RENATA CRISTINA MARTINS

JORNALISMO INVESTIGATIVO:
uma análise das técnicas de reportagem empregadas na série ―Cura Falsificada‖, publicada pelo jornal Estado de Minas

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2010
1

RENATA CRISTINA MARTINS

JORNALISMO INVESTIGATIVO:
uma análise das técnicas de reportagem empregadas na série ―Cura Falsificada‖, publicada pelo jornal Estado de Minas

Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social, do Departamento de Ciências Sociais do Centro

Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH, como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em jornalismo.

Orientador: Murilo Gontijo

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2010
2

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ......................................................................................................................... 05

1 A REPORTAGEM IMPRESSA 1.1 A formação da notícia ........................................................................................................... 06 1.2 Seleção das notícias .............................................................................................................. 08 1.3 Técnicas de reportagem impressa ..........................................................................................10 1.4 Métodos e estratégias de pesquisa .........................................................................................13

2 O JORNALISMO INVESTIGATIVO 2.1 Conceitos do jornalismo investigativo ..................................................................................16 2.2 Técnicas e processos do jornalismo investigativo ............................................................... 21 2.3 O envolvimento do repórter com a fonte ............................................................................. 24 2.4 Jornalismo e ética ................................................................................................................. 26

3 ESTUDO DE CASO - JORNALISMO INVESTIGATIVO 3.1 Estado de Minas: o grande jornal dos mineiros ................................................................... 30 3.2 A aplicação do jornalismo investigativo na série ―Cura Falsificada‖.................................. 31 3.3 Justificativa .......................................................................................................................... 32 3.4 Estudo de caso da série de reportagens “Cura Falsificada” .......................................... 32 3.4.1 Análise Geral .................................................................................................................... 32 3.4.2 Dia 09 de agosto de 2009................................................................................................. 33 3.4.2.1 Aspectos gráficos e quantitativos .................................................................................. 33 3.4.2.2 Análise qualitativa ......................................................................................................... 35 3.4.3 Dia 10 de agosto de 2009 ................................................................................................ 37 3.4.3.1 Aspectos gráficos e quantitativos .................................................................................. 37 3.4.3.2 Análise qualitativa ......................................................................................................... 38 3.4.4 Dia 11 de agosto de 2009 ................................................................................................ 41 3.4.4.1 Aspectos gráficos e quantitativos .................................................................................. 41 3.4.4.2 Análise qualitativa ......................................................................................................... 42 3

3.4.5 Dia 12 de agosto de 2009 ............................................................................................... 43 3.4.5.1 Aspectos gráficos e quantitativos ................................................................................. 43 3.4.5.2 Análise qualitativa ........................................................................................................ 44 3.4.6 Dia 13 de agosto de 2009 ............................................................................................... 46 3.4.6.1 Aspectos gráficos e quantitativos ................................................................................. 46 3.4.6.2 Análise qualitativa ........................................................................................................ 47 3.4.7 Dia 14 de agosto de 2009 ............................................................................................... 48 3.4.7.1 Aspectos gráficos e quantitativos ................................................................................. 48 3.4.7.2 Análise qualitativa ........................................................................................................ 49

CONCLUSÃO ......................................................................................................................... 51

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................. 53

ANEXO 1 ................................................................................................................................. 55

ANEXO 2 ................................................................................................................................. 72

4

INTRODUÇÃO

Esse trabalho tem como objetivo analisar a construção de uma reportagem investigativa em contraste com o referencial teórico utilizado sobre jornalismo investigativo, ética, notícia, reportagem e fontes. O objeto é a série de reportagens denominada ―Cura Falsificada‖, publicada pelo jornal Estado de Minas, entre os dias 09 e 14 de agosto de 2009.

A primeira razão pela qual o tema foi escolhido diz respeito à grande relevância pessoal, social e profissional, já que estudos sobre esse gênero são raros e escassos. A segunda é a crença de que o bom jornalismo ainda vai ser visto com mais frequência nos meios de comunicação brasileiros.

Para obter sucesso, o trabalho foi feito gradativamente. O primeiro capítulo apresenta teorizações sobre a reportagem impressa. Para chegar ao estudo do jornalismo investigativo, é importante primeiro, entender a formação da notícia e os critérios de noticiabilidade. Dando continuidade ao primeiro capítulo, os recursos e métodos que os repórteres utilizam para pesquisa e apuração.

O segundo capítulo discorre sobre o jornalismo investigativo propriamente. Os conceitos, técnicas e processos do gênero. Outra linha de discussão é o envolvimento do repórter com a fonte e a ética dos jornalistas nos meios de comunicação. Além dos meios bibliográficos, uma entrevista com a jornalista Maria Clara Prates ajuda a esclarecer os processos e caminhos percorridos por um repórter investigativo.

O terceiro e último capítulo propõe o estudo empírico da série. Ali é possível entender como o jornalismo investigativo é aplicado durante as reportagens. A análise é feita qualitativa e quantitativamente, com o auxílio, também, dos recursos gráficos do jornal durante a publicação. A construção do estudo é feita com ajuda do material teórico estudado no primeiro e segundo capítulos.

5

Capítulo 1 - A REPORTAGEM IMPRESSA

1.1 A formação da notícia

O jornalismo é uma profissão que envolve complexas vertentes e sugere pesquisas e reflexões diante de seus gêneros. Esse capítulo pretende apontar o que é fato, a natureza dos acontecimentos e a notícia. O estudo destas questões vai nortear, mais tarde, uma discussão sobre a reportagem, para em seguida, chegar ao tema principal, a reportagem investigativa.

A notícia, em primeira instância, é a narração de um fato, observando-se a importância e a legitimidade do acontecimento para a sociedade. Diariamente um número infinito de coisas acontece, nos deparamos a todo o momento com ocorrências cotidianas. Entre tantas possibilidades, de certa forma, os jornalistas apontam temas importantes que são de interesse público e possam virar notícia. Elcias Lustosa1 (1996) entende a notícia como o relato de um fenômeno social, de interesse coletivo, e por isso, uma informação transformada em produto de consumo. Mas, para entender a lógica noticiosa, é necessário um olhar para os fatores que determinam seu valor.

A compreensão dos valores-notícia está presente ao longo de todo o processo de produção jornalística. Segundo Nelson Traquina2 (1999), são os processos de seleção dos acontecimentos e de elaboração da notícia que conduzem à construção da notícia. O acontecimento é que vai gerar ou não a notícia. Quanto menos previsível e provável for o acontecimento, maior a probabilidade dele se tornar pertinente no discurso jornalístico. Adriano Duarte Rodrigues3 (1988, citado por TRAQUINA, 1999) pontua que o acontecimento jornalístico deve ter uma natureza especial para se tornar notícia. E ele toma forma a partir do momento em que são atribuídos alguns critérios classificatórios sob o ponto de vista jornalístico.

Dentro desses critérios, podem-se classificar três registros. O primeiro é do excesso, que corresponde a um funcionamento anormal, ou seja, com marcas excessivas no funcionamento
1 2 3

LUSTOSA, Elcias. O texto da notícia. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1996. TRAQUINA, Nelson. Jornalismo: questões, teorias e ―estórias‖. Lisboa: Veja, 1999. RODRIGUES, Adriano Duarte. O acontecimento. In Jornalismo: questões, teorias e ―estórias‖. Lisboa: Veja, 1999.

6

normal dos corpos individuais, coletivos ou institucionais. O segundo é o da falha, que constitui, basicamente, acidentes, defeitos e fatos imprevisíveis, que podem ganhar notoriedade. Por último, o da inversão da expectativa sobre os fatos, que tem como notícia algo inverso ao normal, como um homem morder o cão. A notícia é, então, o negativo da racionalidade, rompe com o normal e o discurso jornalístico é responsável por regular estes acontecimentos inesperados, dando-lhes visibilidade (TRAQUINA, 1999).

Os registros (excesso, falha e inversão) são referência e definidores dos meta-acontecimentos. Fatos notáveis com visibilidade universal. Estes são regidos por regras do mundo simbólico e da enunciação e têm uma lógica implosiva. Rodrigues afirma que ―[...] os meta-acontecimentos são acidentes que irrompem no seio da ordem regular do funcionamento das coisas, das pessoas, das instituições‖ (RODRIGUES, 1988, citado por TRAQUINA, 1999, p. 30). São acontecimentos discursivos que provocam o surgimento de novos relatos de acontecimentos. E esses relatos devem se tornar públicos a partir de profissionais sérios e com credibilidade. Assim, tentam-se excluir os juízos de valor e opiniões, buscando sempre a objetividade, imparcialidade e verdade.

Um grande ponto de interrogação no discurso jornalístico é, de fato, o mito da objetividade. Francisco José Karam4 (2004) defende que a objetividade é um dos preceitos da notícia jornalística, no entanto, o autor afirma que ela, em si, não existe, e, de certa forma, a subjetividade também não ―[...] as duas estão intimamente relacionadas e uma alimenta a outra‖ (KARAM, 2004, p. 39). Para o estudioso Daniel Cornu5 (1999, citado por KARAM, 2004), é necessário que os jornalistas recuperem a objetividade e excluam das notícias o juízo de valor e opinião. É preciso manter

[...] a objetividade como método de o jornalista recorrer aos
princípios deontológicos constituídos na história da profissão, entre eles, exatidão, descrição correta dos fatos, informações com origem conhecida (e ressalvas feitas à impossibilidade de fazê-lo na divulgação), retificação de erros, confirmação de dados, inclusão das informações essenciais, fidelidade a textos ou documentos (CORNU, 1999, apud KARAM, 2004, p. 41).

4 5

KARAM, Francisco José. A ética jornalística e o interesse público. São Paulo. Summus, 2004. CORNU, Daniel. Jornalismo e verdade: para uma ética de informação. Tradução Armando Pereira Silva. Lisboa: Instituto Piaget, 1994.

7

A objetividade no jornalismo casa com a honestidade e a imparcialidade. É de interesse do jornalista ouvir pessoas bem informadas e esclarecer os fatos, já que ele é o intérprete do público. Para Mario Erbolato6 (1991), a notícia deve ser publicada de forma sintética e com foco no assunto. Sem perder a objetividade, o jornalista procura pessoas que proporcionam esse entendimento, que, em seguida, vai ser passado ao público. A professora Gaye Tuchman7 (1973, citada por TRAQUINA, 1999, p. 79-83) chama atenção aos rituais estratégicos que, segundo ela, os jornalistas usam para mascarar a objetividade. Um exemplo diz respeito às possibilidades conflituais. O repórter usa como subterfúgio a fala de outra pessoa, o uso das aspas e a edição de uma informação de forma inapropriada.

A partir desses argumentos, é questionável até aonde vai a imparcialidade do profissional. Elcias Lustosa (1996) defende que a imparcialidade é um mito e, assim como a impessoalidade, não ocorre efetivamente no jornalismo. Até mesmo o repórter, ao traduzir um fenômeno social, procura o melhor ângulo para descrever a notícia. Os veículos de comunicação são carregados de interesses e pontos de vista ligados à política da empresa. Quanto maior a empresa, menos livre é o direito de expressão, portanto, não há liberdade.

Os jornalistas, entretanto, não podem ser somente observadores passivos, mas ativos diante do processo de construção da notícia. Isso porque, na verdade, o leitor acredita nos profissionais de jornalismo e que não há transgressão nos códigos éticos de conduta. ―Enquanto o acontecimento cria a notícia, a notícia também cria o acontecimento‖ (TRAQUINA, 1999, p. 168). O jornalista transforma um acontecimento em notícia, desde a seleção dos fatos, até a ênfase dada a cada fato.

1.2 Seleção das notícias

Uma das características da notícia é o poder de despertar o interesse humano, afinal, ela é emitida para um grande público. Para um jornalista transformar um fato em notícia, ele reflete
6 7

ERBOLATO, Mario. Técnicas de codificação em jornalismo. São Paulo: Ática, 1991. TUCHMAN, Gaye. A objetividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objetividade dos jornalistas. In Jornalismo: questões, teorias e ―estórias‖. Lisboa: Veja, 1999.

8

um olhar clínico sobre o que é e não é de interesse público e do público. Quanto a uma reportagem, algumas características são fundamentais: a predominância da forma narrativa, a humanização do relato, o texto de natureza impressionista e a objetividade dos fatos narrados (FERRARI e SODRÉ, 19868).

O assunto de uma notícia é selecionado dentro de uma gama de opções e cabe ao jornalista fazer essa seleção, a partir dos critérios de noticiabilidade. Muito material chega à redação. São oriundos de agências de notícias, correspondentes e repórteres do próprio jornal, dossiês e releases. Acontece uma triagem que vai determinar os valores-notícia de cada acontecimento. Isso ocorre de acordo com a valoração e veracidade de cada fato, a credibilidade das fontes e a linha editorial do jornal. O processo de seleção garante que cada fato relevante seja exposto ao público. Mauro Wolf9 (2002) compara essa operação seletiva a um funil, onde vários dados são postos, para que, em seguida, um número restrito seja filtrado. De início, a lista de notícias é longa. Algumas são excluídas por falta de informação ou incerteza da veracidade, outras se revelam inadequadas, e muitas são ―de gaveta‖, frias, podem ser dadas a qualquer momento, justamente por não se vincularem a uma data especial. O importante é que as prioridades sejam publicadas. Há uma lógica que rege o funcionamento e os efeitos da informação de massa (WOLF, 2002, p. 243).

Em primeira instância, a lógica da produção das notícias começa com o gatekeeper. Ele atua como um porteiro de informações, é o responsável por filtrar o que é mais importante. As decisões do gatekeeper devem ser tomadas de forma a separar informações de sua preferência pessoal e aproximá-las dos critérios organizacionais e profissionais. Os valores e os ideais da empresa exercem uma grande importância nessas escolhas. Há critérios importantes de noticiabilidade que ajudam o repórter na seleção das notícias. Erbolato (ERBOLATO, 1991, p. 61-65) apresenta alguns destes registros.

8

9

SODRÉ, Muniz ; FERRARI, Maria Helena. Técnica de reportagem – notas sobre a narrativa jornalística. São Paulo: Summus, 1986 WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. Lisboa: Presença, 2002

9

Dentre os citados por ele, alguns apresentam características importantes para o entendimento desse trabalho. O primeiro é a proximidade, que consiste em divulgar os fatos que são ligados ao leitor, as notícias locais. O impacto é o segundo elemento e diz respeito a um ―abalo‖ causado por acontecimentos chocantes ou impressionantes. O último registro é o interesse pessoal e importância. São assuntos de interesse público e do público e que nunca deixam de ser dados por jornal algum.

Após a seleção de informações e fatos mais importantes, de acordo com os critérios de noticiabilidade já citados, cabe ao repórter, a partir de um fato, reportá-lo da melhor maneira possível. Ele usa artifícios para chamar a atenção e tornar a reportagem tão clara quanto possível. Uma boa abertura, o realce dos sentidos, da imaginação e o jogo de palavras. Ainda assim, a simplicidade pode ser a melhor maneira de atingir todos os leitores.

1.3 Técnicas de reportagem impressa

O jornalista, para organizar os acontecimentos, pretende que seu discurso responda a seis questões essenciais: o quê, quando, onde, porquê, como e quem, a fórmula tradicional do lead. Esses elementos são importantes para o entendimento do leitor e para o interesse geral sobre o assunto. Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari10 (1977) pontuam que há diferenças entre notícia e reportagem, que vão além da extensão de abrangência, do lead. Para o discurso jornalístico, o objetivo principal é passar a informação para o leitor, isso diz respeito, tanto à notícia como à reportagem. A notícia tem a função essencial de tornar um fato público por meio da informação, é o fato corrente do dia colocado ao alcance do público. O assunto está diretamente ligado ao interesse que ele possa despertar no público. Nilson Lage11 (1985, citado por COIMBRA, 1993) afirma que a notícia e a reportagem sugerem manifestações diferentes da realidade. A notícia cobre um fato específico ou uma série de fatos e a reportagem faz um levantamento de um assunto. Lage (1985) detalha ainda que a reportagem, por absorver a abertura de espaços geográficos e as possibilidades de tempo objetivo e
10

11

SODRÉ, Muniz ; FERRARI, Maria Helena. Técnica de redação – o texto nos meios de informação. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977 LAGE, Nilson. Estrutura da Notícia. São Paulo: Ática, 1985

10

subjetivo, pode se atrapalhar ao estabelecer uma ordenação cronológica. Cremilda Medina12 (1986, citada por COIMBRA, 1993) defende que a reportagem pretende reunir muitas informações, profundidade e necessidade de tomar decisões quanto à estrutura da matéria.

Ferrari e Sodré (1986) apresentam características que tornam importante a construção da reportagem. A força, que leva o leitor ao final da narrativa através dos efeitos emocionais ou racionais. A clareza, que visa à compreensão imediata, à objetividade dos fatos. A condensação, que diz respeito a compactuação, a exclusão de elementos supérfluos que acabam com a intensidade da história. A tensão, ligada ao clímax e ao direcionamento do leitor aos pontos mais interessantes e importantes da narrativa. A novidade, que possui duas vertentes: uma história inédita, que nenhum outro veículo ainda publicou, ou a observação diferenciada do repórter, que vê a história de um ângulo distinto, imprevisível. ―Tensão, condensação e novidade são fundamentais para instaurar a força. Quanto à clareza, é necessária em todo o texto, ainda que fraco‖ (FERRARI e SODRÉ, 1986, p. 76).

A prática jornalística comporta três modelos fundamentais de reportagem, de acordo com Ferrari e Sodré (1986). A reportagem de fatos, que pode ser entendida como um relato objetivo do acontecimento e os fatos são narrados sucessivamente; a reportagem de ação, que começa pelo detalhe mais atraente; e a reportagem documental, que é também objetiva, porém, usa citações para esclarecimento do assunto. Há ainda as narrativas literárias e as não literárias. José Luiz Fiorin13 (1989, citado por COIMBRA, 1993) apresenta duas características que diferenciam esta categorização. A primeira é o caráter ficcional e não ficcional dos textos. A segunda é a função do texto, o jornalístico visa a informar, o literário pode ter função estética.

Uma das formas de narrativa literária, apresentadas por Ferrari e Sodré (1986), é a de livroreportagem. Esse modo é usado principalmente no jornalismo investigativo, quando a história tem um foco no interesse público. Os autores explicam que ―[...] o livro-reportagem pode ser

12 13

MEDINA, Cremilda. Entrevista – o diálogo possível. São Paulo: Ática, 1986 FIORIN, José Luiz. Elementos de análise do discurso. São Paulo: Contexto/Edusp, 1989

11

simples compilação de textos já publicados em jornal ou o trabalho feito para o livro, mas concebido e realizado em termos jornalísticos‖ (FERRARI e SODRÉ, 1986, p. 94). O jornalista Percival de Souza14 (citado por SEQUEIRA, 2005, p. 53) afirma que o livro reportagem não é propriamente a transformação da matéria em livro. Ele próprio constrói um novo texto, muito mais aprofundado, com informações que não entraram na matéria, até mesmo incluindo documentos que não cabem no jornal. O jornalista Edvaldo Pereira Lima 15 (1995 citado por SEQUEIRA, 2005, p. 54) concorda. ―O livro-reportagem não republica a matéria que o jornal editou, mas traz ao leitor novas informações e nova linguagem‖. Além disso, como lembram Lopes e Proença (2003), ele tem a vantagem de espaço e poderes ilimitados ao jornalista. Ele pode escrever e ordenar a reportagem como quiser.

A estrutura da reportagem narrativa não literária é diferente. O narrador pode ser testemunha, protagonista, onisciente ou dramático, ―[...] sua característica fundamental é de conter os fatos organizados dentro de uma relação de anterioridade ou de posterioridade, mostrando mudanças progressivas de estado nas pessoas ou nas coisas‖ (COIMBRA, 1993, p. 4416).

Coimbra (1993) apresenta também a reportagem narrativo-dissertativa e dissertativo-narrativa. Segundo o autor, é possível que em uma reportagem estejam inseridas características narrativas e dissertativas ao mesmo tempo. ―Um texto dissertativo, seguido de afirmações generalizantes, pode seguir de comprovação e fundamentação, através das quais se explicita um raciocínio, e outro, o narrativo, que recria a realidade como se os fatos estivessem ocorrendo ante os olhos do leitor‖ (COIMBRA, 1993, p. 82). Ainda assim, tanto o texto narrativo como o dissertativo podem incorporar trechos descritivos e vice-versa. Ferrari e Sodré (1993) concordam com o autor. ―Uma reportagem totalmente descritiva corre o risco de tornar-se discursiva ou extremamente fria‖ (FERRARI e SODRÉ, citados por COIMBRA, 1993, p. 90).

14 15

16

In: SEQUEIRA, Cleofe. Jornalismo investigativo – o fato por trás da notícia. São Paulo: Summus, 2005 LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas – o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. Campinas: Unicamp, 2005 COIMBRA, Oswaldo. O texto da reportagem no jornalismo impresso. São Paulo: Ática,1993

12

Em um texto há elementos de comparação e detalhamento que dão vida à história. A transcrição detalhada, metáforas e comparações ilustram o texto, formando uma imagem na mente do leitor. A metáfora, por exemplo, cria uma possibilidade diferente no texto. ―É largamente utilizada na confecção de textos para a imprensa escrita, com função precípua de evitar a aridez em certos fragmentos descritivos‖ (COIMBRA, 1993, p. 96). A reportagem pode expor, ainda, descrição e caracterização de uma pessoa ―[...] pode corresponder a um simples fragmento, pode preencher um bloco e pode caracterizar toda a reportagem, mesmo que nela existam trechos narrativos e dissertativos‖ (COIMBRA, 1993, p. 103). Independente do gênero e das formas de narração, o importante é que o repórter possa traduzir a mensagem ao leitor, baseado nas informações, e confrontar com as diferentes perspectivas, selecionando fatos e versões para que o próprio leitor se oriente diante da sua realidade. Afinal, o repórter está onde seu público não pode estar. Ferrari e Sodré (1986) ainda atentam para a inovação e no diálogo constante com o leitor, tudo para que a matéria desperte algum tipo de emoção.

1.4 Métodos e estratégias de pesquisa

Para fazer uma grande reportagem há métodos e estratégias de pesquisa e redação que acompanham o repórter durante a produção da notícia. São elas: a procura pela fonte que vai ajudá-lo na sua busca pela verdade, as estratégias de entrevista, para descobrir fatos imprescindíveis, e até o fator tempo, que pode influenciar a cobertura jornalística. É importante durante o planejamento da reportagem que o jornalista tenha a documentação necessária com provas referentes ao objeto pesquisado e possíveis fontes que possam ajudá-lo no decorrer do processo. De acordo com Ricardo Kotscho17 (citado por LOPES e PROENÇA, 2003), a credibilidade do produto final vai depender da precisão e exatidão do que foi descrito na reportagem e, ainda, da exclusão de opiniões e juízos de valor por parte do repórter.

17

In: LOPES, Dirceu Fernandes; PROENÇA, José Luiz. Jornalismo Investigativo. São Paulo: Publisher Brasil, 2003.

13

Para essa apuração com a fonte, a entrevista é procedimento clássico, segundo Lage (2006). No ponto de vista dos objetivos, a entrevista pode ser ritual, temática, testemunhal e em profundidade. Em circunstância ela pode ser ocasional, de confronto, coletiva, dialogal e exclusiva. Sequeira (2005) pondera, ainda, que um trabalho completo de documentação, antes do início da apuração, permite que o repórter avance com segurança no mundo dos informantes.

Cada caso requer uma metodologia específica e técnicas de apuração diferentes, para isso, é necessário ter planos e estratégias traçados para que a execução seja positiva. Tudo deve ser planejado com antecedência para verificar a real possibilidade de realizar o trabalho. É imprescindível que o jornalista vá informado ao entrevistar uma fonte, segundo Valente18 (citado por SEQUEIRA, 2005), já que o repórter corre o risco de ser despistado pelo entrevistado.

A entrevista é uma técnica de interação social que busca a informação. Ela tem o objetivo de recolher fatos importantes para o desenvolvimento da reportagem. O pesquisador A. Garret19 (citado por MEDINA, 2000) amplia o entendimento dessa prática humana. Ele afirma que todos somos entrevistadores ou entrevistados. Ele identifica que o entrevistar é, acima de tudo, a arte de ouvir, perguntar e conversar.

São vários pontos a serem considerados durante uma entrevista. Ficar atento ao diálogo e à palavra, para que não haja dissimulação. A sensibilidade, que deve conduzir o entrevistador à fluência do diálogo. E o cuidado com opiniões e racionalizações do entrevistado. Ele pode ficar inibido em falar a verdade sobre assuntos que são tabus e falsear suas respostas. Deve haver distância e proximidade, ao mesmo tempo.

Além disso, um fato que sempre é discutido na relação entre repórter e fonte é a modalidade chamada de off, quando a fonte pede para não ser identificada. Para isso há um ―contrato‖ de cumplicidade, jornalista e fonte devem confiar um no outro. Para garantir segurança, os jornalistas procuram sempre informar os nomes das suas fontes.

18 19

In: SEQUEIRA, Cleofe. Jornalismo investigativo – o fato por trás da notícia. São Paulo: Summus, 2005 MEDINA, Cremilda Araújo. Entrevista – O diálogo possível. São Paulo: Ática, 2000

14

O ponto de partida da entrevista é a escolha da fonte de informação. Essa seleção já é predeterminada pela pesquisa de campo e de acordo com a pauta a ser seguida. Muitas vezes os jornalistas já conhecem nomes que possam ajudá-los com a informação desejada. O repórter reconhece que ele não detém a informação, mas deve buscá-la. Há uma pesquisa dos entrevistados possíveis também a partir do pauteiro.

Munidos de toda informação possível fornecidas pela fonte, é hora do repórter tomar decisões referentes à reportagem. ―O depoimento coletado pode ser um simples aval de uma notícia curta‖ (MEDINA, 2000, p. 48). Pode se transformar, também, em entrevista, propriamente. Uma conversação entre o jornalista e o entrevistado. Se for o caso de várias fontes, ele vai montar um ―mural‖ com os vários ângulos do acontecimento. Se as informações forem de denúncia, provavelmente conduzirá ao jornalismo investigativo. Nesse caso, o repórter vai procurar documentações que comprovem o que a fonte lhe adiantou. A humanização pode vir pelo perfil, no qual é traçada a personalidade, os comportamentos e valores do entrevistado. O destino das informações vai depender do jornalista (MEDINA, 2000, p. 50-52).

O jornalista, com as informações em mãos, deve se preocupar, ainda, com o fator tempo, o dead line. Isso pode influenciar uma cobertura jornalística e o valor de uma reportagem. Em primeiro lugar, todos devem estar atentos ao fechamento do jornal. Dependendo do horário que a informação chega em mãos, não dá mais tempo de colocá-la naquela edição, se for um jornal diário, por exemplo. Por essa dificuldade, quando passada para o dia seguinte, a matéria pode não ser mais novidade entre os leitores. A empresa jornalística é como uma máquina do tempo. ―Os próprios títulos dos jornais ou de programas refletem essa ligação íntima com o tempo: o Diário, o Dia, o Semanário, 24 horas, Sábado, e, claro, o Tempo‖ (TRAQUINA, 1999, p. 174). Talvez seja esse o sabor do jornalismo diário. O próprio conceito de atualidade que constitui o coração e a alma do jornalismo. A própria atualidade é um fator de noticiabilidade.

15

Capítulo 2 - O JORNALISMO INVESTIGATIVO

2.1 Conceitos do jornalismo investigativo

As reportagens denominadas investigativas têm como princípio a exposição completa de fatos encobertos ou de difícil acesso. Normalmente elas são de interesse público, o que pressupõe envolvimento e dedicação de caráter profundo do repórter, inclusive antes da reportagem ser publicada. Por isso ela vai além da atividade na redação e pretende uma ação maior e um mergulho intenso, nos fatos e nos seus reflexos, com o objetivo de manter o leitor ciente de todo o acontecimento. Por algumas razões, que serão expressas posteriormente, o jornalismo investigativo é ainda pouco presente nos meios de comunicação.

Com a necessidade de buscar uma realidade completa e a verdade por trás dos fatos, o jornalista investigativo começou a encontrar algum espaço após a Segunda Guerra Mundial. Dirceu Lopes (2003) prega que a procura pela verdade sempre foi o papel de qualquer jornalista, mas o investigativo tem o dever de transmitir ao público questões que dão margem a dúvida, e que por algum motivo, são escondidas da sociedade. Por isso, o repórter deve ir o mais fundo possível para esclarecer esses fatos camuflados. Deve-se investigar, buscar informações precisas, não ficar preso a notas oficiais e releases, indo além da função de receptor e transmissor de notícia.

Há teóricos americanos que definem o jornalismo investigativo como o guardião da sociedade, aquele jornalismo que visa a evidenciar as misérias presentes ou passadas de um corpo social, num esforço para contar os fatos como eles são, foram, ou deveriam ter sido (SEQUEIRA, 2005, p. 24). Ele age como um prestador de serviços à sociedade, justamente por reconstruir acontecimentos importantes, expor injustiças, e, principalmente, mostrar os meandros da corrupção no setor público.

Karam (2004) concorda com a exposição de Sequeira sobre a extrema relevância dessa forma de fazer jornalismo para o público. A atividade jornalística permite o conhecimento e a informação de acordo com critérios como relevância social e interesse público. A construção dos fatos,

16

desde culturais a políticos, depende de um longo caminho a ser percorrido pelo repórter. É um processo lento, de difícil produção, caro e que demanda muito trabalho e apuração.

Se muitos falam tanto do jornalismo investigativo, alguns teóricos e jornalistas questionam o que seria então o jornalismo convencional. Tudo não deve ser investigado e apurado antes de ser veiculado na imprensa? Sobre isso José Arbex Jr20 (citado por LOPES e PROENÇA, 2003) afirma que não se deve separar o gênero. Toda reportagem é investigada e apurada. O autor chama esse gênero, a que se dá o nome de investigativo, de ―o bom jornalismo‖. Márcio de Souza Castilho21 (2002) pontua que essa identidade investigativa faz parte do ―verdadeiro jornalismo‖, que foge da superficialidade e dados oficiais. A repórter Maria Clara Prates22 defende que quem diferencia os dois gêneros, convencional e investigativo, é o repórter. ―Quanto mais curioso, ‗fuçador‘ e inquieto ele for, mais aprofundado será seu trabalho. Tem que gostar, ter paciência e não se satisfazer com a primeira informação. Às vezes tem uma pauta só para informar, mas tem casos em que você fica ―encucado‖, quanto maior a curiosidade do repórter, mais investigativo será o trabalho dele. É como quando você começa a cavar, começa pela superfície e vai aprofundando‖, define. O jornalista Rubens Valente23 (citado por SEQUEIRA, 2005) avalia o jornalismo investigativo como o mais trabalhoso, levando o leitor a se perguntar como o repórter descobriu isso. Já o jornalista colombiano Geraldo Reys24 (citado por SEQUEIRA, 2005, p. 67) afirma que o repórter investigativo é um ―[...] especialista em montagem de um quebra-cabeça, no qual as peças estão dispersas e alguém tenta mantê-las escondidas‖. Para Lage (2006), o jornalismo investigativo é uma forma extrema de reportagem. Principalmente nesse gênero, a dedicação de tempo e esforço para o levantamento de um tema, tanto com pesquisa documental como com apuração com as fontes, são inevitáveis.

20

In: LOPES, Dirceu Fernandes; PROENÇA, José Luiz. Jornalismo Investigativo. São Paulo: Publisher Brasil, 2003. 21 CASTILHO, Márcio Souza. O jornalismo na distensão política do regime militar. In www.bocc.ubi.pt 22 Ver anexo 2 23 In: SEQUEIRA, Cleofe. Jornalismo investigativo – o fato por trás da notícia. São Paulo: Summus, 2005 24 REYS, Geraldo. Fronteras, obstáculos, pistas, fuentes...interstícios del periodismo de investigación.

17

Como visto, alguns teóricos concordam, outros não com a classificação ―investigativa‖. O jornalista Percival de Souza25 (citado por LOPES e PROENÇA, 2003) observa que, além de existir o jornalismo investigativo, a fórmula do gênero não é complicada. Tem que haver sorte, paciência e persistência. Além disso, a sensibilidade para ver algo que poderia passar despercebido. ―Investigação é usar a cabeça para descobrir. Você precisa saber conversar. Descobrir as pessoas e os lugares certos‖ (SOUZA, citado por LOPES e PROENÇA, 2003, p. 44).

Os conceitos do jornalismo investigativo, no entanto, podem alcançar três linhas, como defendem Lopes e Proença (2003). O jornalismo investigativo é produto da iniciativa pessoal, de reportagens especiais e assuntos de interesse público que pessoas e instituições querem esconder do público. E para ser considerado investigativo, ele deve cumprir três requisitos: a investigação deve ser resultado do trabalho do jornalista, não de polícia ou oriundo de dossiês e releases; a investigação deve ser de interesse da grande população, não apenas alguns setores; e que os dados estejam ocultos do público.

O jornalismo investigativo teve origem após a Segunda Guerra Mundial, nos Estados Unidos. Até a década de 70 esse gênero recebeu pouca atenção do leitor. Somente em 1972, mais precisamente no dia 18 de junho, um fato político foi destaque na mídia e o jornalismo investigativo ganhou visibilidade. ―A data marca o início do Caso Watergate e a revalorização do estilo de informar‖ (LOPES e PROENÇA, 2003, p. 13). O Caso Watergate foi investigado por dois repórteres do jornal americano Washington Post, que comprovaram o envolvimento do então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, com cinco técnicos que instalaram grampos telefônicos no prédio Watergate, para ajudar na reeleição do presidente. Após o escândalo, Nixon renunciou ao cargo.

Alguns jornalistas já percebem o jornalismo investigativo com mais força na mídia brasileira. Hoje é possível observar o gênero sendo praticado no Brasil, mesmo que timidamente. O repórter Ricardo Kotscho abriu caminho para as reportagens desse porte. A série de reportagens

25

In: LOPES, Dirceu Fernandes; PROENÇA, José Luiz. Jornalismo Investigativo. São Paulo: Publisher Brasil, 2003.

18

denominada ―Assim vivem nossos superfuncionários‖ foi publicada no jornal Estado de São Paulo e garantiu um Prêmio Esso, em 1976, ao jornalista.

O jornalismo investigativo pode não ser tão explorado no Brasil porque grandes jornais optaram pela linha empresarial, informando sem se comprometer, e ainda, por falta de dinheiro e tempo (DINES, citado por SEQUEIRA 2005, p. 2326). Rubens Valente27 (citado por SEQUEIRA, 2005) afirma, ainda, que, além do dinheiro, há o problema do editor medroso, que não quer problemas ou dor de cabeça. Um dos motivos apontados pelo jornalista Antonio Carlos Fon28 (citado por SEQUEIRA, 2005) para o pequeno número de reportagens investigativas no Brasil é o fato dos jornais não defenderem os interesses da sociedade, e sim, os da própria empresa, privilegiando as matérias curtas com um número reduzido de informação, quando deveria estar acontecendo exatamente o contrário. O jornalista, então, não é inteiramente livre no exercício de sua profissão. A produção de uma notícia ou reportagem é diretamente ligada aos interesses da organização onde ele trabalha.

A política editorial da empresa jornalística conduz o repórter às rotinas produtivas. Dirceu (2003) aponta que o jornalista deve fazer seu trabalho pensando em formas bem sucedidas de criar um interesse maior da sociedade em prol de uma visão mais crítica das coisas e uma opinião consistente, que vai contribuir para consolidar seu conhecimento. Porém, na prática, o jornalista ainda se mantém preso ao que os media apontam como notícia e, na maioria das vezes, grandes reportagens jornalísticas ficam fora, por demandarem dinheiro e tempo, coisas que os veículos não se interessam em gastar.

Com a ausência de liberdade, ou até mesmo por imposição do mercado e por comodismo, grande parte dos jornalistas faz questão de alimentar o efêmero – que nas redações se traduz em privilegiar textos enxutos, fragmentados, em blocos previamente estabelecidos, para facilitar a

26 27 28

In: SEQUEIRA, Cleofe. Jornalismo investigativo – o fato por trás da notícia. São Paulo: Summus, 2005 Idem In: SEQUEIRA, Cleofe. Jornalismo investigativo – o fato por trás da notícia. São Paulo: Summus, 2005

19

diagramação das páginas e o processo de fechamento da edição. A estudiosa Rejane Santos 29 aponta que, normalmente, o como e o por quê, elementos do lead, são deixados de lado, uma vez que a apuração demanda mais tempo e consulta a documentos e fontes. Devido a esses fatores, o repórter produz, diariamente, muitas matérias, mas, sem profundidade, interpretação e contextualização.

Mesmo que o Brasil não tenha tradição em relação ao jornalismo investigativo, o teórico Carlos Silva30 (1991) observa que o fazer jornalístico no Brasil é diferente dos Estados Unidos. A cultura da impunidade é um fator determinante para a diferenciação dos padrões culturais brasileiros. ―O mau funcionamento das instituições públicas faz com que eventuais trabalhos de investigação jornalística no Brasil acabem caindo no vazio, não resultando em nada, ao contrário do ocorre nos EUA‖ (SILVA, 1991, p. 100).

Ainda assim, diante de tantas barreiras, os objetivos do jornalismo investigativo não podem ser deixados de lado. O jornalismo convencional e o investigativo cumprem objetivos distintos; enquanto o tradicional tem como característica principal a transmissão da notícia, o investigativo é mais aprofundado. Pepe Rodríguez31 argumenta que o primeiro usa de técnicas habituais da profissão, elaborando uma informação que precede de uma fonte atribuída a um fato. Ele aponta a realidade a um curto prazo. O segundo usa de outras técnicas específicas para ajudá-lo. Ele é um pouco investigador, polícia e historiador, e carrega uma carga de responsabilidade maior. Elabora a informação a partir de um número indeterminado de fontes e análise profunda de dados, possibilitando tornar público algo que estaria oculto.

Lopes e Proença (2003) avaliam as ferramentas de trabalho utilizadas pelos jornalistas investigadores como comuns a outros tipos de jornalismo. ―A diferença está na intenção política; publicar o que vai mal e corrigir os abusos do poder‖ (LOPES e PROENÇA, 2003, p. 15). O jornalismo investigativo trabalha com informação que alguém pretende que permaneça
29 30

SANTOS, Rejane. A tentação da superficialidade. In www.observatoriodaimprensa.com.br SILVA, Carlos Eduardo Lins da. O adiantado da hora: a influência americana sobre o jornalismo brasileiro. São Paulo: Summus, 1991. 31 RODRÍGUEZ, Pepe. Periodismo de investigación: técnicas y estrategias. Paidós Papeles de Comunicación: Barcelona, 1994.

20

oculta. Sua missão está onde se escondem dados importantes. ―Atrás das notícias simples de cada dia é possível que haja acontecimento importante que mereça ser investigado‖ (LOPES e PROENÇA, 2003, p. 14).

Os autores frisam, ainda, que cabe ao jornalismo investigativo, também,

[...] promover reformas; expor injustiças; desmascarar fraudes; dar a conhecer o que os poderes públicos querem ocultar; detectar quais as instituições cumprem os seus deveres; demonstrar como funcionam os organismos públicos; dar informações aos leitores sobre políticos e suas intenções e reconstruir acontecimentos importantes (LOPES e PROENÇA, 2003, p. 15).

O importante é mostrar como funcionam os mecanismos burocráticos e as mazelas do sistema, já que uma grande característica do jornalismo investigativo é a exposição de fatos que estão ocultos.

2.2 Técnicas e processos do jornalismo investigativo

O jornalismo investigativo tem objetivos diferentes do jornalismo convencional. O jornalista investigativo, provocado por questionamentos, busca a essência dos acontecimentos e procura entender, passando esse entendimento ao leitor, uma situação que prejudica, de alguma forma, a coletividade. A imprensa, nesse caso, tem um papel social relevante e fundamental. Na hora da apuração, o jornalista usa métodos e técnicas aprofundados para fazer transparecer os fatos que estão escondidos dos cidadãos.

Pepe Rodríguez (1994) aponta algumas características pessoais e estruturais que podem auxiliar um repórter no andamento de seu trabalho investigativo. Algumas qualidades são desejáveis, como bons dotes de observação, memória visual, capacidade de previsão e planejamento, improvisação, conhecimentos gerais amplos, discrição e capacidade de assumir riscos (RODRÍGUEZ, 1994, p. 17). O tempo e a disponibilidade também são essenciais.

21

Para chegar a ponto de investigar um fato e organizar o seu trabalho, o jornalista já está ciente de que algo está errado. ―Ele precisa estar atento a toda informação que não se encaixe‖ (LOPES e PROENÇA 2003, p. 16). Isso será útil na hora de relacionar os acontecimentos e empregar seus próprios métodos de investigação. É inerente a esse profissional a observação direta dos acontecimentos e um constante questionamento sobre o porquê das coisas. A busca pela clareza pode levar o repórter a usar técnicas consideradas ilícitas, como a infiltração, para obter respostas às suas perguntas. Ele se infiltra em lugar onde acha que pode estar o ponto alto de sua investigação, ou pelo menos, um direcionamento. Lopes e Proença (2003) declaram que a infiltração possibilita a maior aproximação física dos acontecimentos, assim, o jornalista pode comprovar os fatos. Outra possibilidade é a de usar câmeras escondidas. Maria Clara32 frisa que as pessoas envolvidas em escândalo não admitem o ilícito, portanto, esse método é válido.

No início da investigação, o repórter procura reunir todos os dados, até mesmo, os que possam ser insignificantes, que surgem durante o processo de busca de informações sobre o tema em pauta. Combinar observação com pesquisa e estudo de arquivos públicos são técnicas úteis para a investigação. ―É fundamental o conhecimento profundo dos mecanismos burocráticos onde os arquivos se encontram e que o jornalista tenha tempo de encontrá-los‖ (LOPES e PROENÇA, 2003, p. 17). Rodríguez (1994) atenta ainda para o cuidado, a responsabilidade, honestidade e a qualificação profissional que deve acompanhar o repórter em todo o processo investigativo.

Os autores Lopes e Proença (2003) apontam como regra fundamental para a condução de um trabalho investigativo a comprovação de endereços e nomes corretos das pessoas ou organismos das quais se fala. Ele adverte, também, que quando usar recortes de jornais ou revistas, é imprescindível que estejam bem selecionados, classificados e completos. Entender bem o funcionamento da administração pública e das grandes empresas é um outro ponto importante para o trabalho jornalístico. E, por fim, concentrar-se em seguir e publicar notícias relevantes, interpretá-las e servir-se delas para atuar como defensores do interesse público.

32

Ver anexo 2

22

O jornalista investigativo, frente a uma grande questão, pode ter sua jornada de trabalho totalmente transformada. Possivelmente, toda investigação durará meses. ―Un investigador tiene que ser enamorado de su trabajo, ya que necessariamente se va a pasar veinticuatro horas por dia ejerciendo su profesion33‖ (RODRÍGUEZ, 1994, p. 25). O trabalho é intenso. São dezenas de fontes para serem ouvidas e arquivos e documentos selecionados para pesquisa. A série de reportagens ―Cura Falsificada‖, por exemplo, demandou um esforço exaustivo à jornalista Maria Clara Prates34. ―Foi uma apuração muito longa, mais de seis, sete meses entre a informação ter chegado e a matéria ter sido publicada‖. Ainda com um duro trabalho e um árduo caminho a ser percorrido, é inevitável que o repórter crie inimizades com pessoas envolvidas e citadas em sua reportagem.

Um plano metodológico deve ser desenvolvido para a máxima eficácia da reportagem. O repórter vai estudar a viabilidade e as possibilidades de êxito e fracasso da reportagem final. Cada investigação necessita de metodologia e técnica diferentes. ―É preciso perguntar-se se a reportagem é viável e se dispomos de tempo, dinheiro e técnicas adequadas para realizá-la‖ (LOPES e PROENÇA, 2003, p. 18).

A fase de planejamento da investigação demanda, também, tempo e análise dos métodos de trabalho e programação. ―Trata-se de definir limites históricos, legais, técnicos e éticos que marcam o tema da investigação‖ (LOPES e PROENÇA, 2003, p. 19 35). Antes de iniciar o trabalho deve-se definir o campo de atuação, buscar, analisar e estruturar possíveis fontes, buscar dados e confirmar cada um dos elementos da investigação (RODRÍGUEZ, 1994, p. 42). É essencial que o jornalista não se esqueça de verificar todos os dados obtidos antes de publicar uma matéria.

Para um relato real e de credibilidade o jornalista se sustenta em dois pilares, o da exatidão e da precisão. De acordo com Lopes e Proença (2003), essa credibilidade corre o risco de ser lesada se o jornalista expõe opiniões e juízos de valor durante a execução da reportagem.

33

34 35

Um investigador tem que ser apaixonado por seu trabalho, já que vai ser necessário passar vinte e quatro horas por dia exercendo sua profissão (tradução livre). Ver anexo 2 Idem

23

2.3 O envolvimento do repórter com a fonte

A fonte jornalística é um dos canais informativos dos repórteres. Ela é essencial a todo o trabalho jornalístico durante a construção da notícia. As fontes podem determinar a qualidade da informação produzida pelo repórter, e isso depende muito da sua credibilidade.

Independente de qualquer produção jornalística, é fato que o repórter mantém uma relação bem próxima com as fontes. Elas são imprescindíveis e agregam grande importância ao trabalho do jornalista. É como um casamento de conveniência, como garante Manuel Pinto (2000)36. Segundo ele, os jornalistas e as fontes mantêm uma relação de proximidade e, até mesmo, intimidade. O relacionamento entre repórter e fonte é sagrado e protegido pela Constituição Federal 37. Ela prevê condições de trabalho que permitam o acesso às fontes e livre investigação para a busca pela verdade. O repórter confere credibilidade à fonte, principalmente, de acordo com a posição hierárquica de importância dela autoritariamente. Por outro lado, isso depende de cada caso. Em fatos de interesse público, como o caso do jornalismo investigativo, qualquer pessoa pode apresentar um fato revelador. As fontes alternativas também podem ser de credibilidade. E um delegado, que seria uma fonte oficial da polícia, nem sempre mantém uma verdade absoluta.

As fontes podem ser caracterizadas como primárias ou secundárias. As primárias são essenciais a uma reportagem e fornecem fatos, versões e números. As secundárias são consultadas para contribuição de pautas e informações genéricas. Nilson Lage (2006) as caracteriza, ainda, como oficiais, oficiosas ou independentes.
―Fontes oficiais são mantidas pelo Estado; por instituições que preservam algum poder de Estado, como juntas comerciais e os cartórios de ofício; e por empresas e organizações como sindicatos, associações, fundações etc. Fontes oficiosas são aquelas que, reconhecidamente ligadas a uma entidade ou indivíduo, não estão, porém, autorizadas a falar em nome dele ou dela. Fontes independentes são aquelas desvinculadas de
36

37

PINTO, Manuel. Fontes jornalísticas – contributos para um mapeamento de campo. In Comunicação e Sociedade 2, Cadernos do Noroeste, Série Comunicação, vol. 14, 2000. Artigo 5º, inciso XIV, da Constituição Federal de 1988.

24

uma relação de poder ou interesse específico em cada caso‖ (LAGE, 2006, p. 63).

Elas colaboram em todo o trabalho e podem apontar os caminhos a serem seguidos. Mas é importante lembrar que as fontes não são totalmente confiáveis. Isso se deve, principalmente, aos interesses que possam estar envolvidos no repasse de uma informação. Cabe ao repórter fazer a seleção do material que será divulgado e não ser, apenas, um mero observador. Manuel Pinto observa que há o risco do jornalista, na permanente negociação com a fonte, se tornar um simples comerciante de informação.

Cuidado nunca é demais, afinal, as fontes podem mentir para conseguir o que querem. Sempre é possível que tenha algum tipo de interesse por trás de uma informação fornecida pela fonte. Por isso, toda informação deve ser checada. Em casos de interesse público, o cuidado deve ser ainda maior. O jornalista Fernando Rodrigues38 explica que a relação com a fonte deve ser muito profissional. Deve-se conferir à exaustão a confiabilidade das fontes e das informações. ―É importante que a fonte não se sinta enganada, sobretudo, depois da publicação da reportagem. Deve-se dizer sempre a verdade‖ (RODRIGUES, apud, LOPES e PROENÇA, 2003).

Cada informação noticiada pode acarretar problemas para o veículo de comunicação. Pensando nisso, os jornalistas ficam atentos à postura ética e à exatidão dos fatos narrados, já que ele é o responsável pela publicação. Tudo deve ser questionado e verificado pelo autor da notícia. Não há informação sem a procura por fontes, porém, elas não produzem uma verdade absoluta. O repórter tem que conferir a veracidade da informação cedida pela fonte.

Um grande problema hoje é o jornalista se prender às fontes oficiais e não apurar profundamente as informações que recebe. A investigação não é feita e o fato é contado apenas por essas fontes oficiais, que, geralmente, pretendem ou esperam que aconteça algo após seu depoimento. Dessa maneira o consenso passa a ser produzido pelas elites e as grandes

38

In: LOPES, Dirceu Fernandes; PROENÇA, José Luiz. Jornalismo Investigativo. São Paulo: Publisher Brasil, 2003.

25

instituições que estão vinculadas ao poder econômico e político (CHOMSKY, citado por KARAM, 200439).

A fonte em off pode ser fundamental, porém, o cuidado deve ser muito maior com esse tipo de informante. ―Nesse caso, é fundamental que duas normas sejam estabelecidas: a razão do anonimato deve ser explicada na matéria e a informação oferecida deve ser checada com, no mínimo, outra fonte‖ (LOPES e PROENÇA, 2003, p. 22). Se as declarações foram dadas em off, o repórter tem a obrigação de preservar a identidade da fonte, segundo Pedro Celso Campos 40. Mas, ainda assim, é necessário ―[...] checar, conferir, confrontar dados, ouvir de novo as mesmas fontes‖. (CAMPOS, 2003, p. 05).

Na maioria dos casos, é preciso conquistar a simpatia da fonte, para que ela revele ao repórter o que ele está buscando. Como defende Pedro Campos, isso não se faz com meias-verdades, mentiras, falsa identidade, câmeras ocultas ou com qualquer outro expediente escuso. O que deve acontecer é contrário a isso, deve haver honestidade e transparência. 2.4 Jornalismo e ética A ética é o conjunto de valores, contra-valores e posturas que pretende orientar a sociedade diante da lei. Não só no jornalismo, mas em qualquer outra profissão, é importante que nossas ações sejam éticas. É uma conduta moral que pretende manter longe o desvio de caráter. Nilson Lage define ética como ―[...] o estudo dos juízos de valor (bem/mal), aplicáveis à conduta humana no todo, ou um campo específico‖ (LAGE, 2006, p.89), e destaca que é necessário ter cuidado com a ética.

A ética é desejável em qualquer ofício e o jornalista não foge a isso. Há constante ligação entre o jornalista e a ética. Por um lado, há os profissionais que lutam pela realização da ética em prol do interesse público; por outro lado, pode ocorrer uma certa resistência em mostrar os fatos realmente como eles são devido ao envolvimento entre os veículos de comunicação e empresários. Essa relação pode tirar um pouco da liberdade da imprensa de noticiar tudo, já que
39 40

CHOMSKY, Noam; DIETERICH, Heinz. La aldea global. Tafalla: Txalaparta, 1997 CAMPOS, Pedro Celso. Gêneros do jornalismo e técnicas de entrevista. In www.bocc.ubi.pt

26

há interesses envolvidos, como o poder econômico, além de propriamente fazer notícia. A maioria dos veículos de comunicação depende de publicidade para manterem a rotação do jornal (KARAM, 2005).

Só o exercício ético jornalístico é que vai, com uma luta política, combater o pensamento único, o cinismo e as estratégias retóricas, segundo Karam (2005). O autor pondera que a ética deve ser essencial às relações humanas e principalmente ao trabalho comunicativo, já que é dever do jornalista deixar o cidadão informado corretamente. Assim como seguir os princípios éticos é patrimônio do jornalismo, é função dos repórteres praticá-los.

Apesar de, teoricamente, a ética se manter como condutora de um jornalista, o atual jornalismo está cheio de conivências e cumplicidades, de subserviências e de cortesias (HALIME, citado por KARAM, 2004). O repórter tem responsabilidade diante do seu público, por isso, deve ter cuidado com o recebimento de qualquer material em troca de informação. Lage (2006) afirma que o repórter deve ter cuidado, ainda, com o sigilo das fontes e a escolha dos métodos, principalmente o uso de gravadores e grampos telefônicos.

A documentação é, sem dúvida, um fator muito importante. O jornalista americano Paul Willians41 (1978, conforme SEQUEIRA, 2005) pondera que um jornalista não pode simplesmente denunciar uma situação, mas deve ter provas documentais suficientes e tornar-se um especialista no assunto estudado.

Justamente por isso, Proença (2003) atenta para a ética, já que, com toda essa busca por informações, nada mais natural que tudo transcorra dentro dos limites éticos propostos. O jornalista deve ser responsável, honesto, sério e confiável, e com o cuidado de não expor informações tendenciosas, vagas, e, ainda, uma atuação neutra e imparcial diante da informação. A investigação deve ser correta e minuciosa.

41

WILLIANS, Paul. Investigative reporting and editing. Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1978

27

No jornalismo investigativo existem limites a serem respeitados para que não vire algo ilegal, sensacionalista e viole os direitos dos cidadãos. No entanto, Sequeira (2004) afirma que para chegar ao produto final, os jornalistas usam muitas estratégias na fase de apuração. A infiltração, por exemplo, leva o repórter a omitir sua identidade e objetivos para checar os fatos.

Métodos como disfarces, grampos telefônicos e gravações não autorizadas dividem opiniões entre alguns autores e jornalistas. Se a notícia for de interesse público, Percival de Souza aprova. Já José Arbex Jr42 (citado por LOPES e PROENÇA, 2003) diz que depende das circunstâncias e do limite do repórter e do veículo de comunicação. O jornalista Gilberto Nascimento 43 não admite máscaras. ―Não minto na minha profissão. Nunca passaria por outra pessoa‖ (NASCIMENTO, citado por LOPES e PROENÇA, 2003, p. 95).

Existe uma dúvida e um debate ético sobre até que ponto o jornalista pode chegar para não violar os direitos fundamentais dos cidadãos, como privacidade e respeito. Para o jornalista Antonio Carlos Fon44, quase todos os métodos se justificam para uma reportagem de interesse público. ―Documentos esquecidos em mesas de autoridades podem ser discretamente recolhidos. Se deixar na minha frente pego mesmo. O fundamental mesmo nesse código é respeitar a fonte, nunca entregá-la‖ (FON, citado por LOPES e PROENÇA, 2003, p. 84). Em contraponto, Maria Clara45 não aprova essa forma de agir. ―Eu acho que não vale é roubar documento, nunca fiz e nunca faria. Gravar conversas sim, mas desde que você depois procure a pessoa e fale com ela da gravação‖.

A obrigação jornalística também diz respeito ao sentido que o repórter vai dar ao texto ou fotografia, com intuito de levar para algum lado a informação. Essas manipulações podem dar caráter sensacionalista ao fato. Esse comportamento é desleal para com seu leitor, que confia na informação que está lendo.

42

43 44 45

In: LOPES, Dirceu Fernandes; PROENÇA, José Luiz. Jornalismo Investigativo. São Paulo: Publisher Brasil, 2003. Idem Ibidem. Ver anexo 2

28

Principalmente no trabalho investigativo, o jornalista deve seguir uma ética rígida e profissional, assegurando que as informações estejam completa e absolutamente exatas. O jornalista não deve tomar partido de nenhuma das partes investigadas, sendo sempre honesto e consciente. E a responsabilidade vai além. Maria Clara Prates46 atenta para o perigo de um mau jornalismo. ―Qualquer profissão pode destruir uma pessoa. É assim também no jornalismo. Você destrói a pessoa moralmente. Isso é uma morte também, talvez é até pior, mais lenta, mais agoniada. Não tem como fazer jornalismo sem ética. Isso é impossível. A gente comete alguns descuidos, erramos às vezes, como em qualquer profissão. O negócio é trabalhar para que não haja erro, evitar o máximo possível‖.

Para entender os limites éticos e os direitos e deveres do jornalista, existe uma deontologia que orienta os profissionais, o Código de Ética do Jornalismo. Ele ajuda em questões oficiais e burocráticas, pensando, até mesmo, em um possível processo judicial. Isso pode acontecer por injúria ou difamação, por proteger fontes e informações, ou, até mesmo, pelo silêncio diante do juiz.

A Constituição Brasileira garante a liberdade de imprensa e liberdade de expressão. Essa proteção tem a ver com o papel social do jornalista diante da sociedade e a constante busca pela verdade em virtude da disseminação da informação.

46

Idem

29

Capítulo 3 – ESTUDO DE CASO - JORNALISMO INVESTIGATIVO

3.1 Estado de Minas - o grande jornal dos mineiros O Estado de Minas47, fundado em 7 de março de 1928, é um dos mais importantes jornais impressos do estado de Minas Gerais. Ele é também conhecido como o grande jornal dos mineiros, o que é, na verdade, seu slogan. Em sua fundação, três acadêmicos dividiam a diretoria, Juscelino Barbosa, Pedro Aleixo e Álvares Mendes Pimentel. A empresa tinha o apoio, ainda, de intelectuais como Milton Campos e Abílio Machado.

Inicialmente o jornal contava com 12 páginas, formato tablóide e uma tiragem de cinco mil exemplares, aproximadamente. No mês de maio de 1929 o jornal passou a ser propriedade de Assis Chateubriand e de seu império da comunicação, o Diários Associados. Em junho, excluiu do título o artigo ―o‖, ficando somente Estado de Minas. Nessa fase o primeiro diretor foi Dario de Almeida Magalhães. Em 4 de fevereiro de 1956 passaram a dirigir o jornal João Calmon e José de Almeida Castro.

Atualmente o periódico ainda pertence ao Grupo Diários Associados. Seu principal concorrente é o jornal O Tempo. Os dois jornais editam os tablóides Aqui BH e Super Notícia, respectivamente.

É, sem dúvida, um jornal de grande porte e o mais importante de Minas Gerais. No passado, caminhava com a política editorial do cotidiano, tratando de assuntos relevantes e com foco no leitor. Hoje trata de assuntos locais até o que repercute internacionalmente. Além disso, é mais institucionalizado e um forte veículo de jornalismo e publicidade.

O Estado de Minas circula diariamente com seus cadernos fixos: política, opinião, nacional, internacional, economia, esportes, gerais, cultura e ciência. Os seus suplementos são:
47

NABUCO, Joaquim. Itinerário da imprensa de Belo Horizonte 1985 – 1954. Belo Horizonte: Editora UFMG,1995 & VEIGA, Vera. Jornalismo e vida social – a história amena de um jornal mineiro. Belo Horizonte: Editora UFMG,1998.

30

agropecuário, bem viver, direito & justiça, feminino & masculino, guia de gastronomia, gurilândia, imóveis, informática, negócios e oportunidades, pensar, ragga drops, trabalho e formação profissional, turismo e TV. 3.2 A aplicação do jornalismo investigativo na série “Cura Falsificada” O objeto analisado nesse trabalho é a série de reportagens denominada ―Cura Falsificada‖, que foi publicada no jornal Estado de Minas. Entre os dias 9 e 14 de agosto de 2009, o jornal apresentou ao leitor, com uma publicação por dia, seis reportagens investigativas. Foram escritas por Maria Clara Prates, Alana Rizzo e Thiago Herdy, do Estado de Minas, e Renato Alves, do Correio Brasiliense.

O estudo combina entrevista presencial, com a jornalista Maria Clara Prates, e análise de conteúdo. O objetivo é estabelecer categorias analíticas que buscam verificar a fase da produção, apuração, trabalho com as fontes, parâmetros éticos que norteiam o repórter e procurando entender se a série de reportagens investigativas cumpre os requisitos do jornalismo. Dentre as características será observado o uso do lead, a forma de publicação diária, a percepção do repórter e a origem da série.

Analisa-se, paralelamente, em que medida os repórteres usam métodos descritos em livros teóricos do jornalismo, quais são as técnicas e recursos que usaram para a apuração, a metodologia usada para investigação, quanto tempo demoraram para concluir as reportagens investigativas, desde sua produção, passando pelo caminho percorrido, até sua finalização. Uma outra frente de análise vai contemplar aspectos quantitativos. Esses aspectos dizem respeito aos números trabalhados. Páginas, imagens, diagramação, tamanho, corpo de texto, localização das reportagens no jornal e quantidade de fontes ouvidas.

Em um esforço para compreender aspectos internos da produção e execução da reportagem, a jornalista Maria Clara Prates apontará sua concepção sobre o caso, apresentando as dificuldades de produção e apuração, a rotina produtiva de uma reportagem investigativa, o trabalho com as

31

fontes e seu ponto de vista sobre práticas consideradas ilícitas. E ainda a repercussão que o caso teve socialmente.

3.3 Justificativa

A prática do jornalismo investigativo não é muito empregada nos meios de comunicação. Em Minas Gerais é um evento raro. Uma série de fatores contribuem para a ausência desse método jornalístico, já que esse modo de reportagem tem uma lógica diferente. Os fatores tempo, dinheiro e trabalho árduo impedem que esse gênero seja contemplado no jornalismo mineiro.

Pensando nisso, o estudo verifica a profundidade do tema e como ele é feito nos dias de hoje. A série de reportagens ―Cura Falsificada‖ é o recorte, principalmente pela publicação em um influente jornal, Estado de Minas. É interessante que se saiba como os recursos são empregados e comparar se a teoria é fundamento presente nas reportagens. Além disso, é válido observar as estratégias textuais, empresariais e empíricas utilizadas do começo ao fim da série de reportagens.

Justamente por não ser uma prática frequente, considerando sua raridade, é que o estudo tem relevância no meio jornalístico. O assunto é pouco pesquisado e há pouca bibliografia e estudos acadêmicos sobre o tema. Isso demonstra a pertinência e o valor da pesquisa, apontando a necessidade de apresentação desse gênero de informação, mais profundo e consciente, ao público leitor e à comunidade acadêmica. 3.4 Estudo de caso da série de reportagens “Cura Falsificada”

3.4.1 Análise geral As reportagens mantêm, o tempo inteiro, o tom de denúncia e o foco no interesse público. São muito sérias e com um grande número de informações, por isso a divisão durante seis dias. As retrancas, sempre humanizadas, com depoimentos de pessoas que sofreram com a máfia dos remédios e equipamentos médicos falsificados, tornam o texto mais leve.

32

Antes de qualquer trabalho investigativo, os repórteres, editores e chefes de reportagem avaliam a possibilidade de execução da pauta. Para que a investigação seja positiva é necessário que se produza um plano e se avaliem os métodos e técnicas que poderão ser utilizados. A procura de fontes e entrevistas, por exemplo. Na série de reportagens foram ouvidas centenas de pessoas para que nada de importante passasse despercebido. Nesse caso, diante de todas as informações previamente apuradas, o chefe de reportagem Josemar Gimenez deu o aval para a publicação.

Como já exposto no capítulo 2, o jornalista investigativo começa seu trabalho muito antes da publicação da reportagem. Nessa série, além dos 68 dias de viagens (13 mil quilômetros percorridos) e procura por fontes, aos repórteres do Estado de Minas e Correio Brasiliense, foram necessários de seis a sete meses de investigação e apuração, desde a informação ter chegado aos ouvidos dos repórteres, até a publicação da reportagem.

Um dos diferenciais da série foi o espaço relativamente grande ocupado no jornal, ainda mais, se comparados aos trabalhos jornalísticos investigativos no Brasil, que acontecem raramente. Foram 14 páginas destinadas à serie, duas delas em cores, em seis dias. Além disso, um editorial ajudou a apresentar a série de reportagens de forma mais clara e opinativa para o leitor.

Alguns detalhes aparecem em mais de uma reportagem. Elas sempre começam na página esquerda, todas têm título grande e bigode e estão no primeiro caderno sob a versal ―NACIONAL‖. Nos pés de página sempre há uma chamada para reportagem do dia seguinte e para o site, feito especialmente para a série. ―Acesse no portal UAI o hotsite sobre falsificações‖. Há, ainda, marcas padronizadas como pequenas fotos de pílulas e remédios espalhadas pelas páginas e um símbolo da série (uma cruz vermelha e ao seu redor escrito Cura Falsificada). 3.4.2 Dia 09 de agosto de 2009 - “Máfia dos remédios falsos leva morte a brasileiros”

3.4.2.1 Aspectos gráficos e quantitativos Diante da impossibilidade de exibir todas as fontes ouvidas, por falta de espaço ou nexo, a primeira reportagem da série ouve seis fontes. A reportagem ocupou 50% da capa do jornal. A 33

diagramação foi feita em quatro páginas e publicada no primeiro caderno com a versal ―NACIONAL‖. Ela ocupa a página 08 (colorida), 9, 10 e 11 (preto e branco). Muitos artifícios gráficos, como infográficos e fotos, são usados. Uma marca (cruz com o escrito Cura Falsificada por fora) acompanha todas as páginas até a última reportagem. Ela ajuda compor o clima da série, como uma padronização que cria identificação no leitor. Outro detalhe que aparece todos os dias é uma chamada para a reportagem do dia seguinte e para o portal da série: www.uai.com.br/falsificacao.

Uma grande manchete e a reportagem principal compõem a página 08, ambas têm características explicativas. Duas fotos ilustram o que foi dito; a primeira mostra um equipamento que foi usado na fábrica clandestina denominada Parque Industrial do Taiwan48 (PIT), a outra é a fachada da indústria, onde são montados os equipamentos médicos. A página 09 aponta o caminho dos remédios falsificados. Possui dois grandes infográficos; o de estados que mais comercializam falsificados, das principais rotas e número de remédios produzidos e comercializados por ano. A página 10 discute a fabricação de próteses e apresenta uma retranca humanizada, com depoimento e foto de uma personagem. Grande infográfico sobre as fábricas compõe o resto da página. A 11 é aberta com título e grande foto de um complexo industrial em Porto Alegre que comercializa próteses. A reportagem ocupa quase a página inteira, mas deixa espaço para mais um retranca, do lado direito, com foto e história de mais um personagem que sofreu com a ingestão de remédio falsificado.

Percebe-se que o corpo de texto dos títulos são sempre garrafais, tamanho 72, com uma fonte diferente, estilizada, porém, padronizada em todas as reportagens. A maneira como escrevem a reportagem, com muito tato, humanizada, leva a crer que há uma indignação, porém, com esperança de mudança. A vontade e a dedicação do jornal e dos repórteres, por si só, já são demonstradas ao proporem essa grande série investigativa, que demanda tempo e muito trabalho.

48

O Parque Internacional do Taiwan (PIT) é um complexo industrial onde são montados os equipamentos médicos falsificados. É situado na Ciudad Del Este, Paraguai.

34

3.4.2.2 Análise qualitativa A primeira reportagem da série foi publicada no domingo, 09 de agosto de 2009. O Estado de Minas parecia esperar uma enorme repercussão. Uma grande manchete, bigode e três fotos denunciavam o submundo dos remédios e aparelhos médicos falsificados. Além disso, o jornal nesta data trazia, também, editorial sobre o assunto.

Os repórteres responsáveis pela primeira reportagem foram Alana Rizzo e Thiago Herdy, do Estado de Minas. Ela não traz a forma tradicional do lead, mas é iniciada de forma humanizada, uma das características da reportagem, assim como o caráter impressionista, a objetividade e contextualização dos fatos. Ela reúne muitas informações e é mais aprofundada. A reportagem mostra aos leitores a quantidade de cidadãos que sofreram com a falsificação de medicamento e equipamentos médicos. Como primeira reportagem da série, ela é mais explicativa, esclarece os pontos principais e o que esperar das demais reportagens. Expõe como os países como Paraguai, Bolívia e Uruguai, que fazem fronteira com o Brasil, têm participação direta nesse comércio clandestino, além de ligações com o narcotráfico. O título ―Máfia dos remédios falsos leva morte a brasileiros‖ é bom e explicativo. Descreve exatamente o que o leitor vai achar na matéria. Como primeira da série, a reportagem é explicativa e aponta estatísticas e o drama de brasileiros que, ao procurar cura, encontravam dor e morte. O bigode ―Histórias de quem comprou medicamentos e aparelhos pirateados e encontrou sofrimento e morte‖ traduz as formas humanizada, dramática e até metafórica na maneira de escrever a reportagem (―os quatro parafusos no pescoço, solução para retomar aventuras entre trilhas, mares e montanhas‖49). Os repórteres usam esses artifícios para chamar a atenção do leitor para esse real problema. Há a impressão de que isso poderia acontecer com qualquer pessoa (―grupos conseguem, até mesmo, abastecer o Sistema Único de Saúde (SUS) com as drogas e os equipamentos da morte‖50). Duas retrancas ajudam a compor esse ambiente fragilizado e humanizado.

49 50

Ver anexo 1 Idem

35

Como não existem estatísticas no Brasil sobre a quantidade de medicamentos e equipamentos médicos falsificados, os repórteres fizeram grande esforço para atingir a dimensão do problema. A primeira reportagem é um apanhado geral com a exposição de números que comprovam a relevância desse trabalho para a sociedade. Ela aponta que foram mais de 7 mil pessoas enganadas apenas no Rio Grande do Sul, mais de 310 mil quilos de medicamentos falsificados recolhidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e que esse problema da pirataria envolve cerca de 20% dos medicamentos em todo o mundo.

A dificuldade encontrada na resolução desse grande problema, que é a falsificação, está ligada ao vínculo existente entre criminosos do narcotráfico e roubo de cargas, segundo a reportagem. O jornalista, ao redigir o texto, transfere ao leitor sua percepção de impunidade. Sob o subtítulo ―Criminosos‖, ele aponta que apenas 104 pessoas envolvidas foram presas em 18 meses. Em sua apuração, o repórter descobriu que a maioria dos criminosos não são responsabilizados e, ainda, têm uma vida luxuosa. Isso mostra o que já foi discutido nos dois primeiros capítulos, a imparcialidade e impessoalidade do jornalista. Alguns teóricos defendem que é um mito, e aqui, pode-se perceber que o repórter foi a campo despido de imparcialidade e impessoalidade. Ele deixa transparecer o absurdo da impunidade em um tom impressionista da reportagem.

A primeira reportagem da série, como investigativa, atende aos critérios de noticiabilidade, que garante a relevância do que vai ser escrito. É de interesse público, impactante e carrega um tom de denúncia. A reportagem investigativa tem a intenção de corrigir abusos e mazelas do sistema. Essa publicação, pela natureza do problema, pode ter tido grande repercussão diante da sociedade, o que já é um sucesso, repercutir para o grande público o que estava escondido. A reportagem mostrou, principalmente, fatos de interesse público, que poderiam ter ficado encobertos por muito tempo se não fosse a iniciativa do jornal e dos jornalistas.

Para a realização de uma grande reportagem, o jornalista necessita de métodos e estratégias de pesquisa do início até a conclusão. Uma delas é a busca por fonte. Como visto no primeiro capítulo, elas são essenciais em qualquer trabalho jornalístico, principalmente, no investigativo. Durante toda a série foram ouvidas centenas de pessoas, fontes de todos os tipos, desde oficiais até fontes alternativas. Outro passo importante é busca por dados e documentação. A 36

reportagem mostra que os repórteres foram atrás de dados estatísticos para exemplificar e compor a matéria (―313 mil quilos de medicamentos foram recolhidos de norte a sul do país; trata-se de um problema que envolve pelo menos 20% dos medicamentos que circulam pelo mundo‖ 51).

A retranca apresentada na abertura da série é um exemplo da humanização do relato. Ela é iniciada com uma triste e bonita fala do personagem, Jaime Cardoso, de 72 anos, que perdeu a companheira após uma cirurgia, onde os médicos implantariam parafusos para melhorar sua dor na coluna. Os equipamentos eram falsificados. A ―dorzinha‖ que a dona Elvinha sentia resultou em uma operação sem sucesso e, seis anos depois, ela faleceu. Mas antes disso, sofreu muito, assim como Jaime. Essa humanização do relato dá leveza ao texto e coloca um pouco mais de importância, além de ter um caráter denunciativo. É o tipo de texto que atrai o leitor depois de uma longa leitura. Além disso, o relato de pessoas que realmente viveram tudo isso que a reportagem mostrou provoca no leitor um sentimento de impunidade e de tristeza. Até mesmo pensando que pode ter ocorrido com alguém próximo. 3.4.3 Dia 10 de agosto de 2009 - “Paraguai é rota dos remédios da morte”

3.4.3.1 Aspectos gráficos e quantitativos A chamada na capa ocupa toda a parte superior do jornal. Traz uma grande manchete, bigode, texto explicativo e uma foto. Do lado direito, um infográfico mostra parte de um diálogo da repórter com um vendedor de remédios falsificados em uma farmácia.

No decorrer da reportagem nove fontes são ouvidas. Entre elas, dois tipos de fontes oficiais: o chefe da Delegacia de Polícia Federal, José Alberto Iegas, e o chefe substituto da Polícia Federal em Foz do Iguaçu (PR), Ricardo Schneider. Há, também, uma fonte em off ("As peças vêm da ilha chinesa (Taiwan) e os equipamentos são montados ali", afirma um técnico da agência, que pede para não ser identificado). Essa modalidade de fonte pode ser perigosa, como já observado no capítulo dois. Para segurança do próprio jornalista é sempre bom informar o nome das suas

51

Ver anexo 1

37

fontes.

A reportagem ocupa as páginas 08 e 09 do primeiro caderno (em preto e branco), sob a versal NACIONAL. A página 08 possui um grande título e bigode. A reportagem principal divide a página com três fotos; a primeira, grande, traz em foco uma moto passando pela Ponte da Amizade, as outras duas são menores e mostram o livre comércio de ambulantes nas ruas perto da fronteira. A página 09 traz título, bigode e retranca, com personagem que sofreu com remédio falsificado. Do lado direito, duas caixas de diálogo entre repórter e vendedores de remédios de duas farmácias da fronteira. Ilustram duas fotos com as fachadas das farmácias. Os diálogos, feitos com gravador escondido, (eu fiz várias, simulei várias negociações, várias compras52) mostram a facilidade da compra de falsificados. Um Viagra, vendido no Brasil por cerca de R$ 100, custa R$ 6 no Paraguai.

3.4.3.2 Análise qualitativa A segunda reportagem foi publicada na segunda-feira, dia 10 de agosto de 2009. A jornalista Maria Clara Prates dá continuidade à serie apontando uma das rotas de entrada dos falsificados em território brasileiro, a Ciudad Del Este, no Paraguai. O título ―Paraguai é rota dos remédios da morte‖ é objetivo, descritivo e com um toque de comoção. Mostra exatamente o que a repórter expõe durante a reportagem, porém, abusa um pouco do drama. Pela Ciudad Del Este, no Paraguai, os medicamentos falsificados circulam livremente, segundo a reportagem.

A reportagem traz muitos números e detalha o que a repórter descobriu durante uma viagem ao Paraguai, país responsável pela entrada de 80% dos produtos piratas em todo território brasileiro, de acordo com a reportagem. Essa busca por dados e documentação são imprescindíveis durante o processo de construção da reportagem, e mais ainda, a verificação de toda informação recebida. Maria Clara presenciou o esquema de transporte clandestino, a ligação com organizações criminosas especializadas no tráfico de drogas e a facilidade na venda de tais produtos. Em entrevista, ela confirma o risco que correu ao tentar reunir todas
52

Repórter Maria Clara Prates, ver anexo 2.

38

informações. ―Ali na fronteira, quem conhece sabe que é a bandidagem, a gente morria de medo. Lá é muito perigoso mesmo, se eles descobrem53‖. Não é um processo fácil fazer jornalismo investigativo. O repórter fica sujeito a situações como essa.

Em sua investigação, Maria Clara observou o Parque Internacional do Taiwan, com imensos galpões usados para fabricação e montagem de equipamentos médicos. De acordo com os dados apurados pela repórter, a proliferação da pirataria é facilitada pelo vazamento de informações da polícia aos bandidos, o que impede operações surpresas para prisão dos envolvidos. O transporte dos pirateados da fronteira do Paraguai até a entrada no Brasil, pela Ponte da Amizade, é feito de moto, um meio de locomoção ágil e barato. A presença da repórter nesse ―mundo‖ permitiu maior conhecimento e possibilitou a observação direta.

A reportagem informa que a fiscalização praticada pela Anvisa não é feita em mais de 5% dos veículos que ultrapassam a fronteira. Foi contabilizada a comercialização de mais de 300 toneladas nos últimos dois anos entre os países Brasil e Paraguai. Para levantar esses dados os jornalistas precisaram de muito esforço. Os números eram soltos, separados em lugares diferentes, não havia um número concreto que poderia ser usado. Demandou muito tempo para conseguir todos os dados e informações. ―No Brasil não tem esses dados consolidados. As Secretarias não tem os números de medicamentos apreendidos, é um número muito disperso. Penamos muito para conseguir esse dado fechado. Fomos somando tudo até chegar a um valor‖, detalha Maria Clara54.

Nessa publicação, uma retranca expõe o lado descritivo da reportagem. Esse artifício humanizado é usado todos os dias pelo jornal. A retranca mostra a caracterização da pessoa. Usa detalhamentos para dar vida à história e passa, até mesmo, um pouco de drama ao leitor. Nesse dia, a história de um homem que sofreu com a compra de medicamentos falsificados.

Para execução da reportagem, foi preciso uma metodologia de apuração e busca por fontes mais complexa. A jornalista precisa apurar informação e, ao mesmo tempo, lidar com bandidos.

53 54

Ver anexo 2 Ver anexo 2

39

Segundo Maria Clara foi um processo mais complexo do que o usual. Para chegar ao mundo dos informantes foi necessário grande conhecimento do assunto, das pessoas e coragem. Os métodos da infiltração e gravação escondida, discutidos nos capítulos teóricos, foram utilizado durante a apuração. Apesar de alguns estudiosos se mostrarem contra, a jornalista conseguiu informações essenciais à reportagem utilizando esse meio.

Nessa segunda reportagem da série, três fontes oficiais foram de essencial importância. A Polícia Rodoviária Federal, responsável pelas operações de apreensão dos medicamentos falsificados, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável pelo controle da venda de medicamentos e aparelhos médicos no país, e a Delegacia Policial Federal, que tenta controlar o comércio ilegal de falsificados. Elas apontavam números concretos à reportagem, contribuindo para que o leitor tenha acesso a um material de credibilidade.

Como já explicitado nos capítulos teóricos, um dos objetivos do jornalismo investigativo é a denúncia de fatos de interesse público que estão encobertos. A jornalista usa em alguns momentos da reportagem o tom de denúncia, com o objetivo de mostrar ao leitor como é o trabalho das organizações criminosas (―É usado o esquema de transporte de outros grupos criminosos para fazer prosperar o seu cruel negócio, com custo zero‖55).

Como característica da reportagem, pode-se perceber no texto da Maria Clara a narração com descrição de lugares, sem comentários e subjetivações (―está localizado o imponente Parque Industrial de Taiwan (PIT). Todo em estilo oriental, num terreno imenso com 500 metros de frente e mais de um quilômetro de profundidade‖56). Outra característica que pode ser percebida é a ausência do tradicional lead. Ela faz um levantamento do assunto, começando com números e apontando o crescimento dos medicamentos falsos que entram no Brasil pelo Paraguai.

A reportagem expressa também o caráter impressionista, em que o repórter aponta durante o texto suas percepções e impressões. Essas impressões ficam claras quando a jornalista mostra ao leitor que as operações policiais são inócuas, já que os criminosos acompanham a frequência de

55 56

Ver anexo 1 Idem

40

rádio da polícia e há vazamento de informação, e também quando explica a facilidade da invasão dos medicamentos no Brasil.

Percebe-se nessa reportagem o quanto a observação é importante durante a construção dos fatos. Maria Clara descreve tudo que o seu olhar atento examinou durante a viagem ao Paraguai. A narração descritiva ajuda a compor e é um elemento a mais para a reportagem (―no interior do terreno estão erguidos apenas galpões, sem chaminés, indispensáveis a este tipo de fabricação‖57).

Outro detalhe que chama atenção é a referência que a repórter faz a fatos históricos, que são essenciais ao entendimento de todo o esquema de falsificação. O Paraguai e o Taiwan têm uma estreita e antiga relação, por isso, a falta de interesse do Paraguai na repressão desse crime. 3.4.4 Dia 11 de agosto de 2009 - “Bolívia vende remédio pirata a R$ 2”

3.4.4.1 Aspectos gráficos e quantitativos A partir da segunda reportagem, as chamadas de capa começaram a diminuir. Nesse caso havia uma pequena manchete, bigode e pequeno texto explicativo, no lado superior direito. A chamada é para as páginas 10 e 11 do primeiro caderno, NACIONAL. Cinco fontes são expostas nesse dia.

A parte superior da página 10 (preto e branco) apresenta duas fotos grandes: uma farmácia na divisa com a Bolívia e uma foto com foco nas motos, que ultrapassam a fronteira calmamente. O título fica na parte inferior, com bigode e reportagem. Ao lado, uma retranca aponta a concordância que existe entre os países fronteiriços, Brasil e Bolívia, em relação ao problema das falsificações e os preços super baixos dos remédios. Na página 11 (preto e branco) uma grande manchete, bigode e duas grandes fotos dos ambulantes nas ruas de Cáceres (MT). Duas retrancas completam a página; a primeira com um personagem que comprou medicamento falsificado, a segunda trata da fronteira com o Uruguai, a intensa circulação de mercadorias e as facilidades de venda.
57

Ver anexo 1

41

3.4.4.2 Análise qualitativa A terceira reportagem da série foi publicada na terça-feira, 11 de agosto de 2009. O repórter responsável foi Renato Alves, que explorou a entrada dos produtos pirateados pela fronteira do Brasil com a Bolívia e Uruguai. Mostra que, mesmo com fronteiras mais desertas, a comercialização é grande e a fiscalização, mínima. Um ponto importante explicitado é a comercialização de produtos falsificados que têm venda proibida no Brasil, ou os remédios que são vendidos apenas com retenção da receita médica. A importância desses dados se deve ao fato de ser de interesse público a comercialização indevida desses medicamentos. Qualquer pessoa poderia comprar e sofrer com as consequências, como foi mostrado alguns casos durante a publicação da série.

Nessa rota o repórter ficou três dias investigando a fronteira Brasil-Bolívia e se deparou, também, com desmanche de carros roubados e tráfico de drogas. Ele sofreu, inclusive, extorsão dos soldados bolivianos e ameaça de roubo por parte dos pedestres. A conclusão de que a entrada de remédios é tão fácil foi tirada, também, com o grande número de propostas que ele recebeu de taxistas e ciclistas para levar mercadoria para o outro lado da fronteira. Em nenhum momento foi parado pela polícia boliviana nas seis vezes que atravessou a fronteira, e nem viu outro carro ser parado. Ele fez observação direta, o que contribuiu para o método de reportagem dele, mais descritiva. O título da reportagem, ―Bolívia vende remédio pirata a R$ 2‖ não oferece descrição completa do que o leitor vai encontrar. O título não abrange a completude do texto, é apenas mais uma informação que vai ser abordada. Por outro lado, o título sugere a característica do texto impressionista, que é a percepção do repórter sobre o que vê. É uma forma de focar e chamar a atenção do leitor para o quão baixo é o preço dos remédios falsificados. O bigode ―Rota de contrabando e narcotráfico, região na fronteira do Brasil serve de entreposto de remédios falsos, vendidos no balcão de farmácias‖ é um método usado para exemplificar e explicar o que está implícito no título. No decorrer da reportagem se lê tudo que é exposto no bigode.

42

O repórter funciona, também, como os olhos do leitor. Ele apresenta o lugar onde faz a investigação e a postura das pessoas e dos soldados: (―além do pantanal e dos rebanhos de gado de corte, a BR-070 é marcada pelos buracos58‖).

Pela forma como o jornalista conduziu a reportagem, deu a entender que ele pretendeu descrever o que observava, sem muitos números oficiais ou conversas com polícia. Foi a primeira reportagem da série a ser abordada dessa forma. Uma das características da reportagem é, justamente, o modo descritivo. É tão absurda essa falta de fiscalização e o tráfico e vendas de falsificados na ―cara‖ da polícia que o repórter concluiu merecer a narração descritiva.

Outra característica da reportagem é usada, a narrativa sem comentários e subjetivações. Justamente através das observações, o repórter narra tudo o que vê e percebe durante a viagem. Ele demonstra entendimento sobre o porquê é tão fácil contrabandear produtos falsificados. (―Entre os dois países, são quase 1 mil quilômetros de fronteira seca, com inúmeras trilhas e estradas clandestinas‖59).

Durante a busca por informações, o repórter conversou com a Polícia Federal. Um detalhe que chama a atenção é o aconselhamento dado pelos policiais, e não só uma conversa em busca de informação e dados, como fonte. Segundo os agente federais, era melhor não atravessar a fronteira com o carro alugado. Se o fizesse, seria alvo certo de roubo ou latrocínio (assalto com morte), segundo a reportagem. 3.4.5 Dia 12 de agosto de 2009 – “Dinheiro público financia medicamentos falsificados”

3.4.5.1 Aspectos gráficos e quantitativos A capa do jornal nesse dia traz uma pequena chamada com foto, título e resumo com chamada para as páginas 10 e 11 do primeiro caderno sob a versal NACIONAL. A página 10 apresenta título, bigode e grande foto da empresa que vende remédios falsificados, através de licitações, para prefeituras de vários estados. A reportagem foi feita em Minas Gerais e Rio Grande do Sul

58 59

Ver anexo 1 Idem

43

e ocupa quase toda a página. Uma retranca do lado direito inferior traz mais uma retranca com o drama de um personagem.

A página 11 traz reportagem com título e retranca do lado esquerdo superior. Ela mostra que equipamentos médicos falsificados abasteceram, também, hospitais de São Paulo. Abaixo, uma infografia com as empresas e funcionários públicos envolvidos na fraude. A Polícia Federal, que foi fonte do repórter, usou grampos telefônicos para descobrir o contato entre os servidores e os falsificadores. Do lado direito superior a página apresenta a foto de uma das farmácias que foi interditada pela polícia. Do lado direito inferior, uma caixa com o diálogo de um integrante da quadrilha que vendendo medicamentos em um pregão. Esse recurso da caixa de diálogos confere credibilidade e é usado também em outras reportagens da série. Por outro lado, abre questionamentos sobre o caráter ético desse ato, que alguns aprovam e outros abominam.

3.4.5.2 Análise qualitativa A quarta reportagem da série foi publicada no dia 12 de agosto de 2009 e escrita pelos jornalistas Alana Rizzo e Thiago Herdy, do Estado de Minas. Essa reportagem aponta que o poder público está comprando medicamentos e equipamentos médicos falsificados, deixando a população de alguns municípios vulnerável. É mais um dado que mostra a relevância dessa série, de interesse público.

Essa reportagem traz muitos dados sobre licitações, lotes de remédios e quantidade vendida a prefeituras da região Sul, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Bahia. Foi preciso muito tempo e trabalho duro dos repórteres para conseguir organizar todos os dados obtidos. Essa reportagem apresenta características documentais, muitos números e dados informativos. Como já visto nos capítulos teóricos a busca por documentação é essencial ao trabalho jornalístico investigativo. É essa documentação que vai confirmar a veracidade de todos os fatos e ajudar a compor a reportagem de maneira crível. Ela apresenta, inclusive, os números de lote dos remédios falsificados, o que mostra aos leitores que tudo foi consultado antes da publicação.

Além das informações documentais, a reportagem apresenta grande consulta a órgãos e fontes alternativas. Apesar de constantemente haver uma procura maior por fontes oficiais, como 44

delegados de polícia, as fontes independentes, que são desvinculadas de uma relação de poder ou interesse específico, que muitas vezes levam os jornalistas a conhecer algo que empresas ou pessoas queriam esconder. A reportagem começa em tom de indignação e carrega essa característica até o final. (―a disseminação de itens falsificados pelo país deixa o sistema público de saúde do Brasil cada vez mais vulnerável‖60). Os jornalistas apontam que as Prefeituras que participam de licitações e compram medicamentos falsificados alegam serem vítimas. Porém, a reportagem destaca que os preços são tão mais baixos do que o usual que seria difícil não desconfiar.

Uma retranca contém o desabafo de uma mulher que precisava de um medicamento e conseguiu que a prefeitura de Curvelo fornecesse gratuitamente. Cinco meses depois ela denunciou que o remédio era falso. Além da retranca, ela também é fonte na reportagem principal. As retrancas, dessa e das outras reportagens da série, mostram que os critérios de noticiabilidade usados foram de interesses humanos e pessoais. São acontecimentos específicos que dão um tom diferente à série de reportagens, mais leve, humano e que desperta, ao mesmo tempo, interesse e revolta dos leitores.

A busca pela documentação necessária também foi desenvolvida nessa reportagem. Os jornalistas tiveram acesso a notas fiscais da venda dos produtos pirateados e citam, inclusive, os números dos lotes. Isso confere credibilidade à reportagem, assim como, também, os atestados que comprovam a falsificação nas caixas dos medicamentos (―a Pfizer61 informou ainda que as datas de fabricação e validade não conferiam com os registros originais‖62).

Além da indignação, essa reportagem transfere ao leitor o tom de denúncia. Mostra que uma grande empresa, a Dentisfar, que já participou de várias licitações, estaria envolvida nas fraudes. Até então, a Polícia Civil de Minas, que instaurou inquérito e determinou a tomada de depoimento dos sócios da Dentisfar, segundo a reportagem, ainda não havia falado com os sócios da empresa.
60 61 62

Ver anexo 1 Pfizer é uma indústria farmacêutica que produz e comercializa medicamentos. Ver anexo 1

45

Seis fontes foram ouvidas nessa reportagem. O dono da empresa acusada de fornecer remédios falsificados às prefeituras (Dentisfar) não quis falar com a reportagem. Isso pode ser considerado como um atestado de culpa por muita gente, porém, os repórteres devem se manter longe dos juízos de valor e opiniões ao redigir a reportagem. Isso lhes confere credibilidade, de acordo com a repórter Maria Clara Prates. ―É difícil (ser imparcial). Mas uma coisa é o que você sente, outra coisa é o que você escreve. Na hora que estou redigindo eu tento ser o mais neutra possível, mesmo diante de toda a minha indignação. Uma coisa sou eu como cidadã, outra como jornalista. E como jornalista eu tenho que cumprir alguns critérios, como tratar os dois lados de uma mesma forma63‖. O título ―Dinheiro público financia medicamentos falsificados‖ traz exatamente o que é exposto ao leitor na reportagem, mas com mais detalhes no decorrer do texto. Outras características da reportagem são usadas; a humanização do relato e a narrativa sem comentários. A reportagem mostra a fragilidade das pessoas que sofrem com medicamentos falsificados e nem se dão conta, já que recebem os remédios do poder público. 3.4.6 Dia 13 de agosto de 2009 – “Nem câncer escapa de medicamentos falsificados”

3.4.6.1 Aspectos gráficos e quantitativos A chamada de capa traz título e pequeno texto no canto direito inferior. A chamada é para as páginas 16 e 17 do primeiro caderno, sob a versal NACIONAL. A página 16 apresenta grande título e bigode para a reportagem principal. Ela ocupa todo o lado esquerdo. Do lado direito há uma grande foto do acusado de vender medicamentos falsificados, Jorge Otto, e pequena retranca sobre ele, negando participação no esquema. Esse recurso mostra que os jornalistas devem ouvir todos os lados envolvidos, inclusive a parte acusada.

O lado esquerdo da página 17 é ocupado por grande reportagem, título e bigode. Na parte superior, abaixo do título, a imagem de uma nota fria, utilizada pelo acusado Otto, para explicar a origem do medicamento falsificado. Ao lado, direito superior, mais uma retranca humanizada, dessa vez, com o depoimento de uma mulher que perdeu o pai após ele consumir medicamento
63

Ver anexo 2

46

para câncer falsificado. Abaixo, do lado direito, quatro fotos: uma sala onde é vendido equipamento falsificado; fachada da casa do empresário Otto; e duas da distribuidora no Rio Grande do Sul.

3.4.6.2 Análise qualitativa A quinta reportagem da série, publicada no dia 13 de agosto de 2009, foi escrita pelo jornalista Thiago Herdy, do Estado de Minas. A reportagem exibe a ligação entre a máfia de medicamentos falsificados, quadrilhas de roubo de carga de remédios e hospitais, tudo objetivando obter lucro com essas transações.

Essa reportagem aponta que, além dos falsificados, remédios contrabandeados também chegam às mãos do consumidor. Os fraudadores usam empresas de fachada para lavar dinheiro. Nos últimos 18 meses, segundo a reportagem, a Anvisa notificou o roubo de 80,3 toneladas de medicamentos. Isso mostra que a impunidade ainda reina nesse esquema. Isso garante a relevância dessa série de reportagens, de total interesse para a sociedade.

Nesse mercado clandestino, nem câncer escapa de medicamentos falsificados, como diz o título. Ele é esclarecedor e transparece ao leitor a revolta de quem, como o repórter, observou de perto esse crime que muitos desconhecem, e que por vezes, fica impune. O comerciante Jorge Otto, dono de uma loja no Mercado de Madureira, é apontado como responsável pela venda do remédio Glivec (falsificado), para tratamento da leucemia64. A reportagem mostra o caminho que a polícia percorreu para chegar aos responsáveis. Havia mais duas pessoas envolvidas diretamente com esse esquema de venda de remédios sem efeito.

A quinta reportagem da série também oferece dados e estatísticas que contribuem para a construção do texto. Quando se fala dos preços do remédio Glivec o repórter usa comparação, o que ajuda o leitor a entender a dimensão e como funciona o esquema (―duas caixinhas simples, com 30 comprimidos do medicamento, cada, custam o mesmo que um carro popular, R$ 22,8 mil‖; ―ele teria repassado os produtos à distribuidora gaúcha, por R$ 4 mil, cada caixa. O valor é

64

Doença que se caracteriza pela proliferação cancerosa de células precursoras dos glóbulos brancos na medula óssea e no sangue.

47

equivalente a apenas 34% do preço de tabela do remédio‖65). Além disso, a busca por documentação, essencial ao jornalismo investigativo, foi usada. O jornalista teve acesso, também, às notas frias que o Jorge Otto emitia.

Nessa reportagem, o jornalista usa como documento de pesquisa o depoimento de Otto, no qual ele fala da origem de notas fiscais frias, exclui seu envolvimento e explica um depósito bancário feito por seu suposto comparsa, Miguel Jacob. Documentos apreendidos pela polícia também favoreceram a organização de todos os dados sobre o fato por parte dos repórteres. Isso demonstra a necessidade da documentação e a checagem de todas as informações antes da publicação.

Mas nem sempre se consegue obter informação de todos os lados possíveis. No caso dessa reportagem, um dos hospitais que distribuía medicamentos falsificados não quis se pronunciar sobre o caso. Por outro lado, a Polícia Federal foi essencial durante a pesquisa documental. 3.4.7 Dia 14 de agosto de 2009 – “Remédio pirata mata e falsificador fica impune”

3.4.7.1 Aspectos gráficos e quantitativos A última reportagem da série tem uma pequena chamada na capa com título e nota. As páginas 10 e 11 reúnem as considerações finais da série. A página 10 possui um grande título, bigode e foto do laboratório Enila no Rio de Janeiro. Do lado esquerdo, a reportagem principal trata das marcas Celobar e Androcur. Na parte inferior, no meio da página, uma foto de Joelson Reis. Um recurso utilizado somente nessa última reportagem é o quadro de ―Entendendo o caso‖, com cinco tópicos. Do lado direito inferior uma retranca com o depoimento de uma mulher que perdeu o marido que ingeriu contraste de raio X e a foto dele.

Na parte superior da página 11 o título é posto no alto, bigode à esquerda e duas fotos: a do empresário José Celso, que vendeu remédios falsificados e outra do seu luxuoso sítio em Pedro Leopoldo. No meio da página, a reportagem principal. Na parte inferior, uma retranca sobre um homem que morreu ao consumir Androcur e foto da sua filha. Ao lado, outro ―Entenda o caso‖
65

Ver anexo 1

48

com quatro tópicos. Abaixo, no pé de página, um histórico com nomes de 28 pessoas que morreram por uso de medicamentos e equipamentos médicos falsificados: 13 ao ingerir contraste de raio X, 13 com remédios para o tratamento de câncer, um por antibiótico falsificado e um por prótese falsificada. Nessa última reportagem, uma chamada para o portal UAI diferente: ―Assista vídeo sobre a saudade e o Androcur‖.

3.4.7.2 Análise qualitativa A última reportagem da série, publicada no dia 14 de agosto de 2009 e escrita por Thiago Herdy, aponta como a impunidade reina na máfia da pirataria. A série é encerrada com os casos mais sérios, os de pessoas que morreram ao ingerir o medicamento Androcur e o contraste de raio X da empresa Celobar. Os empresários responsáveis pelo negócio, Márcio D‘Icarahy e José Celso Machado, estão respondendo ao processo judicial em liberdade. No decorrer da reportagem transparece ao leitor o sentimento de impunidade deixado no repórter. O título ―Remédio pirata mata e falsificador fica impune‖ detalha o assunto a ser tratado na reportagem. Foi interessante para a série finalizar com a questão das mortes e sequelas das pessoas, e isso transparece no título. O bigode facilita ainda mais a compreensão do leitor ―Empresário condenado a 16 anos de prisão por distribuir 27 mil caixas de Androcur falsificado para câncer de próstata, que matou dezenas de pessoas, abriu outra empresa e tem vida privilegiada enquanto recorre na Justiça‖. Mostra, ainda, a impunidade que cerca o esquema da máfia dos remédios.

O tom dramático acompanha a reportagem, diante de tudo que já foi exposto sobre a falsificação de medicamentos e equipamentos médicos. Logo na abertura o jornalista expõe a comoção dos leitores e das famílias das vítimas (―Nos episódios que chocaram o Brasil‖; a sensação de impunidade foi o que restou às famílias das vítimas, além da saudade‖66).

É possível observar que o caráter impressionista, uma das características da reportagem, está presente na escrita do repórter. Ele usa, ainda, o tom sarcástico para mostrar a tolerância para esse tipo de crime e a falta de castigo, mantendo os responsáveis com uma vida de luxo (― José
66

Ver anexo 1

49

Celso anda em carro de R$ 90 mil e divide os fins de semana entre o sítio e a gruta que comprou perto de Belo Horizonte‖67).

Acompanhando o tom dramático, o repórter usa a descrição para conseguir expor ao leitor o que o próprio observou, durante a execução da reportagem. A passagem a seguir é a que mostra mais claramente que um dos responsáveis pela morte de 22 pessoas está impune (―O empresário se locomove em uma caminhonete de luxo importada, modelo Hyundai Santa Fé, ano 2008, registrada em nome da empresa. O veículo custa R$ 90,8 mil, valor 45 vezes maior do que a pensão paga mensalmente pelo INSS à viúva do ex-prefeito de Timóteo, no Vale do Aço, Antônio Dias Martins, de 62 anos. Dias morreu depois de consumir Androcur falsificado na farmácia mantida pelo empresário, e a família nunca recebeu indenização do distribuidor do medicamento‖68).

Dentre os 250 casos com sequelas e as 22 mortes, pelo uso do contraste de raio X da empresa Celobar, segundo a reportagem, nenhuma reparação foi feita às famílias. Uma das seis fontes ouvidas durante a execução da reportagem, Joelson Reis, vítima da Celobar, espera até hoje uma indenização da empresa. Outra fonte importante foi usada para ilustrar a reportagem: o advogado de duas das vítimas que esperam por reparos. Os recursos de fontes utilizadas, em sua maioria, são oficiais. As documentações usadas, que completas as informações, foram obtidas com a Polícia Federal, por exemplo.

A última reportagem, que fala de impunidade e mortes, dá um tom de conclusão à série. O repórter ouve as famílias das vítimas e expõe a angústia da espera por justiça, além da saudade. É possível observar que só com um trabalho completo, sensível e responsável, como essa investigação jornalística para a série de reportagens, os jornalistas chegaram a todas as variáveis possíveis ao percorrer o submundo do crime organizado.

67 68

Idem Ver anexo 1

50

CONCLUSÃO Essa pesquisa avalia os aspectos teóricos e empíricos da série de reportagens ―Cura Falsificada‖, que foi publicada pelo jornal Estado de Minas no período de 09 a 14 de agosto de 2009. Durante meses, os repórteres foram atrás de informações para descobrir como funciona o mundo dos falsificadores de medicamentos e equipamentos médicos, que não é fiscalizado, onde reina a impunidade. A reportagem serviu de alerta para o risco mortal dessas falsificações. Durante todo o percurso (Paraguai, Bolívia, Uruguai, Foz do Iguaçu, Porto Alegre, São Paulo, Cáceres, Curvelo, Carazinho, Rio de Janeiro, etc), os repórteres usaram a experiência, sensibilidade e ética para um trabalho aprofundado, com objetivo de desmascarar essas fraudes.

Os critérios de noticiabilidade descritos nos livros acompanham toda a série. As informações passadas ao leitor são impactantes e de interesse público, tornando a crer que houve grande repercussão do caso. Todas as reportagens demandaram tempo e esforço dos quatro jornalistas envolvidos. Um dos méritos da série é justamente esse. A dedicação e a importância que todas as reportagens tiveram na vida dos repórteres. Um trabalho que começou meses antes da publicação. Durante esse tempo, muitas viagens e esforço de pesquisa foram necessários aos diretamente e indiretamente envolvidos.

A série contempla seis reportagens investigativas. Cada uma delas foi muito bem escrita e completa, deixando o leitor por dentro desse delicado assunto. A série foi totalmente relevante, já que o assunto é de interesse público. Os repórteres funcionam, muitas vezes, como os olhos da sociedade, permitindo que os cidadãos entendam e conheçam algo que poderia estar oculto. Note-se que as discussões realizadas nos capítulos teóricos algumas vezes confrontam com o estudo empírico. A questão da ética, tão debatida por vários teóricos, pôde ser observada com clareza nas apurações da jornalista Maria Clara Prates. Para obter informações essenciais às reportagens ela usou como método as técnicas da infiltração e da gravação escondida. Diante da grande importância das informações e da relevância dessa série, esse artifício é válido e foi totalmente necessário para descobrir informações encobertas.

51

Durante toda a apuração, os repórteres usaram métodos já descritos nos dois primeiros capítulos, como a procura por fontes de informação e a busca por documentação e dados estatísticos. Centenas de fontes foram ouvidas, desde oficiais, até as alternativas. As reportagens casam muito bem esses dois artifícios. A documentação e os dados oficiais compõem o que foi ouvido pelas fontes, impondo credibilidade ao material publicado. As estatísticas com número de mortes, apreensões e remédios comercializados exemplificam e dão compreensão ao texto.

Por outro ângulo, percebe-se que as reportagens foram escritas de maneira diferente. Apesar de todas manterem tons de denúncia, os repórteres apelam, também, para o dramático. O que foi totalmente necessário, já que se tratam de tragédias e fragilidades humanas. Todas as reportagens são, no mínimo, um pouco humanizadas e não poderiam ser feitas de forma diferente. Centenas de pessoas sofreram com a falsificação, por isso, houve a necessidade de mostrar esses casos, exemplificando, para chamar a atenção do real problema da pirataria. Os títulos abordam muito isso. ―Paraguai é rota dos remédios da morte‖, por exemplo. Quem lê já tem a dimensão do que vai achar na reportagem. A entrada dos pirateados no Brasil, pela fronteira, e os casos de morte que ocorreram oriundos dessa comercialização clandestina. O assunto é chamativo, o que leva o leitor a querer compreender os meandros da corrupção.

A única deficiência observada foi a falta de imparcialidade ao redigir as reportagens. É sabido que os jornalistas devem ter distanciamento do que escrevem, porém, fica evidente uma redação parcial, que invoca valores, com visão crítica e opinativa por parte dos repórteres. O caráter impressionista também marca presença, apesar de não haver comentários e subjetivações. As retrancas humanizadas colaboram para o resultado final da série. O relato das pessoas que realmente sofreram com essa máfia dos falsificados confere credibilidade a tudo que os jornalistas reportaram. Além disso, sugere uma comoção no leitor. O sentimento de perda, de impunidade e de compaixão explora a humanização, também, de quem está lendo. Essa ideia foi um ponto alto da série de reportagens.

52

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAMPOS, Pedro Celso. Gêneros do jornalismo e técnicas de entrevista. In www.bocc.ubi.pt CASTILHO, Márcio Souza. O jornalismo na distensão política do regime militar. In www.bocc.ubi.pt CHOMSKY, Noam; DIETERICH, Heinz. La aldea global. Tafalla: Txalaparta, 1997 COIMBRA, Oswaldo. O texto da reportagem no jornalismo impresso. São Paulo: Ática,1993 CORNU, Daniel. Jornalismo e verdade: para uma ética de informação. Tradução Armando Pereira Silva. Lisboa: Instituto Piaget, 1994. ERBOLATO, Mario. Técnicas de codificação em jornalismo. São Paulo: Ática, 1991. FIORIN, José Luiz. Elementos de análise do discurso. São Paulo: Contexto/Edusp, 1989 HALIMI, Serge. Os novos cães de guarda. Tradução Guilherme João de Freitas Texeira. Petrópolis: Vozes, 1998 KARAM, Francisco José. A ética jornalística e o interesse público. São Paulo. Summus, 2004. LOPES, Dirceu Fernandes; PROENÇA, José Luiz. Jornalismo Investigativo. São Paulo: Publisher Brasil, 2003. LUSTOSA, Elcias. O texto da notícia. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1996. LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2006. LAGE, Nilson. Estrutura da Notícia. São Paulo: Ática, 1985 LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas – o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. Campinas: Unicamp, 2005 MEDINA, Cremilda Araújo. Entrevista – O diálogo possível. São Paulo: Ática, 2000 NABUCO, Joaquim. Itinerário da imprensa de Belo Horizonte 1985 – 1954. Belo Horizonte: Editora UFMG,1995. PINTO, Manuel. Fontes jornalísticas – contributos para um mapeamento de campo. In Comunicação e Sociedade 2, Cadernos do Noroeste, Série Comunicação, vol. 14, 2000 REYS, Geraldo. Fronteras, obstáculos, pistas, fuentes...interstícios del periodismo de investigación. In: http://saladeprensa.org 53

RODRIGUES, Adriano Duarte. O acontecimento. In Jornalismo: questões, teorias e ―estórias‖. Lisboa: Veja, 1999. RODRÍGUEZ, Pepe. Periodismo de investigación: técnicas y estrategias. Paidós Papeles de Comunicación: Barcelona, 1994. SANTOS, Rejane. A tentação da superficialidade. In www.observatoriodaimprensa.com.br SEQUEIRA, Cleofe. Jornalismo investigativo – o fato por trás da notícia. São Paulo: Summus, 2005 SILVA, Carlos Eduardo Lins da. O adiantado da hora: a influência americana sobre o jornalismo brasileiro. São Paulo: Summus, 1991. SODRÉ, Muniz ; FERRARI, Maria Helena. Técnica de reportagem – notas sobre a narrativa jornalística. São Paulo: Summus, 1986 SODRÉ, Muniz ; FERRARI, Maria Helena. Técnica de redação – o texto nos meios de informação. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977 TRAQUINA, Nelson. Jornalismo: questões, teorias e ―estórias‖. Lisboa: Veja, 1999. TUCHMAN, Gaye. A objetividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objetividade dos jornalistas. In Jornalismo: questões, teorias e ―estórias‖. Lisboa: Veja, 1999. VEIGA, Vera. Jornalismo e vida social – a história amena de um jornal mineiro. Belo Horizonte: Editora UFMG,1998. WILLIANS, Paul. Investigative reporting and editing. Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1978 WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. Lisboa: Presença, 2002

54

ANEXOS Anexo 1 – Série de reportagens “Cura Falsificada” Máfia dos remédios falsos leva morte a brasileiros (09 de agosto) Alana Rizzo e Thiago Herdy – Estado de Minas

O comprimido azul era a promessa de sobrevida na luta contra uma doença pulmonar grave. A prótese nas pernas adiaria, por muitos anos, o último baile. O pino acabaria com as dores na coluna, martírio de quem passava incontáveis horas em pé, na sala de aula. As seis pílulas brancas de todo dia eram a esperança para vencer o câncer de próstata. Os quatro parafusos no pescoço, solução para retomar aventuras entre trilhas, mares e montanhas. E o contraste de raiox — tomado para um exame — era só para conferir se a gastrite, adquirida em anos de trabalho com adolescentes ou na rotina exaustiva da manutenção de máquinas, poderia ter melhorado.

As histórias acima são de brasileiros que, no lugar da cura, encontraram a dor e, em muitos casos, a própria morte. O Brasil não produz estatísticas que mostrem o número total de pessoas que perderam a vida ou foram enganadas quando tinham esperança de recuperação. Estima-se que, apenas no Rio Grande do Sul, esse número ultrapasse os 7 mil. Em apenas três casos de adulteração de medicamentos identificada pelas autoridades sanitárias nos outros estados brasileiros, foram quatro dezenas de mortos. E o volume de apreensões das falsificações nos sete primeiros meses deste ano contribui para revelar a dimensão do problema: 313 mil quilos de medicamentos foram recolhidos de norte a sul do país, em pequenos e grandes municípios. É um número sete vezes maior do que o registrado em todo o ano passado, quando 45 mil quilos de remédios pirateados acabaram incinerados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A falsificação de medicamentos e de equipamentos médicos no país transformou-se em problema de saúde pública, com status de crime organizado e cada vez mais infiltrada nas estruturas do Estado. Grupos conseguem, até mesmo, abastecer o Sistema Único de Saúde (SUS) com as drogas e os equipamentos da morte. Ao longo de 68 dias, o Estado de Minas/Correio Braziliense frequentou o submundo do crime para mostrar os bastidores da 55

pirataria de remédios e equipamentos. A reportagem visitou as fronteiras do Brasil com o Paraguai, a Bolívia e o Uruguai para flagrar a facilidade com que o comércio clandestino ocorre. Acompanhou a ligação cada vez mais próxima desse mercado com o narcotráfico e os esquemas de roubo de cargas. Investigou como atuam as organizações criminosas que chegam a se infiltrar entre médicos para levar os produtos a todos os cantos do país. E foi atrás das prefeituras que compraram medicamentos falsificados nos pregões eletrônicos e de cirurgias em que foram usados equipamentos de péssima qualidade e sem registro, pagos com dinheiro público.

Criminosos Mesmo diante desse quadro aterrador, em 18 meses, apenas 104 pessoas foram presas acusadas de envolvimento com os crimes e 80 pontos de venda foram interditados. E, mais de seis anos depois dos episódios de falsificação de remédios mais chocantes do país, envolvendo as marcas Androcur e Celobar, a impunidade reinou. O Estado de Minas/ Correio Braziliense apurou que os criminosos não foram devidamente responsabilizados e, em alguns casos, levam uma vida de luxo. Às famílias dos doentes iludidos com a compra dos remédios falsificados, restou apenas a saudade dos que partiram para sempre. A própria Anvisa admite que ―enxuga gelo‖ com as ações de repressão. A situação não é diferente em relação à Receita, que não consegue interceptar mais de 5% de todo o contrabando que passa pela Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu (PR), na fronteira com o Paraguai, principal responsável pelo abastecimento do mercado de piratas no Brasil. Trata-se de um problema que envolve pelo menos 20% dos medicamentos que circulam pelo mundo, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS).

O Parque Industrial de Taiwan, instalado no município de Minga Guazú, a apenas 20 quilômetros de Ciudad del Este, é apontado pela Anvisa como um dos locais onde são montados equipamentos médicos, como aparelhos de pressão. O letreiro na entrada informa que se trata de uma empresa alimentícia, mas no local, um terreno com 500 metros de frente e um quilômetro de extensão, só existem galpões, sem chaminés, necessárias à indústria de alimentos.

56

Exemplo de retranca da série de reportagens:

O último baile foi o da saudade

Jaime Cardoso, 72 anos, Torres (RS) Festa de São João, 24 de junho de …. ―Me falha a memória. Não me faz lembrar. Faz tempo, muito tempo‖. Naquele dia, as barraquinhas estavam montadas na avenida paralela à Igreja Santa Luzia. O frio, muito mais intenso naquela época do ano, desaparecia em meio aos passos marcados do típico vanerão e outros ritmos gaúchos. O copo cheio de quentão também ajudava. Olhou-a como quem já sabia que ela gostava de dançar. Combinou um xote com o primo, tocador de gaita da banda.―Se (sic) mandamos para o asfalto.‖ O par não mais se desfez. ―Foram 10 anos. Não foram 10 dias.‖ Se havia um baile na cidade, os dois estavam lá. ―Foi lindo‖, lembra Jaime.

Alvina Teixeira Clezar sempre foi uma mulher adorável, que gostava de servir e ajudar. Começou no ofício de preparar e servir merenda em uma escola da cidade. Em pouco tempo, ocupou as salas de aula. ―A gurizada era fã dela.‖ Devota de Nossa Senhora Aparecida, não passava um domingo sem visitar a gruta da Santinha, na beira da praia. Assim como os bailes, as procissões tornaram-se um sacrifício por conta de uma dorzinha na coluna, que teimava em não passar.

Procuraram um médico em Porto Alegre. Dr. Ernani Abreu, um profissional com referências. Era especialista em coluna e trabalhava em um dos melhores hospitais da cidade, o Ernesto Dornelles. Abreu indicou um colega, Dr. Walter Schumacher, para operar Alvina em outubro de 2000. Implantariam oito parafusos na sua coluna e o corpo estaria novamente preparado para bailar um tango. Quarenta dias depois da primeira cirurgia, Alvina não conseguia mais caminhar. Tentaram mais duas operações, que de nada adiantaram. ―A coitadinha sofreu demais.‖ Jaime passou a dormir no chão para estar ao lado da mulher e não movimentar a cama durante a noite. ―Queria que ficasse boa, que vivesse.‖ O sacrifício durou dois anos. Os invernos pareceram mais rigorosos naquela época.

57

A dor era tão grande que ela, mulher que só desejava o bem, chegava a pedir que o Dr. Ernani sentisse o que sentia, para entender seu sofrimento. ―Ele errou. Colocaram parafusos nela, mas desses iguais aos de furadeira.‖ Ficou comprovado por perícia que nenhum dos parafusos implantados em Alvina seguia as normas técnicas — todos tinham procedência ignorada. Jaime acompanhou o sofrimento da mulher por seis anos. No fim, já sabia que não haveria um último baile. Alvina morreu em casa. Em um dia difícil, quando não conseguia nem mesmo respirar. ―E pensar que tudo começou com uma dorzinha.‖

Paraguai é rota dos remédios da morte (10 de agosto) Maria Clara Prates – Estado de Minas Ciudad del Este e Foz do Iguaçu – Os remédios e produtos médicos ilegais estão circulando cada vez mais pelo Brasil. Apenas nos sete primeiros meses do ano, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu durante operações de rotina 551.400 medicamentos contrabandeados. O volume é maior que o confiscado nos 12 meses de 2008 e vem crescendo ano a ano. Na segunda matéria da série Cura falsificada, o Estado de Minas/Correio Braziliense mostra que as portas do país estão escancaradas para a entrada de falsificados em sua fronteira mais movimentada. No Paraguai, é possível encomendar não apenas grandes quantidades de comprimidos e ampolas de remédios sem efeito, mas também termômetros, medidores de pressão e até estetoscópios. Somente em uma ação de repressão na região, realizada pela assessoria de segurança institucional da Anvisa em abril, foram apreendidos 21 mil comprimidos de diversos medicamentos, além de equipamentos. O vaivém de turistas pelas ruas apertadas e cobertas de camelôs de Ciudad del Este – município paraguaio fronteiriço com o Brasil –, esconde uma face mais cruel do que a apresentada àqueles que a conhecem em busca apenas de bugigangas. Responsável por 80% dos produtos pirateados que invadem o comércio brasileiro, de acordo com a Associação Brasileira de Combate à Pirataria, Ciudad del Este é também a grande fornecedora de medicamentos falsificados e equipamentos médicos sem registro. Um negócio que encontra em 1 mil quilômetros de fronteiras – seca e de portos clandestinos no Lago Itaipu e Rio Paraná –, todas as facilidades

58

necessárias para prosperar, segundo as próprias autoridades brasileiras, que se sentem incapazes de fechar essa extensa porta.

Diferentemente de organizações criminosas especializadas no tráfico de drogas e no contrabando de mercadorias importadas, o comércio ilegal de medicamentos e equipamentos médicos não tem uma estrutura formal. Pior. É usado o esquema de transporte de outros grupos criminosos para fazer prosperar o seu cruel negócio, com custo zero. Essa fatia de comércio não tem um grande controlador e pode ser abocanhada por qualquer um, de acordo com o chefe da Delegacia de Polícia Federal, José Alberto Iegas. Medicamentos como o Pramil – o famoso Viagra paraguaio –, são produzidos em fabriquetas de fundo de quintal nas proximidades de Ciudad del Este, que podem desaparecer num piscar de olhos e serem reabertas em outro local.

Montagem As facilidades, no entanto, não param por aí. A apenas 20 quilômetros de Ciudad del Este – terceira maior zona franca do mundo, atrás apenas de Miami e Hong Kong –, no município de Minga Guazú, está localizado o imponente Parque Industrial de Taiwan (PIT). Todo em estilo oriental, num terreno imenso com 500 metros de frente e mais de um quilômetro de profundidade, o complexo industrial é apontado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – responsável pelo controle da venda de medicamentos e aparelhos médicos no país – como um centro de montagem de equipamentos importados, entre eles o aparelho de pressão, que inunda as ruas da cidade paraguaia. "As peças vêm da ilha chinesa e os equipamentos são montados ali", afirma um técnico da agência, que pede para não ser identificado.

Apesar de chamar a atenção pela imponência e forte segurança, garantida por carros descaracterizados, com quatro homens em seu interior, a placa do PTI indica que o local é destinado apenas à produção de alimentos. Entretanto, um olhar atento mostra que no interior do terreno estão erguidos apenas galpões, sem chaminés, indispensáveis a este tipo de fabricação. O Estado de Minas/ Correio Braziliense esteve no local e pôde constatar que o centro está em plena expansão. Às 8h, operários já trabalhavam para erguer novos galpões, que vão se somar a mais de um dezenas deles já em funcionamento. Para a Anvisa, uma dor de cabeça a mais. A

59

facilidade de abastecimento de Ciudad del Este tem como reflexo também a facilidade de fazer chegarem os produtos pirateados ao território nacional.

Para entender melhor a falta de interesse na repressão a esse crime no país vizinho, é preciso entender a estreita relação entre o Paraguai e Taiwan. A ilha se tornou ao longo dos anos o maior credor daquele país, o único da América Latina e um dos 23 no mundo que não reconhece a existência da República da China. A importância do Paraguai para Taiwan fica clara também com a visita, em agosto do ano passado, do presidente taiwanês, Ma Ying-Jeou, que ofereceu mais ajuda ao país ao então eleito bispo Fernando Lugo. Lugo disse durante sua campanha à presidência que pretendia rever suas relações com a China, o que poderia significar o fim de uma aliança de mais de 51 anos com Taiwan.

Marinha A partir da análise do terreno fértil em que se prolifera a pirataria, fica fácil entender também por que as operações policiais na região da fronteira de Brasil e Paraguai são tão inócuas quanto os remédios falsos comercializados. Com representantes de organizações criminosas infiltradas nas estruturas do Estado, o vazamento de informação impede o sucesso. De acordo com o chefe substituto da Polícia Federal em Foz do Iguaçu (PR), Ricardo Schneider, os contrabandistas operam na mesma frequência dos rádios da polícia e integrantes da própria Marinha do Paraguai se encarregam de fazer a escolta de embarcações dos criminosos que atravessam o lago com os produtos ilegais. ―Em 2007, foi montada uma operação com cerca de 30 policiais brasileiros para repressão ao crime no Lago de Itaipu, durante à noite, horário preferido das organizações criminosas, em razão da dificuldade de acesso. Para nossa surpresa, fomos atacados a tiros de fuzis que partiram do território da Marinha paraguaia. Revidamos e nos vimos em meio a um tiroteio", conta Schneider.

Não bastasse a grande extensão da fronteira e a escolta oficial, cerca de 80 mil veículos cruzam a Ponte da Amizade por dia, sendo que apenas um mototáxi pode fazer até 20 deslocamentos por dia, segundo a Polícia Rodoviária Federal. É um transporte barato e ágil. Para fazer a travessia, o custo é de R$ 2 numa moto e para transportar remédios falsificados os motoqueiros

60

não cobram mais de R$ 200 pelo mesmo percurso. As autoridades paraguaias não informam o tamanho da frota de motos naquela cidade, a segunda mais populosa do país.

Fisco Levantamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária revela ainda que a capacidade de fiscalização da Receita Federal na Ponte da Amizade não ultrapassa 5% do número de veículos que passam pelo local. Ali, a Anvisa não faz vistoria nos veículos, só atua na análise de mercadorias já apreendidas pelo fisco. Para tentar tornar mais eficaz a repressão, por meio da Assessoria de Inteligência Institucional da Anvisa, em Brasília, são montadas operações especiais periódicas, nas quais foi apreendido o maior número de remédios e equipamentos falsificados ou sem registro.

Para ter ideia da facilidade de invasão do território nacional pelos ilegais, apesar de a Anvisa contabilizar a comercialização de mais de 300 toneladas de remédios falsificados e sem registro, nos dois últimos anos, em operações de rotina da PRF, em Foz do Iguaçu, foram apreendidos apenas 74 mil unidades de Viagra, Reumazin, Pramil, Citotec, em 18 ocorrências, no ano passado. Esse ano, até julho, foram sete ocorrências com apreensão de outros 43,1 mil unidades dos mesmos medicamentos, os preferidos do comércio clandestino. A maior delas, este ano, aconteceu no dia 19, quando vários medicamentos estavam sendo transportados para Maringá (PR), dentro de computadores e brinquedos. Apenas o motorista foi preso. Ele receberia R$ 500 pelo transporte.

Bolívia vende remédio pirata a R$ 2 (11 de agosto) Renato Alves – Correio Brasiliense

San Matías (Bolívia) - A entrada de remédios e equipamentos médicos falsificados no Brasil ocorre não apenas pelos trechos mais movimentados. Na terceira matéria da série Cura falsificada, o Estado de Minas/Correio Braziliense mostra que os produtos sem efeito chegam também pelas fronteiras desertas, caso do limite entre Bolívia e Mato Grosso. A falta de fiscalização no trecho entre San Matías, no lado boliviano, e Cáceres (MT) transforma a região em verdadeira ―terra de ninguém‖. Nem mesmo a apreensão pela Anvisa de 59 mil quilos de 61

remédios falsificados na região, nos últimos 18 meses, estancou o problema. A fiscalização também é falha na divisa entre Brasil e Uruguai. A venda de remédios ocorre em uma grande praça localizada entre os dois países.

Conhecendo os limites entres as cidades de Cáceres, no Mato Grosso, e San Matías, na Bolívia, entende-se por que a região se tornou uma das principais rotas do contrabando e tráfico de remédios falsificados ou proibidos no Brasil. Entre os dois países, são quase 1 mil quilômetros de fronteira seca, com inúmeras trilhas e estradas clandestinas. No lado boliviano, farmácias vendem caixas de todo tipo de medicamento a qualquer pessoa, mesmo aqueles restritos a prescrição médica pelo Ministério da Saúde da Bolívia. São substâncias encontradas facilmente na cidade brasileira próxima.

O Estado de Minas/Correio Braziliense passou três dias na fronteira Brasil-Bolívia apurando o esquema de venda e distribuição de remédios ilegais. Em San Matías, município de 10 mil habitantes, o repórter sofreu extorsão de soldados do Exército boliviano, ameaça de roubo por parte de pedestres e recebeu propostas de taxistas e ciclistas para transportar mercadorias para o outro lado da fronteira. Encontrou desmanche de carros roubados e muita miséria. Também foi alvo de oferta de cocaína, constatou como é simples e barato comprar remédios vetados no Brasil e testemunhou a escassez de fiscalização.

De Cáceres até San Matías são 80 quilômetros pela BR-070. Nesse trecho da rodovia, predomina a paisagem pantaneira — planícies alagadas, árvores apinhadas por pássaros, pastos com centenas de cabeças de gado. Não há povoados, posto de combustível ou qualquer loja ao longo da rodovia. Apenas na saída da cidade mato-grossense, ainda antes do trevo de acesso à estrada que leva a San Matías, existe um posto fixo da Polícia Rodoviária Federal. Nas seis vezes que cruzou o posto, o repórter não foi parado pelos patrulheiros nem presenciou a abordagem a um veículo. Além do pantanal e dos rebanhos de gado de corte, a BR-070 é marcada pelos buracos.

Caminhões carregados com madeira extraída na Bolívia, caminhonetes, carros de passeios com placas brasileiras e táxis com placas bolivianas cortam a estrada regularmente. A um quilômetro 62

da fronteira, fica o destacamento do Corixa, do Exército brasileiro, onde acaba a BR-070 e o asfalto. Os soldados não fazem a guarda nos postos de controle de migração. Esse serviço cabe aos policiais militares e civis do Mato Grosso, integrantes do Grupo Especial de Segurança de Fronteira (Gefron).

Cobertura de palha Em um posto feito de madeira e coberto de palha, montado numa estrada de terra batida a 800 metros do quartel do Exército, um PM e um agente da Polícia Civil pedem documentos a quem entra e sai do país. Os poucos homens da força especial não dispõem de veículos modernos, helicópteros, armas pesadas, cães farejadores ou equipamentos para vistoriar bagagens e carros, como raios X. Ao lado do posto do Gefron, fica uma unidade abandonada da Receita Federal e um trailer da Anvisa, com dois agentes de saúde preocupados com a gripe suína.

Seguindo conselhos de policiais federais especializados no combate ao narcotráfico em Mato Grosso, o repórter não atravessou a fronteira com o carro alugado. Se o fizesse, seria alvo certo de roubo ou latrocínio (assalto com morte), segundo os federais. Com isso, ele deixou o veículo ao lado do posto do Gefron, perto de outro barraco de madeira, onde há um cômodo com um pano na entrada e a placa ―Banheiro 50 centavos‖, outro cômodo com balcão e uma geladeira, ocupada por refrigerante, cerveja e água. É o terminal de ônibus do lugar.

A dona do imóvel improvisado cobra R$ 1 pela vaga embaixo de um pé de manga. Ela também ajuda a organizar as viagens de táxi. Em média, a corrida de ida a San Matías, em sete quilômetros por uma estrada esburacada num carro aos pedaços, custa R$ 10.

Oferta de drogas Em San Matías, uma miniatura do Cristo Redentor dá as boas-vindas. Na seca, a estátua de cimento pintada de branco fica encoberta pela poeira da terra vermelha. A imagem é o símbolo do município. Dá nome ao clube de futebol local, o Cristo Rei, que joga em um campo gramado, sem arquibancada ou iluminação. Há ainda a praça central, com a bandeira do país, bancos de madeira, imagens de anjos quebradas, fonte luminosa sem energia e água.

63

Ali, as pessoas se encontram, os mais velhos descansam, as crianças brincam e criminosos oferecem remédios ilegais e cocaína aos brasileiros. Tudo em frente ao batalhão da Polícia Militar, de onde saem os soldados atrás dos estrangeiros. O brasileiro que se atreve a descer do carro e parar na praça central ou alguma rua está sujeito à abordagem dos militares. Jovens de corpos mirrados, pouco maiores do que o fuzil que carregam, pedem os documentos do forasteiro e, sem cerimônia, propinas como se fossem gorjetas, para evitar a revista. Os militares ganham, em média, o equivalente a R$ 200 mensais. Com isso, se dão por satisfeitos com uma propina de R$ 5.

Dinheiro público financia medicamentos falsificados (12 de agosto) Alana Rizzo e Thiago Herdy – Estado de Minas Curvelo (MG) e Carazinho (RS) – O poder público está comprando produtos piratas. O maior acesso dos municípios às ferramentas de pregão eletrônico tem levado prefeituras e órgãos estaduais a obter remédios e equipamentos médicos das mãos de fornecedores com CNPJ em dia, mas localizados a centenas de quilômetros de distância e incapazes de garantir a origem dos produtos. Na quarta matéria da série Falsificação da cura, o Estado de Minas/Correio Braziliense mostra que a disseminação de itens falsificados pelo país deixa o sistema público de saúde do Brasil cada vez mais vulnerável. Governos desempenham papéis distintos. Na maioria das vezes, alegam serem vítimas dos distribuidores e da lógica do menor preço estabelecido pela Lei de Licitações. Mas nem sempre desconfiam dos valores muitos baixos ou verificam indícios de fraude.

Obrigada pela Justiça a fornecer 23 caixas mensais de Viagra a uma moradora vítima de hipertensão arterial (leia ao lado), a Prefeitura de Curvelo, na Região Central de Minas, abriu licitação para aquisição do medicamento por meio do portal Cidade Compras, da Confederação Nacional dos Municípios (CNM). Localizada a 1.700km de distância e com a proposta de oferecer cada caixa com quatro comprimidos a R$ 89,99 (valor 29,5% menor que o preço de tabela), a Dentisfar Comércio de Produtos Farmacêuticos Ltda., sediada em Carazinho, no Rio Grande do Sul, ficou à frente de outras cinco concorrentes e venceu a disputa.

64

O contrato com a prefeitura mineira é de julho de 2007, mas, cinco meses depois, a usuária do medicamento denunciou que os comprimidos eram falsos. A polícia apreendeu os lotes armazenados na prefeitura e notas fiscais fornecidas pela Dentisfar. Exames realizados pela Fundação Ezequiel Dias e consultas ao laboratório comprovaram a fraude. Notas fiscais emitidas em novembro de 2007 e março de 2008 citam a venda dos lotes 604883004A e 5048012D. Os laudos atestaram que a marca d‘água dessas caixas era falsa. A Pfizer informou ainda que as datas de fabricação e validade não conferiam com os registros originais. Os remédios falsificados não haviam sido entregues por uma distribuidora qualquer. Pesquisa nos portais de compras do poder público em todo o Brasil mostra que a Dentisfar já participou de licitações da Câmara dos Deputados, Ministério Público do Distrito Federal, governo de Goiás, além de dezenas de prefeituras dos três estados da Região Sul, Minas, Bahia e até Rio Grande do Norte. De 2005 até os primeiros meses deste ano, apenas o governo federal pagou à empresa R$ 1,7 milhão por insumos médicos, principalmente para as Forças Armadas.

A Prefeitura de Curvelo rompeu o contrato com a empresa. A Polícia Civil de Minas instaurou inquérito e enviou, em setembro do ano passado, carta precatória à Delegacia de Carazinho. O documento determinava a tomada de depoimento dos sócios da Dentisfar à época: Neusa Carmen Becker, Milton Jorge Rabuske Xavier, Cristiano Rosseto da Silva, João Carlos Ortiz da Silva e Juliano Porto. Quase um ano depois, o resultado não havia chegado a Minas.

Prédio Em Carazinho, a 280 quilômetros de Porto Alegre, quase ninguém sabe que os donos da rede de farmácias Brasil, com três unidades, são proprietários de uma das distribuidoras de maior porte da região.O novo prédio foi construído com recursos do Fundo do Amparo ao Trabalhador (FAT). Cinco funcionários protegem o portão, que passa a maior parte do tempo fechado. A reportagem tentou ouvir o dono da empresa, que hoje pertenceria a João Carlos Rabuske Xavier, segundo funcionários. Eles afirmaram que ele estava viajando e ninguém mais poderia falar. Ao lado da sede está instalada a nova farmácia do grupo. Um banner garante medicamentos com até 60% de desconto. Em consulta ao site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a reportagem não encontrou autorização de funcionamento. Além das drogarias, Rabuske é conhecido pela fabricação de remédios manipulados. 65

O empresário é sócio de outra empresa, a J.C. Xavier e Cia, que tem 147 protestos em cartório, além de 17 pendências financeiras. O empresário Márcio Schneider é sócio minoritário da empresa. Os dois também são donos da Schneider e Xavier Ltda.

A reportagem deixou recado com os funcionários da empresa, porém, ninguém retornou. O Estado de Minas/Correio Braziliense procurou também os sócios na época em que o inquérito foi aberto. Nem todos foram encontrados. O advogado Cristiano Rosseto negou qualquer envolvimento. ―Eu e meu pai vendemos há muito tempo. Na nossa época, a empresa era só uma sala e tinha poucos clientes‖.

Nem câncer escapa de medicamentos falsificados (13 de agosto) Thiago Herdy – Estado de Minas Rio de Janeiro (RJ) – A vertente informal do milionário mercado da saúde une falsificadores, ladrões de carga de medicamentos e corruptores de funcionários de hospitais públicos em torno de um objetivo comum: obter lucro fácil a qualquer custo. Para garantir o sucesso, fraudadores montam uma intrincada rede de empresas, a maioria de fachada e em nomes de laranjas, para dificultar as ações de repressão e facilitar a lavagem de dinheiro do negócio sujo. Na quinta matéria da série Cura falsificada, o Estado de Minas/Correio Braziliense mostra que, antes de chegar às mãos do consumidor, caixas de remédios caros percorrem um longo caminho até ganhar uma aparência legal, tanto os falsificados os quanto os roubados. Só nos últimos 18 meses, a Anvisa notificou o roubo de 80,3 toneladas de medicamentos.

Quem observa o comerciante Jorge Otto Quaresma entre lâmpadas, acessórios para pipas, baldes e cestas em sua loja no segundo andar do Mercadão de Madureira, no subúrbio do Rio de Janeiro, dificilmente imagina que do outro lado do balcão está um homem que vende, além de bugigangas, remédio para tratamento de leucemia (doença que se caracteriza pela proliferação cancerosa de células precursoras dos glóbulos brancos na medula óssea e no sangue).

Mas os produtos que oferece na área de saúde não podem ser postos na vitrine, por um motivo simples: são falsificados. O esquema de Otto, que já tem em sua ficha criminal um indiciamento por receptação de cargas de remédio roubadas, foi descoberto depois que farmacêuticos do 66

Hospital São Lucas, da PUC do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, desconfiaram das 10 caixas de Glivec 400mg vendidas ao hospital universitário pela distribuidora gaúcha Multifarma, há cerca de um ano e meio.

As embalagens não tinham lacre de segurança, e os comprimidos apresentavam tonalidade diferente da usual. O dono da Multifarma, o gaúcho Cláudio Vieira da Silva, de 34 anos, que também já foi preso por receptação de remédios roubados, apressou-se em explicar a origem do medicamento: as caixas haviam sido compradas do carioca Jorge Otto, a quem conhecia como ―o cara que trabalhava com Glivec‖. No mercado da morte, este é um posto ―respeitável‖, afinal, duas caixinhas simples, com 30 comprimidos do medicamento, cada, custam o mesmo que um carro popular (R$ 22,8 mil). Para comprovar a origem do remédio, Cláudio telefonou para Otto diante dos representantes do hospital. A ligação foi colocada no viva voz, e Otto jurou ter adquirido o produto do próprio fabricante, o laboratório Novartis.

Mas, chamado a depor na Superintendência Regional da Polícia Federal (PF) no Rio de Janeiro, Otto admitiu a farsa. Disse ter comprado as caixas, alguns meses antes, das mãos de um representante da Armazém Central de Medicamentos Ltda., empresa de Santos (SP). O comerciante contou ainda que, antes de serem enviados ao Sul, os remédios foram repassados ao empresário carioca Miguel Ângelo dos Santos Jacob, dono da distribuidora Nova Vitória. Ele teria repassado os produtos à distribuidora gaúcha, por R$ 4 mil, cada caixa. O valor é equivalente a apenas 34% do preço de tabela do remédio (R$ 11,4 mil).

A situação de Otto e Jacob se complicou quando a polícia descobriu que, além do Hospital São Lucas, a distribuidora carioca Onconeo recebeu da dupla caixas de Glivec falsificado. O laboratório Novartis denunciou que a Onconeo encaminhou os remédios sem efeito a uma distribuidora de medicamentos do Espírito Santo e a um paciente de Eunápolis (BA). Chamado a depor, o dono da empresa, Carlos Fernando Ferreira de Oliveira, disse que comprou os remédios da Nova Vitória. Até 2008, um dos sócios da Onconeo era ninguém menos que Miguel Jacob.

67

PF descobre testa de ferro A Polícia Federal (PF) acredita que Jorge Otto, na verdade, seja testa de ferro de Jacob, que atua no ramo de distribuição de medicamentos há quase 20 anos. O dono da loja no Mercadão de Madureira admitiu ter forjado a venda de remédios à empresa do ―amigo‖, por meio da emissão de notas fiscais frias, ―para que o mesmo acertasse sua contabilidade‖, conforme disse em depoimento. Para este fim, ele usava o nome da empresa de distribuidora de medicamentos que mantinha em seu nome, a Ciblay-Rio Distribuidora de Produtos Hospitalares. As notas são datadas de 2006 e 2007, mas Otto jura que a firma foi fechada em 2005. Outra prova da cumplicidade entre a dupla seria o depósito de R$ 10 mil feito por Jacob na conta bancária do ―amigo‖, em fevereiro de 2007. A explicação de Otto para a transferência é, no mínimo, curiosa: segundo ele, trata-se de um empréstimo para a compra de linha de pipa.

O envolvimento da dupla com a venda de Glivec é antigo, segundo documentos apreendidos pela polícia. Uma nota fiscal da Ciblay-Rio redigida por Jorge Otto em 2006 registra a venda de seis caixas do medicamento à Nova Vitória Comércio de Produtos Hospitalares, empresa de Jacob, mais de um ano antes das vendas ao hospital do Rio Grande do Sul e à distribuidora carioca. Perguntada sobre a ocorrência de possíveis vítimas do uso do remédio falsificado, a assessoria do hospital gaúcho informou que não comentaria o episódio. Em depoimento à polícia, Miguel Jacob admitiu ter vendido o medicamento a outras distribuidoras em outras ocasiões, mas negou que fossem falsificados.

No fim do ano passado, o procurador Eduardo André Lopes Pinto, do Ministério Público Federal (MPF), informou em ofício estar convencido do envolvimento de Jacob e Otto com o crime, mas pediu declínio da competência do MPF no processo, por entender que o episódio deveria correr na Justiça estadual, pelo fato de o estado do Rio de Janeiro ter sido lesado pela quadrilha. A juíza federal Rosália Monteiro Figueira, da Primeira Vara Federal Criminal, atendeu à solicitação e determinou o envio dos autos ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. O processo corre em segredo de Justiça.

68

Remédio pirata mata e falsificador fica impune (14 de agosto) Thiago Herdy – Estado de Minas Rio de Janeiro (RJ) – Nos episódios que chocaram o Brasil e serviram como primeiro alerta para o risco da falsificação de remédios e equipamentos médicos, envolvendo as marcas Celobar e Androcur, a sensação de impunidade foi o que restou às famílias das vítimas, além da saudade. Na sexta e última matéria da série Cura falsificada, o Estado de Minas/Correio Braziliense mostra que a venda feita pelo laboratório do Celobar a uma empresa off-shore uruguaia, poucos meses antes do escândalo, pode ter facilitado a ocultação de bens do dono, o empresário carioca Márcio D‘Icarahy. Condenado à prisão, ele não ficou preso porque recorre da decisão em liberdade. Mesmo caso do empresário José Celso Machado de Melo, responsável pela distribuição do Androcur falso. Ele abriu uma empresa de cosméticos, que também são tratados pela Anvisa como produtos de saúde.

José Celso anda em carro de R$ 90 mil e divide os fins de semana entre o sítio e a gruta que comprou perto de Belo Horizonte. A falsificação do contraste para radiografias da marca Celobar completa seis anos sem que as famílias das 22 vítimas da substância tenham qualquer perspectiva de receber reparações pelo episódio. Isso porque poucos meses antes do escândalo envolvendo o laboratório carioca Enila, responsável pela fabricação do medicamento, uma empresa off-shore uruguaia, a Medvac Med Y Vacunas Interamericanas, adquiriu nada menos do que 62% do laboratório. Em 2003, a adulteração do contraste matou duas dezenas de pessoas e deixou 250 com sequelas.

O registro da empresa no Uruguai, obtido pelo Estado de Minas/Correio Braziliense, mostra que todos os atos de administração, apropriação e disposição do patrimônio da Medvac no país vizinho foram delegados, na época, a Paulo Henrique Oliveira Rocha Lins. Trata-se do advogado do empresário Márcio D‘Icarahy Câmara Lima, o dono do laboratório Enila. Ele também detinha procuração para defender os interesses da Medvac Brasil. O sigilo comercial garantido pelo governo uruguaio às companhias ali instaladas impossibilitou à Justiça brasileira saber quem eram os reais donos da Medvac e o patrimônio de que dispunham.

69

Como a falência do Laboratório Enila foi decretada pouco tempo depois do escândalo envolvendo o Celobar, restou aos antigos funcionários e vítimas do medicamento lutar pela apropriação dos bens imóveis que não foram vendidos, mas que ainda vão a leilão. Esse processo tornou-se ainda mais lento depois que Joelson Reis, antigo funcionário da empresa, decidiu se mudar para a antiga fábrica de líquido para contraste com o pai, o irmão e mais de 100 cães vira-latas que recolheu pela rua. ―Só saio daqui quando me pagarem R$ 350 mil de indenização‖, garante.

Advogado de duas das 22 vítimas do Celobar, Ricardo Dezzani aposta em nova estratégia para garantir o pagamento a seus clientes: cobrar a conta da multinacional de medicamentos Glaxo Smithkline, sob alegação de que a empresa e o Laboratório Enila faziam parte do mesmo grupo econômico na época do episódio envolvendo o Celobar. A ligação entre as duas firmas teria sido feita pela própria Glaxo, em processo que tramitou na 27ª Vara Federal do Rio de Janeiro, em razão de o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) ter declarado a perda dos direitos sobre uma marca que ambas usavam. A Justiça do Trabalho também proferiu decisões que consideravam as duas empresas parte de um mesmo grupo. ―A última possibilidade de os familiares das vítimas receberem alguma indenização depende dessa conexão. Mas o processo anda muito lento na Justiça‖, afirma Dezzani. A Glaxo Smithline Brasil contesta a alegação do advogado e afirma que nada tem a ver com a conduta praticada pelo Laboratório Enila, por isso não poderia ser responsabilizada pelo ocorrido, tampouco pagar indenização pelo erro cometido por outra empresa. Em janeiro deste ano, o diretor-presidente do Laboratório Enila, Márcio d‘Icarahy, foi condenado pela 38ª Vara Criminal do Rio a 20 anos de reclusão em regime fechado. Na mesma sentença, o químico da empresa, Antônio Carlos da Fonseca Silva, responsável pela fabricação da substância, foi condenado a 22 anos. Mas os dois recorreram da sentença e estão em liberdade, o que revolta parentes e amigos das vítimas. D‘Icarahy não mora mais no luxuoso prédio na Barra da Tijuca. O Tribunal de Justiça do Rio tem dificuldades para encontrá-lo. Ele foge de oficiais de Justiça, por isso é citado apenas por edital nos processos em que figura como réu.

70

Acusado pela Justiça de distribuir centenas de caixas de de Androcur, remédio falsificado para combate ao câncer de próstata, em 1998, o empresário José Celso Machado de Castro não pagou indenizações às vítimas, recorre em liberdade à sentença da Justiça de São Paulo que o condenou a 16 anos de prisão e leva uma vida de luxo em Belo Horizonte e na região metropolitana. Na mesma rua do Bairro Floresta, na capital mineira, onde funcionava a Dinâmica Medicamentos – empresa de onde os falsificados saíram para ser distribuídos a pacientes de todo país – ele abriu a Look Distribuidora de Cosméticos e Equipamentos Ltda.

A empresa é representante em Minas da marca de cosméticos alemã Schwarkopf, mas não tem autorização para distribuição de produtos de beleza por parte da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), conforme determina a Lei 9.782/99. A informação foi confirmada pelo próprio órgão de vigilância. Alvo de dezenas de processos de indenização por danos morais e materiais, José Celso tomou o cuidado de colocar 99% das ações da nova empresa no nome da sogra, Ireni Nunes Rosa, de 67 anos, que vive em Anápolis, em Goiás. A Look foi registrada em 2007, conforme documentos da Junta Comercial do Estado de Minas Gerais.

O empresário se locomove em uma caminhonete de luxo importada, modelo Hyundai Santa Fé, ano 2008, registrada em nome da empresa. O veículo custa R$ 90,8 mil, valor 45 vezes maior do que a pensão paga mensalmente pelo INSS à viúva do ex-prefeito de Timóteo, no Vale do Aço, Antônio Dias Martins, de 62 anos. Dias morreu depois de consumir Androcur falsificado na farmácia mantida pelo empresário, e a família nunca recebeu indenização do distribuidor do medicamento.

71

Anexo 2 – Íntegra da entrevista com a jornalista Maria Clara Prates Renata Martins - De onde surgiu o tema para a série de reportagens? Maria Clara Prates - A história começou com a Alana Rizzo. Ela ouviu de uma pessoa que estava sendo muito grande o número de falsificação e equipamentos médicos no Brasil. A partir daí dessa fala dela, começamos a correr atrás de informação aonde era possível. Fomos a feiras de equipamentos médicos e procuramos pessoas que poderiam nos ajudar a descobrir o que estava acontecendo. Os inquéritos policiais até já existiam. Até que conseguimos chegar em um delegado da Anvisa que estudava não só de medicamentos, mas como de equipamentos médicos, de uma forma geral. Ele já tinha feito vários trabalhos e nos deu a dica. A partir do que ele já tinha levantado, até então, nós estabelecemos rotas para saber de onde vinha esse medicamento, onde era produzido, por onde entrava no Brasil, e cada um pegou uma frente, e fomos fazer essa trajetória para tentar comprovar que ali realmente era o caminho usado pelos contrabandistas. Foi uma apuração muito longa, mais de seis, sete meses entre a informação ter chegado e a matéria ter sido publicada.

RM - Havia envolvimento muitos profissionais? MCP - Na verdade os envolvidos eram eu (Maria Clara Prates) o Tiago Herdy e a Alana Rizzo. O Renato Alves, do Correio Brasiliense, entrou só no final. Como a gente tinha um prazo para publicar a matéria, que era curto, tivemos que dividir entre nós, que fizemos toda a apuração (eram vários roteiros a serem seguidos) e pensamos nele. Mas ele entrou quando a matéria já estava apurada.

RM - Como foi a rotina produtiva? Viagens, o encontro com os entrevistados. MCP - Eu fui para a fronteira do Brasil com Paraguai, região de Foz do Iguaçu. Thiago fez todo o interior de Minas Gerais, São Paulo e Rio. A Alana fez o Sul do Brasil, onde tem a maioria de vítimas da falsificação de equipamentos, de próteses e remédios. Ela fez as fábricas e a fronteira. O Renato fez mato Grosso e a fronteira com a Bolívia. Os roteiros eram muito díspares um do outro, por isso, essa divisão. Nós fizemos tudo, produzimos, levantamos informação, fomos atrás. Não existe produtor em jornal impresso. Fizemos literalmente tudo. A gente desenha, pensa como vai ser a página, quais ilustrações usar, não tem ajuda não.

72

RM - O jornal deu o aval para toda essa produção? MCP - Sim, mas depois que reunimos um número X de informação. Você leva ao editor, ao chefe, e mostra, informando que precisa de tais e tais viagens, então ele decide. Quando falamos com Josemar (Gimenez, diretor de redação) a quantidade absurda de medicamentos falsificados ele topou na hora. Inclusive, fomos nós que fizemos o levantamento de custo. Se ele achar que vale a pena, autoriza.

RM - Como foi a parte de produção, a procura por fontes? MCP - Nós três (Maria Clara, Thiago e Alana) corremos atrás de tudo. Conversamos com muita gente mesmo. No brasil não tem esses dados consolidados. As Secretarias não tem os números de medicamentos apreendidos, é um número muito disperso. Penamos muito para conseguir esse dado fechado. Fomos somando tudo até chegar a um valor.

RM - Vocês ouviram, como fontes, desde pessoas comuns até fontes oficiais? MCP - Foi. Começamos na rua, com vendedores e falsificadores. Pessoas que fabricavam, importadores, com camelôs, com consumidor, quem compra e acha que não tem importância. Aí completamos a cadeia com lojistas, fomos negociando. Depois falamos com gerentes de lojas, porque os vendedores ofereciam uma mercadoria que não poderia ser oferecida, e fomos evoluindo. Conversamos com guarda de fronteira, eu falei com a polícia federal em Foz do Iguaçu, falei com a polícia rodoviária federal. Falamos com todas as pessoas envolvidas no combate a isso no país, inclusive com o ministro. Cada um foi remontando. A Alana, por exemplo, ficou com uma parte legal, ela pegou o maior número de vítimas. Eu tratei mais com a bandidagem, com os responsáveis por colocar essa mercadoria no mercado.

RM - Vocês conseguiram o que queriam, ficou satisfeita com a repercussão? MCP - Eu não leio as matérias depois que eu fecho, mas em termos de repercussão, foi muito bom. Nesse aspecto acho que valeu muito a pena, sem falar que é uma reportagem muito gostosa, todo repórter sonha em fazer uma reportagem assim.

RM - Vocês usaram métodos considerados ilícitos para conseguir obter informações primordiais para a matéria? É a favor de grampos, mentir sobre a profissão, disfarces? 73

MCP - Nós fizemos gravações com câmera escondida. Eu fiz várias, estava no Paraguai comprando medicamento adulterado. Simulei várias negociações, várias compras. É arriscado porque eles são muito espertos. Depois eu liguei e me apresentei como jornalista, falei tudo. Eu acho que não vale é roubar documento, nunca fiz e nunca faria. Gravar conversas sim, mas desde que você depois procure a pessoa e fale com ela da gravação. Ninguém envolvido em escândalos vai admitir o ilícito, por isso é válido.

RM - Você correu riscos enquanto estava fazendo apuração para as reportagens? MCP - É muito arriscado. Ali na fronteira, quem conhece sabe que é a bandidagem, a gente morria de medo. Compramos uma máquina de turista para fazer as fotos, para não nos caracterizar jornalistas, o tempo todo preocupados, só andávamos de táxi, não alugamos carro, para aparecer o mais sacoleiro possível. Inclusive fizemos várias compras no Paraguai para voltar cheio de sacolas e ter um ar mesmo de sacoleira. Mas lá é muito perigoso mesmo, se eles descobrem...O camelô que fica na rua é a ponta de um comerciante, esse comerciante, por sua vez, é um braço de um grande revendedor. No Paraguai tem uma fábrica do Taiwan que fala que fabrica doces, mas não tem uma chaminé. Então você vê claramente que aquilo é só fachada. Mas não fui ameaçada e ninguém percebeu, graças a Deus. Mas é sempre uma tensão, cada vez que você aborda, negocia. Negociei 300 aparelhos de pressão, e o preço só caindo, e a gente nem tinha dinheiro pra isso.

RM - As pessoas sabem que estão comprando falsificados? MCP - As pessoas sabem que estão comprando e sabem que estão revendendo. Acham que não tem problema. Não se importam, acham que é normal. O preço é muito mais baixo. Na época o Viagra estava a 90 reais aqui, lá se comprava por 5 reais, preço de banana. Mas você vê claramente que é falsificado, não tem como dizer que comprou enganado. Não só pelo preço, mas pela aparência do produto, vê-se que é adulterado. As instruções dos aparelhos de pressão são todas em chinês, não tem selo do INMETRO. Qualquer pessoa que bate o olho fala que é falsificado. Os estetoscópios parecem de plástico.

74

RM - Qual a diferença do jornalismo convencional para o investigativo? MCP - Eu acho que quem faz a diferença entre esses dois gêneros é o repórter. Quanto mais curioso, fuçador e inquieto ele for, mais aprofundado será seu trabalho. O que diferencia o jornalismo investigativo é o repórter, se ele gosta de fazer esse trabalho, se tem paciência, se não se satisfaz com a primeira informação. As vezes tem uma pauta só para informar, mas tem casos que você fica ―incucado‖, quanto maior a curiosidade do repórter, mais investigativo será o trabalho dele. A gente não só se pauta por interesse público, batalhamos por algo que achamos que vale a pena. É como quando você começa a cavar, começa pela superfície e vai aprofundando.

RM - É possível ser neutro e imparcial com reportagens investigativas? MCP - É difícil. Se é algo muito revoltante, você também fica revoltado como cidadão, não só como jornalista. Mas uma coisa é o que você sente, outra coisa é o que você escreve. Na hora que estou redigindo eu tento ser o mais neutra possível, mesmo diante de toda a minha indignação. Uma coisa sou eu como cidadão, outra como jornalista. E como jornalista eu tenho que cumprir alguns critérios, como tratar os dois lados de uma mesma forma, isso eu tento fazer. Eu posso torcer para se ferrarem, mas eu não ponho isso no papel. Mas ninguém destrói alguém gratuitamente, tem um peso para gente também.

RM - Nesse caso das reportagens investigativas alguém foi julgado com a ajuda da série? MCP - Na verdade já tinha um processo de prisão de várias pessoas, a polícia já estava nessa investigação. Talvez a maior importância tenha sido chamar a atenção para o tamanho do problema. Como era muito espaçado, ninguém nunca tinha juntado tudo. Com as reportagens chamou a atenção para de fato o que está acontecendo no Brasil em relação à falsificação de remédios e equipamentos médicos, a dimensão do problema. Esse foi o principal mérito.

RM - É possível não agredir o campo moral e ético no jornalismo? MCP - É sim, e é nossa obrigação. Qualquer profissão pode destruir uma pessoa. É assim também no jornalismo. Você destrói a pessoa moralmente. Isso é uma morte também, talvez é até pior, mais lenta, mais agoniada. Não tem como fazer jornalismo sem ética. Isso é impossível.

75

A gente comete alguns descuidos, erramos as vezes, como em qualquer profissão. O negócio é trabalhar para que não haja, evitar o máximo possível (erros).

RM - O jornalista tem um quê de denuncismo, de querer ser polícias as vezes? MCP - Tem um pouco sim. Tem um pouco da ideologia mesmo, de imaginar que você vai concertar o mundo, e é muito frustrante. Nós publicamos reportagens mostrando mazelas do governo e não muda nada. O difícil no jornalismo é lidar com isso. Você ver que figuras envolvidas em um grande escândalo continuam aí, eles continuam no mesmo cenário, as vezes até mais poderosos (cita Sarney). Quando se sai da faculdade a gente tem um ideal, mas na prática, precisa de muito suor, paciência e muitos anos para ver uma punição ser aplicada em uma pessoa com maior nível social.

76

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful