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Gustavo Adolfo Ramos Mello Neto

Um caso de pedofilia:
articulações e clínica possível

Este texto expõe um caso de pedofilia, enquanto posição diante da sexualidade e


da castração, articulando-o com as posições do sujeito diante da vida, dos
relacionamentos e do trabalho. Em algum momento, o seguimento terapêutico através
das articulações teve de se deparar com intensa dissociação entre a admissão e a
não admissão da castração da mulher e da Lei. Nesse ponto, de algum modo apareceu
a cena primitiva vivida com intensa passividade. Conclui-se que esse tipo de
processo tem de, ao mesmo tempo, confrontar o sujeito com a Lei e inserir elos entre
as partes dissociadas, para que a Lei valha para o todo e não apenas para a parte.
> Palavras-chave: Pedofilia, parafilias e psicanálise, perversão, psicopatologia psicanalítica

TThis text describes a case of pedophilia as a position related to sexuality and


castration, articulating it with the subject’s positions regarding life, relationships and

artigos > p. 35-42


work. At a certain point the therapeutic work, conducted by means of these
articulations, collided with intense dissociation between admission and non-
admission of the castration of the woman, and the Law. At that point, the primal
scene appeared as experienced with intense passivity. The conclusion is that this type
of therapeutic process could confront the subject with the Law and insert links among
his dissociated parts, so that the Law became available for the whole and not only
for the part.
pulsional > revista de psicanálise >

> Key words: Pedophilia, paraphilias and psychoanalysis, perversion, psychoanalytical


psychopathology
ano XIX, n. 185, março/2006

Este artigo tem finalidades teóricas, mas não uma conhecida revista psicanalítica de Mi-
aspira mais que apresentar a pequena teo- nas Gerais, cujo último tema foi a perver-
ria que fazemos da clínica quotidiana. são, que me inspiraram: uma é a palavra
Há duas expressões que vi nos títulos de “articulações”, a busca de articulação da
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atuação perversa com outra coisa e, outra, é como um “trambolho”, um caso impossível e
a idéia de uma clínica possível (cf. Del-Fraro um sujeito anormal/imoral. É possível enten-
Filho, 2004; Coutinho, 2004). der essas identificações quando se tem, por
O caso que segue convenceu-me, a princípio, exemplo, que Aparecido fazia questão de ser
que se poderia conduzir o tratamento de atendido por um homem. A identificação ho-
perversões baseando-se em articulações, mossexual que aí está tem seu lado, sua
isto é, nas relações metafóricas e metoními- imagem de guerra dos sexos. E essa era uma
cas do/sob o sintoma ou sob a sexualidade primeira articulação: Aparecido vivia em
explicita do sujeito com outros trechos/tex- guerra, numa fatigante guerra, na qual a fa-
tos de sua vida. As articulações permitiam diga parecia maior por uma posição forte-
fazer deslizar, por exemplo, elementos do mente passiva. A meu ver, era uma posição
sentimento de impotência frente às relações no campo da sexualidade, assim como, e aí
com o outro e com a vida para as atuações está a articulação, uma posição diante da
pedofílicas e exibicionistas tomadas, então, vida. Tratava-se, contudo, de uma curiosa
como compensatórias, vingativas e “onipo- passividade, uma maneira passiva de não se
tentemente” rejeitadoras da castração. deixar tocar pela interdição, pela Lei.
A condução do trabalho por essa hipótese foi Inicialmente, não houve propriamente uma
bastante bem-sucedida. O sujeito viu-se me- queixa; a queixa vinha dos outros, mas um
lhorar, sentir-se mais feliz e mais competen- relato, que, contudo, não deixava de ter algo
te na vida. Entretanto, as atuações de queixoso. Aparecido havia sido surpreen-
perversas continuaram escondidas, sem que dido – não sei até que ponto surpreendido
nem mesmo o terapeuta soubesse, até o – masturbando-se diante da enteada de dez
momento de um novo flagrante. Foi desse anos ao tomar banho. “Que é isso branco?”
modo que o par analítico de repente viu-se disse a menina, conforme relato da esposa.
confrontado com a existência, no eu do pa- Isso significava que sua mulher pilhou-o jus-
ciente, de uma forte dissociação e, a partir tamente no momento do orgasmo, em que
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daí, pôde fazer algumas descobertas, ao pênis, ejaculação e olhos articulavam-se


mesmo tempo em que o sujeito, pelas pró- numa relação a ser exibida talvez para a mu-
prias atuações, teve de se ver em face da lher. Aparecido via-se ser visto, ao mesmo
Lei. tempo em que sua enteada via, sendo vista
O segundo motivo para este artigo é mostrar vendo. Esse sendo vista vendo era a razão
um caso mais ou menos bem-sucedido e, as- da ejaculação, ao mesmo tempo em que a
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sim, defender a idéia de uma clínica possí- menina estava, com muita evidência, curio-
vel da perversão. sa e excitada. E, além disso, se havia algu-
Vamos, pois, a ele. ma intenção de exibir de algum modo todo
Aparecido veio ao consultório enviado lite- o cenário para a esposa, talvez fosse, num
ralmente como um “elefante branco”. Havia só “golpe”, maneira de dizer que ele, o pênis,
sido encaminhado pela psicóloga de sua es- está lá, e, segundo, de agredir a esposa, jus-
posa que, na identificação com ela, via-o tamente pelo fato dessa não possuir um pê-
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nis, mas agir como se o tivesse, com toda a condido, protegido, emparedado. Pensei
expressão de sua agressividade. numa espécie de dissociação, aquela de que
A ação do flagrante fez minar toda a con- fala Freud, em “O fetichismo”, entre reconhe-
fiança de Rosa, a esposa, e conduziu Apare- cer e, ao mesmo tempo, não reconhecer a
cido para o meu consultório, em vez de a castração, o que exige artifícios.1 Manter
uma delegacia de polícia. esse sujeito escondido num canto exige um
A primeira impressão, que não se desfez, foi estratagema, e esse, a meu ver, é a tão co-
a de ver um homem dobrado pela vida, em- nhecida dissociação do eu. Dissociada, a
purrado por ela e oprimido. Oprimido pela parte perversa, a que não reconhece a cas-
vida adulta, oprimido pelo casamento e, so- tração da mulher, está livre para fazer “coi-
bretudo, oprimido pelas mulheres... adultas sinhas”, de preferência com crianças da
– sua sogra, sua esposa e sua mãe; versões “mesma idade”, a enteada, no caso. E de
comuns dos sub-rogados da mãe infantil. mais interessante, mostrar o pênis justa-
Contou-me que, dos 16 aos 18 anos, passou mente para um ser que, pela idade, vai se
por um período de retraimento, talvez uma surpreender e mostrar admiração sincera.
depressão, para “ressurgir” aos 18 como um Portanto, de algum modo será cúmplice do
exibicionista. Expunha o pênis para mulhe- “desmentido”, a Verleugnung (ibid.), da cas-
res adultas e adolescentes. Sobre as mani- tração.
festações pedófilas, nunca entrou em Durante quase todo o primeiro ano de aten-
detalhes. Não falava delas, parecia escondê- dimento, o falar de Aparecido referia-se à
las. Mas por que esconder justamente isso? opressão de sua mulher. Quando não, mes-
Tive, depois, a impressão que o fazia como mo assim fazia menção a ela. Quase nunca
se se escondesse num cantinho para fazer Aparecido estava ali realmente, pelo menos
“traquinagem”. Ali, naquele lugar, possivel- à mostra. Mas estava. Certa vez, ele próprio
mente estava o sujeito, mas muito bem-es- referiu-se ao fato de só falar de sua mulher, pulsional > revista de psicanálise > artigos

1> Diz Freud: “Para mim, a explicação do fetichismo possui também outro aspecto de interesse teórico.
Recentemente, seguindo linhas inteiramente especulativas, cheguei à proposição de que a diferença
essencial entre a neurose e a psicose consistia em que, na primeira, o ego, a serviço da realidade, reprime
um fragmento do id, ao passo que, na psicose, ele se deixa induzir, pelo id, a se desligar de um fragmento
da realidade. (...) Retornando à minha descrição do fetichismo, posso dizer que existem muitas provas
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adicionais e de peso quanto à atitude dividida dos fetichistas para com o tema da castração feminina. Em
casos bastante sutis, tanto a rejeição quanto a afirmação da castração encontram caminho na construção
do próprio fetiche. Assim ocorreu no caso de um homem cujo fetiche era um suporte atlético que também
podia ser usado como calção de banho. Essa peça cobria inteiramente os órgãos genitais e ocultava a
distinção entre eles. A análise mostrou que isso significava que as mulheres eram castradas e que não
eram castradas; (...)” (p. 151). É a partir do fetichismo que Freud introduz, para as psicoses, algo diferente
do recalcamento, a Verwerfen (escotomização; forclusion, para Lacan), e a idéia de divisão ou clivagem do
eu no processo de defesa. Como se sabe, a Verwerfen não é o que se dá no perverso, não se trata de uma
não simbolização e clivagem tão radical. Nele se trata da Verleugnung, uma espécie de desmentido, de
recusa, que busca se sustentar no ato perverso.

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assim “fugindo da raia”. A isso, respondi: Aparecido mostrou que nunca esteve con-
— Sim, mas não inteiramente, ao falar dela tente com a presença da enteada. Por sinal,
de algum modo você fala de você. ela teve um vir-ao-mundo no mínimo curio-
Ele apenas riu. so. Rosa, antes de casar-se com Aparecido,
Era, digamos, muito hábil em esconder-se e fora visitar um presídio e, numa única vez
mantinha uma relação muito ambivalente que o fez, num único dia, teve relações se-
com o trabalho analítico. xuais com um preso, condenado por homicí-
Na verdade, ele não era pouco falante, mas dio, e ficou grávida dele. Teve a criança e
é como se fosse. Enquanto isso, empapava- Aparecido acreditava que tinha sido um otá-
se de suor, de tanta angústia que sentia. rio em assumi-la. É interessante que o que
Aos poucos foi contando que, com o nosso precede esse casamento é também uma es-
trabalho, estava melhorando, conseguindo pécie de impulso, uma espécie de ação enig-
se posicionar em relação à mulher. Havia, mática, pois Rosa não sabia explicar. Um
contudo, dias em que brigavam e não eram enigma que funda uma relação na qual Apa-
poucos. Desde que Aparecido passou a en- recido é passivamente uma espécie de car-
frentar a mulher, sobretudo o seu excesso regador.
de crítica-castração, uma discussão de uma Quando passou a melhorar, certa vez per-
hora se transformava em quinze dias ou um guntei-lhe se eu seria uma espécie de pai
mês de uma espécie de incomunicabilidade para ele. Respondeu que muito pouco. Ha-
entre eles. Essa incomunicabilidade era via transferência, mas de outra forma:
sentida como uma impossibilidade de sair de — Doutor, vejo no senhor muito mais minha
si mesmo, de trancamento; na verdade era mãe. Essas coisas íntimas eu nunca falei com
uma longa depressão. O paciente via-se meu pai, ele era muito incompreensivo. Mi-
sem esperanças na vida. Mais tarde, tive a nha mãe, não. Todos nós [os irmãos] faláva-
desconfiança de que era nesses momentos mos só com ela.
em que se davam as atuações pedofílicas. O pai, como o próprio Aparecido, era um
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Talvez ao trancar-se ficasse incapacitado de vendedor. Essa é uma identificação impor-


regular a si próprio, transformando fantas- tante e preservada, pois Aparecido ia muito
ma diretamente em ação. Porém, havia aí bem no trabalho. O pai, por sua vez, viaja-
um componente de vingança: a menina se- va muito. Sendo bom vendedor, ganhava
duzida era a enteada, a filha da mulher. também muito, mas gastava com mulheres e
Existia, no plano do simplesmente observá- álcool. Agredia física e verbalmente a mu-
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vel, uma relação inegável entre estado de- lher, mãe de Aparecido, até que, já adoles-
pressivo e atuação perversa. Se, então, a centes, os filhos se reuniram e ameaçaram
depressão pode ser entendida como ataque o pai, de puni-lo fisicamente, caso conti-
interno, parece que o sujeito se recuperava nuasse batendo na esposa. Ele levou a sé-
dele quando se dava conta da inteireza e se- rio a ameaça e parou.
dução do seu pênis, o que ocorria seja no Foi durante o trabalho terapêutico que Apa-
exibicionismo, seja na pedofilia... recido descobriu que essa mãe também ti-
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nha sido muito agressiva, mesmo fisicamen- da menina estava muito diferente. Mastur-
te. A situação de pedófilo, de estar em bai- bava-se muito, e quase em público, e com
xa na família, desmoralizado, permitia uma instrumentos, como, por exemplo, uma cha-
nova identificação com o pai, a partir da ve de fenda. Foi levada ao ginecologista e,
qual podia olhar a sua infância com mais re- para alívio do próprio sedutor, ainda era fi-
latividade. Se Aparecido não agredia fisica- sicamente virgem. De mais interessante é
mente a mulher, aliás, tinha horror a isso, a que grande parte disso ocorreu durante ou
agredia gravemente seduzindo a sua filha. paralelamente ao trabalho terapêutico, sem
Num momento de muita melhora, tendo, ao que eu o soubesse. Aparecido, então, disse
menos aparentemente, abandonado a ter melhorado muito em relação às suas re-
atuação pedofílica, ele procurou prostitutas. lações com a mulher, em relação ao trabalho
Disse abertamente que se tratava de saber e a outras pessoas. Já não aceitava passiva-
se tinha gosto por mulheres adultas, mas so- mente seja lá o que fosse. Ora, de acordo
bretudo para vingar-se da esposa. E, a meu com uma certa esperança, eu avaliava que
ver, as duas coisas podem ser remetidas a a elaboração do ódio em relação à mãe e à
perguntar-se sobre a integridade do pênis, e mulher, e uma certa libertação de ter que ser
daí a vingança da mãe, que aparece des- o desejo do Outro, estava se refletindo so-
possuída do órgão viril. Despossuída do ór- bre a atuação pedofílica e (ingenuidade!)
gão viril, mas investida de um poder fálico elaborando um, elaborava-se outro. Descu-
no mínimo aprisionador. Aprisionador e se- bro, então, que não era apenas uma atua-
dutor. ção. Existia uma constatável dissociação e,
Num certo momento do tratamento, quando dessa forma, um cantinho resguardado no
estava em torno de seis meses, depois de eu onde ele podia fazer “coisinhas” em se-
uma dessas crises conjugais em que se dava gredo. As articulações que eu via entre suas
o fechamento e a depressão, Aparecido dei- posições afetivas na vida, digamos assim, e
xou de vir ao consultório por uns dois me- sua posição em termos psicossexuais, o que
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ses. Parecia-me que tinha abandonado o havia, de fato, eram obstruídas fortemente
nosso trabalho. E de fato havia, sem o dizer. pela clivagem. Seja como for, quanto ao se-
Contudo, numa noite recebo um chamado às gredo mantido pelo paciente, inclusive para
pressas de sua esposa. mim, lembrei-me do texto de David Liberman
Haviam recebido a denúncia de uma vizinha (1982, p. 118) que chama atenção para o fato
de que sua filha, de 13 anos, estava inten- do paciente perverso, impulsivo ou psicopa-
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samente enamorada de Aparecido, que a se- ta, ser quase impenetrável. Isso pelo fato de
duzira, segundo ele, de maneira apenas ter medo – persecutório – justamente disso,
verbal. A mãe ofendida exigia que ele dei- de ter a mente penetrada, controlada...
xasse a cidade ou faria a denúncia às auto- Volto ao relato. Como disse, Rosa chamou-
ridades. Além disso, Rosa fê-lo confessar me de urgência e fui. Chegou também ao
que bolinava a enteada, com as mãos, além consultório o casal.
dos atos exibicionistas. O comportamento Relataram que ele estava expulso de casa.
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Ele, manifestando uma angústia absoluta- Em alguns meses, Aparecido foi buscando a
mente terrível, dizia que só tinha duas saí- mulher, da qual se sentia profundamente
das para a culpa (real) que estava sentindo: dependente, e procurando mostrar que ha-
o suicídio ou entregar-se à polícia. A própria via se “corrigido”.
esposa sugeriu, como alternativa, um hospi- O chamativo aí é que nesse período houve
tal psiquiátrico. Telefonei para o psiquiatra. alguns achados, como esse de que a mãe
Foram. Lá, avaliou-se que uma internação também agredia o pai, que era ciumenta,
breve ajudaria a lidar com a depressão, que tentava mandar nele sem o conseguir.
além de afastá-lo temporariamente do pro- Descobriu que a mãe os usava, ao paciente
blema. e ao irmão, como pretexto para não ter re-
E, de fato, permaneceu quinze dias. Tentou lações sexuais com o pai. Punha-os na cama
voltar, mas o psiquiatra, também terapeuta, e o homem não se atrevia a separá-los. Esse
disse-lhe que ele já estava “bem grandinho” pai, pela pouca presença, pela desmoraliza-
e podia enfrentar a vida. Retirou, então, ção de sua agressividade, pela impossibilida-
toda a medicação. De minha parte, fui ao de de separar mãe e filhos, parece ter
hospital e lá fiz as sessões de praxe. Busquei fracassado imensamente em fazer valer e
dar acolhimento, mas sobretudo mostrar ao instalar sobre os corpos a Lei. Isso também
paciente continuidade no tratamento. parece ir em direção do que fala Liberman
Neste momento, Aparecido, como um meni- (p. 123), por outro caminho teórico: os pais
no de cinco anos, vê-se de frente com a Lei dos perversos muito possivelmente não te-
de uma maneira extremamente traumática. riam aberto muitas trilhas de linguagem com
Pensei que fosse preciso ajudá-lo a aparar eles. Do mesmo modo, podemos lembrar
esse encontro, sem neutralizá-lo, porém. aqui de Janine Chasseguet-Smirgel (1992),
O que se seguiu, no consultório, foram cenas que vê no passado do perverso uma mãe
de um garoto largado, rejeitado e desampa- que alimentou fortemente a esperança do
rado. Chorava, dizia coisas diversas, mas que incesto, tornando a Lei inútil e inócua, pro-
me pareciam todas de um menino pequeno. metendo, de algum modo, a sua não-efetivi-
artigos

Havia também a descrição de uma espécie dade. Diz a autora:


de cena de médico e monstro. Aparecido em Talvez se pudesse adiantar que se torna per-
seu novo quarto de pensão, de repente sen- verso aquele que, ajudado nisso muitas vezes
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tia a boca salivar, o corpo retesar-se, a men- pela mãe, não pode se resolver a abandonar a
te tornar-se muito estranha e, então, tinha ilusão de ser seu próprio parceiro adequado...
(p. 21)
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um enorme trabalho em impedir-se de ir


atrás de qualquer menina de dez ou 12 anos Essa relação com o burlar sempre esteve
de idade. muito presente. O não me contar, era um
Fui aceitando isso, principalmente como o burlar. Mas, além disso, havia o não pagar ou
estabelecimento de uma relação em que eu pagar atrasado, o chegar sempre atrasado,
poderia caber no segredo, ao menos em uma pelo menos dez minutos, o faltar muito etc.
parte dele e, sobretudo, não me furtava a Quando estávamos em torno de dois anos
dar acolhimento. trabalhando analiticamente, Aparecido, já
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bem melhor com a família, passou a faltar o é a cena primitiva) e de violência real. Na
ainda mais. Depois de uma associação com raiz da sedução, está o objeto-fonte: a mãe.
a palavra “penetração”, com telefonar aos Uma sedução maciça e apassivadora e, so-
clientes e odiar ter que ouvir não, um trau- bretudo, introduzindo algo, pelo ânus – cena
mático não, perguntei-lhe se sentia seu ou- do irmão – e pela boca – seio, amamenta-
vido penetrado, estuprado, sobretudo no ção, talvez – que não se elabora e, como cor-
tratamento. Na sessão seguinte, trouxe uma po estranho, vai e volta na forma de impulso
cena em que presenciou a mãe lavando o parafílico.
ânus do irmão um pouco mais velho, quan- O objeto-fonte da pulsão, aí, é visto como o
do este, com dez anos, havia sido estupra- define Laplanche (1992, p. 150 e segs.). Para
do por um rapaz de 17. A associação seguinte esse autor, a pulsão é exógena, vem de
foi com as brigas dos pais, que ocorriam no “fora”, do objeto que a marca. A não meta-
quarto ao lado, e muito barulhentas. Per- bolização do que vem do outro adulto, por-
guntei-lhe se já imaginara que, ali mesmo, que enigmático (e sexual), é que vai produzir
além de brigar, os pais também mantinham o inconsciente e o sintoma. A marca que se
relações sexuais. Disse que nunca imagina- vê na pulsão de nosso paciente é a marca
ra, mas que era bem possível. Eis, portanto, passiva. No caso do perverso, a não meta-
a cena primitiva, cercada de violência hetero bolização aparece principalmente, suponho,
e homossexual.2 De algum modo, pareceu- na forma mais de ação e menos de pensa-
me ficar explicada a sua passividade diante mento. A meu ver há um elo quase visual
da mulher e da vida afetiva: ele estava co- entre o ânus ensangüentado do irmão, cui-
locado talvez no lugar da mãe, enquanto dado pela mãe – imagem de castração, mas
objeto sexual passivo à penetração e à talvez também de masturbação anal – e ser
agressão, como a cena também prototípica sufocado em seus braços, de forma a evitar
do irmão parecia indicar, ou estava no lugar a presença sexual paterna.
do pai, que nada penetrava, portanto, dian- Pois bem, um mês depois abandonou o tra-
artigos

te da mãe e dos filhos era um castrado, por tamento, alegando motivos econômicos. Pe-
mais violento que se manifestasse. Ao me- las notícias que tenho na atualidade, não
nos foi aí que se apontou o fantasma. A me- voltou a praticar atos pedofílicos. Entretan-
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nininha, a enteada, talvez representasse ele to, devo dizer que está ainda numa terapia
mesmo nessa cena que é de sedução (como de família, indicada por mim, que, a meu
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2> Também tem de se levar em conta aquilo que diz Janine Chasseguet-Smirgel, que a perversão,
exemplificada e tornada modelo com o fetichismo, devido ao texto de Freud, é não só uma tentativa de
anular a castração, mas também de evitar a própria cena primitiva. Veja-se esse trecho da autora: “Se é
verdade que, atribuindo um pênis à mãe, o fetichista se defende de seus temores de castração, ele se
defende ao mesmo tempo do reconhecimento de uma relação genital entre os pais: se a mãe tem um
pênis, ela não tem necessidade do pai – homem adulto – e ele, o menino, pode satisfazer a mãe por sua
sexualidade pré-genital, por seus toques imprecisos (toques em que o pênis está implicado de uma ma-
neira vaga (...)” ( O ideal do ego, p. 21).

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ver, permitiu que marido, mulher e enteada meu entender, atravessá-la, para então per-
pudessem se dizer coisas abertamente. Se- mitir colocar elos entre as partes do eu dis-
gundo a terapeuta, grande parte do trabalho sociado, para, assim, o sujeito admitir a
é de “monitoria”. Isto é, quando mulher e passividade necessária para ser tocado in-
marido se desentendem e ele vai, pois, em teiramente pela interdição, para que ela va-
direção ao fechamento já relatado, a tera- lha para todo o seu ser e não simplesmente
peuta age no sentido de abrir rapidamente para uma única e clivada parte.
o diálogo entre eles, pois Aparecido, ao se
trancar, porta-se perigosamente. Referências
A interdição parece ter tocado algo, mas CHASSEGUET-SMIRGEL. Janine. O ideal do ego. Trad.
ainda necessita presença constante por Francisco Vidal. Porto Alegre: Artes Médicas,
meio de um terceiro concreto e atuante, nes- 1992.
te caso, é a terapeuta de família que o as- COUTINHO, A. H. Z. et al. Perversão; uma clínica
sume. O ir adiando continua, segundo possível. Reverso. Belo Horizonte, v. 26, n. 51,
foi-me relatado. Vai a uma sessão, não vai p. 19-28, 2004.
à outra, falta dois meses. Ao menos na apa- DEL-FRARO FILHO, José. Uma possível articulação
rência, não pratica atos pedofílicos e nem entre neurose traumática e atuações pedofíli-
claramente exibicionistas, mas continua se cas. Reverso, Belo Horizonte, v. 26, n. 51, p. 57-
contentando com prostitutas, seu “grande 76, 2004.
protesto”. E assim como Sherezade adiava a FREUD, S. Fetichismo. In: Obras Completas. Trad.
morte com suas histórias, como Penélope Luís Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu,
adiava deitar-se com um novo marido e es- 1990. v. 21.
perava Odisseu, Aparecido vai adiando a LAPLANCHE, Jean. Novos fundamentos para a psi-
aceitação da castração do Outro materno, canálise. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo:
bem como, com isso, vai adiando a repre- Martins Fontes, 1992.
sentação da relação sexual dos pais.3
LIBERMAN, David. Psicopatologia. Trad. Francis-
Esse adiamento, pois, vai dando a sensação
artigos

co Coelho Santos. Rio de Janeiro: Campus,


de tédio no analista, ao mesmo tempo que 1982.
tédio e irritabilidade são sentimentos fortes
nesse tipo de paciente, inclusive em Apare-
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cido. Atrás desse tédio, está forte angústia,


diz-nos Liberman (1982, p. 108), assim como
insatisfação causada pela impossibilidade do
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objeto. Essa angústia, acrescento, é antes Artigo recebido em outubro de 2004


de tudo de castração. Vai ser preciso, no Aprovado para publicação em janeiro de 2006

3> Vide nota 1.

>42