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Problemas Cla) ey Les Co EM Celet Later tel erste COPYRIGHT © Routledge, Chapman & Hall, Inc., 1990 Edigdo em lingua portuguesa publicada mediante acordo com Routledge, Inc. TITULO ORIGINAL EM INGLES: Gender Trouble —Feminisin and the Subversion of Identity capa: Evelyn Grumach PRQJETO GRAFICO: Evelyn Grumach Jodo de Souza Leite PREPARAGAO DE ORIGINAIS E REVISAO TECNICA: Vera Ribeiro EDITORAGAO ELETRONICA: Imagens Virtwal CIP-BRASIL, CATALOGAGAQ-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. ‘Butler, Judith B 5592p Problemas de género: feminismo csubversio da identidade J Judith Butler ; tradugio, Renato Aguiar. — Rio de Janeiro: Civilizagdo Brasileira, 2003. += Buijeito e Historia) ISBN: 85-200-0611-6 1. Feminismo. 2. Teoria feminista. 3. Papel sexual. 4. Sexo — Diferencas (Psicologia). 5. Identidade (Psicelogia). 1, Titulo, IL. Titulo: Feminsmo © subversio da identidade, IIL. Série cDD — 305.4 02.2104 CBU — 3% ‘Todos os direitas reservados. Proibida a reprodugao, armazenamento ou transmissao de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia autorizagio por escrito. Direitos desta edicio adquiridos pela EDITORA CIVILIZACAO BRASILEIRA Um selo da DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIGOS DE IMPRENSA S.A, Rua Argentina 171 - 20921-380 Rio de Janeiro, RJ Tel: (21) 2585-2000 PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL: Caixa Postal 23.052, Rio de Janeiro, RJ, 20922-970 Impresso no Brasil 2003 Sumario PREFACO. 7 CAPITULO Sujeitos do sexo/género/desejo 15 1. "MULHERES” COMO SUJETTO DO FEMINISMO «17 2. AQADEM COMPULSORIA DO SEXO/GENERODESEIO 24 3. GENERO: AS RUINAS CIRCULARES DO DEBATE CONTEMPORANEO 26 4, TEORIZANDO O BINARIO, OUNITARIOE ALEM = 33 5. IDENTIDADE, SEXO EA METAFISICA DASUBSTANCIA 377 6. UNGUAGEM, PODER E ESTRATEGIAS DE DESLOCAMENTO | 49° CAPITULO 2 Proibigao, psicandlise e a produgao da matriz heterosexual 61 1, APERMUTA CRITICA DO ESTRUTURALISMO = 68 2, LACAN, RIVIERE E AS ESTRATEGIAS DAMASCARADA 74 3. FREUD EAMELANCOLIADO.GENERO OT _ 4. ACOMPLEXIDADE DO GENERO EOS LIMITES DAIDENTIFICACAD = 102 5. REFORMULANDO A PROIBIGAO COMO PODER = 109 (CAPITULO 3 Atos corporais subversivos 119 1. ACORPO-POLITICA DE JULIA KRISTEVA «= 127 ‘2, FOUCAULT, HERCULINE E A POLITICA DA DESCONTINUIDADE SEXUAL = 140) 3. MONIQUE WITTIG: DESINTEGRAGAD CORPORALE SEXOFICTICIO 162 4, INSCRIGOES CORPORAIS, SUBVERSOES PERFORMATIVAS. 185 CONCLUSAD Da parédia 4 politica NoTAS 215 inpice 233 SUMARIO 203 Prefacio Os debates feministas contemporineos sobre os significados do con- ceito de género levam repetidamente a uma certa sensagio de proble- ma, come se sua indeterminagio pudesse culminar finalmenre num. fracasso do feminismo. Mas “problema” talvez nao precise ter uma valéncia tio negativa. No discurso vigente em minha infancia, criar problema era precisamente o que nao s¢ devia fazer, pois isso traria problemas para nos. A rebeldia ¢ sua repressio pareciam ser apreen- didas nos mesmos termos, fenémeno que deu lugar a meu primeiro discernimento critico da manha sutil do poder: a lei dominante amea- gava com problemas, ameagaya até nos colocar em apuros, para evitar que tivéssemos problemas. Assim, concluf que problemas sao inevita- veis e nossa incumbéncia é descobrir a melhor maneira de crid-los, a melhor maneira de té-los. Com o passar do tempo, outras ambigilida- des alcangaram o cen4rio critico. Observei que os problemas algumas yezes exprimiam, de maneira eufemistica, algum misterioso problema fundamental, geralmente relacionado ao pretenso mistério do femini- no. Li Beauvoir, que explicava que ser mulher nos termos de uma cultura masculinista é ser uma fonte de mistério ¢ de incognoscibili- dade para os homens, o que pareceu confirmar-se de algum modo quando li Sartre, para quem todo desejo, problematicamente presu- mido como heterossexual ¢ masculino, era definida como problema. Para esse sujeito masculino do desejo, o problema tornou-se escindalo ‘com a intrus4o repentina, a intervencio nao antecipada, de um “ob- jeto” feminino que retornava inexplicavelmente o olhar, revertia a mirada, e contestava o lugar ¢ a autoridade da posigio masculina. A dependéncia radical do sujeito masculino diante do “Outro” feminino