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CHRISTOPHER BRYANT – POSITIVISM IN SOCIAL THEORY AND RESEARCH

CHAPTER ONE – INTRODUCTION: POSITIVISM OR POSITIVISMS?

A Origem dos termos “positivismo” e “sociologia” aparenta ser a mesma: os trabalhos


postulados por Comte. Segundo Bryant, na verdade, o positivismo na filosofia veio a ser
associado a “epistemologias” que fazem da experiência a base de todo o conhecimento. E
também com suas ontologias complementares que propõem uma divisão entre objetos que são
acessíveis à observação (sobre o qual o conhecimento é, portanto, possível) e objetos que não
são (e sobre os quais, portanto, não se pode ter conhecimento); o positivismo na sociologia
surge para ser associado com a própria ideia de uma ciência social e da busca de tornar a
sociologia científica. Inevitavelmente, tanto os debates filosóficos quanto os sociológicos acerca
do positivismo se apresentaram complicados, principalmente sobre aquilo que seria válido
como fundamento e como experiência, assim como ciência, todos eles são matérias altamente
contenciosas (disputadas).

O autor aponta que Kolakowski apresenta o positivismo como “uma coletânea de regras e
critérios avaliativos para se referir ao conhecimento, e como uma atitude normativa regulando
como usamos termos como conhecimento, ciência, cognição e informação. Existem, segundo
ele, quatro regras principais e elas indicam o que vale como conhecimento e o que pode ser
razoavelmente perguntado.

1- “A regra do fenomenalismo”
Essa regra admite que temos o direito de registrar somente aquilo que realmente se
manifesta através da experiência, negando as possibilidades para a metafísica. O
positivismo afirma que as reivindicações da experiência como o fundamento último do
conhecimento humano negam a possibilidade de um discurso significativo sobre objetos
supersensíveis. A aplicação dessa regra na sociologia apresenta certas dificuldades, a
primeira seria com relação a ideia de que podemos conhecer a realidade apenas com
base na experiência, pode vir a ser considerada uma justificativa para o empirismo e a
indução. O segundo ponto seria de que a ênfase na experiência parece exigir uma
linguagem de observação neutra para o registro da experiência, ou seja, uma linguagem
que não acrescenta nada à experiência. O terceiro ponto seria de que é difícil ter certeza
do que é, em princípio, acessível à observação e o que não é.
2- “A regra do nominalismo”
Segundo essa regra não podemos supor que qualquer insight formulado em termos
gerais possa ter quaisquer referentes reais além dos fatos individuais. Toda ciência
abstrata é um método de resumir o registro da experiência e não nos dá nenhum
conhecimento extra e independente no sentido de que, por meio de suas abstrações,
abre acesso a domínios de realidade empiricamente inacessíveis. Assim, as entidades
gerais da metafísica são descartadas como ficções, porque atribuem, de forma ilegítima,
existência a coisas que não tem existência, exceto enquanto nomes ou palavras. Essa
regra traria um problema importante para a sociologia. “A regra do nominalismo exige
que os fatos sociais sejam de alguma forma redutíveis a fatos individuais?”.
3- “A regra que se recusa a chamar juízos de valor e conhecimentos normativos”
De acordo com a regra do fenomenalismo, somos obrigados a rejeitar a suposição de
valores enquanto características do mundo, pois ele não são detectáveis da mesma
forma que o único tipo de conhecimento digno desse nome. Além disso, a regra do
nominalismo torna insustentável a suposição de que no mundo visível existe um
domínio de valores “em si”, com os quais nossas avaliações são correlacionadas de
algum modo misterioso. Na sociologia, entretanto, a questão não é se os valores são
objetos no mundo, mas se as avaliações podem ser justificadas cientificamente ou
racionalmente.
4- “Crença na unidade essencial do método científico”
Alguns positivistas haviam argumentado que a unidade da ciência residia a partir e uma
lei fundamental cujo qual todas as outras leis seriam derivadas, ou a partir de um certo
processo evolucionário comum à natureza e a sociedade. Kolakowski aponta que essa
unidade se dá através do método científico.

Segundo Giddens, a atitude positivista na sociologia pode ser compreendida em três suposições.
A primeira seria a suposição metodológica de que os procedimentos da ciência natural podem
ser diretamente adaptados à sociologia. A segunda seria a suposição analítica de que o resultado
final das investigações sociológicas pode ser formulado como “leis” ou generalizações
“semelhantes a leis” do mesmo tipo daquelas estabelecidas pelos cientistas naturais. A terceira
seria a suposição prática de que a sociologia tem um caráter técnico.

CHAPTER TWO – THE FRENCH TRADITION OF POSITIVISM: FROM POSITIVE PHILOSOPHY TO THE
POSITIVE POLITY

Bryant aponta que para compreender o positivismo na França é necessário entender que o
trabalho de Saint Simon interferiu mais na fundamentação dessa corrente do que Comte. Pois,
primeiro ele anunciou o grande projeto do século dezenove o da construção de uma ciência
positiva, mesmo que suas próprias contribuições para sua realização fossem mais indicativas do
que convincentes. Em segundo lugar, ele faz isso de uma forma que atraiu uma resposta não
desfavorável de Marx. Enquanto Marx desprezava Comte, e Durkheim, embora respeitoso, se
preocupou em manter distância, ambos encontraram admiração no “socialismo” de Saint-Simon
embora ambos também o considerassem utópico. O positivismo na origem, portanto, continha
mais possibilidades do que os críticos posteriores as vezes deram crédito a ele. Além disso, deve-
se notar que para Saint-Simon e Comte, o positivismo não era apenas uma epistemologia, uma
teoria do conhecimento, como é para muitos teóricos, mas também uma ontologia, uma teoria
da estrutura e do desenvolvimento do mundo, e, embora existam dificuldades aqui, uma “arte”
ou, como diríamos agora, uma prática teoricamente informada, em que a teoria não apenas
sugere aplicações, mas também impõe certas obrigações históricas a todos os que reconhecer
sua validade.

Os doze princípios da tradição francesa

1 - Há apenas um mundo, e tem uma existência objetiva. Que o mundo é singular não é tanto
declarado como assumido. Segundo Durkheim, o real, o natural, é um mundo de coisas que
existem independentemente das ideias mais ou menos exatas, ou "representações", que temos
delas. Que isso se aplica ao social tanto quanto o mundo natural e é confirmado pela famosa
injunção de "considerar os fatos sociais como coisas”.

2 - Os constituintes do mundo e as leis que governam seus movimentos são descobertos apenas
pela ciência, sendo a ciência a única forma de conhecimento. Portanto, aquilo que não pode ser
conhecido cientificamente, não pode ser conhecido. A insistência de que a ciência é a única
forma de conhecimento implica na equação da epistemologia com a filosofia da ciência, ou mais
precisamente, os princípios e práticas da ciência. Assim, não pode haver possibilidade de
reflexão crítica sobre esses princípios e práticas, porque não há nada fora deles pelo qual possam
ser julgados. Como Habermas observou “No único nível que o positivismo permite, a ciência só
pode ser definida pelas regras metodológicas segundo as quais ela prossegue.”.

3 - A ciência depende da razão e da observação devidamente combinadas. Todos os objetos que


podem ser pensados, mas que não podem, em princípio, ser observados, incluindo deuses ou
espíritos, e essências ou formas ideais, são descartados como ilusões teológicas ou fantasias
metafísicas. Segundo o positivismo de Comte, as proposições são sempre testadas contra fatos,
estes por sua vez são independentes delas.

4 - A ciência não pode descobrir todos os elementos do mundo e todas as leis que os governam,
porque os poderes humanos da razão e da observação são limitados. O conhecimento científico
permanecerá para sempre relativo ao nível de desenvolvimento intelectual alcançado e ao
progresso na organização social da ciência.

5 - O que o homem procura descobrir sobre o mundo é normalmente sugerido por seus
interesses práticos e sua situação. O progresso na ciência consiste em obter representações cada
vez mais próximas da realidade, mas as representações perfeitas sempre nos iludirão e, em
qualquer caso, nosso conhecimento pode sempre ser considerado completo na medida em que
atenda às nossas necessidades atuais.

6 - Existem leis de desenvolvimento histórico cuja descoberta permitirá que o passado seja
explicado, o presente entendido e o futuro predito. Comte e Saint-Simon possuíam uma visão
mais atrelada a um ideal de progresso. Para Durkheim, a regressão a estados inferiores de
organização social nunca poderia ser descartada e não havia garantia de que as crises das
sociedades industriais emergentes, representadas pela prevalência das formas patológicas da
divisão do trabalho, seriam superadas.

7 - Existem leis sociais que governam as interconexões entre diferentes formas institucionais e
culturais.

8 - A sociedade é uma realidade sui generis. A sociedade é um todo orgânico cujo caráter e
propriedades têm a ver com o modo de combinação das partes de que é composto; seu caráter
e propriedades não podem ser descobertos pela agregação das partes consideradas
separadamente. O caráter e as propriedades das partes, tanto indivíduos em um nível quanto
instituições em outro, só podem ser entendidos em termos de suas conexões uns com os outros
e sua dependência da sociedade como um todo.

9 - A ordem social é a condição natural da sociedade.

10 - A escolha moral e política deve ser estabelecida exclusivamente com base científica. Saint-
Simon e Comte assumiram uma ligação direta entre a uniformidade das ideias básicas e a ordem
social; e com a diversidade de ideias e a desordem. Para Durkheim, o normal seria aquilo que é
consistente com as condições de existência de um determinado tipo social e o patológico seria
o que não é - um julgamento que só pode ser feito inspecionando o que ocorre em sociedades
do tipo em questão. A ideia de que a escolha moral e política deve ser feita apenas com base
científica compromete a falácia teleológica de que tudo o que é, ou está se tornando, deveria
ser, desde que esteja de acordo com as leis naturais da história, da sociedade, do progresso e
da ordem.
11 - A sujeição do homem perante as leis naturais da história e da sociedade impede a avaliação
de formas institucionais e culturais em quaisquer outros termos além daqueles de conformidade
com essas leis.

12 - O positivo, o construtivo, substitui o negativo, o crítico. O positivo, o relativo, também


substitui o teológico e o metafísico, o absoluto.

Esses princípios indicam as características básicas da tradição francesa do positivismo. Não há


nenhuma intenção de sugerir que todos os escritos sociológicos importantes na França, entre
1800 e 1920, estejam dentro dessa tradição; Tarde, por exemplo, opunha-se veementemente à
ideia de que a sociedade é uma realidade sui generis. O que é indiscutível é que há na tradição
francesa delineada aqui uma construção intelectual distinta. A tradição francesa do positivismo
sempre se preocupou tanto com a substância quanto com o método, e forneceu variações sobre
uma ampla teoria do desenvolvimento social, bem como regras do método sociológico. Mais
importante de tudo, pretendia fornecer uma base indispensável para a reconstrução social; a
teoria precisava ser justificada através da prática.

Saint-Simon: indústria e ciência

Bryant aponta que Saint-Simon compreendia que era necessário abandonar as perspectivas do
“mundo antigo” e se reinventar para o “novo mundo”. Nessas circunstâncias, tornou-se uma
questão de dever abandonar os antiquados, especialmente a religião e a força militar, e abraçar
o ascendente, especialmente a ciência e a indústria. Saint-Simon pediu a adoção de princípios
positivos e científicos em todos os campos de investigação. Mais do que isso, ele inicialmente
esperava produzir a síntese positiva do conhecimento humano que forneceria a base intelectual
para a nova ordem. Quando a tarefa se provou além do seu alcance, ele tentou inspirar outros
a colaborar em sua conclusão. Ele enfatizou que todas as sociedades são comunidades orgânicas
e ele aceitou que todas as instituições restringem na prática as possibilidades infinitamente
ampliadas de ação que estão abertas aos indivíduos em princípio. Era compreensível que as
instituições opressoras deveriam ter encorajado alguns pensadores a contemplar uma vida livre
das instituições, mas tais contemplações nunca poderiam produzir uma vida que fosse habitável
na prática. Portanto, a tarefa à frente, insistia Saint-Simon, tinha que ser a de identificar e
estabelecer as instituições adequadas à nova ordem que estava surgindo e de assegurar relações
de trabalho harmoniosas entre elas. Todas as propostas de Saint-Simon para uma política
positiva baseavam-se em uma série de suposições altamente controversas: a saber, que é
sempre possível demonstrar cientificamente o que deve ser feito; que os homens podem e irão
reconhecer isso livremente e cumprirão o que é exigido deles; e que os homens reconhecerão
sua dependência mútua e assumirão uma responsabilidade fraterna pelo bem-estar um do
outro. Talvez porque ele sentiu a fragilidade dessas suposições, Saint-Simon enfatizou cada vez
mais a necessidade de uma nova ética social e pouco antes de sua morte este elemento de seu
trabalho culminou em seu Novo Cristianismo. Enquanto os educados seriam capazes de
reconhecer a verdade demonstrável da ciência, o ignorante, ele decidiu, ainda poderia precisar
de seus cultos. Ao equiparar Deus com a unidade do conhecimento ou a unidade de todos, eles
poderiam receber uma religião intelectualmente inofensiva que também os obrigaria, e na
verdade todos os outros, a levar aos seus corações a instrução paulina de amar o próximo como
a si mesmo.
Comte: ciência e religião

Comte traz no seu trabalho a lei dos três estágios, que já era defendida por Saint-Simon,
Condorcet e Turgot. A lei sustenta que, no curso do desenvolvimento da humanidade, a mente
humana progride através de três modos diferentes de filosofar, o teológico ou fictício, o
metafísico ou abstrato e o científico ou positivo. É crucial reconhecer que, ao rejeitar os estados
teológicos e metafísicos, Comte está abandonando toda esperança de conhecimento absoluto
e toda investigação sobre causas primárias e finais, ou origens e destinos últimos. É um ensino
austero no qual as questões teleológicas - questões sobre significado e propósito - não têm
lugar. Em vez disso, a mente humana é obrigada a limitar-se ao acessível e às leis que governam
o acessível. Fenômenos sociais acessíveis são de dois tipos, aqueles pertencentes à estática
social e aqueles pertencentes à dinâmica social. As leis que governam a primeira são as da
coexistência e as leis que governam a segunda são as da sucessão. Em consequência, pode-se
dizer que ele pelo menos preparou o caminho para aqueles, como Popper, que insistem que a
unidade da ciência consiste na unidade do método científico. Comte também queria tornar o
mundo novo, mas ele reduziu o que era possível alcançar ao estender sua concepção de leis
naturais da história e da sociedade a um conservadorismo insistente. No final, o fatalismo do
'fatalista modificável' confesso superou a crença na possibilidade de modificar o futuro.

Durkheim: sociologia e educação

Bryant aponta que o trabalho de Durkheim possui elementos distintivos suficientes para
requerer o acesso de certas qualificações e reservas. O autor traz a partir de um exame da teoria
e do método de Durkheim organizados sob quatro aspectos: o campo da sociologia,
objetividade e formação de conceitos, leis e tipos, e o normal e o patológico. Em seguida, o
autor apresenta uma discussão necessariamente breve das principais preocupações
substantivas em termos da extensão de sua continuidade com as preocupações da tradição
francesa do positivismo apresentadas por Durkheim. Primeiro. entretanto, é instrutivo
considerar por que Durkheim não acreditava ser apropriado rotular seu trabalho de
"positivista". Uma parte da rejeição dele ao roll de positivistas se deu pela atenção dada em
parte dos trabalhos dos autores positivistas ao caráter religioso. Entretanto, mais
profundamente, Durkheim associou o positivismo à uma concepção simplista da ciência social e
uma noção exagerada de suas conquistas cumulativas; para ele ambos os pontos eram perigosos
porque supunham uma base muito segura para uma ciência social aplicada para o que ainda
existia. Em particular, Durkheim rejeitou todas as tentativas de reduzir a complexidade da
história humana a uma única lei ou fórmula básica, incluindo a tentativa de Comte de "encontrar
a lei que domina a evolução social em geral" e a tentativa de Spencer de descobrir se a lei do
universal a evolução também se aplica às sociedades. Ele também descartou todas as
referências à sociedade humana como um todo.

O campo da Sociologia

Durkheim acreditava na necessidade de que a sociologia precisava ser um campo da ciência que
se diferenciasse das demais “ciências”, precisava, portanto, de um objeto específico para
estudo. Sendo assim, para ele, a sociologia lida com fatos sociais, e somente estes, um fato social
é qualquer forma de agir, fixa ou não, capaz de exercer sobre o indivíduo uma coerção externa;
ou: que é geral sobre a totalidade de uma dada sociedade enquanto tem uma existência própria,
independente de suas manifestações individuais. Estes incluem organizações sociais ou
estruturas de relações sociais (tais como denominações religiosas), “representações coletivas”
ou os componentes da cultura (tais como regrais legais e morais) e correntes sociais ou correntes
de opinião (tais como as grandes ondas de entusiasmo, indignação e piedade em uma reunião
pública). Assim, nem todos os fatos sociais são igualmente cristalizados ou institucionalizados,
mas todos têm como substrato não o indivíduo, mas a sociedade. Como a vida social perpassaria
uma interpretação subjetiva, para ser objetivo, então, o sociólogo deve considerar os fatos
sociais "de um ponto de vista em que eles se apresentam isoladamente de suas manifestações
individuais". Sua sociologia concentra-se no rotinizado, no conformista, no cristalizado, no
institucionalizado, no estabelecido e no fixo - excluindo o inovador, o inconformista e o ainda-
a-ser, ou mesmo a ser institucionalizado ou estabelecido - e isso tem uma consequência irônica.
Durkheim sempre argumentou que a sociologia deveria evoluir para uma ciência aplicada;
contudo, nas sociedades industriais emergentes de sua época, seu campo restrito reduziu
enormemente seu valor prático. Relutante em considerar as "manifestações individuais", e
desprovido de uma teoria da ação, Durkheim estava mal equipado para conceitualizar inovação,
reforma e revolução - tanto que se mostrou incapaz de sugerir como as reformas que ele propôs
poderiam vir a acontecer. A sobreposição da distinção objetivo – subjetivo e na distinção social
– individual, não significa que o indivíduo nunca possa ser um objeto legítimo da sociologia de
Durkheim. Tudo dependia de qual dos vários sentidos de "indivíduo" ele tinha em mente. O
termo às vezes se refere ao indivíduo orgânico-cum-psíquico. Esse indivíduo, reservado aos
fisiologistas e psicólogos fisiologicamente inclinados, é universal e constante; a constituição
fisiológica de homens e mulheres e suas capacidades psicológicas de percepção, aprendizado,
memória, etc., estabelecem limites para a gama de possíveis variações da vida social - mas essa
é sua única relevância para a sociologia. Outras vezes, o termo refere-se ao indivíduo biográfico
único - um reconhecimento de que "cada um de nós é o ponto de convergência para um certo
número de forças externas, e nossas personalidades resultam da interseção dessas influências".
Este indivíduo não é de interesse para o sociólogo. Por outro lado, o termo também é aplicado
a duas variantes de um indivíduo social que é de grande interesse para o sociólogo; um é o
indivíduo como ator, e o outro é o indivíduo como o produto de um determinado grau de
individuação - especialmente aquele que se encontra no moderno "culto do indivíduo".

Objetividade e formação de conceitos

A primeira e mais fundamental regra dos métodos sociológicos apresentada por Durkheim é a
de que devemos considerar os fatos sociais como coisas. Devemos observar os próprios fatos
sociais, instituições e correntes sociais e não estabelecer ideias sobre eles, tal qual a física com
os seus objetos de estudo. Segundo Bryant, uma posição aparentemente simples está aberta a
duas objeções muito diferentes, embora o texto do Durkheim convide essa confusão. A primeira
tem a ver com o uso de Durkheim de uma dicotomia entre ideias e coisas, onde ele precisa de
uma tricotomia: preconceitos (leigos ou não), conceitos científicos e coisas. A segunda diz
respeito às diferenças nas relações entre ideias e coisas na ciência natural e ideias e coisas para
a sociologia. Impondo ao sociólogo o acesso ao conhecimento da coisa pela própria coisa,
Durkheim parece exigir um empirismo grosseiro dos sentidos. Para Bryant, Durkheim confundiu
os fenômenos naturais que existem independentemente das concepções humanas deles, e os
fenômenos sociais que existem independentemente das manifestações individuais, e os chamou
de "objetivos"; e ele supôs que, em cada caso, essa objetividade é tal que torna possível a
formação de conceitos diretamente da percepção sensorial quando seus próprios exemplos
mostram que não é assim. Embora a externalidade de um fato social seja mantida para garantir
sua objetividade, essa objetividade equivale a uma reivindicação de significância intersubjetiva.
Durkheim sugeriu então que "os fatos sociais são mais passíveis de serem representados
objetivamente quanto mais completamente forem destacados dos fatos individuais pelos quais
são manifestados"; sem 'um ponto de vista fixo, constante, ao qual a representação pode ser
relacionada e que permite que tudo o que é variável, portanto subjetivo, seja eliminado', não
pode haver objetividade. A externalidade dos fatos sociais adquire uma constância das formas
presentes na vida social, acabam sendo objetos fixos, padrões constantes observáveis, o que
não deixa espaço para impressões subjetivas ou observações pessoais. Em suma, Durkheim nos
instrui a desconsiderar preconceitos e a atender diretamente às coisas. Ele então se vê tendo
que admitir que não podemos atender diretamente às coisas, que para iniciar a investigação
científica, temos que recorrer a preconceitos. Uma vez que a investigação em um campo
particular está em andamento, no entanto, ele espera que os conceitos científicos substituam
os pré-científicos; e se ele agora alude a uma tricotomia de preconceitos (representações
coletivas comuns), conceitos científicos (representações coletivas superiores de um tipo
especial) e a própria realidade, ele ainda supõe que os conceitos científicos são derivados das
próprias coisas, mesmo que ele não ofereça nenhum teoria da formação de conceitos científicos
que indicaria como esse feito é alcançado. É vital reconhecer o que Durkheim não está
reivindicando. Ele não está simplesmente estendendo uma regra do método sociológico
originalmente destinado à análise de sociedades particulares, ou tipos sociais, às relações
intersocietais ou à sociedade internacional. Ele não está argumentando que a constituição
interna, ou o substrato, da organização social internacional gera as formas de ideias universais.
Em vez disso, ele está anunciando a emancipação da lógica da organização social. À medida que
a vida internacional se estende, 'as coisas não podem mais estar contidas nos moldes sociais
segundo os quais elas foram primitivamente classificadas; eles devem ser organizados de acordo
com princípios próprios, de modo que a organização lógica se diferencia da organização social e
se torna autônoma. Em suma, 'não podemos mais aceitar um único. sistema invariável de
categorias ou estruturas intelectuais”; o que é necessário é "a tolerância do intelectual". do
cientista, que sabe que a verdade é uma coisa complexa e entende que há uma excelente chance
de que nenhum de nós verá a totalidade de seus aspectos”. Além disso, como "um excesso de
homogeneidade dentro de uma sociedade seria a sua morte", devemos confiar que a verdade
sempre irá variar. Não só o mundo social não é um, devemos esperar que nunca se torne assim.
A identidade do pensamento e da realidade constituiria não a perfeição da sociedade humana
prevista nas Formas Elementares, mas sua extinção

Agora, deve ficar claro que Durkheim gerou confusão ao utilizar um único termo como
"objetivo" para se referir a:

a) um mundo natural ou físico que existe independentemente das concepções ou


representações humanas;

b) um mundo social que também faz parte da natureza e que existe independentemente de
indivíduos particulares e suas representações individuais dele, mas não, é claro, de homens e
mulheres em geral, e suas representações coletivas dele, e que poderiam, portanto, ter sido
mais apropriadamente denominado "intersubjetivo";

c) fatos sociais e representações coletivas que transcendem as fronteiras da sociedade e são


(tornar-se) universalmente reconhecidos (por exemplo, religiões do mundo, ciência); e

d) as dimensões e relações externas e observáveis entre os fatos sociais e as representações


coletivas, em oposição às dimensões e relações internas e inobserváveis entre os fatos
individuais e as representações individuais.
Leis e tipos

Nas Regras, Durkheim afirmou que as leis da natureza "expressam as relações pelas quais os
fatos estão ligados em realidade" (p. 69; cf. p. 26). Em um ensaio posterior, ele se comprometeu
a "incluir os fenômenos humanos dentro da unidade da natureza" e à sujeição dos fenômenos
sociais a "aquelas observações precisas que podem ser retomadas em fórmulas gerais chamadas
leis naturais" (1905, p. 197). Mas essas leis são fixas, absolutas ou invariáveis no sentido de que
elas se aplicam igualmente em todas as sociedades, ou são relativas no sentido de que variam
de sociedade para sociedade? Entretanto, a partir das suas postulações Nas Regras, para
Durkheim se um fenômeno social parece ter mais de uma causa, isso seria uma ilusão; pois, na
realidade, devem existir variantes do fenômeno social em questão, cada qual com a sua própria
causa (exemplo as leis dos suicídios).

O normal e o patológico

Durkheim era um relativista moral que subscreveu a visão agora banal de que as prescrições
morais só podem ter autoridade dentro das comunidades que reconhecem os conceitos que
lhes dão significado. O relativismo moral de Durkheim foi qualificado de duas maneiras.
Primeiro, ele apresentou uma lei absoluta de variação moral; formas morais podem ser relativas,
argumentou ele, mas certamente não são arbitrárias. Em consequência, ele nunca poderia
concordar que os indivíduos deveriam ser livres para praticar quaisquer moralidades que
escolhessem. Havia formas morais consistentes com as condições de existência de sociedades
industriais emergentes, como a França, e eram estas, e somente estas, que forneciam o
conteúdo apropriado da educação moral e cívica; o pluralismo moral era indefensável. Em
segundo lugar, ele insistiu em uma concepção de verdadeira moralidade da qual as moralidades
de determinados tipos de sociedade eram apenas manifestações particulares - ainda que, ao
fazê-lo, parecesse contradizer uma de suas próprias regras fundamentais do método
sociológico. Um fato social é normal para um determinado tipo social, visto em uma dada fase
de desenvolvimento, quando ocorre na sociedade média daquela espécie considerada na fase
correspondente de sua evolução. Ele também esclareceu que a média de um tipo ou espécie é
construída combinando os elementos mais frequentemente encontrados nas sociedades que a
compõem. Aquilo que é frequente, comum, usual é considerado normal. Logo, tudo aquilo que
não seria usual seria anormal, sendo que no seu ponto de vista o normal é o saudável e benéfico,
logo o anormal seria patológico e ruim. A insistência eloquente, até mesmo lírica, de Durkheim
sobre a ideia de que a sociedade tem um valor moral superior ao dos indivíduos se baseia em
dois pontos principais. A primeira é que a civilização é um "depósito de riquezas intelectuais e
morais", do qual os indivíduos em sociedades com avançada divisão de trabalho podem extrair
apenas os fragmentos mais simples. A segunda é que a socialização, através da linguagem e da
cultura, nos permitiu escapar da dependência das forças físicas de todos os outros animais; na
verdade, é o que nos tornou verdadeiramente humanos, de modo que negar à sociedade o
dever e o amor próprios de um objeto moral é negar que somos seres humanos.

Preocupações substantivas

Durkheim aponta uma dúvida acerca de uma futura conclusão do processo de transição da
sociedade industrial. Todas as suas preocupações de certa forma estavam pautadas e pautaram
uma política positivista, mesmo o termo não sendo de seu agrado. Ele buscou uma tentativa de
análise e de possíveis soluções para os problemas apresentados pelas formas patológicas
derivadas da divisão social do trabalho, nesse processo ele acabou por retomar os debates e
preocupações apresentadas por Comte e Saint-Simon. Seus primeiros trabalhos mais
direcionados para uma preocupação acerca do desenvolvimento das divisões do trabalho, das
especificações dos campos de atuação e do papel dos indivíduos diante das máquinas, se
aproxima com as preocupações trazidas por Saint-Simon. Por outro lado, na sua fase seguinte,
ao ver na anomia um real problema da moralidade social, como uma verdadeira preocupação
sobre a sobrevivência humana, sua busca por uma reconstrução moral o aproxima dos trabalhos
realizados por Comte. Por último, Durkheim acaba por dar continuidade ao interesse pela
religião tanto apresentado por Comte quanto por Saint-Simon. Através da definição de
positivismo dada por Taylo, Durkheim não estaria enquadrado nessa perspectiva. Segundo
Taylor, o positivismo é como uma total posição filosófica que incorpora uma ontologia
fundamentada no nominalismo e no fenomenalismo; uma epistemologia sustentando que o
único conhecimento certo que podemos alcançar vem da observação, ou experiência, e uma
variedade de metodologias, indutivas, hipotéticas, produtivas, metodológicas-individualistas,
por exemplo, baseadas em uma crença na lógica unificada da prática científica. Bryant aponta
que o trabalho de Durkheim seria mais complexo que isso, porém não pode ser completamente
excluído dessa narrativa.