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DOI: 10.

17666/bib8704/2018

Uma etnologia no Nordeste brasileiro: balanço parcial


sobre territorialidades e identificações

Maria Rosário de Carvalho²


Edwin B. Reesink 1

Introdução o contrário ultrapassaria, em larga extensão,


o objetivo pretendido –, poderemos estar
Este artigo tem como objetivo proce- eliminando falsas ou equivocadas frontei-
der a um balanço da produção bibliográfica ras que, em geral, criam descontinuidades
sobre os temas de territorialidade e identi- induzidas por certos preconceitos (de cará-
dade no âmbito da etnologia ameríndia das ter etnológico), desconhecimento ou uma
Terras Baixas sul-americanas, cujo recorte combinação de ambos. Desse modo, vamos
teórico-empírico é o contexto etnográfico do partir da ideia de certa unidade do Nordeste,
Nordeste brasileiro – constituído pelos esta- sem, contudo, desde já tentarmos definir essa
dos que compõem o Nordeste administrativo unidade. Tampouco nos encapsularemos na
(Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, região como se estivéssemos diante de um
Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe), com a dado bem estabelecido.
inclusão de Minas Gerais e Espírito Santo e a Não se trata, absolutamente, de tentar
exclusão do Maranhão, todos com população esgotar a literatura produzida ao longo do
indígena – e cujo recorte temporal concerne lapso temporal referido ou de fazê-lo como um
aos últimos vinte anos (1997-2017). O re- balanço acrítico, justapondo as várias contri-
ferido recorte teórico-empírico não impedi- buições. Inexistem aqui pretensões desse tipo,
rá, contudo, que em determinadas situações até por se afigurarem estéreis aos propósitos do
ele se expanda para contemplar, à guisa de dossiê. Em troca, a literatura foi selecionada
contrapontos, povos indígenas pertinentes a como uma amostra razoavelmente significativa
outros contextos, sempre que o contraponto do tema, ainda que possa se mostrar de qua-
produza rendimento analítico e, simultanea- lidade desigual, e da mobilização acadêmica
mente, assegure algum exercício comparativo dos produtores que compõem o(s) contexto(s)
ou comunicação interétnica. Dessa maneira, etnográfico(s). O eventual desequilíbrio inter-
não nos deixaremos mobilizar excessivamente no poderá, por sua vez, ser atenuado mediante
por tais contrapontos; antes, os acolheremos exposição e análise de caráter relacional, que
quando se mostrarem etnográfica ou etnologi- confiram igual importância aos avanços te-
camente instrutivos para a chamada etnologia óricos e à força das evidências etnográficas.
ameríndia. Ao assim proceder, não obstante Ao mesmo tempo, é de supor que a pro-
de modo muito parcimonioso – até porque dução dos últimos vinte anos guarde relação

1 Maria Rosário de Carvalho é doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo e professora titular
da Universidade Federal da Bahia.
2 Edwin B. Reesink é doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ e professor titular da Universidade
Federal de Pernambuco.

BIB, São Paulo, n. 87, 3/2018 (publicada em dezembro de 2018), pp. 71-104. 71
mais ou menos direta e/ou, complementar Fredrik Barth, os “grupos
àquela que, de certa forma, imediatamente étnicos” e as suas fronteiras
lhe antecedeu – e da qual resultaram conti-
nuidades e descontinuidades, mais e menos A década de 1970 do século XX tem sido,
salientes e relevantes. Assim sendo, essa pro- mais ou menos consensualmente, identificada
dução antecedente será o ponto de partida, como aquela no decurso da qual ocorreu ex-
embora desenvolvida de forma muito pontual, pressivo desenvolvimento da etnicidade nativa
principalmente atenta às suas reverberações. ou do uso da etnicidade como um instrumento
É necessário advertir, de antemão, que o ba- político. Ao lado das circunstâncias históri-
lanço da periodização de toda a produção co-políticas próprias a cada caso concreto,
antropológica relevante sobre o tema ultra- há quem defenda a tese de que o crescente
passa completamente os limites de espaço e desenvolvimento político indígena, com seus
as pretensões deste texto. correlatos processos étnicos, decorreu, em
À guisa de organizá-lo internamente e parte, da corrente de pensamento antropoló-
evitar sobrecarregá-lo, apelamos para a sub- gica desenvolvida em torno de Fredrik Barth
divisão de certos temas fortes que se desdo- (1969) e, em parte, de uma nova intervenção
bram, assim, em subtemas, evitando, todavia, ética desencadeada pelos antropólogos por
excessiva itemização. Temas e subtemas, ao meio das várias organizações não governamen-
lado de determinados âmbitos geográficos tais. Tal intervenção (ou abordagem do tipo
internamente ao Nordeste, passam a cons- ação-orientada) tentava remediar a situação
tituir, então, os eixos dos debates que foram dos povos indígenas (MORIN; D’ANGLURE
discernidos, permitindo ao leitor divisá-los 1997, p. 158-159).
e acompanhá-los na linha do tempo. Com Fredrik Barth e seu conceito de grupo
efeito, uma seleção rigorosa é ineludível. étnico como organizational type resultante
Uma das características dos últimos vinte da interação entre grupos estabelecidos em
anos é que a produção antropológica cresceu determinados ambientes e que construíam
muito. Como se sabe, no início da segunda fronteiras sociais em presença – sobre as quais
metade do século passado, a América do Sul incide o foco da pesquisa e não mais na cultura
ameríndia chegou a ser tipificada como ‘a que elas encerram – seriam recepcionados
etnologia do continente menos conhecida’. como o autor e o conceito certos para uma
Para o Nordeste brasileiro, por sua vez, cer- hora socialmente incerta, um período de in-
tamente vale observar que se constituía como certezas e instabilidade. A antropologia – que
a região com a “etnologia menos conhecida até então havia se deixado confinar por certa
da etnologia das Terras Baixas no Brasil”. Tal tendência para o estudo dos povos indígenas
situação assimétrica somente começa a mudar em termos de cultura ou organização social,
por volta de 1970, mas é nos últimos vinte como se fossem isolados e independentes,
anos que se ampliou realmente o espectro de pouca atenção conferindo às relações com seus
pesquisas. Consequentemente, não é mais ambientes econômico-sociais vizinhos –, foi
possível dar conta de toda essa produção compelida a proceder a uma reconversão do
em um só artigo. A outra pergunta cone- olhar, constatando, então, que a organização
xa relevante é se a etnologia do Nordeste é social dá significado à cultura e não o inverso
vista, hoje, em condição de mais igualdade (ERIKSEN, 1993, p. 160).
acadêmica e interesse antropológico, compa- No contexto etnográfico do Nordeste bra-
rativamente à etnologia amazônica. sileiro, é também a partir dessa década que tem

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lugar intenso processo de mobilização de cará- à vontade e às necessidades dos arranjos fa-
ter étnico tanto da parte de grupos considera- miliares e das expressões individuais. Ou seja,
dos extintos pela literatura etnológica quanto qualquer que seja a criatividade sociocultural
de outros supostamente afetados por avançado envolvida na assunção de uma identificação
processo de desorganização sociocultural. Em de índio, sempre serão necessárias mudanças
ambos os casos, o que pareceu ocorrer, de etnopolíticas e novas práticas que, de algum
fato, foi a incapacidade de a antropologia, modo, introduzam um campo de tensão em
subsumida aos efeitos de uma objetivação relação com as práticas preexistentes.
estreita e limitada, dar conta do complexo Essas tensões causadas pelas mudanças
conjunto de vínculos econômicos e sociais que em curso sempre criam fricções – evocando
relacionavam esses grupos aos seus entornos, Cardoso de Oliveira, “fricções infraétnicas”
compelindo-os à adoção de certas estratégias (1972a) – que, em vários casos, atingem níveis
de acomodação. A surpreendente quantidade muito significativos. Os exemplos representa-
de grupos emergentes que, desde esse período, dos pelos Kiriri, localizados na porção norte
passaram a reivindicar os seus direitos nativos, do estado da Bahia e pelos índios da reserva
para o que lançavam mão de distintas modali- Caramuru-Paraguassu (Pataxó Hãhãhãi), na
dades de desenvolvimento étnico, constitui tes- sua porção sul, são muito ilustrativos no que
temunho eloquente, ao mesmo tempo, da sua a isso concerne. No primeiro caso, a tentativa
persistência e da debilidade do instrumental de unificação das ações internamente ao grupo
antropológico quando engessado por supostos indígena, mediante a adoção do ritual Toré e a
culturalistas e assimilacionistas. Mesmo que o instituição de roças comunitárias, gerou muitas
conceito-chave da época, aculturação, seja bem resistências, dissidências e até mortes entre aque-
menos limitado do que o modo como circula, les que, respectivamente, questionaram o caráter
estereotipadamente, pela antropologia, pode-se tradicional desse ritual e o poder de sobreposição
afirmar que os antropólogos tendiam a não do grupo (étnico) à família ou grupo doméstico
questionar o senso comum evolucionista que (BRASILEIRO, 1997). No que concerne ao
vigora na sociedade brasileira. Hoje, diga-se segundo caso, as determinações emanadas dos
de passagem, a superação desses pressupostos líderes relacionados aos vários grupos étnicos
constitui, exatamente, a dificuldade para diri- estabelecidos, em distintos períodos, na reserva
mir as tensões e evitar a ameaça de eclosão de indígena pareceram se sobrepor, igualmente, aos
conflitos, com menor ou maior força, entre arranjos conjugais e, especialmente, às aspira-
as posições antropológicas e os interesses an- ções do gênero feminino, predominantemente
ti-indígenas no país. aquelas relacionadas ao controle da sua ferti-
O novo contexto solicitou, em termos lidade reprodutiva. Para autores como Helen
mais ou menos gerais em toda a região, alguma Safa (2005, p. 308), a existência de uma base
recriação da etnicidade para lidar com a diver- territorial e política entre os indígenas contri-
sidade e a transcendência das variadas iden- buiria para o desenvolvimento de uma identi-
tidades locais, visando forjar uma identidade dade institucionalizada, que tenderia a refrear
étnica mais efetiva (MORIN; D’ANGLURE, mudanças socioculturais significativas em outras
1997, p. 171). Em muitos casos, a efetivida- dimensões da vida social.
de significou a expressão exacerbada de um Inquestionavelmente, tal como assinala
agente coletivo – o grupo étnico – com fraca Eriksen (1991), a abordagem de Barth, ao
capacidade de galvanização, mas certo poder deslocar as características do grupo étnico para
de imposição que gradualmente se sobrepôs as propriedades do processo social, permitiu

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aos pesquisadores da etnicidade descartar estra- étnicos e etnopolíticos e, como visto, essas
tégias empiricistas, do tipo colecionadores de diferenças criam fricções infraétnicas. Há um
borboletas, tão criticadas por Edmund Leach, conjunto de outras críticas, como a de Diego
e substituir substância pela forma, estática pela Villar (2004) – que chama atenção para certo
dinâmica, propriedade pela relação e estru- determinismo ecológico e demográfico e um
tura pelo processo – assim como apreender excesso de ênfase na escolha racional do ator
etnicidade comparativamente e explicar os social, embora ressalte em nota que Barth
fenômenos étnicos sem recorrer a concepções (1989), posteriormente, modificou sua postura
grosseiras de culturas e povos. Todavia, não em relação aos atores sociais, agora “posiciona-
obstante os seus méritos, Eriksen identifica dos” –, que ganharam certa repercussão, mas
nessa abordagem duas importantes limita- não arrefeceram, pelo menos não plenamente,
ções que, do seu ponto de vista, impedem o interesse e a atração dos pesquisadores pela
uma compreensão comparativa satisfatória de relevante contribuição teórica de Barth, que
etnicidade: a abordagem, em princípio, ahis- para alguns representou uma ruptura episte-
tórica, do que resulta uma espécie de círculo mológica (MORIN; D’ANGLURE, 1997,
vicioso – ao mesmo tempo em que não se p. 161).
deveria negligenciar o fato de que a etnicidade Entre nós, antropólogos brasileiros, suas
é sempre propriedade de uma formação social formulações foram complementadas, com
particular, além de ser um aspecto interacional, igual ou quase igual repercussão, por aquelas
variações nesse nível de realidade social não de Cunha (1986, p. 99-101), mediante as
podem ser explicadas, compreensivelmente, quais ela trata a etnicidade como forma de
por meio de estudos de interação, não importa organização política, só passível de existir em
quão detalhados eles sejam. Isso implica a in- um meio mais amplo, que fornece os quadros
dispensabilidade de investigar as circunstâncias e as categorias da linguagem que a etnicida-
históricas e sociais nas quais uma configuração de é – afirmando, de modo incisivo, não se
étnica particular se desenvolveu e uma subse- poder definir grupos étnicos a partir de sua
quente localização no tempo, no espaço e na cultura, embora a cultura entre de modo essen-
escala social, do fenômeno étnico em questão cial na etnicidade como algo constantemente
(ERIKSEN, 1991, p. 128-129). reinventado, recomposto, investido de novos
A crítica suscitada por Mahmood e significados. Com repercussão menor, mas não
Armstrong (1992) será ainda mais radical, de menor importância, sobretudo política,
uma vez que contesta a própria existência de foi o parecer sobre os critérios de identidade
grupos étnicos, argumentando que os indi- étnica (CUNHA, 1986, p. 113-119), elabo-
víduos representam e selecionam, diferen- rado para informar o processo de disputa de
temente, os critérios de pertencimento que terras dos índios Pataxó Hãhãhãi, que só viria
os conectam a um mesmo grupo étnico, não a lograr uma decisão favorável em 2012 –
havendo, portanto, traços culturais compar- para a qual, sem dúvida, o parecer contribuiu
tilhados igualmente. Em outras palavras, tra- significativamente. Apoiada na definição de
ta-se da questão anteriormente subestimada grupo étnico de Barth, Cunha sublinha ser a
da variação intragrupo, o que, aliás, inclui cultura, de certa maneira, produto do grupo
questões concernentes ao contexto etnográfico étnico e não o seu pressuposto, remontando,
do Nordeste, que estavam na ordem do dia assim, a Weber, para quem os grupos étnicos
nessa época: normalmente, há variações em seriam aqueles que, em virtude de semelhanças
concepções da diacriticidade e dos projetos no hábito externo, ou nos costumes, ou em

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ambos, ou ainda em virtude de lembranças Nordeste”, algo que a autora, Carvalho (1984,
históricas – colonização e migração – nutrem p. 169), julgou poder apreender fundamen-
crença subjetiva em uma procedência comum talmente da perspectiva do território, fator
(WEBER, 1974, p. 319). considerado indispensável à sua integridade
Pouco antes, Roberto Cardoso de Oliveira física e cultural. Dois aspectos parecem atestar
(1976, p. XI-XII) reuniu quatro ensaios no seu referido pioneirismo, ou seja, o entendi-
livro Identidade, etnia e estrutura social, apre- mento etnográfico dos territórios indígenas
sentando a identidade étnica, o grupo étnico mediante as categorias e representações locais
e o processo de articulação étnica como as (que incluíam os costumes, hábitos e modos de
dimensões mais estratégicas do fenômeno das vida dos agentes) e como a dimensão territorial
relações interétnicas, cujo desenvolvimento colabora para a produção da identidade por
analítico era seu objetivo. Na década de 1960, meio de uma apreensão referida ao sistema
por intermédio da elaboração da noção de de relações sociais, constituído, de um lado,
fricção interétnica (1962) e do modelo do pelo Estado brasileiro e por segmentos sociais
potencial de integração (1967), ele já orientava aí compreendidos e, por outro, por povos
suas pesquisas sobre o tema no âmbito das rela- indígenas (ibidem, p. 169-170). Identidade
ções sociais, embora lhe trouxesse desconforto que, uma vez reconhecida pelo Estado, passa
a não inclusão do campo ideológico, no qual a distingui-los do seu estado anterior de índios
grupos étnicos e relações eram representados feito caça, índios brabos, não-pessoas (ibidem,
(OLIVEIRA, R. C., 1972b). Ele identificará p. 173).
nos estudos desenvolvidos por Fredrik Barth Ao longo do artigo, Carvalho busca trans-
em Ethnic groups and boundaries grande afi- mitir ao leitor como o domínio que os índios
nidade com o seu projeto das áreas de fricção têm do território constitui um indicador da sua
interétnica no Brasil graças à crítica ao cultu- pertinência à denominada comunidade indí-
ralismo e ao privilégio que ambos conferiam gena, que reproduz, por outro lado, a nação,
à organização social. termo vislumbrado ideologicamente como
uma totalidade. A capacidade de divisá-lo
Conceitos de identidade, território e nomeá-lo à distância, considerando deter-
e territorialidade nos anos 1980 minadas características físicas e a ocupação
humana, são esperados de todos os membros
Certamente podemos atribuir ao (ibidem, p. 179). “Eu vou contar o que vi
Programa de Pesquisas sobre Povos Indígenas na minha aldeia, naquele tempo [passado]”,
do Nordeste Brasileiro (Pineb), ainda hoje declarou o interlocutor pataxó (do extremo-sul
sediado no Departamento de Antropologia e baiano) para Carvalho, após o que passou, sob
Etnologia da Universidade Federal da Bahia a forma de uma récita impecável, a descrever
(UFBA) e ao qual os autores deste artigo estão os moradores e a toponímia com detalhes.
associados, algum pioneirismo no tratamento Determinados acidentes geográficos ganham
dos temas enunciados, o que não se deve a um especial significado, sendo utilizados como
movimento volitivo autoral, mas à sua centrali- pontos de referência em terra e/ou, mar e
dade para o contexto etnográfico do Nordeste. como símbolos étnicos. Finalmente, durante
Vejamos essa questão, rápida e resumidamente, os rituais, o território configura uma totali-
por meio de dois artigos, ambos elaborados dade espaço-temporal: os mortos retornam
em 1982, mas publicados em 1984 e 1988. O sob a forma de encantados e se unem aos
primeiro se intitula “A identidade dos povos do vivos, compondo a totalidade da nação, que,

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simbolicamente, ocupa a totalidade do seu sem mal de alguns povos tupis (CLASTRES,
território (CARVALHO, 1984, p. 186). 1975; SAMPAIO, op. cit., p. 140). O seu
No segundo artigo (CARVALHO, 1988), tom especialmente assertivo busca, além de
a autora afirma que o fortalecimento da iden- enfatizar o vínculo radical do território com
tidade étnica dos povos indígenas do Nordeste a etnicidade, afastar as equações primárias que
apresentava-se, à época, em condição fran- pudessem daí advir, como perda do território
camente desfavorável, na dependência dos e perda da identidade – como em Ribeiro
rearranjos particularmente engendrados em (1970) e Paulo Amorim (1975).
atenção à especificidade de cada modalidade Constatamos, então, que as questões de-
histórica da categoria de índio, mas no âmbito senvolvidas nos artigos giram em torno do
de um projeto coletivo que os circunscrevia en- processo da transição de caboclo para uma
quanto povos indígenas de um dado contexto identificação de índio perante o Estado, pres-
etnográfico. Por ser assim, as articulações e os tando atenção, em particular, como visto, ao
empréstimos efetuados não implicam perda de autoconvencimento de sua própria autentici-
especificidade, tampouco um jogo arbitrário, dade e ao alterconvencimento dos não índios e
mas a superação coletiva de um suposto estado do Estado acerca de sua legitimidade: o grande
de privação absoluta, que incluía a privação dilema no Nordeste, afinal, é como ser índio
étnica e que é mediada por território, religião na atualidade, enquanto, de fato, se é visto
(isto é, percepções e concepções impulsionadas por todos como um índio misturado e/ou
por entidades extra-humanas – usualmente civilizado que sofre de distância cognitiva e
denominadas encantados –, às quais são con- afetiva dos índios selvagens do passado, seus
feridos atributos poderosos, na acepção de ancestrais. Notemos, por fim, que ambos os
transformadores das pessoas e dos coletivos), autores se utilizam, criativa e amplamente, da
representações, práticas e disposições (1988, literatura antropológica nacional e internacio-
p. 14). Nos dois artigos mostra-se, pois, como nal da época sobre temas como etnicidade,
a relação entre a cosmologia dos encantados, território e política.
seu ritual e o território que abriga o povo in- Entre o final dos anos 1980 e início dos
dígena e seus sobrenaturais é fundamental em 1990, um conjunto de dissertações de mes-
quase todos os casos e isso, vale registrar, será trado será produzido no Museu Nacional
uma constante assinalada por quase todas as da Universidade Federal do Rio de Janeiro
etnografias posteriores. (UFRJ) sob a orientação de João Pacheco de
Nessa mesma clave interpretativa, José Oliveira. O que dá unidade ao conjunto é o
Augusto Sampaio (2011), em 1986, apoiado contexto empírico de investigação incidente
em uma base etnográfica mais rica do que sobre o Nordeste e a convergência dos temas
a de Carvalho, afirmará que o território é o tratados – identidade étnica, processo de
suporte básico sobre o qual são construídas territorialização, forte presença dos líderes
as etnicidades específicas na região e que a indígenas nos processos de reconhecimento
territorialidade é, embora em graus diversos, étnico e reivindicação territorial, significa-
um dado cultural que, como a tradição, tem tiva comunicação interétnica entre povos
sempre papel indispensável nas definições com certas afinidades históricas e culturais,
étnicas – mesmo quando o território de refe- a mistura como fator distintivo dos grupos
rência esteja ausente, caso das diversas situa- indígenas e a denominada etnogênese –, em
ções de diáspora (CUNHA, 1985), isto é, seja geral apoiados pelos mesmos pressupostos
puramente imaginário, ideal, como a terra teóricos. Essas dissertações, fora seu valor

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intrínseco, têm relevância adicional porque Iniciamos esta seção, que efetivamente
constituíram o suporte etnográfico para a dá início ao balanço sobre o tema nos últimos
elaboração de Uma etnologia dos índios mis- anos, com o artigo anteriormente referido
turados? Situação colonial, territorialização e “Uma etnologia dos índios misturados?”,
fluxos culturais (OLIVEIRA, 1993; 2004), tornado público, embora para uma assis-
a conferência elaborada pelo autor para o tência supostamente não muito ampla, em
concurso de professor titular da disciplina 1997. A sua primeira publicação, em 1998,
de Etnologia no Museu Nacional, em 11 de teve repercussão e expressiva acolhida entre
novembro de 1997 – publicada subsequente- aqueles interessados em seu objeto de refle-
mente na revista Mana (idem, 1998) e como xão. As frequentes citações do artigo pelos
artigo introdutório ao livro A viagem da volta: colegas, já referidas, e o fato de A viagem de
etnicidade, política e reelaboração cultural no volta estar já em sua segunda edição cons-
Nordeste indígena (2004, 2ª edição). tituem bons indicadores da sua boa recep-
ção. A conferência/artigo talvez possa ser
O tema nos últimos vinte encarada como uma espécie de balanço do
anos (1997-2017) estado da arte no período mediante o qual, a
pretexto de indagar, provocativamente, sobre
Talvez possamos, grosso modo, distin- uma etnologia dos povos indígenas do nor-
guir a recente produção entre as seguintes
deste, Oliveira teoriza sobre essa etnologia:
formas: artigos de caráter mais programá-
contrasta-a, ainda que limitadamente, com
tico, cujo tema é tratado como chave para
a etnologia clássica americanista e demarca
a constituição de uma etnologia dos povos
como fulcrais para ela as noções de etno-
indígenas estabelecidos no Nordeste, como é
gênese e territorialidade, sendo este último
o caso do artigo de João Pacheco de Oliveira
central e concebido sob a forma do conceito
(1998); artigos nos quais o tema é abordado
de territorialização – que, em si, já conota a
com aparente centralidade, mas pouco apro-
fundamento etnográfico; artigos com algu- ideia de processo e não de um estado.
mas boas evidências etnográficas, mas pouco A intenção do artigo é produzir subsídios
rendimento analítico; dossiês nos quais se para refletir sobre o paradoxo representado
destaca a preocupação etnográfica com as pelo surgimento recente de povos que são
concepções nativas e cujo conjunto assegura pensados, e se pensam, como originários,
uma boa base comparativa; e livros sobre para o que o autor segue três movimentos
temas mais abrangentes embora relacionados expositivos: a formação do objeto de inves-
à questão identidade/territorialidade. Muitas tigação “índios do Nordeste”, a discussão
vezes, no caso de artigos em periódicos, o de conceitos para a análise da etnicidade e
título não se refere diretamente ao tema, o de uma chave interpretativa para os fatos da
que compele o leitor a buscar identificar, chamada emergência de novas identidades e
mediante a leitura, aspectos abordados que a reflexão sobre as perspectivas para o estudo
possam guardar relação. Dado o atual volu- de populações tidas como possuindo pouca
me da produção, torna-se difícil assegurar distintividade cultural (ou seja, culturalmente
que um balanço tenha condições de abarcar e fisicamente concebidas com a marca distin-
todas essas menções, que variam em grau tiva e discriminatória de serem misturadas –
de profundidade etnográfica e teórica, como como é o caso das que fizeram recentemente
já assinalamos. sua reaparição (OLIVEIRA, 1998, p. 48).

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A primeira noção, etnogênese, se cons- dessa situação interétnica (ibidem, p. 56-57).
tituiria como o fato social característico no Já o segundo movimento de territorialização
Nordeste. Em outras palavras, o processo de inicia-se em 1920 e tenta constituir-se em
etnogênese consistiria, para João Pacheco de um meio termo, evitando a total assimilação
Oliveira (1998, p. 53), no fator distintivo e, simultaneamente, a eliminação da tutela
entre os povos e as culturas indígenas do (ibidem, p. 58-59). O terceiro teria sido de-
Nordeste e da Amazônia. No entanto, devi- sencadeado por mobilizações e reivindicações
do a certas conotações não favoráveis desse de povos indígenas até então não reconhe-
termo, o autor avança com outro conceito, cidos pela agência indigenista e ausentes da
tomado como preferencial. A noção de ter- literatura etnológica (ibidem, p. 61-62).
ritorialização – um ato político constituidor O artigo de Oliveira repercutiu e, pro-
de objetos étnicos por meio de mecanismos vavelmente, ainda repercute entre as novas
arbitrários e de arbitragem –, que tem a gerações de pesquisadores. De fato, se trans-
mesma função característica da noção de formou em um texto quase obrigatório, cuja
situação colonial, da qual procede, seria a via adesão se faz, às vezes, quase automaticamen-
mediante a qual as chamadas comunidades te, seja mediante uma simples citação, quase
indígenas transformam-se em coletividades ritualizada, seja mediante um uso um tanto
organizadas, com identidades próprias, insti- quanto superficial, como se corroborando o
tuição de mecanismos de tomada de decisão caso específico estudado – o que terminou obs-
e de representação das suas formas culturais curecendo os méritos do artigo e os propósitos
(ibidem, p. 56). Peso determinante, somos do autor. Algo similar ao que ocorreu com
levados a supor, é atribuído ao estado colonial “Grupos étnicos e suas fronteiras”, de Barth.
mediante seu poder instituidor dos processos
de territorialização, restando aos agentes his-
tóricos territorializados retrabalhar afinidades Religião, ritual, terra e etnicidade
culturais ou linguísticas e vínculos afetivos
e históricos porventura existentes em um Religiões, missionários, missões, aldeias,
contexto histórico determinado e contrastado aldeamentos, xamãs, xamanismos, deuses e
com os atributos de outras unidades (ibidem). seres sobrenaturais, enteógenos, conversão,
Três processos de territorialização, com aculturação, perda da cultura. O modo de
características bem distintas, teriam subme- configurar a relação entre a religião imposta
tido os povos do Nordeste, ocorrendo o pri- e as práticas indígenas pelos índios são con-
meiro na segunda metade do século XVII e ceitos e questões que devem ter surgido no
nas primeiras décadas do XVIII – associado momento em que alguém na frota de Pedro
às missões indígenas – e o segundo no século Álvares Cabral avistou terra e anunciou sua
XX – articulado com a agência indigenista. descoberta. Sob a conjunção da justificava
Finalmente, os anos 1970/1980 testemu- política da posse legítima com a religiosa,
nhariam um terceiro processo. No primeiro relacionada à expansão da fé, a história da
caso, famílias indígenas de diferentes línguas e conquista do Brasil se iniciou sob um duplo
culturas foram estabelecidas nos aldeamentos movimento de apropriação impositiva de
missionários, que buscavam acomodá-las, soberania e de autonomia sociocultural e
unificando-as pela catequese e o disciplina- religiosa usurpadas aos povos autóctones,
mento do trabalho. A mistura e a articulação algo que perdura num processo de longa
com o mercado foram fatores constitutivos duração, mesmo que sempre em mutação.

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Os escritos dos missionários e cronistas sobre nesses estudos, em sentido amplo; a partir
os povos tupi da costa permitem reconstitu- desse período, os campos temáticos men-
ições e reinterpretações. Tais relatos, cartas cionados tiveram um alento vivificador que
e similares permitiram, como é largamente caracteriza, até o presente, as pesquisas sobre
sabido, a alguém da qualidade intelectual povos indígenas no Nordeste. Testemunho do
de Florestan Fernandes escrever, analisar e que afirmamos é o fato de Luiz Sávio Almeida,
propor interpretações sociológicas sobre os docente da Universidade Federal de Alagoas
Tupinambá. Podemos assinalar, de passagem, (Ufal), ter editado a maior série de publicações
que os estudos mais históricos também con- sobre o Nordeste, Índios no Nordeste, que, de-
heceram uma renovação interessante, com pois de algumas coletâneas de maior relevância,
novas interpretações advindas basicamente publicou basicamente acadêmicos alagoanos.
das mesmas fontes, mas inspirados numa Vale notar, à luz dessa coleção, uma
antropologia atual. Os exemplos de Viveiros diversificação representativa para todo o
de Castro (1992) e Pompa (2002) são elo- Nordeste. Primeiramente, a expansão aca-
quentes a esse respeito (sendo que Pompa dêmica concomitante com a expansão das
inclui os povos não tupi em suas análises e universidades, suas graduações e pós-gradu-
permanece nessa área temática). Note-se que, ações; monografias de conclusão de curso,
no caso desses exemplos, a renovação incidiu mestrado e doutorado; mais postos de tra-
exatamente sobre os temas mencionados, que balho e crescente pressão, competição e bu-
prosseguem tendo presença significativa con- rocratização da produção acadêmica, com
temporaneamente (OLIVEIRA, K. E., 2013). maior produção escrita por antropólogos
Depois do pioneirismo do Pineb da acadêmicos. Essa expansão ocorreu em todo
UFBA – que, desde os anos de 1970, com- o Brasil e, em particular, após 2002. Em se-
pulsa e transcreve, diplomático-paleografica- gundo lugar, houve uma ampliação temática,
mente, todo tipo de documentação oriunda em especial em etno-história, sobre temas
de arquivos nacionais, predominantemente, como os índios e o Serviço de Proteção aos
e estrangeiros, em menor volume –, pre- Índios (SPI), a saúde e educação indígenas e
senciamos um grande aumento do acesso o xamanismo Kariri-Xokó, além de se abarcar
à documentação inédita e um incremento etnograficamente povos até então desconhe-
muito significativo de análises e interpreta- cidos, como o conjunto de etnias do Alto
ções (CARVALHO; REESINK, 2016). Talvez Sertão alagoano que fazem parte das ramas e
a marca temporal principal, assim, tenha sido o grande número (“enxame”) dos Pankararu
o I Encontro de Etno-História Indígena do de Pernambuco, que buscaram reconheci-
Nordeste, realizado em Penedo entre 31 de mento do Estado no intervalo temporal sob
maio e 1º de junho de 1996. Esse evento exame. Terra, conflitos de terra e identidade/
pioneiro reuniu cerca de oitenta pessoas de identificação se constituíram como alguns
várias áreas e nunca mais foi repetido sob o dos objetos principais de pesquisa, como
mesmo formato. Desde então, em várias áreas comprova a coleção anteriormente referida,
temáticas, por exemplo, a história, a etno- que assegurou também inserção para vários
-história, a antropologia social e histórica, atores coletivos no âmbito da luta pela terra
o número de pesquisadores e de produção no estado de Alagoas (ALMEIDA; LIMA;
aumentou, consideravelmente, no Nordeste. OLIVEIRA, 2013). No caso do Nordeste,
No final dos anos 1990, já havia uma realmente há necessidade de pensar toda a
quantidade considerável de pessoas engajadas questão relativa à posse da terra e, para os

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povos indígenas, investigar as relações que eles analisa o Museu Tapeba pela noção de espaço
estabelecem, variáveis no tempo e no espaço, de transculturação.
sob alianças diferentes e disputas diversas – Os resultados das pesquisas atuais de ca-
além dos posseiros e fazendeiros invasores e ráter histórico desenvolvidas por antropólogos
vizinhos – com grupos e organizações, como e historiadores mostram os genocídios, etno-
sindicatos rurais, assentamentos de reforma cídios, violências sob distintas modalidades e,
agrária, reservas ambientais e comunidades de na medida do possível, as reações dos índios,
quilombos. Essa é uma vertente de pesquisa entre as quais a ocultação da identidade e das
que permanece altamente relevante e presente práticas diferenciadas, assim como as peram-
em um número considerável de situações bulações, fugas e migrações de pessoas, famílias
atinentes a esses povos. e parentelas, tentando encontrar um local para
Todas as questões relacionadas à territo- ter uma vida menos inquieta e relativamente
rialidade e identidade indígena são, é claro, autônoma. Às vezes, buscam um novo local; às
multidimensionais e afetam toda a experiência vezes, reúnem-se a outros povos ou frações de
vivida das pessoas envolvidas. Elas também se povos – cf., por exemplo, os trabalhos de João
relacionam aos diversos lados – como povos Pacheco Oliveira (2011) e Reesink (2013).
indígenas em conformação étnica e o Estado Observamos, dessa maneira, no século
dominante, com um regime etnomórfico de XX, uma visão que parte fortemente do pres-
indianidade –, para os quais a expressão religio- suposto da baixa distintividade cultural dos
sa sempre desempenha o papel de um dos prin- povos no Nordeste e que, ao mesmo tempo,
cipais vetores de identificação de indianidade. procura vestígios de certas organizações sociais
Há, ademais, uma complexa relação entre o (como metades, em Hohenthal) – mas, em
estabelecimento da dominação interétnica do particular, investiga o campo cosmológico
início da conquista e a passagem para um regi- (notadamente rituais e crenças) para verificar
me de relação assimétrica que perdura até hoje. o grau de distintividade. Afinal, esses achados
Levando em conta a direção, a intensidade e eram utilizados para medir o grau de india-
a amplitude do fluxo intercultural, as trans- nidade, para o que se fazia necessário certo
formações implementadas, sob o uso da força patamar de distintividade. Após o estabeleci-
ou não, produzem transculturação – aceitação mento do regime de relação assimétrica e sua
imposta mas também parcialmente voluntária forte repressão à distintividade de caráter reli-
e estratégica, sempre acompanhada de um gioso, tal exigência poderia parecer um tanto
componente de criatividade cultural, de acor- surpreendente, paradoxal mesmo. Porém, até
do com Azevedo (1959), um autor ignorado o advento da antropologia mais moderna,
injustamente (REESINK; REESINK, 2015) depois dos anos 1970, as pesquisas revelam
em toda a literatura posterior, mas que utiliza certa tenacidade dos índios em manter uma
conceitos, como “fluxo intercultural” e outros, linha de continuidade religiosa pré-cabralina.
que somente serão retomados muito tempo Na etnografia pioneira de Bandeira (1972)
depois. Aliás, o termo “transcultural” faz cada sobre os Kiriri, ela mostrou como, no campo
vez mais parte do vocabulário conceitual e das práticas religiosas, prevaleciam certas
é incorporado como adjetivo ou processo, continuidades e de que modo esse campo se
sem mais remissão à sua fonte de proposta apresentava como o único domínio em que os
original, o cubano F. Ortiz, o que é sinal de caboclos obtinham algum prestígio perante os
aceitação generalizada. Por exemplo, Soares regionais (por eles denominados portugueses).
(2010) refere-se a transcultural no título e Consequentemente, as primeiras sínteses do

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estado da arte (CARVALHO, 1984; 1988; dos massacres, físicos e simbólicos, aos quais os
SAMPAIO, 2011) enfatizaram a dimensão seus povos foram submetidos. Por outro lado,
religiosa como passível de revelar tanto a con- hoje é consenso que a visão da etnologia das
cepção de continuidade como a necessidade perdas subestimou a persistência dos índios
de reforçar ou retomar continuidades tidas como outro, diferente dos regionais, mesmo
como existentes no passado (rituais como o nos casos de vizinhos aparentemente indis-
toré, praiá e ouricuri). Foi assim para que, desse tinguíveis (RIBEIRO, 1977). Nessa época, o
modo, se fortalecesse a indianidade específica, protagonismo de buscar fazer reconhecer os
no intuito de reconquistar os territórios, já índios e sua necessidade de proteção coube
que sempre – não conhecemos exceções – os aos clérigos, em especial ao padre Alfredo
índios foram alijados, pela força, de partes Dâmaso, que logrou apoio para os Fulni-ô.
importantes de suas terras (REESINK, 2000). Mas um antropólogo como Carlos Estevão se
As pesquisas desenvolvidas sob a orientação de deixou estimular por esse padre para registrar
João Pacheco Oliveira (1998) corroboram essas fatos etnográficos entre outros povos, como
deduções, ainda que estejam pouco presentes os Pankararu, e, ao apresentar em especial
na síntese, de sua autoria, que fecha esse ciclo. aspectos religiosos, reclamar ajuda do Estado
Nos anos 1990, então, confirma-se um para populações oprimidas (ARRUTI, 1996).
circuito de feedback entre rituais considerados Embora o fato de a terra fulni-ô estar
indígenas por índios e não índios (muitos arrendada tenha pesado na escolha desse povo
com uso de jurema e/ou uma modalidade para a instalação do primeiro posto indígena
de xamanismo) –, autoconvencimento e al- na região (PERES, 1999), de certo modo o
terconvencimento da indianidade (com uma exemplo fulni-ô criou um “molde de reco-
concepção mais geral em toda a região) e de nhecimento estatal” – muitas vezes chamado
pertencimento específico (de caboclo a índio, de etnogênese – que exigiu o ritual do toré
pelo vínculo com os ancestrais) –, com coesão como prova de indianidade (embora a in-
social, etnopolítica e luta pelo reconhecimento fluência dos clérigos tornasse, às vezes, esse
identitário e reconquista da terra para recom- “teste” desnecessário, como ocorreu entre os
por o território e a própria territorialidade. Kiriri e os Kaimbé nos anos 1950, desauto-
Se essa última conclusão parece-nos ser rizando, assim, a afirmação mais ou menos
justificada, em um sobrevoo pela literatura, recorrente de que há necessidade absoluta da
falta hoje um trabalho crítico mais englobante prática ritual e da sua representação. Note-se
que sintetize o estado da arte da história dos que o toré sempre foi visto como um ritual
povos indígenas no interior do Nordeste: algo indígena com conteúdo religioso, apesar de
a respeito da persistência demonstrada em poder ser entendido, pelo observador externo
permanecer nos locais de origem, das migra- eventual, como um mero sinal diacrítico, uma
ções forçadas, temporárias e definitivas (em performance “para brasileiro ver”. Mesmo
diferentes épocas históricas) e dos circuitos de assim, sua adoção, salvo alguma possível e
troca de diversos tipos (inclusive rituais) entre rara exceção, sempre implicou aprendizagem
diferentes povos e frações de povos. Justamente de práticas religiosas, com fortes implicações
quando os poucos primeiros antropólogos, a cosmológicas, como registra toda a literatura
partir dos anos 1930, começaram a visitar os do século passado (REESINK, 2000). Dada
poucos locais seguros quanto à presença de sua posição diacrítica e sociocosmológica cen-
remanescentes de índios, o termo remanes- tral, essa via de investigação dos rituais, em
cente conotava, corretamente, os resistentes especial o toré e o uso da jurema, tem sido

81
objeto de uma multiplicidade de pesquisas, teses (GROSSI, 2004; SOUZA, 2015) foram
inclusive com novas dimensões, como a música produzidas sobre os Pataxó relativamente aos
indígena – veja-se a coletânea de Grünewald dois temas em foco. A título de exemplo de
(2005) e a tentativa de Nascimento (2013) descoberta etnográfica de persistência indíge-
de abarcar todo esse domínio. na, vale observar que Fabiano Souza (ibidem,
p. 170-172) registrou um detalhado mito, cuja
Identidade e territorialidade em tradução para o português atual se manteve
distintos contextos: sul, extremo bastante fiel a uma versão pré-cabralina na
sul e centro-oeste de Minas Gerais língua indígena.
(encantados, retomadas, alianças Supomos possível afirmar que os três
estratégicas, premonição e autonomia) povos indígenas concebem seus territórios,
a um só tempo, como pertencentes aos en-
Os povos indígenas Pataxó, Pataxó cantados – conjunto de seres humanos (ou
hãhãhãi e Tupinambá estão estabelecidos no ex-humanos) e extra-humanos com os quais
sul e extremo-sul baianos, compondo uma convivem e pelos quais se deixam guiar, como
unidade etnológica mais ou menos discre- já referido –, construídos pelos antepassados e
ta no denominado contexto etnográfico do visualizados como a única condição de possi-
Nordeste, no âmbito do qual se distinguem sob bilidade de uma vida autônoma. Parece, por
vários aspectos, o que leva certas organizações outro lado, haver consenso de que caboclo e
de ação indigenista a classificá-los na porção encantado são, em certa medida, intercambi-
leste, com os Aranã (MG), Guarani Mbyá áveis, designando, na Serra do Padeiro, seres
(ES), Tupiniquim (ES), Krenak (MG), Kaxixó da sobrenatureza (UBINGER, 2012, p. 16).
(MG), Maxakali (MG), Xakriabá (MG) e os Grossi (2004) reitera que, entre os Pataxó,
Pataxó fixados em Minas Gerais. A produção o universo onde as duas entidades circulam
etnológica sobre eles tem aumentado, nos está sempre aberto a transformações históricas
últimos anos, graças a um volume considerá- contínuas, cuja indeterminação é grande. Os
vel de dissertações – Warren (2001), Couto encantados têm domínios territoriais mais
(2008), Mejía Lara (2012), Macêdo (2007), ou menos exclusivos, que podem ser pedras
Magalhães (2010), Ubinger (2012), Alarcón (caboclos da Laje Grande e da Lasca da Pedra),
(2013a) e Sallum (2016), entre outras – e uma a mata (Sultão da Mata, entre outros) e as
tese (VIEGAS, 2007) sobre os Tupinambá, águas. Outros estão associados a certas árvores,
que ganharam visibilidade em 2001 devido domínios que não restringem, contudo, sua
ao seu reconhecimento como indígenas pela livre circulação pelo território. Em certas oca-
Fundação Nacional do Índio (Funai), embora siões, eles comunicam sua presença sutilmente,
sempre tenham permanecido ao longo da costa mediante cheiros característicos, como os do
marítima da vila de Olivença até a Serra das tabaco e da cachaça. Outras vezes, se insinuam
Trempes e a Serra do Padeiro (idem, 2010). pelo vento ou pela sombra, em abertas na
Eles vivenciaram longos processos de territoria- mata ou tapas velhas, isto é, casas abandonadas
lização e territorialidade na região, cujo marco (MEJÍA LARA, 2012, p. 72).
foi o estabelecimento do aldeamento jesuítico Historicamente, a região da Serra do
de Nossa Senhora da Escada, em 1680, no Padeiro – onde está situada a maior parte
que hoje corresponde à sede do distrito de da aldeia homônima – constituiu-se como
Olivença, a aproximadamente 21 km do mu- lugar de refúgio no marco da territorialização.
nicípio de Ilhéus (ALARCÓN, op. cit.). Duas Alarcón (2013a) reporta ter ouvido indígenas

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ali fixados referirem-se à resistência dos ante- A estratégia acionada pelos Tupinambá
passados remotos que não se deixaram alde- para seu processo de recuperação territorial
ar. Pesquisas históricas e antropológicas, que foi muito eficaz, material e simbolicamente.
coincidem com relatos contemporâneos dos Eles formaram um semicírculo, cingindo a
Tupinambá, indicariam que as serras eram afloração rochosa – Serra do Padeiro – que dá
locais de morada e de passagem também de nome à região e que é considerada o centro da
outros povos indígenas (ibidem, p. 25-26). aldeia; o rio de Una atuava como eixo, ao longo
Nessa região do sul e extremo-sul baianos, do qual vinham sendo realizadas retomadas,
há uma prática de territorialidade que tem se em ambas as margens. Rodeando a aldeia,
tornado recorrente: as chamadas retomadas – ou os indígenas agiam como os encantados, ao
“forma retomada” (idem, 2013b), noção que serem invocados na roda do toré: “Rodeando a
essa autora afirma ter sido inspirada no mo- aldeia, rodeando a aldeia./ Rodeando a aldeia,
delo de análise desenvolvido por Lygia Sigaud rodeando a aldeia./ Os caboclos chegam,/
(2000) para os acampamentos sem-terra em rodeando a aldeia”. Restava claro que, por
Pernambuco –, sobre as quais a literatura tem meio dessas ações, os Tupinambá estavam
conferido atenção. A retomada de 1982, por tratando de emendar porções do território
exemplo, foi um marco na organização política, que já estavam em sua posse, ampliando sig-
social e cultural dos Pataxó Hãhãhãi: famílias nificativamente a área que ocupavam, a des-
indígenas com diferentes histórias e distintas peito de esta permanecer ainda descontínua
origens étnicas, embora ligadas à antiga reserva (ALARCÓN, 2013a, p. 169). As emendas,
indígena criada pelo estado da Bahia em 1926, por outro lado, observavam uma práxis ditada
retornam, após anos de dispersão, e recuperam pelas circunstâncias. Ou seja, a presença, em
quase todo o território por meio dessa prática determinada área, de um pequeno produtor
(CARVALHO et al., 2012). ou mesmo de um fazendeiro – desde que fosse
Alarcón (2013a) lembra, muito oportuna- um bom vizinho e zelasse adequadamente
mente, que um paralelo pode ser estabelecido pela área em sua posse – introduzia exceções.
com a primeira retomada realizada pelos Kiriri, As evidências apontadas parecem sugerir
no norte da Bahia, em 1982, quando eles estarmos diante de uma nova prática político-
ocuparam a fazenda Picos, considerada um -territorial que tende a implicar mudança nos
baluarte da oposição à demarcação da terra comportamentos até então adotados com vis-
indígena. Do ponto de vista dos Kiriri, sua tas à territorialização, provavelmente, em novas
posse representava não apenas uma questão formas de territorialidade. Se tradicionalmente
de sobrevivência, mas também a possibilida- reivindicava-se ao Estado as demarcações, com
de de neutralizar seu inimigo mais influente frequentes deslocamentos a Brasília para pres-
(BRASILEIRO, 1997, p. 192). Mas cabe sionar a instância indigenista oficial, presente-
lembrar também que, imediatamente após mente retoma-se o que, por direito, pertence
o retorno dos Hãhãhãi, três dos seus líderes ao povo indígena, funcionando como suporte
foram convidados pelo cacique kiriri Lázaro comprobatório para a retomada do domínio
Gonzaga de Souza para visitá-los. Os visitantes dos limites do território. A reivindicação ao
afirmam ter, então, conhecido o toré kiriri. Estado passa a ser algo complementar, não
Mas, muito provavelmente, as ações de reto- mais o fundamental: “Hoje nós leva o povo.
mada devem ter sido a motivação principal Pode não ter terra demarcada, mas temos o ter-
para o deslocamento (CARVALHO et al., ritório, nós temos nossa terra na mão. Você não
2012, p. 16). vai encontrar nenhum índio que diz, hoje,

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‘eu não tenho o que comer em casa’; você participação do MPF, contudo, só se efetivou
não vai encontrar um índio que não tem o por volta de 1996, quando os próprios índios
seu queixo erguido, esperança”, diz o cacique ingressaram em juízo. O procedimento admi-
Babau (SALLUM, 2015, p. 94, grifo nosso). nistrativo foi instaurado para matéria ligada à
Tal mudança parece embasada, pelo menos destruição de sítios arqueológicos considera-
no que diz respeito aos Tupinambá, em uma dos sagrados por esses índios, portanto, uma
concepção de autonomia crescente. motivação relacionada à defesa do patrimônio
Tal autonomia, no caso específico, foi histórico. O procurador da República Álvaro
construída por meio de três estratégias que, Ricardo de Souza Cruz solicitou na 6ª Câmara
implantadas sucessivamente, passaram a fun- de Coordenação e Revisão um perito, tendo
cionar de modo complementar. A criação da sido indicada a analista pericial Ana Flávia
Coordenação de Articulação Política dos Povos Moreira Santos, que, após mais de um ano e
Indígenas no Extremo Sul da Bahia, em 2009, meio de trabalho de campo, confirmou que
que daria origem, no ano seguinte, à Federação os Caxixó formavam uma comunidade indí-
Indígena dos Povos Pataxó e Tupinambá do gena, ao contrário, portanto, da conclusão
Extremo Sul da Bahia (Finpat) – cujo logotipo do primeiro laudo. Um terceiro laudo – de
é uma imagem étnica expressiva, o Monte desempate – foi imediatamente solicitado, o
Pascoal –, visando a institucionalização da que foi concretizado pela intermediação da
organização regional indígena (idem, 2016, Associação Brasileira de Antropologia (ABA),
p. 110) e a criação da Associação Indígena que indicou João Pacheco de Oliveira, cuja
Tupinambá da Serra do Padeiro (AITSP), conclusão foi também favorável aos índios. Em
encarregada de proceder à gerência das áreas 13 de novembro de 2001 a Funai procedeu ao
retomadas. isto é, à manutenção das roças de reconhecimento étnico dos Caxixó (SANTOS;
cacau e seringais decorrentes das retomadas e OLIVEIRA, 2003, p. 11).
a comercialização de seus produtos (ibidem, p. A unidade dos Caxixó como povo se firma
157). Houve estreita aliança social e política da tanto no presente quanto no passado mítico:
AITSP com a coordenação do assentamento antes de 1500, no tempo dos caciques, eram
de reforma agrária Terra Vista, implantado, em todos selvagens donos da terra. A selvageria
1994, no município de Arataca (BA), a cerca é a anticivilização, estágio anterior e simulta-
de 60 km da Serra do Padeiro. Dessa aliança neamente contrário à colonização, e também
inicial decorreu a participação dos Tupinambá substância do permanente elo de civilização
– de Olivença e da Serra do Padeiro – na Teia entre os vários grupos, consubstanciados nos
de Agroecologia dos Povos da Cabruca e da caboclos d´água, casados com habitantes de
Mata Atlântica, organização liderada pelo refe- ambas as margens do rio Pará (ibidem, p. 134).
rido assentamento e cujo objetivo é articular os As marcas de ocupação histórica são, por
diversos movimentos sociais pela solidariedade sua vez, o sinal da chegada dos brancos e da
do princípio de luta (ibidem, p. 150-151). progressiva expropriação a que o grupo teria
Em 1992, os autointitulados Caxixó – ha- sido submetido. As covas – onde teriam sido
bitantes no município de Martinho Campos, enterrados os caciques dos vários povos forma-
à margem esquerda do rio Pará, região centro- dores dos Caxixó, assassinados como parte da
-oeste de Minas Gerais –, diante de um laudo estratégia de dominação – constituem marcas
antropológico que lhes negava o reconheci- de resistência que o grupo utiliza, para afirmar,
mento da identidade étnica como tal, apela- no presente, a reivindicação sobre a terra que,
ram ao Ministério Público Federal (MPF). A acolhida pelo aparato político-administrativo,

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teria sido determinante para sua territoriali- (BARROS JUNIOR, 2010). Certamente o
zação (ibidem, p. 135). campo de instititucionalização por parte dos
próprios índios, com crescente protagonismo
Pernambuco e Ceará (retomadas, burocrático também em instâncias estatais, é
premonição e circuitos) característico dos últimos 20 anos.
Em relação aos Tapeba – cujo processo
A prática das retomadas não se limita ao demarcatório tramita desde 1986 –, Tófoli
sul e extremo-sul baianos. Ela parece estar (2009) afirma que já houve várias retomadas,
muito disseminada entre os vários povos indí- em diferentes localidades e com motivações
genas no Nordeste, assim como externamente e objetivos diversos, as duas primeiras tendo
a esse contexto etnográfico, como veremos ocorrido em meados de 1990 e asseguran-
adiante. A literatura recentemente produzi- do-lhes uma área contígua que interliga três
da registra-a entre os Xukuru de Pesqueira aldeias. Na sequência, foram realizadas mais
(PE) e os Tapeba, no Ceará – entre, muito doze retomadas, que garantiram espaço para
provavelmente, outros. No primeiro caso, a a construção de cinco escolas indígenas, área
primeira retomada, em 1990, foi um bom para um posto de saúde, acesso a recursos
demonstrativo do fortalecimento do toré como naturais e controle sobre a região considerada
prática ritual integrada ao cotidiano: ao longo sagrada (TÓFOLI, 2009, p. 224). Ora, esse
dos noventa dias de acampamento nas matas, caso também exemplifica que garantir terra
as noites eram dedicadas à prática do ritu- libera energias para perseguir outras metas. Os
al para assegurar sucesso na luta. A relação Tapeba se engajaram em diversas atividades,
revelou-se tão forte que, ao conquistarem a como a instalação da Casa da Memória Tapeba,
aldeia Pedra D’Água, o lugar até então utiliza- onde visitantes e turistas assistem o toré dentro
do como acampamento tornou-se o primeiro do círculo simbólico, apresentado como um
terreiro de toré do grupo (OLIVEIRA, K. evento do sagrado (SOARES, 2010).
E., 2009, p. 57). Essa luta, como é sabido, Os Kaingang, no sul do Brasil, e os
foi mais uma a criar um mártir: o cacique Guarani Ñhandeva, no sul do estado de
xukuru Chicão, cujo assassinato terminou São Paulo, assim como os Terena, Kaiowá e
com a produção de efeito contrário ao preten- Guarani, no Mato Grosso do Sul, têm utilizado
dido, já que confirmou sua relevância como a retomada. Bruno Martins Morais (2017), ob-
líder, chamou atenção para sua capacidade de servando a vida diária nos acampamentos, tem
mobilização e reforçou a causa de seu povo percebido que os Kaiowá e Guarani transitam,
(FIALHO; NEVES; FIGUEROA, 2011). simultaneamente, entre uma reivindicação
Os Xukuru valem, assim, como exemplo de clara de demarcação de um território específico
uma tendência altamente preocupante muito e o estreito vínculo a uma rede de relações que
mais geral: a criminalização dos movimentos abarca as famílias de um dado acampamento,
indígenas (dentro da tendência maior de crimi- dos outros acampamentos e de outras terras
nalizar movimentos populares, os assassinatos indígenas e, de muitas maneiras, envolve os
de índios e camponeses no país persistem, vivos e os mortos. Assim sendo, os espaços dos
assustadoramente). Outrossim, as conquistas acampamentos lhes permitiriam a experiência
de terra possibilitaram um fenômeno tam- de memória e a reiteração de alianças outras
bém mais amplo: o estabelecimento de uma que não as disciplinadas pelo cerco colonial.
organização não governamental (ONG) indí- Embora Morais esteja atento ao fato de que
gena orientada para o etnodesenvolvimento um modelo de territorialidade sob a forma de

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acampamentos como espaços de resistência também fez Batista (2008, p. 12) entre os
e contestação só é passível de demonstração Truká: “o meu avô dizia que esse era nosso
por um traçado amplo das relações de paren- território e que um dia ele ia ser nosso”. Nesse
tesco e do apoio de uma etnografia das redes último caso, a interlocutora indígena relatava
regionais de sociabilidade kaiowá e guarani, ao à antropóloga que, com o trabalho do toré,
acompanhar, no período 2013-2014, os três “os índios estão levantando a aldeia […] e
mil indígenas mobilizados nos acampamentos agora é chegado o momento de se recuperar
da retomada do Yvy Katu – terra indígena a herança”.
localizada entre os municípios de Japorã e No entanto, se o regime de índio
Iguatemi, na fronteira do Mato Grosso do (CARVALHO, 2011; GRÜNEWALD, 1993)
Sul com o Paraguai –, seus registros corro- e o lócus estratégico do ritual toré se mostra-
boraram, em linhas gerais, a hipótese desse vam dominantes em certa fase da busca de
novo modelo de territorialidade ao lado do reconhecimento, houve mudança de para-
primeiro modelo, mais sedentário e fechado, digma depois de 2000. Os notórios laudos de
do território reivindicado para demarcação atestação da indianidade foram sendo substi-
(MORAIS, 2017, p. 186-187). tuídos pela instrução da Convenção 169 da
No Nordeste, quase sempre se constata Organização Internacional do Trabalho (OIT)
que a força incontornável dos encantados sobre Povos Indígenas e Tribais, que prescreve
parece se sobrepor a todos os fatores secula- que o critério principal a ser observado pelo
res. Comenta-se, na Serra do Padeiro, sobre Estado é a autoidentificação. Essa nova situ-
jovens e adultos que teriam sido veículos ação aliviou um pouco a tensão em torno do
de premonição ou presságio, em sonhos ou processo de reconhecimento e, depois dos
em situações de surto psicótico, comumente Tapeba, colaborou para o crescimento, até
referidos como loucura. “Eu, quando enlou- então não previsto, de núcleos menos rurais
queci, e outras pessoas que enlouqueceram ou até exclusivamente urbanos.
também… a gente dizia que a terra ia voltar No Ceará, mais particularmente em
e ninguém acreditava. Essa terra sempre teve Cratéus, de acordo com os registros de
premonição” (ALARCÓN, 2013a, p. 158- Estevão Martins Palitot (2009b), há cerca de
159, grifo nosso). Premonição ou profecia uma dezena de núcleos indígenas localizados
é o termo local para tais manifestações, glo- nas periferias da cidade que se originaram
sadas como a capacidade de os encantados de mobilizações populares estimuladas pelos
transmitirem suas mensagens pela boca dos agentes pastorais da diocese. Além dessas con-
indivíduos em que desciam. centrações urbanas, o movimento indígena na
Os Xukuru do Ororubá – Pesqueira (PE) região dispõe também de uma rede translocal
– e os Truká da Ilha da Assunção, também em de comunidades indígenas na zona rural de
Pernambuco, reportam-se ao mesmo presságio. Crateús e nos demais municípios da região,
Edmundo Monte (2016) ouviu e registrou de todas decorrentes da ação da pastoral Raízes
uma xukuru, ao evocar sua infância e juventu- Indígenas, que teve atuação destacada na dio-
de difíceis, confinadas na terra que sabia lhes cese durante a década de 1990 e nos primei-
pertencer, mas cujo pretenso dono não lhes ros anos do século XXI. Nos municípios de
permitia sequer soltar os bodes: “Mas essa terra Tamboril e Monsenhor Tabosa, um conjunto
era nossa, e nós ainda vamos ser donos dessa de dezessete aldeias e quatro etnias ocupa um
terra. Um dia nós vamos ser. Meu pai falava território contínuo nas fraldas da Serra das
isso, né?” (MONTE, 2016, p. 39). Assim Matas (PALITOT, 2009b, p. 271-272).

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No mesmo estado do Ceará, mas na Serra e Kalabaça, em Poranga, na Serra (SILVA,
das Matas, estão concentrados cerca de 2.600 2013). Se a busca por raízes ganhou impulso
indígenas que compõem distintos núcleos pelo estimulo de uma pastoral, a pesquisa foi
familiares: os Gavião, pela família Rodrigues; empreendida pelos professores indígenas, que
os Potiguara, que abrangem as famílias Paixão, cada vez mais se tornam agentes mediadores e
Bento, Ugena e Da Luz; os Tubiba-Tapuia, produtores de cultura, observação válida para
que compreendem parte da família Bento, todo o Nordeste. Na condição de pesquisa-
que vive no local denominado Pau Ferro; e os dores, buscaram apoios acadêmicos diversos
Tabajara, que se compõem das alianças con- para a narração da história. Por exemplo, en-
jugais estabelecidas entre as famílias Canuto, trevistaram os mais velhos, considerados como
Ambrosio e Braz (LIMA, 2009, p. 233). Eles fontes privilegiadas de informações históricas,
costumam utilizar os relatos das suas peram- e criaram um circuito de pesquisas – como
bulações – termo local – para acionar as iden- consta no título da dissertação do etnógrafo
tidades étnicas: as famílias Bento e Da Luz Silva (2013). Especialmente em contextos
reivindicam que os antepassados chegaram à urbanos, enquanto a escola representa um
Serra das Matas após um massacre de índios, espaço indígena na procura também de au-
o massacre do Rio do Sangue ou Riacho do toconvencimento da indianidade, ela ainda
Sangue; já a família Rodrigues afirma que a concretiza, reifica e visibiliza a indianidade
causa para a perambulação foi uma migração, pela sua presença física e vínculo formal com
provavelmente forçada. A antepassada Maria a educação do estado.
Rodrigues migrou para o Piauí, onde teve
filhos com um índio gavião (Timbira oriental/ O sertão de Alagoas, um exemplo
jê), tendo retornado para o local de origem de redes no complexo pankararu
após a morte do cônjuge, cujo nome ela in-
corporou. Os descendentes de Maria Gavião No circuito dos povos do Ceará, todos que
são os atuais Gavião de Monsenhor Tabosa entraram nas redes do movimento indígena
(LIMA, 2009, p. 239-240). tomaram conhecimento do toré, ritual sempre
Dois fenômenos mais recentes devem representado nas assembleias (no Nordeste in-
ser destacados neste artigo: a mudança do teiro, diga-se). Alguns aprenderam, assim, um
paradigma da etnogênese pelo da autoidentifi- toré de apresentação em eventos em que par-
cação, em que o toré desempenha papel muito ticipam como índios, mas não apreenderam o
menos significativo, e as migrações de diversos ritual na acepção mais profundamente religio-
tipos, inclusive com a busca de reconhecimen- sa, o que, lembramos, difere do século passado.
to por parte dos chamados índios urbanos, Que o mesmo aconteça no Centro Cultural
que tentam consolidar sua presença também Tapeba, que também é um museu indígena,
nesse contexto. Crateús localiza-se próximo é significativo. Há que referir uma crescente
à Serra de Ipiaba, onde havia uma presença movimentação para que os próprios povos
indígena historicamente grande e que também criem seus museus indígenas, cujos efeitos são
deu origem a frações populacionais que mi- visibilidade e convencimento, para dentro e
graram (hoje, há um grupo no outro lado da para fora, e uma crescente patrimonialização
Serra, no Piauí, na cidade de Piripiri). O que é no Nordeste e no Brasil. Para um muito bom
novo, nesse caso, é que o autorreconhecimento exemplo no Ceará, cf. Gomes (2012).
passou por uma procura de origens que inspi- Por outro lado, o ritual religioso pode ser
rou pesquisa por parte dos próprios Tabajara necessário, em certos casos. Vejamos o que

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ocorre no Alto Sertão de Alagoas. Foi com (ANDRADE, U. M., 2004, p. 107-108). Os
o auxílio formal de uma rede regional de Kalankó e os Geripankó estreitaram relações,
comunicação interétnica que a denominada já como duas pontas de rama pankararu – os
etnogênese kalankó começou a se tornar ma- segundos atuando, solidária e similarmente
nifesta. Aliás, para toda a fase de etnogênese, ao que ocorreu com vários outros povos in-
observa-se o papel muito significativo do dígenas, como líderes dos primeiros no plano
Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ritual. As visitas, em festas rituais – Menino do
tanto em produzir e articular essas redes Rancho, Corrida do Umbu, Praiá e Toré –, do
como em apoiar o movimento dos próprios pajé kalankó à aldeia geripankó do Ouricuri
índios, cada vez mais significativo (WARREN foram estratégicas para o aprendizado. Em
2001); vale notar que a Articulação dos Povos pouco tempo, os Kalankó já participavam
e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas do movimento indígena (ANDRADE, U.
Gerais e Espírito Santo (Apoinme) trata os M., 2004, p. 108).
povos estabelecidos na região leste como in- Atualmente, os Gerinpankó se distribuem
cidentes no Nordeste (OLIVEIRA, K. E., em várias comunidades próximas, a exemplo
2013). Para o desencadeamento da etnogê- da acima referida Ouricuri, que constitui o
nese kalankó, foi necessária a autorização das centro: Piancó, Campinhos, Figueiredo e
famílias do sítio Januária, o primeiro local Pedrinhas, entre outras. Essa divisão é ape-
onde se estabeleceram as famílias oriundas nas física, por questões territoriais, uma vez
da aldeia pankararu de Brejo dos Padres, que o povo indígena compartilha os mesmos
em Pernambuco, e alguns grupos indígenas cacique e pajé e prossegue reportando-se aos
de Alagoas, como os Geripankó e Karuazú. Pankararu, em Pernambuco (PEIXOTO;
Fundamental, todavia, foi o apoio diretamen- GUEIROS, 2016, p. 115).
te oriundo de Brejo dos Padres para que os Para Ugo Andrade (2004, p. 109), o
Kalankó pudessem utilizar um dos referen- desafio adicional que se apresentou aos
ciais históricos que compõem o longo etnôni- Kalankó foi a produção de uma identidade
mo pankararu (Pancarú Geritacó Cacalancó translocal, uma vez que não podiam ser mais
Umã Canabrava Tatuxi de Fulo), eloquente Pankararu e, ao mesmo tempo, pertenciam
indicador de uma unidade social heterogê- a esse universo sociocosmológico. A alter-
nea, resultante de desterritorializações, fu- nativa adotada passou pelas categorias de
sões e reclassificações operadas por agentes territorialidade desenvolvidas ao longo de
coloniais (ARRUTI, 1996; ANDRADE, U. quatro gerações e que, não confrontando a
M., 2004, p. 107), com ênfase nas medi- origem sociocosmológica pankararu nem os
das adotadas pela política fundiária após o vínculos com a aldeia de Brejo dos Padres,
Diretório pombalino e pela Lei de Terras, em permitiam o desenvolvimento de uma topo-
1850, que aceleraram o desmantelamento dos filia pelo depósito de fragmentos de memória
aldeamentos e o acirramento da política da em topônimos ou estabelecendo-se uma cum-
mistura (MURA, 2013, p. 42). plicidade com o lugar de onde eles tiravam
Assim, estavam preenchidos os requisitos o sustento durante os anos mais drásticos
para que os Kalankó se tornassem, de pleno de secas e privações (ANDRADE, U. M.,
direito, uma ponta de rama dos Pankararu e a 2004, p. 109). Certamente se construiu um
sua etnogênese um processo de enxamamento, domínio do lugar (CARVALHO, 1984), uma
isto é, de formação de uma nova identidade, relação profunda cognitiva e afetiva com uma
embora afiliada à aldeia de Brejo dos Padres terra que se torna território.

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Em suma, Geripankó e Kalankó fazem Cativeiro, territorialidade
parte do complexo pankararu, que abriga topológica, “saber andar”
uma série de povos cuja origem se reporta ao
Brejo dos Padres e que costuma compartilhar “Quem falava em medição? Nesse tempo
os mesmos rituais da aldeia de origem (além ninguém conhecia leis, não existia perturba-
dos cinco no Alto Sertão pernambucano, ção, ordem de branco – só ordem da velha
já se conhecia povos, como os Pankararé e mãe – ninguém falava em medição, em proibir
Kantaruré, na Bahia, do outro lado do rio nada, em rumo […]. Nossa terra não tinha
São Francisco). Uma riqueza cosmológica é limite, embargue; hoje tem.” (CARVALHO,
compartilhada, portanto, por todos os povos 2008, p. 206). A declaração é de um pajé
no Alto Sertão alagoano, que se encontram pataxó, mas provavelmente poderia ter sido
relativamente próximos do centro de irra- proferida por qualquer indígena compelido
diação pankararu – Geripankó, Kalankó, a cingir-se, por força do contato, a limites
Karuazu, Katokinn e Koiupanka – e cujas espaciais exíguos, situação que afeta, parti-
trajetórias de dispersão e reagrupamento, cularmente, as terras indígenas no Nordeste.
como “rama” e “ponta de rama”, se asseme- A constante eclosão de conflitos e a formação
lham. Os quatro povos K causaram certo de novos grupos locais no extremo-sul baiano
impacto pela forma incomum adotada para – das sete terras indígenas, a de Barra Velha
anunciar seu reaparecimento, por intermé- do Monte Pascoal foi objeto de reestudo, ele-
dio de uma aparição pública denominada vando os atuais 8.000 hectares para 44.000,
“festa do ressurgimento”, realizada, todavia, processo há algum tempo interrompido, e a
em espaços e tempos distintos, com o que de Comexatiba foi apenas identificada (28.000
preservaram, simultaneamente, a singulari- ha) – têm seguramente, como fator motivador,
dade étnica e seu protagonismo etnopolítico entre outros, o confinamento espacial. Muitos
(AMORIM, 2010). outros casos poderiam ser referidos.
No caso kalankó descrito por Herbetta Não é, pois, de surpreender que, ao
(2013), fica nítido que, para esse povo e seus mesmo tempo em que envidam esforços pelas
vizinhos, a questão da autonomia étnica passa demarcações, haja quem tema suas consequ-
pela via da autonomia ritual, que atinge um ências negativas. É o caso, seguramente não
momento de ultrapassagem do complexo ritual único, dos Mbyá (GARLET, 1997, p. 91;
pankararu: novos encantados serão acrescen- SÁEZ, 2015, p. 279), que, longe de exul-
tados aos da aldeia de origem. Afiguram-se, tarem com a perspectiva de ter suas terras
então, a encantados específicos do lugar, aque- demarcadas, temiam que essa demarcação
les que particularizam um povo autônomo. supusesse uma espécie de cativeiro, um meio
Desse modo, as novas unidades comparti- para mantê-los concentrados e controlados.
lham do mesmo complexo ritual, mas também Temor que, como enfatiza Sáez, está afinal
dele se diferenciam. Herbetta adere à ideia da justificado por sua história (ibidem). No
“baixa distintividade”, mas procura analisar Nordeste pós-estabelecimento das missões
letras e músicas do toré como indícios de uma ocorreu, fundamentalmente, o mesmo.
cosmologia que, contrariamente ao que ele Em Aldeia Velha, parte do território pata-
parece propor, apontam para uma riqueza xó cuja formação resultou de retomadas reali-
cosmológica própria ao complexo pankararu zadas nos anos 1990, “saber andar” é um ideal
que restará oculta se não houver etnografia e de sociabilidade equivalente a “saber viver”: ter
análise mais aprofundadas (REESINK, 2014). a casa como um “passa chuva”, ter “um primo

89
em cada aldeia” e nunca ficar sem abrigo é ampla “para sustentar ciclos de fissão e fu-
uma espécie de receituário para se atingir a sões (ibidem, p. 273). Esse é um ponto que
condição de índio pleno (PEDREIRA, 2013; julgamos importante e que desautoriza a re-
2017). Saber viver implica uma disposição lação espúria costumeiramente estabelecida
ontológica similar àquela vivenciada pelos entre o tamanho de um território indígena e
antepassados que se distribuíam em peque- a longevidade do contato, o que o exemplo
nos grupos para escambo, visitas aos parentes pataxó, entre prováveis muitos outros, traduz
dispersos e estabelecimento de novas alianças, eloquentemente.
o que os compelia a um movimento de dis- O alto grau de dispersão dos Maxakali
persão/concentração pendular, não só entre a é também notório. Seus agrupamentos são
mata e a área de praia, mas sobre a superfície fluidos, mutáveis e altamente suscetíveis às
topológica de perambulação. dissidências. Estas produzem um efeito em
Desse modo, o que tem sido entendido cadeia, redundando na recomposição das
como “a instabilidade yaminawa” – desloca- aldeias e na desarticulação dos chamados
mentos constantes das terras indígenas para bandos – unidade social de consenso e arti-
a capital do Acre, Rio Branco, e permanência culação social mais complexa –, que, então,
ali por longos períodos e em condição franca- se reúnem para identificar possíveis soluções.
mente desfavorável – está longe de constituir Colabora para a acentuação do fracionamento
uma idiossincrasia yaminawá. Não se trataria, a liderança entre esses grupos, igualmente
aqui, como em outros casos, de “infidelidade difusa, fluida e restrita à aldeia de cada líder
às raízes nativas”, mas justamente do contrário: (PARAÍSO, 1999). Índios maxakali são vis-
por serem fieis ao seu passado, os Yaminawá tos, frequentemente, em vários municípios da
“não o diferenciam desse presente em que, região fronteiriça entre Minas Gerais e Bahia,
de acordo com as melhores expectativas, eles onde foram aldeados.
deveriam se recluir nas suas terras parecen- É importante assinalar que, no sul da
do tanto mais índios quanto fosse possível” Bahia e áreas limítrofes de Minas Gerais e
(SÁEZ, 2015, p. 278). Espírito Santo, havia um complexo de povos
Tais perambulações dever-se-iam à prio- afiliados linguística e culturalmente dos quais,
ridade conferida às relações sociais, hoje, somente conhecemos os Maxakali e os
Pataxó. Parece haver certa similitude entre
que criam território em qualquer lugar, os padrões de circulação e fluidez dos atuais
sobre o território entendido como con- Pataxó e Maxakali e o padrão amazônico ya-
dição das relações. […] Antes que espa- minawá, entre possíveis outros. Por hipótese, a
cial, essa territorialidade é topológica: o ser melhor aferida, teríamos aqui um “regime
espaço que ela exige é aquele que permite de socialidade territorial de circulação” em vez
organizar as relações de modo que pro- de, digamos, um “regime de territorialidade
ximidades e distâncias sejam eficientes. sedentária”, característico de outros povos indí-
(ibidem, p. 272) genas? Indo um pouco mais longe, estaríamos
diante de uma disposição e de um padrão
Após quase duas décadas de fragmenta- de circulação de alta distintividade, estrutu-
ção/dispersão, Sáez supõe que os Yaminawá ralmente similares ao padrão pré-cabralino?
aparentam estabilidade no conjunto das suas Nessa mesma acepção, e com a precaução
aldeias, o que atribui ao fato de esse conjunto devida, aventamos a possibilidade de que ou-
já compor uma pluralidade suficientemente tras continuidades transformadas possam vir

90
a ser percebidas e registradas, desde que haja sendo antes necessário eliminar as barreiras
sempre o interesse de proceder a um controle interpostas à compreensão da vida ameríndia
comparativo entre as populações regionais, no Nordeste e ao longo e denso conhecimen-
para discernir melhor e aferir com mais rigor to americanista que, por razões históricas,
o grau de distintividade persistente, evitando, foi se consolidando a partir de etnografias
assim, conclusões mais apressadas. sobre a Amazônia. A alternativa que a ela se
João Pacheco de Oliveira (1996, p. 9) já apresenta é, então, integrar o conhecimento
há certo tempo observou não ser da natureza etnográfico sobre os índios estabelecidos no
das sociedades indígenas estabelecerem limites Nordeste aos debates americanistas no âmbito
territoriais precisos para o exercício de sua so- de múltiplas estratégias comparativas (ibidem,
ciabilidade. Por outro lado, a mobilidade espa- p. 67-68). É o que Viegas faz tanto em sua tese
cial não pode ser entendida como “uma espécie de doutorado quanto no artigo que compõe
de prova de que não há território” (GALLOIS, o dossiê Transformações das Territorialidades
2004, p. 39) ou, como afirma Rivière (1984, Ameríndias nas Terras Baixas (Brasil), cuja
p. 95 apud. GALLOIS, p. 39), “de que há organização ela compartilha com Marta
ausência de um senso de territorialidade”. Os Amoroso e José Glebson Vieira (2015).
casos descritos nesta seção atestam o contrário, A avaliação de Viegas requer alguns pou-
bem como asseveram que a necessidade de cos comentários. Preliminarmente, a autora
estabelecimento de limites territoriais precisos expressa que tem havido pouquíssima com-
(ou de um “território fechado”) advinda da paração e engajamento no diálogo entre a
situação colonial (OLIVEIRA, op. cit., p. 9) etnologia produzida no Nordeste e a etnologia
é, na prática, em larga medida contornada. mais geral das Terras Baixas. Podemos resumir
a questão mediante a simples constatação de
Uma inflexão amazônica: o que boa parte da etnologia orientada para o
Nordeste nas Terras Baixas Nordeste sempre partiu do pressuposto de
baixa distintividade cultural dos povos ali
A tese de doutorado de Susana de Matos estabelecidos. Assim, é oportuno lembrar
Viegas, defendida em 2003 na Universidade que, antes de 1970, houve uma fase em que
de Coimbra e publicada em livro em 2007 o conceito-chave de aculturação e a busca de
(Terra calada: os tupinambá na Mata Atlântica persistências da distintividade sociocultural
do sul da Bahia) conclui, no capítulo II, subi- pré-cabralina prevaleceram em uma paisa-
tem “Uma alternativa americanista para uma gem étnica tacitamente pensada e entendida
antropologia do Nordeste indígena”, que o como sendo de baixa distintividade. Quando
Nordeste é uma das áreas onde a antropologia os poucos primeiros antropólogos, a partir dos
das sociedades indígenas mais se ampliou e a anos 1930, começaram a visitar os poucos
etnologia menos se desenvolveu (VIEGAS, locais conhecidos por terem remanescentes
2007, p. 65). Tal defasagem, supõe a autora, de índios, o termo “remanescente” conotava,
dever-se-ia ao fato de a etnografia resultante corretamente, os resistentes e sobreviventes
das abordagens ali desenvolvidas se circunscre- dos massacres, físicos e simbólicos, aos quais
ver ou à etnogênese ou à análise da criatividade seus povos foram submetidos. Por outro lado,
cultural no gerar de tradições, o que significa hoje é consenso de que a visão da etnologia
que a questão por Viegas suscitada é de natu- das perdas subestimou a persistência da per-
reza teórica (ibidem, p. 66-67). Limitar-se a cepção indígena de ser um outro, diferen-
essa via interpretativa parece-lhe um equívoco, te dos regionais e rejeitado por parte desses

91
não índios. Desse modo, concentrar-se na fenômeno às quais se pode atribuir maior ou
etnogênese resultou em certa surpresa com menor relevo de acordo com o que sinalizam
o fenômeno e em uma posição etnopolítica o campo e a sensibilidade etnológica de cada
para apoiar esses povos em busca de reconhe- autor. Neste balanço, só trataremos mais deti-
cimento. Seguramente, há vários motivos para damente dos artigos de Viegas e Vieira, por se
que, por exemplo, todos os trabalhos citados reportarem ao Nordeste indígena, assim como
desenvolvidos no Museu Nacional partam já referimos, muito brevemente, ao de Sáez.
desse princípio e porque tenham sido, justa O estudo de Viegas descreve os processos
e explicitamente, considerados como objeto de apropriação espacial pelos índios Tupinambá
de reflexão por parte de Oliveira (1998), ao – a parcela estabelecida em Olivença, costa
indagar, inesperadamente, sobre a etnologia atlântica –, tradicionais habitantes da missão
dos índios misturados com sua baixa distintivi- de Nossa Senhora da Escada, no sul da Bahia,
dade. Já foi dito que, na expansão da produção visando contribuir para a compreensão his-
acadêmica dos últimos vinte anos, a partir do tórica de longo termo da posse da terra, do
Nordeste, muitas vezes os autores se limita- pertencimento territorial e de suas dinâmicas
ram a aplicar os conceitos da época anterior, históricas. A Vila de Olivença, antiga sede
pouco renovando em termos teóricos. Desse da missão jesuítica e entorno do aldeamento
modo, uma linha de estudos a partir de um jesuítico, se mantém permanentemente como
pressuposto de “alta distintividade” é uma das ponto de referência e de apropriação funda-
poucas inovações mais recentes. mental pelo cultivo das roças ou da criação
O dossiê citado constitui uma contri- de uma dinâmica cíclica de concentração e
buição relevante ao tema da territorialidade dispersão. Trata-se de uma territorialidade
e, por extensão, da identidade. A abordagem pontilhada por deslocamentos, por regimes
adotada – história transformacional ameríndia de posse associados a regimes de socialidade
– é avaliada pelos organizadores como sendo (VIEGAS, 2015, p. 95), a exemplo de outras
cada vez mais imprescindível, por articular, de tantas territorialidades registradas pela litera-
forma complexa, processos de imposição de tura etnológica mais ampla. A modalidade de
certas formas territoriais, regularmente iden- viver entre a sede e a mata teria instituído um
tificados com o que João Pacheco de Oliveira padrão de territorialidade passível de explicar
(1998) designou por processos de territoria- as atuais reivindicações de inclusão da vila
lização, e procedimentos de vivência dessas na demarcação da terra indígena. O que nos
imposições, denominados territorialidades interessa, vale ressaltar, é como a autora pensa
(VIEIRA; AMOROSO; VIEGAS, 2015, p. a longa duração e como a história teria resul-
12-13). Viegas retoma, de certa forma, a antiga tado em um padrão de ligação ao território
distinção suscitada por Viveiros de Castro tributário de uma especificidade indígena.
(1999, p. 115) entre o que ele designa como A proposta de José Glebson, por outro
uma perspectiva centrada no polo colonial, lado, é proceder à análise da organização social
“uma sociologia do Brasil indígena que toma os potiguara, partindo do parentesco e de sua
índios como parte do Brasil”, e uma perspec- articulação com os ideais de viver bem que
tiva centrada no polo nativo, “uma antropo- traduzem a possibilidade de viver nas aldeias
logia dos índios situados no Brasil” – que, do e entre parentes e demarcam a centralidade do
nosso ponto de vista, nunca se apresentaram parentesco no processo de socialidade exami-
de forma tão irremediavelmente polarizadas, nado (VIEIRA, 2015, p. 287). As histórias de
mas, no máximo, como faces de um mesmo deslocamentos – movimentos incessantes de

92
concentração e dispersão em busca de novos requer atenção. As únicas tentativas de longa
conhecimentos e pessoas mais distantes (pes- duração para não tupi, salvo engano nosso,
soas de outras aldeias, da cidade ou de outras concernem aos rituais e ao uso da jurema
localidades) – resultam em um padrão de habi- (NASCIMENTO, 1994; 2013; REESINK
tação e uma tendência à dispersão das famílias, 2002). Assim, nesse último caso, a conti-
ao passo que os movimentos deles decorrentes nuidade de longa duração transformada é
levam à produção de uma concepção nativa de garantida, ainda que seja necessário melhorar
mistura e de um modo peculiar de ocupação o nosso entendimento sobre o processo dessas
do espaço (ibidem, p. 297). Dessa manei- transformações.
ra, é possível constatar que os dois autores
compartilham, desde a escrita de suas teses, Considerações finais
da mesma proposta da longa duração e de
tomar a etnologia mais ampla como medida Vale observar que, em geral, na literatura
de comparação. Para nossos fins, duas obser- produzida no Nordeste tende a faltar apro-
vações se impõem. Por um lado, realmente fundamento nas comparações, de modo a
parece-nos faltar um diálogo etnográfico e permitir verificar em que medida os fenôme-
teórico com a Amazônia (e o Sul, mas essa nos são especificamente indígenas. Por exem-
parece ser uma região quase desconhecida em plo, as noções de família (parentela) e tronco
nossa literatura, apesar de certas semelhanças (metáforas de parentesco) estão presentes,
significativas, como a noção anterior da “baixa consistentemente, em estudos camponeses,
distintividade” (CARVALHO; REESINK, mas ainda estão a merecer aprofundamentos
2016). Por outro lado, o que uma leitura de- – até mesmo porque há muito se aponta para
tida revela dos dois artigos é que há tendência uma espécie de “idioma comum de filiação
de superestimar o aporte distintivo por não substantiva indígena” (REESINK, 1999b).
se reportarem suficientemente à literatura da Evidentemente, no que tange especialmente
suposta “baixa distintividade”, o que resulta aos rituais indígenas e à sua diacriticidade
em um não diálogo porque, de antemão, o – como cultura entre aspas ou como o que
diálogo é considerado pouco produtivo ou podemos chamar de “cultura diacrítica” –,
improdutivo. esses têm sido objeto de investigação desde
Ambos se debruçam, por exemplo, sobre os anos 1980 e continuam a ter presença
a questão do parentesco de modo muito in- garantida na atualidade. O que socialmente
teressante, com conceitos como regime de importa, por outro lado, é como os índios e
socialidade e viver bem – temas, de fato, os segmentos não indígenas definem o que é
não suficientemente estudados. Todavia, se a cultura diacrítica que vale como justificativa
há comparação com o contexto amazônico de indianidade para os primeiros.
e seus conceitos recentes, nem sempre, ou Porém, há possibilidades de pesquisar o
quase nunca, há comparação com a biblio- que poderíamos denominar de “cultura indí-
grafia do Nordeste e de segmentos sociais gena oculta”, querendo dizer com isso que há
vizinhos para verificar em que medida esses concepções e práticas que têm sua origem na
conceitos e práticas nativos são derivados de longa duração, mas que não foram incluídas
uma linha de continuidade pré-cabralina em na cultura diacrítica, e nem sempre são reco-
transformação e, portanto, específicos dos nhecidas pelos índios e/ou não índios como
povos de origem tupi pesquisados. Trata-se específicas. Contudo, nem sempre os antro-
de um aspecto que, do nosso ponto de vista, pólogos têm se dado conta de continuidades

93
transformadas mais ocultas, embora exemplos assinalamos alguns temas que surgiram no
existam: um mito com afinidade entre os Jê período, como museus e centros culturais
do Norte e os Kiriri (REESINK, 1999a) e, indígenas administrados pelos índios, a
revisitando a etnografia kiriri de Bandeira, produção de textos escritos por estes, suas
todo um levantamento amplo de concepções próprias associações e, em geral, um cres-
e práticas indígenas muito bem registradas, cente protagonismo deles sobre suas pró-
mas não postas tanto em evidência na totali- prias vidas. Deixamos de mencionar alguns
dade da monografia original (CARVALHO, temas, como (sem, em absoluto, pretender-
2005). Não é à toa, então, que Carvalho mos ser completos) uso da internet, turismo
tenha procedido à inversão do pressuposto (GRÜNEWALD, 2001; NEVES, 2012) e a
normal no Nordeste e proposto que a hipó- produção correlata de artesanato, educação e
tese de baixa distintividade prevalecente no escola (e o crescente nível escolar dos índios),
campo seja mais aparente do que pressupo- saúde (com questões fora do xamanismo),
mos. Realmente, muito embora seja bastante etnobiologia e etnoecologia (MODERCIN,
provável que, em certos casos etnográficos, 2010) e migrações – inclusive para cidades
a distintividade seja mesmo baixa, falta in- como São Paulo (ALBUQUERQUE, 2011).
vestigar melhor seu grau em muitas outras Porém, além das questões da distintividade e
ocorrências e em domínios em que não se da cosmologia, outras estão mal ou incomple-
tem pesquisado sob esse aspecto. Afinal, a tamente estudadas (por exemplo, o já men-
literatura comprova que mais de 450 anos de cionado parentesco e a campesinidade); a
genocídios e etnocídios, no âmbito do regime que chama mais atenção é a da economia
de relação assimétrica, resultaram em povos indígena – camponesa, mas crescentemente
indígenas que aprenderam a persistir em es- combinada a outras atividades e fortemente
feras socioculturais próprias, ocultando-as o articulada com a economia nacional, com
máximo possível aos olhos dos dominantes, uma ou outra exceção (CAMPOS, 2006).
em particular na esfera social compartilhada Tivemos também de passar ao largo de muitos
com os últimos e em que esses outros exercem povos e suas bibliografias específicas, algo que
seu domínio. O maior exemplo disso é o a produção acadêmica tende a acompanhar,
segredo dos Fulni-ô (HERNÁNDEZ DÍAZ, mas em relação à qual estamos defasados.
2015). E isso abrange, como é sobejamente Desse sobrevoo, com as devidas ressalvas,
sabido, os antropólogos. ficamos com a impressão de que, salvo pelas
Neste balanço, já previamente admitido lacunas etnográficas mais evidentes, a quan-
como parcial, só suscitamos algumas questões tidade nem sempre corresponde à qualidade.
e alguns eixos de discussão. Provavelmente A interlocução entre a etnologia pro-
sobrecarregaríamos demais o artigo se ali- duzida no Nordeste e aquela amazônica se
nhássemos todos os textos produzidos nos nos afigura possível, observadas as suas ca-
últimos vinte anos com conexão direta ou racterísticas e especificidades. Por um lado,
indireta aos temas aqui tratados. Tal fato o quiasmo categorial entre caboclo e índio
também se pode constatar pelas coletâne- deve ser superado por todos, o que parece
as de textos que apareceram nos últimos poder ser resolvido pela dupla via da filiação
anos (CARVALHO; CARVALHO, 2012; substantiva do parentesco – sempre – e de
CARVALHO; REESINK; CAVIGNAC, um ritual religioso indígena – nem sempre
2011; OLIVEIRA, J. P., 2011; PALITOT, – mediado pela herança substantiva do dom
2009; SCHRÖDER, 2011). Aqui e ali para atividade xamânica, um vetor sociomoral

94
em geral (REESINK, 2011). Os rituais em indígenas do Nordeste e os da Amazônia,
questão têm circuitos diferentes e o único hoje sabemos que não é assim e que distintas
que parece universal é o toré (com raríssi- modalidades amazônicas desse fenômeno
mas exceções, como o torém dos Tremembé, podem ser identificadas. A remoção de su-
cuja denominação parece remeter à mesma postos grandes divisores tenderá a reduzir
origem), o que mostra bastante variação em as distâncias etnográficas e teóricas, desde
importância e significado. Desse modo, entre que sejam envidados esforços para promover
a “alegoria do índio autêntico” e o “ritual comparação no âmbito de um mais amplo
sociocosmológico totalizador”, o toré pare- espectro, passível de se estender a todas
ce ser a cultura diacrítica compartilhada no as diferentes regiões no país. Trata-se, ao
Nordeste, invariante em sua denominação, mesmo tempo, de colaboração com vistas a
porém variante em sua expressão sociocul-
uma comunicação mais regular e simétrica,
tural cognoafetiva: o toré tem sido como
acerca da qual os próprios povos envolvidos
que um fluxo transcultural em toda a região,
têm dado mostras de franco interesse. Troca
que se atualiza em uma variante local com
de mensagens e visitas regulares revelam a
tendência forte a se transformar em variante
clara disposição dos povos indígenas para
etnocultural específica sem perder seu caráter
reconhecidamente transcultural. intensificar suas relações, ultrapassando dis-
Desse modo, apontamos para a pos- tinções linguísticas e culturais, enquanto
sibilidade de conferir certa especificidade os antropólogos, mais cautelosos, parecem
à etnologia das Terras Baixas no Nordeste medir cuidadosamente os passos que lhes
brasileiro ao mesmo tempo em que finali- serão requeridos e as vantagens e desvanta-
zamos com uma breve referência aos novos gens que decorrerão dessa eventual interlo-
registros que tendem a alterar o cenário cução. Da nossa parte, supomos ter, aqui,
etnográfico, requerendo reposicionamen- prestado uma pequena contribuição em
tos. Se, João Pacheco de Oliveira (1998, p. direção a um provável longo caminho a ser
53) afirmava que a etnogênese constituía o percorrido para uma “etnologia comparada
fator distintivo entre os povos e as culturas das transformações socioculturais” no Brasil.

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Resumo

Uma etnologia no Nordeste brasileiro: balanço parcial sobre territorialidades e identificações


Neste balanço parcial, discutimos o estado da arte da etnologia das terras baixas da América do Sul no Nordeste
Brasileiro, no que concerne aos conceitos de territorialidade e identidade. Após proceder à revisão do conceito de
etnicidade nos anos 1970 e sua recepção no Brasil, elaboramos uma síntese de alguns artigos pioneiros, dos anos
1980 e 1990, mas de relevância ainda atual, para dispormos de uma visão da produção do século passado. Para tratar
dos últimos vinte anos, foi inevitável a escolha de algumas áreas e temas, devido à volumosa produção antropológica
que não mais permite mencionar todos os autores e resenhar todos os tópicos. Por fim, baseados na questão do grau
de distintividade sociocultural no Nordeste e do significado transcultural do ritual Toré, lançamos uma proposta
provisória para caracterizar a unidade da etnologia produzida nesse contexto etnográfico.

Palavras-chave: Etnologia Sul-americana; Nordeste; Território; Identidade; Cultura Diacrítica.

Abstract

An ethnology of Northeast Brazil: a partial appraisal of territorialities and identifications


In this article we discuss the state of the art concerning the concepts of territory and identification in the Northeast of
Brazil as part of the Ethnology of Lowland South America. After reviewing the concept of ethnicity in the 70’s and its
impact in Brazil we summarize the some pioneering articles in the 80’s and 90’s. These articles still are relevant today
and permit us some idea of the state of the art of the past century. In order to discuss the burgeoning anthropological
literature of the current century it has become inevitable to choose certain authors, themes and we elaborate upon
some specific perspectives on the ‘degree of the sociocultural distinctivity’ of the Northeast and the ‘transcultural
significance’ of the Toré ritual. Concluding the discussion we present a provisional proposal to characterize the
ethnological unity produced in this ethnographic regional context.

Keywords: Ethnology of Lowland South America; Northeast; Territory; Identity; Diacritical Culture.

102
Resumé

Une ethnologie du Nordest du Brésil: un bilan partiel de territorialités et identifications


Dans ce bilan partiel, nous discutons de l’état de l’art de l’Ethnologie des Basses Terres de l’Amérique du Sud dans
le Nordeste Brésilien concernant les concepts de territorialité et d’identité. Après avoir passé en revue le concept
d’ethnicité dans les années 1970 et son accueil au Brésil, nous avons élaboré une synthèse de quelques articles
pionniers des années 1980 et 1990 toujours pertinents aujourd’hui, afin d’avoir une vision de la production du siècle
dernier. Pour traiter de ces vingt dernières années, le choix de certains endroits et thèmes fut inévitable en raison de la
production anthropologique massive qui ne permet plus de mentionner tous les auteurs et présenter tous les thèmes.
Enfin, en se basant sur la question du degré de différences socioculturelles dans le Nordeste et de la signification
interculturelle du rituel « Toré », nous avançons une proposition provisoire pour caractériser l’unité de l’ethnologie
produite dans ce contexte ethnographique.
Mots-clés: Ethnologie sud-américaine; Nordeste; Territoire; Identité; Culture Diacritique.

103