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cibercultura

ATO PATRIÓTICO: O MALLEUS


MALEFICARUM DA PÓS-MODERNIDADE
Alexandre Veiga*

Resumo Abstract

Procurando discutir a filosofia da comunicação, este Discussing the philosophy of communication, this
artigo quer verificar as teorias destes autores em rela- article wants to verify theirs theories in relation to the
ção à comunicação e, mais especialmente, à informa- communication and especially, the information as an
ção, tida como um objeto oriundo do registro docu- object derived of a documentary record. The analysis
mental. Como proposta de análise, pretende questio- suggested, wants to debate the relationships between
nar as relações entre modernidade e pós-modernidade, modernism and post-modernism, using a comparison
valendo-se de um paralelo entre um documento medi- among a medieval document - Witches’ hammer and
eval, o Martelo das Feiticeiras, e o recém-editado Ato recently published - the Patriotic Act from the USA
Patriótico do governo norte-americano. government.

Palavras-chave Key Words


Modernidade – Pós-modernidade – Ato Patriótico Modernity – Post modernity – Patriotict Act

Porém é neste ponto que devo lembrar ao leitor o do ao seu redor, tornando-se quase definidor das
óbvio, a saber, que a nova cultura pós-moderna regras sociais e da sua dinâmica de funcionamen-
global, ainda que americana, é expressão interna e to. A partir do que divulgam os meios de comuni-
superestrutural de uma nova era de dominação, cação, homens e mulheres vivem seu cotidiano
militar e econômica, dos Estados Unidos sobre o pautados – para usar uma expressão do meio –
resto do mundo: nesse sentido, como durante por estas configurações. Estes vão desde eventos
toda a história de classes, o avesso da cultura é de menor impacto, como o fanatismo devotado
sangue, tortura, terror e morte. aos astros da música e do cinema, até a nefasta e
Fredric Jameson destruidora ação desencadeada nos países muçul-
manos por uma série de charges consideradas ofen-
sivas pelos líderes religiosos locais.
O estatuto filosófico busca sempre o esteio do Esta reflexão deixa claro, embora muito mais
que pretende dar conta. Refletindo sobre os acon- se possa dizer a respeito, sobre o caráter
tecimentos, a filosofia quer examinar o piso bási- configurador do todo social que devemos obser-
co, o local no edifício do conhecimento onde se var ao tratar da questão comunicação. para isto,
desenvolvem os episódios que vão, a partir daí, contribuiu a diminuição do sentido histórico, cau-
erigir outros fenômenos. Com relação ao fazer sado pelo redimensionamento dos eventos, trans-
comunicacional, esta perspectiva impõe aspec- mitidos quase que sempre “on-line”, no momento
tos que dizem respeito não somente à ação em si em que ocorrem (BODEI, 2001, p. 72).
– a comunicação – como principalmente do
leitmotiv que a faz existir. E um dos mecanismos A responsabilidade de tal embotamento vem
que observamos é a configuração social amiúde atribuída aos meios de comunica-
implementada através dos meios de comunica- ção de massa, os quais, vinculando os indi-
ção de massa. víduos à imediatez do tempo real, despejam
Ao assumir a função de porta-voz da soci- sobre as suas distraídas consciências um
edade, os mídia vêm obtendo, ao longo do tem- fluxo já ingestível e indigerível de informa-
po, uma ampla capacidade configuradora do mun- ções sobre os acontecimentos que ocorrem

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cotidianamente no mundo e que ninguém governo Bush quer estruturar o mundo de acordo
está agora em condição de questionar a sua com as vontades de seu governo. Formado por
veracidade. expoentes da direita religiosa e fundamentalista
norte-americanas, é baseado nos princípios da
Pretendemos também associar nesta dis- moral cristã e da ética capitalista em seu corte
cussão o pensamento de três expoentes da filoso- mais tradicional. Com práticas que remontam ao
fia. A análise das teorias de Nietzsche, Foucault e período capitalista mercantil, o atual governo nor-
Gilles Deleuze produz uma reflexão bastante apro- te-americano não reluta em defender de forma
priada da temática que queremos abordar. É tam- intransigente seus interesses, valendo-se para isto
bém necessário esclarecer que, em nossa con- inclusive da força militar, como bem demonstra a
cepção, a área da informação não pode ser ação no Iraque. Neste contexto, a comunicação é
dissociada do processo comunicacional. Perten- uma arma fundamental. Para Mattelart,
cendo a uma profissão cuja atividade é o controle
de documentos, ação voltada à informação, é pre- [...] desde o século XIX as primeiras uto-
ciso fazer a ressalva de que, quando entra em de- pias diziam: ‘a comunicação é como a reli-
bate a questão comunicação, está-se também en- gião’. Ambos os termos têm a mesma
tendendo a informação. etimologia: religare. O problema é, portan-
A comparação entre as ações do governo to, abandonar qualquer fé religiosa e afir-
norte-americano após o 11 de setembro de 2002 e mar que, de todo modo, o que está em cri-
se é a noção de progresso e, junto com ela,
a noção de comunicação como redentora.”1

Da mesma forma que agia a Igreja Dentro deste panorama, apontado aqui em
poucas linhas, queremos explorar como se apre-
Católica durante os anos de 1300 a senta o controle da sociedade exercido pela citada
1800, quando figurava como o gran- legislação. Para isto, defendemos a hipótese de
que a fragmentação do pensamento racional pro-
de poder social do Ocidente, a legis- duzido pela “Pós-modernidade” possibilitou este
lação anti-terrorista do governo Bush tipo de controle. Isto foi possível porque, no de-
bate entre Modernidade e Pós-modernidade, en-
quer estruturar o mundo de acordo com tendemos que esta transformou-se não num epi-
sódio posterior, mas sim no retorno à práticas
as vontades de seu governo
antigas, reconfigurando as sociedades e permitin-
do o estabelecimento dos atuais mecanismos de
controle social.
o “Martelo das Feiticeiras”, surgiu da percepção Será necessário contextualizar, ainda que
de que vivemos uma nova época de caça às bru- também de maneira sucinta, o 11 de setembro,
xas. Da mesma forma que no período medieval, episódio crucial na elaboração do “Ato Patrióti-
nos anos da tragédia nazista e ao longo do co”. Sua elaboração é uma das mais inequívocas
Macarthismo, o atual período histórico reflete a demonstrações da afirmação de uma metodologia
intolerância social e transferência de responsabili- de administração social que se coloca equivoca-
dades de si para os “inimigos externos”. O “infer- damente acima dos interesses da sociedade. Este
no são os outros”, no dizer de Sartre. Esta pers- controle, como de hábito, serve apenas para manter
pectiva compeliu a uma brutal dificuldade no con- intactos os interesses e os valores de uma peque-
vívio com as diferenças, da mesma forma que na parcela dos 6 bilhões de habitantes do planeta.
observamos no medievo.
A institucionalização de uma rede de proce-
dimentos “legais”, consubstanciada no “Ato Pa- MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE
triótico”, permite observar como se configura o
poderio norte-americano. Da mesma forma que Estabelecer conceitos mínimos sobre
agia a Igreja Católica durante os anos de 1300 a modernidade e pós-modernidade seria responder
1800, quando figurava como o grande poder so- à questão feita pelo menino à Santo Agostinho na
cial do Ocidente, a legislação anti-terrorista do famosa parábola: é possível colocar toda a água

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do mar dentro de um pequeno buraco? Assim,
queremos neste debate apenas considerar alguns
aspectos, aqueles que nos interessam diretamente. Estabelecer conceitos mínimos sobre
Modernidade e pós-modernidade continuarão sen- modernidade e pós-modernidade seria
do alvo de milhares de questionamentos, o que
vamos fazer é acrescentar algumas reflexões. responder à questão feita pelo meni-
Como principal característica, a
no à Santo Agostinho na famosa pa-
modernidade é entendida como herdeira do
Iluminismo renascentista. É sobretudo o primado rábola: é possível colocar toda a água
da razão, do racionalismo científico e principal-
mente das grandes narrativas, que deveriam ex- do mar dentro de um pequeno buraco
plicar o mundo e dar conta de todas as suas
idiossincrasias. O projeto da modernidade pode
ser encarado como o ápice da cultura científica, fria. Afastadas as imprevisibilidades do mundo em
desenvolvida sobretudo a partir do progresso his- sua lógica natural, haveria de se estabelecer uma
tórico da sociedade, que sobreveio notadamente condição suprema de manutenção da vida humana.
no período da 2ª Revolução Industrial. Podemos então afirmar que o projeto mo-
Investida pelo pensamento do período das derno pretendia organizar o mundo à vontade e
Luzes, a modernidade pretendia dar conta da to- semelhança dos homens, e não mais submetido
talidade dos processos históricos, valendo-se da às dificuldades encontradas ao longo dos sécu-
construção teórica cuja premissa era o processo los. Para a modernidade, o antigo deveria ser subs-
científico básico. Os pensadores modernos, pro- tituído pelo novo, mas pelo novo projetado de
punham a grande narrativa como modelo global acordo com a racionalidade científica, capaz das
de produção e reprodução do conhecimento. A soluções mais adequadas para os problemas da
compreensão do mundo passava pelo uso população. Havia uma motivação positiva na pro-
indubitável desta premissa, desimportando-se aí posição da modernidade, que levaria a humanida-
as diferenças entre as civilizações. Como nos diz de a uma etapa superior.
Boaventura de Souza Santos, referindo-se ao nas- Evidentemente que tais premissas cedo en-
cimento da ciência moderna, contraram seus críticos. Desde o início o projeto
moderno foi percebido como contraditório e de-
Sendo um modelo global, a nova masiadamente otimista. Edmund Burke, por exem-
racionalidade científica é também um mo- plo “[...] não fez nenhum esforço para esconder
delo totalitário, na medida em que nega o as suas dúvidas e o seu desgosto com os exces-
carácter racional a todas as formas de co- sos da Revolução Francesa”, enquanto Malthus
nhecimento que não se pautarem por seus questionava a capacidade da produção agrícola
princípios epistemológicos e pelas suas re- para “[...] escapar das amarras da escassez hu-
gras metodológicas.2 mana” (cito em ambas HARVEY, 2003, p. 25).
Estes pensadores já demonstravam a inviabilidade
O projeto moderno pretendia, dentro de uma desta capacitação teórico-metodológica para ela-
lógica herdeira do positivismo, constituir um cor- borar um modus vivendi.
po de conhecimento suficiente e necessário para Mas foram sobretudo os acontecimentos
eliminar da sociedade as manifestações de macabros envolvendo o uso militar das descobertas da
irracionalismo: mitos, religiões, todo tipo de su- ciência – caso específico da bomba atômica – e prin-
perstição. Calcado na idéia de progresso e de cipalmente a revelação da crueldade “burocrática” dos
linearidade da história, pautava-se pela dinâmica campos de concentração nazistas que abalaram em
científica que ia acumulando, em etapas, os re- definitivo o edifício da modernidade. Nestes episódios,
sultados que um dia levariam à perfeição da vida. restou absolutamente comprovado que não bastava ao
Como experiência social, o projeto moder- homem o domínio pleno da racionalidade, e uma apli-
no queria chegar a um futuro idílico, através de cação científica dos conhecimentos adquiridos. Havi-
uma sociedade estável, democrática, igualitária, am outras condições de funcionamento na sociedade
eliminando o potencial de irracionalidade que que eram necessárias considerar.
grassava no mundo. Para eles, tal circunstância A ciência perdeu boa parte da aura de auto-
era a causadora dos males que a humanidade so- ridade que um dia possuiu. De certa forma,

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isso provavelmente é resultado da desilu- negligenciados pela perspectiva totalizante da
são com os benefícios que, associados à modernidade. Era preciso, portanto, ir adiante.
tecnologia, ela alega ter trazido para a hu- A pós-modernidade mostrou como pres-
manidade. Duas guerras mundiais, a inven- suposto o que Bauman diz como sendo sua maior
ção de armas de guerra terrivelmente evidência. Para este autor, ela “desafia o direito
destrutivas, a crise ecológica global e ou- de a ciência validar e invalidar, legitimar e
tros desenvolvimentos do presente século deslegitimar – em suma, de traçar a linha divisó-
poderiam esfriar o ardor até dos mais ria entre conhecimento e ignorância”.4 Do ponto
otimistas defensores do progresso por meio de vista pós-moderno, o conhecimento precisa
da investigação científica desenfreada.3 encarar uma quantia de incerteza e de ignorância,
pois não nos é dado sabermos tudo a respeito de
A Razão moderna já estava produzindo a tudo. A falta de explicação para um fato é, ele
tessitura crítica de seus próprios erros. Nem po- mesmo, parte da explicação, causa e conseqüên-
deria ser diferente, pois não haveria contradição cia do devir histórico que não caminha numa úni-
maior do que uma filosofia, que defendia como ca direção possível, mas sim em torno de si mes-
sua premissa básica a investigação científica, blo- mo, indo e voltando ao sabor das incertezas.
quear as reflexões a respeito de si mesma. Atento A pós-modernidade pleiteia, assim, o fim
a isso, o projeto moderno buscava a correção de das grandes narrativas, da totalidade explicativa
rumos, o retorno a uma prática adequada de in- do mundo, da ciência como modelo de validação.
vestigação do mundo. Para os pós-modernos, é essencial fragmentar o
Só que tudo havia se modificado. conhecimento, cada um dando conta de seu uni-
Conspurcada pela crueldade do uso, defenestrada verso particular, relacionando-se – ou não – com
por uma geração que lutava por mudanças signifi- o todo homogêneo. É o momento de narrar a “his-
cativas no controle do poder e principalmente ven- tória dos vencidos”, do povo, daqueles que até
do convalescer e finalmente ruir o projeto de so-
ciedade utópica defendida pelo filho dileto do pen-
samento hegeliano, o socialismo soviético, a
modernidade entrou nos anos 70 ferida de morte. Do ponto de vista pós-moderno, o co-
Era preciso superá-la, seguir adiante, libertar o
homem das amarras da frieza e da intolerância nhecimento precisa encarar uma quan-
cientificizantes. tia de incerteza, pois não nos é dado
O conceito de pós- modernidade tem di-
versos nascimentos. Há os que lhe dão data, hora sabermos tudo a respeito de tudo
e local, como David Harvey, que declara ter ocor-
rido às “15h32m de 15 de julho de 1972”
(HARVEY, 2003, p. 45). Outros, como então não existiam enquanto atores sociais. É a
ANDERSON, (1999, p. 9-10) defendem que a hora também de valorizar as crenças, a cultura
idéia de “... ‘pós-modernismo’ surgiu pela primeira popular, a irracionalidade do lugar-comum, esca-
vez no mundo hispânico, na década de 1930, uma pando do condicionamento teleológico que a
geração antes do seu aparecimento na Inglaterra modernidade queria alcançar.
ou nos Estados Unidos.”. Para Fredric Jameson, Outro elemento importante neste panora-
o termo revela “A lógica cultural do Capitalismo ma, e que aqui nos interessa diretamente, é o
Tardio”, subtítulo de seu livro a respeito. fundamentalismo religioso. Como resultado das
O fato é que ocorreram significativas mo- dificuldades de se encontrar respostas para um
dificações na sociedade ocidental, que conduzi- mundo em crise, há um retorno à crença no divi-
ram a esta etapa. A aceleração do processo de no, às explicações irracionais, na busca de refle-
globalização, produzida pelo aporte tecnológico xões impossíveis no plano científico. Esta
desenvolvido no pós-guerra, e o recrudescimento reconversão, na medida em que também não con-
da insatisfação com as práticas totalitárias dos segue apresentar soluções, ainda assim não expe-
poderes político e científico tiveram fortes efei- rimenta uma desilusão, tal como se deu com a
tos. Eram necessárias outras explicações para o modernidade. Ao contrário, por prescindir de ló-
fenômeno do mundo, algo que desse conta ou gicas explicativas, suas atitudes são acirradas, a
pelo menos passasse a considerar os aspectos religião investe mais ainda no divino, buscando

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alcançar aquilo à que se propunha. cravidão, perigo nas ruas e no coração,
Como resultado da má leitura desta pro- ocultamento, estoicismo, arte da tentação e
posta, e embora também fruto de outras circuns- diabolismo de toda espécie, tudo que há de
tâncias, temos o retorno a uma postura individua- mau, terrível, tirânico, tudo o que há de
lista, uma visão de mundo egocêntrica, e a busca animal de rapina e de serpente no homem
da convivência em grupos de dimensões reduzi- serve tão bem à elevação da espécie “ho-
das, as chamadas “tribos”, onde o que importa é mem” quanto o seu contrário7
o valor do grupo, e não uma visão coletiva de
sociedade. Ao questionar a modernidade, este A filosofia, para Nietzsche, nada mais era
“pós” dá sinais de retorno à práticas abandona- do que uma invenção deste mundo, um duelo en-
das. Por debater em um patamar de perspectivas tre a força e a fraqueza, uma interpretação e ava-
já conhecidas, a pós-modernidade cai numa ar- liação da realidade, conduzida por uma proposta
madilha que acaba provocando estragos tão gran- moral. Crítico da religião, da democracia e do
des ao convívio humano quanto aqueles causa- socialismo, elaborava tiradas de puro racismo e
dos pelo projeto moderno. O 11 de setembro aca- preconceito. Não é à toa que o nacional-socialis-
ba sendo um destes resultados. mo vai se valer de suas palavras, principalmente
na identificação com o “super homem”, embora o
façam de maneira equivocada. E também não é
FRIEDRICH NIETZSCHE ALÉM DO BEM E DO MAL gratuitamente que seus textos vão conduzir à frag-
mentação pós-moderna.
Nas raízes da pretendida superação moder- Mais ainda se poderia dizer. Mas concluí-
na, um dos primeiros autores referidos é o filósofo mos dizendo que Nietzsche acabou por reprodu-
alemão Friedrich Nietzsche. Para ele, a modernidade zir o erro moderno, ao querer conduzir o pensa-
nada mais era do que um poderoso sistema de valo- mento de todos por seu raciocínio. Também ele
res morais, atribuídos à civilização ocidental a partir tornou-se um definidor de conceitos. Argüindo
de seus pais fundadores. Desde Platão, passando que o conhecimento se dá a posteriori, através
por Kant e Hegel e vindo até seu contemporâneo dos sentidos, sua herança foi apropriada pela filo-
Schopenhauer, Nietzsche dizia que haviam criado sofia pós-moderna, que através dos meios de co-
um processo dialético e totalizante de apreensão do municação (substitutos da filosofia) passou a es-
conhecimento, configurado numa proposta moral tabelecer uma nova moral, defendendo seus pró-
que encarcerava a humanidade. Este ato ocorria prios valores.
sobretudo com a metafísica, que “[...] faz da vida
qualquer coisa que deve ser julgada, medida, limita-
da, e do pensamento, uma medida, um limite, que FOUCAULT E A SOCIEDADE DISCIPLINAR
exerce em nome de valores superiores”5 .
O filósofo alemão pregava que a humani- O próximo autor que converge com uma
dade vinha em um processo de degenerescência reflexão bastante interessante nesta perspecti-
porque a vontade de poder se estabelecia com a va de nova configuração do controle da socie-
vitória das classes inferiores. Em uma época que dade é Michel Foucault. Valendo-se de farta do-
visualizava a expansão da cidadania – ainda que cumentação de arquivo, e reproduzindo de for-
sob as botas do imperialismo europeu sob outros ma nua e crua os absurdos suplícios a que eram
continentes, a sublevação das classes populares submetidos os criminosos na passagem do
contra a aristocracia fazia-o abominar os valores Medievo à Idade Moderna, o autor abre seu li-
da democracia. Invertendo os cânones defendi- vro “Vigiar e Punir” (30ª edição, 2005) obser-
dos pela modernidade, apregoava que a ciência “ vando a chegada de uma nova era. E, com ela,
[...] procura nos prender do melhor modo a esse o “desaparecimento dos suplícios”
mundo simplificado, completamente artificial, fa- (FOUCAULT, 2005, p. 12). Essa passagem
bricado, falsificado”6 . Em uma época de Luzes, devemos ao início da modernidade.
defendia o desatino e a escuridão. Dizia ele que a Construindo seu texto na busca do con-
liberdade do espírito está em não aceitar qualquer traste entre a pré-modernidade e os novos tem-
condicionamento moral da sociedade. pos, o autor considera que desta forma deu-se o
fim da punição, passando-se à “docilização” dos
[...] acreditamos que dureza, violência, es- corpos. Esta mudança marca o ápice do uso da

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ciência como método de penalização dos cri- nificado. Sua perspectiva de análise percebeu
minosos. Além disso, passou a ser executado as nuances deformativas que o aparato buro-
um controle social através da vigilância extre- crático do Estado e da sociedade coercitiva-
ma, não só executada pelas instituições, mas mente impunham, discutindo inclusive as cri-
incutidas em cada cidadão pelo disciplinamento ses de cada modelo.
da vida. Para este autor, a humanidade experimen-
tou três estágios de organização do poder social.
A disciplina fabrica assim corpos submis- Na primeira delas, definida como a de “sobera-
sos e exercitados, corpos “dóceis”. A dis- nia”, a proposta era de “decidir sobre a morte
ciplina aumenta as forças do corpo (em ter- mais do que gerir a vida”. Sua tecnologia restrin-
mos econômicos de utilidade) e diminui gia-se aos equipamentos rudimentares, responsá-
essas mesmas forças (em termos políticos veis por um pequeno acréscimo na capacidade
de obediência). Em uma palavra: ela dissocia produtiva. Nessas sociedades, o progresso era
o poder do corpo8 imperceptível, até mesmo indesejado.

A sociedade é organizada de modo a que se


lhes possa extrair o máximo de eficiência. Todas
as tarefas precisam ser implementadas de manei-
Nietzsche acabou por reproduzir o erro
ra científica, utilizando-se para isto o conhecimento moderno, ao querer conduzir o pensamen-
obtido nas promissoras pesquisas acadêmicas. É
preciso calcular cada evento, controlar os to de todos por seu raciocínio. Também
acontecimentos, demonstrar os possíveis re- ele tornou-se um definidor de conceitos
sultados e daí eliminar os erros. Nesta soci-
edade, a vigilância serve para produzir uma
nova visão de mundo, submetida aos desíg-
nios da razão pura. Na etapa posterior, passou-se à socieda-
Com Foucault, somos chamados a per- de “disciplinar”, dissecada com muita proprie-
ceber o quanto a exasperação da modernidade dade também por Foucault. Nesta se percebe a
conduziu à uma robotização social, com uma necessidade de rigidez social, de estruturação,
lógica única e inescapável. A seqüência famí- de busca expressiva por resultados, tal como
lia-escola-exército-trabalho formaria uma rede vimos nos parágrafos anteriores. É o clímax
de administração do homem na qual todo ex- da Revolução Industrial, da linha de montagem
cesso, toda diferença deveria ser punida. O fordista e toyotista, implementadas pelos estu-
panóptico construído para o zoológico do mo- dos científicos de Taylor. Aqui temos os ou-
narca francês extrapolou seu uso, e passou a tros “meios de confinamento”, a escola, a pri-
modular toda a sociedade. são, etc. O aporte tecnológico que a caracteri-
Denunciando esta visão de mundo, o tra- za, como não poderia deixar de ser, são equi-
balho de Foucault contribuiu fortemente para os pamentos qualificados, “energéticos”,
movimentos libertários que em 1968 declaravam: construídos para obter o máximo de eficiência
“É proibido proibir”.9 No entanto, a configuração com o mínimo de desgaste (do equipamento,
da sociedade não poderia admitir que houvesse tal não do operário), a fim de obter uma explora-
libertação do homem. Mas era também impossí- ção total da mais-valia.
vel continuar a configurar o mundo dentro desta Chegamos enfim à sociedade atual, desig-
lógica científica. Outra forma de vigilância preci- nada pelo autor como sendo a “de controle”. Nes-
sava ser implementada. ta etapa, em que recém estamos entrando, ope-
ram-se com “[...] máquinas de uma terceira es-
pécie, máquinas de informática e computadores,
A SOCIEDADE DE CONTROLE cujo perigo passivo é a interferência, e, o ativo, a
pirataria e a introdução de vírus.”10 Nesta muta-
Deleuze tratou de evidenciar uma linha his- ção do capitalismo, onde o que importa já não é
tórica de domínio das sociedades por suas insti- mais a produção, mas os serviços, a fábrica se
tuições. Além disso, identificou em cada um dos dispersa, e o que era “massa-indivíduo” agora é
períodos o aporte tecnológico que lhe daria sig- absolutamente divisível.

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A sociedade de controle é uma sociedade tentação de Eva a causadora da expulsão do Para-
esfacelada, submetida ao controle total exercido íso. O mais importante, porém, é observarmos
pelo mercado, em âmbito mundial. Nessa socie- como se constituiu este recurso simbólico, trans-
dade, o controle se dá pela liberação somente aos ferindo para o sobrenatural os problemas huma-
que possuem a senha. É por esta “cifra” que so- nos. As tragédias que acometiam a humanidade não
mos cidadãos, tendo acesso às informações e ao eram por conta de suas ações racionais, mas obra
relacionamento com o mundo. Só que neste de atividades promíscuas e anti-religiosas, devendo
contato deixamos rastros, somos sistematicamen- ser expiadas pela morte sob tortura, na fogueira ou
te vigiados, encarcerados por um mecanismo que na forca. Do contrário, não haveria redenção possí-
aposta na invisibilidade como fórmula para a ma- vel, para si e para sua comunidade.
nutenção do status quo. Símbolo de uma visão de mundo pré-
O que vale agora é, portanto, a tensão do cartesiana, o “Martelo das Feiticeiras” é um do-
auto-controle. Como se não bastasse a cerca cumento evidente do modelo de pensamento ba-
eletrônica dos níveis de senhas, torna-se dissemi- seado na religiosidade, na subjetividade absoluta e
nada a estratégia das câmeras de vigilância que, na desconsideração dos princípios filosóficos do
espalhadas pela cidade, controlam a população. humanismo renascentista, que surgiria pouco tem-
Sem saber quem controla tais câmeras, vivemos po depois. A atribuição dos males às ações de Deus
acuados, agindo sempre com cuidado total, mes- ou do Diabo é o ápice da visão de mundo
mo onde não há este equipamento. Inclusive na teocêntrica, que pautou a vida naquele perío-
Internet, até há pouco difundida como um es- do. Quaisquer divergências dos cânones cató-
paço livre de controle, cada vez mais se torna licos eram punidos, pois revelavam manifesta-
possível identificar os autores não só dos cri- ções demoníacas, cujo objetivo era a destrui-
mes cibernéticos, mas mesmo daqueles que pre- ção do cristianismo.
tendiam fazer da rede um locus de discussão
social. E é neste sentido que se enquadra a le-
gislação americana. REVENDO O 11 DE SETEMBRO

No mundo da globalização neo-liberal pós-


MALLEUS MALEFICARUM, O 11 DE SETEMBRO E O queda do Muro, reacenderam-se disputas regio-
ATO PATRIÓTICO nais em vários locais. A grande maioria havia sido
silenciada pelo enfrentamento entre os blocos ca-
Escrito em 1484 pelos padres dominicanos pitalista e socialista, que travavam entre si a dis-
Heinrich Kramer e James Sprenger, o Malleus puta de maior intensidade. Ainda que eventualmen-
Maleficarum é um compêndio das idéias da época te viessem à tona, estes conflitos ocorriam sob a
à respeito das ações tidas como demoníacas. Seu égide daquela disputa de maior porte, o que servia
uso era recomendado na preparação dos para lhes desconstituir enquanto circunstância
Inquisidores da Santa Madre Igreja, na tarefa de específica. Tornavam-se desde sempre uma ba-
eliminar da sociedade os responsáveis por heresi- talha pelo modelo de sociedade, e não por seus
as ou ações nefastas, evidenciadas desde simples interesses locais.
episódios até ações que mais impressionavam a O panorama alterou-se radicalmente após a
população. Um objeto de valor que se perdia, um derrocada do sistema soviético, no bojo das mu-
animal de carga que morresse de causa desco- danças efetuadas na glasnost e pela perestroika de
nhecida, a mulher que não engravidava ou a seca Mikhail Gorbachev. Foram caindo como que num
que assolava a região eram devotados à ação de jogo de dominó as ex-repúblicas socialistas sovi-
uma bruxa ou do demônio incorporado em algum éticas, a Iugoslávia se dissolveu em uma série de
aldeão desafortunado, e que deveriam ser encon- estados menores, e o mundo árabe despontou com
trados e “salvos” pelo Tribunal do Santo Ofício. mais densidade no cenário geopolítico do planeta.
Não é difícil imaginar o que estes episódios Nesse caldo de desorganização política, re-
produziam. Quaisquer dificuldades da população crudesceram as identidades locais, refletindo tam-
eram mitificadas e sua causa atribuída a um do- bém os anos de financiamento tanto de america-
ente mental, um morador recente da região ou, nos quanto de soviéticos, que por longos perío-
principalmente, às mulheres, estas desde o Gênesis dos forneceram armas e recursos tecnológicos a
portadoras dos males do mundo. Afinal, fora a estes grupos, na ânsia de derrotar seu inimigo,

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que agora não mais existia. Porém, ao invés do lo das Luzes. Ao buscar na Razão e na Ciência os
combate contra o comunismo, a disputa agora se pressupostos epistemológicos que configuravam
contrapunha a todos os que tentassem influenci- o outro sem concebê-lo como negativo, a
ar, direta ou indiretamente, os destinos destes po- Modernidade tentou estabelecer um diálogo pau-
vos. Aqui a presença americana foi ainda mais tado pela sensibilidade à diferença, sem
nefasta e destruidora, já que não se resumia ape- desconstituir os valores fundamentais à manuten-
nas ao confronto contra a ex-URSS, mas sim aos ção da vida. Buscava-se permitir as diferenças
interesses comerciais, notadamente nas terras ri- entre os povos, mas valorizando-as exatamente
cas em petróleo do Oriente Médio. como diferentes, ainda que submetidas à um pa-
Junte-se a isto um aprofundamento das prá- drão ético de desenvolvimento.
ticas reacionárias articuladas por um e outro lado. Tal proposta tornou-se conflitiva em episó-
Na clássica seqüência dialética da ação e reação, à dios emblemáticos, como aqueles que obrigaram
onda de liberdade preconizada pelos avanços so- a Justiça francesa a impedir que grupos religiosos
ciais experimentados nas décadas de 60 e 70 nos muçulmanos, residentes em cidades do país, pra-
Estados Unidos e Europa sobreveio um retorno ticassem ritos tradicionais de mutilação da genitália
de uma religiosidade extrema, apego às tradições feminina, comum em países como o Sudão ou
e principalmente o refluxo do racismo nos países Marrocos, mas proibidos na Europa. Do mesmo
do capitalismo central, insuflado pelas más condi- modo, outros conflitos religiosos iriam aumentar
ções econômicas decorrentes das sucessivas cri- o debate entre a divisão do Estado e da religião,
ses do petróleo. Em um misto de fundamentalismo sobretudo no Ocidente. Foi quando veio o 11 de
cristão e prática econômica liberal, deu-se tam- setembro.
bém um aumento da fé em soluções divinas em
contrapelo à redução do Estado na busca de alter-
nativas para as dificuldades econômicas. O FIM DE UM MITO
Do lado árabe, a situação não era muito di-
ferente, embora com sinais trocados. Com efeito, Os Estados Unidos haviam participado das
ao longo das últimas décadas, o proverbial isola- duas últimas guerras mundiais, além de diversos
mento que as ditaduras de orientação religiosa ha- conflitos regionais, saindo sempre vitoriosos.
viam produzido não era combatido pelos ditames Exceto no Vietnã, onde foram fragorosamente der-
da razão moderna. Ao contrário, como vimos, re- rotados, o exército americano acumulava resulta-
cebiam apoio total. Na vitória de Khomeini, que dos positivos. Em todos estes casos, o território
retirou do poder no Irã o Xá Reza Pahlevi, a Casa americano permanecera incólume, sem sofrer
Branca optou por apoiar um setor arcaico daquela qualquer ataque. A única oportunidade adversa foi
sociedade, do que arriscar a chegada ao poder de no bombardeio de Pearl Harbour, pequena base
um partido de orientação socialista. Esta fórmula naval situada em uma ilha remota do Pacífico,
seria repetida em outros conflitos. Os americanos próximo ao Havaí. Sobre este episódio ainda hoje
também notabilizaram-se por permitir a manuten- restam muitas dúvidas, pois há quem afirme que
ção de um governo autocrático e ditatorial como o Pentágono – centro militar norte-americano – sa-
seu principal aliado, a Arábia Saudita do Rei Fahd. bia do fato, mas que obedecendo às ordens do en-
A União Soviética, por sua vez, investia em tão presidente Franklin Roosevelt, não tomou todas
países cuja minoria islâmica não conseguia se as providências necessárias, criando um motivo para
constituir com plena autonomia, casos da Síria e forçar junto à opinião pública e ao Congresso a en-
do Egito, mas que ainda assim tinham na religião trada do país na 2ª Guerra Mundial.
um elo de ligação com grupos extremistas que O poderio militar da única superpotência e
agiam sobretudo em Israel, alvo preferencial de os pesados investimentos em controle de infor-
10 em cada 10 destes grupos. A impressionante mações cairiam por terra na manhã de 11 de se-
colcha de retalhos da política local dava seus pri- tembro. Como em um filme de Hollywood, o
meiros e decisivos passos para ver nascer o gran- mundo iria assistir estupefato aviões comerciais
de nó da atual conjuntura: o terrorismo religioso. sendo jogados contra vários prédios. Além da in-
Este panorama traria sem dúvida episódios crível capacidade de organização dos responsá-
que fariam cada vez mais recrudescer os sinto- veis, ficaram nítidas suas manifestações simbóli-
mas de estranhamento que o mundo moderno ha- cas. Os locais atacados representavam o poder
via desfeito ao longo do Renascimento e no sécu- militar do Pentágono, o político, (um dos aviões

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foi abatido, ou derrubado - o mistério continua - gadora maioria dos congressistas em menos de
antes de chegar à Casa Branca), e o poder dois meses, numa impressionante demonstração
econômico e social, na queda dos edifícios do de eficiência política. Claro que uma leitura atenta
World Trade Center, no coração de Nova Yorque, demonstra que muitos de seus preceitos não fo-
considerada como a “capital do mundo”, pelo ram devidamente debatidos, e que sua aceitação
cosmopolitismo e por ser a sede da Bolsa de Valo- ocorreu dada a sensibilidade pública que o 11 de
res mais importante do capitalismo mundial. Al- setembro proporcionou.
vos escolhidos a dedo, portanto. O fato de tal documento ser apresentado
A onda de ataques provocou fortes senti- tão rapidamente só reforça a tese de que o gover-
mentos. A grande maioria dos países rapidamente no Bush, a exemplo de seu antecessor em 1940,
solidarizou-se com o povo americano, chocados valeu-se do episódio para fazer aprovar perante a
com as mortes entre a população civil, indefesa e sociedade americana um conjunto de regras que
sem condições de reação. O choque mitigou as delimitam, vigorosamente, um dos mais notáveis
freqüentes críticas que o presidente Bush sofria, esteios daquele povo, sua liberdade de expressão
por sua inépcia ao tratar da geopolítica global. A e a secular prática democrática. Claro que esta
onda de apoio iria proporcionar a invasão do suspeita ainda terá de esperar por sua confirma-
Afeganistão pelos americanos, país que há anos ção pela história.
enfrentava uma dura guerra civil. A alegação A partir desta condição, o governo dos Es-
era a de caçar o grupo terrorista apontado como tados Unidos vêm se notabilizando por cercear a
o responsável pelo atentado, a Al-Qaeda de liberdade de informação da população em geral.
Osama Bin Laden. Recentemente, exigiu que um dos mais famosos
Também nesta seqüência ocorreu o ataque buscadores de termos da Internet, o Google, for-
norte-americanos contra um ditador que, é sem- necesse os registros de todos os números de IP
pre importante lembrar, fora “entronizado” pelo (o que possibilita identificar o usuário), suposta-
próprio governo dos Estados Unidos. De aliado, o mente para coibir a pornografia infantil. A renhida
Iraque passava a inimigo número 1, em substitui- briga judicial, por hora, está sendo vencida pela
ção aos “comedores de criancinha” soviéticos. empresa, mas resta saber até quando.
Embora logo se desvanecesse, a trégua Outra polêmica ocorreu pela exigência de
obtida por Bush foi suficiente para implementar que as bibliotecas, públicas e particulares, forne-
uma série de ações militares, políticas e legais a cessem aos órgãos de segurança os registros de
fim de, em suas palavras, “dar combate sem tré- leitores de quaisquer publicações voltadas ao
guas ao terrorismo”. Na seqüência destes aconte- islamismo.12 Esta ação deveria ser imediata, e de
cimentos, seria então proposta e aceita a edição caráter irrestrito. Pouco importava, segundo a
do Ato Patriótico. determinação governamental, se fossem crianças
realizando pesquisas escolares, adolescentes cu-
riosos em ler o Corão ou mesmo aposentados que
PARA DETER E PUNIR TERRORISTAS buscavam outras fontes de informação que não
aquelas fornecidas pela grande imprensa. Esta, por
O documento protocolado sob o código H. sua vez, adotou o discurso do governo Bush e
R. 3162, que ficou conhecido por “Ato Patrióti- divulgava apenas informes oficiais. Aliás, qualquer
co”, é um procedimento constitucional emitido voz dissonante era imediatamente taxada de “ter-
pelo Poder Executivo dos Estados Unidos, sub- rorista” em potencial, ou no mínimo de falta de
metido ao Senado daquele país no dia 24 de outu- patriotismo.
bro de 2001, 45 dias após os ataques que o iriam Em outro campo, num lance de pura de-
insuflar. Trata-se de um compêndio de regras que magogia, ao comentar a recente onda de fanatis-
objetiva “... deter e punir atos terroristas nos Es- mo perpetrada contra jornais europeus, que pu-
tados Unidos e em qualquer lugar do mundo, es- blicaram charges consideradas ofensivas ao
tabelecendo proposições legais para tanto, entre Islamismo, o governo Bush repreendeu os jor-
outros propósitos.”11 , como diz seu preâmbulo. nais, entendendo que ofendiam princípios religio-
Uma questão importante se destaca já na sos. Num misto de esperteza política de baixo ní-
análise do volume do documento. Formado por vel, misturada à uma visão de mundo equivocada,
1016 seções, ocupa nada menos que 342 páginas. por considerar princípios religiosos específicos
Isto tudo editado, votado e aprovado pela esma- como uma totalidade social, esta atitude revela ain-

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da o teor altamente reacionário que o governo ríodo de perversidades, agora planetárias.
daquele país está produzindo em suas ações no A modernidade, portadora da razão,
mundo globalizado. vivenciou diversos episódios negativos em sua
Todas estes elementos são visíveis no “Ato ânsia de configuração do mundo. Os problemas
Patriótico”. Examinando seus principais tópicos, derivados da insensibilidade cientificizante desta
revela-se o caráter altamente controlador de seus racionalidade causaram crises graves, cujo ápice
artigos. Para o governo Bush, não é necessário foram os conflitos armados de diversas propor-
apenas investigar o terrorismo, mas sim controlar ções, em vários pontos do planeta. Contudo, nes-
a comunicação em nível mundial, utilizando-se para te projeto havia uma busca pela lógica racional
isto dos meios que entender necessários, sem que poderia, se bem utilizada, conduzir a uma pro-
quaisquer outras justificativas, apenas por sua posição adequada.
decisão exclusiva. Sua desconstituição, pelos motivos aqui
O documento também compele as ações analisados, constitui o que chamamos de uma
do governo para impedir ou condenar os atos de “anti-modernidade”, que se escondeu sob o prefi-
discriminação contra árabes e muçulmanos. Na xo de “pós”. A lógica desta aparece no condicio-
seção 102, o texto refere que “Os atos de violên- namento do mundo não só sob uma outra moral,
cia efetuados contra árabes e muçulmanos ameri- da qual os meios de comunicação tornaram-se os
canos desde o 11 de setembro de 2001, ... , são novos portadores, mas principalmente ao estabe-
condenados por todos os americanos que valori- lecer uma sociedade mundial de controle. Esta,
zam a liberdade.”13 . Além da preocupação com os por sua vez, encontrou sua garantia jurídico-polí-
inimigos, este item demonstra uma valorização tica no “Ato Patriótico”, editado pelo governo dos
justamente daquilo que o Ato busca restringir, a Estados Unidos.
liberdade de expressão. Nossa proposta procura evidenciar que vi-
Entendemos então que os dois documen- vemos hoje uma sociedade controlada não pelos
tos, símbolos-chave de suas épocas históricas, princípios éticos e transparentes evocados pelo
encontram sua similaridade justamente por pre- Século das Luzes e por sua herdeira direta, a
tenderem configurar o comportamento da socie- Modernidade. A civilização atua agora submetida
dade. Ambos promulgam uma verdade absoluta, à um controle invisível, exercido pelo medo de
um pela fé na Igreja Católica, outro pela manuten- ser apanhada em erro e punida pelo sistema, nos
ção da Pátria. Ambos também exortam a todos moldes do que anteviam o “Big Brother” de George
para que o obedeçam cegamente, permitindo que Orwell, e que descrevera Kafka em seu clássico
seus preceitos sirvam de modelo de vida, questio- “O Processo”.
nando quaisquer comportamentos desviantes. Sobretudo, o que percebemos é que a vigi-
Ambos, sobretudo, são oriundos de uma visão de lância da sociedade, até há pouco exercida por
mundo distorcida e fragmentada, típica dos perí- mecanismos claramente identificados, hoje encon-
odos de irracionalidade. tra-se sob os cânones do terror total, que subme-
te todos ao medo de serem descobertas, ainda
que não cometendo nenhum crime. Neste meca-
CONCLUSÃO nismo, o pior dos vigilantes é a própria consciência,
que já não sabe mais onde está o observador e, por
Como vimos, o episódio que já se tornou conta disto, vive sob a tensão da descoberta.
emblemático deste recém nascido século, o 11 de Talvez o “Ato Patriótico” também fosse
setembro de 2001 marcou de forma indelével nossa editado no período moderno. Mas seu apareci-
sociedade. Se haviam dúvidas a respeito dos nos- mento neste momento é emblemático. Assim como
sos rumos, estas tornaram-se ainda maiores após em 1484 a Inquisição impunha-se pelo inconsci-
os ataques às Torres Gêmeas. Demonstramos ente, que encontrava culpas em cada ato, hoje
aqui que a pós-modernidade, no afã de superar devemos ainda mais temer o uso das tecnologias
seu estágio anterior, transmutou-se em coveira da comunicação. A prisão e o degredo podem
das propostas que a modernidade, à duras pe- acontecer por simples consultas a palavras
nas, havia construído. Uma configuração ina- “condenatórias”, como Islamismo ou Alcorão.
dequada, produzida por uma leitura equivoca- A pós-modernidade, buscando eliminar os
da e embalada pela conjuntura econômico-fi- excessos modernos, acabou propiciando a evolu-
nanceira mundial está permitindo um novo pe- ção para um retorno.

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NOTAS neiro: Jorge Zahar Editor, 1993.

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7
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9
Frase encontrada nos muros de Paris à época da revolta ___. Além do Bem e do Mal: prelúdio a uma filosofia do
estudantil de maio de 1968. futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
10
DELEUZE, G. Conversações, p. 223. SANTOS, Boaventura de Souza. Um Discurso sobre as
Ciências. Porto: Edições Afrontamento, 1987. 12ª edição.
11
Governo dos EUA, H.R. 3162, abertura.
12
Folha de São Paulo, Caderno Mundo, domingo, 3 de
julho de 2005, p. 25. “Washington monitora usuário de
biblioteca.
13
SENADO DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA,
Ato H.R. 3162, Seção 102, Whashington, D.C., outubro de
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