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Universidade Estadual de Campinas

Instituto de Artes
Projeto de Iniciação Científica

Projeto Poéticas da Imagem

Theo Coelho Yepez

Campinas
2017
Introdução

Cianotipia
Sistema de impressão inventado em 1842 por Sir John Herschel, a cianotipia
baseia-se no descobrimento de que determinados sais de ferro (ferricianeto de
potássio e citrato de ferro amoniacal), eram sensíveis à luz.
O cianótipo consiste numa superfície emulsionada que, exposta à luz
ultravioleta, revela uma imagem de gradação azul. O processo pode ser obtido tanto
a partir de negativos comuns, como de intervenções gráficas livres ou reproduções
em materiais transparentes ou translúcidos.
É necessária a impressão por foto-contato, com exposição à luz ultravioleta.
Por isso, é necessário ampliar previamente os negativos e outros originais no
formato final desejado para serem positivados.
A botânica inglesa Anna Atkins (1799-1871) foi, acredita-se, a primeira
fotografa feminina e a primeira pessoa a publicar um livro de fotografias, em 1843,
intitulado “Photographs of British Algae: Cyanotype Impressions.”. Conheceu tanto
William Henry Fox Talbot quanto Sir John Herschel, e através do segundo se
interessou pela cianotipia, processo de revelação que usou nos seus livros. Mais
tarde, ela colaborou com outra botânica, Anne Dixon (1799-1864), a fazer dois mais
livros com cianótipos: “Cyanotypes of British and Foreign Ferns” (1853) e “Cyanotypes of
British and Foreign Flowering Plants and Ferns” (1854).
Conhecido pelo nome de blueprinting, a cianotipia, também foi usada no
século XIX como suporte para projetos de arquitetura, engenharia e design. No
início eram produzidas em linho, mas depois passaram a ser impressas em papel
vegetal ou em filme de poliéster.
Justificativa

O tempo pode ser, talvez, um possível ponto de contato entre fotografia e


música. Ambas as linguagens tem sobre o tempo um fundamento ontológico, ainda
que este cumpra papel totalmente diferente em cada uma delas.
Na música o tempo é elemento fundamental. A música tonal, através do uso
de tensão e relaxamento, progressões de acordes ou resolução de dissonâncias,
constrói para o ouvinte uma sensação de tempo linear, progressivo. Rompendo com
essa tradição, Debussy, através do uso do modalismo, reconstrói a noção de tempo,
libera o tempo musical, desarticula a narratividade, criando uma música que não é
previsível, onde o tempo parece suspenso. Grupos étnicos que encaram o tempo
como cíclico, costumam produzir um tipo de musicalidade em que sua noção de
tempo transparece na música: um tipo de repetições de padrões rítmicos e
melódicos, compartilhados coletivamente, que normalmente são usados em algum
tipo de celebração.
A fotografia também tem no tempo um elemento fundamental, embora de
maneira oposta à da música. Enquanto a música se desenvolve no tempo, a fotografia
é um corte temporal. Um fragmento de um instante presente que imediatamente se
transforma em passado. Um tempo paradoxal: tempo passado/presente,
presente/ausente.
O ensaio pretende investigar possibilidades de entrelaçamento entre música
e fotografia. Para cada fotografia será criada uma música através de recursos
eletrônicos, amostragem de fonogramas antigos e o som ambiente do local
fotografado. Assim, a música dialogará com a fotografia também na forma já que a
cianotipa é a releitura de uma técnica fotográfica do século XIX, e na música serão
também usados fonogramas antigos e recursos eletrônicos contemporâneos.
Será fotografada a cidade de São Paulo, principalmente na região central,
onde coexistem de maneira quase caótica construções de diversas épocas e estilos,
onde tempos se sobrepõem, em muitos casos de maneira quase violenta, onde
prédios quase em ruínas ficam ao lado de modernos edifícios espelhados, onde
marcos arquitetônicos convivem com zonas de tráfico de drogas, onde as
construções deixam expostas, pelas pichações, pelo mofo nas paredes, pelas
rachaduras, as marcas do tempo
Fotografias
Robert Schaefer

Biografia e Principais Exposições

Robert A. Schaefer Jr. nasceu em 1951 na pequena cidade de Culman, ao


norte do estado do Alabama. Em 1975 se formou em arquitetura, fotografia e
alemão pela Auburn University. Logo se mudou para Munique onde fez mestrado em
fotografia, arquitetura e teatro na Technische Universitaet, se formando em 1978.
Nessa época seu trabalho começa a ser exposto em centros culturais da embaixada
americana na Alemanha, nas cidades de Munique, Hamburgo, Hannover e Frankfurt;
e nas galerias Joerg Walter Koch em Munique e na Ufficio Dell Arte em Paris, onde
grande parte do seu trabalho foi colocado na coleção permanente da Bibliotheque
Nationale. Em 1981 se muda para Nova York onde ainda mora e trabalha. Desde
então já teve exposições pessoais no AROMA Gallery, Berlin; no Huntsville Museum
of Art; no Agnes Museum of Art, entre outros. Suas obras fazem parte da coleção
permanente do Museum of Modern Art de Nova York, da coleção privada de Kofi
Annan, ex-secretário das Nações Unidas, entre outros. Da aulas na Alternative
Center of Photography e, desde 2003, na New York University.
Schaefer tem ultimamente trabalhado com processos alternativos,
principalmente a cianotipia, e usa as imagens que consegue com a técnica do século
XIX para fazer gigantescas impressões em giclê. Em 2009 Schaefer visitou a India
onde tirou uma série de fotografias as quais seriam impressas como cianotipos. O
Goethe Institute da India produziu duas exposições desse trabalho no Government
Museum as Art Space e no Goethe-Institute/Max Mueller Bhavan, ambas em
novembro de 2010. O conceito das exposições foi feito por Elizabeth Rogers que
também esteve na curadoria das exposições e editou o catalogo “Architectural Blue
– Cyanotypes of India and Germany”.

Caracteristicas do seu trabalho

Em seu trabalho Robert Schaefer procura tirar o melhor tanto das


tecnologias quanto dos processos históricos. Para ele, computadores e softwares
ajudam os fotógrafos a exibir seu trabalho para o grande publico, reduzem a
exposição a químicos e facilita o contato com mentores e colegas. Mas a tecnologia
não é o ponto de partida no seu trabalho, que compõe no visor e revela na câmara
escura.
Em 1997 Schaefer teve uma grande exposição em Berlin. Se preparando para
a apresentação, pensava em como poderia ampliar as imagens do seus cianotipos
para a multidão de pessoas poderem ver seu trabalho. Ao invés de trabalhar
tediosamente na câmera escura, o fotografo contratou uma empresa para escanear
os cianotipos, depois usar uma impressora de tinta para imprimi-los em tela foto
giclê de 16x20 polegadas. Isso marcou uma mudança para Schaefer. Não apenas os
giclês o salvaram de horas de trabalho sem faze-lo perder o controle artístico, mas o
tamanho total deu certa dramaticidade às obras. Assim, Schaefer, passou a usar giclês
em todas suas exposições, frequentemente com o cianotipo original ao lado. Essa
abordagem fascinou curadores com sua combinação de técnicas arcaicas com
tecnologia moderna.
Para Schaefer o negativo é o mais importante. Evita usar computadores e
softwares para mudar a composição e adicionar efeitos a uma imagem depois desta
já ter sido capturada pela câmera. Acredita que processos de pós-visualização não
refletem os insights visuais possíveis para alguém experimentar no mundo real, um
tema subjacente ao seu trabalho. “É trabalho no laboratório, quer dizer, é uma visão
mas não o que alguém viu, é o que você esta manipulando. Eu percebi que a
fotografia é a arte de ver, por isso eu quero mostrar ao publico uma visão, mas eu
quero que seja uma visão que eles também possam ver.” Por exemplo, se Schaefer
esta fazendo um retrato, ele costuma usar objetos cênicos para adicionar camadas à
composição. “Eu quero ver esses objetos ficam quando olho para eles. Mas
teoricamente qualquer leigo poderia tê-los visto. Eu não estou alterando o que estou
vendo através da câmera.”
Fotografias Comentadas

Temples - Fatehpur Sikri (2009)

O menino correndo no centro. Para o centro. O menino correndo no pátio


do templo, no pátio do templo erguido de pedra, na cidade construída e abandonada
há quase quinhentos anos. O menino, o movimento, o templo, o silêncio.
Abandonada por falta de água logo após sua construção, Fatehpur Sikri permanece
praticamente intacta, desafiadoramente quieta na sua obstinação em ficar sendo o
que já era há quase meio milênio.
O templo indiano dos mil e quinhentos feito em pedra vermelha. Na foto,
pintado de azul por um processo químico inventado na França do século XIX. A foto
exposta em um novembro próximo em duas cidades modernas na já não tão mística
Índia.
As colunas emoldurando a foto. A foto por dentro da foto. A foto tirada do
lado de dentro. A foto tirada da sombra, olhando pra fora, onde a luz se deita nas
pedras do templo, com calma. A luz branqueia o céu e pinta delicada as paredes, as
abóbodas, o telhado, o pátio. O contraste de dentro e de fora. Simétrico o templo,
simétricas as fotos.
As pessoas pequenas, o templo imenso. O tempo parece vago e incerto.
Tudo é um pouco quase como que imerso em silêncio.
Humayun’s Tomb - Side Building Entrance, New Delhi (2009)

Uma porta, moldura, um buraco no meio da foto. Por detrás dessa porta um
azul meio vago, quase o contrario do vigor azulado do plano primeiro. Essa moldura
em três dimensões, com um cachorro magro, coitado, do lado. Um Cérbero
inofensivo, triste, desolado guarda a tumba do imperador Humaium.

Um azul, claro, calmo, semi-transparente, o brilho do Sol do oriente, que


cobre as paredes do lado de dentro, que pode ser fora, visto que a luz incide sem
nenhum obstáculo aparente. Do lado de cá um azul quase noite, espesso, opaco
melancolicamente pintando a muralha-moldura. Um lá, um cá. Dois azuis, dois
sabores.
O fotografo corta o excesso, concisa a imagem se fixa.
Building Facade, New York
O vidro, espelho d’agua, fachada espelho, espelha o edifício em frente e de
lado, e se pode entrever por dentro dessa água o escritório, o escritório seus
horários e o fotografo sabe que o azul do cianótipo, o azul próprio do cianótipo faz
lembrar, faz parecer qualquer coisa como um rio, um lago, uma poça, de água azul,
de água azul-anoitecido.
A fotografia essa segunda realidade. O edifício em frente, de lado, sua
concretude dançando molemente na superfície falsamente líquida da fachada vítrea
do edifício fotografado. Meio psicodélica, o edifício refletido é o oposto do edifício
retratado, este sério, homem de negócios, edifício não-existe-almoço-grátis, aquele,
o outro, aparece liquefeito, quase liquidado, aparece outra coisa quando na
realidade, nisso que se convencionou chamar de realidade, nessa nossa realidade, é
tão sério e sisudo quanto o primeiro.
O edifício em frente de lado também talvez, ele ali espelhado, uma foto. Uma
foto no que a foto tem de espelhamento transformado, de espelhamento enganoso,
de real transfigurado, de real deformado, de coisa que passa a ser outra coisa.
A foto do fragmentado edifício retratado transforma o segundo edifício e são
dois edifícios e não são edifícios, são qualquer outra coisa senão edifícios. Tanto um
quanto o outro não são os edifícios que enganam que são, são mais como uma foto
dentro da foto, o edifício fotografado como metáfora da própria fotografia, esse
espelhamento que transforma, que transfigura.
O fotografo está de parabéns por dar alguma graça a um tedioso edifício
espelhado.
View throug a large glass window in a parkink deck, Ljublijana, Slovenia
O olho-janela que imita olho-objetiva que imita o olho da cara. E cada um é
muito próprio, cada um uma possibilidade, um tipo diferente de enxergar o que esta
ai concreto, real, bem na frente da nossa cara. É um prédio ali em frente, mas não
importa que seja um prédio, ou talvez importe, sei lá. Não importa porque a graça
toda está nesse olho, nesse olho olhado de lado, que olha qualquer coisa que não
seja esse prédio, porque o prédio esta de lado e o olho olha pra frente de modo que
não dá pra saber o que é olhado pelo olho-janela. Porque na foto é o fotografo, que
não aparece na foto, justamente porque é o fotografo, quem olha. E ele olha de lado.
E ele olha com um olho na frente do olho, esse olho que é a máquina fotográfica.
E aqui denovo de dentro pra fora, tudo escuro, nesse azul escuro na parte de
dentro e o Sol que bate la fora a iluminar esse prédio construído no século sei lá. E
essa diferença de tom de azul, que coisa mais bonita, azul escuro, forte, duro, maciço
por dentro, e lá fora uma luz antiga que parece que mingua, essa luz de dia nublado,
talvez, não sei meu bem. Quem poderá saber?
E esse olho que é janela que não é um olho posto que forma uma moldura
que deforma, que conforma a vista do fotografo. E o fotografo parece que gosta
dessas molduras. E eu gosto dessas fotos. E é isso ai. C’est ça! Anyway , Anyhow,
Anywhere, Bye Bye.