, a o
saber jurídico entende que é a realidade que deve se adaptar ao Direito,
cabendo a antropologia explicitar os mecanismos que informam as regras
de operação desse saber. O interessante é que apesar dessa proposta de
adaptar a realidade a ele o autor entende que o Direito na nossa
sociedade através de princípios doutrinários, se recusa a regular
juridicamente o comportamento social através das suas próprias regras.
Aqui ele ressalta uma contribuição que a antropologia pode dar a
pesquisa jurídica: tornar consciente processos que se ocultam atrás
de formalismos que apenas servem ao reforço do arbítrio e
exploração da nossa sociedade. Kant dá o exemplo de um manual no
qual o autor adota acriticamente certas concepções antigas da
antropologia nas relações de parentesco, as apresentando como natural
para justificar em uma determinada Natureza Humana certos direitos e
obrigações jurídicas que decorrem da relação de parentesco, como
também das definições de responsabilidades por idade. Ele aponta que o
que o saber jurídico faz é veicular certas representações acríticas de
maneira dogmática o que tem como consequência a adoção de
concepções etnocêntricas ultrapassadas na produção de normas e no seu
ensino. Mas mesmo essas premissas sendo apresentadas como fixas, a
operacionalização do Direito não funciona de acordo com elas, não se
constitui em regra geral pela qual podemos orientar nosso
comportamento. Por exemplo, ao ajuizar uma ação para parar de pagar
pensão por conta da maioridade o pai deve se dirigir a mãe e não ao filho
parte sociológica e crucialmente envolvido no processo não é legitima,
pois, o acordo foi feito entre o pai e a mãe na minoridade do filho. Embora
comprovada a necessidade da pensão, foi aceito o argumento formal de
que o filho era ilegítimo para contestar o acordo, uma vez que era incapaz
na época que ele foi feito. Tal situação visa demonstrar como o Direito se
absteve de regular determinada situação se escondendo atrás de uma
concepção dogmática, oriunda de concepções da antropologia, sobre
capacidade. Outro exemplo dado trata dos casos de contrato de
casamentos definindo obrigações entre as partes que são na visão do
Direito a-jurídicos. Apesar de diversos processos entre os casais ter início
com base nesses contratos, o judiciário se recusa definir regulações por
trás de formalidades legais que por sua vez estão apoiadas em
posicionamentos doutrinários: o Direito deve ser fechado a influências
sociais.
A seguir o outro apresenta outro exemplo para reforçar a sua visão
de como o saber jurídico orienta as práticas jurídicas. Ele traz o exemplo
do tribunal do júri. Bem, aqui basicamente ele descreve como a
organização do tribunal do júri no Brasil é influenciada por concepções
dogmáticas pautadas em saberes antropológicos e sociológicos do século
passado recepcionados acriticamente. O tribunal do júri no Brasil não é
organizado como nos americanos, aqui o juízo estabelece uma lista com
nomes de possíveis candidatos e, enquanto lá o objetivo é
heterogeneidade, aqui o objetivo a ser seguido é a homogeneidade dos
jurados eles devem ser escolhidos com base em por exemplo serem da
mesma classe social. Outra característica ressaltada é o fato dos jurados
não poderem conversar entre si em nenhum momento do julgamento, o
que inclui o veredito final. A sessão final é presidida pelo juiz em uma sala
particular para garantir que os jurados simplesmente declarem seus votos
e não interfiram nos votos dos outros. O autor apresenta como essa
construção é feita com base nas concepções doutrinárias que, se
apropriando de conceitos antigos de Ciências humanas, entendem que o
agrupamento, a multidão, leva os indivíduos a irracionalidade, por isso
eles devem ser afastados uns dos outros, como também conceitos que
falam sobre a homogeneização de um grupo como algo bom, favorável,
que permite que o grupo resguarde certa racionalidade.
4. Conclusão

O autor retoma o tratado, trazendo pontos que a etnografia do
judiciário deve abordar. Para o autor ela deve passar pela compreensão
de que suas instituições, práticas e representações estão inseridas na
sociedade brasileira e tem relação com esta. E também deve se atentar
para a pretensa ineficiência atribuída a área jurídica e o fato dela deter
um imenso potencial de se reproduzir e se difundir seu saber-poder em
diversas áreas da sociedade. Por isso, é necessário fazer a etnografia dos
mecanismos que possibilitam a concepção da formação de decisões
racionais e imparciais em “um mundo de jeitinhos e privilégios”,
enumerando os agentes e circunstancias, formais ou informais, admitidos
no processo.
Deve ser analisada também os efeitos de uma ordem fundada na
isonomia e igualdade dos indivíduos quando aplicada em uma sociedade
que se representa de maneira hierarquizada. Também fala em
problematizar as instâncias do público e do privado.
Para realizar tudo isso é preciso “rasgar os véus do poder e implodir
as categorias que correspondem as práticas arbitrárias”. Como também,
abandonar concepções legalistas e positivistas, estranhar os mitos do
Direito. Abandonar a ideia de que o judiciário é um lugar de resolução de
conflitos, promotor de harmonia social.
Enfim, seguem-se uma série de proposições de pesquisa que
resumidamente se dirigem aquilo já tratado de estranhar o particular e
realizar, dessa forma, uma etnografia de todas as instâncias judiciárias,
considerando os saberes que as sustentam e os efeitos de poder que
suas práticas geram ao aplicar esses saberes. Por último, se ressalta a
importância da perspectiva comparativa para que através das diferenças
se produza “um saber antropológico a partir de nossas especificidades
culturais e a elas adequado”.