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Angela Davis – Estarão as Prisões Obsoletas?

Capítulo 1- Introdução: Reformar ou abolir o sistema prisional?

A autora faz um contraponto ao fato de que as prisões na contemporaneidade são encaradas


com naturalidade a partir de um caráter inevitável e permanente. Mesmo os ativistas
prisionais, em muitas vezes, não pretendem abolir o sistema prisional, mas defendem uma
reforma para que o torne melhor.

Davis (2003) afirma que o encarceramento em massa foi o programa social governamental
mais abrangente adotado nos Estados Unidos a partir da década de 1980. Discorre que foi a
partir da Era Reagan que houve esforços para a construção de mais prisões e encarcerar um
número cada vez maior de pessoas, e que os discursos políticos que vendiam essa ideia eram
pautados em severas medidas no combate ao crime, tendo como função manter as
comunidades livres da criminalidade.

Relata o desenvolvimento de um verdadeiro complexo industrial-prisional, tendo em vista que


esse novo tipo de negócio estava atraindo cada vez mais vultosas quantias em virtude do
envolvimento corporativo na construção, no fornecimento de bens e serviços e no uso da mão-
de-obra prisional.

Destarte, convém destacar que a prisão passou a ter, com muita influência midiática, como um
destino reservado àqueles que são considerados à margem da lei. Ademais, devido ao
racismo, pessoas criminosas são imaginadas como pessoas de cor. E a prisão é a oportunidade
perfeita para “despeja-los”, pois são indesejáveis para o restante da população.

Por trás do aumento da população carcerária estão grandes corporações que se associam à
indústria da punição para obter lucros. O complexo prisional-industrial abrange verdadeiros
detritos do capitalismo contemporâneo, o que faz com que a prisão reproduza igualmente as
condições pelas quais levam o indivíduo ao cárcere.
Capítulo 04- Como o gênero estrutura o sistema prisional

De acordo com Davis (2003), as mulheres foram deixadas de fora da discussão pública sobre
a expansão do sistema prisional dos Estados Unidos. Acreditar que as instituições carcerárias
masculinas são o padrão que as femininas devem seguir vai de encontro ao enfoque a
abolicionista carcerário.

A autora discorre que no final da década de 60 instituições carcerárias contavam com


pressupostos baseados na emulação da prisão ao ambiente doméstico, ou seja, as “criminosas”
só se regenerariam por meio da assimilação de comportamentos femininos adequados, como
cozinhar, limpar e costurar.

Além disso, o ativismo antiprisional sempre centrou-se nas dificuldades dos prisioneiros do
sexo masculino, tendo como consequência a invisibilidade da mulher encarcerada. E a
justificativa para tal era de que o número de mulheres nessa condição era ínfimo se fosse
comparado ao dos homens.

A partir do anos 80, com o boom do encarceramento nos Estados Unidos e no restante do
mundo, levou a um aumento cada vez mais vertiginoso da população carcerária feminina, e
Davis (2003) ainda afirma que essa população é a que mais cresce dentro do sistema prisional
nos EUA.

Desde o fim do século XVIII, que foi o período que a prisão começou a constituir como
principal meio de punição mundial, a criminalidade feminina não era considerada. Enquanto
que para os homens o crime era considerado mais “normal”, para as mulheres eram relegados
os significados mais insanos e cruéis.

Apesar deste novo tipo de punição começar a se expandir, isso não abarcou as mulheres de
imediato, que continuaram a sofrer com formas de punição que não eram públicas. Sendo
assim, era muito mais fácil uma mulher criminosa ser internada em instituições psiquiátricas
do que em prisões, honrando seu título de “insana”, etiquetado pela sociedade. Em suma,
apenas os homens eram vistos como criminosos.

Entretanto, há uma diferença nesse etiquetamento, conforme dispõe a autora, pois, enquanto
para mulheres brancas e ricas o título de “insana” tendia a servir como evidência de
transtornos emocionais e mentais, para mulheres negras e pobres, indicava criminalidade. Ou
seja, a invisibilidade dessas mulheres era patente visto que estava inserida em outro tipo de
invisibilidade.

Começou a surgir, no século XIX movimentos que pediam que as mulheres fossem incluídas
na reforma do sistema prisional, entretanto, as mulheres que cumpriram pena entre 1820 e
1870 não se beneficiaram dessa reforma. Os reformistas alegavam que era necessário que
houvesse instituições penais separadas em uma abordagem especificamente feminina. Esse
tipo de abordagem correspondia a substituir as celas por pequenas casas e “quartos”, de forma
a introjetar a domesticidade na prisão a fim de que as criminosas sejam reintegradas aos
papeis de esposas e mães.

Entretanto, esse treinamento de se almejar boas esposas e mães, na verdade era uma escusa
para que mulheres pobres, sobretudo as negras e latinas, ao serem libertas, executassem
serviços domésticos, e ao invés de esposas e mães, muitos prisioneiras ao deixarem o cárcere,
tornavam-se empregadas domésticas, cozinheiras, passadeiras e lavadeiras de mulheres mais
abastadas.

Discorre Davis (2003), que:

Vinte e um anos depois da inauguração em Londres do primeiro reformatório inglês


para mulheres, em 1853, o primeiro dos Estados Unidos foi aberto em Indiana. O
objetivo era treinar as prisioneiras na “importante” função feminina da
domesticidade. Assim, um importante papel do movimento de reforma nas prisões
femininas foi incentivar e arraigar papeis de gênero “apropriados” como formação
profissional em culinária, costura e limpeza. Para acomodar esses objetivos, as
pequenas casas dos reformatórios costumavam ser projetadas com cozinhas, salas de
estar e até berçários para as prisioneiras com bebês.

Contudo, esse tratamento era diferenciado no que tangia à cor e a etnia, pois mulheres negras
e nativas eram muitas vezes separadas das brancas. Conforme o sistema prisional norte-
americano evoluiu em meados do século XX, o sistema de pequenas casas com seu
treinamento doméstico, foi ideologicamente construído para abrigar prisioneiras brancas, e em
relação às outras (negras e nativas), eram destinadas punições que não tinham a ver com
algum resquício de feminilidade.

Destaca Zedner (apud Davis 2003), que as mulheres de todas as origens raciais geralmente
cumpriam mais tempo de pena pelo mesmo crime cometido por homens. Isso ganhou força,
sobretudo com o movimento eugenista, que buscava retirar as mulheres geneticamente
inferiores da circulação social durante a maior parte possível de seus anos férteis.

Já no início do século XXI, as prisões femininas começaram a aparecer mais com suas
homólogas masculinas, particularmente aquelas construídas na era do complexo industrial-
prisional, e o suposto objetivo de reabilitação do cárcere foi substituído pela incapacitação das
pessoas mantidas nessa condição.

Surgiram logo após, diversos movimentos propondo a paridade de tratamento entre as prisões
masculina e feminina. Isso colocou a prisão masculina como um verdadeiro espelho pelo qual
a feminina deveria se espelhar. Sendo assim, em vez de criar melhores oportunidades
educacionais, profissionais e de saúde para as prisioneiras, acabaram levando a situações
extremamente repressivas a elas.

É importante refletir em como as instituições carcerárias, não só nos Estados Unidos, como no
mundo, perpetuam o racismo, a misoginia e a xenofobia. Sobretudo a partir do aparato do
complexo industrial-prisional composto por empresas da iniciativa privada em conjunto com
o Estado, que ratifica e perpetua a violência contra a mulher.