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Copyright © 2017 Mari Sillva


Capa:
Revisão:
Diagramação Digital: Margareth Antequera Esta é uma obra de ficção. Seu
intuito é entreter as pessoas. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos
descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com
nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.
Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.

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Todos os direitos reservados.


São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte dessa
obra, através de quaisquer meios — tangível ou intangível — sem o
consentimento escrito da autora.
Criado no Brasil.
A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei n°. 9.610/98 e
punido pelo artigo 184 do Código Penal.

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Índice
PRÓLOGO
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
CAPÍTULO 21
CAPÍTULO 22
CAPÍTULO 23
CAPÍTULO 24
CAPÍTULO 25
CAPÍTULO 26
CAPÍTULO 27
CAPÍTULO 28

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CAPÍTULO 29
CAPÍTULO 30
CAPÍTULO 31
“Alguns anos depois”…
PRÓLOGO
Por: Autora Marí Sillva.
PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE AS OBRAS DE MARII SILVA
LINK ABAIXO:

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"Yin Yang é um princípio da filosofia chinesa, onde Yin e Yang


são duas energias opostas. Yin significa escuridão sendo representado
pelo lado pintado de preto, o mau. E Yang é a claridade, o bem. Segundo
os chineses, o mundo é composto para forças opostas e achar o equilíbrio
entre elas é essencial. Poucos conseguem essa dádiva, mas quando
acontece, é ‘para todo o sempre’”.

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PRÓLOGO
Treze anos antes…

— Cara, esse foi um dos nossos melhores assaltos! Cinquenta milhões


limpinhos em notas de cem dólares, é um novo recorde — disse Li Xing, o
chinês cabeça da equipe.
O que faltava no tamanho de Li, com pouco mais de um metro e meio
de altura, recompensava no cérebro. Trajava uma espécie de colã preto de
mangas compridas, extremamente grudado ao corpo, peça produzida por ele
mesmo com um tecido à prova de balas, entre outras infinidades de funções.
O pobre coitado mal estava conseguindo carregar nas costas a mochila cheia
de maços de dinheiro. Haviam acabado de roubar o cofre de um cassino
famoso em Las Vegas e estavam traçando a rota de fuga por debaixo da
cidade através de bueiros.
— É isso aí, China, somos uma equipe infalível! Entramos e saímos
com o que queríamos sem sermos vistos — disse Julius Pérez, homem tão
forte que seria capaz de derrubar um elefante com um soco.
Julius era o mais descolado, usava calça jeans clara com rasgos pela
extensão vertical, camiseta branca e óculos escuros da Prada com a armação
toda revestida a ouro e pequenas pedras de diamantes nas laterais das lentes.
Nasceu no México, porém teve que fugir do país ainda adolescente após
roubar o carro de um mafioso mandachuva da cidade. Ou fugia, ou morria! O
mexicano chamava a atenção por onde passava, pois além de ter uma beleza
bruta, ele era como uma torre com seus dois metro e quinze de puro músculo,
mas o coração era mole feito manteiga. Sua paixão eram as crianças e os
animais.
— Dá para calarem a boca? Não estou com paciência para os assuntos
banais de vocês dois — vociferou Estevão Salvatore totalmente exasperado,
crítico e cheio de ironia, afinal, era mestre nisso.
Estevão tinha uma aparência gótica com seus cabelos longos e negros
como a noite e a pele branca feito a neve, olhos azuis penetrantes como se
pudesse ler a alma de quem o olhasse por muito tempo. Bem-nascido e com
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sobrenome nobre, tinha a elegância e sofisticação impregnada em seu sangue


azul. Mesmo com seu estilo bem evidente nas vestes, era visível que vinha de
boa linhagem. Porém não dava para ver ao certo o que trajava no momento,
pois tinha o corpo totalmente coberto por uma capa preta com o capuz sobre
a cabeça, criando propositalmente uma sombra escura por todo o rosto,
escondendo-o totalmente do mundo.
— Quer saber, Estevão? — O referido olhou com uma expressão
indescritível para Julius. — Vai transar com alguém cara, nem que seja com a
tiazinha que mora na esquina, mas transa, cara! Esse seu mau humor todo é
falta de sexo — disse a montanha de músculos tirando sarro do amigo.
— Isso não tem nada a ver grandão, porque o Blade vive pegando
mulher diferente todo dia e o mau humor dele só piora — comentou Li
revirando os olhos puxadinhos, pensando que mesmo conhecendo Estevão há
anos, nunca o vira sorrindo em nenhuma ocasião. Essa era a natureza dele,
coisa que vinha do sangue ruim dos Maldonado e que corria em suas veias.
— Falando no Blade, será que já conseguiu despistar a polícia? Já era
para ter ligado, ele brinca muito com a sorte correndo pelas ruas de Las
Vegas sobre aquela moto, uma hora dessas vai acabar sendo preso ou morto
por algum policial como os pais dele foram.
No mundo do crime, a morte do casal Maldonado ficou literalmente
marcada criando um duelo sem fim entre policiais e bandidos.
— Relaxa irmão, o Blade é esperto feito um gato — disse o
mexicano.
— Mas um dia as sete vidas de um gato acabam! Ninguém vive para
sempre! — Estevão sempre tinha algo irônico para falar.
Assim que saíram do bueiro ouviram um barulho estranho ao
passarem por um beco escuro que daria na estrada principal, onde tinha uma
minivan já com Blade esperando por eles para ganharem o mundo. Por
instinto, em um milésimo de segundo, já se encontravam em posição de
ataque, montando um triângulo mágico, com Julius na lateral esquerda de
punhos fechados, pronto para socar quem aparecesse à sua frente e Estevão
ao lado direito, tirando da cintura e destravando, ao mesmo tempo, duas
pistolas dos anos oitenta (era um bandido de classe). As armas, além de

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tradicionais, faziam um bom estrago nas mãos de quem sabia usá-las e


Salvatore com certeza era esse alguém. Li, como era o menor dos três,
manteve-se no meio em posição de luta, pois além de um gênio, era mestre
em artes marciais.
Os três estavam certos de que o dono do cassino havia descoberto o
roubo e mandado o seu exército de capangas atrás deles, entretanto, ao invés
disso, apareceu por trás de uma caixa enorme ao lado de um monte de lixo,
um garotinho de aproximadamente oito anos, todo sujo, cabelos arrepiados,
provavelmente não cortava há meses. Seus pezinhos, dentro de um sapato tão
furado, tinham partes mais descobertas do que cobertas. Era extremamente
magro, mal dava para ver os belos olhos azuis de tão enterrados no rosto que
estavam; na mão segurava com força uma mantilha azul, mostrando o quanto
ela lhe era importante. Sua mãe a fizera antes de morrer e não era opção
deixá-la nas mãos do padrasto alcoólatra, que o abandonara na primeira
esquina no mesmo dia da morte de sua esposa. O homem não fazia questão
de assumir qualquer responsabilidade sobre ele. A imagem era de cortar o
coração de qualquer um, até mesmo de um grupo de ladrões em fuga.
— Que coisa feia é essa? — perguntou Estevão horrorizado olhando
para ele com cara de nojo, como se nunca tivesse visto uma criança na vida
antes. Na verdade, evitava-as ao máximo, tinha pavor quando escutava a voz
de uma.
— Uma criança, branquelo, de que país você veio, cara? — Bufou
Julius nervoso com a pergunta idiota do amigo.
— Do mundo das fadas e unicórnios que não foi. — Olhou de forma
sombriamente assustadora para ele. — Pode ter certeza — concluiu cheio de
mistério. Aquele inglês carregava muitos segredos do seu passado.
— Parem com isso vocês dois, o garoto viu a gente! Sabem o que
temos que fazer, não sabem? — exclamou Li sem coragem de olhar para o
menino. Ser um criminoso tinha suas vantagens, porém, em alguns
momentos, era a pior coisa do mundo.
— Queima de arquivo — respondeu Estevão naturalmente, sabendo
que isso significava matar o garoto.
Ele não se importava nem um pouco com o fato, era destituído de

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qualquer tipo de sentimento, seja ele bom ou ruim.


— Deus! Ele é apenas uma criança! Não podemos deixá-lo
simplesmente ir e pronto? Até porque não mato inocentes e grávidas! —
Choramingou Julius olhando de forma piedosa para o pequeno ser à sua
frente.
— Então faça o trabalho sujo você, Estevão, já que não tem
sentimentos por ninguém mesmo — proferiu Li, tirando o corpo fora.
— Não vou conseguir atirar com essa coisa asquerosa olhando para
mim dessa forma. Esses olhos brilhantes e inocentes me assustam! — O
inglês logo deu um jeito de sair fora também. — Faça as honras da casa você,
Xing — completou batendo no ombro do chinês.
Assim ficaram por um bom tempo, um jogando para o outro a
"queima de arquivo". Já haviam matado por diversas vezes antes, mas uma
criança era demais para eles.
— Maldição! Onde está o Maldonado quando precisamos dele? —
rosnou Estevão contrariado com aquele dilema sem fim.
— Em toda parte! — ecoou a voz grossa vinda da parte mais escura
do beco.
Blade era como um gato, da mesma forma que sumia aparecia,
simplesmente do nada. Estava extremamente sexy dentro uma calça jeans
desbotada, tão apertada que ressaltava os seus músculos do glúteo. Vestia
uma camisa branca de algodão com uma jaqueta preta, estilo motoqueiro, de
couro puro, no tamanho exato dele. Roupas completamente ordinárias em um
homem extraordinário. Qualquer coisa ficaria bem nele, nu então, era
simplesmente perfeito.
— Temos um problema, Blade! — O chinês apontou para a criança.
— Resolvam isso — ordenou Blade com a voz mais grossa do que o
habitual. Estava irritado. — Agora! — completou perigosamente.
Ele vivia de mal humor, o gênio forte era sua marca registrada. Os
comparsas não responderam nada, apenas abaixaram o olhar fitando o chão.
Era evidente que não teriam coragem de fazer o que fora estipulado por
Maldonado, coisa que era muito difícil de acontecer.
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— Ok! Eu resolvo!!! — respondeu naturalmente.


E o faria sem um pingo de remorso. Já havia feito coisas muito piores
antes, mas eliminar "aquele tipo de arquivo" era novidade até para o último
dos Maldonado. Sem demora se apossou da Mauser M-96, mais conhecida
como "Broomhandle", a famosa cabo de vassoura ou pistola alemã. Uma das
mais distintas armas de fogo produzidas no mundo, artigo de luxo de poucos,
sendo um item cobiçado por atiradores e colecionadores. O apelido, é claro,
surgiu em função do cabo de madeira estreito. Para recarregá-las, são
inseridas através de um mecanismo de mola na frente do gatilho e
comportadas as dez balas, potentes munições 7.63mm, as mesmas usadas em
um rifle russo. A arma que estava escondida no cós da parte traseira da calça
jeans de Blade foi apontada bem no meio do rosto indefeso da criança.
O pequeno tinha os olhinhos cor de safira sob o cano de metal ainda
quente devido a troca de tiros de Blade na fuga da polícia, encostando quase
na ponta do seu nariz. A criança parecia genuinamente cansada, com olheiras
acentuadas e muito pálida. O excesso de magreza era de dar dó, tremia feito
um coelhinho assustado.
— Adeus, pequeno demônio! — Arqueou a sobrancelha esquerda
perversamente, apertando o gatilho sem pensar duas vezes. — Inferno —
praguejou quando viu a arma travar pela primeira vez em vários anos de uso.
— Já chega, Maldonado! Deixe-o ir, é apenas um garotinho, ele não
vai contar para ninguém que nos viu — implorou Julius com sensibilidade
nos olhos dando dois passos na direção dele, mas foi impedido pelo olhar
gélido que Maldonado lhe lançou.
Julius parou no mesmo instante virando de costas para não ver a cena,
sabia que seria inútil tentar fazê-lo desistir de continuar com aquela ideia
atroz de matar a criança. Conhecia bem o amigo para saber o quanto era cruel
e volúvel, sentia prazer em praticar o mal, fazia jus ao sobrenome nobre que
herdara da perversa família de bandidos mais famosa e respeitada no mundo
do crime. Ao voltar os olhos para o menino, reparou que ele não cobriu o
rosto ou tentou fugir do disparo, ele não se mexeu, como se estivesse
esperando que atirasse logo.
— Não tem medo da morte, garoto? — perguntou com a voz grave,
muitos só de ouvir aquele tom já teriam corrido.
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— Pessoas na minha condição não veem a morte como algo ruim,


mas como livramento, pelo menos vou para junto da minha mãe, ela sempre
cuidou de mim! — Choramingou o pequeno.
Bastou Blade ouvir a palavra mãe para sentir um certo desconforto.
Perdeu a sua de uma forma trágica ainda quando era muito pequeno. Mesmo
assim, à noite, em meio aos sonhos, tinha flashes da lembrança do rosto dela
sorrindo para ele, então sabia exatamente a dor que menino estava se
referindo. Vendo que ele tremia compulsivamente e mal conseguia se manter
de pé, perguntou-se o que poderia estar acontecendo com ele.
— O que você tem, pequeno demônio? — questionou genuinamente
desconfiado. Era normal um bandido desconfiar de tudo e de todos até
mesmo de uma criança indefesa moradora de rua.
— Fome, senhor, faz duas semanas que não como nada. — Levou a
mão sobre a barriguinha que não parava de roncar, parecia uma sinfonia de
Beethoven.
— Feche os olhos, pequeno! — E assim a criança o fez. Blade
destravou a arma e novamente a apontou para cabeça dele, pensou que aquilo
não seria apenas uma queima de arquivo, mas, sim, um livramento. —
Acabarei com a sua dor — concluiu. — Nesse momento Li e Estevão viraram
de costas também, o chinês limpou em silêncio uma lágrima que caía pelo
rosto de traços orientais; Julius a essa altura já soluçava de tanto chorar;
Salvatore só não chorou porque não sabia como fazer isso.
— Se for mesmo fazer isso, faça logo, Blade — exclamou Estevão
sombriamente.
— Que inferno! Isso só pode ser brincadeira — praguejou Maldonado
após a arma travar pela segunda vez.
— Não, Blade! Isso é intervenção divina!
Julius, mesmo vivendo uma vida errada, acreditava fielmente em
Deus e sempre que podia comparecia à missa da tarde, confessando-se
mensalmente e pedindo perdão a Deus pelos seus atos inadequados.
— Saberemos agora se tem o dedo de "Deus" nisso — debochou
Blade.

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Ele era completamente ateu, não acreditava em nenhuma entidade


divina ou qualquer coisa do tipo. Misteriosamente levou a mão ao bolso e
tirou uma moeda de prata de dentro da calça e sobre um pequeno fecho de luz
ela brilhou de uma forma tão intensa que refletiu dentro das esferas de safiras
do menino, de fato, ele tinha olhos lindos e marcantes.
— Sua vida dependerá disso, garoto! — Entregou a moeda a ele. —
Vai jogá-la para o alto, se der coroa você morre! Mas… se der cara, além de
viver, ganhará uma família! Não somos o ideal para uma criança, porém
prometo que iremos te proteger com a nossa vida se preciso for! Levaremos
você conosco onde quer que seja! E se quiser seguir nossos passos, ótimo,
entretanto se não quiser, te apoiaremos no que escolher. Afinal é isso que
irmãos fazem: cuidam uns dos outros — concluiu.
Inocentemente a criança olhou para moeda por um instante, sem
sequer imaginar o quanto havia em jogo, independentemente de qual lado ela
caísse. Então arremessou-a para cima. A moeda começou a cair em câmera
lenta fazendo movimentos circulares no ar e aterrissando na palma da mão de
Blade relatando qual seria o seu destino. Nesse momento não se ouvia nem o
barulho da respiração dos cinco dentro do beco, mas o silêncio logo foi
interrompido pelo barulho estrondoso da arma de Blade ecoando por toda
parte.
— Bem-vindo à família, Mascote — exclamou Blade com a voz
grave, após dar um tiro para o alto em comemoração à chegada do novo
membro da família Salvatore Perez Xing Maldonado.

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CAPÍTULO 1

Dias atuais…

— Inferno! — Exclamou Blade possesso de raiva, após o seu celular


tocar pela milésima vez, alternando entre ligações de Julius, Li e até mesmo
de Estevão que não era muito de ficar ligando para ninguém. Devido a esse
milagre, Maldonado resolveu atender para saber o que acontecera de tão
grave para estarem lhe atormentando de tal forma irritante e desesperadora.
Todos tinham total conhecimento que ele odiava ser incomodado com
besteiras, isso o deixaria mais mal-humorado do que de costume.
Estava no topo de um prédio, deitado sobre o piso grosso de cimento
batido da cobertura do antigo motel "Cinco Estrelas", com buracos em toda
sua extensão, mostrando que se tratava de uma obra que fora gasta pelo
tempo e principalmente pelas chuvas de novembro. Usava os cotovelos como
apoio para manter a parte da frente do corpo elevada — típica pose de um
atirador de elite profissional — e trajado com vestes pretas, calça de tecido
mole com dois bolsos grandes, um de cada lado, blusa justa de mangas
compridas emoldurando seu físico militar, simples, mas com etiquetas de
marca, a gola arredondada em volta do pescoço e capuz que estava posto na
cabeça encobrindo os traços expressivos do seu belo rosto. Sua beleza,
porém, não chegava nem perto do poder do seu charme avassalador. O
mistério da cor enigmática dos seus olhos expressivos tinha o poder de
hipnotizar, ainda mais quando se tratava do sexo oposto, era infalível. Para
completar, nas mãos, luvas de um tecido próprio para não deixar digitais,
criadas por Li (o chinês pensava em tudo).
Estava pagando um favor que devia a Otávio Collin, um conhecido
que trabalhava como matador de aluguel, que não era homem de muitos
amigos, mas que sabia ser grato quando alguém lhe fazia um favor. E o que
Collin havia feito era um dos grandes, ajudando-o obter uma informação de
grande valia para Maldonado, algo que nenhum dinheiro existente na face da
Terra poderia comprar. Segundo Otavio, seu filho nasceria naquele dia, então
pediu para que quebrasse esse galho para ele estivesse presente no parto. No
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mundo do crime quando se deve alguma coisa para alguém deve pagá-la, de
um jeito ou de outro.
Para ajudá-lo nesse acerto de contas trouxe consigo o seu rifle Sniper,
algo do qual tinha total orgulho de possuir. Os projéteis disparados por ele
percorrem distâncias tão grandes que os atiradores precisam levar em
consideração o movimento da terra e a direção do vento antes de puxar o
gatilho. Falando em Sniper, o soldado britânico Craig Harrison entrou para o
Livro dos Recordes por disparar o tiro mais longo já registrado: 2.475 metros
com a mesma arma e a bala levou apenas seis segundos para atingir o seu
alvo. Blade quebrara esse recorde há muito tempo, mas não era de ficar se
gabando dos seus feitos como a maioria das pessoas fazem, sabia que era
perfeito no que fazia e isso já era o suficiente para ele. Os disparos feitos pelo
rifle são supersônicos, o que significa que os alvos são atingidos antes de o
barulho do tiro chegar aos seus ouvidos. As balas com a ponta mais fininha e
aerodinâmica, são conhecidas como "spitzers". Seu nome é derivado do
termo alemão “spitzgeschoss”, cuja tradução significa "bala pontiaguda."
— Fale — exclamou Blade nervoso, odiava ser interrompido quando
estava "trabalhando". Na verdade, odiava ser interrompido em qualquer
ocasião, sentia-se bem sozinho, ainda mais naquele tipo de trabalho que
exigia toda sua concentração, uma respiração em falso e tudo poderia dar
errado. Não admitia errar em nada, tinha a necessidade de ser perfeito em
tudo o que fazia.
— O que você quer, Estevão? — perguntou grosseiramente enquanto
ajeitava a lente do rifle, não sabia conversar com ninguém de outra forma.
— Sério que você não vem, Blade? — rosnou Estevão ríspido,
dificilmente ficava nervoso. Mas naquele momento o inglês encontrava-se
tão fora de si que dava para ouvir perfeitamente, do outro lado da linha, o
som das batidas do seu pé esquerdo no chão compulsivamente, como um
tique nervoso. Isso deixou Maldonado em sinal de alerta, nunca vira
Salvatore alterado antes.
— Não — respondeu seco, curto e grosso. Não era um homem de
muitas palavras. Desligou na cara de Estevão. Em menos de dois segundos o
celular começou a tocar novamente. Agora era Julius entrando em cena.
— Você sabe que o garoto vai ficar muito triste se não aparecer, não
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sabe? — Respirou fundo tentando não perder a paciência, coisa que Blade, a
essa altura, já tinha perdido há muito tempo. — Não é qualquer dia que temos
a oportunidade de ir à formatura do nosso irmão caçula. Não se importa
mesmo em magoá-lo dessa forma? Bobbi é um bom garoto, escolheu um
caminho diferente do nosso, é justo e bondoso! Não é para qualquer um se
formar com louvor em uma das melhores faculdades do mundo por mérito
próprio, muitos dariam a vida para entrar em Harvard, mas poucos
conseguem, ainda mais com bolsa integral. Será um ótimo advogado —
concluiu o mexicano orgulhoso.
— E eu com isso? — respondeu malcriado, seu olhar parecia um
iceberg, igual ao que afundou o Titanic, de tão gelado.
— Não finja que não se importa com o menino, porque está na cara
que sim! Não tem como não gostar de um rapaz tão doce como o Bobbi, nem
mesmo um homem cruel e sem coração como você. —Lançou tais palavras
cruéis sem dó, mas sabia que não faria nem cócegas em Blade, não era
homem de se magoar com nada.
No fundo, aquelas palavras haviam causado um certo efeito nele,
afinal cumpriu a promessa que fizera ao menino que acharam na rua há treze
anos, tornando-se a família dele. Sem ideias de nomes para o pequenino,
Maldonado resolveu lhe chamar de Bobbi, nome que gostaria de dar ao seu
cachorro, caso um dia resolvesse ter um, coisa quase impossível de acontecer,
uma vez que odiava animais. Como não puderam registrá-lo na época, deram-
lhe Bobbi por apelido. Depois, formalmente, aos olhos da Lei, o menino
passou a se chamar Robert Salvatore Perez Xing M. Receber o sobrenome
dos quatro ficou estranho, mas nada mais justo. O caçula da família não quis
seguir os passos dos irmãos. Era doce, gentil e extremamente honesto,
totalmente diferente deles, mas os amava mais do que tudo no mundo.
Infelizmente não podia usar o sobrenome do Blade completo para não
levantar suspeitas sobre a ligação dele com o último Maldonado.
— Não me importo! — Blade respondeu irritado como se aquilo fosse
óbvio, desligando na cara dele também.
Xingou uma dúzia de palavrões quando o celular tocou pela terceira
vez. Tinha a boca suja, principalmente quando estava nervoso. Pensou que
agora provavelmente seria o Li para dar-lhe mais um sermão sobre não querer

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ir a um lugar que não combinava com ele em absolutamente nada, odiava


lugares com muitas pessoas e som alto. Blade era o tipo de pessoa que se
recusava a fazer o que não queria, ainda mais quando ficavam insistindo que
o fizesse. Mas, para sua surpresa, não era o chinês como pensou, Li não tinha
paciência de discutir com ninguém. Era Bobbi, a única pessoa com a qual não
costumava ser tão grosso ou se irritar facilmente, pelo menos não com tanta
frequência. Era atencioso com ele, dentro do seu limite.
— Diga. — Sua voz estava suave, totalmente diferente de quando
atendeu às ligações de Estevão e Julius. Relaxou o corpo, respirando fundo, a
expressão do seu rosto mudara da noite para o dia em questão de segundos.
Ajeitou os ombros, agora sentando e usando a parede de tijolos alaranjados
como apoio para as costas largas.
— Desculpe por te incomodar, meu irmão, mas precisava ouvir a sua
voz! — Bobbi era educado por natureza e respeitava muito os irmãos. A
emoção em sua voz era evidente, estava chorando. — Eu não sou mais um
garotinho Blade, já tenho vinte e dois anos. — Sorriu, revirando os olhos
carregado de lágrimas pensando como era engraçado o fato de seus irmãos o
tratarem como se ainda tivesse oitos anos.
— Vinte e um anos, onze meses e duas semanas. — Olhou no relógio
quadrado de ouro puro e cravejado de diamantes em seu pulso. —Dezoito
horas, vinte três minutos e dez segundos. Não são vinte e dois anos Bobbi —
respondeu sério, porém suave.
O jovem riu em como Blade sempre o corrigia até mesmo nos
mínimos detalhes, mas isso só fez parecer que o irmão estava querendo
atrasar ao máximo o tempo, não queria ver que estava crescendo e abrindo as
asas para o mundo, nunca quis. Maldonado tinha ciência que era um homem
com muitos inimigos, sabia que um dia Bobbi iria querer ter sua própria vida,
mas mesmo assim tinha dificuldades para aceitar tal ideia. Não teria como
protegê-lo quando estivesse longe dos seus olhos e isso lhe preocupava
bastante.
— Enfim, irmão, quero que saiba que gostaria muito que estivesse ao
meu lado nesse momento tão importante, mas jamais te obrigaria a estar em
um lugar onde não se sente bem. Respeito o seu espaço e vou dar sempre o
meu melhor para algum dia ter orgulho de mim.

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Já tenho! Pensou Maldonado, mas guardou apenas para ele. Não


conseguia expor seus sentimentos, nunca. Enquanto conversava com Bobbi
mantinha os olhos ocupados na calçada da rua à esquerda, em frente ao hotel
de luxo Calun. Era possível ter uma visão ampla e privilegiada de um dos
estabelecimentos mais exuberantes e caros da cidade. Principalmente da porta
de vidro elétrica da entrada que se abria como o Mar Vermelho ao sentir a
proximidade de alguém se movendo próximo a ela. De lá sairia o seu alvo a
qualquer momento. Era um político corrupto envolvido com tráfico de drogas
e prostituição, vários assassinatos de pessoas inocentes, a maioria delas de
baixa renda de quem usava os nomes nos documentos para aplicar golpes no
governo.
— Podemos terminar essa conversa depois, garoto? — Estreitou o
assunto, os olhos estranhamente exóticos que mudavam de cor conforme o
estado do seu humor, uma mistura de rubi com esmeralda, às vezes
acinzentados, outras indecifráveis, estavam fixos na sua presa, que acabara de
sair do hotel, através da lente de longa distância embutida no rifle. Parecia
um caçador acuando um animal prestes ao abate. — Estou um pouco ocupado
no momento — completou para aliviar um pouco a acidez que usara com
Bobbi querendo finalizar aquela ligação logo. Realmente não podia falar
naquele momento.
Pelo silêncio como reposta da parte dele do outro lado da linha sabia
que estava magoado, era sensível demais. Sentiu-se um pouco culpado, muito
pouco mesmo. Não tinha remorso de nada, mas em se tratando do irmão
caçula, a coisa mudava de figura.
— Tudo bem, Blade, sei que é muito ocupado! — Esperou que o
irmão pelo menos lhe parabenizasse pela formatura, mas não o fizera. Ficou
em silêncio ansiando que aquela ligação acabasse logo, percebendo isso
disse: — Eu te amo, Blad — completou se segurando para não chorar
novamente, fazendo-o assim que terminou a ligação.
O maior sonho de Bobbi era que Maldonado demonstrasse, ao menos
uma vez, que também o amava, nem que fosse apenas um pouquinho. Mas o
que o jovem não sabia era que às vezes os que mais amam são aqueles que
menos demonstram. O amor é um sentimento discreto, cauteloso, porém
duradouro. Já a paixão é escandalosa, alvoraçada em tudo o que faz, anda de
mãos dadas com a loucura. Na mesma intensidade que vem, vai em questão
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de minutos, fazendo um estrago por onde passa, muitas das vezes usando
provas de amor descabidas e um monte de palavras bonitas jogadas ao vento,
afinal quem muito se declara, pouco sente.
Julius e Li nunca tiveram problemas em demostrar e dizer o quanto
gostavam de Bobbi. Já Estevão não falava e tentava dizer que não, mas
gostava do jovem também, talvez até mais que os outros. Do jeito estranho
dele, mas amava. Porém, Blade, além de não dizer, também não demostrava
nada. Era um homem vazio, não vivia, apenas sobrevivia.
— Até, pequeno demônio! — Foi a última coisa que disse a ele,
desligando o celular e enfiando-o bem no fundo do bolso da calça preta para
ninguém o incomodar mais. Rolou o corpo em um ângulo de trezentos e
sessenta graus, voltando a ficar na mesma posição que estava antes de ser
incomodado, da qual, em sua opinião, nunca deveria ter saído. Olhou para a
lente encaixada com perfeição na arma, direcionando o laser bem em cima do
coração da vítima, prendeu a respiração antes de apertar o gatilho. O silêncio
era essencial naquele momento. Acertou o alvo com uma agilidade precisa,
ou nem tanto talvez. Blade ficara pasmo ao ver a vítima levantando-se do
chão são e salvo, falando alguma coisa em um microfone escondido debaixo
da manga da blusa enquanto apontava para o prédio onde Maldonado estava.
— Uma emboscada — rosnou o homem sem Lei totalmente possesso.
Largou tudo e saiu correndo o mais rápido que pôde. A rua foi tomada
por uma sinfonia de sirenes dos milhares de viaturas espalhadas por ela e pelo
som ensurdecedor das hélices dos helicópteros voando em volta do prédio.
O sonho de todo policial era pegar o último Maldonado. Isso
garantiria uma considerável recompensa milionária e uma boa promoção no
trabalho, mas, acima de tudo isto, muito respeito dentro da polícia. Assim
como aconteceu com major Carter que participou da prisão dos pais de Blade,
mas estranhamente não aceitou nenhum centavo da recompensa ou outros
tipos de benefícios, nunca deu entrevistas ou falou sobre o ocorrido com
ninguém e isso já fazia mais de vinte e seis anos, pouco antes mesmo da sua
filha mais velha nascer.
O problema era que Blade era esperto feito um gato, para piorar fazia
parte da melhor equipe de ladrões da atualidade. Roubavam e todos não
faziam a menor ideia de como entravam e saíam com o que queriam sem
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ninguém notar, eram invisíveis para as câmeras. Tanto que não sabiam como
eram os rostos deles, só tinham conhecimento dos roubos que estavam
envolvidos, porque sempre deixam uma lembrancinha no local do crime para
dizer que passaram por ali. Maldonado corria tão rápido quanto a bala que
atirou minutos antes contra o seu alvo. Na época do exército, sempre era o
primeiro a chegar na corrida de oito quilômetros diárias. Tomou a embalagem
da arma e pulou de um prédio para o outro, caindo de pé com a postura
elegantemente sexy, como um gato negro se aventurando sozinho à noite sem
nenhum medo do perigo. Parou por cinco segundos para pensar no que fazer
para se safar dessa, principalmente em como se vingaria do culpado depois.
Como em câmera lenta, analisou tudo à sua volta cautelosamente. Pensou em
descer pelas escadas de incêndio, mas logo concluiu que assim como o
elevador — ou qualquer caminho que levasse ao terraço — estaria lotado de
policiais.
Depois de gastar apenas três dos cinco segundos para decidir o que
iria fazer, pegou um pedaço de um cabo de aço caído no chão, provavelmente
resto de alguma obra, para usar como base para deslizar sobre a extensão de
um poste que tinha ao lado do prédio. Não seria fácil chegar ao chão inteiro,
mas era a única chance que tinha de sair dali vivo. Respirou fundo por pelo
menos duas vezes, envolvendo o cabo de aço em volta da grande pilastra
arredondada de cimento. Não precisou tomar coragem para descer, já a tinha
de sobra. Desceu aos trancos e barrancos, grunhiu ao sentir a sola da sua bota
de couro italiano sendo esfolada, era sua preferida, leve e confortável. Pousou
ao chão sem nenhum arranhão, olhando para os quatros lados ao mesmo
tempo para conferir se havia alguém lhe observando. Por sorte se encontrava
em um ponto contrário onde os policiais que o procuravam estavam, mas,
quando pensou ter conseguido escapar, deu de cara com um policial que na
mente dele só poderia ter vindo do inferno para irritá-lo ainda mais. O
policial estava com uma arma apontada em sua direção. Era um homem alto,
de ombros largos, porte físico de atleta, cheio de músculos explodindo
debaixo da camisa preta com as siglas do FBI. Parecia ser muito bom no que
fazia, mas estava com um pouco de medo de estar frente a frente com um
legítimo Maldonado.
— Se você se mexer eu atiro. Tire o capuz do rosto e levante as mãos
— ameaçou com a arma em sua mão, tremendo feito o chocalho de uma
cobra.
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Chegava até ser engraçado de se olhar. Mas era corajoso, dava para
ver isso no fundo dos seus olhos azuis profundos. Se fosse preciso atiraria
mesmo e parecia ser bom de mira.
— Atire — exclamou Maldonado com a voz sombriamente grave,
caminhado em direção a ele calmamente, feito uma raposa.
Ele não estava com colete a prova de balas. Era homem com H
maiúsculo, sem medo de nada, muito menos da morte. Na verdade, ansiava
por ela, queria morrer acabando com a raça ruim da sua família.
— Se der mais um passo atiro, não estou brincando! Fique onde está.
— avisou o policial pela última vez, decidido a qualquer coisa.
— Não é homem o suficiente para isso — disse, provocando-o. Tinha
prazer em testar o psicológico das pessoas, entre outras "peculiaridades".
— Eu avisei! — Assim que Blade deu mais um passo, o policial
preparou para soltar o gatilho e acabar com o legado da família Maldonado,
matando o último deles. E então, ela apareceu…
— O reforço chegou, Joseph! — Jesse Carter chegou confiante.
A atrapalhada era investigadora do FBI, parceira do policial que ainda
mantinha a arma apontada na direção de Blade. O bandido olhou para o lado
para ver quem era a dona daquela voz suave e doce, que estranhamente lhe
transmitia paz. Arqueou a sobrancelha, fitando aquele ser estranho à sua
frente, nunca vira criatura mais esquisita na vida, pensou Blade. Jesse mal
sabia como segurar uma arma. Maldonado, observador como era, concluiu
isso imediatamente ao reparar como as mãos da moça eram pequenas e
delicadas, tinha uma certa obsessão por essa parte do corpo das mulheres. Os
dedos eram finos e longos. Era baixa e muito magra, tão frágil que parecia se
quebrar apenas com um leve toque. Tinha o rosto exótico, olhos grandes e
negros como a noite que predominava por toda parte em volta deles. A pele
em um tom perfeito de chocolate e os lábios grandes e grossos. Usava calça
jeans gasta, não por ser a moda, mas porque fora usada diversas vezes.
Jesse odiava gastar dinheiro desnecessariamente, nasceu em uma
família de classe média então teve que aprender desde cedo a não esbanjar.
Filha de um militar rígido, largou o sonho de ser fotógrafa para seguir a
carreira do pai que fazia questão de deixar bem claro que queria ter tido um
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filho homem para seguir os passos dele na polícia e que aquele tipo de
profissão não era para mulheres. Ao invés disso teve duas meninas, a filha
mais nova, Mainara, era perfeita em tudo o que fazia, havia puxado a
personalidade e a beleza da mãe, Maria Joaquim, decidida e forte. Inteligente
como era, Mainara escolheu fazer robótica, era um gênio em concluir
qualquer coisa envolvendo tecnologia, diferente da irmã mais velha, seguia
os seus objetivos sem pensar no que o pai queria impor para a vida dela e aos
vinte e um anos já era muito bem-sucedida. Fazia pós-graduação e pagava os
estudos com uma bolsa generosa que ganhava de uma empresa onde
trabalhava como estagiária até concluir o curso, passando em primeiro lugar
na prova que fizera. Na verdade, passava em todas as que fazia seja lá para
qual área fosse. Já Jesse fez mais de dez provas para entrar na polícia, sendo
que a última passou por um triz. Na verdade, o professor ficou com pena e
deu o meio ponto que ela precisava, não aguentava mais vê-la sair dali com
aquela expressão de fracasso no rosto. Mas isso foi o maior erro de sua vida,
a moça não levava jeito para nada, muito menos para ser policial. Era
distraída demais, parecia viver com a cabeça na lua, desajeitada e um
verdadeiro ímã para confusões.
Blade também reparou que a calça de Jesse era larga e esquisita,
parecia masculina, a blusa então nem se fala, era três vezes maior do que o
tamanho ideal para ela,. O cabelo preso em um coque muito mal feito no topo
da cabeça com muitos fios soltos parecendo não ver pente há semanas, e, de
fato, não via mesmo. Pelo volume do coque eram na altura do ombro talvez e
rebeldes com certeza, cachos medianos bem crespos, mas bem definidos
quando bem penteados, ou seja, quase nunca ficava assim. O rosto fino sem
nenhum vestígio de maquiagem, quase nunca usava. Nos pés, tênis de
solados baixos da marca mais barata do mercado, que dava a impressão dela
ser menor ainda. Era a mulher mais desleixada que Blade vira na vida, ainda
mais para um homem como ele, que escolhia a dedo as mulheres que
encostavam as mãos nele. Era exigente em tudo, e nessa parte era o dobro.
— Mãos para o alto — ela disse firme apontando a arma para Blade..
O que deixava desejar na habilidade compensava na coragem. Não
tremia e não se intimidou de estar frente a frente com um bandido tão
perigoso.
— Pelo amor de Deus, Jesse! A sua arma está de cabeça para baixo —
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disse seu parceiro revirando os olhos sem um pingo de paciência com ela, era
um desastre ambulante.
Ela, envergonhada, foi tentar corrigir o erro e acabou sem querer
apertando o gatilho e acertando na arma do parceiro que também estava
apontada para Maldonado. O tiro acertou de raspão a mão do parceiro. Se
fosse planejado não teria dado tão certo, realmente era boa em estragar tudo.
Ao correr para tentar socorrê-lo, já que estava rolando no chão de dor,
tropeçou no próprio pé, caindo com tudo em cima do pobre homem
quebrando o seu dedo em três lugares. Aquele dedo que antes levara um
arranhão feito pela bala que passou de raspão agora talvez tivesse que ser
amputado.
— O bandido, Jesse, ele não pode fugir!!! — Joseph exclamou entre
os gemidos de dor.
Quando a moça levantou a cabeça, Blade já tinha se dissipado no ar
deixando apenas um pequeno bilhete em seu lugar. Com muito cuidado
deitou a cabeça do parceiro, que antes estava em seu colo, no chão e
caminhou cautelosamente até o pedaço de papel preso debaixo da arma dele
que tinha sido arremessada longe por causa do tiro certeiro dela. Por que ele
não usou a arma para nos matar? Foi o que ela se perguntou, mas nem Blade
tinha essa resposta.
Salvou a minha vida, tenho uma dívida com você. Pagarei na
primeira oportunidade que aparecer.
B.M.

Ela não fazia ideia de onde Blade havia tirado tempo para escrever,
deixando a jovem policial intrigada. Mas o que mais preocupava Jesse era
que envergonhara o pai mais uma vez diante do departamento todo e dessa
vez havia exagerado na dose. Enquanto isso, Blade já estava longe, teria que
correr para não chegar atrasado. Naquela noite, depois de passar em um lugar
importante, iria acertar as contas com um certo conhecido que armou para
cima dele.
Enquanto isso, Bobbi estava sentado atrás do altar decorado com
enormes cortinas verde escuro que combinavam com a sua beca, com o
coração esperançoso que o irmão ainda apareceria.

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— Eu acho que ele não vem, Max — Bobbi exclamou triste para o
melhor amigo.
Conheceram-se no primeiro dia da faculdade e não se desgrudaram
mais. E o irônico era que ele era filho de um grande e consagrado juiz,
homem conhecido pela conduta justa diante da Lei. Ele foi escolhido pela
turma para ser o orador e fazer a entrega dos diplomas. Max olhou
decepcionado para o melhor amigo ao ver o olhar triste estampado em seu
rosto, como se estivesse faltando alguma coisa para aquele momento ficar
perfeito.
— Eu sei que você queria que todos seus irmãos estivessem presentes,
Bobbi, mas deveria ficar feliz por pelo menos três deles estarem com você
nesse momento tão especial!
O amigo puxou a ponta da cortina dando a visão de três indivíduos
sentados na terceira fileira à esquerda. Um completamente diferente do outro.
De um lado estava Li Xing, um chinês que vivia com um sorriso simpático no
rosto, mas que escondia muitas coisas por trás dele. No meio estava o
mexicano Julius Peres, um homem com mais de dois metros de altura cheio
de músculos, dava até medo de olhar para ele, porém, tinha o coração mole e
uma mente aberta, estava chorando sem parar, enxugando o nariz no paletó
preto do homem que estava sentado na ponta à direita, Estevão Salvatore, um
inglês de sobrenome nobre e o mais calado dos três, tinha uma aparência
sombria, na verdade gótica. Sua pele era extremamente branca, os olhos azuis
penetrantes, o cabelo longo tão negro como a noite, era um ser sem nenhum
tipo de sentimento, nem bom nem ruim, apenas era vazio por dentro, vivendo
em uma dimensão obscura que ele mesmo criou ainda quando pequeno,
quando não fora aceito pelas outras crianças da escola por ser diferente.
— Você tem razão, Max. — Bobbi sorriu olhando para os irmãos de
criação.
Fora adotado pelos quatro amigos ainda muito pequeno e os amava
mais do que a própria vida, mesmo sabendo a infinidade de defeitos que
tinham, e não eram poucos.
— Porém queria todos aqui comigo, mas conheço Blade, jamais viria
a um evento desses. Ele não é muito sociável, também meu irmão não curte
muito andar sobre a luz do dia, é apaixonado pela noite — concluiu triste.
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Sua família além de estranha era repleta de segredos.


— E agora é com muito orgulho que chamo o meu filho Maxmilian
Thompson, para pegar o seu diploma — proclamou o juiz orador da turma
todo orgulhoso. Chorou ao abraçar o filho, assim como toda a família dele
observando aquela cena linda. Principalmente Bobbi, ao lembrar da sua
conversa com o irmão no telefone. Estava extremamente feliz com a presença
dos três irmãos, mas sem Blade sua felicidade não estava completa.
— Você é meu maior orgulho, Max! Eu te amo, filho — declarou o
juiz ainda abraçado com ele. — Bobbi imaginou Blade dizendo-lhe a mesma
coisa, mas tinha certeza que isso jamais aconteceria.
— Não mais do que eu, pai — exclamou seu amigo chorando ao juiz.
— Agora chamo o jovem Roberto Salvatore Xing Perez M.
John achou estrando um nome tão grande sendo que o último era
abreviado com apenas uma letra. Bobbi quando foi adotado recebeu o
sobrenome de todos os irmãos. O jovem veio timidamente, os olhos
discretamente correram pela plateia sobre os irmãos e principalmente em uma
garota chamada Lia, que apesar de ser apenas uma adolescente de dezesseis
anos a beleza da moça já chamava sua atenção além do normal. O problema
era que ela era a irmã caçula do seu melhor amigo Max e filha do juiz.
O evento literalmente parou quando todos se assustaram com o ronco
assustador de uma moto que mais parecia uma máquina de tão potente. Era o
último modelo alemão da BMW que nem havia sido lançado ainda, tinha a
potência de trezentos e cinquenta cavalos e ao ser estacionada, antes de dar
uma última roncada ensurdecedora, dela desceu um homem alto e forte, que
tirou o capacete abrindo visão para um rosto tão perfeito que parecia uma
pintura de obra de arte, com sobrancelhas grossas e definidas. A boca com o
lábio superior em um formato perfeito de coração, um rosto com traços fortes
e marcantes, seus olhos eram hipnotizantes, com o fato do tom cinza deixar
total dúvida se eram verdes ou azuis, um verdadeiro milagre da natureza. O
cabelo cortado bem curto "estilo presidiário", a barba aparada bem baixo, um
verdadeiro charme.
Com a jaqueta na mão, veio caminhando sedutoramente pisando firme
com as botas de cano cumprido sobre o tapete vermelho, usava calça keans

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surrada bem justa emoldurando as pernas grossas bem definidas. Camisa


branca de malha de mangas curtas colada ao peito largo musculoso, deixando
à mostra os dois braços tomados por tatuagens até a extensão do pulso. Só
Deus sabe como havia chegado ali tão rápido e de banho tomado, dava para
sentir a quilômetros o aroma da colônia francesa exclusiva da Armani. No
pescoço, um cordão com a numeração que era chamado no exército. Não teve
quem não olhasse para aquela figura. Era o tipo que se destacava, mesmo em
meio a uma na multidão, principalmente pela cara de mal que o indivíduo
tinha. Parou bem à frente, onde estava ocorrendo a entrega dos diplomas,
encarou o juiz de frente, era um homem sem medo. Bobbi mal havia recebido
o diploma das mãos do famoso juiz Thompson, que estava de boca aberta
olhando para a entrada triunfal do irmão.
— Quem é esse? — perguntou o Juiz Thompson com o seu sexto
sentindo aguçado, conhecia bem um bandido quando via um.
— Esse é o meu irmão — respondeu Bobbi com um sorriso enorme e
lágrimas escorrendo pelo rosto, já tinha perdido as esperanças que ele viesse.
— Blade! — completou correspondendo satisfeito ao aceno de cabeça feito
pelo irmão.
Naquela família estranha e misteriosa além de segredos também havia
muita união e principalmente lealdade. Jogou o diploma no chão e saiu
correndo para abraçar Blade. Nunca esteve tão feliz em toda sua vida!
Abraçou o irmão com tanta força que parecia que iria quebrá-lo ao meio a
qualquer momento, mas Blade da mesma forma que estava ficou, parado feito
um pedaço de pau, não se mexeu um milímetro se quer. Não estava
acostumado com aquele tipo de demonstração de carinho, ainda mais com
duzentos pares de olhares sobre eles. Bobbi não se importou, já estava
habituado com o jeito dele. Sempre que o abraçava era a mesma coisa, mas
não desistia de tentar, tinha esperanças que um dia o seu abraço fosse
retribuído.
— Sabia que viria — declarou o jovem emocionado, só não chorou
porque sabia que Blade não gostava.
— Parabéns, Mascote — exclamou com a voz suave.
Bobbi era a única possível parte boa que existia em Maldonado, ao
menos, por enquanto.
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CAPÍTULO 2

— Se aprontar mais uma dessa você está fora da polícia! — A voz


severa do major Carter ecoou pelos quatro cantos da sala de reuniões do
Departamento de Investigação Criminalística de Los Angeles.
Isso fez com que todos olhares curiosos das outras pessoas presentes
no recinto se voltassem para o rosto delicado da jovem investigadora do FBI,
Jesse Carter, que imediatamente tomou um tom vermelho aveludado escuro.
A moça envergonhada fingiu ajeitar os enormes óculos de grau, tentando não
demostrar o nervosismo, encolhendo-se mais do que já estava, como se fosse
possível se esconder debaixo do estofado azul da cadeira onde estava sentada
no fundo da sala. Em seguida, discretamente, direcionou os olhos para o
major que estava como um dragão, pronto para soltar fogo pelas ventas a
qualquer momento. Um senhor negro e alto com o corpo forte e másculo de
pouco mais de cinquenta anos, mas com a aparência de trinta e nove, no
máximo, muitos desses anos dedicado a carreira impecável dentro da polícia.
Tinha um currículo de dar invejar a qualquer um. Fora o fato de ter
participado da emboscada que ocasionou a morte do casal Maldonado, os
bandidos mais procurados de todos os tempos.
— Desculpe, pa.. Quero dizer, major. — Encolheu os ombros,
corrigindo-se antes de levar mais uma advertência por desacato a autoridade
pelo próprio pai. Afinal, no ambiente de trabalho não era a filha de ninguém,
ali o seu genitor era o superior dela e de todos os outros igualmente. E não
iria pegar leve só porque tinham o mesmo sangue, ao contrário, usaria Jesse
como exemplo para os demais.
— Você não tem noção da gravidade do que fez, senhorita Carter? —
Mais constatou do que perguntou, estava com a voz amargamente séria, que
fez a moça estremecer de medo. E estremeceu ainda mais ao notar os passos
firmes do major vindo em sua direção, pois sua vasta experiência de vinte e
seis anos ao lado pai era suficiente para saber o quanto estava furioso com
ela. Uma respiração em falso e este seria capaz de tirar o cinto das calças e
dar-lhe uma boa lição frente aos companheiros de trabalho. Cresceu
oprimida, apanhando até nos dias atuais, caso fizesse alguma coisa que não

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era do agrado dele.


— Eu só queria ajudar, senhor — respondeu em um tom tão baixo
que mal deu para escutar, mantinha a cabeça baixa com um olhar fixo para o
par de tênis surrados.
— Por de Deus, Jesse! Pelo menos olhe para mim quando estiver
falando com você, soldado! — Bateu a mão com força na pequena tábua da
cadeira que era usada para apoiar objetos, forma desnecessariamente rude. —
Além de deixar o criminoso fugir, você ainda quase matou o seu parceiro. —
Falando desse jeito, ele fez parecer pior do que era, pelo menos foi o que
Jesse pensou.
— Quem nunca errou um tiro? — Lançou os olhos sobre ele inocente.
— Ou tropeçou caindo em cima de alguém quebrando o dedo da pessoa em
três lugares, que atire a primeira pedra! — Isso foi a gota d'água para o major
Carter perder a paciência de vez, fuzilando-a com o olhar duro.
Hugo Rodrigues, o "Mentalista" da Divisão Criminal, mestre em
desvendar as expressões das pessoas e decifrar a mente dos criminosos, não
aguentou as palavras da moça em sua defesa própria e soltou uma gargalhada
gostosa. Achava Jesse uma graça, principalmente a inocência e a fragilidade
dela.
— Tem algum palhaço aqui, senhor Rodrigues? — O jovem de roupa
social, estatura baixa, óculos fundo de garrafa e uma mente brilhante não se
intimidou com a voz amarga do chefe do departamento. Era quase um vidente
ao desvendar pistas, completamente perfeito no que fazia. E o major sabia
disso, poderia até se zangar com ele, mas demiti-lo nunca.
— Não, senhor! — respondeu com vontade de rir, mostrando a língua
assim que o chefe virou as costas, fazendo Jesse sorrir. Para ele não
importava fazer papel de palhaço se o prêmio depois fosse um sorriso
daqueles como recompensa.
— Achando graça do quê, senhorita Carter? De quase ter amputado o
dedo de um dos meus melhores homens? — De repente a moça se viu
obrigada a piscar várias vezes para conter as lágrimas.
O major sentiu um certo incômodo ao notar a expressão de culpa
presente na jovem. Sabia melhor do que ninguém como a filha era sensível.
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Não queria ser tão duro, apenas não gostava nem um pouco da primogênita
insistir na ideia de ser uma policial e se a jovem chegara até ali, não foi com a
ajuda dele. Ele sabia que a moça realmente não levava jeito para isso, ela era
naturalmente adorável. Tinha a capacidade de captar o que não era visível aos
olhos, apenas com o coração. Pensava que se tivesse tido um filho homem as
coisas seriam bem diferentes, e culpava a esposa Maria Joaquim por isso,
como se fosse possível ela escolher o sexo do bebê que iria nascer. Para o
azar do senhor Carter o seu segundo herdeiro veio outra menina, a caçula
Mainara Carter, que na opinião dele, não era tão ruim assim porque herdara o
cérebro da família, era boa em tudo o que fazia. Já Jesse, não lhe dava nada
além de desgosto, raiva e, principalmente, vergonha.
— Não seja tão duro com ela, senhor! A garota apenas nasceu para
ser uma civil e não um oficial como nós — comentou ironicamente a policial
Amanda Moura. — E também não tem idade o suficiente para ter
discernimento ao tomar decisões em meio às desventuras do cotidiano, é
muito jovial para trabalhar em um departamento sério como este.
Era só pra dizer que a Jesse era inexperiente para trabalhar no
departamento, mas Amanda adorava falar bonito para impressionar os outros,
não era apenas sua inteligência que chamava a atenção, mas sua beleza
também. Era visivelmente a mulher mais linda e sexy do departamento. Era
alta e magra, o corpo farto em curvas. Os seios eram enormes e redondos que
explodiam nos dois primeiros botões do uniforme, que fazia questão de
deixar abertos. O cabelo loiro ondulado em cachos largos na altura do meio
das costas. Os olhos eram cor de esmeralda, um esverdeado raro encontrado
apenas nas águas do mar revoltos da Ilha Maui, no Havaí. Grandes, lindos e
sensuais. A boca em um risco fino perfeito, que acobertava duas fileiras de
dentes impecavelmente alinhados. Mas o que lhe sobrava de beleza, deixava
a desejar no caráter. Oferecida e interesseira, usava as pessoas para conseguir
o que queria.
— Minha idade não define a minha maturidade, muito menos minhas
notas ou discursos bem montados com palavras bonitas. Se for para abrir a
boca e magoar alguém, prefiro ficar calada — Jesse respondeu sem jeito, não
era do seu feitio ser grossa com ninguém, mas já estava farta de engolir
desaforo das pessoas. Então deixou os vinte segundos de coragem falarem
mais alto, enfim desabafou.

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Jesse sabia que nunca chegaria ao nível de inteligência da Amanda


Moura ou da beleza. Até porque a própria fazia questão de jogar isso na cara
dela sempre que podia, maldosamente. A senhorita Moura era uma mulher
astuta e ardilosa, o tipo perigoso que usava o conhecimento para manipular as
pessoas e conseguia. Principalmente o major Carter, que babava em tudo o
que a Amanda falava usando palavras bonitas, as quais, muitas vezes, Jesse
tinha que olhar no dicionário ou pesquisar na Internet para saber do que ela
estava falando. O que ela não sabia era que de nada vale ter o dom da palavra
se não soubermos fazer bom uso dela, é como ver os grãos de um castelo de
areia ao desmoronar com o vento. Se existia uma coisa que Jesse aprendeu na
vida foi que quando a máscara não cai, Deus a arranca. A inexperiente
investigadora do FBI tinha noção dos defeitos que tinha, muitos na verdade,
porém, nunca pisou em ninguém para subir na vida, isso para ela não seria
vantagem, e sim doença.
— É o que os fracassados e perdedores sempre dizem — respondeu
ela rindo ironicamente, mas de um jeito que só Jesse ouviria, afinal tinha que
manter firme e forte o papel de boa samaritana aos demais presentes.
No começo quando Jesse a conhecera, na época do curso para entrar
na polícia, Amanda até parecia ser uma garota doce e gentil. Mas depois que
começou a enxergar o seu jeito manipulador e se tornar o que é hoje,
percebeu que talvez ela sempre fosse assim. Ninguém muda com o tempo,
apenas mostra quem é de verdade. Jesse sempre gostou de ser uma pessoa
sozinha, assim não magoava ninguém e principalmente não era magoada. Às
vezes as maiores decepções vêm das pessoas que mais amamos, justamente
em quem mais confiamos.
— Chega de explicações descabidas, senhorita Carter, você está fora
do caso dos "Homens sem Medo"! — exclamou o major de forma severa.
Era assim que a equipe de ladrões do Blade era chamada, ansiavam
em pôr as mãos neles, principalmente no último Maldonado, que era
conhecido na cidade como demônio. O bicho papão das histórias que os pais
contavam para os filhos antes de dormir.
— Se você se meter em uma vírgula sequer, nunca mais vai trabalhar
na polícia pelo resto de sua existência. A senhorita Amanda Moura vai
ocupar o seu lugar nessa investigação, onde deveria estar desde o começo —

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terminou rude, quebrando o coração da filha em mil pedaços e sabia muito


bem disso.
Se o major olhasse para baixo poderia ver os milhares de pedacinhos
do coração dela espalhados pelo piso escuro bem encerado, pois no
departamento havia uma faxineira que além de muito simpática, era
extremamente caprichosa, uma das poucas que tratava Jesse como gente
naquele lugar, pois para o resto ela era quase era invisível.
— Agora que não faz mais parte dessa investigação, pode se retirar,
não tem mais nada o que fazer nessa reunião.
O major virou as costas para ela fazendo-a sentir insignificante, mais
do que o normal. Jesse não se atreveu a responder, dizendo que o próprio lhe
ensinara quando pequena que era feio virar as costas para uma pessoa quando
estivesse falando com ela, porque, na verdade, não adiantaria. Ele não a
permitiria explicar que só queria ajudar o parceiro, que o acontecido fora
apenas um acidente e que poderia acontecer com qualquer pessoa. Mas o pior
estava por vir quando tivesse que enfrentar o pai sozinha em casa. Recolheu,
então, cada pedacinho do seu coração estraçalhado e saiu lentamente da sala
debaixo dos olhares e cochichos dos companheiros de trabalho.
Ao sair da delegacia totalmente devastada, assim que tocou os pés na
calçada percebeu que o mundo era um lugar injusto, ainda mais para pessoas
sensíveis como ela. Por um instante pensou que talvez a irmã caçula,
Mainara, tivera razão quando dizia que errou feio em largar o sonho de ser
fotógrafa, para seguir os passos do pai na polícia. Estava com os ombros
encolhidos dentro do casaco comprido de lã cinza que colocou por cima do
uniforme dois números maiores que o tamanho adequado para ela, o qual
pegara errado quando começou a trabalhar e até hoje não tinha conseguido
trocar, tendo que viver a base de cintos e pregas feitas com carinho pela
atenciosa mãe. Na verdade, esse fato não importava, Jesse se sentia
confortável dentro de roupas largas, não fazia questão nenhuma de sair
mostrando o corpo por aí, mas não julgava quem o fazia. Para ela o respeito
era a base de tudo, o dela terminava quando começava o do outro. Não
gostava de saltos e nem era muito fã de maquiagem, fato que lhe rendeu no
colegial apelidos como "Maria João", "Macho/Fêmea", 'Sapatão", entre
outros. Devido a disso sempre ia ao baile de primavera sozinha, nenhum
rapaz nunca a convidara nem para tomar sorvete na sorveteria da esquina.
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Fazia parte do grupo das "invisíveis", denominado assim pelas populares da


escola. Por incrível que pareça era amiga de uma das meninas mais famosas
da escola, a Nayla, que se dava bem com todo mundo. Desde os nerds até as
líderes de torcida, ela era extrovertida e amável com todos. Impecavelmente
linda, com um rosto simetricamente perfeito. Estudou moda e hoje era uma
estilista conhecida, mesmo depois do colegial ainda continuaram grandes
amigas.
A cada passo que dava, refletia sobre as pessoas que passavam por ela
na rua conversando animadas, outras nem tanto. Algumas estavam assim
como ela, voltando de um dia péssimo de trabalho, outras passaram a semana
procurando emprego. Sentiu um vento gelado tocar a ponta do seu nariz,
imediatamente Jesse escondeu as mãos no bolso, sentia um frio absurdo nessa
pequena e delicada parte do seu corpo. Los Angeles era uma cidade com o
clima confortável, a jovem que era friorenta além do normal. Não tinha
resistência para coisas frias, principalmente as palavras. Sorriu ao sentir o
conforto que era manter as mãos dentro daquele pequeno espaço quente, ao
mexer os dedos encontrou no fundo um pequeno pedaço de papel. Ao tirar
para ver do que se tratava, arregalou os olhos assustada arrepiando-se de cima
a baixo. Era o bilhete deixado pelo bandido, havia uma pista no outro do
bilhete.
"Tenho uma dívida com você, pago na primeira oportunidade que
tiver."
Viu um pequeno flash de luz no fim do túnel ao ver que no verso do
papel tinha um endereço anotado, provavelmente o bandido não verificou os
dois lados do papel antes de escrever o recado.
E se eu fosse lá e o prendesse? Pensou inocentemente, como se fosse
a coisa mais fácil do mundo. O endereço era de um bar da periferia, lugar
famoso pela alta periculosidade, onde só os “piores dos piores” criminosos
frequentavam. Ela hesitou, mas agindo pelo impulso, ao invés de caminhar os
cinco quarteirões até sua casa, para economizar o dinheiro do ônibus
(ganhava um salário bom, mas tinhas algumas responsabilidades que tinha
que cumprir severamente com ele no momento), chamou um táxi que ao
deixá-la em frente ao tal bar saiu cantando pneu, mas não antes de perguntar
se a moça queria mesmo ficar sozinha ali.

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Ela segurou as bordas do casaco apertando-o contra o corpo como


escudo para o medo, olhou para um lado e para o outro se deparando com
uma escuridão assustadora. Não costumava sair muito a noite, ainda mais
sozinha. O pai era o tipo à moda antiga, não deixava nenhuma das filhas
longe das suas vistas por muito tempo, principalmente Jesse que não tinha um
pingo de juízo e estar ali era prova disso.
Como vou achar um homem que nunca vi na vida? A ficha começou a
cair, mas não tinha vindo até ali para desistir agora. Em um rompante de
coragem, atravessou a rua ficando em pé defronte ao tal bar. Era um
estabelecimento enorme com a fachada toda revestida de luzes piscando
como uma árvore de Natal, coisa comum nos prédios de La Vegas. Quando
entrou, ficou horrorizada ao se deparar com uma mulher seminua dançando
no pole dance bem no centro do estabelecimento, subia na ponta do bastão de
ferro e descia de cabeça para baixo com as pernas abertas. Do lado esquerdo
tinha um pequeno cassino montado com mesas cheias de jogadores,
provavelmente gastando o que possivelmente não teriam condições de pagar
depois.
A investigadora sentiu as bochechas queimarem ao ver um casal no
canto praticamente transando na frente de todo mundo, totalmente à vontade.
E não estavam no escuro, o lado de dentro do bar era tão iluminado quanto o
de fora, com luzes de todas os tamanhos e cores. Com muita dificuldade,
praticamente se arrastou em meio às pessoas que estavam dançando, se é que
poderia chamar aquilo de dança. Ao som de uma música alta, com uma letra
tão vulgar como as mulheres presentes, era evidente que todos clientes
daquele lugar fossem marginais. Achar o que ela estava procurando seria
como querer achar uma agulha no palheiro. Totalmente perdida, Jesse sentou
no balcão do bar desesperada pensando em como foi tola indo ali sozinha,
então ela, que sempre foi muito corajosa, viu toda sua coragem se dissipar ao
vento quando um homem barbudo e careca, trajando roupa de motoqueiro
com direito a colete e tudo, muito alto e porte físico grande e tatuagens muito
malfeitas por todo o corpo, olhou para Jesse de forma maliciosa, parecendo
estar totalmente embriagado. Ela pensou em sair correndo e gritando socorro
quando ele veio em sua direção, só que ela era mais forte do que isso e
permaneceu firme no mesmo lugar.
— Quer dançar comigo, gatinha? Sabia que tu és uma moreninha

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muito gostosa? — Carter quase ficou bêbada apenas com o "bafo" de álcool
que saiu da boca daquele sujeito, que por conta do som alto levou o rosto
bem próximo ao dela para que o escutasse.
— Já estou de saída, desculpe-me — respondeu educadamente,
completamente apavorada com a forma que o homem a encarava,
principalmente agora que prostrado diante dela parecia muito maior e
esquisito também. O fato de Jesse ter pouco mais de um metro e meio de
altura não ajudava muito, foi um dos grandes problemas que enfrentou para
se tornar uma policial. Discretamente pegou o celular no bolso e ligou para a
amiga Nayla pedindo socorro, pensou em ligar para a mãe, mas a amava
demais para dar mais uma preocupação a ela, tentava evitar ao máximo.
Porém, parecia ser um ímã para confusões. No primeiro toque sentiu seu
braço ser brutalmente puxado pelo homem que não aceitou bem a resposta
negativa ao seu convite. Começou a arrastá-la à força para pista fazendo com
que o celular caísse no chão. Na tentativa de se soltar da mão dele, o casaco
acabou se rasgando, deixando à mostra para quem quisesse ver o uniforme do
FBI.
— Tira na área — um homem gritou fazendo aparecerem outros
homens de todos os lados em volta de Jesse, que facilmente a pegaram e a
levaram arrastando até os fundos do bar onde ficava a sala do dono, um
homem asqueroso e careca, barrigudo e vestindo uma camisa de mangas
cumpridas com estampas florais de muito mal gosto. Com a boca cravejada
de dentes de ouro, rindo para ela de uma forma assustadora.
— Você é muito corajosa vindo aqui sozinha, mocinha! — Girou a
cadeira para ficar de frente para ela. — Quem te mandou aqui? —perguntou
rude, quase gritando. Ela ainda estava sendo segurada pelo braço por dois
seguranças. Abaixou o olhar apavorada, orando aos céus para que mandasse
um milagre ou que sua morte não fosse tão dolorosa.
— A ratinha assustada não vai falar? — perguntou irônico e sem a
resposta da moça decretou o seu destino. Um dos seguranças deu um tapa no
rosto dela fazendo o sangue escorrer no canto da boca, mas Jesse continuou
em silêncio. — Sei que ela não faz o tipo de vocês homens, mas podem
brincar com ela à vontade antes de eliminá-la —ordenou tranquilamente,
voltando a atenção para pilha de maços de dinheiro sobre a mesa, contando
nota por nota com um charuto italiano na boca.
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— Agora vamos nos divertir um pouco com você, ratinha, se for


boazinha não vamos te machucar muito — exclamou um dos cinco bandidos
vindo para cima de Jesse já abrindo o cinto. Eles ficavam a jogando-a de um
lado para o outro rasgando sua roupa. Parecia, de fato, uma ratinha assustada
sendo brinquedo de quatro gatos malvados. Tomada pelo desespero começou
a chorar e se debater. Foi assim até cansar e cair no chão toda descabelada e
suada. Tinha entregado os pontos.
— Boa menina — disse um deles arriando as calças. Assim que levou
a mão na pobre moça cujo rosto estava tomado por lágrimas e grande parte
do corpo à mostra pelos rasgos na roupa que restou em seu pequeno e frágil
corpo. Deu um passo para trás assustada com o que acabara de ver.
— Tire as mãos dela! — Blade estava parado na porta já com duas
pistolas douradas Full M9 destravadas.
O que assustou o homem não foram as armas, mas aqueles olhos nem
azuis ou verdes, acinzentados talvez, os quais brilhavam no escuro como duas
pedras valiosas, uma raposa sorrateira pronta para atacar quem ousasse tocar
nela novamente. Enquanto isso, o restante da equipe “Dos Homens sem
Medo” nem fazia ideia do que estava acontecendo com o parceiro. Estavam
em um bar conversando animadamente, Julius bebia um uísque escocês duplo
com duas pedras de gelo dançando dentro, grudada uma na outra como um
casal apaixonado. Li opinou com uma água com gás e gim, já o inglês
Estevão Salvatore estava em total estado de transe degustando sua taça de
vinho da melhor e mais antiga safra italiana, com a garrafa no valor de cento
e oitenta mil dólares, uma mixaria para ele. Seus pensamentos estavam longe,
em alguns bons anos atrás.
Era uma linda tarde amarelada de sol de novembro, o outono na
Inglaterra nunca esteve tão esplêndido como naquele ano. O chão das ruas
coberto por um manto de folhas alaranjadas, um clima confortavelmente
agradável, nem quente nem gelado, na medida certa. Um dia perfeito para
apreciar a beleza da natureza, que estava visível por todos os lados. Menos
para ele… que vivia em uma dimensão sombria, sempre fora assim desde
criança. Para ser belo, em sua opinião, a natureza teria que ter, no mínimo,
noventa e cinco por cento de preto, aquele verde todo lhe causava náuseas.
Tinha um gosto peculiar para as coisas, isso era notável apenas em olhar para
o jovem de dezesseis anos. Estava sentado no fundo da sala de aula, não
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gostava de se misturar com os colegas. A verdade era que as pessoas não


faziam questão de sua presença assustadora por perto, todos tinham medo
dele. O chamavam de “Edward, Mãos de Tesoura” por conta de sempre usar
preto, em especial um casaco longo com capuz. A pele era branca feito a
neve, com olhos azuis penetrantes, leitores de almas. O cabelo negro como a
noite, sempre mantido à altura do meio das costas com fios extremamente
lisos em um corte reto partido ao meio, era um jovem com aparência
marcante, de rara personalidade.
— Cumprimentem a nova aluna, Nayla Borges — disse o senhor
Albertino Hamilton, professor de Filosofia, era um senhor rabugento no
auge dos seus quarenta e pouco anos. Alto, magro e careca. Trajava o
habitual suéter verde escuro, com gravata borboleta, tudo de muito mal
gosto. Chamando a atenção do jovem que olhava do outro lado da extensa
janela de vidro, um pássaro negro, um corvo gungunava algo como se tivesse
conversando com ele. Estevão o fitava atentamente como se o entendesse. E
o entendia mesmo, eram companheiros de longa data. Iniciou uma análise
minuciosa da nova colega de classe, começando pelas sapatilhas rosa-bebê
cheias de brilhos e lantejoulas brilhantes no mesmo tom. Do lado havia um
laço muito bem-feito com uma fita branca, que deixava ainda mais delicados
os pequenos pés da moça. Observou a calça jeans rasgada, mesmo que
discretamente reparou como suas pernas eram bem torneadas. Uma
camiseta branca despojada com a estampa floral, uma jaqueta também jeans
por cima e uma blusa xadrez de vermelho com preto amarrada na cintura.
No pescoço uma gargantilha com um pingente com a letra N balançando
conforme se mexia. Nas costas uma mochila de couro marrom. A moça era
estilosa! Mas o que mais chamou a atenção de Estevão foi o sorriso farto
presente no rosto dela, era meigo e gentil. Sem perceber o jovem admirava
seus olhos grandes acastanhados e a beleza dos seus cachos rebeldes
enfeitados com pequenas flores brancas. Era frágil, mas visivelmente
confiante.
— Olá Nayla, seja bem-vinda a nossa escola! Sou Bryan, pode se
sentar ao meu lado, se quiser — disse a grande estrela do time de futebol da
escola, que no momento usava a jaqueta de capitão pois era o mais veloz e
esperto. Tinha uma beleza chamativa, alto e forte e cabelo cor de ouro que
dava contraste com a pele branca bem bronzeada devido às férias que
passara no Havaí, vinha de família endinheirada. Era um jovem desprovido
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de caráter, ainda mais porque era o mais popular ali, todas as meninas
morriam de amores por ele.
— Obrigada pela gentileza, Bryan, mas já escolhi outro lugar para
me sentar!
Estevão olhou surpreso, ela sorriu-lhe simpaticamente lançando um
olhar para a cadeira vazia ao lado dele. Jamais se sentaria ao lado do
capitão do time de futebol, Nayla tinha uma capacidade incrível de ver a
essência das pessoas, afinal era muito exigente com a beleza, tinha que vir de
dentro para fora.
— Se me der licença, professor, não quero mais atrapalhar sua aula.
— O professor sorriu para a nova aluna, pensando em como era uma jovem
adorável.
Salvatore arregalou os olhos assustado ao perceber como o coração
começou a bater acelerado conforme a novata se aproximava dele, para
falar a verdade, até então, nem sabia que tinha um. Era avesso a
sentimentos, bons ou ruins.
— Prazer, sou Nayla! — Ela se apresentou simpaticamente levantado
a mão para Estevão, que simplesmente virou o rosto na mesma posição que
estava antes, olhando para vista do jardim. Passava grande parte do tempo
assim. Lamentou pelo corvo não estar mais lá, era o único amigo que tinha
naquele lugar.
— Trabalho em duplas! — disse o professor Albertino. — Para que
não haja escolha de parceiros vamos fazer um sorteio e não quero nenhuma
reclamação! — alertou aos alunos.
Adotou o sorteio porque achava uma injustiça que faziam com
Salvatore o excluindo de tudo. Bryan estava com os dedos cruzados
desejando veemente que que a novata fosse sorteada para fazer dupla com
ele, tinha ficado um tanto interessado na jovem.
— Estevão Salvatore e Nayla Borges — anunciou o professor após
enfiar a mão em uma cesta improvisada de gesso, tirando dois pequenos
pedaços de papel muito bem dobrados.
Eles foram a primeira dupla a ser sorteada. Foi a partir desse dia

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que começaram algo que iria muito mais além da amizade, algo muito mais
perigoso, o que assustara bastante o jovem pois tudo era muito novo para
ele. Mas sentia que ela era diferente e realmente era. Tinha uma capacidade
incrível de ver o interior das pessoas, observar o que de bom havia lá dentro.
Por isso, em pouco tempo, se tornou popular pois tratava a todos de forma
igualitária. Sempre simpática e principalmente educada e isso chamava a
atenção de todos, principalmente de Bryan, que não estava gostando nem um
pouco da aproximação da mesma com Salvatore. Perdê-la para “Edward,
Mãos de Tesoura” era inaceitável para o enorme ego dele.
— Eu acho que gosto de você, Estevão! — A jovem se declarou
totalmente envergonhada, fazendo a pele escura tomar um tom
envermelhado.
Ele sentiu alguma coisa, que não soube decifrar. Não esboçou
nenhuma reação, segurou a sua mão mantendo o olhar fixo para o horizonte.
Durante os meses que passaram juntos, o conhecia bastante para saber o que
queria dizer com aquele pequeno gesto que também gostava dela. Estavam
sempre juntos, mas foi a primeira vez que deixou que a moça o tocasse, tinha
problemas com contato físico. Estavam sentados em um banco de madeira
em frente o lago do Green Park, a grama estava verdinha com flores
crescendo para todo lado, a primavera no auge da sua formosura. “Nay”—
assim ele a chamava — estava num vestido azul florido, debaixo de um
casaco vermelho. O cabelo solto, Estevão gostava assim, não que tivesse lhe
dito, mas a moça percebeu isso quando ele a olhava.
— Gostaria de ir ao naile da primavera comigo? — As palavras
escorregaram da boca de Salvatore sem que o próprio percebesse.
— Seria um prazer Este — respondeu sorridente chamado pelo
apelido que inventou, que ele odiava. Nay se surpreendeu quando um vento
gélido soprou, Salvatore colocou o capuz e a puxou para os seus braços para
que não sentisse frio. Se assustou ao perceber como tinha a pele fria, mais
que o próprio vento!
No dia do tal baile, Nayla estava radiante dentro de um vestido
salmão, era tomara que caia, longo e seguia fielmente as curvas do seu
corpo até a base da cintura, depois ia abrindo dando um efeito lindo à peça.
Para dar um charme a mais, calçou luvas pouco acima dos cotovelos. Fez

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um coque alto, com alguns cachos soltos e uma maquiagem bem suave
completava seu look. Entrou de mãos dadas com Estevão, que estava
impecavelmente elegante dentro de um terno preto muito bem alinhado.
Depois de muitos anos, era a primeira vez que saía sem a capa. Depois de ter
conhecido Nayla, não precisava mais se esconder do mundo.
— Quer dançar? — ela perguntou com um sorriso tão grande que
não teve como dizer “não”, foi apenas para agradá-la, pois seu sexto sentido
dizia para não ir. Por incrível que pareça sabia dançar muito bem, a
rodopiava como uma princesa por todo salão. Vinha de família nobre, os
Salvatore tinham sangue azul. Tinham uma fortuna incalculável, donos de
um Castelo e do Condado todo em volta dele.
— Eu nunca gostei tanto de alguém como gosto de você, Estevão,
estar ao seu lado só me faz bem! — Tinha a cabeça deitada sobre o seu peito,
escutando-lhe o coração batendo rapidamente.
— Estar com você me faz bem, Nayla, me faz sentir humano! — Dessa
vez não ficou calado, o que sentia era forte demais para guardar apenas
para ele. — Pegou na mão da moça e a rodopiou no ar, era uma cena tão
linda de se ver que se fosse o tipo que sorria, teria soltado um sorriso dos
grandes. Mas não era, nunca sorria, na verdade. Pararam de dançar e
ficaram se encarando por um bom tempo, foram aproximando os lábios sem
parar de se olharem. Estavam ofegantes esmo sem se tocarem, ambas partes
ansiavam para que aquilo acontecesse. Nenhum dos dois havia beijado
alguém antes, estavam esperando a pessoa certa. Na verdade Estevão
pensava que não existia ninguém para ele, que nasceu para viver sozinho.
— Nayla, poderia vir aqui um minutinho? — Chloe, a irmã de Bryan,
apareceu do nada impedindo o beijo deles, parecia ser até de propósito.
— Desculpe Chloe, agora não posso! Estou ocupada! — Olhou para
o seu par de forma maliciosa, porém, inocente.
— Por favor, realmente é muito importante — implorou e, para
acabar com aquilo logo, Nayla resolveu ir. Depositou um beijo no rosto do
jovem, adorava a temperatura naturalmente fria do corpo dele. — Me espere
aqui, volto logo! — Deu uma piscadela e saiu. Assim que sumiu da vista dele,
as luzes se apagaram e a música misteriosamente parou.

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— “Edward, Mãos de Tesoura” — gritavam em um coral, entre risos


e gargalhadas. Quando as luzes se acenderam estavam todos com bexigas
cheia de tinta de várias cores, que começaram a arremessar nele. O primeiro
foi Bryan, acertando maldosamente bem no rosto do jovem. Foram tantas
que ele nem conseguiu se manter de pé, o mais assustador era o som das
gargalhadas. Estavam se divertido às custas dele, mas por que se nunca
fizera mal a ninguém? Perguntou-se ainda caído. O que Estevão precisava
aprender é que não precisava fazer nada contra ninguém para ser odiado,
bastava ser diferente. Olhou para todos os rostos presentes tentando achar
Nayla, mas não a encontrou. Ela o havia abandonado, ou pior, estava em
meio àquilo tudo. As luzes piscaram por duas vezes, na terceira ele havia
simplesmente desaparecido. Nunca mais ninguém ouviu falar nele, muito
menos Nay.
— Não! — gritou Estevão depois de acordar de mais um pesadelo.
Ultimamente vinha tendo o mesmo sonho repetidas vezes. Sumiu no
mundo para ver se esquecia o ocorrido, mas não importava onde ia, sempre
trazia consigo a lembrança desse dia horrível. Entrou para vida do crime
depois disso, era mais fácil viver se escondendo assim. A noite era chuvosa,
estava suado e com a respiração ofegante. Ouviu batidas no vidro da janela,
levantou e foi andando até ela.
— Olá, garoto! — disse ao corvo, que assim como as lembranças, o
seguia aonde quer que fosse.

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CAPÍTULO 3

Jesse lançou os olhos como uma flecha em direção aos de Blade,


intrigada. Nunca tinha visto olhos tão expressivos em toda sua vida. A cor era
indecifrável, o que os faziam mais atraentes ainda. As botas de couro puro,
servindo como esconderijo para a calça jeans desbotada, moldando as pernas
bem definidas em anos de academia, ela supôs. Camisa branca de mangas
curtas colada ao corpo, deixando evidente os músculos de dar inveja a
qualquer um. Embora Carter detestasse barba por fazer, em Blade parecia
ressaltar uma beleza avassaladora. Era perfeito, ainda mais tão poderoso com
duas pistolas de ouro puro em mãos, que lhe davam um poder descomunal.
Mas também era o homem mais sério e distante que vira na vida. Podia ser
belo, mas tudo nele dizia: "Não me toque". Era perfeito, porém, "intocável".
Ainda mais para alguém tão insignificante como ela. Ele não a deixaria
chegar nem perto.
— Soltem as armas e se afastem dela, que, talvez, eu não machuque
muito vocês — ameaçou com a voz perversa fazendo os homens tremerem de
medo.
— Boa noite para você também, Maldonado!
— Jesse arregalou os olhos apavorada ao ouvir o dono do bar falar o
sobrenome dele. Estava diante do último dos Maldonado! Sim, ela estava! O
mafioso tinha a atenção para o montante de notas de cem dólares sobre a
mesa do seu escritório, ele conhecia Blade há muito muito tempo, era cliente
frequente, vinha ali para extravasar a raiva de uma forma bastante diferente
das pessoas normais. Tinha vindo ao bar para isso, mas teve seus planos
arruinados ao ver a policial atrapalhada que salvara a sua vida sendo arrastada
para o fundo do estabelecimento por dois seguranças. Em outra ocasião nem
se importaria, só que quando se deve algo, o pagamento deve acontecer.
— Você sabia que essa putinha é uma tira? — o dono do bar
perguntou debochando.

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— Eu sei — respondeu Blade com a voz grave, sensualmente grossa.


Arqueou uma sobrancelha, desviando o olhar para a investigadora
incomodado com aqueles olhos grandes e escuros lacrimejando sobre ele. A
moça corou, mas só um pouco. Porém, o suficiente para que este notasse.
Jesse respirou fundo várias vezes para segurar o mar que estava se formando
em seus olhos, fechou-os com força acreditando fielmente que quando os
abrisse não estaria mais naquela situação apavorante. Seu pai a proibiu de
chorar, disse que era coisa de gente fraca.
— Sabe e mesmo assim está defendendo-a? Os ossos do seu pai
devem estar se revirando no túmulo de tanto desgosto. Esta raça ruim mata
nossa gente sem pensar duas vezes, você, melhor do que ninguém deveria
saber disso, Blade.
A investigadora mais uma vez se arrepiou toda ao ouvir o apelido de
Maldonado, afinal Blade não era seu nome legítimo. No mundo do crime os
filhos usavam um apelido escolhido pelo pai e o sobrenome da mãe. Seu pai
escolheu esse apelido do personagem principal do seu livro favorito "Blade, o
Caçador de Vampiros" e seu sobrenome herdou da mãe, Claulin Maldonado.
Caso ocorresse alguma emergência poderia recomeçar a vida em outro lugar
usando o nome verdadeiro juntamente com o sobrenome do pai. Ninguém
sabia a verdadeira identidade de ninguém, isso era um verdadeiro mistério
entre eles.
— Solte-a e eu pouparei a vida de vocês!
Deu uma última chance a eles, olhando para Jesse discretamente
através do canto dos olhos para ter a certeza que estava realmente bem.
Sentiu o sangue ferver quando notou o quanto a jovem estava envergonhada
tentando inutilmente cobrir as partes do corpo à mostra através dos rasgos
feitos pelos os seguranças. Trincou os dentes tomado pelo ódio, imaginando o
que poderia ter acontecido caso não tivesse chegado, começou a sentir raiva
principalmente dela por ser tão tola a ponto de vir naquele lugar perigoso
sozinha. Teria sido melhor dar um tiro na própria cabeça, morreria com
menos sofrimento.
— Você se acha não é mesmo, Blade? Caso não tenha percebido
estamos em cinco, se respirar errado, te enchemos de tiros. Se quiser, pode
ficar daí olhando a gente se divertir com a ratinha assustada, não sei porque,
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mas agora estou com mais tesão nela ainda.


O homem puxou Jesse pelos cabelos, envolvendo as mãos em sua
cintura, virando-a de costas para ele, contraindo sua ereção na bunda dela.
Assustada com aquilo ela começou a chorar desesperadamente, de uma forma
tão dolorosa que fez Maldonado perder a razão.
— Vou contar até cinco, se não a soltar estarão todos mortos num
piscar de olhos! — Apontou a arma para a cabeça de dois deles, um era o que
segurava Carter de forma totalmente desrespeitosa. — Um… — começou a
contar e ninguém se mexeu… — Dois… — Os homens começaram a ficar
apavorados, sabiam bem a fama que Blade tinha em relação a sua agilidade
com as armas… — Três!
— Ela nem é tão bonita assim, cara, entrega a moça para o
Maldonado — exclamou o homem de aproximadamente quarenta e cinco
anos, o mais velho de todos. Estava sem camisa, segurando as calças morto
de medo. Sabia muito bem que lhe restava apenas dois segundos de vida caso
não entregasse o que Blade queria, iria matá-los em um piscar de olhos.
— Não! Ela só sai daqui depois que for minha, vou usá-la de todas as
formas possíveis! — Gargalhou de forma macabra.
A partir desse momento independente do que acontecesse Maldonado
o mataria de qualquer jeito.
— Cinco! — Blade ansioso para dar um tiro no meio da testa dele,
pulou o número quatro.
— Não! Por favor — gritou Jesse abrindo os braços o impedindo de
atirar. O Homem Fora da Lei a fuzilou com olhar duro. Além de achá-la uma
tola, agora pensava que era louca também. — Não quero que mate ninguém
por minha causa, não conseguiria viver com isso — exclamou a investigadora
devastada. Independentemente das circunstâncias, jamais aceitaria que
alguém morresse para salvar a vida dela.
— Ótimo! — Blade deu de ombros, e guardou as armas na cintura.
Virou as costas e foi embora sem nenhum pingo de remorso. Agora ela não
era mais problema dele.
— Para! Eu não quero!

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Blade paralisou na porta assim que ouviu os gritos da investigadora,


não tinha mais comando sobre o próprio corpo. Sua mente queria ir, mas suas
pernas não se mexiam. Sacou as armas novamente, não se ouviu nada mais
naquela sala além de tiros e mais tiros. Jesse nem ouviu, havia desmaiado
quando um dos homens rasgou o resto da sua blusa de forma grotesca
deixando-a apenas de sutiã.
Quando acordou, algumas horas depois, estava deitada sobre uma
cama enorme, coberta por uma jaqueta preta de couro masculina com um
cheiro maravilhoso do perfume Giorgio Armani, um dos mais caros do
mundo. Só conhecia o cheiro porque a amiga Nayla ganhou um do próprio
Giorgio quando desenhou uma coleção para a marca, ficou louca quando
sentiu, já que não gostava de perfumes femininos, os achava doces demais e
muito enjoativos. Infernizou a amiga até presenteá-la com ele, usava
pouquinho para economizar, afinal, nunca na vida teria outra oportunidade de
ter uma raridade daquelas.
Ela estava em um quarto estranho, mas muito chique por sinal, os
poucos móveis que tinha dava para notar que eram caros. Perfeito! Não a
decoração, completamente neutra e vazia. As paredes estranhamente pintadas
de preto, porém, estrategicamente realçavam a constelação inteira pintada no
teto. Talvez fosse essa a intenção, dar mais veracidade à pintura. Quem
deitava de barriga para cima, poderia dormir admirando aquela imagem
perfeita das estrelas cobrindo o céu como um manto. Mas o que era lindo
mesmo, era a enorme vista da iluminada cidade de Los Angeles, porém, bem
longe, muito abaixo do local onde estavam. Como não havia cortinas, a
pessoa que dormia naquele quarto deveria gostar de deitar e ficar olhando
para aquela imagem por horas até pegar no sono. A casa ficava no topo de
alguma montanha ou algo parecido, longe de tudo. O mais interessante eram
duas janelas enormes ao invés de uma na sala, o que seria o normal.
Ela se perguntou confusa como chegara ali, não lembrara como foi
parar naquele lugar. A primeira coisa que fez foi abrir o botão da calça e
verificar se tinham tirado dela algo que estava guardando para entregar na
hora certa, para a pessoa certa. Suspirou aliviada ao perceber que sua pureza
continuava intacta, não havia nenhum sinal de violação. Perdeu todo o ar
quando viu à esquerda um homem sentado em uma mesinha de canto, de
costas para ela, exibindo os músculos bem definidos, principalmente os

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braços fechados por tatuagens que Jesse conhecia muito bem. O visual de
suas costas era tão bom quanto a frente, constatou admirando a bela visão.
Blade estava totalmente concentrado limpando o cano da sua pistola, com
muito cuidado passava um pequeno pedaço de flanela de algodão na peça,
dando leves assopros dentro do cano para varrer qualquer tipo de pólvora que
tivesse.
— Está com fome?
Jesse arregalou os olhos surpresa, como sabia que ela havia acordado
se não tinha olhado para trás e continuava entretido no que estava fazendo.
— Não, obrigada! — respondeu com a voz trêmula, abaixando o olhar
envergonhada.
Puxou a jaqueta mais para cima para tapar o corpo, enfim tomando
ciência que estava seminua em uma casa estranha, presa no quarto de homem
armado até os dentes. Fora que a essa altura o pai dela estaria louco à sua
procura e quando a encontrasse estaria perdida nas mãos do major. Sua maior
preocupação era com a mãe, Maria Joaquim, a paixão de sua vida. Mulher de
fibra, que sempre a defendeu com unhas e dentes. Nunca a julgou pelas suas
escolhas, a apoiava mesmo quando suas atitudes não eram do seu agrado.
Indo muitas vezes contra a vontade do marido, viviam brigando por causa
dela.
— Não se preocupe, Jesse!
A investigadora nunca achou o seu nome tão bonito como naquele
momento, aquela voz grossa, incrivelmente atraente, deu uma versão única a
ele. Erótico seria a definição exata.
— Sua irmã ligou umas dez vezes, mandei uma mensagem dizendo
que iria passar a noite na casa de uma amiga — explicou calmo, visivelmente
sem paciência com aquela situação.
Nunca ninguém que não tivesse o sobrenome Maldonado havia pisado
naquela casa antes. Ele não fazia a mínima ideia do porquê a trouxe para o
seu esconderijo. E isso o irritava profundamente, de uma forma absurda. Sem
dizer nada, levantou e caminhou até a porta esbanjando testosterona por toda
parte. Era homem com H maiúsculo, sua virilidade emanava pelo ar, a coisa
mais excitante que Jesse vira em toda sua vida.
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— Pode se limpar se quiser — exclamou antes de atravessar a rústica


porta de madeira.
A policial entendeu o recado ao ver uma toalha e uma camisa grande
branca, provavelmente dele, sobre o pequeno móvel ao lado da cama. Ele já
tinha pensado em tudo. Esperou um tempo para ter certeza que ele tinha
realmente partido, pegou o que precisava para o banho e saiu a passos
cautelosos à procura do banheiro, que era, na verdade, uma suíte. Parou para
observar atentamente se perguntado o porquê de um banheiro tão grande?
Fora o monte de prateleiras de cosméticos para higiene pessoal de todos os
tipos e marcas, uma pilha de toalhas brancas muito bem dobradas e cheirosas,
sobre a pia uma loção pós-barba com um cheiro amadeirado viciante. Além
disso uma banheira espaçosa bem no meio, grande o suficiente para duas
pessoas. Para ela os bandidos nem tomavam banho, mas aquele homem
chegava a ser exagerado no quesito limpeza.
Carter estava conhecendo um lado dos criminosos que não esperava,
eram limpos e organizados, pelo menos aquele que conheceu era. Antes de
abrir o box de vidro transparente, trancou a porta. Não conseguia evitar pairar
em sua mente a imagem dele nu debaixo daquele chuveiro enorme com a
água caindo sobre aquele corpo escultural todo tatuado. Balançou a cabeça
para afastar os pensamentos pecaminosos, tomou um banho frio e rápido, mas
suficiente para lavar os cabelos que estavam mais rebeldes que o normal.
Estava se sentindo suja, chorou com os olhos fechados debaixo da ducha,
lembrando do homem nojento tocando o seu corpo. Quando terminou voltou
às pressas para o quarto, mesmo a camisa dele sendo incrivelmente
confortável e cheirosa não cobria nem a metade da bunda dela, por isso se
enfiou debaixo do lençol. Trinta minutos depois, Blade voltou com uma
bandeja nas mãos, sobre ela havia um prato com filé de peixe grelhado, no
ponto certo. Do lado dois bloquinhos de arroz enfeitado com duas folhas de
hortelã e por último, brócolis. Uma quantidade exageradamente grande,
analisou ela. Um copo grande de suco natural de laranja. Colocou no colo da
moça que tremia sem parar. A distância entre os dois era pequena demais, se
erguesse a mão poderia tocá-lo.
— Obrigada pela gentileza, mas não estou com fome, mesmo! —
Jesse quase não comia nada, tinha problemas graves com ansiedade, o que
resultava na perda do apetite.

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— Vai comer! Nem que para isso eu tenha que alimentar você!
Ele sentou na beirada na cama, lhe lançando um olhar frio, sabia ser
mal quando queria, deixando bem claro que não estava para brincadeira.
Maldonado não gostava de ser contrariado nunca.
— Não pode me obrigar a fazer o que não quero! — O encarou
corajosa, mas desviou o olhar logo. E corou, mesmo com a pele escura, foi
mais que o suficiente para demonstrar que estava envergonhada. Nunca tinha
visto olhos tão lindos, eram indecifráveis e exóticos.
— É o que você pensa! — respondeu ameaçadoramente, o que fez
Jesse se encolher assustada, achando melhor não bater de frente com ele. Em
total silêncio levou a pequena mão até a bandeja na intenção de trazê-la para
mais perto de si, mas ele a impediu.
— Abra a boca! — ordenou.
Irritada, virou o rosto para o lado, não era nenhum bebê para receber
comida na boca. "Eu posso muito bem me alimentar sozinha, não precisa me
tratar como inválida", respondeu mentalmente nervosa.
— Eu sei que pode — ele respondeu mais uma vez como se pudesse
ler os pensamentos dela.
Patiu o peixe em pequenas tiras com um punhal pontiagudo que tirou
ela não fazia ideia de onde. Ele, em vez de usar um garfo, pegou um pedaço
na ponta dedos e sensualmente levou até a boca carnuda. O peito dela fazia
movimentos cada vez mais acelerados de sobe e desce. Estava visivelmente
nervosa. Ele era lindo demais e a atraía de uma forma avassaladora.
— Mas vou alimentar você hoje! — Aproximou o pedaço de peixe
aos lábios da moça, que automaticamente abriu a boca para receber o
alimento.
O Homem Fora da Lei sentiu uma corrente elétrica passar por todo
seu corpo ao sentir o calor da respiração dela ao tocar o seu dedo, ainda mais
quando tocou a parte inferior dos lábios molhados de Jesse. Eram quentes e
macios, uma combinação perfeita, quando a jovem chupou a ponta dele sem
querer de forma sexy, teve certeza, o gemido que soltou involuntariamente
era evidência disso. Imediatamente tirou os dedos da sua boca, de um jeito

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quase bruto.
Blade olhou para ela sentindo uma coisa que não era do seu feitio
sentir: culpa. A moça havia se encolhido toda, tentando se esconder ao
máximo que podia debaixo do lençol. Piscando várias vezes com os cílios
longos para não marejar os olhos, fazendo um beicinho lindo com vontade de
chorar. Foi então que reparou como a jovem era frágil, tão delicada como
uma flor. Tinha o corpo tão pequeno e magro que dava a impressão que
poderia quebrar caso fosse apertado com muita força. Tentou não olhar para
os seios dela soltos debaixo da sua camisa molhada por conta da água que
escorria do cabelo longo, mas enxuto e cheiroso. Mas foi em vão, os seus
olhos pareciam ter vida própria. Eram pequenos e firmes, totalmente
diferentes do jeito que gostava. Porém, assim mesmo não conseguia tirar os
olhos deles.
— Não vou machucar você, pequena! — Encarou-a intensamente,
agora seus olhos estavam cor de jacinto. Um azul rústico, hipnotizante. Era a
primeira vez que ficavam daquela cor, a coisa mais linda do mundo. — Não
precisa se esconder de mim, sou mau só com que eu quero. — Continuou a
encará-la de uma forma envolvente, nenhuma mulher resistiria àquilo. — E
você não é uma delas. — Deu uma pequena pausa, as duas esferas azuis
como o céu se dilataram. — Pelo menos por enquanto — completou
sombriamente.
— Não tenho medo de você — falou tão baixo que Blade quase não
ouviu. Sua voz era suave e extremamente doce.
— Pois deveria ter! — soou totalmente como uma ameaça. — Na
história da Chapeuzinho Vermelho eu sou o Lobo Mau e você sabe o que ele
faz com ela, não sabe? — Jesse não sabia se era para respondê-lo ou se era
uma pergunta retórica. Tinha o raciocínio lento, demorava para entender as
coisas, principalmente as pessoas.
— Ele a devora?! — resolveu responder, ainda por cima errado. Mas
era tarde demais para corrigir, como sempre, já tinha falado demais.

— Lentamente!!! — respondeu malicioso. Levou o polegar a própria


boca para limpar o resto do pedaço de peixe que ficou nele, sem tirar os olhos
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dela. O clima no ar ficou tenso, o silêncio predominou naquele quarto. Para


aliviar um pouco o ar pesado, Jesse resolveu tentar algum tipo de diálogo, por
mais estranho que fosse.
— Você matou aqueles homens maus? — perguntou igual uma
criança assustada. Ele podia ver a culpa se formando em gotas dentro dos
belos olhos escuros e isso o incomodou bastante.

— Não! Mas prometo que não vão conseguir ficar de pé por um bom
tempo, ter filhos um dia, muito menos! — Jesse olhou para ele pasma, a
calma com que ele relatava tais palavras era a mesma de um monge
meditando. — Você disse para não matar, mutilar é bem diferente —
explicou, naturalmente, enquanto pegava outro pedaço de peixe, levando à
boca dela novamente, mas de um jeito que não tivesse muito contato físico, já
tinha se arriscado demais da primeira vez.

— Obrigada — agradeceu sorrindo timidamente. — É bom saber que


ninguém precisou morrer para que eu vivesse, isso me deixa imensamente
feliz. — Abriu um sorriso maior ainda, um daqueles que iluminava tudo em
volta.
Todo mundo fica bonito com uma luz em volta, no caso de Jesse era
diferente, vinha de dentro. Foi então que Blade percebeu o poder que um
sorriso tinha, ainda mais quando saía naturalmente, sem planejar. Sorrisos
bonitos conquistam, mas os tímidos conquistam mais. Na opinião do bandido,
o sorriso de Jesse tinha as duas características, era simplesmente radiante.

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CAPÍTULO 4

— Por que está me olhando assim? — perguntou Jesse confusa pela


forma intensa com que Blade olhara para ela, chegava a ser assustador.
Ajeitou o travesseiro nas costas, abraçando as pernas como se quisesse se
proteger.
— Não iria gostar de saber — respondeu misterioso, totalmente
nebuloso. Fitou o cordeirinho assustado diante de si, tinha um rosto angelical.
Observou os cílios longos que espanavam feito um leque indiano, dando-lhe
uma aparência de boneca, de fato, parecia uma, cobrindo os olhos grandes e
expressivos que miravam para todos os lados, menos na direção dele. Não
conseguia olhar nos olhos de ninguém, era extremamente tímida. Carter não
tinha mais onde se esconder, estava toda encolhida como um gato molhado
em um dia sem sol. Ficou magoada com a resposta de Blade, deduziu que se
não gostaria de saber, com certeza não se tratava de coisa boa. Mas não era
bem assim como ela pensava, não mesmo.
— Não se preocupe, você não é o primeiro a olhar para mim
estupefato pensando que sou estranha ou burra, já estou acostumada com as
pessoas me julgando de forma tão exasperada e crítica apenas por conta da
minha aparência. — Respirou fundo distraída, passando a ponta dos dedos
sobre o lençol de seda pura, nunca tinha tocado algo tão luxuoso e macio.
Cada gesto de Jesse era vigiado pelos atraentes olhos de Maldonado
que naquele momento estavam azul cor de jacinto, só ficavam dessa cor
quando estava perto dela, um tom novo para a coleção de tons que fazia suas
duas esferas serem indecifráveis.
— Não deveria! — Tinha a voz grave, porém, com um tom alterado.
Tinha, também, a respiração irregular, ela o deixava nervoso. Estava
sentado no lado direito da cama, em um ângulo de noventa graus, a uma
distância consideravelmente segura para que não tivesse nenhum contato
físico com a moça novamente, isso seria perigoso demais… para ela. —
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Pessoas burras não costumam dizer estupefato!


Ele mexia compulsivamente no punhal que estava em suas mãos,
girando-o na palma da mão como uma espiral, o mesmo que usou para cortar
o peixe. Do nada arremessou o objeto sobre um alvo fixado na parede, sendo
que as divisórias eram da maior para o menor seguindo a ordem das cores
laranja, amarelo, azul e vermelho — esta última acertou em cheio bem no
meio. Sua intenção era chamar a atenção da investigadora, odiava não ter
contato visual com uma pessoa quando estivesse falando com ela, em
especial aquela desconhecida deitada em sua cama, onde nenhuma outra
mulher havia encostado antes, tinha um lugar próprio para satisfazer seus
desejos carnais, onde o pecado e a luxúria reinavam. Mas Jesse recusava a
encará-lo, nem em sonho faria isso. Tinha dificuldade de olhar nos olhos das
pessoas, principalmente nos dele.
— Só porque sei algumas palavras difíceis não quer dizer que eu seja
inteligente, senhor!
Na verdade não sabia muitas. Havia lido aquelas em uma matéria no
jornal e achou interessante, então esperou um momento propício para usá-la,
por isso saiu de forma tão natural. Queria que seu pai estivesse presente para
ver que também sabia ser inteligente, às vezes. Mas logo descartou essa ideia,
o major não iria gostar de saber que a primogênita estava na casa do
criminoso mais famoso da atualidade, deitada seminua em sua cama, ainda
por cima totalmente atraída por ele. Como não estar? Pensou ela, não que
nunca vira outro homem irresistível antes, porém, a beleza de Blade chegava
a ser surreal. E não era só física, atrás daquele monte de músculos havia um
coração batendo. Mesmo que em um ritmo lento e descompassado, mas tinha.
Era inteligente, pela postura ereta, culto também. Mas o que aconteceria se
descobrisse qual era o seu sobrenome? E o peso que carregava de ser a filha
do policial envolvido na emboscada do casal Maldonado, pais de Blade?
Tinha medo só de pensar na reação dele, com certeza a mataria na mesma
hora. Cresceu ouvindo como o genitor era um herói, mas o próprio não
tocava no assunto, como se não tivesse orgulho de ter participado daquilo, e
não tinha mesmo.
— Por que se autoflagela dessa forma? — perguntou incisivo, não era
homem de meias palavras, foi direto ao ponto, mesmo se ela fosse se sentir
ofendida ou não. — Se não notar coisas boas em você, ninguém mais notará.
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— O bandido pigarreou para diminuir a repentina tensão entre os dois, que


chegava a ser palpável. Jesse desviou o olhar, encabulada com a constatação
dele.
— Não me autoflagelo, senhor, apenas não me iludo! — Apertou
mais os braços em volta das pernas, aquele assunto a fazia sentir-se acuada.
— Está fazendo novamente — resmungou irritado.
— Fazendo o quê? — perguntou confusa, mais que o normal.
— Agindo como uma adolescente idiota! — Foi desnecessariamente
grosso. — Posso sentir o cheiro da sua inocência de longe. — Ela preferiu
não pensar no que Blade queria dizer com aquilo, mas no fundo sabia muito
bem.
— Eu não sou nenhuma santa, senhor Maldonado, não mesmo! —
Poderia não ser, porém, chegava bem perto. — Já roubei uma vez! —
Confessou deixando-o pasmo, se ela não tinha jeito para policial, muito
menos para ladra.
— E o que você roubou? — Cruzou os braços ressaltando os
músculos.
Jesse reparou que no braço esquerdo, acima do cotovelo, havia uma
tatuagem do rosto de uma mulher muito bonita rindo espontaneamente,
perguntou-se: Quem seria ela? Com certeza alguém muito especial para
merecer estar gravada no corpo intocável dele. Blade franziu o cenho
interessado, realmente estava curioso para saber o que um anjo roubaria.
— Eu fui visitar o túmulo da minha avó. — Blade pensou que era pior
do que imaginava, nem ele nunca havia roubado gente morta antes. —Percebi
que os túmulos das famílias ricas tinham mais flores do que as das pobres,
dividi as que tinha levado para minha avó com eles, mas eram muito túmulos
então… — Deu uma pausa, como se fosse contar que matou um padre ou
coisa pior. Pelo canto dos olhos reparou como ele parecia relaxado naquele
momento, havia inclinado o corpo sobre cama, acomodando-se melhor para
ouvi-la, seus ombros pareciam mais largos naquela posição, um corpo que
ficaria bem dentro de qualquer roupa. — Pedi permissão para o morto se
poderia pegar algumas flores para o colega do lado, expliquei direitinho que
assim ele não iria se sentir abandonando. Então peguei algumas, pensei que
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não se importaria por ter muitas, mas deixei as mais bonitas — disse como se
o defunto se importasse. — Agora além de tola, vai me achar louca por
conversar com mortos. — Ela se torturou mentalmente, odiava quando as
pessoas olhavam para ela como se fosse a pessoa mais estranha do mundo.
— Você não roubou, já que pediu antes — constatou óbvio, na
tentativa de diminuir um pouco a culpa eminente nos olhos dela.
— Não foi o que a família deles pensou depois, senhor, nem o meu
pai quando me levou à casa de cada um deles para pedir desculpas. Na época
tinha apenas dez anos. — Encolheu-se ao lembrar, ele percebeu que fazia isso
quando estava com medo. — Além de apanhar, fiquei de castigo por duas
semanas — completou com a voz arrastada.
— Blade! — A voz grave ecoou no lugar, a coisa mais sensual do
mundo, pelo menos era para Carter. — Esse é meu nome, não "senhor"! —
soou mais como uma advertência do que como uma constatação. O fora da
lei havia ficado incomodado com a formalidade com que a moça se referia a
ele, era visível a diferença de idade entre os dois, mas nem tanto assim para
ela falar com ele como se fosse um idoso.
— Como eu estava dizendo, Blade… — Ele chegou a engolir em seco
ao ouvir o seu nome naquela voz doce, não cansaria de ouvir, nunca. —
Conhecimento é completamente diferente de sabedoria, afinal este qualquer
um pode adquirir através de bons cursos e especializações em várias áreas,
agora o complicado é ter discernimento para saber como usá-lo sabiamente e
de forma útil para si e principalmente para os outros — explicou-lhe, tirando
delicadamente um cacho teimoso que insistia em cair sobre o rosto frágil, um
gesto tão simples, só que tentador para um certo caçador que tinha os olhos
furiosos feito os de um gavião captando cada movimento da presa.
Ela era atraente e frágil, uma combinação perigosa para Maldonado.
Aquela cena era realmente como colocar a Chapeuzinho frente ao Lobo Mau,
onde o seu único pensamento era devorá-la da forma mais feroz e prazerosa
possível.
— Cuidado para não confundir modéstia com autopiedade.
Jesse olhou para ele reparando em suas costas largas, única parte do
corpo onde não havia tatuagens, queria perguntar o porquê, mas não o fez.

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Continuou a observar o corpo atraente do bandido, que no momento tinha os


olhos vagando por outra parte do quarto, pensando no porquê ainda estar
tendo aquela conversa estranha com uma policial, raça inimiga da sua
família. A situação só não era pior porque Maldonado não vira o sobrenome
da moça no uniforme, essa parte, graças ao bondoso Deus, havia sido
rasgada. Então não tinha conhecimento que era, justamente, a filha de um dos
policiais envolvidos na morte dos seus pais. Podia se considerar uma garota
de sorte.
— Vitimismo não combina com ninguém — completou com aquela
voz grossa infernal que fazia a investigadora sentir como se borboletas
tivessem voando no seu estômago, as mãos suarem e a respiração ficar
descompassada.
Eles ficaram se encarando por um tempo, um silêncio de palavras não
ditas torturantes pairava no ar. Até o telefone de Blade tocar, salvando-a
daquela situação bizarra. Ele levantou sensualmente, dando um vislumbre das
suas belas costas, dava para ver perfeitamente a ponta da cueca box Calvin
Klein aparecendo no cós da calça da mesma marca. Blade sempre fazia
questão do melhor, não tinha estômago para mediocridade e não
economizava quando assunto era agradar a si mesmo. Caminhou com o
celular iPhone 7, na cor prata, finíssimo e com o desenho de uma maçã
mordida, atrás ao ouvido até a grande janela de vidro, olhava a vista enquanto
prestava atenção na pessoa do outro lado da linha.
— Você não sabe quem encontramos por acaso em uma boate Blade.
Só estamos te esperando para dar uma boa lição nesse X9 do Otávio Colins.
Ele vai ter que contar quem o pagou para armar aquela emboscada para você.
Estamos levando-o para aquela antiga fábrica de cosméticos afastada da
cidade. — Era Julius, haviam conseguido pegar o homem que armou para a
polícia pegar Maldonado. Agora o pobre coitado estava perdido nas mãos
deles. Mexeu com um, arranjou problema com todos.
— Estou indo — respondeu apenas em um tom assustador, desligando
na cara dele como de costume. Os olhos estavam acinzentados, refletindo
sobre coisas ruins que rondavam sua mente.
— Vai sair? — perguntou Jesse mordendo o lábio inferior, estava
com medo de ficar sozinha.

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— Não é da sua conta! — Foi rude, odiava quando invadiam o seu


espaço!
— Desculpe-me! — Pediu com a voz chorosa.
— Mas que inferno! Poderia parar de ficar pedindo desculpas o tempo
todo? Isso me irrita profundamente. — Sua voz estava menos alterada, mas o
suficiente para magoá-la.
— Eu vou parar, me descul… — Parou antes de terminar a frase, ele
pigarreou alguns palavrões em protesto, o jeito inocente dela chegava a ser
irritante.
— Não se preocupe, voltarei logo! — Tranquilizou-a. — Levarei
você para casa assim que o dia clarear — concluiu.
— Vai sair com seus amigos? — Fez a pergunta sem pensar se
arrependendo logo após. Estava na cara que queria saber se era com uma
mulher.
— Pessoas sem caráter não têm amigos, têm cúmplices! — Articulou
enquanto pegava as duas pistolas que estava limpando sobre a pequena mesa
de canto e as colocou na cintura. — Não mexa em nada, ou melhor, não saía
da cama até eu chegar! — Não pediu, mandou!
Ela apenas assentiu com a cabeça, não tinha outra alternativa. E assim
Blade desapareceu pela porta. Depois de virar de um lado para o outro na
cama durante quarenta e cinco minutos, Jesse pensou que não teria problema
nenhum se fosse à cozinha beber um copo de água, não gastaria nem cinco
minutos para fazer o trajeto de ida e volta sem tocar em nada que fosse
quebrável, principalmente caro. Sem dificuldades tirou o enorme cobertor de
cima de seu corpo, fechou os olhos para inalar o cheiro bom do perfume do
bandido que saiu por debaixo dele, o aroma tomou conta das suas narinas
deixando-a totalmente em transe. Além de lindo, charmoso e misterioso, era
limpo e cheiroso, muito na verdade. Puxou a camisa que estava usando na
tentativa inútil de não mostrar o que não devia, não tinha certeza que estava
de fato sozinha na casa.
Colocou primeiro o pé direito no chão para dar sorte, não sabia o que
a esperava dali em diante. Arrepiou-se toda quando os dois pequenos pés
tocaram o chão frio, fez uma careta para não falar um palavrão, era correta
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demais para pronunciar coisas profanas. Deu um passo atrás do outro


lentamente até chegar às duas portas ao lado da grande janela de vidro.
Curiosa como era não resistiu e teve que verificar onde a porta da esquerda
levaria. Então destrancou-a sentindo o vento gélido da noite tocar o seu rosto,
uma sensação maravilhosa de liberdade. Não demorou muito para chegar a
um terraço, com o que restava do belo jardim que predominou naquele lugar
um dia. Jesse viu vasos de barro por toda parte, alguns quebrados nas bordas
devido ao efeito do tempo e a falta de cuidado.
— De que adianta alguém ter um terraço desse tamanho, se não faz
bom uso dele? — Jesse se perguntou em voz alta, indignada. Sua casa não
dispunha de tanto espaço como aquela, mas o pouco que tinha no quintal a
mãe Maria Joaquin, caprichosa como era, fazia um ótimo uso de cada
sentimento, além do pelo gramado verdinho que a mesma cultivou com o
maior zelo do mundo. Havia pequenos canteiros exibindo flores de todas as
espécies e cores, que perfumavam o ar. Jesse fechou os olhos para lembrar-se
do cheiro, achava inspirador o aroma da natureza. Depois caminhou com
muito cuidado entre os destroços pelo chão, realmente estava uma bagunça.
Chegando à beira do terraço deu uma pequena varredura em volta da casa,
não se via nenhuma luz vizinha, era puro breu. De longe, bem distante
mesmo, viu as luzes de Los Angeles, tão pequenas como um enorme exército
de vagalumes brilhando. Respirou fundo pensando em como deveria ser bom
poder morar em um lugar como aquele, longe de tudo, principalmente das
pessoas. Não era muito sociável, preferia viver na solidão. Havia sido ferida
demais na vida, muito mesmo. Muitas dessas feridas vieram de casa, não era
fácil ter um major como pai, principalmente como seu chefe, era cruel na
hora de aplicar os castigos, as marcas pelo corpo da moça eram a prova disso.
Mas as piores marcas eram as deixadas na alma, quando, por covardia
chegava a dizer a ela, inúmeras vezes, que deveria ter morrido ao nascer, para
não ter dado tanto desgosto a ele. Não soube ao certo quanto tempo ficou
admirando a vista, o que era para gastar apenas cinco minutos para procurar a
cozinha e beber um copo d'agua, já havia se passado horas perdida em meio
aos seus pensamentos.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Maldonado chegou
envenenado de raiva à antiga fábrica de cosméticos, que fechou porque havia
pegado fogo, matando todos os funcionários queimados vivos. Ela ficava
bem longe e encoberta por arbustos e trepadeiras. Provavelmente a
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propriedade estava há muito tempo abandonada e à noite era um lugar


assustador. Diziam até ser mal-assombrado, realmente era assustador. Menos
para o grupo dos Homens sem Medo, três dos integrantes estavam à sua
espera com o traidor de pé ao lado deles com as mãos amarradas para trás. O
chinês o segurava firme, enquanto Estevão tinha uma de suas pistolas antigas
apontada para ele, já Julius estava pendurado no celular dando uma bronca
em Bobbi por ter se esquecido de tomar uma das vinte vitaminas, cada uma
responsável para ajudar o desenvolvimento de uma parte diferente do corpo,
que obrigava o pobre rapaz desde que fora um garoto. Agora o jovem estava
estagiando como advogado residente em Washington, junto ao seu melhor
amigo Maxmilian, filho de John Thompson, juiz Chefe do Fórum. Blade não
gostou do fato de o irmão caçula ter se mudado para outra cidade e gostaria
ainda menos quando soubesse que ele estava apaixonado pela irmã caçula de
Max, de apenas dezesseis anos. Pior de tudo seria quando o juiz descobrisse
que a filha, que ainda tratava como bebê, também estava apaixonada pelo
rapaz, seis anos mais velho que ela.
— Por favor, não me mate, tenho dois filhos pequenos para criar —
implorou Otávio Collins assim que viu Blade vindo em sua direção, como se
isso adiantasse alguma coisa. Era um traidor, independentemente do motivo.
Alguém o tinha pago para entregar a cabeça de Maldonado aos tiras, e o
Homem Fora da Lei não sairia dali sem saber quem, mesmo que tivesse que
quebrar cada osso do seu corpo para descobrir isso.
— Cada um com seus problemas! — exclamou Maldonado nada
educado, passando por ele sem nenhuma gentileza, agarrando-o pelo pescoço
e o arrastando para dentro da fábrica. Não tinha paciência, nem tempo para
torturar as pessoas, se não precisasse tirar essa informação dele, teria lhe dado
um tiro bem no meio da testa assim que chegou.
— De nada, Blade! — Julius bufou irônico, pois passou por eles
como se nem estivessem ali.
Podia ter dito apenas um boa-noite, pensou ele magoado, tinha o
coração mole feito manteiga fora da geladeira no verão.
— Até parece que não conhece o Maldonado! — Li respirou fundo
frustrado. Depois de tantos anos juntos se acostumou com o jeito distante
dele.

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— Vamos! Não tenho a noite toda — rosnou Estevão sem paciência


como sempre, indo na mesma direção de Blade seguido pelos outros dois.
Estava de mau humor devido ao pesadelo da noite passada, não sabendo ele
que o sonho se tratava de um aviso de que as lembranças do passado que
tanto tentava fugir estavam mais perto do que imaginava, há poucas milhas
dali…
— Você tem duas escolhas — anunciou Blade de um jeito assustador,
prendendo as mãos do Otávio sobre a cabeça em um cano de ferro, utilizando
uma corda que ninguém fazia ideia de onde tirara, já que não havia chegado
com ela. — Mas no final das duas terminará morto!!!
O pobre homem de estatura mediana tinha gotas de suor descendo
feito um rio pelo rosto quadrado de traços rústicos, não tinha um corpo
repleto de músculos, mas o suficiente para chamar a atenção das mulheres
quando passava na rua. Era moreno do cabelo escuro, muito mal cortado,
costeletas e um bigode grosso enrolado nas pontas, tipo anos sessenta, as
roupas antiquadas também lembravam tal época. Principalmente porque elas
tinham cores gritantes, camisa vermelha com um paletó cor de fogo por cima,
calça jeans boca larga e um sapato com a ponta fina com um pequeno salto
atrás, tudo muito estranho. Parecia ter sido abduzido de umas daquelas
baladas de sábado à noite, só faltou o John Travolta aparecer a qualquer
momento.
— Já que vou morrer mesmo, não falarei nada! Pode me torturar
como quiser, seu filho da puta, sangue ruim dos infernos!
Se não tivesse urinado na calça, até acreditariam naquela coragem
toda. Estavam em lugar sujo e frio, pelos armários quebrados e o que restou
de uma mesa no centro, provavelmente se tratava de um antigo escritório. As
paredes cheias de mofo e fungos, Julius não parava de espirrar, era alérgico.
— É o que veremos! — vociferou Blade perverso.

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CAPÍTULO 5

— Mortos não falam, Blade! Se continuar nesse ritmo o cara vai


acabar morrendo — bufou Julius horrorizado, não gostava de participar
desses rituais de tortura, estava com o estômago embrulhado tentado andar na
ponta dos pés como uma bailarina para não encostar nos dentes que
Maldonado havia arrancado um por um, e nas poças de sangue espalhadas
pelo chão.
— Deixe-o fazer o trabalho dele em paz, se não aguenta, pede para
sair — esbravejou Estevão irritado, não dispunha de paciência suficiente no
momento para as frescuras de Julius.
Li por sua vez, permanecia calado, sentado sobre uma caixa velha
com uma microcâmera de última geração com imagem 3D de alta resolução,
gravando tudo com os olhinhos brilhando. Adorava ver o comparsa em ação.
Havia socado tanto o rosto de Otávio que este estava irreconhecível, nem
dava para ver os olhos cor de mel debaixo de tanto inchaço.
— Eu quero nomes — ordenou Blade chegando o rosto próximo ao
dele, o coitado não tinha mais forças para se manter de pé, estava pendurado,
balançando feito um sino. O objeto de ferro revestindo os dedos de
Maldonado pingava sangue, o soco inglês estava até meio torto de tanto
trabalhar naquela madrugada.
— Vai se ferrar, maldito — respondeu com muita dificuldade, bem
até demais para quem tinha acabado de perder todos os dentes.
— Resposta errada!
Maldonado acertou a postura, inclinando o braço direito para trás
depositando toda força nele e com apenas um golpe quebrou a perna do
homem ao meio deixando-lhe com uma fratura exposta. O grito agonizante
foi assustador ecoando por toda parte. Não achando suficiente o que fez,
repetiu o processo com a outra perna e ainda completou com um soco bem
dado do estômago de Otávio, fazendo o sangue jorrar feito as Cataratas do
Niágara em época de chuvas.

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— Está bem, eu falo! — Otávio, por fim, se rendeu.


— Estou ouvindo — disse calmo, cruzando os braços sobre o peito
másculo.
— Foram os tiras! — Blade arregalou os olhos surpreso, não
assustado. Pensou que fosse algum inimigo do mundo do crime, tinha muitos.
— Você está ferrado, cara, todos os bandidos estão atrás de você, é uma pilha
de ouro ambulante. Um chefão da polícia está oferecendo uma recompensa
milionária por sua cabeça, cedo ou tarde conseguirão te pegar e quero ver
essa cena de camarote, bebendo whisky com gelo. — Soltou uma risada
maquiavélica.
— Só se for do quinto dos infernos! — Blade deu um tiro certeiro
bem no meio da testa dele, espalhando seus miolos por todo o lugar.
— Puxa! Agora que a coisa estava ficando boa — argumentou Li,
triste com o fim do “Show de Horrores”.
— Larga de ser masoquista, China! — Julius deu um tapa bem dado
na nuca dele.
— Vou mandar a conta da lavanderia para você, Blade. Essa é a
terceira vez que suja o meu casaco com os miolos de alguém. — Estevão
imprecou alguns palavrões tirando a peça. Antes de irem embora teriam que
dar um sumiço no corpo.
Quando enfim Jesse se deu conta do tempo que ficou no terraço, fez o
caminho de volta para o quarto às pressas, só que mais uma vez deixou a
curiosidade falar mais alto e saiu pensando em dar uma pequena olhada na
casa. Com cuidado, abriu a porta para certificar se o dono havia chegado, e,
percebendo que não, saiu em um pequeno tour pelo extenso corredor com o
piso de madeira escura, que conforme pisava soltava um rangido. Foi
construído estrategicamente pelo pai de Blade para anunciar algum intruso
indesejado quando estivessem dormindo.
O senhor Maldonado se tornava uma raposa astuta quando o assunto
era proteger sua família. Assim que chegou ao topo da escada levou as mãos
sobre os lábios perplexa ao ver como a casa era luxuosa, móveis de modelos
antigos, rústicos. A sala de estar era espaçosa, ostentando janelas grandes de
vidro, não havia cortinas, afinal, não tinha vizinhos para "xeretarem" a sua
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vida. Dava apenas vista para as imensas montanhas em volta, com uma
pequena mata ao seu redor.
Assim como no quarto, as paredes eram pitadas em um tom de azul
escuro. Estranho, horrível, pensou ela. No centro, um sofá vermelho-sangue
revestido de material macio de dois lugares, acompanhado por duas poltronas
na mesma cor em frente à lareira. Dentro havia uma pilha de toras muito bem
montadas. No chão um tapete peludo bege, provavelmente para se deitar
sobre ele aproveitando o calor do fogo.
Jesse mais uma vez pensou em como seria bom morar em um lugar
assim, tranquilo, confortável e principalmente aquecido, já que sentia frio
demais. Imaginou também como seria gostoso ver as gotas de água descendo
pelas grandes janelas de vidro em um dia chuvoso. Mas o que mais lhe
chamou a atenção foi o quadro que tinha preso na parede sobre um móvel no
canto esquerdo, ao lado de um minibar com várias garrafas de uísque
importado de países como França e Alemanha, entre outras bebidas. Parou
em frente à cômoda, observando cuidadosamente a imagem da mulher na
tela. Era a mesma que estava tatuada no braço de Blade. Mas ali a imagem
estava completa, estava sentada em meio a um jardim lindo. Pelas paredes no
fundo pode constatar que se tratava do terraço. Sorriu percebendo que o lugar
já foi um dia do jeito que ela imaginou, e como deveria ser sempre: cheio de
cores e alegria, principalmente de vida. A mulher era linda, especialmente o
sorriso. Sobre a cômoda também havia alguns objetos de enfeites, grande
parte femininos, o que a jovem achou bastante estranho. Em especial uma
caixinha de música antiga, de ouro branco, com uma bailarina em cima na
ponta do pé direito, linda e delicada. O cabelo preso em um coque severo no
topo da cabeça, um colã cor de rosa com uma saia arrebitada rodada de véu,
tão perfeita que parecia de verdade. Por impulso levou a mão para apertar um
pequeno botão que ficava bem no meio, fazendo a bailarina rodopiar de
forma tão leve que parecia flutuar. Sorria feito uma criança vendo aquilo. A
música era serena e tranquilizante, quando deu por si já a estava segurando
nas mãos.
— Tire essas mãos sujas disso, agora! — Blade havia chegado, estava
possesso por vê-la tocando em suas coisas. Mesmo de costas para ele os
olhos dela marejaram, virou para encará-lo, arrependendo-se logo após. O
que vira era terrível, a roupa dele que antes era branca, agora estava vermelha

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coberta por sangue. Ficou com tanto medo que não teve forças para manter o
objeto em mãos, saltando-o no chão fazendo quebrar em vários pedaços. Para
o seu azar a cabeça da bailarina tinha rolado próximo aos pés dele.
— Olha o que você fez, sua inútil! — Blade explodiu irado. Levando
as duas mãos na cabeça desnorteado vendo os pedaços de uma das poucas
lembranças que tinha da mãe espalhada pelo chão. Era como se o próprio
coração tivesse quebrado dentro do peito, a dor era a mesma.
— Desculpe-me! — Mais implorou do que pediu, mesmo apavorada
com reação exagerada dele, sabia que o objeto era importante. E se sentiu
muito culpada. — Eu posso colar, vai ficar novinho em folha — concluiu
esperançosa, sem olhar para ele novamente.
— Não ouse tocar nisso novamente ou não respondo por mim!
Ela parou a mão no ar, horrorizada com a aspereza presente no tom
elevado daquela voz bruta, sua intenção era inclinar-se aos pés dele para
pegar a cabeça da bailarina, criou coragem para olhar para ele novamente
como se estivesse pedindo permissão para fazer aquilo, e o que viu quase a
levou às lágrimas. Os olhos do homem sem lei haviam se transformado, feito
um furacão no auge da sua fúria, em um tom acinzentado mais escuro.
— Então me diga onde comprar uma igual, não sei onde vende algo
tão sofisticado — disse inocentemente, estava mesmo tentando encontrar um
modo de consertar a besteira que havia feito. — Mesmo que seja preciso
dividir em duzentas prestações, eu posso comprar, será que aceitam tiquete de
compras também? Tenho alguns que ganhei de aniversário da minha
madrinha e guardei para alguma emergência.
E aquela era uma das grandes, o objeto era mesmo de muita
importância para Blade. Ele respirou fundo, sua mão chegou a coçar de tanta
vontade de pegar a sua pistola calibre trinta e oito prateada e cometer mais
um homicídio doloso naquele dia. Aquele jeito meigo dela o irritava
profundamente.
— Nem se você vendesse a sua alma para o diabo teria dinheiro para
comprar algo assim, então fecha essa boca antes que eu a cale para sempre!
— Soltou as palavras sem piedade, com frieza e hostilidade.
Ela de repente se viu obrigada a piscar com os cílios longos para
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conter as lágrimas que desciam pelo rosto frágil de traços finos. Por um
segundo Blade parou para pensar no que tinha falado, mas não sentiu nem um
pingo de remorso. Finalmente caiu em si, trazê-la ali foi um erro! E iria
corrigi-lo o mais rápido possível nem que fosse dentro de um saco preto, o
que não estava muito longe disso. Ela fazia parte do lado inimigo, era um
deles.
— Desculpe, só estava querendo consertar o que fiz, nunca vou me
perdoar por isso. — Ela abaixou a cabeça novamente e começou a retorcer as
mãos.
— Nem eu. — O tom de Maldonado se tornava cada vez mais frio e
cruel.
Estava mostrando sua verdadeira face, concluiu Jesse. Não sabendo
ela que não estava vendo nem a metade do aquele homem era, mas que um
dia conheceria da pior forma possível.
— Eu realmente sinto muito, me desculpe! — Jesse se sentiria
culpada por aquilo pelo resto da vida e o homem sem lei sabia disso.
— Já disse para parar de se desculpar, porra! Isso lhe faz parecer mais
idiota do que é.
Jesse controlou a vontade de responder algo cruel ou grosseiro. Era
educada demais para isso, mesmo se a pessoa merecesse, esse não era o feitio
dela. Simplesmente fechou os olhos com o coração sangrando, não era a
primeira vez que alguém lhe feria, e era certo que não seria a última também.
— Quero você longe de mim! De preferência um oceano inteiro, se
possível! Nunca me arrependi tanto de ter conhecido alguém na minha vida,
na verdade te conhecer não fez diferença nenhuma, para mim você não passa
de um problema ambulante.
A investigadora pensou que nunca ninguém a magoaria mais que o
pai, mas estava enganada. O golpe foi tão grande que teve que se apoiar na
parede para não cair no chão, já que se dependesse dele, se espatifaria no
chão, porque nem se mexeu do lugar. Ela pousou as mãos sobre o coração
para amenizar um pouco a dor que estava sentindo. Blade deu dois passos em
direção à jovem, tirando do cós da calça as duas armas e praticamente
jogando-as sobre a cômoda. O barulho foi tão alto que Carter estremeceu o
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corpo de medo. Podia sentir o cheiro do sangue, que com certeza não era
dele, na blusa do bandido, de longe.
— Quer saber? Quem é você para falar assim comigo, nem me
conhece direito! — Quando Jesse viu já tinha falado.
— E nem quero! — Blade respondeu de forma rude.
Ele caminhou até o tapete macio, tirou os sapatos antes de pisar sobre
ele da mesma forma que a mãe ensinara quando tinha cinco anos e sentou no
sofá vermelho de forma esbanjada, acendendo um cigarro com um fósforo,
que logo após jogou na lareira que pegou fogo como se fosse uma poça de
gasolina. Ele parecia aqueles vilões dos anos oitenta cheios de estilo e classe,
era o homem mais lindo que a filha do major conhecera, isso não podia
negar. Mas beleza sem conteúdo não significava nada para a jovem. Para ela,
o essencial não era visível aos olhos.
— De quem é esse sangue na sua blusa? — perguntou tão baixo que
quase não deu para ouvir.
Ele encheu o peito soltando o ar devagar, tentando se acalmar. Ela o
irritava demais, não estava podendo nem a ouvir.
— Você não para de falar nunca?
Veio até ela feito um touro bravo, os olhos estavam em um azul
misturado com vermelho. Era assim que ela o deixava: fora de si. Fingiu não
sentir o perfume erótico e atraente da investigadora. A jovem, assustada, se
encolheu o máximo que pôde, assim tão perto parecia ser bem maior do que
pensava. Não conseguiu conter o choro, estava com medo que a machucasse.
— Sabe qual o seu problema? Cria as suas próprias tempestades,
depois chora quando chove.
Ele nclinou mais o corpo sobre o dela, mesmo com os olhos
queimando de raiva, o rosto em um tom vermelho não deixou de notar a
ingenuidade da moça tentando inutilmente puxar a ponta da blusa para baixo,
tentando tampar um pouco as coxas. Como se eu quisesse ver alguma coisa,
pensou ele com desdém. Mas, na verdade, queria.
— É durante as tempestades que o verdadeiro marinheiro aprende a
velejar, chorar não me faz fraca, apenas demonstra que tenho sentimentos. —
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Encarou-o com as mãos na cintura, tirando coragem nem sabia de onde.


— Gosta de brincar com o perigo, não é mesmo? — Deu um leve
sorriso irônico, puxando o lábio para o lado. Jesse chegou a estremecer diante
de tanto charme, remexeu-se sentindo um certo desconforto entre meio as
pernas. — Eu tenho um temperamento um pouco "instável", não consigo
controlar a minha raiva quando estou nervoso. Se eu fosse você, não pagava
para ver, não quero ter que sumir com "mais" um corpo hoje.
Carter arregalou os olhos ao ouvir tal revelação. Sim! Ele havia
matado alguém!
— Pensei que poderia ter algo bom em você, mesmo sendo um
Maldonado. — Blade sentiu uma certa pontada no peito ouvindo isso, talvez
fosse pela indiferença presente na voz dela. — Mas vejo que me enganei, não
passa de um assassino cruel sem coração, que assim como as armas, sabe
muito bem como usar as palavras para ferir as pessoas. — Desviou o olhar
tentando aliviar a raiva que ardia dentro dela e ficou observando o fogo da
lareira com chamas queimando em dois tons e dançando feito um casal de
tango.
— Esqueceu de falar calculista — ironizou vaidoso, acertou a postura
enfiando as mãos no bolso da calça jeans. — Sou tudo de ruim que possa
imaginar e mais um pouco. É bom que saiba disso antes de elevar o tom para
mim novamente.
Se a intenção foi reprimi-la, havia conseguido com sucesso.
— Quando você comemora a morte de alguém, o primeiro que
morreu foi você mesmo!
Jesse balançou a cabeça triste, a ideia das circunstâncias em que
aquele sangue foi para na camisa dele lhe causava náuseas, havia mais partes
vermelhas do que brancas.
— Basta! — rosnou como um cão raivoso pronto para o ataque. —
Vá para o quarto! E se eu ouvir um grunhido sequer essa história não terá um
final "feliz". Assim que o dia clarear vou me livrar de você e ter o prazer de
fingir que não existe — exclamou de forma ameaçadora antes de sumir em
um corredor escuro à direita.

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Jesse catou cada pedaço da caixinha de música que ele havia jogado
no lixo e embrulhou em um jornal velho que achou sobre uma pilha de
revistas e jornais ao lado do sofá, rezando que ele só sentisse falta quando
estivesse bem longe. Voltou para o quarto a passos miúdos, deitou na cama
com cuidado para não fazer barulho, a coitada mal respirava. Engolia o
choro, não queria dormir, estava com medo.
— E se eu acordar morta, meu Deus? — Pensou alto como se isso
fosse possível. Mortos não dormem, tampouco acordam. Jurou não dormir,
mas quando viu já estava acordando com o dia clareando.
— Acordei viva, graças a Deus! — Respirou fundo aliviada depois de
conferir se o pescoço estava inteiro, ou sem algum membro do corpo fora do
lugar.
Sentiu cheiro de pão fresco, fazendo seu estômago apertar em protesto
ao aroma. Olhou para o lado e viu uma bandeja sobre o criado-mudo perto do
seu celular de modelo antigo com o fone branco enrolado em volta e a tela
quebrado. Enquanto estivesse funcionando não iria comprar outro, ela
pensava.
A bandeja estava bem organizada com alguns pães redondinhos com
pequenos pedaços de goiabada por cima, seu doce preferido, uma xícara de
café fresquinho, com direito a fumaça saindo por cima, ovos mexidos com
algumas ervas no meio que deduziu ser algum tipo de veneno letal, bacon,
leite em uma pequena jarra, por fim uma maçã e um cacho de uvas roxas.
Aquela era a visão de um pequeno banquete, pelo menos para quem estava
acostumada a tomar apenas dois dedos do café amargo na delegacia como
desjejum. Pensou em não comer, afinal não sabia se estava envenenado ou
não. Mas pensou melhor quando viu um bilhete encostado na jarra de leite
que dizia em letras maiúsculas, escritas com caneta azul-escura de ponta
grossa: "COMA!"
Então a moça ficou na dúvida: era melhor morrer envenenada com a
barriga cheia ou ser assassinada, depois, friamente e com o estômago vazio.
A primeira opção lhe pareceu menos ruim. Então se alimentou sozinha, de
tudo um pouco. Só os pãezinhos de goiabada que devorou todos, estavam
quentinhos como se tivessem acabado de sair do forno.
Será que ele sabia cozinhar?! Já que não viu vestígios de outra
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pessoa na casa além dele, deveria ter levantado cedo para fazer tudo aquilo,
ou nem dormido. E como havia entrado no quarto com a bandeja sem acordá-
la? Tinha um sono leve, mas Blade tinha os passos mais leves ainda, como de
um gato velho e astuto. Sentiu o rosto queimar imaginando que ele a vira
dormindo, sabe-se lá Deus por quanto tempo.
Levantou às pressas e correu para o banheiro se olhar no espelho,
quase levou um susto. Os cabelos estavam emaranhados e volumosos como
uma felina depois de uma briga, olhos inchados devido ao choro, olheiras em
torno deles. Agora, além de tola e desastrada ele tinha visto que de manhã
conseguia ser mais feia do que o normal, mas essa não foi bem a opinião dele
quando a olhou dormindo feito um anjo perdido no inferno de Blade
Maldonado.
Aproveitou que estava no banheiro e tomou um banho rápido,
procurou suas roupas que estavam no cesto de roupas sujas. A blusa do
uniforme tinha mais buracos do que pano, já a calça tinha um ou dois rasgos
na perna, que poderia passar muito bem por “está na moda". Então a vestiu,
infelizmente não teve alternativa a não ser usar a camisa dele novamente, era
isso ou sair nua da cintura para cima já que não encontrou o sutiã que estava
usando na noite anterior. Corou ao não se lembrar de tê-lo tirado,
provavelmente fora ele quem o tirara enquanto estava desmaiada, nem
deveria ter reparado em nada, afinal tinha os seios pequenos e nada atraentes.
Mais uma vez errou sobre a opinião dele.
Calçou o tênis velho imaginando a cara de nojo que Blade teria feito
ao tirá-los de seus pés, agradeceu por não se lembrar desse momento sórdido.
Decidiu sair em silêncio, fugir sem que Maldonado a visse. Seria o melhor a
se fazer. Lembrou que viu no terraço uma escada improvisada que dava de
frente com a garagem, era uma rota de fuga. Antes de sair arrumou a cama e
deixou um recado de agradecimento nas costas do bilhete que ele havia
deixado sobre a bandeja.
Já do lado de fora, depois de caminhar uns cinquenta metros deu uma
última olhada para a casa, o exterior era tão rústico como o interior. Fora toda
construída em uma armação de madeira com grandes janelas de vidro em
todos os cômodos e que iam do chão ao teto, até mesmo na cozinha. Pelas
placas no telhado a luz era solar, o mais assustador era que ficava à beira de
um penhasco. Apertou sobre o peito o embrulho de jornal com o que restou
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da caixinha de música como se fosse o seu escudo, iria consertá-lo e devolver


para ele algum dia. Ligou o celular para conferir as mensagens, tinha mais de
vinte, a maioria delas ameaças do pai por ter passado a noite fora de casa sem
avisá-lo antes, mas se o tivesse feito, ele não teria permitido; algumas da
irmã, outra da mãe dizendo que a amava e que confiava nela mesmo sabendo
que não passou a noite na casa de uma amiga. Maria Joaquim era meio
sensitiva. Respondeu apenas a mensagem da amiga Nayla, que estava
desesperada porque o major tinha ligado para ela perguntando pela filha, já
que esta estava em casa e não atendia as ligações dele, então mentiu dizendo
que a amiga estava dormindo. Ela tranquilizou-a dizendo que estava bem,
para não se preocupar que depois lhe contaria tudo pessoalmente, menos a
parte de ter passado a noite na casa de um bandido, é claro.
Procurou na playlist uma música relaxante para ouvir, a caminhada
até a cidade seria grande. Conforme ia caminhando, sentia as gotículas de
suor escorrerem pelo rosto. O sol queimava sobre o alto das montanhas.
Mesmo com o som alto adentrando seus ouvidos tremeu ao ouvir o ronco de
um motor diminuindo a velocidade para acompanhá-la. Jesse chegou a
engasgar. Tratava-se de um Bel Air Impala preto 1967. Deus, ele tinha um
carro igual ao dos irmãos Winchester, da sua série favorita Supernatural.
Achava o ator que fazia o papel de Sam uma graça, mas o Dean era uma
tentação de tão charmoso. Só que perto de Blade eles não faziam nem
cócegas, constatou obviamente.
— Entre!
Ela hesitou. A expressão dele era de poucos amigos, isso a fez
paralisar sem saber que atitude tomar: correr ou entrar no inferno e se sentar
ao lado do diabo.
— Não vou mandar novamente — exclamou irritado. Sem
alternativas, andou lentamente em sua direção.
— Não acredito que estou dentro de um Impala legítimo! —
Exclamou em êxtase assim que sentou no banco com o estofado todo forrado
de couro, ajeitou-se, sentindo que era tão confortável quanto imaginou, então
começou a tagarelar sem parar. — Construído pela divisão Chevrolet da
General Motors, introduzido em 1958. Modelo original, quatro portas,
esportivo, com mais curvas que seu processor. Acabamento especial. — Os

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olhos dele a observaram passar as pontas dos dedos finos sobre o porta-luvas
de forma delicada, atraente. —Cromados especiais de preço incalculável, esse
obviamente custou uma pequena fortuna. O que faz dele tão exclusivo é o
motor V-8, de 384 polegadas cúbicas, uma verdadeira máquina! Parabéns!
Ele está bem conservado! Banco com o couro intacto, rádio funcionando. —
Estava ligado baixinho tocando uma música da banda de rock Metallica, uma
das mais famosas dos anos oitenta. — Direção hidráulica, freios assistidos,
calotas especiais, apoio para o câmbio e amortecedor de impacto — concluiu
reparando detalhadamente cada parte do veículo.
Blade estava chocado! Ela realmente entendia do assunto, afinal fora
ele que reformou o carro e era exatamente do jeito que ela havia descrito.
— Sabia que não era tão burra quanto parece!
Tirou os olhos da estrada pousando-os nela por um instante com total
desdém, se ele não estive tão lindo com aqueles óculos escuros com a
armação preta e dourado da Armani, teria ficado nervosa com o comentário
grosseiro dele, mas a visão daqueles lábios finos avermelhados em formato
de coração lhe tirou o raciocínio. Era a coisa mais chamativa do seu rosto,
depois dos olhos indecifráveis, é claro. Naquele momento trajava camisa
preta de marinheiro, justa ao corpo e com mangas curtas, calça jeans gasta e
botas de cano médio.
— Só porque não entendo de maquiagem, não quer dizer que não
possa entender de carros também, senhor! — Chamou-lhe dessa forma só
porque sabia que não gostava.
— Moda também não é o seu forte! — Pousou os olhos sobre a calça
do uniforme quase duas vezes maior que ela.
Carter abaixou os olhos, magoada. Não era a primeira vez que ouvia
aquilo, mas vindo dele doeu mil vezes mais.
— O que é isso? — perguntou com a sobrancelha arqueada
desconfiado, apontando para o embrulho do jornal em cima do colo dela. A
pobre moça chegou a tremer de medo sem saber o que dizer.
— Eu trouxe algumas uvas para comer no caminho — improvisou
com um sorriso amarelo no rosto. Encolheu-se contra a janela do carona,
odiava falar mentiras. Virou o rosto para fora, mordendo o lábio, inferior
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envergonhada para ver as montanhas que cada vez ficavam mais distantes.
Sabia que ele a observava pelo canto dos olhos.
No meio do caminho o celular dele tocou a surpreendendo. Blade
encostou o carro na beirada do asfalto para atender quando viu o nome na tela
de quem se tratava. Até mesmo o seu pai, que era um homem extremamente
correto e cauteloso, atendia ligações enquanto dirigia em meio ao trânsito
louco de Los Angeles e ali não tinha carro nenhum passando.
— O que ouve, Mascote? — disse com a voz grave, estranhamente
serena.
— Como assim voltou? — Tinha o semblante preocupado, como se o
que ouvira não tivesse lhe agradado nem um pouco. — Não minta para mim!
Vai dizer o que aconteceu de um jeito ou de outro. Mas não agora. — Lançou
um olhar frio sobre ela, assustador. — Estou ocupado, resolvendo um
problema. Eu não estou nervoso com você garoto, só quero saber o que
aconteceu para vir embora de uma hora para outra. — Agora tinha a voz mais
calma, virou o rosto para o lado. — Mais tarde eu e seus irmãos vamos ter
uma conversa séria com você, garoto, em casa e dependendo do que disser,
cabeças vão rolar. — Desligou, colocando o carro em movimento novamente.
— Não vai perguntar onde eu moro? — perguntou cortando o silêncio
entre os dois.
— Quando achar realmente necessário pergunto, quanto menos ouvir
a sua voz melhor! — Aumentou a velocidade como se quisesse se livrar dela
logo. Como ele disse, não passava de um problema para todos a sua volta.
— Onde conseguiu esse carro? Realmente gostaria de saber. — Tinha
um coração puro, não conseguia guardar mágoa de ninguém por muito
tempo.
— Era de meu avô, depois foi de meu pai e agora é meu — respondeu
curto e grosso, sabia que quanto mais rápido respondesse maior a chance dela
calar a boca.
— Que legal! Depois vai ser do seu filho e do filho dele — comentou
sorrindo inocente.
— O sangue dos Maldonado morre comigo, odeio crianças e animais.

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Jesse olhou para ele horrorizada.


— Mas acabou de falar com o seu irmão ao telefone — exclamou
confusa.
— É adotado, não herdou o meu sangue ruim.
Ela percebeu que Blade ficava com o semblante sereno ao falar do
irmão, os músculos relaxados e a respiração calma.
— Nossa! Que triste, meu maior sonho é ser mãe um dia. — Só de
pensar na ideia a fez sorrir, aquele sorriso que iluminava tudo em sua volta.
— Coitada da criança! — Ela fechou o sorriso no mesmo momento.
— Sempre quis ter um bichinho de estimação, mas meu pai nunca
deixou. Me sinto sozinha às vezes, seria bom ter alguém além da minha mãe
para conversar que não me olhasse como se eu fosse uma idiota. — Pensou
alto e com tristeza, o suficiente para o Homem Fora da Lei perceber que não
era o único ali que teve uma infância difícil.
— Acho difícil, os animais são sensitivos! — Jesse olhou para ele
incrédula, o que tinha de bonito era o dobro em grosseria e insensibilidade.
— Onde você mora? — Perguntou ele, tentando tirar a atenção dela daquele
assunto. Percebeu que havia pegado um pouco pesado.
Ela explicou detalhadamente, até demais para o nível de paciência
dele.
— Obrigada por tudo, principalmente por salvar a minha vida naquele
bar!
O Impala estava estacionado a alguns metros de uma casa branca
bastante bonita, não luxuosa, mas confortável e acolhedora. Havia um
pequeno jardim na frente com um carvalho florido no meio, flores de todos
os tipos e cores protegidas por uma cerca de estacas de madeira em volta de
toda a casa, uma cerca muito bem-feita.
— Apenas estava pagando uma dívida, uma vida pela outra —
respondeu com descaso, tentando aliviar um pouco a tensão presente dentro
daquele veículo dos anos sessenta.
— Entendi — respondeu triste, deixando bem claro que a salvou por
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obrigação, não porque queria. Então ela se virou para o motorista.


— Muito obrigada, senhor Maldonado.
Ele não respondeu nada. De cabeça baixa Jesse saiu do carro
fechando a porta atrás de si, sentindo-se mais insignificante do que o normal.
Deu dois passos, mas resolveu parar e olhar para o homem mais belo que vira
na vida e de coração mais frio também.
— Tchau, Blade, até algum dia desses — disse ela triste pelo fato de
saber que nunca mais iria vê-lo.
— Adeus — disse rude sem olhar para ela, com sua postura superior
olhando para frente e segurando o volante com força.
Ele exalava superioridade. Jesse teria medo de tocar nele mesmo se
ele deixasse. Diante do desprezo dele apenas virou as costas caminhando em
direção ao portão sem olhar para trás, infelizmente, porque se tivesse olhado
teria visto que ele ainda permanecia parado no mesmo lugar sem desgrudar
os olhos de cada passo dela. Nem mesmo depois viu que ele demorou dez
minutos para achar a chave certa e abrir a porta dando de cara com o pai que
a puxou pelo braço de forma agressiva para dentro. Isso fez o sangue de
Maldonado ferver. Sua vontade era ir até lá e tirá-la das mãos dele a força,
mas se conteve. Não era mais problema dele, iria fingir que tudo não passou
de um pesadelo e seguiria em frente.

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CAPÍTULO 6

Maria Joaquim deixou todas as sacolas caírem no chão ao chegar em


casa e se deparar com a imagem da filha toda encolhida em posição fetal
chorando, havia ido à feira fazer a compra para semana, e agora alguns dos
legumes que havia escolhido com tanto carinho sairam rolando sem rumo
feito um pneu velho guardado no fundo da garagem, aquele que as filhas
brincavam rolando-o morro abaixo quando eram crianças, apesar de fazerem
isso até hoje. As duas irmãs sempre se davam muito bem. Os legumes
tiveram sua rota interrompida por uma pequena e frágil parede humana sobre
o piso branco frio, próximo à mesa de vidro de seis lugares da sala de estar
com uma passadeira de tricô verde-claro feito pela própria senhora Carter,
enfeitada com um vaso cheio de margaridas plantadas, colidas pela manhã.
Era uma cena de cortar o coração, pelo menos o dela estava em pedaços
dentro do peito ao vê-la naquele estado. Jesse estava toda marcada pelo cinto
do pai, o major nem ouvira as explicações da filha, ou melhor, nem deu a ela
a oportunidade de se explicar.
— Não chore meu amor, a mamãe está aqui agora! — Jesse olhou
para a mãe confusa, como se não tivesse reconhecendo a sua voz, ainda
estava meio desorientada pela recepção “calorosa ”do pai.
Maria abraçou a filha com carinho, seus movimentos eram bem
pensados para evitar tocar nas escoriações espalhadas pelo corpo da moça,
não queria lhe causar mais dor do que já estava sentindo. Não precisou
perguntar o que havia acontecido, conhecia bem o marido que tinha. Aquela
cena a fez lembrar-se de quando Jesse era pequena, sempre fora muito
sensível, vivia caindo e se machucando. Mas nunca desistia, chorava um
pouco, mas depois voltava a brincar como se nada tivesse acontecido.
Lembrou-se em especial de uma vez em que a jovem encontrou um
passarinho com a asa quebrada no quintal, cuidou do bicho por semanas até
se curar, e chorou o dobro do tempo quando teve que devolvê-lo à natureza.
Apegava-se fácil, por isso se magoava tanto quando o assunto era lidar com
as pessoas.
— Ele disse que da próxima vez que eu passar a noite fora sem avisar,

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não piso nessa casa nunca mais. — Ela olhou para mãe envergonhada, e
depois afagou o próprio braço machucado.
Sentindo o calor aconchegante do abraço cheio de amor, o pranto da
Maria Joaquim molhava o cabelo emaranhado da filha que afagava como se
fosse um filhote. A dor da Jesse também era a sua.
— Não chore por minha causa, mãe. — Limpou o rosto dela com
carinho, deu um sorriso triste, tentando mostrar que estava bem, mas não
estava. — Já estou acostumada com o jeito do meu pai, mas nunca em ver a
senhora chorando por minha causa, desculpe por te fazer sofrer. — Isso fez o
coração da mãe doer ainda mais, Jesse tinha a mania de se desculpar mesmo
quando não tinha culpa de nada.
— Isso não pode continuar meu amor, seu pai não pode ficar tratando
você assim dessa forma. — Jesse sentiu os braços da mãe ficarem tensos em
volta do seu corpo, estava nervosa.
— Eu te amo mamãe, obrigada por existir! — E amava mesmo,
muito. Ela nunca julgou o jeito atrapalhado dela, tampouco suas escolhas,
sempre a apoiava, mesmo quando não concordava com que estava fazendo.
— Eu também te amo, meu amor! — Sua voz era chorosa, cheia de
dor. Fez carinho em uma parte do braço da filha onde estava roxo e bem
inchado, beijando seu rosto logo após. — Essa foi a primeira e a última vez
que ele faz isso querida, vou pegar você e a sua irmã e vamos embora dessa
casa ainda hoje — exclamou decidida.
Poderia até aceitar as grosseiras do marido, mas aceitar vê-lo
agredindo suas filhas, jamais. Ela era o tipo de mãe que todas deveriam ser:
boa, amável, compreensiva, carinhosa e gentil. Só que infelizmente nem
todas são assim, algumas até tentam ser, outras por mais que tentem nunca
serão.
— Não se preocupe mãe, vou ficar bem. — Devolveu o beijo no
mesmo lugar que havia recebido, limpando seus olhos e lhe oferecendo um
sorriso esperançoso. — Nem está doendo tanto, pelo menos não mais que o
meu coração. — Abaixou o olhar triste, pois sabia que por mais que se
esforçasse para ser melhor, para o seu pai não iria fazer a menor diferença.
Para o major não seria nada, porque o que vinha dela parecia não ter valor

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para ele, para ninguém a sua volta na verdade. — Não pode deixar o meu pai,
mãe, a senhora é o lado bom que existe nele!
Maria Joaquim se emocionou ao ouvir tais palavras da filha, sabia
exatamente o que ela estava querendo dizer com aquilo. Levantou puxando a
barra do vestido azul claro florido, era uma mulher simples, mas elegante.
— Vem filha, vamos limpar isso antes que infeccione.
Ofereceu a mão para ela, que com um pouco de dificuldade conseguiu
ficar de pé, deixando mais visíveis as marcas em carne viva nos braços e até
no pescoço. As outras pelo corpo eram mais leves porque os golpes haviam
sido amortecidos pela calça larga do uniforme e a camisa cem por cento
algodão de Maldonado que estava usando. A pobre moça agradeceu aos
deuses pela peça ser de um material mais grosso, se não o estrago poderia
teria sido bem maior. Depois de tomar um bom banho morno com a ajuda da
mãe, que secou suas feridas com cuidado e passou pomada em cada uma
delas, comeu toda a sopa que esta fez para ela, depois dormiu tranquilamente.
Por apenas dez minutos, pois Mainara foi correndo para o quarto da irmã
mais velha feito um furacão assim que chegou do trabalho.
— O que ele fez com você dessa vez, mana? A mãe não me contou
direito, mas assim que vi o seu perfil sem foto sabia que tinha acontecido
algo, então larguei tudo para vir cuidar de você. — Mai conhecia a irmã
como ninguém, principalmente suas manias. Uma delas era tirar a foto do
perfil de todas redes sociais quando estava magoada com alguma coisa, se
sentia escondida assim, protegida do mundo.
— Relaxa, irmã, não foi nada demais.
Quase não dava para ver o rosto de Jesse em meio àquele monte de
cobertas com a estampa do Kiki Butovisk. Era o tema de decoração do seu
quarto, as princesas da Disney nunca encheram os olhos dela. Diferente de
Jesse, Mainara era corpuda, farta em volume e curvas. Seios grandes e um
rosto bonito, redondo, bem destacado pelo corte de cabelo curtíssimo muito
bem cuidado. Era elegante e muito educada, falava várias línguas. A parede
da sala era repleta de diplomas e troféus que ganhou em concursos de teste de
inteligência, não perdia um. No momento estava trajando um terninho cinza
claro, conjunto de três peças composto por uma blusa branca de seda debaixo
do casaco de manga três quartos e uma saia lápis justa, com um aberto do
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lado mostrando a coxa grosa bem torneada. A maquiagem era perfeita,


parecia ter sido feita por algum maquiador famoso. O batom vinho seco
realçando os lábios carnudos a deixava mais linda do que já era, mas o que
fazia toda diferença na Mai era o coração grande e a personalidade marcante.
Tinha puxado a beleza mãe.
— Irmã que tal viajamos para Toronto nas férias? Visitar a Tia Ana,
não a vimos mais desde que se mudou para lá. Dizem que os canadenses são
os homens mais quente do mundo e bem-dotados também — comentou
alegremente enquanto tirava os sapatos vermelhos de salto alto finíssimo dos
pés jogando a maleta de couro em qualquer canto do quarto.
Ela trabalhava como administradora estagiária em uma empresa
multimilionária de petróleo e gás, era ótima com números. Levantou de leve
as cobertas da irmã e se enfiou debaixo, pousando a cabeça da irmã sobre o
peito e fazendo carinho no rosto dela. Carter achou melhor não contar a ela
sobre o que o pai havia feito, como estava de pijama de mangas compridas e
meias altas não dava para ver as feridas e iria pedir que mãe fizesse o mesmo.
Mainara iria arrumar briga com o pai. Diferente dela, não abaixava a cabeça
para grosserias dele.
— Se os americanos não me querem, muito menos os canadenses irão
querer, Mainara. — Jesse respirou fundo, desanimada, fazendo a irmã mais
nova gargalhar do drama todo dela. Achava-a linda, só precisava usar roupas
do tamanho ideal e pentear o cabelo, pelo menos de vez enquanto.
— Hey sisters, cheguei! — Nayla adentrou o quarto sem bater, era de
casa. Sorrindo e tagarelando sem parar. Tinha vindo ver como a amiga
estava.
— Chegou a maluquinha — brincou Mainara.
Chamava Nay assim devido ao seu jeito alegre de ser. A simpatia em
pessoa, linda e talentosa, grande promessa do mundo da moda como estilista.
Conhecida pela sua ousadia ao criar suas peças, tinha traços perfeitos e uma
delicadeza invejável nos seus desenhos. Única no que fazia, por isso tanto
sucesso.
— Você está passando mal, amiga? — A estilista perguntou
preocupada. Era alta e magra, mas com um corpo definido. O cabelo com

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cachos naturalmente rebeldes, pouco abaixo dos ombros, os olhos cor de mel,
lábios pequenos e finos, andava sempre muito bem vestida e maquiada,
dentro de seu próprio estilo. Tinha opinião forte demais para vestir algo que
não fosse do seu agrado apenas porque estava na “moda”.
— Minha preta está bem, Nay, apenas um pouco cansadinha. Não é
amor da irmã? — Mainara apertou as bochechas da investigadora como se
fosse de um bebê, quem visse as duas conversando iria pensar que ela era a
filha mais velha e não Jesse.
— Eu estou bem, Nayla, não precisa se preocupar amiga. — Tentou
sorrir para ela, mas seria melhor se não tivesse tentando, saiu amarelo e falso.
Não tem como fingir uma alegria que não existe, pelo menos Jesse não
conseguia, era verdadeira demais para isso.
— Ótimo! Porque vim convidar vocês para o desfile da minha nova
coleção inspirada nos modelos clássicos de época, será patrocinado pela
empresa das joias Fox — exclamou eufórica.
— Oh-My-God — Mainara gritou com as duas mãos na boca, toda
animada. — Essa é a marca mais cara do mercado, deixa a Prada no chinelo.
Eu vou e a Jesse vai também, assunto encerrado! — Olhou para a irmã
severa, sabia que iria inventar alguma desculpa para não ir e ela não
permitiria isso.
— Eu não vou e ponto final, Mai! Você está cansada de saber que não
gosto de festas, não me sinto bem em lugares com muita gente,
principalmente porque não enxergo um palmo de distância na frente do meu
nariz em lugares com muito flashes de luz. — Jesse sofria de uma patologia
nos olhos, eram muito sensíveis a luz, por isso grande parte do dia era
obrigada a usar óculos de grau.
— Já estou até imaginando como vai ficar linda fantasiada de fada
encantada, tem que ver a máscara linda que comprei para você! — A estilista
pulava pelo piso azulejado de xadrez como se fosse uma criança de três anos
ganhando o primeiro brinquedo, os cachinhos, tipo molas, chegavam a flutuar
no ar. Jesse olhava para ela, pasma, não tinha ouvido nenhuma palavra do
que havia falado.
— Que parte do que eu falei “que não vou” você não entendeu,

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criatura? — Nayla parou de pular no mesmo momento, fuzilando-a com o


olhar.
— Como assim não vai, senhorita Carter? — Levou as mãos a cintura
franzindo o cenho nervosa. — Eu salvei a sua pele com o… Você sabe
quem… E sabe o quanto odeio falar mentiras — bufou frustrada desabando
sobre a cama da amiga, Carter agradeceu pela cama ser de casal.
A amiga fez um um biquinho com os lábios finos para soprar um
cacho que caiu sobre os olhos. Depois levou as duas mãos debaixo da nuca
como apoio para a cabeça, ainda cruzou as pernas para ficar mais confortável.
— Sei que não gosta desse tipo de evento, amiga. — Na verdade
odiava, principalmente por conta do som desnecessariamente alto, como se
todos convidados fossem surdos. — Mas realmente é um dia muito
importante para mim, não será a mesma coisa se você não estiver lá, não terá
graça — dramatizou. A estilista era mestre nisso.
— Está bem, eu vou — respondeu a investigadora entre os dentes,
realmente não querendo ir.
Tinha programado um final de semana perfeito, colocaria em dia os
capítulos das suas séries favoritas, acabaria de ler o livro A cabana, de
William P. Young, comeria pipoca e se empanturraria de refrigerante, era
viciada por guaraná. Muito sorvete de baunilha e jujubas para completar.
Chegou a respirar fundo vendo seus planos perfeitos irem por água abaixo!
Quem queria ir em uma festa chata? Regada a champanhe caro e estrelas de
Hollywood, vendo um desfile de roupas magníficas que não tinha corpo para
usar, enfeitadas por joias que nunca teria condições de comprar.
— Mas irei vestida com o que eu quero, não o que você quer, estamos
entendidas? — Rodopiou o corpo na cama ficando de frente para amiga,
olhando-a por cima dos óculos fundo de garrafa. Conhecia a amiga que tinha,
sabia que não desistiria tão fácil.
— Desde que não use esse maldito tênis velho com jeans, está ótimo,
gata! Mas a máscara será obrigada a usar, afinal esse é o tema do desfile. —
Carter respirou fundo, desanimada, sabia que nada o que falasse a faria
mudar de ideia.
— Não vejo nada de errado com o meu tênis e a calça jeans, me matar
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em cima de um salto quinze só para bancar a executiva do ano é que não vou,
gata. — Revirou os olhos balançando a cabeça, odiava salto alto.
Tudo o que Jesse mais queria era poder viver em um mundo onde o
volume do seu cabelo parecesse não assustar os outros, onde pudesse usufruir
do direito de poder usar o seu tênis velho com o jeans surrado em qualquer
lugar. Queria que as mulheres entendessem que podem, sim, ir pelo menos a
padaria sem se sentirem obrigadas a se maquiar, passar o dia todo comendo
doce sem se culpar, a não ficarem se matando na academia só para
impressionar aqueles que de fato as olham, mas não conseguem "enxergar".
Loira, um metro e setenta, magra, olhos azuis e uma beleza
avassaladora. Será que a aparência tem que ser mesmo um padrão e não
uma escolha? Não é justo dizer que uma pessoa não tem fé em Deus só
porque tem tatuagens, o que vai valer no juízo final não é a aparência, mas,
sim, a essência, ela pensava. Afinal a base de tudo é o respeito, pois na Bíblia
diz: “Amar o próximo como a si mesmo”. Mas nem todos pensam desse jeito,
no mundo está sobrando opinião e faltando respeito…
Enquanto isso, no outro lado da cidade, Bobbi abria a porta de casa
para receber os quatros irmãos que estavam bufando de raiva. Era uma
mansão em um condomínio de luxo com segurança armados até os dentes.
Em frente à praia, fora comprada há treze anos atrás para o menino morar.
Também contrataram uma senhora de confiança, a baba Neudes, a mulher
mais doce e gentil do mundo que todos respeitavam muito. Criou o menino
como se fosse seu filho, mas um dos irmãos a cada dia dormia lá com ele
para que não se sentisse abandonado pela família. Eles estavam como uma
manada de touro bravo à solta, de braços cruzados e caras de mau. Blade
fechou a mão em punho com força, irado, assim que colocou os olhos
acinzentados no rosto todo machucado do irmão caçula, alguém havia
machucado o seu Mascote e, independentemente do motivo, iria pagar por
isso.
— Eu quero o número do CPF e a identidade desse maldito! —
rosnou Maldonado possesso, dando um soco na parede. — Agora —
completou aos gritos.
Bobbi tremeu de medo, afinal ele não era de mostrar sua verdadeira
face perto dele, era sempre mais suave. Pelo menos tentava, mas naquele

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momento não deu para segurar a raiva que estava sentindo. Fez uma rápida
varredura no local para ver se estava tudo em ordem, odiava bagunça.
Achava que as coisas foram feitas para estarem no seus devido lugares e,
graças aos “Anjos da Guarda” dos irmãos caçulas, estava. Se não as coisas
seriam bem piores para Bobbi, no mínimo, um mês de castigo. A mobília da
casa era clássica, a sala parecia uma Biblioteca Internacional de Letras, com
estantes de madeira grossa que iam do chão ao teto divididas em prateleiras
ostentando livros de grandes autores renascentistas e filósofos como Platão e
Aristóteles, tudo organizado em ordem alfabética e por cores. Cortinas
marrom-escuro fechavam a vista que dava para o mar, um sofá escuro dando
contraste com o tapete bege à frente do móvel de três lugares. Bem no meio
do cômodo, uma pequena mesa, sobre ela um jogo de xadrez em cima com
uma partida parada pela metade que vinha jogando com Blade há mais de
cinco anos, nenhum dos dois conseguia ganhar, pelo menos foi o que
Maldonado deixava transparecer. Tudo estava muito limpo e organizado
como de costume, do jeito que deveria ser. Principalmente o jovem,
notavelmente bem vestido com calça social, camisa branca e gravata
borboleta. Usava um suéter azul de linho sobre a camisa, nós pés sapatos com
bicos finos muito bem engraxados. Para completar óculos de grau redondos,
pequenos, mas proporcionais ao tamanho do rosto dele, escondendo uma
parte dos olhos azuis cor de mar.
— Você não vai matá-lo, Blade! Ele é meu amigo, o único que tenho.
— Desabou Bobbi, estava com uma expressão de cansaço no rosto, parecia
ter o dobro de idade. A tristeza nos faz parecer mais velhos, se não cuidarmos
e darmos a devida atenção ao assunto, pode levar uma pessoa a um mar de
escuridão sem fim chamado depressão. — Além do mais, mereci o soco,
vocês nem sabem o que houve e já querem matar o cara. — Saiu mais áspero
do que queria, era um rapaz amável, mas no momento não estava mesmo com
paciência para aquela conversa.
— Amigo? Ele já matou alguém por você ou te ajudou a esconder
algum corpo? — Li perguntou nervoso como se fosse normal o que havia
dito. No mundo do crime era, porém Bobbi não fazia parte desse mundo. —
Tanta gente de má índole para você se envolver garoto, mas não! Foi logo
fazer amizade com o almofadinha do filho do juiz, não quero mais você perto
desse tal de Maxmilian Thompson ouviu bem? — resmungou alguns
palavrões em chinês, se remexendo no braço do sofá de lona preta com tachas
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prateadas. Não falavam nomes feios na frente dele, pelo menos não de forma
compreensível.
— Eu entendi o que você disse, Li, é feio dizer isso, sabia? — brincou
com o irmão revirando os olhos cor de safira. Sentando no banco alto do
balcão de mármore escura do minibar, no qual não tinha autorização para
tocar em nada nem com menos de dez por cento de álcool, ou seja, em nada
mesmo.
— Entendeu como? — perguntou pasmo.
— O senhor prometeu me levar para conhecer os meus avós, lembra?
— Este confirmou com a cabeça emocionado, falar em seus familiares lhe
deixava emotivo, há muitos anos não os via. — Então, entrei em um curso de
chinês faz alguns anos, era para ser surpresa, queria que sentisse orgulhoso de
mim na frente dos seus pais — concluiu sorrindo com um pouco de
dificuldade devido ao rosto todo inchado, sempre foi muito amável, era
impossível ficar bravo com ele por muito tempo.
— 我已经有一点 (Eu já tenho) — respondeu em chinês.
— Espanhol ninguém aprende, né? — Choramingou Julius
enciumado.
— Quem disse que no, muchacho? — A montanha de músculos abriu
um sorriso largo, mostrando os dentes incrivelmente brancos. —Aprendi
ainda no Ensino Médio, foi o primeiro curso que escolhi por causa do senhor
— exclamou orgulhoso.
— Basta! — Maldonado bateu o punho fechado sobre a estante
vermelho de raiva, chamado a atenção de todos. — Pare de bancar o esperto
para o lado dos seus irmãos mudando de assunto, vai dizer agora quem fez
isso com você — ordenou e pela sua expressão não estava para brincadeira,
não mesmo.
— Esquece isso, Blade, que porra! — Tampou a boca assim que
falou. — Que bonitinho, o primeiro palavrão dele — Julius exclamou cheio
de orgulho.
— Impressão minha ou você me respondeu, moleque? — Blade
cuspiu as palavras, olhando para ele ameaçadoramente, dando dois passos

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firmes em sua direção.


— Não, senhor — respondeu o jovem murcho abaixando a cabeça. —
Desculpe-me, só quero que tire essa ideia louca de machucar o Max, ele é
uma ótima pessoa — completou ainda de cabeça baixa.
— E eu com isso? — disse com descaso.
— Não se deve machucar pessoas boas — apregoou como um
escoteiro mirim, só faltou a bandeira dos Estados Unidos.
— Não sou obrigado a nada! — respondeu com total desdém. Passou
a mão no cabelo de forma naturalmente charmosa, encostando o corpo na
parede usando um dos pés como apoio.
— Maldição, Bobbi! — explodiu Estevão parado de costas para a
larga janela de madeira com a postura elegante.
Logo após, o som ensurdecedor de um raio tomou conta do lugar
fazendo as janelas se abrirem brutalmente, balançando o cabelo comprido e a
capa preta dele conforme a vontade do vento, começando assim a chover do
nada, já que o céu estava azul quando chegaram.
Da janela apareceu o corvo voando majestosamente com as asas
dotadas de penas cumpridas e negras, que espanavam com glamour pausando
sobre o ombro de Salvatore, não gostava de ver o dono nervoso, isso quase
não acontecia. O jovem se assustou com a reação dele, arregalando os olhos
surpreso. Afinal este nunca havia gritando com ele antes, nem mesmo quando
escondeu suas duas pistolas em um monte de areia do quintal quando tinha
trezes anos, e olha que eram de sua coleção favorita relíquia dos anos
cinquenta.
— Como quer que não façamos nada com esse cara que machucou
você? Sinto muito garoto, mas ninguém toca no meu irmãozinho caçula,
mesmo que ele mereça.
— Às vezes eu me pergunto se ele treina esse bicho para fazer essas
entradas triunfais ou se o corvo tem parte com o acinzentado. Sozinho essa
coisa não está, cara! — Li coçou a cabeça confuso, nunca entendeu a forte
ligação de Estevão com o pássaro, que virou para olhar para ele com os olhos
vermelhos, mexendo de leve o bico como se tivesse entendido o que havia

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dito, talvez o outro raio que iluminou a sala fosse uma resposta afirmativa.
— Ninguém vai machucar ninguém aqui! — Julius resolveu pôr fim a
sua opinião, até então só tinha ouvido as dos demais. — Sente-se aqui no
meu lado, filho, conte exatamente o que ouve entre você e o seu amigo.
E assim ele o fez.
— Eu disse a ele que estava apaixonado — corou ao dizer, mas só um
pouco. Porém os suficientes para todos perceberem que o assunto o
incomodava bastante.
— É pior do que eu pensava. — Blade quase caiu da parede que
estava encostado.
— Na minha família nunca teve um “caso” desse antes. — Li estava
horrorizado, já Estevão não disse nada, mas estava mais pálido que o normal
com os olhos azuis arregalados.
— Saiba que tem o meu apoio filho. Não tenho preconceito com
nada! Vou continuar te amando independente da sua orientação sexual —
disse com o olhar confortante.
— Mas do que vocês estão falando? — O caçula da família quase
engasgou com a própria saliva. — Eu disse a ele que estava apaixonado pela
irmã dele — explicou o que, para ele, era óbvio.
— Pelo menos ele gosta de vaginas. — Blade suspirou aliviado.
— Por Deus, Maldonado, para de dizer esse tipo de coisa na frente do
menino! — Estevão zangou-se com ele.
— Não seja idiota, Estevão. Aposto que ele já deve ter visto mais
vaginas do que você na vida.
— Me recuso a responder isso. — Virou as costas para ele, irritado.
— Ótimo! Calem a boca e deixem o menino acabar de contar. —
Voltou os olhos para Bobbi, que estava entretido escutando a discussão dos
dois sobre “vaginas”.
— O problema é que a Lia só tem dezesseis anos, apenas uma criança.
Sempre tentei fugir desse sentimento que tenho por ela, ainda mais pelo
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irmão e o pai ciumento que tem. Mas quando ela apareceu na minha sala
dizendo que estava apaixonada por mim e me roubou um beijo, não tive
forças para impedi-la. O problema foi que Max apareceu no exato momento e
já veio para cima de mim com tudo. — Encostou as costas no sofá,
desanimado, como se quisesse passar o peso da culpa para o móvel.
— Então quem deveria ter levado esse soco era a tarada beijoqueira
— resmungou Blade, não conhecia a moça, mas o pouco que ouvira sobre ela
já foi mais que o suficiente para não gostar dela. — Não você, que foi pego
de surpresa por essa malévola dos infernos. Se está assim aos dezesseis anos,
só Deus na causa quando chegar aos trinta. — Sua voz era mais suave agora,
porém sem paciência.
Caminhou para mais perto dele, transferindo o peso de um pé para o
outro, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta preta.
— Não é bem assim, Blade — exclamou envergonhado, o rosto em
um tom avermelhado. — Sou seis anos mais velho do que ela, bem maior e
mais forte também, poderia ter evitado o beijo facilmente se quisesse. —
Contorcia as mãos nervoso. — Mas não o fiz, agora perdi o meu melhor
amigo por isso. — Abaixou o olhar triste.
— Isso é o que dá deixar a vontade da cabeça de baixo falar mais alto.
— Estevão olhou para ele estupefato. Blade era antiquado até em uma
conversa com um jovem de vinte e dois anos. — Se pelo menos tivesse
enfiado o pênis na vagina da menina tudo bem, mas levar um soco por conta
de um beijo roubado é demais — disse naturalmente.
— Sangue de Jesus tem poder! — Estevão proclamou horrorizado.
— Você nunca enfiou o seu pênis em uma vagina antes, Estevão? —
disse grosso, Salvatore ficou mais pálido do que o normal, a sorte foi que não
era de corar facilmente, porque se não teria ficado como uma brasa. — Então
não me venha com moralismo barato, já passou da hora de termos uma
conversa com esse menino sobre sexo. — Dessa vez foi Bobbi quem ficou
corado.
— Explicar o que Blade? Eu já tive essa conversa com ele há muito
tempo, assim que entrou na adolescência na verdade. — Julius o mais sensato
de todos disse isso calmamente, afagando os cabelos castanhos do jovem.

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— Então chega de falar de pênis e vaginas por hoje. — Estevão


encerrou o assunto, por fim Li estava se contorcendo no sofá de tanto rir da
conversa estranha deles sobre relações sexuais. — Vá para o seu quarto,
Bobbi, já passou da hora de você dormir, filho, daqui a pouco vai dar 22h.
Hoje é o meu dia de passar a noite em casa com você, espero que não
tenhamos mais problemas com nenhum dos Thompson envolvendo o seu
nome no meio. — Foi taxativo como sempre.
— Ou melhor, esqueça que eles existem! — Blade foi direto.
Sem ter o que contestar, Bobbi despediu-se de todos com um braço.
Maldonado, como sempre, ficou parado como uma estaca de pau quando
chegou a vez dele. E foi para o seu quarto chorando em silêncio. Jamais
desobedeceria uma ordem dos irmãos, mas se manter longe da filha do juiz
seria algo quase impossível.
— Tenho um trabalho para daqui duas semanas. Vamos roubar uma
linha de diamantes valiosos — comunicou Estevão assim que ficaram
sozinhos. Esses assuntos não eram falados na frente de Bobbi.
— E quanto vamos lucrar com isso? — indagou Julius curioso, a parte
de planejar onde iriam roubar era do Li.
— Em média uns vinte milhões, se encontrarmos bons compradores
para as peças, não quero minha parte, podem dividir entre vocês — confessou
Estevão o que fez com que eles se entreolhassem desconfiados.
— E onde seria esse roubo? — perguntou Blade com a sobrancelha
arqueada.
— Será em um local onde poderemos entrar facilmente disfarçados,
terão muitas pessoas presentes — respondeu misterioso.
— Isso facilita bastante o meu trabalho, vai ser moleza colocar vocês
infiltrados em meio aos convidados. — O chinês tinha a mão direita no
queixo com os pensamentos longes, já estava com a operação toda pronta em
sua mente.
— Não saio de casa se não for para ter um lucro menor que cinquenta
milhões, não vale a pena se arriscar no meio desse monte de pessoas por essa
merreca. Por que quer tanto roubar uma coisa que não quer? — Blade foi

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curto e grosso.
— Porque não é pelo dinheiro. — Salvatore tinha o olhar mais
distante que o normal, como se estivesse lembrando de algo. — É pessoal —
exclamou jogando sobre a pequena mesa de centro a capa de uma revista com
a foto de uma bela jovem anunciada como matéria principal.
Daqui a duas semanas acontecerá o grande desfile da nova coleção
da Estilista Nayla Borges, durante um Baile de Máscaras, com o patrocínio
milionário das Empresas Fox que emprestou joias de ouro puro e diamantes
para dar mais brilho ao evento.

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CAPÍTULO 7
O Baile à Fantasia

Jesse estava sentada em sua cama abraçando as próprias pernas, com


o rosto enterrado nas coxas para esconder o choro. Balançando o corpo
compulsivamente para a frente e para trás como se estivesse em uma cadeira
de balanço, não queria ouvir os gritos que vinham da sala ecoando por toda
parte, provavelmente até nos vizinhos. Para variar o pijama que usava era
bem maior que o seu tamanho.
De vez em quando era obrigada a sair do seu transe para levar a mão
ao ombro para resgatar a ponta da blusa que escorria sobre a pele negra
aveludada feito uma cobra cascavel. Ela cantarolava a música de ninar que a
mãe cantava para ela antes de dormir quando pequena, isso até hoje ajudava a
se acalmar, mas na voz chorosa dela talvez não tivesse o mesmo efeito como
na da mãe. Não gostava quando os pais brigavam, principalmente se o motivo
fosse ela.
Brilha, Brilha, Estrelinha, quero ver você brilhar Lá no alto, lá no
céu, num desenho de cordel Brilha, Brilha, Estrelinha, baila linda bailarina
Brilha, Brilha, Estrelinha quero ver você brilhar Lá no alto, lá no céu, num
desenho de cordel Brilha, Brilha, Estrelinha, baila linda bailarina…

— Se tocar na minha filha novamente, Fill, eu vou te denunciar para a


polícia por agressão! — Jesse parou de cantar no mesmo momento e
arregalou os olhos assustada com a ameaça da mãe ao major, sabia que sua
genitora jamais deixaria passar em branco o que ele havia feito com ela. — E,
que você fique ciente que estou pegando as minhas filhas e indo embora
dessa casa amanhã mesmo, se Deus quiser! Quando chegar do trabalho vai
encontrar essa casa vazia, mas não se preocupe, terá a sua arrogância para lhe
fazer companhia.
Carter nunca tinha visto a mãe tão nervosa como naquela noite, era a
mulher mais amorosa do mundo, mas nas suas filhas ninguém tocava, nem
mesmo o pai.
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— Não!
Maria Joaquim se assustou ao ver a filha quase sem ar encostada no
corrimão da escada tentando recuperar o fôlego, o apoiador era revestido de
madeira que chegava a brilhar de tão limpo, assim como tudo naquela casa.
Jesse havia levantado em um pulo e indo correndo até a sala, passando pelo
corredor feito um tiro. O pai a encarou com a expressão pesada, mas sem
nenhum pingo de culpa de ver as marcas no braço da filha, totalmente em
evidência devido às mangas compridas do pijama dobradas acima do
cotovelo.
— Volte para o seu quarto, filha, e arrume as suas coisas porque
vamos embora amanhã mesmo.
Jesse se assustou com o grito da mãe, mas não a obedeceu pela
primeira vez na vida, o que fez ela olhar admirada a sua atitude. Ela foi
descendo os degraus, fitando os próprios pés descalços, parando prontamente
diante dos dois.
— Nós não, mãe, eu vou!
O major olhou para a primogênita pasmo, desabando sobre o sofá
marrom escuro visivelmente em choque com o que ouvira. Maria José de
negra ficou pálida, branca igual papel.
— Não diga bobagens, menina, você não vai a lugar nenhum sem
mim e a sua irmã.
Tentou se aproximar dela para envolvê-la em seus braços como
sempre fazia para proteger sua princesinha do mundo, mas Jesse nunca foi
uma princesa, não levava jeito para isso, nem queria. Tinha deixando de ser
uma menininha sonhadora há muito tempo, talvez até antes do que deveria.
Porém, Carter não aceitou o abraço, deu um passo para trás evitando o
contato físico. Seria mais fácil assim, pensou.
— E você vai morar onde? Na rua com certeza. — Além do excesso
de ironia presente na voz do major, havia mais uma coisa, preocupação.
— Não se preocupe, pai, vou me virar sozinha. — Os olhos dela se
inundaram, como um mar negro trasbordando. — Tenho feito isso a minha
vida toda, a única coisa que vai mudar é o meu endereço. — Ele lhe lançou

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um olhar frio, mas por dentro suas palavras o afetaram mais do que
demonstrava.
— Isso não é justo comigo, filha, eu e a sua irmã sempre estivemos ao
seu lado em tudo.
Jesse virou o rosto para o lado, não aguentava ver a mãe chorando,
ainda mais por causa dela.
— Estiveram ao meu lado sim, mas nunca me enxergaram de verdade.
Jesse olhou o próprio reflexo através de um dos vários troféus da irmã
caçula sobre uma prateleira pendurada na parede próxima ao corredor que
levava a cozinha, pensando sobre o que tinha acabado de deixar escapar dos
seus lábios. Viu um rosto com o semblante triste, cheio de marcas da vida,
muito pesadas para a idade dela, marcas que nem o tempo poderia apagar.
Raiva passa rápido, mas a decepção pode levar uma eternidade inteira.
Praticamente todos que conhecera tinha lhe magoado de alguma
forma, fosse de um jeito ou de outro. O mal da investigadora era medir as
atitudes das pessoas através da sua, era ingênua demais. Sabia que iria
magoar a mãe dizendo aquilo, porém, era necessário.
— Não sou tão indefesa quanto parece, posso me cuidar sozinha. A
senhora e a minha irmã são as pessoas que mais amo no mundo! Só que está
na hora de olharem para mim de verdade e me deixarem partir. — Caminhou
até ela e a abraçou o mais forte que pode.
— Não faz isso comigo, filha, não me obrigue a ficar longe de você.
— A voz de uma mãe chorosa tomou conta da sala, estava desesperada.
Nunca ficou longe das filhas por mais de um dia, era como se estivesse
faltando um pedaço dela.
— A senhora acredita realmente em mim, mãe? Que sou capaz de me
virar sozinha, cuidar da minha própria vida? — Enxugou o rosto da mãe,
olhando para ela com carinho.
— Você é incrível, meu amor, tem um brilho próprio! A vida nunca
vai conseguir te derrubar, porque não tem como destruir quem nunca desiste.
— Afagou o cabelo rebelde da jovem, a conhecia bem, sabia que não poderia
fazer nada além de apoiá-la mais uma vez. — Sempre acreditei em você meu

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amor, no seu potencial principalmente. Só está um pouco perdida no


momento, mas quando se encontrar de verdade ninguém te segurará.
Essa foi a forma da Maria Joaquim dizer que confiava na decisão da
filha e que mesmo com o coração sangrando, iria deixá-la partir.
— Nesse "um pouco perdida" já se passaram vinte e seis anos,
mulher, sua filha é um desastre ambulante — rosnou o major. Ele mais arecia
um pitbull raivoso. — Sabia que a queda que a investigadora levou das mãos
do médico bêbado que fez o parto dela, tinha deixado sequelas na menina, só
não imaginou que seriam tantas. — Essa menina é caso de tratamento
psicológico ou um tempo em alguma clínica de repouso talvez resolva o caso.
— Jesse poderia pensar que ele disse aquilo em um momento de raiva, mas
ele estava mais calmo que o normal.
— Obrigada por me entender mamãe, eu te amo! — Depositou um
beijo em sua testa, fingindo não ouvir os comentários grosseiros do pai.
Escutando o soluço do choro da mãe aumentar cada vez mais, repleto de dor.
— Vou arrumar as minhas coisas — disse logo de uma vez, não fazia
sentindo ficar alongando aquele momento.
— Ainda por cima é dramática, sempre se fazendo de vítima. —
Mesmo no corredor pôde ouvir o pai, mas não se importou nem um pouco,
estava perto de ficar longe daquilo tudo.
— Você não faz ideia da filha maravilhosa que tem não é mesmo,
Fill? Talvez quando chegar a ver seja tarde demais, nunca deu uma chance a
ela. — Maria Joaquim apontou o dedo na cara do marido, a outra mão na
cintura. Estava muito nervosa com ele, mas este nem se abalou com as
palavras da esposa, era um homem de coração duro.
— Você quis dizer “tinha”, se ela sair por essa porta não poderá voltar
mais. — O senhor Carter lançou as palavras de forma cruel, totalmente frio.
Jesse não respondeu ao pai como ele merecia, apenas abaixou a
cabeça e continuou andando a passos lentos para o quarto para arrumar as
poucas coisas que tinha. Pegou uma pequena mala debaixo da cama que
comprou para viajar, seu sonho era conhecer um país diferente, mas esse dia
nunca chegou por falta de condição financeira. Agradeceu aos deuses por ter
guardado uma pequena quantia no banco para alguma emergência, nunca fora

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de gastar dinheiro com futilidades. Conseguiu colocar todas as roupas dela,


alguns objetos pessoais e ainda sobrou um pouco de espaço. Trocou o pijama
por um conjunto de moletom velho que a mãe pensou ter sido jogado no lixo
há muito tempo, não conseguia se desfazer de uma coisa quando gostava
muito dela.
— Pelo menos espera o dia clarear, filha, onde vai conseguir abrigo
essas horas?
Maria tentou de todas as formas impedi-la de fazer aquela loucura, já
o pai que estava sentado no sofá vendo o telejornal em uma tevê antiga, a
mesma da época que casaram, continuou entretido vendo a previsão do tempo
com as pernas cruzadas.
— Relaxa mãe, eu me viro. — Beijou as costas da mão dela, era
sempre assim que se despedia da genitora antes de sair de manhã.
Caminhou humilhantemente até a porta, olhou para mãe pela última
vez antes de sair e foi embora. A jovem mal havia chegado ao portal e já
estava em desespero, morria de medo de escuro. O rosto estava molhado, era
um choro em silêncio, dolorido. Estava sozinha no mundo, jogada à própria
sorte. Mas depois que deu o primeiro passo do lado de fora, a sensação era
outra, de liberdade. A cada centímetro que se afastava da Rua quinze, do
Bairro Cleveland, onde cresceu brincando na mesma calçada e agora se
encontrava segurando a mala sobre o peito como um escudo, sentia a brisa
cheia de expectativas tocava seu rosto, uma nova fase da sua vida estava
começando. Sem os cuidados exagerados da mãe e a repressão do pai, agora
havia um sorriso esperançoso.
— Estou livre! — Soltou a mala abrindo os braços como a Rose do
filme Titanic, só faltou o Leonardo de Caprio no papel de Jack para a cena
ficar perfeita. Saiu cantando e pulando no meio da rua, como repertório
escolheu a música do desenho da Frozen.

Livre estou, livre estou…


Não podem mais segurar…
Livre estou, eu saí pra não voltar.
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Não me importa o que vão falar, tempestade vem…


O frio não vai mesmo me incomodar…
De longe tudo muda, parece ser bem menor.
Os medos que me controlavam
Não vejo mais ao meu redor,
É hora de experimentar
Os meus limites vou testar.
A liberdade veio enfim pra mim…
Livre estou, livre estou
Com o céu e o vento andar
Livre estou, livre estou.
Não vão mais me ver chorar,
Aqui estou eu e vou ficar…

— Cala boca, sua maluca — gritou um homem impaciente buzinando


sem parar na intenção de fazê-la sair do meio da rua, passando em uma poça
de água molhando-a toda de lama.
Graça aos Anjos da Guarda dos sem teto, mesmo humilhada e toda
suja de barro conseguiu uma vaga em um lugar seguro para passar a primeira
noite fora de casa sozinha, ser independente não estava sendo tão difícil como
esperava.
— Não acredito que estou passando minha primeira noite fora de
casa!— exclamou eufórica, já acomodada. Como se tivesse viajado para o
outro lado do mundo e não em uma pousada a três quarteirões de sua casa.
— Estou me sentindo tão rebelde, quase uma fora da lei. — Sorriu
orgulhosa, estava enfim crescendo.
Poderia até parecer algo bobo, mas para ele significava muito.
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Bocejou, cansada, esfregando os olhos, virou para o lado na pequena cama de


solteiro com um pedaço do estrado quebrado. Era um lugar simples, mas
limpo, confortável e seguro. O único que o seu dinheiro dava para pagar.
Tinha que economizar para o apartamento que iria alugar no dia seguinte.
Ligou para mãe dizendo para não se preocupar e parar de mandar mensagens
a cada cinco minutos, pois estava bem. Na verdade, não estava, mas tinha fé
que ficaria mais para frente.

Até que então chegou o dia do grande baile, que Nayla fez o favor de
lembrá-la durante a semana, por mais de mil vezes.
— Não acredito até agora que deixou de ir ao baile com aquela
fantasia linda de fada encantada que desenhei especialmente para você, só
para ir com essa coisa sombria. — Nayla apontou o delicado dedo indicador
para a fantasia de Jesse, ostentando um pequeno anel na ponta com uma
pedrinha de diamante cristalino como água vinda direto da fonte, limpa e
brilhante.
A fantasia era um presente dado pelo diretor da empresa de joias que
iria patrocinar o desfile, Bredon Fox, filho do Dono, o qual após conhecer a
moça em uma reunião sobre o evento, não parou de insistir até que aceitasse
sair com ele. Desde então vinham saindo juntos, mas apenas como amigos,
pelo menos era isso que a moça pensava. Já havia se passado duas semanas
que Carter tinha saído de casa, passou alguns dias na pensão até conseguir
alugar um apartamento minúsculo. O problema era que o prédio ficava em
um bairro perigoso, próximo ao bar onde quase foi violentada. Era o único
que o seu dinheiro podia pagar, não podia gastar o pouco de dinheiro que
tinha guardado com luxos, era fato que quase não tinha água direito e faltava
energia às vezes, mas era o canto dela. Ninguém podia incomodá-la mais, era
seu esconderijo. Nos primeiros dias foi meio difícil, ainda mais porque não
tinha móveis, estava dormindo em um colchão duro no chão. O pior era o
escuro, morria de medo de ficar sozinha à noite, então passou noites
chorando até ser obrigada a se acostumar. No trabalho o pai nem olhava para
ela, fingia que não existia e dava os piores casos para ela investigar e o mais
longe possível para não ter que encará-la. A irmã sempre que podia ia visitá-
la, era muito ocupada, mas quando ia era uma verdadeira festa. Já a mãe
aparecia todos os dias carregando quase a casa toda dentro da bolsa para levar
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para ela, até dinheiro trouxe, mas Jesse não aceitava nunca. Não estava
brincando quando disse que iria se virar sozinha.
—Você sabe que não gosto da cor rosa, Nay, cores fortes me dão
vertigens. — Jesse ergueu os olhos e os cravou nos na amiga, com um ar
brincalhão dentro neles.
Estava sentada de frente para a amiga diante do pequeno espelho oval
pendurado em cima de uma penteadeira improvisada no que chamava de
quarto, que foi dividido ao meio para improvisar uma cozinha. Sobre a
penteadeira havia um pente quase novo, que não era muito usado. Nenhum
tipo de maquiagem, nem mesmo um batom de enfeite. Apenas algumas
miniaturas dos personagens do filme Guerra nas Estrelas, era fã de
carteirinha da série. Um monte de livros, Cds e no canto mais à esquerda, o
perfume masculino que gostava de usar, apesar de que andava evitando usá-
lo naqueles dias, porque a fazia lembrar de alguém que também o usava.
Ainda sobre o móvel estava o distintivo jogado de qualquer forma em um
canto. Por um instante seus olhos pousaram sobre um objeto em especial que
estava em destaque bem no meio.
— Quanto mais puder me esconder do mundo melhor, sair por aí feito
um arco-íris ambulante não vai ajudar muito.
Ainda tinha a atenção voltada para a caixinha de música, mas os
pensamentos estavam no antigo dono dela. Jesse havia colado pedaço por
pedaço, gastou dois dias para isso, mas valeu a pena. Nem parecia que tinha
quebrado, estava tão linda e glamorosa como era antes. Quando se é uma
pessoa de pouca renda, é necessário aprender o poder que uma agulha e uma
boa cola são capazes de fazer.
— Cores é sinal de alegria, Jesse, de vida. Deveria ter algumas peças
mais coloridas no seu guarda-roupas, pelo menos um lenço ou um salto rosa
choque. — A investigadora abaixou o olhar, não sabia o significado da
palavra "alegria", nunca soube.
— Não tem como demostrar o que não se sente, talvez por isso nunca
gostei de cores berrantes ou atenção desnecessária em minhas vestes. —
Coçou a ponta do nariz de leve (o pincel fazia cócega) , mas com muito
cuidado para não estragar a pintura. — Não posso reclamar quando as
pessoas me chamarem de palhaça, se me visto como uma. Além do mais
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quando quiser chamar atenção coloco uma melancia na cabeça, é mais rápido
e prático. — Deu uma rápida olhada no espelho, mas Nayla virou o seu rosto
antes que pudesse ver alguma coisa. Só iria ver o resultado depois de pronto,
o problema era que a investigadora tinha muitos problemas com ansiedade.
— Então está me chamando de palhaça, Jesse? Sabe muito bem que
amo misturar cores vibrantes, para mim quanto mais chamativas forem,
melhor. — Nay amava criar peças coloridas e alegres. Tinha o coração puro e
a alma bela.
— Eu até acho bonito em você, Nayla, porque qualquer coisa que
veste fica incrível. — Olhou para amiga radiantemente linda dentro de uma
fantasia de anjo, pensando que nela com certeza não teria o mesmo efeito
impactante.
Era um vestido branco quatro dedos acima do joelho, de mangas
curtas e todo trabalhado em renda com pedrinhas brilhantes, de alcinhas e um
belo decote mostrando uma pequena parte do belo busto. Era bem justo até a
cintura, mas bem solto na saia que era bastante franzida, dando-lhe uma
aparência de boneca de pano. O cabelo estava em um penteado preso meio
bagunçado propositalmente, com alguns cachos à solta enfeitado com miúdas
flores brancas, do mesmo jeito que usava na adolescência. Nas costas
carregava duas pequenas asas feita de penas artificiais, era defensora dos
animais e não utilizaria penas legítimas, mas estava tão perfeita como um
anjo de verdade. Para completar, nos pés sapatos de salto alto de cristal, que
com certeza nem o da cinderela era tão bonito.
— Onde conseguiu essa caixinha de música tão delicada? — A
estilista notou a forma intensa que a amiga olhara para o objeto à sua frente.
Jesse era assim, quando não entrega os pensamentos sem querer com
as palavras os olhos revelam tudo. Era muito transparente, até mais do que
deveria.
— Achei no lixo — mentiu. Seria complicado demais explicar a ela
sobre aquela noite estranha, se não fosse pela caixinha de música podia jurar
que havia sido um sonho. Blade era bonito demais para ser de verdade.
— Quem jogaria algo tão sofisticado no lixo? — euestionou Nay
desconfiada, enquanto espanava o pincel cheio de tinta sobre a região do

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pescoço dela, estava acabando de fazer a pintura que completava a fantasia.


Jesse preferiu não ir de máscara para não dificultar ainda mais sua
visão no evento, já que mesmo se levasse os óculos não iria enxergar muito,
teriam muito foco de luzes no lugar. Também ajudaria a esconder melhor as
marcas do cinto do pai que mesmo depois de duas semanas faziam-se
presentes no pescoço. As marcas das pernas que eram mais leves já havia
sumido, as do braço, as luvas acima dos cotovelos cobririam. Como não sabia
se maquiar pediu ajuda para amiga, mas para isso teve que contar de onde
vieram todos aqueles hematomas. As duas choraram juntas, além da mãe era
a única que sabia. Sempre que podia dormia lá para fazer companhia a ela,
até pensou em oferecer ajuda para pagar o aluguel, mas Jesse não aceitaria.
— Você está incrível, confesso que não gostava dessa fantasia. Mas te
olhando assim depois de pronta, não te vejo indo com outra. — Nayla avaliou
a amiga de cima a baixo, virando-a de frente para o espelho para que visse o
resultado. Carter nunca se achou bonita, porém, naquele momento pensou
estar pelo menos razoável.
— Querida! — disse uma voz fina e irritante que Jesse conhecia
muito bem. Ela ecoou por toda parte do pequeno apartamento de três
cômodos, incluindo o minúsculo banheiro cheio de mofo, assim como o resto
da casa. — Cheguei — completou o garoto de treze anos se materializando
na porta do quarto, muito bem vestido dentro de um terno amarelo forte com
ombreiras largas e gravata azul escuro. Abrindo os braços num gesto amplo,
exibindo um sorriso escandaloso no rosto mostrando o brilho dos dentes
revestido de ferro, usava aparelho. Fora os óculos fundo de garrafa, o rosto
farto de espinhas e cravos, era o início da puberdade chegando com tudo.
— Menos Kevin… Deixe a Jesse em paz pelo menos essa noite. —
Nay se zangou com o irmão caçula, o pré-adolescente tinha uma paixonite
aguda por Carter, na verdade o garoto pensava que já eram casados.
— Não venha atrapalhar a nossa relação, Nayla, inveja mata, sabia,
querida? Nosso amor está escrito nas estrelas! — Deu uma piscadela para o
lado de Jesse, acompanhado de um beijo que arremessou no ar na direção
dela. — Nossa! Como o meu bombonzinho está lindo hoje! Só de pensar que
tudo isso me pertence, fico até emocionado! — Apontou o dedinho de cima a
baixo pelo corpo da jovem fazendo biquinho sexy, pelo menos ele pensava

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que era.
— Essa festa promete! — Jesse respirou fundo desanimada, não
queria mesmo ir.
— Oh! Se promete amorzinho, já estou até imaginando nós dois no
escurinho! — Kevin segurou o braço dela como se fosse um amante
apaixonado, usava até uma aliança no dedo para mostrar que era um homem
comprometido.
— Desculpa por isso, Jesse, meus pais irão chegar um pouco
atrasados no desfile devido ao trabalho deles. Então pediram para levar essa
mala sem alça com a gente, mas assim que eles chegarem no evento me livro
dele. — Nayla revirou os olhos, frustrada, tirando uma pequena máscara
prateada da bolsa e a colocando delicadamente, ficando mais linda do que já
estava.
— Você está é louca se está achando que vou deixar a minha mulher
solta nessa festa com um monte de gaviões a solta por aí, minha filha! Onde
minha Marrom Bombom for, eu vou junto! — Em um pulo agarrou na
cintura de Carter, como um chiclete na sola do sapato.
— Pode deixar Nay, seu irmão me faz rir. — Fez um carinho na
cabeça dele, amava crianças. — Pelo menos um homem nessa festa me acha
bonita, isso para mim já é mais que suficiente. Agora vamos senão
chegaremos atrasados, quanto mais cedo formos, poderei ir embora mais
rápido.
Jesse pensou que talvez, com muita sorte, o desfile acabaria rápido,
então daria tempo de pelo menos ver o filme que havia alugado ou colocar
em dia a leitura do livro novo que tinha comprado.
— Mesmo com tudo organizado é melhor você chegar antes dos
convidados, deve ficar na porta para recepcioná-los.
Pegou a chave do apartamento caminhando em direção à porta, a
estilista ficou observando-a caminhar, realmente a fantasia que tinha
escolhido estava uma graça nela, delicada seria a palavra correta.
Disfarçadamente, passou os olhos pela nova casa de Carter, sentiu vontade de
chorar em compaixão com a forma caótica que estava vivendo, mas não o
fez. Pela primeira vez estava vendo a amiga feliz de verdade, livre para ser
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ela mesma. Os três saíram rindo em direção ao Mozart, salão mais badalado
de festas da cidade, onde somente eventos de grande porte eram realizados.
— Não vai levar bolsa? — perguntou Nayla ao ver a amiga levando
as chaves do apartamento e o celular na mão, nada além disso.
— Não — respondeu apenas.
— Pelo amor de Deus, Jesse! Uma mulher deve no mínimo carregar
uma bolsa com um quite simples de maquiagem e duas cores de batom
diferentes.
— Para começar eu nem tenho bolsa. — Nay revirou os olhos, pegou
o celular e a chave e enfiou dentro da bolsa dela. Do jeito que Jesse era,
perderia os objetos antes de chegar no Mozart, era desatenta. —Quando for
embora lembra de pegar comigo, senão vai ficar presa do lado de fora. —
Gargalhou imaginando a cena.
— Não se preocupe, paixão, minha cama está a sua disposição. —
Kevin levantou o cenho cheio de segundas intenções. — Vamos nos
embriagar com leite achocolatado sem medo de ser feliz, a noite vai ser curta
para nós dois Marrom Bombom. — Mexia as sobrancelhas cabeludas e
unidas feito uma taturana, como se aquela fosse uma proposta irrecusável,
fazendo as duas rirem.

Enquanto uns iam animados para a festa, outros estavam com tudo
arquitetado para acabar com ela.
— Tem certeza que está tudo pronto para invadirmos o lugar? O
desfile já está quase acabando — perguntou um inglês para lá de ansioso,
parecendo um garotinho esperando a sobremesa depois de comer todos os
legumes, sentado esperando a resposta da mãe. Estavam dentro de um furgão
disfarçado de entregadores do bufê, parado estrategicamente em frente ao
Mozart.
— Se perguntar isso mais uma vez não sei o que sou capaz de fazer,
Estevão! Minha paciência com você já passou do limite, vá ver se o Julius ou
Blade precisam de ajuda com alguma coisa e me deixe fazer meu trabalho em
paz. — Li estava nervoso, odiava quando alguém se intrometia em suas
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coisas. Principalmente colocando sua inteligência à prova.


Li era realmente era impecável no que fazia e não tinha nenhuma
modéstia em deixar isso bem claro. Girou a cadeira dando as costas para
Estevão e ficando de frente para a parede do veículo estampada de monitores
com imagens HD das câmeras de cada canto do salão de festas. Estavam
todos prontos para entrar assim que a última modelo desfilasse, quando as
joias estivessem voltando ao cofre. E começou a digitar furiosamente em seu
laptop modelo moderno de última geração, que só seria lançado daqui dez
anos ou mais.
— Vamos passar o plano mais uma vez antes de entrar, um erro e
todo mundo está ferrado — exclamou Julius, espetacular dentro do traje Don
Juan, com a postura toda torta.
O furgão era pequeno demais para um homem do porte dele. Assim
como os outros, estava devidamente camuflado debaixo de uma capa preta
tampando a fantasia, que escondia uma camisa branca de mangas longas
estilo medieval, aberta mostrando o belo e farto peito musculoso à mostra.
Calça escura de tecido mole, bem folgada. No rosto uma máscara preta
realçando os lindos olhos cor de mel.
— Vamos esperar o desfile terminar e entrar pela porta dos fundos,
Estevão vai até o cofre principal roubar a peça mais cara do evento, um colar
de diamantes negros no valor estimado de dez milhões. Eu e o Blade ficamos
com o outro cofre para roubar o restante das joias, depois vamos nos livrar
das capas pretas e nos misturarmos fantasiados no meio dos convidados,
saindo o mais breve possível pela porta da frente para evitar suspeitas antes
que o roubo seja descoberto, todo mundo entendeu? — perguntou autoritário,
como uma mãe que acabara de explicar algo muito importante para o filho.
— Sim! Mas é bom lembrarem que esse roubo é diferente dos outros
que estamos acostumados, terão muito civis no local, nossa identidade secreta
está em jogo por causa de uma transa mal resolvida do Estevão. Eu serei os
olhos de vocês aqui fora, vou monitorar tudo pelas câmeras, então vê se não
tiram a porra do microfone do ouvido. — O chinês quase gritou, estava
preocupado, o risco que estavam correndo era muito grande. Mas tudo não
passava de drama, seria capaz de dar a vida para salvar qualquer um dos
parceiros, principalmente Bobbi. Eram leais uns com os outros, uma família

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inusitada, mas unida.


— Já terminou o chilique? E vê se param de ficar falando palavras de
baixo calão, não quero que o Bobbi fique com um vocabulário sujo como o
de vocês. — Estevão exclamou ajeitando a máscara com toda sua elegância,
não precisou de muito para criar a fantasia de príncipe das trevas que estava
trajando.
A aparência habitual dele já era bastante sombria. A única diferença
da sua capa para as do demais era o revestimento na parte de dentro na cor
vermelho-sangue, totalmente fechada, cobrindo o que tinha por baixo. Como
um vampiro escondendo-se do sol, no quesito beleza e mistério não perdia
em nada para o Conde Drácula. Lindo e cheio de desejos de vingança por
uma coisa que não aconteceu bem do jeito que ele pensava. O cabelo negro
liso partido ao meio, pouco abaixo das costas, era sua marca registrada. Era
um homem de presença notável.
— Aqui não tem nenhum novato, Li, vamos entrar e pegar o que
queremos. Se precisar matamos todo mundo e pronto, pra mim tanto faz —
exclamou Blade autoritário, com o ar superior de sempre.
Estava extraordinário, dentro de um terno Dolce Gabbana todo preto,
muito elegante. Perfeitamente alinhado aos seus músculos, pelo tecido fino
deveria ter custado uma fortuna. Mas valeu a pena investir porque estava
divino como se tivesse sido feito especialmente para ele. Uma camisa com
punho francês e gravata de seda pura completavam seus trajes. Usava sapato
social pontudos e brilhantes, o cabelo agora um pouco cumprido estava muito
bem arrumado com gel todo puxado para trás. O que mais chamava a atenção
era a máscara branca encobrindo apenas um lado belo do rosto,
charmosamente deixando a beleza do outro exposta. Em evidência ficaram os
lábios finos avermelhados, levemente umedecidos, destacando ainda mais os
olhos acinzentados com algumas manchas azuis. Com certeza a melhor
versão do Fantasma da ópera, mais lindo e misterioso do que qualquer
outro.
— Quando quero uma coisa, ela é minha, independentemente das
consequências — completou perverso, custava querer algo, mas quando
queria, nada o impedia de tê-la.
— Falou, fodão! — Xing debochou de Blade, fazendo Julius chorar
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de rir sem se importar com a cara feia que ele estava fazendo sentado
elegantemente em um banco fixado no lado esquerdo da parede do furgão,
próximo de Salvatore. Estava com a postura ereta, as pernas cruzadas como
um conde de sangue azul.
— O que é "Fodão"? Nunca ouvi essa palavra antes — Estevão
perguntou confuso, gírias populares não existiam em um vocabulário culto
como o dele, na verdade nem sabia que esse tipo de dialeto existia.
Li respirou fundo para não perder o resto de paciência que tinha com
o parceiro, que achava meio estranho às vezes.
— Eu só tenho amigos loucos, todos noiados. — Julius ainda estava
rindo.
— Não sou amigo de ninguém. — A voz de Blade matou o riso do
mexicano, sabia ser grosso quando queria.
— Se não fosse, não estaria aqui. — A montanha de músculos
também sabia ser certeiro nas palavras, o impacto em Blade foi profundo.
Mas não deixou transparecer, não era o tipo que demonstra suas emoções.
— Por que não mata ela logo, Estevão? Eu no seu lugar já teria feito
há muito tempo, mas não antes de arrancar todos os membros dela.— Mudou
de assunto, era sempre assim que fazia quando se sentia acuado.
— Também acho! Dá logo um tiro na cara dessa vadia sem coração e
vai ser feliz, cara, se ela o impede de seguir em frente, deve cortar o mal pela
raiz. — Essa foi a forma mais gentil que Li encontrou de dizer ao amigo que
o passado deve ficar no lugar dele, morto e enterrado. Não adianta querer
voar se suas asas estão presas à coisas que não te acrescentam em nada.
Estevão olhou para o chão tristemente, fitando as mãos finas com as
unhas muito bem pintadas de preto.
— Mas também não vamos te obrigar a nada, se quer resolver as
coisas assim, o problema é seu! — A voz de Blade parecia calma, porém,
sem paciência como sempre.
Fazia duas malditas semanas que Blade não conseguia dormir, o
cheiro da policial estava em toda parte do seu esconderijo, principalmente no
quarto. Naquele dia, quando chegou cansado em casa totalmente frustrado
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por conta da conversa com Bobbi, tirou a camisa e as botas desabando sobre
a cama. Deitou de barriga para cima fitando o teto, pensando em um certo
anjo perdido que passou pelo seu caminho repleto de pecados. Mil coisas
povoaram sua mente, contra sua vontade, mas estavam lá. Ele não a
suportava, isso era um fato, era inocente e frágil demais. Mas ao mesmo
tempo corajosa e destemida, o coração puro e a alma bondosa. Olhava para
ele como se não fosse um monstro, nem tinha medo dele. Isso o irritava
bastante. Achava-a estranha, atrapalhada e burra, simplesmente queria a
jovem bem longe dele. Blade não tinha paciência para mediocridade. Ela era
detestável, mas por que, quando fechava os olhos, via a imagem dela
sorrindo timidamente? Isso não fazia sentido.
Maldonado gostava de mulheres bonitas, cheias de atitudes, bem
vestidas, que usavam saltos, sem escrúpulos na cama. Gostava de sexo
selvagem e bruto. Mulheres que esbanjavam charme por onde passavam, com
corpos fartos em curvas e de beleza avassaladora. Jesse era totalmente o
contrário disso. Visivelmente insegura, malvestida. Usava o cabelo como se
acabasse de acordar, para completar suas roupas pareciam pijamas de tão
largas, feias e pobres. E aquele jeito inocente era o que mais irritava Blade,
tinha vontade de gritar com ela toda vez que abria a boca com aquela voz
doce dos infernos. Os lábios carnudos mexendo delicadamente, era como a
visão do pecado para ele, que cometeria com prazer. Virou para o lado
puxando lençol branco de seda para tapar o corpo gigante, a cama era
enorme. Era uma pena desperdiçar tanto espaço com apenas uma pessoa, mas
o homem sem lei já havia se acostumado com a solidão, estava apenas
esperando a morte para se libertar daquela vida promíscua de pecados e
orgias regadas a sangue, uísque e sexo. Já havia se conformado que o inferno
era o seu destino desde que nasceu. Não existia lugar no céu para os
Maldonado. Por isso jamais teria filhos, essa raça ruim morreria com ele.
Quando estava quase dormindo, abriu os olhos vendo a pequena bandeja do
café da manhã que havia levantado cedo para preparar para ela, como não
sabia o que gostava fez ao gosto dele. Observador como era, notou que o
cacho de uva estava intacto, então o que ela levou enrolado no jornal velho?
Perguntou-se, mas não imaginando o que poderia ser. Um pequeno pedaço de
papel dobrado encostado na jarra de leite chamou sua atenção, esticou o
braço forte repleto de tatuagens e o pegou. Ajeitou alguns travesseiros nas
costas para se sentar, lendo atentamente cada palavra escrita pelo anjo.

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Muito obrigada pelo café da manhã, estava tudo delicioso. A gente


não encontra ninguém nessa vida por acaso, cada pessoa é um teste, uma
lição, ou um presente. Pode até tentar se esconder, mas eu te vejo muito além
do que deixa transparecer. Lembre-se de mim, se possível; esqueça, se
necessário.
J.C.
Ele tinha ciência que era preciso esquecê-la, mas sabia que era
impossível.
Estevão estremeceu só de imaginar o fato de ver Nayla morrendo,
queria vê-la sofrendo em vida, aquilo seria só o começo de sua vingança.
— Nem todo mundo resolve as coisas matando os outros, Blade. —
Jogou o cabelo para trás, o comprimento estava começando a lhe incomodar,
não costumava usá-lo tão grande. — Algumas pessoas são mais sensatas,
deve-se tirar tudo o que elas têm primeiro, para matá-las depois — concluiu
naturalmente.
— Então vamos invadir essa porra logo, hoje é o meu dia de passar a
noite com o Bobbi. — Levantou ajeitando o terno preto, um jeito simples,
mas sexy. — Não quero deixar o Mascote esperando, combinei de jogar
xadrez até dar a hora dele dormir.
Pegou duas pistolas em uma maleta prateada e as colocou na cintura,
uma de cada lado. Assim que o desfile terminou, um sucesso total, a
passarela foi desmontada e as cadeiras retiradas deixando o salão livre para o
baile, as luzes se apagaram ficando apenas os flashes de luzes coloridas
tomarem conta da pista de dança onde os convidados se encontravam
bailando animadamente. Aproveitaram o som alto para entrarem
sorrateiramente pelos fundos. Li ficou no furgão orientando-os por onde
passar para não serem descobertos. Assim que chegaram ao corredor
principal, Estevão se encaminhou ao lugar onde o colar mais valioso estava
protegido por um cofre de aço, já ansioso por isso. Para Blade e Julius foi
moleza fazer a parte deles, em menos de trinta minutos já haviam pegado o
que queriam, o lugar era fraco em segurança. Em pouco tempo já estavam se
livrando das capas e se misturando ao povo no salão, divertindo-se ao som da
música animada que estava tocando. O desfile havia sido mesmo um sucesso.
Julius fez sinal para Maldonado assim que viu alguns seguranças
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cochichando, provavelmente haviam descoberto o roubo.


— Saiam daí, agora! O roubo foi descoberto pela estilista, estão
fechando as portas do local. Não estou conseguindo falar com Estevão desde
que entrou no cofre principal, acho que já saiu de lá — Li praticamente
berrou pelo microfone, fazendo Maldonado olhar para o parceiro e fazer sinal
para a saída.
Apenas o mexicano passou pela saída Blade havia congelado no
lugar. Não conseguia mexer um músculo, como se uma força o estivesse
segurando pelas pernas. Sabia que tinha que ir, mas simplesmente não
conseguia. Imediatamente, um par de olhos intensos acinzentados escuros
atravessaram o salão como um raio, tomando imediatamente um tom novo,
um azul jacinto se fez presente, idêntico à cor de um dos diamantes que havia
roubado, o que mais tinha gostado.
Sua pele parecia pegar fogo, algo muito forte e totalmente novo. Foi
pego de surpresa, não esperava por aquilo, pensou que nunca mais iria
encontrar o anjo perdido novamente. Ainda mais fantasiada daquele jeito tão
obscuro. Não entendia como ela conseguia fazer algo que era para parecer
sombrio e assustador transparecer tanta inocência. Um anjo se escondendo
atrás de uma fantasia de cisne negro e tênis, perdido em um inferno como
aquele, cheio de pecados, pensou Já dentro do cofre, o brilho do colar de
pérolas refletia nos olhos azuis penetrantes de Salvatore, que estava pé diante
de um tripé sustentando uma caixa de vidro aberta. Totalmente hipnotizado
olhando para o objeto de luxo em suas mãos que havia acabado de tirar do
cofre, era lindo e formoso. Estava se sentindo vingado, mas só um pouco,
ainda faltava muito para dizer que estava realmente satisfeito. Mas por hora
era o suficiente, teria muito tempo para destruí-la por completo. Com muito
jeito pegou a tampa de vidro e recolocou no lugar, teria menos de cinco
minutos para sair dali antes que descobrissem o roubo.
— Estevão, é você?
O inglês ficou literalmente sem ar ao ouvir o som daquela voz doce
novamente, continuava do mesmo jeito que lembrara: amável e gentil. Sem
forças para se mexer, continuou parado feito uma estaca, totalmente sem
ação. Não teria coragem de virar e encará-la, tão pouco responder sua
pergunta. Não sabia como o tinha reconhecido, já que estava com o capuz e o

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rosto coberto pela máscara. O que ele não sabia era que o amor é capaz de
lembrar de cada detalhe, gesto ou palavra. Ela não o esquecera em momento
algum, o levara consigo onde quer que fosse, nunca teve espaço para nenhum
outro, sabia que cedo ou tarde, iria reencontrá-lo, porém jamais imaginou que
poderia ser naquela situação. Ele se encolhia cada vez mais, pensou que
talvez a jovem desistisse de falar com ele e fugisse para pedir ajuda. Afinal,
em algum momento a "ficha" dela teria que cair, estava sozinha dentro de um
cofre com um bandido armado e perigoso. Essa era a esperança dele.
— Por favor, Estevão, fale comigo, eu esperei por este momento a
minha vida toda.
A essa altura a jovem já tinha os olhos lacrimejantes, a voz chorosa
era prova disso. Estava passando pelo corredor por acaso quando viu a porta
do cofre entreaberta, entrou para ver o que estava acontecendo. — Não se
esconda! Odeio quando faz isso, olhe para mim quando estiver falando com
você. — Tentou puxar o braço dele, mas foi impedida antes que o fizesse, ele
se virou com os olhos brilhando de raiva.
— Não toque em mim! —Estevão explodiu em um grito assustador
que saiu de forma rude de seus lábios.
Quando enfim criou coragem para virar e olhá-la, arrependeu-se. O
que viu fez o seu coração parar, os olhos dela estavam brilhantes e molhados,
fixos no colar que estava em suas mãos.
— Esperou tanto por esse momento… Com certeza para rir de mim
como os seus amigos fizeram, tenho que admitir que foi uma grande atriz.
Deve ter sido muito difícil para a garota mais popular da escola, a famosa
Nayla Borges, fingir gostar do “Edward Mãos de Tesoura”. De todos eles
você se mostrou a pior. — Cuspiu as palavras cheias de rancor, os músculos
do rosto estavam tensos e os dentes trincados de raiva. Parecia querer voar no
pescoço dela a qualquer momento, enquanto o que ela mais queria era voar
para os braços dele.
Seu semblante se entristeceu ao lembrar daquela época, chegou a ficar
depressiva tendo que fazer tratamento psicólogo. Então desistiu, não porque
não tinha mais forças para lutar, mas, sim, por não aguentar sofrer mais com
o seu silêncio. — Limpou as gotas que deslizavam em seu rosto como um dia
chuvoso, as mãos tremiam sem parar.
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— Quando reencontrei o Bryan por acaso em um evento de moda, ele


acabou comentando que assim que fui embora você arrumou uma namorada
linda e ficava falando mal de mim para todos, inclusive para ela. — Agora
sua voz tinha outro sentimento: ciúme.
— Chega de mentiras! Não acredito em uma palavra que sai da sua
boca, você não vale nada! Assuma logo que se uniu com seus coleguinhas
para abusar de mim como sempre todos fizeram. Achei que gostava de mim
do jeito que eu era e ainda sou. — Virou de costas para ela, estava
envergonhado. — Pensei que fosse diferente, um anjo que Deus mandara
para trazer luz ao meu mundo sombrio. — Ela observou as costas largas, que
antes tinham a postura ereta, murchar como uma flor.
— Eu sempre te achei lindo, único para mim. — Sua voz era doce,
mas ao mesmo tempo ardente.
Uma mistura de ternura e paixão, Nayla era uma mulher segura de si,
porém, Estevão lhe fazia sentir-se como uma criança perdida no escuro. Se
antes o achava lindo quando adolescente, agora como homem, pensou estar
vendo a perfeição em pessoa. Ele era alto, forte e de postura viril, a coisa
mais linda do mundo aos olhos dela — Chamou minha atenção desde o
primeiro instante que te vi, ali sabia que seria meu! Cedo ou tarde! — Ele
estremeceu ao ouvir tais palavras, sentiu a intensidade destas tocarem seu
corpo. — Pode até se esconder do mundo, mas não de mim — concluiu
segura, sempre fora muito boa com as palavras.
— Afaste-se de mim, satanás — ele praticamente gritou, com os olhos
azuis em chamas, o braço esticado com a mão aberta para evitar que ela se
aproximasse dele. — Não vai mais me tentar com suas mentiras, e vá para o
inferno, onde é o seu lugar. — Nayla levou um choque, aquele não era o seu
Estevão, o primeiro e único amor que teve na vida.
— Você iria roubar isso? — Apontou inocentemente para o colar, que
brilhava, mas não chegava nem perto do brilho dos olhos de Estevão
hipnotizado com a visão dela tão linda à sua frente.
— Não iria, já roubei! — disse friamente enfiando o colar dentro do
bolso, ato acompanhado belos olhos cor de mel da moça.
Estevao pensou em como aquele olhar meigo o atormentara durante

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anos, por um momento se arrependeu do plano, existem coisas que quanto


mais mexemos, piores ficam, melhor as deixar adormecidas. Agora todo ódio
havia ido embora, estava vulnerável diante do inimigo. Era sempre assim, o
lado humano que havia nele só se manifestava diante dela.
— Olhe para mim, Estê, sou eu, a sua Nay, lembra? — O chamou
pelo apelido que ela mesma inventou na época do colégio. Ameaçava mais
uma vez tentar tocá-lo.
— Não ouse!
Com uma habilidade de mestre tirou as duas pistolas Kid e Jack,
nome que deu a elas quando comprou, e apontou as duas para o rosto dela.
Pelo semblante assustador não estava brincando. Com o susto Nay tropeçou
quebrando o salto de um dos sapatos de cristal, para se equilibrar melhor
tirou os dois e jogou em qualquer canto do cofre. O inglês ainda com as
armas apontadas para ela, a observou abaixar de forma sensual para tirá-los.
Inevitavelmente corou ao ver a bunda dela redondinha arrebitada, mostrando
as belas coxas. O tempo havia sido generoso com ela.
— Algum problema aí, senhorita Borges? Ouvimos vozes alteradas.
— gritou dois seguranças que passavam pelo corredor, estavam preocupados
com a estilista.
— Está tudo bem, podem continuar o trabalho de vocês — disse sem
olhar nos olhos de Salvatore, jamais o trairia, uma pena ele não saber disso.
— Por que fez isso? Essa era a sua chance de fugir.
Abaixou as armas encarando-a de uma forma inexplicável. Agora
reparando na fantasia percebeu como era curta, até demais na opinião dele.
Mexeu incomodado com o volume começando a se formar no meio de suas
pernas, estava ficando excitado apenas em olhar para ela. Deus como ela era
linda, pura e angelical.
— Por você! — respondeu apenas mordendo os lábios, estava nervosa
com os olhos intensos dele sobre ela.
— Remorso a essa altura do campeonato, senhorita Borges? Nada do
que fizer vai apagar o que ajudou a fazerem comigo, você mentiu para mim.
— Lançou as palavras cheias de ironias e ressentimento.

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— Então foi isso que você se tornou? — Houve uma certa melancolia
em sua voz, decepção talvez. — Um bandido frio e sem coração, que por
acaso veio roubar logo durante a festa do meu desfile? Eu estava tão feliz
depois de anos, mas você estragou tudo. — Desviou os olhos dele, a dor era
grande demais, quase insuportável.
— Quem disse que foi por acaso? — exclamou em tom de sarcasmo,
andando de um lado para o outro olhando impaciente para o relógio de ouro.
Nay notou que a relíquia antiga prendia um dos botões, a corrente
conduzida até um pequeno bolso. Sim, ele usava relógio de bolso, era um
verdadeiro Lorde nos mínimos detalhes. Ela também observou que a capa
voava a cada passo de Salvatore, de forma elegante e ao mesmo tempo sexy.
A estilista não conhecia esse lado de Estevão, mas mesmo assim estava feliz
por vê-lo. Esperou por muito tempo por isso.
— Por que, Estevão? Só quero saber o porquê de tanto rancor, tramar
contra alguém que sempre te am… — Ela não conseguiu terminar a frase, o
choro tomou conta de tudo.
Encostou-se na parede de aço e escondeu o rosto com as duas mãos,
parecendo uma criança assustada. Meio que por impulso Estevão deu um
passo para ir até ela, mas não o fez. Quando a estilista, enfim, conseguiu
cessar o choro e abrir os olhos, seu “príncipe das trevas” não estava mais lá,
porém, nunca deveria ter saído. A única coisa que estava faltando era um pé
dos seus sapatos de cristal, vasculhou por toda parte, mas não o encontrou em
lugar nenhum. A essa altura o objeto já estava longe, indo para o lado sul da
cidade.

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CAPÍTULO 8

"Então ela não ficava tímida só na minha frente…"

Ele observava Jesse feito um falcão, não via mais nada naquele lugar
além dela. O local estava lotado, cheio de belas mulheres muito bem vestidas,
mas a delicadeza da jovem se sobressaía perante a todas. Mozart era um local
amplo e sofisticado, localizado no bairro mais conceituado e bem frequentado
de Los Angeles. Enfeitado com cortinas grandes espalhadas pelas paredes e
jarros de flores por toda parte, onde os milionários, e principalmente as
estrelas de Hollywood, usavam para realizarem suas festas de gala. Contudo
era um lugar que não combinava com Carter, ostentação não fazia parte do
estilo dela. Se não fosse pela amiga jamais iria a um ambiente como aquele,
não passaria nem perto.
— Blade, o que ainda está fazendo aí? Saia desse lugar agora! — Li
gritava desesperado.
Maldonado simplesmente tirou o microfone do ouvido e o colocou no
bolso. Voltou os olhos para ela novamente, tendo a certeza que aquele não
era o lugar dela. Jesse estava toda encolhida, sozinha, escondida num canto
mais escuro do evento, onde ninguém poderia achá-la, pelo menos era o que
ela pensava. Encostada em uma parede cor de ouro vivo próxima ao bar,
entretida feito uma criança pela primeira vez em um circo vendo o espetáculo
principal da noite, totalmente encantada observando um homem vestido de
calça escura e camisa roxo-escura, uma gravata borboleta e avental atrás de
um balcão de vidro equilibrando três garrafas de bebidas no ar, dançando no
ritmo da música que estava tocando. Era o barman do evento. O mais incrível
era que de dentro das garrafas saiam labaredas de fogo nas cores amarelo e
laranja, puxadas nas pontas para um azul escuro acobreado. O homem virou
um pouco do líquido de cada uma dentro do copo de cristal, entregando e
sorrindo educadamente para um homem muito bem vestido dentro de um
terno cinza italiano, que apertou sua mão parabenizando-o pelo pequeno
show. O sorriso dele ficou ainda maior quando virou para o lado e viu um
anjo fantasiado de cisne negro para lá de animado batendo palmas. Deu uma
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piscadela charmosa para o lado dela. Ato que não foi muito bem visto aos
olhos de Maldonado, que fechou os punhos com força, os olhos em duas
poças vermelhas como sangue fresco! Ela se alegra com coisas tão banais
Jesse parecia uma boneca, pequena e delicada. Ela trajava um vestido negro
como a noite, um corpete sem alças ajustado com tiras atrás e uma saia com
várias camadas de véus feita de pétalas de uma rosa, curta e arrebitada. Até
demais na opinião do Homem Fora da Lei, foi a primeira coisa que lhe veio à
mente. Desceu os olhos para as pernas, arqueou a sobrancelha surpreso com o
que viu, ela tinha belas pernas. Grossas e bem torneadas, atraentes até. Para
completar, luvas até a curva dos braços, tênis All Star preto e ainda um colar
de pedras negras falsas. O cabelo preso em um coque alto com alguns cachos
soltos. Blade teve que assumir que ela escondia muita coisa debaixo daquelas
roupas largas, um corpo pequeno e magro, mas com contornos delicados. A
pintura do rosto até a extensão do pescoço era clara, sobre os olhos duas asas
pretas abertas, como um pássaro preparando o voo.
Em câmera lenta, conforme os casais passavam dançando fervorosos,
ele a via sorrindo timidamente, observado tudo de longe, no canto dela.
Quando Jesse chegou ao baile, respirou fundo com a cabeça erguida. Mas
quando olhou a sua volta e viu todas as fantasias ricas em cores e detalhes,
saltos altos e esbanjamento de elegância e sofisticação, sentiu-se totalmente
deslocada e estranha. Será que ninguém usava mais o pretinho básico? Eram
tantas cores juntas que a moça estava ficando tonta, teve que se afastar em
um canto mais discreto, viu o desfile todo de lá. Porém estavam todas iguais
só mudavam as cores dos vestidos e os penteados. Jesse era a única a se
destacar, tanto na ousadia como na delicadeza. Logo ela que tentava a todo
custo se esconder do mundo, principalmente da maldade das pessoas. Ela
corou ao ver o barman cochichando alguma coisa no ouvido de um dos
garçons olhando na direção dela. Era um homem atraente, negro, não tão alto,
mas o charme compensava a baixa estatura. O cabelo encaracolado, os olhos
verdes como esmeraldas e um sorriso de tirar o fôlego.
— Com licença, senhorita, o barman lhe mandou essa taça de
champanhe francês para alegrar a sua noite. — Um garçom vestido
totalmente de preto entregou-lhe a bebida com uma expressão maliciosa no
rosto.
Ela aceitou de bom grado, olhou de longe e o viu acenando com

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aquele sorriso galanteador no rosto. Em um rompante de coragem, caminhou


até o bar para agradecer pessoalmente. Ficou admirada com o minibar, havia
prateleiras de vibro ostentando garrafas de bebidas de todo o tipo, uma mais
cara que a outra. Todas muito bem organizadas e limpas, fora a coleção de
copos de cristal dentro de um armário também de vidro.
— Muito obrigada, você é muito gentil! — Olhou para ele sem jeito.
De perto o sorriso dele era ainda mais bonito. Ela tentou fazer charme
sentando-se em um banquinho redondo de ferro próximo ao balcão, quase
caiu no chão, ele era giratório. Sem querer, derrubou uma pilha de
guardanapos brancos, como andorinhas voando.
— Desculpe-me! — falou envergonhada.
— Não precisa se desculpar, anjo. Meu nome é Michelangelo, mas
pode me chamar de Miche. — Inclinou-se sobre o balcão para beijar o rosto
da investigadora. Era brasileiro, simpático como todos os latinos. Ela
arregalou os olhos assustada com o ato repentino dele, foi o contato mais
próximo que teve, naquela festa, com um homem.
— O meu é Jesse, prazer em conhecê-lo! — Mexia em alguns enfeites
sobre o balcão, miniaturas de garrafas de bebidas antigas.
— O prazer é todo meu, anjo! De perto consegue ser mais linda ainda.
Carter desviou os olhos para a multidão em frente ao palco do DJ.
Pulando e gritando mais alto que a própria música, havia uma mulher vestida
de dançarina de tango dentro de um vestido vermelho rodado pouco acima
dos joelhos, com um decote enorme, sapato alto, muito bem maquiada, o
cabelo escuro e longo, solto como um manto sobre as costas e enfeitado com
uma flor. Estava rodopiando pelo salão, dançava bem, era sensual, o vestido
rodava pelo ar. Houve um momento que Carter podia jurar ter visto um
homem com a metade do rosto coberto por uma máscara branca olhando na
direção deles com uma expressão de ódio. Mas o tecido vermelho da saia
passou na frente da sua visão e em um segundo o homem de terno preto não
estava mais lá.
— Eu só posso estar ficando louca. — Balançou a cabeça frustrada,
pensou estar tendo alucinações.

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— Disse alguma coisa, linda? — O brasileiro a fitava atentamente.


— Não, só pensei alto. — Abaixou o olhar, estava tendo uma
sensação estranha, como se estivesse sendo observada.
— Só um instante, anjo, preciso atender um cliente, mas já volto para
você — disse Michelangelo de forma muito sedutora ao pé do ouvido da
moça, mais perto que o necessário, a fazendo corar levemente, mesmo
estando com o rosto pintado.
— O que o senhor gostaria de beber?
— Quero um Dalmore 62, Whisky Royal Salute com duas pedras de
gelo, Tequila Ley com gin e uma água com gás para a moça. — Jesse
paralisou ao ouvir aquela voz grave novamente, grossa e incrivelmente sexy.
Não teve coragem de levantar a cabeça para olhar para ele, pensou que talvez
tivesse sido apenas uma alucinação.
— Tudo bem, meu anjo? Parece que viu um fantasma. —
Michelangelo tocou com carinho a mão da moça sobre o balcão frio de vidro,
com a mesma delicadeza que o pintor de quem herdara o nome pintou a tela
na qual deu o nome de "Anjo", assim como o apelido que havia dado a ela.
Os olhos de Blade saltaram sobre eles ardendo como duas brasas em
fogo.
— O nome dela não é "anjo". — A voz grossa tomou conta do
ambiente novamente, visivelmente alterada. — É ela não é sua e nunca será.
— Agora o tom foi mais severo.
— Eu estou bem, Michelangelo, não se preocupe. — Ofereceu a ele
um sorriso confortante para mostrar que estava realmente bem, mas não
estava, não mesmo.
— Pode ser bastante perigoso aceitar bebida de estranhos
investigadora, não sabia disso? — exclamou Maldonado assim que o rapaz
saiu de perto deles para preparar o seu pedido. Ela criou coragem, não sabia
de onde para encará-lo, tinha o corpo um pouco inclinado sobre o balcão
meio de lado com o olhar ameaçador, como um leão vigiando sua presa. —
No seu caso para ambas as partes, principalmente para ele — completou frio,
como a geleira do Alasca. Carter esperou passar o calafrio que percorreu todo

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seu corpo, devido ao tom assustador que a voz dele lhe causou. Para assim,
talvez, tentar assimilar alguma coisa inteligente para responder, mas com
aqueles olhos azuis como o mar lhe encarando-a seria bastante difícil.
— Eu passei a noite na casa de um e ainda estou viva, não estou? —
respondeu uma pergunta com outra desviando o olhar, em um tom irônico
demais para uma pessoa doce como ela.
O problema era que Maldonado realmente tinha o poder de tirá-la do
sério. Pelo canto dos olhos, reparou como ele acertou a postura ficando
elegantemente de pé bem diante dela. Jesse notou que Blade parecia bem
maior e mais forte do que lembrara, lindo, atraente e muitas outras coisas
mais que tinha até vergonha de falar. Pensou em perguntar o que estava
fazendo em um desfile de moda feminina, como havia passado as últimas
semanas ou se tinha pensado nela como ela havia pensado nele a cada
minuto. Só que era tímida demais para isso. Também, da forma que estava
tremendo, as palavras não sairiam entendíveis. Levou a taça de champanhe
efervescente à boca na esperança do álcool dissipar um pouco a tensão que
pairou entre os dois, mas seu ato foi vedado antes de ser concretizado.
— Não acha que está um pouco cedo para beber? — Tomou a taça da
mão dela rudemente, colocando-a sobre a bandeja de um garçom que estava
passando.
— Mas eu estou com sede. — Fez cara feia, empertigando-se nos seus
um metro e sessenta e cinco de altura.
— Não se preocupe, a água com gás que pedi é para você. — Ela
negou com a cabeça. A vontade dela era socar a cara dele por ser tão
pretensioso. — Se sóbria já é um desastre, não quero nem imaginar quando
estiver embriagada. — Enquanto falava, seus olhos rodavam o salão. Havia
seguranças por toda parte.
— Pensei que tinha dito que é perigoso aceitar coisas de estranhos. —
Jesse ficou séria e franziu o cenho.
— Não sou mais um estranho, afinal passou a noite na minha casa. —
Inclinou o corpo para ficar da altura dela, o que foi meio difícil para um
homem de um metro e noventa e cinco de altura. — Ou melhor, na minha
cama — completou baixinho no pé do ouvido dela, se cerificando de que foi

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o suficiente para um certo barman metido a conquistador barato escutar.


Blade sempre tinha tudo planejado. Ela queria xingá-lo por ter sido
tão cretino, só que estava desorientada demais com tanta beleza diante dela.
Observou seus contornos perfeitos debaixo daquela maldita máscara sexy, o
rosto era quadrado, milimetricamente perfeito. O cabelo castanho claro, seus
olhos, que naquele momento estavam azuis como céu no verão, nariz reto e
um furinho charmoso no queixo. A barba por fazer, de dois ou três dias no
máximo, as marcas de leve das covinhas que ansiavam por um sorriso para se
manifestarem de verdade, pois nunca tiveram essa oportunidade. Os lábios
curvilíneos e finos. Ficou encantada e se perguntou qual seria o gosto do
beijo dele? Preferiu não pensar na resposta, nunca teria a oportunidade de
obtê-la.
— Aqui está sua bebida, senhor! — Michelangelo não tinha mais o
sorriso simpático no rosto, nem olhou mais para Jesse enquanto entregava o
pedido de Maldonado.
— A agua é para a moça. — Lançou os olhos sobre ela, que estava
olhando para os pés envergonhada. — Preciso dela sóbria essa noite.
E o cretino agiu novamente com aquela voz atraente, ironizando
coisas que os dois sabiam muito bem que jamais iriam acontecer.
Infelizmente, pensou ela.
— Não quero! — Deu dois passos para trás criando uma distância
entre os dois, cada gesto seguido discretamente pelos olhos dele.
— Não perguntei se queria. — Foi rude.
— Então vou pagar por ela. — Arrebitou o nariz.
Maldonado odiava quando ela o enfrentava daquela forma.
— Não teria dinheiro para isso.
Ela piscou várias vezes tentando esconder as lágrimas e abaixou a
cabeça visivelmente envergonhada, mordendo o lábio inferior. Ele a havia
chamado de pobre a ponto de não ter dinheiro nem para pagar uma simples
água com gás. Na verdade, ela, de fato, não tinha, mas ele não sabia disso.
— Tudo bem, princesa, fica como cortesia da casa! — Ela levantou o
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rosto sorrindo para Michelangelo com os olhos cheio de lágrimas, o que fez
“Miche” ficar ainda mais encantado por ela.
— Creio que você também não tenha dinheiro para pagar por isso,
deve custar no mínimo dois meses do seu salário miserável — disse
naturalmente, deslizando o dedo na borda do copo e olhando o líquido de cor
de canela dançar de um lado para o outro dentro dele.
Jesse olhou para ele literalmente chocada! Como podia fazer alguém
se sentir mal daquela forma, isso não se faz com ninguém. E o que tinha
dentro daquela água com gás, ouro?
— Na verdade, sim, minúsculas partículas de ouro branco — explicou
calmo, como se tivesse escutado os pensamentos dela. A investigadora
pensou que se a água era tão cara assim, não queria nem imaginar o resto que
ele havia pedido e ficou boquiaberta ao vê-lo tirar um maço de notas de cem
dólares do bolso, devia ter no mínimo mais de dez mil. Entregou para o
barman de um jeito que não encostasse nele, já o odiava e nem sabia o
porquê.
— É fácil gastar dinheiro quando não se trabalhou duro para
consegui-lo. — Jesse jogou o copo de qualquer jeito sobre a mesa, o
afrontando mais uma vez, porém aquela passou de todos os limites de
paciência de Maldonado. Blade havia suado para conseguir aquele dinheiro,
levou um mês inteiro planejamento esse roubo. Ela estava pensando o quê?
Que roubar um banco é fácil, é mais complicado e complexo do que parece.
— Se você jogar uma nota de cem dólares em uma poça de lama, ela
continuará tendo o mesmo valor.
Passou a mão pelo cabelo de forma sexy, tanto que duas mulheres
lindas que iam passando em direção ao banheiro, uma fantasiada de
Cleópatra e a outra de Feiticeira literalmente babaram em cima dele. Ele tinha
um poder assustador sobre o sexo oposto, não precisava fazer nada para que
elas caíssem aos seus pés. Ele nem as notou, sua atenção estava voltada para
uma certa baixinha abusada.
— Para pessoas como você com certeza terá. O bom de ser pobre é
que não precisamos de muito para sermos feliz, só uma coxinha com um suco
de laranja bem gelado já me satisfaz. — Lançou um olhar irônico para ele,

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totalmente desafiador.
— Duvido que exista alguma coisa que todo o "seu dinheiro" possa
comprar, você tem tudo, mas ao mesmo tempo não tem nada!
Ele franziu o cenho fuzilando-a com o olhar. O pior é que sabia que
ela estava coberta de razão, quanto mais dinheiro roubava, mais vazio por
dentro sentia. Porém, a adrenalina o fazia sentir vivo, poderoso.
— A pessoa sabe que me irrito com qualquer coisa e mesmo assim
fica me provocando — resmungou baixinho, xingando alguns palavrões.
— Disse alguma coisa? — perguntou debochada com um sorrisinho
vitorioso no rosto, adorava provocá-lo.
— Com certeza nada que seja de sua conta — respondeu grosso,
fazendo o sorriso dela morrer.
— Não precisa falar assim com ela, cara! — Michelangelo cavalheiro
como era defendeu a moça, seu pai lhe ensinara desde de cedo que se deve
tratar as mulheres com respeito.
— E você, cale a boca anão, porque não vai ver como a Branca de
Neve está? — Encarou-o de semblante fechado fazendo piada com a altura do
rapaz, os punhos cerrados mostrando que estava pronto para qualquer coisa.
Sempre fora um homem muito discreto, mas naquele momento não
estava ligando para mais nada, estava disposto a tudo para acabar com aquele
sentimento estranho que estava surgindo ao ver a forma que o barman olhava
para ela, era algo que não dava para segurar, completamente novo,
incontrolável.
— Antes que eu mesmo a cale! — enfatizou.
O rapaz chegou a engolir em seco encarando-o, parecia Davi frente a
Golias, mas mesmo com medo era homem demais para correr, mesmo que
essa fosse a sua vontade.
— Tudo bem Miche, eu estou bem! — Jesse segurou no braço dele
com carinho. Blade sentiu queimar nele quando as pontas dos dedos o
tocaram de forma tão delicada e gentil, oferecendo-lhe um sorriso doce.
— Não vale a pena, às vezes a melhor solução é silenciar quando o
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outro espera que você grite. — Era a primeira vez que Maldonado se sentira
inferior. Ela falava sem olhar para ele, como se fosse invisível. — O grito
assusta, mas o silêncio destrói qualquer um!
— Como eu disse a água é uma cortesia minha, princesa, não se
preocupe porque para os funcionários tem um bom desconto. Como não bebo
é a primeira coisa que vão descontar do meu salário. — A investigadora abriu
um sorriso largo, daqueles que iluminam tudo a sua volta.
— Mas o champanhe que mandou me entregar, deve custar uma
fortuna! — Estava se sentindo culpada, não queria que gastasse tanto
dinheiro com ela.
— Não se preocupe, anjo, o champanhe está sendo bancado pelos
organizadores do evento, só as bebidas mais caras são pagas. — Ela sorriu
aliviada.
— Lembra a minha resposta sobre o convite para sair Miche? Mudei
de ideia, eu aceito. — Ele não sabia do ela estava falando, mesmo assim
gostou da ideia de sair ela. Jesse bebeu um pouco da água, não sabia jogar,
pela expressão irada no rosto de Blade era a prova que estava indo muito
bem.
— "Miche? Que porra de intimidade é essa com um cara que acabou
de conhecer, e que história é essa de sair com ele?"
— Mas eu pensei que vocês dois fossem… — O barman coçou a
cabeça sem jeito. — Íntimos.
— Não estou tão necessitado assim. — Maldonado pensou alto,
grosso além da conta.
Jesse cuspiu a água longe, pasma com o comentário dele, que agora
degustava como se fosse o vinho mais caro do mundo, o que deixou Blade
bastante irritado, já que nem havia tocado nela antes do futuro cadáver dizer
que era cortesia dele, tudo só para se mostrar para ela.
— Não entendi o que quis dizer com isso, ela é linda! — Carter abriu
um sorriso largo com o elogio.
— Só se for para você, ela não faz o meu tipo! — Olhou para ela de
cima a baixo com total desdém, fazendo cara de nojo quando parou no par de
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tênis, graças a Deus, novos. Para ele mulheres deveriam usar saltos o tempo
todo. Carter desviou o olhar envergonhada se sentindo mais feia do que de
costume.
— Mas faz o meu! — O brasileiro lhe entregou um pequeno pedaço
de papel com o número dele, segurando a sua mão mais tempo do que era
necessário.
— E eu fico muito feliz em saber disso! — Ouve uma sutil troca de
olhares entre eles, a moça deixou escapar um leve sorriso tímido. A beleza
atrai, mas a simpatia conquista.
O que ela está fazendo? Flertando com ele na minha frente? Pensou
Blade.
— Tire as mãos da minha Marrom Bombom. — Kevin “chegou
chegando” exibindo um copo de coquetel de morango em uma das mãos,
como se fosse a bebida mais forte dali. Agora estava sem o casaco, se
achando, dentro de uma camisa branca com bolinhas laranjas com as mangas
dobradas até os antebraços.
— Sua o quê? — O barman perguntou com vontade de rir, o menino
era naturalmente engraçado.
— Nada, Miche, e você, Kevin, porque não vai dançar um pouco?
Daqui a pouco seus pais vão te chamar para ir embora, então tem que
aproveitar, gatinho!
O Homem Sem Lei ficou reparando a forma que ela abaixou para ficar
do tamanho do garoto para ajeitar a sua gravata chamativa, sorria para ele de
forma amável, quando terminou bateu o dedo indicador na ponta do nariz
dele, depositando um beijo no rosto.
— Ótima ideia, Bombom! — Pegou na mão dela e saiu arrastando-a
para o meio da pista de dança.
Jesse tentou se soltar, infelizmente não teve sucesso. Quando viu já
estava sendo empurrada de um lado para outro pelas pessoas, a música que
estava tocando era animada. Kevin rodopiava feito um pião, rebolando,
sumindo no meio da multidão. Já Carter cruzou os braços, não sabia dançar.
— Feche os olhos e deixe se levar pela música, gatinha, pode se soltar
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um pouco. — Olhou para ela por cima dos óculos fundos de garrafa, de uma
forma muito séria.
— Mas só um pouquinho, Bombom, não abuse da minha boa vontade.
Ela soltou uma gargalhada alta, do tipo de virar a cabeça para trás.
Quando caçoou o adolescente, ele já tinha sumido novamente, era uma
figura. Ela decidiu fazer o que ele disse, imaginou como se estivesse sozinha
em casa com o fone no ouvido. Como que no automático levantou os braços
acima da cabeça e deixou-se levar ao som das batidas, agora era um ritmo
mais suave, que nunca tinha ouvido antes. Remexia os quadris de um lado
para o outro, de forma delicada. De forma tímida, deslizou as mãos pela
lateral do corpo, visivelmente sem jeito. O que deixou o ato ainda mais
erótico. Blade observava cada movimento dela encostado a uma pilastra de
forma despojada. Os olhos como duas pérolas iluminadas pelo uísque,
brilhantes e intensos. Ela era tão tímida, um diamante bruto, só esperando
para ser lapidado.
Maldonado sabia que não deveria estar ali, se expor daquela forma era
loucura. As duas esferas cor de jacinto estavam ao mesmo tempo na dança
inocente da moça, mas sensual, e na centena de seguranças circulando,
cochichando uns com outros, olhando para os lados desconfiados, sabiam que
o ladrão estava entre os convidados. Estava confuso e surpreso com as
próprias atitudes, aquele não era ele, estava se comportando como um homem
das cavernas marcando território em um terreno que não era dele, e nem
queria que fosse. Virou o uísque em um só gole, decidido a ir embora e
esquecer aquela noite estranha, principalmente por conta de um tal de
"Michelangelo" que tinha aparecido dos quintos dos infernos e, assim como
ele, estava a admirar Jesse dançando. É melhor sair antes que eu cometa um
homicídio triplamente qualificado em público, esse idiota está pedindo para
morrer.
Deu uma última olhada nela antes de virar as costas para ir embora,
ela continuava com os olhos fechados mexendo o corpo no ritmo da música.
Por um momento Blade quase não foi, mas deixou a razão falar mais alto e
seguiu o seu caminho. Não deu nem dois passos quando ouviu risadas altas e
viu do que se tratava. O corpo todo ficou rígido, a expressão mais séria que o
habitual. Jesse estava caída no chão de qualquer jeito, ela havia
inexplicavelmente tropeçado no próprio pé e caído bruscamente, na verdade
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perdeu o equilíbrio ao vê-lo indo embora. Devido à força no impacto, o coque


havia se desfeito, deixando uma bagunça de cachos sobre o seu rosto. Ele não
se importou, não se importava com nada nem com ninguém. Michelangelo
olhava para aquela cena com o coração doendo, imediatamente pulou o
balcão e foi em socorro da moça.
— Dance comigo — ordenou Maldonado. O barman foi rápido, mas
não o suficiente.
Jesse levantou o olhar chocada, ele havia estendido a mão para ajudá-
la a se levantar. Ainda meio atordoada, delicadamente segurou sua mão,
sentindo a força e a rigidez da dele que a ergueu com a maior facilidade,
libertando-se do contato imediatamente. Carter percebeu quando ele a limpou
a mão no paletó, com uma expressão de nojo como se tivesse tocado em um
cão sarnento.
— Eu não sei dançar! — respondeu sem jeito fitando os pés,
mordendo o lábio inferior.
— Não foi o que me pareceu quando estava agora pouco mexendo o
corpo feito uma cobra cascavel, balançando o chocalho, muito menos para os
olhares masculinos que estavam sobre esse pedaço de pano que chama de
vestido. — Passou a mão no cabelo incomodado ao lembrar, Jesse não
entendeu a aspereza na voz dele.
— Por que quer dançar comigo, se não suporta que eu o toque? Isso
não faz sentido — perguntou confusa.
— Também gostaria de saber a resposta — respondeu rude, até um
pouco nervoso talvez.
— Obrigada pelo convite, mas acho melhor não — ameaçou sair.
— Não foi um convite e acho bom para sua segurança e a dos demais
presente não me contrariar. Posso ser muito destrutivo às vezes, não vai
querer pagar para ver.
Discretamente abriu o paletó propositalmente para que ela visse as
duas armas em sua cintura, a jovem sentiu um calafrio passar pela sua
espinha.
— Está bem, eu aceito. — Instintivamente a investigadora levou a
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mão ao ombro dele. Sentiu imediatamente os seus músculos ficarem tensos,


talvez tivesse se arrependido do convite.
Para sua surpresa sentiu a ponta dos dedos de Blade deslizar em volta
da sua cintura puxando-a para perto dele, mas deixando uma distância
consideravelmente segura entre os dois.
— Assim está melhor! — Colocou o cabelo dela atrás do ombro,
arrumando aquela bagunça de cachos, gentil até demais na opinião dela.
— Obrigada! — Agradeceu tímida, sem tirar os olhos dos botões do
paletó dele. Aos poucos começaram a dançar. Ele era bom nisso, muito
mesmo.
— Agradeça não caindo ou quebrando nada, já percebi que é boa
nisso. — Os movimentos dele eram leves, parecia um profissional dançando.
— Acho melhor paramos por aqui então, é mais seguro. — Ela parou
de dançar no mesmo momento, evitando olhar para ele.
— Apenas fique calada e relaxe. — Tranquilizou-a pegando a mão
dela e voltando a dançar novamente, tentando manter o máximo possível de
distância, é claro. Não queria um ser tão insignificante tocando-o, poucas
tinham essa regalia. Em as que tinham eram escolhidas a dedo por ele.
— O que está fazendo aqui, aenhor? Aqui não parece ser um lugar
que costuma frequentar — perguntou inocente, sem nenhum tipo de maldade.
Seus olhos passaram em volta deles notando que todas as mulheres
tinham os olhos sobre Maldonado, fossem elas comprometidas ou não, ele
atraia a atenção de todas.
— Já disse que meu nome é Blade. — Olhou severo para ela, como
um professor reprendendo sua aluna. — Você não sabe nada sobre mim,
muito menos os lugares que frequento. Visivelmente não entende nada ligado
a moda, e também está aqui. — Se não o conhecesse, teria ficado
profundamente magoada com a grosseria dele.
— Gosto das minhas roupas, são confortáveis. Além do mais, pago
com o meu dinheiro e ninguém tem nada com isso. — Não foi uma má
resposta, apenas disse o que estava pensando.

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— Cuidado com esse pé assassino, se continuar assim, vou terminar


essa dança aleijado. — Foi irônico, abusando também.
— Desculpe-me! — Manteve os olhos no chão com medo de pisar
nos pés dele novamente.
— Olhe para mim, não precisa se preocupar investigadora, eu não
mordo. — Olhou para ela com malícia, cheio de segundas intenções. — A
não que você queira isto, é claro! — Ela estremeceu, tentando mudar de
assunto imediatamente.
— Seu nome é tão diferente, acho que só vi uma vez em um filme de
vampiros na minha adolescência, se não me engano. — Suspirou fundo,
tentando ter um diálogo normal com ele.
— Esse não é meu nome verdadeiro, apenas um apelido que o meu
pai me deu, no mundo do crime assim que nascemos ganhamos um apelido
do pai e o usamos junto com o sobrenome dele. Caso precise mudar de
identidade algum dia tenho um nome verdadeiro e o segundo nome da minha
mãe, totalmente desconhecido para recomeçar —explicou, educado demais
para a surpresa dela.
— Seu pai foi muito criativo. — Sorriu docemente.
— O que está rolando entre você e o zangado? — Mandou logo de
cara.
— Nada! — Ela estava visivelmente constrangida com o assunto. —
Por enquanto! — Mas não escondeu suas intenções.
— Esqueça, nunca vai poder competir com a Branca de Neve. —
Tentou fazer piada, mas era sério demais para dizer alguma coisa engraçada.
— Nunca gostei das princesas das Disney. — Deu de ombros. Blade
não disse mais nada, involuntariamente estava prestando a atenção na letra da
música que começou a tocar, era lenta, mas intensa ao mesmo tempo.
When a Man loves a woman…

(Quando um Homem ama uma Mulher)


Quando um homem ama uma mulher Não consegue pensar em mais
nada!
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Ele trocaria o mundo


Pelas coisas boas que encontrou nela.
Se ela for ruim, ele não percebe.
Ela não erra nunca, mesmo sendo atrapalhada.
Ele vira as costas para os seus melhores amigos, Por ela, sim ele
faria isso…
Quando um homem ama uma mulher Gasta seu último centavo
Tentando se agarrar ao que ele precisa, Ele abriria mão de todos os
seus confortos E dormiria lá fora na chuva
Se ela dissesse que essa é a forma
Que deveria ser…
Então esse homem ama uma mulher Eu lhe dei tudo que eu tinha
Tentando me agarrar ao seu precioso amor Baby, por favor não me
trate mal Quando um homem ama uma mulher No fundo de sua alma
Ela pode lhe trazer muito sofrimento, Se ela faz ele de bobo
Ele é o último a saber
Olhos apaixonados nunca conseguem ver…
Quando um homem ama uma mulher Ele nunca pode fazer mal ela
Ele nunca iria gostar de outra garota Sim, quando um homem ama
uma mulher E você sabe exatamente do que eu estou falando, Porque ama
essa mulher em seus braços…
— Se eu conhecesse quem escreveu essa porra de música, dava um
tiro nele! — rosnou. Mas Jesse nem ouviu.
Ela estava quase cochilando com a cabeça encostada no peito dele,
sentido o cheiro do perfume que vinha evitando a dias, ouvindo o coração
daquele bandido bater forte e acelerado como de um beija flor. Ele nem viu
quando a jovem se aproximou dele daquela forma íntima, mas por estranho
que fosse tê-la tão perto, não a afastou. Ao contrário, sua mão desceu mais
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abaixo na cintura dela a trazendo mais para perto de si.


— É com uma dor enorme que quero anunciar o roubo das joias da
empresa Fox, que foram emprestadas para o desfile da estilista Nayla Borges.
Segundo o chefe de segurança o ladrão está aqui no meio dos convidados
com as peças furtadas, então esse evento acaba aqui. Ninguém sai sem ser
revistado, o local está todo cercado pela polícia.
— Anunciou o chefe de segurança causando uma onda de estresse
entre os convidados, acabando com a festa. Blade sentiu Carter paralisar em
seus braços, deu dois passos para trás horrorizada. Ele sabia o que ela estava
pensando e não sentiu remorso, não mesmo.
Misteriosamente as luzes piscaram e do jeito que apareceu sumiu em
um piscar de olhos. A investigadora procurou a amiga por toda parte, mas
não a achou. Nayla havia desaparecido também, levando o seu celular e as
chaves. Como o pessoal da polícia presente a conhecia não foi revistada, saiu
sem nenhum problema.
— Pelo menos não precisei ser apalpada por ninguém e nem ter a
minha bolsa toda revirada. — Suspirou aliviada, andando à procura de ponto
de ônibus já que tinha perdido a carona da amiga. — Espere aí, eu não tenho
bolsa. — Arregalou os olhos assustada com um volume pendurado no ombro,
era pequena e de couro marrom, idêntica à de uma mulher que estava
dançando perto deles.
— Cretino! — Praticamente gritou ao abri-la e ver as joias dentro
dela, não fazia ideia de como ele fez aquilo. Blade sabia que não a
revistariam por ser uma policial, então a usou para sair com as peças sem
gerar nenhuma suspeita. Ele havia a usado para se safar, por isso tinha a
chamado para dançar. Tinha tudo planejado, por isso chegou perto dela.
Passaria pela segurança sem nenhum problema, poderiam virá-lo as avessas e
não achariam nada. E agora o que faria com aquelas joias? Como explicaria
para a melhor amiga que estavam com ela? Sentiu-se usada, o pior ser do
mundo.
— Esse dia não pode ficar pior — resmungou enquanto andava
pensado no que havia acontecido naquela noite, queria acreditar que ele não
tinha nada a ver com isso, mas a resposta era óbvia.

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Jesse sentiu um vento gélido tocar a ponta do seu nariz quando


ultrapassou o terceiro quarteirão, acompanhada de um pingo de chuva. Atrás
daquele vieram vários outros, agora o momento nostalgia estava completo.
Além de humilhada, sem celular e chave, estava encharcada. Sabia que era
idiota, só não imaginava que chegava a tanto. Era incrível como todos se
aproximavam dela na intenção de usá-la. Agora não lhe restava nem
dignidade, de certo modo, querendo ou não, era cúmplice dele. Ouviu um
ronco de um motor bastante familiar andando devagar ao lado dela, não
ousou virar o rosto para confirmar o que suspeitava.
— Você pode adoecer debaixo dessa chuva. — Sua voz parecia mais
suave, sabia que ela deveria estar muito brava com ele. Carter fingiu que não
ouviu, continuou andando de cabeça erguida olhando para frente.
— Não me faça sair e pegá-la à força investigadora, esse terno custou
mais do que você ganha em um ano. — Ela não aguentou parou repleta de
raiva.
— É só em grana que você pensa não é mesmo, seu cretino? Se é isso
que quer pegue e vá embora, nunca mais quero te ver. —Arremessou a bolsa
pela janela do carona acertando na cara dele, era boa de mira, e saiu correndo
rua afora debaixo da chuva. Podia ouvir os passos dele cada vez mais rápidos
atrás dela. Jesse tentou olhar para trás, mas não vendo uma pilha de lixo à sua
frente, acabou se esparramando bem em cima dela.
— Da próxima vez que me mandar para o inferno, é você que vai
parar lá!
Ele a levantou de qualquer jeito toda suja e molhada arrastando-a para
um beco próximo a imprensando na parede, balançando Carter pelos braços
com força. Estava tão nervoso que nem notou como ela estava chorando
assustada, só parou de gritar quando viu que a tinta do rosto dela havia saído,
deixando evidente a marca da crueldade que o pai havia feito com ela. Blade
literalmente paralisou, os olhos saiam faíscas. Nunca tinha ficado não
nervoso antes, o sangue estava fervendo em suas veias, parecia o demônio em
pessoa.
— Quem fez isso com você? — gritou de uma forma assustadora,
arrancando as duas luvas dela. Levou as mãos na cabeça transtornado, estava
fora de si.
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— Ninguém, isso não é da sua conta — exclamou com a voz trêmula,


estava com medo da explosão dele.
— Fale logo, porra! — Socou a parede ao lado do rosto dela, abrindo
um buraco. Ela permaneceu calada, desviando o olhar.
— Seja quem for vou achá-lo nem que seja no inferno e o matarei da
pior forma possível — disse perversamente com os olhos acinzentados
escuros. Pelo seu tom não estava brincando, e não estava mesmo.

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CAPÍTULO 9

Mesmo sendo uma noite gélida por conta da chuva, Jesse podia sentir
o calor da respiração ofegante dele tocar o seu rosto, uma mistura de uísque
com gim. Blade a puxou para um canto mais discreto e escuro do beco,
próximos a um monte de coisas velhas e poças de água, onde mesmo se
gritasse o mais alto que pudesse ninguém a ouviria. O tênis novo dela estava
encharcado. Ele apertava o braço dela com força, mas com cuidado para não
a machucar, apoiando a outra mão na parede ao lado do ombro dela, Jesse
estava presa. O cheiro de Carter era diferente das mulheres com quem
costumava sair, leve e suave. Não doce demais e enjoativo ou chamativo. Ela
não tinha nada que chamaria a atenção de ninguém, principalmente a dele.
Por isso o intrigava tanto, o deixava confuso e irritado. Não deveria se
importar tanto com o que acontecia com ela, mas se importava, muito.
— Quando eu faço uma pergunta, espero uma resposta rápida,
investigadora. — A voz dele soou perversa, mortalmente sexy.
Jesse, por sua vez, estava irredutível. Ela virou o rosto para o lado,
desviando os olhos dos dele, duas safiras iluminadas pelo ódio. Blade
observou como as gotas de água caiam sobre o rosto delicado da moça,
traçando um caminho lento e doloroso. Deslizando pelo pescoço, brincando
um pouco sobre o colo, depois escondendo dentro do decote generoso do
espartilho da fantasia de Cisne Negro. Ele notou que assim tão de perto os
seios dela pareciam ser bem maiores do que pareciam. Podia sentir o cheiro
de medo, o coração batia rápido como de um ratinho assustado. Como
alguém tinha coragem de machucar um anjo como ela? Tão frágil e delicada
como uma flor.
— Presta bem a atenção, porque só vou perguntar mais uma vez.
Quero o nome desse maldito agora! Entendeu bem o que eu disse, Jesse?
Carter limitou-se apenas a olhar para ele, a forma autoritária como se
dirigia a ela estava começando a irritá-la. Que direito tinha sobre a vida dela?
Falava como se fosse seu dono ou se tivesse o direito de tratá-la de tal forma.
Estava cansada disso, das pessoas a tratarem feito um fantoche, um ser
indefeso, que não podia se defender sozinha. Não aguentava mais se sentir
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humilha, usada pelos outros.


— Por que não atira logo em mim e segue o seu caminho? Já não
tenho mais utilidade para você, então pare de fingir que se importa comigo
porque nós dois sabemos que não. — Sua voz saiu mais para um sussurro, tão
baixo que ele quase não ouviu. Ela deveria ter tido a coragem de olhar dentro
dos olhos dele, mas não teve, infelizmente. Teria visto que talvez ele se
importasse sim, mais até do que deveria.
Blade observou a sua postura naturalmente submissa diante dele, a
falta de coragem de encará-lo, os lábios trêmulos, os olhos piscando várias
vezes para conter o choro, arregalados como se tivessem visto um mostro. E
estava na frente de um! Jesse estava assustada e com medo dele.
Ele a soltou imediatamente, dando dois passos para trás, recuando.
— Nunca machucaria você! — A voz dele saiu baixa, como se tivesse
pensado em voz alta. — Nunca — completou com uma certeza que assustou
os dois, principalmente ele.
— Mas você me machucou muito hoje! — Olhou para ele com os
olhos marejados, os lábios se projetando um pouco para fora, trêmulos. —
Não é necessário deixar marcas para ferir alguém, certas atitudes doem mais
do que um tiro. A única diferença entre você e o meu pai é que as marcas que
ele deixou em mim são visíveis, as suas, não.
Ela intencionalmente levou a mão sobre o coração, abaixou a cabeça
deixando caírem livres as lágrimas que estava segurando há muito tempo. O
Homem Sem Lei não pôde enxergar, sua visão foi vedada pelo manto de
cabelos molhados que cobriu o rosto dela. E naquele momento um
sentimento que não conhecia tomou conta dele, sentiu compaixão ou até
culpa talvez. Maldonado ameaçou se aproximar dela, porém, desistiu ao ver
como a jovem envolveu os braços em volta do próprio corpo se encolhendo
toda, encostando-se cada vez mais na parede como se pudesse atravessá-la e
sair correndo para bem longe dele. Tão indefesa! Poderia ser destruída com
um sopro!
— Sou bom em machucar as pessoas, investigadora. — Enfiou as
mãos dentro do bolso da calça de tecido preto, sempre fazia isso quando
estava nervoso. Ela o deixava assim, sem ação. — Mas em você eu jamais

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tocaria um dedo sequer.


Ela levantou a cabeça para encará-lo, ele não soube distinguir se era a
chuva ou lágrimas que rolavam pelo rosto da moça feito um rio. As palavras
de Blade pareciam sinceras, só não entendeu a expressão pesada presente no
rosto dele ao proferi-las.
— E vou garantir que ninguém mais toque em você! — Encurtou
ainda mais a distância entre os dois, dessa vez ela não recuou. — Nem
mesmo o seu pai — completou firme.
— Mas você vive me ameaçando. — A voz dela era chorosa.
— Quando quero realmente matar alguém, não aviso a pessoa antes.
— Aproximou sua boca bem perto da dela. — Ajo silenciosamente.
Ela estremeceu.
—Você vai matar o meu pai? — perguntou com medo de ouvir a
resposta.
— Matar, não… — Ele deixou o resto da frase solta no ar, como um
balão de gás sem rumo.
— Obrigada! — Ela sorriu tímida fitando as próprias mãos, fazendo
toda a raiva dele desparecer.
Como ela faz isso? Só com um sorriso…
— Porém, não vai mais morar com ele. — Foi taxativo, sem aberturas
para argumentos.
— Não moro mais já faz duas semanas, agora sou só eu contra o
mundo — exclamou orgulhosa.
Morando sozinha? Isso não pode ser, alguém tem que cuidar dela."
— Não está mais sozinha. — Ele olhou no fundo dos olhos dela de
um jeito muito intenso. Carter tinha mais medo dele assim, calmo, do que
quando tempestuoso.
— Eu preciso ir. — Saiu praticamente correndo, mas sentiu o braço
ser puxado bruscamente.

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— Você tem duas alternativas, pode ir andando bem devagar sem


tentar nenhuma gracinha e entrar no meu carro de boca fechada e permanecer
todo caminho assim. Ou ser do meu jeito, mas vou logo adiantando que não
vai gostar nem um pouco. — Ela preferiu não arriscar e ficou com a primeira
alternativa, era mais segura.
— Onde você está morando agora? — Blade perguntou assim que
colocou o carro em movimento.
Se soubesse o quanto iria se irritar com a pergunta, não a teria feito.
— Em Compton, virando à esquerda ao sul do centro. Na terceira
quadra, prédio de tijolos vermelhos — explicou olhando a vista pela janela.
Estava nervosa demais para olhar para ele.
— Por que uma mulher se mudaria para a mesma rua onde quase foi
estuprada? Se quiser que isso aconteça, por que não sai por aí pelada? Caso
não saiba, esse é o bairro mais perigoso da cidade. — Era incrível como ele
não conseguia conversar com ela de outra forma a não ser gritando. Jesse
tinha o poder de tirá-lo do sério.
— Porque esse foi o único lugar que o meu dinheiro dava para pagar.
— A resposta dela o acertou em cheio, provavelmente um apartamento
naquela área seria uns oitocentos dólares ao mês, valor seis vezes menor do
que pagou em uma jaqueta que comprou na semana passada.
Será que ela estava se alimentando direito? Ou pior, talvez nem
tivesse o que comer em casa.
Blade por um instante tirou os olhos da estrada para olhar para el e se
assustou em com o que viu. Carter havia visivelmente perdido peso naquele
curto espaço de tempo, dava para ver perfeitamente os contornos dos ossos
debaixo da pele, tão frágeis que pareciam quebrar com a mesma facilidade de
uma taça de cristal. Reparou também em como ela mexia o anel com uma
pedrinha preta no dedo anelar de um lado para o outro de um jeito muito
delicado e sexy.
— Pare com isso — ordenou.
— Com o quê? — perguntou confusa.
— Ficar mexendo na porra desse anel de forma tão indecente. — Nem
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ele entendeu o porquê havia dito aquilo, só queria que ela parasse com aquilo
imediatamente.
Jesse pensou em respondê-lo grosseiramente, mas preferiu apenas
ignorar e voltar a olhar a paisagem. Blade então reparou que havia mais
marcas do cinto do pai nas costas, tão fortes como no pescoço.
— Maldito! — resmungou baixinho. Não deixaria aquilo passar
impune, não mesmo.
— Onde estamos indo? — Jesse perguntou confusa, aquele caminho
não era o do seu bairro.
— Vamos passar em um lugar antes, tem que tirar essa roupa molhada
antes que pegue um resfriado. — Ele está sendo cuidadoso, pensou ela com
um leve sorriso no rosto.
Só então Jesse percebeu o quanto estava tremendo de frio, mesmo
com o ar quente do Impala ligado no último grau. Não demorou muito para
entrarem em um condomínio de luxo, um dos mais caros de Los Angeles. A
casa era a última da rua, a maior e mais luxuosa. Não dava para ver direito
por estar à noite e o vidro do carro embaçado por causa da chuva. Um portão
enorme se abriu dando a visão de uma centena de carros de todos os modelos,
desde Ferrari até clássicos dos anos oitenta. Era evidente que ele tinha uma
coleção, enquanto ela não tinha condição nem para comprar uma bicicleta
velha.
Usaram um elevador interno que deu direto no que ela deduziu ser o
quarto dele. Era enorme. Sem dizer nada, Blade sumiu em uma porta à
esquerda, voltou minutos depois apenas de calça jeans folgada exibindo os
músculos cheios de tatuagens e com um conjunto de moletom cinza em mãos.
— Vista isso e permaneça aqui até que eu volte. — Olhou para ela
ameaçadoramente, com o cenho levemente franzido, estava impaciente. —
Tente não quebrar nada, não serei tão bonzinho como da última vez. — Foi
direto, o olhar severo deixou bem claro que não estava blefando.
Ele jogou as chaves do carro sobre o criado-mudo e saiu apressado
por outra porta que dava acesso ao corredor. Jesse fechou a porta
imediatamente, livrando-se das roupas molhadas o mais rápido que pôde,
tremendo os lábios já cianóticos em um tom azulado-vivo. A blusa de Blade
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ficou enorme na moça, quase um vestido. Com muito cuidado sentou-se em


uma poltrona de couro ao lado de uma mesinha redonda, onde havia uma
coleção de livros de filósofos famosos como Aristóteles, Platão, Sócrates e
René Descartes. Por que um bandido gostaria de ler algo como aquilo? Ele
não parecia ser um homem que lia filosofia ou mesmo poesia.
Também havia um abajur e alguns objetos pessoais dele, poucos.
Permaneceu imóvel como se estivesse com medo de sentar-se na cama e
quebrá-la. Sem mexer o corpo, girou os olhos discretamente, observando
cada detalhe do lugar. Assim como o quarto dele no esconderijo, aquele não
ostentava muitos móveis, mas o que tinha eram requintados e de bom gosto.
Uma cama espaçosa no centro, Carter se perguntou se ele deveria trazer
muitas mulheres ali. Deduziu logo que sim, um homem lindo como aquele
não parecia ser o tipo que passava suas noites sozinho. As paredes pintadas
em um tom cinza escuro-fosco. Horrível, pensou ela, com prateleiras de vidro
repletas de miniaturas de carros, inclusive uma idêntica ao Impala 67. Não
duvidaria nada se ele tivesse uma miniatura de cada carro que viu na
garagem. Ao lado da porta que acreditava levar ao banheiro, havia uma do
closet. Deduziu que não teria mal algum em dar uma olhadinha de longe, sem
tocar em nada. Entrou com muito cuidado, pisando na ponta dos pés como
uma bailarina. Havia uma imensidão de cabides pendurados, separando as
peças por cores e estilo e duas fileiras só de camisas pretas e brancas. Parecia
até um tabuleiro de xadrez, era evidente a falta de tons fortes, gostou muito
disso, sempre preferiu tons neutros a rosa choque. Em outros lugares notou
jaquetas de couro e prateleiras de madeira com várias calças jeans dobradas.
As peças variavam em marcas como Calvin Klein, Dolce Gabbana, Armani e
outras tantas que gente da classe dela não tinha conhecimento que existiam.
Não resistiu e acabou pegando uma das jaquetas para sentir o cheiro dele,
ficou tão atordoada que foi dando passos para trás à procura de algo para
encostar até que a firmeza das suas pernas voltasse. Não bastava ser lindo,
tinha que ser cheiroso também.
Quando alcançou a parede com as costas, teve a impressão que ela
havia se movido, virou assustada e viu uma pequena abertura nela. Era uma
passagem secreta para um quarto cheio de armamento, um verdadeiro arsenal.
Cabines contendo as armas mais potentes do mundo, entre metralhadoras
automáticas, pistolas de vários modelos, fuzis M16, Carabinas M4A1, Rifles
de longo alcance, Warfare ou AW, escopetas de combate. Jesse chegou a
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babar em uma Desert Eagle deixada como destaque em um tripé. Sempre


sonhou em ter uma daquela, era silenciosa e rápida. Porém, o que lhe deixou
em choque mesmo foram os quadros de homens com estilos totalmente
diferentes, mas com os mesmos traços físicos. Eram fotos de várias épocas,
grande parte em preto e branco, as roupas também deixavam claro a diferença
de tempo de uma para outra. Com certeza uma árvore genealógica dos
Maldonado, destacando os patriarcas da família. O detalhe mais importante
era que todos eles seguravam uma mesma arma. Era uma relíquia passada de
pai para filho. Meu Deus! Então o The Colt existe mesmo. A prova da
legitimidade dela era o pentagrama no cabo representando a proteção contra o
mal. Conta a lenda que a arma e as treze balas feitas especialmente para ela
foram feitas por Samuel Colt, um armeiro, inventor e industrial de Hartford.
Ele fundou a Cllt's Patent Firarms, dizem que quando o cometa Halley passou
em mil oitocentos e trinta e cinco. A arma era muito citada por John
Winchester, pai de Dean e Sam na série Supernatural, temporada baseada na
lenda real. Afirmava que qualquer ser que fosse atingido por uma dessas,
morreria, incluindo criaturas que são imunes a balas, pois eram feitas de ferro
sagrado ou prata e gravadas com os números de um a treze. Além de servir
para matar qualquer criatura, também é uma das chaves para abrir um dos
portões que separam nossa Terra do mundo inferior, prevenindo a entrada
destes seres em nossa realidade. Dizem que existem outras armas capazes de
ferir seres sobrenaturais, mas de todas, o Colt é de longe a mais eficiente.
Nela vem gravada a seguinte frase: "Non timebo mala", que significa
"Nenhum mal temerei", referência ao Salmo 23:4.
Nunca ninguém provou, de fato, que a arma existia. Samuel nunca
assumiu tê-la criado, mas também nunca disse que não. Segundo
historiadores a peça foi feita em segredo com a ajuda do pai, que era um
homem com vasto conhecimento bíblico, por isso quis criar a única arma
capaz de conseguir ferir qualquer ser, mortal ou não.
No último quadro, Jesse viu um homem com cara de mal, com os
mesmos olhos azuis intensos de Blade. A moldura era mais moderna que as
demais, a foto em cores vivas. Trajando um elegante terno branco de gravata
borboleta preta, com uma bela rosa vermelha no bolso, tinha cabelos
castanhos claro, lisos e sedosos. Segurava o Colt com força, como se fosse a
coisa mais valiosa do mundo. Jesse já vira aquela arma antes, um dia quando
tinha dez anos passou em frente ao escritório do pai, pensou ser apenas uma
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cópia barata. Agora teve a certeza que era a legítima, mas, pensou: como ela
havia saído da família Maldonado e ido parar na mão do major?
Não teve muito tempo para raciocinar, foi obrigada a sair às pressas
ao ouvir vozes alteradas vindas de outro cômodo da casa. Seguiu até onde
elas vinham, não deveria, mas o fez assim mesmo. Estava preocupada com
Maldonado, teve medo de alguém estar fazendo mal a ele. Encostou-se ao
lado da porta do escritório que estava aberta.
— O que é tão importante que não pode esperar até amanhã, Estevão?
— Logo reconheceu a voz zangada de Blade, parecia estar sempre de mau
humor. — Tenho um problema para resolver, quero me livrar logo dele!
Jesse se sentiu mal, era assim que ele a via, um "problema", só queria
se livrar dela o mais rápido, como uma pedra no sapato.
— Eu descobri uma coisa muito importante em um bar no lado sul da
cidade, e é sobre você Maldonado! — A investigadora se assustou com o
excesso de preocupação presente naquela voz grave, era a de Salvatore, ela
pôde notar uma certa sobriedade natural nela e um sotaque inglês forte.
— Primeiro gostaria de pedir a palavra para dizer algo muito
importante para vocês, Estevão. — Esse tinha um leve sotaque oriental, ela
percebeu logo que se tratava de um chinês muito educado. — Vão se foder!
Seus dois filhos da puta do caralho — Xing explodiu irado.
— Gente, que violência é essa? — Salvatore perguntou horrorizado
com o pequeno desabafo do parceiro.
— O que inglês? O Li tem todo direito de estar puto com vocês, ele
ficou desesperado com o sumiço dos dois. Eu estou até agora tentando saber
o que você foi fazer do lado sul da cidade? Aquele lugar é perigoso até para
homens como nós, não me diga que você voltou a se… — Julius não teve
nem coragem de terminar a frase, lembrar dessa época da vida de Estevão era
doloroso para todos. — Também queria saber como Blade conseguiu sair
daquele lugar cheio de policiais cercando o local. — A montanha de
músculos parecia uma criança emburrada, principalmente pela cara fechada
fazendo bico.
— Primeiro, onde o Estevão foi não é da nossa conta, muito menos a
forma como eu consegui sair de lá é da de vocês, então parem de chiliques e
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deixem-no falar o que descobriu. — Jesse percebeu que Blade não era
autoritário apenas com ela, era a natureza dele.
— Eu saí da festa sem rumo, não estava bem… Precisava de algo
forte, então fui ao Bar Bacardi. Estava sentado no balcão bebendo, usando a
minha capa com o capuz na cabeça, havia dois homens sentados ao meu lado
que começaram um assunto pesado. — Fez uma pequena pausa, não sabia
como dizer aquilo. — Era sobre a morte dos seus pais Blade, tem gente
nossa, do mundo do crime, que vendeu a cabeça deles para a polícia,
receberam uma fortuna para levá-los para aquela emboscada. Era uma
armadilha. Agora é a sua que estão querendo e ofereceram o dobro do que
pagaram por eles. Pelo o que eu entendi esses caras no bar eram tiras
disfarçados, tem gente dos dois lados querendo ganhar essa grana. Não
podemos confiar em ninguém e ter muito cuidado até pegarmos esses filhos
da puta e quando isso acontecer, que Deus tenha piedade deles.
Jesse nem respirava mais, estava desesperada com que ouvira, pelo
jeito queriam matá-lo a todo custo. E, como assim, gente da policia armou
para pegar os pais dele? Foi tudo uma fraude, uma covardia para matá-los?
Ela pensava. O pior era que o pai dela estava envolvido, a investigadora só
não sabia até que ponto, mas iria descobrir tudo, principalmente por que a
Colt estava com ele.
— E de quanto seria essa quantia? — perguntou Li interessado, com a
sobrancelha grossa arqueada.
— Cala a boca, chinês. — Julius deu um tapa na nuca dele.
— Credo, a gente nem pode mais fazer piada com a desgraça dos
outros. — Xing esfregou o local dolorido.
— Pelo sangue de Jesus, agora não é hora de fazer piadas. — Estevão
esfregou o rosto impaciente, estava realmente preocupado.
—Você disse que venderam a cabeça dos meus pais? — Havia uma
mistura de raiva com dor na voz de Maldonado.
— Pelo o que eu entendi, sim, Blade, e teve gente grande da polícia
envolvida nisso. — Salvatore olhou triste para o parceiro, sabia o quanto doía
tocar naquele assunto. Estava com o coração partido devido ao reencontro
com Nayla, mas deixou os problemas de lado no momento por uma causa
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maior: a vida de um amigo.


— Pois eu vou descobrir todos envolvidos nisso e esquartejar um por
um, não vai sobrar nenhum para contar história. — Carter teve que respirar
bem fundo para ver se passava o calafrio que o tom sombrio dele lhe causou.
Havia muita maldade em suas palavras, como uma cobra destilando o
veneno. — Mas, isso é problema meu, não quero envolvê-los nisso.
— Mexeu com um, mexeu com todos. — O mexicano bateu no
ombro dele, mostrando que estavam juntos nessa.
— Eu só sei que quero ver tiro, porrada e bomba — gritou o chinês,
pra lá de animado.
— Disse tudo, China! Vamos com tudo para cima deles! — Julius
bateu na mão de Xing que parecia a de uma criança comparada a dele.
— Li, você acha que consegue entrar no arquivo da polícia e ter
acesso ao caso dos meus pais? — indagou Blade.
A investigadora gelou, o nome do major estaria lá. Ela estava tão
desesperada que gotas de suor desciam pelo rosto dela, não sabia o que fazer.
— Infelizmente não. Posso encontrar qualquer coisa que esteja em
qualquer computador. Mas esse caso já foi arquivado há muito tempo, deve
estar guardado dentro de uma caixa na delegacia que foram detidos.
Precisaríamos da ajuda de alguém lá de dentro para ter acesso a isso, o
problema é conseguir alguém de confiança para isso — o chinês exclamou
desanimado.
— Eu posso ajudar. — Jesse se materializou na porta em um
rompante de coragem, quase matando Blade do coração e de raiva.
— Quem é essa com cara louca? — Estevão perguntou, reparando
naquele ser indefeso parado no vão da porta, com coragem demais para quem
tinha apenas um metro e meio de altura, no máximo. Não deixou de notar que
ela vestia as roupas de Blade, o que ele estranhou bastante, já que ela nem de
longe fazia o tipo dele.
— Sou Je… — Tentou dizer alguma, mas estava nervosa demais para
isso. Tentou ir até ele, mas tropeçou do tapete de camurça, porém não caiu
dessa vez. Foi bem pior, apoiou-se em uma estante, na qual derrubou uma
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estátua no valor de um milhão de dólares.


— Alguém tem cola aí? — Jesse perguntou sem graça, com um
sorriso amarelo no rosto.
— Será que você nunca faz o que eu mando, porra? — gritou Blade,
impaciente. Ela desviou o olhar, focando em qualquer parte menos para ele.
O mexicano levantou do sofá roxo-escuro, fazendo este ranger como
agradecimento de poder descansar um pouco daquele monte de peso, para
poder observá-la melhor, estava intrigado. Curioso com aquele ser pequeno e
frágil com os olhos arregalados parada no vão da porta, parecia uma boneca
assustada. Ela pensou em sair correndo, era o homem mais alto que vira na
vida. Julius cruzou os braços, os músculos quase explodiram de tão grandes
fitando-a desconfiado, pensando o que uma florzinha como aquela estava
fazendo na toca dos monstros.
— Eu acho que deixaram a porta do manicômio aberta. — Li soltou
uma gargalhada alta, realmente o cabelo dela havia secado e estava livre pelo
ar, totalmente à vontade. Ainda tinha um pouco de tinta no rosto e a roupa
enorme que ela estava usando não a favoreceu em nada.
— Fazendo lanchinho depois do trabalho, Blade? E nós preocupados
com você preso naquele lugar.
Jesse corou com a forma maliciosa com que o Julius fez o comentário,
mas gostou da voz dele, era amável.
— Não sou homem de fazer "lanchinho". Se não for para fazer a
refeição completa, prefiro nem tocar no prato. — Foi desnecessariamente
grosso.
Maldonado era um misto curioso de ironia com sarcasmo. Ela nunca
sabia quando ele era cuidadoso, sendo grosso ou debochando dela. Naquele
momento nenhuma das hipóteses cabia na situação.
— Até porque já fiz minha refeição hoje, não é qualquer feijão com
arroz que mata a minha fome. — Jesse não entendeu o comentário dele, mas
inexplicavelmente corou assim mesmo.
— O papo está ótimo, mas até agora ninguém disse quem é a Sansão.
— Estevão não podia evitar, o cabelo dela era chamativo demais, parecia ter
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vida própria.
— Sou Jesse, prazer!
Blade suspirou fundo nervoso, os três haviam sorrido ao ouvir aquela
voz doce. Estavam encantados, até mesmo Estevão. Não foi bem um sorriso,
apenas um relaxar dos lábios, o que era muito vindo dele. Caminhou até ele,
que estava usando um pijama esquisito sentado em uma mesa de xadrez, com
uma partida parada no meio. Ele franziu o cenho intrigado, ela não se
assustou com a aparência sombria dele, continuava sorrindocomo se fosse
uma pessoa normal.
— Estevão Salvatore, ao seu dispor, senhorita! — exclamou
educadamente, mas não ofereceu a mão, jamais deixaria ninguém tocar nele.
Carter o abraçou de forma fervorosa, ela era assim, carinhosa. Até mesmo
com quem não queria, mas precisava.
— Pode me soltar agora? — Ele a afastou com cara de nojo, mas
havia gostado do abraço. Estava precisando de um, aquele veio na hora certa.
—Desculpe-me — disse envergonhada, totalmente tímida.
— Ela é tão fofa, podemos ficar com ela? — Julius disse encantado
com aquele ser de atitudes espontâneas.
— Não vai querer mais quando souber quem ela é de verdade —
resmungou Blade, apoiando o corpo grande na mesa do escritório,
derrubando alguns objetos que estavam sobre ela. — Porque não diz a eles
com o que você trabalha? Eles vão amar saber… — Ele a desafiou.
— Sou investigadora do FBI de Los Angeles — revelou corajosa, não
daria a vitória para ele assim tão fácil, era uma lutadora.
O encantamento deles por ela acabou no mesmo momento que
ouviram a palavra “investigadora”, ela fazia parte do lado inimigo. Como que
por instinto, em uma fração de segundos estavam em posição de ataque e ela
era o alvo. Estevão com Nick e Clyde apontadas para a cabeça dela, Li com
uma espada afiadíssima que tirou de um compartimento nas costas rente ao
coração dela, Julius tinha os dois punhos fechados pronto para atacar.
— Ninguém vai tocar nela — Blade rosnou. — Para isso terão que
passar por cima de mim. Se alguém quiser tentar, pode vir. — Ele se
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posicionou diante dela, encarando os três homens armados sem nem fechar os
punhos. Estava relaxado, totalmente tranquilo.
— Pera aí, você disse que pode ajudar a gente? — Li abaixou a
espada, agora que a ficha dele havia caído.
— Sim, eu posso — falou ainda escondida atrás de Maldonado. O
tamanho dele tirava-lhe toda a visão.
— Não, você não pode! — Maldonado virou-se de frente para ela,
encarando-a com cara de poucos amigos.
— Eu posso sim! — Enfrentou Blade, colocando as mãos na cintura,
os cabelos alvoraçados voando como um pássaro de fogo.
Essa era a grande oportunidade de Jesse trabalhar em um grande caso,
descobrir um esquema corrupto da polícia poderia lhe garantir uma boa
promoção, e ainda esclarecer até onde o pai dela estava envolvido nisso tudo.
— Ah! Você pode? Não sabe nem segurar uma arma Jesse, é uma
verdadeira incompetente que quase matou o próprio parceiro, um desastre
ambulante. Não te quero envolvida nisso e isso não está em discussão. —
Pegou no braço dela com força, provavelmente deixaria marcas. Estava com
cara de mau, — Na verdade ela é perfeita! Quem desconfiaria dela com essa
cara de sonsa? — Estevão veio com mais uns dos seus comentários sinceros.
— Pensando por esse lado. — O chinês jogou-se no chão com a mão
no queixo na mesma posição da estátua o “O Pensador". — Ninguém
desconfia de pessoas fracassadas, ela pode entrar e sair de qualquer lugar da
delegacia sem levantar suspeitas, não é tipo de pessoa que chama muito a
atenção, sabe? É do tipo invisível. — Não queria ofender, estava apenas
sendo lógico.
— Sei exatamente o que está falando, é como se eu nem existisse lá.
— Abaixou a cabeça triste, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Sério que vocês vão dar crédito a essa maluca? Acabaram de
conhecê-la e praticamente já a colocaram na equipe, que parte do “não
confiar em ninguém vocês não entenderam”, pelo que eu sei não trabalhamos
com tiras. — Blade evitou olhar para ela, não sabia o que seria capaz de fazer
caso abrisse a boca mais uma vez.

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— O fato de eu ser uma policial não evitou me levar para sua cama,
não é mesmo? Então pare de hipocrisia exigindo uma postura deles que você
mesmo não teve. — Ela havia se vigando do comentário que ele fez no baile
perto de Michelangelo e ele sabia disso.
Blade foi para cima dela, estava possesso. Foi preciso Julius
imobilizá-lo para não voar no pescoço dela. Jesse o irritava demais, lhe tirava
do sério.
— Jamais vou aceitar trabalhar com uma inútil feito você, prefiro
morrer a me sujeitar a isso. — Cuspiu as palavras sem dó, magoando
profundamente.
— Não entendeu, Blade, tem muito mais coisa em jogo do que você
imagina. Eles vão fazer de tudo para chegar até você, isso significa que vão
atacar onde mais dói. — Estevão olhou para ele com a expressão pesada, não
era preciso ser muito esperto para saber o que ele estava querendo dizer.
— Bobbi. — Blade fechou os olhos com força, pensando que não iria
se perdoar nunca se algo acontecesse com ele.
— Ela é a nossa única chance de protegê-lo, temos que agir antes
deles.
Maldonado olhou para aquele ser angelical à sua frente, Carter não
sabia no que estava se metendo, era um caminho sem volta. Não queria metê-
la no meio daquilo, mas no momento realmente não tinha outra escolha.
— Tudo bem, ela está dentro — concordou a contragosto.
— Irmãos, são vocês? — Bobbi apareceu na porta e não estava
usando pijama. Foi a primeira coisa que os quatro repararam assim que
colocaram os olhos nele. O cabelo com pingos de chuva e o sapato sujo de
lama.
— Espero que tenha uma ótima explicação por ter saído a uma hora
dessas sem permissão e seja qual for está de castigo, garoto.
Jesse olhou para Blade pasma, ele falava com o irmão como se fosse
uma criança. Parecia ser um jovem muito amável. A forma respeitosa que
olhava para eles era admirável.

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— Primeiro, boa noite, moça! — Sorriu educadamente para Jesse,


Bobbi realmente era uma graça. — Não é todo dia que vemos uma mulher
nessa casa, hoje tem duas — comentou sem querer.
— Duas? — perguntou Julius confuso, nunca fora bom em
matemática, mas até ele tinha certeza que aquela conta estava errada.
— Boa noite! — Apareceu uma bela jovem tímida de cabelo
encaracolado, pele negra e olhos claros. Logo a reconheceram das capas de
revistas, era Lia Thompson, filha do juiz mais famoso do país.
— De onde saiu esse filhote de capeta? — Blade rosnou, olhou para a
moça negra escondida atrás do irmão caçula, os olhos cor de mel esverdeados
brilhavam de medo.
— Minha namorada, Blade! Decidi lutar por ela. Se ela foi corajosa
de fugir para vir atrás de mim, eu também devo lutar pelo nosso amor. —
Bobbi olhava para a jovem apaixonado, realmente gostava dela.
— Sua o quê? Você parou de fazer xixi na cama um dia desses,
garoto. Então pare de brincar de ser homenzinho. — Ele teve a graça de
ruborizar. Andava de um lado para o outro irado, a vontade dele era pegar a
menina e jogá-la pela janela.
— Não podia deixá-la sozinha a essa hora da noite na rua, poderia ser
sequestrada ou até morta — exagerou um pouco, era preciso para tentar
amolecer o coração duro do irmão.
— E daí? Só lamento por ela — respondeu olhando para a moça com
desdém, não gostava dela e não fazia nenhuma questão de esconder.
—Tudo bem, Lia, ele rosna, mas não morde! — Blade o fuzilou com
o olhar.
A filha do juiz abraçou o namorado, assustada, deixando-o mais
nervoso ainda.
— E você, tire as garras dele, sua peste! — Jesse não deixou de rir.
Era evidente que Blade estava com ciúme do irmão, não queria aceitar que
ele cresceu.
— O que eu disse sobre achar coisas na rua e trazê-las para casa,
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Bobbi? Pegue isso e deixe onde encontrou. — Estevão olhou para a menina
com total descaso, não tinha nenhuma importância para ele.
— Até que o moleque tem bom gosto, cara, muito linda a sua
namorada. — Xing afagou orgulhoso afagando o cabelo do Bobbi.
— Que bonitinho os dois juntos, ela fugiu só para vê-lo. Isso é
romântico demais, cara, o amor é lindo. — Julius estava se debulhando em
prantos.
— Bonitinho, Julius? Ligue a tevê — ordenou Maldonado nervoso.
O mexicano pegou o controle sobre a mesa e fez o que ele mandou,
dando vida a um monitor de cem polegadas pendurado na parede. A mesma
notícia tomava conta de todos os canais, não se falava em outra coisa.
O consagrado juiz John Thompson acabou de anunciar o sequestro
de sua filha, Lia Thompson. Ele e o filho, o advogado Maxmilian, estão
viajando para Los Angeles atrás de mais pistas. Segundo testemunhas a
jovem foi vista vagando sozinha pelas ruas da cidade mais iluminada do
mundo. O pai deu uma declaração à imprensa dizendo que veio para buscar
a filha e que os envolvidos no desaparecimento dela irão pagar muito caro
por isso.

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CAPÍTULO 10

Bobbi sentiu queimar sobre seu rosto pálido quatro pares de olhos
raivosos, cada um em seu tom diferente. Mas, o semblante amargamente
sério, era o mesmo. Era evidente o desgosto que provocara nos irmãos com
tal atitude, então, compreendeu que não devia ter trazido a namorada para
casa, isso colocou a identidade criminosa da sua família em risco. O jovem
ouviu alguém resmungar, irritado. Olhou, assustado, para o homem de
ombros largos diante dele. Blade estava totalmente imóvel e de cara feia, com
o semblante fechado demostrando o quanto estava nervoso com ele.
— Estou muito decepcionado, pensei que pudesse confiar em você,
mas diante de suas atitudes infantis vejo que não.
As palavras de Maldonado acertaram o irmão caçula feito um raio,
destruindo-o por completo. Abaixou a cabeça ajeitando os óculos redondos
na intenção de que a dor diminuísse um pouco, pois estava quase
insuportável. Jesse olhou para ele com o coração partido, não era justo punir
o jovem por estar querendo proteger a namorada trazendo-a para um lugar
onde se sentia seguro.
— É irônico você repreender o jovem por agir feito uma criança, se
tratam ele como se fosse uma.
Quando Jesse viu já tinha falado, se surpreendeu por não ter se
arrependido de ter dito. Blade lançou os olhos na direção dela como uma
flecha, estavam avermelho-escuro de tanta raiva. Ela era a única pessoa no
mundo que tinha a capacidade de tirar ele do sério de tal forma e enfrentá-lo.
A outras que tentaram se encontravam a sete palmos de terra. Fato observado
pelos outros presentes no local, os mesmos estavam boquiabertos com a
coragem da moça, que não arredou um centímetro do lugar quando ele partiu
para cima dela com os punhos fechados de forma totalmente assustadora.
— Mais uma palavra e será a última coisa que vai dizer na vida —
ameaçou, perverso.
Blade estava parado bem à frente dela. Foi preciso se inclinar bastante
para ficar na altura de Carter, mesmo assim não conseguiu, era impossível
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para alguém da estatura física de Blade.


— Você é meio contraditório, sabia? Primeiro promete que nunca
mais vai deixar ninguém me machucar, mas ameaça me matar no mesmo dia
que faz a promessa.
Pôs as mãos na cintura, nervosa. Devido a este movimento repentino,
os cabelos rebeldes da moça caíram de forma alvoraçada sobre seu rosto
delicado. Ele pensou nunca ter visto nada mais profano na vida. Jesse mexia
tanto com ele, que qualquer gesto inocente dela pareia ser algo propriamente
indecente.
— É impressão minha ou está rolando uma DR aqui? — Li tentou
abafar uma risada, transformando-a numa tosse nada convincente. Estava
achando o máximo aquele casal inusitado se enfrentando. Alguém tinha que
enfrentar Maldonado.
— Vai me ensinar agora como devo criar o meu irmão, investigadora,
sendo que não cuida nem de si mesmo? — Blade mudou de assunto, fingindo
não ter ouvido o que ela havia dito, seria embaraçoso demais ter que
esclarecer na frente dos parceiros que tinha a necessidade de proteger aquele
ser irritante diante dele sem ter nenhuma explicação coerente para isso.
— Criar? Você só pode estar de brincadeira, Blade, por Deus! Ele já é
um homem feito.
O impacto do nome dele na voz de Carter foi visível em sua expressão
facial, os olhos ficaram em um azul escuro cor de jacinto e os músculos do
rosto mais relaxados. Julius deu um sorriso de lado quando observou o amigo
enfiar as mãos nos bolsos meio sem jeito. A moça mexe com ele, pensou a
montanha de músculos.
— Não sou homem de brincadeira, então sugiro que volte para a porra
daquele quarto e não se intrometa no que não é da sua conta — ordenou
apontando o dedo para a saída e mais uma vez ela não obedeceu.
— Se é homem de verdade, diante dessa situação deveria agir como
um. Não ficar como uma mãe ciumenta que pegou o filho chegando em casa
com a primeira namorada. Então, pare de frescura e tome uma postura.
Jesse não costumava ser grossa com ninguém, era boa demais para

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isso. Porém, tudo o que ouviu até agora havia sido demais para o nível de
autocontrole dela. Foi preciso Li levar a mão no queixo de Estevão para
fechar a boca que estava aberta em formato de "O", pasmo com o que ouvira.
Ela havia acabado de assinar sua pena de morte.
— Preparem o protetor solar, porque a porta do inferno foi aberta! —
O chinês soltou uma gargalhada gostosa, estava segurando a barriga que
estava doendo de tanto rir. Tinha um sorriso lindo, dentes brancos e bem
alinhados.
— Só porque a sua família não se preocupa com você, não quer dizer
que as dos outros são iguais. — Foi cruel demais, normal para alguém sem
coração como ele.
O golpe foi certeiro, os olhos dela marejarem, era a prova disso. Mas
não recuou como ele esperava, continuou com a cabeça erguida olhando-o
fixamente.
— Eu poderia dizer muitas coisas, mas não vou… A verdade é que as
pessoas machucam as outras pelo simples fato de estarem machucadas —
disse com a voz trêmula, quase chorando. As palavras dela tiveram um
impacto imenso sobre ele, que desviou o olhar dela imediatamente. Jesse o
havia colocado no lugar dele sem precisar ser má, apenas com a verdade.
— Chega dessa conversa, temos um problema maior do que as
diferença dos dois no momento. — Julius se posicionou no meio dos dois,
com a mão no meio do peito de Maldonado, empurrando-o para trás.
— Também posso ajudar vocês com esse problema. Vou levar a
garota para minha casa e amanhã bem cedo e a levarei para a delegacia onde
trabalho. Entrarei com contado com o pai dele e direi ao juiz que a encontrei
andando pela rua sozinha, porque não conseguiu achar a casa do namorado.
— Julius sorriu com a bondade da moça, oferecendo ajuda mesmo com o
coração ferido há minutos atrás.
— Obrigado, investigadora, você está sendo muito gentil fazendo isso
por nós, agradeço em nome do nosso irmão caçula, Bobbi. — Pérez sorriu
para ela de forma tão gentil que Carter retribuiu sem perceber. — Sou Julius
Perez, ao seu dispor, senhorita. Aquele com cara branquela ali é o Estevão.
— O inglês acenou para ela, fez uma reverência digna de um lorde. — O

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chinês abusado é o Li, o cérebro da nossa equipe. — Xing deu uma piscadela
para ela, cheio de graça demais na opinião de Blade, que agora acompanhava
tudo em silêncio em um canto mais afastado da sala.
— Ela não está fazendo isso por nós, seu idiota, só está querendo
levar crédito no trabalho dela como "policial do ano" por ter achado a filha do
famoso juiz sei lá das quantas — Rrsmungou Blade, em total descaso com a
boa vontade da moça.
Agora ele havia sentado, apoiando os pés cruzados sobre a mesa do
escritório, girando uma caneta preta de ouro entre os dedos com a expressão
azeda de sempre e olhando para o casalzinho apaixonado abraçado encostado
na porta que se encontrava fechada.
— Não, estou fazendo isso porque estou preocupada com você, Blade
— Jesse disse sincera, desarmando-o por completo, fazendo Maldonado
quase cair da cadeira. Não esperava por essa, não estava acostumado com as
pessoas se preocupando com ele.
— Sério que você é mesmo uma tira, Jesse? Nunca imaginei ver uma
policial aqui em casa, ainda mais usando as roupas do Blade —comentou
Bobbi, enquanto afagava os cabelos da namorada que estava escondida
dentro dos seus braços.
— Sim, eu sou. Prazer em conhecê-lo, Bobbi! — Ela sorriu
docemente para ele.
— Pois é, filho, o seu irmão brigando com você por ter trazido a sua
namorada em casa, sendo que trouxe a dele, e não podemos esquecer o
detalhe: ela é uma investigadora do FBI. — Estevão não deixou de dividir
com todos a sua observação diante dos fatos, o que aos ouvidos de Blade
soou como uma piada de mau gosto. O inglês nem se importou com o olhar
severo que Blade lançou sobre ele. Cruzou as pernas longas levando à boca
uma xícara cheia de conteúdo fumegante, chá de gengibre com hortelã,
combinação tradicional típica da família Salvatore e preferida do pai Edward.
— Nem se fosse a última mulher do mundo, preferiria virar um
monge — ressaltou com uma grossura sem tamanho.
— Basta! — gritou Julius com uma voz assustadoramente elevada,
era um amor de pessoa, mas Blade estava exagerando no quesito grosseria.
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Não entendia por que tanta implicância com a moça, ela só estava querendo
ajudar, era evidente que se preocupava com ele. — Vamos fazer como a Jesse
disse, vou levar as duas até a casa dela. Bobbi se despeça da sua namorada e
você, menina, nem uma palavra sobre o que viu e ouviu aqui, entendeu? —
Lia assentiu com a cabeça se despedindo de Bobbi com um beijo inocente e
apaixonado.
— Que nojo! — proferiu Estevão enojado, nunca tinha beijado
ninguém na vida.
— Eu a trouxe, então é minha responsabilidade levá-la para casa! —
Blade disse olhando sério para Julius que havia acabado de pegar a chave do
seu Lamborghini na gaveta da estante, onde se encontravam os estilhaços do
que restou da estátua de um milhão de dólares que Carter tinha catado do
chão, morta de vergonha, e colocado ali.
— Cuidado Blade, coração machucado quando recebe carinho, se
apaixona. — O mexicano sussurrou de forma que só ele escutasse, guardando
a chave do carro no mesmo lugar que estava. Julius bateu no ombro do
parceiro.
— Eu não tenho coração! — respondeu frio, não como uma brisa,
mas como um iceberg inteiro.
Na metade do caminho até a residência da investigadora, Lia
adormeceu feito uma criança no banco de trás do Impala.
— Não sei por que tanto trabalho, por mim desovava essa coisa na
primeira curva. — Blade proferiu mais azedo do que de costume, observando
a moça dormindo feito um anjo com os cabelos todo bagunçado sobre o
rosto.
— Por mim, ótimo, tem uma perfeita para isso logo ali na frente —
Jesse disse naturalmente, fazendo com que Blade quase tirasse o carro da
estrada. Podia esperar qualquer resposta dela, menos aquela. Pensou em um
discurso moralista ou um comentário repreensivo e irritante. — Mas vai ser
você quem vai ter que encarar o Bobbi quando chegar em casa e dizer a ele
que nunca mais vai poder ver a garota que ama, porque você abandonou-a em
uma esquina qualquer.
Blade queria gritar com ela, chegou a apertar o volante com força para
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extravasar a raiva. Jesse sabia que nunca faria nada para magoar o irmão
caçula e foi esperta o suficiente para usar isso contra ele na hora certa.
Ela acha que não sei o que estava fazendo? Se acha que pode jogar
comigo estaámuito enganada, muito mesmo, pensou Blade — Qual rua é a
sua? — Maldonado perguntou amargo, haviam passado o resto do caminho
em silêncio.
— Na segunda à direita, logo adiante, em um prédio de tijolos
vermelhos — respondeu ela, apontando.
— Admira-me que não seja em um prédio cor de rosa, com desenhos
de pôneis e fadas voadoras — debochou ele.
— Eu odeio rosa, tenho pânico de pôneis e fobia de fadas. — Ela
rodou o pequeno anel de forma delicada em volta do dedo, um movimento
inocente, os olhos dele se escureceram vendo aquilo. A respiração ficou
pesada, vestígios de suor brotaram pelo seu rosto.
— Pensava que todas as meninas gostassem de rosa — comentou
Blade sem condições de olhar para ela no momento.
— Minha mãe me ensinou que eu não sou "todas as meninas" —
retrucou como uma garotinha no primeiro dia de aula, a timidez era a mesma.
— Sábias palavras as da sua mãe.
Jesse pensou ter visto um leve sorriso presente no rosto dele, mas isso
era quase impossível! Blade não sorria nunca.
— Chegamos — disse, estacionando o carro em frente ao prédio de
tijolos vermelhos.
Ele colocou a cabeça para fora da janela do veículo que tinha o vidro
quase todo aberto, para averiguar se, de fato, não tinha nenhuma pintura de
algum personagem de conto de fadas. Ela realmente não é "todas as
meninas", era única em todos os sentidos, constatou Blade ao vê-la dando a
volta do carro, abrindo a porta do carona e tentando inutilmente pegar no colo
uma adolescente mais alta do que ela apenas porque estava com pena de
acordar a garota. A cena chegava a ser engraçada. Pegava uma mão da
menina, caia outra, não conseguia nem mexer Lia do lugar. Depois de
minutos vendo aquela cena ridícula de braços cruzados parado sobre a
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calçada, Maldonado resolveu agir, tinha coisas mais importantes para fazer
naquela noite.
— Afaste-se — ordenou ele, esticando o braço para o banco de trás a
fim de pegar a filha do juiz. Sua expressão era como se estivesse pegando um
saco de lixo no colo.
— Obrigada — murmurou ela surpresa com a atitude dele.
Ele não respondeu, apenas a seguiu pela calçada até os degraus da
entrada. O portão estava apenas encostado, todo enferrujado e sem fechadura.
Blade continuou seguindo-a pelo corredor, reparando cada detalhe do lugar
com as paredes todas sujas de barro. O caminho deles foi interrompido por
um casal que passou se agarrando de forma indecente por eles,
provavelmente também eram moradores do prédio, concluiu, mas descartou
logo essa ideia quando ouviu a mulher ruiva trajando um vestido vermelho
curtíssimo, mostrando a metade das nádegas, um sapato fino preto, uma
maquiagem horrível, fumando um cigarro e dizendo que, dessa vez, o sexo
oral foi por conta da casa, mas da próxima iria cobrar vinte dólares a mais.
Jesse quase morreu de vergonha, o rosto em um tom vermelho-escuro. Estava
acostumada a ver prostitutas saindo do apartamento do vizinho Bredon,
algumas até simpáticas que às vezes a cumprimentavam. Outras saíam
correndo escondendo o rosto como se tivessem sido agredidas, até tentou
ajudar uma outro dia, mas recebeu um "vai se foder, piranha" como
agradecimento. Já ele era um homem abominável, que ficava olhando para
ela de um jeito muito estranho.
— Desculpe por isso — pediu envergonhada, ainda vermelha.
Agradeceu a Deus por tê-la feito negra, porque se tivesse a pele clara estaria
da cor de um tomate.
Só diante da porta que foi lembrar que as chaves e o celular haviam
ficado na bolsa da Nayla, para sua sorte lembrou que no dia que se mudou
para ali o porteiro mencionou que tal chave extra ficava debaixo do tapete.
Inclinou o corpo para pegar, Blade olhou cada movimento sem piscar.

— É muito perigoso guardar uma cópia da chave debaixo do tapete,


sabia? Tem muito bandido a solto por aí. — Jesse virou para olhar para ele,
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pensando que estava abrindo a porta para um, aliás, o mais perigoso de todos.
— Eu não roubo os pobres, Jesse, não precisa se preocupar —
respondeu o evidente como se mais uma vez tivesse escutado os pensamentos
dela.
Abriu a porta lentamente, que soltou um rangido demostrando os
vários anos de uso. O Homem Sem Lei se viu horrorizado diante de tanta
pobreza, percebendo que o lado de dentro conseguia ser ainda pior que o de
fora. Não tinha repartições, muito menos móveis. Ao correr os olhos pelo
espaço pequeno e modesto concluiu que nunca esteve em um lugar tão
horrível antes.
— Onde posso colocá-la? — perguntou ele torcendo o nariz, o cheiro
de mofo das manchas d'água nas paredes mal pintadas de azul-púrpura estava
lhe incomodando bastante.
— Ali, por favor! — Maldonado carregou Lia até um colchão de casal
que estava encostado próximo a parede e forrado com um lençol
branquíssimo. O local ao menos era limpo, isso ele tinha que admitir. Deitou
a moça com muito cuidado sobre ele, até demais para quem dizia não gostar
dela.
— Ainda está se mudando? — perguntou assim que se pôs de pé
novamente com a postura superior de sempre.
— Não, já trouxe tudo que tenho — respondeu orgulhosa. Para quem
nunca teve nada seu de verdade, aquele lugar era o paraíso, não tinha luxo,
mas sobrava paz.
—Tudo o quê? — disse ele com certa rispidez.
Olhando para o minúsculo apartamento, o lugar era menor do que o
seu banheiro e tinha apenas com uma cômoda velha no canto com alguns
objetos sobre ela, uma pequena estante com livros, um único colchão velho
do chão, onde a filha de Thompson se encontrava dormindo. Havia um
pequeno banheiro e nenhum vestígio de uma cozinha. Apenas alguns pacotes
de bolachas e duas garrafas térmicas, uma com café e outra com leite. Uma
cesta com algumas frutas, a maioria começando a apodrecer. Grande parte do
vidro da única janela que tinha estava quebrado, podia sentir o vento frio
vindo de fora tocando o seu rosto. Provavelmente quando chovia enchia o
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local de água. Como ela conseguiu sobreviver nesse lugar por duas semanas
— Gostaria de saber onde você pretende dormir, já que cedeu aquele ninho
de cachorro que chama de cama para o filhote de capeta. —Elevou a voz, se
esforçando ao máximo para não encostar em nada para não se contaminar.
— Eu me viro. — Ela abaixou a cabeça.
— Só se for de um lado para o outro nesse chão frio, pelo amor de
Deus, Jesse! Esse lugar é um lixo, um mendigo vive melhor e mais seguro do
que você debaixo de uma ponte — proferiu aos berros, Lia se remexeu no
colchão, mas não acordou.
— É um lixo, mas é meu. Não fiz nada ilícito para conseguir, não
importa onde eu pretendo dormir hoje e sim que a minha consciência estará
limpa quando acordar de manhã e isso dinheiro nenhum compra — disse
firme, só não conseguiu segurar o choro.
— Duvido que vai continuar pensando assim depois que ficar doente
com esse frio ou violentada pelo seu vizinho tarado. — Ele também percebeu
a forma estranha com que Bredon olhara para ela.
Saiu nervoso sem se despedir, batendo a porta com força, que quase
caiu com o impacto. Jesse pegou seu pijama do Kiki Butovisk na cômoda e
uma toalha, caminhou até o banheiro para tomar o seu banho, mas não antes
de cobrir Lia com o único cobertor que tinha na casa. Chorou um pouco
debaixo do chuveiro, estava costumada a ser humilhada pelas outras pessoas,
não sabia o porquê quando a pessoa em questão era o Blade doía muito mais.
Na hora de dormir agradeceu aos anjos da guarda dos sem-cama por ter um
saco de dormir velho da época que era uma escoteira mirim; usavam quando
o grupo ia acampar na floresta, sempre amou natureza.
Logo pegou no sono. Acordou no meio da madrugada assustada com
a chuva forte que caía lá fora e que escorria pelo buraco da janela. Correu
apressada para colocar um pedaço de lona que tinha preparado para isso.
Assustou-se ao se deparar com um homem parado do outro lado da rua, no
escuro, com as mãos no bolso, olhando na direção do apartamento dela sem
se importar com o temporal que estava caindo sobre ele. Devido à escuridão e
por estar sem os óculos de distância, não conseguiu identificar quem era.
Acabou o que tinha que fazer e deitou novamente, mas com o pensamento no
homem para na chuva.
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Ele não devia estar ali, pode amanhecer com um resfriado forte ou
até uma pneumonia. Pensou ela antes de pegar no sono novamente, como
sempre sentindo compaixão pelo próximo. Esse era o dom de Jesse, florescer,
ser flor, principalmente em deserto de gente seca, vazia e sem amor.

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CAPÍTULO 11

— Isso são horas de chegar ao trabalho, senhorita Carter? — Essa foi


a forma carinhosa que o major recebeu a filha na delegacia de manhã, ácido
como sempre.
Lia havia parado no bebedouro ao lado de fora da sala no corredor
para tomar água, arregalou os olhos assustada com o grito elevado do pai de
Jesse. Gostava muito dela, não queria que ninguém a magoasse. Ele sempre
usara um tom exagerado para conversar com a moça, como se estivesse
sempre zangado com ela. Carter abriu a boca para respondê-lo, mas foi
impedida por ele, que nunca dava a oportunidade para ninguém explicar
nada, porque sua opinião sobre os fatos era sempre a correta.
— Nós, aqui, trabalhando em dobro para encontrar a filha do juiz
Thompson que está perdida aqui em Los Angeles… O próprio presidente me
ligou para entregar esse caso especialmente em minhas mãos. — Acertou a
gola da farda acertando mais a postura, se engradecendo, essa era a verdade.
— Enquanto toda nossa equipe está trabalhando nas ruas, a irresponsável
chega uma hora dessas, com certeza deve ter passado a noite na farra, agora
que mora sozinha deve viver uma vida regada a orgias — completou com
uma expressão de repulsa, deveria estar imaginando a cena na cabeça.
— Não estou mais perdida, que horas meu pai vem me buscar?
O senhor Carter quase caiu para trás quando viu a moça entrar, não
conseguiu acreditar no que viu. Chegou a estufar o peito pensando em como
o famoso juiz iria ficar agradecido por ele ter achado a sua filha. A maior sala
do andar ficou pequena para tanta luxúria. Como era o mandachuva, tinha
regalias especiais, como uma mesa enorme de vidro com um porta-retratos
com a foto dele com a esposa e a filha Mainara, além de uma cadeira de
couro preta giratória. Na parede alguns quadros clássicos, um frigobar no
canto contendo água mineral e suco natural feito pela esposa. O chão era
limpíssimo e nos móveis não se via um vestígio de poeira. Jesse quando
entrava lá ficara parada com um robô, se precavia ao máximo para não tocar
em nada e quebrar, pois sabia que depois teria que ficar ouvindo o pai dela
repetindo em seu ouvido o quanto é uma inútil e que preferia ter apenas a Mai
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como filha, e como era uma vergonha para o departamento do FBI e tal…
— Como você chegou até aqui, princesa? Sua família está louca atrás
de você, Lia, meus homens estão todos nas ruas à sua procura. — Jesse ficou
pasma como o seu tom mudara de uma hora para outra, estava totalmente
amável e com um sorriso largo no rosto, coisa muito difícil de se ver.
— Ela estava perdida. — A investigadora começou a explicar, mas foi
cortada antes de terminar a frase.
— Não perguntei para você, Jesse, agora saia e me deixe pegar o
depoimento da moça — disse rude empurrando-a para fora, mas o caminho
estava interditado por uma montanha de músculos parado bem no vão da
porta, vestido com um terno caro de cor cinza, cabelo penteado para trás e
uma postura imponente. O major teve que elevar a cabeça para olhar para o
juiz Thompson, que olhava para filha com os olhos marejados, com uma
expressão totalmente preocupada no rosto.
— Filha! — disse o Juiz, passando às pressas por eles e indo ao
encontro dela com os braços abertos, a acolhendo em um abraço protetor.
Agora, quem tinha os olhos marejados era Jesse ao ver aquela cena
carinhosa literalmente paternal dos dois. Não se lembrara nunca de ter
ganhado um abraço do pai, porque nunca existiu. Este soltou o braço dela
imediatamente e foi bajular Thompson, pois queria ter a honra de falar com
uma verdadeira lenda do mundo Jurídico.
— Desculpe papai, não queria te fazer chorar. — Limpou a face dele.
— Lia, por onde você andou? Meu pai quase enfartou quando foi te
buscar na escola e a diretora disse que não tinha ido à aula ontem; minha mãe
está aos prantos em casa desde que sumiu e o pobre do Liam chorando junto
com ela. E eu pensei que tinha perdido a minha bonequinha, quase morri de
medo. — Um rapaz loiro chegou trajando roupas sociais, porém joviais, calça
de tecido preta e camisa azul claro com as mangas dobradas até os cotovelos.
Era o filho mais velho do juiz Maxmilian Thompson, não estava chorando
como pai, mas estava quase.
— Desculpe Max, eu só queria ver o Bobbi.
Maxmilian avermelhou toda a face de raiva só de ouvir o nome do ex-

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melhor amigo, jamais iria perdoá-lo por se aproveitar da sua irmãzinha.


— Se depender de mim, nunca mais vai ver esse papa-anjo, nunca foi
meu amigo — resmungou o irmão de Lia.
— Chega vocês dois! Vamos ter essa conversa em casa juntos com a
mãe de vocês — ordenou Thompson, com uma voz grossa e severa.
Vendo que estava sobrando Carter resolveu sair da sala,
provavelmente ninguém notaria a presença dela.
— Pai, quero que conheça uma pessoa muito importante! — disse
Lia, e novamente o major Carter encheu o peito de ar tomando uma postura
sublime, superior.
—Aquela policial boazinha me achou e me levou para casa dela para
que passasse a noite em segurança, ofereceu a cama dela para mim, dormindo
praticamente no chão. Dividiu a pouca comida que tinha comigo e ainda me
trouxe até aqui sã e salva.
Lia caminhou até Jesse puxando-a pela mão para perto deles, que
corou envergonhada diante de tantos olhares sobre ela. Estava costumada em
ser o foco da atenção apenas em situações negativas. Abaixou o olhar para os
pés, um par de tênis velhos pretos com um buraco na ponta do dedo maior.
Trajava calça jeans, camiseta branca com mangas três quartos e um colete à
prova de balas com um emblema do FBI nas costas. O cabelo preso para o
alto em um nó falso, com cachos prestes a se soltar a qualquer momento.
— Obrigado por ter cuidado do meu bem mais precioso, terei uma
dívida eterna com você. Quando precisar da minha ajuda, independentemente
do que seja, é só me chamar que virei imediatamente. Não hesite em pedir,
filha! — John segurava a mão dela emocionado, não podia nem imaginar o
que poderia ter acontecido com a filha se tivesse passado a noite em uma
cidade movimentada como aquela.
— Não precisa agradecer, senhor, eu fiz o que qualquer um faria.
A modéstia de Carter o surpreendeu, outro no lugar dela se
aproveitaria da situação pedindo algum favor a ele como ser promovido para
um cargo mais importante.
— Só quem tem um coração bondoso como o seu faria, teria muito a
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orgulho se a minha filha for como você quando estiver na sua idade. Aposto
que é uma ótima policial, está visível nos seus olhos a sua perseverança —
comentou sincero, com um sorriso enorme no rosto. Jesse constatou que o
juiz era tão bonito como na televisão.
— Obrigada, senhor, mas não sou boa em nada. Muito menos no meu
trabalho, tento dar sempre o meu melhor, mas sempre estrago tudo. —O olhar
dela era triste, ainda mais com a forma com que o pai olhara para ela
severamente.
— É melhor uma policial sem jeito para coisa, mas esforçada em tudo
o que faz, do que uma que acertaria o alvo a mil metros de distância e não
tivesse amor pela sua profissão e trabalhasse apenas por conta do salário ou
para se mostrar para os outros. Seu pai dever ter muito orgulho de você, se eu
fosse ele teria. — John Thompson era bom com as palavras, sabia como
acertar os alvos com precisão. Ela limitou-se apenas a sorrir para ele, não
com a sinceridade que queria.
Foi convidada a almoçar com eles, e aceitou de bom grado.
Conversaram como se a conhecessem há anos. Ela era assim mesmo,
encantadora.
Jesse foi deixada na porta do trabalho por volta das três da tarde. Na
hora de se despedir, Lia deixou com ela uma carta para que entregasse nas
mãos do Bobbi, explicou que tentou ligar para ele para dizer que estava bem,
só que todas as ligações caíram na caixa postal. Mal pisou no departamento e
o telefone começou a tocar. Ficou toda feliz que apareceu uma ocorrência de
homicídio para ela e o novo parceiro o “Mentalista” do departamento, Hugo
Rodrigues. Podia ler os pensamentos das pessoas através de suas expressões
faciais, parecia até algo paranormal. Depois de um dia cansativo de trabalho,
porém produtivo, saiu da delegacia satisfeita por ter feito um bom trabalho,
sem quebrar nada ou atirar em ninguém que não deveria. Antes de bater o
cartão de ponto, tentou ligar do telefone fixo da recepção para a amiga Nayla,
estava preocupada com o sumiço. Ela não a atendeu, deixando chamar até
cair. Ainda estava em choque com o encontro com Estevão, havia passado a
noite inteira chorando. Colocou o telefone no gancho frustrada, acertou o que
tinha que fazer e foi embora. Já na rua, chegando ao ponto de ônibus mais
próximo, viu um rapaz se aproximando dela.

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— Desculpe te incomodar, Jesse, mas precisava saber notícias de Lia.


Meus irmãos me colocaram de castigo por tempo indeterminado, não posso
sair de casa sozinho nem usar meu celular por uma semana, Blade o escondeu
— explicou com as bochechas rosadas de vergonha, mas não iria mentir para
ela.
— Se não tem permissão para sair sozinho, o que está fazendo aqui?
Algum irmão seu te trouxe? — O coração dela pulou no peito só de pensar
que fosse o Blade.
— Não. — Desviou o olhar, tinha desobedecido uma ordem dos
irmãos mais uma vez. — Eu fugi. — Completou como se tivesse cometido
um crime terrível, dava para ver a culpa em seus olhos azuis brilhando
debaixo das lentes de grau.
— Sabe que os seus irmãos vão ficar bravos com você por causa
disso, não sabe? Vão fazer uma tempestade em um copo d’água. — Revirou
os olhos.
— Eu sei, mas faço qualquer coisa pela Lia. — A vontade de Jesse
era apertar as bochechas dele de tão fofo e amoroso.
— Ela mandou de entregar uma coisa.
Assim que ela levou as mãos no bolso para pegar a carta, uma moto
cantando pneus parou diante deles. Era um homem com o rosto coberto por
uma touca, tirou uma arma da cintura e a apontou para Bobbi. Naquele
momento ela percebeu que o motivo de o proibirem de sair de casa não era a
Lia. Jesse se desesperou ao ver um ponto vermelho bem encima do coração
do jovem, era um laser. Ela não pensou duas vezes em entrar na frente dele
quando o meliante disparou dois tiros e fugiu em disparada, desaparecendo
da mesma forma que chegou, do nada.
— Jesse você está sangrando… Não dorme… Fica comigo…
Foi a única coisa que Carter escutou antes de cair em uma escuridão
profunda, sentindo uma dor aguda no lado esquerdo do ombro.
Desesperados! Essa era a palavra certa para os quatros irmãos que chegaram
praticamente voando no hospital, passando por cima de qualquer coisa que
passasse na frente deles. Bobbi havia entregado a uma das enfermeiras o
número de Julius para que a recepcionista ligasse para ele contando o que
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havia acontecido. Ele nem deixou a moça terminar de explicar depois que
ouviu as palavras Bobbi e tiro na mesma frase. O jovem não queria soltar a
mão da Jesse, a segurou desde que entraram na ambulância, que, por sorte,
estava voltando de atender a um chamado falso de socorro, trote de um
garoto de treze anos. O jovem só não conseguiu avisar a família da policial,
não tinha o contato deles. Graças aos anjos da guarda das policiais
desajeitadas o tiro acertou no ombro, ficaria boa logo.
— Leve-me até o meu irmão! — ordenou Blade à recepcionista
sentada atrás de um balcão branco onde ela atendia as pessoas.
Ele estava com a voz mais rouca que o habitual, indícios de um futuro
resfriado. O tom dele para com ela era como se fosse o seu chefe e lhe pagava
uma fortuna como salário para descobrir mentalmente o nome do seu irmão,
já que ele não falou.
— O horário de visitas já passou, volte amanhã — disse com uma voz
fina.
Blade chegou a levar a mão na direção do pescoço dela para esganá-la
até arrancar dela o que queria saber, quando a pobre mulher de cabelos
negros como a noite virou para olhar para ele e quase desmaiou com que vira.
Ele estava com os olhos arregalados de tanta raiva, em um tom de fogo no
auge das labaredas. Rosnando baixinho feito um lobo raivoso, os punhos
fechados com tanta força que o sangue havia sumido de suas cavidades.
— Por favor moça, desculpe o meu amigo. Ele está nervoso devido ao
fato do nosso irmão caçula ter levado um tiro e queremos saber como ele
está. — Julius tomou a palavra, sua simpatia comoveu a mulher, ainda mais
pelo tom choroso com que saiu.
— Qual o nome do seu irmão querido? — perguntou a recepcionista
com uma preocupação que não costumava ter com os outros pacientes, muito
menos com um que nem sabia de quem se tratava.
Era uma mulher madura, usando uma maquiagem um pouco
exagerada para a idade dela. Parecia adolescente no colegial, o cabelo preso
em um rabo de cavalo preso para o alto e quase um quilo de sombra rosa
choque nos olhos.
— Robert Perez Salvatore Xing Maldonado — respondeu Li em uma
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fração de segundo, com o rosto sério e os olhos vermelhos de tanto chorar a


caminho do hospital.
— Fala logo, sua bruxa, não sou obrigado a passar o resto do dia
olhando para essa sua maquiagem horrorosa. — Estevão não deixaria de
comentar sobre a maquiagem alegre dela, não chorou em nenhum momento,
mas roeu o esmalte preto dos dez dedos das mãos pálidas como a neve.
— O que há de errado com a minha maquiagem? — Girou um pouco
a cadeira para encarar o inglês. Ficou ofendida, não tinha passado a tarde toda
se maquiando para ouvir aquele tipo de coisa.
— O que não está errado com ela, querida? — Blade olhou para
mulher com cara de nojo, para ele pior do que uma mulher sem maquiagem
era uma que não sabia se maquiar.
— Deixem a pobre moça em paz! — Bobbi surgiu de um dos
corredores andando calmamente.
A recepção era ampla, com quatro fileiras de cadeiras de espera. Uma
mesa de canto com variadas revistas sobre, uma tevê pendurada na parede e
um chão branco tão limpo que chegava a brilhar.
— Mascote! — exclamou Blade com a voz grossa, repleta de alívio
por vê-lo bem.
—Você está mesmo bem, filho? Está doendo muito? Quem fez isso
com você? Comeu alguma coisa hoje? Trouxemos roupas para tomar banho e
ficar cheirosinho. — Os quatro irmãos falavam ao mesmo tempo, enquanto
faziam a minuciosa busca pelo corpo do menino em busca de ferimentos.
Um levantava a blusa daqui outro examinava as costas desnudas e
assim foi pelo resto do corpo do Bobbi até terem certeza de que ele estava
realmente bem.
— Eu estou bem, irmãos, não precisam se preocupar tanto —
exclamou Bobbi, com um sorriso terno no rosto.
— Que família esquisita — proferiu um casal que estava sentado na
segundo fileira à esquerda, olhando para eles com estranheza.
As pessoas estão tão acostumadas a se preocuparem tanto apenas
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consigo, que quando veem uma cena como aquela, estranham.


— Não é estranha, é unida! — A recepcionista limpou uma lágrima,
veio de uma família desestruturada, o pai agredia a mãe na frente dela.
— Mas, ligaram para nós dizendo que tinha você tinha levado um
tiro, Mascote… — disse Blade, com uma expressão confusa no rosto.
— Do nada apareceu um homem encapuzado em cima de uma moto e
apontou a arma para mim, mas Jesse entrou na frente para que o tiro não me
acertasse. Foi baleada no meu lugar, se ela morresse não ia me perdoar nunca.
— Começou a chorar.
— Calma, filho, ela vai ficar bem! — Julius o envolveu com um
abraço, e ele chorou com o rosto escondido no peito dele como quando era
criança.
— Não chora, irmãozinho, eu trouxe um presente para você.
Estevão tirou do bolso do longo casaco preto um pirulito de quase
meio quilo em formato redondo de várias cores, preso num espeto de pau.
Entregou a ele e ficou afagando os cabelos do Bobbi ainda escondido dentro
dos braços de Julius.
— E eu trouxe balas de caramelo. — Li abriu um sorriso farto na
esperança de animá-lo um pouco.
— Parem de dar porcarias para o menino, não quero que fique
diabético. — Zangou-se o mexicano. Enquanto dava legumes para Bobbi, os
outros o enchiam de doces as escondidas.
— Cadê o Maldonado? — Perguntou Bobbi com a voz chorosa,
estava soluçando.
— Não precisa ser muito inteligente para saber, filho. Vamos para
casa e deixar os dois sozinhos. Blade não vai sair daqui até ter certeza que ela
está bem — disse Julius com o semblante iluminado, ele já havia percebido
uma coisa que o próprio Maldonado não fazia ideia que estava acontecendo
com ele.
A porta do quarto de Jesse estava entreaberta, Blade não sabia
explicar como chegou ali tão rápido e como tinha a certeza que ela estava
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naquele quarto, sendo que ao longo corredor deveria ter uns vinte ou mais.
Foi entrando devagar, estava com medo do que ia ver. Sentiu o coração
palpitar rápido e a respiração ficar ofegante e pesada, Carter estava dormindo
em uma cama com o colchão macio, coberta por um lençol branco, no ombro
um curativo enorme e o braço esquerdo imobilizado. O cabelo solto em uma
bagunça de cachos rebeldes espalhados por todo travesseiro, alguns mais
atrevidos sobre o rosto que conseguia ser ainda mais delicado naquele
momento. Os olhos fechados com os cílios grandes, que parados pareciam ser
bem maiores do que aparentavam, os lábios grossos curvados em um formato
perfeito de coração, a respiração leve como uma pluma. Ela parece um anjo
até quando está dormindo, ingênua e delicada.
Maldonado se aproximou com cuidado da cadeira que estava perto da
cama dela, mas não o suficiente para ele. Queria poder vigiá-la o mais
próximo possível, não tiraria os olhos dela em momento algum. Quem tentou
matou matar o Bobbi para feri-lo poderia querer voltar para terminar o
trabalho, ainda mais agora que ele sabe que só alguém muito próximo a eles
entraria em frente a uma bala para salvar um deles. Agora ela era alvo
também. Queria ela longe disso, infelizmente quem estava querendo matá-lo
para ganhar a recompensa iria tentar usar Carter para chegar até ele, viva ou
morta.
— Blade! — Jesse chamou baixinho por ele como se soubesse que
estava ali.
Remexeu-se um pouco na cama virando para o lado, apoiando-se com
o ombro bom, ficando agora de frente para ele. Se não estivesse dormindo,
teria uma bela visão do homem que não tinha mais espaço nele de tanta
preocupação com ela.
— Estou aqui, pequena. — Sua voz era suave, quase nunca usava
aquele tom com ninguém. — Para você, por você — completou quase em um
sussurro.
— Estou com medo, não me deixe — ela disse com a voz balbuciante
e o semblante pesado, talvez estivesse tendo um pesadelo.
— Não vou a lugar nenhum sem você.
Meio sem jeito não resistiu e acabou pegando a mão dela. Dessa vez

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não sentiu repulsa em tocá-la, ao contrário, sentiu algo que lhe esquentou o
coração. Não como se tivesse aquecido por um cobertor, mas por um vulcão
em erupção.
Como odiar alguém que salvou a minha vida e da pessoa mais
importante do mundo para mim? É engraçado saber que o meu anjo da
guarda tem pouco mais de um metro e meio de altura.
Ele ficou segurando a mão dela por mais de duas horas, que
comparando com a dele parecia de um adulto segurando a de uma criança.
Era delicada, fina e quente. Jesse se mexeu um pouco fazendo com que
alguns cachos teimosos cobrissem o rosto dela. Com a mão livre, ele os
removeu com cuidado, um por um. Mais uma vez não resistiu e tocou a maçã
do rosto dela com carinho o que a fez dar um leve sorriso tímido ao sentir o
calor do toque de Blade.
— A mamãe veio assim que soube, filha.
Maldonado tirou a mão do rosto dela assim que ouviu a voz da mãe
desesperada para ver como ela estava, mas não se virou para olhá-la. Por
acaso uma amiga da família Carter, que estava visitando o sobrinho internado
no mesmo hospital, ao sair viu os paramédicos chegarem às pressas com a
investigadora sangrando muito em uma maca, perguntou a um deles o que
houve e ele explicou que havia sido só um tiro de raspão e que ela ficaria
bem logo. Então a amiga entrou em contato avisando-a do ocorrido e ao
saber, a mãe voou para o hospital.
Assim que chegou, viu que ela estava segura e que enquanto dormia
segurando a mão de um homem que parecia se preocupar muito com ela.
Maria se aproximou sem tirar os olhos das mãos deles com os dedos
entrelaçados um no outro. Tentou puxar em sua mente alguma lembrança de
tê-lo visto antes com a filha só que não encontrou nenhuma. Observou pelo
canto dos olhos como ele havia acomodado sua altura considerável de forma
casual naquela cadeira pequena, que certamente não havia sido feita para
alguém com a estatura física dele, os músculos quase explodindo debaixo de
uma jaqueta preta de couro estilosa, mas ao mesmo tempo elegante. A
postura confiante e superior. Não o conhecia, mas já gostava dele pela forma
com que ele olhava para Jesse. Às vezes quando a palavra deixa a desejar, um
pequeno gesto diz tudo, até mesmo um bem simples como segurar a mão de
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alguém. Ela também observou a diferença gritante entre os dois, como se um


completasse o outro. Sem dizer se posicionou ao lado da cama, fez um leve
carinho no rosto da primogênita.
— Ela parece um anjo dormindo — comentou Maria com um brilho
molhado nos olhos.
— Sim — disse Blade. Não era um homem de muitas palavras, ainda
mais quando se tratava de alguém que não conhecia.
— Boa noite, filho! Sou Maria José Cart… — Assim que a mãe ia
falar o sobrenome Jesse acordou no susto e evitou uma catástrofe.
— Mamãe? Ai… Aiiii… — Tentou levantar, só que o ombro
machucado reclamou pelo movimento brusco.
— Não pode ficar se mexendo muito, meu amor, vai demorar um
pouquinho para sarar completamente, bebê.
Blade olhou para a mulher bondosa a sua frente, a voz doce dela fez
com que se lembrasse de sua mãe.
— Quem avisou a senhora sobre o que ouve? — Carter estava meio
tonta, sonolenta.
— Isso não importa querida, vim o mais rápido possível achando que
estava sozinha, fiquei feliz de chegar aqui e ver o seu amigo aqui cuidando de
você.
Foi então que Jesse percebeu que tinha mais alguém no quarto e que
esse alguém estava segurando a sua mão, com carinho. E naquele momento
se sentiu especial, importante para ele, mesmo que fosse só um pouco por
gratidão.
— Obrigada por ficar aqui cuidando de mim, não precisava fazer isso.
Ela olhou para ele e respirou fundo, surpreendida pela mão dele ainda
estar segurando a sua, os grandes olhos azuis de Blade encarando-a com uma
expressão inebriada de admiração.
— Eu que agradeço pelo que fez por Bobbi, serei sempre grato por ter
salvado a vida do meu irmão. Esse tiro era para ele, se não tivesse entrado na
frente, poderíamos estar velando o corpo dele.
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Ele soltou a mão dela, Jesse quase gritou por perder aquele contato.
— Só fiz o meu trabalho! — Desviou o olhar, a forma intensa com
que olhara para ela lhe deixava nervosa.
—Não! Fez o meu, cuidar dele é minha responsabilidade, não sua —
grunhiu mais elevado do que queria.
— Não vai me apresentar o seu amigo, filha? — Maria Joaquim
resolveu mudar de assunto, notou que o clima estava ficando quente.
— Mãe esse é Bla…
— Ninguém em especial. — Cortou ele. — Se me derem licença,
preciso ver como o Bobbi está depois do que aconteceu, foi um prazer
conhecer a senhora, Maria Joaquim. Mais uma vez obrigado investigadora, é
mais corajosa do que pensa.
Jesse ficou envergonhada, mas só um pouco. Dizendo isso ele foi
embora, dando uma bela visão a elas das suas belas costas.
— Filha, acredita que o seu pai hoje à tarde, logo depois que chegou
do trabalho, veio mais cedo hoje, tomou banho e assim que ia para o clube de
golfe com os amigos sofreu uma tentativa de assalto? Um homem
encapuzado tirou o cinto das calças e deu vários golpes nele. O mais
engraçado é que nos mesmos lugares onde ele bateu aquela vez em você,
Jesse. E o criminoso nem levou o dinheiro. Fill acha que deve ser um
membro de alguma gangue se vingando por ter prendido o chefe deles. As
feridas estão em carne-viva, não consegue nem andar. Sua irmã teve que ficar
em casa para cuidar dele. Seja quem for pegou pesado com ele.
Sinceramente? Eu achei bem feito para ele aprender, perdidas foram as que
não acertaram. — Maria soltou uma gargalhada gostosa enquanto tentava
prender a montoeira de cabelos da filha com um elástico azul que achou no
fundo da sua bolsa.
— Não acredito que ele fez isso! — Jesse pensou alto, literalmente
pasma! Não querendo acreditar que havia sido Blade que tinha feito aquilo
com o pai dela, mas no fundo sabia que sim.
Maria passou a noite com a filha, cuidando dela com o maior amor do
mundo como sempre fazia. Assim que Jesse acordou já não sentia mais dores,

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tomou banho sozinha precisando da ajuda da mãe apenas para vestir a roupa
do hospital, um vestido bege aberto atrás. Sua mãe havia trazido algumas
roupas dela que ainda tinha em casa, porém, só poderia usá-las quando fosse
sair do hospital.
Depois de muita insistência da investigadora, Maria Joaquim foi em
casa tomar um banho e comer alguma coisa, dar uma olhada no major para
depois voltar com a Mainara que estava louca para ver pessoalmente como a
irmã estava.
Nesse intervalo teve quatro visitas muito divertidas que a fizeram rir
muito, Julius, Estevão, Li e Bobbi. Levaram flores, balões de gás coloridos e
um caixa de chocolates francês. Ela amou cada minuto, só sentiu falta de
Blade. Queria que ele tivesse vindo, que segurasse a sua mão novamente,
porém acreditava que isso jamais aconteceria. Assim que foram embora, para
sua surpresa, o médico passou e disse que já estava de alta e poderia ir para
casa. Com muita dificuldade conseguiu vestir sozinha as roupas que a mãe
trouxe, pediu para a recepcionista — que naquela manhã optou por uma
maquiagem menos agressiva, às vezes um chá de realidade é um santo
remédio — avisar sua mãe que fora para casa. Logo que Carter chegou na rua
onde morava, notou uma certa diferença no seu prédio, somente o andar do
apartamento dela havia sido reformado, estava pintado de um marrom escuro,
num tom muito bonito. Onde antes tinha apenas uma janela, agora havia um
monte de vidros com grades de cima a baixo com persianas penduradas do
lado de dentro.
— Ao menos o lado de fora não é mais tão ruim. — Sorriu satisfeita.
Ao sentir que estava sendo observada resolveu apertar os passos e entrar logo
no prédio. Quando passava pelo corredor, notou que as paredes estavam
pintadas de branco e sobre a porta do vizinho tarado destacava-se uma placa
de "Aluga-se". Sentiu-se aliviada por isso, tinha medo dele. A surpresa foi
quando chegou à sua porta que agora era de aço puro. Olhou debaixo do
tapete e a chave do mesmo material estava lá com um bilhete que dizia: Não
guarde mais suas chaves aqui, pode ser perigoso .

— Meu Deus!!! — Jesse soltou um grito.


O apartamento também tinha sido reformado, ou melhor, parecia ter
sido construído de novo. As paredes muito bem pintadas de azul-claro, todo

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mobilhado com o que havia de melhor no mercado. Paredes foram


construídas para fazer a divisão dos cômodos e agora ela tinha um quarto
com suíte, e que suíte! Com direito a um chuveiro grande e uma banheira,
com os objetos dela de higiene pessoal arrumados no mesmo lugar que estava
no antigo armário sobre a pia velha. Uma cama de casal enorme com um
colchão grosso, quem comprou pensou no bem-estar dele também quando a
escolheu…. Na sala, dois sofás roxo-escuro de tamanhos diferentes, um
tapete marfim na frente deles e uma televisão de plasma de oitenta polegadas
na parede. A melhor parte foi quando entrou na cozinha, era toda de inox, o
sonho de qualquer pessoa. Pequena e confortável, como tudo no apartamento.
O armário era branco e preenchia toda a extensão da parede, uma pia ampla
com um micro-ondas sobre ela, uma geladeira grande abarrotada de coisas
que dava para alimentar umas dez pessoas por uma semana, os armários
também estavam lotados de mantimentos. Um fogão de quatro bocas, em vez
de uma mesa, um balcão de granito escuro com dois bancos altos, um de cada
lado dele. Traduzindo, era tudo do bom e do melhor.
Sem entender tudo aquilo, procurou o dono do prédio que morava no
último andar, que lhe disse que o apartamento dela havia sido vendido e que
não estava autorizado para dizer para quem. Mandou reformar tudo em um
dia, e mobiliou tudo. Pediu para avisar para o morador não se preocupar,
porque nada seria incluso no aluguel, e que poderia morar ali sem pagar nada
com a condição apenas de cuidar bem do apartamento. Mas Jesse deixou bem
claro que jamais aceitaria isso! Quem era? Queria entrar em contato com o
novo proprietário e pedir um número de uma conta para qual ela pudesse
depositar o dinheiro, era honesta demais para viver às custas dos outros. Para
ela, ser pobre não era defeito, mas aproveitar-se da bondade dos outros, sim.
Depois, voltou para casa pasma, não sabia o que pensar, tinha apenas um
suspeito, mas logo descartou a possibilidade. Blade jamais faria isso por ela,
era absurdo demais uma bondade tão grande vir de alguém frio como ele.
Preferiu acreditar que ainda havia outras pessoas boas no mundo e que iria
descobrir quem fez isso por ela e agradeceria pessoalmente. Fazendo um tour
mais detalhado pela nova casa, que parecia de boneca, ostentando até um
aquecedor elétrico, as noites de frio haviam acabado, percebeu que todos seus
objetos pessoais estavam intactos, porém, estava faltando apenas uma coisa.
Onde será que foi parar a caixinha de música? Agora não poderei
mais entregar nas mãos do verdadeiro dono, pensou Jesse triste, não sabendo
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ela que já estava nas mãos dele há muito tempo.

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CAPÍTULO 12

Maldonado rolava de um lado para o outra na cama sem conseguir


dormir, tinha uma maldita coisa, ou melhor, uma pessoa, que não saía da sua
cabeça de forma nenhuma. Naquela noite e nas próximas por vir, os quatro
“irmãos” decidiram vigiar Bobbi em tempo integral. Queriam que o jovem se
sentisse seguro na companhia deles tendo total certeza que não deixariam que
ninguém lhe fizesse mal em hipótese nenhuma. Deram uma boa bronca no
irmão caçula e aumentaram o castigo por tempo indeterminado, só tinha
permissão para sair de casa acompanhado de um deles e não voltaria a usar o
celular tão cedo para aprender a não os desobedecer novamente.
Li, no entanto, foi ao quarto de Bobbi às escondidas e lhe deu um
novo aparelho de última geração. Já que não podia sair, teria pelo menos algo
com que se distrair. O jovem ouvira os sermões dos irmãos calado, de cabeça
baixa, olhando para o chão. Mesmo achando um pouco "exagerada" a
preocupação deles para com ele, sabia que era para o seu próprio bem e
mesmo que de maneira incomum, tinha certeza que a situação era mais grave
do que deixavam transparecer. Na verdade, para os criminosos perigosos que
eram, eles haviam feito um bom trabalho na criação do jovem, que era dotado
de extrema educação, advogado recém-formado, passando na prova do OAB
em primeiro lugar, acima do gênio Maxmilian Thompson, que se contentou
com a segunda posição e ainda mais porque o primeiro era seu melhor
amigo. Mesmo assim, por mais que crescesse, sempre seria o “Mascote”
deles e dariam a vida para protegê-lo e mantê-lo seguro, essa era sempre
prioridade mesmo que o inimigo fosse apenas uma gripe ou uma noite fria.
Bobbi nem tivera tempo de sentir a falta de uma mãe, porque eles enchiam
qualquer lacuna no quesito família, eram protetores além da conta.
De manhã, Blade ficou olhando pela janela sua família ir ao hospital
visitar a investigadora, quando o chamaram sua primeira resposta foi “não”
logo de cara. O dia passou se arrastando, quando chegaram ninguém se deu
ao trabalho de falar uma só palavra sobre a tal visita, ao invés disso, foram
dar atenção ao jogo de xadrez no escritório. Apenas Estevão saiu dizendo que
tinha um assunto importante para resolver.

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— Vai sair, Blade? — perguntou Julius com um sorrisinho no rosto,


havia ido à cozinha beber água quando viu Maldonado todo arrumado,
segurando a chave do carro, mas não do Impala. Resolveu dar uma noite de
folga para ele já que tinha muitos que nunca estreara ainda.
— Vou, não esperem por mim. — Passou pelo mexicano feito um
tiro.
— Mande um beijo para Jesse.
Blade parou no vão da porta assim que ouviu o nome que vinha
evitando pensar o dia todo, sem sucesso. Pela forma que suas costas incharam
estava nervoso.
— E quem disse que eu estou indo vê-la? Com tantas outras coisas
importantes e mais divertidas para fazer em Los Angeles? — Girou a cabeça
para trás, irritado com o rumo daquela conversa.
— O que não temos coragem de dizer, a nossa cara revela. — Julius
deu uma piscadela para o lado dele, levou o copo de água à boca e saiu
andando em direção ao escritório, de onde se ouvia risadas de Li e Bobbi,
animados com a antiga partida de xadrez.
Blade saiu dirigindo a “trezentos quilômetros por hora” sentindo o
vento bater em seu rosto, nem ele sabia para onde estava indo. Passou em
vários cassinos, foi cantado por várias mulheres lindas, as quais não o
agradaram. Bebeu um pouco, olhando tudo ao seu redor, cenário que antes o
segurava até altas horas da noite, mas agora simplesmente tão tinha nenhuma
graça. Pagou o que tinha consumido no bar e foi embora desanimado, com
um vazio no peito. Quando Maldonado deu por si já tinha conduzido sua
BMW preta até o bairro mais perigoso da cidade, em frente ao prédio da
pessoa mais inocente que conhecera na vida.
A mãe e a irmã de Jesse tiraram o dia para ficarem bajulando a moça.
Elas ficaram impressionadas com a reforma que o novo dono do apartamento
fez, acharam estranho, mas não falaram nada já que seria para o conforto da
moradora. Fizerem biscoitos caseiros para a estreia do fogão novo, os
preferidos da investigadora, e passaram o resto do dia rindo e conversando
sobre banalidades do dia a dia. Foram embora já de tardinha.
Logo em seguida alguém bateu à porta. Carter que estava vestida com
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uma camisola que mais parecia um blusão, levantou-se preguiçosamente para


abrir a porta. Uma Nayla chorosa praticamente pulou no pescoço dela aos
prantos, totalmente descabelada, a roupa toda desalinhada e sem nenhum
vestígio de maquiagem no rosto. Quando Jesse olhou para o pé da amiga e
viu um par de chinelos velhos e não o costumeiro salto agulha assassino,
percebeu que o assunto era realmente grave.
— Fiquei tão preocupada quando soube que você levou um tiro,
amiga, vim o mais rápido que pude — disse Nayla, com uma voz condoída e
de cortar o coração.
— Não se preocupe, Nay, eu estou bem. O tiro foi só de raspão, em
breve estarei pronta para outra — brincou.
— Não brinque com isso, Jesse. — Zangou-se a amiga.
— Mas essa tristeza não e só preocupação comigo que eu sei. —
Puxou-a para dentro e fechou a porta atrás dela, colocando-a sentada no sofá
roxo-escuro da sala.
— Jesse, o que houve com o seu apartamento? Está lindo! — Girou
os olhos castanhos em um ângulo de trezentos e sessenta graus por toda a
sala, dando um jeito de mudar de assunto logo, mas no fundo estava
realmente surpresa com a mudança repentina do lugar.
— Nem eu sei amiga, quando voltei do hospital já estava assim. O
dono do prédio disse que alguém comprou e mandou reformar, agora pare de
mudar de assunto e me conte o que aconteceu para te deixar assim. — Foi
direto ao ponto.
— Ele voltou, Jesse… — E a choradeira começou novamente, deitou
a cabeça no colo da amiga e entregou-se a um pranto sem fim.
— Ele quem, Nayla? — Afagou os cabelos da estilista com carinho.
— Aquele menino que te contei uma vez, que conheci no Ensino
Médio quando morava na Inglaterra, até o chefe do meu pai transferi-lo para
Los Angeles, o único que fez o meu coração bater mais forte até hoje.
Nayla tirou uma caixa de lenços de papel da bolsa rosa de veludo com
uma placa dourada escrito em letras maiúsculas “PRADA”. Limpou os olhos
e assoou o nariz usando dois de uma vez só os entregando na mão da Jesse,
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que pegou nas pontas dos dedos e jogou-os no chão próximo ao sofá, com a
intenção de jogá-los fora mais tarde. Limpou a mão no seu pijama e a voltou
para o mesmo lugar onde estava fazendo acariciando os cabelos da amiga.
— Então deveria estar feliz com isso, não triste dessa forma. — A
estilista ergueu o rosto para olhar para Jesse, com os olhos inundados.
— Ele não é mais como na época do colégio, talvez nunca tenha sido
da forma que eu imaginava que fosse. — Sentou-se ao lado de Jesse,
acertando as costas de forma que pudesse apoiar a cabeça no ombro dela.
— Ninguém é como a gente pensa, Nay, devemos amar as pessoas
mesmo quando descobrirmos quem elas são de fato.
Às vezes Nayla não conseguia entender como Jesse conseguia ser
uma pessoa tão boa, sempre via um lado bom nas pessoas, mesmo quando tal
nem existia.
— É mais complicado do que parece Jesse, ele está envolvido no
roub…
Pensou melhor e parou de falar, acreditando não ser sensato
compartilhar com uma policial que o grande amor da vida dela havia voltado
apenas para se vingar, por um motivo que não fazia a mínima ideia. Estava
envolvido no roubo das joias do desfile, que graças ao bondoso Deus, tinham
seguro, mas, ainda assim, o acontecido destruiu a imagem dela diante a
imprensa. Nem falavam das peças criadas com tanto carinho e dedicação,
apenas do roubo e ainda insinuavam que ela tinha envolvimento com os
criminosos. Como explicar para uma investigadora do FBI, e sua melhor
amiga, que estava completamente apaixonada por um bandido e que daria a
vida para poder colocar os olhos nele mais uma vez, nem que fosse por um
instante.
— Envolvido em quê, senhorita Nayla Borges? — Jesse perguntou no
seu melhor tom de investigadora do FBI, estava começando a desconfiar que
houvesse mais coisas atrás daquela história do que Nay estava contando.
— Nada, Jesse! Preciso ir, tchau! — Em uma fração de segundos
enfiou a mão dentro da bolsa,, tirando o celular e a chave antiga do
apartamento da investigadora. — Fico feliz que esteja bem, eu te amo best
friend! — Forjou um sorriso sincero e saiu praticamente correndo fechando a
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porta em um estalo fino, não dando nenhuma chance de Carter perguntar


mais nada. Ela ficou sentada no sofá olhando para aquele pedaço de aço bem
fixo na parede, imaginando o porquê alguém construiria uma fortaleza como
aquela para outra pessoa que nem conhecia morar. Pela grossura das paredes
e as grades de ferro chumbadas nas janelas, nem o Incrível Hulk no seu maior
momento de fúria conseguiria entrar ali. Levou um susto com o barulho da
campainha tocando novamente, nem lembrara que agora tinha uma,
antigamente mal tinha porta. Levantou-se para abrir certa de que era Nay que
havia esquecido alguma coisa ou havia tomado coragem para contar o que
estava escondendo dela sobre esse tal cara que tinha voltado depois de muitos
anos. Porém, não era.
— Oi — disse Blade, com a voz visivelmente rouca e uma expressão
cansada instalada no rosto, resultado das últimas noites em claro.
— Olá! — ela respondeu sem poder evitar um sorriso bobo.
Ele estava ainda mais bonito dentro da sua camisa polo Ralph Lauren
tom escuro, abraçando seu peito largo, farto e bem-dotado de músculos, um
jeans claro gasto moldando as pernas longas e grossas, as habituais botas de
couro pretas. As mãos estavam escondidas dentro do bolso, e, Deus, ele havia
cortado o cabelo bem curto estilo presidiário, ficou a coisa mais sensual do
mundo, um verdadeiro crime, pensou Jesse. A barba por fazer de dois ou três
dias, a boca com os lábios levemente umedecidos e um perfume hipnotizador.
No pescoço ela notou um cordão do exército americano com a numeração
1989BMN, o que deixou a jovem bastante chocada, jamais imaginara que ele
fora um soldado um dia.
— Vai me deixar à noite todo parado na porta? — perguntou bruto
com o tom um pouco elevado.
Não sabia tratá-la de outra forma, não que quisesse. Os olhos dele
desceram certeiro para a camisola dela, não estava usando sutiã e os seios
estavam balançando livremente, totalmente à vontade.
— Desculpe, entre e fique à vontade.
Assim Maldonado o fez, passou por ela como se o apartamento fosse
seu, nem um pouco surpreso com o grande número de diferenças que tinha
após a última vez que esteve ali. Sentou-se no sofá de forma espalhafatosa e

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cruzou as pernas, elegante demais para um bandido perigoso. Jesse fechou a


porta, sentindo os olhos dele queimarem cada parte do seu corpo, se
desesperou ao lembrar que tinha aquela roupa de dormir desde a adolescência
e que mesmo não tendo crescido muito, ela deixava pelo menos a metade de
sua bunda à mostra. Isso a fez corar.
— Eu estou à vontade — disse apenas, assim que ela se virou
visivelmente envergonhada com a presença dele, que fixamente lhe encarava
com os olhos como que duas safiras brilhantes com a luz do luar que entrava
pela fresta da janela.
— Vou me trocar e já volto, você está gripado? — ela perguntou
preocupada, desviando o olhar apontando para a camisola, tinha as duas mãos
na barra, puxando-a para baixo na tentava inútil de cobrir alguma coisa, sem
nenhuma condição psicológica de manter contato visual com ele, pois a
intensidade que vinha daquelas duas lagoas azuis era forte demais,
assustadora, por assim dizer.
— Não precisa, está ótima assim! — Olhou mais tempo que o
necessário para as pernas dela de fora.
— Mas eu não estou me sentindo bem em estar de forma tão "íntima"
na sua frente. — Ela corou, puxando ainda mais a barra do vestidinho,
tentando cobrir alguma coisa, sem sucesso algum.
— Creio que não tenha estado de forma tão "íntima" na frente de
outro homem, não é mesmo? — perguntou na cara dura, direto e reto,
avaliando-a de cima a baixo com um semblante enigmático, sem se importar
com uma Jesse chocada diante da pergunta indiscreta dele.
— Minha vida íntima não lhe diz respeito. — Jesse balançou de leve a
cabeça e praguejou baixinho, roxa de raiva, perguntando-se por que ele tinha
que ser tão bonito, tão fodidamente sexy e atraente naquele jeans infernal e
mexer tanto com ela daquela forma.
Blade parecia a personificação do sexo, que fazia a calcinha dela
molhar apenas com um olhar. Queria poder odiá-lo por ser tão cretino ela,
mas simplesmente não conseguia.
— Você cora como uma colegial, fala como uma e usa tênis em um
baile de gala. Aposto que é o tipo que está "esperando a pessoa certa". Está
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escrito na sua cara que ainda é virgem, então pare de fingir que tem uma vida
"íntima", porque nós dois sabemos que não tem — disse Blade sem
paciência, frio e sarcástico.
— Acho que essa pessoa já apareceu. — Blade parou de respirar,
literalmente. — Já que hoje Michelangelo me ligou me convidando para sair,
lembra aquele barman do baile que fui usando tênis? Daqui a duas semanas
vai ter uma exposição de fotografias que nós vamos juntos, assim como eu, é
apaixonado por fotos e livros de romances, gosta de mim do jeito que sou e é
gentil comigo sempre. Temos mais coisas em comum do que pensei e talvez
ele seja, sim, a pessoa "certa, que esperei até hoje", que vai me mostrar que
valeu a pena ter me guardado durante todo esse tempo, não como uns e outros
que me fazem sentir uma idiota pelo mesmo motivo.
A princípio, Maldonado pareceu furioso, a pele ficando vermelha e a
boca inflando, um sapo inchando quando se sente acuado. Então ele soltou
uma gargalhada alta, inclinou a cabeça para trás encostando mais as costas no
sofá, fechou os olhos e levou as mãos na barriga, que deveria estar doendo de
tanto rir.
— Você esperou a sua vida toda pelo anão da Branca de Neve,
investigadora? — Ele riu mais ainda, uma gargalhada gostosa que tomou
conta de todo lugar.
— Saia de minha casa, agora! — ela gritou apontando para porta, e
saiu pisando duro para o quarto tomar o seu banho e cair na cama na
esperança de dormir para esquecer daquele dia horrível. Se não fosse tão
educada o teria xingado, queria ofendê-lo do mesmo jeito baixo que ele fazia
com ela.
— Não vai me oferecer nada para beber ou comer? — debochou ele,
segurando o riso e tapando a boca com a mão.
— Claro, desculpe, você está com fome? — perguntou irônica, por
mais raiva que estivesse de uma pessoa jamais a deixaria passando fome.
— Sim. — Blade deu uma pausa como se precisasse tomar fôlego,
logo a voz grave tomou conta do lugar novamente. — Mas o que quero
comer no momento suponho que não esteja disponível no seu cardápio. —
Ele bateu a palma da mão uma na outra e começou a rir novamente, dessa vez

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inclinando o corpo para frente ainda segurando a barriga com as mãos.


Lágrimas de ódio correram no canto dos olhos dela.
—Blade Maldonado! — A forma séria com que ela lhe chamou pelo
nome completo o fez parar de rir imediatamente e olhar para ela. Ficou
surpreso com o encantamento que Jesse olhara para ele naquele momento.
— Você está sorrindo! — Ela se aproximou-se dele com cuidado.
Não queria assustá-lo. — Deveria fazer isso mais vezes, o seu sorriso é lindo
— afirmou, segurando o seu rosto entre as mãos, olhando no fundo dos seus
olhos. Podia ver o medo ali presente, visivelmente confuso com aquela
situação. Ele, então, percebeu que não lembrara a última vez que sorriu,
talvez nunca o tivesse feito.
— Eu… eu… — As palavras faltaram para Maldonado, como uma
criança aprendendo a falar.
— O que tanto te assusta, Blade? Pensei que não tivesse medo de
nada, é sempre tão seguro e direto em relação a tudo.
— Você me assusta, Jesse, fico apavorado toda vez que estou perto de
você e eu odeio isso — confessou, por fim, livrando-se do toque dela.
E assim Blade fugiu, confuso, sem se despedir, pensando no fato de
que o que ninguém tinha feito por ele em toda a sua vida, o seu anjo fizera
em pouco menos de um mês.

Nayla saiu do apartamento da amiga mais pra baixo do que quando


chegou, odiava mentir para ela. Destravou a porta do seu Oversign
envelopamento rosa-claro, carro presente da Mary Kay Cosméticos. Vivia
sendo presenteada por marcas famosas. Entrou, jogou a bolsa no banco de
couro branco do carona, essa era a cor predominante na parte interna do
veículo, e começou a dizer pra si mesma: — Eu vou parar de chorar… eu vou
parar de chorar… eu vou parar de chorar…
Ela repetiu esse mantra por diversas vezes antes de colocar o carro em
movimento, mantendo o vidro escuro fechado, tinha um certo receio de andar
com eles abertos naquele bairro. Depois de trinta minutos dirigindo, ela nem
notou que tinha feito uma curva errada, seguindo para o lado sul da cidade,
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onde tudo de pior acontecia. Estava falando uma dúzia de palavrões com o
chefe de um jornal que havia publicado uma matéria distorcendo
completamente tudo o que tinha dito em uma entrevista que fizera para ele
sobre o roubo das joias, insinuando a todo o momento que ela tinha
envolvimento com o ocorrido.
Depois de uma conversa nada amigável, conseguiu que fizessem uma
segunda publicação, retratando-se pela indelicadeza em relação ao seu
trabalho. Consequentemente, entrou na rua sem fim à esquerda em vez da
direita, a qual a levaria ao centro de Los Angeles, que naquela hora da noite
estaria bastante movimentada devido ao grande fluxo de pessoas retornando
para a casa depois de um dia cansativo de trabalho. Quando percebeu onde
estava, já era tarde. A rua era escura, cheia de pessoas estranhas em volta de
uma fogueira bem no meio dela, vendendo e usando drogas, enrolados em
cobertores velhos e sujos, que ficaram bastante alarmados ao notar a presença
de um carro cor de rosa invadindo a "área" deles. Uma pessoa normal daria
meia-volta e fugiria dali o quanto antes, e era o que ela pensou em fazer
naquele momento, mas, viu de longe um homem bastante familiar entrando
em um beco escuro, olhando para os lados como se estivesse com medo de
que o vissem.
— O que Estevão está fazendo em um lugar como este? — Foi o que
Nayla se perguntou.
Sem pensar duas vezes saiu do carro e o seguiu a passos rápidos,
tendo que enfrentar os olhos gulosos daqueles homens sujos, sorrindo
maliciosamente para ela com três ou quatro dentes faltando, uma chuva de
assobios e palavras baixas se referindo ao corpo dela que tomou conta da rua.
Agradeceu a Deus por estar trajando um moletom velho que usava para
dormir em dias mais frios.
Nay passou entre becos e vielas sem nenhum pingo de medo. O amor
é capaz de encher de coragem até os corações mais covardes, não que esse
fosse o caso dela. O inglês era grande e tinha as pernas longas e ágeis, a
coitada estava suando para não o perder de vista. Mesmo com somente alguns
flashes de luz no local, podia vê-lo e ouvir o som da capa de Estevão voando
atrás das suas costas conforme ele dava passadas rápidas. E ela achava aquilo
a coisa mais erótica do mundo. Foi então que ele parou de andar e se
aproximou de um homem branco, de estatura mediana, usando roupas da
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Nike, um conjunto de tecido barato vermelho bem largo, de muito mal gosto
na opinião dela. Uma touca preta na cabeça e um cordão dourado com a letra
S enorme pendurado no pescoço, os dentes revestidos de ouro.
— E aí, mano, trouxe a grana? — o indivíduo perguntou, com um
péssimo vocabulário recheado de gírias, era evidente que estava esperando
por ele.
Nayla observava tudo escondida atrás de uma parede, de onde podia
ouvir claramente e vê-los de relance de sem ser vista. A jovem era esperta.
— Sim, agora me dê a minha encomenda. — Ela estremeceu ao ouvir
a voz de Estevão, era grossa e firme.
— Calma chefia, tem mercadoria aqui que dá para cheirar tranquilo
por um mês. Tu gosta de coisa pesada ein, mano? Conheço gente que bateria
as botas com muito menos, se estiver vivo quando acabar e só me procurar
que arranjo muito mais de onde veio essa — completou o malandro satisfeito
com a venda, entregando a ele um saquinho cheio de pedras brancas e
algumas cartelas de comprimidos azuis e brancos.
— Então além de roubar, você também é usuário de drogas agora? —
Estevão literalmente paralisou quando ouviu a voz de Nayla. Havia muita
decepção dentro dos olhos dela. Não sabia o que alguém como ela estava
fazendo em um lugar como aquele, ainda mais com aqueles chinelos velhos
horríveis nos pés, sim, ele reparou nisso.
— Isso não é da sua conta! Vá embora daqui, não quero te ver mais, a
sua falsidade me enoja. — Vomitou as palavras sem dó, porém,
envergonhado demais para olhar para ela.
— Eu não vou deixar que faça isso com você! — Ela teve um ataque
de fúria e pegou o embrulho na mão dele e jogou longe, dando vários murros
em seu peito para dissipar um pouco a raiva que estava sentindo.
— Viu o que essa vadia fez, cara? Espero que tenha um bom motivo
para eu não acabar com a vida dela. — O traficante tirou uma arma da cintura
e apontou para a cabeça dela.
— Porque sou eu quem fará isso, aos poucos, para que sofra o tanto
que me fez sofrer. — Até o malandro se assustou com a forma com que

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Salvatore proferiu tais palavras: totalmente frio e hostil.


— Taí um bom motivo, cara, gostei do seu estilo! Como diria Jack
Matador: "vamos por partes". Arranca uma orelha hoje, um braço amanhã e
assim vai. — Soltou um gargalhada alta, mostrando os dentes de ouro, uma
cena de dar medo em qualquer um.
— Eu não me importo que acabe com a minha vida, mas não vou
deixar que se mate dessa forma horrível, consumindo essas porcarias. Não
desejaria uma vida assim nem para o meu pior inimigo, muito menos para o
homem que amo, sempre amei desde a época da escola. — Levou as mãos ao
rosto e começou a chorar.
— Me ama? Não me faça rir, Nayla, não ama nada além dessa sua
carreira cheia de pessoas medíocres e sem coração que humilha aqueles que
não são como vocês. — Ele estava tão nervoso que andava de um lado para o
outro, pisando tão forte que o chão chegava a tremer, completamente fora de
si. — O que fez comigo afetou completamente a minha vida, essas coisas que
encheu a boca para chamar de porcarias foi o que me salvou por todo esse
tempo, preenchendo o vazio que colocou dentro de mim. Como pôde me
fazer acreditar que poderia gostar de mim do jeito que eu era, apenas para
fazer piada com os meus sentimentos junto com seus amigos? — Ele não
conseguia lembrar-se daquele dia sem tremer as mãos, limpando-as
incessantemente na roupa como se elas estivessem sujas da tinta das bexigas
que jogaram nele naquele dia.
— Você está se drogando desde a época da escola? E entrou nessa
vida por minha causa, por uma coisa que pensa que eu fiz? — Ela o encarou
sem acreditar no que acabara de ouvir, foi preciso recostar-se na parede para
se recuperar do choque.
— Desde a noite do baile, só parei quando o meu irmão caçula ainda
era pequeno e me viu tendo uma overdose depois de passar a madrugada toda
enchendo a cara de heroína, após acordar de um maldito sonho com você,
com flores brancas no cabelo sorrindo para mim. Todas as noites era o
mesmo sonho amaldiçoado. — Nayla sorriu ao saber que ele sonhara com
ela, mesmo que Estevão não visse isso como uma coisa boa. — Meus amigos
me fizeram prometer que iria parar, não aguentavam me ver nessa situação
deplorável, mas meu maior motivo foi porque toda vez que ia usar, lembrava

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dos olhinhos do Bobbi cheio de lágrimas, olhando para mim no chão,


ajoelhado ao meu lado, pedindo por favor para eu não morrer, porque me
amava. Fiquei limpo por dez anos, só que depois do nosso encontro não
consegui mais me controlar. — Nayla alegrou o coração ao descobrir a
existência de uma pessoa importante na vida de Salvatore, um irmão caçula
que o incentivou a parar com o vício.
— Se a minha presença é o motivo para voltar com isso, pode deixar
que vou para outra cidade ou até outro país se for preciso. Sumo do mapa,
mudo de nome e até de rosto, sou capaz de qualquer coisa por você — disse,
sincera, e Estevão percebeu isso.
— Dá uma chance para a mina, cara, nenhuma mulher nunca disse
uma parada romântica dessa para mim, tem que valorizar esse tipo, pô! — O
traficante se emocionou com as palavras da estilista, Nay tirou dois lenços de
papel da bolsa que estava presa debaixo do braço e deu a ele.
— Valeu moça, foi mal aí ter te chamado de vadia. — Assoou o nariz,
fazendo um barulho alto.
— Vou desculpar se prometer não vender essas porcarias para mais
ninguém. A cada dez segundos no mundo tem uma mãe chorando em volta
de um caixão a perda de um filho para o mundo drogas, e são pessoas como
você as culpadas disso. Hoje é a mãe de alguém, amanhã pode ser a sua. —
As palavras de Nayla tocaram o rapaz, que se lembrou do olhar triste de sua
mãe quando fora embora para a cidade grande em busca de uma vida melhor
e onde, sem sucesso, virou traficante. — Não precisa chorar está bem? Eu
posso arranjar uma bolsa de estudos para você em uma boa faculdade e um
trabalho de meio período para se manter honestamente até se formar, o que
acha? — Ela limpava as lágrimas dele com carinho, sorrindo docemente para
ele cheios de esperança.
O inglês ficou confuso com a atitude dela, pessoas sem coração não
eram gentis com ninguém, muito menos com quem não merece como um
malandro sem vergonha. Diante daquilo, limitou-se apenas a olhar aquela
cena inusitada de uma patricinha se virando muito bem sozinha em meio aos
lobos.
— Você é a primeira pessoa que não olha para mim com cara de nojo,
me ofereceu ajuda sem pedir nada em troca, obrigado! — Sorriu
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notavelmente emocionado, estava realmente encantado com a bondade dela


para com ele, apenas um estranho.
Nayla era assim, tinha o poder de conquistar as pessoas apenas com o
poder das palavras, enxergava beleza onde ninguém mais via, por isso se
apaixonou por Estevão logo de cara.
— Esse é o meu cartão, tome um bom banho e vista algo decente. E,
pelo amor de Deus, tire esses dentes de ouro horríveis e jogue essa maldita
droga no lixo. Depois que fizer isso, pode me ligar quando quiser, estou
disposta a te ajudar de verdade. — O ex-malandro do lado sul da cidade,
futuro universitário e assalariado, a abraçou animado com a chance que ela
lhe proporcionara de ser uma pessoa digna.
— Não sou obrigado a ficar aqui vendo isso! Não satisfeita em
destruir o meu coração, resolveu desvirtuar o dono da boca de fumo. —
Estevão saiu emburrado e enciumado. Nayla partiu atrás dele o
acompanhando até seu carro estacionado do outro lado da rua.
— Precisamos conversar, Estê, temos que esclarecer o que houve
naquele dia do baile. — Pegou no braço dele impedindo que abrisse a porta
do seu Jaguar preto, modelo clássico, com estofamento imitando couro de
onça. Ela fez com que as chaves dele caíssem no chão, debaixo da roda.
— Não toque em mim! Acho que já estragou a minha noite o
suficiente por hoje não acha? Por que não cumpre a sua promessa e some do
país, ou melhor, da face da Terra? — Foi sarcástico, cruel nas palavras.
Abaixou-se para pegar as chaves e quando levantou viu que ela havia
desaparecido. Então, seguiu o seu caminho para a sua verdadeira casa, uma
cabana no campo, totalmente afastada de tudo. No estado em que se
encontrava não seria saudável ter que enfrentar quatro parceiros desconfiados
e o olhar preocupado do irmão caçula. O que não sabia Estevão, era que
Nayla estava mais perto do que pensava, escondida no porta-malas do seu
Jaguar, era teimosa demais para deixar aquela conversa para um outro dia.

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CAPÍTULO 13

“Esperando por você…”

Agora Jesse Carter era vista no departamento de investigação do FBI


como a queridinha do juiz Thompson, grande amigo do presidente dos
Estados Unidos e peixe grande no mundo jurídico. O fato da jovem ter
salvado a vida da filha deste e ter aparecido em inúmeras capas de revistas e
jornais, a maioria em almoços que a jovem participara em restaurantes de
luxo ao lado do todo poderoso e dos filhos, Lia e Maxmilian Thompson,
gerou uma certa inveja nos companheiros de trabalho. Já fazia quase duas
semanas do ocorrido e todos ainda falavam a mesma coisa, sendo a notícia
número um da rádio corredor dos fofoqueiros de plantão.
Se a própria Jesse, que deveria estar se vangloriado do ato heroico, já
havia esquecido do ocorrido, não fazia o menor sentindo todos ficarem
martelando na mesma tecla. O ombro dela tinha melhorado, estava firme e
forte de volta ao trabalho, só não tinha se recuperado psicologicamente do
atentado. Por falar nisso, ninguém do departamento, além do novo parceiro,
Hugo Rodrigues, teve a gentileza de ir visitá-la no hospital ou demonstrar
algum vestígio de preocupação. A única coisa que recebeu foi uma ligação
grosseira do pai, ameaçando demiti-la caso não voltasse ao trabalho em dois
dias. Diante de tais palavras “amorosas” do seu genitor, na segunda-feira de
manhã acordou bem cedo para arrumar-se com calma. Não colocou o
uniforme habitual e, pela primeira vez, ousou exibir o distintivo preso no
cinto para que todos soubessem que era uma policial e a respeitassem como
tal. Achou bom estar de voltar à ativa, estava cansada de ficar em casa sem
nada para fazer além de pensar no sorriso charmoso de um certo bandido
cruel chamado Blade Maldonado. Ficou um pouco chateada por ninguém ter
se preocupado com o fato de que ela poderia estar debaixo de sete palmos
naquele momento. O que mais doía era saber que se tivesse sido com outro
policial, o major teria ido até o fim do mundo para encontrar o culpado que
atirou nele, mas, no caso da própria filha, alegou ter sido apenas uma
tentativa de assalto corriqueira.

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A investigadora organizou os objetos pessoais sobre a pequena mesa


de madeira que ocupava cinquenta por cento da sua minúscula sala
improvisada que ela orgulhava em ter. Era do tipo de pessoa que não
almejava ter tudo, orgulhava-se do pouco que tinha e agradecia a Deus todo
dia por isso. Terminou de limpar tudo e colocar no seu devido lugar, ajeitou o
telefone no gancho esperando alguma ligação urgente para pegar a sua arma
— que não sabia usar — e o colete à prova de balas com o emblema do FBI
maior do que ela, para poder sair pela cidade e combater o crime, se sentindo
como a Mulher-Maravilha, pronta para enfrentar qualquer parada. Sentou-se
de forma esbanjada na cadeira, inclinando o corpo todo para trás, colocando
as mãos na nuca, totalmente relaxada, até que uma voz fina e irritante, que
conhecia muito bem, atrapalhou o seu momento de paz.
— Como vai a queridinha do juiz? — ironizou Amanda, com um
sorriso gélido no rosto, chegando no espaço de Jesse sem cumprimentá-la ou
dizer algo no mínimo “humano” e exibindo um copo de cappuccino da
melhor cafeteria da cidade.
Era incrível como um simples uniforme da polícia parecia um look de
primeira mão da Chanel naquela mulher, qualquer coisa ficaria bem nela. De
fato, era a mulher mais linda do departamento, mas o que sobrava na
aparência, deixava a desejar na alma.
— Nunca estive tão bem, querida! E o meu amigo juiz Thompson te
mandou um beijo. Ah! Esqueci, ele nem sabe que você existe! — Jesse não
gostava de ser abusada, só que naquele momento não conseguiu segurar a
língua, Amanda merecia ouvir isso e muito mais para deixar de ser tão
arrogante.
— Olha como fala comigo, patinho feio, está se achando só porque
“salvou” a filha do juiz. Essa história está muito mal contada, minha
queridinha, não vou descansar até descobrir o que aconteceu de verdade e
desmascarar você na frente de todo mundo, principalmente do major. —
Apontou o dedo bem no meio do rosto de Jesse, com uma prepotência
absurda.
— Cuidado, Amanda, inveja mata! — Hugo Rodrigues chegou em
socorro da nova parceira.
Além de inteligente, ele era direto nas palavras e tinha resposta para
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qualquer pergunta sem precisar pensar muito. Era um pouco metido às vezes,
mas tinha um bom coração. Não aceitava ordens de ninguém, nem mesmo do
major Carter. Trabalhava da forma dele e odiava usar uniforme; naquele
momento mesmo trajava calça jeans clara, camisa preta com a foto do
Coringa sorrindo perversamente e um casaco escuro social dando um ar mais
sério ao restante do look. Nos pés, sapatos caros, o cabelo estilo todo
bagunçado sobre os olhos castanhos debaixo dos óculos de grau. No pescoço,
o distintivo em uma espécie de cordão próprio para pendurar o objeto e nas
mãos um buquê de rosas vermelhas enorme, lindo e perfumoso.
— Ninguém te chamou aqui, nerd, vá procurar algum animal para
decepar e me deixe em paz — resmungou Amanda, cruzando os braços
emburrada.
— É dissecar, Amanda, será que não consegue pronunciar uma
palavra direito? Esqueci que só sabe bancar a inteligente na frente do chefe
Carter. — Hugo revirou os olhos sem paciência, assim como Jesse, não a
suportava e não confiava nem o pouco nela, mesmo sendo a preferida do
major.
— Cale a boca, Hugo, e me diga logo quem me mandou esse buquê
de flores? Com certeza algum admirador meu, homens atrás de mim é o que
não faltam — disse a metida, como se tivesse certeza que as rosas eram para
ela.
— Quantidade nunca foi sinal de qualidade, Amanda. As flores são
para você Carter. — Amanda que já tinha os braços abertos no ar para
receber o buquê, manteve-os na mesma posição, paralisada totalmente, em
choque com a revelação de Hugo Rodrigues.
— Para mim? — Jesse literalmente caiu da cadeira, derrubando sobre
ela tudo que estava na mesa, inclusive o copo de cappuccino de Amanda, que
tinha colocado lá para pegar o arranjo de flores que pensava ser dela.
— Sim, senhora parceira.
Rodrigues sorriu olhando para Carter caída no chão com cabelo todo
sujo de cappuccino. Por sorte a roupa não havia sujado muito. Ela pegou as
flores com a maior delicadeza, visivelmente encantada, dava até gosto de ver.
Tirou um pequeno cartão no meio das rosas e levou o arranjo muito bem-feito

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próximo ao rosto para sentir o aroma delas.


— É a primeira vez que recebo flores de alguém — Jesse revelou
sorrindo, independentemente de quem havia mandado já lhe deixou
imensamente feliz.
— Não vai dizer quem mandou, Carter? Pode ter alguma bomba aí
dentro, podem estarem tentando te matar outra vez. — Amanda soltou o
veneno, doida para saber o que estava escrito no bilhete.
— Não é da sua conta, loira falsa, larga de ser invejosa mulher! E
nem adianta dizer que não está com schadenfreude, na língua de vocês a
famosa e antiga inveja. Sua pele está em um tom mais avermelhado que o
normal, olhos estreitos, dentes e punhos cerrados travando consigo mesmo
uma briga interna com o seu ego. — Rodrigues a descreveu perfeitamente,
era um especialista em ler as pessoas.
Antes de Amanda dizer qualquer coisa ele a pegou pelo braço e saiu
puxando-a para fora, despediu-se de Carter com uma piscadela que esta
respondeu da mesma forma agradecida.
— Eu recebi flores! — Pensou alto, sorrindo sem parar, estava
realmente feliz com aquilo.
Levantou com cuidado, tentando não escorregar nas poças de líquido
marrom no chão, sentou-se na cadeira apoiando o buquê no colo e abriu o
bilhete lentamente com o coração batendo rápido como de um beija flor.

Para lembrar você do nosso passeio, princesa. Mal posso esperar


para passar um dia inteiro ao seu lado, afinal, mesmo antes de acontecer
tenho certeza que será um dos dias mais felizes da minha vida. Seu sorriso
me encanta, sinto-me completo depois que te conheci.

Jesse sorriu mais ainda ao ler o bilhete assinado no final por


Michelangelo Abreu. Nunca tinha se apaixonado por ninguém antes, sempre
fora uma garota tranquila, não ligava para quantidade e, sim, qualidade.
Queria alguém que fizesse seu coração bater mais forte como aconteceu
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quando viu Blade sorrir pela primeira vez,. Gostava do barman só que não
sentia frio na barriga ou borboletas voarem em seu estômago como acontecia
com Maldonado. No entanto, Miche era um bom rapaz e gentil a todo
momento com ela, por isso daria uma chance a ele. A investigadora foi tirada
dos seus pensamentos ao ouvir o barulho do telefone tocando, atendeu ainda
meio abobalhada segurando o pequeno pedaço de papel.
— Departamento de polícia do FBI, investigadora Jesse Carter
falando. Em que posso ajudar? — disse em seu melhor tom sério, do jeito que
via o pai fazer ao atender algum chamado.
— Reunião aqui em casa daqui a duas horas, não se atrase. Da
próxima vez, cuidado em falar o seu sobrenome, porque pode ser o Blade ao
invés de mim. Até mais tarde investigadora, tenha um bom-dia — Julius deu
o aviso sendo o mais delicado que pôde ao dizer nas entrelinhas para tomar
cuidado para que Maldonado não descobrisse de quem ela era filha.
Jesse passou a manhã toda remoendo as palavras do mexicano,
aproveitou o horário de almoço para ir na tal reunião, para não chegar
atrasada passou no trabalho da irmã e pediu o carro emprestado. Mainara
emprestou com o coração na mão, a investigadora era habilitada, porém, não
sabia dirigir direito, um verdadeiro perigo no volante.
Aos trancos e barrancos chegou sem nenhum arranhão e dez minutos
antes do previsto, o primeiro carro que viu na garagem foi o Impala com as
rodas repletas de barro alaranjado-escuro. Ela lembrou que a terra onde ficava
o esconderijo do Blade era da mesma cor. Com certeza deveria ter vindo de
lá, não o vira desde da última vez que esteve no apartamento dela. Quando
chegou ao escritório, o primeiro que viu foi Maldonado sentado em uma
poltrona de couro preta próximo a porta, com a cara mais azeda do que
nunca, fingindo não notar a presença dela. Divino dentro de uma calça jeans e
camiseta branca de mangas finas coladas ao corpo, deixando totalmente à
mostra os braços musculosos repleto de tatuagens; nos pés, botas caramelo
com os cadarços desamarrados propositalmente. A expressão cansada em seu
rosto a preocupou bastante, a respiração estava pesada e uma rouquidão
estranha no peito, fora a cor avermelhada da pele como se estivesse com
temperatura do corpo elevada.
— Olá, Blade, como vai? — disse Carter, oferecendo a ele o seu

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melhor sorriso.
— Estava muito bem até você chegar.— respondeu rude, mais grosso
do que de costume. Foi preciso levar o punho fechado a boca para controlar o
pequeno acesso de tosse que teve, era visível que estava doente.
— Eu só vim porque me convidaram, desculpe se minha presença não
lhe agrada.
Desviou o olhar, não entendia como alguém com um sorriso tão lindo
preferia escondê-lo atrás de tanta grosseria em vez de usá-lo sempre que
possível para fazer o dia de alguém feliz, o dela principalmente. Mesmo
assim, Carter não pôde deixar de se preocupar com a aparência gasta de
Blade, olhos fundos e a voz rouca quase incompreensível. Desde a última vez
que o vira, notou que estava começando a gripar. Em vez de melhorar estava
muito pior.
— Oi, baixinha, que bom te ver novamente! — A simpatia de Julius
compensava qualquer falta de sensibilidade de Maldonado ao receber uma
visita. Era gentil além da conta, principalmente quando ia com a cara da
pessoa. Pelo tom carinhoso e o olhar dele que dizia para ela “não se
preocupe, guardarei o seu segredo”, ela tranquilizou-se bastante.
— Como vai, grandão? — Ela passou pela mão dele estendida no ar
para cumprimentá-la e o abraçou com um sorriso enorme no rosto que fez o
coração do mexicano aquecer diante de tanta ternura.
— E aí, maluqueira, beleza? — Li achava a pequena uma graça,
achava hilário o jeito todo atrapalhado da moça.
— Beleza pura, mano, tudo na paz — Jesse brincou com o chinês,
batendo a mão dela aberta na dele, ocasionando em um estalo alto, porém não
o suficiente para justificar a cara feia que Blade fez só por conta do
cumprimento animado dos dois.
— Será que poderiam parar com esse papo-furado e começarmos a
falar sobre o que realmente importa? Deixe essa animação de circo de lado e
vamos direto ao ponto. Se gostam tanto dela poderiam ter a gentileza de
avisar a ela que pentear o cabelo de vez enquanto não faz mal a ninguém.
Os olhos de Maldonado a percorreram maldosamente, começando

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pelos cabelos rebeldes soltos de forma desconexa, totalmente livres,


dançando conforme a vontade do vento, desafiando com ousadia a lei da
gravidade, era castanho-escuro, cor de canela. Passou pelo rosto sem nenhum
vestígio de maquiagem, a blusa cáqui de mangas três quartos, calça jeans
escuro solta com duas ou três pregas malfeitas na cintura. Agora sem as mãos
e a máquina de costura mágicas da mãe dela para dar jeito em suas roupas,
estava se virando sozinha com um rolo de linha e uma agulha. Quando
pousou o olhar sobre o par de tênis velhos sentiu o estômago embrulhar,
nunca tinha conhecido uma mulher tão desleixada da vida.
— Não seja grosseiro com a moça, Blade, algumas pessoas podem se
magoar com a verdade. — Estevão chegou apressado ajeitando o casaco na
tentativa de aliviar a aparência amassada, todo desalinhado, logo ele que
gostava de andar todo engomadinho. Até tentou consertar a indelicadeza do
parceiro para com a moça, mas só piorou as coisas.
O inglês, que costumava andar com uma nuvem negra sobre a cabeça,
ultimamente vivia como se os seus dias fossem todos ensolarados com
pássaros voando livremente em um céu invejavelmente azul. Sempre calmo e
passivo, se soubesse como sorrir o faria o tempo todo, tinha motivos de sobra
para isso agora.
— Não entendo por que toda vez que tento conversar com você como
uma pessoa civilizada faz questão de me tratar com um cão sarnento, se quer
que eu finja que não existe e só falar que pelos menos não farei mais papel de
idiota tentando puxar assunto com você, Blade. — O silêncio predominou no
lugar. A coragem dela em enfrentá-lo surpreendia a todos.
— Na verdade nada me faria mais feliz, não suporto a sua voz. Tão
pouco a dona dela, suas roupas são horríveis e o seu cabelo, prefiro não
comentar.
Jesse olhou para baixo avaliando suas vestes, consequentemente não
achou nada de errado com sua roupa, não mesmo. O cabelo achava lindo do
jeito que era, gostava de usá-lo ao natural.
— Não ligue para o comentário grosseiro dele, pequenina. Hoje em
dia qualquer porcaria se torna moda, por mais horrível que você esteja, tem
estilo, isso é o que importa. — Estevão tentou consolar a moça, do jeito dele.

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— Para tudo produção! Isso no seu pescoço é mesmo um chupão,


branquelo? — O inglês quase teve uma parada cardíaca de susto quando Li se
materializou ao lado dele, tentando a todo custo ver a marca roxa escancarada
a meio palmo abaixo da orelha.
— Isso não é da sua conta, chinês abusado! — berrou Salvatore
tirando a mão de Li da gola do seu casaco.
— Estevão está namorando… Estevão está namorando… — Li
cantarolava, rodando e fazendo uma dancinha irritante em volta do inglês que
já estava a ponto de atirar nele de tanta raiva.
— Maldição! Olha ele, Julius, faça-o parar com isso!
O mexicano, sem um pingo de paciência, pegou na blusa de Li e o
levantou como um boneco, carregando-a até a mesa e o coloando sentado na
cadeira, como uma criança de cinco anos de castigo.
— Fico triste em ter que interromper a conversa amorosa dos dois,
mas temos que começar a planejar como a investigadora vai roubar a pasta
contendo os dados do caso da morte dos pais do Blade. — O mexicano tomou
a palavra, sensato como sempre.
Jesse, pelo canto dos olhos, viu como os músculos de Maldonado
ficaram tensos ao ouvir falar sobre a morte dos pais. Esse assunto mexia com
ele de uma forma avassaladora. Depois de repassarem o plano por diversas
vezes, o combinado foi que ficaria por conta deles arrumarem alguma
distração no departamento para que ela tivesse tempo suficiente de procurar o
que precisavam sem levantar nenhuma suspeita. Durante todo o tempo,
Maldonado ficava mais calado do que opinando e isso era bastante estranho.
Houve um momento que cochilou sentando, todo encolhido com tom da pele
ficando cada vez mais vermelho, tossindo o tempo todo. Carter, que sentou
do outro lado da sala, não tirava os olhos dele em nenhum momento.
— Você está bem, Blade? — Julius perguntou preocupado, o parceiro
estava tremendo sem parar.
— Estou — respondeu apenas, cortando o assunto, curto e grosso.
Quase no final da reunião ele saiu à francesa certo que ninguém o
vira, como um gato sorrateiro. Mas Jesse viu quando o carro dele saiu

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cantando pneu, deixando um rastro alaranjado das marcas do barro, fazendo


uma linha torta como se estivesse embriagado. Imediatamente Jesse pegou o
celular no bolso e ligou para a única pessoa que poderia lhe dar a resposta
que precisava, teria que ser discreta para conseguir o que queria sem levantar
suspeitas.
— Fala parceira, onde você está que não voltou do almoço até agora,
nega? Seu pai está uma fera atrás de você. — Rodrigues atendeu animado,
falando com a boca cheia de alguma coisa.
— Em qual parte montanhosa de Los Angeles a terra é alaranjada-
escura, puxando para um vermelho-vivo? Lembro de você falando algo sobre
isso uma vez. Poderia me explicar melhor onde encontraria esse tipo de solo?
— O único lugar com tais características é nas montanhas localizadas
em Nevada, no centro-leste da Califórnia, passando pelo antigo parque
Nacional de Yosemite, que há muitos anos se encontra fechado e era adorado
pelos seus incríveis penhascos de granito, bosques gigantes, belas cachoeiras
e boa diversidade de vida animal. Lá se pode escolher entre mais de duzentas
trilhas para conhecer o vale, mas apenas uma delas é capaz de levar à
montanha onde o solo ostenta esta cor alaranjada. Mas o lugar foi comprado
por alguém misterioso e interditado por este para que nenhum civil entre e
quem tentou escalar o lugar escondido nunca voltou para contar história. —
Jesse arregalou os olhos assustada com o relato dele.
— Obrigada, Hugo, diga ao meu pai que não voltarei mais para o
trabalho hoje. — Jesse desligou na cara dele e saiu correndo o mais rápido
que pôde, sem se despedir de ninguém.
Antes de seguir caminho, passou em uma farmácia para comprar tudo
o que acharia útil para o que estava planejando. Em pouco mais de uma hora
havia conseguido chegar ao tal Parque Florestal que Rodrigues havia falado,
lembrara do lugar vagamente da última vez que passou de carro quando
Blade a levou em casa quando passou a noite no esconderijo dele.
Depois de passar por dentro da floresta em uma estrada terrível de
terra, conseguiu achar a trilha que levava à tal montanha. Porém, somente um
veículo de porte pequeno como o Impala conseguia passar. O jeito era deixar
o carro da irmã escondido debaixo de alguns arbustos que fechavam a entrada
do túnel de pedra onde precisaria passar. Subiu a pé, quase morrendo de
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medo daquele lugar escuro, cheio de morcegos voando, mas nada a faria
desistir de ver com os próprios olhos se Maldonado havia chegado em casa
bem.
Depois de horas exaustivas caminhado, Carter viu no topo da
montanha uma luz acesa, bem distante, brilhando como uma estrela cadente.
Tirando forças não sabia de onde, aumentou os passos com os pés doendo,
todos assados dentro do tênis e as costas implorando por pelo menos dez
minutos de descanso, só que ela não descansou, nem por um segundo.
Quando chegou perto da casa, avistou o Impala estacionado de qualquer
forma, próximo à escadaria da entrada principal com a porta aberta. Entrou
em total desespero ao chegar mais perto e perceber que a porta estava
entreaberta com um pé caindo para o lado de fora. Enlouquecida,
praticamente voou pelos degraus para socorrer Blade. A cena que vira era de
cortar o coração, ele estava desacordado todo encolhido no chão, molhado de
suor e tremendo muito por causa do frio devido ao vento gélido das
montanhas.
— Meu Deus! Você está hipotérmico! — constatou Jesse ao se jogar
em cima dele e colocar a mão em seu rosto que tinha os lábios e as
extremidades cianóticos, em uma cor roxo-escuro.
A pele estava gelada e o corpo apresentava sinais de espasmos,
prestes a convulsionar. A investigadora olhou o território ao seu redor
analisando as possibilidades de carregar um homem daquele tamanho para
um lugar em que pudesse aquecê-lo o mais breve possível. Ela observou que
a chave ainda estava na porta, sinal que provavelmente desmaiou devido a
febre alta, isso explicaria a roupa molhada de suor. Consequentemente, o frio
ajudou abaixar a febre, porém se o corpo enfrenta uma temperatura abaixo do
normal ele passa pelo processo chamado hipotermia, que piora se a pessoa
estiver molhada e fria ao mesmo tempo, afinal uma pessoa perde calor vinte e
cinco vezes mais rápido quando está na água.
Sem pensar muito, ela o virou de barriga para cima, posicionando-sse
atrás dele de tal forma que encaixasse os braços debaixo dos dele, arrastando-
o facilmente até em frente a lareira sobre um tapete branco macio que tinha.
Notou que a madeira dentro dela estava molhada com um líquido preto
grosso e pegajoso. Pegou uma caixa de fósforo sobre o móvel e com apenas
um palito as labaredas de fogo iluminaram toda a sala, aquecendo-a no
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mesmo momento. Correu até o quarto dele para pegar um cobertor, passou na
cozinha para pegar um copo de água e deu a ele os remédios que havia
comprado na farmácia. Tirou as roupas úmidas de Blade, deixando-o apenas
de cueca box branca da Calvin Klein. Ficou vermelha ao notar o volume
consideravelmente grande dentro delas. Se dormindo é desse tamanho,
imagina acordado? Pensou ela, foi preciso balançar a cabeça para espantar os
pensamentos inapropriados para o momento.
Mesmo passado algum tempo, o fogo da lareira dando o máximo que
podia para manter o lugar aquecido e ele enrolado em um cobertor, ainda
assim Maldonado tremia de frio. Então, no impulso, Jesse tirou as próprias
roupas ficando apenas de peças íntimas e se juntou ao corpo dele debaixo do
cobertor como se fossem um só, abraçando-o com toda força que tinha.
Incrivelmente, o ato da jovem começou a fazer efeito de imediato.
Maldonado remexeu-se de leve abrindo os olhos com um pouco de
dificuldade.
— Você veio cuidar de mim, anjo? — disse ele com a voz arrastada.
Jesse precisou ser forte para segurar o mar que se formou em seus
olhos, o jeito carinhoso com que Blade olhara para ela ao proferir tais
palavras a tocou profundamente.
— Sim, eu vim para cuidar de você. — Jesse tinha a voz trêmula,
carregada de compaixão em vê-lo tão vulnerável daquela forma.
— Isso é um sonho? — Maldonado estava desorientado, levou a mão
ao rosto dela para ter certeza que era real.
— Sim, o mais lindo que já tive. — Jesse sorriu triste para ele, com a
mão dela em cima na de Blade sobre o próprio rosto.
— Por que o meu anjo está chorando? — perguntou Maldonado
totalmente confuso, tinha o olhar perdido.
Enxugava as lágrimas dela com uma certa dificuldade, devido à falta
de tato com os membros superiores causada pela hipotermia.
— Porque estou feliz que tenha aparecido em minha vida, me sinto
segura ao seu lado. — Carter tinha a voz chorosa, estava começando a
perceber que aquele bandido era mais importante para ela do que pensava.

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— Que bom, porque passei a minha toda esperando por você, meu
anjo.
Blade suspirou fundo enchendo o peito de ar e depois soltando aos
poucos. Os olhos se fecharam lentamente, abrindo um sorriso tímido,
inocente talvez. A investigadora o achava incrivelmente lindo quando sério,
mas sorrindo era algo estonteante.
— Eu não sou um anjo, Blade, se está esperando por alguém tão
especial não tem chances de ser eu. — Carter tinha os pés no chão, não queria
se iludir com palavras que eram fruto de um delírio.
— É sim, enviado para me salvar. — Foi possesivo, além da conta. —
Você é um anjo e eu sou a sua missão.
Ele corria a ponta indicador em cada contorno do rosto meigo da
jovem, começando na testa bem no meio do osso frontal, escorregando em
um caminho reto até a ponta do nariz. Depois fez o contorno dos lábios
curvilíneos, notando como eram grossos e convidativos.
— Queria tanto que fosse feliz e que tivesse motivos para sorrir,
sempre. — Os soluços de Jesse tomaram conta do lugar, as lágrimas caiam
descontroladamente.
— Você me faz feliz, anjo, com vontade de sorrir toda vez que te
vejo. — A voz dele era suave e agradável, quase um sussurro.
— Não faça isso comigo, Blade. — A cada palavra que ele falava,
Jesse sentia o coração se encher cada vez mais de paixão por Maldonado.
Algo proibido que sabia não ser correto sentir por alguém que a desprezava.
— Por favor, não chore. Odeio te ver triste, principalmente por minha
causa — implorou ele, segurando a cintura dela com força e puxando-a mais
próximo de si. — Vou te contar um segredo, quando eu era pequeno minha
mãe me contava histórias sobre anjos da guarda. Eu sempre soube que o meu
estava em algum lugar lá fora bem longe à minha procura, então à noite,
quando as estrelas iluminavam o meu quarto, eu sentava sozinho na janela
falando com a Lua por horas, desejando que ela levasse as minhas palavras
até você, na esperança de que estivesse do outro lado falando comigo
também. Às vezes me achava apenas um louco solitário, condenado a morrer
sozinho —revelou ele por fim, sincero.
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— Se você é louco, eu também sou, porque desde quando criança,


toda vez que olho para a lua tenho a certeza que ouço a voz de alguém
falando comigo. — Jesse sorriu em meio às lágrimas. Ela ficou feliz em saber
que a loucura dele se parecia um pouco com a dela, combinavam
perfeitamente.
— E o que você ouvia? — ele questionou sonolento, estava quase
dormindo.
— Não se preocupe, anjo. Eu vou esperar por você… — Jesse
respondeu rápido, aquelas palavras estavam impregnadas em sua mente,
principalmente no coração.
— Não importa quando tempo demore — Blade completou a frase,
depositando um beijo em sua testa, entregando-se ao sono profundo logo
após.
Então Jesse chorou mais ainda. Ele acertara perfeitamente cada
palavra, a ligação entre os dois vinha de muito tempo, talvez de outras vidas.
Com a cabeça em seu peito, ouvindo as batidas do seu coração, lento e
tranquilo, ele não tinha mais motivos para se preocupar, afinal havia
encontrado o seu anjo da guarda.
A investigadora chorou por horas até adormecer nos braços dele, ela
até tentou não se apaixonar por um bandido, só que o amava antes mesmo de
conhecê-lo. Blade fora seu primeiro amor, o único que falava com ela através
da lua. Estava querendo uma coisa que nunca poderia ter, tinha ciência que
quando ele acordasse bem no outro dia sentiria repulsa se lembrasse que
havia a tocado. Mas seria esperta e sairia daquele lugar antes que isso
acontecesse, levando consigo todo e qualquer vestígio que passou por ali.
Isso se não fosse vencida pelo sono, nunca havia se sentindo tão bem em um
lugar como dentro dos braços dele, protegida e feliz.
Enquanto Jesse salvava a vida de Blade mais uma vez, o sombrio
Estevão Salvatore dirigia o seu Jaguar a mais de trezentos quilômetros por
hora, estava com pressa. Vez ou outra enfiava a cabeça para fora da janela
para sentir o vento tocando o seu rosto, os cabelos negros como aquela noite
voavam como um manto mágico. Na verdade o momento que estava vivendo
parecia ser mesmo, de fato, encantado. Pela primeira vez na vida estava
sentindo-se vivo, humano. Esse era o seu estado de espírito há mais de duas
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semanas quando sua cabana fora invadida por uma estilista teimosa e
corajosa, seria essa a palavra certa. Naquele dia, Nayla não sentiu medo de
estar toda encolhida dentro do porta-malas de um criminoso, apesar de o
espaço ser escasso e as armas que dividiam o lugar com a moça não
ajudavam muito. Emocionou-se ao ouvir a bela voz de Estevão ao som de
Carl Orff "Carmina Burana", grande cantor lírico. Ele tinha uma voz de anjo,
poderia ter sido facilmente um cantor famoso, com toda aquela elegância e
boa postura, poderia ter escolhido ser o que quisesse que teria feito muito
sucesso. Aquela escuridão toda a volta de Salvatore havia sido ele mesmo
quem criara, pensou ela com o semblante triste. Depois de algumas horas
andando por onde ela não fazia ideia, enfim o carro parou em algum lugar
onde tinha o cheiro de natureza, terra fresca. Esperou dez minutos e assim
que ouviu a porta da frente do veículo abrir e em seguida uma porta batendo,
saiu do porta-malas apavorada por não conseguir enxergar um palmo de
distância do seu nariz. Seja qual fosse aquele lugar era muito escuro. Havia
uma pequena luz de dentro da cabana de madeira que ela deduziu ser uma
vela. Nayla sentiu vontade de chorar só de imaginar que Estevão podia morar
em um lugar tão sombrio. Sem fazer muito barulho abriu a porta, não sabia
nem onde pisar com medo de esbarrar em alguma coisa alarmando o bandido
da sua presença. Porém, não demorou muito tempo para descobrir que não
estava sozinho, pois o corvo fez questão de avisá-lo, crocitando o mais alto
que pôde, entrando pela janela.
— O que está fazendo aqui?
Estevão apareceu do nada em uma distância consideravelmente
segura, não o suficiente para quase matar a jovem de susto. Mesmo assim não
deixou transparecer o quanto achou a casa dele apavorante, parecia aquelas
casas mal-assombradas de filmes de terror. Mas não tinha chegado até ali
para desistir agora, não mesmo.
— Eu vou me aproximar de você, Estevão, não aguento mais te ver
sem poder te tocar. A única forma de me impedir de fazer isso é me matando,
até porque se for para ter que viver sem você, prefiro morrer. — A estilista
era corajosa, com ela era tudo ou nada.
— Não me tente, demônio, não sabe do que sou capaz! Mais um
passo e eu atiro, dou um sumiço em você de tal forma que os seus pais não
vão ter um fio de cabelo seu para velar. Então, sugiro que vá embora e me
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deixe em paz sozinho, escondido na minha escuridão.


Salvatore tirou duas pistolas da cintura de forma totalmente elegante,
fazendo com que a capa voasse por alguns segundos devido ao movimento
brusco, apontando-as na direção da jovem. O seu olhar estava mais sombrio
do que o normal.
— Eu lembrarei sempre do dia que te conheci, era de manhã e você
estava sozinho encarando um céu cinza-escuro. Foi a primeira coisa que vi
quando pisei naquela escola. Quando entrei na sala de aula já tinha te visto
mais cedo sentado no jardim. Era outono, minha estação favorita do ano,
havia folhas alaranjadas caídas ao seu redor, fazendo um lindo contraste com
toda escuridão que emanava de você. Nunca tinha visto nada mais lindo, meu
pai não entendeu na época por que eu que tinha odiado a ideia de ir morar na
Inglaterra, passei um mês inteiro chorando depois quando fui obrigada a me
mudar de lá. Foi mais de um ano de depressão, terapias e medicamentos para
ansiedade que faço uso da maioria até hoje. — Nayla deu um passo firme em
direção a Estevão, sem se intimidar com Nick e Clyde apontadas para ela.
— Não estou brincando! Não pense que não seria capaz de atirar em
você, porque eu sou. — Ameaçou, com as armas ainda apontada para ela.
— Naquele momento em que te vi tão sozinho, eu quis abraçá-lo,
fazer sua solidão ir embora, conhecê-lo melhor. Quis ser tudo, tudo para
você. — Nayla continuou andando, nada a faria parar.
— Por que está fazendo isso comigo? Já não me feriu o bastante? O
seu nível de crueldades não tem limites? — Estevão queria chorar um rio se
fosse possível, mas diferente de Blade, além de não saber como sorrir,
também não sabia como expressar suas dores por lágrima. Nele não
habitavam sentimentos bons ou ruins.
— Desencontros e promessas perdidas, como ser forte diante de tanto
tempo e um coração partido? Depois da forma horrível que tem me tratado,
eu deveria ir embora e esquecer que existe! Mas, vendo a forma como tem
vivido sozinho nesse lugar escuro e frio, todas as minhas dúvidas de repente
sumiram e a única vontade que tenho é de te abraçar o mais forte que posso,
para que não se sinta tão só e veja que a escuridão pode ser bastante
agradável dependendo da companhia. — Um passo mais perto, o inglês não
entendeu a expressão maliciosa no rosto dela.
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— Não! Eu não quero a sua companhia, nem nada que venha de você
— ele gritou, totalmente transtornado.
Dentro dele havia uma bagunça de sentimentos querendo sair de uma
vez só, algo que não podia controlar. Ela poderia ter corrido, fugido daquele
lugar assustador, mas era mais forte do que isso e continuou caminhando
lentamente até ele.
— Eu tenho morrido todos os dias esperando por você, amor, tenho te
amado por todo esse tempo e eu te amarei pelo resto da minha vida. Agora
que te encontrei, não deixarei que nada o leve embora. — Nayla estava de
frente para ele, com o cano de uma das pistolas tocando a sua testa. — Eu
tenho morrido todos os dias esperando por você, querido, não tenha medo,
nenhuma mentira pode nos separar agora. Mas se não sente o mesmo que
estou sentindo neste momento, me mate logo de uma vez e acabe logo com o
meu sofrimento. — A estilista fechou os olhos ao ouvir Estevão destravando
a arma, preferia morrer do que viver sendo desprezada por ele.
— Por favor, vá embora! — Virou as costas para ela guardando as
armas no mesmo lugar que tirou. Estava chorando.
— Mas que droga, Estevão! Quando vai entender que eu não vou a
lugar nenhum, não sem você.
Nayla abraçou as costas largas dele, o corpo de Estevão continuava
frio, mas devia estar uns quinze centímetros maior do que se lembrara tendo
que ficar na ponta dos pés. Apertando os braços em volta de sua cintura, se
surpreendeu ao sentir as pontas gélidas dos dedos do seu amado alisar o seu
braço com carinho.
— Mesmo que esteja sendo sincera, agora é muito tarde para nós dois,
pequena.
Uma lágrima repleta de emoção correu pelo rosto da moça, Estevão
havia lhe chamado pelo apelido carinhoso como na época do colégio. O que
mais a tocou foi o tom suave de sua voz, baixa e amorosa.
— Por que, meu amor? Agora que te achei não te largo mais, nem
vem que não tem. E não venha com uma ladainha montada dizendo que não
existe lugar para mim no seu mundo e que tem muitos inimigos e blá… blá…
blá…. Porque você não é Clark Kent e eu não levo jeito para Lois Lane. —
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Era exatamente isso que Estevão iria dizer para ela, mas Nayla fora mais
esperta do que ele.
— Maldição! Se digo que não podemos ficar juntos é porque não
podemos mesmo, você é luz e eu, escuridão, não entende? E o que mais tem
na minha vida é gente querendo se vingar de mim. — explodiu Estevão,
virando de frente para ela como o rosto molhado. Mesmo se quisesse
acreditar nela, não poderiam ficar juntos. — Vamos dar um aperto de mãos e
cada um segue o seu caminho, como se nunca tivéssemos nos reencontrado.
— Fez a proposta, que depois de dita, não pareceu tão boa.
— Está bem! Vai ser como você quiser, adeus Estevão Salvatore disse
séria, olhando no fundo dos olhos dele e estendendo a mão para que o tal
cumprimento final fosse concretizado.
— Adeus, Nayla Borges — disse o inglês apertando a mão da jovem,
que segurou firme nela e o puxou para si.
Consequentemente, o bandido integrante do grupo de ladrões mais
famoso pela ousadia e esperteza nos roubos, foi pego totalmente de surpresa
por uma única mulher mais esperta do que ele. Então, ela roubou dele uma
coisa que ficou devendo desde o dia do baile: um beijo de amor. Sim, ela o
beijou.
O criminoso, no começo, não soube decifrar qual fora a sensação que
sentiu quando a boca dela tocou a sua. Sentiu uma onda de calor invadir o seu
corpo irradiando mais para o meio das pernas, onde no mesmo lugar algo
adormecido há um bom tempo começou a criar vida. Nay segurou o rosto
dele com uma mão de cada lado para ter certeza que não iria fugir. Enquanto
os olhos da estilista permaneciam fechados, os de Estevão estavam
arregalados, assustados até a língua da moça pedir passagem, que ele deu sem
demora, fechando os olhos lentamente para degustar melhor aquela sensação
nova. Inicialmente elas se entrelaçaram timidamente, aos poucos foram
ficando mais ousadas e se perderam avassaladoramente naquele momento.
Era um beijo molhado, quente e possessivo. As mãos de Salvatore se
apoiaram na cintura da moça, puxando-a mais para si e encostando-a em uma
parede mais próxima, colando os corpos como se fossem um só. O clima
esquentou naquele lugar, respirações ofegantes e gemidos oprimidos. Nayla
caprichou no beijo roubado, emaranhou os dedos nos cabelos negros

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enquanto mordia o lábio inferior do rapaz com vontade, provocando-o. Era


uma garota que sabia bem o que queria, perdeu a virgindade no momento
certo e gostou muito da experiência, ocorreu com um cara legal que
namorava há mais de dois anos, porém, nunca iria se perdoar por não ter
acontecido com Estevão. Havia cansado de esperar por ele, até que desistiu
depois do Brian dizer a ela que ele havia arrumado outra depois que foi
embora de Londres, e resolveu viver sua vida da melhor forma que pudesse.
Teve outros namorados, era uma mulher experiente. O bandido quase
enlouqueceu ao sentir o bico dos seios de Nay duros esfregando em seu peito,
ainda mais quando as mãos dela tentaram abrir o seu cinto. Eram dois
adultos, podiam se permitir. O membro dele acariciava o corpo da jovem
como um convite para algo mais íntimo.
— Nayla… — Gemeu o nome da amada, quase em um sussurro de
prazer. Por um momento, parecia que enfiaria a moça dentro da parede, de
tanto que tentava se juntar ao máximo que podia a ela.
— Diga, meu amor — respondeu ela, com a voz embargada pelo
desejo. Estava terminando de abrir o cinto, pronta para fazer o mesmo ritual
com os botões da calça.
— Eu nunca fiquei assim com uma mulher antes, na verdade foi o
meu primeiro beijo — revelou Estevão segurando as mãos dela totalmente
constrangido.
Nayla literalmente paralisou ao ouvir o relato do bandido. Depois
sorriu lindamente, daquele tipo de iluminar o mundo todo.
— Fico feliz em ser a primeira. — Depositou um leve beijo em seus
lábios, para que relaxasse um pouco. — Até porque temos que esclarecer
muitas coisas, uma noite vai ser pouco para colocar tantos anos em dia.
Eles passaram a noite deitados juntos em uma rede na varanda sobre a
luz da lua. Estevão tirou o casaco para cobri-la em seus braços. Cada um
contou a sua versão da história e viram, assim, que tudo não passou de um
mal-entendido. Desde essa noite, não se largavam mais, passavam o tempo
juntos conversando sobre tudo e namorando.

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CAPÍTULO 14
“Quem desdenha, quer comprar…”

Jesse acordou com o dia quase clareando, estava exausta. Conseguiu


dormir apenas um pouco, passara grande parte da noite ao lado de Blade
segurando sua mão, o estado dele havia piorado muito, beirando uns quarenta
graus de febre ou mais. Passava dez minutos cochilando e trinta delirando, o
tempo todo a chamando de anjo, repetindo várias vezes o quanto estava feliz
por ela tê-lo encontrado. Não deixava a investigadora sair de perto dele por
nada, tinha medo que ela não voltasse.
Carter se sentia mal por gostar mais dele doente do que quando
saudável, ele estava sendo gentil e amoroso com ela. Depois de passar horas
vendo-o tão vulnerável daquela forma, tremendo de frio debaixo de um
edredom xadrez de vermelho com marrom com um olhar tão perdido, teve
vontade de passar o resto da vida cuidando dele, não cansaria disso nunca.
Com muito cuidado, a jovem conseguiu sair de dentro dos braços dele sem
acordá-lo, que agora dormia feito um anjo.
Ela sabia que deveria vestir suas roupas o mais rápido possível que a
ciência permitiria e sair correndo daquele lugar enquanto o “vulcão” ainda
estava adormecido. Mas não resistiu quando olhou para aquela cena
maravilhosa. Deus! Ele era o homem mais lindo do mundo, uma beleza
rebelde, avassaladora. Até a aparência de Blade parecia um crime e esse jeito
dele de fora da lei só o deixava ainda mais atraente, perigosamente sedutor.
No entanto, o excesso de beleza não compensava tanta grosseria para uma
pessoa só. Em vez de seguir a razão, ouviu o coração e levou a mão sobre o
belo rosto do bandido, que estava em um sono pesado. Agora estavam
deitados de frente um para o outro, ela fazia carinho na maçã do lado
esquerdo de sua face e, levada pelo momento, fechou os olhos e foi
aproximando os lábios na intenção de tocar os dele. Seria apenas um selinho
rápido e ninguém ficaria sabendo, pensou ela.
— O que você está tentando fazer? Me molestar? — explodiu Blade
em um grito estrondoso, olhando para aquela mulher seminua em seu tapete
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que não fazia ideia de onde veio, na intenção de beijá-lo sem a sua permissão.
Jesse ainda tinha os lábios em um biquinho lindo parado no ar, sem
nenhuma coragem de abrir os olhos e olhar para ele. Estava morta de medo.
Podia sentir o calor da respiração dele queimando o seu rosto, estava bufando
feito um touro bravo. E ela teria que enfrentá-lo sozinha! Afinal até os
pássaros que estavam se deliciando do calor solar cantarolando pousados
sobre o vão da janela desapareceram com medo.
— Desculpe! Não queria te assustar. — Encolheu-se toda, tampando
os seios com as mãos, envergonhada.
Nunca tinha ficado apenas de peças íntimas diante de um homem.
Quando teve coragem de olhar para ele, seus olhos se transformaram em duas
labaredas de fogo, o vulcão havia entrado em erupção.
— Espero que tenha uma ótima explicação para invadir o meu
esconderijo, aliás como conseguiu encontrar esse lugar sozinha? Se não
consegue nem achar um elástico para prender esse cabelo “chamativo”. —
Blade era naturalmente grosso, mas, quando nervoso, não tinha limites.
— Desculpa! — pediu novamente sentando sobre os próprios joelhos,
tentando prender o cabelo com uma mão, enquanto a outra mantinha sobre os
seios.
Não sabia o que fazer, estava assustada e confusa. Mesmo fora de si,
Maldonado não pôde deixar de reparar no corpo seminu da moça, com um
pouco de dificuldade devido a dor no corpo conseguiu se sentar, encostando
as costas no sofá para poder avaliar melhor, se esticasse o braço poderia tocar
o rosto de Jesse. Essa ideia lhe passou pela cabeça, mas a varreu de sua mente
antes que pudesse manifestar tal ato absurdo e insano. Qualquer coisa a
respeito Jesse Carter mexia com seus nervos. Desde a aparência não
convencional das suas roupas totalmente fora dos padrões de uma mulher
normal, ao seu estilo caótico de vida. Não sabia se ela tinha mais cara ou jeito
de louca. Contudo, a moça provocava sensações nunca sentidas por ele antes
e não eram só negativas.
— Já disse para parar com essa mania idiota de se desculpar por tudo,
parece um disco arranhado. — Blade sentia repulsa pela jovem, achava-a
desajeitada e esquisita.

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— Eu realmente não entendo por que sempre é tão grosso comigo,


sempre que tento te ajudar me trata como se eu fosse seu pior inimigo, me
fazendo sentir a pessoa mais burra do mundo.
A expressão nos olhos dela dizia tudo, ele havia ferido-a
profundamente. Mas ele não sentia remorso por isso, nem um pouco.
— Mas você é burra, sonsa, desastrada, lerda e chorona. — Deu o
xeque-mate. Jesse pode ouvir o seu coração partindo em mil pedaços.
— Não entendo o que ganha ofendendo as pessoas, isso é tão triste,
sinto tanto por você, queria que fosse diferente — disse quase chorando, com
lágrimas brilhando no canto dos olhos.
— Então, você invade a minha casa e tenta violar o meu corpo e ainda
se acha no direito de ficar ofendida? Eu que fui quase estuprado aqui, garota,
deveria me agradecer por não te denunciar por isso —exclamou ofendido,
como uma donzela que fora assediada por um homem asqueroso.
— Eu não invadi a sua casa, seu idiota, quando cheguei a porta estava
aberta com você desmaiado bem no meio dela. A propósito, “de nada” por ter
salvado a sua vida, por ter passado a noite ao seu lado com medo que
morresse nos meus braços queimando de febre. Até cantar uma música de
ninar eu cantei, na esperança de te acalmar um pouco, pois estava delirando.
— Acrescentou a investigadora estranhamente irônica, cruzando os braços
nervosa, com os cabelos rebeldes sobre o rosto tampando os olhos cor de mel.
O bandido constatou que a moça era delicada demais para ser
grosseira com alguém, esse tipo de atitude não combinava com ela. Porém, a
ironia o incomodou, Jesse o fazia parecer egoísta e rude. E o era mesmo,
ainda mais com a jovem.
— Já passou pela sua cabeça que talvez eu preferisse morrer do que
ser tocado por você? Não suporto a sua presença, é a pessoa mais desprezível
que eu conheci em toda minha vida. Não existe nada mais patético do que
você seminua na minha frente com as bochechas rosadas como uma
adolescente idiota, não consigo sentir nada além de repulsa, tenho nojo só de
olhar para essa sua cara de santa puritana. — Ele virou o rosto para o lado,
nervoso demais para continuar olhando para ela.
No fundo, tinha esperança que aquela sensação horrível dentro dele
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passasse, mesmo assim, para Blade, era mais fácil fazer com que o odiasse do
que assumir que nenhuma outra mulher havia mexido tanto com suas
estruturas. Já estava acostumado com a dor, mas aquele sentimento novo o
assustava demais, logo ele que era conhecido por não ter medo de nada.
— Devia ter deixado você morrer, seu cretino! Vá para o inferno e
leve toda essa arrogância junta.
Jesse avançou em cima dele, rosnando como uma onça brava
apontando uma das garras bem no meio da cara dele em sinal de ameaça. O
rosto estava com os traços finos tensos, os olhos irados, os dentes trincando
cada vez mais de raiva conforme a adrenalina dominava o seu corpo. Agora
assim, tão perto ele podia aspirar o perfume natural da jovem. Era agradável,
sexy e fascinante. Assim como os seios dela que estavam praticamente sendo
esfregados no rosto de Blade, tudo o que tinha a fazer era estender a mão e
tocá-los, vontade não faltou. Teria matado a curiosidade de saber se a pele de
Jesse era mesmo tão macia quanto imaginava, assim como os cachos sedosos,
que estavam encostando as pontas em seu ombro.
— E quem vai me mandar para o inferno, investigadora, você? Vai no
mínimo precisar aprender a atirar, porque ser boa mira também não é o seu
forte. — Inclinou o corpo para frente de forma que o rosto ficasse a poucos
centímetros de Carter, encarando-a com total deboche.
— Vai se ferrar!
Jesse levantou irada, catando as peças de roupas espalhadas pelo chão
da sala que, na pressa de aquecer Blade, havia jogado em qualquer lugar. Era
tão boa e amorosa, que ele sentiu vontade de rir ouvindo tais palavras
profanas saindo da sua boca, era como ouvir uma freira falando um palavrão.
— Então a boa moça não é tão santa assim, garotas virgens não
deveriam falar esse tipo de coisa sabia? — E entrou em cena novamente,
insuportável e presunçoso. Jesse contou até dez, enquanto tentava não fazer
alguma loucura com ele.
Blade recostou melhor o corpo no sofá, apoiando a cabeça sobre ele
de forma totalmente confortável para assistir aquela cena de camarote: a
investigadora se atrapalhando toda com o simples ato de vestir uma calça.
Observou como ela puxava sensualmente a peça para cima segurando com

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uma mão de cada lado, nunca imaginara que a raiva poderia deixar uma
mulher mais atraente do que a melhor lingerie da Victoria’s Secret. Tinha
belas pernas e uma bunda pequena, mas empinada e durinha. Os seios
medianos suspensos por um sutiã branco de renda que fazia um contraste
sedutor com a pele escura de Carter, podia afirmar que eles caberiam
perfeitamente dentro de suas mãos, melhor ainda, dentro de sua boca,
sugando um depois o outro. A cintura era fina, curvilínea.
— Perdeu alguma coisa aqui? — Jesse perguntou nervosa com a
forma com que olhara para ela.
Se ele sentia nojo então por que não tirava os olhos de cima dela?
Fechou o botão da calça depressa, dando um jeito de vestir a blusa mais
rápido ainda.
— Não entendo como uma investigadora do FBI com uma renda de
cento e vinte mil dólares por ano, isso dá uns dez mil por mês, faz com esse
dinheiro todo, que não tem condições nem de comprar uma roupa nova ou
pagar um lugar decente para morar? — perguntou passivamente e levantou o
queixo para ter um contato visual mais direto com ela.
— Tenho outras prioridades e não me importo nem um pouco sobre o
que pensa ao meu respeito. — O que não era verdade, mas ela não iria se
expor naquele momento. E, segura, completou. — Nem toda mulher gosta de
luxo, algumas se importam com coisas mais importantes, ou um sonho
especial.
Jesse fechou os olhos e sorriu de forma serena como se estivesse
lembrando de algum momento importante para ela, e estava. Não via grande
parte do salário já há muito tempo e tinha muito orgulho disso.
Tudo começou no dia mais feliz de sua vida quando recebera o
primeiro salário, nunca tinha visto tantas notas de cem dólares juntas, após
sair do caixa enfiou o pequeno malote de dinheiro preso com um elástico
dentro de um envelope amarelo e guardou no bolso do casaco. Pretendia
comprar uma câmera fotográfica moderna que vinha namorando fazia tempo.
Mas uma leve brisa de vento passou trazendo consigo um pedaço de jornal
velho que parou bem em seu rosto, tapando-lhe totalmente visão e fazendo-a
bater a cabeça em um poste bem adiante. Neste estava um anúncio que dizia:

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A associação Angel Lar das Crianças vivendo com HIV/Aids está


precisando urgentemente de doações para o conserto do encanamento e o
término da reforma do banheiro das crianças. O vestiário é utilizado por
trinta meninos e meninas atendidos, de zero a treze anos. De acordo com a
irmã diretora do lar, irmã Florence. A reforma será necessária para resolver
problemas de vazamento e adequar as instalações do vestiário para os
pequenos, já que a estrutura foi construída para crianças. Se não
conseguirmos ajuda vamos ter que fechar, por favor não deixe que isso
aconteça! Estamos contando com você.

Além de doar todo seu salário para as reformas necessárias e renovar


o uniforme das crianças, Jesse se comprometeu a doar cinquenta por cento
dele mensalmente enquanto estivesse trabalhando na vida, e assim fazia
corretamente. Também realizava visitas semanais para brincar com os
pequenos que amava como se fosse seus filhos e tinham uma carência de
cortar o coração. Assim como ela, precisavam ser aceitos como eram e com
muito amor e carinho. Trinta por cento do salário colocava severamente em
uma conta para realizar o sonho de dar a volta ao mundo fotografando
culturas e coisas diferentes. Jesse havia virado policial para agradar o pai,
mas desde pequena era apaixonada por fotos e sempre dizia que queria ser
uma fotógrafa famosa quando crescesse. No entanto, as coisas não
aconteceram como o planejado. Os vinte por centro restantes usava para
pagar as contas, que agora, morando sozinha, apareciam cada vez mais, ainda
bem que nunca ligou para luxo com sua aparência.
— E que prioridades seriam essas? — A voz de Blade soou curiosa,
interessada até.
— Não é da sua conta.
Ela pegou um pé do tênis velho jogado sobre o tapete e saiu à procura
do outro, furiosa, resmungando alguns palavrões sem olhar para ele.
— Onde pensa que vai? — Maldonado foi atrás dela só de cueca. A
moça estava de um lado para o outro na procura incansável pelo tênis.
— Para bem longe de você.

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Ela não conseguiu encará-lo, como deveria ser a boca de Blade quente
de paixão, em vez de fria e cheia de ironia? Então, o seu olhar desviou-se
para mais abaixo no corpo dele e se deparou com um volume
consideravelmente grande começando a acordar dentro da cueca branca da
Calvin Klein, parecia duas vezes maior que na noite anterior e ainda não
havia despertado completamente.
— Boa viagem — Maldonado respondeu grosseiramente, entregando-
lhe o tênis que estava procurando próximo ao pé dela.
A jovem tomou o que era seu da mão dele e saiu a passos firmes pela
porta, jurando nunca pisar naquele lugar. Ele praticamente havia a expulsado
de sua casa da maneira mais rude possível, não oferecendo nem um café ou
uma água. Estava cansada, com fome e decepcionada. Estava tão atordoada
que esqueceu de colocar os tênis e pisava no chão cheios de pedrinhas
pontiagudas ferindo os seus pés, em seu rosto lágrimas corriam sem parar.
Nunca tinha conhecido uma pessoa tão cruel como Blade Maldonado. Fez o
caminho de volta pela trilha olhando para trás a todo momento na esperança
que ele viesse a sua procura, arrependido ou, no mínimo, com um
convincente pedido de desculpas no bolso, mas não veio. Totalmente
destruída, pegou o carro da irmã e foi embora para casa, triste.
Passaram-se alguns dias e as solas dos pés da moça ainda estavam
feridas devido a pequena “caminhada” até o esconderijo do bandido que
roubara o seu coração para depois destruí-lo na sua frente sem dó nem
piedade.
Por azar, os últimos dias tinham sido bastante tumultuados naquele
departamento, parecia que todo mundo havia tirado a semana para cometer
crimes, mal acabava de atender um chamado e o telefone já estava tocando
novamente.
Graças a Deus chegara sexta à tarde, quase na hora do final do
expediente, tudo que queria era ir para casa tomar um bom banho em sua
banheira e relaxar. No outro dia seria o encontro com o Michelangelo na
Feira de Fotografias, estava se preparando psicologicamente para recepcionar
a mãe, irmã e a amiga Nayla que prometeram chegar bem cedo para prepará-
la para a primeira vez que sairia com alguém. Sim! Nunca ninguém a
convidara antes para sair, nem mesmo em um baile do colégio.

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— Antes de ir embora revise esses relatórios para mim, limpe a minha


sala e organize a minha sala. — O major Carter jogou uma pilha de relatórios
sobre a mesa da investigadora, tirando a mala apoiada debaixo do braço e foi
embora sem dizer “obrigado ou tchau, minha filha”.
Depois de cumprir as ordens do pai, faltava apenas cinco minutos
para bater o ponto quando ouviu gritos fervorosos da recepção. Uma mulher
vestida com uma minissaia vermelha minúscula, um top que chamava de
blusa, um salto altíssimo e uma maquiagem gritante fazia um verdadeiro
show aos berros dizendo que havia sido roubada depois de fazer um trabalho
para o “cliente” dela com direito a dança erótica e mais outras coisas
absurdas que Jesse corou só de ouvir. Apesar de vulgar, era uma mulher
linda, morena dos cabelos lisos até abaixo da cintura e os olhos azuis da cor
do mar. A recepcionista até tentou avisar que não era o lugar para aquele tipo
de denúncia, mas a mulher fingia não ouvir. Todos pararam para ver a cena,
principalmente os homens, literalmente babando no corpo perfeito da tal
mulher. A investigadora só não chegou mais perto para assistir a confusão
porque sentiu o celular vibrar dentro do bolso avisando a chegada de uma
mensagem nova que dizia.
Tem cinco minutos para pegar o que precisamos, a distração que
enviamos não vai durar muito tempo, tente não estragar tudo dessa vez.
Estarei na rua dos fundos da delegacia esperando para pegar a encomenda,
cuidado para não se perder no caminho.
Pela a aspereza presente nas palavras não precisou ser muito
inteligente para saber quem tinha mandado. Blade conseguia ser grosso até
por mensagem. Então, ela correu o mais rápido que pôde até a sala de arquivo
morto e aproveitou que não tinha ninguém de vigia e localizou a prateleira
apenas com a letra M. Agradeceu aos céus pelas caixas estarem organizadas
em ordem alfabética. Não demorou muito para achar uma preta escrita por
fora em maiúsculo “CASAL MALDONADO”. Como era baixinha teve que
subir em uma cadeira para pegar o que queria e foi embora correndo para o
local combinado, quando passou pela porta, enfiou o envelope debaixo da
blusa e ao passar pelo corredor viu a mulher sendo arrastada por dois
policiais para fora. Antes de sair, a “distração” arrumada por eles piscou para
ela discretamente. Jesse foi até a saída do lado de trás do prédio e atravessou
a rua olhando para todos os lados até um beco mais escuro, onde Blade a

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esperava com a mesma postura arrogante. Mesmo sem poder ver o rosto dele
devido à escuridão, podia sentir os olhos dele queimando sobre o seu corpo,
impaciente.
— Onde está? — Foi a primeira coisa que ele disse.
— Qual é a palavrinha mágica? — Jesse mexia o envelope de um lado
para o outro com um leque, apenas para provocá-lo — Cale a boca e me dê
isso logo, porra! — gritou com ela, arrancando o envelope bruscamente de
sua mão e segurando-o firme na sua com um certo pesar no coração. —
Apareça amanhã para uma reunião, no mesmo horário. — Deu o aviso, de
forma totalmente grosseira, sem nenhum "obrigado" ou nada do tipo.
— Desculpe, mas não poderei ir. Amanhã tenho um encontro,
passarei o dia com Miche.
A hesitação de Blade mostrou que ela acertara no ponto certo. Ótimo,
ela pensou, assim ele perceberia que ela não estava jogada no lixo, afinal o
que não vale nada para um, pode ser o tudo de um outro alguém. E assim
Jesse foi embora sem se despedir, rebolando e jogando para o lado o cabelo
“chamativo” que ele tanto odiava.
O jogo estava começando a virar.

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CAPÍTULO 15

“Não me deixe sozinho…”

O sábado amanheceu ensolarado com o céu ostentando um azul


profundo, as nuvens pareciam ter feito um acordo de se recolherem para que
tudo desse certo para Jesse. Os pássaros cantarolavam alegremente em uma
dança animada, saboreando a brisa leve, um clima perfeitamente agradável
para um passeio, um primeiro encontro, melhor dizendo. Carter acordou
preguiçosamente, revirando de um lado para o outro na cama sem tirar um
sorriso bobo do rosto, fora dormir alta horas da noite conversando pelo
celular com o Michelangelo sobre o tão esperado passeio, estavam ambos
ansiosos. Ele era sempre tão gentil e agradável como ela, tinha o poder de
fazê-la sentir-se especial com uma simples ligação.
— BOM DIA! — Três vozes gritaram em uníssono. Com muita
preguiça, Jesse levantou o olhar por debaixo do cobertor do Kiki Butovisk e
viu a mãe, a irmã e a melhor amiga com as mãos repletas de bolsas entre
outros acessórios, animadíssimas, com um sorriso de orelha a orelha, mais
felizes do que ela com aquilo tudo, não que Jesse não estivesse.
— Bom dia meninas, bênção, mãe! Para que isso tudo? Vamos viajar
e não estou sabendo? — Jesse sentou na cama esfregando os olhos, com o
cabelo todo bagunçado, bocejando de sono.
— Para o seu primeiro encontro, mana, tem que estar perfeita!
Mainara estava impecável dentro de um vestido bege justo ao corpo,
de mangas cumpridas, realçando suas curvas, qualquer coisa ficava bem nela,
totalmente diferente da irmã.
— Deus te abençoe, meu amor! Fiz uma coisa para que usasse neste
dia tão especial, guardo a sete chaves desde que entrou para o Ensino Médio.
Como já passaram alguns aninhos, a Nayla deu uma boa ajeitada nele e ficou
perfeito, querida.
A investigadora olhou para a caixa azul com um laço em cima nas
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mãos de sua mãe emocionada, com os olhos brilhando no canto dos olhos.
Maria Joaquim sempre fora uma ótima mãe, apoiava a filha no que fosse,
quase explodiu de orgulho quando Jesse contara para ela que doaria metade
do salário mensalmente para ajudar um lar com crianças soropositivos.
Diferente de outras tantas mães, acreditava nas filhas mesmo que não
tivessem nenhum motivo para isso. Quando Carter cismou em ser policial,
sabia que a ela não levava jeito nenhum para isso, só que às vezes devemos
deixar a pessoa cair sozinha para aprender com as próprias atitudes, porque
somente assim aprenderá o que precisa para ser, de fato, feliz quando
encontrar o caminho certo.
— Obrigada mamãe, eu te amo! — Sorriu de forma doce para Maria
Joaquim.
Havia um elo de amor muito forte entre as duas. Não imaginava o que
poderia ter dentro daquela caixa, mas independentemente do que fosse já
tinha adorado, porque tinha sido a mãe que tanto amava que fez apenas e
exclusivamente para ela. Jesse encheu o peito de ar naquele momento,
sentindo-se importante.
— Desculpe atrapalhar o momento lindo de mãe e filha, mas faltam
apenas duas horas para o Miche chegar. Então, mãos à obra, meninas! A
partir de agora começa o seu dia de princesa, Jesse Carter, estamos ao seu
dispor, madame — brincou Nayla, literalmente agarrando o braço da amiga e
arrastando-a para o banheiro e jogando-a debaixo do chuveiro.
Depois de um banho bem tomado, Mainara ficou responsável em
arrumar o cabelo da irmã. Escolheu não tirar o volume que Jesse tanto
gostava, apenas fez uma texturização nos cachos para obter uma definição
perfeita e tirar o frizz. Secou-os com cuidado, depois foi abrindo os cachos,
um por um, com a ajuda de um pente-garfo de madeira. Para finalizar, pingou
duas gotas de óleo de argan na palma da mão e passou apenas na região das
pontas.
— Então, irmã, como ficou? — Jesse perguntou curiosa sentada na
cadeira da penteadeira de costas para o espelho, louca para ver o resultado.
Asensação leve que sentia sobre as costas era muito agradável.
— Só vai ver depois que estiver pronta, maninha, ainda falta o
presente da mamãe e a maquiagem da Nayla. Seja boazinha e comporte-se,
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não confia em nós? — Mainara levou as mãos a cintura fitando a irmã como
uma sobrancelha arqueada, batendo o salto fino do scarpin caramelo no chão,
ocasionando um som agudo de tique-taque irritante.
— Está bem, Mai, vou tentar controlar a minha ansiedade. — Carter
suspirou frustrada, revirando os olhos, fazendo Mainara rir.
A irmã saiu do quarto e foi ajudar a mãe na cozinha a preparar um
café fresco, dando a vez para a estilista, que adentrou o quarto carregando
uma maleta de maquiagem maior do que ela. Vestia um macacão jeans com
uma blusa de mangas curtas com listras azuis e tênis modernos sem meia. Os
cabelos muito bem divididos ao meio, com duas tranças, uma de cada lado
muito bem-feitas, sem nenhum fio solto, sorrindo alegremente para Jesse que
retribuiu de bom grado.
— Posso saber o motivo de tanta alegria, Nayla? Eu li em uma revista
que as joias roubadas do desfile foram todas devolvidas, fiquei feliz por você,
amiga.
Fazia dias que Jesse queria perguntar isso a ela, leu a matéria e
realmente não entendeu o porquê Blade e a equipe dele roubaram os objetos
para devolvê-los depois. Isso não fazia sentido, mas teve vergonha de
perguntar sobre o assunto para alguns deles, era mais fácil perguntar
discretamente para a amiga.
— O ladrão enviou as joias para a empresa Fox, acompanhadas de um
belo pedido de desculpas, dizendo o quanto estava arrependido de ter feito
aquilo. — Nayla sorriu, lembrando de como havia feito Estevão prometer que
faria aquilo, depois de muito reclamar ele acabou cedendo.
— Que linda a atitude dele. Errar é humano, mas se arrepender é
divino, um belo ato — exclamou Jesse, quase espirrando devido ao pincel de
pó que a amiga dançava pelo rosto dela como uma valsa romântica, lenta e
ágil. — Mas o motivo da minha alegria tem nome e sobrenome. Sabe aquele
garoto da época da escola que voltou? Então, nós estamos namorando. —
revelou Nayla eufórica, nunca esteve tão feliz.
Colocou sobre a penteadeira o batom nude que tinha acabado de
passar em Jesse, pegando uma máscara de cílios para finalizar a maquiagem.
— Para tudo! Como assim namorado, criatura? Um dia desses estava
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no meu sofá chorando por causa desse homem… Se ele te magoar eu arranho
a cara dele toda. Aliás quando vou conhecê-lo? Espero que em breve. —
Jesse levou a mão ao rosto para tirar um cacho teimoso que insistia em cair
sobre o seu rosto, seu cabelo nunca esteve tão macio e sedoso.
— Dona Maria, pode vir com o presente, a maquiagem está pronta!
Nayla tratou logo de mudar de assunto, Estevão não era muito
sociável, namorar um homem como ele era um campo minado. Nunca sabia
ao certo onde pisar para não fazer ou dizer nada e assustá-lo. Morria de medo
de fazer alguma coisa que o fizesse desaparecer novamente.
— Alguém chamou por mim? — Maria Joaquim entrou no quarto
sorridente como sempre, segurando a caixa com firmeza. — Espero que
goste, minha filha, é simples, mas feito com muito amor. —Estendeu o
presente para que a filha pegasse.
Jesse desfez o laço com carinho e abriu a caixa com cuidado quase
chorando quando pegou a peça delicadamente e levantou para que pudesse
ver melhor. Na verdade, a jovem não apreciava muito os vestidos, mas a mãe
acertara perfeitamente o gosto dela, tanto na escolha do modelo como na cor.
Um vestido branco simples, porém elegante com gola em V e na altura acima
do joelho, meio caído nos ombros, descendo justo até a cintura, onde havia
um cinto feito com pérolas brilhantes, abrindo em uma saia rodada, mas sem
muito exagero. Era uma peça simples igual a ela. Jesse quase chorou em
como a mãe pensou em tudo o que ela gostava para criar a peça. Ainda tinha
um colar, também branco, cheio de pedrinhas transparentes imitando
diamantes, um pequeno buquê de flores naturais vinho e um par de sapatilhas
no mesmo tom das flores.
— Que lindo, mamãe! Obrigada por me amar mesmo não sendo a
filha que a senhora merece e por viver te dando desgosto. Ainda vai ter muito
orgulho de mim algum dia, eu prometo! — Abraçou fortemente a mãe com
todo amor que sentia por ela.
— Eu já tenho, filha! Te amo do jeito que é e pronto. Sem medidas ou
reservas, vai ser sempre o meu bebezinho. Agora não chore senão vai
estragar a maquiagem. Coloque logo o vestido e vamos ver como vai ficar,
está bem? — Maria Joaquim limpou discretamente uma lágrima que caiu,
estava muito feliz pelas coisas estarem dando certo para a filha.
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— Então, gostaram? — perguntou uma Jesse insegura em frente ao


espelho, não estava acostumada com aquele estilo.
— Você está linda, irmã! Deveria usar vestidos mais vezes, vai ser o
centro das atenções nessa feira. — Mainara aprovou o resultado, a mãe estava
sem palavras olhando para a filha com as duas mãos sobre a boca.
— Você está muito gostosa, amiga, vai deixar esse homem doido —
brincou Nayla, dando um tapa na bunda de Jesse.
As quatros gritaram animadas assim que a campainha tocou.
Michelangelo havia chegado acompanhado de um buquê de flores. Com o
cabelo muito bem cortado, calça de tecido preta e uma camisa social verde
dobrada até os cotovelos, sapatos sociais pontudos e uma câmera profissional
pendurada no pescoço. Jesse também estava com a semiprofissional dela
caindo aos pedaços, mas funcionando direitinho e conservada, levando em
consideração o ano que foi lançada. Debaixo do braço uma pequena bolsa
salmão que Nayla a obrigou levar para guardar os objetos, ou alguma
lembrança que quisesse trazer do evento.
— Sempre te achei linda, Jesse, mas hoje está mais que qualquer
outra — elogiou Michelangelo, sem tirar os olhos dela em nenhum segundo.
Ela ficou feliz que o rapaz tivesse gostado, pois também aprovara o
look, sentindo-se bonita pela primeira vez na sua infeliz vida.
— Obrigada Miche, você também está muito bonito! Essa camisa
realçou a cor dos seus olhos, iluminando ainda mais o seu sorriso. —O rapaz
quase derreteu-se diante de tanta graciosidade da moça, ela era extremamente
gentil com todos.
— Vocês se importariam se eu tirasse uma foto de vocês? Os dois
fazem um casal tão bonito! Imagino como sairia linda a mistura dos dois, eu
não iria reclamar se ganhasse um netinho logo. — Maria Joaquim quase
matou a filha de vergonha, estava no seu primeiro encontro e a mãe já
pensado nos filhos dos dois. Tal ideia até agradou Jesse, afinal seu maior
sonho era ser mãe um dia, e era evidente que Michelangelo daria um ótimo
pai.
— Essa é Maria Joaquin, minha mãe. Aquelas são Mainara, minha
irmã, e Nayla, minha melhor amiga. E, esse é o Michelangelo, meninas. —
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Ele acenou com a cabeça, sorrindo educadamente para elas.


— Prazer, filho, posso tirar a foto de vocês agora? — Jesse estava se
sentindo na época da escola, mas estava gostando de ver a mãe animada
daquele jeito.
— Claro que sim, senhora Maria, depois quero uma cópia. — O
barman sorriu lindamente mostrando os belos dentes brancos perfeitamente
alinhados.
Por um momento a mãe de Jesse teve um mal pressentimento, o rapaz
era encantador de fato, mas havia alguma coisa naquele sorriso que a
incomodou um pouco.
Depois de pousarem para algumas fotos da câmera do celular de
Maria Joaquim, o casal seguiu o caminho para o parque onde seria a
exposição de fotos. Michelangelo ficou envergonhado do estado caótico que
o seu carro se encontrava, mas durante o percurso explicara para Jesse que
mandava todo dinheiro que ganhava para ajudar a família que ainda estava
toda no Brasil. Quando contara isso, encantou ainda mais o coração da
jovem.
Já no local do evento, os dois estavam se divertindo muito, rindo de
tudo, comendo comidas exóticas nas barraquinhas da área de alimentação e
tirando fotos de tudo que chamava-lhes a atenção. A melhor parte foi quando
passearam pela exposição apreciando as centenas de fotos espalhadas ao ar
livre sobre um gramado verdinho sustentadas por tripés, uma em especial
encantou a investigadora profundamente, a de uma tribo indígena de
habitantes da Floresta Amazônica no Brasil, país de onde Michelangelo veio,
isso a fez gostar ainda mais do retrato.
— Lindo não é mesmo? — perguntou Michelangelo vendo a
concentração de Jesse avaliando a foto.
— Muito! Para mim a foto mais bonita da exposição. coisas simples
me encantam — exclamou Jesse ainda admirando a obra.
— A mim também — revelou o barman e não estava se referindo a
foto.
A jovem notou o teor, sentiu o rosto queimar quando ele segurou sua

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mão, entrelaçando os dedos aos dela. Foi um ato tão natural, inocente, que
Jesse virou sorrindo para encará-lo. Os raios do sol poente refletiam nas duas
esmeraldas do rapaz, realmente tinha olhos lindos.
— Obrigada por me convidar para sair, estou realmente amando. —
Sorriu, tímida, abaixando o olhar e fazendo alguns cachos caírem sobre o
rosto.
Delicadamente, ele passou os cabelos rebeldes de Jesse para trás de
seus ombros, queria uma ampla visão do seu rosto delicado.
— Tudo para te fazer feliz. Isso é só o começo, moça!
Jesse não conseguia medir o quanto estava se sentindo especial
naquele dia. Miche era naturalmente educado em tudo o que dizia, diferente
de uns e outros que sentiam prazer em fazer o próximo se sentir mal da forma
mais cruel do mundo.
— Podemos sentar um pouco para descansar? — perguntou Jesse
ainda corada pelo comentário dele, apontando para um banco de madeira de
dois lugares próximo ao lago.
Em volta havia muitas flores de várias cores e formas, que davam
mais vida ao lugar. Era romântico e acolhedor. Consequentemente, ele a
conduziu até o lugar ainda segurando sua mão, que se dependesse dele não
soltaria nunca. Mas Jesse se adiantou e soltou-se do rapaz, foi tocar a água do
lago. Assim que ficou de pé fechou os olhos para sentir a brisa leve tocar o
seu rosto, quando abriu bem devagar notou que estava sendo fotografada pelo
Michelangelo. Morta de vergonha tentou fugir da câmera, gostava de
fotografar e não de ser fotografada. Quanto mais ela se esquivava era
surpreendida por mais e mais flashes, pareciam duas crianças brincando
animadas sem se importarem com quem estivesse olhando.
— Você é linda, Jesse Carter, não entendo o motivo de tanta
insegurança — comentou Michelangelo sentado ao lado dela, tão perto que,
sem perceber, a mão da investigadora já estava apoiada na perna do rapaz e a
cabeça em seu ombro.
Ele estava conferindo as fotos que tirou de Jesse; haviam ficado
delicadas e principalmente espontâneas. Ela ergueu o olhar para encará-lo e
gostou do que viu: admiração e sinceridade, acompanhado de um sorriso
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encantador, não metido ou superior. Então, por um segundo, ela pensou que
talvez Miche gostasse de verdade dela e não tivesse se aproximado por pena
ou qualquer outro motivo triste.
— Eu não sou linda, Miche, sou insegura e atrapalhada. Boa em
estragar tudo, se quiser ainda está em tempo de fugir antes que te dê algum
prejuízo — brincou, desviando o olhar para sua velha câmera.
A brincadeira tinha um pingo de verdade no meio, e ela teve medo
que ele saísse o mais rápido que pudesse. Em vez disso, Michelangelo virou o
rosto dela para que pudesse olhar em seus olhos, queria que entendesse bem o
que iria falar.
— Eu não vou embora, senhorita Jesse Carter, só se você quiser —
afirmou com certeza, pelo menos o suficiente para a jovem sentir-se segura
diante de tais palavras. — Não e fácil ser um estrangeiro sozinho nesse país,
digamos que os brasileiros não são muito bem-vindos aqui. — Miche mudou
a expressão de uma hora para outra, como se tivesse lembrando de algum
momento difícil.
Ela queria abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem agora, porque não
estava mais sozinho, ou pelo menos afagá-lo por um instante para que a
sensação ruim fosse embora logo. Mas percebia que, dependendo da sua
atitude só pioraria as coisas, não era boa com as palavras também, então lhe
ofereceu o melhor sorriso para que ele percebesse que não estava mais
sozinho, tinha ela para lhe fazer companhia, para sempre se assim desejasse.
Acima de qualquer coisa, eram grandes amigos. Por um momento o silêncio
predominou entre os dois, respirações ofegantes e olhares fixos um no outro.
Os olhos de Michelangelo desviaram dos dela à procura de sua boca e como
um ímã os rostos foram se aproximando e Jesse Carter iria, enfim, dar o seu
primeiro beijo naquele dia.
— Droga! — resmungou a investigadora devido ao celular que
começou a tocar insistentemente.
Um verdadeiro “empata-primeiro-beijo”. Eram várias mensagens
seguidas uma atrás da outra, realmente havia alguém querendo falar com ela.
Em todas estava escrita a mesma coisa e isso a preocupou bastante.
Emergência, venha para esse endereço que te mandei agora! Não

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demore e não pare para falar com ninguém, pode ser perigoso.
Jesse levantou em um pulo deixando Miche assustado. Ajeitou a bolsa
no ombro e colocou a câmera no pescoço novamente.
— Apareceu uma emergência no trabalho, preciso ir.
Beijou o rosto dele e saiu correndo, tentou fazer uma cena sensual
como nos filmes de Hollywood, mas poucos metros adiante tropeçou em um
galho e caiu de joelhos. Levantou o mais rápido que pôde e deu um sorriso
amarelo para Michelangelo para demostrar que estava bem, ele acenou
sorrindo achando lindo o jeito atrapalhado da jovem. Jesse acenou para um
táxi que parou imediatamente. Em pouco mais de uma hora estava diante do
de uma pista de voo fora da cidade.
— Tem certeza que o endereço é esse, moça? — perguntou o senhor
de chapéu com um bigode maior que o rosto dele, com uma pena enorme de
deixar Jesse sozinha naquele lugar deserto.
Ela quase desistiu e voltou para casa. Mas ela era mais corajosa do
que isso, não desistiria fácil.
— Não se preocupe, vou ficar bem. — Entregou o dinheiro a ele
sorrindo forçada, estava apavorada.
Soltou um gritinho de susto quando o celular tocou vibrando dentro
da sua bolsa anunciando a chegada de outra mensagem do mesmo número
que dizia: Olhe para o céu.
Era finalzinho de tarde e o sol se despedia com toda sua majestade se
escondendo atrás das montanhas e deixando um belo rastro alaranjando
conforme ia se pondo. As andorinhas voando ao sul completavam a beleza
daquela cena simplesmente esplêndida. Mas o que chamou a atenção da moça
foi um ponto no céu que foi ficando cada vez maior conforme se aproximava,
era um jatinho de última geração. A pista se iluminou como uma árvore em
uma manhã de natal, luzes de todas as cores.
O coração de Jesse batia aceleradamente, quase saindo pela boca,
ainda mais quando o jatinho começou a pousar a poucos metros do chão e
conseguiu ver quem era o piloto, que mesmo escondido atrás dos charmosos
óculos de aviador e jaqueta de couro preta ela reconheceu imediatamente.

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Sim, era Blade Maldonado, mais lindo do que nunca, com sua presença
superior e charme incomparável. Poderia até ter muitos parecidos com ele,
mas igual, jamais! Era único, o original.
Incrivelmente o medo dela havia ido embora sentia-se segura como
nunca, protegida. Não pôde conter o sorriso diante daquela imagem
avassaladora. Mesmo ainda muito brava com ele, não teve como não sorrir,
não mesmo. Por outro lado, Blade perdera totalmente o foco do que estava
fazendo quando olhara para Jesse através da janela de vidro com os cabelos
esvoaçantes conforme a vontade do vento, assim como o vestido rodado que
ela tentava inutilmente segurar. Ele presenciou uma cena idêntica à da atriz
Marilyn Monroe no filme “Um dia como este” de 1954. Não a estava vendo
como um anjo naquele momento, com certeza não mesmo.
Assim que pousou, ele tirou os óculos para avaliar melhor a jovem,
fez questão de começar uma varredura minuciosa pelas sapatilhas delicadas
que parecia ser de cristal envolvendo os minúsculos pés. As pernas finas,
porém bem torneadas e bonitas. Parte das belas coxas aparecendo devido ao
comprimento desnecessariamente curto do vestido. Ele também notou como a
peça abraçou perfeitamente as curvas suaves de seu corpo, em especial a
cintura modestamente curvilínea e os seios durinhos e empinados. Blade
elevou o olhar notando que ela quase não usava maquiagem, mas o suficiente
para realçar a beleza natural de Jesse, que era mais do que a moça pensava.
Duas pinceladas levemente rosadas nas bochechas que avivava,
graciosamente, conforme corava, e seus cílios pareciam ainda mais negros e
longos do que ele se lembrava. Os cabelos não estavam voando naquele
momento, mas vários cachos caíam delicadamente em volta do seu rosto.
Maldonado nunca odiou tanto aquele cabelo, se pudesse obrigaria a prendê-lo
e não soltar nunca mais e a jogar aquele maldito vestido longe
imediatamente! Não queria que outro homem sentisse o que estava sentindo
naquele momento olhando para ela, seria capaz de matar o indivíduo e jogar
o coração aos lobos. De repente uma raiva tomou conta dele, algo
incontrolável. Ela se arrumou assim para outro, queria ficar atraente para
ele. E conseguiu.
— Oi — Jesse pigarreou baixinho, rodopiando o anel no dedo
envergonhada.
— Pare com isso — ele ordenou olhando para ela de uma forma
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enigmática, mas a voz era estranhamente suave e gentil até.


— Desculpe, mas o que está acontecendo de tão urgente que não
poderia esperar até amanhã? Estava um pouco ocupada quando recebi a
mensagem de vocês — Jesse resmungou irritada, estava começando a ventar
um pouco mais fresco.
— Eu vi — respondeu rabugento, tirando a jaqueta de couro e
colocando-a com cuidado demais para um arrogante cretino sem coração
como ele, em volta do ombro dela a pegando totalmente de surpresa, tanto
que nem prestou a atenção nas palavras dele.
— Obrigada! — ela agradeceu observando-o com uma certa
admiração muda, porém deslumbrada. Deus se alegra mais com um acerto de
um pagão do que mil de um dos seus servos mais fiéis.
— O Li analisou os documentos da emboscada que você pegou onde
mataram os meus pais— ele hesitou por um minuto e respirou fundo antes de
continuar a falar. — Estamos desconfiados que quem armou para eles foi um
antigo inimigo do meu pai, Carlo Castelli, chefe da máfia americana, lembro
desse nome devido a uma discussão entre eles em minha casa quando era
pequeno. Eu estava atrás da porta e ouvi meu pai e minha mãe dizendo que
esse homem nunca aceitou o fato dela não o ter escolhido como marido em
vez do meu pai, tinha um amor obsessivo por ela e vivia os perseguindo.
Prometeu se vingar dos dois por isso. Juntamos as peças e chegamos à
conclusão que se vingou os entregando para a polícia com uma única
condição: que não saíssem vivos, mesmo depois que se rendessem. Assim
que conseguiu o que queria se matou com um tiro na cabeça, deixando a atual
mulher e um filho pequeno como herdeiro da fortuna, este último que é, hoje,
o chefe dos negócios da família. Achamos que é ele que está querendo vingar
a morte do meu pai colocando a cabeça do último Maldonado a prêmio e pelo
visto não vai parar até conseguir.
— Nossa que triste! Sinto muito. Pelos seus pais e principalmente por
você. — Jesse levou a mão ao rosto dele, que não se afastou do toque.
— Eu também. — Ele fechou os olhos diante da sensação agradável
do calor da pequena mão tocando sua pele. Carter sentiu a barba dele de
alguns dias sem fazer arranhá-la um pouco, mas não se importou.

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— Desculpe! Agi sem pensar, sei que não suporta que eu o toque, tão
pouco a minha presença.
Recolheu a mão imediatamente fitando os próprios pés magoada,
lembrando da forma horrível que ele a tratou recentemente. O que eu havia
feito? Ela não iria me perdoar nunca pela forma que a tratei, mas era
preciso para mantê-la protegida de mim…Pensou Blade.
— Jesse eu… — Tentou falar, mas ela o impediu antes que
começasse alguma grosseria. Já havia a magoado demais, fazer papel de
trouxa tinha limite.
— Diga em que eu posso ser útil dessa vez, afinal só me procura
quando precisa. — Jesse foi áspera, atingindo-o com um tiro certeiro.
Ele estava provando do próprio veneno chamado desprezo.
— Vou precisar do seu distintivo para chegar a localidade onde Xing
acredita ser o esconderijo dele, espero que tenha o trazido. — Blade andava
de um lado para o outro impaciente, ansioso para ouvir a reposta dela.
— Cuide bem dele e boa sorte! — Enfiou a mão na pequena bolsa e
praticamente jogou o distintivo na cara dele e ameaçou ir embora.
— Preciso que venha comigo, não me deixe sozinho. Li precisa ficar
para analisar com calma os relatórios. Estevão e Julius têm que manter Bobbi
seguro. Nossa maior prioridade é mantê-lo a salvo enquanto não colocamos
as mãos nesses caras — ele revelou segurando no braço dela, com a voz
arrastada ao dizer tais palavras.
— Você é o incrível Blade Maldonado, que resolve qualquer coisa
com as suas pistolas de ouro. Uma inútil, sonsa e destratada como eu só iria
te atrapalhar. — Tentou soltar-se dele, mas não conseguiu fazer nem cócegas,
era como um grão de areia na mão de um gigante.
— Tem razão, investigadora! Tenho me virado a minha vida toda
sozinho, não sei por que pensei que agora poderia ser diferente. Esse é o meu
destino. Vou ligar para o Julius e pedir que venha te buscar, pode ficar
tranquila que ainda vai dar para terminar o que começou com o seu
namoradinho, ele precisa mais de você do que eu. — Suas palavras estavam
repletas de ressentimento e sem voltar a olhar para ela, caminhou até o

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jatinho pisando firme.


— Posso pelo menos saber para onde vamos? — Jesse sentou ao lado
dele emburrada, cruzando os braços, sentindo-se uma verdadeira idiota por
estar fazendo aquilo.
— Tijuana. Fronteira Estados Unidos com o México — respondeu
calmo, olhando para ela pelo canto dos olhos com uma expressão divertida no
rosto.
— Ouvi falar que em Tijuana tudo pode acontecer, conhecida por ser
a cidade do pecado — ela comentou sem querer.
— Eu sei. — Blade tinha um sorriso calculado no rosto e isso a
assustou profundamente, pensou até em fugir, mas já haviam decolado.

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CAPÍTULO 16
Por Jesse Carter…

Blade pilotando aquele jatinho era a coisa mais erótica do mundo, de


fato, a personificação do sexo em carne e osso bem diante dos meus olhos.
Me envergonhava muito dos pensamentos profanos que tinha com ele, fora os
sonhos eróticos que vinha tendo quase todas as noites desde que o conheci.
Quando olhava para mim era como se uma onda de calor invadisse todo o
meu corpo irradiando para o meio das minhas pernas, diferente de quando
estava com o Miche, que mesmo quase tendo o meu primeiro beijo não
consegui sentir nada além de carinho e ternura. Se dissesse que não gostava
dele estaria mentindo, mas não chegava nem perto do que sentia por Blade.
Naquele momento, observava como ele estava segurando o manche
com força, fazendo os músculos dos braços crescerem, saltando para fora da
manga curta da camisa, aparentando ser mais forte ainda. Uma hora soltou o
manche por um instante para passar a mão no cabelo de forma naturalmente
sexy. Queria que ele deixasse no piloto automático, mas não, ele era o tipo de
homem que gostava de fazer as coisas bem-feitas e com as próprias mãos.
— Está com fome? — Ele tirou os óculos escuros de aviador e olhou
para mim, intensamente.
— Só um pouco e você? — Esfregava uma perna na outra nervosa, o
clima estava meio tenso dentro daquela cabine.
— Muita. — Ele olhou para o decote do meu vestido, umedecendo os
lábios com a língua.
Oh! Droga, como eu conseguiria resistir a Blade Maldonado? Que
engraçado! Naquele momento ele não parecia mais tão intocável. Talvez
porque até agora não tinha sido grosso ou gritado comigo como da última vez
e seu semblante não estava azedo como de costume.
— Coma esse chocolate, por enquanto. Quando chegarmos levarei
você para comer algo quente e bem gostoso.

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senhor! Eu sabia que ele estava falando sobre comida, mas foi como
se tivesse referindo a algo completamente diferente. Algo que tenha a ver
com sexo, bruto e selvagem. Peguei o pequeno embrulho marrom da mão
dele morta de vergonha, como se ele pudesse descobrir a qualquer momento
o que eu estava pensando.
— Obrigada! — respondi sem jeito, dando uma mordida generosa no
chocolate. Ele não se preocupou em manter mais nenhum diálogo durante o
resto da viagem e eu agradeci muito a Deus por isso. Não queria estragar tudo
ou arriscar ser maltratada novamente.
Pousamos em Tijuana por volta das 22h em uma pista clandestina no
meio do nada. Havia um senhor muito simpático com uma caminhonete velha
nos esperando para levar-nos até o hotel onde passaríamos a noite. Segundo
Blade iríamos atrás do tal filho do Carlo Castelli, filho do inimigo do pai
dele, apenas no outro dia.
Blade continuou calado durante o caminho até o restaurante, era a
poucos metros de onde estávamos hospedados. Quando chegamos lá, a
verdade é que eu não soube decifrar se era uma boate ou uma casa de
"encontros". Acho que era um pouco de tudo. Havia mulheres dançando uma
música com o ritmo quente, quase nuas em um palco improvisado com
homens gritando algumas coisas em espanhol e jogando dinheiro para elas.
Casais se agarrando fervorosamente por todo o canto.
Fiquei meio sem jeito naquele lugar. Vendo isso Blade me conduziu
até um local mais discreto nos fundos, com apenas uma mesa de dois lugares.
A decoração era rústica e incluía algumas antiguidades, como estátuas de
deuses da mitologia grega e quadros com fotos em preto e branco de
mulheres dos anos oitenta, nuas em poses sensuais. Sentamos-nos ali naquela
modesta mesa de madeira de frente para a grande janela panorâmica, com
vista para a loucura que era Tijuana à noite. Como não fazia ideia do que
estava escrito no cardápio, Blade fez os pedidos em espanhol e com uma
pronúncia perfeita. Não gostei da forma que a garçonete olhava para ele
quando veio trazer os pratos, ela vestia um uniforme pelo menos dois
números menores que o adequado para ela, oferecendo-se descaradamente
para Blade, e o cretino dando papo para a oferecida. Apesar de tudo, tinha
que admitir que a comida estava uma delícia, principalmente as tortilhas, o
pozole e as bebidas mexicanas, que eram viciantes.
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— Se eu fosse você ia com calma investigadora, dizem que El Sotol


tem o efeito afrodisíaco a partir da segunda doze. Pelas minhas contas essa é
a sexta. — Apontou para o copo vazio em minhas mãos, tinha acabado de
virar em um gole só.
Realmente estava sentindo um calor fora do normal, mal conseguia
entender o que ele estava falando porque estava hipnotizada demais olhando
para a boca sensual dele.
— Você tem uma boca bonita, atraente. — Pensei alto, o estranho foi
que não tinha me arrependido nem um pouco de ter dito. Era o álcool subindo
à cabeça.
Ele me olhou surpreso por uns instantes antes de inclinar o corpo
sobre a mesa ficando bem próximo a mim.
— Você acha mesmo? — perguntou com a voz mais grossa que o
normal.
Eu tinha esquecido como Blade era bonito! E naquele momento se ele
se aproximasse mais um pouco acho que perderia a cabeça de vez e roubaria
um beijo, mesmo que levasse um tiro depois.
— O que está bebendo? — Mudei de assunto, apontando para uma
garrafa ao lado do seu prato e sem pedir autorização levei um gole a boca
sem tirar os olhos dos dele. Não sabia o que estava acontecendo comigo, não
conseguia pensar antes de agir.
— Cuidado investigadora, isso não é para garotas como você. —
Tomou a garrafa da minha mão e encostou as costas na cadeira relaxando o
corpo, dando um gole na bebida sem perder o contato visual.
— Garotas como eu? — perguntei nervosa.
— Virgens e ingênuas! — Deu outro gole na bebida com um olhar
desafiador, metade da boca puxando para cima em um sorriso malicioso. O
que tinha de bonito também tinha no quesito cretino.
— Você não me conhece, Blade.
Arranquei a garrafa dele e bebi o resto em um gole só. Está certo que
quase morri engasgada, sentindo a minha garganta queimar, mas engoli tudo.
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— Aposto que deve estar com a garganta em fogo. Essa bebida foi
feita para degustar aos poucos, assim como certas coisas… — disse o cretino
mais sexy do que nunca.
Estava se divertindo às minhas custas, as pessoas fazem isso comigo
desde que nasci.
— Como chama essa bebida? Vou comprar mais dela quando chegar
em Los Angeles. — Menti descaradamente, nunca mais queria ver outra
garrafa daquela na minha vida.
Levei um garfada do restante da minha comida que estava mais da
metade intacta no meu prato. Estava muito ansiosa ao lado dele, não
conseguia comer direito.
— É a famosa tequila, dizem que é afrodisíaca também. — Fiquei
surpresa dele estar sendo tão ousado e sensual comigo.
— Que música animada, acho que vou dançar um pouco.
Levantei meio tonta tropeçando nós próprios pés e fui para o meio da
pista dançar, nunca na minha vida teria coragem de fazer aquilo se estivesse
sóbria. Mas faria qualquer coisa para sumir de perto dele naquele momento,
tinha medo quando era educado comigo daquela forma.
Era a música de um filme que eu gostava muito "Lambada, a dança
proibida", fechei os olhos e deixei a batida e o efeito do álcool me levarem.
Mexendo o quadril lentamente, como uma cobra sorrateira. Estava me
sentindo totalmente livre e quente. O calor que me consumia era tanto que
tive que tive que juntar o cabelo com o auxílio das mãos ao topo da cabeça
por uns instantes, depois os soltei deixando uma onda de cachos cair feito
uma cascata sobre o meu rosto. Ainda com os olhos fechados comecei a
imaginar como queria ser tocada pelo Blade naquele momento ao som
daquela música excitante, podia sentir os seus olhos sobre mim e isso me
instigava ainda mais.
Llorando se fue' quien algun dia solo me hizo llorar Llorando se fue'
quien algun dia solo me hizo llorar Llorando estará al recordarse de un
amor que algun dia no supo cuidar
Estara' llorando al recordarse de un amor que algun dia no supo

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cuidar
El recuerdo estara' con el donde quiera que vaya El recuerdo estara'
por siempre alla' donde quiera que vaya yo"
Danza, sol y mar, yo los guardare' en la mirada El amor hace perder
y encontrar…

Deslizei as mãos sobre os meus seios por cima do vestido e os apertei,


não satisfeita as levei até a barra do vestido e segurei com força como apoio
para continuar, sem me preocupar com mais nada além de curtir o momento.
Nisso acho que uma parte da minha coxa ficou à mostra porque ouvi alguns
homens assobiando a minha volta. Não me importei com isso também, as
pernas eram minhas e eu mostrava para quem eu quisesse.
— Não mostra não! — Quando abri os olhos o Blade estava parado
em minha frente, possesso!
Segurando o meu braço com força, dava para ver o brilho do ódio em
seus olhos que naquele momento estava em um tom escuro acinzentado com
leve manchas azuis perdidas naquela escuridão sem fim. Como ele sabia o
que eu estava pensando? E por que ficou tão nervoso só por causa de uma
dança, isso não fazia sentindo. Nem um pouco.
— Me solta! Você está me machucando, vai embora daqui e me deixa
dançar em paz — gritei nervosa, tentando me soltar inutilmente do aperto
dele.
— Dançar? Esse ritmo deveria ser proibido em cartório, todos os
homens deste lugar pararam para ver você e essa sua apresentação de sexo
explícito — exclamou aos berro.
Quando olhei para o lado notei que, realmente, a maioria homens
tinha aberto uma roda no salão para me verem dançar, — Não exagera,
Blade, só estava me divertindo. — Minha vontade era chorar, ele estava
fazendo uma coisa inocente parecer um crime. Mas fui forte e segurei o choro
tentando abaixar o vestido, totalmente sem graça devido a forma que os
homens estavam olhando para mim com uma expressão assustadora.

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— Agindo feito uma qualquer? Uma puta barata de esquina — ele


disse partindo o meu coração, parecia que uma faca tinha atravessado o meu
peito de tanta dor era quase insuportável.
Tinha largado tudo para vir com ele para aquele lugar estranho, cheio
de gente maluca, deixando para trás alguém que gostava de mim de verdade,
para ser ofendida daquela forma horrenda só por causa de uma dança, não era
justo comigo.
— De vagabunda você entende não é mesmo, Blade? Porque só esse
tipo mesmo para aturar a sua grosseria, porque uma mulher decente jamais
aguentaria um cretino como você. — Saí correndo meio tonta e chorando
muito, me sentindo a pior pessoa do mundo.
— Quem você pensa que é para falar assim comigo, garota? — Ele
conseguiu me alcançar já no meio do corredor do hotel, agarrou meu pescoço
e me imprensou na parede me imobilizando por completo quase me
enforcando. Com certeza ficaria marcas depois.
— Pare de me chamar de garota, porra! Tenho vinte e seis anos,
policial formada e cuido do meu próprio nariz. Não sou mais uma menina,
então pare de me tratar como tal — gritei subitamente irritada, ele me deixava
fora de si.
— Mulher? Não me faça rir, Jesse, não passa de uma garotinha
mimada que vai começar a chorar a qualquer momento querendo o colo da
mamãe. — Mesmo nervosa, a sensação do peito de Blade se esfregando em
mim era estonteante. Na verdade, tudo nele era perfeito.
— Se você não tivesse atrapalhado o meu encontro com o Miche
talvez eu teria me tornado uma mulher nos braços dele essa noite, mas fui
idiota o suficiente para lagar um homem de verdade para vir atrás de um
moleque. Porque, para mim, é isso o que é, Blade, só tem tamanho e idade.
— Quando vi já tinha falado, só queria feri-lo como havia me ferido antes.
— Não te obriguei a vir comigo, se queria tanto estar nos braços dele,
agora por que veio? — Abaixou o tom dessa vez, a voz quase em um
sussurro.
Blade virou as costas para mim, não queria que eu visse o seu rosto.
Totalmente tonta e sem condições de me manter de pé sozinha, deslizei as
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costas na parede até encontrar o chão, o álcool resolveu mostrar serviço logo
naquele momento. Não tinha mais noção de nada nem de ninguém, só queria
voltar para minha casa e chorar até morrer.
— Porque eu sou uma idiota! Que demorou a vida toda para gostar de
alguém e foi escolher logo um cretino, arrogante e filho da puta sem coração.
Agora estou em outro país jogada no chão, bêbada com o coração partido por
ele, em mil pedaços. — Tampei o rosto com as mãos e comecei a chorar,
compulsivamente.
— Venha, vou te levar para o seu quarto. — Me pegou no colo como
se fosse um bebê, o cuidado foi o mesmo.
Escondi o meu rosto em seu peito, chorando baixinho, sentindo cheiro
gostoso do seu perfume importado, queria tanto odiá-lo, mas simplesmente
não conseguia. Sentou-me na cama, com um carinho que pensei que ele não
tinha com ninguém.
— Obrigada! — Agradeci com a voz chorosa limpando o rosto, não
conseguia conter o choro.
— Quer tomar um banho frio? Vai se sentir melhor. — Sentou-se
próximo a mim, até demais que o necessário.
— Não! Eu quero você, Blade! — Tentei beijá-lo, não estava me
importando com mais nada. Nada me deixaria mais feliz do que poder tocá-
lo, sentir o calor do seu corpo.
— Chega! Não acha que já se ofereceu o suficiente por hoje? Não
devia ter bebido tanto, devia ter impedido você de tomar toda aquela tequila.
— Segurava os meus braços impedido que me aproximasse dele, como se
estivesse com nojo que o tocasse.
— Não me importo com o que pensa sobre mim, atrapalhou o meu
primeiro beijo hoje e sua obrigação é reparar isso. Não sei quando outro
garoto vai querer me beijar novamente, desde a época da escola eles não
olham para mim, nunca fui a um baile, sabia? Ninguém queria ser visto com
a "Jesse, a estranha". O primeiro encontro que tive na vida foi com o Miche,
acho que ele gosta de mim de verdade.
Deitei na cama sonolenta quase dormindo, mas não antes de ouvir ele

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dizer antes de sair.


— Eu também. — Blade confessou com a voz suave, por um
momento tive a impressão que iria tocar o meu rosto, mas não tinha mais
forças para abrir os olhos. — Com você, significa para mim mais do que
parece — completou antes de sair praticamente correndo fechando a porta
atrás dele.
Acordei meio desnorteada com a minha cabeça parecendo explodir a
qualquer momento, era o resultado infeliz de tantas tequilas ingeridas na noite
interior em um momento de idiotice. Eu queria não lembrar do que houve,
mas infelizmente lembrava de cada minuto. Como fui boba! Me oferecer para
o Blade daquela forma, em que mundo um homem como ele iria querer beijar
uma garota estranha feito eu?
Virei para o lado e fiquei em posição fetal, toda encolhida tentando
engolir o choro. Tinha bebido demais para provar ser quem não sou e agora
morreria de vergonha quando encontrasse com ele, com certeza agora tinha
certeza que eu era, de fato, uma qualquer. Depois chorei tudo o que podia,
pensando em como ridícula era a minha vida, um verdadeiro fracasso. Meu
pai sempre teve razão, deveria ter nascido morta que não faria falta para
ninguém. Tentei me levantar e acabei caindo de cara no chão, ainda estava
um pouco tonta. Com muita dificuldade fiquei de pé e fui tomar o meu
banho. Sem ter o que vestir me enrolei em uma toalha ridiculamente rosa-
choque, horrorosa. Estava penteando o cabelo com os dedos quando ouvi
batidas insistentes à porta. Tremi de medo imaginando quem poderia ser tão
cedo.
— Desculpe, te acordei?
Foi preciso esfregar os meus olhos para acreditar que Blade estava
realmente parado na minha porta às 5h da manhã e ainda por cima se
desculpando por ter me acordado. Esse tipo de gentileza não combinava com
ele, chegava a ser assustador. Ele estava tão lindo! Usava a mesma roupa da
noite anterior, só que sem a jaqueta preta de couro que tinha me emprestado.
Aquela maldita calça jeans escuro moldando o belo corpo bem composto por
músculos bem definidos, uma camisa branca justa de mangas curtas exibindo
os braços fortes, uma parte muito sexy do peito estava à mostra. Os cabelos
bagunçados e uma expressão levemente cansada, como se não tivesse

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dormindo. Os olhos em um azul profundo, duas safiras brilhando como a luz


da lua. Blade era o homem mais bonito que tinha visto na vida, a verdadeira
imagem do pecado.
— Não precisa se desculpar, aconteceu algum problema para vir aqui
tão cedo? E sobre ontem, me perdoe por ter tentado beijar você. Estava sobre
o efeito do álcool, no momento esqueci que não gosta que toquem em você,
ainda mais eu. —Abaixei o olhar envergonhada, girando o anel no meu dedo
de um lado para o outro, fazia isso quando ficava nervosa.
Meu coração estava partido, queria que a ressaca me fizesse pelo
menos esquecer a parte dele fugindo quando tentei beijá-lo.
— Não aconteceu nada, Jesse — disse com aquela voz grossa dos
infernos, atento aos movimentos que eu fazia com o anel, que me fazia
derreter com um simples "oi".
Enfiou as mãos no bolso, por um minuto pensei que estivesse
envergonhado.
— Se não é para brigar comigo pelo que fiz ontem, por que veio? —
perguntei confusa, encarando-o fixamente, tentando não vacilar diante de
tanta beleza, Blade nunca esteve tão lindo como naquele momento.
— Porque ontem fui embora deixando para trás uma coisa que eu
queria muito, mas do jeito que estava bêbada pensei que não seria justo com
você acordar de manhã sem lembrar do seu primeiro beijo. O máximo que
consegui esperar foi até o dia clarear, espero que esteja razoavelmente sóbria
agora, porque passei a noite totalmente embriagado, e não tem nada a ver
com álcool — disse sério me avaliando de cima a baixo, vindo em minha
direção a passos firmes.
— Você me fez chorar a noite toda, prometi para mim mesmo que
seria a última vez. — Estiquei o braço com a mão aberta para impedir que se
aproximasse de mim.
— Eu prometi para mim mesmo que nunca iria atrás de mulher
nenhuma na vida e olha onde estou. — Empurrou a minha mão para o lado,
abrindo espaço para sua passagem. Estava mesmo decidido. —Promessas
vem e vão, não deveria se apegar a essas coisas, investigadora. — Em seu
rosto havia uma expressão divertida, não entendia o porquê estava jogando
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comigo daquela forma.


— Onde quer chegar com isso, Blade? Não brinque comigo, você não
me suporta e tem nojo de mim. Me acha sonsa, burra e odeia o meu cabelo.
— Que, naquele momento, estava quase acabando de secar, estando mais alto
do que nunca como uma leoa no cio.
— Nunca ouviu dizer que quem desdenha quer comprar? —
perguntou levemente rude e passou os dedos entre os meus cabelos segurando
alguns cachos.
— Nem você sabe por que está aqui, Blade. Vai embora e vamos
esquecer o que houve.
Estava com tanto medo do que estava acontecendo, só queria fugir. Já
havia sido magoava por tanta gente na vida, só queria me proteger do mundo
de agora em diante.
— Estou aqui por… — Ele respirou fundo. — Estou aqui por causa
disso.
E assim Blade se aproximou mais de mim me empurrando com
cuidado até achar a parede mais próxima. Ele moveu a mão direita para a
parte de trás da minha cabeça, evitando que batesse com força. Antes que eu
pudesse protestar, ele tomou o meu rosto entre suas mãos e aproximou o dele
até a ponta do seu nariz tocar o meu. Um toque suave, gentil, nada
ameaçador. Isso me fez sorrir como uma adolescente apaixonada. Nesse
momento percebi que Blade ficou um pouco perdido e fechou os olhos
encostando a testa na minha.
— Desde ontem, quando vi você com aquele vestido branco curto —
enfatizou bastante a palavra "curto", dizendo-a com uma certa raiva diria —
estava querendo fazer isso, mas tive que me contentar apenas em imaginar.
Por um momento pensei ter enlouquecido, aquele não era o Blade,
não mesmo. Só podia ter fumado alguma droga mexicana muito forte ou algo
parecido.
— Blade! — O nome dela saiu da minha boca plena de desejo, como
se um encantamento tivesse me dominado, não conseguia pensar em mais
nada.

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O meu coração batia cada vez mais rápido conforme os seus lábios se
aproximavam dos meus. Naquele momento teria o meu primeiro beijo e seria
com Blade Maldonado, o homem por quem estava apaixonada e que falava
comigo através da lua. Perdi totalmente a capacidade de raciocinar e me
deixei levar pela emoção, pelo momento. Então ele roçou os lábios nos meus,
eram quentes, úmidos e surpreendente macios. Quando a língua dele pediu
passagem para dentro da minha boca não sabia ao certo o que fazer,
experiente como era e bem mais velho do que eu, pressionou o corpo contra o
meu em um gesto firme apertando a minha cintura com força para me passar
confiança.
No começo nossas línguas se encontraram como dois jovens se
conhecendo timidamente, tive que ficar nas pontas dos pés para conseguir
alcançá-lo. Para variar, quase desiquilibrei e cai, então ele envolveu os braços
em volta da minha cintura com mais força ainda e elevou um pouco o meu
corpo para ficar da sua altura. Sem querer mordi o seu lábio inferior, o que
resultou em um gemido alto e erótico da parte dele, deixando-me totalmente
lisonjeada, por ser por minha causa. Nunca me senti tão viva, desejada. A
minha mão estava apoiada em cima do seu coração, que batia rápido e
descompassado como o de um beija-flor. Em momento algum passou do
ponto comigo, poderia aproveitar que eu estava apenas de toalha e forçar algo
mais, mas não o fez. Foi extremamente educado, carinhoso e atencioso. Por
um momento pensei que não iria parar mais e eu estava amando aquilo,
poderia beijá-lo pelo resto da minha vida. Consequentemente, devido à falta
de ar, fomos obrigados a parar e respirar um pouco, sem criar nenhum
centímetro de distância entre os nossos rostos.
— Eu sabia que iria me achar, Anjo… eu sabia… — Alisou o meu
rosto, suspirando aliviado como se tivesse encontrado uma coisa que estava
procurando há muito tempo.

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CAPÍTULO 17
“Por favor me abrace…”

Havia se passado um certo tempo e eles ainda mantinham os rostos


colados um ao outro. Blade, que não suportava ser tocado por ninguém,
principalmente por Jesse, simplesmente não conseguia tirar as mãos dela,
poderia abraçá-la pelo resto da vida se fosse possível. Agira conduzido pela
emoção, era uma pessoa fria que não sabia lidar com certos sentimentos, nem
sabia que os tinha na verdade. Sentiu como se uma espada atravessasse o seu
peito quando a investigadora gritou para quem quisesse ouvir que preferia
estar nos braços de Michelangelo em vez de ter vindo com ele. De fato, a
moça fora um pouco cruel nas palavras, mas ele mereceu ouvir cada uma
delas e sabia disso. Blade havia ofendido a integridade da moça de forma
planejada e cruel, só porque estava com ciúme em vê-la dançando aquela
música quente de forma tão sensual e provocante. E ela estava tão bonita
naquele vestido branco, de fato, a mulher linda e exótica daquele lugar, uma
mistura de sexy com ingenuidade, o desejo de qualquer homem, o desejo
dele. Não conseguia fazer outra coisa além de olhar para Jesse, e os outros
homens presentes também não, e isso o irritou profundamente. Deus! A
forma como tocava o próprio corpo mexendo feito uma cascavel ameaçando
o bote, ágil e perigosa. Era a cena mais erótica que vira em toda sua vida
profana, repleta de pecados, orgias e dinheiro sujo.
Maldonado era um demônio e não se envergonhava nada disso, e
Jesse Carter, um anjo puro que aos vinte e seis anos não havia dado nem o
seu primeiro beijo. Essa revelação surpreendeu o bandido, ainda mais a parte
onde ela citou que se não tivesse viajado com ele teria perdido a virgindade
dos lábios e de tantas outras partes mais do corpo, as quais preferiu nem
imaginar. Foi um martírio manter-se firme diante das investidas de Jesse,
tinha que fugir dali o mais rápido que pudesse, para bem longe dela. Em seu
quarto passou a noite andando de um lado para o outro pensando em tudo,
principalmente da conversa que teve com Julius contra a sua vontade quando
estava arrumando algumas peças de roupas dentro de uma pequena bolsa para
viajar para Tijuana sozinho, esse era o seu plano inicial.

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— Por que não leva a Jesse para te dar uma força nisso, Blade? —
perguntou o mexicano, entrando simplesmente no quarto do comparsa sem
ser chamado ou bater à porta.
— Você ficou louco, Julius? Aquela garota é um desastre ambulante,
vai matar nós dois antes de chegarmos na metade do caminho —rosnou
Maldonado irritado.
Ele havia passado o dia todo em um mau humor do cão e ninguém
sabia o porquê. Gritou com Bobbi por mais de duas vezes sem nenhum
motivo, coisa muito rara de acontecer.
— Não é desse tipo de ajuda que estou falando, Blade! E você sabe
muito bem disso. Se eu não tivesse sido banido do México, eu iria no seu
lugar e Estevão não viveria um dia em solo espanhol com aquela língua
afiada dele. — Julius revirou os olhos suspirando fundo, lembrando como
Estevão sempre exagerava quando o assunto era sinceridade. As pessoas
exigem sempre a verdade, mas são poucas que estão preparadas para ouvi-la.
— Sempre me virei muito bem sozinho, cuido de mim desde quando
meus pais morreram. Trazer aquele desastre atrás de mim seria idiotice, ela é
uma louca. Já reparou nas roupas dela? O cabelo parece um bandido, vive
sempre armado — Blade falava enquanto colocava em uma maleta prateada
duas pistolas, três granadas, um silenciador, um punhal entre outros
acessórios que iria precisar na viagem.
— Nem todas as princesas usam vestidos chiques, rosa e sapato de
cristal o tempo todo. Muitas estão por aí usando All Star velho e um jeans
solto, com seu fone no ouvido sendo magoada por idiotas feito você, que não
sabe aproveitar quando Deus manda uma coisa boa de verdade na porra dessa
sua vida profana de merda. — Julius foi direto, sem um pingo de paciência
com ele.
Não era justo Blade julgar uma garota maravilhosa como a Jesse por
conta da aparência. Fora que não aprovava certos gostos do parceiro na vida
íntima. Ele frequentava certo lugares que não gostava nem de imaginar o que
rolava lá dentro. Era conhecido como purgatório devido às orgias que
rolavam e o sexo selvagem e violento com mulheres amarradas, sendo
espancadas durante a relação sexual. O pior era que elas sentiam prazer com
aquilo, assim como quem dava os golpes.
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— Eu não acredito em Deus, Julius, e se existe um, por que Ele


mandaria uma coisa boa para um profanado de merda como eu? Nasci para
viver no pecado e vou morrer nele. — A voz de Blade soou mais triste do que
irritada, era difícil para ele admitir isso.
— Porque Deus é tão misericordioso que se preocupa conosco mesmo
quando não merecemos, consegue ver bondade nos lugares mais sombrios.
Então manda a luz, ou um anjo da guarda para mostrar o caminho certo. — A
palavra anjo nocauteou Blade como um golpe certeiro, era assim que ele via
Jesse em seus sonhos, como um ser celeste toda vestida de branco emitindo
luz em volta de todo o corpo.
— Se essa luz a que está se referindo for a Jesse, prefiro morrer na
escuridão. — Acabou de arrumar a maleta, fechando-a com ignorância,
fazendo um barulho ensurdecedor.
— Uma pena que pense assim, Blade, sinto muito por isso. É melhor
estar preparado para uma oportunidade e não ter nenhuma, do que ter uma
oportunidade, não estar preparado para ela e perdê-la. Apesar de fingir que
não vê, Jesse é uma garota linda e especial e não vai ficar sozinha por muito
tempo esperando que olhe para ela. Então vai ser a luz na vida de outro
alguém, afinal a fila anda e o mundo não gira apenas em torno de você. Boa
viagem, Maldonado, se cuida! — Julius saiu deixando um bandido cruel bem
pensativo.
Por mais que se esforçasse para ver algo em comum entre os dois,
Blade não conseguia, fora que se aproximar dela seria colocar a sua
segurança em perigo e mesmo não admitindo tinha medo de errar ou de se
machucar. No entanto, as feridas com o tempo se curam, mas as
oportunidades não voltam. Pela primeira vez na vida resolveu arriscar, dar
um tiro no escuro. E como nada é impossível para um coração cheio de
vontade, naquele momento estava em Tijuana com Jesse Carter em seus
braços, após beijá-la com paixão, o melhor beijo de sua vida na opinião dele.
— Acabei de dar o meu primeiro beijo, acho que estou sonhando. —
Jesse pensou alto sorrindo apaixonada, não conseguia acreditar que aquilo
havia acontecido, ainda mais com quem.
— Não está! — Mordeu de leve o lábio inferior de Jesse para provar o
que tinha acabado de falar, resultando em um gemido agudo da parte da
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moça. Um misto de dor com prazer, que fez o bandido se perguntar onde uma
puritana apendeu a fazer aquilo, ou melhor, com quem? Ou então ela
aprendia rápido, se lembraria disso mais tarde.
— Por favor, Blade, não brinque comigo! — Então ela o abraçou,
escondendo o rosto em seu peito másculo com vontade de chorar.
— Não gosto de brincar com ninguém, nem mesmo quando criança.
Aquela revelação fez o coração de Jesse apertar, em sua mente veio a
imagem de um garotinho triste, sentado sozinho em um banco velho de
madeira no jardim, chorando a morte dos pais. Passando uma infância
solitária tendo que se virar sozinho, sem amor e carinho. O pior disso tudo
era que o pai dela era um dos culpados por ter destruído a vida do homem
que ela amava, só não sabia até onde o major estava envolvido nisso tudo,
mas iria descobrir em breve.
— Que bom, porque não aguentaria se estivesse me fazendo de boba.
— Aconchegou-se em seus braços, se sentia incrivelmente protegida dentro
deles.
— Não preciso fazer, já e de natureza — disse muito sério, Jesse não
ficou chateada pela ofensa, achou graça.
— Preciso me preocupar com o anão da Branca de Neve? —
perguntou Blade com o tom sombrio, mas não zangado. Então,
delicadamente, levantou o rosto de Jesse para que olhasse nos olhos dele
quando respondesse.
— Não o chame mais assim, o nome dele é Michelangelo e eu gosto
muito dele. — Se zangou com Blade, não gostava quando debochava da
altura do barman daquela forma maldosa.
— Gosta? — O bandido arqueou uma sobrancelha ligeiramente
desconfiado, não gostando nem um pouco do rumo daquela conversa.
— Se eu disser que não gosto dele, estaria mentindo, mas não chega
nem perto do que sinto quando estou com você. Não pelo o que é, mas, sim,
pelo o que eu sou quando estou ao seu lado. — Blade relaxou os músculos,
aliviado por ouvir aquilo.
— Ótimo! Porque se voltar a vê-lo, vou arrancar o coração dele e
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comer no jantar, e não pense que eu não faria isso, porque faria sim — disse
friamente a fitando com os olhos escuros e assustadores como uma noite
gelada no Alasca.
— Eu sou uma pessoa livre, Blade, nem temos nada ainda e já vem
me proibindo de conversar com os meus amigos.
— Amigos? Então pelo jeito vai ser uma chacina. Vai ser até bom,
porque acabou de chegar uma pistola de longa distância que encomendei da
Alemanha e eu estou louco para estrear. Fora que se fosse, de fato, amiga
dele não teria se arrumando tanto para sair com ele, nem teria o deixado
tentar enfiar a maldita língua dentro da sua boca — disse Blade irritado, mas
animado com a ideia da chacina.
— Prefiro não falar nada, não quero estragar esse momento
maravilhoso.
Jesse achou melhor fingir não ter ouvido aquilo, caso contrário seria o
início da terceira guerra mundial. Então fechou os olhos e se deliciou com a
sensação maravilhosa do calor do corpo dele tão próximo ao seu, não
sabendo ela que aquela era a primeira vez que Maldonado abraçava alguém.
Se ele soubesse que era tão bom, teria praticado o ato mais vezes. Os abraços
foram feitos para quando as palavras deixam a desejar.
— Espero que tenha guardado bem cada palavra, como eu disse não
sou homem de brincar com nada. — A soltou de forma rude, empurrando-a
alguns bons centímetros para longe dele, como se não quisesse que Jesse o
tocasse mais naquele momento. — Agora descanse um pouco, porque vamos
sair às 20h. — Completou curto e grosso como sempre, virando as costas
caminhado na direção da porta sem se despedir, fazendo a investigadora
pensar que o impetuoso Blade Maldonado estava de volta, firme e forte.
— Não seria melhor aproveitar que ainda está escuro e irmos de uma
vez invadir o esconderijo do filho do inimigo do seu pai? Sob a luz do dia
pode ser perigoso, temos que usar o que for possível ao nosso favor. — Blade
parou no vão da porta e sorriu meio de lado surpreso, uma pena ela não ter
visto, foi uma cena mortalmente sexy. Então ela é mais esperta do que
parece.
— Não vamos mexer com isso por hoje, vou levar você para o seu

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primeiro encontro de verdade.


Jesse literalmente congelou, mesmo de um jeito mandão estava a
convidando para sair. Não foi despercebido aos ouvidos da jovem o excesso
de ênfase na palavra “primeiro”, descartando totalmente qualquer encontro
que tenha vindo antes dele.
Sem dar tempo de Carter dizer mais nada, Blade foi embora,
passaram-se horas e a jovem continuava sentada na mesma posição sobre a
cama, totalmente sem chão, enrolada na toalha e refletindo tudo o que estava
acontecendo. O Homem Fora da Lei deixaria de resolver algo importante
para ele apenas para levá-la para sair. Isso era tão lindo, perfeito. Assim como
tudo na pequena cidade de Tijuana, o hotel onde se encontravam hospedados
era simples, mas bem arrumado e esbanjando cores fortes por toda parte. As
paredes coloridas, cada uma de um tom diferente, entre vermelho, amarelo,
verde e azul profundo. Uma pequena cama de solteiro no meio, uma cômoda
antiga no canto e um banheiro minúsculo. Pelo menos a água era quente.
Faltavam dez minutos para o horário combinado e ela ainda estava lá, perdida
em seus próprios pensamentos, confusa. Onde Blade iria levá-la? Como iria
agir em um encontro com ele? Ou o que vestiria sendo que não havia trazido
nada além da roupa do corpo, sua câmera velha e uma pequena bolsa à
tiracolo da Nayla com alguns utensílios de maquiagem da estilista. Foi tirada
do transe por batidas à porta, abriu só um pouco para ver quem era.
— Tudo bem, sou eu. — Estremeceu ao perceber de quem se tratava,
então abriu a porta por completo para que Blade entrasse.
— Bom dia! — Jesse sorriu timidamente para ele, que segurava
alguma coisa na mão esquerda, puxando a toalha para tampar as pernas de
fora totalmente sem jeito diante dele. Blade estava lindo como de costume, de
banho tomado, trajando seu habitual jeans surrado e uma camisa branca fina
de mangas longas moldando os músculos, os cabelos molhados e um perfume
que ficaria cheirando uns quinze minutos no quarto depois que fosse embora.
— Vista isso — Blade disse rude jogando o que estava segurando
praticamente na cara dela, sem nem responder ao bom-dia carinhoso da
moça.
— Onde conseguiu esse vestido? — Jesse perguntou desconfiada
segurando a peça. Era um azul-escuro com flores brancas, modelo simples de
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alcinhas finas na altura do joelho com algumas pregas na cintura, dando um


efeito ainda mais rodado para a saia. Não havia etiqueta ou algum vestígio
que o vestido havia sido comprado, apenas um cheiro gostoso de amaciante
como se estivesse sido acabado de lavar e colocado no varal para secar. Na
verdade ainda estava até um pouco úmido.
— Por aí — respondeu com desdém, cruzando os braços sem
paciência.
Blade não apreciava a mania irritante dela de querer saber o porquê de
tudo, era só vestir o vestido e pronto.
— Por aí onde, Blade Maldonado? Até porque não deve ter nenhuma
loja aberta em pleno domingo.
— Pare com essa mania irritante de querer saber o porquê de tudo,
não sabe o trabalho que tive para conseguir isso. Vista essa porra logo e pare
de me amolar, vou te esperar lá em baixo e não demore mais de quinze
minutos. — Desceu resmungando alguns palavrões irritado, se segurando
para não brigar mais com ela.
Jesse fez o que ele mandou, um pouco chateada com a grosseria
desnecessária dele para com ela. Demoraria um pouco para se acostumar com
o jeito rude de Blade. O vestido ficara uma graça nela, mais curto do que ele
pensou quando escolheu entre as roupas de um varal que achou nas
proximidades. Prendeu o cabelo para o alto com um palito que achou perdido
na gaveta da penteadeira deixando alguns cachos soltos, passou um pouco do
pó da Nayla e um leve toque de batom nude nos lábios, nada de muito
exagero. Calçou as sapatilhas salmão que a mãe lhe presenteou, e desceu às
pressas com a câmera no pescoço e a bolsa debaixo do braço. Já vira Blade
perdendo a paciência muitas vezes, e não estava a fim de presenciar tal
espetáculo novamente.
— Por que prendeu o cabelo? — Foi a primeira coisa que Maldonado
perguntou assim que colocou os olhos sobre Jesse, como um gavião vigiando
a presa. Mas certo que acertara na escolha do vestido, parecia ter sido feito
para ela.
— Por que está perguntando se não gosta dele? — Usou da mesma
grosseria dele de instantes atrás, às vezes é bom fazer o outro provar do

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próprio veneno.
— Aprendi a gostar.
Aproximou-se dela fazendo charme e a desarmando por completo,
gostoso era pouco para definir aquele homem. Sem pedir, tirou o palito de
seu cabelo fazendo os cachos caírem como uma cascata em dia de chuva,
moldando o delicado rosto levemente maquiado de Jesse, detalhe que não
passou despercebido por Blade.
— E de todo o resto também, afinal é o conjunto dos detalhes que faz
a obra ser perfeita — concluiu olhando para ela de cima a baixo como se
tivesse avaliando o produto, oferecendo uma piscadela para o lado de Carter,
quase a matando do coração diante de tanta beleza junta.
— Onde vamos? — Jesse perguntou levemente corada, vivia
envergonhava quando ficava perto dele, sentia-se intimidada.
— Se eu quisesse que soubesse, já teria dito — disse mal-educado e
saiu andando rápido até um beco mais próximo.
Dentro desse beco, debaixo de uma lona, havia uma moto preta com
amarelo turbinada pelo Li com alguns aparelhos de alta tecnologia e a
potência de mais de quatrocentos cavalos, uma verdadeira máquina sobre
duas rodas. Pendurados, havia dois capacetes. Ele, em um raro momento de
cavalheirismo, ajudou Jesse a colocar o dela, ajeitando com cuidado para não
a machucar.
— Essa maravilha é sua? — perguntou Jesse inocente assim que subiu
na moto, sem saber se deveria ou não segurar na cintura dele. Nunca sabia ao
certo quando tinha autorização para tocar nele. Blade era muito instável.
— Segure firme em mim, se cair vai ficar para trás. E se abrir essa
boca para fazer mais uma pergunta, seja ela qual for, eu mesmo vou arrumar
uma forma de te calar, entendeu bem? — Jesse apenas acenou com a cabeça
para demostrar que tinha entendido o recado, envolvendo os braços em volta
da cintura dele com firmeza.
Blade corria tanto que realmente Carter teria que ser esperta para não
cair, mas a sensação da adrenalina subindo correndo em suas veias era
maravilhosa. Depois de mais de uma hora na estrada, chegaram a um

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estabelecimento amplo em um lugar mais afastado, um clube cinco estrelas


de tiro clandestino para bandidos. A investigadora literalmente pirou quanto
entrou no lugar, feito uma criança em uma loja de doces. Nunca conseguiu
apreender muita coisa nos cursos oferecidos pela polícia, agora teria a chance
de aprender com quem entendia do assunto. Em um tour detalhado pela loja
de armas, onde Maldonado explicara para ela sobre cada modelo e potência
de cada uma das armas, a investigadora ouvia tudo atentamente sem deixar
passar uma vírgula. Quase morreu de vergonha quando encostou na prateleira
e derrubou uma estante inteira de vidro no chão, o dono ficou tão encantado
com a graciosidade da moça ao se desculpar que não cobrou o prejuízo. Mas
Blade pagou cada centavo, não queria ela devendo favores para ninguém,
muito menos a outro homem. Além de pagar, presenteou Jesse com uma
arma a sua escolha, que foi um 38KM. Na parede da loja havia uma pintura
antiga de um Colt, idêntica à que o pai do Blade segurava na foto do quarto
secreto dele. O vendedor explicou que aquela arma fazia parte de uma lenda
fantasiosa, e que não existia de fato, uma história de pescador. Não sabendo o
pobre homem que o herdeiro dela estava bem na frente dele e que só não
estava na mão com ela, porque o pai dela havia se apoderado do objeto
provavelmente de forma ilícita. Mas Jesse resolveria isso também, devolveria
para o dono na primeira oportunidade que tivesse e contaria que era filha de
quem a roubou. Na hora de atirar nos alvos foi engraçado, a investigadora
acertava em qualquer lugar menos onde devia, então Blade sem muita
paciência resolveu ensinar para moça como é que se faz.
— Primeiro passo, nunca abaixe a guarda para o alvo e mantenha os
braços bem esticados, segurando a arma com firmeza. Arrume a postura e
deixe um pé uns vinte centímetros mais para trás levemente elevado para
servir como amortecedor para o impacto quando puxar o gatilho — explicou
Blade, detalhadamente.
— Assim né? Acho que estou indo bem — comentou Jesse, toda torta
igual a um anzol. Parecendo o Corcunda de Notre Dame. — O bandido
suspirou nervoso, caminhando até ela alinhando o seu corpo atrás do dela,
colado. A jovem se arrepiou toda com o contato próximo, um calafrio subiu
pela nuca até chegar às bochechas, que coraram por conta da sua libido gritar
em êxtase.
— Com frio, investigadora? — perguntou Blade com a voz rouca,

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incrivelmente sexy, chegando a boca ao pé do ouvido da jovem.


— Um pou…co — Jesse respondeu gaguejando.
— Engraçado, o clima desse país é naturalmente quente, muito quente
— Blade disse aproximando-se mais e mais, como se fossem um só. Jesse se
perguntou se o que estava cutucando a bunda dela era uma arma ou se ele
estava literalmente “armado”.
— Sou friorenta — mentiu e ele sabia disso.
Jesse podia sentir o sorrisinho cínico em seu rosto, gostou de saber
que o corpo dela reagia ao toque dele. Como vingança, ela rebolou se
esfregando na “arma” dele, o safado a puxou pela a cintura para mais perto
ainda, então Jesse notou que ele estava, sim, armado de verdade, em ponto de
bala.
— Pare de tirar a minha concentração, esfregar essa bunda em mim
não está ajudando — resmungou Blade divertido.
— Tem tirado a minha desde que cheguei, chumbo trocado não dói.
— Empinou a bunda para trás, fazendo-o gemer de prazer.
Então ela não era mesmo tão santa como parecia, sabia provocar e
muito bem.
— Ok! Eu entendi o recado, agora vamos focar nisso. Mantenha o
olhar para frente, como vai acertar um alvo que não vê?
Ergueu a cabeça de Jesse para que olhasse para um boneco de papel a
alguns metros longes dela. Ela, assim como ele, estava com óculos de
plástico para proteger os olhos e fone nos ouvidos para se resguardar do
barulho dos tiros.
— Agora acerte a postura e tente relaxar, está muito tensa. — Se
apoderou das curvas da moça como se estivesse segurando um violino. —
Agora deixe os braços totalmente eretos e segure com firmeza.
A palavra “ereto” trouxe pensamentos ilícitos à mente de Jesse
novamente. Ele parecia estar fazendo aquilo de propósito com ela, e estava.
Não sabendo ela que na dele passavam coisas bem piores, dignas de uma
bofetada bem dada. Bandidos jogam baixo, e Blade era o melhor nisso.
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— Acho que não nasci para fazer isso, Blade, sou muito desajeitada.
— A investigadora desanimou, estava muito nervosa com as investidas
camufladas dele, um calor fora do normal.
— Alguma coisa me diz que aprende rápido investigadora, vamos
fazer até você pegar o jeito da coisa. Depois vai escorregar pelas suas mãos
naturalmente, chegando ao ponto de arrasar comigo de olhos fechados.
Era incrível como tudo o que ele falava a fazia pensar em sexo e olha
que Jesse mal fazia ideia do significado dessa palavra. Definitivamente não!
Ele não estava falando da arma.
— Você acredita mesmo que sou capaz, Blade? — Jesse perguntou
insegura encolhendo os ombros, como sempre fazia quando queria se
esconder.
— Você é capaz de fazer qualquer coisa, Jesse, só precisa acreditar
nisso. — Carter suspirou, quase teve o seu primeiro orgasmo só de ouvir o
seu nome naquela voz grossa dos infernos, erótica e sexy.
— Obrigada! — A jovem agradeceu sorrindo confiante para ele,
respirou fundo e atirou.
Pela primeira vez na vida, Jesse Carter acertou em cheio bem no meio
do alvo. Foi preciso fechar os olhos e abrir por duas vezes para ter certeza
que aquilo era mesmo verdade.
— Eu acertei! Eu acerteiiiii. — Ela pulava de um lado para o outro
feito uma louca que acabara de fugir do manicômio, sem vergonha de mostrar
o quanto estava feliz. Abraçou um senhor que ia passando e beijou o rosto
dele, que foi embora contagiado com a alegria dela. Depois começou a fazer
uma dancinha estranha, a da vitória. Ela sempre foi uma garota esperta, só
precisava que alguém acreditasse nela, pensou Blade.
Blade estava encostado na parede olhando para Jesse em seu pequeno
surto de felicidade, estava com os braços cruzados totalmente hipnotizado
com aquela cena encantadora e apaixonante.
Passaram o dia todo no clube de tiro, depois que Jesse acertou o
primeiro tiro não quis parar mais de treinar. Depois que almoçaram na praça
de alimentação a jovem não falava em outra coisa além de como estava feliz

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de ter aprendido a atirar. Continuou treinando na parte da tarde enquanto


Maldonado fazia algumas ligações importantes de longe, sem tirar os olhos
dela.
— Então, gostou do nosso seu primeiro encontro? — perguntou Blade
olhando para ela pelo canto do olho assim que chegaram em frente a porta do
quarto dela no hotel. Jesse tinha saído do clube saltitando como a
Chapeuzinho Vermelho com sua cesta pela a floresta. Já era noite quando
conseguiu tirá-la de lá. Por ela passaria o resto da noite ali, mas infelizmente
não podiam, tinham que acordar cedo para pôr em ação o que realmente
haviam vindo fazer em Tijuana: invadir o esconderijo do filho do Carlo
Castelli.
— Muito obrigada! Hoje foi o dia mais feliz da minha vida, ainda
mais porque passei com você — respondeu Jesse radiante como uma estrela
cadente, o brilho era o mesmo. Era tão fácil fazê-la feliz, ela é daquelas que
ainda se apaixona por flores e cartas.
— Idem — Maldonado exclamou baixo, mas não o suficiente para
que Jesse não ouvisse e sorrisse diante da declaração dele.
— Boa noite, Blade, vou sonhar com você! — Na verdade ela queria
ter completado “ não vá sem antes me presentear com o meu segundo beijo”,
mas ficou com medo dele chamá-la de oferecida novamente.
— Boa noite, e tente sonhar com coisas boas, não comigo.
Sem perceber Blade tocou os lábios dela com os seus por alguns
segundos, segurando o rosto dela com as mãos. Algo tão natural e familiar
que ele foi embora sem perceber o impacto profundo que aquele pequeno
gesto significou para ela, queria tê-la beijado como da última vez, mas não
queria forçar a barra. Jesse fechou a porta encostando as costas atrás dela com
os olhos fechados, levando as mãos sobre o peito sentindo o coração palpitar
apaixonado. Mas a felicidade durou pouco tempo, infelizmente. A primeira
coisa diferente que notou no quarto foi uma folha branca sobre a cama escrito
um recado com letras recortadas de revista, sobre ele havia uma rosa
vermelho-sangue.
Como foi o passeio dos pombinhos? Eu sei quem você é Jesse Carter,
agora, imagina como o Blade vai ficar quando souber que é filha do homem

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que participou da emboscada que mandou os pais dele para o inferno? Mas
não se preocupe porque o seu segredo está guardado comigo, por enquanto.
Como tenho um bom coração também deixei alguns presentinhos no quarto
do seu namoradinho, entre eles uma ficha com todos os nomes dos policiais
envolvidos na emboscada, e adivinha qual é o primeiro da lista? Major Will
Carter, diga adeus para o seu papai. A essa altura já estou longe sem deixar
nem rastro meu para trás, destruí o meu esconderijo em mil pedaços assim
como farei com o último Maldonado e tudo e todos que são importantes para
ele.
Ass. Matteo C.
Ps.: Filho de Carlo Castelli.
Jesse tremia inteira segurando aquela folha, em um rompante voltou a
si e saiu correndo o mais rápido que pode até o quarto do Blade. Paralisou ao
chegar da porta e vê-lo sentado no chão com as mãos no rosto em choque,
totalmente entregue. As paredes repletas de fotos coladas em ordem do
momento em que os pais foram detidos na emboscada depois vendados e
colocados de joelho, e se beijando minutos antes de serem mortos,
estraçalhados por tiros. Eram tantos policiais atirando ao mesmo tempo que
provavelmente o legista não deveria nem ter conseguido contar ao certo
quantos disparos foram, pareciam estar em uma guerra lutando pelo país. E o
pior, mesmo mais jovem, Jesse reconheceu perfeitamente o pai entre os
atiradores com um sorriso maldoso no rosto, como se sentisse orgulho de
estar participando daquilo. Agora era fato! O major participara mesmo do
covarde assassinato dos Maldonado. A equipe de policiais de plantão naquele
dia havia destorcido os fatos dizendo que foram mortos porque reagiram.
Tudo mentira para ganhar fama de heróis em cima da morte de duas pessoas
que deveriam ter sido presas e julgadas corretamente pelos seus crimes.
— Por favor, me abrace — implorou Blade.
Com os olhos vermelhos, assim que notou a presença dela no quarto,
abriu os braços para que Jesse se aninhasse dentro deles. A dor era grande
demais. Ela correu até ele e atendeu ao seu pedido, molhando o peito do
bandido com as lágrimas que caíam em silêncio sem parar. O último
Maldonado não chorou, apenas a abraçou o mais forte que pôde, olhando
para o envelope sobre a cama com os nomes dos policiais envolvidos com

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sede de vingança. Só o que ele não sabia era que a única pessoa que seria
capaz de confortá-lo naquele momento era a filha de um deles.

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CAPÍTULO 18

"Quando um homem ama uma mulher."

Jesse chorou nos braços do último dos Maldonado até adormecer, o


próprio, mesmo com o coração em frangalhos não soltou uma lágrima sequer.
E isso era realmente preocupante, afinal aqueles que não demostram a dor são
os que mais a sentem. Blade olhava para Jesse dormindo serenamente,
pensando no que Julius dissera sobre Deus ter mandando um anjo para trazer
luz a sua vida sombria, um milagre. Ela era tão pequena e frágil, mas tinha
um peso imenso e esmagador sobre ele e isso o assustava muito. Jesse
representava a palavra sensível em todos os sentidos, desde a estatura física
baixa e os traços delicados à personalidade de uma adolescente no colegial,
principalmente o coração puro de uma criança. Mas ao mesmo tempo era
sexy, do jeito dela, mas era, irresistível às vezes. Em outros tempos, o terrível
bandido teria pegado aquela lista contendo os assassinos dos pais e eliminado
todos em uma fração de segundos, mas por hora Blade não se importava com
o fato de onde estava naquele momento, desde que fosse com ela em seus
braços. Jesse parecia fazer tudo ser mais fácil e mais suportável. Dormindo
assim, tão tranquila, parecia, de fato, um anjo. Era como o encontro do
inferno com o céu.
— Oi! — disse Jesse ao acordar sonolenta, abrindo e fechando os
olhos lentamente com os cílios longos. Estava entorpecida sentindo a ponta
do dedo indicador de Blade contornar os traços delicados do seu rosto, da
mesma forma que fizera na noite que estava delirando de febre.
— Você me assusta demais, Jesse — revelou Blade olhando no fundo
dos olhos dela.
No momento, ele contornava os lábios grossos da investigadora em
formato de maçã, o fruto proibido. Ele a via assim, como algo que desejava,
mas não podia ter.

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— Isso não faz sentido, Blade. Pode me destruir com um sopro se


quiser, em um piscar de olhos. A maioria das pessoas me acha burra, e
desastrada. — Carter se remexeu preguiçosamente dentro dos braços fortes,
repletos de tatuagens, assim como o peitoral másculo sem camisa, que a
segurava com firmeza.
— Mostre a eles que não é. Muitos espertos tentaram me matar e
estão debaixo de sete palmos agora. Se existe alguém que pode acabar
comigo esse alguém é você, investigadora. — Os olhos de Blade pairaram
sobre a boca da jovem, que mordeu os lábios involuntariamente ansiando por
um beijo.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Jesse com o cenho
franzido, confusa.
— O que eu disse sobre fazer mais perguntas, pequena? — Seu tom
não era zangado, nem ameaçador.
— Que iria me calar. — Mas Jesse se assustou assim mesmo, nunca
dava para saber o que aquele homem estava pensando. Como instinto se
encolheu toda para se proteger dele.
— E é isso que vou fazer agora mesmo.
Então Blade a beijou, não como da primeira vez. Foi mais quente,
cheio de paixão. Ele podia sentir a doçura de Jesse, ao mesmo tempo era
quente e intensa. A jovem quase morreu quando Blade interrompeu o beijo
para olhar para ela, embriagado de prazer.
— Não consigo tirar as minhas mãos de você, acho que me enfeitiçou
— revelou o bandido sendo sincero.
— Então não as tire. — A voz dela saiu sexy e convidativa.
— Não me provoque, pequena! — Ele murmurou essas palavras com
a boca encostada na pele dela, a barba de alguns dias fazendo cócegas.
Blade desceu pela garganta e beijou a cavidade da sua clavícula e ela
arqueou para trás desejando que ele continuasse. E o bandido continuou o
caminho vagarosamente beijando no V formado pelos seus seios, Jesse estava
a ponto de enlouquecer a qualquer momento.

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— Oh! Blade, não pare — ela implorou.


— Eu quero provar você inteira, lentamente. — Depositou um beijo
sobre o seio esquerdo dela, com o bico duro debaixo do tecido fino do
vestido. — Mas não aqui, nem agora. — Ele a abraçou, escondendo o rosto
na curva do pescoço da jovem debaixo de uma montoeira de cachos rebeldes.
Jesse entendeu o recado e deu logo um jeito de resolver o problema.
— Feche os olhos querido, não quero que sofra mais. — Jesse pediu
docemente levando a mão no rosto de Blade, acariciando-o com carinho. Ele
fechou os olhos com força, sentindo o coração apertando cada vez mais
dentro do peito.
Em um pulo, Jesse levantou e começou a retirar aquelas fotografias
horríveis da parede segurando na pontinha para proteger as digitais que
poderia ter nelas, colocou-as dentro do envelope junto com os nomes dos
policiais corruptos, uma por uma. Tirando forças não sabia de onde, sofrendo
como se fosse a sua mãe que estivesse sido assassinada covardemente.
— Pode abrir agora.
Quando Blade abriu os olhos se deparou com a Jesse de joelhos diante
dele com um sorriso doce no rosto e os olhos cheio de amor. Era óbvio que
pertenciam a mundos diferentes, talvez ele fosse a dor e ela a cura. Dois
caminhos tortos que se encontraram por acaso ou por intervenção divina.
Naquele momento percebeu que tinham que parar por ali enquanto ainda
seria fácil. Mas a verdade era que Blade tinha a sensação de que já era tarde,
fora laçado em um nó-cego.
— Oi! — disse Blade a observando meio abobalhado, era o ser mais
encantador que vira na vida.
Como ela fazia aquilo? Fazer a dor ir embora só com um sorriso,
nem lembrava mais o porquê estava nervoso, pensou.
— Vamos para casa agora? Perdemos a batalha, mas não a guerra. —
A voz dela fora confiante, tanto que contagiou até quem nunca teve
esperanças de nada na vida. Blade esperava sempre o pior de tudo.
Quando chegaram à casa de Blade, estavam todos sentados na sala
esperando por eles. Inclusive uma mulher muito bonita que não pareceu

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muito estranha para Jesse, sentada no sofá ao lado de Bobbi e Julius. Li


estava sentado no chão e Estevão de pé, de braços cruzados, próximo a
janela.
A desconhecida trajava um vestido rosa-choque exageradamente
curto, não que Jesse tivesse algum preconceito com isso, com umas pernas
bonitas daquelas tinha mais é que mostrar mesmo, pensou a jovem. O pior
foi quando a tal mulher abriu um sorriso enorme ao ver Blade, levantou e
veio rebolando com uma bunda enorme e os seios maiores ainda explodindo
para fora do decote. Era uma morena, no mínimo uns quinze centímetros
maiores do que Jesse, cabelos longos e lisos pouco abaixo da cintura e olhos
azuis da cor do mar, uma pele de pêssego muito bem maquiada. Agora a
investigadora se lembrava dela, era a mesma mulher que fez o escândalo no
departamento para distrair os policiais enquanto Carter pegava a pasta do
caso dos Maldonado.
— Quando tempo, tigrão, que saudades. — A mulher cumprimentou
Blade com um beijo na boca, apenas um selinho, mas o suficiente para deixá-
la com ciúme.
Para a surpresa de Jesse ele não a afastou ou a impediu de tocar nele
como na maioria das vezes fazia com ela, ao contrário, deixou ser beijado
sem se importar com quem estava vendo. Isso foi o que mais a magoou,
muito mesmo. Blade disse que não estava brincando com ela, mas pelo jeito
estava o tempo todo.
— Como vai, Sara? Senti saudade também.
O que? Além de beijá-la estava sendo educado com ela também, isso
foi a gota d'agua para Jesse. A investigadora ficou tão nervosa que queria
arrancar os olhos dele e deixá-lo cego, para sempre.
— E ela, quem é? — A vampira sugadora de homens dos outros
perguntou apontando para Jesse e reparando nela de cima a baixo, curiosa.
Eu sou quase namorada dele, então fique longe sua oferecida.
— Só uma conhecida, está nos ajudando no caso.
Jesse lançou os olhos na direção dele como uma flecha, como assim,
só uma conhecida? Ele estava brincando com ela esse tempo todo mesmo,

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usou quando precisou e agora que tinha chegado algo melhor estava a
descartando.
— Eu sou Sara, você deve ser Jesse, a policial atrapalhada. Os
meninos me falaram muito bem de você, inclusive o Julius. — A
investigadora olhou para o mexicano que dizia "relaxa, ela é legal", então
Carter pegou na mão dela e tentou ser o mais educada possível.
— Prazer em te conhecer, Sara, e sim, eu sou a policial atrapalhada e
uma grande idiota que insiste em acreditar nas pessoas. — Sorriu amarelo,
tentando conter a raiva.
— Bem que me falaram que você é engraçada, adoro pessoas com
senso de humor, já vi que vamos nos dar muito bem. — Hora ou outra Blade
passava os olhos sobre Jesse, não entendia o porquê estava sendo tão seca
com Sara, que estava sendo tão simpática com ela.
— Vamos sim, pelo visto temos o mesmo gosto para algumas "coisas"
também — ironizou Jesse, ganhando um olhar desaprovador de Blade.
Além de cretino, era cínico também. Estava tão irritada, queria
arrancar cada fio dos cabelos lindos e sedosos da Sara e deixá-la careca. Por
que ela tinha que ser tão perfeita e alta, e se equilibrar tão bem em cima
daqueles saltos assassinos, exibindo aquele corpo perfeito?
— Boa noite, irmão, senti a falta do senhor. — Bobbi veio ao
encontro do irmão e o abraçou. Mas desta vez teve uma surpresa, Blade
correspondera o abraço. Envolvendo os braços em volta do caçula com força,
afagando os cabelos castanhos-claro do jovem carinhosamente.
— Eu também, Mascote, você cresceu nesse final de semana. — Se
Jesse não estivesse tão irritada com Blade teria rido da forma dele tratar o
irmão como se fosse um bebê. Era de se admirar que Bobbi não virara um
rapaz mimado.
— Eu te amo tanto Blade, você e os meus irmãos são a minha vida!
Nesse momento o coração do bandido doeu. Ele pensou que se a
namorada de Bobbi era tão importante como Jesse estava se tornando em sua
vida, não era justo com o garoto obrigá-lo a ficar longe da garota que amava.
— E a sua namorada, filho? Porque não liga para ela e pergunta como
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está, acho que devem ter muitas coisas para colocarem em dia.—Enfiou a
mão no bolso e entregou o celular para ele, Bobbi saiu perplexo segurando o
aparelho.
— Aleluia, irmãos! — gritou Li do fundo da sala, tão perplexo quanto
Bobbi.
— Sai desse corpo que não te pertence e vá em busca da luz —
exclamou Estevão fazendo sinal da cruz na direção ao Blade, fazendo um
ritual exorcista.
— Sejam bem-vindos, Blade e Jesse, que bom ver os dois juntos —
disse Julius.
Se Julius desse mais um sorrisinho malicioso daquele para o lado do
Maldonado, ficaria sem os dentes. Para evitar futuros problemas dentários,
guardou só para ele a alegria de vê-los juntos. O casal contou tudo o que
havia acontecido em Tijuana, menos a parte dos amassos no hotel e o
primeiro encontro no clube de tiro.
— Preciso que trabalhe nisso para mim, Li, tente recuperar alguma
digital e descubra o que puder. — Jogou o envelope contendo as fotos, mas a
ficha com os nomes dos policiais corruptos estava muito bem guardada e
protegida no bolso de sua jaqueta.
— Deixa comigo. — O chinês pegou o envelope e foi para o seu
laboratório cientifico, mais equipado do que o da CIA.
— Por que pediu a ajuda da Sara? Ela chegou aqui dizendo que ligou
para ela pedindo que te esperasse aqui, fiquei até preocupado — perguntou
Julius.
Então era com a vampira que ele ficou pendurado no telefone por
horas enquanto eu treinava a mira, foi a primeira coisa que veio à mente
dela. A cada minuto a raiva só aumentava, mais um pouco e iria explodir.
— Em Tijuana descobri que o filho do Carlo tem um cassino de luxo
aqui em Los Angeles e que é o Capanga dele, Josué Torres, que administra o
lugar. O idiota tem paixões por mulheres bonitas e atraentes, por isso liguei
para a Sara, ela vai seduzi-lo e depois drogá-lo para tirarmos dele onde o
Matteo Castelli se esconde.

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Nessa hora Jesse morreu, literalmente. Se encolheu toda, olhando para


o chão devastada. Em nenhum momento Blade pensou nela para fazer aquilo,
não era bonita e muito mesmo atraente o suficiente para seduzir um homem.
Não era bem esse o motivo, era outro bem diferente, só que nervosa como
estava não acreditaria nem se ouvisse da boca dele.
— E o que vai fazer com ele quando o encontrar? — perguntou
Estevão, já desconfiado da resposta.
— Esquartejá-lo vivo, e farei igualmente com os policiais que
mataram os meus pais. Irei executar um por um, usando os mesmos métodos
que eles usaram. — Os olhos de Blade naquele momento estavam de uma cor
indecifrável, mas não significava boa coisa, isso era evidente. Acinzentados
como o céu em um início de tempestade, simplesmente assustadores.
—Não! — Jesse gritou levantando com vontade de chorar. Está certo
que o pai era uma pessoa horrível, mas deveria pagar pelos seus crimes diante
a justiça e não cruelmente assassinado. Combater maldade com maldade, só
piora as coisas.
— Por que não bebe um pouco de água, querida? Parece que não está
se sentindo bem. — Sara pegou um pouco de água da jarra que estava sobre a
mesa e levou para Jesse com uma expressão preocupada no rosto. Realmente
não era uma má pessoa e nem tinha nenhum tipo de relacionamento amoroso
com Blade, na verdade tinha uma dívida eterna com ele devido a um fato que
acontecera há muitos anos.
— Obrigada! — Assim que ia pegar o copo, Jesse desiquilibrou e
derramou toda a água em cima do Blade que estava sentado ao lado dela. Se
tivesse sido planejado não teria dado tão certo.
— Mas será que você não acerta uma, Jesse? — Blade levantou
nervoso, e saiu xingando alguns palavrões em direção ao quarto para trocar
de roupa.
Sara seguiu atrás dele, como se ele fosse alguma criança que
precisasse de ajuda para vestir outra camisa. Pensou Jesse morta de ciúme, o
coração sangrando. Infelizmente ela tinha que admitir, os dois faziam um
casal lindo.
— Jesse? — Julius gritou, mas já era tarde.
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Ela saiu correndo com o rosto banhado por lágrimas, mais uma vez
humilhada. Se as pessoas soubessem o peso das palavras, dariam mais valor
ao silêncio. Ainda mais para um coração caridoso como o de Jesse Carter. As
pessoas boas são as mais sensíveis.
— Onde está a Jesse? — Foi a primeira coisa que Blade deu falta
quando voltou para a sala, estava azedo por ter levado uma bronca daquelas
de Sara no quarto enquanto trocava de camisa. Ela não achou correto a forma
rude que ele tratou Jesse e ela nem sabia o que estava acontecendo entre eles,
se não a bronca teria sido maior.
— O que você acha, tigrão? Ela foi embora chorando, seu idiota! —
Julius soltou os cachorros em cima dele e com razão.
Blade saiu correndo atrás de Jesse, mas não a encontrou em casa e em
nenhum outro lugar. Nem mesmo na residência dos pais e ele fez vigia na
porta dos Carter por dias seguidos.
Na quarta-feira de manhã viu o pai dela saindo de carro fardado
segurando alguma coisa embrulhada em um pano velho, olhando para todos
os lados assustado. Achou estranho a jovem nunca ter comentado que o pai
também era policial. No dia que deu uma surra de cinto no major ele estava à
paisana. Blade usava uma máscara no rosto o que atrapalhou um pouco a sua
visão, mas olhando para ele naquele momento à luz do dia o seu rosto lhe
pareceu bastante familiar. Só que estava com a cabeça tão cheia de
preocupação com a investigadora que resolveu deixar para lá, primeiro queria
encontrá-la para ter certeza que estava bem e depois torcer o pescoço dela por
sumir assim sem motivo nenhum, pelo menos ele achava que não tinha.
Na quinta à noite, Blade estava a ponto de se suicidar diante de tanto
desespero, o celular dela só dava caixa postal ou fora de área. Como alguém
poderia sumir daquela forma? Parecia magia negra ou castigo. Passou a
sexta e o sábado todo na cama em um estado vegetativo, parecia um mendigo
todo barbudo e desalinhado. Se alguma coisa acontecesse com Jesse, ele não
se perdoaria nunca, daria um jeito de ir para o inferno antes do esperado, de
um jeito ou de outro. Um fio de esperança apareceu quando o seu celular
tocou, mas não era ela. Estava sentindo tanta falta dela, só queria pelo menos
ouvir a sua voz.
— Onde você está, porra? — Julius berrou, ultimamente só se dirigia
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a Blade aos gritos.


— Vai para o inferno, Perez, me deixe em paz. — A voz de Blade
saiu fraca, desde o sumiço de Jesse que não comia nada.
— Você esqueceu que é hoje que a Sara vai no Cassino seduzir o
capanga do tal Matteo Castelli? Porra, cara, o que está acontecendo com
você? Estamos repassando o plano a semana toda. Anda tão disperso, quase
não para em casa e nem tem tomado banho direito. —Blade revirou os olhos
sem paciência, não estava se importando com mais nada. No entanto, por
outro lado tinha medo de Jesse estar nas mãos do herdeiro da máfia, agora
mais do que nunca tinha que colocar as mãos nele.
— Estou indo. — Desligou na cara de Julius e saiu correndo para a
garagem.
Os parceiros estavam em um quarto de hotel ao lado do Cassino. Li
montou todos os equipamentos necessários para monitorar os passos de Sara
dentro do lugar, iria entrar no sistema de segurança da casa de jogos para ter
acesso as câmeras. Durante o caminho, começou a tocar na rádio a mesma
música que ele dançou com Jesse no baile de máscaras, tudo que ele não
queria lembrar naquele momento. As palavras faziam tanto sentido, que
parecia ser escrita para os dois. A partir daí, Blade não conseguia pensar em
mais nada, apenas abrir mão de tudo por ela.
Quando um homem ama uma mulher
Não consegue manter sua mente em nada mais Ele trocaria o mundo
Por uma coisa boa que encontrou.

Se ela for má, ele não consegue perceber isso Ela não pode fazer nada errado
Ele vira as costas para seu melhor amigo Se o amigo a criticar.
Quando um homem ama uma mulher
Gasta seu último centavo
Tentando agarrar-se ao que ele precisa Ele abriria mão de todos os seus confortos E dormiria lá fora na
chuva
Se ela dissesse que esse é o jeito Que as coisas deveriam ser

Quando um homem ama uma mulher

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Ele dá tudo o que tem, yeah


Tenta segurar seu precioso amor Meu bem, meu bem não me trate mal
Quando um homem ama uma mulher
Bem no fundo de sua alma
Ela pode lhe trazer tal miséria Se ela está brincando com ele, como se fosse um bobo Ele é o último a
saber…

Eu ainda vou achar o cara que fez essa música e dar um tiro nele!Pensou novamente.

— Então, ela já está dentro do Cassino? — perguntou Blade quase


sem ar de tanto que correu para chegar ali, estava ansioso e nem sabia ao
certo por quê. Li se encontrava sentado totalmente focado na tela do seu
notebook digitando ferozmente, parecendo ter mais vinte dedos em cada mão,
Julius estava de pé ao lado do chinês de braços cruzados, com cara de pouco
amigos.
— Estevão acabou de colocá-la para dentro, está disfarçado de
garçom. Xing está tentando achá-la nas câmeras, deve ter mais de mil naquele
lugar — respondeu sério, não havia nem sinal do mexicano simpático que
costumava ser. Blade não entendia o porquê ninguém além dele estava se
preocupando com o sumiço dela, parecia que todos sabiam onde ela estava
menos ele.
— Oi, Tigrão, você sabe me dizer se aqui fazem entrega de comida no
quarto? Estou varada de fome. — Sara saiu do banheiro pisando com um pé
só e o outro enfaixado, pulando feito um canguru.
— Se você está aqui, quem está dentro do Cassino? — Blade estava
confuso, sem entender nada.
— Achei! — gritou Li, vitorioso.
— Isso só pode ser brincadeira — rosnou Maldonado, possesso.
Ao olhar para os monitores instalados na parede onde conseguia ver
Jesse de vários ângulos, incrivelmente sexy dentro de um vestido vermelho,
curto, bem colado ao corpo. Os cachos soltos bagunçados propositalmente,
parecendo uma felina perigosa. Uma maquiagem muito bem-feita, sombra
escura e batom vermelho. Para completar, nos pés um salto agulha muito
sexy, erótico. Ela estava a fantasia sexual de qualquer homem, a de Blade, no
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caso. Então ele percebeu que era como no final da música, exatamente igual.
Se ela brincar com você, te fazendo de bobo, será o último a saber…

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CAPÍTULO 19

Por: Blade Maldonado

Naquele momento podia sentir cada músculo do meu corpo tremendo


de tanta raiva. Aquela mulher era a única pessoa do mundo que conseguia me
tirar do sério de verdade. Tudo nela me irritava, profundamente, desde o
sorriso encantador àquela voz doce dos infernos, havia uma coisa na Jesse
que me atraia muito e que era só dela. Ao mesmo tempo não suportava a sua
presença, era atrapalhada e sonsa. Mas quando estava longe, sentia a sua
falta, a cada dia mais. O que passou na cabeça daquela maluca para me
afrontar assim? Tinha conhecimento de que jamais a deixaria participar de
algo tão perigoso e mesmo assim foi agindo pelas minhas costas. Iria tirá-la
de dentro do Cassino imediatamente e se existia mesmo um Deus no céu, que
Ele tivesse piedade dela, porque eu não teria.
— Eu vou tirar ela de lá, agora — afirmei já partindo em direção a
saída.
Não sairia daquele lugar sem dar um tiro no meio da testa de qualquer
maldito que se atrevesse a olhar para a Jesse. Eu estava irritado, puto, irado,
possesso e com um ódio mortal daquela mulher!!!
— Você não vai a lugar nenhum, entendeu bem, Blade? — disse
Julius com a expressão séria, atrevendo-se a segurar no meu braço com força.
— E quem vai me impedir? — perguntei irritado olhando para a mão
dele em mim. Seria capaz de arrancar o braço dele caso insistisse em querer
me segurar.
— Se entrar naquele Cassino agora no estado que está, Jesse será
morta. Se você quer que isso aconteça, não vou te segurar. Mas acho que
deveria dar uma chance para a moça, mesmo magoada com você por ter sido
um idiota com ela não pensou duas vezes em ajudar quando a Sara torceu o
pé ontem e eu liguei de última hora pedindo socorro — concluiu, soltando-
me como havia prometido. Julius sempre foi o mais sensato do grupo.
Então ela não estava atendendo só as minhas ligações. A minha raiva
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por ela só aumentava mais a cada segundo.


Soquei a cara do Julius com força, que foi direto ao chão devido a
intensidade do golpe, que não estava esperando. Minha vontade era matá-lo à
base do soco, ter o prazer de vê-lo sangrando até a morte.
— Isso é por ter colocado a Jesse no meio dessa porra. E se alguém
tocar em um fio de cabelo dela vai vir muito mais de onde veio esse, não vou
parar até que o seu rosto esteja irreconhecível.
— Não acredito que vivi até hoje para ver Blade Maldonado
preocupado com alguém, ou melhor, com ciúme! Espero que tenha gostado
do vestido vermelho que ela está usando, escolhi em homenagem a você,
parceiro. — O mexicano abusado levantou-se do chão massageando o lugar
onde tinha acertado o soco, com o canto da boca sujo de sangue.
— Maldito! — Soquei a cara dele novamente por várias vezes, mas o
desgraçado continuou rindo debochado como se fosse imune a dor.
— Vocês dois poderiam deixar para resolverem isso mais tarde?
Temos um problema maior agora. Jesse acabou de chegar no salão do
Cassino e acho que a presença dela chamou logo de cara a atenção do Josué
Torres, o tal capanga do Matteo, ele está literalmente babando em cima dela
— exclamou Li com os olhos atentos ao monitor.
Empurrei o Julius de qualquer jeito e fui para perto do chinês, roxo de
raiva, conferir com os meus próprios olhos o que ele havia dito. E de fato era
verdade, não só eles como todos os homens em volta da mesa de jogos
pararam o que estavam fazendo para olhar para ela.
— Eu vou matar friamente cada um deles, ainda essa noite — rosnei.
Estava fora de mim.
— Ela realmente está maravilhosa! E olha que nem exagerei muito na
maquiagem que fiz, Jesse é naturalmente linda e o jeito tímido dela só a faz
mais charmosa ainda — a intrometida da Sara comentou, com a boca cheia de
alguma coisa que estava comendo enquanto via tudo de onde estava sentada
na cama. Sabia que tinha o dedo dela naquela produção toda da
investigadora.
— Você consegue me ouvir, Jesse? Mexa no cabelo se a resposta for

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sim, quero saber se o microfone que coloquei no seu ouvido está funcionando
corretamente. — Li entrou em contato com ela, fingindo não notar a minha
presença, totalmente concentrado no que estava fazendo. Ela colocou a mão
no cabelo sensualmente, até demais para o meu gosto.
— Ótimo, querida, está indo muito bem! — Ela deu um pequeno
sorriso com o elogio de Julius. Ficava feliz com tão pouco. — O nosso alvo é
aquele homem alto de terno preto de gravata borboleta, cabelo penteado para
trás e barba grisalha. Não se esqueça que ele gosta de mulheres sensuais, mas
não oferecidas. — Jesse ouvia atentamente, como se soubesse mesmo como
seduzir alguém.
— Pare de tentar enganá-la dizendo que é capaz de seduzir alguém,
Julius. Porque todos presentes aqui sabem que não! Mande essa idiota sair daí
antes que estrague tudo como sempre faz, vamos procurar alguém mais
adequado para colocar no lugar da Sara. — Fui cruel e não senti nem um
pingo de culpa por isso.
A Jesse tinha que entender que ela não tinha nascido para aquele tipo
de coisa, deveria ser ilegal um anjo como ela no meio de tanta luxúria. Para
me afrontar a maldita virou para a câmera arqueando a sobrancelha e um
sorriso perigoso no rosto, muito sexy. E saiu rebolando em direção à mesa de
jogos onde Josué Torres estava. Se eu pudesse, teria atravessado o monitor e
torcido o pescoço dela.
— Aiiii — ela gemeu de dor, após dar dois passos e tropeçar no
próprio pé, caindo de joelhos, apoiando as duas mãos no chão e chamando a
atenção de todos presentes, principalmente do alvo.
Era óbvio que aquilo iria acontecer, mas ninguém quis me ouvir. Ela
poderia até estar a porra de uma mulher gostosa para caramba vestida com
aquele pedaço de pano que chamava de vestido. Mas o que chama de verdade
a atenção de homens como o capanga do Matteo Castelli são as mais
experientes. Foi uma covardia do Julius jogar uma virgem na mão de um
pervertido.
— Não se preocupe, Blade, está tudo sobre controle. Jesse só está
sendo ela mesma, a garota mais amável e doce do mundo, essas qualidades
podem conquistar até o coração mais frio do mundo, você não acha? —
Lançou os olhos sobre mim, louco para levar mais um soco. —Agora, cala a
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boca e veja do que ela é capaz — completou confiante cruzando os braços,


tanto eu como Li e Sara estávamos preocupados, mas ele não estava nem um
pouco.
— Ele está se aproximando dela, agora tudo pode acontecer. — Li
levou as mãos atrás da cabeça, nervoso, e a Sara virou o rosto para o lado
sem coragem de olhar qual seria a reação do capanga.
— Você está bem? — Para a surpresa de todos ele estendeu a mão
para ajudá-la a se levantar. Era evidente que o desgraçado estava interessado
nela.
— Obrigada, o senhor é um homem muito gentil! — Jesse sorriu para
ele, mas não qualquer sorriso, era o tipo que iluminava o mundo todo. Isso
me afetou, não gostei de vê-la sorrindo para outro homem. Era como morrer
mil mortes em vida, uma dor sem fim.
— Sou gentil apenas com as mulheres que têm o sorriso bonito igual
ao seu, é nova por aqui? Com certeza me lembraria de uma joia exótica como
você, o seu cabelo é muito atraente e a sua timidez a coisa mais erótica do
mundo. Sou Josué Torres, o administrador e sócio do Cassino. — O
desgraçado estava dando em cima dela descaradamente, assinando a sua
certidão de óbito.
— Sou Naomi Suan, e o prazer é todo meu, Josué! Obrigada pelos
elogios, fico feliz em saber que ainda existem homens no mundo que sabem
como tratar uma mulher. — Depositou um beijo no rosto do homem que
havia acabado de conhecer, encantada. Não estava parecendo que estava
contracenando e, se estivesse, não tinha a necessidade nenhuma de beijá-lo.
— Espero que esteja ciente que eu estou ouvindo cada palavra que
está dizendo, investigadora. Se eu fosse você, não brincava com fogo, porque
o incêndio pode ser grande depois. — Tentei dizer o mais calmo que pude,
não queria deixá-la nervosa na frente do inimigo.
— Pode vir quente que eu estou fervendo, se não sabe brincar não
desce para o play — a maldita disse disfarçadamente para que o capanga não
ouvisse.
Julius tentou abafar o riso tapando a boca com a mão se divertindo
com o acontecido.
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— Por que não vem para a mesa de jogos comigo? Alguma coisa me
diz que uma mulher linda como você vai me dar sorte, te quero ao meu lado
essa noite. — Piscou para Jesse, cheio de segundas intenções.
— Nada me deixaria mais feliz!
Eu estava ficando louco ou ela estava mesmo flertando com o
inimigo? De uma hora para outra aquela mulher tímida tinha sumido, dando
cena para uma dama da noite. Se o plano dela era me ferir, estava se saindo
muito bem, até demais.
Depois do idiota ganhar uma fortuna pedindo que a Jesse escolhesse o
número em qual apostar, ela não errava uma, saíram de lá e foram para o bar
comemorar. Ele queria impressioná-la com dinheiro, como se ela se
importasse com isso. A cada minuto o homem ficava mais encantado com a
simpatia e espontaneidade da investigadora, não perdendo uma oportunidade
para tocá-la. E em meio a muitas risadas e flertes entre os dois, enfim, o
capanga a chamou para irem para um lugar mais "íntimo".
— Nunca conheci nenhuma mulher como você, tão doce e gentil, ao
mesmo tempo fatal. Um poder de sedução fora do comum e olha que eu
entendo bem quando o assunto é mulher. Nunca acreditei em paixão à
primeira vista, mas depois que te conheci, estou repensando essa questão.
Não estava brincando quando disse que queria que passasse a noite toda ao
seu lado, na verdade era muito sério. — Chegou a boca bem próximo ao
ouvido dela, que abaixou a cabeça envergonhada. — No café da manhã
também, podemos passar o dia todo na cama fazendo sexo selvagem. —
Jesse corou muito.
— Puta que pariu! O cara e bom, até eu fiquei a fim dele agora —
brincou Li, fazendo Julius e Sara gargalharem enquanto o meu ódio só
aumentava. Sentia-me um leão enjaulado.
— A missão acabou, Jesse, saia daí agora. Não vai a lugar nenhum
com esse cara. Se não sair eu mesmo vou aí dentro te pegar. — Eu não estava
brincando, não estava nem aí para mais nada! Só queria tirá-la de perto
daquele homem e de qualquer outro que tentasse se aproximar dela.
— E o que está me esperando para me levar para esse tal lugar mais
"intimo"? Mal posso esperar para estar em seus braços, o dia amanhã promete

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— disse a oferecida como uma vadia de fim de festa, uma prostituta barata.
Estava com tanta raiva, louco para atirar em alguém.
— Não brinque comigo, porra, mandei você sair agora! — A
desgraçada nem deu bola para mim, fingiu mexer no cabelo e tirou o
microfone do ouvido, jogando-o discretamente dento da bolsa.
— Eu vou matar os dois! E quem entrar no meu caminho também. —
Quebrei a tela do monitor com um soco em cima da imagem dos dois saindo
do salão de mãos dadas trocando olhares de cumplicidade e indo em direção
ao corredor, com certeza para pegar o primeiro elevador para a cobertura
onde ficavam os camarotes para os clientes vips levarem suas amantes.
Ninguém se atreveu a tentar me segurar dessa vez, nem mesmo Julius. Passei
pela porta da frente do Cassino com uma pistola em cada mão, entrei no
elevador bufando de raiva, parecia que estava sumindo em câmera lenta. Em
um determinado momento, entrou um casal de velhinhos muito bem vestidos,
com certeza antigos amantes de jogos. O senhor trajava um terno italiano e
chapéu preto, ostentando uma bengala de ouro puro. A esposa usava um
casaco legítimo de couro, cheia de joias caras, trazendo os cabelos grisalhos
em um corte na altura dos ombros.
— A sua mãe sabe que você anda com esse tipo de coisa, filho?
Armas são perigosas, destroem tanto a vítima quanto quem as usa —
perguntou o senhor assim que o elevador começou a se movimentar, nem um
pouco intimidado de estarem presos dentro de uma caixa de aço com um
homem armado.
— Na verdade foi presente dela, no meu aniversário de dez anos —
respondi olhando para frente. Não dispunha de muita paciência no momento.
A música de piano tocando não estava ajudando muito, então dei um tiro na
caixa de som do elevador.
— Se você não fizesse, eu teria feito, odeio essas músicas cafonas.
Você viu que a sua mão está sangrando, querido? Deixa eu dar um jeito
nisso, segure isso por um instante amor.
A senhora pegou a arma da minha mão e entregou para o marido, nem
eu havia percebido que tinha machucado quando soquei a tela do monitor.
Ela tirou um lenço que estava em volta do pescoço e enrolou na minha mão,
carinhosamente.
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— Não vai dizer a palavrinha mágica? — perguntou a senhora, pensei


que estava brincando, mas não estava. Estava me olhando com a cara feia,
por um momento pensei que iria puxar a minha orelha.
—Valeu! — respondi apenas, contra a minha vontade. A porta do
elevador se abriu e eles foram embora de braços dados sorrindo, aquela
alegria toda não era normal.
Estava em frente à porta da suíte principal, pronto para arrombar e
entrar enchendo os dois de tiros, quando a porta abriu e Jesse passou por
mim, calma, fingindo que não estava me vendo. Peguei no braço dela e a
joguei para dentro de uma suíte ao lado. Ela iria ter que me explicar
direitinho o que aconteceu entre os dois dentro daquele maldito quarto.
— O que você quer? Estou com pressa. — Cuspiu ela, me fuzilando
com o olhar como se eu fosse o errado da história, cínica.
— O que aconteceu entre vocês dois naquela suíte? Deixou que
tocasse em você, entregou a sua virgindade a ele? Se é que era virgem
mesmo, porque do jeito que te vi se comportando como uma prostitua barata
hoje, não sei de mais nada. — Eu estava com tanta raiva, só queria feri-la da
mesma forma como estava ferido.
— Cale a boca, nunca mais fale comigo assim novamente! — Deu
uma bofetada na minha cara, com vontade.
—Você quer morrer, garota? Nunca nenhuma mulher ousou bater no
rosto de um Maldonado, deveria te castigar por isso. — Os meus olhos
soltavam faíscas de raiva e ela não recuou nem um minuto me enfrentando de
nariz empinado.
— Fico feliz em ser a primeira. — Me enfrentou, como uma onça
brava.
— Aonde pensa que vai chegar com isso? Estava querendo chamar a
minha atenção, fazer uma cena? — gritava tão alto e ela se encolhia tanto,
que por um momento pensei que entraria no chão para fugir de mim. Tremia
de medo.
— Não, seu cretino! Fiz porque sou uma idiota, como sempre
pensando nos outros antes de mim. Consegui muita informação do capanga

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do Matteo, ele soltou tudo sobre o chefe depois que batizei a bebida dele.
Está tudo gravado no gravador dentro da minha bolsa, o melhor disso tudo é
que ele só vai acordar amanhã e sem se lembrar de nada. — Naquele
momento fui obrigado a soltá-la, tinha que ficar longe para mantê-la segura
de mim, do jeito que estava nervoso era capaz de fazer alguma coisa contra a
segurança física dela.
— Não abuse do meu autocontrole, investigadora, devo te alertar que
nunca fui muito bom em controlar a minha raiva. Então não brinque com a
minha paciência, antes que o pior aconteça com você. — Tentei me manter
calmo por fora, mas por dentro meu sangue pegava fogo.
— Eu juro não entendo você, por que está tão nervoso assim?
Consegui o que vocês queriam, não consegui? Então pare de fazer drama e
me deixe ir comemorar o sucesso da missão com o pessoal. — Ela girou o
corpo depressa, fazendo a saia do vestido girar. Deus! De perto parecia mais
curto ainda, estava praticamente nua.
— Deu certo por sorte, porra! — Berrei e se ela abrisse a boca mais
uma vez seria capaz de torcer o pescoço dela de verdade.
— Porque não sou bonita e atraente como a Sara, não é mesmo? Não
tenho peitos grandes nem uma bunda avantajada. Sou apenas uma garota
normal. Sinto muito em te alertar que os tempos mudaram Blade, a beleza
atrai, mas é o conteúdo que conquista. — Jesse abaixou a cabeça evitando os
meus olhos que, com certeza, estavam brilhando de ódio na escuridão.
— Você é mais tonta do que pensei! Infantil e mimada.
Não pensei nela para o plano não porque que não era capaz ou bonita
o suficiente, mas, sim, porque eu não queria nenhum homem tocando ou
olhando para o que é meu.
— Ainda bem que você não é o único homem do mundo, existem
muitos outros por aí que acham essa tonta aqui muito "interessante". — Ela
estava querendo morrer, só pode!
— Sei que está falando do barman, é ele que você quer? — A minha
voz saiu aguda, não sei se estava preparado para ouvir a resposta dela.
Jesse remexeu o anel no seu dedo de um lado para o outro, um

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movimento simples, mas muito excitante.


— Responda, porra— ordenei, socando a parede. Andava de um lado
para o outro como uma fera enjaulada.
— Miche é um bom rapaz — respondeu apenas, odiava o jeito íntimo
dela chamá-lo pelo apelido.
— E o que mais? — Já que havia começado a falar, que dissesse tudo
logo de uma vez.
— E mais nada Blade, minha vida pessoal não é da sua conta —
respondeu, malcriada, levando as mãos à cintura.
Se não estivesse tão irritado com ela teria a beijado naquele momento.
Ficava ainda mais atraente quando nervosa, uma tentação.
— Não me pareceu nada quando vi vocês andando de mãos dadas na
exposição de fotos no parque, como dois pombinhos apaixonados. Não me
pareceu nada quando ele tentou te beijar e você fechou os olhos para receber
o beijo e, que fique bem claro, o nome dele é Michelangelo e não "Miche".
— Eu juro que tentei, Blade, mas você não faz outra coisa a não ser
me oprimir e me rebaixar sempre que pode. É cruelmente grosso comigo, já
fui muito humilhada na minha vida por diversas pessoas, mas isso acabou.
Não alimento mais nada que não seja recíproco, vamos dar as mãos como
duas pessoas civilizas e cada um segue o seu caminho. —A frieza dela me
assustou muito.
— Como assim cada um seguir o seu caminho? Já esqueceu tudo o
que aconteceu entre nós em Tijuana, porque eu não esqueci.
Estava começando a me desesperar. E se ela estivesse falando sério?
Eu tinha a certeza que odiava aquela mulher com todas as minhas forças
principalmente o efeito que a presença dela causava em mim, até a voz dela
me irritava. Ao mesmo tempo, a desejava feito um louco! Tinha o poder de
fazer a minha dor sumir, trazia luz aos meus dias mais sombrios. Deixava-me
bobo só de olhar para ela, enfeitiçado, essa era a palavra correta.
— É claro que não esqueci, Blade. Mas o que aconteceu em Tijuana
fica em Tijuana. Aqui não passo de uma conhecida que está ajudando vocês
nesse caso, não é mesmo, Tigrão? — Jogou as palavras na minha cara,
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realmente aquela Jesse à minha frente não era a mesma de alguns dias atrás.
Estava diferente, muito confiante.
— Se você quer assim tudo bem, investigadora. Jamais vou ser o
príncipe encantado que procura, merece ficar com alguém que te venere,
mande cartas e te encha de flores. — Nunca mais queria sentir aquela dor que
estava sentindo, era como morrer em vida. Ela havia me destruído por
completo.
— Não almejo ser venerada, apenas amada. Não precisa ser perfeito,
apenas de verdade. — Encarou-me.
Como não tinha reparado antes que a boca dela era tão atraente?
Um sorriso tímido e sensual, uma mistura que prometia todo o tipo de
prazer.
— Você parece um anjo caído do céu que veio me enfeitiçar, me
destruir. — Queria poder não dizer o que sentia por ela, evitá-la a todo custo.
Mas simplesmente não conseguia, era mais forte do que eu.
— Os anjos normalmente sãos descritos loiros e de olhos claros,
nunca ouvi dizer sobre algum anjo negro — corrigiu ela.
— Estou diante de um agora.
Diminuí a distância entre nós, mais um centímetro e os músculos
duros do meu peito estariam contra a maciez dos seios dela, que já estavam
enrijecidos. Estava excitada, assim como eu. Naquele momento esqueci de
tudo, éramos só eu e ela. Quando dei por mim já tinha a imprensado na
parede, erguendo-a do chão. Uma das mãos em concha sobre suas nádegas e
a outra a pressionava pela base da coluna, para junto de mim. Ela podia sentir
a ereção do meu membro roçando nela louco por sexo bruto e violento, por
um prazer extremo. As pernas dela se engancharam em volta da minha
cintura, queria mandar tudo para o inferno e fazê-la minha ali mesmo. Então,
escorreguei a minha língua para dentro da boca dela, explorando todo espaço.
Os braços de Jesse rodearam o meu pescoço enfiando as mãos entre os meus
cabelos, os seios cada vez mais sensíveis pressionando em mim, praticamente
implorando que fossem tocados. A cada momento o beijo ficava mais
exigente, necessitado.
Não sabia ao certo quanto tempo havíamos nos beijado, talvez horas
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quem sabe, o tempo havia parado.


— Jesse! — O nome dela saiu dos meus lábios como um sussurro, um
leve gemido.
— Estou ouvindo, querido! — Os lábios dela estavam vermelhos e
inchados, provavelmente os meus também.
— Eu sei que que nunca vou ser o homem que você merece, nasci
para ser um vilão. Gosto do que faço e não pretendo mudar nunca, mas posso
tentar melhorar por você se quiser, o que acha da ideia de ser o meu anjo para
sempre? — Do nada ela me abraçou forte e começou a chorar, como se
estivesse se despedindo.
— Vou sentir tanto a sua falta, espero que um dia possa deixar de me
odiar. — Alisou o meu rosto molhado.
— Não estou entendendo, pequena, por mais que me irrite jamais
seria capaz de odiar você. Por onde andou todos esses dias? Fiquei tão
preocupado, senti tanto a sua falta. Mais uns dias e eu iria morrer. Promete
que não mais me assurtar assim. — Encostei a minha testa na dela.

— Precisava de um tempo para tomar coragem para te contar um


segredo, tem uma coisa sua que está comigo. — Ela chorava cada vez mais,
estava começando a ficar assustado de verdade.
— Por favor, não chore, anjo — implorei, não aguentava vê-la
sofrendo daquela forma.

— Eu não sou um anjo, Blade, na verdade estou mais para a filha do


demônio. — Escorregou dos meus braços para o chão cabisbaixa, os ombros
curvados como se estivesse carregando o peso do mundo nos ombros.

— Fale logo de uma vez, porra, chega de meias palavras — explodi,


ela estava me deixando nervoso.

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— Nunca se perguntou o porquê nunca te falei o meu sobrenome? —


Enfiou a mão dentro da bolsa e tirou um embrulho igual ao que vi com o pai
dela. — Sou filha do homem que roubou isso da sua família. Blade, o meu
pai a pegou no dia em que participou da emboscada. O meu nome é Jesse
Carter, carrego o sobrenome de um policial corrupto e assassino. Não posso
mais continuar mentindo para o homem que eu amo, mesmo que isso faça ele
me odiar pelo resto da vida — completou me entregando a Colt, uma arma
antiga, relíquia da família Maldonado passada de pai para filho.
A mesma mulher que havia me feito descobrir que debaixo de tanta
maldade, dentro do meu peito batia um coração, o destruiu de uma forma que
jamais teria cura.

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CAPÍTULO 20

“Conversa Definitiva…”

Blade olhava para a Colt em suas mãos, era a primeira vez na vida
que tocava no objeto, o máximo que chegou perto foi nas mãos do pai. A
arma era montada por peças intercambiáveis, únicas. Em seu vasto
conhecimento em armas jamais vira nada igual, nem ao menos parecido. Um
verdadeiro endosso inovador da arte, uma mistura do rústico com contornos
delicados.
Depois de avaliar detalhadamente a relíquia, seus olhos voltaram-se
para Jesse toda encolhida no chão, chorando compulsivamente, escondendo o
rosto por trás das próprias pernas como uma coelhinha assustada. Era muita
informação para Blade processar naquele momento, o pai de quem pensava
ser seu anjo havia destruído a sua família e ainda roubado algo importante
para ele, que pensou estar em qualquer lugar menos nas mãos da mulher que
fazia o seu coração bater mais forte, que tinha feito ele acreditar que podia ser
uma pessoa melhor. Mas ela havia mentido para ele, havia o enganado.
Então, uma raiva enorme se apossou do bandido. O sangue correndo em suas
veias como larva fumegante, grosso e fervescente. Em sua mente rondavam
dúvidas cruéis e letais. Quando o mal encontra uma pequena entrada para a
alma de alguém por menor que seja, ele já chega mostrando serviço,
colocando coisas onde não tem, chifres na cabeça de cavalo, como diz o
velho ditado. E se ela me enganou esse tempo todo a mando do pai dela, tudo
o que vivemos juntos não passou de uma mentira, um doce e encantador
engano onde o meu anjo não passa de um demônio com cara de santa?
Então, totalmente tomado pelo ódio, Blade Maldonado segurou a Colt
na cintura e caminhou em direção a ela que ainda chorava sem parar como a
revolta do mar em meio a tempestade, a passos firmes que pareciam furar o
chão a qualquer momento, capaz de fuzilar só com olhos qualquer coisa que
ousasse atravessar o caminho dele. Estava disposto a arrancar a verdade da
filha do diabo, custe o que custasse. Depois a mandaria para o inferno, onde
traidores como Jesse Carter deveriam morar pela eternidade, queimando no
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fogo ardente.
No meio do caminho o bandido pisou em algo, era uma mini
caderneta que provavelmente escorregara da bolsa da investigadora quando
tirou a Colt para devolvê-lo ao verdadeiro dono. Os olhos escuros de Blade
imediatamente tomaram um tom de azul cor de jacinto, as nuvens sombrias
foram embora dando passagem para um lindo amanhecer. Tudo isso por
conta do que havia escrito nas folhas, por mais de uma vez, de forma
aleatória com uma letra formosa e delicada, assim como a dona dela. Em
volta havia vários corações pintados com caneta vermelha, pareciam ter sido
feitos por uma adolescente e não uma mulher de vinte e seis anos: Por favor
não me odeie muito Blade, eu te amo.
— Não conseguiria te odiar nem se eu quisesse, isso é impossível —
disse mais para ele do que para ela.
Realmente Jesse Carter era um ser naturalmente amável. A jovem
parou de chorar no mesmo momento e o encarou com as duas esferas cor de
canela dançando dentro de um mar de águas sem fim.
Ela havia quebrado o coração de Blade de uma forma que jamais teria
cura, mas cada pedacinho dele ainda precisava dela, desesperadamente,
independentemente de qualquer outra coisa no mundo, ou além dele talvez,
algo como depois da morte, quem sabe.
— Então você não vai gritar comigo? Me xingar ou atirar em mim?
— Blade olhou para ela com um certo pesar em saber que era assim que Jesse
a via, como um monstro, pensou: O que eu havia feito com aquela pobre
garota? Sempre esperando o pior de mim."
— Se não fiz isso quando te vi na porra desse pedaço de pano, por
que faria agora? Deveria pedir o seu dinheiro de volta, porque a metade do
vestido deve ter ficado na loja. — Ela estava ficando louca ou Blade estava
tentando ser engraçado? Mas era sério demais para fazer uma piada, esse tipo
de coisa não combinava com ele.
— Você é o tipo que gosta de brincar com a vítima antes de matá-las?
Como os gatos fazem com os coitadinhos dos ratos? Se for, saiba que para
mim isso é o último grau da maldade de um ser humano. — Jesse tinha a voz
chorosa, como uma criança assustada depois que contara para a mãe que

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tinha aprontado. Blade soltou uma gargalhada macabra achando graça da


inocência dela.
— Já passei do último grau de maldade há muito tempo,
investigadora. Mas não vou mentir que brincar com você não passou pela
minha mente hoje, de várias maneiras.
Olhou para as pernas da moça, pousando os olhos mais tempo do que
o necessário sobre as coxas. Subiu lentamente pela cintura, passando a língua
sobre os lábios ao ver a ponta de um dos seios balançando dentro da abertura
lateral do vestido.
— E você iria gostar muito! — completou Blade totalmente
malicioso, cheio de segundas, terceiras e infinitas intenções. Jesse agradeceu
por estar apoiada na parede senão teria escorrido ao chão, derretida.
— Não entendi o seu comentário. — Jesse envergonhada puxou a
base da lateral do vestido na intenção de esconder o lugar onde ele estava
olhando, fazendo-se de boba.
Ela havia entendido sim, muito bem, pensou Blade — Venha aqui! —
Blade se sentou na cama e estendeu a mão para ela, com uma expressão
estranhamente calma.
Jesse negou com a cabeça permanecendo exatamente no mesmo lugar
que estava, aquela reação dele era completamente diferente do que estava
esperando. Contava com no mínimo o massacre da serra elétrica ou um
ataque do Jack Matador.
— Agora — ordenou ele, com uma expressão não tão calma em seu
rosto.
Jesse levantou desconfiada caminhando cautelosamente e sentou-se
ao lado do bandido na cama a uma distância consideravelmente segura.
— Pode dizer. — Jesse mexia no anel em seu dedo, demonstrando o
quanto a presença dele mexia com ela. Era como ir do céu ao inferno em uma
fração de segundos.
— Aqui! — Blade bateu a mão sobre o colo, olhando para ela
totalmente constrangida sem saber o que fazer. Não sabendo se deveria
confiar realmente naquela calmaria toda.
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Um homem traído sabe mentir muito bem quando tem sede de


vingança, isso passava pela cabeça da investigadora. Sem paciência ele
mesmo a pegou e a colocou em seu colo, sem nenhum pingo de gentileza.
— Assim está melhor! — Envolveu os braços em volta da cintura
dela, trazendo-a mais próximo de si.
— Por que não está bravo comigo? — perguntou Jesse intrigada sem
coragem para encará-lo, com os olhos ainda molhados. — Olhe para mim! —
Não mandou, pediu de forma gentil até demais. — Me desculpe por ter
mentido para você? Pelo meu pai ter ajudado a destruir a sua vida, tirando as
pessoas que amava. — Jesse quase se perdeu dentro daquelas duas lagoas
azuis, lindas e misteriosas. Um labirinto repleto de mistérios, que daria tudo
para se perder dentro pelo resto da sua vida.
— O seu pai tirou de mim as únicas pessoas que eu amei na vida, mas
por outro lado me trouxe você. A dívida dele está paga comigo para sempre.
— Tirou alguns cachos sobre o rosto de Jesse que estava encobrindo a visão
do sorriso encantador que veria em… 1, 2, 3… E lá estava ele, iluminando
tudo em volta. Blade sentiu-se honrado por ser o motivo, envaidecido seria o
correto a dizer sobre o bandido naquele momento. Quero vê-la sempre assim,
sorrindo.
— Obrigada por me perdoar, Blade, prometo nunca mais mentir para
você. — Jesse envolveu os braços em volta do pescoço do amado,
depositando beijos castos por toda extensão do rosto de Blade.
— E que nunca mais vai usar esse vestido? Só para mim, se quiser
fazer uma dança erótica também não seria nada ruim. — Fez piada
novamente. Ele até tentou sorrir, mas tinha os músculos do rosto tensos
demais para torná-lo sincero.
— Que coisa feia querer tudo só para você, tem que aprender a
dividir, sabia? — brincou Jesse, fazendo carinho no braço dele sem acreditar
que aquilo era verdade.
Blade havia lhe perdoado de verdade. Se soubesse que essa seria a
reação dele, teria contado antes. Odiava mentiras, porém muita mais a
hipótese de ser odiada por ele.
— Não o que é meu, sou egoísta! — disse com a voz sombria,
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assustadora na verdade.
— Em se tratando de você eu também sou, Tigrão! — Era a primeira
vez que Blade a vira séria, ficava encantadora assim também.
Jesse tentou sair do colo dele, mas ele não deixou, cravando firme as
duas mãos sobre as coxas dela. Então não era o único possesivo ali, ela
também sentia ciúme de mim.
— A Sara só me beijou porque você deixou, da próxima vez faça
alguma coisa quando outra mulher quiser colocar as garras no que é seu. Se
fosse eu, teria explodido o cara antes dele pensar em se aproximar da minha
garota.
— Sua garota? — perguntou Jesse em uma irresistível combinação
erótica de rubor e ingenuidade.
— Quero que seja, mas antes precisamos conversar. Está na cara que
não sou um bom partido, Jesse. Gosto de matar as pessoas covardemente.
Isso me diverte, me dá prazer — disse naturalmente, com o semblante calmo.
— Já fiz tudo de errado que você pode imaginar e não me arrependo de nada.
Minha vida é perfeita do jeito que ela é, não pense que vou virar um santo do
dia para a noite, porque isso não vai acontecer. Nascemos em lados opostos.
Até podemos tentar fazer isso dar certo, mas será quase impossível. Fora que
sou muito mais velho, você é pouco mais velha do que o meu irmão caçula.
Mesmo assim quero tentar, mas se for demais para você e quiser cair fora, eu
entendo. — Ela escutava atentamente a tudo o que Blade falava.
— Não vai se livrar de mim assim tão rápido, Blade Maldonado.
Arrumou uma cruz para a vida inteira. — Ela deu uma gargalhada gostosa,
estava feliz como nunca esteve.
— Tem mais uma coisa, a mais importante de todas.
Blade olhou no fundo dos olhos dela, afinal aquela seria a única
barreira que poderia separá-los. Havia uma certa tensão no ar, um momento
decisivo. Ele respirou fundo e começou a falar, sem tirar os olhos dela.
— Eu jurei nunca ter filhos, Jesse. Quero que o sangue ruim dos
Maldonado morra comigo, trancado a sete chaves no inferno. — Foi duro
com as palavras, para que ela entendesse claramente.

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Jesse ficou calada por algum tempo, segundos que pareceram uma
eternidade para Blade. Sabia que o sonho dela era ser mãe, então se preparou
para o pior.
— Não quero ter filhos se você não for o pai, seremos eu e você
contra o mundo. — Jesse foi sincera, mas com um sorriso triste nos lábios.
— Nunca imaginei que algum dia teria uma garota só minha, mas
pensei que, se tivesse, ela teria que ser noventa e nove por cento demônio e
um por cento anjo, não o contrário.
— Não sou tão santa assim, Blade, já tive pensamentos impuros com
um homem na adolescência e não foi só uma vez. — Blade arregalou os
olhos pasmo diante de tamanha revelação. Os músculos do corpo
involuntariamente se contraíram.
— Quem é esse maldito? — perguntou nervoso, o pobre indivíduo
tinha chance de estar debaixo de sete palmos ainda naquele dia.
— Antonio Banderas no papel de Zorro, sempre gostei de homens
mais velhos. — Ela corou.
— Pare com isso — ele ordenou com a voz grave.
— Desculpe. — Jesse abaixou a cabeça, como uma submissa
obediente.
— Se soubesse o que está se passando em minha cabeça agora… —
Mordeu a curva do pescoço de Jesse, com as mãos subindo para a coxa,
encontrando o tecido da calcinha de renda branca. Ele gemeu só de pensar se
ela estaria molhada ansiando ser tocada mais intimamente.
— Vai acontecer tudo o que está pensando e mais um pouco, não aqui
e nem agora. — Uma ideia veio a sua mente na velocidade da luz, queria dar
a ele uma coisa que nunca teve antes. — Vamos a um lugar, só confie em
mim. — Levantou em pulo, ficando de pé diante dele. Ela estava parecendo
uma boneca com a saia do vestido toda rodada, os cachos revoltos caindo
charmosamente sobre o rosto.
— Como aprendeu a andar de salto tão rápido? Sara é boa em ensinar,
mas não faz milagres — Blade perguntou olhando para ela desconfiado,
observando-a se equilibrar perfeitamente em cima do belo e atraente salto
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quinze vermelho-sangue, que agora de perto havia percebido algumas


pedrinhas transparentes por cima, um luxo. Arqueou a sobrancelha curioso,
inquisidor.
— Só porque eu não uso não quer dizer que eu não saiba usar. — Deu
uma piscadela para o lado dele, sorrindo magnificamente para ele.
— Ok! Mas acho melhor deixarmos para ir nesse tal lugar outro dia.
Temos que levar o gravador até o pessoal e tentar extrair o máximo de pistas
possível do paradeiro do Matteo Castelli, esse é o foco da missão, lembra?
Não ficar perdendo tempo passeando por aí, duvido que possa me levar em
algum lugar que eu goste. — O Blade hato havia voltado novamente, com a
corda toda.
— Apenas segure a minha mão, vem comigo, que no caminho eu te
explico. A base de um relacionamento é a confiança.
Ela sabia que um bom soldado segue o rumo da missão sem
pestanejar e que ainda tinha que contar a Blade onde esteve todo esse tempo e
como havia sido a conversa tensa com o pai que foi ameaçado pela própria
filha, que pela primeira vez o enfrentara para defender o que achava certo,
principalmente o homem que amava. Mas por hora queria apenas viver uma
noite sem regras, uma noite a dois.
— Hoje você paga a conta. — Assim o casal mais inusitado do
momento saiu de mãos dadas para uma noite que prometia grandes emoções
e prazeres eternos.

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CAPÍTULO 21

Jesse estava há mais de meia hora tentando convencer Blade a deixá-


la dirigir o seu carro até o local onde queria levá-lo. Se fosse outro qualquer
veículo da sua coleção, ele até deixaria, mas o Impala era o Impala, não
precisava dizer mais nada. Não deixava ninguém nele o conduzir. Agora
estavam dois teimosos, que pouco tempo atrás acabaram de fazer as pazes,
brigando novamente.
— Assim que disse que quer tentar fazer dar certo? Ótimo! Queria te
levar para conhecer um lugar, mas se quer estragar a surpresa, tudo bem. Vou
dizer qual é o endereço, fica pouco mais de quarenta minutos daqui. — Blade
olhou para aquela criatura minúscula na sua frente, pensando se deixá-la viva
tinha sido realmente uma boa ideia para o bem-estar do seu psicológico. Só
que era tarde demais para voltar atrás com a sua palavra, infelizmente.
— Deveria trabalhar com vendas, sabia? Realmente é boa em
convencer as pessoas, quase chorei agora — ironizou Maldonado, passando
por ela de cara feia.
Abriu a porta do veículo com brutalidade e, entrando, sentou-se com a
postura ereta e elegante no banco do carona.
— Obrigada, Blade, você é muito legal! — Debochou Jesse, morta de
felicidade em saber que iria dirigir um legítimo Impala.
A cada curva, o coração de Jesse pulava dentro do peito com medo de
fazer alguma burrice, matar os dois na próxima esquina ou qualquer coisa do
tipo. Blade, por sua vez, não falava nada, estava da mesma forma de quando
entrou no carro: braços cruzados e emburrado. Mas também não opinava em
nada, simplesmente ficava em silêncio, olhando sempre para frente com uma
expressão inelegível. Pelo canto dos olhos Jesse viu quando o bandido achou
a lua no céu que estava cheia e brilhante. Ele conseguia ser ainda mais bonito
com a luz dela refletindo em seu rosto, a forma do pecado em carne e osso.
— Você conseguia mesmo me ouvir através da lua? — A voz grossa e
sexy dele ecoou dentro do carro.

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Jesse congelou, as mãos tremiam segurando o volante. Blade não


percebeu o quanto a sua pergunta havia deixado a jovem nervosa, estava
entretido demais com a cabeça virada para o lado de fora da janela, inclinada
um pouco para cima, namorando a beleza que era o céu à noite.
— Então você lembra da noite em que ficou doente e que dormimos
juntos? Tive tanto medo que morresse naquele dia — comentou ela,
pensativa.
— De cada palavra e detalhe. —Virou o rosto para olhar para a Jesse
bem no fundo dos olhos.
— Eu também. — Jesse corou ao lembrar que dormiram colados um
ao outro, seminus, como um casal apaixonado depois de passarem a noite
toda fazendo amor.
— Obrigado — exclamou Blade, deixando-a pasma. Ele não
costumava ser gentil assim com ela, nem com ninguém.
— Por quê? — Jesse estava tentando fielmente manter a atenção na
estrada, mas com os olhos dele queimando sobre ela estava um pouco difícil
manter o controle do próprio corpo, imagina de um veículo inteiro.
— Por ter salvado a minha vida por três vezes. — A voz de Blade
saiu baixa, mas firme.
— Três? — Jesse lembrava apenas de duas, da primeira quando quase
matou o parceiro atirando na mão dele, que estava com a arma apontada para
Blade, e a segunda na noite quando ficou doente.
— Sim! A terceira foi quando apareceu na minha vida, estava morto
antes de você chegar — proferiu Blade, sincero. Com os olhos azuis
brilhando como duas safiras valiosas à luz da lua, fascinantes. — Jesse Carter
já estava completamente apaixonada.
— Na verdade foi você quem salvou a minha vida, Blade, acreditou
em mim mesmo sabendo que sou um fracasso em tudo o que faço.
Foi preciso a jovem piscar várias vezes para conter o pranto, era bom
saber que agora não estava mais sozinha no mundo. Era como se um
completasse o outro na medida certa. No entanto, como o relacionamento de
um bandido cruel com uma policial poderia dar certo? Era como querer juntar
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um demônio com um anjo, algo praticamente impossível.


— Mas em relação a sua pergunta é, sim, falava com você através da
lua. Era como o vento, não podia te ver, mas podia te sentir. — A voz de
Jesse saiu sensível, com um leve vestígio de choro.
— É bom saber que não estava louco, o meu anjo de fato sempre
existiu. — Ela podia sentir o coração apaixonado derretendo dentro do peito.
Blade Maldonado era assim mesmo, irresistível.
— Gosto quando me chama assim, anjo. — Ela corou um pouco. Mas
o suficiente para que Blade notasse o seu constrangimento, nada passava
despercebido aos olhos dele.
— O seu cheiro ainda está no meu tapete até hoje, toda vez que vou
para o meu esconderijo aquele é o único lugar onde consigo dormir, em
frente à lareira, mas o calor dela não é nada comparado ao do seu corpo —
revelou sem coragem de olhar para ela.
Passaram o resto do caminho sem trocar nenhuma palavra, o silêncio
dizia tudo. A poucos quilômetros adiante chegaram ao tal local onde Jesse
queria que ele conhecesse, na verdade o único lugar onde sentia-se realmente
em casa, amada.
— Que lugar é esse? — perguntou o bandido, um tanto curioso.
O Impala estacionou em frente a uma antiga casa de madeira grande e
antiga, mas conservada, pintada de branco encardido puxando para um tom
de bege barato. Em volta desta havia um jardim bem cuidado com diversos
brinquedos feitos de madeira, como chiador, balanço, roda-roda entre outros.
— Aqui é onde sempre venho quando quero me esconder do mundo
ou quando sou magoada por algum idiota. Você não é o único aqui que tem
um esconderijo, Tigrão — provocou ela com sucesso.
— Pare de me chamar assim — resmungou com uma expressão azeda
no rosto, parecendo uma criança mimada fazendo pirraça.
— Não parece se importar quando a Sara te chama de Tigrão, não é
mesmo? Ah! Esqueci, vocês têm uma ligação forte que vem de muitos anos.
— Blade odiava quando Jesse era irônica com ele, realmente esse tipo de
coisa não combinava com ela.
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—Temos mesmo! E isso não é da sua conta, é assunto meu e da Sara.


Jesse olhou para ele o encarando por alguns segundos. Desviando o
olhar logo após, magoada por se maltratada por ele pela milésima vez, Blade
não sabia conversar civilizadamente com ninguém, perdia a paciência
facilmente, na verdade, nunca a teve.
— Talvez não tenha sido uma boa ideia tê-lo trazido aqui, pode ir
embora se quiser. É evidente que nem queria vir, eu que fiquei insistindo.
Pode seguir o seu caminho, Blade, boa noite! — Ela saiu do carro batendo a
porta, andando rápido com olhos lacrimejando, mas não chorou. Nem mesmo
quando ouviu o motor do carro acelerando, Blade estava indo embora, talvez
para sempre.
— Engole o choro, Jesse, eles não merecem te ver assim.
Jesse conseguiu se conter, Blade literalmente era capaz de levá-la ao
céu e ao inferno na velocidade da luz. Respirou fundo diante da velha porta
de madeira e segurou na maçaneta que estava com um lado quebrado,
lembraria mais tarde de comprar uma nova. Conforme foi abrindo o aroma de
pipoca com manteiga adentrou suas narinas e o calor do lugar que mais
amava no mundo abrandou as suas dores, como o sol aparecendo após um dia
inteiro chuvoso. Entrou fazendo o mínimo de barulho possível, parecendo
estar em um campo minado.
— Surpresa!— gritou Jesse animada, assim que chegou na sala. Não
tinha mais vontade de chorar, era incrível como aquele lugar tinha a
capacidade de curar qualquer tipo de dor seja qual fosse o tamanho dela. Por
isso queria trazer Blade ali, mas era ignorante demais para deixar que alguém
fizesse algo de bom para ele.
— Tia Jesse! — As crianças do Lar das Freiras para Anjos que
nasceram com o vírus HIV gritaram em uníssono, eram completamente
apaixonadas pela investigadora.
No atual momento, o número de abrigados no lugar era de vinte
crianças, todas muito bem cuidadas com muito amor e carinho pelos
voluntários do lugar. Jesse se orgulhava muito de ser uma das responsáveis
por ajudar manter o local aberto, todo mês entregava pessoalmente a metade
do seu salário e, se pudesse, doaria .

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—Boa noite, meus amores! — Beijou o rosto de um por um, com


carinho.
Era sábado à noite, dia de ficarem acordados até mais tarde, não
muito, para a sessão de histórias da Irmã Florence, diretora do abrigo.
Comiam pipoca e brincavam a vontade.
— Que bom que deu para você vir, querida, por um minuto não
pegaria o começo da história. — A irmã Florence chegou na sala segurando a
pequena Alice de apenas dez meses no colo e um sorriso enorme no rosto.
— Pensei que não daria para vir, irmã, mas aqui estou.
Jesse abraçou a freira, depositando um beijo no rosto de Alice que
vivia com a cara fechada, não aceitava ir no colo de ninguém além da irmã
Florence e não largava a sua chupeta para nada, só para mamar. A freira,
sensitiva como era, percebeu que a investigadora não estava bem. Yma
pessoa quando gosta de verdade da outra conhece quando está triste.
— E o seu amigo quem é? — perguntou a Freira olhando para alguém
atrás de Jesse, a jovem ficou petrificada.
Depois de retomar a razão olhou para trás e lá estava Blade, lindo
como sempre com as mãos nos bolsos da calça jeans, totalmente sem jeito.
Mas a cara azeda continuava a mesma, porém o que importava era que ele
não tinha ido embora.
— Ele é o seu namorado, tia? — perguntou Thomas, um garotinho
ruivo, de sete anos, cheio de sardinhas alaranjadas.
O garoto usava pijama branco com desenhos de carrinhos, nos pés,
meias com orelhas de gatinhos. A mãe dele era uma garota de dezoitos anos
que morreu pouco depois de dar-lhe à luz. Ninguém sabia quem era o pai, por
ter nascido com o vírus da AIDS ninguém da família quis ficar com o
pobrezinho, então o entregaram ainda bebê para a irmã Florence.
— Pare de ser intrometido, Thomas, isso é feio. Deixe a nossa visita
em paz e sente-se no seu lugar, meu amor, daqui a pouco começarei a contar
a história de hoje. — A irmã salvou Jesse, não tinha resposta para a pergunta
do garoto.
— Desculpe por ter trazido alguém sem avisar, irmã, mas queria que
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ele conhecesse o lugar que mais amo no mundo. Que me faz sentir em casa,
protegida.
Blade olhou a sua volta vendo um monte de crianças bagunceiras
falando todas ao mesmo tempo, uma casa bagunçada com brinquedos
espalhados até no teto. Fora que parecia um arco-íris de tantas cores que
tinha. Um exagero, pensou ele, não conseguindo ouvir os próprios
pensamentos no meio daquela bagunça toda. O que ela vê de tão incrível
nesse lugar? Não conheço o inferno, mas deve ser melhor do que esse lugar
cheio de monstrinhos falando sem parar.
Blade estava horrorizado! Se não queria ter filho antes, agora muito
menos, nem em um milhão de anos. Só não saía correndo sem olhar para trás
por causa da Jesse. Ainda mais quando vi uma foto de Jesus pendurada na
parede, olhando para ele como se o estivesse julgando por estar ousando pisar
em solo sagrado. Para falar a verdade, Blade não entendia qual a intenção
dela em trazê-lo ali, era evidente que iria odiar logo de cara.
— Seja bem-vindo a nossa casa, meu filho, aqui todos são bem-
vindos. Assim como Deus que apenas ama seus filhos independentemente de
qualquer coisa, não julgamos ninguém.
A irmã Florence pousou a mão no ombro dele, olhando para ele como
se pudesse ler os seus pensamentos. Era uma senhora de mais de oitenta anos,
a pele enrugada cheia de marcas mostrando a experiência e a sabedoria que
tinha, — Obrigado — respondeu apenas, desconfiado, fitando aquela mulher
trajando o seu costumeiro hábito preto tapando dos pés até o último fio de
cabelo, a gola era branca e sobre ela a corrente que pendurava um crucifixo.
— Eu que agradeço, querido! Não temos muitas visitas aqui,
denominam as nossas crianças como demônios só porque nasceram com o
vírus HIV, dizem que tem o “sangue ruim”.
Naquele momento, Blade levou um tiro, bem no meio do peito,
acertando o coração em cheio, a dor era a mesma. Consequentemente, voltou
a olhar a sua volta, mas com outros olhos. Então ele se viu naquelas crianças,
só que diferente dele elas tinham umas as outras e alguém que as amava. Ele
não teve nada disso, teve que se virar sozinho. Eram felizes mesmo tendo
vários motivos para serem tristes, e estranhamente sorriam o tempo todo. A
casa não parecia mais uma bagunça e, sim, um esconderijo bem equipado
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para aqueles não aceitos pelo mundo. Agora entendi por que ela me trouxe
aqui, para mostrar que existiam outros iguais a mim. Mas que sorriam
apesar de tudo, apesar da dor.
— Agora se acomodem onde acharem mais confortável, porque vou
contar uma bela história que cabe perfeitamente no dia de hoje. Poderia
segurá-la para mim, querido? Acho que ela gostou de você. —A irmã
Florence praticamente jogou a criança no colo de Blade, que a segurou no ar
com nojo que encostasse nele.
A pequena Alice parou de chupar a chupeta cor de rosa encarando o
bandido. Pelo jeito, o charme de Blade funcionava com o sexo oposto
independentemente da idade. Foi então que ela sorriu para ele, esticando a
mãozinha para tocar em seu rosto.
— Acho que ela gostou de você, não gosta de nenhum colo além do
da irmã Florence — comentou Jesse sorrindo, Blade sentiu um alívio imenso
ao saber que ela não estava mais chateada por ele ter sido um completo idiota
pela milésima vez. — Segure ela direito porque pode deixá-la cair no chão,
não queremos isso, não é Alice? — Fez carinho no rosto da pequena,
ajeitando-a do jeito corretono colo de Maldonado.
— Pegue-a você, não gosto de crianças! — Tentou entregar Alice
para Jesse, mas a pequena envolveu os bracinhos gorduchos em volta do
pescoço dele, deitando a cabeça no seu ombro. Chupando a chupeta, piscando
lentamente, sonolenta. Sem muita alternativa, sentou-se com ela agarrada
nele ao lado da investigadora no sofá verde-escuro para ouvir a freira contar a
tal história.
— A história escolhida de hoje é a do “Bom Samaritano”, onde Deus
vem nos ensinar que a bondade de um coração muitas vezes está escondida
onde menos parece — explicou a irmã Florence em uma cadeira de balanço.
Todas as crianças sentadas no chão em silêncio estavam a ouvindo
com os olhinhos atentos. Menos uma que estava emburrada sentada no
segundo degrau da escada que dava para o segundo andar da casa. Era
Jeniffer, a mais velha entre os abrigados. Ficava sempre sozinha pelos cantos,
com uma touca preta cobrindo a metade do rosto e fones nos ouvido com a
música gótica no último volume. As unhas pintadas de preto, combinando
com o restante de suas vestes que eram no mesmo tom. Parecia até filha do
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Estevão, pensou Blade. Apesar de tanta personalidade para uma garota de


treze anos, ela tinha um olhar inseguro, triste, diria ele. Jesse agradeceu a
irmã por ter escolhido aquela linda história para contar, realmente cabia feito
uma luva para a ocasião.
— Obrigada por não ter ido embora, não sabe o quanto é importante
para mim que esteja aqui.
Jesse deitou a cabeça no ombro livre de Blade, já que o outro estava
mais que ocupado com a pequena Alice, que ainda mantinha os bracinhos em
volta do pescoço dele, segurando com força como se tivesse medo de que
alguém a tirasse dali.
— Quando quero uma coisa, não sou de desistir fácil.
Blade entrelaçou os dedos dele em meio aos da jovem, que para ela
soou como um “Estou feliz também de estar aqui com você. ”
Era uma vez um certo homem que foi assaltado, o espancaram até
cair no chão. E enquanto ele sangrava passou um cidadão. Era um sacerdote
e fingiu que não o viu, pois estava com pressa, tinha prioridades, mas a
verdade é que lhe faltava amor. No mesmo lugar vai passando um levita,
quem sabe uma canção para Deus. Ele cantava dizendo: “Eu Te amo acima
de tudo!”, mas não amou o próximo como se deve amar como a si mesmo.
Fez a mesma coisa que o sacerdote e prosseguiu de mãos vazias e o homem
machucado continuou caído no chão. No mesmo lugar vem vindo um bom
samaritano, não sei o seu nome ou mesmo a sua religião. Não sei como ele
cantava, se orava bem, mas sei que suas mãos estavam ocupadas. Mas
dentro dele havia muita compaixão e quebrando protocolos se aproximou do
homem ferido, derramou azeite em suas feridas, estancou o sangue e o
levantou. O bom samaritano sem nenhuma obrigação cuidou daquele homem
fazendo da sua vida a essência dele. Ele não olhou para sua aparência, nem
para o que aquele pobre homem tinha para oferecer, apenas o ajudou. Assim
é Deus: não julga as pessoas pela aparência ou pelo que dizem ser. Mas vê a
sua atitude quando faz as coisas para não ganhar nada em troca ou quando
as faz sem ninguém estar olhando.
No final da história, Blade apertava tanto a mão de Jesse que parecia
que ia esmagar os dedos dela a qualquer momento. Talvez ainda houvesse
alguma chance para um pagão como ele.
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A investigadora não era a única ali a fazer bom uso do seu dinheiro,
os parceiros de Maldonado não faziam ideia de onde ele enfiava tanto
dinheiro se não tinha conta bancária em lugar nenhum e nem tinha muitas
propriedades. O que ninguém sabia era que Blade era como Robin Hood,
roubava dos ricos para dar aos pobres. Mas o que se dá com uma mão, a outra
não precisa saber, guardava o segredo só para ele.
Logo o bandido deu pressa de ir embora, também já tinha passado da
hora das crianças irem para a cama.
— Onde coloco essa coisa? — perguntou Blade, com total desdém,
apontando para a Alice que dormia serenamente em seu colo, como uma
bonequinha de porcelana.
— No segundo andar, na última porta no final do corredor, pode
deitá-la no berço — disse a freira com vontade de rir.
Às vezes o mau humor de Blade chegava a ser engraçado para quem
não o conhecia de verdade. Ele subiu as escadas resmungando, mas colocou o
bebê no berço com o maior cuidado do mundo e ainda lhe afagou os cabelos
louros. Mesmo não gostando dela, tinha que admitir que as bochechas gordas
e rosadas era uma graça. Na volta, passando pelo corredor topou com
Jeniffer, o projeto de filha do Estevão, de treze anos, com a touca na cabeça,
quase escondendo os olhos. Os fones no ouvido com o som tão alto que o
bandido conseguia ouvir a música de longe. A cara era mais azeda do que a
dele.
— Não precisa se esconder do mundo, muitos não tiveram a mesma
sorte que você tem de morar em uma casa com pessoas que te amam. Não
deixe ninguém tirar os melhores momentos da sua vida de você, tome uma
atitude antes que seja tarde — exclamou Blade assim que passou pela garota,
sem virar para olhar para trás.
Maldonado ouviu o barulho da touca indo ao chão e os fones sendo
arremessados para longe. Enfim, Jeniffer resolveu se libertar para o mundo.
Blade e Jesse se despediram da irmã Florence e foram embora, levando com
eles a paz daquele lugar.
— Vou te levar para a casa — proferiu Blade, entrando no carro do
lado do motorista.

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— Isso é seu, é melhor eu entregar antes que eu esqueça. — Pegou o


gravador na bolsa e entregou para ele já dentro do carro, sem encará-lo. —
Obrigado por me levar para casa, sei que fica bem longe da sua rota normal.
— Ajeitou-se no banco da carona, puxando o vestido curto para baixo.
— Não vou te levar para a sua casa. — Girou a chave fazendo o
motor do Impala roncar e lançou os olhos para as pernas dela com mais da
metade descoberta. — Vamos para a minha — concluiu com a voz grave e
firme.
— O pessoal estará nos esperando lá? — perguntou desconfiada,
nervosa com a ideia de ter que ficar sozinha com ele.
— Não estou falando dessa casa, mas, sim, do nosso esconderijo nas
montanhas.
Como assim nosso? Se não tivesse ouvido em alto e bom tom, Jesse
teria pedido para que ele repetisse novamente, só para ter certeza que não
estava ficando louca. Quando chegaram no esconderijo “deles”, o coração
dela parou quando Blade trancou a porta, pegou na mão dela em silêncio e a
conduziu até o seu quarto, o principal da casa.
— Boa noite, investigadora! — ele disse parado bem à frente dela
assim que chegaram no quarto. — Se precisar de mim estarei dormindo no
tapete em frente à lareira, sentindo o seu cheiro. —Esfregou a ponta do nariz
na curva do pescoço de Jesse, fazendo contornos delicados com a ponta do
polegar nas costas dela. Ela quase gritou pedindo que não a deixasse dormir
sozinha.
— Por que não pode dormir aqui comigo? A sua cama é grande, cabe
duas pessoas perfeitamente nela — argumentou alisando o rosto dele, que
fechou os olhos para desfrutar daquela sensação maravilhosa.
— Não sei se conseguiria só dormir ao seu lado, é mais seguro para
você que eu fique na sala. Só te trouxe para cá porque te quero perto de mim
essa noite, mesmo que não seja em meus braços. — Os olhos dele
escureceram perigosamente.
— Não estou falando literalmente em dormir Blade. gora você que
está se fazendo de bobo — resmungou ela, nervosa.

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— Não acho certo que isso aconteça hoje, seria como se quisesse me
dar algo em troca por ter perdoado você. Além do mais, devíamos ao menos
sair algumas vezes ou ver alguns filmes juntos sentados no sofá. Odeio esse
tipo de programa, mas por você eu posso suportar. Quero fazer disso o mais
normal possível, que seja bom para você. — Tentou pegar a mão dela, mas
ela não deixou recuado com um passo para trás.
— Essa escolha não é sua, Blade. — Afastou um passo para olhar
melhor para ele. — É minha e espero que aceite a minha decisão —
completou Jesse, levando as mãos para trás do corpo à procura do fecho do
vestido.

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CAPÍTULO 22

— Precisa de ajuda? — perguntou Blade vendo a pobre moça quase


arrancando o fecho do vestido tentando abri-lo. Já que aquela era a decisão
final dela, iria fazer valer a pena.
— Sim, obrigada! — respondeu com a cabeça baixa, morta de
vergonha.
— Apenas relaxe, prometo ser gentil. — Blade aproximou a boca do
ouvido da investigadora, com a respiração quente fazendo cócegas no
pescoço dela.
Ele desceu o zíper do vestido, depositando leves beijos no pescoço de
Jesse. A peça foi ao chão em uma fração de segundos, desnudando o corpo
frágil. Ela usava um conjunto íntimo branco de renda com combinações de
três peças. A que mais lhe chamou a atenção foi a cinta-liga na qual a bainha
encontrava o topo da meia calça bem ao meio das coxas levemente torneadas.
Blade foi obrigado a recuar um passo para admirá-la melhor e com calma.
Perdeu o fôlego. Anjo era pouco para denominá-la naquele momento.
— Você sempre me surpreendendo, senhorita Carter. — Blade fez
questão de chamá-la pelo segundo nome, para toda e qualquer insegurança
em relação a culpa pelo pai fosse embora.
Correu os olhos deliberadamente pelo seu corpo de cima a baixo para
que ela soubesse o quanto a desejava.
— Não gostou? Eu desconfiei que não iria gostar dessa cor, se eu
soubesse que estaria com você teria escolhido algo melhor. — Ela corou,
cobrindo o corpo com as mãos.
— Está perfeita, branco é a cor dos anjos. — Acariciou alguns cachos
de Jesse, depois o rosto, diminuindo a distância entre os dois novamente, para
sentir o aroma natural de flores frescas que vinha dela.
— O seu coração bate forte para quem diz que não tem um, posso
ouvir daqui. — Correu sensualmente as pequenas mãos pelo seu peito forte.

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— Ele só se manifesta quando estou com você — disse com a voz


ardente, carregada de desejo.
Ela sorriu tímida, sem acreditar que aquilo realmente estava
acontecendo. Valera a pena esperar por tanto tempo, vinte e seis longos anos.
Na verdade, ela não havia beijado ninguém, não por falta de pretendente, nem
que eles não existissem, mas nunca tinha chegado, de fato, a se interessar por
alguém para chegar em tal ponto.
— Não sei o que fazer, Blade. Dei o meu primeiro beijo um dia
desses. Eu te quero muito, você é bem mais velho do que eu e com certeza
tem um vasto conhecimento em sexo. Estar comigo vai ser muito sem graça
para você. — Ela desviou o olhar, constrangida. Não conseguia manter
contado visual com ninguém por muito tempo, sempre fora extremamente
tímida.
— Também não sei o que fazer, nunca estive com uma virgem antes.
Não vou mentir para você, gosto de sexo bruto, selvagem e avassalador. —
Apertou a cintura dela, puxando-a para mais perto dele, desafiando a lei da
física tornando dois corpos em um só.
— Tenho medo de me descontrolar e acabar te machucando, as
mulheres que costumo sair gostam de brutalidade. Mas você é pura demais
para algo tão sujo. Na verdade, isso que estamos fazendo não é certo,
pequena. — Virou de costas para ela. Pela primeira vez na vida, ele estava
tentando fazer a coisa certa.
— Por que não? — perguntou Jesse, abraçando as costas dele
deitando a cabeça sobre esta com cuidado. Não sabia qual seria a reação dele.
— Nessa história eu sou o Lobo Mau, Jesse. Lobos são caçadores, não
mandam cartas, não presenteiam com flores, muito menos juram amores.
Deveria dividir esse momento tão especial com alguém digno e que te mereça
de verdade, o barman talvez. — Ela sentiu os músculos de Blade ficarem
tensos, os punhos fechados com força. Era evidente que não estava sendo
fácil para ele dizer aquelas coisas, mas era preciso.
— É isso que você quer? Que eu me entregue a outro homem? Pensei
que me desejasse! — Jesse o soltou imediatamente, insegura.
— Claro que não, porra! Eu quero você, como nunca quis nada na
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vida. Mas acontece que ele é o mocinho dessa história, eu sou apenas o vilão,
o mais cruel de todos. — Blade virou-se de frente para ela, encarando-a com
os olhos carregados como as nuvens no dia no dilúvio.
— Então pare de me jogar para os braços de outro, o meu coração dói
quando fala esse tipo de coisa. Se não me deseja é só falar, não precisa ficar
inventando desculpas para sair fora. — Abaixou os olhos para os próprios
pés, remexendo o bendito anel de um lado para o outro no dedo em
movimentos circulares. Estava segurando o choro.
— Se eu me afastar não é por falta sentimento, é por excesso dele. —
Blade ergueu o rosto dela com carinho e depositou um beijo no rosto negro
levemente corado, tímido.
— Bom, mudando de assunto. Se você é o Lobo Mau nessa história,
quem sou eu?
Se a intenção dela era tirar o clima pesado no ar, tinha conseguido
com louvor. A expressão séria do rosto de Blade fora embora, deixando uma
mais leve no lugar. Jesse fizera com ele a mesma brincadeira que o bandido
fez quando se conheceram. No dia quase morreu de constrangimento.
— A Chapeuzinho Vermelho — ele respondeu com os olhos escuros
faiscando de desejo e luxúria.
— E o que o Lobo Mau faz com a Chapeuzinho Vermelho? — A voz
de Jesse saiu provocativa. Um anjo brincando de ser demônio, pensou ele,
gostando da ideia.
— Ele a come!!! — Sussurrou baixinho ao pé do ouvido dela,
sedutor. — Lentamente — concluiu a fazendo gemer.
— Não pense no amanhã. Blade, vamos viver apenas o agora. —
Pegou a mão dele e colocou sobre o seu coração, para que soubesse que
pertencia a ele e a ninguém mais.
— Realmente acho que deveria trabalhar com vendas, é ótima em
convencer as pessoas — brincou Blade sorrindo. Sim! Ele estava sorrindo
para a mulher seminua à sua frente, a única capaz de fazê-lo realizar tal
proeza.
— Eu amo o seu sorriso, assim como tudo que há em você.
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Jesse tomou a iniciativa de beijá-lo com paixão, envolvendo os braços


em volta do pescoço dele, tendo que ficar na ponta dos pés para poder tocar-
lhe os lábios. Blade interrompeu o beijo, a jovem quase enlouqueceu pela
falta de contato físico.
— Não importa quanto tempo eu viva ou onde vá, vou me lembrar
dessa noite a cada segundo da minha existência.
Blade a girou para que ficasse de costas para ele, abraçando-a pela
cintura, colando o seu corpo ao dela. Provocando-a com leves mordidas na
orelha, enquanto abria o fecho do sutiã com calma. Após libertar os seios,
tocou nos mamilos com os polegares em movimentos circulares. Dando
vários beijos no ombro, dela desceu pelas costas deixando um rastro de
pequenos chupões. A respiração de Jesse ficava cada vez mais pesada.
— Posso? — Ele pediu autorização para terminar de desnudá-la.
Jesse não entendeu o pedido, pois ele já havia tirado a parte de cima.
Mas acontece que agora iria tocar no local mais sensível de uma mulher, não
achava certo fazê-lo sem perguntar se realmente podia. Ela assentiu e Blade
tirou devagar a sua meia calça, soltando as presilhas e enrolando-a lentamente
pelas suas pernas, detendo-se para depositar beijos nas partes que iam ficando
desnudas.
— Você tem belas pernas, senhorita Carter.
Jesse nem percebeu quando Blade se pôs de pé atrás dela novamente,
mordendo a curva do seu pescoço, segurando-a firme pela cintura e
esfregando nela o membro duro dentro da calça. Ele migrou as mãos para
dentro da calcinha, livrando-se dela como um truque de mágica. Ela ouviu
passos em direção à estante e segundos depois, os acordes da guitarra da
música “Always” do Bon Jovi tomaram conta do quarto.
— Você é maravilhosa, uma obra de arte — sussurrou baixinho
alisando a barriga dela com as pontas dos dedos, mantendo-se atrás dela.
Jesse estava começando a ficar nervosa com o fato de não poder vê-
lo, queria ver a expressão dele enquanto a tocava.
— Por favor, Blade, quero olhar para você quando estiver me tocando
— suplicou. — Também queria poder te tocar, sentir o calor do seu corpo…

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— A voz quase falhou, ficando constrangida depois que falou.


— Ainda não, anjo, tenha calma e me deixe admirá-la por mais alguns
instantes. Deite-se na cama, que já estou indo lhe fazer companhia. — Jesse
se encolheu ao ouvir a palavra cama, então ele a puxou para mais perto
beijando seus ombros até que relaxassem e se sentisse segura.
— Por que escolheu essa música? — Estava curiosa com esse detalhe.
Mesmo sabendo que ele não gostava de perguntas, arriscou fazer aquela.
— Porque ela me fez companhia durante todos os dias que esteve
sumida, não é justo que agora que está em meus braços a deixe de fora desse
momento, o nosso momento. — Ouvindo aquilo, Jesse perdeu o foco de tudo,
nem soube como teve pernas para caminhar até a cama deitando-se de barriga
para cima.
O bandido teve que se concentrar, a imagem da jovem nua em sua
cama o estava convidando a voar sobre ela e a possuir de todas as formas
possíveis. No entanto, precisava se controlar para fazer tudo certo e dar a ela
a primeira vez que toda mulher merece ter. Sem pressa começou a tirar a
roupa, sem tirar os olhos dela, que o encarava timidamente.

Always - Sempre (Bon Jovi)

Este Romeu está sangrando


Mas você não pode ver seu sangue
Não é nada além de sentimentos
Que este velho sujeito abandonou

Tem chovido desde que você me deixou


Agora estou me afogando na enchente
Sabe, sempre fui um lutador
Mas sem você, eu desisto.

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Saiba que estarei te esperando até as estrelas não brilharem, Até os céus explodirem e as palavras não
fazerem mais sentido Sei que quando eu morrer, você estará em minha mente E eu te amo, sempre
amei.

O que eu não daria para passar meus dedos pelos seus cabelos Para tocar seus lábios, abraçar-te
Quando você disser suas preces, tente entender
Cometi erros, sou apenas um homem

Eu vou te amar, querida.


E estarei aqui, para sempre e mais um dia… Sempre.

Se você me dissesse para chorar por você, eu poderia Se você me dissesse para morrer por você, eu
tentaria Olhe para o meu rosto, não há preço que eu não pague Para dizer estas palavras a você.

Eu vou te amar, querida


Sempre
E estarei lá, para sempre e mais um dia
Sempre….

Por fim Jesse nem estava mais prestando atenção na música, a


imagem de Blade caminhando nu em direção a ela lhe tirou todo e qualquer
tipo de sanidade. Dormindo era grande, mais acordado era um monstro,
pensou Jesse se perguntando se era normal ser daquele tamanho. E
principalmente se aquilo tudo caberia dentro dela, parecia algo impossível.
Ele era lindo demais, uma beleza estonteante.
Blade subiu sobre a cama, engatinhando como um tigre prestes a
atacar a presa, o peito dela subia e descia rapidamente, nervosa. O bandido
subiu beijando os pés da jovem, depois pouco abaixo do joelho trilhando um
caminho entre as pernas dela. Quando chegou a vez da parte de dentro da
coxa Jesse ficou tensa segurando o lençol com força para o que supôs estar
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por vir. Mas, para sua surpresa, Blade pulou a parte íntima da jovem beijando
o osso do quadril.
Ele queria prová-la de todas as formas, sim, só que não queria deixá-
la constrangida logo em sua primeira vez. Passou a língua na parte debaixo
do seio esquerdo o sugando de leve. Jesse não conseguia se conter diante de
tantas sensações novas, agarrou os cabelos dele, puxando-o para ela
totalmente descontrolada enquanto era sugada sem pudor.
— Calma, pequena. — Ele sorriu olhando para Jesse sedutoramente.
— Desculpe — pediu ela, corada.
Isso só o excitou ainda mais, ao nível extremo. Blade começou a
beijar suavemente seu pescoço e a região da clavícula, ao mesmo tempo
massageando os seios que estavam com os mamilos duros, implorando que
fossem tocados por ele. Queria que ela se sentisse segura e desejada.
— Beije-me — ela pediu, precisava ter certeza de que aquilo estava
realmente acontecendo.
— Esse será o seu último beijo como uma virgem, antes de se tornar
uma mulher nos meus braços — sussurrou, beijando o ombro dela.
Ele se inclinou, colocando-se sobre Jesse, uma perna entre as suas e a
outra do lado seu corpo, dividindo o peso do monte de músculos entre os
cotovelos apoiados na cama. Sem tirar os olhos dela nem por um segundo,
seduzindo-a em silêncio.
— Fico feliz que seja com você, não imagino sendo com qualquer
outro. — Jesse elevou a cabeça um pouco para esfregar a ponta do nariz dela
no dele, com carinho.
— Preciso que converse comigo, dizer se está gostando ou qualquer
tipo de desconforto. Sou um pouco grande e você é muito pequena e frágil,
uma combinação perigosa ainda mais para um momento como este. Não
quero te machucar, jamais me perdoaria se isso acontecesse. Mas preciso que
me ajude a ajudar você, mesmo sendo gentil, acredito que no começo ainda
deva sentir um pouco de dor — explicou ele, sendo maduro.
— Tenho um pouco de vergonha de falar sobre esse tipo de coisa, não
tem problema se doer um pouco, eu aguento. — Desviou o olhar, muito
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envergonhada.
— De forma nenhuma! Não é mais uma adolescente, porra, essa não é
uma boa hora para agir como uma — disse com a voz um pouco alterada,
mas não com raiva.
— Desculpe — pediu com vontade de chorar, assustada.
Ele sentiu um aperto no peito ao ver a angústia nos olhos dela, por um
momento esquecera o quanto era sensível.
— Eu te desejo tanto, pequena, consegue entender isso? — perguntou
com a voz baixa, praticamente um sussurro, acariciando os cachos rebeldes
espalhado de forma aleatória e selvagem pelo travesseiro. Ela sorriu, feliz,
diante de tais palavras. — Mas para ser bom para mim tem que ser bom para
você primeiro. Quero te dar todo prazer do mundo — completou olhando no
fundo dos olhos dela, demostrando que estava falando muito sério.
— Eu prometo dizer se algum momento me deixar desconfortável,
porque só vai ser bom para mim se for para você também. — Jesse fez
carinho no rosto dele, sorrindo.
O semblante de Blade se iluminou como o pôr do sol em um dia de
verão, o céu representado pelos olhos incrivelmente azuis naquele momento.
— Obrigado investigadora, você é muito legal — brincou ele,
aliviado.
Levou a boca até os seios dela, segurando um com a mão e sugando o
outro com vontade. Queria fazer aquilo desde que os vira debaixo da camisa
branca dele molhada, que estava em Jesse, emprestada na primeira vez que
esteve em seu esconderijo. O seios eram perfeitos do jeito que imaginou por
diversas vezes. Estava a torturando com lambidas lentas, mordendo os
mamilos que ficavam cada vez mais rígidos.
— Blade… — Ela gemeu, jogando a cabeça para trás quando uma
mão atrevida de Blade tocou na sua intimidade, explorando o território novo.
Ele a calou com um beijo molhado, sedento, o tal último como uma virgem,
por isso fez questão de caprichar. Ainda a beijando ergueu o braço para pegar
uma camisinha na gaveta do criado-mudo ao lado da cama e a colocou o mais
rápido que pôde, em tempo recorde.

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— Está pronta? — Ela assentiu, o bandido a agarrou firme pelos


quadris e pressionou o corpo conta o da jovem.
Encaixou o membro na entrada dela, que parecia ter feito como molde
para recebê-lo, um encaixe perfeito. Quase perdeu o controle quando
percebeu o quanto ela estava molhada esperando para ser preenchida e
saciada.
— Eu sempre estarei pronta para você! — Jesse sorriu para ele, que
sorriu para ela de volta.
— Confie em mim, amor! — Jesse estava tendo alucinações ou ele
havia mesmo a chamado de amor? Não teve muito tempo para pensar, pois
ele a penetrou, sem avisar. Mas só um pouco.
Ela fechou os olhos com força sentindo uma ardência em meio às
pernas, era dolorosamente gostosa a sensação. Blade estava se segurando
para não entrar rasgando tudo, se fosse com outra mulher já estaria mole nas
mãos dele há muito tempo. Mas sabia que qualquer movimento brusco
poderia machucá-la, então permaneceu imóvel até que ela se acostumasse um
pouco com o tamanho dele, dando uma atenção especial para os seios,
lambendo e chupando-os, na intenção de distraí-la um pouco da dor. Tinha
ciência que seu membro tinha um tamanho avantajado e o fato dela ser muito
apertada não estava ajudando muito, seria doloroso para ela de um jeito ou de
outro.
— Essa parte não vai ser muito confortável, tente não ficar nervosa.
— Como Jesse apenas assentiu sem abrir os olhos, ele levou a boca bem
próximo ao ouvido dela.
— Por favor, abra os olhos, amor!
Ela o abriu na mesma na hora, pois ele havia lhe chamado de amor
pela segunda vez naquele dia. Blade a encarava fixamente sem piscar. Com
as duas safiras azuis fixas nela, brilhando como um farol em alto mar.
— Não sou o melhor homem do mundo, mas prometo te dar o melhor
de mim — completou, sério, na intenção de passar o máximo de confiança
possível e tranquilizá-la.
Deu a primeira investida rompendo o hímen, sentindo as paredes

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vaginais de Jesse se contraírem em protesto àquele corpo estranho pedindo


passagem. Para Blade era a melhor sensação do mundo. Ela arregalou os
olhos em uma expressão de dor, o que excitou ainda mais o bandido.
Involuntariamente a investigadora soltou um leve gemido, foi nesse momento
que ele percebeu que apesar da dor estava sendo prazeroso para ela também.
Jesse sorriu ao sentir o homem que amava por completo dentro dela,
de repente uma onda de calor irradiou por todo o seu corpo quando ele
começou a entrar e sair em uma lentidão enlouquecedora, uma deliciosa
tortura. A jovem estava amando o cuidado que o bandido estava tendo em
todos os momentos, se esforçando para ir com calma para não a machucar.
Contudo, queria mais dele, muito mais. Ser responsável por fazê-lo perder a
cabeça e amá-la loucamente, desabar sobre o seu corpo totalmente sem
forças. Pensando assim, decidiu mostrar que não era tão frágil assim, sabia
ousar às vezes. Em um só movimento ágil, inesperado para Blade, Jesse
estava sentada sobre ele, com uma perna de cada lado do seu corpo.
— O que está fazendo? — perguntou um bandido confuso, com o
cenho franzido prestes a fechar a cara. Odiava perder o controle da situação,
não estar no comando.
— Colocando o meu um por cento demônio em ação. — Ele sorriu,
surpreso e malicioso.
— Você não deixa de me surpreender, investigadora!
Blade não resistiu e levou as mãos aos seios dela que estavam
balançando, chamando por ele. Não satisfeito em apenas tocá-los levou a
boca primeiro um, depois o outro. Eram médios e redondos e cabiam
perfeitamente dentro das suas mãos, como os de uma adolescente na
puberdade. Ela, aliás, parecia uma: linda, pura e inocente, como um anjo de
verdade. Voltou a deitar as costas na cama para admirar a belaza dela, só
agora estava percebendo o quanto era linda. Os cachos rebeldes caindo sobre
o rosto, a pele negra levemente corada em um tom vermelho aveludado
escuro. Os lábios, que já eram naturalmente grossos, estavam mais
volumosos devido ao inchaço causado pelos beijos apaixonados
protagonizado pelos dois. Eles eram dois amantes descobrindo o amor.
Naquele momento, Jesse poderia pedir o que quisesse que ele daria. Ela o
tinha em suas mãos, de corpo e alma. De uma forma muito sexy o puxou pelo

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cordão do exército em seu pescoço e o encarou, olhando no fundo dos olhos


intensamente.
— Eu sou nova nisso, sabe? Então preciso que converse comigo, dizer
se está gostando ou se estou fazendo algo de errado. Se sentir desconfortável
pode falar, temos que trabalhar juntos para que isso dê certo, essa não é uma
boa hora para ficar tímido. — Blade assentiu, soltando uma gargalhada
gostosa.
— Sim, senhora — disse Blade, levantou a mão até a cabeça
prestando continência.
Ele parecia um bom soldado de guerra dando continência ao seu
superior. Sua dona inclinou o corpo para tocar seus lábios e ele a abraçou
forte por um motivo que nem ele sabia qual. Não costumava falar durante o
sexo, mas estava achando muito interessante todo aquele contato físico, os
olhares e acima de tudo o diálogo durante todo o ato.
— Ótimo! — exclamou Jesse, mandona o empurrando para trás com a
mão aberta em seu peito, tendo o deslumbre da imagem de uma parede de
músculos desenhada com belos gominhos bem definidos. Parecia o corpo de
um atleta olímpico, no auge de sua carreira.
Jesse ergueu o quadril, fazendo Blade prender a respiração quando ela
meio sem jeito segurou o seu membro encaixando-o na intimidade dela, e
sentou sobre ele, em um golpe só.
— Por mil demônios — femeu Maldonado, em êxtase.
Ela estava levando-o a um grau de loucura desconhecido pela ciência,
de um jeito fascinante. Era uma sensação tão forte que teve que fechar os
olhos para sobreviver ao impacto que causara nele. Parecia ter sido pego por
uma onda gigante.
— Olhe para mim! — ordenou Jesse, inclinando o corpo sobre Blade
aproximando o rosto ao dele.
Ela o encarava fixamente quando ele obedeceu, os olhos em duas
nuvens acinzentadas com manchas azuis dançando tango dentro delas.
— Quero que seja o primeiro e o último — declarou Jesse em um dos
seus raros momentos de segurança.
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— Não haverá nenhuma outra para mim, nem nessa vida ou qualquer
outra que possa existir — exclamou Blade, sem perder o contato visual.
Eram dois aprendizes na arte de amar e de serem amados. Ela nunca
tinha feito amor, ele, apenas sexo. Era como se um completasse o outro, a
outra metade da laranja. Blade tentou beijá-la, mas Jesse não deixou.
Começou a rebolar em cima dele, deixando-o totalmente louco. Notando a
falta de experiência da moça e um pouco de timidez da parte dela ao realizar
os movimentos, segurou firme em sua cintura impulsionando-a subir e
descer. Ele podia ouvir os gemidos dela ecoando por toda a casa de tão
excitada.
Blade limitou-se apenas em admirá-la, jogando a cabeça para trás,
apertando os próprios seios, prendendo o seu lábio carnudo inferior entre os
dentes. Ele sentou com ela no colo, roubando um beijo apaixonando e
aumentando o ritmo das investidas dentro dela, que tinha os braços em volta
do pescoço dele segurando firme, com desejo. Em determinado momento ele
afastou um pouco o rosto para olhar para ela, queria guardar aquela imagem
em câmera lenta em sua mente pelo resto de sua vida, trancando-a a sete
chaves dentro do coração. Era tanta beleza que as palavras lhe faltaram. Jesse
era uma mistura perfeita da inocência com o pecado. Os acordes da guitarra
roubaram a cena, o refrão da música que não sabiam dizer quantas vezes
repetiu, dizia tudo.

Saiba que estarei te esperando até as estrelas não brilharem, Até os


céus explodirem e as palavras não fazerem mais sentido Sei que quando eu
morrer, você estará em minha mente E eu te amo, sempre amei.

— Blade eu vou…
Percebendo que a respiração de Jesse estava cada vez mais ofegante o
esmagando dentro dela e que estava prestes a chegar ao fim, em um giro a
deitou de costas na cama tampando o corpo da jovem com o seu. Ele
equilibrou sobre o cotovelo, acariciando o rosto dela. Estocando cada vez
mais rápido, forte. Se tivessem vizinhos, com certeza ouviriam os gemidos da
jovem, eram altos e eróticos, o que o deixou ainda mais excitado, se é que
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isso fosse possível.


— Goze para mim, pequena, goze comigo! — A voz dele era grave,
exalando excitação.
Jesse lhe aranhou as costas, pousando as mãos sobre as nádegas dele
elevando o próprio quadril, disposta a atraí-lo mais para dentro dela.
Conforme ele aumentava as estocadas, ela o puxava mais para si, mostrando
o seu prazer.
— Eu te amo, Blade — declarou Jesse chegando ao clímax., fozando
de uma forma alucinante, sentindo um prazer que jamais imaginou
experimentar antes, melhor do que qualquer coisa que já tivesse provado.
— Você me enfeitiçou! — A voz de Blade saiu tão intensa quanto a
expressão em seu rosto, rendido aos encantos dela, realmente enfeitiçado.
Assim os dois gozaram em satisfação completa, plena. Em uma
explosão de emoções, eram uma combinação estranha, o encontro do inferno
com o céu. Foi assim que o anjo Jesse Carter se entregou ao pecado nas mãos
do demônio Blade Maldonado ou era ele quem estava se rendendo nos braços
dela? Uma pergunta que ninguém tinha a resposta, nenhum dos dois.

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CAPÍTULO 23

— Oi — exclamou Blade inclinando um pouco a cabeça para olhar


para ela, o sol estava começando a nascer com os raios entrando pela janela
de vidro, refletindo sobre os dois corpos nus em meio uma bagunça de
lençóis.
— Oi! — Jesse respondeu com a voz fraca e um sorriso leve no rosto,
ainda se recuperando do orgasmo recente.
—Você está bem, pequena? — perguntou Blade, preocupado, tirando
a montoeira de cachos sobre o rosto de Jesse, que deu a ele um sorriso
encantador como resposta.
— Nunca estive melhor!
Por mais incômodo que estivesse sentindo no meio das pernas com
aquela ardência, estar com homem que amava olhando para ela preocupado
depois de fazerem amor, tirava a atenção dela de qualquer dor que pudesse
existir. Alisou o rosto de Blade com a palma da mão aberta, tocando-lhe os
lábios em um beijo casto.
— Foi bom para você? — Blade foi direto, sem rodeios.
— Superou as minhas expectativas, e para você? — Ela corou as
maçãs do rosto, desviando o olhar envergonhada. Blade inchou o peito
orgulhoso e vaidoso.
— Diferente! — respondeu seco, com uma expressão enigmática.
Tinha dificuldades para falar sobre os seus sentimentos.
— Entendo. Deve ter sido estranho para você que está acostumado
com mulheres experientes da sua idade. Maduras e seguras de si, que sabem
satisfazer o desejo de um homem na cama. — Jesse rolou o corpo saindo
debaixo dele, tampando-se com o lençol, sentindo-se uma completa idiota.
— Disse diferente porque nunca dormi com uma mulher envolvendo
sentimento no meio, acho que nunca mais vou querer fazer de outra forma.
Ele a envolveu pela cintura com apenas um braço e a arrastou para o
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mesmo lugar que estava, onde nunca deveria ter saído. Inclinando o rosto
bem próximo ao dela, quase tocando os lábios um do outro.
— Com outra além de você — concluiu em um sussurro.
O coração de Jesse palpitou, ele estava se declarando para ela. Do
jeito dele, mas estava.
— Ah! Blade! — As palavras faltaram para Jesse, que não viu outra
saída além de roubar um beijo apaixonado e quente. Tomada por um desejo
avassalador fechou um pouco as pernas prendendo o corpo dele em meio a
elas, erguendo os quadris na tentativa de conseguir o segundo orgasmo
naquela noite.
— Calma, diabinha. Teremos muito tempo para isso depois. — Blade
interrompeu o beijo, quase sem ar. Ela estava aprendendo rápido!
— Pensei que podia fazer mais de uma vez em uma noite —
comentou frustrada, com um biquinho que Blade achou infantil, mas lindo.
— Podemos fazer quantas vezes você quiser, por mim viraríamos a
noite. — Mordiscou o ombro dela, depois voltou a olhar em seus olhos. —
Mas não vamos abusar na sua primeira vez, aqui embaixo deve estar um
pouco sensível. — Ele levou a mão no meio das pernas dela, tocando-lhe leve
a intimidade.
— Obrigada por estar sendo tão gentil! —Jesse agradeceu, piscando
os olhos. Nunca em mil anos pensou que perderia a virgindade de forma tão
perfeita e única.
— Venha, vou dar um banho em você.
Colou-se de pé ao lado da cama e estendeu a mão para Jesse, que
puxou o lençol até o pescoço com vergonha, fingindo que não estava vendo.
Ele queria ter dito que ela merecia tudo aquilo e muito mais e que aquela
tinha sido a melhor noite de sua vida. Só que não teve coragem, achou
melhor guardar consigo.
— Vá você, depois eu vou. Posso muito bem fazer isso sozinha, já
sou uma mulher agora — firmou orgulhosa, como se tivesse tornado a pessoa
mais responsável do mundo de um dia para o outro.

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Uma mulher agindo como uma criança, com vergonha de ficar nua
na minha frente, como se eu já não tivesse visto tudo.
— Eu sei que pode fazer isso sozinha, pequena — começou a falar
com calma, para que ela entendesse. — Mas eu também posso fazer isso, me
deixa cuidar de você? — Jesse assentiu, amando esse Blade paciente e
cuidadoso.
Para não parecer evasivo, Blade enrolou o lençol em volta do corpo
dela e a levou para o banheiro nos braços. Ela podia muito bem andar, mas se
aquela era a forma dele cuidar dela, iria aproveitar o máximo dessa rara fase
de calmaria do bandido. Colocou Carter sentada na bancada de granito escuro
da pia do banheiro depositando um beijo rápido em seus lábios. Se afastou
por um instante para colocar a banheira para encher, colocou alguns sais de
banho dentro e voltou para buscar o anjo que olhava tudo de longe.
— Poderia virar de costas, por favor? — Ele queria gritar com ela,
mas não o fez. Atendeu ao seu pedido resmungando, cruzando os braços
sobre o peito másculo.
Jesse suspirou diante daquela bela imagem, o visual de suas costas era
tão bom quanto a frente. Sem uma camada de gordura e a única parte do
corpo sem tatuagens, uma curiosidade que perguntaria a ele mais tarde, caso
ainda estivesse de bom humor. Tinha uma bunda redonda e durinha, com os
músculos do glúteos bem desenvolvidos. Como tinha pernas bonitas! Fortes!
Delineadas! Não vira muitos homens nus nem na televisão, Blade era o único
na verdade. Mas com certeza não deveria ter muitos iguais a ele por aí, não
mesmo! E mesmo com aquela marra toda tentando ser gentil, parecia
incrivelmente ardente. E era todo dela, pelo menos naquele dia.
— Pode se virar agora. — Quando Blade virou, qualquer irritação que
poderia estar naquele momento foi embora, para bem longe.
Queria guardar aquela imagem para o resto de sua vida, o dia que viu
um anjo de verdade em carne e osso bem a sua frente. Jesse estava sentada
dentro da banheira recostada na ponta e as pernas esticadas, os braços
apoiados um de cada lado das bordas com um manto de espuma cobrindo os
seus seios. Ela havia prendido o cabelo em um nó mal feito ao topo da
cabeça, com alguns cachos perdidos sobre o rosto. As bochechas levemente
coradas, os olhos cor de canela brilhando ao olhar para ele. Blade achava a
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cor da pele dela linda, um tom de chocolate com leite perfeito.


— Só um instante, preciso recuperar o fôlego. — Respirou fundo por
pelo menos três vezes antes de ir fazer companhia a ela na banheira, onde,
depois de admirá-la mais um pouco, sentou-se por trás de forma que ela
pudesse encostar as costas no peito dele. Então aproveitaram para conversar
sobre algumas coisas que ainda precisavam ser esclarecidas.
— Sério que enfrentou o seu pai por minha causa? — indagou Blade,
alisando a coxa dela debaixo d'água com as pontas dos dedos.
Jesse contou como tudo havia acontecido, nos mínimos detalhes. Não
fora uma conversa fácil com o major, conheceu um lado dele pior do que
imaginava.

— Assassino! — exclamou Jesse, assim que entrou no escritório do


pai. A mãe não estava em casa por algum motivo e a irmã teve que ficar até
mais tarde no trabalho.
— O que você disse? Além de imprestável ficou louca também, pelo
o que eu sei não é bem-vinda nessa casa mais. — Ergueu a cabeça para olhar
para ela com total desdém. Estava sentado em sua mesa lendo alguns
relatórios do trabalho. — Nunca foi, sua mãe deveria ter seguido a minha
vontade e interrompido a gravidez assim que descobrimos que seria uma
menina. — Foi cruel, mais do que o de costume.
— Em outros tempos isso teria destruído o meu coração, mas depois
de tudo o que descobri sobre o senhor não faz nem cócegas. — Foi irônica,
entrando sem pedir licença como antes sempre fazia.
— Então a sonsa aprendeu a ser irônica agora? O que acha que a sua
mãe vai dizer quando souber que está andando com má companhia? Vai
deixar a filhinha dela de castigo. — Debochou, encostando as costas na
cadeira de couro preto, gargalhando como uma hiena no cio.
— E o que pensa que a sua esposa vai dizer quando souber que eu
estou andando como o homem que o senhor matou os pais covardemente,
depois de terem se rendido. Vou te entregar para o seu superior, tenho provas
e fotos do dia que participou do fuzilamento do casal Maldonado a mando de
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Carlo Castelli, o antigo chefe da máfia europeia. — Mandou tudo logo de


uma vez, para mostrar que não estava de brincadeira e queria justiça pelo o
que o pai fez.
— Você está me dizendo que já esteve diante do último Maldonado?
— Era a primeira vez que Jesse via o pai chocado de verdade, ainda mais
sendo por causa dela.
— Garanto que foi muito mais de uma vez, estou vindo da casa dele
agora. Ele, assim como eu, sabe como tudo aconteceu de fato. O assassinato
dos pais dele não é mais apenas um boato no mundo do crime. Não reagiram
depois de detidos, foram mortos cruelmente pela polícia. — Ela estava
disposta a tudo, custe o que custasse.
— Diga onde esse sangue ruim está, que vou mandá-lo para junto dos
pais nos quintos dos infernos, onde é o lugar de gente como ele.
Começou a procurar alguma coisa na gaveta, era a arma. Parecia um
louco, ofegante como um viciado em crack a mais de um mês sem fazer uso.
— Gente como o senhor, não é mesmo, major Carter? — Ele parou na
mesma hora o que estava fazendo para olhar para a filha. Tinha o revólver 38
que havia ganhado de Blade no dia do primeiro encontro deles em Tijuana,
apontado para ele.
— Então a mocinha sonsa se apaixonou pelo vilão? — Soltou uma
gargalhada macabra, daquelas de virar a cabeça para trás. — Pare de ser
idiota, garota, bandidos não amam ninguém além deles mesmo. E abaixe essa
arma, nós dois sabemos que não sabe usar isso. Então me dê essa coisa antes
que alguém se machuque.
Jesse olhou para o pai com a sobrancelha arqueada, disparando um
tiro certeiro no quepe que estava muito bem alinhado na cabeça do major.
— Mais um passo e dessa vez o tiro será certeiro, aprendi com o
melhor. — O major entendeu o recado direitinho, pois se manteve imóvel,
com os olhos arregalados.
— Pode me entregar para o meu superior se quiser, não me arrependo
de nada. Não faz ideia do que rola no mundo da polícia, garota, tem mais
gente perigosa do que no próprio mundo do crime. Devia estar orgulhosa do

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seu pai, os Maldonados são apenas dois de centenas de bandidos que


capturamos e depois mandamos para o inferno e acobertamos com relatórios
falsos. Não é isso que os mocinhos fazem? Acabam com os vilões. Não
confunda as coisas, filha, esse bandido está te usando para chegar até mim —
proferiu cinicamente, ele era pior do que Jesse imaginava.
— Pelo jeito, a única diferença dos vilões para os mocinhos é a
cobertura da mídia, o que ela quer que as pessoas acreditem. Sempre quis que
tivesse orgulho de mim, era o meu herói. Quando era pequena, achava o
máximo quando saía de manhã para trabalhar com o seu uniforme, pensava
que era sua armadura. Larguei o meu sonho de ser fotógrafa para seguir os
seus passos na polícia. Hoje, tenho vergonha de dizer que tenho o mesmo
sangue que o senhor.
— Eu sempre tive vergonha de você ter o meu sangue, se sua mãe não
fosse tão honesta poderia jurar que não é minha filha. Nasceu igual a cobra da
minha sogra, ela nunca gostou de mim e deixava isso bem claro. — A voz do
najor era de nojo, toda vez que olhava para Jesse via a imagem da sogra.
— Minha avó sempre teve razão, era a pessoa mais bondosa do
mundo e eu tenho orgulho de me parecer com ela. E se ainda estivesse viva,
apoiaria a minha atitude de te entregar para a justiça. — Dizer isso era
doloroso para Jesse, mas o certo é sempre o certo.
— Só para você saber, não vai dar em nada porque o meu superior,
sua inútil, assim como eu, está envolvido nisso e o superior dele também e
assim sucessivamente Jesse apontou a arma sobre o peito do pai, prestes a
enfrentá-lo de verdade pela primeira vez. O pior de tudo era o sorriso
debochado que não tirava do rosto se achando o espertalhão.
— Você vai pedir o divórcio para a minha mãe ainda hoje, me
entregar o Colt que roubou do senhor Maldonado e sumir do mapa pelo resto
das nossas vidas, se aposentar e ir morar em uma casa no lago de preferência
na China, estamos combinados? — Foi taxativa, direta.
— Nunca! Quando era pequeno o meu avô, que era policial assim
como o meu pai, me contou sobre a lenda do Colt, eu me apaixonei por ele no
mesmo momento e sabia que seria meu algum dia. Passei minha juventude
estudando sobre esse objeto incrível. O dia mais feliz da minha vida foi
quando o achei escondido no porta-malas do carro do casal Maldonado,
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depois de serem fuzilados. Ele é a minha preciosidade, abri mão da minha


recompensa na época para ficar com o Colt — disse aos berros, fora de si.
— Ah! Não papai? Só para o senhor ficar sabendo, Blade conseguiu a
lista dos policiais que participou da morte dos pais dele e adivinha quem a
encabeça? Sugiro que suma do mapa antes que ele encontre você, e, acredite,
ele é bem mais assustador pessoalmente do que dizem por aí.
— Fill, você está no escritório? — Maria Joaquim chegou à procura
do futuro ex-marido.
— Estou no escritório, mulher — respondeu, rude, sem tirar os olhos
da filha.
— Se tocar em um fio de cabelo dela, quem vai acabar com você sou
eu. Tem até amanhã para me entregar o Colt e sumir das nossas vidas para
sempre.
Jesse girou a arma no dedo e guardou na cintura, como uma
profissional. Viu em um filme depois que aprendeu atirar e andou treinando
em casa, todos os dias. Passou na cozinha para dar um beijo na mãe e foi
embora.
— Não acredito que atirou no seu pai para me defender e ainda por
cima o acertou! — Blade apertou Jesse com tanta força dentro que os braços
pareciam querer quebrá-la ao meio, estava orgulhoso dela.
— Sou capaz de fazer qualquer coisa por você, Blade. — Virou o
rosto para poder olhar para ele, no fundo dos olhos. — Te amo, não importa o
que aconteça, eu juro que será o único homem da minha vida.
— Não sabe o que está dizendo, Jesse, isso aqui não está certo. Seu
pai está com a razão em parte, mocinhas não se apaixonam por vilões. E
bandidos não amam ninguém além deles. Chegará uma hora que terá que
escolher em qual lado ficar. Não quero me iludir achando que será do meu, já
matei mais pessoas do que você conheceu na vida e provavelmente matarei
muito mais. — Desviou o olhar.
Jesse pensou por um instante antes de começar a falar.
— Tudo o que eu vejo à minha frente é um homem real, sem
fingimento. Defeito todo mundo tem, eu mesma sou a rainha deles. Eu não
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levo jeito para mocinha, normalmente são bonitas e bem vestidas e andam
com o cabelo sempre arrumado. — Aconchegou-se nos braços dele,
encostando a cabeça em seu peito ouvindo o coração bater forte. Era incrível
como quanto mais Blade tentava afastá-la, ela se aproximava ainda mais.
— Parando para pensar, você não se parece com as mocinhas dos
filmes, não mesmo — brincou ele mais relaxado.
— Minha escolha sempre vai ser você, Blade! Mas não posso lidar
com o fato de que um bandido nunca vai conseguir amar ninguém além dele
mesmo, isso é demais para mim. Talvez seja melhor parar por aqui, cada um
segue o seu caminho. — A voz de Jesse estremeceu, fazendo o coração de
Blade apertar.
— Seja a minha exceção. — Jesse sorriu como uma adolescente
apaixonada.
— A sua exceção chama Bobbi Xing Perez Salvatore Maldonado, tem
que ver como olha para o seu irmão. Consegue imaginar a sua vida sem ele?
Isso se chama amor, Blade, existem várias formas de amar uma pessoa.
— Também não imagino mais a minha vida sem você — declarou
Blade, fazendo-a se derreter por dentro.
— O único que pode me tirar da sua vida é você, Blade, porque eu
não pretendo ir a lugar nenhum, agora que experimentei o que é estar nos
braços de um Maldonado não quero sair nunca mais, dizem que não tem
muitos por aí. — Encostou a coxa nele o provocando.
— Se eu fosse você aproveitava, senhorita Carter. Sou edição
limitada, o único e original ao seu dispor. — Gabou-se, sem nenhuma
modéstia.
— É isso que vou fazer agora.
Beijou-o, mas não foi qualquer beijo. Era aquele que dizia: "Vamos
fazer dar certo!" E assim passaram mais algum tempo namorando na
banheira. Blade foi atencioso o suficiente para ficar ao lado dela na cama até
que pegasse no sono dentro dos seus braços.
Ele não conseguiu dormir, estava com a cabeça cheia demais. Ficar
com a Jesse era loucura, uma insana e deliciosa loucura. Blade a queria, mas
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sabia a imensidão dos problemas que isso traria principalmente para ela.
Levantou com cuidado para não a acordar, ajeitando o lençol sobre o corpo
nu da jovem, mas não antes de dar mais uma boa conferida. Quem diria que
ela escondia tudo isso debaixo daquelas roupas largas, e é tudo meu.
Foi para a cozinha preparar o café da manhã, com certeza Jesse
acordaria faminta depois de perder tanta energia durante a noite. Estava quase
tudo pronto, os ovos mexidos, bacon, torradas e bolo com recheio de
goiabada que sabia ser o preferido dela. Queria dar prazer a ela de todas as
formas. Estava fazendo o suco natural de laranja quando sentiu a presença
dela, antes mesmo de vê-la.
— Bom dia! — cumprimentou Jesse, totalmente tímida encostada na
parede.
Ela usava um roupão preto de Blade, contorcendo os pés descalços
pisando no chão frio e os cabelos soltos de forma esvoaçante, segurando o
celular sobre o peito. Sem coragem de olhar para ele, que estava totalmente
nu, usando apenas um avental com o amigo lá de baixo bem animado para
aquela hora da manhã: grande, grosso e vigoroso.
O cheiro estava ótimo, além de lindo, sabia usar uma arma, era rico e
sabia cozinhar e mesmo assim pensava não ser um bom partido. A cozinha
era grande, os móveis modernos em inox colados na parede. Uma mesa de
vidro de seis cadeiras no centro, e uma cesta de frutas frescas no meio dela.
Era extremamente organizada como todo o restante da casa.
— Está com fome? — perguntou Blade virando-se para olhar para
ela, seguindo a direção onde os olhos dela estavam fixo: na região do seu
membro cada vez mais ereto.
— Muita — respondeu rápido e não estava falando de comida. E ele
sabia disso com certeza.
— Então venha, vou alimentar você.
A maldita voz grossa quase a fez gozar. A vontade dela era voar em
cima dele e arrastá-lo para a cama novamente. Nunca imaginou que estaria
algum dia na cozinha de um homem lindo preparando o café da manhã dela
praticamente nu, fazendo uso apenas de um avental branco com flores
vermelhas, com certeza era da mãe dele.
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— Você não vai se vestir primeiro? — perguntou mexendo no cabelo,


tentando disfarçar o constrangimento.
Sem paciência ele mesmo a buscou e a colocou sentada no balcão da
cozinha. Jesse deixou o celular próximo ao dele. Blade pacientemente
arrumou de tudo um pouco em um prato branco de porcelana, abriu os
joelhos de Jesse se enfiando entre as pernas dela para alimentá-la. O fato dele
não usar garfo e faca só deixava tudo mais sensual e erótico.
— Está um pouco quente aqui, não acha? — Colocou o prato sobre o
balcão e tirou o avental ficando totalmente nu, desamarrou as tiras do roupão
de Jesse, olhando-a nos olhos e mordendo o lábio inferior diante da visão da
parte da frente do corpo dela desnudo, para ele foi como se tivesse abrindo os
portões do paraíso ou do inferno.
— Não está tão quente assim — ela ameaçou fechar o roupão com
uma agilidade incrível.
— Nem pense nisso — Impediu-a antes de concluir o ato.
— Mas Blade, não estou acos… — Parou de falar, envergonhada
demais para olhar para ele.
— Tem que acabar com essa timidez toda, Jesse. Depois de te ver
nua, não aceito que use mais nada além do seu sorriso encantador quando
estivermos sozinhos. Você disse que me ama, não disse? Quando era pequeno
ouvi a minha mãe dizer para o meu pai que quem ama confia, não sei muito
sobre o amor, mas pensei que fosse verdade. — Ela soltou as tiras do roupão,
deixando-o aberto da mesma forma que ele tinha deixado.
— Acho que também se sairia muito bem trabalhando com vendas,
Blade — brincou ela sorrindo de cabeça baixa, mexendo no anel em seu dedo
de um lado para o outro. Era um ato involuntário, fazia quando estava
nervosa.
— Não sabe o perigo que corre toda vez que faz isso.
Jesse levantou o olhar e viu duas poças escuras a encarando, sem
piscar. Então Blade a beijou de forma selvagem, como se o beijo tivesse
acabado de ser inventado. Segurando-lhe a cintura com uma mão e a outra
apertando o seio dela, com desejo. O celular dos dois tocaram na mesma

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hora, ambos atenderam sem olhar.


— Onde você está, filha? — Blade arregalou os olhos assustado ao
ouvir a voz da mãe de Jesse.
— Onde você se enfiou, porra? — Jesse quase ficou surda devido ao
grito de Julius, visivelmente irritado.
— É para você — disseram juntos, trocando os aparelhos.
— Seja rápido, Julius, estou muito ocupado. — Blade queria acabar
com o assunto rapidamente.
— O que fez com a Jesse? Seja lá o que for farei o dobro com você
depois, entendeu bem, Blade? — exclamou o mexicano nervoso.
— Desculpa, Julius, mas você não faz o meu tipo. — Debochou
Blade, brincalhão.
Olhando malicioso para Jesse a sua frente sentada no balcão da sua
cozinha com o roupão aberto, dando a ele um vislumbre da imagem dos seios
desnudos com os mamilos eriçados.
— Não estou brincando, Maldonado, quando fui procurá-la em seu
apartamento topei de cara com a louca da mãe dela que me bateu com a bolsa
pensando que era um bandido. Está certo que sou um, mas não estava
roubando nada naquele momento, só queria ajudar a filha dela tirando-a de
suas garras. — Blade quase gargalhou imaginando a cena, mas não queria
deixar o parceiro ainda mais irritado.
— Apanhando de uma mulher, grandão? Você já foi melhor de briga.
E sobre a Jesse, não se preocupe, porque estou cuidando muito bem dela. —
Jogou uma piscadela para o lado da jovem, mortalmente sexy.
— Não sabia que a mãe da Jesse era tão jovem e bonita também, mas
uma louca. — Blade arqueou a sobrancelha, sentindo um certo interesse nas
palavras dele.
— Então fique esperto parceiro, ouvi por aí que a senhora Carter está
se divorciando.
Desligou na cara de Julius, sem nem dizer ao menos “tchau”. Jesse
olhou para ele com o cenho franzido enquanto conversava com a mãe, em
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sinal de reprovação com a atitude dele. Blade ficou em silêncio, ouvindo a


conversa entre mãe e filha.
— Mas a filha da tia Ana já está fazendo quinze anos, mamãe? E vai
ter baile de debutante, que legal! Eu sei que a senhora está muito triste por
causa do divórcio e o sumiço do papai e quer sair para distrair um pouco, mas
já é na sexta e eles moram no Canadá, quase do outro lado do mundo. É
muito frio e as minhas primas são todas metidas e nenhuma delas gosta de
mim. Não podemos só sair eu, a senhora e a Mainara para um programa só de
meninas? — Jesse suspirou fundo depois de um longo tempo ouvindo a mãe,
em silêncio.
Enquanto isso Blade depositava beijos na curva do pescoço dela, que
prestava atenção em cada palavra não gostando nem um pouco do rumo que a
conversa estava tomando.
— Está bem mamãe, eu vou. Não precisa chorar, mas não usarei
nenhum vestido ridículo e muito menos salto alto… E o homem bonitão
musculoso que viu no meu apartamento e só o encanador do prédio, por isso
tinha a chave, não é nenhum bandido. Depois peço desculpas pela senhora ter
batido nele com a bolsa, também te amo. Tchau. — Desligou o celular,
pronta para continuar com Blade onde tinham parado.
— Você não vai para o Canadá na sexta. Invente alguma desculpa
para a sua mãe.
Jesse cruzou os braços olhando para ele, não acreditando que estava
dando uma ordem a ela.
— E por que não? — Puxou-o pelo cordão do exército deixando o
rosto dela bem próximo ao de Blade cruzando as pernas atrás das costas dele
deixando-o preso nas mãos dela.
— Porque eu estou mandando, isso é mais que o suficiente. Levou as
mãos nas nádegas dela, apertando com força, puxando para mais perto de si,
de tal forma que pressionasse o seu membro em Jesse.
— Acontece que você não manda em mim, meu amor! Mas como sou
boazinha vou te dar duas alternativas e não tente bancar o espertinho comigo.
— Deu um beijo daqueles nele, para mostrar que era ela quem estava no
comando. — Você pode ir comigo como meu par no baile de debutante do
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aniversário da filha da minha tia Ana, o que seria incrível, já que nunca
nenhum rapaz me chamou para ir a um baile antes. Ou ficar aqui como um
bom menino me vendo viajar para o outro lado do mundo para uma festa
cheia de rapazes, solteiros e usando ternos caros. E não quero nenhum tipo de
reclamação, porque deve haver confiança entre nós. Muito menos que venha
com esse papo que não posso ir porque é muito perigoso com Matteo Castelli
solto por aí e que não vai poder me proteger de longe e blá, blá, blá… Vou de
um jeito ou de outro, com ou sem você. Então, o que vai ser, tigrão? — Ela o
colocou contra a parede, uma coisa que ninguém nunca conseguiu fazer
antes.

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CAPÍTULO 24

Havia um silêncio mortal e doloroso. Blade tinha uma expressão


indecifrável, os olhos pensativos percorriam cada centímetro do rosto de
Jesse. Ele era um homem misterioso, astuto e perigoso. Contudo, depois que
conhecera a investigadora muita coisa mudou, mas não a tal ponto de receber
ordens de uma mulher. Estava para nascer quem mandaria nele, obrigá-lo a
fazer uma coisa que não queria.
— Não gosto de lugares frios, boa viagem!
Jogou o prato sobre o colo de Jesse, com brutalidade, fazendo a
comida que tinha arrumado com tanto zelo ficar uma bagunça, assim como os
sentimentos dele naquele momento.
— Obrigada, não estou com fome! — Tirou o prato de cima do seu
colo e o colocou desapontada sobre o balcão.
— Se não quer comer, não coma. Agora vista-se, vou te levar para a
sua casa. — Para bem longe de mim, completou, mentalmente Jesse. Blade
virou as costas, nervoso demais para olhar para ela.
— Pensei que iriamos passar o dia todo aqui. — Respirou fundo,
olhando para a bunda durinha e definida do bandido à sua frente. — Juntos
no nosso esconderijo — completou com as bochechas coradas. À sua mente
vinham os momentos mais quentes da noite anterior, do orgasmo. Pensando
em quando repetiriam a dose, por ela naquele momento mesmo.
— Também andei pensando em muitas coisas, mas acabei de aprender
que nada é do jeito que a gente pensa, principalmente as pessoas. — Foi
áspero, frio e calculista nas palavras, já saindo da cozinha. Para ele, o dia
havia acabado.
Jesse desceu do balcão arrasada, sentindo-se culpada por ter acabado
com o momento dos dois. Nunca foi de fazer o "tipo ousada" e quando fora,
estragou tudo. Fez o caminho até o quarto na esperança que ele estivesse lá,
mas não estava. Vestiu suas roupas e saiu à procura de Blade segurando os
saltos em uma mão e a bolsa sobre o peito, como um escudo.

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— Vamos — exclamou Blade sério, assim que ela pisou na sala.


Durante o caminho de volta não teve conversa, tão pouco troca de
olhares. Era como se fosse invisível para ele, como dois estranhos. O bandido
era bom até demais em ignorar as pessoas.
— Aqui está o gravador. Pelo o que capanga do Matteo Castelli disse
quando estava drogado, a mansão do chefe dele fica em algum lugar em
Puerto Rico. Não disse a localização exata, mas falou várias informações
sobre os negócios sujos e lugares onde frequenta e os cúmplices. — Foi a
única coisa que Jesse disse assim que o Impala estacionou em frente ao seu
apartamento.
Blade não foi capaz nem de soltar o volante para pegar o gravador.
Então ela o deixou em cima do porta-luvas e abriu a porta saindo do carro.
— Você vem me ver antes da viagem? Queria te ver antes. —
Abaixou a cabeça triste, com vontade de chorar. Ouvindo como resposta
apenas o ronco do motor do Impala, acelerando a cem quilômetros por hora.
Blade havia indo embora sem se despedir dela.
Maldonado voltou para a casa com um mau humor do cão. Não estava
para brincadeira, louco para descontar a raiva dele em alguém. O motivo de
tanto ódio era porque não conseguia tirar Jesse da cabeça, mas era teimoso
demais para ir atrás dela e dizer que não aceitou acompanhá-la na viagem
porque não estava preparado para conhecer, de fato, a família dela, a sogra
etc. Sabia que não era o genro preferido que nenhuma mãe queria ter,
provavelmente iria odiá-lo logo de cara. Já a vira uma vez no hospital quando
Jesse levou o tiro no lugar de Bobbi, mas naquele dia ainda não tinha tirado a
virgindade de sua filha. Fora que já era uma homem de trinta e sete anos,
onze anos a mais de diferença da idade de Jesse.
— Onde está a Jesse, Blade? — Foi a primeira coisa que Julius
perguntou com o cenho franzido, desconfiado. Ele e Li estavam sentados no
sofá, roendo as unhas esperando por eles, ansiosos para saber o que
descobriram.
— Não interessa — respondeu Blade irritado, ligando o gravador e
colocando sobre a pequena mesa de vidro no meio os dois sofás de tamanho
diferentes.

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O capanga do Matteo era um idiota! Respondia a tudo o que a


investigadora perguntava, tentando agarrá-la a todo momento. Isso irritou
ainda mais Maldonado, não sabia lidar com o ciúme. Naquele momento, a
vontade dele era matar todo mundo que passava pela sua frente,
principalmente quem ousasse olhar para Jesse, a sua garota. Por fim, nem
queria ouvir mais nada, só continuou na sala mesmo porque se saísse ficaria
óbvio o motivo.
“Você é tão linda, quero te fazer minha a noite toda. Vem aqui, minha
deusa de ébano”, dizia o capanga na gravação, em um tom meloso que fez o
estômago de Blade revirar. A voz estava arrastada, com certeza os
tranquilizantes que Jesse havia dado para ele deveriam estar começando a
fazer efeito.
“Ainda não, querido! Quero que responda algumas perguntas, aí sim
vamos brincar a noite toda.”A voz de Jesse saiu sensual e provocativa.
Ele experimentara aquele tom dela na noite anterior e sabia o quanto
podia ser perigoso mesmo estando sem efeito de nenhum remédio, teria dado
o que ela pedisse na noite em que a fizera mulher. Jesse foi esperta e corajosa
em sua atuação no Cassino, isso não tinha como negar, por mais raiva que
estivesse.
“E o que a minha coelhinha quer saber? Se levantar o vestido e me
deixar ver essas pernas digo o que quiser, todos os crimes que já cometi e
olha que não são poucos.” Deu uma gargalhada gostosa, totalmente dopado.
“Como quiser, meu amor.” Se Jesse o chamasse de "meu amor" a
coisa não ficaria boa para ela depois, não mesmo.
“Você tem pernas lindas, coelhinha e se seu responder levanta o
vestido mais um pouco?” Perguntou esperançoso e atrevido.
“Como faço para encontrar o dono do Cassino? Se disser deixo tocá-
las e onde mais quiser.” Foi direta. Se Blade tivesse visto a cara de safada que
ela fez naquele momento teria dado um troço de raiva.
“O menino Matteo? A mansão da família Castelli fica em Puerto
Rico, a mãe dele é Argentina. Votou para o país dela depois da morte do
marido, criando os filhos na cultura dela.” Respondeu ele, totalmente à
vontade.
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“Filhos?” Jesse perguntou no susto, pasma.


“Sim, dois meninos. Matteo é filho do primeiro casamento com o
Carlo Castelli, o caçula é o Enrico, vindo de uma relação relâmpago.” Os três
bandidos se entreolharam com os olhos semicerrados, essa era uma coisa que
não esperavam.
“E em qual rua fica essa casa? Ele vai muito lá, me fale mais sobre o
irmão caçula.” Era como se ela tivesse lido os pensamentos de Blade, era isso
que mesmo que ele estava querendo saber. Não sabia o porquê, mas essa
história do irmão do Matteo o deixou com uma pulga atrás da orelha.
“Por que tanto interesse na família do meu patrão?” Nessa hora Blade
ficou tenso, pensando que se ela não tivesse sido esperta poderia ter
acontecido o pior.
“Que tal colocarmos uma música? Vou fazer um striptease para você,
a cada peça de roupa que eu tirar você responde a uma pergunta, meu amor.”
Jesse deu um jeito de mudar de assunto, rapidinho. Blade nunca tinha
chegado ao nível de raiva tão grande, os olhos escureceram como a noite.
Quando colocasse as mãos nela estaria perdida, com certeza. Pelo o tempo
que a música sexy durou e o quanto de perguntas que ele respondeu e os
assovios do capanga, ela deveria ter ficado nua e isso teria que ser bem
explicado depois.
— Pelo sangue do cordeiro, como diria Estevão. A Jesse com essa
cara de santinha ein? As quietinhas são as piores, escondem o fogo debaixo
da saia — comentou Li, abusado.
O resultado? Um nariz sangrando, o olho esquerdo roxo e quase a
perda de dois dentes da frente. Blade só não terminou o serviço porque foi
impedido por Julius que o imobilizou em um abraço de urso, senão o chinês
teria caminhado pelo vale das sombras naquele domingo.
— Pera aí gente, falando no Estevão onde ele está até agora? — Julius
tinha o semblante preocupado, com um mau pressentimento.
— O meu irmão está bem, gente, tentei ligar para ele ontem à noite.
Não me atendeu, mas mandou uma mensagem dizendo que teve que ir em
casa às pressas porque parece que a minha avó não está bem de saúde.

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Bobbi apareceu no escritório segurando um livro grosso sobre leis,


acertando os óculos de grau de armadura redonda. Comendo uma barra de
cereal, sabor chocolate ao rum. Vestia o seu habitual suéter verde de linho,
presente de Blade. Os únicos avós e tios que o jovem conhecera pessoalmente
foram os pais de Estevão, passou um mês com eles quando terminou o
Ensino Médio.
— Menos mal, tomara que a mãe dele fique bem logo. — Julius fez
sinal para que o jovem se sentasse ao lado dele no sofá, ao lado do Li com o
seu olho roxo.
— O que aconteceu com o senhor, irmão? — Bobbi perguntou
preocupado, vendo o rosto do chinês todo machucado. Tirou um lenço branco
do bolso do suéter e limpou o sangue que escorria do canto da boca dele, com
cuidado.
— Escorregou — respondeu Blade cruzando os braços com cara de
santo.
— Foi só isso, filho, seu irmão está bem não se preocupe. — Li
afagou o cabelo de Bobbi, olhando no canto dos olhos para Blade que ainda
estava com cara de inocente.
E assim a semana passou lentamente. Estevão sem dar notícias e isso
começou a preocupar todos de verdade. Por mais esnobe que o inglês era,
sempre ligava vez ou outra para dizer que estava bem, dessa vez nem isso
fez. Pensaram até em ligar para a família dele, mas, preferiram aguardar mais
um tempo antes de incomodar os Salvatore, de preocupá-los. Jesse também
estava muito preocupada, não com o sumiço de Estevão, mas, sim, com o de
Blade, que não deu mais sinal de vida, nem mesmo no dia da viagem. Estava
sentindo-se sozinha e abandonada.
A saudade do amado só aumentava, era como se estivesse deixando
um pedaço dela para trás. Mas também não ligou para ele, cansou de ser
esnobada e ficar correndo atrás. Para piorar, teve que aguentar os olhares
estranhos dos companheiros de trabalho no departamento criminalista do
FBI. Estava todo mundo desconfiado com o estranho pedido de demissão do
major. Tirando isso, foi incrível trabalhar sem a opressão do pai vinte e
quatro horas em cima dela. Não sabia para onde ele tinha ido, só esperava
que fosse para bem longe de todas elas. Ver a tristeza de sua mãe era de
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cortar o coração, estavam mãe e filha sofrendo por terem sido abandonadas
por dois homens egoístas que não as mereciam. Ainda por cima teve a
conversa tensa com o Michelangelo, foi logo após que Blade a deixou em
casa com o coração partido. Quando a campainha tocou, Jesse saiu correndo
derrubando tudo o que encontrava pelo caminho pensando que era o amado
que tinha se arrependido e vindo fazer as pazes, mas ficou triste assim que
abriu a porta e viu o barman sorrindo para ela segurando um buquê de flores
maior do que ele.
— Bom dia, princesa — disse ele com um sorriso doce no rosto.
Miche era naturalmente gentil e agradável. Seria tudo tão mais fácil se
tivesse se apaixonado por ele, talvez não tivesse com o coração em pedaços
agora, um dia depois de ter tido a sua primeira vez com um homem sem
coração que a abandonou no dia seguinte. Esse pensamento a fez ficar
emotiva, resultando em um ataque de choro.
— O que houve, linda? Por favor não chore, estou aqui agora. —
Michelangelo a tomou em seus braços e deixou que colocasse a dor toda para
fora.
— Obrigada, Miche, entre. — Agradeceu cessando o choro, limpando
os olhos com as costas das mãos.
— Está melhor? O que fizeram com você, Jesse? — perguntou
pegando na mão dela e a conduzindo até o sofá, abraçando-a novamente
depois que sentaram.
— Partiram o meu coração. — A voz dela era de cortar o coração,
estava muito magoada.
— Entendi. — O barman ficou triste, só então Jesse percebeu o que
havia falado.
— Oh! Miche, me perdoe! Se eu pudesse escolher, com certeza teria
me apaixonado por você, tenho certeza que jamais seria capaz de me magoar.
Mas a gente não escolhe essas coisas, infelizmente. — Fez um carinho no
rosto do rapaz que a olhava com os olhos claros brilhando como rubis.
— Nisso você tem razão — respondeu com um sorriso triste.
— Em quê? Que nunca iria me magoar? — Jesse perguntou confusa.
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— Não. — Olhou nos olhos dela profundamente. — Que a gente não


escolhe por quem se apaixona, quando viu já era. — Depois de ficar uns
instantes sério ele enfim sorriu, mostrando os dentes bonitos.
Mudaram de assunto a partir daí e passaram o resto da tarde
conversando, apenas como amigos. Apesar da tensão, ter essa conversa com
Michelangelo foi um alívio para Jesse. Mesmo destruída e com todos motivos
para desistir da tal viagem, não desistiu. Talvez fosse até bom para se distrair
um pouco, respirar outros ares. Chegaram no Canadá na quinta-feira à noite.
Como sempre, Mainara chamou a atenção de todos, era bonita, bem vestida e
inteligente. A tia Ana era a irmã mais nova de Maria Joaquim. Casou-se com
um rapaz Canadense e morava em uma cidadezinha numa mansão gigante e
fria. Traduzindo, eram podre de ricos. Metidos e esnobes, achavam-se
melhores que os outros. Não sabia como a tia Ana, que era uma mulher tão
doce e amável, conseguia conviver entre eles, já que não combinavam juntos.
A filha deles, Jeniffer, a aniversariante, era a típica patricinha, que passava
vinte e quatro horas fazendo compras ou gritando com os empregados. A
sorte da investigadora foi que o irmão do meio da mãe dela veio para a festa
também, era a parte engraçada da família que morava em Nova York. Em
especial, o filho mais velho dele, o Tony um amor de pessoa, sempre se
deram muito bem. Era um negro alto, forte e lindo de viver. Tinham a mesma
idade e mantinham contato pelas redes sociais desde sempre.
— Ela nem parece ser da mesma família que nós, não é mesmo? —
comentou Tony se aproximando de Jesse que estava sentada pensativa e
sozinha em um canto mais afastado da sala, toda encolhida de frio, mesmo
dentro de um casaco de lã marrom e o aquecedor ligado.
Ela olhou para as primas reunidas falando em roupas caras e mal da
vida dos outros. Eram chatas e debochadas.
— Não mesmo. — Jesse suspirou fundo.
— O que acha de sairmos para patinar? É melhor do que ficarmos
aqui no meio dessa gente metida, quando começarem a se arrumar para o
evento do ano, tende a piorar, vamos fugir e só voltar na hora da festa? —
Tony fez o pedido, mas Jesse nem olhou para a cara dele.
— Não estou animada, obrigada pelo convite, primo. — O olhar de
Jesse estava na direção da vista da janela que dava para o jardim, todo
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tampado por flocos de neve.


— Se mudar de ideia, estarei me arrumando, saio daqui a trinta
minutos. — Deu uma piscadela charmosa. Jesse sorriu amarelo e voltou a
olhar para fora. Cansada de ficar triste, resolveu dar o primeiro passo e ligou
para Blade.
— Só liguei para dizer que estou sentindo sua falta e queria que
estivesse aqui comigo. — A voz de Jesse era chorosa, estava tendo um dia
ruim.
— Ah! Está? Problema seu, eu estou ótimo! — Blade foi rude com
ela, mais do que o de costume. Também não estava nos seus melhores dias,
não mesmo.
— Que música alta é essa? — perguntou Jesse desconfiada, pelo
ritmo eletrônico deveria ser alguma boate ou algo do tipo. Havia vozes de
mulheres ao fundo, uma verdadeira bagunça.
— Você não foi para a sua festa? Então, arrumei uma para ir também
— disse ironicamente, vingativo.
Ela não respondeu nada, essa foi a vez dela desligar na cara dele.
Blade retornou no mesmo momento, uma, duas, infinitas vezes. Só que Jesse
fingiu não estar vendo, resolveu tirar o resto do dia para ela. Esquiar com o
primo Tony, depois voltar e se arrumar linda e maravilhosa para a festa de
aniversário. O que valeu muito a pena, já que o passeio fora melhor do que
esperava. Passaram o dia todo fora, se divertiram tanto que Jesse nem
lembrou de um certo bandido de coração frio e duro.
— Mãeee, a senhora não vai acreditar. O Tony me ensinou a esquiar,
só cai doze vezes. — Jesse chegou na sala pulando toda animada de mãos
dada com o primo. Faltava menos de uma hora para os convidados
começarem a chegar, todo mundo se encontrava muito bem arrumado para a
festa.
— Onde vocês estavam filham? Passaram o dia todo fora, meu amor,
não conseguimos entrar em contato com nenhum dos dois e olha que
tentamos. Estão atrasados.
Maria Joaquim tentou ajeitar o cabelo da filha colocando um cacho

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atrás da orelha, que estava uma verdadeira bagunça como sempre. Ajeitou a
roupa puxando a gola do casaco e espanando com as pontas dos dedos os
pequenos flocos de neve sobre ele, como fazia quando era criança. Jesse não
entendeu porque todos estavam olhando para ela de forma estranha, inclusive
as primas metidas dentro dos seus vestidos glamorosos e rostos
exageradamente maquiados. A irmã Mainara estava atrás da mãe tentando
fazer algum tipo de sinal para ela como se quisesse alertá-la de algo
importante.
— Eu me arrumo rapidinho mamãe, agora até animei para a festa. O
Tony me convidou para ser o seu par no baile de debutante da nossa prima e
vai dançar a valsa principal comigo, ele não é encantador? — Ela sorriu,
eufórica com a notícia.
— Você já tem um par! — Uma voz grossa e poderosa veio do fundo
da sala. E um silêncio mortal se fez presente. Jesse respirava cada vez mais
rápido como se estivesse ficando sem ar.
Blade estava lindo encostado na parede dentro de um smoking Black
Duos, o mais caro da última coleção. A barba feita, o cabelo com gel, muito
bem penteado para trás. Os sapatos também eram pretos, sociais. Com a
postura elegante de sempre, superior aos demais. O perfume Jesse sentia de
longe, muito bom por sinal. Mantinha as mãos escondidas dentro do bolso, os
olhos escuros, perigosos. Primeiro o olhar dele desceu para a mão de Tony
segurando a de Jesse, depois levantou fitando o rosto da investigadora de um
jeito que dizia:“Você está ferrada!"

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CAPÍTULO 25

— Por que não disse que iria trazer um convidado, filha? — Maria
Joaquim ainda tentava ajeitar o cabelo da filha, mesmo sabendo que seria
inútil sem a ajuda de um pente para tirar os ciscos que provavelmente
armazenou devido aos doze tombos durante as aulas de esquiar com o primo
Tony.
— Depois falamos sobre isso, mamãe, vou me arrumar antes que os
convidados cheguem. — Jesse sorriu sem graça, não sabia o que fazer. Não
tinha coragem de olhar para o Blade, mas sabia que olhos dele a fuzilavam de
onde estava.
— Não vai cumprimentar o seu amigo, filha? Que coisa feia, não foi
assim que eu te ensinei. — A investigadora congelou, apavorada. Aquela não
era uma bora hora para a mãe mostrar que era a melhor do mundo, só estava
piorando as coisas para o lado dela.
— Jesse tem razão mãe, ela já está muito atrasada.
Mainara notou pelo o semblante da irmã que havia alguma coisa de
errado, a conhecia melhor que ninguém. Pegou na mão dela com a de
intenção de tirá-la dali e perguntar o que estava acontecendo, estava
preocupada.
— Que isso Mainara? Não foi essa a essa educação que dei para vocês
duas, o pobre rapaz veio de longe para ver a sua irmã que passou o dia
sumida com o primo. — Jesse balançou a cabeça, não tinha como a situação
dela piorar. — Atrasada ou não ela vai cumprimentá-lo e agradecer por ter
vindo — Maria Joaquim disse séria.
— Eu já disse como a senhora está linda hoje, mamãe? Com certeza a
mulher mais elegante da festa e do mundo. — Tentou mudar o foco do
assunto, mas foi sincera em relação ao elogio.
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A mãe realmente estava exuberante dentro de um vestido azul intenso,


de uma manga só, pouco abaixo do joelho. Tinha o corpo farto em curvas
como o da filha mais nova, Mainara. e dona de um belo sorriso. Não
aparentava a idade que tinha, tampouco ter duas filhas adultas.
— Agora, Jesse, o rapaz está esperando — ordenou a mãe.
Jesse respirou fundo soltando a mão da irmã, olhando para ela com o
olhar confortante. Todos deram um passo para o lado para abrir passagem até
ele.
— Olá Blade, que bom que veio! — Jesse fez a vontade mãe, dizendo
as palavras entre os dentes diante de Blade, mas em uma distância
consideravelmente segura.
— Tente fugir e vai se arrepender depois — ele disse discretamente
dando um beijo em seu rosto.
— Agora chega de drama, já era para Jesse estar pronta. Vem nega,
vou te ajudar com o vestido. — Mainara enfim conseguiu tirar a irmã de um
problema dos grandes e saiu arrastando-a escada acima. Tudo sobre aos olhos
ameaçadores de Blade que acompanharam a investigadora até sumir de vista.
— Quem é aquele gostoso com cara de mau, Jesse Carter? — indagou
Mainara assim que chegaram ao quarto de hóspedes da mansão, colocando as
mãos na cintura nervosa.
— Só um amigo — respondeu Jesse tirando a roupa às pressas, indo
em direção ao banheiro. Ouvindo os saltos da irmã estalando atrás dela, não
iria ser fácil se livrar tão cedo das perguntas dela.
— Então por que ele olhou para a mão do Tony segurando a sua de
um jeito que parecia tirar uma arma da cintura a qualquer momento e dar um
tiro na cara, na mosca?
— Não começa Mai, para de paranoia — Jesse gritou do lado de
dentro do box, com a cabeça cheia de espuma.
— Ok! Então não vai se importar em saber que as nossas amadas
primas ficaram dando em cima gostosão. Principalmente a víbora da Valéria,
que se acha a mais linda do mundo — provocou a irmã, o que deu muito
certo, já que Jesse abriu a porta do box quase colocando o chão abaixo.
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— O quê? Será possível que essas oferecidas não podem ver um


homem bonito que já vão dando em cima dele? Mas se a Valéria não ficar
longe dele, vou arrancar cada fio daquele aplique mal colocado dela. —
Mainara ficou boquiaberta, era difícil ver a irmã nervosa assim.
— Eu sabia! Você está pegando aquele ogro mal-humorado, gente ele
é enorme. Está lavando a cara em moça, quero saber de tudo. Vocês já se
beijaram? Estão namorando? Não acredito que tenho um cunhado gato
daquele. — Mainara não parava de tagarelar, nem por um minuto.
— De onde saiu isso? — Jesse deixou cair no chão a toalha preta que
estava enxugando o corpo, apontando para um vestido longo vinho escuro, da
Prada, frente única, modelo sereia de mangas longas com uma abertura
consideravelmente sensual do lado, mostrando as coxas. Havia um par de
sandálias pretas de salto médio com a etiqueta também da Prada,
confortáveis. Um conjunto de joias de três peças de diamantes vermelhos,
brincos, cordão e um pulseira folheada a ouro. Para completar, um buquê de
flores maior do que o que ganhou de Michelangelo, com um pequeno bilhete
escrito a mão.

Para o seu primeiro baile, espero que goste.


B.M

— O bonitão trouxe para você em uma caixa enorme com um laço


maior ainda por cima, um buquê de rosas vermelhas para mim e outro para a
mamãe com um bilhete lindo dizendo que estava honrado em nos conhecer
pessoalmente. Achamos a atitude dele muito fofa, não se veem cavalheiros
assim por aí hoje em dia. — Jesse ficou pasma, sem saber o que pensar, mas
amou o fato dele ter escolhido tudo pensando nela e para ela.
Mas havia alguma coisa atrás de tudo aquilo e estava morta de medo
de ficar sozinha com Blade para descobrir depois.
— Esqueça disso por enquanto, depois falamos sobre esse assunto.
Me ajude a me arrumar, temos que correr antes que a mamãe apareça batendo
à porta, louca atrás de nós duas. — Mainara concordou muito a contragosto,
emburrada. Depois de quarentas minutos, Jesse estava linda! Com uma

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maquiagem muito bem-feita, o batom vermelho provocante que a irmã


cismou que deveria usar para combinar com o restante do look. O cabelo
prendeu em um coque, preso ao topo da cabeça.
— O ogro delícia vai morrer de ciúme de você irmã, a cara vai ficar
mais azeda ainda. — Mainara soltou uma gargalhada alta.
—Vamos descer logo e pare de gracinhas. — Jesse revirou os olhos
frustrada.
No salão de festas, que ficava atrás da mansão, havia um bandido
impaciente à espera do seu par, também era a sua primeira vez em um baile
de debutantes. Nem na escola havia ido a um, tudo que sabia aprendeu com a
mãe em casa. Falava quatro línguas e tinha um conhecimento maior do que
muito graduado recém-formado. Era inteligente, culto e observador. Olhando
ao seu redor, Blade teve a certeza que jamais iria fazer parte daquele mundo,
era barulho demais para um lobo solitário. A decoração fora toda feita em
branco com dourado, jarros com flores naturais enfeitavam as mesas dos
convidados. Pessoas metidas falando coisas fúteis, fora o olhar questionador
da mãe de Jesse, que o acompanhava por onde quer que fosse.
— Chegou o grande momento de receber a aniversariante e as suas
madrinhas de honra. Cada cavalheiro deve vir até a frente para pegar sua
dama conforme for chamada, essa é a hora de colocarmos beleza nessa festa,
pessoal — brincou o orador do baile, um homem nanico de sorriso simpático.
Blade ficou incomodado de todos nomes serem chamados, menos o de Jesse
que fora o último. Queria vê-la logo e estar com ela.
— Com vocês chamo a linda jovem Jesse Carter, que veste vinho. A
cor da paixão avassaladora e perigosa — anunciou, fazendo o coração do
Homem sem Lei disparar.
Não teve ninguém que não olhasse para ela assim que apontou no
fundo da passarela toda forrada com um tapete vermelho, com as bochechas
coradas. A mistura erótica do rubor da inocência misturando-se ao charme de
uma mulher recém-desvirtuada, algo fantástico. Ela veio andando devagar
com medo de tropeçar, graças a Deus deu tudo certo. Já Blade em um pulo
estava à espera dela, próximo a escada da passarela para recebê-la e pegar o
que era seu.

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— Você está linda! — elogiou, estendendo a mão para ajudá-la a


descer os três degraus.
— Obrigada! — Ela moveu a boca como se fosse dizer algo a mais,
porém se deteve. A conduziu até o mesmo lugar onde estava antes, o mais
discreto do evento.
— Se você respirar eu mato todo mundo e o seu priminho será o
primeiro, entendeu? — ameaçou Blade, envolvendo o braço em volta da
cintura dela.
Jesse apenas confirmou calada com a cabeça.
Passaram grande parte do aniversario assim, ela era teimosa demais e
ele sem um pingo de paciência. Mas tudo mudou até a música dos dois
começar a tocar, que serviu como melodia para a primeira noite de amor
deles. Não ouviram mais nada além dos acordes da guitarra do Bom Jovi, as
lembranças vieram como um raio àmente de ambos.
Blade, percebendo que as costas de Jesse estavam arrepiadas de frio, a
abraçou por trás para aquecê-la melhor. Dando o primeiro passo, a jovem se
virou de frente para o bandido entrelaçando os braços em volta do seu corpo,
pousando a cabeça sobre o peito dele fechando os olhos. Então os corpos
começaram a se movimentar lentamente ao som da música, em um ritmo
perfeito. Quando terminou, a investigadora ergueu o rosto para olhar para o
amado. O que viu foi uma expressão mais relaxada, calma. Em sinal de paz
se equilibrou nas pontas dos pés e beijou o queixo dele sem esperar nada em
troca, mas, para surpresa da investigadora, Blade esfregou a ponta do nariz no
dela. Essa era a forma deles de se desculparem um com outro, levantar a
bandeira branca de paz.
— Não está mais bravo comigo? — perguntou receosa com os dois
pés atrás.
— Muito. — Fechou a cara, perigosamente. — Mais tarde tem que
me explicar direitinho algumas coisas, detalhadamente. — Olhou para a
direção do primo Tony conversando com alguns rapazes perto da mesa de
bebidas, depois voltou os olhos para ela com o cenho franzido.
— Blade eu… — Ele a impediu que falasse, colocando o dedo
indicador sobre os seus lábios.
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— Mais tarde Jesse, mais tarde…


Deixou solto no ar, mas pelo tom dele, Jesse sabia que estava
planejando algo nada bom para ela. Preferiu não aprofundar o assunto, não
seria inteligente provocar a fera na frente de toda a família dela.
— Quer beber alguma coisa? Se quiser eu posso pegar. — Ela
esperou alguns instantes antes de mudar cuidadosamente de assunto.
— Não vai sair de perto de mim para nada — respondeu azedo,
apertando a cintura dela.
—Vamos dançar, Jesse? É a sua música favorita. — Mainara chegou
animada e saiu a puxando para a pista de dança.
Se ela soubesse o problema que estava arrumando para a irmã jamais
faria isso. Jesse começou a mexer o corpo sem graça para não fazer desfeita,
mas o pensamento estava em Blade.
— Lindas não? Elas são o meu tesouro, quem quebrar o coração de
qualquer uma delas vai ter que se ver comigo depois. — Maria Joaquim
apareceu segurando duas taças de champanhe olhando na direção das filhas
dançando, no exato momento em que Blade pretendia ir até lá e tirar a Jesse
arrastada pelos cabelos.
— Entendo. — Maneou com a cabeça mostrando que havia entendido
o recado.
— Aceita? — Entregou uma das taças cheia de líquido borbulhante a
ele.
— Obrigado. — Virou em um gole só, lamentando não ser algo mais
forte. A presença da sogra o intimidava bastante.
— Onde a conheceu? Minha filha não é muito de sair, sempre foi
muito tímida e sensível. — Maria Joaquim o encarou de frente.
— Ela é mais forte e corajosa do que imagina. — Blade não tirava os
olhos de Jesse a vigiando como um caçador de olho na presa.
— De uns tempos para cá tenho notado a minha filha diferente, mais
segura. Sorrindo sempre, feliz. Agora sei o motivo, estou na frente dele. —
Segurou a mão de Blade, olhando no fundo dos seus lindos olhos azuis-
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escuros. — Promete que irá fazer de tudo para não a magoar? Se tiver
paciência com a Jesse, pode ter certeza que nunca será mais amado por outra
mulher do que por ela, nasceu com um coração grande, mas frágil. Então
cuidado, cuide dela com carinho!
— Às vezes a bondade exagerada dela me irrita bastante. Odeio o
efeito que o sorriso dela tem sobre mim, poderia pedir o que quisesse que eu
daria. Por exemplo quando me afronta, me fazendo viajar mais de doze horas
para um lugar frio, odeio lugares gélidos, cheio de coisas importantes para
fazer em casa só porque não atendeu as minhas quarenta e oito ligações —
comentou sem pensar, quando viu já tinha se aberto com alguém que havia
acabado de conhecer. A sogra não era tão ruim como ouviu falar, pelo menos
não aquela.
— Quarenta e oito? — perguntou surpresa.
— Sou insistente quando quero uma coisa, senhora — Blade
respondeu, tirando os olhos da pista e a encarando.
— Fico feliz em saber disso, meu filho!
Maria Joaquim beijou o rosto de Blade e seguiu o seu caminho. Ele
sentiu como se tivesse tido aquela conversa com a própria mãe dele.
Jesse aos poucos foi perdendo o medo e começou a dançar junto com
a irmã, mas se perguntando se Blade ainda estava a vigiando. Em uma breve
espiada viu os olhos dele deslizarem preguiçosamente por todo o seu corpo,
parando mais que o necessário nas suas pernas torneadas, que apareciam na
abertura do vestido conforme se movimentava. Percebeu que os outros
estavam olhando para ela também e achou isso um máximo, na esperança que
Blade estivesse vendo o espetáculo de camarote, que tivesse sendo uma
tortura para ele. Assim daria mais valor em vez de ficar agindo feito um
completo idiota. Enciumado com o que vira, o bandido saiu mandado para
tirar a Jesse da pista de dança, mas foi impedido novamente.
— Está sozinho, gato? — Uma mulher da voz melosa e um vestido
estranho cor de rosa-choque segurou no braço de Blade, que estava prestes a
dar um tiro nela caso não o soltasse. Tinha a voz vulgar e enjoativa, uma
maquiagem exagerada e uma arrogância enorme. Para piorar era oferecida,
Blade odiava esse tipo.

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— Ele não está sozinho, Valéria! E acho bom você ficar bem longe do
que é meu, porque estou armada e não terei um pingo de receio em usá-la,
caso ache preciso. — Jesse levantou a abertura do vestido, mostrando a arma
presa na altura da coxa.
Blade achou a coisa mais sexy do mundo, era uma gata manhosa que
quando acuada mostrava as unhas. Não satisfeita e morta de ciúme, Jesse
pegou na mão de dele e saiu o arrastando para fora do salão, possessa, sem
importar com o frio que estava fazendo.
— É feio sair antes da valsa principal, sabia? — Debochou, gostava
de vê-la irritada. Ainda mais por conta de ciúme. Dessa vez, Jesse não
abaixou a cabeça, defendeu o que era dela.
— O que veio fazer aqui? Você é muito cara de pau, depois de tudo
aparecer como se nada tivesse acontecido.
Blade podia ver de longe as veias do pescoço dela pulando, realmente
estava nervosa. Preocupado que alguém os ouvisse e incomodado com o frio,
a puxou para dentro de uma porta à esquerda. Era uma espécie de adega,
antiga, mas organizada.
— Quem deveria estar nervoso aqui sou eu! Por que não atendeu as
minhas ligações? — Alterou a voz.
— Estava ocupada. — Cruzou os braços, evitando os olhos dele.
— Esquiando com o Tony? — Foi irônico, hostil.
— Sim e foi incrível passar o dia com ele. — Blade perdeu a cabeça e
tirou a arma da cintura, imprensando-a na parede apontando para a cabeça
dela.
— Não me provoque, não sabe do que sou capaz. — Apertava o
pescoço de Jesse cada vez mais forte, os olhos escuros e vazio como uma
noite fria.
— Pode me matar se quiser, pelo menos não vai mais me magoar. —
Blade a soltou imediatamente.
— Você também me magoou. — Era a primeira vez que o vira se
abrindo em relação aos seus sentimentos, mesmo assim isso não diminuiu a
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raiva que estava sentindo por ele.


— Como pôde me abandonar no dia seguinte da nossa primeira vez?
Eu me senti a pior mulher do mundo, me senti usada. Pegou o que queria e
depois jogou na porta do meu apartamento como um cachorro sarnento, foi
embora e me deixou falando sozinha. — Sentiu vontade de chorar, mas se
manteve firme, não derramou nenhuma lágrima.
— Não cheguei nem no final da rua e já estava arrependido, voltei
para fazer as pazes. Mas te encontrei nos braços de outro, o barman. Isso
acabou comigo, passar em cima do meu orgulho e vir aqui não foi fácil para
mim, mas vim porque não aguentava mais ficar um minuto sem te ver. Para
completar chego e te vejo de mãos dadas com o tal Tony, fora o striptease
que fez para o capanga do meu maior inimigo. — Ele não havia voltado para
se desculpar, mas voltara porque a vira nos braços de Michelangelo. E
mesmo magoado veio para o baile, porque sabia que era importante para ela.
— E foi chorar as mágoas em uma boate ao som de música eletrônica
e várias mulheres dando em cima de você, aposto que dormiu com metade
delas. — Ela estava ficando boa em ser irônica, tocar no ponto certo para
afetá-lo.
— Eu não fui em porra nenhuma, aquele barulho que ouviu era o Li
vendo televisão com o volume alto. Os personagens é que estavam em uma
boate, eu estava feito um idiota deitado no sofá pensando em você —
exclamou sem paciência.
— Eu te feri, você me feriu. O jeito é nos afastarmos, fingir que nunca
nos conhecemos — Jesse falou engolindo o choro, mas sabia que era o certo
a se fazer. O que começa errado, termina pior ainda.
— Você gosta do barman? — perguntou de um jeito muito fofo. Jesse
balançou a cabeça negativamente com o coração partido.
— Do Tony, então? — Ele parecia uma adolescente, inseguro.
— Eu amo você, Blade! — O olhar dele iluminou como o nascer do
sol, cheio de esperança.
— Mentira, quem ama não desiste. — Afastou-se dela, magoado.
— Às vezes desistir é a maior prova de amor que se pode dar a uma
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pessoa, talvez um dia você entenda que certos afastamentos por mais
dolorosos que sejam, servem para evitar sofrimentos maiores. É obvio que
nunca vamos dar certo juntos, insistir é pior. — Jesse tinha razão, e ele sabia
disso.
— Vou sentir sua falta, anjo — declarou Blade com a voz levemente
trêmula.
— Eu também.
Jesse o abraçou forte, e foi retribuída na mesma intensidade, caindo
em seguida em um pranto sem fim. Não conseguiu segurar o choro quando
ele começou a cantar um trecho música deles bem baixinho em seu ouvido,
enquanto lhe afagava os cachos com carinho.
Tem chovido desde que você me deixou Agora estou me afogando no
dilúvio Você sabe que sempre fui um lutador Mas sem você, eu desisto.

Agora não posso cantar uma canção de amor


Como deve ser cantada
Bem, acho que não sou mais tão bom
Mas querida, eu disse que estragaria tudo.

Sim, e eu te amarei, querida, sempre


E estarei ao seu lado por toda a eternidade sempre Eu estarei lá até as estrelas deixarem de brilhar
Até os céus explodirem e as palavras não rimarem
E sei que quando morrer, você estará em meu pensamento E eu te amarei, sempre…

Tudo o que vivemos não volta mais,


São apenas lembranças de uma vida diferente.
Algumas que nos fizeram rir
Algumas que nos fizeram chorar
Uma que você fez ter que dizer adeus.
Mas não esqueça que eu te amarei… Sempre…

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— Meu Deus, que dor! Não queria que tivesse que ser assim, queria
poder te fazer feliz! — Jesse chorava tanto que molhou a gola da camisa dele.
Estava sendo muito difícil para ela deixá-lo ir.
— O pouco que conheci da felicidade foi ao seu lado, obrigado por
isso. Por me dar a oportunidade, mesmo que só por um instante, de acreditar
em finais felizes e que o amor cura tudo, até as piores pessoas como eu. —
Eles estavam tão agarrados um ao outro que pareciam que não iam se soltar
nunca mais.
— Eu não quero que vá — Jesse sussurrou no ouvido dele, com a voz
chorosa.
— Não me deixe ir — ele sussurrou de volta. Sem resposta da parte
dela a soltou, virando para ir embora de vez.
— Se cuida — Blade disse levando a mão na maçaneta da porta, sem
coragem de olhar uma última vez para ela.
— Por favor fica, faz amor comigo? — ela pediu, fazendo a mão dele
congelar no ar antes que chegasse à porta. Mas pensou melhor, resolveu fazer
o certo.
— Não importa o quanto me arrependa de tudo o que fiz, não há
religião que possa me salvar. O meu coração sangra por saber que nunca
chegarei nem perto do que você merece e isso me atormenta todos os dias.
Não piore as coisas, deixe como está. Procure um rapaz da sua idade e que
não seja um cara tão problemático como eu. —Torceu a maçaneta para o lado
direito, abrindo a porta.
— Se você for será para sempre, mas se resolver ficar é para fazer
amor comigo e não me soltar mais. A escolha é sua, mas saiba que seja qual
for não tem mais volta. — Foi taxativa, era tudo ou nada. A única coisa que
ela ouviu foi o som da porta batendo com força, com ele do lado de dentro.
— Mas que porra, Jesse! Você é muito boba. Era a sua chance de se
livrar de mim — Blade começou a resmungar rabugento, mas ela o calou
com um beijo apaixonado, cheio de esperança para um futuro juntos.
Então, naquele momento descobriram que o amor só dá certo quando
a gente oferece a alma do jeito que ela é. Sem precisar ser feito, apenas de

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verdade.
Enquanto isso, no baile de debutante, Maria Joaquim estava entretida
ajeitando um arranjo de flor sobre a mesa principal, ao lado do bolo de três
andares e uma montoeira de brigadeiros, quando percebeu alguém se
aproximando atrás dela.
— Com licença senhorita, você por acaso viu a Jesse Carter por aí?
Preciso muito falar com ela, é urgente. — A voz era grossa, mas pelo excesso
de educação, muito agradável.
— Primeiro não é senhorita, é senhora Carter. Segundo, por que um
encanador do prédio da minha filha viajou para o Canadá atrás dela? —
Maria Joaquim nervosa colocou as mãos na cintura e Julius engoliu em seco
pensando: O que faço agora?

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CAPÍTULO 26

Jesse passou os braços em volta do pescoço de Blade durante o beijo,


puxando-o para si. Ele havia a pressionado com brutalidade contra a parede,
moldando-a ao seu corpo. As mãos dele deslizavam pelas curvas dela sem
nenhum pudor até pousarem sobre as nádegas da jovem, apertando com força
e com vontade e durante todo esse tempo. Os seus lábios continuavam
colados um no outro em ritmo avassalador e insaciável. Blade mordeu a parte
inferior da boca de Jesse fazendo-a gemer, isso fez ele sorrir em meio ao
beijo.
— Você me deixa louco, investigadora — ele confessou quase sem
voz e começou a beijá-la de forma desesperadora.
— Em qual sentido? — Jesse fez charme, afastando a boca da dele.
Blade fechou a cara não gostando de perder o contato físico.
—Todos — respondeu rápido na pretensão de continuar de onde
haviam parado.
— O senhor também não é fácil, senhor Maldonado. — Blade a
encarou com o semblante sério e, imediatamente, Jesse se preparou para o
pior.
— Nunca disse que era. — Seu tom de voz ficou defensivo.
— Bom, como costumam dizer por aí, quanto mais difícil, melhor,
mais gostoso. — Jesse o desarmou, estava aprendendo como domar a fera.
— Gostoso é? — perguntou malicioso acariciando-lhe os seios
levemente, esfregando os polegares nos mamilos que começavam a despontar
sob o tecido fino do vestido. Jesse sentiu uma onda de calor e prazer possuir
o seu corpo.
— Safado! — Jesse suspirou, totalmente entregue.
— Não viu nada, mas terá a oportunidade de ver! Ou melhor, sentir
bem forte e fundo. — A última palavra praticamente sussurrou com os lábios
cerrados aos dela, seduzindo-a.
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— Por que não me mostra agora? — A resposta dela mesmo que meio
insegura o surpreendeu bastante, ainda mais quando Jesse levou a mão no
cinto da calça dele na intenção de abri-lo.
— Precisamos parar, antes que eu faça alguma idiotice.
Mesmo querendo muito, Blade sabia que a possuir ali seria loucura.
Alguém poderia pegá-los em flagrante. A primeira pessoa que veio à sua
mente foi a mãe dela, que, provavelmente, quando sentisse a falta da filha
sairia a sua procura. Não queria problemas com a sogra.
— Idiotice? — A insegurança de Jesse dobrou, agora era ela quem
não queria mais. Desviou o olhar, chateada.
— Olhe para mim — ordenou, mas ela não obedeceu. Então Blade
virou o rosto dela obrigando-a olhar nos olhos dele. — Não sou nenhum
adolescente, Jesse. Para mim você é como uma dessas garrafas de vinho
antigas dessa adega, valiosa demais e que quero degustar com calma, de
preferência na minha cama. Já que me fez vir para esse lugar frio, o mínimo
que deve fazer é me manter aquecido. — Beijou o rosto de Jesse, depois a
abraçou. — A noite toda e durante o dia também — concluiu por fim,
sentindo o coração dela bater forte contra o seu peito.
— Eu te amo, Blade! — Ela se declarou, mas não teve resposta da
parte dele.
Sentiu a respiração dele ficar suave e os seus braços se estreitarem
mais em volta dela. Jesse não ficou triste, pois não esperava que ele
respondesse. Sabia suas limitações e as respeitava. Tinha ciência que talvez
nunca ouvisse um "eu te amo", mas para ela não importava ficar falando.
Mais vale sentir do que falar!
— Pegue algumas peças de roupas para usar amanhã e deixe um
bilhete para a sua mãe sobre a cama, dizendo para não se preocupar, porque
estará comigo.
Jesse não entendeu tanta confiança da parte dele em falar com a sua
mãe que passaria a noite e o dia seguinte com um homem que ela acabara de
conhecer, era quase o mesmo que dizer que a filha tinha sido sequestrada por
um louco estuprador de garotas indefesas. Jesse não sabia de nada, estava
inocente, Blade já tinha ganhado a sogra assim que Maria Joaquim colocara
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os olhos nele no hospital, segurando a sua mão há um tempo atrás.


Mesmo sem entender, fez o que ele mandou, obedeceu e colocou
algumas peças de roupas e alguns objetos de higiene pessoal dentro da
mochila. A ideia que iria acordar ao lado dele pela manhã era maravilhosa,
perfeita. Fez o trajeto de ida e volta até o quarto sem que ninguém a notasse e
sorriu quando encontrou Blade esperando por ela, impaciente, encostado em
um carrão branco novinho em folha. Parecia aqueles de filme, caro e veloz.
Ele tinha se livrado do casaco e da gravata, ficando apenas de camisa branca
de mangas longas como se não sentisse o frio congelante do Canadá. De fato
era um homem quente. Ainda mais com as mãos no bolso, as pernas cruzadas
uma na frente da outra e uma expressão sexy no rosto, um verdadeiro deus do
Olimpo.
—Você demorou — resmungou abrindo a porta do lado do carona.
Blade era grosso, mas sabia ser gentil quando queria.
— Relaxa, temos a noite toda e o dia também. — Jesse beijou o rosto
dele antes de entrar no carro.
— Para mim é muito pouco — esbravejou o bandido de cara azeda.
— Para onde vamos? — perguntou Jesse tentando colocar o cinto,
sem sucesso, Blade ajudou com ignorância. Se não o conhecesse o jeito dele,
teria ficado magoada.
— Não interessa! — Cortou o assunto dando partida, saindo em
disparada em direção ao centro da cidade de Toronto.
— Obrigada pelo vestido e os demais presentes, eu amei! — Sorriu
para ele, tímida.
Queria ter dito que mesmo gostando tanto não iria aceitar,
principalmente as joias. Mas achou melhor deixar para dizer outra hora, para
não o deixar nervoso e estragar tudo como depois da primeira vez dos dois no
esconderijo. Blade não respondeu nada, esticou o braço para o banco de trás
da Ferrari GTC4Lusso e pegou uma pequena caixa preta com um laço por
cima.
— Aqueles presentes comprei para você, esse é para mim! —
Colocou a pequena caixa na palma da mão de Jesse, que a segurou com

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cuidado. As bochechas dela coraram quando a abriu, morta de vergonha. Era


uma fantasia erótica da Chapeuzinho Vermelho, uma capa com capuz
vermelho-sangue e a calcinha fio dental minúscula na mesma cor. O tecido
era tão fino que chegava a ser transparente, no lado esquerdo do quadril havia
um pequeno laço.
O hotel cinco estrelas que Blade estava hospedado era o maior e mais
luxuoso da cidade. Não trocaram uma palavra sequer durante o trajeto do
carro até o elevador, onde esperavam o próximo para subir até a cobertura.
Estavam em total silêncio. Jesse segurava a mochila nervosa, ainda mais
porque sabia que os olhos dele queimavam sobre ela. Surpreendeu-se quando
sentiu os dedos da mão direita do bandido deslizarem entre os dela e não a
soltou mais.
— Você está bem? — perguntou Blade em um tom preocupado
olhando para ela, que tremia mesmo usando um casaco grosso de pelos bege
sobre o vestido que pegou quando fora no quarto, antes de saírem da mansão
dos tios.
— Só com um pouco de frio. — Encolheu-se fingindo prestar atenção
na tela fixada na parede que mostrava onde o elevador estava, vinte e quatro
andares acima. Ele sabia que Jesse estava mentindo, o tremor tinha outro
motivo: ansiedade.
— Vai passar quando o seu corpo estiver debaixo do meu, com
minhas mãos deslizando em cada centímetro dele — Maldonado disse
naturalmente num tom de tranquilidade.
Ele era completamente irresistível, em todos os sentidos. Jesse apenas
engoliu em seco fazendo cara de paisagem como se não tivesse ouvido o
comentário.
De repente, entraram quatro rapazes na faixa de vinte e poucos anos
no elevador. Pareciam estar voltando de alguma balada, o cheiro de álcool
tomou conta da grande caixa de aço. Blade, notando a forma que os
indivíduos olhavam para Jesse de cima a baixo, admirando suas curvas
delicadas e bem-moldadas pelo vestido que ele tinha comprado e escolhido
pessoalmente, puxou a jovem para mais perto de si imediatamente para que
soubessem que ela já tinha dono e que esse sortudo era ele. E além disso os
fuzilou, fazendo-os saírem amedrontados no próximo andar, praticamente
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voando.
— O que você tem, Blade? — perguntou Jesse confusa, sem entender
o porquê ele estava com a cara mais fechada que o normal. Afinal, ela não
havia feito nada de errado, pelo menos não naquele momento.
— Ciúme! — respondeu apenas, entredentes. Pela expressão dele,
achou melhor deixar o assunto quieto, mas o sorriso vaidoso estava lá,
presente no rosto de Jesse.
— Alugou uma cobertura inteira só para você ficar alguns dias aqui?
— perguntou Jesse, assim que chegaram de frente à porta.
— Para nós. — Blade tirou um cartão do bolso destrancando a porta.
A jovem levou a mão à boca encantada com o que viu.
O apartamento estava todo enfeitado com flores de todas as cores. No
chão havia um tapete de pétalas de rosas vermelhas que fazia um caminho até
a suíte principal, a cama com lençóis de seda branca. No criado-mudo ao
lado, uma garrafa de champanhe dentro de um recipiente com gelo e duas
taças de cristal. O teto era todo espelhado, podiam se ver enquanto fizessem
amor. As janelas eram panorâmicas, sem cortinas e dava vista para a cidade
de Toronto, tendo como pano de fundo as montanhas cobertas por uma
camada grossa de neve iluminada pela lua. A luz era fraca e aconchegante,
assim como o clima do lugar agradavelmente quente e acolhedor. O luxo
estava em toda parte, desde os móveis modernos a cada mínimo detalhe da
decoração. Ele havia pensado em tudo para agradá-la.
— Gostou? Não sou muito bom nisso.
E se fosse então? Pensou ela correndo os olhos pela cobertura. Pela
primeira vez Blade estava inseguro achando que ela não iria gostar da
surpresa que ele havia preparado com as próprias mãos antes de ir à casa da
família de Jesse a procura dela.
— Eu amei, obrigada! Pensei que lobos não mandavam flores, nem
fossem românticos. — Beijou os lábios dele sorrindo, emocionada.
— Você é a minha exceção, lembra?
— E isso me deixa muito feliz. — Sorriu de um jeito encantador.

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— É preciso de tão pouco para fazê-la feliz! — Tocou-lhe o ombro


com as pontas dos dedos em movimentos leves.
— Eu não chamaria isso de pouco, senhor Maldonado. — Levou o
dedo indicador ao meio do peito musculoso de Blade sobre o tecido caro do
terno importado.
— O banheiro fica na segunda porta à esquerda, pode usá-lo para se
trocar. — Blade tinha um sorriso malicioso e calculado nos lábios.
— Está bem — Jesse respondeu envergonhada, olhando para a
direção que ele falou.
— Não demore — ordenou, apertando a bunda dela.
Trinta minutos depois Jesse voltou usando apenas a minúscula
calcinha fio dental e a capa vermelha. Havia soltado o cabelo, os cachos
estavam mais rebeldes do que nunca. A delicadeza de um anjo vestida com a
ousadia de um demônio. Os olhos dela se acenderam de desejo ao ver Blade
em frente à enorme janela que ia do chão ao teto só com a calça desabotoada
e o fecho aberto, deixando à mostra a parte bem abaixo do abdômen. Ele
tinha os olhos fechados, sentindo o vento gélido tocar o seu rosto. A sua
expressão era de paz.
Assim que sentiu a presença dela, Blade os abriu, virando o rosto para
o lado para admirá-la melhor. Chegou a encher de ar o peito perfeitamente
tatuado e expirou lentamente. Começou uma minuciosa varredura dos pés
pequenos descalços sobre as pétalas de rosas e subiu devagar até encontrar os
olhos castanhos-escuros e tímidos. Em vez de pular em cima dela como
qualquer outro homem faria no lugar dele, Blade caminhou tranquilamente
até a garrafa de champanhe e serviu-se de uma taça. Pensou que o bandido
enfim iria tocá-la, mas ele não o fez. Passou por ela segurando a sua bebida e
sentou em uma poltrona no canto, que dava uma visão ampla e privilegiada
de todo o quarto. Cruzou as pernas e sorveu um gole, sem perder o contato
visual com a investigadora.
— Dance para mim, quero que toque o seu corpo pensando em mim
como fez em Tijuana. — Uma voz grossa e sexy ecoou pelo quarto. Era
evidente que estava muito excitado. A mesma música que tocou no bar
naquele dia começou a tocar, a "Lambada — Dança Proibida”. Jesse

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permaneceu paralisada, envergonhada demais para atender o pedido dele.


— Não podemos pular essa parte? — Jesse perguntou sem graça.
— Agora! — Mandou tirando uma arma da cintura destravando-a e
colocando sobre o colo, em forma de ameaça.
Jesse sabia o que ele estava fazendo, queria puni-la por conta do
striptease que fizera para o capanga do Matteo Castelli. E tinha razão, Blade
poderia deixar passar o abraço com o barman e o esqui com o primo Tony,
mas jamais deixaria isso passar em branco. O pequeno episódio com o
capanga do inimigo. Era detalhista e vingativo. Isso era muita ingratidão da
parte dele, não era justo ser punida por ter arriscado a vida para ajudá-lo. E a
boba aqui pensando que estava sendo romântico comigo, não passava de
uma encenação para me castigar. Mas se queria brigar, que aguentasse as
consequências.
— Como quiser! — Tirou a capa o surpreendendo, como sempre.
Blade babou olhando para ela só de fio dental vermelho, era uma
combinação perfeita com a cor negra de sua pele. O jeito que a olhou, sabia
que estava perdido nas mãos dela. Jesse fechou os olhos sentindo o ritmo da
música, deixando-se levar por ela. Começando com um movimento muito
sexy no quadril, enquanto deslizava as mãos pela lateral do corpo, nas curvas.
Não satisfeita, virou de costas sem parar de rebolar, segurando os cachos no
topo da cabeça depois soltando-os como uma cascata.
— Santo Deus! — exclamou Blade fora de si, ela havia se curvado
como se estivesse reverenciando algum rei, empinando a bunda. E subiu
deslizando as mãos nas pernas, em algum tipo de dança erótica e provocante
inventada por Jesse. O que mais o excitava era a forma delicada com que
realizava os gestos, parecia uma bailarina com tanta leveza e charme. Para
piorar a situação do bandido, a jovem começou a cantar com a voz doce junto
com a música.

A recordação vai estar ele para sempre aonde eu for, Chorando


estará ao lembrar de um amor Que um dia não soube cuidar
Canção, riso e dor, melodia de amor Um momento que fica no ar.
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Não bastava parecer com um anjo, tinha que cantar como um


também, pensou Blade hipnotizado como um marinheiro entregue ao canto de
uma sereia. Virando-se de frente para ele novamente, com uma mão, Jesse
apertava um seio e a outra enfiou dentro da calcinha, de fato, imaginando ser
tocada por ele. Blade remexeu-se na poltrona tentando ajeitar o volume que
havia se formado dentro da calça, mas estava se tornando grande demais para
manter escondido.
— Agora já chega, porra — Blade praticamente gritou, nervoso.
Ficou irritado ao ver que ela estava se virando muito bem na função
de se dar prazer, que era dele. Mas Jesse não parou, parecia estar em algum
tipo de estado de transe. Quando a música enfim terminou, a investigadora
abriu os olhos se deparando com o bandido diante dela com uma expressão
assustadora.
— Chegou a hora do Lobo Mau atacar! — Blade a empurrou sobre a
cama arrancando-lhe a calcinha, tirou a calça, depois a cueca branca dando a
ela uma bela visão do membro incrivelmente ereto apontando para o teto.
Engatinhou sobre Jesse cobrindo totalmente o seu corpo frágil com o dele.
Um manto que toda mulher sonhava ter na vida.
— Para que que esses olhos tão grandes, Lobo Mau? — brincou ela,
percebendo a forma gulosa que olhava para ela enquanto tocava-lhe a coxa
alisando com as pontas dos dedos.
— Para te ver melhor, Chapeuzinho! — respondeu, olhando no fundo
dos seus olhos. Havia fogo e desejo dentro deles.
— E essa boca grande? — perguntou Jesse, sem saber do perigo que
estava correndo indo em frente com aquela brincadeira. Ele não respondeu
nada. A única coisa que a jovem ouviu foi o barulho das algemas sendo
trancadas em torno dos seus pulsos.
— Para te comer melhor!
Quando deu por si, Blade estava com o rosto enfiado no meio de suas
pernas depois de descer beijando todo o seu corpo. Jesse estremeceu, não
queria nem pensar o que estava passando na cabeça do último perigoso e
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destemido Maldonado.
— Blade, por favor, eu nunca imaginei ser toca… — Ela se calou,
envergonhada.
— Tudo sempre tem uma primeira vez! — E beijou-lhe as coxas.
Blade não parou de olhar nem por um instante para o rosto dela atento a
qualquer sinal de desconforto.
— Anjo, abra as pernas!
Os olhos de Jesse ficaram apreensivos e desconfiados. Mas fez o que
ele mandou, se estivesse com as mãos soltas teria coberto o rosto morta de
vergonha. Blade sabia disso, por isso as prendeu, queria que ela o visse
dando-lhe prazer.
— Não se preocupe, vai gostar! — Blade sorriu sacana e começou a
acariciá-la com os dedos. Jesse gemeu só com aquele simples contato.
— Tenho certeza que sim! — disse Jesse tensa.
Blade ouvia a respiração dela se acelerar à medida que se aproximava
da intimidade dela. O bandido inclinou a cabeça a admirando. E gostou do
que viu, a ansiedade nos olhos dela em ser tocada por ele. Primeiro beijou a
parte interior da coxa, depositando uma leve mordida no mesmo lugar,
provocando-a antes de começar a tortura com a boca. Ela arqueou o corpo ao
sentir sua língua deslizando por toda a extensão de sua entrada, quente e
úmida. Foram gemidos e mais gemidos, altos e excitantes. Maldonado
começou a chupá-la cada vez mais rápido, até ela se debater e tentar fechar as
pernas. Foi então que a jovem chegou ao seu ponto máximo, soltando um
gemido tão alto que pareceu um grito de socorro. E gozou, sentindo o corpo
relaxar nas mãos dele. Blade continuou a chupá-la, lentamente, apreciando o
gosto dela. Soltou as algemas, enquanto a beijava.
— Isso foi incrível — Blade olhou para aqueles lindos olhos escuros,
expressivos contendo um sorriso convencido, feliz por ser o responsável por
dar tanto prazer ao seu anjo.
— E vai ficar cada vez melhor, temos a noite toda pela frente!
Blade alcançou a mão para pegar uma camisinha, mas se esquecera de
comprar. A última usara na primeira vez de Jesse e como não vivia mais uma
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vida imunda, esqueceu-se de comprar mais. Sem pensar muito, jogou tudo
para o alto, agindo como um adolescente inexperiente e apaixonado.
— Oh! Assim é muito melhor, vou tentar me lembrar como você está
sempre certo. — A voz dela saiu manhosa, carregada de luxúria.
Dessa vez Blade não foi gentil como da primeira vez, segurou o
cabelo dela entre os dedos a penetrando com força cada vez mais fundo. A
impressão era que fosse parti-la ao meio a qualquer momento e olha que
estava se segurando bastante para não a amar como queria. Ficaram nessa
dança erótica por um bom tempo, até os dois corpos estarem suados e
saciados.
— Você é minha! — Blade urrou feito um cavalo no cio, gozando
como nunca havia feito antes com nenhuma das tantas outras mulheres sexys,
confiantes e maduras com quem tivera relações. Repetiram a doze por mais
algumas vezes, até perderem totalmente a força. Durante o resto da noite, o
anjo adormeceu nos braços do demônio, entrelaçados, carne com carne. Entre
beijos sonolentos e carícias espontâneas de cumplicidade.
— Está acordada, pequena? — Blade sussurrou no ouvido de Jesse,
que se aninhava preguiçosamente dentro dos seus braços.
O dia havia acabado de clarear e ele não podia esperar nem mais um
segundo para ouvir a voz dela. Ficar com ela estava se tornando um vício,
uma perigosa obsessão.
— Bom dia, amor! — Jesse respondeu bocejando, ainda sonolenta,
com os olhos fechados.
Blade arregalou os olhos, não esperava por aquilo. Realmente Jesse
Carter era uma caixinha de surpresas, que aos poucos desvendava. Sempre
pensou ter sido feito para ser ímpar e não par, tampouco ser amado de
verdade por uma mulher, além de sua mãe.
— O que você disse? Acho que não ouvi direito. — Eram raros os
momentos em que Blade demostrava algum tipo de sentimento e aquele era
um deles.
— Eu disse “Bom dia”! — Os olhos de Jesse ainda permaneciam
fechados, ainda estava com sono.

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— Não essa parte, a outra — falou baixinho, tímido.


— Que parte, amor?
A palavra "amor" saía tão natural da boca de Jesse, que poderia ouvi-
la dizer sempre. Ele se inclinou-se para beijá-la na curva do pescoço, estavam
abraçados de conchinha e falou bem perto dela, perto demais.
— Ainda não te ouvi direito — mentiu, cinicamente.
— Mentiroso! — brincou ela, abrindo os olhos.
— Obrigado! — Dessa vez Blade disse em um tom sério e firme
apertando a cintura dela com força.
— Por quê? — Entrelaçou os dedos nos dele para passar segurança.
— Por me amar mesmo eu não merecendo ser amado. — A voz de
Blade estremeceu e os músculos do seu corpo ficaram tensos.
Jesse, preocupada, virou o rosto para olhá-lo, encontrando dois olhos
azuis cintilantes e tristes.
— Eu te amo, Blade Maldonado! — declarou com bastante ênfase no
"eu te amo".
Ele não disse nada, tocando-lhe os lábios com os seus. Abriu as
pernas dela com o joelho, não precisava ser muito inteligente para saber o
que pretendia. Se posicionou melhor e a penetrou segurado firme em seus
quadris e apertando-lhe os seios. Nada melhor do que selar aquele momento
fazendo amor em uma linda manhã de sábado em Toronto vendo a neve cair
através do vidro. Depois acabaram adormecendo outra vez, sem hora para
acordar.

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CAPÍTULO 27
“Acerto de contas.”

Havia um mexicano e um chinês desesperados à procura do casal


Blade Maldonado e Jesse Carter por cada centímetro de Toronto. Eles tinham
viajado para lá às pressas, precisavam encontrar o parceiro com urgência para
contar o que de tão grave, que só poderia ser dito pessoalmente, havia
acontecido recentemente.
— O que houve na casa dos tios da Jesse que te deixou com essa cara
azeda a noite toda, Julius? — perguntou Li, curioso.
O mexicano saíra da festa de aniversário feito um tiro, de cara
fechada. O chinês, que o esperava no carro quase congelando do lado de fora,
ficou sem entender o porquê de tanto mal humor.
— Você acha que eu tenho cara de bandido? — Julius respirou fundo,
abatido, olhando para o chinês, que se encontrava sentado todo torto no
banco carona enrolado feito um bebê em um cobertor azul com o cabelo todo
arrepiado.
Passou a noite toda dirigindo à procura de Blade, já que Maria
Joaquim não facilitou em nada, praticamente o expulsando a pontapés do
baile. Parecia que tinha medo dele ou do que a sua presença causava nela,
melhor dizendo.
— Não, só olho para você e lembro da minissérie “Prison Break”.
Aquela que tem um monte de presos com a vida toda ferrada e caras de
psicopata. — Li falou irônico. Diante dos últimos acontecimentos não estava
para brincadeira.
— Eu estou falando sério, porra! Será que não dá para conversar
direito com você? Estou cansado das suas piadinhas sem graça, nem sei por
que perco o meu tempo te perguntando as coisas. — Trovejou Julius, socando
o volante nervoso.
— Ok! Qual o nome dela? — Li cruzou os braços, sem paciência.

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— Não sei, ela não me disse. — Torceu os lábios, revirando os olhos


debaixo dos óculos escuros. — Ela pensa que sou um bandido que está
perseguido a filha dela.
Coçou a cabeça sem jeito, usava o cabelo sempre cortado bem baixo,
quase rapado. Julius tinha um coração grande, era sensível para essas coisas
de amor. Quando amava era intensamente, já tivera o coração partido por
diversas vezes, então tinha muito medo quando sentia que estava começando
a se interessar por alguém de verdade.
— Mas você é um bandido, criatura! E de certa forma está
perseguindo a filha dela, sim, ela tem toda razão de ficar desconfiada — Li
gritou no ouvido do parceiro.
— Eu sei, mas ela não sabe! Está me julgando pela aparência, só
porque sou grande e musculoso, odeio usar terno. Isso é muito injusto, não
me deu nem a chance de explicar o porquê precisava falar com a filha dela.
— Choramingou, lembrando da curta conversa que tivera com Maria
Joaquim. A mulher lhe chamava a atenção de uma forma diferente, intensa.
Era como se eles se conhecessem há muitos anos, de outra vida talvez.
— Quer dizer então que você viajou até aqui atrás da minha filha para
dizer que estourou um cano no apartamento dela e está todo alagado? —
Maria Joaquim tinha o cenho franzido, as mãos na cintura, prontas para
atacar e defender sua cria, caso fosse preciso.
— Sou muito bom no que faço, senhora, em tudo!
Um arrepio correu pelo corpo de Maria Joaquim, pensamentos
impuros em sua mente. Pediu perdão a Deus mentalmente por isso. Era mãe
de família e não podia pensar nesse tipo de coisa, ainda mais com um homem
que acabara de conhecer, mas que mexia tanto com ela.
— E como conseguiu entrar aqui? Está na cara que não é um
convidado. — Olhou para ele de cima a baixo, admirando uma montanha de
músculos de quase dois metros de altura.
Julius, de fato, não estava vestido para a ocasião, não precisava ser
muito inteligente para saber que não deveria estar ali. Trajava casaco
comprido, preto, grosso e de bolsos largos, calça jeans escura e justa enfiada
dentro de botas de camurça de canos longos.
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— O que há de errado com a minha roupa? — retrucou Julius.


— O que não há de errado com ela? — Maria Joaquim falou sem
pensar e o mexicano olhou para ela e se perguntou de onde Jesse havia
herdado tanta doçura e delicadeza, já que daquela mulher não foi! E muito
menos do pai, que era um policial corrupto.
— Não sou obrigado a ficar aqui ouvindo suas grosserias! De onde eu
venho, se alguém chega em uma festa não importa como esteja vestido, será
bem tratado do mesmo jeito. — Julius foi mais rude do que queria, nenhum
dos dois sabia o motivo de tanta antipatia um com o outro. Mas como Blade
dissera para Jesse um dia: "Quem desdenha quer comprar”.
— Pelo amor de Deus, Julius! Nós com um problemão desse e você
pensando em mulher? Temos que achar Blade e voltar logo para Los
Angeles. Graças a Deus, Bobbi não desconfiou de nada quando demos a ideia
de ele passar a semana na casa da namoradinha dele. Não existe lugar mais
seguro do que a casa do consagrado juiz Thompson em Washington. Se o
Mascote souber o que está acontecendo, vai entrar em total desespero —
explodiu Li. Em seu rosto não havia nenhum vestígio do brincalhão que
costumava ser. O chinês limpou depressa uma lágrima que escorregou pelo
rosto de traços orientais, a essa altura Julius estava em prantos também.
— Eu tenho medo da reação do Blade quando souber. Vai querer
vingança e acabar fazendo uma besteira das grandes — bufou Julius,
preocupado.
— Não importa qual será a reação dele, mas, sim, que temos que
deixá-lo a par de tudo o que aconteceu. E seja o que Deus quiser, se prepare
para ver o inferno sendo aberto bem diante dos nossos olhos libertando os
piores demônios que existem dentro de Blade Maldonado.
Li e Julius trocaram olhares, ambos carregados de preocupação com o
que estava por vir dali em diante. E assim seguiram o caminho, fazendo a
varredura nos últimos hotéis de Toronto que faltavam passar. Blade sabia
muito bem se esconder quando queria, era bom nisso. Só queria ficar junto do
seu anjo sem ser incomodado por nada ou ninguém.
Depois de dormirem por mais algumas horas e fazerem amor durante
boa parte da manhã, Blade acordou as 14h esfregando os olhos, irritando-se

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quando passou a mão no lado de Jesse e não encontrou nada. Levantou à


procura dela pela cobertura, enrolado em um lençol azul-claro com a metade
arrastando pelo chão, o cabelo todo bagunçado, tal qual uma criança manhosa
à procura da mãe.
Encontrou-a na cozinha, preparando o café da “tarde” dele, ou pelo
menos tentando. Jesse estava de costas encostada no balcão, vestindo apenas
a camisa branca de mangas compridas, que fazia parte do smoking que ele
usara na noite interior, apenas aquilo e mais nada. O cabelo preso ao topo da
cabeça com um elástico, com alguns cachos soltos, cantando um louvor que
falava sobre o amor de Deus e como Ele era misericordioso com os filhos. De
fato, a voz dela parecia a de um anjo, pensou Blade parado na porta a
observando enquanto cortava alguns morangos em pedaços pequenos para
colocar na salada de frutas. Elevou o pé esquerdo descalço até a parte de trás
da panturrilha e coçou-a de leve com a ponta do dedo maior, de uma forma
muito sensual. Foi preciso se controlar para não a arrastar para a cama
novamente e passar o resto do dia lá namorando.
— Boa tarde, pequena — Blade disse com a voz grave e charmosa e
aqueceu toda a cozinha e também o coração de Jesse, que virou a cabeça para
trás para olhá-lo, lindo, com a cara de sono, segurando o lençol na altura da
cintura.
— Bom dia, amor! — Jesse abriu um sorriso lindo, na verdade,
encantador e que, acompanhado da palavra "amor", nesse tom angelical, era
apaixonante. Aquele cabelo preso de forma desconexa com alguns cachos
soltando do elástico era a cena mais linda que vira na vida. O seu anjo nunca
pareceu tão lindo como naquele momento. Pensou em como pôde odiá-la
tanto quando a conhecera. Se antes não suportava a voz dela, agora não
conseguiria viver sem ela.
— Eu poderia me acostumar com essa cena todos os dias da minha
vida — disse mais para ele do que para ela em um suspiro cheio de paixão.
— Eu também. — Jesse olhou para o peito dele nu todo tatuado, a
coisa mais sexy do mundo para ela. — Com certeza — completou vendo a
cara de safado com que ele olhava para as suas pernas.
Blade parecia uma máquina de fazer sexo, sempre querendo mais e
mais. Na noite passada mal terminava uma rodada e já estava pronto para
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outra.
— Não gostei de acordar e não te ver ao meu lado, espero que isso
não se repita mais. — Seu tom era grave e ameaçador. Fechou a cara, com
uma tromba enorme.
— Só queria que quando o meu amor acordasse, ele tivesse uma bela
mesa de café da manhã, ou melhor, da tarde.
Blade olhou para o lado, deparando-se com uma mesa com vários
tipos de coisas saudáveis: suco natural de laranja, ovos mexidos, iogurte de
ameixa, leite e café forte, entre várias outras coisas. Ele avaliou tudo de perto,
sem pressa.
— Quando aprendeu a cozinhar? — perguntou desconfiado, com a
sobrancelha arqueada.
— Na verdade eu liguei para a cozinha do hotel e pedi tudo. Mas
paguei com o meu cartão. Como o Lar Angel, da Irmã Florence, recebeu uma
doação gorda de alguém misterioso e que dará para eles viverem bem por
décadas e até pagar a faculdade das crianças, não estão mais precisando da
minha ajuda, o meu salário agora está sobrando inteiro. Vão até construir
uma casa nova para as crianças mudarem! Fiquei tão feliz por eles, que Deus
abençoe essa pessoa, onde quer que ela esteja! — Jesse comentou com os
olhos brilhando, não sabendo ela que essa "tal pessoa" estava diante dela
agora, sentado à mesa em uma das seis cadeiras de madeira pintadas de
branco, ouvindo tudo, atento.
— Você usou o seu cartão para pagar, Jesse? Não seja idiota gastando
o seu dinheiro à toa, eu posso comprar esse hotel inteiro para você se quiser.
— Blade se arrependeu assim que falou, Jesse havia abaixado a cabeça
segurando o pequeno pote da salada de frutas. Ele havia a magoado, coisa
que prometeu nunca mais fazer.
— Não quero o seu dinheiro, Blade, a propósito eu ia mesmo te falar
que não posso aceitar os presentes que comprou para mim. Pode tomar o seu
café, que eu vou tomar o meu banho. — Colocou o pote de salada de frutas
em cima da mesa, ao lado do prato de biscoitos amanteigados.
— Não vai a lugar nenhum, vamos tomar banho juntos depois. Por
favor me desculpe, anjo! Não se zangue comigo, não sou bom em pensar
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antes de falar. E os presentes são seus, como eu e tudo o que é meu. —


Segurou no braço de Jesse e a puxou para o seu colo gentilmente.
— Eu não quero saber do seu dinheiro, Blade, só de você. — Ela o
envolveu com os braços em torno do seu pescoço, escondendo o rosto no
peito dele. Ele alisou levemente as costas de Jesse com as pontas dos dedos.
— Poderia achar que é porque o meu dinheiro é sujo, mas como te
conheço bem, anjo, não aceitaria nem se eu fosse o papa. É teimosa demais,
luta para ser independente e não admite que ninguém tire isso de você.
Respeito e admiro isso! — Ela sorriu com os olhos marejados, emocionada
por Blade em tão pouco tempo a conhecer melhor que ninguém.
— Vou ficar com o vestido, as flores e as sandálias também porque
nunca se deve negar nada da Prada. — Jesse gargalhou alto. Mas só falou
aquilo para não o fazer sentir-se tão mau, e Prada é Prada, não é algo que se
deve recusar nunca mesmo! Mas as joias, não aceitaria, deveria valer uma
fortuna.
— E a fantasia da Chapeuzinho Vermelho também, quero que use
para mim outra vezes. — Ele apertou as coxas dela, mordendo o seu ombro.
— Safado! — Jesse deu um tapa nas costas de Blade.
— Gostosa! — Deu um tapa na bunda dela com vontade, abrindo o
lençol e enfiando Jesse dentro dele.
A fome de Blade não tinha nada a ver com o café da manhã, mas sim
com o "prato principal".
— Para Blade! Não começa, tem que tentar comer alguma coisa. —
Jesse tentava se livrar das investidas dele, parecia um polvo, com as mãos
passeando por todas as partes do seu corpo ao mesmo tempo.
— Já estou — respondeu o safado deslizando as mãos para o meio das
pernas de Jesse. Era difícil parar um homem como Blade, quase impossível.
— Eu montei a mesa do café com tanto carinho para você, para
agradecer pela noite maravilhosa de ontem, mas nem olhou para ela — disse
Jesse, fazendo beicinho.
— Droga! Está bem! — retrucou, parando de beijar o pescoço dela a
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contragosto.
— Posso alimentar você? — Jesse abaixou o olhar, retorcendo as
mãos nervosa.
Blade pensou em como ela ainda tinha medo dele, talvez nunca
passaria a má impressão que lhe causou desde que se conheceram. Era óbvio
que ela ainda tinha bastante receio em relação a ele, de falar qualquer coisa e
receber alguma grosseria como resposta.
— Claro, pequena. — Então ela abriu um sorriso largo, e pegou um
pedaço do morango que havia cortado e colocou na boca dele. Além de
saboreá-lo, fez questão de chupar a ponta do dedo de Jesse, olhando em seus
nos olhos. Um ato simples, mas erótico. E assim foi durante todo o café, que
pareceu mais um ritual de acasalamento.
— Quero fazer um pacto com você para que isso dê certo. — Jesse
apontou para ela, depois para ele. — Vamos conversar sempre sobre tudo. E
não haverá mentiras entre nós, nunca mesmo. E não esconderemos nada um
do outro, por pior que seja o problema, vamos tentar resolver. Por mais que
briguemos durante o dia, jamais dormiremos brigados. — Ainda estavam
sentados à mesa, ela no colo dele. Jesse estava tão compenetrada que Blade
logo percebeu que ela estava falando muito sério.
— Fui eu quem comprei o prédio que você mora e mandei reformar o
seu apartamento, não me arrependo de nada! E faria tudo de novo para te
manter segura, anjo — revelou já na defensiva, estudando o rosto de Jesse à
procura de algum sinal de irritação.
— Já sabia, mas estava esperando você estar pronto para me contar.
No dia da nossa primeira vez no seu esconderijo nas montanhas vi a caixinha
de música da sua mãe, que sumiu do meu apartamento, escondida dentro da
gaveta da cômoda no guarda-roupa, estava procurando uma toalha. A
propósito, como agora estou com boa condição financeira, aluguei um lugar
legal perto da casa da minha mãe e mudarei em breve. Ela queria que voltasse
para a sua casa, mas achei melhor não. Sou independente agora, como sabe
isso é importante para mim. Mas também quero estar mais perto dela, a
poucos quarteirões de distância já está mais que perfeito, vou poder vê-la
todos os dias. — Jesse nunca esteve tão feliz, tudo estava começando a dar
mais que certo.
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— Então não está brava comigo, pequena? — Os olhos de Blade


pareciam arregalados, talvez por medo de perdê-la. Não estava acostumado a
ter muitas coisas boas em sua vida, as que tinha temia perder, por isso tanto
exagero nos cuidados com Bobbi.
— Só se você não me levar para passear nos pontos turísticos em
Toronto, como os casais normais fazem quando estão em viagem. — O
bandido assentiu mais tranquilo.
— Nosso pacto está selado, sem mentiras ou segredos! — Blade
apertou a mão de Jesse, firme como no mundo do crime, onde ninguém volta
atrás em sua palavra depois de dita. — Seremos um só, dois corpos, com a
mesma alma. E nada vai nos separar, sem mentiras, segredos e medos.
Ficaremos juntos, aconteça o que acontecer — concluiu. Aquele seria, de
fato, um pacto que duraria por toda vida e além dela também.
— Para sempre! Você promete? — perguntou Jesse olhando para ele
e sorrindo.
— Para sempre! Prometo! — Blade respondeu beijando seus lábios.
— Só mais uma coisa, qual é o seu nome verdadeiro? — perguntou
curiosa, fazendo ele se remexer incomodado na cadeira.
— Não posso falar, essa é a única coisa que será segredo entre nós. —
Cortou o assunto, sem chances de acordo.
Isso era um assunto confidencial e de família. Blade levava isso muito
a sério porque havia sido uma promessa que tinha feito a seu pai. O nome
verdadeiro era para usar em caso de urgência, caso as coisas ficassem feias e
precisasse mudar de identidade.
— Está bem! — ela respondeu cabisbaixa.
Blade nem deu importância, a pegou no colo e a levou em direção ao
quarto jogando-a sobre a cama fazendo cócegas nela, as gargalhadas de Jesse
inundaram o quarto.
Depois disso tomaram banho juntos. Vestiram-se com roupas grossas
dos pés à cabeça e passearam a tarde toda em vários lugares bonitos como a
Torre CN, o Museu Real de Ontário e a Casa Loma. Chegaram na cobertura
aos beijos, pretendendo namorar o resto do dia, mas bateram à porta assim
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que a fecharam. Maldonado colocou Jesse atrás dele antes de olhar no buraco
da fechadura para ver quem era. O coração chegou a parar quando viu que se
tratava de Li e Estevão, ambos pareciam nervosos. Preocupado que fosse
alguma coisa com Bobbi, o coração quase parou de bater.
— O que aconteceu? — Jesse perguntou preocupada, vendo como
Blade ficara pálido.
— Saberei agora! — Ele abriu a porta com tanta força que quase a
tirou do lugar.
— Graças a Deus te achamos! Estamos desde de ontem te
procurando. — Blade não gostou nem um pouco da expressão estranha no
rosto de Julius. Havia alguma coisa muito errada acontecendo.
— O que estão fazendo aqui? E quem ficou cuidando do Bobbi? Com
Estevão, suponho. Pensei que não voltaria agora, que ficaria por lá por mais
algum tempo. — Jesse sentindo um clima tenso no ar, segurou a mão do
amado.
— Bobbi está na casa da namorada, a filha do juiz, seguro com eles.
O problema é outro, com o Estevão… Ele… — Li fungou não conseguindo
completar a frase, segurando o choro.
— O que tem Estevão? — Blade gritou, nervoso.
— A mãe dele não estava doente coisa nenhuma, ele nem chegou a
sair do Cassino aquele dia.
Blade ficou petrificado com as palavras do mexicano, os olhos que
passaram o dia todo em azul cor de jacinto, agora estavam escuros como a
noite. Jesse apertou a mão dele ainda mais forte, com medo de ouvir a que
viria a diante.
— Onde está o Estevão então? Digam logo, porra! — O coração de
Blade estava apertado como se fosse sair do peito a qualquer momento.
— Foi deixado na nossa porta, praticamente morto. — Julius jogou a
bomba, observando o efeito destruidor que ela causara em Blade. O impacto
foi tão grande que ele chegou a dar um passo para trás com a mão sobre o
peito, totalmente destruído.

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— Veja com os seus próprios olhos, filmaram e colocaram no bolso


dele. — Li tirou o celular de Estevão e mostrou um vídeo gravado nele para
Blade ver.
O inglês estava sentado em uma cadeira de ferro com as mãos
amarradas para trás. Ainda vestia o disfarce de garçom do Cassino, um terno
branco de gravata borboleta preta. Haviam cortado o cabelo cumprido que ele
tanto amava e o seu rosto estava repleto de manchas roxas e muito inchado.
Mesmo já entregue e com a cabeça caída para frente, não paravam de bater
nele, era soco atrás de soco. Gritavam o tempo todo: "Onde está o
Maldonado? Diga ou vai morrer". Mas Estevão não falava nada, jamais
entregaria o parceiro, no mundo do crime a lealdade era tudo para um
bandido. Morreria, mas não falaria nada. O mais triste era ver o desespero do
corvo vendo tudo do lado de fora da janela ao fundo. O pássaro negro batia as
asas depressa, totalmente desesperado, golpeando o vidro com o bico e
usando muita força, tentando entrar para ajudar o dono. Blade sabia o que o
animal estava sentindo, afinal a vontade dele era a mesma, entrar no vídeo e
tirar o amigo de lá.
— O que foi, Jesse, você reconheceu algum deles? — perguntou
Julius, vendo a jovem chorar compulsivamente olhando para um dos
agressores, todos estavam mascarados.
— Sim, este é o meu pai. — Apontou o dedo para a tela do celular.
O major era o que batia em Estevão com mais crueldade, golpes
cheios de ódio. Jesse conheceria aquela voz arrogante em qualquer lugar, a
maldade dele era única.
— O seu pai trabalha para o Matteo Castelli? Meus Deus! Os policiais
são mil vezes piores que nós, pelo menos não fingimos ser bonzinhos. Sabia
que não podia confiar nessa raça ruim, por mim mandava todos para o
inferno. Se não tivéssemos corrido para o hospital, Estevão estaria morto
agora.
Li partiu para cima da Jesse, fora de si. Mas Julius o segurou,
impedindo-o de chegar perto dela que se encolheu ainda mais atrás de Blade
chorando demasiadamente. Carter entendia a raiva do chinês, no lugar dele
também estaria com ódio dela. Gostava dele, sabia que só estava nervoso e
jamais tocaria um dedo nela.
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— Calma aí, cara, a Jesse não tem culpa de nada! O estado do


Estevão é grave, mas vai sair dessa e estar conosco novamente. Agora ele tem
um motivo para viver, a namorada. — Julius saiu na defesa da investigadora,
mas também estava bastante nervoso de ver o pai dela batendo no amigo.
Ele havia encontrado centenas de ligações perdidas no celular de
Estevão desde que ele sumiu e mensagens de amor de uma tal de "Nayla"
dizendo o quanto o amava e estava com saudade, preocupada com o seu
sumiço. Diante a isso, Julius entrou em contato com a moça e contou sobre
ele e o hospital onde estava internado em estado grave. Ela foi correndo para
o local e não sairia de perto dele até que ficasse bom.
— Mas o pai dela tem! — A voz de Blade era assustadora, o tom
carregado de sede de vingança. Os punhos cerrados e os olhos vermelhos
escuros irradiando ódio. O demônio dentro dele havia sido libertado com
sede de sangue. Sem dizer mais nada, caminhou em direção à porta, sem nem
olhar para trás, para Jesse.
— Onde você vai, Blade? — Julius perguntou quando já estava
passando pela porta, fazendo-o para bem no meio dela.
— Acertar as contas!
Virou a cabeça para trás para olhar para Jesse de uma forma
assustadora e que a amedrontou. Ele nunca havia a olhado assim, nem mesmo
nas vezes que estava muito nervoso. E assim Maldonado foi embora e
ninguém ousou impedi-lo, até mesmo porque sabiam que seria em vão.

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CAPÍTULO 28
“Por favor, não me deixe.”

Nayla havia chegado ao hospital correndo pelos corredores vendo


tudo em câmera lenta, com o rosto banhado de lágrimas. Estava com tanto
medo de perder Estevão logo agora que estavam tão bem. Depois de implorar
ao médico para deixá-la vê-lo, diante do desespero ele não teve outra
alternativa a não ser autorizar uma visita breve, até porque o vira chamando
pela namorada durante todo o tempo antes de entrar em coma no meio da
cirurgia para conter uma hemorragia interna, clamava pela presença dela
repetindo o seu nome por diversas vezes, com tanto desespero que comoveu o
doutor Jorge, o clínico geral.
Quando entrou no quarto, ficou imensamente preocupada com o
estado que Estevão se encontrava. Deitado em uma cama, ligado a mais de
doze aparelhos que o mantinham vivo, com o rosto cheio de hematomas,
irreconhecível. O cabelo agora curto cortado, todo torto, cruelmente. Uma
cena de cortar o coração de qualquer pessoa. Mas não estava sozinho, a janela
estava entreaberta com o corvo pousado sobre ela de prontidão, o vigiando.
Quando viu, Nay balançou a cabeça mostrando que estava ali e voou para
longe, deixando-os sozinhos.
— Oi, amor! — Sentou-se ao lado da cama, alisando o rosto dele com
cuidado, evitando a parte machucada.
A respiração de Estevão era fraca, um estado preocupante. Naquele
momento, Nayla percebeu o quanto o amava e que seria impossível continuar
vivendo sem ele. A maioria das pessoas sempre tve medo da aparência
exótica de Salvatore, ela o amou pelo mesmo motivo. Sabia que era único,
feito especialmente para ser seu.
As lágrimas de Nay derramavam sobre o lençol branco quando
abaixou para tocar os lábios dele com o seu, cheio de amor e esperança. De
olhos fechados, lembrou como havia sido a primeira noite de amor dos dois,
de como tinha sido perfeita. Primeiro saíram para um jantar romântico. Ela
tinha um amigo que era dono de um restaurante famoso, que fechou o lugar
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por um dia apenas para receber o casal apaixonado com tudo o que tinham
direito. Quando terminou foram para a casa de Estevão, no campo. Os dois
entraram de mãos dadas, a dele suava sem parar, estava nervoso.
— E se eu não souber o que fazer, Nayla? — O olhar de Estevão era
inseguro, tímido. Estavam no quarto, de pé um de frente para o outro.
— Eu te ensino! — Ela segurava as duas mãos dele, com a cabeça
erguida olhando no fundo dos olhos do amado que estavam negros como a
noite.
Nayla se aproximou e o ajudou a tirar a camisa, ele fechou os olhos
quando sentiu um beijo quente em seu peito grande e pálido. E abriu os olhos
para vê-la sorrindo lindamente, naquele momento teve a certeza que aquela
seria a melhor noite da sua vida.
— Eu te amo, Nayla! — Era a primeira vez que Estevão dizia isso a
alguém.
Nem mesmo ao Bobbi havia dito, porém demonstrava sempre que
podia, todos os dias. Do jeito dele, é claro. Essa declaração pegou até o inglês
de surpresa, como pode ele, sem sentimentos, amar alguém? Mas aconteceu,
de fato, desde que tinha dezesseis anos e vira a garota nova da escola chegar
em sua sala, uma bela negra que gostava de usar flores de cabelo. Cheia de
brilho e cores, amorosa e extrovertida, tudo o que faltava nele, ou seja, Nayla
o completava.
— Não mais do que eu, te amei no instante que o vi pela primeira vez.
Estevão a beijou, tentando lutar contra o nervosismo. Depois do beijo,
Nayla levou a mão para a alça da camisola branca de seda e empurrou-a para
baixo, ela fez o mesmo com a outra e a peça caiu para os quadris.
— Santo Deus!
Estevão permaneceu imóvel, vendo sobre a luz de velas a amada
caminhar até a cama e sentar nela bem a sua frente, nua para ele. Ela era linda
e delicada como uma flor desabrochando. Tão segura e confiante do que
fazia.
— Vem aqui, querido. — Com o dedo indicador a estilista o chamou,
com malícia no olhar.
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Ele chegou mais perto, até que se elevou bem acima dela procurando
os seus olhos, enquanto via suas mãos até o botão de sua calça, abrindo-o.
— É assim… assim mesmo que fica? — Estevão perguntou
assustado, observando o membro duro feito pedra apontando para cima,
parecendo ter vida própria. Já tinha ficado excitado outras vezes perto dela,
mas nunca chegou a ficar daquele jeito.
— Não poderia estar melhor. — Nayla depositou um beijo na ponta,
que diferente do resto do corpo tinha uma cor rosada, viva. E, bota viva nisso.
Tinha um tamanho consideravelmente grande, grosso com veias explodindo
em sua extensão.
— Eu te amo! — Ele repetiu, era tão intenso que tinha a necessidade
de repetir várias vezes.
— Deite na cama. — Nay pediu e ele obedeceu fitando o teto meio
constrangido, ansioso.
Ela se pôs por cima dele apoiando-se com um braço de cada lado do
corpo de Estevão para falar olhando em seus olhos.
— Normalmente os homens gostam de ficar por cima, mas como não
tem muita experiência, vou comandar hoje — explicou e ele apenas assentiu
em silêncio.
— Estou pronto para ser amado por você! — As bochechas de
Estevão pela primeira vez ficaram coradas de verdade, em um tom
avermelhado forte, virando o rosto para o lado com vergonha.
— Já é. — Beijou a sua boca, de forma quente e fervorosa. Nayla o
beijou até terem que se afastar, sem ar e encontrou o olhar de Estevão, duas
esferas azuis cintilantes se abriram, dilatadas. Ela podia ver em seu rosto o
quanto a queria, da mesma forma como ela o queria. E mantiveram os olhos
fixos um no outro o tempo todo, não se desviaram nem por um segundo.
— Eu te amo! — ele disse novamente, precisava dizer.
Os dedos deles estavam ligados no travesseiro, compartilhando o
mesmo aperto, Estevão mesmo que mais confiante agora ainda tremia.
— Eu também te amo, querido, mais que tudo!
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Uma longa mecha do cabelo de Estevão estava sobre o seu rosto,


tampando a visão da beleza que Nayla só via nele. Ela empurrou-a colocando
atrás da orelha, e tocou-lhe os lábios por alguns segundos. Como tomava
anticoncepcional e confiavam um no outro, não usaram preservativo.
Chegaram ao fim abraçados, como se fossem um só. O inglês estava todo
suado e com os cabelos espalhados por toda a parte da cama, como se um
furacão tivesse passado por ele, um furacão chamado Nayla Rodrigues.
— Foi bom? — Estevão fechou e abriu os olhos lentamente para
degustar o som doce da voz dela, do seu amor…
— Não tenho palavras para descrever! Podemos fazer de novo? Mas
dessa vez eu fico por cima, já aprendi o suficiente. — Em um giro rápido
estava sobre ela, querendo mais. Desde então não pararam mais, fazer amor
tinha se tornado um hobby para eles.
— Você não pode me deixar, Estevão, não agora! — Inclinou o corpo
sobre a cama do hospital, aproximando a boca do ouvido dele sussurrou. —
Eu estou grávida.
Então, ela sentiu a mão dele apertando a sua de leve como se quisesse
dizer “não vou a lugar nenhum”.

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CAPÍTULO 29

Já era noite quando Maria Joaquim viu da janela da sala um carro


moderno, mas estranho, chegando e estacionando em frente à casa da irmã.
Seu coração disparou quando percebeu que quem estava conduzindo era o
suposto "encanador" que tanto a tirava do sério e a irritava.
Consequentemente, mais dúvidas começaram a rondar sua mente. Quem, de
fato, era esse homem daquele tamanho? E o que queria com a Jesse? Ficou
ainda mais confusa quando de dentro do veículo saíram a filha e um chinês
baixinho emburrado. Depois dos três conversarem por um bom tempo,
compartilharam um abraço coletivo, carregado de emoção, como se
estivessem fazendo as pazes e foram embora. Jesse entrou em seguida de
cabeça baixa.
— Onde passou a noite, mocinha? E quem eram esses homens que
estavam conversando com você no jardim? — Maria Joaquim não costumava
elevar a voz para as filhas, mas não hesitava caso fosse preciso.
— Agora não, mãe, por favor! — A voz de Jesse saiu arrastada,
realmente aquela não era uma boa hora para conversar.
Estava nervosa pensando nas últimas palavras de Blade: “acertar as
contas”, e preocupada com que ele poderia estar planejando fazer.
— Por favor, filha, converse comigo! Onde está o rapaz simpático que
veio para ser o seu par na no baile e o que o encanador do seu prédio faz
aqui? — Eram tantas dúvidas e pessoas estranhas atrás de Jesse, que Maria
Joaquim estava começando a pensar que a filha estava envolvida em alguma
coisa errada.
— São meus amigos, não precisa se preocupar. — Jesse respirou
fundo, tentando manter a calma e não descontar na mãe a raiva que estava
sentindo do pai.
— Não estou te reconhecendo mais, filha, pelo jeito não confia mais
em mim para dividir os seus problemas. Se eu soubesse o que está
acontecendo poderia ajudar, duas cabeças pensam melhor que uma.

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Jesse olhou para mãe e viu a preocupação em seus olhos, mas como
explicar a ela que viu o ex-marido dela espancando o amigo do homem que
amava e o pior, sentindo prazer em fazer isso? Mas que, por outro lado, era
um bandido perigoso assim como os dois parceiros deles que estavam com
ela há instantes antes, dos piores que existiam.
— Não se preocupe, mamãe, está tudo bem! — Forçou um sorriso
para confirmar o que disse e a abraçou fortemente. — Eu te amo, obrigada
por se preocupar sempre comigo. Só não gostei muito daqui e quero voltar
para casa. Já comprei minha passagem de volta para Los Angeles no voo de
amanhã bem cedo. Foi o único que tinha vaga, se a senhora e a Mainara
quiserem, podem ficar, mas eu estou indo.
Maria Joaquim sabia que a filha estava mentindo, mas não insistiu
mais. Iria esperar que se sentisse confortável e confiante para falar.
— Se você vai, nós também vamos, filha! Uma mãe de verdade
jamais abandona um filho, e sua irmã também não iria querer ficar aqui sem
nós. — Maria Joaquim não sabia o que estava acontecendo para deixar Jesse
tão triste daquele jeito, mas estava com um pressentimento ruim, como se
alguma tragédia das grandes estivesse para acontecer.
Como o voo delas fez várias escalas, passaram quase o dia todo
viajando. Chegaram no aeroporto de Los Angeles à tarde e ficaram um pouco
confusas ao perceber que todos olhavam-nas como se fossem celebridades de
Hollywood. Eram olhares e cochichos, mas ninguém teve a coragem de
chegar até elas e dizer o motivo de tanto alvoroço. O mais estranho para Jesse
foi que o parceiro, Hugo Rodrigues, estava esperando por elas no aeroporto
com cara de choro e preocupação.
— O que está fazendo aqui, Hugo? — Jesse cumprimentou o parceiro
com um abraço carinhoso.
— Vocês não viram no jornal? Está dando a toda hora, em todos os
canais. Pararam a programação normal e não falam outra coisa além disso.
— Como assim, Hugo? Do que você está falando, estou ficando
assustada. — Esperando o pior, Jesse começou a chorar. E o nome de Blade
foi a primeira coisa que veio a sua mente. Agora além de assustada estava
com medo também.

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— Tentei ligar para você mil vezes quando tudo aconteceu, ainda bem
que não estava lá para ver. — Hugo fechou os olhos pesarosos, como se
estivesse lembrando de algo horrível. — Mas só caía na caixa postal, então
lembrei que tinha viajado para a casa da sua tia, no Canadá, obviamente
deduzi que o seu celular deveria estar desligado porque estavam dentro do
avião. Raqueei a lista de voo do aeroporto, e vi que o nome de vocês estava
nesse. Por isso estou aqui, para te apoiar nesse momento — explicou ele,
acertando os óculos de grau. Realmente era um gênio em tudo o que fazia.
— Mãeeee, vem aqui! — gritou Mainara, desesperada. Tinha parado
em uma lanchonete da praça de alimentação do aeroporto e comprava um
café para espantar o sono já que acordaram cedo para pegar o voo.
Assustadas, Jesse e Maria Joaquim saíram correndo para ver o que estava
acontecendo. A investigadora ficou tão em choque quanto a irmã quando viu
a reportagem que passava em uma tevê enorme, fixa na parede, no jornal da
tarde.
Nesse exato momento, o bandido Blade Maldonado estava em um bar
no famoso lado sul da cidade, onde somente os bandidos da pior espécie
frequentavam, enchendo a cara, pensando em Jesse, no que havia feito e
principalmente como arrumaria as coisas. Encontrava-se sentado no balcão
prestes a levar o copo de uísque à boca, mas paralisou assim que ouviu no
rádio uma notícia que fez todos no bar gritarem e assoviarem de alegria. A
morte de um policial já era motivo de festa, imagina a morte de vinte e três?
O dia 28/11 do ano de 2012 vai ficar marcado pela tragédia que
atingiu Los Angeles, onde vinte e três policiais foram brutalmente
espancados, depois colocados de joelhos e fuzilados com centenas de tiros,
do mesmo modo que eles fizeram há muitos anos atrás com o casal de
bandidos mais procurado de todos os tempos, os Maldonado. Todos eram
integrantes da equipe que trabalhou na emboscada, que ficou marcada no
século XX. Porém, o filho deles, Blade, o último de sua linhagem ruim, ficou
vivo para herdar os negócios no crime. Mesmo com todos os esforços da
justiça ninguém jamais conseguiu pôr as mãos nele ou em nenhum dos
homens de sua choldra, conhecida como “Os Homens sem Medo” que já
roubaram bilhões de dólares pelo país. Por fim, os corpos de 22 policiais
foram encontrados tristemente por algum integrante da família, um deles
pela filha de oito anos ao chegar da escola. O curioso foi que o assassino

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deixou uma marca escrita na parede, as iniciais B.M. com o sangue das
próprias vítimas, fato este que não precisa ser muito inteligente para saber o
que significa. Porém um dos corpos, o vigésimo terceiro, diferente dos
demais foi encontrado cortado em vários pedaços e posto dentro de um saco
de lixo preto em frente ao departamento criminalista do FBI. Este corpo era
do major Fill Carter que ali trabalhou por muitos anos até pedir demissão
recentemente, por motivo não revelado. Segundo os legistas, o major Carter
foi esquartejado vivo vendo os pedaços do seu corpo sendo cortados um por
um, lentamente. Na frente do prédio também estavam escritas as mesmas
iniciais “B.M”, para que todos soubessem que ele esteve ali. O chefe da
investigação de Los Angeles afirmou agora pouco se tratar de um caso de
vingança. Receberam uma denúncia anônima de uma testemunha dizendo ter
visto um homem cheio de tatuagens e com cara de mau tirando um saco
preto de dentro do porta-malas de um carro Impala 1967. O que todos nós
queremos saber é por que, depois de tanto tempo, o filho resolveu acertar as
contas, vingar a morte dos pais? Agora, como na época do faroeste, estão
sendo espalhados panfletos por toda parte com o retrato falado do assassino
e uma recompensa milionária será paga para quem entregar esse assassino
cruel, vivo ou morto. Os seus dias estão contados Blade Maldonado.
— Mas que porra é essa? — Blade praticamente gritou, dessa vez ele
não tinha feito nada daquilo, por mais que quisesse.
Vontade de matar o pai de Jesse não lhe faltou, essa era a verdade,
assim como a todos os outros que participaram da morte dos seus pais. E
invejava quem o fez, mesmo sabendo que era para pôr a culpa nele depois.
Quando saiu do hotel em Toronto tinha até passando pela a sua
cabeça fazer bem pior do que isso, tinha boa criatividade no quesito tortura.
Mas o preço depois seria alto demais para ele. Enquanto dirigia para longe
dela, em sua mente veio a imagem de Jesse sorrindo docemente. Pensou que
nunca mais o veria com os mesmos olhos, seria sempre o homem que matou
o maldito do pai dela, mesmo sabendo que ele merecia esse fim. Foi maduro
o suficiente para entender que perderia tudo se agisse de cabeça quente, sem
pensar. Lembrou-se da promessa que tinha feito e mesmo o odiando com
todas as forças, não tocaria um dedo nele e não tocou.
Depois que voltou para Las Vegas, em vez de fazer essa besteira,
tinha feito outra coisa, muito mais importante e ficou lá a noite toda… E
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quando o dia clareou, teve que ir embora. Procurou alguns contatos antigos
no lado sul da cidade para colher informações sobre a máfia cujo chefão era
Matteo Castelli e descobriu que ele era mais poderoso do que imaginava.
Após conseguir o que buscava, parou em um bar para beber e pensar em
como colocaria a mão no verdadeiro culpado de tudo e também em se
desculpar com o seu anjo por tê-la deixado sozinha em Toronto, mas e agora?
Como resolveria essa bagunça toda do assassinato do pai.
Se era difícil ficarem juntos antes, depois disso seria impossível. Jesse
não acreditaria nele e nunca mais iria querer vê-lo novamente. Isso seria o
fim de tudo, seus dias seriam frios e chuvosos como um dilúvio sem fim.
— Recompensa milionária é, vivo ou morto? — Blade ouviu o som
de uma espingarda sendo destravada, o dono do bar estava bem diante dele
com a arma apontada para a sua cabeça. E mais outras tantas atrás dele, todos
de olho no prêmio oferecido pela cabeça do último Maldonado.
— Sério que querem tentar isso? — Ele continuou sentado e calmo,
bebendo o seu uísque tranquilamente. Não tinha medo de nada.
— Não é nada pessoal, Maldonado, mas quando entra negócio no
meio, a coisa muda de figura — disse um homem com os dentes da frente
todos podres e a roupas sujas como se não tomasse banho havia anos.
— Encontro vocês em breve, no inferno!
E em um giro perfeito o último Maldonado atirou nas luzes em uma
fração de segundos, deixando o lugar em um breu total.
— Onde ele foi? — perguntou o dono do bar acendendo o isqueiro. E
nem sinal de Blade para contar história.
— Nunca gostei da bebida daqui mesmo! — disse Blade já do lado de
fora, de costas para o bar, ouvindo o lugar explodindo em mil pedaços.
Como ele fez isso? Ninguém soube dizer, coisa dos Maldonado.
Foram brincar com fogo, acabaram se queimando, literalmente.
Ele não perdeu nem mais um segundo, foi atrás de Jesse para
conversar com ela. Com um fio de esperança que acreditasse nele, embora
sabendo que, mediante os fatos, seria muito difícil. Deduziu que estaria na
casa da mãe, assim como um monte de pessoas, os vizinhos, parentes e uma
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centena de amigos policiais do falecido major. Mas isso não seguraria Blade,
nada o seguraria. Precisava vê-la, falar com ela. O bandido de onde estava,
dentro do carro a alguns metros da casa da família Carter, não conseguiu ver
Jesse em momento nenhum. Quando pensou em sair, ouviu a porta do Impala
batendo com toda a força.
— Nem pense em fazer isso — ordenou Julius, autoritário.
— E quem vai me impedir, você? — Blade ameaçou abrir a porta,
mas Julius não deixou, segurando o braço dele.
— Já não está com problemas o suficiente? E nem vamos discutir
sobre se é culpado ou não, porque estou do seu lado independentemente de
qualquer coisa. Ir atrás dela com aquele monte de gente só vai piorar as
coisas, espere pelo menos depois do enterro. Até porque a Jesse nem está em
casa agora, está no hospital com a mãe desde que chegaram de viagem à
tarde, pois ela teve uma elevação da pressão quando recebeu a notícia da
morte do ex-marido. — Julius como sempre foi sensato. Óbvio que não iria
contar que foi visitar Estevão e aproveitou para visitar Maria Joaquim.
— Você não entende, cara, o que ela significa para mim? — As
palavras faltaram para Blade, nem ele sabia ao certo a resposta.
— Sim, eu entendo, mais do que você imagina, parceiro. Por isso
estou tentando te impedir de fazer essa loucura, essa insanidade. Tem outra
pessoa precisando muito de você agora. — Julius apontou para onde o carro
estava estacionado pouco à frente, com Bobbi sentando no banco do carona
chorando. — Ele viu a reportagem falando sobre a morte dos policiais e que
estão te procurando vivo ou morto. Veio embora sozinho, chegou em casa
desesperado. Quando contei sobre Estevão, ele perdeu o chão de vez.
Blade sentiu o coração doer ao ver o sofrimento do irmão caçula e
percebeu que Julius estava coberto de razão. Bobbi precisava dele agora e
procurar Jesse naquele momento seria um grande erro.
No hospital, Jesse estava sentada toda encolhida na recepção com o
rosto inchado de tanto chorar, o coração partido e uma tristeza sem fim. A
mãe, depois de ser medicada com duas doses de calmantes, enfim dormiu.
Mainara, apesar de muito abalada, sabia manter a pose diante qualquer
situação de desespero. Foi para a casa receber as pessoas que chegavam aos

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montes para prestar solidariedade e preparar tudo para o enterro que


aconteceria em breve, devido ao estado caótico do corpo.
— Jesse? — O coração da investigadora se aqueceu ao ouvir a voz da
amiga, mas voltou a doer quando viu a expressão tão dolorida quanto a dela
no rosto de Nayla, talvez até mais que a sua.
— Como soube que eu estava aqui? — A voz de Jesse era chorosa,
melancólica.
— Não sabia, amiga, eu vim visitar o meu namorado Estê. Aconteceu
uma coisa horrível com ele, tenho medo que não sobreviva.
Foi então que Jesse começou a montar as peças do quebra-cabeças:
namorada do Estevão estava com ele no hospital mais namorado da Nayla
que chama Estê internado gravemente. Era igual a um casal apaixonado, que
se conhecia desde a época da escola. Tudo fazia sentido agora, claramente.
— Eu soube o que houve com o seu pai, sinto muito, Jesse. —
Sentou-se ao lado da amiga e a abraçou.
— Não sinta, porque se o seu namorado morrer a culpa é do meu pai.
A estilista arregalou os olhos, diante da revelação da melhor amiga.
Jesse contou tudo a ela desde o começo. As amigas choraram juntas,
abraçadas pela ironia de estarem apaixonadas por bandidos, ainda mais
quando Nayla revelou sobre a gravidez. Como Estevão havia dado uma
melhorada durante a noite, o médico liberou as visitas normalmente e o
direito de ter uma acompanhante durante vinte e quatro horas. Ela convidou
Jesse para uma breve visita ao namorado, antes que a mãe acordasse e tivesse
que ir para casa velar o que restou do ex-marido.
— Eu não sou digna de vê-lo, não depois do que o meu pai fez com
ele. — Jesse balançou a cabeça, cabisbaixa e com lágrimas nos olhos,
envergonhada pelas atitudes do homem que a colocou no mundo.
— Você não tem culpa, Jesse! O seu pai que tem por ter sido um
homem tão sem coração. — Quando Nayla viu, já tinha falado. — Desculpe,
amiga, disse sem pensar, não se deve falar mal dos mortos. — Nay ficou
envergonhada por ter feito o comentário.
— Só porque ele morreu não se tornou uma boa pessoa, Nayla. Eu,
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melhor do que ninguém, sei o pai que tinha. — Jesse começou a chorar
novamente.
— Não chore, querida, venha, vamos ver Estevão. — Saiu, puxando-a
pela mão.
Como Nayla era esperta fez amizade com a equipe de enfermagem
conseguindo, assim, autorização para Jesse entrar no quarto. Nayla estava
morta de saudades do amado, não o tinha visto desde a última visita na noite
anterior quando revelou a ele que estava grávida. Ficou preocupada pensando
se teria passado bem a noite, já que ficara sozinho. Mas agora poderia ficar
vinte e quatro horas por dia ao seu lado e não sairia dali até que ficasse cem
por cento bem.
— Oh! Meu Deus! — exclamou Jesse assim que colocou os olhos em
Estevão. Sentiu o estômago revirar por saber que havia sido o pai dela o
responsável por aquela maldade tão grande, rezando para que ele tenha se
arrependido de tudo que fez antes de morrer.
— Há quanto tempo ele está ali? — Jesse apontou para o corvo, que
estava se equilibrando em uma perna só, olhando para eles do lado de fora da
janela.
— Desde que Estevão chegou, suponho. — Nayla deu um meio
sorriso, achava linda a ligação dos dois.
— Fique bom logo, amigo, estamos todos torcendo por você. — Jesse
alisou o seu rosto, afogando-lhe os cabelos, ou o que restou dele. Mas agora
estava diferente, em um corte muito bem feito por sinal.
— Você que acertou o cabelo dele? Ficou ótimo assim — comentou
Jesse, deslizando os dedos pelos fios escuros. Nesse momento uma
enfermeira entrou para fazer os curativos.
— Não fui eu, deve ter sido alguém da equipe de enfermagem. Depois
vou agradecer quem fez, ficou ótimo mesmo. — Nayla deu de ombros, com
os olhos sobre os curativos que a enfermeira estava fazendo. Ficava atenta
para ter certeza que estavam cuidando bem do seu amado.
— Não fomos nós, senhorita, ontem à noite estava do mesmo jeito
que ele chegou. Mas hoje de manhã, a janela estava aberta, e o seu namorado

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parecendo o Marlon Brando com esse corte novo. — Jesse e Nayla se


entreolharam, sem entender nada. A vantagem de ser um integrante da equipe
dos “Homens sem Medo” é que entravam e saíam de qualquer lugar sem
serem vistos.
No primeiro horário de visitas no outro dia, Nayla foi surpreendia
pela chegada de três homens, um deles bem jovem. Pelo o que Jesse havia
contado, com certeza se tratava de Bobbi, o irmão caçula de Estevão. E os
outros, os amigos, ou melhor, os cúmplices.
— Você precisa ser forte, filho! Estevão não iria gostar de ver o
irmãozinho dele chorando por sua causa — exclamou Julius ajeitando a gola
da blusa do irmão, ainda na porta.
Li ajeitou o cabelo dele e os óculos, com muito cuidado. Nay achou
lindo o cuidado deles com o jovem e sorriu imaginando que seriam ótimos
tios para o bebê dela e de Estevão.
— Ele não gostava de me ver chorando! — Bobbi soluçou, mas
engoliu o choro.
— Nenhum de nós gosta, principalmente o Blade. — Li arqueou a
sobrancelha para que o jovem entendesse o recado. Maldonado havia
conversado muito com Bobbi em casa, que passou a noite toda chorando com
a cabeça deitada em seu colo.
— Não fique triste, querido! Em breve vai ter um sobrinho para
brincar. Eu e o seu irmão estamos esperamos um bebê — exclamou Nayla
emocionada, erguendo a mão para que Bobbi se aproximasse.
O choro tomou conta do lugar, mas dessa vez era de alegria por conta
da novidade. Depois de conversarem bastante e fazerem planos para o novo
integrante da família, a namorada de Estevão se despediu das visitas, dizendo
que sairia alguns instantes para ir no velório do pai da amiga, por
consideração a ela e a família.
O velório do major Carter tinha mais policiais do que pessoas
comuns, com direito a tiros para o alto e tudo. Como se merecesse ser
homenageado por alguma coisa, pensou Jesse. Contudo, era o pai dela e
estava sofrendo com a morte dele. O parceiro Hugo Rodrigues não saiu de
perto dela em nenhum momento no cemitério, prometendo procurar Blade
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Maldonado até no inferno para fazê-lo pagar pelo que fez. A investigadora
não dizia nada, apenas derramava as últimas lágrimas que lhe restavam. Por
fim, o grude dele estava começando a incomodá-la, sabia que só queria
ajudar, mas por pelo menos um minuto queria ficar sozinha com a sua dor.
Por conta disso, depois que todo mundo foi embora, ela resolver ficar mais
um pouco para se despedir do pai, sozinha. Assim como todos presentes, a
investigadora usava preto, calça jeans escura, camiseta e casaco cumprido
fechado. Abaixou-se próxima à cova para colocar uma rosa branca, a qual
segurou durante toda a cerimônia.
— Eu te perdoo por tudo o que fez, pai. E vou orar todos os dias para
que encontre a luz, o caminho de Deus. — Ela chorava tanto que mal
conseguia falar.
Ouviu passos atrás de si, pensou ser Hugo que voltou preocupado de
deixá-la sozinha.
— Eu já estou indo Hugo, não se preocupe — exclamou Jesse sem
olhar para trás.
— Jesse, eu sinto… — Mais uma vez as palavras faltaram para Blade,
não conseguiu completar a frase. Assustada, Jesse se levantou rápido, virando
de frente para o homem acusado de ter matado o seu pai.

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CAPÍTULO 30

A expressão no rosto de Jesse era indecifrável e isso preocupou


bastante Blade. Ela era sempre expressiva demais, até mesmo nos simples
gestos. Vê-la tão abatida acabou com ele, era como se o coração tivesse se
partido em mil pedaços. Queria abraçá-la e não soltar nunca mais. Agora
fazia parte dele, metade da sua alma, do seu coração. E se ela não o
perdoasse, pior, se não quisesse ouvir o que tinha para falar? Ele até tentou
seguir o conselho de Julius e esperar a poeira baixar um pouco, mas não
conseguiu, tinha que ver “com os seus próprios olhos” que o seu anjo estava
bem.
— O que você está fazendo aqui? — O tom de Jesse saiu alto,
zangado.
— Precisava te ver. — Pela primeira vez na vida, Blade sentiu
vontade de chorar. Nunca imaginou que a rejeição doesse tanto, mais do que
qualquer dor que sentira antes. Mas segurou, engolindo em seco.
— Vá embora daqui! — Jesse gritou, partindo para cima dele,
esmurrando o seu peito sem parar, dizendo para ele ir embora. — Some
daqui, agora! — Repetia, várias vezes o magoando.
— É isso mesmo que você quer? Que eu vá embora, porque se for
essa é a última vez que me verá. — Blade segurou as mãos de Jesse, a
imobilizando. O coração dela batia tão rápido, a adrenalina tomando conta do
sangue.
— Se for para mantê-lo seguro, sim, eu abro mão de você! Se
continuar aqui alguém pode te reconhecer, meu amor, e querer te machucar
por causa da recompensa.
Os olhos de Blade se encheram de lágrimas, ela acreditava na
inocência dele sem sequer precisar ouvir uma palavra do que tinha para dizer
em sua defesa. Diante disso, a abraçou o mais forte que pode.
— Então não acredita nas mentiras que estão dizendo sobre mim por
aí, sobre eu ter matado o seu pai? — perguntou com receio, com medo dela

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pensar direito e mandá-lo embora de verdade, para sempre.


— Nós fizemos um pacto se lembra? Sem mentiras, segredos e
medos. Ficaremos juntos, aconteça o que acontecer. Eu acredito nisso, em
você!
Ela poderia exigir mil explicações e mesmo assim não acreditar nele
depois que ouvisse, tinha vários motivos para isso. Mas a sua garota não era
assim, esse não fazia o tipo de Jesse Carter. Graças a Deus, pensou ele.
— Eu tive tanto medo que não acreditasse em mim, que quebrasse o
nosso pacto. — Jesse não esperou mais, tomou-lhe os lábios para mostrar que
isso jamais aconteceria.
— Agora eu imploro, vá embora antes que alguém te veja. — Ela
tentou empurrá-lo, mas Blade não se mexeu um centímetro sequer.
— Eu não vou a lugar nenhum sem você, não vamos nos separar
nunca mais. Desculpe-me por tê-la deixado para trás, isso não vai acontecer
mais. Te levarei por onde for, nos meus braços se for preciso.
Os olhos de Blade estavam intensos, duas safiras brilhando por conta
das lágrimas que estava segurando. O vento balançava lentamente as árvores
do cemitério causando um assovio fino e longo, assustador. Os cabelos de
Jesse caíam sobre o seu rosto e ele os tirou com delicadeza.
— Ah! Blade, eu também te amo tanto! — Ela caiu em seus braços
chorando sem parar. Aquela era a forma dele dizer que a amava. Maldonado
a ergueu nos braços e saiu caminhando com o seu anjo, que ainda chorava
com o rosto escondido em seu peito.
— Vou cuidar de você, anjo! — sussurrou depositando um beijo
sobre os cachos rebeldes. E a levou para casa, a dele.
— Tenho novidades, Blade! Demorou, mas consegui achar o local
exato da casa da família do maldito do Matteo, em Puerto Rico. — Li parou
de falar, assim que viu Jesse encolhida ao lado do parceiro segurando a mãos
dele com a cabeça baixa.
O chinês tinha o cabelo todo bagunçado e olheiras escuras em volta
dos olhos, havia passado a noite em claro trabalhando para descobrir o
endereço da família Castelli.
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— Se eu dissesse que sinto muito pelo o que houve com o seu pai
estaria mentindo, Jesse. Mas, sim, por você, que é boa demais para amar
alguém como ele e sofrer por ele ter morrido. — Li segurou a mão da jovem
e a abraçou em um ato solidário.
— Sabia que vamos ser tios, Blade? — Bobbi chegou na sala não se
cabendo de alegria, mas se conteve assim que viu Jesse. Não disse nada a ela,
foi logo a abraçando.
— Como vai, querido? — Beijou o rosto do jovem.
— Meus pêsames, Jesse, sinto muito mesmo! E sobre o que estão
falando sobre o Blade, é mentira! O meu irmão jamais faria algo para te
magoar, assim como todos nós, ele te ama, de uma forma diferente é claro,
nem se compara… — Bobbi iria continuar falando, se Blade não o
interrompesse, totalmente constrangido.
— Chega Bobbi! A Jesse entendeu que sente muito, deixe-a em paz,
garoto. Ela já me contou a novidade de que vamos ser tios em breve, espero
que o seu irmão se recupere logo do "acidente de carro" para saber da notícia.
— Essa foi a desculpa que deram para Bobbi sobre o que aconteceu com
Estevão. Precisavam poupá-lo o máximo que pudessem.
— Estamos todos felizes com a notícia, agora vá estudar para sua pós-
graduação. Temos que resolver um problema de gente grande e não vá dormir
muito tarde porque amanhã bem cedo a Sara vem te buscar para ir visitar
Estevão. Ela vai cuidar de você enquanto estivermos fora, espero que se
comporte. — Julius parecia preocupado, coçando a cabeça pensativo.
— Não preciso que ninguém cuide de mim, porra! Já sou um homem
feito, advogado formado. Sei que estão indo atrás de quem está tentando
incriminar o Blade e eu quero ajudar. — O jovem tinha os punhos cerrados.
Bobbi era um amorzinho, até mexerem com um dos irmãos.
— Ainda bem que o Estevão não está aqui para ouvir você dizendo
essa palavra feia, que levar um tapa na boca? Mais uma dessa e eu a lavo com
sabão, agora vá para o seu quarto e não saia de lá até que um dos seus irmãos
mande — Li gritou com o irmão caçula, se segurando para não dar umas boas
palmadas no traseiro dele.
— Eu não vou a lugar nenhum e vou dormir a hora que eu quiser,
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todo mundo da minha idade fica acordado até tarde. — Cruzou os braços, se
rebelando.
— Você não é todo mundo, moleque! E vai para o seu quarto agora, e
se daqui aqui a cinco minutos eu for lá e não estiver dormindo vai apanhar
pela primeira vez para largar de ser malcriado. — Blade foi taxativo e coitado
do Bobbi se teimasse com ele.
— Mas eu não estou com sono, Blade! — Choramingou Bobbi.
— Problema seu, tem quatros minutos agora. E quando o Estevão
acordar, ele vai ficar sabendo disso. Estamos entendidos? — Blade sabia ser
mal quando queria.
— Sim, senhor! — E assim o jovem foi para o quarto resmungando.
— Você não ia bater nele de verdade, ia? — Julius perguntou, com a
sobrancelha arqueada.
— Não, mas deixe ele ir dormir pensando que sim. — Blade não
queria ser pai, mas seria um dos bons. Esse pensamento fez Jesse soltar um
leve sorriso, o primeiro do dia.
— Quando nós vamos para Puerto Rico? Porque eu não sou irmã
caçula de vocês, não podem me proibir de nada — Jesse estava falando muito
sério e todos sabiam disso, principalmente Maldonado.
— Não vai não porra nenhuma, vai ficar com a sua mãe e sua irmã
quietinha em casa. — Blade tentou não elevar a voz, mas foi tarde demais,
quando viu, já estava aos berros. — Não vamos lá brincar de casinha se é isso
que está pensando, queremos vingança, matar quantos deles for possível.
Acertar as contas, sem nenhum pingo de honra. — Os olhos dela faiscavam
de raiva.
— Você prometeu que não iria mais me deixar para trás, que me
levaria aonde fosse. — Ela piscava várias vezes para não chorar, Blade soube
que nada do que falasse a faria mudar de ideia.
— Ótimo! Se quer ir, problema seu, saímos às cinco da manhã.
Saiu de cara feia, pisando duro em direção ao seu quarto, mas não
antes de passar no do Bobbi para ver se estava dormindo. O pobrezinho
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estava.
— Está bravo comigo? — perguntou Jesse, encostada no vão da porta.
Blade estava deitado na cama de costas para ela, permaneceu na
mesma posição, calado. Percebendo que não teria resposta da parte dele,
deitou ao seu lado abraçando-lhe a cintura.
— Não vamos dormir brigados, não hoje. Preciso que me abrace e
diga que tudo vai ficar bem, porque vamos resolver isso juntos — sussurrou
em seu ouvido, ele virou o corpo para ficar de frente para ela e abraçou,
pousando a cabeça de Jesse em seu peito.
— Vai ficar tudo bem, porque vamos resolver os problemas juntos. —
Soltou um suspiro longo, na verdade ele queria pedir para que ela não fosse.
— Perfeito! Mas tire essa cara azeda do rosto, se não vou pensar que
está dizendo isso só para me agradar.
Na verdade, ele estava e não fazia nenhuma questão em esconder isso.
Jesse se remexeu dentro dos braços dele sentindo-os apertarem mais em volta
do seu corpo.
— E eu estou — disse direto pois odiava rodeios. Não ia fingir estar
bem com isso, se não estava.
— Por que quer não quer eu não vá com vocês? Por mais que o meu
pai não prestasse, eu quero ajudar a pegar o homem que o matou de forma tão
covarde. Ele merecia ter sido preso e julgado por tudo o que fez. — Jesse só
queria que ele entendesse o seu lado, que confiasse nela.
— Porque eu estou com medo, porra! Eu não vou aguentar se alguma
coisa acontecer com você, isso é demais para mim. — Ele a soltou, sentando
na cama de forma que Jesse não pudesse ver o seu rosto. —Já basta o que
aconteceu com Estevão, ele está deitado naquela cama fria de hospital por
minha causa. Daria tudo para estar no lugar dele, a minha vida se fosse
preciso. E tem o Bobbi, a Sara é esperta, mas e se não der conta de proteger o
meu garoto? Todos os que são importantes para mim estão correndo risco, Li
e Julius amanhã vão arriscar suas vidas lutando em uma guerra que não é
deles, é minha. — A voz dele ficou falha, então ela percebeu que Blade pela
primeira vez na vida estava chorando de verdade. Jesse notou que era ele que

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precisava de um abraço, ouvir que tudo ficaria bem, porque estavam juntos.
— Não chore, meu amor, eu te amo tanto. Vai dar tudo certo, estou
aqui com você. — Ela abraçou forte suas costas, o enchendo de beijos.
— Por favor, não vá! Fique com a Sara e o Bobbi, esperando por mim
— implorou com o rosto cheio de lágrimas.
— Eu não vou te abandonar, nem agora, nem nunca! — Segurou o
rosto do homem que amava entre as mãos, olhando no fundo de seus olhos.
— Não sabemos o que vamos encontrar em Puerto Rico, estaremos
entrando em um ninho de cobras. Além do mais, não queria que me visse em
ação, pode ser bastante assustador. Vai ver o monstro que sou de verdade e
vai ter medo de mim. — Até o choro de Blade era discreto, silencioso.
— Provavelmente vou me apaixonar ainda mais vendo o meu herói
em ação. — Jesse descansou a cabeça sobre as costas largas e ele sentiu suas
lágrimas quentes deslizarem por ela. — Eu já te vi em ação quando me
salvou de ser estuprada no bar por aqueles homens horríveis e foi naquele
momento que me apaixonei por você. — A voz suave dela o acalmou do
medo, sempre acalmava.
— Não sou herói, Jesse, tire isso da sua cabeça. Não nasci para ser
uma boa pessoa, então não espere muita coisa de mim. — Acariciou as mãos
dela, que se encontraram uma com a outra com os dedos entrelaçados em
volta do seu peito.
— O meu aniversário é daqui quase um mês, no Natal. O meu pai
nunca gostou dessa data por conta disso. Não deixava fazer festas e me
humilhava mais do que o normal, arranjando motivos para me castigar. Por
isso me sentia mal sempre que essa data se aproximava, medo da maldade
que faria comigo. É horrível dizer isso, mas me sinto aliviada em saber que
daqui para frente vou viver em paz. Aliviada, porque minha mãe está livre
para ser feliz ao lado de alguém que a mereça de verdade, e minha irmã não
precisará ser perfeita o tempo todo para agradar a família, para agradar a ele.
Aliviada por perceber que não preciso seguir os passos dele e enfim me
dedicar ao meu sonho de ser fotógrafa e o realizar dando a volta ao mundo.
Desde a adolescência guardo dinheiro para isso e ficaria muito feliz se depois
que essa confusão toda acabasse, você viesse comigo nessa viagem sem data

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para acabar. — Jesse chorava, compulsivamente.


Blade nunca pensou em ter filhos, isso é um fato. Não queria passar o
sangue ruim dele adiante, mas se fosse um homem normal e tivesse a sorte
que o major Carter teve de ter uma família bacana como a sua, teria
aproveitado cada minuto com elas. Jesse era uma pessoa tão boa, que se
sentia culpada por estar livre das maldades do pai e da sua opressão. Era isso
que ele mais amava nela, a capacidade de dar amor até a quem não merece.
— Isso é um convite, mocinha? — Ele a puxou para o seu colo,
segurando-a como se fosse um bebê.
— Uma intimação! — afirmou, Jesse.
Maldonado olhou para baixo e viu aqueles olhos escuros cheios de
lágrimas olhando para ele de forma tão intensa e pensou que não conseguiria
mais viver sem eles por perto, nem se quisesse.
— Eu vou aonde você for. — Ele selou suas palavras com um beijo
apaixonado.
— Por que não tem tatuagens nas suas costas? — Já fazia um tempo
que Jesse queria perguntar.
— Não achei nenhuma que me chamasse a atenção. — Deu de
ombros, com desdém. — Cada uma representa um momento triste da minha
vida, uma dor. Essa foi a primeira que fiz, no aniversário da minha mãe. Eu
sinto falta do meu pai, mas a dela é uma ferida que nunca vai se fechar. —
Blade apontou para a imagem no braço subindo para o ombro, era de uma
mulher sorrindo espontaneamente.
— Ela era tão linda, se parece com você. — Fez carinho sobre a
tatuagem, pensando em como ele já havia passado por tantos momentos ruins
de dor. Afinal, o seu corpo era setenta por cento tatuado.
— Pensei que nunca conheceria alguém tão doce quanto ela, mas aí
você chegou… — Alisou os lábios de Jesse, a fazendo corar com a sua
revelação.
— Se depender de mim o seu corpo não vai ganhar mais nenhuma
tatuagem, vou passar o resto dos meus dias para te fazer feliz. — Blade sorriu
feliz por estar ouvindo aquilo. Por ela acreditar na inocência dele, por amá-lo.
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— Idem — ele respondeu afogando-lhe os cabelos, queria dizer que a


amava. O momento era perfeito, mas simplesmente não conseguia, ainda não
estava preparado.
— Ainda estou zangada com você por ter ido ao enterro do meu pai
atrás de mim, o que passou pela sua cabeça, Blade? Tem um retrato falado
seu rodando por aí, quando te vi lá tive tanto medo de alguém o reconhecer.
O bandido resmungou, odiava quando alguém chamava a sua atenção,
mesmo estando errado.
— E eu estou zangado porque você ficou a cerimonia todo abraçada
com um cara, não gostei da forma que ele te tocava. — Fechou a cara, no
mesmo momento, limpando as lágrimas. O Blade emotivo mal tinha chegado
e já tinha ido embora.
— É o Hugo, meu parceiro e amigo. Uma das poucas pessoas que me
trata como gente, tem um coração enorme e o cérebro maior ainda. Às vezes
a inteligência dele me assusta, sempre está um passo à frente de todos no
departamento do FBI.
Blade não gostou da forma que Jesse falava do tal rapaz, com
admiração e carinho. Quando a pessoa é perfeita demais, é porque esconde
algo de muito errado. Mas não disse nada, ela iria falar que era dele.
— Não gosto desse "Hugo" e para o bem dele espero que nunca mais
vê-lo colocando as mãos em você. — Olhou para ela, ameaçadoramente. —
A coisa também não vai ficar boa para o seu lado se autorizar ele ou a
qualquer outro homem te tocar, me pertence agora. E no que é meu, ninguém
toca. — Foi direto, sem possibilidades de acordo.
— Quer dizer que estamos namorando? — perguntou esperançosa.
— Chame como quiser, desde que não deixe nenhum outro homem
encostar em você — respondeu rabugento, seu humor habitual.
— Eu prometo que, enquanto eu viver, nenhum outro homem tocará o
meu corpo além de você. — Jesse sentiu os músculos dos braços dele
relaxarem em volta dela.
— Faço das suas as minhas palavras, não haverá nenhuma outra na
minha vida. — Saiu mais como juramento do que promessa, e Blade não
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voltava atrás com a sua palavra. Uma vez dita, era para sempre.
— Nem a Sara? Sei que já tiveram alguma coisa e que ainda é muito
forte entre vocês dois. — Uma onda de insegurança tomou conta de Jesse,
algo evidente em sua expressão.
— Nunca dormi com a Sara, nem pretendo. Eu a vi sendo espancada
pelo namorado na rua, ela me contou depois que isso acontecia com
frequência. Ela estava grávida de oito meses na época, quando vi já estava em
cima dele com os meus punhos cheios de sangue do desgraçado. Levei-a para
o hospital, se o bebê tivesse sobrevivido hoje estaria com dez anos. Deste
então sinto-me na obrigação de protegê-la, não deixar que ninguém a
machuque. Acho que isso é o que as pessoas chamam de amizade, nunca
senti nenhum tipo de desejo sexual por ela — explicou ele, para ver se Jesse
entendia de vez.
— Sinto muito pelo bebê e me desculpe por ter tirado conclusões
precipitadas. — Jesse não era mãe e ficando ao lado de Blade sabia que
provavelmente nunca iria ser. Mas sentiu nela a dor de Sara quando o médico
anunciou que o filho havia nascido morto. Agora a admirava por ter
conseguido seguir em frente com um sorriso no rosto.
— Ok! Agora tente dormir um pouco. Precisamos acordar cedo,
temos que pegar o Matteo Castelli de surpresa. — Puxou o lençol e a cobriu,
depositando um beijo em seu rosto.
— Se não vou apanhar? — Debochou ela.
— Umas boas palmadas lhe faria muito bem, investigadora, tem
andado muito teimosa. — Se ajeitaram debaixo do lençol na posição de
conchinha. O rosto de Blade apoiado na curva do pescoço de Jesse, e os
braços segurando firme em volta de sua cintura.
— Mas sei que me ama assim mesmo— exclamou Jesse, sonolenta.
— Mais do que você imagina, anjo — Blade respondeu sem nenhum
sinal de sono, uma pena ela não ter ouvido, havia adormecido.

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CAPÍTULO 31

Chegaram em Puerto Rico armados até os dentes e não estavam


sozinhos. O primo de Julius e a gangue dele veio dar uma forcinha, uma
bagatela de noventa homens bem treinados, gente barra pesada do México.
Alugaram uma casa no meio do nada para não levantar suspeitas nenhumas.
Grande o suficiente para hospedar a todos, com direito a banquete e tudo,
digno de um rei e os seus súditos. O plano era atacar de madrugada, no
silêncio da escuridão. Li conseguiu um mapa exato dos cômodos da casa da
família Castelli e imagens do lugar em 3G, vindas direto de um minissatélite
que ele mesmo construiu e mandou para o espaço. Isso dava a eles uma boa
vantagem, afinal podiam vigiar os inimigos e saber a hora certa de atacar. A
residência parecia um forte militar de tantos seguranças rondando do lado de
fora, mais o dobro dentro. Por sorte, a mãe e o irmão estavam viajando pela
Europa, o desgraçado estava sozinho. Infelizmente não colocou o pé em
momento algum para fora naquele dia, Blade amaria ver a cara do maldito
que vinha infernizando tanto a sua vida antes de matá-lo. Conforme as horas
passavam, Jesse ficava cada vez mais inquieta. Estava sentada no chão do
quarto, ansiosa, roendo as unhas. Blade, que havia acabado de chegar,
resolveu fazer um convite inusitado, na intenção de fazê-la se acalmar um
pouco.
— Quero dançar, apenas eu e você. — Estendeu a mão para Jesse,
que olhou para ele surpresa.
— Mas não tem música e o clima está muito pesado para isso. — Ela
virou o rosto para o lado, sem condições de manter contato visual com o
amado naquele momento.
— Vai me negar uma última dança? — Jesse levantou em um pulo,
lançando os olhos sobre ele como uma flecha. Que papo era aquele de última
dança? Não gostou do seu tom, parecia estar se despedindo.
— Não estou gostando dessa conversa, Blade. — Ele a calou com um
beijo, soltando o cabelo dela em uma cascata de cachos volumosos.
Ela usava uma bermuda jeans desfiada nas pernas e uma camiseta

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branca simples. Tênis esporte, no mesmo tom. Se ele queria uma despedida,
que fosse algo bem especial, pensou Jesse. Entregaria o seu coração a ele e
tudo de bom que existia nela. Com as mãos trêmulas, tirou a jaqueta de couro
preta, o bandido levantou os braços para cima para ajudá-la na missão de tirar
a camiseta vermelha. Lá fora os trovões gritavam, como se o céu chorasse a
dor dos dois.
— Para onde está me levando?
Blade a pegou nos braços e levou para a varanda que ficava no lado
de fora do quarto. A noite estava triste e estava começando a chover. Jesse
estaria louca ou Blade queria mesmo fazer amor em uma varanda, debaixo da
chuva, em Puerto Rico? E se alguém os visse ou se escorregassem e caíssem
no piso molhado? Poderia ser perigoso.
— Não vou deixar você cair, está segura em minhas mãos —
exclamou Blade, como se tivesse lido os seus pensamentos. — E esse quarto
é o mais alto da casa, ninguém nos verá. — Tranquilizou-a.
Havia algo de ilícito no que estavam fazendo, o que deixava tudo
mais perigoso e excitante. Os dois dançaram por um bom tempo debaixo da
chuva, completamente nus. Jesse nunca tinha experimentado sensação melhor
do que aquela, da pura e bela liberdade. E pelo menos aquela vez deixou o
peso do mundo de lado e se entregou ao momento, fazendo amor sobre uma
cadeira reclinável. Enquanto Blade a penetrava, ela levantou a face para o céu
e deixou que a chuva os abençoasse. Não precisaram de palavras, quando
chegaram ao clímax, nos olhos dos dois havia a mesma declaração silenciosa,
mas gritante ao mesmo tempo: Eu vou te amar para sempre. Aconteça, o que
acontecer.
Graças a Santa Protetora dos Bandidos não estava chovendo na hora
de invadir a casa do Matteo Castelli. Foi moleza para Li desligar o alarme da
segurança, estavam todos vestidos de preto e encapuzados. Foram eliminando
os seguranças um por um, silenciosamente. Jesse estava encantada com a
astúcia de Blade em ação, era maravilhoso, excitante. Parecia uma dança de
tango, perfeita nos mínimos detalhes. Ela não soube dizer ao certo quantos
ele matou até chegarem ao quarto do Matteo Castelli, mas foram muitos.
Nem teve oportunidade dela colocar a mão na arma, Maldonado pegava todos
antes.

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— Me espere aqui e a qualquer movimento, atire! — exclamou Blade,


que tinha a roupa toda desalinhada e suja de sangue.
A mão dele estava sobre a maçaneta da porta do quarto do Matteo,
enfim aquele tormento teria fim.
— Não vim até aqui para te deixar sozinho agora, quero olhar nos
olhos desse maldito quando você o mandar para o inferno — trovejou Jesse,
cansada de ser boa com quem não merecia.
Ele assentiu contra a sua vontade. Mesmo dando tudo mais do que
certo, Blade sentia que havia alguma coisa de errado, estava sendo fácil
demais. Primeiro que aquela lambança toda dos assassinatos dos policiais não
parecia ser coisa de um profissional como o chefe da máfia europeia, mas,
sim, de um amador. Colocou muita coisa em risco fazendo isso, o que de fato
não fazia mesmo nenhum sentido.
— Fique atrás de mim Jesse e não saia. — Assim ela fez e abriram a
maçaneta juntos.
— Diga as suas últimas palavras, maldito! — Quando o homem
deitado na cama de luxo acendeu o abajur para ver o que estava acontecendo,
os dois invasores quase caíram para trás, principalmente Jesse.
— Miche? — Jesse tirou a touca, com os olhos marejados.
— Eu nunca fui com a sua cara, os bonzinhos no final sempre acabam
sendo os piores. — Blade tinha a arma apontada para o meio da testa dele, o
ponto vermelho do laser dançava sobre o osso frontal do falso barman.
— Oi princesa, como vai? — Miche soltou uma gargalhada cínica,
debochada. Parecia um louco, totalmente insano. — Eu estava no bar no dia
em que o seu herói te tirou das mãos daqueles bandidos cruéis, tinha ele na
minha mira. Mas aí vi a forma como olhava para você desmaiada em seus
braços e pensei, por que matar se posso feri-lo onde mais dói? Sabia que iam
acabar se envolvendo e eu a tomaria dele. Fiz de tudo para te conquistar, até
fiz a porra de um curso de fotografia. Só que o feitiço virou contra o feiticeiro
e acabei caindo nos seus encantos de verdade. Mas você não quis nada de
mim além de amizade, tudo por causa desse maldito. Você era para ser
minha, Jesse, poderia ter tido uma vida de rainha ao meu lado.

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— Eu amava você Miche, não da forma que queria, mas amava. —


Ela estava tão decepcionada que nem conseguia olhar para ele. — E todo esse
tempo era um impostor? Matteo, filho do Carlo Castelli.
— Matteo? — O impostor parecia confuso, bêbado talvez, isso
explicaria o monte de garrafas de bebidas vazias por toda parte. Era como se
não reconhecesse o próprio nome. — Vocês são mais idiotas do que eu
pensava! Sim, eu sou Matteo, filho e herdeiro do grande mafioso Carlo
Castelli. — Soltou outra gargalhada, dessa vez macabra.
— Pare de rir, desgraçado! Eu não entendo por que tanto ódio por
mim, já não basta o seu pai ter matado os meus e acabado com a minha vida,
só porque a minha mãe não o amava e escolheu ficar com o meu pai? Se ele
se matou depois, o problema é dele. E eu não obriguei Jesse a ficar comigo,
se ela não te quis foi porque não foi homem o suficiente para conquistá-la. —
Blade era assim, curto e grosso.
— Pelo jeito é mania da sua família, os Maldonado, roubarem as
mulheres dos Castelli, porque não sei se é do seu conhecimento, Blade, mas a
sua mãe já era noiva do meu pai quando o seu pai se achou no direito de
roubá-la dele. Eles eram noivos e no dia do casamento ela simplesmente não
apareceu, sem dar nenhuma explicação. Sumiu no mundo com o seu
papaizinho. Aquela maldita vadia acabou com a vida do Matteo, quer dizer a
minha. — Começou a rir novamente, como um louco. Era estranho, às vezes
falava dele na terceira pessoa, como se estivesse falando de outro alguém. —
Depois o meu pai se casou com a minha mãe, mas como não a amava
descontava a raiva nela e no filho que teve com ela, o pobre Matteo. Sabia
que foi ele que encontrou o pai morto com apenas cinco anos? Estava
segurando a foto da sua mãe. Desde então, não conseguiu amar mais ninguém
além dele mesmo. Nem mesmo o irmãozinho caçula que a mãe teve de outro
casamento, o coitadinho não tinha nada a ver com essa sujeirada toda, mas
teve que crescer ao lado de um irmão cruel e uma mãe depressiva. No final
acabou enlouquecendo também tentando provar a todos que era capaz de ser
tão bom quanto ele, ou melhor, como eu. — Agora ele chorava e ria ao
mesmo tempo.
— Também não tenho culpa se os Castelli não têm peito para segurar
suas mulheres, se antes admirava o meu pai, agora o venero. Nós, da família
Maldonado, somos assim mesmo, quando queremos uma coisa, pegamos e
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pronto. Não nos acostumamos a perder, mas, se acontece, continuamos de


cabeça erguida sem colocar a culpa nos outros. Porque é isso que um homem
de verdade faz, admite que perdeu e parte para outra, não ficamos
choramingando ou nos matando por causa de qualquer coisa. — Blade perdeu
a paciência, só queria mandá-lo para o inferno logo de uma vez.
— Não fala do que você não sabe! — O falso Miche tirou uma arma
de debaixo do travesseiro e a apontou para Blade, mas não esperava por uma
chuva de tiros, vindos da arma de Jesse. Morreu olhando para ela, que estava
surpresa por não estar com um pingo de remorso por ter feito aquilo.
— Você está bem com o que aconteceu, Jesse? — perguntou Blade
segurando a mão dela, já no carro de volta para a casa.
Ele passou o caminho todo em silêncio, o olhar distante. A missão foi
um sucesso, mas Blade sentia que alguma coisa não se encaixava. Tentava
acreditar que tudo estava bem, porém tinha uma vozinha lá no fundo dizendo
o tempo todo que não. Era como dizer que o quebra-cabeças havia sido
montado, porém ainda faltava a última peça.
— É normal não sentir remorso depois de matar alguém? — Os olhos
dela ainda estavam perdidos para fora da janela do carro.
— Depois do primeiro, isso flui naturalmente. Estou orgulhoso de
você! — Jesse assentiu, com um leve sorriso.
Depois do que aconteceu, Jesse nunca mais seria a mesma, mas outra,
mais forte, capaz de suportar qualquer coisa, por pior que fosse.
Quando chegou em casa, a primeira coisa que Carter fez foi pedir
demissão no trabalho, era o fim da sua carreira na polícia, que nunca deveria
ter começado, fora o maior erro que cometera na vida. Fez uma pequena
reunião com a mãe e a irmã para contar a verdade sobre o pai, para que não se
sentissem tão culpadas com a morte dele. Afinal como a avó sempre dizia, a
tal “sogra” que o major tanto odiava e que parecia com a filha mais velha,
“quem caça acha e não perde tempo”. Também contou um pouco sobre a
família “exótica” do namorado, escondendo apenas as partes mais pesadas, é
claro. Os bandidos até foram convidados para passarem o Natal na casa da
família Carter. No dia seguinte às festas natalinas, Blade e Jesse iriam fazer a
tal viagem em volta do mundo sem data de retorno. Afinal ele ainda era

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procurado pelas mortes dos policiais, mas isso não era o que preocupava a
jovem. Blade estava a cada dia mais estranho e taciturno. Tendo pesadelos a
noite e não queria deixá-la mais sozinha, nem por um segundo.
— Animado com a viagem? Estou louca para fazer amor com você
nas praias do Havaí ou em alguma ilha deserta. — Essa foi a forma que Jesse
achou para chamar a atenção de Blade, que veio à festa de comemoração de
Natal praticamente à força, arrastado, essa era a verdade.
Queria ter ficado em casa comemorando o aniversário dela na cama,
fazendo amor o dia todo, mas ela o convenceu, dizendo que ficaria muito
tempo sem ver a mãe e a irmã por conta da viagem. E que o mínimo que
podia fazer era passar o aniversário com elas, além do mais, era Natal, dia de
passar em família, com os entes queridos.
— Por que não vamos para a casa e começamos hoje mesmo? — Fez
a proposta indecente, na esperança de que Jesse aceitasse.
Agarrou a cintura dela, puxando-a para mais perto dele. Estava
sentado em um banco no quintal, Blade passou mais tempo lá do que dentro
da casa.
Ele queria ir embora, já os parceiros estavam amando. Julius e Maria
Joaquim estavam em um papo animado, haviam se desculpado pelas
grosserias que disseram um ao outro e até trocaram o número dos celulares.
Li e Mainara não se deram muito bem, uma implicância na disputa para ver
quem era o mais inteligente. Já Bobbi era o xodó da festa, não tinha quem
não se apaixonasse por ele, além de muito educado e extremamente carinhoso
com todos. Apesar do quadro do Estevão ter melhorado bastante, ainda estava
em coma. Mas os médicos diziam que poderia acontecer dele despertar a
qualquer momento. Nayla rezava para que isso acontece antes que a barriga
crescesse muito para que ele não se assustasse quando a visse.
— Diga-me, o que está acontecendo? Anda mais calado que o normal
e não me deixa mais sozinha nem um segundo.
Blade evitou olhar para ela, não queria preocupá-la com os seus
pressentimentos ruins. Não tinha motivos nenhum para tê-los, talvez fosse só
coisa da sua cabeça.
— Não está acontecendo nada, pequena! Só quero que chegue logo
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amanhã para podermos cair no mundo sem rumo, sem data para voltar. —
Inclinou-se para pegar uma caixa que estava ao lado dele e a entregou.
— Feliz Natal, anjo! — Jogou uma piscadela sexy para o lado de
Jesse.
— Que linda amor, obrigada! — Jesse soltou um grito alto ao abrir a
caixa e se deparar com uma câmera profissional da Nike. Era preta, com
flashes potentes e uma lente de longitude especial para captar os mínimos
detalhes de qualquer coisa. Encheu o rosto dele de beijos para agradecer.
— Calma aí, neguinha, tem mais um! Só que o esqueci no
esconderijo, antes de viajarmos ainda dá tempo de passar lá para pegarmos.
— Colocou-a em seu colo e beijou seus lábios. Jesse tentou de todas as
formas fazê-lo contar, mas ele não disse nada.
— Dois presentes é muito, só este está ótimo! — Ela pensou bem, não
queria que ele ficasse a enchendo de presentes.
— Esse é pelo Natal, o outro é de aniversário. Se não quer, tudo bem,
mas tenho certeza que vai gostar mais daquele do que deste. —Apontou para
a câmera, fazendo a curiosidade dela aumentar ainda mais.
—Você não presta, Blade! Seu bobo! — Deu um tapa no ombro dele,
e riu da cara emburrada que ele fez.
— Não é isso que você diz quando eu estou… — Cochichou coisas
profanas e obscenas em seu ouvido, fazendo-a corar muito.
— Pare Blade, toma o seu presente de Natal e sossegue! — Jesse tirou
uma caixinha azul do bolso da jaqueta jeans, era pequena e delicada, assim
como ela.
— É linda, mas eu não acredito em Deus! Muito menos em Santos!
— Ele tirou da caixinha um cordão de ouro com uma medalha de Santo
Antônio, que havia comprado em Puerto Rico.
— Larga de ser chato, Blade! O nome Antônio origina-se do grego
Antínis e significa “valioso”, forte”, “ protetor”, “digno de apreço”,
“destemido”. Sem dúvida descreve você, por isso, mesmo não tendo fé, quero
que a use. Mandei gravar atrás “Blade e Jesse para sempre”. — Ela colocou o
cordão em volta do pescoço dele, que prometeu nunca mais o tirar.
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Ficaram mais um tempo na festa de Natal e se despediram de todos, já


que não os veriam mais antes da viagem, da qual não voltariam tão cedo se
dependesse dele.
— Até breve, Blade, vou sentir muita saudade! Eu te amo, tenho
orgulho de ter você como irmão! — A declaração de Bobbi o emocionou,
aquele garoto era tudo para ele.
— Vamos nos falar sempre, Mascote, todos os dias. Eu que tenho
orgulho de ser seu irmão, é o melhor garoto que conheço, quando não está
sendo malcriado e falando palavras feias. — Blade o fazia lembrar do seu
momento “ rebelde” sempre que podia.
— O senhor não vai esquecer disso nunca, né? — Bobbi revirou os
olhos lacrimejantes.
— Você sabe que não! — Beijou a testa do jovem, bagunçando o
cabelo dele.
Blade e Jesse acabaram decidindo ir de uma vez ao esconderijo e
passar a noite toda por lá fazendo a festinha particular deles, a dois. Maria
Joaquim arrumou alguns salgadinhos e doces para levarem para a viagem,
mas Jesse não quis, disse que não andava com o estômago muito bem
naquela semana. Estava evitando comer coisas pesadas até que o mal-estar
passasse, talvez demorasse mais do que ela imaginava…
— O que está fazendo aí, amor? Volta para a cama, está muito cedo.
— Blade falou sonolento, vendo Jesse levantando-se às pressas da cama
vestindo a blusa cinza de moletom dele.
— Eu quero ver o pôr do sol, amor, pode dormir que daqui a pouco eu
volto. — Jesse beijou o rosto dele e saiu correndo descalça, com os cabelos
esvoaçantes. Chegou bem perto de um precipício que tinha nos fundos do
esconderijo, de lá dava para ter uma visão perfeita do sol nascendo por de trás
das montanhas.
— Você vai pegar um resfriado, teimosa! — Blade chegou esfregando
os olhos, morto de sono, usando a calça do moletom que estava com ela.
Enfiado dentro de um cobertor grosso, o cabelo todo bagunçado.
— Que bom que veio, meu amor! — Jesse pulou nos braços dele que

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a envolveu dentro do cobertor xadrez dele.


— E eu tive outra escolha? — resmungou contrariado.
— Cale a boca e aprecie essa obra prima da natureza, nunca vi nada
mais bonito.
O céu havia tomado um tom alaranjado, limpo, sem nenhuma nuvem.
Os pássaros voando em comitivas de V, lindos e elegantes. Por de trás das
montanhas o sol veio surgindo meio tímido, como se soubesse que estava
sendo observado. E estava, por um casal apaixonado, cheio de promessas e
esperanças para um novo futuro.
— Nem eu — comentou Blade olhando para Jesse com cara de bobo,
em momento algum havia tirado os olhos dela. Ela nunca pareceu tão bonita
como naquele momento, iluminada pelos raios fracos do sol que iam
chegando devagar. As bochechas levemente coradas devido ao frio, os cachos
rebeldes, voando conforme a direção do vento. Então ele pensou: É uma boa
hora para entregar o presente de aniversário dela. Não tenho nada com que
se preocupar, as coisas não poderiam estar mais perfeitas. Esse
pressentimento ruim não era nada, só coisa da minha cabeça. Em breve
estaria longe com ela, com o seu Anjo.
— Quer casar comigo? Esse é o seu outro presente!
Blade ajoelhou-se diante dos pés dela segurando um anel com uma
pedra de diamante enorme por cima, o brilho quase a cegou. Pegando Jesse
totalmente de surpresa, pois ela não esperava por aquilo tão cedo, ainda mais
de forma tão romântica. Nunca imaginou que seria tão feliz e amada um dia.
— Claro, meu amor! Agora se você quiser! — Ajoelhou-se em frente
a ele e o beijou sob a luz do sol que havia nascido por completo, com toda
sua exuberância. — Somos um só agora — ela completou, com a testa colada
na dele, segurando o seu rosto entre as mãos, ambos de olhos fechados.
— Para sempre — Blade completou, emocionado.
De repente um barulho estranho tomou conta do céu, brotando
helicópteros da polícia por toda parte. Quando pensaram em correr, muitos
carros com as sirenes ligadas os encurralaram em frente ao precipício. O
barulho de tudo junto era quase insuportável, era ensurdecedor. Sem ter o que

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fazer, os dois se abraçaram. Aconteça o que acontecer estariam juntos.


— Tire as mãos dela, Maldonado! Você está preso por todos os
roubos e assassinatos dos policiais, tem o direito de permanecer calado e tudo
o que disser será usado contra você no tribunal, tem direito a um advogado,
se não tiver como pagá-lo, o estado lhe arranjará um — exclamou o parceiro
de Jesse, Hugo Rodrigues, aproximando-se deles a passos lentos.
— Ele não matou os policiais, Hugo, tem que acreditar em… — Jesse
tentou defendê-lo, mas foi cortada pelo parceiro.
— Eu sei que ele te sequestrou, Jesse, mas não se preocupe. Estamos
aqui agora, está a salvo. Conseguimos imagens das câmeras da rua onde fica
o galpão onde o seu pai foi assassinado e esquartejado antes de ser levado
para frente do departamento do FBI. Maldonado aparece entrando no lugar
ou vai mentir agora, Blade, dizendo que não esteve na cena do crime? —
acusou Hugo, certo do que estava dizendo. Maldonado olhou para Jesse
desesperado, mas não desmentiu nada.
— Você disse que não haveria mentiras e segredos! — Jesse se
afastou a alguns passos dele sem se importar com o monte de armas
apontadas para eles.
— Eu estive no local, Jesse, mas eu não matei o seu pai. — Jesse
cobriu o rosto com as mãos, começando a chorar.
— Você quebrou o nosso pacto! — Havia tanta mágoa no olhar de
Jesse, na verdade era raiva.
— Não quebrei, anjo, me deixa explicar. — Ele tentou se aproximar
dela, mas foi baleado por Hugo com um tiro bem no meio do peito.
— BLADEEEEE! — gritou Estevão no exato momento, assustando a
todos no hospital.
Acordara do coma, com a pele mais pálida do que nunca e os olhos
azuis arregalados. O corvo voava dentro do quarto de um lado para o outro
em comemoração, já Nayla não conseguia parar de chorar de tanta alegria.
— Não! — Jesse tentou ajudá-lo, mais foi arrastada para longe por
dois policiais.

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Hugo se aproximou de Blade que ainda permanecia de pé com as duas


mãos sobre o buraco da bala que sangrava sem parar, um Maldonado não caía
fácil.

— Isso é por ter entrado na minha casa e matado o meu irmãozinho


caçula. Eu sou Matteo Castelli!!! — cochichou Hugo, de forma que só
Maldonado escutasse.

Blade arregalou os olhos, deixando em segredo quem matou o irmão


dele. Se por acaso ele soubesse, Jesse estaria em perigo.

— Aquele pirralho, só esperou eu viajar com a minha mãe para a


Europa para fazer essa lambança toda. Com a mania idiota de provar que é
capaz, agindo pelas minhas costas, e não é de agora. Moleque idiota. Agora
acabou morto e a minha mãe passa os dias chorando por causa dele! Eu odeio
vê-la chorando! — Matteo era tão louco quanto o irmão caçula.

— Eu vou voltar, nem que seja do inferno para te matar. Se ousar


encostar um dedo nela, vou arrancar um por um — ameaçou Blade com a voz
falha, o sangue escorrendo no canto da boca.
— Ela agora é minha, como prêmio de consolação! Apodreça no
inferno, maldito, a sua raça ruim termina aqui! Não porque eu goste dela, mas
porque você a ama. — Discretamente, com a ponta do dedo indicador
empurrou Blade Maldonado para o precipício, que caiu em câmera lenta
vendo Jesse espernear chamando por ele.
— Eu te amo! — sussurrou já fraco demais para que ela escutasse,
infelizmente. Arrependeu-se por não ter dito antes e agora era tarde demais.

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“Alguns anos depois”…

— Olha, ele está acordando, qual o seu nome, rapaz? — perguntou


um senhor já de idade, usando roupas gastas. Era esperto, fez a pergunta
antes que os médicos chegassem.
— O meu nome é Vladimir Alvarez, mais conhecido como Blade
Maldonado!
E assim a história continua, onde Maldonado volta com sede de
vingança em Blade Fênix” (Ressurgindo das Cinzas).

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PRÓLOGO

O mais novo empresário recém-chegado na cidade de Los Angeles,


Vladimir Álvarez, que na ocasião trajava um belo terno italiano cinza, tirou
algumas horas do seu precioso tempo para admirar o trabalho da bela
exposição de fotos de uma talentosa fotógrafa que há alguns anos largou a
não tão brilhante carreira na polícia para se dedicar em tempo integral ao seu
amor pela arte e o sonho de viajar pelo mundo. Estava próximo a uma foto
dela, muito bonita por sinal, na África, usando um delicado vestido florido de
pano leve, sem maquiagem e o cabelo em um corte curto, enfeitado com um
laço branco, segurando uma câmera profissional ​— que ele havia comprado
— e sorrindo espontaneamente rodeada por crianças visivelmente encantadas
com a sua presença. Ela era assim, deixava um rastro de amor por onde
passava. Observou a jovem artista se aproximar cumprimentando
educadamente a todos que vieram prestigiar o seu notável trabalho, estava
mais linda do que se lembrava, mas a delicadeza continuava a mesma, a
doçura ao efetuar os pequenos gestos, por mais simples que fossem. Mesmo
depois de tanto tempo, ainda corava como uma adolescente quando estava em
algum lugar com muitas pessoas, um anjo tímido. O mundo parou enquanto
ele admirava seus grandes e expressivos olhos castanhos-escuros.
A princípio, devido a elegância, não a reconheceu. Estava mais
confiante e madura, de fato, uma beleza de tirar o fôlego de qualquer um,
principalmente o dele. Quando ela se aproximou, acompanhada da mãe e da
irmã, passando por ele, inclinou a cabeça e o corpo em uma saudação
cavalheiresca. As suas mãos suaram e a respiração ficou cada vez mais
ofegante.
— Obrigada por vir, seja bem-vindo! — Ela o cumprimentou com um
belo sorriso, sendo gentil.
Sabia que não deveria ter ficado magoado pelo fato dela não o ter
reconhecido, mas mesmo assim ficou. Não poderia culpá-la, nem ele mesmo
se reconhecia quando olhava o próprio reflexo no espelho. Os cabelos agora
eram longos na cor castanho-claro, a barba mediana, rústica e sexy. Os olhos
escurecidos com o auxílio de lentes, conseguindo, assim, se tornar mais

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atraente do que já era. No entanto, só o fato de poder ouvir aquela voz doce
novamente já era mais do que o suficiente para o deixar imensamente feliz.
— Obrigado, senhorita! — Vladimir tentou não vacilar olhando nos
olhos dela, mas foi em vão. Durante anos ansiava por aquele momento do
reencontro. E ela estava tão linda, perfeita! Usando um vestido longo, vinho,
modelo sereia que conhecia muito bem, afinal fora ele quem o escolheu para
lhe presentear no seu primeiro baile. Ficou surpreso dela ainda o ter, havia o
guardado para usá-lo apenas em ocasiões especiais. Isso fez o ego de
Vladimir inflar como um balão de gás.
— Eu que agradeço, senhor! — Ele pensou que iria morrer, ela havia
dado “aquele sorriso” que iluminava o mundo todo, que poderia tirar dele o
que quisesse, era só pedir e o teria em suas mãos.
Graças a Deus a conversa entre eles foi breve demais e ela continuou
o seu caminho cumprimentando os outros convidados. Mais um minuto e a
teria beijado para matar a saudade que estava sentindo dela, do seu anjo. Mas
antes que isso acontecesse, tinha de fazer algo muito importante: provar a sua
inocência para a sua amada. Sem condições de se manter no recinto, Vladimir
resolveu ir embora o mais rápido que os seus pés conseguissem andar. Mas
algo o fez parar, uma coisa inesperada.
— Tia Jesse, o Antônio me bateu de novo! — Apareceu uma
garotinha chorando, tão branca, que chegava a ser pálida. Ela vestia um
vestido negro como a noite, era sua cor favorita. Os cabelos escuros e longos,
lisos e brilhantes. Os olhos eram de um azul forte, os traços do rosto que
lembrava muito alguém que Vladimir conhecia e amava como irmão.
— Bati mesmo! Ela mereceu e se me encher o saco, bato de novo! —
Atrás dela veio um garoto emburrado. Cara e punhos fechados procurando
briga. Estava vestido como um homenzinho, de terno cinza e gravata preta de
riscos. Os cabelos castanhos-claros, com gel, penteados para trás. Tinhas os
traços dela, mas os olhos… A cor não era nem azul ou verde, mas de um tom
indecifrável. Idênticos aos de Vladimir, assim como os do seu pai e de seu
avô. Raridade encontrada apenas nos herdeiros do sobrenome Maldonado e
em mais nenhum outro lugar.
— Que coisa feia, Antônio! Peça desculpas para Estefânia agora ou
vai ficar de castigo! — Ela chamou a atenção do garoto, severa.
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— Mas mãe… — Ele tentou se explicar, não teve jeito.


— Agora, filho! — A mãe colocou as mãos na cintura, batendo o
salto do sapato no chão, nervosa.
— Que inferno! Desculpe por ter te batido, garota chata! — Saiu com
a cara azeda, mais fechada do que chegou.
Então, Vladimir percebeu que não eram só os olhos que ele tinha da
família, mas o gênio forte também. Com esse pensamento saiu da exposição,
totalmente sem chão diante da descoberta.

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Por: Autora Marí Sillva.

Obrigada por me acompanharem até o final dessa viagem insana


chamada Blade Maldonado, onde tudo pode acontecer. Um demônio que se
apaixonou pelo anjo, rendendo-se aos encantos dela, o ser mais doce do
mundo chamado Jesse Carter. Não tenho palavras para descrever o que estou
sentindo nesse momento, é forte demais. Blade chegou na minha vida em um
momento difícil, tirou-me da depressão e mostrou que tudo é possível quando
acreditamos em nós. Jesse me ensinou a não perder a fé nunca, mesmo diante
a tantos problemas difíceis, a olhar para as pessoas sem maldade, com amor.
Fiquem com Deus e até breve, um abraço.

*Confira \ a capa de “Blade Fênix” (Ressurgindo das Cinzas)

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