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Tribunal de Justiça de Minas Gerais

Número do 1.0024.05.780483-3/001 Númeração 7804833-


Relator: Des.(a) Antônio Sérvulo
Relator do Acordão: Des.(a) Antônio Sérvulo
Data do Julgamento: 14/04/2009
Data da Publicação: 22/05/2009

EMENTA: CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. SERVIDORES DA


JUSTIÇA. JORNADA DE TRABALHO. PLANTÃO FORENSE.
COMPENSAÇÃO. PREVISÃO LEGAL. HORAS-EXTRAS. ADICIONAL
NOTURNO. NECESSIDADE DA OBSERVÂNCIA. A Constituição Federal de
1988 assegura aos trabalhadores o direito ao adicional noturno e à
remuneração especial pelo serviço extraordinário, conforme se infere de seu
art. 7º, incisos IX e XVI, estendendo tais garantias aos servidores públicos,
nos termos de seu art. 39, §3º. Tais direitos não podem ser obstados, ainda
que os servidores estejam sujeitos ao regime de compensação, previsto na
norma do art. 7, inciso XIII, da Constituição Federal. Tanto a Lei de
Organização Judiciária do Estado de Minas Gerais (LC nº. 59/01 alterada
pela LC nº. 85/05), quanto as Portarias que regulamentam a questão,
prevêem o plantão forense e a possibilidade de o servidor a ele submetido
efetivar a compensação dos dias, sede em que deverá ser observado o
direito aos acréscimos legais referentes à jornada extraordinária e ao
trabalho realizado em período noturno legalmente definido.

APELAÇÃO CÍVEL N° 1.0024.05.780483-3/001 - COMARCA DE BELO


HORIZONTE - APELANTE(S): SERJUSMIG SIND SERVIDORES JUSTIÇA
ESTADO MINAS GERAIS - APELADO(A)(S): ESTADO MINAS GERAIS -
RELATOR: EXMO. SR. DES. ANTÔNIO SÉRVULO

ACÓRDÃO

Vistos etc., acorda, em Turma, a 6ª CÂMARA CÍVEL do Tribunal de Justiça


do Estado de Minas Gerais, incorporando neste o relatório de fls., na
conformidade da ata dos julgamentos e das notas taquigráficas, à
unanimidade de votos, EM DAR PROVIMENTO PARCIAL.

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Tribunal de Justiça de Minas Gerais

Belo Horizonte, 14 de abril de 2009.

DES. ANTÔNIO SÉRVULO - Relator

NOTAS TAQUIGRÁFICAS

O SR. DES. ANTÔNIO SÉRVULO:

VOTO

Conheço do recurso, posto que próprio e tempestivo.

Cuida-se, na espécie, de ação ordinária proposta pelo Serjusmig - Sindicato


dos Servidores da Justiça do Estado de Minas Gerais, em desfavor do
Estado de Minas Gerais, postulando, o autor, seja reconhecido o direito dos
servidores plantonistas ao recebimento das horas-extras, bem como do
adicional noturno, reconhecendo-lhes, ainda, o direito ao repouso semanal
remunerado.

Os pedidos foram julgados improcedentes, ao fundamento de que tais


direitos não estavam sendo violados, sentença que ensejou a interposição de
recurso de apelação pelo autor.

Alega o recorrente, em suas razões, que a possibilidade de compensação de


horas é prevista somente para os plantões de final de semana, não
amparando, portanto, os servidores de comarcas do interior, cujo plantão se
estende por 15 (quinze) dias ininterruptos. Assevera ainda que o sistema de
plantão, que se realiza em jornada extraordinária, irrompendo o período
noturno, é concretizado sem o pagamento das horas-extras e do adicional
noturno, em flagrante inconstitucionalidade; aduz que tal conduta está
acarretando enriquecimento ilícito do Estado em detrimento dos servidores.
De forma eventual, pugna que seja reconhecido ao menos o direito da
compensação da hora extra trabalhada com acréscimo de 50% da hora
normal.

Importa destacar, a princípio, que a Constituição Federal de 1988

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assegurou aos trabalhadores direito ao adicional noturno e à remuneração


especial pelo serviço extraordinário, conforme se infere de seu art. 7º, incisos
IX e XVI, estendendo tal direito aos servidores públicos, a teor do que dispõe
seu art. 39, §3º.

Quanto ao adicional noturno, importa destacar que, no âmbito do Estado de


Minas Gerais, seu pagamento está previsto na norma do art. 12 da Lei nº.
10.745/92, verbis:

"Art. 12 - O serviço noturno, prestado em horário compreendido entre as 22


(vinte e duas) horas de um dia e as 5 (cinco) horas do dia seguinte, será
remunerado com o valor-hora normal de trabalho acrescido de 20% (vinte por
cento), nos termos de regulamento."

No âmbito do Poder Judiciário, o plantão forense encontra previsão na Lei


Complementar nº. 59/01, norma que contém a organização e a divisão
judiciárias do Estado de Minas Gerais, alterada pela Lei Complementar nº.
85/05, calhando trazer à colação seu art. 123, verbis:

"Art. 123 - Nos dias em que não houver expediente forense, servirão na
Comarca de Belo Horizonte Juízes designados pelo Presidente do Tribunal
de Justiça, em escala semanal, para conhecer de habeas corpus e outras
medidas urgentes, e servidores designados pelo Corregedor-Geral de
Justiça, mediante rodízio. (caput com redação dada pelo art. 1º da Lei
Complementar nº. 85, de 28/12/2005.)

§1º - Para as comarcas do interior do Estado, a Corte Superior estabelecerá


microrregiões em que os Juízes respectivos, mediante designação do
Presidente do Tribunal de Justiça, se revezarão, para efeito deste artigo,
levando-se em conta a distância e as vias de comunicação que possibilitem a
realização do plantão.

§2º - Na hipótese do §1º deste artigo, terão preferência na indicação o


Escrivão e os servidores lotados na comarca do Juiz indicado para o plantão.

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§3º - Os Juízes e os servidores designados para o plantão previsto neste


artigo terão direito a compensação ou indenização pelos dias em que
servirem. (Parágrafo com redação dada pelo art. 1º da Lei Complementar nº.
85, de 28/12/2005.) (grifei)

A possibilidade de compensação dos dias trabalhados pelos servidores em


regime de plantão forense também está assegurada pelas normas dos
artigos 5º e 6º da Portaria nº. 1.724/05, hoje Portaria nº 2259/08, verbis:

"Art. 5º - A compensação dos dias não úteis em que cada Juiz servir no
referido plantão far-se-á em dias úteis consecutivos ou fracionadamente,
conforme opção do interessado, devendo ser requerida com a antecedência
necessária à apreciação do pedido."

"Art. 6º - Ao escrivão e servidores de 1ª instância, designados para


funcionarem nos plantões, será concedida a compensação pelo Diretor do
Foro, na forma do artigo anterior, fazendo-se constar esta circunstância no
respectivo quadro de freqüência." (grifei)

Assim, a possibilidade de compensação, pelos servidores, do serviço


prestado em plantão forense, está assegurada pelos acima transcritos
dispositivos, inclusive nos mesmos moldes assegurados aos magistrados,
não havendo se falar, portanto, em qualquer cerceamento.

Ademais e, ao contrário do alegado pelo recorrente, malgrado o plantão


forense nas comarcas do interior possua duração quinzenal, ele somente é
exercido aos finais de semana, nos termos do que dispõe a norma do art. 3º,
§2º, da Portaria nº. 1.724/05, verbis: (hoje Portaria nº. 2260/2008)

"Nas comarcas do interior do Estado, o plantão será quinzenal, vedado o


fracionamento, salvo de motivo de força maior, exercido apenas aos
sábados, domingos e feriados, iniciando-se e encerrando-se às 18:00 horas
da sexta-feira."

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Outrossim, o regime de compensação não se constitui em óbice ao


pagamento do adicional noturno e à remuneração especial pelo serviço
extraordinário.

Mutatis mutandis, trago à colação os seguintes arestos:

"DIREITO CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO - SERVIDORES


PÚBLICOS DA FAZENDA ESTADUAL - REGIME DE PLANTÃO 24 X 72 -
HORAS EXTRAS E ADICIONAL NOTURNO DEVIDOS - ART. 5º DA LEI
6.762/75, ART. 12º DA LEI 10.745/92 E SÚMULA 213 DO STF. 1. Os
servidores públicos que trabalham sob regime de plantão, perfazendo 24
horas ininterruptas de trabalho, com 72 horas de descanso, mesmo que
sujeitos ao regime de compensação (banco de horas) devem receber as
horas extras comprovadamente não compensadas e o adicional noturno
devido pelo trabalho prestado após as 22 horas. 2. Juros de mora em 0,5%
ao mês, dado o caráter remuneratório dos adicionais, por força do art. 1º F da
Lei 6.464/75." (TJMG - Processo nº. 1.0024.05.696752-4/001; Rel. Desemb.
Vanessa Verdolim Hudosn Andrade; DJMG 15.04.08) (grifei)

"Constitucional e Administrativo. Agente fiscal de tributos. Jornada de


trabalho. Regime de plantão 24 X 72 horas. Hora extra e adicional noturno.
Condenação. Fazenda Pública. Verbas remuneratórias. Servidores e
empregados públicos. Taxa dos juros de mora. O direito ao recebimento por
horas extras e pelo trabalho noturno é assegurado constitucionalmente aos
servidores públicos. Os agentes fiscais de tributos estaduais têm direito ao
acréscimo de cinqüenta por cento por hora extraordinária de plantão e ao
adicional noturno de vinte por cento, referente ao trabalho desenvolvido entre
vinte e duas horas de um dia e as cinco da manhã seguinte. Os juros de
mora, nas condenações impostas à Fazenda Pública para pagamento de
verbas remuneratórias devidas a servidores públicos, são de 6% (seis por
cento) ao ano, a partir da citação. Rejeita-se a preliminar, dá-se provimento
parcial ao primeiro recurso e nega-se provimento ao segundo." (TJMG -
Processo nº. 1.0024.05.696753-2/001; Rel. Desemb. Almeida Melo; DJMG
28.11.06) (grifei)

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Em hipótese similar, só que referente aos agentes fiscais de tributos


estaduais, que também exercem trabalho em regime de plantão, a 4ª Câmara
Cível deste egrégio Tribunal de Justiça editou a súmula nº. 14, calhado trazer
à colação seu enunciado, verbis:

"Súmula 14 - Os agentes fiscais de tributos estaduais têm direito ao


acréscimo de cinqüenta por cento por hora extraordinária de plantão e ao
adicional noturno de vinte por cento, referente ao trabalho desenvolvido entre
vinte e duas horas de um dia e as cinco da manhã seguinte." (Referência
legislativa: Constituição da República, art. 39, § 3º; Constituição da
República, art. 7º, incisos IX e XVI, e Lei Estadual n. 6.762, de 23 de
dezembro de 1975). (destaquei)

Com tais considerações, dou parcial provimento ao recurso para declarar


que, em caso de pagamento, por ocasião da compensação, os servidores da
justiça têm direito ao acréscimo de 50% (cinqüenta por cento) por hora
extraordinária trabalhada no regime de plantão, bem como adicional noturno
de 20% (vinte por cento) referente ao trabalho de plantão realizado entre as
22:00 horas de um dia e às 05:00 horas da manhã do dia seguinte.

Tendo em vista a sucumbência recíproca, rateio os ônus de sucumbência


determinados na sentença no percentual de 50% para cada uma das partes
litigantes, determinando a compensação da verba honorária.

Custas recursais meio a meio.

Votaram de acordo com o(a) Relator(a) os Desembargador(es): JOSÉ


DOMINGUES FERREIRA ESTEVES e ERNANE FIDÉLIS.

SÚMULA : DERAM PROVIMENTO PARCIAL.

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