P R O P O S TA C U R R I C U L A R D O E S TA D O D E S Ã O PA U LO

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Uma Análise Crítica

P R O P O S TA C U R R I C U L A R D O E S TA D O D E S Ã O PA U L O : Uma Análise Crítica .

EXPEDIENTE Dirigentes responsáveis: Maria Cecília Mello Sarno Presidente do Sindicato-APASE Maria Izabel Azevedo Noronha Presidenta da APEOESP Professor Palmiro Mennucci Presidente do Centro do Professorado Paulista Projeto Gráfico: M.Giora Comunicação Tiragem: 35 mil exemplares 2 .

Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo – APEOESP. a partir de sua história educacional e de sua experiência em propor alternativas educacionais que foram e são referência para outras propostas pelo Brasil afora. 3 . Centro do Professorado Paulista – CPP. a idéia é avançar no sentido de construir. analisaram a Proposta Curricular do Estado de São Paulo com o objetivo de subsidiar o debate sobre o novo currículo entre os educadores da rede estadual de ensino. Neste sentido. Algumas questões norteiam este boletim: • o que queremos ensinar nas escolas públicas do Estado de São Paulo? • qual o papel que essa mesma escola deve cumprir num momento de profunda crise econômica. construam seu Projeto Pedagógico. sem a necessária participação de todos os envolvidos direta ou indiretamente no processo educacional escolar. mas é sempre uma resposta às necessidades materiais e espirituais de uma sociedade determinada. humana e que cumpra com seu papel de instituição educadora e formativa. Este Boletim pretende contribuir para um debate preliminar sobre a Proposta Curricular implementada pela Secretaria Estadual de Educação do Estado de São Paulo – SEE. contando com a assessoria de alguns pesquisadores e professores universitários da área educacional. com a sabedoria. uma proposta curricular que indique as possibilidades para que nossas escolas. Posteriormente. social e política? As respostas a essas questões passarão. coletiva e democraticamente. Tal iniciativa deveu-se aos inúmeros questionamentos dos profissionais da educação junto às suas entidades e universidade. Esperamos que este movimento subsidie a construção de uma escola mais justa. Nenhuma Proposta Curricular é solta no tempo e no espaço. a partir de suas especificidades locais e regionais. por entenderem ser a Proposta Curricular mais uma política implementada pelo governo estadual. entende-se que a participação dos docentes e demais profissionais da educação da rede estadual paulista nessa empreitada é fundamental. pela especificidade da escola pública paulista.A P R E S E N TA Ç Ã O Representantes das entidades do magistério paulista: Sindicato de Supervisores de Ensino do Magistério no Estado de São Paulo – APASE. Isso implica em respeitar a história e a prática dessa mesma escola. com certeza. criatividade. experiência. dinamismo. luta e compromisso que os educadores paulistas demonstraram e demonstram ao longo da construção da escola pública paulista contemporânea.

Quando as graves questões como a evasão. seja pela implementação de novas formas de remuneração por meio de critérios meritocráticos que desconsideram a carreira dos educadores e dos demais profissionais da educação. 4 . o governo e alguns segmentos da sociedade apontam como culpados do fracasso aqueles que estão à frente do processo ensinoaprendizagem: os educadores. Essa avaliação falaciosa leva à adoção de novas medidas legais e administrativas que acabam lesando cada vez mais a categoria. desde a instauração da República no Brasil. seja pela retirada de direitos trabalhistas adquiridos. a repetência. Os avanços e retrocessos da nossa escola estiveram e estão atrelados ao jogo político e aos interesses que. não coincidiam ou não coincidem com as reais necessidades educacionais da escola paulista e de seu alunado. não são resolvidas. o baixo índice apresentado nos indicadores como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB e outros. Isso não foi diferente no Estado de São Paulo. veremos que a construção da escola pública brasileira sempre esteve condicionada ao vai e vem das políticas educacionais de cada governo e de cada gestão política. muitas vezes.O Vício Autoritário das Políticas Educacionais S e olharmos para nossa história.

Para tanto. de homem e de educação. econômica e política de todas essas regiões são iguais? Quando a SEE adota um currículo padronizado. precisamos atuar como protagonistas e não meramente como implementadores que devem respeitar cronograma. burocracia. estão sendo consideradas as diferenças regionais? As diferentes questões que permeiam o trabalho cotidiano em cada escola estão sendo levadas em conta? Todo currículo é historicamente situado e. não é meramente concordar ou discordar do currículo que foi implementado pela SEE.Assim sendo. 5 . carrega uma concepção de mundo. é preciso tomar as rédeas dessa proposta. Será que alguém acredita que a realidade social. por isso. conteúdos préestabelecidos. nas nossas escolas. que muitas vezes não consideram as especificidades do nosso alunado do Vale do Paraíba ao Pontal do Paranapanema ou dos grandes centros metropolitanos. questionar o que queremos ensinar.

A nova organização curricular do Estado de São Paulo 6 .

perguntamos: que mundo é esse? Todos têm um “lugar ao sol”? A leitura e escrita como prioridade curricular garantem que o nosso aluno possa competir num mundo do trabalho cada vez mais excludente? Estamos felizes em sermos vigiados e controlados para cumprirmos o cronograma e os objetivos da Proposta Curricular? Estudamos muito só para reproduzirmos conteúdos determinados e prepararmos nossos alunos para as avaliações que só têm a preocupação de projetar nosso Estado no ranking das políticas educacionais brasileiras e mundiais? Estamos contentes em atrelar salário aos indicadores das avaliações externas? 7 . sempre correspondem às necessidades O currículo escolar. instrumento fundamental do processo educacional. lazer. A educação e seu processo de ensino-aprendizagem. tem história e se explicita não por suas particularidades. de desenvolvimento desse fenômeno. A escola é o espaço. demonstra não responder às necessidades da sociedade com relação ao trabalho.materiais e concretas da sociedade. Tendo em vista o atual momento histórico. devemos atentar para esse fato já que essa nova proposta está alinhada com as diretrizes sociais e econômicas do chamado capitalismo globalizado que. etc. saúde. social e político em que se insere. frente à atual crise mundial. mas por sua articulação com o contexto econômico. nas mais diferentes formações sociais e tempos históricos. por excelência. Portanto. socializando crianças e jovens e cumprindo um papel civilizatório e educativo. educação.

os Cadernos podem ser vinculados aos famosos guias didáticos expressamente orientados pelas políticas educacionais do Banco Mundial. pode-se constatar que estão previstos conteúdos. . experimentações. sem nenhuma possibilidade de flexibilizar o fazer pedagógico. ele seja responsável pela sua própria qualificação. depois. HADDAD. 1 8 TORRES. consideramos que ela é altamente restritiva e retira a autoria do trabalho didático e a autonomia docente. In TOMMASI. quando este propõe discutir a melhoria da qualidade e eficiência da educação. Nesta fase que se caracteriza pelo desemprego estrutural e pela crescente precarização das condições de trabalho. A chamada pedagogia das competências visa ajustar os indivíduos nessa sociedade. O fundamental são as competências vinculadas à leitura e à escrita. projetos coletivos. Melhorar a qualidade da educação basica? As estratégias do Banco mundial. onde as condições de sobrevivência não estão garantidas para ninguém. 2000.O esvaziamento do trabalho doce nte: falta de autoria e de autonomia A proposta curricular implementada pela SEE está baseada na noção de “competências”. O Banco Mundial e as Politicas Educacionais. Rosa Maria. resta capacitar minimamente o aluno para que. M. L. afastando toda e qualquer hipótese da construção de um projeto político pedagógico autônomo por parte da comunidade escolar. p. Analisando-se os Cadernos do Professor. Como bem analisa Torres1 (2000. No atual contexto da sociedade. organizados por bimestre e por disciplina. o professor se torna um mero repetidor de conteúdo elaborado por outrem. aprender a aprender e competências torna-se central no campo educacional. 134-135) o Banco Mundial propõe insumos e prevê para eles uma ordem de prioridade para que se obtenha a qualidade educativa nas escolas. desvinculado da realidade na qual atua. São Paulo: Cortez. para a avaliação e a recuperação. S. Da forma como estão organizados. empregabilidade significa transferir aos trabalhadores a responsabilidade pela sua qualificação. Desta forma. Dá então para começar a refletir no porquê da priorização da leitura e escrita. 3ª edição. Não havendo mais garantia de trabalho para a sobrevivência. J. habilidades e competências organizados por série e acompanhados de orientações para a gestão da sala de aula. Devemos imputar ao trabalhador a responsabilidade pela sua formação profissional? Pelo subemprego? Pelo desemprego? Quanto à concepção de professor que está implícita na Proposta Curricular. a difusão de noções como empregabilidade. atividades extraclasse e estudos interdisciplinares. bem como de sugestões de métodos e estratégias de trabalho nas aulas. WARDE.

via sistemas de ensino a distância em vez de investir na formação inicial. (3) tarefas de casa. incorporadas pela Proposta Curricular da SEE. (4) livros didáticos. (6) experiência do professor. Durante o Planejamento Escolar. Há quantas décadas o Banco Mundial orienta políticas educacionais para as nossas escolas públicas? Elas contribuíram para melhorar a qualidade da educação em São Paulo ou no Brasil? Para a formação dos profissionais da educação? Para o fortalecimento da autonomia e identidade das escolas públicas? Até que ponto as medidas indicadas pelo Banco Mundial e. b) proposição de livros didáticos para os alunos e elaboração de guias didáticos para professores e. (2) tempo de instrução. o custo da força de trabalho dos trabalhadores da educação. informáticos) e que reduzem. precisamos ler a Proposta Curricular da SEE de forma crítica e propositiva. somos autores do nosso fazer pedagógico. audiovisuais. relativa e absolutamente. a distância. sugere a desqualificação e o esvaziamento da profissão docente. não fazem do professor um profissional cada vez mais supérfluo. Afinal. Trata-se de um processo de alienação do trabalho docente. (5) conhecimento do professor. Todavia desestimula o investimento nos três últimos itens e ao mesmo tempo recomenda: a) o aumento do tempo de instrução mediado pela prolongação. nos parece. as tecnologias. sempre com o objetivo de ampliar a produtividade do trabalho e recorrendo a um número cada vez maior de “insumos” (apostilas. para que investir em carreira e concursos? Parece que o pressuposto é que qualquer um pode ser treinado para mera aplicação dos Cadernos.São eles: (1) bibliotecas. A opção por privilegiar os insumos. altamente substituível? Como a nova proposta indica tudo o que se tem a fazer. os guias elaborados por equipes especializadas. Precisamos problematizar essas orientações. recursos didáticos. (7) laboratórios. flexibilização e adequação dos horários e da atribuição de tarefas escolares de casa. a formação inicial e continuada aligeirada. (8) salário do professor e (9) tamanho da classe. É possível e necessária a elaboração democrática e coletiva de uma nova proposta curricular para a educação pública no Estado de São Paulo! 9 . c) capacitação em serviço dos professores.

que atendam efetivamente às necessidades de cada escola pública. É importante que cada um de nós. constatado que os problemas detectados eram os mesmos. ao longo deste ano. é muito importante que todos pensem. implantada intempestivamente. Diante desta situação. Participação de todos é o que almejamos: ação que a Secretaria da Educação nos tem negado sistematicamente! 10 . apresentaremos uma revista e posteriormente um livro contendo alternativas de projetos pedagógicos. Diante de tal contexto. verificada a seriedade da questão procuraram-se alternativas de ação para mais esta atitude autoritária da Secretaria da Educação. envolvidos com o fazer pedagógico. este Sindicato necessitava fazer uma análise mais profunda das Propostas a fim de sensibilizar a Secretaria da Educação para discutir. às diferentes regiões do Estado. mas também as atividades que devem ser cumpridas por todos os professores das escolas públicas. a não previsão de uma avaliação técnica por parte daqueles que aplicam e acompanham a referida proposta. de todas as regiões de nosso estado. mas da forma como foi concebida a atual: total desrespeito às diferenças individuais dos alunos. Afinal. leia com atenção as análises feitas pelo grupo mencionado. e o Centro do Professorado Paulista – CPP. Então o Sindicato de Supervisores do Magistério no Estado de São Paulo – APASE. – a Proposta Curricular – que prevê um roteiro não só de conteúdo das diversas disciplinas que compõem a Matriz Curricular do Estado de São Paulo. foram procuradas as outras entidades do magistério paulista para verificar se as suas bases estavam fazendo as mesmas análises das nossas. como tantas outras. torna essa política mais uma dificuldade a ser enfrentada por todos aqueles envolvidos no processo ensino-aprendizagem. para analisarem de forma mais profunda as Propostas da Secretaria da Educação. por meio de questionamentos. bem como outras formas possíveis de abordar o Currículo quando analisaremos os conteúdos de cada disciplina. a propósito de mais uma ação da Secretaria da Educação. A medida de implantar uma Proposta Curricular deve até ser acolhida. decidiram se reunir com professores universitários. por meio de seus presidentes. para as necessárias adaptações e adequações. discutam e nosso material propõe a discussão como pressuposto básico. à cultura das escolas. no sentido de propor alternativas. que pesquisam educação. o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo – APEOESP.O Sindicato-APASE e a Proposta Curricular do Estado de São Paulo: considerações Maria Cecília Mello Sarno (Presidente do Sindicato-APASE) I nstigada por muitos colegas supervisores. em todos os períodos. para o envolvimento de todos. esta é uma primeira abordagem crítica dos pressupostos filosóficos que nortearam o trabalho das Propostas da Secretaria da Educação. as dificuldades que já foram detectadas até a presente data. com todos os envolvidos.

pois foi possível debater ampla e profundamente diferentes concepções e propostas curriculares.Membro do Conselho Nacional de Educação) A sociedade brasileira. Tratava-se de proposta curricular e de organização dos tempos e espaços da escola. Na prática. em 1986. a organização curricular tem sua interface dentro do espaço escolar. No entanto. Por isto. tudo era produzido de cima para baixo e os professores eram considerados meros executores. em tempos de globalização. o que importa é saber como intercalar. afirma que cabe aos professores “participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento de ensino”. Neste sentido. deve estar articulado à organização de tempos e espaços definida pelo Conselho de Escola. o grande problema foi que não se saiu da proposta para a implantação efetiva do currículo. não contribui para a possibilidade de que o conhecimento seja processado e reprocessado ao longo do processo de produção deste conhecimento. de acordo com o projeto político-pedagógico da unidade escolar. Isto contraria o que determina a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Outro momento importante foi o da implementação da chamada Escola Padrão. Por último. na opinião da APEOESP. 11 . O currículo escolar deve ser amplo. mas. a concepção de currículo como uma “grade”. Para concluir. a escola. ela deveria apresentar o seu projeto político- pedagógico. jovens e também aquelas pessoas que não conseguiram estudar em idade própria. é inaceitável que no Estado de São Paulo se produzam guias curriculares que os professores devem seguir passo a passo. sobretudo. é verdade. O problema é que a Escola Padrão não era para todos. inciso I. deve obedecer diretrizes. o currículo não pode ser um amontoado de disciplinas. Na década de 1970 convivíamos com um currículo extremamente autoritário. Ou seja. Hoje. o que significa dizer que há que se repensar esta forma de composição curricular ora vigente. ela. O percurso histórico de um currículo precisa ser analisado à luz da conjuntura vivida em cada momento. que era coerente com a natureza daquele regime. Tinha caráter experimental e. que “enjaula” disciplinas em determinados tempos e espaços. precisa ter significado para esta geração que aí está: crianças. gerado pela ditadura militar. para que uma escola fosse assumida como Escola Padrão. com incentivo à dedicação plena e exclusiva do professor na própria escola e com jornadas de trabalho menores que as atuais. para além da simples transmissão linear destes. lamentavelmente iniciou-se no Estado de São Paulo um governo de orientação neoliberal que perdura até hoje. durante o governo Montoro. Para tanto. quando Fernando Morais foi secretário da Educação. e mais importante. espera da escola um papel preponderante na aquisição e produção do conhecimento. quando vivemos cada vez mais o aprimoramento do processo democrático na sociedade brasileira. Aquele processo representou uma grande conquista para os professores e para a escola pública. a ultima discussão sobre o currículo foi realizada. articular as diversas disciplinas e dar qualidade a este tempo de tal forma que a permanência do professor com seus alunos produza conhecimentos e os oriente para a sua vida futura. no momento em que seria ampliada para toda a rede. 40 ou 60 minutos. avanço da informática e novas tecnologias. é que ao coordenador pedagógico era conferida a atribuição de coordenar o projeto político-pedagógico da escola. por reivindicação da APEOESP. Tanto que.Por um currículo como instrumento de qualidade social Maria Izabel Azevedo Noronha (Presidenta da APEOESP . coordenado por este profissional. a qual em seu artigo 13. mas uma articulação dos conteúdos com a organização dos tempos e espaços escolares. sem possibilidade sequer de discutir seu conteúdo. Isto significa que o fundamental não é ficar na discussão miúda sobre se a aula deve ter 30.

Para planejar é necessário problematizar. Coletivamente. 12 . na escola. em todas as suas dimensões. Esta condição exige a não aceitação do papel que alguns querem nos impingir: a do bom técnico ou do reprodutor de guias didáticos pré-estabelecidos. a construção coletiva de uma proposta curricular condizente com a realidade da escola. criatividade. discutir e responder as questões sugeridas durante todas as ações. É preciso confrontar nossas proposições com as demandas dos alunos e da comunidade. individual e coletivamente. decidindo e nos comprometendo com o papel que referenda a construção da escola pública de qualidade social. sem deixarmos de lado a luta por melhores salários e condições de trabalho. os profissionais que atuam na instituição precisam conhecer os alunos. a análise permanente das relações estabelecidas. Os profissionais da educação não podem construir sua identidade fora do contexto em que atuam. Desta forma. ou seja. Ao tomarmos nas mãos a autoria do nosso ofício. coletivamente. É preciso garantir a autonomia docente. são discutidas e definidas as concepções de educação e de escola. as ações a serem desenvolvidas. analisando. nada mais é do que o Projeto de escola e de sociedade que sonhamos para todos. além de saber o que ensinar (para quê). para todos. analisar. as prioridades. Para bem planejar. da luta por uma educação de qualidade social? Nossa profissão é complexa. estaremos criando um espaço de auto-conhecimento. e como fazê-lo ao longo do trabalho educativo.O Centro do Professorado Paulista e a autonomia do fazer pedagógico: algumas reflexões Palmiro Mennucci (Presidente do Centro do Professorado Paulista) O planejamento escolar pode ser visto como o momento em que os profissionais da educação se preparam para trabalhar no interior da escola. Exige capacidade de reinvenção. que separam as lutas da categoria por carreira e salário. se planeja como assegurar a cada aluno o direito de aprender. trabalhamos cotidianamente com o ser humano. por uma educação de qualidade para todos. a comunidade em que a escola está inserida. construídas e desconstruídas durante o trabalho. o trabalho cotidiano. é construído o Projeto Político-Pedagógico que. Qual é o nosso ofício? Como transpor antigas concepções gestadas pelas políticas públicas para a educação. ao pensarmos o projeto políticopedagógico que queremos construir.

fazendo com que a reforma seja adotada. Daí que entendemos o porquê de vários Estados brasileiros. Quanto ao conteúdo a proposta é simplista. expressa desde a apresentação ao documento. inclusive São Paulo. a implementação de uma proposta curricular. Ao autoritarismo da gestão do Estado nos negócios educacionais. deve-se responder com um processo democrático e social de construção de uma nova proposta curricular que conceba a educação como um direito do cidadão e um dever do Estado. por sua vez.Mara Regina Martins Jacomeli (Doutora em Educação e Professora da FE-Unicamp) Como podemos entender as políticas em educação adotadas aqui para nossas escolas? No caso do Brasil e no caso da maioria dos países ocidentais. deve ser produzida com ampla discussão e envolvimento da comunidade educativa. Trata-se de uma camisa de força. privatista e mercadológica. o docente. A Conferência de Jomtiem teve como resultado a assinatura da Declaração Mundial sobre Educação para Todos e o Marco de Ação para a Satisfação das Necessidades Básicas de Aprendizagem. por incrível que pareça. Em direção oposta ao que presenciamos. encaminhada de cima para baixo. O Brasil foi signatário desses documentos e o Banco Mundial foi o grande financiador das propostas educacionais para os países em desenvolvimento. O marco da articulação de tais agências internacionais como Banco Mundial. se preocuparem em apresentar números positivos de formação. sem maiores discussões. através de suas entidades representativas.. MAS. insuficiente para encobrir seus fundamentos espontaneístas e pragmáticos. aprovação e permanência na escola para essas agências financeiras. José Claudinei Lombardi (Doutor em Educação e Professor da FE-Unicamp) A Re fo rma C u rricula r do Esta do de Sã o Pa ulo Esta Proposta Curricular da SEE deve ser analisada sob dois aspectos: quanto à forma e quanto ao conteúdo. didática e o instrumento pedagógico) constituem partes articuladas submetidas à forma que. pois o documento prevê inclusive a “coordenação de ações entre as disciplinas” e quanto a “vida cultural da escola e do fortalecimento de suas relações com a comunidade”. em seu conteúdo e em sua forma. insuficientes para escamotear o caráter autoritário de sua elaboração e implementação. UNESCO etc. entre os quais se encontra o Brasil. não há autonomia possível para gestores e educadores. realizada em Jomtien. sob a égide do neoliberalismo e do discurso de globalização da sociedade capitalista. coloca o gestor num papel meramente fiscalizador. são ditadas por organismos multilaterais. Na forma trata-se de uma proposta que não surgiu de uma ampla e democrática discussão com a comunidade educacional. no qual conteúdo e forma (currículo. foi dado pela Conferência Mundial de Educação para Todos. optou-se por mecanismos e processos de pseudoconsultas. por trás há uma concepção educacional calcada numa perspectiva neoliberal. FMI. 13 . diretrizes das políticas educacionais. na Tailândia. é transformado em mero aplicador de uma forma e de um conteúdo prévia e detalhadamente previsto no instrumento didático.. precariamente ancorada na literatura disponível. O Projeto Pedagógico traça todas as orientações a serem seguidas por gestores e professores quanto a implementação da Proposta Curricular “nas condições singulares de cada escola”. em 1990 e reproduzida pelo documento conhecido como Relatório Delors. na explicitação das políticas educacionais. subordina-se ao instrumento pedagógico..

Essas culturas. os valores. carregadas de valores. já que sua atuação tem relação direta com as concepções de mundo. Maria Izabel de Almeida (Professora Doutora do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da FE-USP) As sociedades contemporâneas depositam na escola a importante responsabilidade de organizar e desenvolver a formação de suas crianças e jovens para conviverem e atuarem de modo a promover o avanço social. a pedagógica (o currículo. expectativas. normas ou qualquer outro tipo de referência curricular tem especial papel. das artes. parâmetros. modos de ser. Para que a escola tenha um currículo que permita que todos aprendam de modo significativo. não dialoga com os professores e os dirigentes. Com isso o papel da escola tornase cada vez mais significativo. a dimensão do currículo escolar é central para que a escola cumpra seu papel social. as metodologias. é preciso que todos que dela participam sejam seus autores. divergentes. as crenças das classes sociais das quais os alunos e os profissionais se originam). projetos e intenções. de seus profissionais e dos que nela estudam fazerem as mediações e aproximações com a realidade. Diretrizes. Experiências já vividas em nosso país e também em muitos outros mostram que reformas curriculares impostas autoritariamente não se enraízam e caem no esquecimento assim que os dirigentes de plantão saem de cena. conflitivos. do movimento do corpo. diferentes. Porém. Triste é vermos recursos e esforços serem desperdiçados por reformas que desconsideram a importância de se ter os professores como parceiros efetivos na definição dos novos rumos curriculares. as possibilidades e as necessidades específicas. da história. as formas de organizar as turmas. da língua portuguesa). a acadêmica (formação e o modo de ser dos profissionais que nela atuam). a cultura das mídias. compõem a cultura da escola. os valores e as capacidades de ação que cada estudante desenvolve ao longo de sua escolaridade. corre esse risco uma vez que no esforço de tentar garantir o necessário domínio dos conhecimentos básicos para que as crianças e jovens das escolas públicas se apropriem das condições essenciais de desenvolvimento humano e social e de cidadania. Uma base comum há que ser assegurada a todos e em qualquer escola. o horário. opostos. onde possam ser criativos. 14 . É nele que se estampam os caminhos que são propostos aos estudantes rumo ao seu aprendizado. as avaliações. as formas de administrar e controlar. a percepção do outro e seus direitos. Por isso. responsáveis diretos pelo currículo vivo no cotidiano escolar. Triste principalmente porque os alunos que estão hoje na escola não terão outra chance de viverem. as relações de poder). com seus professores. ver e pensar. tradições. Qualquer proposta de melhoria da escola que ignorar esse movimento está fadada ao fracasso porque corre o risco de serem meramente burocráticas. é atribuição dela. pensar e agir. o entendimento da dinâmica social. a social (formas de sentir. da geografia. uma experiência escolar gerida democraticamente. especialmente num país com as proporções e disparidades do nosso. a cultura do mundo infantil e do mundo do jovem. das ciências. parceiros e construtores de um aprendizado pleno e de qualidade. A definição dos parâmetros curriculares impostos às escolas na atual gestão.Selma Garrido Pimenta (Doutora em Educação e Pró Reitora de Graduação da USP) S o b r e a imp lan t ação d o s pa r â m etr os cur r icula r es da SEESP A escola se caracteriza como um caldeirão de culturas em efervescência: a cultura científica (conhecimentos da matemática.

org. científica. é a que se dá no momento da realização do currículo. Como seleção no interior da cultura. enquanto que ele próprio é cultura. Isto vai exigindo que os professores façam alterações. 31 de maio de 2008. no sentido de que tenham condições de examinar as propostas e argumentos vindos das instâncias administrativas e dos próprios pares. sobretudo com o exemplo de seu próprio entusiasmo pela cultura humanista. Doutora em Educação da Universidade Católica de Santos) . O aceitar/ rejeitar não significa simplesmente dizer quero ou não quero. ofuscando a idéia da possibilidade de transformação social. entre professores/as e alunos/as. dando Nereide Saviani (Docente-pesquisadora. porque diz respeito a práticas expressas em saberes. costumes.. A principal negociação.com relação à concepção de currículo. transformando o histórico em natural. Ele não é a cultura tal e qual. Há autores que dizem que o currículo é uma reinvenção da cultura. prática negociada. SAVIANI. e decisões individuais. CURRÍCULO E TRABALHO PEDAGÓGICO: prescrições políticas. 15 . é sempre uma dentre muitas possíveis. Por mais que a proposta curricular venha bem atraente. mas também não acontece à margem dela. contendas e são sempre conflituosas e negociadas. que põe em xeque a ciência e a razão. tradições. no que diz respeito às atividades a serem desenvolvidas.. Mas não basta a possibilidade de participar.doc. aquele que promove de muitas formas o desejo de aprender.Luiz Bezerra Neto (Doutor em Educação e Professor da UFSCar) Na concepção da SEE o professor perde a centralidade. Nereide. o que acaba por conduzir a um imobilismo pela difusão da crença de que tudo está dado e acabado. a necessidade de espaços democráticos de participação e também de fundamentação para os/as professores/as. fazendo com que o professor torne-se um “parceiro de fazeres culturais. dado que todo o conhecimento deve partir do que o aluno já sabe. expressando indiretamente uma crença que leva à desvalorização dos conhecimentos historicamente acumulados pela humanidade. é aprender ou não aprender. as alterações são inevitáveis: os alunos reagem. aliás. apresenta-se uma proposta vazão a um ensino que tem por base o senso comum e o cotidiano como inspiração do saber. Disponível em: http://www. vivências. as decisões sobre essa seleção se dão em meio a conflitos. artística e literária”. relações sociais as mais variadas. aceitando-as ou rejeitando-as. br/imagensDin/arquivos/361. é impossível pensar-se a organização do currículo sem a participação de quem vai negociálo no momento de sua realização. organizada. ainda que o/a professor/a encampe essas propostas e até mesmo tenha participado de sua elaboração. fazer ou deixar de fazer. ter esta ou aquela dificuldade. E.. e que consiste numa seleção de elementos da cultura global da sociedade. pois não tem o que ensinar. é preciso igualdade de condições na negociação. Com isso. E para poderem tomar decisões coletivas.. não é demais repetir. na relação pedagógica propriamente dita. sobre pontos comuns. Portanto. na hora de trabalhálas em situações de sala de aula e outras a ela relacionadas. em situações específicas. Texto referente à exposição na Oficina Temática do 10 Congresso do SINPRO Minas – Sindicato dos Professores de Minas Gerais. Daí. cabe dizer que ele é uma construção social.sinprominas.

org.br APEOESP .org.Site: www.Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo Praça da República.sindicatoapase. 928 . 1º andar .apeoesp.br .Sindicato dos Supervisores do Magistério no Estado de São Paulo Rua do Arouche.Site: www.org.br 16 .cpp.br .Fone: (11) 3340 0500 E-mail: cpp@cpp. 282 .org.Centro do Professorado Paulista Avenida Liberdade.org.Site: www. 23.br CPP .br .APASE .Fone: (11) 3337 6895 E-mail: secretaria@sindicatoapase.Fone: (11) 3350 6000 E-mail: apeoesp@apeoesp.org.

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