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Fichamento Lemos – O que é patrimônio?

Hugues de Varine-Boham propôs 3 grandes categorias dentro de Patrimônio cultural: elementos


da natureza e do meio ambiente (água, animais, terra, árvores, etc); conhecimento, técnicas,
saber, saber fazer (elementos do saber, saber construir, saber desenhar, etc); bens culturais
como artefatos, objetos, construções, obtidas através do meio ambiente e do saber fazer (igreja,
machado).

Artefatos tem vida útil, que pode variar muito, podendo também adquirir usos e significados
distintos ao longo do tempo (prato de comida do oriente que foi parar em uma parede de um
colecionar; construções que tiveram seus usos originais substituídos). Artefato muitas vezes
quando sai do seu meio original, do seu contexto, muda de função, perde significado, etc.

Uniformização, padronização, universalização do patrimônio cultural pela produção em série


das indústrias. P. 20

Sacralização do objeto quando este participa dos eventos que se convencionou chamar de
históricos (adquire credibilidade, respeitabilidade que outros iguais não possuem).

Patrimonio cultural de uma nação, uma região ou de uma sociedade é bastante diversificado e
sofre alterações permanentemente.

Guarda de bens ao longo da história geralmente foi de bens da classe poderosa, dominante,
objetos de valor; poucos bens culturais usuais e corriqueiros do povo.

Preservação sistemática do patrimônio cultural somente nos tempos recentes, a partir de


movimentos europeus da segunda metade do século XIX. P. 22

Por que preservar?

Preservar: livrar de algum mal, manter livre de corrupção, perigo ou dano, livrar, conservar,
defender e resguardar.

Importante preservar amostragem da totalidade de bens, pois há um entrelaçamento entre os


bens e se um deles não é guardado o conjunto desarmoniza ou se desequilibra.

Da interação entre um povo e uma condição ambiental resulta um processo cultural cuja
evolução segue a linha do pensamento dominante, prevalente.

É dever de patriotismo preservar os recursos materiais e as condições ambientais em sua


integridade, sendo exigidos métodos de intervenção capazes de respeitar os elementos
componentes do PC. É dever de patriotismo preservar o saber brasileiro. P. 28

Não é possível uma uniformização total, de pensamento, cultural, justamente pela interação e
articulação entre elementos do meio ambiente e do conhecimento.

Preservar não somente objetos, construções, monumentos, mas sons, músicas, depoimentos,
usos e costumes populares, fazer levantamentos urbanos das cidades, bairros (especialmente
daqueles condenados à especulação imobiliária).

Fragmentação do PC em Patrimonios Setoriais, cada classe social, grupo econômico, meio,


preocupação está a selecionar elementos culturais de seu interesse para que sejam guardados
como testemunho de sua preocupação. P. 30
Preservação em atendimentos aos interesses econômicos, como o turismo, para agentes de
viagens, comércio local e arrecadação de impostos. O turismo nasceu em volta de bens culturais
paisagísticos e arquitetônicos preservadose hoje exige a criação de mais cenários, provocando
quadros artificiais, inclusive.

A classe dominante tem seu prestígio herdado e gosta de preservar e recuperar testemunhos
materiais de seus antepassados, vive-se do passado, da glória de outros tempos.

Profissionais de engenharia e arquitetura preservam edifícios antigos para fins didáticos, para
elucidar aos alunos a evolução da arte de construir.

Artistas, arquitetos podem preservar obras artísticas em geral para prazer espiritual ou deleite
próprio.

Historiadores, arqueólogos, antropólogos, músicos procuram preservar bens relacionados ao


seu campo de ação.

Ecólogos, botânicos, naturalistas tentam preservar as relações entre os elementos dentro da


natureza.

São tantos os patrimônios quantas as inúmeras compartimentações da sociedade e seus


interesses. P. 32

O que preservar?

No Brasil, a preocupação preservadora do governo é relativamente nova. Pioneirismo de Conde


de Galveias, meados do sec XVIII, que falou ao governador de Pernambuco da necessidade de
preservar o Palácio das Duas Torres, obra holandesa de Conde de Nassau, como troféu da guerra
de restauração portuguesa, motivo de orgulho.

Geralmente, quando alcançamos uma meta libertária, como a independência ou a abolição da


escravidão, a primeira coisa que se fez foi destruir as provas da opressão banida. Era algo
esporádico e individual quando ocorria, de algum colecionador, etc, geralmente de bens
grandiosos e nunca do patrimônio popular.

Alguns projetos de preservação da década de 1920. P. 36-37

Em 1936, Mario de Andrade coloca um projeto, que vira lei em 1937. Patrimônio Artístico
Nacional, obra de arte pura ou aplicada, popular ou erudita, nacional ou estrangeira. Obra de
arte com sentido bastante amplo (fala de arte arqueológica, ameríndia, popular, histórica,
erudita nacional e estrangeira, aplicada nacional e estrangeira). Incluía todo o vasto elenco de
PC, objetos, ruínas, livros, vocabulários, medicina, paisagens, culinária, etc. Fala de artefatos,
usos e costumes, saber. Idealiza museus sobre o café, o algodão, a imprensa, a locomotiva, etc.

Projeto de Mario foi inovador. Não havia estrutura administrativa ou verbas para uma
empreitada preservadora daquela dimensão.

Criação em 1937 do Serviço do Patrimonio Histórico e Artistico Nacional pelo ministro da


educação Gustavo Capanema. No final do ano, com o decreto-lei n. 25, organiza-se o SPHAN,
que define o PHAN como o conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no país, cuja
conservação seria de interesse público, por sua vinculação a fatos memoráveis da história do
brasil, por seu valor arqueológico, etnográfico, bibliográfico ou artístico. P. 42-43
Mario de Andrade falava de todas as obras de arte, enquanto a lei apelava para um restritivo
interesse público. Toda a gama de múltiplos enfoques do projeto de Mario foi sendo esquecida,
de modo especial as manifestações populares (usos e costumes, cantos, representações,
histórias, etc).

Intenção do projeto inicial de preservar também aglomerados urbanizados, cidades. Só a partir


da década de 70 é que a preservação de bens culturais vistos em conjunto dentro de centros
urbanos passou a ser discutida, como patrimônio ambiental urbano. P. 45

A primeira cidade a ser preservada no brasil foi ouro preto, em 1933 mediante um decreto do
governo provisório federal, atendendo a solicitações sobretudo de intelectuais mineiros. A
preservação de OP não foi ligada a ideia de cidade como possuidora de características especiais
no campo do urbanismo, mas de proteção de monumentos maiores, cada um visto
individualmente. O ato legal visou a proteção de um pacote de construções. Não se viu a
urbanização como manifestação cultural de preciso interesse social.

Atualmente, a cidade é encarada como um artefato, bem cultural em conjunto, que vive, que se
transforma. Agrega inúmeros artefatos relacionados entre si, que tem uso individual, familiar
e/ou interesse coletivo. Há que se perceber as relações, sobretudo espaciais, mantidas entre os
bens culturais; não como um artefato isolado. P. 47

Preocupação com a geomorfologia, identificação das relações entre o traçado urbano e o sitio
original de implantação da cidade. Função orientadora de seu desenvolvimento. Porque ela foi
criada? Com que função? Qual a geografia do local? Como se desenvolveu? Como se adaptou
ao sitio de estabelecimento? Qual a técnica construtiva disponível e utilizada?

Paulista artificializou o solo para construir, aplainou o chão, enquanto mineiro respeitou o
terreno movimentado. Algumas cidades tiveram seu nascimento controlado por determinações
eruditas ligadas a uma conveniência estética do cruzamento das ruas no formato xadrez, por
exemplo. Ao longo do tempo podem ter sido abandonados pelo pouco rigor da fiscalização ou
por obstáculos naturais do solo. Intenções urbanísticas originais foram contrariadas sob as
alegações mais diversas. Nunca se controlou o desenvolvimento urbano com rigor desejado por
planos ou leis, resultando soluções espontâneas decorrentes do engenho e interesse da
população. O traçado urbano deve ser a preocupação primeira do preservador. P. 56

Posteriormente, devemos identificar as construções contemporâneas aos agenciamentos


urbanos originais, pensando nas relações espaciais primitivas ali mantidas. Ali já pode estar
configurada uma identidade cultural. P. 57 Muito poucas cidades ainda nos podem demonstrar
tais relações originais entre espaços livres e construções da mesma época, independentemente
da idade da cidade. A fisionomia urbana pode se manter, mas o uso da cidade se alterar, novos
artefatos criarem novas relações com aquele espaço, como iluminação elétrica, meios de
transporte, etc.

Em qualquer cidade é impossível a recuperação em totalidade do seu original conjunto


articulado de bens culturais, pois a sociedade não é a mesma, usa outros artefatos em outros
programas.

3 situações urbanas: 1) traçado urbano acompanhado de construções originais, primárias, como


OP, Brasilia, Parati, que guardaram edifícios antigos cujos relacionamentos primitivos com as
áreas livres originais ainda estão conservados. 2) traçados urbanos cujas construções originais
não existem, como ruas que eram zonas comerciais e hoje são residenciais. Nesse caso há que
se preservar a trama urbana desacompanhada de suas construções. 3) Conjuntos de construções
antigas em logradouros públicos alterados por intervenções modernas em traçados primitivos,
como na av. getulio vargas no rio, surgida a partir de demolições de quarteirões que deixaram a
mostra pequenos sobrados do sec XIX que estavam em becos estreitos. P. 62-63

A salvaguarda do patrimônio ambiental urbano depende de uma série de fatores, sobretudo


econômico-sociais.

Como preservar?

Grande parte devido à ações isoladas, colecionadores, de patrimônios setoriais, bens culturais
móveis, como antiguidades, porcelanas, discos, receitas culinárias, selos, moedas, máquinas,
etc. Para preservação de bens imóveis, como casas, ruas ou monumentos, passam a zelar
entidades oficiais, repartições públicas ou fundações.

Manter o edifício, como bem cultural, em uso constante e sempre que possível satisfazendo a
seus programas (usos) originais. P. 69

Pensamento: modificações geralmente ocorrem por mudanças de programas, mas podem ser
também por estética do período.

Bens arquitetônicos que podem estar modificados de sua feição original, geralmente devido a
acréscimos sucessivos provenientes de alterações nos programas; incompletos, por não terem
sido terminados ou terem sido mutilados; construções originais conservadas mas precisando de
obras de revitalização.

Movimentos de restauração na Europa a partir de meados do sec XIX, para voltar ao original,
comportamento geral que chega até os nossos dias. Muitas vezes, trabalhos preciosos
posteriores foram destruídos para restaurar trabalhos mais simples originais. Método
romântico, historicista ou de reintegração estilística.

Método arqueologista a partir de 1930, aceita somente consolidação de ruínas, aproveitamento


de espaços através de obras modernas, reconstrução baseada nos elementos originais dispersos
ainda conservados, condena demolição de acréscimos quando esses possuam valor histórico,
qualquer seja sua época.

Método científico proíbe reconstrução de ruínas, uso de seus espaços disponíveis, exige que
estejam visíveis os materiais e recursos da reconstrução, não se deve imitar, mas também sem
criar harmonias, deve-se respeitar os acréscimos. Mais utilizado atualmente.

Não método (cada caso é um caso, não há regras, só não admite reconstrução de ruínas) e
método artístico (combinação dos outros 2, enfatiza aspectos plásticos e estéticos).

Entidades públicas que zelavam pelo PC não tinham político definida, ia de acordo com
tendências ou gostos pessoais.

Congresso Internacional de Arquitetos e técnicos em Monumentos Históricos, em 1964 em


Veneza, para discutir a conservação do patrimônio monumental e ambiental no mundo, a falta
de entrosamento e conceitos comuns nesse trabalho, análise da teoria e dos métodos,
problemas jurídicos. Carta de Veneza, adoção do método científico, criação do ICOMOS
(estatuto da UNESCO que reúne técnicos mundiais dos museus). P. 75-76

Resumo da Carta de Veneza: o monumento, isto é, bem cultural, é inseparável do meio, ou seja,
meio ambiente, área envoltório, contexto socioeconômico; conservação e restauração são
atividades interdisciplinares, com participação de arquitetos, historiadores, especialistas em
solo, críticos de arte, arqueólogos, etc; o uso do edifício deve conservá-lo, não alterando a
disposição dos elementos que o compõem, adequação do programa; admitem técnicas
tradicionais e modernas; restauração dos traços originais deverá ter caráter excepcional, todo
bem cultural deve ser usado mesmo à custa de adaptações, voltar às feições antigas quase nunca
satisfaz programas modernos, por isso vemos uma museificação; as contribuições de todas as
épocas devem ser respeitadas; os julgamentos não devem ser pessoais; remoção total ou parcial
de um monumento para outro local não pode ser tolerada, exceto quando extremamente
necessário; valorização das relações entre as construções e sua área envoltório; todas as
iniciativas tem o objetivo de facilitar a compreensão do monumento, sem desvirturar seu
significado; trabalhos serão acompanhados por documentação precisa, relatórios analíticos e
críticos, antes e durante.

Restaurar com duas acepções: reversões a situações originais, operações de caráter


excepecional; intervenções que procuram manter aparências ou exterioridades semelhantes às
primitivas, enquanto facilitam novos usos ou adequações às exigências modernas. Em ambas há
preservação dos bens culturais, mas com resultados finais diferentes entre si. A primeira
raramente acontece, só em monumentos de construção evocativa e comemorativa sem outras
possibilidades de uso, ainda dentro do significado popular.

Em especial, no caso de bens culturais de conjuntos urbanos, há uma política interesseira que
nem sempre se revela, principalmente no que diz respeito à alocação de verbas para
preservação de monumentos. Isso é possível pela falta de esclarecimento popular sobre a
importância da preservação do nosso patrimônio, da nossa memória, e também por questões
jurídicas, nas quais, muitas vezes, o direito do indivíduo de propriedade se impõe. P. 84

O tombamento é um atributo dado a um bem cultural escolhido e separado dos demais para
que nele fique garantido a perpetuação da memória. O tombamento não implica em
desapropriação, o bem continua de posse total e usufruto do proprietário, mas ele também é
responsável por sua integridade, qualquer modificação deve ser analisada e autorizada, e isso
implica em desvalorização no mercado e diversas resistências.

Depois da Carta de Veneza, os países buscaram regulamentar as normas venezianas e


providenciar suas linhas de conduta e normas locais de acordo com sua realidade. Ocorreu em
1967 uma reunião entre os países latino-americanos para tratar de questões de preservação
ligadas ao seu mundo. Renato Soeiro, chefe do IPHAN e ministro da educação e cultura
representou o Brasil então. P. 86

Nos países do terceiro mundo, falta de meios se mescla com má administração do processo
urbano e assim muitas riquezas foram destruídas. Necessidade de medidas de defesa,
recuperação e revalorização do patrimônio monumental da região e necessidades de
formulação de planos nacionais e multinacionais de curto e longo prazo.

Diziam que o PHA trazia vantagens, principalmente através do turismo, logo as medidas
adequadas a sua preservação e valorização devem guardar relações com os planos de
desenvolvimento e fazer parte deles. (autor critica, diz que o turismo muitas vezes atrapalha,
polui visualmente o entorno com comércios, etc)

Planos de recuperação e valorização devem ser acompanhados por programas de educação


cívica, para que o povo ajude na defesa do patrimônio com sua voz e sua ação vigilante.
A partir da década de 1970 esses encontros se proliferam pelo mundo, em Brasil o principal foi
o Compromisso de Brasilia, neste ano. Deste compromisso, as conclusões: divisão dos bens
segundo seu nível de interesse, ou seja, bens de valor nacional seriam protegidos pelo governo
federal, pelo DPHAN (diretoria do patrimonio...), enquanto os bens de valor regional ficariam a
cargo de estados e municípios.

Bem cultural de interesse nacional diz respeito ao quadro de elementos determinadores da


identidade pátria, necessários à compreensão de nossa formação, como a casa de um
bandeirante, uma fazenda de café, etc. Bem regional: certas escolas de ensino superior,
seminários, centros irradiadores de instrução numa área, etc. Bem local: ligados à vida de uma
pequena sociedade com limites territoriais, como a casa de um fundador da cidade, o túmulo
de um benfeitor, etc. p. 91-92

Seria importante, então, a criação de órgãos estaduais e municipais destinados a suplementar


a ação nacional do DPHAN. Necessidade da criação de cursos para arquitetos, conservadores,
arquivologistas, etc, ligados à conservação e restauração. Primeiro curso de especialização na
faculdade de arquitetura e urbanismo da USP em 1974. Inclusão nos currículos escolares
matérias que versassem sobre acervo histórico e artístico das riquezas naturais, da cultura
popular, etc. Recomendação de utilização para casas de cultura ou repartições de atividades
culturais imóveis de valor histórico e artístico.

Esses documentos nacionais não se referiam explicitamente ao Patrimonio Ambiental Urbano,


falavam vagamente de conjuntos de monumentos e cidades históricas. No momento de escrita
do autor, 1981, ainda não havia legislação pertinente, apenas algumas leis municipais.

No Brasil, não é possível a formulação procedimentos padronizados para os Planos Diretores


para preservação de conjuntos urbanos, uma vez que a realidade socioeconômica varia muito,
desde os moradores até a verba do município ou estado.

Valor social de um bem cultural geralmente é deixado de lado, colocado em segundo plano,
tendo em vistas os baixos orçamentos. P. 104-105

Brasil tem muito pouco a mostrar de seu patrimônio proporcionalmente a seu tamanho pois o
SPHAN nasceu muito tarde e pobre e a população tem descaso pelo passado, pela memória. P.
107

Quase todo tombamento é entendido como prejudicial quando feito em propriedade privada.
Daí, a maior parte das preservações legais são feitas sobre bens públicos, edifícios
administrativos, jardins botânicos, praças, etc, assim evita-se a reclamação das pessoas.

A base correta de como preservar está na elucidação popular, na educação sistemática que
difunda entre toda a população, dirigentes e dirigidos, o interesse maior que há na salvaguarda
de bens culturais.