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Antes de dar um início efetivo ao curso, devo esclarecer que alguns dos textos, rituais

e feitiços descritos não foram criados ou escritos por mim. Mas como são de interesse
e, por vezes, belos e que trazem uma expansão para o nosso conhecimento, achei por
bem transcreve-los. Nesses textos coloquei, quando me foi possível, sua fonte e seu
autor. Isso esclarecido, vamos começar.

Wicca - Um caminho com coração


A Wicca está crescendo e se expandindo em todo o mundo. Como em toda e qualquer
religião, isso gera vários tipos de reação, desde seus próprios integrantes como de
outras pessoas que estão em outras correntes mágicas e querem de alguma forma
provar que suas são as únicas verdades, ou ainda que são "superiores" ou "mais
poderosas" que os outros. O fato é que, independente disso, a Wicca cresce, ganha
espaço e isto é um bom sinal, pois estamos falando de tornar acessível a muitas
pessoas uma abordagem da realidade alternativa a este modelo dominante que aí está.
Apesar disso, torna-se óbvio que nunca se revelará um segredo da Arte em público.
Devemos levar em conta que a Natureza faz isso todos os dias, a todo instante,
revelando seus mais profundos segredos a quem estiver com ela sintonizado e saiba
ler seus sinais.

Revelar uma cerimônia ou uma palavra não significa necessariamente revelar os


segredos mais profundos da Arte, pois o paganismo está crescendo, e em cada ato
deve-se buscar ficar e se sentir cada vez mais à vontade. Cada vez que um ritual
acontece em local público, com a presença de várias pessoas de diferentes crenças,
prova que estamos recebendo uma maior aceitação das pessoas que, por vezes, vêem
na Wicca vários de seus próprios princípios, e assim buscam por maiores informações
e acabam entrando nesse caminho.

Estamos crescendo, voltando após um período onde estivemos reclusos em nosso


próprio Universo devido à incompreensão dos seres humanos. Assim como o Deus,
renascemos em um tempo onde a busca pela alegria e pela vida está cada vez mais
forte dentro do ser humano. O homem tem sentido a necessidade da busca de modelos
alternativos da sua própria realidade, da busca de novos caminhos que o orientem em
suas vidas. Muitos sentem a falência das instituições que não conseguem realizar o
que se propõem. Não que a Wicca seja o “único caminho a se seguir”, nem ela
contenha toda a verdade das crenças; tampouco que estamos certos e os outros
errados em suas escolhas. O que acontece é que o atual modelo de realidade que
domina o mundo não fez do ser humano alguém mais feliz, mais equilibrado ou com
uma maior harmonia com o meio em que vive; não conseguiu, em todo o período de
suas histórias gerar sociedades onde o respeito à vida prevalece.

Nosso mundo, nossa casa, encontra-se em estado caótico. Para onde olhamos vemos
as guerras, as destruições da Natureza como o “ápice da evolução humana”. Essa falta
de visão, onde a “evolução” transforma o ser humano em “coisa”, em “mercadoria” e
passamos a acreditar que podemos comprar tudo nas prateleiras deste vasto
supermercado em que o mundo foi transformado não é mais uma verdade absoluta,
pois o ser humano está em um estágio de busca interior, de um crescimento
espiritual, e isso ele está encontrando dentro da própria crença, da própria religião.

O Paganismo traz o questionamento de tudo que temos por real, por fato, por método
e sistema de vida. Nos faz reavaliar nossa relação com toda a realidade que se
encontra a nossa volta. A magia começa lenta, mas gradativa, de uma forma
imperceptiva, mas a realidade é que ela sempre esteve presente na vida de todos e, na
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maioria das vezes, não a notamos pois estamos fechados para novos (ou antigos)
conhecimentos devido a nossa própria criação ou formação religiosa dada por nossos
pais e avós.

Passamos tanto tempo da nossa vida preocupados com nossos possíveis futuros, ou
ainda com nossos atos do passado, que acabamos por esquecer o real momento, onde
nossa vida acontece, aqui e agora. Esse é o momento das reais e possíveis mudanças
que afetam diretamente nossa vida e a de todos os que estão a nossa volta. Um novo
caminho se abre à nossa frente a cada novo momento que passa, a cada decisão que
tomamos, esteja ela certa ou errada.

Temos a tendência de acharmos que a magia e o poder encontram-se em objetos, que


se fizermos uma energização nesse objeto estaremos carregando-os com a Energia dos
Deuses. Essa não deixa de ser uma verdade, mas esse Poder está dentro de cada um
de nós, já que os Deuses fazem parte de nosso ser. Você pode comprar um cristal em
uma loja, mas a magia que vai ser utilizada para despertar sua essência só pode
brotar de dentro de cada um de nós, da vontade ou da intenção. Ao comprar um
caldeirão em uma loja, este só se tornará a representação do útero da Deusa se formos
unos(a) com Ela. Esta conexão com a eternidade só pode ser conseguida através do
esforço pessoal, pelas pesquisas, estudos e prática.

A Wicca, como em outras religiões, não vem para “negociar almas” ou um “lugar ao
céu”. Não busca nem quer converter as pessoas à sua crença, já que acreditamos que
os homens e mulheres são livres para viver e crer no que bem entenderem. São livres
para conectar a totalidade da maneira que desejarem, ou amar como quiserem ou
serem também o que quiserem. A essência do caminho pagão é a Liberdade. Mas
temos que aprender a querer, e ir além do que fizeram de nós para sermos realmente o
que somos em essência. Este é o caminho que os Deuses e as Deusas podem nos
auxiliar a trilhar.

Ao iniciarmos na Wicca nossas existências e crenças, trilhamos o caminho da sintonia


com as forças da Natureza, Solares, dos Astros e tantas outras que vem da eternidade
e passam por nós. Os Deuses e Deusas vivem em nós, ao mesmo tempo em que somos
parte deles. Encontrarmos tais forças dentro de nós é participar de suas realidades.
Ao optarmos pelo caminho dos Bruxos(as) acreditamos que a razão não se encontra
superior à intuição e que os mitos e lendas também fazem parte da realidade e é um
caminho tão válido como o da ciência. Temos então que rever os conceitos prontos que
temos sobre o paganismo e suas formas de manifestação.

Na Wicca não “adoramos do Sol” como uma divindade em si, mas como a
representação de sua Luz. Buscamos conhecer e entender seu significado místico e
real. Assim como as pessoas que trabalham com a terra, nas lavouras, precisam estar
em sintonia com o Sol e com as estações do ano para que suas colheitas dêem o
devido fruto, um praticante da Arte participa ativamente de um momento mágico, no
qual os organismos sintonizam com as forças vindas dos Astros, Sol e de origens
várias, para trabalhar estas energias e levá-las de volta à Terra.

O ser humano possui uma ligação direta com o Sol pois necessita de sua luz e seu
calor para estar vivo, com as Estrelas para nos mostrar que o Universo é infinito e não
estamos sós, e com a Terra que é nossa casa já que moramos nela. Exatamente por
sermos Vivos e Conscientes. A Wicca vem nos re-ensinar como manifestar dentro de
nós a força plena que possuímos e não simplesmente nos contentarmos com as visões
do mundo que a ciência ou as religiões tradicionais tentam nos impor. Essa
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abordagem diferente de existência faz com que a Wicca cresça, se expanda, pois nos
traz de volta às origens. Abre nossos olhos para as dificuldades que nossa casa, a
Terra, vem passando, e nos mostra que podemos (e devemos) cuidar de nosso lar.
Deixar de lado as coisas que dividem as pessoas e nos fazermos realmente presentes
nos momentos que realizamos a magia maior que é viver, a cada instante, plenamente.

A Wicca faz de cada ato, cada momento, cada instante uma celebração à vida. Os atos
cerimoniosos ou momentos ritualísticos, são a parte “fácil”, pois manter a intenção
mágica em cada ato do dia, levar para o cotidiano os ensinamentos recebidos é o
maior desafio dos(as) que buscam o crescimento dentro da Arte. A cada momento de
sua vida mostrar aquilo que é e acredita, deixando de lado as desculpas ou críticas
que surgirão no caminho. A magia é ação e essa ação não deve se restringir aos rituais
e às festividades. Deve vir de dentro de nós já que a premissa básica da Wicca é
recuperar o elo do ser humano com a Natureza. Só sobreviveremos como seres
humanos se recuperarmos nossa consciência ecológica e evitarmos que nosso mundo
seja destruído por gananciosos atrás de poder econômico.

Na Wicca essa consciência faz parte do dia a dia, pois sabemos que a Natureza é viva,
e vemos nela uma das faces da Deusa. Nós, como wiccanos devemos estar atentos
para os atos que podem agredir essa Natureza. Devemos buscar educar os que estão à
nossa volta para os atos simples da vida, como a separação do lixo reciclável, evitar
sujar as ruas, praias, rios, campos e florestas. Não maltratar outro ser vivo, dentre
eles o próprio ser humano. Cuidar das plantas e jardins que existem, plantar quando
possível uma árvore. São atos que podemos executar dentro de nosso dia a dia, pois
para algumas pessoas basta uma simples palavra que os faça pensar para poderem
efetuar uma mudança em sua vida.

Sentir o elo da tradição na Wicca, por gerações e gerações nos faz realmente pensar.
Até a década de 1950, sendo a bruxaria considerada como crime, o saber era mantido,
o conhecimento transmitido, ritos disfarçados nos usos domésticos, o ato de cozinhar,
de varrer a casa, de bordar, os homens mantendo a Arte em suas artes de carpinteiro,
construtores, usando da linguagem de seu ofício com duplo sentido, criando do ato de
sua vida uma metáfora para o que não lhe permitiam dizer.

Com o Caminho do Caldeirão e da Vassoura, os ramos femininos da Wicca foram bem


guardados e agora surgem novamente. Mas existe também todo um ciclo masculino
que é o Caminho dos Dragões, o Caminho dos que usam os artefatos de seus ofícios
na mesma trilha de Liberdade e Sintonia com a Deusa. Estamos passando por
momentos mágicos de transição, de batalha, de transformação e cabe a cada um de
nós a sintonia com a crença que lhe interessa. Fazer parte do mundo que está
começando, ou parte do mundo que está acabando nitidamente à nossa frente é uma
opção que é dada a todos nós, pessoal e intransferível. E a realidade da busca e
decisão se encontra em cada mínimo ato que realizamos.

O que é Wicca
A Bruxaria é uma religião de forte tradição mágica. Xamanismo e Magia são técnicas
espirituais, isto é, para ser Bruxa não é preciso fazer magia, ou ter poderes
paranormais. Muito menos ser vidente ou médium. O que diferencia a Bruxa do Mago
ou Xamã é a sua devoção pelos Deuses. Xamanismo e Magia são técnicas utilizadas
pelas Bruxas, mas não têm nada a ver com a parte devocional da Wicca. É possível ser
bruxa fazendo-se somente os rituais de devoção, sem nunca praticar um único feitiço
na vida, mas o contrário não é verdadeiro, pois, se não houver da sua parte um Amor
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sincero pela energia dos Deuses e harmonia com a Natureza, você pode fazer feitiços
dia e noite, mas nunca será uma Bruxa. Tradicionalmente, as Bruxas podem (e
devem) fazer feitiços recorrendo às energias da Natureza para resolver os problemas
práticos da sua vida, bem como para ajudar ao próximo, mas nunca devemos nos
esquecer de que o mais importante é a comunhão com as energias da Natureza, e o
respeito por todos os seres vivos, e, em especial, pelos nossos semelhantes.

Origens

Falar em origem da bruxaria é o mesmo que retornar aos primórdios da Humanidade,


quando os seres humanos começaram a despertar sua percepção para os mistérios da
vida e da natureza. Segundo os estudiosos da Pré-História, as primeiras
demonstrações de arte devocional foram as Madonas Negras, encontradas em
cavernas do período Neolítico. Portanto, as Deusas da Fertilidade foram os primeiros
objetos de adoração dos povos primitivos. Da mesma forma que nossos antepassados
se maravilharam ao ver a mulher dando a Luz a uma criança, todo o Universo deveria
ter sido criado por uma Grande Mãe. Entre os povos que dependiam da caça, surgiu o
culto ao Deus dos Animais e da Fertilidade, também conhecido como Deus de Chifres
ou Cornífero. Os chifres sempre representaram a fertilidade, coragem e todos os
atributos positivos da energia masculina, representando também a ligação com as
energias cósmicas.

Hoje a figura do Deus Cornífero é bastante problemática, pois, com o advento do


Cristianismo, ele foi usado para personificar a figura do Diabo, entidade criada pelas
religiões judaico-cristãs. Ele (o diabo) não é reconhecido e muito menos cultuado pelas
Bruxas. A wicca surgiu no período Neolítico, em várias regiões da Europa, onde hoje
se localiza a Irlanda, Inglaterra, País de Gales, Escócia, indo até o Sudoeste da Itália e
a região da Britânia na França. Quando os Celtas invadiram a Europa, quase mil anos
antes de Cristo, trouxeram suas próprias crenças, que, ao se misturarem às crenças
da população local, originaram o sistema que deu nascimento à Wicca. Com a rápida
expansão desse povo, ela foi levada para regiões onde se encontram Portugal, Espanha
e Turquia. Embora a Wicca tenha se firmado entre os Celtas, é importante lembrar
que a bruxaria é anterior a eles. Mas como esse povo foi o mantenedor da tradição, é
importante que conheçamos, pelo menos, o rudimento de seu pensamento e cultura.

O Panteão Celta, ou seja, o conjunto de Deuses e Deusas dessa cultura é hoje o mais
utilizado nos rituais da Wicca, embora possamos trabalhar com qualquer Panteão,
desde que conheçamos o simbolismo correto, e não misturemos os Panteões num
mesmo ritual. A sociedade Celta era Matrifocal, isto é, o nome e os bens da família
eram passados de mãe para filha. Homens e mulheres tinham os mesmo direitos,
sendo a mulher respeitada como Sacerdotisa, mãe, esposa e guerreira, participando
das lutas ao lado dos homens. O culto da Grande Mãe e do Deus Cornífero
predominaram nas regiões da Europa dominadas pelos Celtas, até a chegada dos
romanos, que praticamente dizimaram as tribos Celtas, que nessa época já estavam
sendo dominadas pelos Druidas e que representavam uma introdução ao
patriarcalismo.

Porém, em muitos lugares, a religião da Grande Mãe continuou a ser praticada, pois
havia certa tolerância por parte dos romanos, chegando certos ramos da Wicca a
incorporar elementos do Panteão Greco-Romano, especialmente na Bruxaria Italiana.
Foi somente na Idade Média que a Bruxaria foi relegada às sombras com o domínio da
Igreja Católica e a criação da Inquisição, cujo objetivo era eliminar de vez as antigas
crenças, que eram uma ameaça a um clero muito mais preocupado em acumular bens
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e riquezas do que a propagar a verdadeira mensagem de Jesus. Muitas das vítimas da
Inquisição não eram Bruxas, e sim, pessoas com problemas de saúde, doenças
mentais, deficiências físicas ou somente o alvo da suspeita e inveja do povo. Também
era comum se acusar pessoas para tomar seus bens, pois esses eram divididos entre
os inquisidores.

Durante o tempo das fogueiras, o medo fez com que muitos permanecessem no
anonimato para resguardar as vidas de suas famílias. Muitos dos conhecimentos
passaram a ser transmitidos oralmente, por medida de segurança, e, assim, muito se
perdeu.

Fatos Históricos
Quem visita o litoral escarpado da Escócia, na costa leste de Edimburgo, às vezes ouve
falar de uma estranha lenda sobre bizarros episódios que teriam ocorrido a muitos
anos no vilarejo de North Berwick. Os detalhes dessa história podem se alterar a cada
versão, porém as personagens se mantêm as mesmas: um bando extremamente
sinistro de bruxas. Se dermos crédito à lenda – embora nestes casos sempre seja boa
certa cautela – no outono de 1590 um grupo de perversos bruxos e bruxas reuniu-se
para executar um ritual hediondo dentro de uma igreja vazia não muito longe do mar
do Norte.

Seus propósitos eram ao mesmo tempo fantásticos e terríveis, pois planejavam


controlar as forças da natureza e modificar o curso da história da Escócia, provocando
uma horrível tempestade no mar. No interior daquela pequena igreja, as bruxas se
amontoaram em volta de um gato assustado, escolhido como instrumento de seu
feitiço. Para começar batizaram o pobre animal numa cerimônia ritualística e depois
torturaram-no cruelmente, balançando-o entre as chamas de uma fogueira ardente.
Em seguida ataram pés e mãos do cadáver de um homem, cujo corpo haviam roubado
de um cemitério, às patas do gato e prenderam os órgãos sexuais retirados do cadáver
mutilado à barriga do felino.

Concluído o ritual, as feiticeiras levaram sua grotesca oferenda até o cais do vizinho
vilarejo de Leith, jogando-o ao mar. Imediatamente, continua a lenda, desabou uma
tempestade horripilante que tingiu de negro os céus, enquanto o uivo dos ventos
ecoava sobre mar revolto. Um navio que empreendia a travessia de Kinghorn a Leith
foi tragado pela borrasca e se partiu em pedaços, matando muitos marinheiros. No
entanto essa tragédia pouco fez para saciar a sede de sangue das bruxas de Berwick.
Seu alvo era outra embarcação. Naquela noite, estava programada a viagem de uma
nau real, que faria a travessia da Dinamarca para a Escócia. A bordo, ao lado de sua
noiva, estava Sua Majestade o rei James VI da Escócia, que mais tarde viria a ser
coroado rei James I da Inglaterra. Para decepção das megeras de Berwick a nau real
escapou ilesa. Teriam que tomar outras providências.

A história da tentativa de assassinato do rei veio à luz logo em seguida, no decorrer de


uma investigação sobre suspeita de prática de feitiçaria na região de Edimburgo. Uma
jovem criada chamada Gilly Duncan, conhecida por suas habilidades para curar
enfermos, confessara ter evocado o auxílio do demônio para ampliar seus poderes. O
fato de essa confissão ter sido proferida sob violenta tortura não fazia a menor
diferença, pois esse procedimento era rotineiro nos casos que envolviam a prática de
feitiçaria. A pobre jovem foi forçada a delatar seus cúmplices e implicou assim cerca
de setenta das mais destacadas personalidades de Edimburgo.

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Assim que o testemunho da jovem chegou ao conhecimento do rei, ele decidiu
acompanhar o interrogatório das outras feiticeiras. Começou por ouvir Agnes
Sampson, uma senhora séria e matronal. Agnes recusou-se a confessar crime algum e
seus carcereiros puseram mãos à obra. Primeiro despiram-na, depois lhe arrancaram
os pêlos buscando em seu corpo uma marca demoníaca que a incriminasse – sinal ou
mancha que, segundo se acreditava, denunciaria o lugar que uma bruxa
supostamente ofereceria ao diabo para que ele sugasse seu sangue. Quando
encontraram uma marca, começou a tortura. Amarraram uma corda áspera no
pescoço de Agnes e com uma engenhoca iam-lhe aplicando violentos safanões, que
provocavam dolorosos ferimentos. Em seguida enfiaram um ferro, o “cabresto de
bruxa” na boca da velha senhora: dois pinos espetavam-lhe a língua e mais dois
perfuravam-lhe as faces. Depois de vários dias nessas condições, sem que ao menos o
sono lhe fosse permitido, Agnes também começou a falar.

James ouvia as palavras que jorravam de sua boca. Agnes disse tudo que lhe veio à
mente. Admitiu não só ter usado encantamentos para curar, como cultuar
secretamente seu demônio, ou espírito do mal, no seio de sua própria família, através
de um cão chamado Elva. Relatou também o que mais interessava ao rei: participara
de uma reunião ao lado de noventa bruxas e seis bruxos. Todos haviam se embriagado
de vinho e caminhado depois até a igreja de Berwick, na qual teriam reverenciado satã
através de cânticos e obscenas trocas de beijos. Contou que velas negras iluminavam
a igreja, enquanto Gilly Duncan tocou uma alegre melodia numa harpa judaica. O
crédulo James sentiu-se tão fascinado por este detalhe que ordenou que lhe trouxesse
Gilly e sua harpa para fazer-lhe uma demonstração.

A confissão prosseguiu, descrevendo o ritual com o gato e a conspiração para pôr fim
à vida do rei. Quando James se lembrou de que sua viagem à Escócia fora
particularmente turbulenta, concluiu que estivera de fato ameaçado de morte por
ímpios hereges. Agnes foi condenada e queimada na fogueira, com ela também Gilly
Duncan e mais dois participantes. James, que se considerava um erudito, redigiu um
tratado – Demonologia –, com base em suas observações. Em 1603, após a morte de
sua prima Elizabeth I, da Inglaterra veio a assumir também o trono daquele país. Ao
entrar em contato com os estatutos ingleses relativos a prática de bruxaria
considerou-os extremamente tolerante; por isso, tratou de estabelecer leis mais
severas, deflagrando uma longa série de ruidosos julgamentos por prática de feitiçaria
na Inglaterra.

Se daquela velha igreja em North Berwick emanou ou não algum mal verdadeiro,
nunca se saberá. A maioria dos pesquisadores atuais desconsidera confissões como as
de Gilly Duncan e Agnes Sampson, ambas proferidas sob sofrimento intenso. Além do
mais, diversos historiadores zombam da simples idéia de um grupo de feiticeiros
supostamente aliados ao demônio, que tenta cometer um assassinato provocando
uma tempestade em alto mar. E há ainda quem rejeite ceticamente a lenda de
Berwick, apesar de acreditar seriamente na eficácia da magia. A este último grupo
pertencem os feiticeiros modernos, cujo argumento é o de que a história de Berwick
deturpa o verdadeiro caráter de seus ancestrais nas cidades, florestas e fazendas da
antiga Escócia. Hoje em dia um número cada vez maior de estudiosos dedica-se às
tradições da magia e feitiçaria e esses modernos feiticeiros encaram a lenda de
Berwick como uma amostra típica da vasta quantidade de casos que tem sido
erroneamente tomado como fatos históricos, chegando até a fundamentar
pressupostos a respeito da feitiçaria. Acreditam, com certa razão, que os registros de
julgamentos reunidos pelos caçadores de bruxas através dos séculos revelam uma

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imagem absurdamente injusta de seus misteriosos predecessores em épocas
distantes.
Tais objeções estão permeadas pela idéia de que a história de Berwick, como muitas
outras lendas, transforma em demônio cristão os Deuses da gente simples como Gilly
Duncan, que provavelmente não era adoradora do diabo, mas apenas pagã. Os
feiticeiros modernos afirmam que muitas das vítimas de condenações por prática de
feitiçaria eram praticantes de uma religião profundamente arraigada na Europa antes
da expansão do cristianismo. Alegam que, como em diversas lendas similares, a
história de Berwick interpreta os motivos da reunião dos pagãos escoceses como
intrinsecamente malévolos, sem sequer supor que essas pessoas pudessem ser boas e
bem-intencionadas.

Talvez a lenda seja típica. Como a maioria das histórias de bruxas, descreve uma
conspiração e um feitiço funesto secretamente desencadeado por um grupo de
depravados. Mais ainda reflete uma imagem vívida e fantasiosa de praticantes de
magia, que terminou impregnando nossa concepção atual de feitiçaria, tornando-a
altamente estereotipada. Essa imagem seria ainda mais assustadoramente rica em
detalhes no final do século XVI, quando teoricamente teria ocorrido o episodio de
Berwick. Na época de James VI, as feiticeiras eram vistas como adoradoras de Satã.
Consideradas perigosas até mesmo isoladas, foram julgadas ainda mais ameaçadoras
por terem se agrupado como uma comunidade anticristã que se mantinha unida
através de ritos coletivos e da subserviência ao demônio.

Não se pensava que as bruxas nascessem naturalmente perversas. Pelo contrário:


seriam heréticas, cristãs que caiam em pecado, vítimas de armadilhas
cuidadosamente arquitetadas pelo próprio Príncipe do Mal que as coagia a participar
de cerimônias sacrílegas distorcendo suas convicções na fé e na liturgia cristãs.
Ensinava-se às crianças que Satã arrebanhava seus discípulos entre a gente simples,
que conquistava nos momentos de maior dificuldade: pobreza, desespero, doença ou
desânimo. As mulheres costumavam ser vistas como feiticeiras em potencial, embora
homens também pudessem ser recrutados e até mesmo certas crianças. Satã era
ardilosamente imprevisível nos métodos para seduzir novos adeptos. Poderia surgir
inicialmente na forma de um animal ou talvez assumir uma aparência humana,
trajando-se como nobre ou padre. Sempre fazia promessas: para o órfão daria casa;
para a viúva, um amante; para o fazendeiro aniquilado pela seca, uma nova
primavera.

Mas após as promessas vinham ameaças e as exigências da mais absoluta lealdade e


obediência. E até mesmo quando ele quebrava as promessas, quando a casa
prometida era na verdade horrível, ou quando a primavera tão esperada simplesmente
desaparecia, sua cobrança permanecia. Finalmente Satã forçava seus candidatos a se
comprometerem através de um pacto demoníaco. As novas feiticeiras deveriam
renunciar a Deus, contraindo laços eternos com o diabo.

Daquele ponto em diante, as feiticeiras seriam encorajadas a atrapalhar a vida dos


cristãos. Maleficium era o nome do dia propício para a prática secreta do mal; e, para
que suas feiticeiras se transformassem em fontes poderosas de desarmonia Satã lhes
conferia poderes sobrenaturais. As bruxas conseguiam transformar-se em sapos,
corvos ou pirilampos, tornando-se até invisíveis. Atormentavam os vizinhos
arruinando suas colheitas matando seu gado e sugando a vida de bebes ainda no
útero.

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Os ajudantes de Satã também utilizavam a magia para disseminar impotência,
esterilidade, doença, insanidade e morte. Satã reunia suas tropas periodicamente,
durante encontros conhecidos como Sabás. Para comparecer ao local da convocação –
em geral encruzilhadas ocultas no fundo das florestas, ou no topo de montanhas –, os
seguidores do demônio precisavam escapar de seus leitos sem que seus cônjuges
percebessem; às vezes deixavam em seu lugar uma varinha encantada, que assumiria
sua aparência caso o marido ou esposa despertasse.

Depois se untavam com um ungüento feito com a carne de crianças assassinadas e


voavam para o local do sabá montados nas costas de um porco, em uma estaca de
madeira ou em uma vassoura. Assim que chegavam, uniam-se a Satã em perversas
paródias dos sacramentos cristãos, mergulhando na degradação humana sob todas
suas formas, desde atos bestiais até canibalismo e incesto. Não se sabe se essas
diabólicas feitiçarias foram mesmo praticadas por pessoas reais, e essa questão
suscita debates entre os historiadores. Alguns asseguram que não e que, se de fato
existiram grupos de adoradores do diabo, devem ter sido extremamente raros. No
entanto essa visão lúgubre e ameaçadora da bruxa predominou na Europa durante
muitos séculos, com imensas repercussões na vida da população. Em diversas
ocasiões a preocupação com práticas demoníacas transformou-se em histeria
religiosa. O exemplo mais notável foi a prolongada perseguição às bruxas nos séculos
XV, XVI e XVII, levando à morte centenas de milhares de pessoas acusadas de
bruxaria. Muitos eram culpados de um único crime hediondo: despertar ciúme dos
vizinhos.

A grande maioria das acusações era feita com base em confissões tão “válidas” ou
“reveladoras” quanto às de Gilly Duncan e Agnes Sampson. A imagem estereotipada
dos filhos e filhas de Satã que conduziu as atitudes do rei James e engendrou a
grande caça as bruxas na Europa é nitidamente oposta à imagem cultivada pelos
modernos praticantes de feitiçaria. Os feiticeiros da atualidade consideram-se parte do
renascimento de uma ancestral religião da natureza, um culto que antecede ao
cristianismo e não se opõe especificamente aos ensinamentos de Jesus. Essa religião,
que se denomina Wicca, relaciona-se com as estações e em vez de vincular-se às
maldades e aos malefícios prega o jubilo e as celebrações. Seus seguidores veneram
uma antiga divindade chamada Deusa-Mãe, que teria sido adorada em sociedades
agrárias de épocas imemoriais. Alguns ramos da Wicca também cultuam a divindade
masculina, relacionada com o antigo Deus Chifrudo, senhor da caça e da morte,
distante da figura de Satã.

A discrepância entre o estereotipo histórico da bruxa e os conceitos subjacentes à


prática da religião Wicca sublinham o fato de que a imagem da feiticeira sempre foi
altamente cambiante. O conceito de bruxaria como prática diabólica foi gradualmente
formalizado durante a Idade Média pela Igreja Romana, na medida em que ela tentava
consolidar na Europa suas bases, até então bastante frágeis. Transformar a feitiçaria
em ameaça foi útil para a Igreja, tanto para erradicar o desafio dos heréticos, quanto
para sufocar as reminiscências de seitas pagãs que continuavam a florescer no
continente.

Mas os padres da Igreja não precisaram partir do zero para construir o espectro de um
satanismo anticristo. Na verdade, reutilizaram uma antiga receita, acrescentando
apenas novos ingredientes a um velho caldo de superstições e temores. A imagem
alimentada pela Igreja, da bruxa como a esposa de Satã, nasceu de múltiplas
influências – inclusive práticas pagãs, folclore e a crença nos poderes da magia muito
arraigada entre os europeus. No entanto, talvez a influência mais profunda tenha sido
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a das mitologias que moldaram cada aspecto do pensamento e das crenças das
culturas européias. As mitologias do Oriente Médio, da Grécia, de Roma e da Europa
do norte estão repletas de seres superiores e inferiores que corporificam certos traços
das bruxas e praticam artes posteriormente atribuídas a elas.

Alguns dos mitos que moldaram a concepção de feitiçaria têm sido transmitidos desde
as mais antigas sociedades. Entre eles, o mais relevante é o que descreve uma figura
profundamente ambivalente chamada Deusa-Mãe. Não se sabe exatamente quando
teria se iniciado o culto a Deusa-Mãe. Contudo, há provas instigantes indicando que
essa crença pode ter se originado na aurora da humanidade, por volta do final do
período paleolítico, quando o Homo Neanderthalensis deu lugar ao Homo Sapiens.
Embora as pinturas das cavernas daquela época longínqua retratem principalmente
animais, mostrando as raras imagens de homens ocultas por máscaras que sugerem
alguma atividade mágica, quase todas as esculturas encontradas representam
mulheres. Cerca de 131 entalhes gravados em pedras, ossos e presas de mamute,
foram descobertos numa extensa área geográfica, desde a França, no oeste, à Sibéria
no leste, estendendo-se de Willendorf, na Áustria, até os Bálcãs, no sudeste da
Europa.

Conhecidas como figurinhas de Vênus, parecem referir-se a uma Deusa feminina aos
poderes mágicos da mulher. As figurinhas de Vênus são interpretações altamente
estilizadas das formas femininas. Algumas revelam forte semelhança com a arte
moderna – o que não surpreende, desde que elas conquistaram a imaginação de
muitos artistas dos séculos XIX e XX, que as viram em museus da Europa.

As figuras geralmente estão nuas, são obesas, e suas feições são quase irreconhecíveis
tamanha a ausência de detalhes. Os quadris, seios e triângulos púbicos bastante
exagerados transformam-nas mais em símbolos do poder feminino de gerar novas
vidas do que em representações de mulheres reais. Algumas amostras ostentam o
ventre dilatado de uma grávida. Nunca houve provas conclusivas a respeito do uso
dessas estatuetas em cerimônias religiosas. Na verdade, a ênfase na representação de
sugestões de fertilidade e sexualidade levou alguns antropólogos a tomarem-nas como
representantes de arte erótica ou, na melhor das hipóteses, talismãs confeccionados
para casais que desejassem conceber. Recentemente os especialistas têm atribuído às
Vênus um significado maior. O famoso mitólogo Joseph Campbell, por exemplo,
considera que elas provam que – até mesmo na Idade da Pedra – o corpo da mulher
era reverenciado como foco de força divina. Chamando atenção para o fato de que
algumas foram esculpidas em locais semelhantes a altares e de que todas estão feitas
sem os pés, podendo ser reverentemente fincadas eretas no solo, Campbell refere-se às
Vênus como os primeiros trabalhos de arte sacra.

Ele encontrou duas explicações plausíveis para esses misteriosos entalhes, sendo que
ambas parecem lançar uma nova luz sobre muitas das crenças mais recentes em
relação à feitiçaria. A possibilidade inicial é a de que o culto à Deusa-Mãe, geralmente
associada a civilizações agrárias posteriores, teria de algum modo se originado nas
primeiras sociedades de caçadores-coletores. Outra alternativa seria encarar as
figurinhas de Vênus como a mais antiga expressão artística de um tema eterno: a
mulher doadora de vida. Seja qual for a verdade, parece que estaria penetrando na
psique humana uma idéia ao mesmo tempo fundamental e inquietante. De acordo
com a explicação de Joseph Campbell: “Não resta dúvida de que nas épocas mais
remotas da História do homem a força mágica e misteriosa da fêmea era tão
maravilhosa quanto o próprio universo; e isto atribuiu à mulher um poder prodigioso,

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poder este que tem sido uma das principais preocupações da parte masculina da
população – como quebrá-lo, controla-lo e usa-lo para seus próprios fins.”

As conseqüências dessa ruptura primordial no relacionamento entre homens e


mulheres viriam a ter papel nas mitologias de diversas culturas. Além do mais, em
termos práticos, essa mesma tensão contribuiria para o aparecimento de devastadoras
turbulências sociais, tal como a grande perseguição às bruxas desencadeada na
Europa medieval. O pleno florescimento do culto à Deusa-Mãe aguardou o surgimento
das sociedades agrárias mais avançadas do período neolítico. Por volta do quinto
milênio antes de Cristo, os povos do Oriente Médio começaram a estabelecer-se em
aldeias, com uma economia agrária. Aprenderam a semear trigo e cevada e a
domesticar animais como cabras, ovelhas, porcos e vacas. Formas de artesanato como
tecelagem, cerâmica e carpintaria também se refinaram na época. Um dos resultados
dessas mudanças foi o grande realce do papel das mulheres na sociedade.

Nas culturas antecessoras, centralizadas na caça, ainda que as mulheres fossem


reverenciadas por seu poder de gerar filhos, permaneciam limitadas basicamente ao
trabalho na comunidade. Cabendo aos homens a tarefa de providenciar o sustento
básico. Agora, as mulheres supriam as necessidades dos bebês e também preparavam
os alimentos, além de se encarregarem de plantar e colher. Nas mentes dos machos e
das fêmeas, as mulheres tornaram-se simbolicamente vinculadas à produtividade da
terra. É grande a multiplicidade de figurinhas do auge do período neolítico, de 4500 a
3500 a.C, que traduzem uma intenção religiosa com maior nitidez do que as Vênus do
paleolítico. Dois mil anos se passariam antes que a escrita fosse inventada, mas
mesmo sem dispor de documentação escrita os especialistas foram capazes de
fundamentar hipóteses sobre o papel desempenhado pelas figurinhas neolíticas.

Sua função, ao que parece, não teria sido radicalmente diversa da arte sacra atual.
Eram mantidas em altares caseiros para inspirar preces ou para centralizar a
meditação, valorizadas tanto por seu valor decorativo como pela proteção que trariam
a casa. Para as parturientes, as estatuetas significavam uma assistência mágica –
ainda que fosse apenas psicológica. Para os fazendeiros, que as levavam para os
campos, trariam sorte na colheita e segurança para o gado. A Deusa retratada pelas
estatuetas neolíticas é mutável e multifacetada. As figuras eram basicamente
representações da maternidade: poderiam estar de cócoras parindo seus filhos,
oferecendo seus seios com as mãos ou apontando para seus órgãos genitais com um
dos dedos. Mas a Deusa também personificava a terra, podendo ser mostrada entre
suas plantas e seus animais.

Várias estatuetas representam a Deusa colhendo flores, cercada por leões e bodes,
cavalgando nas costas ou nos chifres de touros. Desde o início percebeu-se que havia
nessas representações um paradoxo. A Deusa era aquela que doa a vida, mas
também aquela que a leva consigo. A seu redor girava todo o ciclo da existência
humana. Era, na memorável definição de Joseph Campbell, “o útero e a sepultura; a
porca que devora sua ninhada”. Enquanto certas imagens a representam de braços
abertos e acolhedores, outras mostram-na empunhando as serpentes da destruição.

Por volta do ano 4000 a.C., o povo que agora chamamos de Sumério começou a
estabelecer-se nos baixios sedimentares dos rios Tigre e Eufrates. Lá cultivaram o rico
solo da Mesopotâmia, a cada ano fertilizado pelas cheias dos rios. Os Sumérios
aprenderam a fazer tijolos de barro, que secavam ao sol e utilizavam, com outros
materiais, para erigir os mais antigos templos de que se tem noticia. Essas estruturas,

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que se erguiam sobre escadarias na forma piramidal do zigurate, apontavam para o
alto, de maneira a unir simbolicamente a Deusa da terra aos Deuses dos céus.

Em algumas regiões, as aldeias agrárias cresceram e começaram a funcionar como


centros comerciais, dos quais surgiram cidades como Ur, Eridu, Sippar e Nippur. Em
cada uma dessas cidades a rainha ou princesa local passava a ser identificada com a
Deusa. Nos 1500 anos que se seguiram, os avanços dos sumérios se repetiram e
foram ultrapassados por povos de todo o Oriente. Próximo da Anatólia, no norte, ao
Egito, no sul, da costa mediterrânea até o Irã. Em todos esses locais, a Deusa era a
forma mítica dominante. Personificava o tempo e o espaço, representava o elemento no
qual toda a vida encontra seu começo e seu fim, Fogo da Vida, a Deusa gerava a
substância da qual se originavam plantas e corpos, sendo também aquela que recebia
os já mortos num ciclo perene de reencarnações. Seus nomes, bem como as funções a
ela atribuídas por cada cultura do Oriente Médio, entrelaçavam-se profundamente à
medida que o comércio se expandia pela região. No Egito, foi vinculada ao mito da
criação e à Deusa Nut e sua filha Isis, que recorreu à magia para gerar novas vidas
após a morte de seu irmão e marido, Osíris.

Na Suméria era chamada de Inana e Ereshkigal; na Babilônia, Ishtar e Tiamat; e em


Canaã seu nome era Astarte ou Anat. Caso as mitologias que ajudaram a formar
essas culturas houvessem congelado neste ponto, o conceito de feitiçaria na época das
grandes perseguições teria, sem sombra de dúvida, sido muito diferente do que veio a
ser. Na verdade, é até possível que todos nós compartilhássemos da visão da religião
Wicca acerca da feitiçaria: uma arte que gera e nutre a vida. Contudo, já havia se
iniciado uma mudança profunda na imagem da Deusa, engendrada por um
prolongado período de invasões na esfera da Grande-Mãe. Dos desertos do sul vieram
as tribos guerreiras dos semitas, antigos caçadores que, por volta do quarto milênio
antes de Cristo, pastoravam ovelhas e cabras.

Da Europa e do sul da Rússia chegaram ondas de invasores helênicos e arianos,


criadores de gado, que provavelmente também descendiam de caçadores. Esses
intrusos conquistaram as cidades de culturas agrárias e fizeram o máximo para
erradicar as concepções fundamentalmente harmônicas e não-heróicas de natureza,
nas quais vicejara o culto à Deusa. Os intrusos suprimiram as mitologias relacionadas
com a Deusa-Mãe e reinterpretaram seu caráter, à medida que implantavam suas
próprias crenças em divindades masculinas e guerreiras, em figuras de Deuses como
Yahweh e Zeus.

A lenda babilônica de Marduk e Tiamat exemplifica a mudança de tratamento


que as Deusas receberam nessa nova era mitológica. Tiamat, anteriormente
cultuada pelos babilônios como a mãe de todos os Deuses, repentinamente
começou a ser encarada como uma ameaça universal; ela passou a correr mundo
na forma de um peixe gigantesco, que comandava demônios de toda espécie.
Após um conselho das divindades masculinas nos céus da Babilônia, decidiu-se
que o sol do bom Narduk confrontaria o mal da velha cruel. Marduk não apenas
aceitou a tarefa que lhe fora imposta, como também eclipsou a grandeza de
Tiamat enviando ventos que sopraram em sua garganta até que ela se
arrebentasse em pedaços. Com os restos da Deusa, Marduk refez o universo.

Histórias semelhantes à da batalha entre Marduk e Tiamat são abundantes nas


mitologias semitas do Oriente Médio. Essas lendas revisionistas, nas quais a Deusa é
destruída ou, na melhor das hipóteses, casa-se e é relegada a um papel inferior,
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sobreviveram nas tradições bíblicas do Velho e do Novo Testamento, bem como nos
mitos homéricos da Grécia e de Roma. Na Bíblia, encontramos Yahweh, o Deus de
Israel, triunfando sobre Leviatã, um monstro cósmico do mar, claramente vinculado
com uma divindade feminina anterior. Nas lendas gregas, vemos Zeus derrotar Tifon,
metade homem, metade serpente, filho mais novo de Gaia, a Deusa da Terra. Quando
começam as invasões nos domínios da Deusa, surge um novo tema recorrente na
mitologia: um herói, Deus ou mortal, destrói uma corporificação monstruosa de uma
Deusa que antes fora suprema e por fim recebe um tesouro valioso, que trará
benefícios a toda a humanidade.

Uma variação desse tema está contida na lenda semita de Lilith que, tal como a lenda
de Marduk e Tiamat, se vincula à história da criação. Lilith é uma das mais malévolas
figuras mitológicas que derivaram da Deusa-Mãe. Criada juntamente com Adão, com o
limo e o lodo da terra, deveria ser a mãe de toda a raça humana. Mas em vez disso,
veio a reinar como a princesa dos súcubos, criaturas conhecidas por atacar e seduzir
homens adormecidos, sugando de seus corpos todos os humores vitais. Também se
acreditava que Lilith atacasse recém-nascidos. Os meninos de até oito anos seriam
seus alvos prediletos, mas as meninas também podiam ser suas vítimas, nas
primeiras semanas de vida.

A ancestral lenda hebraica sobre Lilith conta que ela teria sido criada antes de Eva,
para ser a companheira do homem no Jardim do Éden. Mas seu temperamento
voluntarioso teria tornado impossível uma coexistência pacífica. Lilith resistia
bravamente a qualquer tentativa de sujeição, recusando-se principalmente a deitar-se
sob Adão, na união conjugal. Finalmente ela fugiu e três anjos chamados Sanvi,
Sansanvi e Semangelaf partiram em seu encalço. Conseguiram persegui-la até o Mar
Vermelho, onde a encontraram desovando uma ninhada de filhotes do demônio, numa
velocidade espantosa. Lilith jamais regressou ao Jardim do Éden; preferiu a Vênus
vagar pela terra, sempre acompanhada por seu clã demoníaco. Para se precaver das
visitas noturnas de Lilith, as famílias costumavam traçar um círculo mágico de
proteção em torno dos berços das crianças, prática que ainda persiste em algumas
partes do mundo. Acreditava-se que os dizeres “Adão e Eva, barrando Lilith”,
encerrados em uma linha traçada com carvão, criaria uma barreira capaz de impedir
seu malefício. Escrever na soleira da porta o nome dos três anjos que a perseguiram
seria mais uma medida de proteção.

Nem todas as caracterizações semitas da Deusa eram tão extremas quanto à de Lilith.
Uma variação mais sutil do mito surgiu com a introdução de um parceiro, que em
diversas lendas aparecia alternadamente como irmão, filho, marido ou amante da
Grande Mãe. Tammuz, o Deus babilônico da vegetação, filho e esposo da Deusa
Ishtar, é típico dessa figura mitológica. Tammuz tinha equivalentes tanto no Deus
sumério Dumuzi, esposo de Inana, como em Baal, o Deus cananeu da fertilidade,
consorte de Anat. Tammuz estava intimamente associado ao cultivo de cereais,
morrendo a cada ano após a colheita, para crescer de novo com a ajuda da Deusa.

O inicio e o fim dos ciclos agrários eram marcados por um festival anual em sua
homenagem, com representações de sua morte e ressurreição. Alguns dos modernos
seguidores da religião Wicca vêem esse Deus da vegetação como uma primeira versão
do Deus chifrudo que viria a emergir plenamente nas mitologias da Europa do norte.
Sua relação com a Deusa confirma no mínimo o vinculo da Grande Mãe com a
natureza e o renascimento, num período em que sua figura estava em geral mais
associada com a morte.

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Esses aspectos mais sombrios da Deusa eram mais enfatizados na Grécia, onde o
culto à Deusa-Mãe provavelmente foi introduzido através de duas culturas distintas: a
de Creta e a de Chipre. Em suas obras publicadas na década de 20, a mitóloga inglesa
Jane Ellen Harrison cita elementos dos primeiros cultos de mistérios da Grécia
clássica que mostram uma divindade feminina reinando suprema, durante certo
tempo, entre os Deuses e Deusas da mitologia pre-homérica. No entanto, essa Deusa
não correspondia à figura da mãe doadora de vida adorada na antiga Mesopotâmia. Ao
contrário, parecia lúgubre e nefasta.

Seu consorte geralmente era representado como uma cobra e nos festivais as
oferendas eram porcos sacrificados na escuridão da floresta. Segundo a interpretação
de Harrison: “Os seres cultuados não eram humanos racionais, nem Deuses
cumpridores das leis, mas sim espíritos errantes, irracionais, essencialmente
malévolos, fantasmas, assombrações e similares”. Tais espíritos eram reverenciados
principalmente para que se retirassem para longe, sem causar problemas. Com
poucas e notáveis exceções, tais como Afrodite e Atena, as divindades femininas da
mitologia homérica viriam a assumir traços e comportamentos sombrios e
ameaçadores, delineando o posterior mito europeu da bruxa. Mas esse processo de
passagem, do culto a uma Deusa que continha tanto a vida como a morte, para um
culto no qual o lado sombrio encobria sua luz, transcorreu como um processo gradual
e que jamais chegou a um desfecho. Deusas e Deuses, seres de um nível mais alto ou
mais baixo, possuídos pelo bem ou pelo mal, continuaram a surgir nas mitologias da
Grécia e de Roma.

A Medusa é um bom exemplo. Uma das três Górgonas possuía víboras em lugar de
cabelos e seu olhar era capaz de transformar homens em pedras. Mas o mito mostra
que até mesmo ela possuía uma força geradora de vida. Quando o guerreiro Perseu
cortou a cabeça do monstro com sua espada, a Deusa Atena interveio, para que
Asclépio, o Deus da cura, colhesse uma amostra do sangue da Medusa. O sábio
retirou um pouco de sangue de cada lado do corpo dela. O sangue do lado esquerdo
foi usado para destruir os inimigos e o do lado direito destinou-se a curar e a
ressuscitar os mortos. Talvez ainda mais amedrontadora do que a Medusa, se é que
isto é possível, fosse a arquifeiticeira Hécate, temível rainha do baixo-mundo.
Considerada como senhora dos fantasmas, dos espectros, acreditava-se que possuía o
poder de infligir loucura ao conjurar as mais terríveis visões. E tal qual ocorreria com
as bruxas das lendas posteriores, pensava-se que seu poder atingia o ápice à meia-
noite. Há histórias que falam de viajante noturnos que a teriam encontrado em
lugares remotos e isolados, nas mesmas desoladas encruzilhadas em que as forças do
mal parecem sempre se aninhar.

Segundo alguns relatos, Hécate media uns 30 metros de altura e vagava pelo campo
acompanhada por uma matilha de cães selvagens. Outros descreviam-na com três
cabeças – uma de cavalo com espessas crinas, outra de uma cobra sibilante, e por
último estaria a de um cão selvagem. O uivar dos cães à noite anunciaria a
aproximação de Hécate – dizia-se que apenas os cães podiam vê-la nitidamente. Os
romanos, que adotaram muitas das divindades gregas na criação de sua própria e
complexa mitologia, tentavam aplacar o ódio de Hécate colocando bolos de mel e
corações de galinha como oferenda nas soleiras das portas, ou então depositando
presentes nas encruzilhadas onde ela às vezes surgia.

Sacrifícios, a maneira mais tradicional de apaziguar o ódio divino, eram-lhe oferecidos


regularmente, e inúmeras foram as criaturas mortas em seu nome: cães, ovelhas e até
mesmo meninos. Ao longo da história das artes arcanas, o nome de Hécate tem sido
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sempre invocado em conexão com as bruxas e com os praticantes de magia negra.
Circe, a maga loira, filha de Hélios, o Deus do sol, constitui outro protótipo de
feiticeira que se delineou claramente na mitologia clássica. Na Odisséia, crônica de
Homero sobre a conturbada jornada de volta a Lilitu, aqui representada num timbalho
em tenncota, era uma pátria empreendida pelo guerreiro dos mais terríveis espíritos
da mitologia suméria e inspirou Lilith, o demônio hebraico. Com suas presas e asas
buscava homens para seduzir e crianças para matar. As bruxas medievais herdaram
muitos de seus traços, inclusive o amor por gatos e corujas. Odisseu, após a guerra de
Tróia, encontra Circe que desempenha um papel primordial, com seus poderes
mágicos. Após ter sido banida para a ilha de Aiaia por envenenar seu marido, rei dos
sarmatas, Circe passou a viver seus dias cantando e tecendo num maravilhoso palácio
de mármore, cercado por esplendidas florestas. Quando Odisseu atracou na ilha
habitada por Circe, enviou um grupo de reconhecimento sob o comando de seu fiel
amigo, Euriloco. Assim que os exploradores adentraram a ilha, foram atraídos pela
doce melodia do canto de Circe até o palácio dela. Em seu caminho os viajantes foram
sendo rodeados por leões, tigres e lobos, que silenciosamente emergiam da floresta.

Naturalmente amedrontados, os homens ficaram aliviados ao constatar que as feras


eram estranhamente mansas. Mal sabiam eles que, na verdade, esses animais eram
um grupo anterior de marinheiros, semelhantes a eles próprios, que Circe havia
enfeitiçado e transformado em feras. Acompanhados por esses homens-feras, Euriloco
e seus companheiros aproximaram-se do palácio, sendo imediatamente seduzidos pela
música de lá provinda. Logo Circe surgiu e convidou-os a entrar, para participar de
seu banquete. Enquanto a maioria dos homens avançava de bom grado, Euriloco se
deteve, invadido por uma intuitiva desconfiança. Dentro do palácio Circe acomodou os
convidados e ofereceu-lhes uma refeição de queijo, cevada e vinho adoçado com mel.
Todos desfrutaram fartamente dos alimentos, sem ao menos desconfiar que a feiticeira
havia dado à bebida seu “toque malévolo”, sob a forma de uma droga poderosa.

Assim que tomaram a poção, os homens começaram a cair, subjugados, incapazes de


resistir à magia da anfitriã. Dando a volta à mesa, Circe foi tocando cada um deles
com sua varinha e transformando-os em suínos. Concluída sua tarefa, aprisionou
seus novos cativos em chiqueiros e deu-lhes comida para porcos. Tendo testemunhado
a desgraça de seus companheiros, Euriloco retornou à nau para relatar a Odisseu os
estranhos acontecimentos. Foi apenas com o recurso aos poderes de uma erva mágica
– uma planta lendária chamada “mole” – que o grande guerreiro conseguiu escapar da
armadilha na qual caíra sua tripulação. Quando Circe descobriu que seus feitiços não
eram capazes de atingir Odisseu, concordou em libertar seus homens do
encantamento.

Com o passar do tempo, a feiticeira apaixonou-se por Odisseu e acabou por dar a ele a
ajuda necessária para concluir sua jornada de volta ao lar. A lenda da sobrinha de
Circe, Medéia, obedece a um padrão semelhante, mas sem um final tão feliz. Medéia
termina como a própria encarnação da bruxa malévola e vingativa, destruindo a todos
que ousassem desafia-la. Medéia era filha do rei de Colquis, mas rompeu com o pai
quando caiu de amores por Jasão, outro viajante famoso e aventureiro. Capitão da
nau Argo e líder de sua tripulação, os argonautas, Jasão estava quase concluindo sua
longa e árdua busca do velocino de ouro, um tesouro fabuloso que fora roubado do
carneiro alado do Deus Hermes e que passara a ser avidamente procurado.

O amor de Medéia seria inestimável para Jasão, porque o pai dela estipulara uma
série de tarefas aparentemente impossíveis de ser cumpridas para todos aqueles que
desejassem possuir o velocino de ouro. Para conquistar seu premio, Jasão precisaria
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inicialmente dominar e emparelhar dois touros que bufavam fogo, para obriga-los em
seguida a arar um enorme campo. Quando terminasse, deveria semear um punhado
de dentes mágicos de dragão nos sulcos da terra e matar os inimigos que deste solo
brotassem. Caso sobrevivesse a esses testes, Jasão obteria permissão para conquistar
o velocino de ouro – mas antes deveria conseguir captura-lo, ludibriando para isso a
vigilância atenta de um terrível dragão. Ao descobrir que Medéia tinha poderes
mágicos, Jasão pediu-lhe ajuda e prometeu casar-se com ela.

Medéia concordou alegremente e entrou 1ogo em ação, para garantir o sucesso do


amado. Após descrever-lhe as dificuldades que encontraria, preparou-lhe um
ungüento especial que continha o sangue de Prometeu, o titã que trouxera o fogo aos
homens, explicando que, ao cobrir o corpo com aquele bálsamo, Jasão ficaria
invencível por um dia. Na manhã seguinte, enquanto o rei e os cidadãos de Colquis o
observavam do alto de uma colina, Jasão colocou-se a postos num campo aberto,
diante dos ferozes touros que seriam seus primeiros oponentes. Labaredas irrompiam
das narinas das feras, queimando a grama a seus pés.

Quando Jasão se aproximou, as bestas avançaram com estrondo, fazendo a terra


estremecer sob seus cascos. Fortalecido graças à poção de Medéia, Jasão enfrentou os
touros com calma e segurança, derrubando as ruidosas criaturas no solo. Seus
companheiros aclamaram-no com alegria, quando colocou o jugo nos animais. E mais
ainda quando, diante do olhar espantado do rei, Jasão começou a arar o campo de
batalha, seguindo as instruções que recebera. Concluída a primeira tarefa, Jasão
rapidamente semeou os dentes de dragão nos sulcos que cavara. De cada dente surgiu
um terrível soldado brandindo suas armas e avançando para o ataque. Com sua
espada e seu escudo, Jasão foi capaz de manter esse fantasmagórico exército à
distância por certo tempo. Mas logo o herói viu-se a ponto de ser massacrado pelo
ataque maciço.

Mais uma vez, o herói foi salvo da morte certa pela magia de Medéia. Obedecendo as
instruções da feiticeira, Jasão arremessou uma enorme pedra no meio dos inimigos.
Subitamente os soldados voltaram-se uns contra os outros e, tomados por fúria
desvairada, golpearam-se e dilaceraram-se entre si. Em poucos minutos Jasão estava
sozinho em meio a um campo repleto de cadáveres. Para conquistar o velocino de
ouro, Jasão deveria ainda sobreviver a uma disputa com o dragão que guardava o
galho do carvalho onde o tesouro estava escondido. O guerreiro aproximou-se
cuidadosamente, retirando do cinto outra poção mágica preparada por Medéia.
Espargiu algumas gotas do líquido no dragão e imediatamente a criatura, que jamais
relaxara sua vigilância por um momento sequer, virou para o lado e caiu em sono
profundo. Jasão esquivou-se do monstro adormecido, apanhou seu prêmio reluzente e
escapou, para grande surpresa e indignação do rei. Levando Medéia consigo, Jasão
correu a bordo do Argo e zarpou rapidamente. Jasão anda enfrentaria muitos perigos
e, durante a fuga do reino de seu pai Medéia revelaria todo o horror de sua maligna
natureza. Quando o rei enviou uma armada para perseguir a Argo, Medéia atraiu seu
próprio irmão a bordo da nau em que ela estava com Jasão e o enfeitiçou. Assim que
subjugou o jovem, Medéia matou-o friamente e cortou seu corpo em pedaços. Em
seguida, cada vez que as embarcações de seu pai começavam a se aproximar da Argo,
Medéia lançava ao mar um membro do corpo de seu irmão, obrigando o pai,
dilacerado pela dor, a deter-se para recolher os restos mortais para o funeral de seu
filho. Graças a essa tática diversionista, Jasão finalmente conseguiu escapar.

Figuras da mitologia clássica como Medéia, Hécate e Medusa não mais se


assemelhavam à Deusa-Mãe das culturas anteriores, mas ainda conservavam uma
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natureza ambivalente de bem e mal, que sempre fora a marca da divindade feminina.
Os romanos e gregos também cultuavam Deusas mais próximas do modelo original, e
alguns dos ritos celebrados em homenagem a elas apresentam semelhanças com a
concepção posterior do sabá das bruxas. Em Roma construiu-se um templo na colina
Palatina no ano 204 a.C. para a Deusa-Mãe. Formas similares de adoração
aconteciam na Grécia – o exemplo mais notável é o culto a Dionísio. Mais típicos, no
entanto, eram os dignos mistérios Eleusinios, celebrados em homenagem a Demeter,
Deusa da Terra e esposa de Zeus, rei dos Deuses. Os ritos de Demeter obedeciam a
um padrão tradicional, observando o ciclo natural de morte e renascimento associado
com as fases de cultivo. De todas as divindades da mitologia clássica, a Deusa da Lua,
chamada Diana pelos romanos e Ártemis pelos gregos, seria a mais intimamente
associada à magia.

Ártemis-Diana era a padroeira da fertilidade e da castidade. Raramente se envo1via


em matanças indiscriminadas. Porém, até mesmo Diana possuía seu lado lúgubre.
Bela, mas fria, era famosa por transformar seus possíveis pretendentes em animais.
Conta-se que um caçador chamado Actaion por acaso viu-a nua, banhando-se na
floresta. Para puni-lo, ela o transformou em veado e colocou seus próprios cães em
seu encalço. Quando os animais estavam prestes a dilacerar seu dono, seus
companheiros de caçada mataram-no a flechadas. Diana tinha também o poder de
mudar sua própria natureza e aparência. Em determinadas manifestações era
identificada como a ameaçadora Hécate de três cabeças.

Seus consortes seriam perversas criaturas semelhantes a corujas, conhecidas pelo


nome de strigae, aves de cabeças e bicos enormes, garras vorazes e apetites
abomináveis. As strigae atravessavam o céu à noite em busca de bebês
momentaneamente sozinhos, para rasgar-lhes o ventre e devorar-lhes as entranhas.
Conta-se que, ao raiar o dia, as strigaes assumiam a forma de velhas aparentemente
inofensivas. As lendas acerca de strigaes parecem ter se originado entre os antigos
povos germânicos do norte da Europa e estavam bem difundidas na época de Jesus.

O poeta Ovídio descreve como manter esses demônios devoradores de crianças a


distancia, tocando os arcos e soleiras do quarto do bebe com um ramo de arbustos e
colocando um galho de pilriteiro na janela. E principalmente, aconselhava Ovídio, era
preciso oferecer à faminta bruxa um substituto para o bebe, como por exemplo, as
entranhas de um porco recém-nascido, dizendo: “Pássaros da noite, poupem a vida
desta criança! Uma jovem vitima morre no lugar este bebezinho”. Alguns anos mais
tarde, o romano Festus, em um trabalho sobre o significado das palavras, definiu
formalmente as strigae como “mulheres que praticam feitiçaria e que eram chamadas
de mulheres voadoras”. Mas as leis romanas nunca tomaram conhecimento de tais
criaturas e mulher alguma jamais foi presa por ser uma feiticeira alada. O que de fato
preocupava a elite governante – desde a substituição da lei romana – era a diferença
entre a magia branca e a negra.

Os romanos bem-nascidos consideravam a primeira aceitável, mas puniam a magia


negra da mesma forma que qualquer outra ofensa cívica envolvendo dano à pessoa ou
à propriedade. Havia uma exceção importante: qualquer ato aparente de bruxaria que
parecesse ameaçar o estado romano ou o bem-estar do imperador implicava
reprimenda rápida e vigorosa. Houve, por exemplo, um jovem infeliz que fora visto
gesticulando de maneira estranha enquanto recitava as vogais latinas num banho
público. Embora estivesse simplesmente procurando curar uma dor de barriga, as
autoridades, receosas de que ele pudesse estar tentando enfeitiçar o imperador,
prenderam-no sumariamente. O rapaz foi torturado e morto. O duro tratamento dado
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à magia negra pelas leis romanas provavelmente preparou o terreno para a
perseguição das supostas bruxas na Europa medieval. Mas as caçadas às bruxas e a
morte nas fogueiras ainda estavam muito distantes, em um futuro que tardaria mais
de um milênio.
Até o colapso do Império Romano, a palavra bruxo, na Europa, costumava designar
apenas um praticante de magia – atividade relativamente corriqueira. Havia feiticeiros
em quase todas as comunidades; eles cultivavam poderes mágicos com a intenção de
alcançar objetivos práticos, tais como fertilizar os campos ou punir os inimigos.
Embora eles pudessem eventualmente ter recorrido a espíritos maléficos para atingir
seus propósitos, há poucos indícios de que houvessem realmente adorado diabos,
como afirmaria posteriormente a Igreja Católica. Um túmulo descoberto no norte da
Europa mostra que a pratica da magia no continente data de época muito remota –
aliás, como em todas as partes do mundo. O sítio continha um esqueleto de uma
feiticeira da Era do Bronze cercado pelos utensílios próprios de seu oficio: ossos de
uma doninha, garras de um lince, vértebras de uma cobra, dentes de um cavalo, a
lâmina quebrada de uma faca e estilhaços de pirita. Podemos apenas imaginar os
poderes mágicos que esses artefatos teriam e as maravilhas que aquela feiticeira
poderia criar.

Em registros históricos posteriores, as feiticeiras preparavam poções para inspirar


amor, ofereciam talismãs e amuletos para proteger o corpo de ferimentos e recorriam à
magia para curar enfermidades. Uma receita anglo-saxã para o tratamento de
verrugas recomendava misturar “a urina de um cão e o sangue de um rato” para
aplicar na pele. Feiticeiras dessa mesma região inventaram “uma bebida agradável
contra a loucura” feita de gataria, absinto, lupino, rabanete, funcho, hortelã-de-gato,
erva-moura-de-feiticeira, além de várias outras ervas, todas mescladas em uma forte
infusão de cerveja. Essa fórmula, que data da era cristã, incluía uma dose de
cristianismo. “Reze doze missas por sobre a bebida e entregue-a ao doente para que
ele a sorva. Ele logo se recuperará”, aconselhava a feiticeira.

Desde épocas imemoriais dizia-se que todo mago possuía dois lados: o lado da luz e o
da escuridão, o do bem e o do mal, exatamente como tantas feiticeiras míticas. Os
povos do norte da Europa recorreram à magia para conquistar uma posição na
sociedade às custas do bem-estar de seus vizinhos, ou simplesmente para dissipar
sua melancolia. As antigas tribos tectônicas, tentando vingar-se de danos reais ou
imaginários, reproduziam a figura de seus inimigos em bonecos de cera ou de massa.
Mergulhavam os bonecos na água, enfiavam-lhes agulhas ou lançavam-nos às
chamas, na esperança de afogar, ferir ou queimar o retratado.

Os anglo-saxões, por sua vez, recitavam um feitiço que encolheria seus oponentes aos
poucos, até “ficarem do tamanho de um micuim”. Por essa dupla capacidade de fazer
o bem e o mal, todo praticante de magia e feitiçaria era visto com profunda inquietude,
por mais que estivesse ligado à tribo ou família. As lendas Celtas e germânicas
refletem um arraigado temor do suposto controle exercido pelo feiticeiro sobre os mais
assustadores poderes da natureza. Elas revelam que muito antes de os homens
relacionarem a magia humana com os poderes de Satã, eles acreditavam que os
feiticeiros podiam comandar as nuvens de uma tempestade, prejudicar as colheitas,
trazer a fome e a peste. Ninguém podia se gabar de ser imune ao feitiço de um bruxo.
Um mago irado seria capaz de influenciar o próprio processo da vida, tornando
homens impotentes e induzindo rebanhos inteiros a abortarem suas crias.

Supunha-se que os estranhos seres aos quais se atribuía tais poderes, reservados por
natureza, sentiam-se mais a vontade à noite, cavalgando nas costas de lobos ou
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javalis ou montados em estacas, em encontros secretos com as divindades dos céus e
da terra. Uma antiga lenda nórdica narra a surpresa de um herói quando foi
despertado do sono por um grande estrondo na floresta e saiu, vendo-se diante de
“uma feiticeira de cabelos flutuantes” pronta para “um encontro mágico” com
Skelking, o senhor dos céus na mitologia escandinava. Essas festas dos espíritos em
meio à noite faziam parte de todo o folclore europeu, prenunciando as descrições
cristãs que narrariam os encontros entre Satã e suas bruxas. Nas terras do norte, as
reuniões de feiticeiros eram conduzidas pela Deusa Holda, esposa de Wotan,
padroeira das fazendas, dos partos, dos casamentos e dos lares.

O nome e a natureza de Holda variavam de região para região. Alguns povos


chamavam-na de Holle ou Frau Hoff, ou identificavam-na com a grande Deusa Freyja;
para outros ela seria Bertha ou Perchta, Deusa da capa, Holda seria a equivalente
germânica da Deusa da lua, Diana, venerada mais ao sul. A imensa horda que
seguiria Holda incluiria as Valquírias, guerreiras dos céus nas lendas nórdicas, almas
de crianças mortas, ou várias figuras demoníacas conhecidas pelo eufemismo de “as
boas damas da noite”.

Holda era mais ativa durante os meses frios, principalmente no solstício de inverno,
quando se pensava que seus passeios de inverno reavivavam o sol e garantiam boas
colheitas para o ano seguinte. Quando ela fazia sua cama, as folhas cairiam na terra
na forma de flocos de neve, Holda geralmente desempenhava o papel de uma Deusa
maternal e protetora, mas quando ficava irada se transformava em uma megera de
dentes enormes e longo nariz pontiagudo, o terror das crianças desobedientes.

Assim, a Deusa da fertilidade era capaz de tornar-se a rainha da violência; e, segundo


algumas tradições, seus passeios noturnos eram tumultuados e destrutivos. Em
lendas como a da Wilde Jagd – “caçada selvagem” – gangues de selvagens demoníacos,
metade humanos e metade animais devastavam os campos, pilhando e devorando os
corpos de suas vítimas. Espíritos masculinos também cavalgavam a seu lado durante
a Wilde Jagd. Acreditava-se que Herne, o Caçador, uma divindade Celta que trazia
chifres na testa, liderava um bando de lascivas criaturas estelares provocando
tumultos semelhantes na Bretanha. Na região que hoje conhecemos como
Escandinávia, a figura equivalente a Holda era a grande Deusa Freyja, que pertencia a
um grupo de divindades conhecidas pelo nome de Vanir.

Basicamente associada à fertilidade, as Vanir deram à humanidade o poder de criar


vida nova – tanto nos campos, entre os animais, como no lar. Atuavam também como
vínculo com o mundo invisível graças a seus assombrosos poderes divinatórios,
anunciando as estações e o futuro dos homens. Contudo, tal qual Holda e tantas
outras Deusas gregas, também possuíam uma funesta capacidade de provocar
violência. Seus feitos inspiravam um culto cujos ritos incluíam festas selvagens e
orgíacas além de cerimônias sacrificais semelhantes às que seriam posteriormente
atribuídas às reuniões de bruxas. Na condição de sacerdotisa das Vanir, Freyja era às
vezes chamada de senhora dos mortos. Entre seus deveres incluía-se o de encontrar
um lugar no céu para metade dos heróis mortos em combate – a outra metade era
recebida por Odin, o Deus supremo do mundo nórdico.

Como muitos seres míticos da Grécia e de Roma, Freyja podia mudar de aparência:
lendas nórdicas descrevem-na atravessando os céus na forma de uma ave, ou
trovejando nas alturas dentro de uma biga puxada por gatos. Dona de uma lendária
beleza e altamente promíscua, a Deusa era objeto de desejo entre os gigantes que
viviam no mundo fabuloso de Jotunheim. Um ritual de bruxaria denominado Seior
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que, segundo o folclore, abriria a porta para os poderes proféticos de Freyja, ganhou
matizes particularmente sombrios à medida que foi sendo transmitido a seus
adoradores.

Os feiticeiros nórdicos tentariam atrair o mal para um inimigo colocando uma cabeça
de cavalo com a boca aberta diante da casa dele. Um seiokona – praticante do ritual
Seior – teria assumido a forma de um cavalo e atacado certo rei, ferindo-o
mortalmente.

Na Islândia, uma mulher acusada de praticar o Seior foi levada à corte de um tribunal
por tentar “cavalgar um homem até mata-lo”. Durante um rito divinatório denominado
Seidr, uma vidente chamada Volva subia a uma plataforma alta e entoava cânticos
mágicos até entrar em transe. E então ela pedia informações ao mundo dos espíritos,
para poder responder às perguntas formuladas pelos fieis. Tal rito só tinha sentido
quando cumprido no seio de uma comunidade, por isso a Volva deveria viajar,
visitando fazendas e comparecendo às festas para dar conselhos relativos às estações
vindouras. Um relato acerca de um Seidr descreve um povoado na Groelândia
gravemente assolado pela escassez de alimentos. Seus habitantes aguardaram pelas
previsões de sua profetisa itinerante com grande interesse e muita ansiedade.

Para garantir o sucesso da profecia, prepararam uma farta refeição sacrifical


composta de corações de todos os tipos de animal que conseguiram caçar. Assim que
terminou o banquete, a Volva subiu a tradicional plataforma elevada e, trajando botas
de couro bovino e luvas de couro de gato, sentou-se numa almofada estofada com
penas de galinha. Quando convocou uma aldeã para cantar o encantamento que a
colocaria num estado mental receptivo, uma jovem cristã apresentou-se como
voluntária, afirmando que aprendera a canção quando menina. A jovem começou a
entoar seu canto e a Volva logo caiu em profundo transe, no qual permaneceu por
tempo razoável. Ao recuperar finalmente sua consciência, informou aos presentes que
os cânticos haviam sido tão eficientes que os espíritos haviam se aglomerado para
ouvi-los. Disseram-lhe que a carestia terminaria em breve. Proferiu ainda diversas
profecias, prevendo, entre outras coisas, o futuro da mulher cujo canto a havia
colocado em transe. “Poucas foram as coisas, de tudo que ela dissera”, registrou um
dos presentes, “que deixaram de acontecer”.

Devido a sua natureza aberta e comunitária, o Seidr diferenciava-se muito, sob um


aspecto importante, dos fabulosos encontros noturnos atribuídos às bruxas. Mas até
mesmo essas reuniões públicas em torno da magia certamente contribuíram para
criar o folclore do Sabat. Tal como os primitivos povos Germânicos e Nórdicos, os
Celtas possuíam suas próprias tradições de poderosas divindades femininas, cujas
características ecoavam o que naquela época seria uma lembrança ainda recente da
antiga Deusa-Mãe. A maioria dos rituais Celtas de culto às Deusas era pacífica. Em
geral as cerimônias marcavam a passagem das estações, oferecendo às pessoas uma
forma de buscar proteção sobrenatural para o gado e a colheita. As Deusas da
mitologia Celta, contudo, também desempenhavam um papel fundamental em relação
ao destino nas guerras. De acordo com as lendas, instruíam os guerreiros locais
quanto à arte do combate e empregavam seus poderes mágicos para auxiliar os
exércitos.

Essas divindades coexistiram, no rico folclore das ilhas britânicas, com uma variedade
extraordinária de demônios, ninfas e elfos. Nesse fantástico grupo de espíritos
incluíam-se algumas das mais evocativas e nitidamente delineadas imagens daquilo
que se tornaria o estereotipo moderno da feiticeira: uma megera maligna. Uma das
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histórias que contém essa figura é a lenda de Niall, o filho de Eochu Muigmedon, um
antigo rei da Irlanda. Diz a lenda que Niall e seus quatro irmãos estavam caçando e,
ao sentir sede procuraram saciá-la em um poço. Quando dele se aproximaram, uma
velha horrenda saiu de dentro de seu esconderijo. “Era negra como o carvão” descreve
o relato, “Seu cabelo parecia o rabo de um cavalo selvagem. Seus dentes podres iam
de uma orelha a outra e eram tão grandes que com eles daria para serrar um galho de
carvalho verde. Tinha olhos pretos sobre um enorme nariz torto, um corpo esquelético,
manchado e doentio. As canelas eram tortas, os joelhos e tornozelos grossos, as unhas
verdes”. Em troca de um gole de água daquele poço, essa figura repulsiva exigia um
beijo de cada príncipe.

Naturalmente, os jovens relutaram em satisfazer sua vontade e somente Niall talvez


pressentindo que havia magia em jogo, avançou um passo à frente e cuidadosamente
ofereceu o beijo que lhe fora pedido. Tal como relata a História do sapo que se
transformou em príncipe, que apareceria no folclore posterior a essa lenda, a megera
monstruosa converteu-se em uma jovem de surpreendente beleza. Num ambiente
onde predominava a crença na magia e em sua eficácia, e onde brotaram contos de
fada como este, os Celtas não deixavam de usufruir dos benefícios da feitiçaria para
marcar seus momentos mais significativos, tal como a coroação de um rei.

O processo de seleção de um monarca Celta incluía, em determinada época, um


bizarro rito de fertilidade – o cruzamento do futuro governante com a Deusa regional,
na forma de uma égua da mais pura alvura. Essa prática, um tanto bárbara,
permaneceu até meados do século XII. Após esse ritual, segundo uma crônica
contemporânea, a égua era imediatamente sacrificada, cortada em pedaços e cozida
dentro de um enorme caldeirão. Em seguida, o governante escolhido entrava dentro
daquela sopa e jantava a carne da égua ao mesmo tempo em que se banhava. A
tradição determinava que ele lambesse aquele caldo como se fosse um animal, ao
invés de toma-lo com a ajuda de um copo ou das próprias mãos. “Assim que essas
iníquas exigências fossem devidamente cumpridas”, conclui o relato, “a autoridade e o
poder reais estariam ratificados”. Com uma concepção mágica do mundo tão
profundamente entrelaçada no tecido da sociedade, é pouco provável que os Celtas
considerassem a bruxaria como ameaça.

Mas eles tampouco outorgavam impunidade à prática de malefícios. Prejudicar um


indivíduo através de meios ocultos, era considerado como crime contra a pessoa ou
seus semelhantes. Na Inglaterra, os assassinos que estivessem sob suspeita de ter
recorrido à feitiçaria eram entregues à família da vitima, para receber punição. O
tratamento legal dado à feitiçaria era similar em toda Europa, especialmente nas
terras germânicas, nas quais costumava permitir às vitimas de um malefício executar
pessoalmente a punição. A saga irlandesa Egrbyggia, do séc. XII narra que uma viúva,
cujos encantamentos teriam levado um jovem a adoecer gravemente, fora caçada e
apedreja até a morte pelos familiares do rapaz.

Outra saga daquele mesmo período, Laxdaela, conta como um casal de bruxos teria
causado com feitiços a morte de um garoto de 12 anos. Mais uma vez, a família da
vitima capturou os criminosos e apedrejou-os até a morte. Contudo, já em 500 a.C. há
registros de que os francosalios, habitantes da região que agora conhecemos como
França, infligiam penas mais indulgentes. “Se uma bruxa destruir um homem e
houver provas de tal feito”, decretava a Lex Salica, “ela deverá pagar à família da
vitima uma multa de 200 shillings de ouro e uma soma menor caso a vitima apenas
adoeça”. A condenação à morte, em geral na fogueira, só podia ser imposta se a bruxa
confessasse sua culpa ou se fosse uma serva e não pudesse pagar a multa.
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Ao mesmo tempo, a lei salia desencorajava acusações vãs contra vizinhos inocentes,
pois decretava uma multa igualmente elevada para todos que ousassem chamar
alguém de bruxo sem conseguir prova-lo. Nestes casos, o acusador era obrigado a
pagar as custas do tribunal. Os lombardos do norte da Itália faziam advertências
semelhantes contra a calunia. “Que ninguém se atreva a matar uma criada
estrangeira ou escrava como se fosse uma strigae, pois tal coisa não é possível”,
exortava a lei, “e que os cristãos não creiam que uma mulher pode devorar um homem
vivo por dentro”. Infelizmente as atitudes mais moderadas e razoáveis não persistiam
por muito tempo. Na Europa predominava uma visão mágica do mundo, tanto entre os
pagãos como entre os cristãos. As mensagens da mitologia e do folclore não estavam
apenas nas profundezas da psique humana; possuíam um significado real e imediato.

Também traduziam um equilíbrio delicado entre o amor e o ódio pela bruxa, figura de
poder aparentemente imenso. E esse equilíbrio, ao que parece, sempre parecia prestes
a pender para o lado do medo e do terror. As pessoas pensavam saber o que era uma
feiticeira; na verdade, conheciam-na por mais de uma dúzia de nomes diferentes.
Precisavam apenas de mais um pretexto para dar vazão a seus instintos e atacar a
fonte de inquietude que a bruxa representava. Infelizmente, isso foi exatamente o que
ocorreu quando o cristianismo reivindicou seus direitos de gerir tanto suas vidas como
sua lealdade.

Paroquianos da respeitável igreja da rua Arlington, em Boston, viram a coisa ao longo


dos anos. Afinal, é em seu altar que o evangelho único, e não tríplice, tem sido
transmitido de geração em geração. Bem, numa crise agora remota, que o
abolicionista William protestou contra os malefícios da escravatura. Em um século
seria nessa mesma igreja que vários manifestantes externariam ser contra a
intervenção americana no Vietnã. Contudo, é possível pensar que nem mesmo
paroquianos com tanta audácia teriam sido capazes de prever a incrível cena que
ocorreria numa sexta-feira de abril, no ano de 1976.

Naquela noite, quando já dormiam, o som cristalino de uma flauta se espalhou por
entre as mulheres ali reunidas, quatro feiticeiras, cada uma delas em pé, colocaram-se
ao redor do altar. Com elas encontrava-se uma da magia, Morgan McFarland, filha de
um ministro protestante. Firme, McFarland proferiu um longo encantamento cujos
sons pareciam realmente muito distintos da doutrina que os párocos estavam
habituados a ouvir: “No momento infinito antes do in, a Deusa se levantou em meio ao
caos e deu a luz a Si Mesma (...) qualquer nascimento (...) antes de seu próprio nascer.
Nas Águas, e neles dançou, a Deusa, em Seu êxtase, criou tudo e movimentos
geraram o vento, o elemento Ar nasceu e respirou”. Enquanto a alta sacerdotisa
prosseguia em seu cântico, descrevendo a versão da criação do mundo, suas
companheiras de altar começaram a acender as velas, uma após a outra – a primeira
para o leste, depois sul, oeste e, por fim, para o norte. As palavras de MacFarland
repetindo diante de todos como se fossem ditas pela voz de uma Deusa e, uma voz que
invocava a grande divindade feminina que, segundo as sacerdotisas, havia criado os
céus e a terra.

No ápice de seu transe rememorava o dia em que a Deusa criara a primeira mulher, os
nomes que deveriam ser eternamente pronunciados em fá: “Sou Ártemis, a Donzela
dos Animais, a Virgem dos Caçadores: Grande Mãe. Sou Ngame, a Deusa ancestral
que sopra a mortalha, serei chamada por milhares de nomes. Invoquem a mim,
minhas filhas, e saibam que sou Nêmesis”. Tudo isso ocorreu durante uma convenção
de três dias, cujo tema era a espiritualidade feminina. Apesar de recorrer a elementos
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familiares tais como velas, túnicas e músicas, essa foi a prece menos ortodoxa que já
ecoara pelas paredes de arenito da igreja da rua Arlington.

A cerimônia deve ter sido contagiante, pois no final a nave da igreja estava repleta de
pessoas dançando e quase mil vozes preenchiam aquele local majestoso e antigo
unidas em uma só cantilena que dizia: “A Deusa vive, há magia no ar. A Deusa vive,
há magia no ar”. Para muitos especialistas que pesquisam a história da feitiçaria,
aquela Deusa invocada durante a cerimônia, uma Deusa cuja dança arrebatada teria
urdido o vento, o ar e o fogo e cujo riso, afirmava-se, instilara a vida em todas as
mulheres, não poderia, de modo algum, ter existido no momento da criação, porque
nasceu e recebeu sua aparência, tanto quanto sua personalidade, de uma imaginação
absolutamente moderna.

Sua origem histórica, afirmam os céticos, limita-se a poucos traços colhidos de


concepções um tanto nebulosas relacionadas com divindades da Europa pré-cristã,
concepções estas que teriam sido intencionalmente rebuscadas com detalhes teatrais
para adequar-se aos ritos e cerimônias. Porém, para muitos praticantes da feitiçaria,
sua Grande Deusa é realmente um ancestral espírito criador cultuado na Europa e no
Oriente muito antes da introdução do Deus cristão. Acreditam que a Deusa tenha
sobrevivido aos séculos de perseguição ocultando-se nos corações de seus adoradores
secretos, filhos e filhas espirituais que fora condenados ao ecúleo e à fogueira da
Inquisição devido a suas crenças. E agora, dizem, a Deusa emerge mais uma vez,
abertamente, inspirando celebrações nos redutos daquela mesma região organizada
que anteriormente tentara expurgar tudo que estivesse relacionado com ela e seus
seguidores. Seus modernos adeptos não têm a menor dúvida quanto a antiguidade de
sua fé. Ser um feiticeiro, afirma um deles, é “entrar em profunda sintonia com coisas
que são mais antigas que a própria espécie humana”.

E, realmente, certos iniciados declaram perceber nesse movimento dos praticantes de


feitiçaria uma força invisível que anima o universo. Uma mulher que classificou os
ensinamentos e ritos da feitiçaria como “meras palavras, sem qualquer significado”,
disse, no entanto, que, quando compareceu ao local no qual as feiticeiras se reuniam,
sentiu uma força que parecia pairar além dos limites da razão. “Sinto uma corrente”,
confessou em carta a uma amiga, “uma força que nos cerca. Uma força viva, que
pulsa, flui e reflui, cresce e desaparece como a lua (...) não sei o que é, e não sei como
usá-la. É como quando se está bem perto de uma corrente elétrica, tão perto que se
pode até ouvir seu zumbido, seu estalo, mas sem conseguir conecta-la”.

Hoje, contudo, milhares de homens e mulheres que levam uma vida comum, afora
essa busca, acreditam estar conectando essa corrente e extraindo energia daquilo que
Theodore Roszak define como “a fonte da consciência espiritual do homem”. No
decorrer desse processo, estes que se proclamam neopagãos descobrem – ou, como
dizem alguns deles, redescobrem – o que afirmam ser uma religião ancestral, uma
religião cuja linguagem é a do mito e do ritual, cuja fé professa a realidade do êxtase e
é difícil de ser definida, uma religião de muitas divindades e não de apenas um só
Deus. Esses modernos adoradores da natureza, tal com os pagãos de eras passadas
não separam o natural do sobrenatural, o ordinário do extraordinário, o mundano do
espiritual. Para um neo-pagão, tudo pertence a um mesmo todo.

Calcula-se que os neopagãos alcancem um número aproximado de 100 mil ou mais


adeptos nos Estados Unidos formando uma irmandade que se reflete na verdadeira
explosão de festivais pagãos iniciada na década de 70. No final da década de 80, havia
mais de cinqüenta desses festivais nos Estados Unidos, atraindo uma platéia que
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reunia desde adeptos mais radicais até meros curiosos. Segundo Marc Adler, autora
de Atraindo a Lua, um livro que documenta a ascensão do neopaganismo, tais
festivais “mudaram completamente a face do movimento pagão” e estão gerando uma
comunidade pagã nacional. Adler afirma que esse grupo abrange pessoas cujo perfil
social inclui desde tatuadores, estivadores até banqueiros, advogados e muitos
profissionais da área de informática. Nem todos os neopagãos da atualidade podem
ser chamados de bruxos ou feiticeiros, pois nem sempre associam o neo-pagão à
natureza e a antigas divindades com a prática da magia ritualística, como fazem os
feiticeiros. Mas um número desconhecido de neopagãos adota os princípios de uma fé
popularmente chamada de feitiçaria e conhecida entre os iniciados como prática.

Essa religião também é conhecida pelo nome de Wicca. Uma palavra do inglês antigo
que designa “feiticeiro”; esse termo pode estar relacionado com as raízes indo-
européias das palavras wic e ueik, que significam “dobrar” ou “virar”. Portanto, aos
olhos dos modernos adeptos da Wicca, as bruxas nunca foram as megeras ou
mulheres fatais descritas pelo populacho, mas sim homens e mulheres capazes de
“dobrar” a realidade através da prática da magia. Eles acreditam que os feiticeiros da
história seriam os curandeiros das aldeias, senhores do folclore e da sabedoria
tradicional e, portanto, os pilares da sociedade local.

Mas o estereótipo persiste, e as bruxas continuam a ser objeto de calúnia, lutando


para desfazer a imagem de companheiras do diabo. Para muitos, a bruxa era, e ainda
é, a adoradora do demônio. Bem recentemente, em 1952, o autor britânico
Pennethorne Hughes classificou algumas feiticeiras da história como “lascivas e
pervertidas”, atribuindo-lhes uma longa lista de pecados reais ou imaginários. “Elas
faziam feitiços”, escreveu, “causavam prejuízos, envenenavam, provocavam abortos no
gado e inibiam o nascimento de seres humanos, serviam ao diabo, parodiavam os
rituais cristãos, aliavam-se aos inimigos do rei, copulavam com outros bruxos ou
bruxas que chamavam de íncubos ou súcubos e cometiam abusos com animais
domésticos.”

Diante de tantas acusações, não chega a ser surpreendente o fato de que as palavras
“mago”, “feiticeiro” ou “bruxo” e “magia”, “feitiçaria”, ou “bruxaria” continuem a
despertar profundas reações. “A feitiçaria é uma palavra que assusta a uns e confunde
a outros”, observa uma escritora radicada na Califórnia, também praticante de
feitiçaria, conhecida pelo nome de Starhawk. “Na mente do povo”, ela observa, as
bruxas do passado são “megeras horrendas montadas em vassouras, ou maléficas
satanistas que participavam de rituais obscenos”. E a opinião contemporânea não tem
demonstrado bondade maior para com as feiticeiras atuais, considerando-as, como
aponta Starhawk, “membros de um culto esquisito, que não tem a profundidade,
dignidade ou seriedade de propósitos de uma verdadeira religião”.

Mas trata-se de fato de uma religião, tanto para quem a religião é “uma necessidade
humana de beleza”, como no sentido que figura no dicionário: “sistema
institucionalizado de atitudes, crenças e práticas religiosas”. Até mesmo o
Departamento de Defesa dos Estados Unidos cedeu às reivindicações dos praticantes
da Wicca para que esta fosse considerada como religião válida e, em meados da
década de 70, o Pentágono recrutou uma feiticeira, Lady Theos, para revisar o capítulo
referente à bruxaria no Manual dos Capelães do exército.

As contribuições de Lady Theos foram atualizadas em 1985, por uma erudita neo-pagã
chamada Selena Fox. Outro sinal dos tempos pode ser visto nos cartões de identidade
dos membros das forças armadas, nas quais as palavras “pagão” e “wiccan” agora
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aparecem com freqüência, embora certamente em menor número, do que os nomes de
outras afiliações religiosas. Apesar desse reconhecimento e embora a Constituição
americana – tal como a brasileira – garanta o direito à liberdade de crença, a prática
de feitiçaria ainda enfrenta duras criticas e até mesmo uma perseguição premeditada.
Esses ataques naturalmente não se comparam, em escala e em violência, com o
prolongado reinado de horror que predominou do século XIV ao XVII, período descrito
pelas feiticeiras contemporâneas como “época das fogueiras”, ou “a grande caçada às
bruxas”. De fato, a perseguição atual é comparativamente até benigna – demissão de
empregos, perda da custodia dos filhos, prisão por infração aos bons costumes –, mas
causa prejuízos que levaram a sacerdotisa da ordem Wicca, Morgan McFarland, a
rotular estes tempos como “a era das fogueiras brandas”.

Pelo menos em parte, a fonte da relativa tolerância atual, bem como as raízes desse
renascimento da Wicca, podem ser encontradas nos trabalhos elaborados no início do
século XX pela antropóloga inglesa Margaret Murray. As pesquisas de Murray sobre as
origens e a história da feitiçaria começaram, como ela posteriormente registrou em
sua autobiografia, com “a idéia comum de que todas as feiticeiras eram velhas
padecendo de alucinações por causa do diabo”.

Mas ao examinar os registros dos julgamentos que restaram da Inquisição, Murray


logo desmascarou o diabo, segundo suas próprias palavras, e descobriu em seu lugar
algo que identificou como o Deus Chifrudo de um culto à fertilidade, uma
divindade pagã que os inquisidores, em busca de heresias religiosas, transformaram
em uma incorporação do diabo. À medida que aprofundou o estudo daqueles registros
ela se convenceu de que esse Deus possuía um equivalente feminino, uma versão
medieval da divina caçadora das épocas clássicas, que os gregos chamavam de
Ártemis e os romanos de Diana. Ela supunha que as feiticeiras condenadas
reverenciavam Diana como líder espiritual. Na visão de Murray, a feitiçaria seria o
mesmo culto à fertilidade anterior ao cristianismo, que ela denominou “Culto à
Diana”, e seria “a antiga religião da Europa ocidental”.

Vestígios dessa fé, segundo ela, poderiam ser rastreados no passado a até cerca de 25
mil anos, época em que viveu uma raça aborígine composta de anões, cuja existência
permaneceu registrada pelos conquistadores que invadiram aquelas terras apenas nas
lendas e superstições sobre elfos e fadas. Seria uma “religião alegre”, como a descreve
Murray, repleta de festejos, danças e abandono sexual e incompreensível para os
sombrios inquisidores, cujo único recurso foi destrui-la até as mais tenras raízes. Em
1921, Murray divulgou suas conclusões em O Culto à Feiticeira na Europa Ocidental, o
primeiro dos três livros que ela publicaria sobre o assunto, em um trabalho que
outorgaria certa legitimidade à religião Wicca.

Outros estudiosos, contudo, imediatamente atacaram tanto os métodos utilizados por


Murray como suas conclusões. Um crítico simplesmente classificou seu livro como
“um palavrório enfadonho”. Embora o trabalho de Margareth Murray nunca tenha
desfrutado de muito prestígio nos círculos acadêmicos, recentes estudos arqueológicos
induziram alguns historiadores a fazer ao menos uma releitura mais criteriosa de
algumas de suas teorias mais polemicas. Mesmo que a seu modo, Murray realmente
conseguiu, através de uma reavaliação favorável da feitiçaria, abrir uma porta para
um fluxo de interesse pelo culto à Diana.

Aqueles que acataram a liderança de Murray e se aventuraram a penetrar por aquela


porta logo descobriram que estavam também na trilha de um escritor e folclorista
americano chamado Charles Leland. Em 1899, mais de duas décadas antes de Murray
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apresentar suas teorias, Leland havia publicado Aradia, obra que ele descreveu como
o Evangelho de La Vecchia Religione, uma expressão que desde então passou a fazer
parte do saber “Wicca”. Ao apresentar a tradução do manual secreto de mitos e
encantamentos de um feiticeiro italiano, o livro relata a lenda de Diana, Rainha das
Feiticeiras, cujo encontro com o Deus-Sol Lúcifer resultara numa filha chamada
Aradia. Esta seria la prima strega, “a primeira bruxa”, a que revelara os segredos da
feitiçaria para a humanidade. Aradia é no mínimo uma fonte duvidosa e
provavelmente uma fraude cabal; contudo, terminou servindo de inspiração para
inúmeros ritos praticados por feiticeiros contemporâneos, inclusive para a Exortação à
Deusa, que convoca seus ouvintes a “reunir-se em lugares secretos para adorar Meu
Espírito, a Mim que sou a Rainha de todas as Feiticeiras”.

Embora a obra conte com poucos, ou raros, defensores no circulo acadêmico, em


oposição aos que lhe lançam duras críticas, Aradia de certo modo reacendeu as
chamas desse renascimento da feitiçaria, e sua ênfase no culto à Deusa tornou o livro
muito popular nas assembléias feministas. Um trabalho mais recente com enfoque
similar, porém de reputação mais sólida, é o livro de Robert Graves, A Deusa Branca,
publicado pela primeira vez em 1948. Em estilo lírico, Graves apresenta argumentos
que revelam a existência de um culto ancestral centrado na figura de uma matriarcal
Deusa lunar.

Segundo o autor, essa Deusa seria a única salvação para a civilização ocidental,
substituta da musa inspiradora de toda criação poética. Mas, se por um lado
muitos entre os primeiros leitores encontraram nesse livro fundamentos para a prática
de feitiçaria e se mais tarde ele continuou a inspirar os seguidores da Wicca, o próprio
Graves expressou profundas reservas com relação à bruxaria. Sua ambivalência
torna-se aparente num ensaio de 1964, no qual o autor sublinha a longevidade e a
força da religião Wicca, mas também faz críticas ao que ele considera como uma
ênfase em jogos e brincadeiras.

Na verdade, o “ideal para a feitiçaria”, escreve Graves, seria que “surgisse um místico
de grande força para revestir de seriedade essa prática, recuperando sua busca
original de sabedoria”. A referência de Graves era uma irônica alfinetada em Gerald
Brosseau Gardner, um senhor inglês peculiar e carismático, que exerceria profunda –
embora frívola, do ponto de vista de Graves – influência no ressurgimento do interesse
pela feitiçaria. Gardner, que nascera em 1884 nas proximidades de Liverpool, tivera
diversas carreiras e ocupações: funcionário de alfândega, plantador de seringueiras,
antropólogo e, finalmente, místico declarado. Pouco afeito às convenções, era um
nudista convicto, professando um perpétuo interesse pela “magia e assuntos do
gênero”, campo que para ele incluía tudo: desde os pequenos seres das lendas inglesas
até as vítimas da Inquisição e os cultos secretos da antiga Grécia, Roma e Egito.

Pertenceu, durante certo tempo, à famosa sociedade dos aprendizes de magos


chamada Ordem Hermética da Aurora Dourada. Gerald Gardner enfureceu os círculos
acadêmicos quando anunciou que as teorias de Margaret Murray eram verdadeiras. “A
feitiçaria”, declarou, “havia sido uma religião e continuava a ser”. Ele dizia saber isso
simplesmente porque ele próprio era um bruxo. Seu surpreendente depoimento veio à
luz em 1954, com o lançamento de A Feitiçaria Moderna, o livro mais importante para
o renascimento da feitiçaria. Sua publicação teria sido impossível antes de 1951, ano
no qual os frágeis decretos de 1753 contra a feitiçaria foram finalmente revogados pelo
Parlamento britânico. Curiosamente, o Parlamento rescindiu esses decretos cedendo
às pressões das igrejas espíritas, cujas tentativas de contato com as almas dos que já
se foram também haviam sido reprimidas pela lei.
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A revogação contou com pouquíssimos oponentes, porque os legisladores imaginavam
que certamente após mais de três séculos de perseguição e 200 anos de silêncio, a
feitiçaria era assunto morto e enterrado. Se a prática não havia desaparecido, como A
Feitiçaria Moderna tentava provar, o próprio Gardner admitiu ao menos que a
feitiçaria estava morrendo quando ele a encontrou pela primeira vez, em 1939.
Gardner gerou muita polêmica ao afirmar que, após a catastrófica perseguição
medieval, a bruxaria tinha sobrevivido através dos séculos, secretamente, à medida
que seu saber canônico e seus rituais eram transmitidos de uma geração para outra
de feiticeiros. Segundo Gardner, sua atração pelo ocultismo havia feito com que se
encontrasse com uma herdeira da antiga tradição, “a Velha Dorothy” Clutterbuck, que
supostamente seria alta sacerdotisa de uma seita sobrevivente.

Logo apos esse encontro, Gardner foi iniciado na prática, embora mais tarde tenha
afirmado, no trecho mais improvável de uma história inconsistente, que desconhecia
as intenções da velha Dorothy até chegar ao meio da cerimônia iniciática, ouvir a
palavra “Wicca” e perceber “que a bruxa que eu pensei que morrera queimada ha
centenas de anos ainda vivia”. Considerando-se devidamente preparado para tal
função, Gardner gradualmente assumiu o papel de porta-voz informal da prática.
Assim, lançou uma nova luz nas atividades então secretas da bruxaria ao descrever
em seu livro, por exemplo, a suposta atuação desses adeptos para impedir a invasão
de Hitler na Inglaterra.

De acordo com Gardner, os feiticeiros da Grã-Bretanha reuniram-se na costa inglesa


em 1940 e juntos produziram “a marca das chamas” – uma intensa concentração de
energia espiritual, também conhecida como “cone do poder”, para supostamente
enviar uma mensagem mental ao Fuhrer: “Você não pode vir. Você não pode cruzar o
mar”. Não se pode afirmar se o encantamento produziu ou não o efeito desejado, mas,
como Gardner salientou prontamente, a História realmente registra o fato de Hitler ter
reconsiderado seu plano de invadir a Inglaterra na ultima hora, voltando-se
abruptamente para a Rússia.

Gardner declara que esse mesmo encantamento teria, aparentemente, causado o


desmoronamento da Armada Espanhola em 1588, quando muitos feiticeiros
conjuraram uma tempestade que tragou a maior frota marítima daquela época.
Quando não reescrevia a história, Gerald Gardner assumia a tarefa de fazer uma
revisão da feitiçaria. Partindo de suas próprias extensas pesquisas sobre magia ritual,
ele criou uma “sopa” literária sobre feitiçaria feita com ingredientes que incluíam
fragmentos de antigos rituais supostamente preservados por seus companheiros,
adeptos da prática, além de elementos de ritos maçônicos e citações de seu colega
Aleister Crowley, renomado ocultista que se declarava a Grande Besta da magia ritual.
Gardner decidiu então acrescentar uma pitada de Aradia e da Deusa Branca e, para
ficar no ponto, temperou seu trabalho incorporando-lhe um pouquinho de Ovídio e de
Rudyard Kipling. O resultado final, escrito numa imitação de inglês elisabetano,
engrossado ainda com pretensas 162 leis de feitiçaria, foi uma espécie de catecismo da
Wicca, ressuscitado por Gardner. Assim que completou o trabalho, seu compilador
tentou faze-lo passar por um manual de uma bruxa do século XVI, ou um Livro das
Sombras.

Apesar dessa origem duvidosa, o volume transformou-se em evangelho e liturgia da


tradição gardneriana da Wicca, como veio a ser chamada essa ultima encarnação da
feitiçaria. Era uma “pacífica e feliz religião da natureza”, nas palavras de Margot Adler
em Atraindo a Lua, “As bruxas reuniam-se em assembléias, conduzidas por
sacerdotisas. Adoravam duas divindades, em especial, o Deus das florestas e de tudo
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que elas encerram, e a grande Deusa tríplice da fertilidade e do renascimento. Nuas,
as feiticeiras formavam um círculo e produziam energia com seus corpos através da
dança, do canto e de técnicas de meditação. Concentravam-se basicamente na Deusa;
celebravam os oito festivais pagãos da Europa, buscando entrar em sintonia com a
natureza.” Como indaga o próprio Gardner em seu livro, “Há algo de errado ou
pernicioso nisso tudo? Se praticassem esses ritos dentro de uma igreja, omitindo o
nome da Deusa ou substituindo-o pelo de uma santa, será que alguém se oporia?”.
Talvez não, embora a nudez ritualística recomendada por Gardner causasse, e ainda
cause, um certo espanto.

Mas para Gardner as roupas simplesmente impedem a liberação da força psíquica que
ele acreditava existir no corpo humano. Ao se desnudarem para adorar a Deusa, as
feiticeiras não só se despiam de seus trajes habituais, como também de sua vida
cotidiana. Além disso, sua nudez representaria um regresso simbólico a uma era
anterior a perda da inocência. Gardner justifica a nudez ritualística em sua adaptação
da Exortação a Deusa, de Aradia, na qual a Prima Strega recomenda a suas
seguidoras: “Como sinal de que sois verdadeiramente livres, deveis estar nuas em seus
ritos; cantai, celebrai, fazendo música e amor, tudo em meu louvor”.

A recomendação da nudez, acrescentada à defesa feita por Gardner do sexo ritualístico


– o Grande Rito, como ele o chamava –, virtualmente pedia críticas. Rapidamente o pai
da tradição gardneriana ganharia reputação de velho obsceno. Mas, sendo um nudista
e ocultista vitalício, Gardner estava habituado aos olhares reprovadores da sociedade
e em seu livro A Feitiçaria Moderna, parecia antever as criticas que posteriormente
receberia. Contudo, angariou pouquíssima simpatia entre seus detratores ao optar por
caracterizar a nudez ritualística como “um grupo familiar tentando fazer uma
experiência científica de acordo com o texto do livro”.

Pior ainda, alguns de seus críticos pensaram ter sentido um cheiro de fraude após o
exame minucioso de seus trabalhos, começando então a questionar a validade do
supostamente antiqüíssimo Livro das Sombras, bem como de sua crença numa
tradição ininterrupta de prática da feitiçaria. Entre seus críticos mais ferrenhos
encontrava-se o historiador Elliot Rose, que em 1962 desacreditou a feitiçaria de
Gardner, afirmando que era um sincretismo, e aconselhando ironicamente aqueles
que buscassem alguma profundidade mística na prática da bruxaria que escolhessem
uns dez “amigos alucinados” e formassem sua própria assembléia de bruxos. “Será
um grupo tão tradicional, bem instruído e autêntico quanto qualquer outro desses
últimos milênios, observava Rose acidamente.

Mesmo após 1964, quando Gerald Gardner foi confinado em segurança dentro de seu
túmulo. Francis King, um destacado cronista britânico do ocultismo, acusou Gardner
de fundar “um culto às bruxas elaborado e escrito em estilo romântico, um culto
redigido de seu próprio punho”, um pouco para escapar do tédio. King chegou até a
declarar que Gardner contratara seu amigo, o mágico Aleister Crowley, para que este
lhe redigisse uma nova liturgia. Aidan Kelly e outro crítico, o fundador da Nova Ordem
Ortodoxa Reformada da Aurora Dourada, uma ramificação da prática da magia.

Kelly declarou trivialmente que Gardner inventara a feitiçaria moderna e que ele, em
sua tentativa desorientada de reformar a velha religião, formara outra, inteiramente
nova. Segundo Kelly, a primazia da Deusa, a elevação da mulher ao status de alta
sacerdotisa, o uso do círculo para concentração de energia e até mesmo o ritual para
atrair a lua, no qual uma alta sacerdotisa transforma temporariamente em Deusa
eram contribuições de Gardner à prática. Além disso, em 1984, Kelly assegurou a um
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jornal pagão que não há base alguma para a declaração de Gardner segundo o qual
sua tradição de feitiçaria teria raízes no antigo paganismo europeu. No mesmo artigo,
Kelly forneceu detalhes acerca das origens do polêmico Livro das Sombras de Gardner.

O trabalho não teria sido iniciado, desconfiava Kelly, no século X como Gardner
afirmava, mas sim nos primórdios da Segunda Guerra Mundial. Gardner teria
começado a registrar em um livro de anotações vários rituais que havia pilhado de
outras tradições ocultistas, bem como passagens favoritas dos textos que lia. Quando
encheu o primeiro livro de anotações, segundo Kelly, Gardner considerou que tinha
em mãos a receita do primeiro Livro das Sombras. Kelly também chamou atenção para
uma profunda revisão daquilo que se tornara a “tradição” Gardner, demonstrando que
não se tratava da continuidade de uma religião cujas raízes remontavam a milênios,
mas sim uma invenção recente e, como tal, um tanto inconsistente.

Em seus primeiros anos, a Wicca de Gardner estivera centralizada no culto ao


equivalente masculino do Deus principal, registrava Kelly. Por volta da década de 50,
contudo, o Deus Chifrudo fora eclipsado pela Grande Deusa. Uma mudança
equivalente havia ocorrido na própria prática das assembléias, durante quais o alto
sacerdote fora subitamente relegado a seguir o plano, substituído por uma alta
sacerdotisa. Como Kelly mostrou, essas mudanças só aconteceram depois que
Valiente, a primeira alta sacerdotisa da linha de Gardner começou a adotar o mito da
Deusa Branca como sistema oficial de crenças. Na verdade, Valiente é a verdadeira
mentora da grande maioria dos rituais gardnerianos.

Kelly, no entanto, contrabalançou suas virulentas críticas a Gardner ao creditar-lhe


não só uma criatividade genial, mas também a responsabilidade pela vitalidade da
feitiçaria contemporânea. O mesmo fez J. Gordon Helton, um ministro metodista e
fundador do Instituto para o Estudo da Religião Americana. Numa entrevista recente,
comentou que todo o movimento neo-pagão deve seu surgimento, bem como seu
ímpeto, a Gerald Gardner. “Tudo aquilo que chamamos hoje de movimento da
feitiçaria moderna”, declarou Helton, “pode ser datada a partir de Gardner”.

Dúvidas e polêmicas sobre suas fontes à parte, a influência de Gerald Gardner no


moderno processo de renascimento da Wicca é indiscutível, assim como seu papel de
pai espiritual dessa tradição específica de feitiçaria que hoje carrega seu nome.
Embora os métodos de Gardner revelassem um certo tique de charlatania e seus
motivos talvez parecessem um tanto confuso, sua mensagem era apropriada para sua
época e recebida com entusiasmo dos dois lados do Atlântico. Quer ele tenha ou não
redescoberto e resgatado um antigo caminho da sabedoria, aparentemente seus
seguidores foram capazes de captar em seu trabalho uma fonte para uma prática
espiritual que lhes traz satisfação.

Além do mais, na condição de alto sacerdote de seu grupo, Gerald Gardner foi
pessoalmente responsável pela iniciação de dúzias de novos feiticeiros e pela criação
de muitas novas assembléias de bruxos. Estas, por sua vez, geraram outros grupos,
num processo que se tornou conhecido como “a colméia” e que, de fato, resultou
numa espécie de sucessão apostólica cujas origens remontam ao grupo original criado
por Gardner. Outras assembléias gardnerianas nasceram a partir de feiticeiras
autodidatas, que formaram seus próprios grupos após ler as obras de Gardner,
adotando sua filosofia.

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Contudo, nem todas as feiticeiras estão vinculadas ao gardnerianismo. Muitas
professam uma herança anterior a Gardner e desempenham seus rituais de acordo
com diversos modelos escolhidos das tradições Celta, escandinava e alemã. Além
disso, alguns desses pretensos tradicionalistas declaram-se feiticeiros hereditários,
nascidos em famílias de bruxos e destinados a transmitir seus segredos aos próprios
filhos.

Zsuzsan suzsanna – ou Z – Budapest é uma famosa feiticeira feminista e alta


sacerdotisa da Assembléia Número Um de Feiticeiros de Susan B. Anthony, nome
atribuído em homenagem à famosa advogada americana, defensora dos direitos da
mulher. Z Budapest afirma que a origem de seu conhecimento remonta à sua pátria, a
Hungria, e ao ano de 1270. Nos diz ter sido educada acreditando que a raça da
feitiçaria era apenas uma prática, e não uma religião, cujos fundamentos lhe foram
transmitidos pela própria mãe, uma artista que previa o futuro e supostamente usava
seus poderes mágicos para acalmar os ventos. Somente muitos anos depois, quando
migrou para os Estados Unidos, Z teria descoberto os trabalhos de escritores como
Robert Graves e Esther Harding, e passou a reconhecer-se como a praticante de Wicca
que era na realidade.

Outras feiticeiras que também se declaram herdeiras de uma tradição descrevem


experiências semelhantes às de Z. Budapest. Contam que, para elas, a prática era um
assunto de família até lerem, acidentalmente, a literatura sobre a Wicca – geralmente
livros escritos por Gerald Gardner, ou Margaret Murray, ou por autores
contemporâneos como Starhawk, Janet e Stewart Farrar, ou Margot Adler. Só então
teriam compreendido que pertenciam a um universo mais amplo. Lady Cibele, por
exemplo, uma bruxa de Wisconsin, afirma que cresceu acreditando que a prática se
limitava ao círculo de seus fami1iares. “Foi só na universidade que descobri que havia
mais pessoas envolvidas com a prática”, confessou a Margot Adler, “e eu não sabia
que éramos muitos até 1964, quando meu marido veio correndo para casa, da
biblioteca onde trabalhava, murmurando muito animado que ‘Tem mais gente como
nós no mundo!’”. O marido de Lady Cibele havia encontrado A Feitiçaria Moderna e,
quando leram o livro juntos, emocionaram-se com a sensação de fami1iaridade que
sentiram pelas idéias e práticas descritas por Gerald Gardner.

Mesmo que todos esses depoimentos sejam verdadeiros, o nascimento no seio de uma
família de feiticeiros não representaria uma garantia de que uma criança em especial
se tornaria posteriormente especialista nos segredos da prática. Em alguns casos o
dom pula uma geração, na maioria das vezes porque um feiticeiro decide que nenhum
de seus próprios filhos possui o temperamento adequado para iniciar-se na prática. O
resultado é que a Wicca geralmente se vincula às tais “Histórias da vovó”, nas quais,
como aponta J. Gordon Nelton, “aparece alguém que diz: fui iniciado por minha avó
que era bruxa, descendente de uma linhagem ancestral”. Pouquíssimas histórias
dessa natureza sobrevivem a um exame minucioso e muitas parecem até ridículas. Os
próprios praticantes da Wicca sentem-se um tanto constrangidos com a proliferação
de histórias da vovó. “Depois de algum tempo”, comentou um sacerdote Wicca, “você
percebe que, se ouviu uma história de avó, já ouviu todas. Você percebe que o além
deve estar lotado de vovozinhas assim”.

Entre as “histórias da vovó” mais interessantes está a que foi contada pelo suposto Rei
das Feiticeiras, Alexander Sanders, que declarou ter sido iniciado na prática por sua
avó, em meados de 1933, com apenas 7 anos de idade. Mas os céticos rapidamente
salientam o fato de que a linha de feitiçaria de Sanders, conhecida como Tradição
Alexandrina, guarda profunda semelhança com a de Gardner. De fato, muitos dos
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rituais de Sanders são virtualmente idênticos aos de Gardner e isto levou alguns
observadores a desprezar essa tradição, considerando-a como uma simples variante, e
não um legado deixado por uma avó misteriosa e convenientemente falecida. Muitos
desses mesmos céticos encararam com igual desconfiança a história da famosa
feiticeira inglesa Sybil Leek, que também afirmava ter se iniciado na prática ainda no
colo da avó.

Na opinião de Melton, Leek, como Sanders, simplesmente exagerou alguns


acontecimentos de sua infância. No entanto, os ataques dos incrédulos pouco fizeram
para diminuir a enorme popularidade da feiticeira-escritora e na época de sua morte,
em 1983, Sybil Leek era uma das bruxas mais famosas dos dois lados do Atlântico.
Leek era uma autora prolífica, e durante sua vida produziu mais de sessenta livros
que espalharam pelo mundo o evangelho da fé Wicca – e, não por acaso, sua própria
fama.

Porém, ainda mais do que os livros de Leek, o que levou a Wicca da Inglaterra para os
Estados Unidos foi a própria tradição de Gardner, que cruzou o Atlântico em 1964
como parte da bagagem espiritual de dois expatriados britânicos. Raymond e
Rosemary Buckland já estavam prontos para passar dois anos em Long Island, Nova
York, quando, movidos pelo interesse por ocultismo, decidiram escrever a Gardner em
sua casa em Isle of Man. Tal correspondência resultaria posteriormente em um
encontro e um curso rápido de feitiçaria na casa de Gardner. Nesse breve período o
casal Buckland foi sagrado respectivamente sacerdote e sacerdotisa gardnerianos.
Foram uns dos últimos feiticeiros iniciados e ungidos pessoalmente por Gardner antes
de sua morte.

Assim que regressaram ao lar nova-iorquino, os Bucklands rapidamente puseram em


prática tudo que haviam aprendido. Formaram a primeira assembléia gardneriana nos
Estados Unidos e esta por sua vez, com o passar do tempo, gerou vários outros
grupos. Esses grupos propagaram o evangelho gardneriano de uma costa a outra,
tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá. Durante certo tempo, Rosemary
Buckland ou Lady Rowen, como era conhecida entre os praticantes Wicca, foi coroada
a rainha das feiticeiras pelos grupos os quais dera origem. Enquanto isso, Ray
Buckland, ou Rol nome que havia adotado, seguindo o exemplo de Gerald Gardner,
seu mentor, publicou o primeiro de uma série de livros que produziria sobre feitiçaria.
Seus trabalhos fizeram com que a prática se tornasse acessível para muitos aspirantes
a iniciar especialmente em seu novo lar, onde o interesse pela Wicca floresceu na
atmosfera tolerante do final da década de 60 e início dos anos 70.

No mesmo período em que Ray e Rosemary Buckland se dedicaram a propagar esse


renascimento da feitiçaria na América do Norte, o ocultismo começou a se transformar
em algo que a antropóloga cultural Tanya M. Luhrmann descreveu como “uma
contracultura sofisticada”. Em seu livro Atratiuos da Feil Qaria, publicado em 1989,
Luhrmann apresenta uma teoria segundo a qual “a contracultura da década de 60
voltou-se para o ocultismo – astrologia, tarô, medicina e alimentação alternativa –
porque eram alternativas para a cultura estabelecida. Muitos descobriram as cartas
do tarô ao mesmo tempo que descobriram o broto de feijão”. Ray Buckland recorda
esse período como uma época excitante, durante a qual veio a luz um número
crescente de assembléias de bruxos, bem como as mais diversas expressões à crença
Wicca. Feiticeiras detentoras de estilos altamente personalizados eram estimuladas
pela permissividade daqueles dias, sentindo-se finalmente livres para expor-se. Ao
mesmo tempo, a tradição gardneriana frutificava, espalhando as sementes de novas
assembléias e gerando dissidências em todas as direções.
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Certos grupos, tais como os que professavam a tradição de Alexandria e ainda um
híbrido mais recente chamado de tradição de Algard, eram crias perfeitas do grupo
anterior, isto é, assemelhavam-se aos progenitores gardnerianos em tudo, menos no
nome. Outros eram parentes mais afastados, baseando-se nos ensinamentos de
Gerald Gardner, mas acrescentando idéias novas. Entre estes figuram a Nova Wicca
de Illinois, a Wicca Georgiana sediada na Califórnia e a Wicca de Maidenhill, da
Filadélfia. Outras, tais como a igreja de Y Tylwyth Teg, a Pecti-Wita, e o Caminho do
Norte, inspiram-se no passado mágico das lendas Celtas, Escocesas e Nórdicas.

As variações da Wicca não terminam por aqui: na verdade, elas apresentam uma
diversidade que reflete a natureza individualista da prática da feitiçaria. A Wicca é tão
aberta quanto eclética. “Todos nos conectamos com o Divino de maneiras diferentes”,
afirma Selena Fox, fundadora de uma tradição própria. ”Muitos caminhos levam à
verdade”. De fato, o próprio grupo de Fox, o Santuário do Circulo, reconhecido como
uma igreja Wicca pelo governo federal, estadual e local, tenta fornecer um substrato
comum a todos esses caminhos.

O Santuário do Círculo define-se como um serviço de troca e intercâmbio


internacional para praticantes de diferentes estirpes de Wicca. Muitas feministas, no
entanto, envolveram-se em algum dos inúmeros cultos a Diana que proliferaram na
década de 70. Essas assembléias assumiram seu nome a partir do culto a Diana, com
base na concepção de Margaret Murray, e enfatizam em suas práticas a veneração à
Deusa. Há até mesmo um curso por correspondência para aspirantes à Wicca que já
conseguiu atrair aproximadamente 40 mil alunos. Mas essa onda de bruxos
autodidatas passou a preocupar alguns dos antigos adeptos da Wicca, inclusive Ray
Buckland, que certa vez lamentou o advento dessa religião “feita em casa”.

Em 1973, contrariado com algo que ele considerava como a corrupção da feitiçaria,
Buckland rompeu seus vínculos com o gardnerianismo e criou um novo conjunto de
práticas, retomando a tradição da Seax-Wicca, ou Wicca Saxã. Ao fazer isso, produziu
também sua própria versão de uma feitiçaria autodidata e em sua obra A Árvore, seu
primeiro produto na linha Seax-Wicca, incluía instruções detalhadas que permitiam a
qualquer leitor “iniciar-se como feiticeiro e gerar sua própria Assembléia”.

Com o anúncio aparentemente contraditório de uma “nova tradição” espalhando-se


aos quatro ventos, a Wicca ingressava numa fase de contendas entre os novos e os
antigos. Ao romper com a tradição gardneriana, Ray Buckland tentava distanciar-se
das querelas. “Enquanto os outros brigam para definir qual seria a mais antiga das
tradições”, anunciou orgulhosamente, “declaro pertencer a mais jovem de todas elas!”.
Isso ocorreu em 1973. Depois, surgiu assembléias e correntes da Wicca nas quais a
novidade do dia às vezes confere uma importância passageira. Além disso, essa
abundância de ritos e nomes transformou a própria Wicca numa fé um tanto difícil de
ser definida. Até agora foram inúteis as tentativas de formular um aceitável por todos
que se proclamam seguidores da Wicca apesar da necessidade profunda de seus
seguidores no sentido de tornar público um conjunto de crenças que os distinga
inicialmente dos satanistas.

Em 1974, o Conselho dos Feiticeiros Americanos, um grupo de representantes Wicca,


formulou um documento que se intitulava corajosamente “Princípios da Crença
Wicca”. Porém, assim que ratificaram o documento, o conselho que o produzira se
desfez devido desavenças entre seus membros, pondo fim a esse breve consenso. No
ano seguinte, uma nova associação, que hoje engloba cerca de setenta grupos de
seguidores da Wicca, ratificou o Pacto da Deusa, um decreto mais duradouro
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propositalmente redigido nos moldes do documento da igreja Congregacion. Embora o
pacto incluísse um código de ética e garantisse a autonomia das assembléias
signatárias, está longe de definir o que seria a Wicca. “Não poderíamos definir com
palavras o que é Wicca”, admite o pacto, “porque existem muitas diferenças.” Muitos
bruxos alegam que essas diferenças apenas fazem aumentar os atrativos da Wicca. De
fato, mesmo no seio uma tradição específica, distintos grupos podem ater-se a regras
contrastantes e praticar rituais dessemelhantes. Essa situação é satisfatória para a
maioria dos feiticeiros, que não vêem por que a Wicca deveria ser menos diversificada
do que as primeiras denominações cristas. Porém, até mesmo na ausência de um
credo oficial, um grande número de feiticeiros acata um pretenso conselho, ou da
Wicca: “Não prejudicarás a terceiros”.

Não se sabe ao certo, mas aparentemente essa adaptação 1ivre da regra de ouro do
cristianismo tem vigorado pelo menos desde a época de Gardner. Nas palavras do
Manual dos Capelães do Exercito Estados Unidos, a lei da Wicca geralmente é
interpretada como se dissesse que o praticante pode fazer o que bem desejar (As suas
capacidades psíquicas desenvolvidas na prática da feitiçaria, contanto que jamais
prejudique alguém com seus poderes). Como mais uma medida de precaução contra o
mau uso desses poderes mágicos, a maioria das assembléias também apela para uma
lei chamada “lei do triplo”, que consiste em uma outra máxima antiga. O provérbio
adverte os bruxos, prevenindo: “Todo bem que fizerdes, a vós retornará três vezes
maior; todo mal que fizerdes, também a vós regressará três vezes maior”.

Dada a dificuldade em classificar a feitiçaria, ou estabelecer uma lista concisa com as


crenças comuns a todos os adeptos da Wicca, uma descrição completa das
características de um bruxo moderno necessariamente é apenas aproximativa.
Todavia, pode-se afirmar com segurança que a maioria dos feiticeiros acredita na
reencarnação, reverencia a natureza, venera uma divindade onipresente e
multifacetada e incorpora a magia ritualística em seu culto a essa divindade.
Além disso, poucos feiticeiros questionariam os preceitos básicos resumidos por
Margot Adler em Atraindo a Lua. “A palavra é sagrada”, ela escreveu. “A natureza é
sagrada. O corpo é sagrado. A sexualidade é sagrada. A mente é sagrada. A
imaginação é sagrada. Você é sagrado. Um caminho espiritual que não estiver
estagnado termina conduzindo à compreensão da própria natureza divina. Você é
Deusa. Você é Deus. A divindade está (...) tanto dentro como fora de você”.

Três pressupostos filosóficos fundamentam essas crenças e estes, mais do que


quaisquer outras características vinculam a feitiçaria moderna e o neopaganismo às
práticas correspondentes do mundo antigo. O primeiro pressuposto é o animismo, ou
a idéia de que objetos supostamente inanimados, tais como rochas ou árvores, estão
imbuídos de uma espiritualidade própria. Um segundo traço comum é o panteísmo,
segundo o qual a divindade é parte essencial da natureza. E a terceira característica é
o politeísmo, ou a convicção de que a divindade é ao mesmo tempo múltipla e
diversificada.

Juntas, essas crenças compreendem uma concepção geral do divino que permeou o
mundo pré-cristão. Nas palavras do historiador Arnold Toynbee, “a divindade era
inerente a todos os fenômenos naturais, inclusive aqueles que o homem domara e
domesticara. A divindade estava presente nas fontes, nos rios e nos mares; nas
árvores, tanto no carvalho de uma mata silvestre como na oliveira cultivada em uma
plantação; no milho e nos vinhedos; nas montanhas; nos terremotos, no trovão e nos
raios”.

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Wicca – Um caminho mágico
Marcelo Sette Câmara – (91) 9116-4215
A presença de Deus ou da divindade era sentida em todos os lugares, em todas as
coisas; ela seria “plural, não singular; um panteon, e não um único ser sobre-humano
e todo-poderoso”. A escritora e bruxa Starhawk reproduziu em grande parte o mesmo
tema ao observar que a bruxaria “não se baseia em um dogma ou conjunto de
crenças, nem em escrituras, ou em algum 1ivro sagrado revelado por um grande
homem. A feitiçaria retira seus ensinamentos da própria natureza e inspira-se
nos movimentos do sol, da lua e das estrelas, no vôo dos pássaros, no lento
crescimento das árvores e no ciclo das estações”.

Mas Starhawk também reconhece que o aspecto politeísta da Wicca – o culto à “Deusa
Tríplice, do nascimento, do amor da morte e a seu consorte, o Caçador, que é o
“Senhor da Dança da Vida” – constitui a grande diferença entre a feitiçaria moderna e
as principais religiões ocidentais. Mesmo assim, muitos adeptos da Wicca discordam
quanto ao fato de seu Deus / Deusa serem meros símbolos, entidades verdadeiras ou
poderosas imagens primarias – aquilo que Carl Jung alcunhou de arquétipo –,
profundamente arraigadas no subconsciente humano. Os feiticeiros também divergem
quanto aos nomes de suas divindades. Como se expressa no cântico da alta
sacerdotisa Morgan McFarland na igreja da rua Arlington, são inúmeros os nomes
para o Deus e a Deusa.

Abrangem desde Cernudo, Pã e Herne no lado masculino da divindade, a Cerridwen,


Arianrhod e Diana, no aspecto feminino. Na verdade, há tantos nomes diferentes
provenientes de tantas culturas e tradições que McFarland não se afastava da verdade
quando dizia à sua platéia que a Deusa “será chamada por milhares de nomes”. Seja
qual for seu nome, a Deusa, na maioria das seitas da Wicca, tem precedência sobre o
Deus. Seu alto status reflete-se em títulos tais como a Grande Deusa e a Grande Mãe.
De fato, para Starhawk e para muitas outras feiticeiras, o culto a uma suprema
divindade feminina constituiu, desde tempos remotos, a própria essência da feitiçaria,
uma força que “permeia as origens de todas as civilizações”. Starhawk comenta que “A
Deusa-Mãe foi gravada nas paredes das cavernas paleolíticas e esculpida em pedra
desde 25 mil anos antes de Cristo”. Ela argumenta ainda que as mulheres com
freqüência tinham papel de chefia em culturas centradas na Deusa, ha milhares de
anos. “Para a Mãe”, escreve, “foram erguidos grandes círculos de pedra nas Ilhas
Britânicas. Para Ela foi escavada a grande passagem dos túmulos na Irlanda. Em Sua
honra as dançarinas sagradas saltaram sobre os touros em Creta. A Avó Terra
sustentou o solo das pradarias norte-americanas e a Grande Mãe do Oceano lavou as
costas da África.”

Na visão de Starhawk, a Deusa não é um Deus Pai distante e dominador, principal


arquiteto da terra e remoto governante no além. Ao contrário, a Deusa é uma amiga
sábia e profundamente valiosa, que está no mundo e a ele pertence. Starhawk
gosta de pensar na Deusa como o sopro do universo e, ao mesmo tempo, um ser
extremamente real. “As pessoas me perguntam se eu creio na Deusa”, escreve
Starhawk. “Respondo: ‘Você acredita nas rochas?’”. Certamente, a força e a
permanência são as analogias mais óbvias da imagem da Deusa enquanto rocha.

Contudo, é essa Deusa de aspectos eternamente mutante e multifacetado, a


misteriosa divindade feminina que aos poucos se revela e que às vezes nem se deixa
ver, que constitui a principal atração para a grande maioria das feiticeiras. Por essa
razão, a divindade feminina geralmente é simbolizada por uma lua inconstante, em
suas diferentes fases – quarto crescente, lua cheia ou quarto minguante –,
correspondendo aos três aspectos da Deusa tríplice: a donzela, a mãe e a velha. A
cerimônia conhecida como Atraindo a Lua fundamenta-se nesse simbolismo e
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representa um dos mais místicos rituais da Wicca. Nessa cerimônia, a alta sacerdotisa
de um grupo de feiticeiros invoca o poder da Grande Mãe para então assumir o papel
da própria Deusa. Como parte da celebração, a alta sacerdotisa recita a invocação
denominada Exortação à Deusa, na qual convoca cada uma de suas feiticeiras para se
postar a seu lado:

o Eu, que sou a beleza da terra verde, a lua branca entre as estrelas, o mistério
das águas, e o desejo no coração do homem, convoco tua alma, ela acena.
Levanta e vem até mim.

Entre os que atendem nos dias de hoje ao chamado da Deusa encontra-se um número
crescente de feministas. Muitas uniram-se às centenas de cultos à Diana, grupos que
se formaram na década de 80, fazendo da feitiçaria feminista o ramo mais prolífico da
prática. A maioria desses grupos exclui homens; Z Budapest, a líder do movimento de
feiticeiras feministas, chega até mesmo a chamar a feitiçaria de Religião das Mulheres.
Considera que os homens não devem partilhar dessa fé. Algumas outras feiticeiras
feministas concordam e até levam essa idéia mais longe, dizendo que todas as
mulheres são feiticeiras, em virtude apenas de seu gênero.

O fascínio que a feitiçaria exerce sobre as feministas é compreensível, pois elas


acreditam, como alega Margot Adler, que a bruxa é “um símbolo extraordinário –
independente, inconformista, forte e orgulhosa. Ela é política, embora seja mágica e
espiritual”. Ao mesmo tempo, a feitiçaria moderna tem se desenvolvido como
expressão especificamente feminina da espiritualidade – com uma fé voltada para uma
Deusa apaixonada e provedora, com rituais que reconhecem e até mesmo acolhem a
natureza cíclica da vida de uma mulher.

Como tal, a religião Wicca está desprovida do patriarcado e da hierarquia que vieram a
caracterizar o cristianismo. “Trata-se de uma religião de mulheres”, declarou uma
autora, “uma religião da terra, uma religião difamada pelo cristianismo patriarcal e
que agora, finalmente, é reivindicada”. Além disso, ao reinvidicar a Deusa, muitas das
feiticeiras feministas de hoje estão também reivindicando aquilo que consideram como
sua herança de direito. Voltam-se em direção a séculos remotos, em busca de uma
época na qual a mulher não era apenas o centro de seu lar como também a guardiã do
ritual e a mantenedora da memória tribal.

A escritora Monique Wittig captou esse espírito ao recomendar a suas leitoras: “Havia
um tempo em que você não era uma escrava, lembre-se disso. Você caminhava só,
cheia de alegria, banhava-se de ventre nu. Você sabia como escapar do encontro com
um urso. Conhecia os temores invernais quando ouvia os lobos se reunindo. Mas
sabia ocultar-se, sentando nos topos das árvores e aguardando durante horas o
amanhecer. Você diz que não existem palavras para descrever essa época, você diz que
ela nunca existiu. Mas lembre-se. Faça um esforço para lembrar. E se achar que não é
capaz, invente”. Assim, algumas feministas encaram a prática da feitiçaria como uma
tentativa de remediar a amnésia histórica e cultural que afirmam ter sido imposta às
mulheres através de séculos de dominação masculina.

Para outras, especialmente para aquelas que ajustam a realidade da Wicca para criar
suas próprias tradições centradas na mulher, a feitiçaria se aproxima da invenção. “A
crença das feiticeiras feministas é em uma nova, embora ancestral, essência de pura
veneração”, escreveram duas feiticeiras num jornal da Wicca. “Elas acreditam no
futuro. Elas chegam como o vento norte: trazendo o estremecer da mudança e o
frescor do renascer”.
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As feministas contemporâneas são apenas parcialmente responsáveis pela expansão
da Wicca nas décadas de 70 e 80. A prática é amplamente adotada por milhares de
feiticeiras e feiticeiros que não são feministas e nem mesmo mulheres, e esses
seguidores oferecem uma multiplicidade de razões pessoais para responder ao
chamado da Deusa. Na verdade, devido ao grande número de americanos que
praticam alguma forma de neopaganismo atualmente, parece haver espaço suficiente
na fé Wicca para acomodar feiticeiros de todas as linhas e extrações. Não resta dúvida
de que alguns deles são escapistas que desejam fugir da sociedade, diletantes
entediados que buscam novidades extravagantes e tem o privilégio de contar com
possibilidades de encontra-las.

Contudo, na opinião de Susan Robert, a maioria dos feiticeiros nos Estados Unidos
não é formada por ricaços desocupados, mas sim por americanos de classe média que,
aparentemente, levam uma vida cotidiana pacata e discreta. Robert observa que os
feiticeiros geralmente se negam a unir-se como uma categoria, tendem a ser
inconformistas e a ter conservado “a fé simples que a maioria de nós acredita ser
própria das crianças”. Outros observadores reportam descobertas semelhantes. A
antropóloga britânica Tanya Luhrmann, por exemplo, registra que um grande número
de feiticeiros aos quais ela entrevistou a respeito do fascínio exercido pela feitiçaria
citaram forças motivadoras tais como “uma necessidade de ser criança, de maravilhar-
se com a natureza e voltar a vivenciar uma intensidade imaginativa que parecia
perdida.”

Da mesma forma, Margot Adler observou que traços do deslumbramento infantil


surgem como características comuns entre os neopagãos que estudou, da mesma
forma que uma aceitação tranqüila da vida e da morte, acrescida de um desejo de
viver em harmonia com a natureza. Apesar das dificuldades que surgem quando se
quer classificar os feiticeiros dentro de categorias, as pesquisas feitas com os
neopagãos fornecem alguns dados referentes ao que se pratica e por que se pratica.
Uma pesquisa de 1980, por exemplo, mostra que os neopagãos são, geralmente,
executivos de classe media. A mesma pesquisa também revela que a formação
religiosa desses indivíduos assemelha-se muito ao perfil religioso nacional da maioria
dos americanos: antigos protestantes englobam quase a metade do grupo e antigos
católicos correspondem a pouco mais de 25 por cento do total.

Uma segunda pesquisa, conduzida por Margot Adler em 1985, apontou poucas
modificações nesses números, ou no tipo de atividade profissional exercida pelos
neopagãos. A pesquisa de Adler revelou um número surpreendentemente elevado de
profissionais da área de informática: programadores, analistas de sistema e analistas
de software. A uma pergunta acerca da aparente relação entre os computadores e o
interesse pelo neopaganismo, um entrevistado respondeu que “os computadores se
assemelham à mágica, pois funcionam de um jeito invisível para cumprir suas
tarefas”. Outro observou que a informática, tal como o neopaganismo, “atrai pessoas
criativas, levemente incultas e solitárias”.

Seja qual for a explicação, a relação entre o mundo da alta tecnologia e a esfera das
florestas e matas, própria da feitiçaria, não se limita a esse lado do Atlântico. Em
Atrativos da Feitiçaria, seu estudo sobre a feitiçaria publicado em 1989 na Inglaterra,
Luhrmann registra uma concentração semelhante de profissionais da informática
entre os feiticeiros que conheceu. Ele concluiu que deveria haver uma espécie de
atração, com base no fato de que “ambas, a magia e a informática, envolvem a criação
de um mundo definido por regras determinadas, e a ação ocorre dentro desses
limites”. Luhrmann também reconhece que a explicação verdadeira poderia ser de
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ordem muito mais simples e prática e que os feiticeiros se tornavam programadores
simplesmente porque precisavam de um emprego.

Nos tempos atuais, muitos dos empregos capazes de atrair inconformistas instruídos
tem estado na área da informática. Outro subgrupo de neopagãos identificado pelos
estudos de Luhrmann e Adler corresponde àqueles que chegaram à prática de suas
crenças através do interesse por literatura fantástica e de ficção cientifica. As obras de
J.R.R. Tolkien, Ursula K, LeGuin e da sacerdotisa Wicca Marion Zimmer Bradley,
entre outras, freqüentam as prateleiras dos praticantes da Wicca. Em alguns casos, a
vívida experiência da leitura dessas obras acendeu a centelha que levaria a iniciação
na prática. Alguns praticantes da Wicca encaram a ficção cientifica, em particular,
como uma espécie de literatura religiosa que proporciona uma nova mitologia para
nossa época.

Naturalmente, não chega a ser surpreendente o fato de que os praticantes de uma


religião alicerçada no ritual e no romance sejam também aficionados de uma literatura
que fala de um poder ancestral e de um encantamento perene, ou sobre a vitória do
nobre bem sobre o asqueroso mal. Como disse uma feiticeira a Margot Adler: “A
prática é um espaço para visionários (...) um espaço onde tudo se encaixa: a beleza, a
pompa, a musica, a dança, canções e sonhos. Para mim, ela se tornou quase tão
necessária quanto comer e beber”. A mensagem que perpassa as várias pesquisas é a
de que as pessoas chegam a prática da Wicca pelas razões mais diversas. Para alguns
feiticeiros, a força motivadora era a veneração à natureza, ou um profundo interesse
por mitologia. Outros descobriram a Wicca depois de terem rejeitado o cristianismo e
buscado uma vida espiritual alternativa.

Há ainda quem afirme ter apenas correspondido a um chamado interno e misterioso,


semelhante à vocação que induz jovens a ingressar em um seminário ou convento.
Muitos praticantes da Wicca mencionam como principal atrativo a idéia de
adotarem uma religião que dispensa intermediários e cujas crenças podem ser
postas em prática de maneira inteiramente pessoal. Os acadêmicos que pesquisam
as causas desse grande interesse pela Wicca sugerem que a feitiçaria ajuda seus
praticantes encontrarem um significado, em um mundo desprovido de sentido; rituais,
em uma sociedade que anseia por rituais; e proteção contra as pressões exercidas
pelas rápidas mudanças sociais e tecnológicas. “Milhares de caminhos levam à
prática”, conclui Margot Adler, “mas o principal é que ninguém ‘se converte’ à Wicca.
Basicamente, o que todos sentem é: ‘Ah! Sempre acreditei em tudo isso. Só que nunca
soube que tinha um nome!’”.

De fato, a maioria dos feiticeiros descreve sua introdução à prática não como uma
conversão, mas como um chegar em casa. O resultado é que poucos neopagãos
realmente fazem prosélitos. A experiência de Alison Harlow, uma analista de sistemas
num grande centro de pesquisa médica da Califórnia, é típica, sendo que no decorrer
de seu relato abarca muitos temas comuns à Wicca. “Era noite de Natal”, ela começa,
“e eu cantava no coro de uma igreja adorável na margem de um lago e ela estava
linda, toda decorada. Era lua cheia e o brilho do luar atravessava as janelas de vidro
da igreja. Olhei para fora e tive a impressão de que algo de especial acontecia, mas só
que não era dentro da igreja”.

Quando a missa terminou, Harlow desculpou-se e caminhou até o topo de uma colina
lá perto. Quando olhou para a lua e depois para a igreja embaixo, repentinamente
sentiu uma “presença”. “Parecia muito antiga, sábia e definitivamente feminina”, ela
recorda. “Não consigo descreve-la mais do que isso, mas senti que essa presença, esse
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ser, olhava para mim, para essa igreja e aquelas pessoas dizendo: ‘Coitadinhos! Tem
intenções tão boas, mas compreendem tão pouco’”. Harlow também sentiu que seja lá
quem fosse “ela”, a presença era incrivelmente velha e paciente; “estava exasperada
com o rumo que as coisas tomavam no planeta, mas não abandonara a esperança de
que começaríamos a compreender um pouco mais do mundo”.

Levada por esse incidente, Alison Harlow decidiu descobrir tudo que pudesse sobre a
“presença” feminina, uma decisão que a levou ao estudo da literatura Wicca, ao
contato com muitas tradições da prática, à iniciação como sacerdotisa Wicca e, em
ultima instância, a criação de sua própria assembléia. Os primeiros passos ensaiados
por Harlow, seguidos por seu longo aprendizado, emprestam credibilidade a sugestão,
segundo a qual abraçar a Wicca é mais um processo de auto-sugestão do que de
conversão. “Envolver-se com magia”, ela escreve, “é como entrar num mundo de faz-
de-conta”.

Os noviços encontram muitas idéias novas e exóticas e devem gradualmente tomar


decisões sobre o valor que essas concepções possam ter. A prática não requer um
compromisso imediato e nem há um conjunto de crenças previamente estabelecido
que o noviço deva colocar em prática. Ao invés disso, o novo estudante tem permissão
e liberdade para experimentar, como se estivesse fazendo apenas uma experiência.
Assim, a prática da feitiçaria precede a crença e esse processo geralmente se
transforma em um prolongado período de sondagem da alma. E, principalmente,
porque o credo Wicca desafia abertamente as convenções, muitos neófitos necessitam
certo tempo para sua fé crescer gradualmente. No decorrer dessa fase exploratória, o
noviço descobre novas maneiras de ver o mundo. Luhrmann sugere que essa evolução
lenta e geralmente idiossincrática da filosofia pessoal possa explicar, ao menos até
certo ponto, por que os feiticeiros tem tanta dificuldade em concordar com um credo
comum. Para aqueles que terminam abraçando a Wicca, seu ritual acaba parecendo
menos teatral e mais significativo. Finalmente, Luhrmann observa, “a magia parece
prática, razoável, sensata e a experiência de se envolver com a prática se transforma
em um lado agradável da vida”.

Para muitos praticantes da Wicca, um marco importante foi crescimento em sua fé e a


iniciação como feiticeiro. Alguns novos praticantes desempenham uma cerimônia
solitária de auto-iniciação, uma afirmação de sua crença e da dedicação à Deusa, ou
ao Deus. Outros são ao mesmo tempo introduzidos em uma religião e em uma
assembléia, juntando-se a um grupo que pode ter de três a trinta participantes.
Simples ou elaborado, o ritual iniciático é um sinal exterior à transição de noviço a
devoto. A iniciação geralmente inclui benção dos instrumentos do novo feiticeiro e ao
término do ritual um voto solene de sigilo sela a cerimônia – e os lábios de seus
participantes.

O sigilo, na realidade, é uma fonte de tranqüilidade para os feiticeiros, pois até hoje
muitos deles ainda vivem tomados pelo temor. Idéias errôneas acerca da feitiçaria e a
má interpretação de suas crenças transformam os seguidores da Wicca em alvo de
ritos, de vandalismo, discriminação e dificuldades no emprego. Recentemente, um dos
julgamentos mais notórios envolvendo a prática de feitiçaria foi uma ação judicial
executada por Jamie Kellam Dodge, conselheira do Exército de Salvação em
Pascagoula, Mississipi, até sua demissão em agosto de 1987. Dodge, que reconheceu
ser feiticeira, foi demitida de seu emprego depois de ter sido surpreendida usando a
fotocopiadora de seu escritório para reproduzir páginas com rituais Wicca.

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Ela processou seu antigo empregador por discriminação religiosa, e o Exército da
Salvação contestou na corte, afirmando que a razão era violar a política da
organização, que proíbe o uso das fotocopiadoras para fins pessoais. O advogado de
Dodge tentou colocar a questão na seguinte perspectiva: “Se ela fosse uma cristã e
estivesse usando essa fotocopiadora, alguém teria se importado? Se ela estivesse
usando a máquina para copiar receitas de um livro de culinária, ninguém teria feito
objeções”. O caso foi ao tribunal em 1988, e o juiz federal determinou que a demissão
de Dodge constituiria realmente uma violação de seu direito constitucional de venerar
o que ela bem desejasse.

Chegou-se a um acordo sobre a multa de 1,25 milhão de dólares fora da Corte, mas o
valor, não revelado, provavelmente foi substancial. Controvérsias seculares são uma
dura realidade para muitos praticantes da Wicca da atualidade. Selena Fox e os
membros de seu Santuário do Círculo, por exemplo, vivem numa comunidade rural
perto de Madison, em Wisconsin; a certa altura foram obrigados a enfrentar uma
batalha legal que durou dois anos para obter reconhecimento como igreja pela
administração da cidade e do município – embora o estado de Wisconsin e o ministério
da Fazenda já tivessem há muito lhe outorgado o status de igreja.

A disputa começou como uma audiência de rotina sobre a questão do zoneamento,


mas foi tão contaminada pelos antigos medos da feitiçaria como uma espécie de
satanismo que a imprensa local passou a referir-se à questão como “a caça às
bruxas”. Ao tecer um comentário sobre Fox e exigindo permanecer no anonimato, um
vizinho da igreja disse a um jornalista: “Ela me apavora. O que eles fazem não é
normal”. E um oficial do município descreveu o Santuário do Circulo como a “anti-
igreja”.

A resposta de Fox foi abrir as portas celebrando uma festa e, depois disso, ao menos
alguns daqueles que visitaram os 80 hectares do Círculo do Santuário concordaram
que as atividades do grupo, que incluíam casamentos e cerimônias de cura planetária,
eram tudo menos demoníacas. “Fui ver seus rituais para descobrir o que estava
acontecendo”, admitiu um auxiliar da promotoria, pertencente a um comitê estadual
de Wisconsin que acompanhava cultos e gangues. “O grupo é muito aberto, quase
infantil. O problema é que as pessoas pensam que feitiçaria, satanismo e ocultismo
são a mesma coisa”.

A confusão entre feitiçaria e satanismo chegou a estender-se aos altos escalões do


governo. Em 1985, ao mencionar uma preocupação crescente com “o aumento de
cultos, satanismo, feitiçaria e coisas do gênero”, o senador Jesse Helms acrescentou a
procedimentos legais normalmente corriqueiros uma emenda que negava a isenção de
impostos aos grupos praticantes de Wicca. A emenda foi ratificada pelo Senado, mas
posteriormente derrotada por um acordo da Câmara com o Senado, depois de grupos
neopagãos organizarem uma campanha maciça, enviando cartas de protesto. Diante
de tal oposição e fazendo um esforço para colocar a Wicca nas mesmas bases legais
que as outras religiões, alguns feiticeiros e neopagãos tentaram apoiar-se em seu
grande número de adeptos, formando redes de auxílio mútuo.

Entre as proteções constam o Santuário do Círculo, As Feiticeiras da Deusa, a Liga


Contra a Difamação dos Feiticeiros. Ao unirem suas forças, muitos feiticeiros viram-se
Obrigados a abandonar o véu do sigilo no qual se refugiavam juntamente com a
grande maioria de seus colegas. Alguns deles acolhem bem tais mudanças, sentindo
que a reticência habitual dos feiticeiros do passado muitas vezes conduziu à apatia.
Os “Muitos cristãos só comparecem à igreja no Natal ou na Páscoa”, observa Selena
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Fox, “e muitos pagãos só aparecem na época de Halloween, a Noite das Bruxas”. A
própria Fox está entre as líderes da Wicca mais ativas destacadas. Como parte daquilo
que ela chama de seu sacerdócio, ela faz freqüentes aparições em programas de
entrevistas na televisão e inúmeras palestras em universidades. E nas vizinhanças de
onde mora, já trabalhou lado a lado com mulheres de outras igrejas regionais como
voluntária da Cruz Vermelha, depois de um furacão ter devastado uma cidade nas
proximidades de Barneveld, em junho de 1984. Seus esforços no sentido de dar para a
Wicca um ar de respeitabilidade finalmente apresentaram resultados em 1988,
quando foi convidada para falar em uma conferência do Conselho Mundial de Igrejas.

Fox refere-se ao evento que ocorreu em Toronto, como um dos melhores momentos de
seu sacerdócio. Contudo, a luta para conquistar a legitimidade para a prática pode ter
seu preço, A institucionalização da feitiçaria traz na mente de alguns de seus
praticantes o espectro da ruptura de valores da feitiçaria. Especialmente inquietante é
a crescente demanda por um clero pago feita por algumas facções da Wicca. Os
tradicionalistas sentem que uma mudança dessa natureza contraria os próprios
ditames da prática, contra o ensino da doutrina em troca de dinheiro. “Se há algo que
não quero ver”, diz Doreen Valiente, a sacerdotisa original de Gerald Gardner, “é a
feitiçaria se tornar muito parecida com uma religião organizada”.

Mas essa perspectiva parece remota, apesar do surpreendente crescimento das


últimas décadas. Em primeiro lugar porque a proliferação de diversas “tradições”
torna improvável a centralização. Mesmo assim, muitos especialistas chegam a prever
urna contínua expansão para a Wicca e J. Gord Melton, entre outros, detectou a
emergência de “uma liderança mais madura e mais sofisticada” para o futuro da
prática. Quanto aos problemas inerentes a esse crescimento, é prova que uma religião
cuja principal invocação, a Exortação da Deusa, pede júbilo e reverência, seja capaz
de superar muitas preocupações cotidianas. “Viver é mesmo muito divertido”, diz uma
sacerdotisa, a antropóloga Tanya Luhrmann “A Wicca é a única religião que capta
essa graça da vida”.

O que é um(a) bruxo(a)?


São pessoas comuns, que buscam viver com princípios ditos pagãos e onde adotam o
assim chamado extraordinário como parte integrante de suas vidas. São pessoas que
optaram por ter uma crença diferente, que reverenciam a natureza e os elementos e
não tem medo de se assumirem como são e nem vergonha de serem o que são. Ainda
hoje as pessoas temem e sentem uma certa restrição quando se fala sobre Bruxaria,
pois desvirtualizam seu real sentido levando para um lado “negro” inexistente dentro
da Wicca, o seu verdadeiro significado elas desconhecem.
A Natureza é o templo da Bruxa(o), e este templo é utilizado para se praticar o
grande culto à Deusa, representada pela Lua. As Bruxas(os) adoram a Vida e o
Amor às coisas vivas. Ser Bruxa(o) é ser ou reconhecer seu lado feminino, é
reconciliar o masculino e o feminino, é encontrar a verdadeira essência que está
dentro de nós. Aceitar o Deus e a Deusa em seu coração, é acreditar, respeitar,
amar a Natureza, perdoar e, acima de tudo, amar.

A Bruxa Solitária
Trabalhar só. Essa é meta da Bruxa solitária. Em alguns casos, ao praticar um Ritual
pode utilizar um(a) parceiro(a). Trabalhar só, em alguns momentos, tem suas
vantagens, pois por serem literalmente ecléticas, podem utilizar qualquer tradição, ou

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ainda de partes de várias das tradições existentes. Como está só, em um Ritual ou
Celebração ele(a) tem que fazer as vezes de Sacerdotisa e Sacerdote, fazer as
invocações e executar todos os passos necessários para o bom andamento do fim
proposto. A montagem do Altar, os materiais a serem utilizados, a vestimenta, ou seja,
toda a estrutura do exercício da Magia fica a seu critério.

Mas existe o outro lado. A Bruxa solitária não tem com quem dividir seu conhecimento
nem a ajuda de outras pessoas na realização de seus Rituais. A busca de informações
torna-se, às vezes, por demais difícil. As dúvidas se tornam freqüentes no que se refere
à parte ritualística. Tem que desempenhar todos os papéis de um Coven completo.
Isso não quer dizer que se você optar por ser um(a) Bruxo(a) solitário(a), futuramente
não possa fazer parte de um Coven, ou mesmo criar um.

As Bruxas
"Uma bruxa é o fruto do amor entre a Terra e a Lua"
Margaret Andreas

Descobrimo-nos bruxas quando conseguimos nos perceber enquanto mulher. De nada


adianta querer ser feiticeira se não se conhece o segredo do feminino. É necessário
primeiro o reconhecimento da fêmea que trazemos dentro de nós, essa parceira
desconhecida que nos acompanha desde o nosso nascimento. Uma parceira
silenciosa, que aponta a cada instante o caminho da sensibilidade. Costumamos,
entretanto, estar tão ocupadas com nosso universo cotidiano, que nem ouvimos sua
voz doce e suave. Para nos descobrirmos mulheres é preciso aguçar os sentidos e,
assim poder vivenciar plenamente as experiências. Isso poderá, a princípio, parecer
complicado, mas, iniciando com pequenas tentativas, constataremos estar cada dia
mais perceptivas. Experimente, ao tomar banho, explorar seu corpo suavemente.
Sinta cada dobra de pele, cada osso, do mais saliente ao mais escondido. Deixe que a
água percorra seu corpo. Não tenha medo de sentir prazer e, ao sair do banheiro, você
experimentará extraordinária leveza interior.

Quando começamos a nos descobrir mulheres, um novo mundo se descortina à nossa


volta. Ficamos muito mais susceptíveis e, por conseqüência, muito mais completas.
Claro que essa sensibilidade trará, inicialmente, alguns contratempos com o universo
masculino, pois seremos, então, donas absolutas do nosso prazer, o que é um tanto
complicado de ser entendido pelos homens. Mas será exatamente essa posse do prazer
que nos permitirá ajudar nossos parceiros na captura de sua sensibilidade própria. O
universo feminino foi por séculos sufocado por uma sociedade fálica, onde
predominou a linguagem do poder. Nesse discurso, não encontramos em momento
algum a doçura da transcendência. Tudo fica estabelecido num sistema quadrado,
composto por retas e inibidor de curvas. Voltas sinuosas que nos indicam sempre o
caminho da profundidade. A própria púbis é traçada por dois montículos que,
delicadamente, se vão estreitando até a espiral da vagina.

Nesse mundo de retas, sempre voltadas para fora qual grandes lanças, a espiral
feminina ficou espremida, sufocada a tal ponto, que se cobriu de uma casca espessa
que não deixa a mulher se perceber. Ao próprio homem, esse pensamento retilíneo
trouxe tal rigidez, que o afastou melancolicamente de sua parceira, deixando-o
irremediavelmente solitário e, por sua vez, também oprimido. Cabe a nós, mulheres
restituir as curvas para melhor conviver com nossos parceiros. Só assim poderemos
dançar juntos pelos campos onde outrora celebrávamos, também em parceria, a
colheita. E você experimentará o maravilhoso de, sentando-se na grama sentir o
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pulsar alegre que ela emana, o sublime ato de, ao tocar suavemente as asas de uma
borboleta, perceber nos dedos o seu cumprimento delicado. Restabelecida essa
ligação, veremos que somos parte de um maravilhoso sistema encantado e não mais
sentiremos medos e angústias, pois estaremos pulsando num mesmo compasso.

O grande erro do ser humano foi acreditar-se o único ser inteligente em meio à
natureza, tornando-se, assim, um espécime solitário e infeliz. Quando digo ser
humano, estou me referindo à civilização dita humanizada, pois não encontraremos
essa infelicidade nos ditos primitivos. Esses povos possuem a profunda sabedoria da
natureza, sendo, por isso, incrivelmente felizes! Uma bruxa poderia ser considerada,
pelo homem civilizado, alguém essencialmente primitivo, alguém que não presta
atenção ao serviço de meteorologia, uma vez que é profunda conhecedora dos
movimentos do tempo.

Texto extraído do livro "Revelações de uma Bruxa" de Márcia Frazão.

Os Bruxos e a Religião
A Bruxaria nos mostra que a Magia encontra-se adormecida dentro de cada um de
nós. Pelo modo que fomos criados, seguindo um preceito religioso que suprime de
forma categórica a Arte, a Magia foi reprimida em nossa vida. A Bruxaria nos ajuda a
acordar, desenvolver e ampliar essa energia, nos ajuda a criar uma atmosfera onde
esse poder latente se manifeste em toda sua força. A Wicca é tão antiga quanto o
mundo, e, seguindo a evolução natural do ser humano, vem também sendo
modernizada e adaptada à realidade atual.

As pessoas que praticam a Bruxaria são das mais variadas idades, posição social, raça
ou sexo. O que os une é ser a Wicca uma Religião que busca um reencontro consigo
mesmo e uma harmonia maior com a Terra e as manifestações da própria Natureza. A
característica mais marcante dos Wiccanos é o Amor dedicado à Vida e à Natureza. A
busca de um caminho que nos leva à harmonia e equilíbrio, tanto no que se refere ao
seu próprio interior quanto à Natureza. A alegria e a satisfação de viver são as bases
da Bruxaria, pois ela é uma Religião de amor e prazer que permite a cada um
manifestar sua individualidade como realmente é sentida, e trabalha e encoraja uma
maior responsabilidade social e ambiental.

Não há a crença do no que diz respeito ao dualismo de opostos absolutos, do “bem


contra o mal”. Todas as coisas existentes têm o seu próprio lugar e funções. Devemos
buscar a harmonia entre todas as coisas. A reencarnação e a vida após a morte fazem
parte da filosofia da Bruxaria mas deixa a cada Bruxo a sua crença, pois a Wicca não
tem dogmas ou regras as quais todos devem seguir.

Os Deuses devem ser cultuados à maneira peculiar de cada um de seus integrantes.


Não existem leis nem uma maneira predeterminada para se realizar Rituais, etc. O
que existe em termo de lei é a chamada Lei Tríplice, onde afirma que tudo o que
fizer será devolvido triplicado para você mesmo.

Dentro de uma família de Bruxos os filhos devem ser ensinados a viver com honra,
integridade, honestidade, tratar a Natureza com carinho e Amar a Vida. Deve-se deixar
aberto seus caminhos para seguir a crença que desejarem futuramente, sem
imposições que possam tolher sua liberdade. Os Bruxos não divulgam sua Religião
porta a porta, pois são discretos e acreditam que quando o chamado se dá, a busca de
novos caminhos conduzirá os que já estiverem ou se sentirem prontos.
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Wicca – Um caminho mágico
Marcelo Sette Câmara – (91) 9116-4215
A Wicca cresce, e isso se dá em todo o mundo, pois estamos em uma época onde todos
buscam algo em que acreditar, e que traga a seu íntimo uma realização como ser
humano, um senso de liberdade não encontrada em outras religiões. Muito se fala
hoje em dia sobre a preservação da Natureza, do Amor aos animais, mas o que vemos
são nossas florestas serem desmatadas para “abrir espaço para o progresso” e as
pessoas que praticam outras religiões, quando não apóiam esse pensamento,
simplesmente se omitem ou não tomam nenhum tipo de providência para resolver. E a
Wicca busca, sem radicalismos, conservar a Natureza para que nossos filhos e netos
saibam o que é uma árvore ou um animal, sem ser através de fotografias.

Mulher, o caminho mágico


As pessoas deveriam se perguntar: Porque existe o machismo? Do que os homens
tinham tanto medo para subjugar a mulher por tanto tempo? Por que mantê-las
ignorantes? Qual o papel da religião dos séculos passados nisso? Quem comandava
essas religiões? Algumas das respostas retiradas do livro: "O poder da Bruxa "- Laurie
Cabot.

..... "De acordo com algumas tradições, Merlin aprendeu suas artes com a Deusa,
disfarçada de Dama do lago, ou Viviane (Aquela que vive). Como Morgana, a Fada, ela
foi convertida numa feiticeira perversa por autores cristãos, na esperança de
desacreditar a crença céltica em Merlin.... Os principais sacerdotes e sacerdotisas dos
celtas eram os druidas. A palavra druida é derivada do grego dryad, um espírito da
natureza ou ninfa do carvalho. O termo era também aplicado as sacerdotisas de
Ártemis e a Deusa da Lua das Amazonas.... As sacerdotisas druidas da Grã-Bretanha
estavam divididas em três classes. A classe mais alta vivia em regime de celibato em
conventos. Essas irmandades alimentavam as fogueiras sagradas da Deusa e foram
assimiladas na era cristã como monjas. As outras duas classes podiam casar e viver
nos templos ou com seus maridos e famílias.

Eram servas e acolitas nos ritos sagrados da Deusa. Com o advento do cristianismo,
foram chamadas de Bruxas..... Os Deuses solares tornaram-se os heróis e as Deusas
da Terra e da Lua passaram a ser as vilãs, e muitas das velhas histórias foram
rescritas e revistas para refletir essa mudança de consciência. Em muitas delas a
Deusa, ou o poder feminino, é identificada como uma serpente ou um dragão....Essas
histórias persistiram mesmo em tempos cristãos, onde encontramos São Jorge
matando o dragão na Inglaterra e São Patrício expulsando as serpentes da Irlanda.... A
mitologia sacra começou refletindo um dualismo que era provavelmente desconhecido
em tempos neolíticos ou estava certamente relegado para um papel secundário no
esquema das coisas. Sol e Céu opostos à terra e à Lua, a Luz oposta às Trevas, A vida
oposta à Morte, o Masculino oposto ao Feminino. Antes todas as coisas eram parte da
Grande Mãe.... Não era uma questão de Bem contra o Mal. Cada coisa tinha aspectos
positivos e negativos, todos eles ingredientes necessários na Grande Roda da Vida
Criada...."

Outra fase surpreendente do ensinamento das bruxas está descrito:

" Em alguns dos livros das escrituras judaico-cristãs que foram arbitrariamente
rejeitadas do cânone oficial. Adão admite que Eva lhe é superior: “Ela ensinou-me a
palavra do saber”. Num texto gnóstico, Eva é a Mãe de Todos os Viventes e foi quem
criou realmente Jeová. Lê-se: “Ele desconhecia até sua própria Mãe.... Por ser tolo e
ignorante de sua Mãe é que ele disse: Eu sou Deus; não existe nenhum outro além de
Mim.”. Em algumas versões, Eva repreende e pune Deus por Seu cruel tratamento dos
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Wicca – Um caminho mágico
Marcelo Sette Câmara – (91) 9116-4215
seres humanos. Bárbara Walker, autora de The Woman's Encyclopedia of Myths and
Secrets, diz: “Um dos segredos mais bem guardados do cristianismo era que a Mãe de
Todos os Viventes foi a Criadora que puniu Deus”. As Bruxas consideram interessante
que o nome de Jeová seja formado pelas quatro letras hebraicas Yod-He-Vau-He. A
primeira, Yod, significa “eu”, as três seguintes significam “vida” e “mulher”. A versão
latina dessas três letras é E-V-E. Por outras palavras, o nome de Jeová é feminino e
significa: “Eu sou mulher, eu sou a vida”. Hoje, um cântico popular entre Bruxas
baseia-se nessas letras antigas: “Io ! Evohe !”.

A História da Bruxaria
Wicca é uma palavra do inglês arcaico que quer dizer “bruxo” (plural wicce). Há quem
diga que seu significado é “sábio”, mas isso não corresponde totalmente à verdade. A
palavra tem sua origem na raiz indo-européia “wikk”, significando “magia”, “feitiçaria”.
O nome Wicca é o mais usado para denominar nossa Religião. Ela também é
conhecida como Bruxaria, Feitiçaria, Antiga Religião e Arte dos Sábios, ou
simplesmente, a Arte. As origens da Bruxaria remontam à aurora da humanidade.
Nossas crenças começaram a tomar forma no Paleolítico, há aproximadamente vinte e
cinco mil anos. Neste período, o ser humano era nômade e suas principais fontes de
subsistência eram a caça e a coleta. Tudo era misterioso para o homem e a mulher do
paleolítico: o trovão, o sol, a escuridão... Para eles, o mundo era um lugar perigoso,
cheio de forças que deveriam ser temidas, respeitadas e reverenciadas. Com o tempo,
a idéia das forças foi evoluindo para a idéia de Deuses.

Um dos primeiros e, seguramente, o mais importante Deus primitivo a surgir foi o


Deus de Chifres. Para que o clã nômade sobrevivesse, uma das principais atividades
era a caça: dela provinham carne para alimentar-se, peles para vestir-se, ossos e
chifres para fazer instrumentos. Assim, tomou forma na mente do ser humano
primitivo a idéia de um Deus das Caçadas, dotado de chifres, símbolo de seu poder.
Alguns membros do clã iniciaram a prática de atividades de caráter mágico-religioso,
compostos por um elemento religioso (esboços de rituais e mitos dedicados à adoração
do Deus de Chifres, forças da natureza e espíritos dos antepassados) e por um
elemento mágico (práticas que tentavam atrair a benevolência destas divindades e
espíritos, a fim de manipulá-la para interesses práticos do clã).

Neste momento estava se delineando algo que se assemelhava muito a grosso modo
com um a classe sacerdotal. Estes “sacerdotes” realizavam ritos do que hoje é
denominado magia simpática, ou seja, práticas baseada na atração dos semelhantes.
Pintavam-se cenas de membros do clã vencendo e abatendo animais cobiçados, para
garantir o sucesso da próxima caçada. Miniaturas destes mesmos animais eram
confeccionadas, em osso, chifre ou barro, e então simulava-se sua caça e abate. Estes
ritos eram geralmente dirigidos por um destes “sacerdotes”, usando a primeira de
todas as túnicas: peles de animais e uma máscara dotada de chifres.

Em Trois Frères, na França, existe uma pintura de doze mil anos, conhecida como “Le
Sorcière” (“O Feiticeiro”). É a figura de um homem vestido de peles, com cauda e
chifres de cervo. A sua volta, paredes cobertas por pinturas de animais em caçadas. A
seus pés, uma saliência na rocha, constituindo um altar. Mas as caçadas não eram a
única coisa que faziam o clã sobreviver. Havia um Mistério: o da fertilidade. O clã
precisava continuar. De tempos em tempos, a barriga das mulheres crescia, e, ao fim
de algumas luas, delas surgia um novo membro da tribo, pequeno, mas que crescia
com o passar do tempo. Os animais também tinham filhotes, e isso garantia o
alimento das futuras gerações. A chave de todo esse Mistério era a mulher, aquele
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enigmático ser que, se já não bastasse ser a única responsável pela continuação da
tribo (ainda não havia a consciência da participação do homem na reprodução),
também alimentava as crianças com leite de seu próprio corpo. Além disso, aquela
criatura mágica vertia sangue de dentro de seu corpo em algumas ocasiões, mas
mesmo assim não morria.

Todas estas constatações deram origem ao surgimento de uma Deusa da Fertilidade,


uma Grande Mãe. Figuras pré-históricas desta Deusa são incontáveis. Uma das mais
famosas é a Vênus de Willendorf: seu corpo parece uma grande massa disforme da
qual se destacam um gigantesco par de seios e uma proeminente barriga grávida. Ela
não tem pés nem braços, e seu rosto está coberto. Estas características são comuns a
várias outras “Vênus” pré-históricas, e se devem à ênfase que o ser humano primitivo
dava ao aspecto de fertilidade da mulher. A Deusa era a Grande Mãe Natureza, fonte
de toda a vida. Com o tempo, os homens foram se conscientizando de seu papel na
reprodução, e o aspecto de fertilizador passou a ser mais um dos atributos do Deus de
Chifres. Ele tornou-se Filho da Deusa, pois dela era nascido, e também seu amante,
pois a fertilizava para que um novo ser surgisse. A partir desta concepção, novos ritos
foram adicionados às práticas mágico-religiosas, onde esculpiam-se ou pintavam-se
animais ou humanos copulando, e todo o clã entregava-se ao ato sexual, já tendo
recebido a graça dos Deuses.

No Neolítico, o ser humano desenvolveu a agricultura, e começou a formar aldeias e


povoados. Com a descoberta das técnicas de plantio, a Deusa assumiu maior
importância, passando a acumular também o aspecto de guardiã da colheita. O Deus
de Chifres começou a ganhar uma nova face, a de alegre Deus das Florestas, protetor
dos animais e criaturas dos bosques. Quando o homem adquiriu a noção das estações
do ano, esboçaram-se as primeiras idéias sobre a Roda do Ano. Havia um período
quente e fértil, onde realizavam-se as colheitas e a natureza mostrava todo seu
esplendor. Neste período, reinava a Deusa. As árvores secavam e caíam suas folhas, e
tudo parecia estar morto. O povo voltava a depender da caça para sobreviver, pois não
podia viver só dos alimentos armazenados. Quem regia este período era o Deus das
Caçadas, que também adquiria seu novo aspecto de Sombrio Senhor da Morte (nesta
época nasceram também os primeiros conceitos sobre a vida após a morte). Surgiram
então os primeiros mitos sobre a descida da Deusa ao mundo subterrâneo que,
séculos mais tarde, tomaria forma definitiva na Grécia, com o mito de Perséfone, e na
Mesopotâmia, com a lenda de Ishtar.

As culturas desenvolveram-se com o passar dos séculos, e novos aspectos dos Deuses
foram descobertos. Cultos religiosos se estruturaram, centrados nos ciclos e
nascimento, morte e renascimento da natureza. O tempo da plantação e o tempo da
colheita eram muito importantes, marcados com festividades, assim como o período
do recolhimento do gado e a época de sua liberação ao pasto. Nestas datas,
juntamente com as de mudanças de estação, realizavam-se encenações de mitos nos
quais um Deus Velho morria para um Deus Jovem nascer, representando a morte da
antiga colheita e o nascimento de uma nova. Estes cultos possibilitaram o refinamento
da classe sacerdotal, que chegou ao requinte de gerar representantes como os druidas,
sacerdotes celtas que encantaram os gregos e romanos com sua profunda filosofia e
integração com a natureza. Sua erudição era admirável, e acumulavam funções como
a de legisladores, médicos, poetas, bardos e guardiões da tradição oral. Na Grécia
Antiga, floresceram os Cultos de Mistério, dos quais deve destacar-se os Ritos de
Elêusis e os Mistérios Órficos. Também foram de grande importância os cultos
dionisíacos. Deve-se ter em mente que estas são linhas gerais do início da bruxaria,
que confunde-se com o surgimento das primeiras manifestações religiosas humanas.
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Esses fatos aconteceram em épocas diferentes, nos mais variados lugares. Nem tudo
ocorreu exatamente da mesma maneira em todos os lugares: enquanto no Crescente
Fértil da Mesopotâmia nasciam avançadas civilizações, na Europa ainda vivia-se de
caça e coleta. Mas o que impressiona e é importante não são as diferenças, e sim as
semelhanças dos primeiros esboços de religião.

O Surgimento do Cristianismo
© 1993, Daniel Pellizzari.

Artigo originalmente escrito para instrução reservada de


alunos. Os direitos deste texto são reservados ao autor. A
reprodução por qualquer meio é livre, desde que sejam
citados o autor e a fonte. Respeite os direitos autorais e
colabore para que a troca de informações seja cada vez
mais dinâmica e livre.

Ao contrário do que se pensa, o cristianismo não foi imediatamente adotado pelo povo
europeu ao ser declarado religião oficial do Império Romano. Esta conversão dos
Romanos ao catolicismo teve motivos políticos, e não teve grande penetração fora dos
centros urbanos. A grande massa da população permaneceu fiel a seus deuses
antigos. Os cultos antigos, então, receberam a denominação pejorativa de “pagãos”
(“pagani”, plural de paganu, ou morador do campo), por ter como foco de resistência à
nova religião o povo dos campos, longe das cidades e das zonas de comércio e ensino.

Os missionários cristãos, com o tempo, passaram a ter mais aceitação nas cidades,
mas continuavam sendo repelidos no campo, nas montanhas e nas regiões distantes,
verdadeiros enclaves da Antiga Religião. Houve ainda uma tentativa de reativar o
paganismo e o culto aos Deuses antigos como religião oficial do Império Romano. Esta
última esperança deveu-se ao Imperador Juliano (conhecido como “O Apóstata”), que
reinou no século IV EC. Mas, como sabemos, essa tentativa não foi frutífera,
derrubada pela própria conjuntura da época, onde já se pressentia o poder de
manipulação, domínio e intriga do cristianismo, evidenciado nos séculos seguintes.

Um dos ardis utilizados pelos cristãos era o de apropriar-se de festividades pagãs


como orações religiosas de sua própria religião. Assim, por exemplo, o festival do
solstício de inverno, onde se comemorava o nascimento do Deus-Sol, transformou-se
no Natal cristão. Também o festival de Samhain, comemorado em intenção dos
mortos, recebeu o nome de Dia de Todos os Santos, logo seguido pelo dia de Finados.
A despeito destas tentativas, as tradições pagãs continuaram mantendo sua força. A
partir de um decreto do Papa Gregório, os cristãos também se apossaram dos locais
sagrados da Antiga Religião e, derrubando os templos ali existentes, erigiram suas
igrejas. Os Deuses de cada santuário foram transformados em santos e santas (um
exemplo é Santa Brígida, da Irlanda, na verdade a Deusa Bhríd, protetora do fogo e
dos partos).
Quando os cristãos deram-se conta da importância da Deusa-Mãe para as pessoas,
aumentaram a proeminência da Virgem Maria no culto cristão. Mitos e práticas pagãs
foram, sistematicamente, absorvidas, distorcidas e transformadas em ritos cristãos.
Esculturas de temas pagãos foram incluídos em igrejas e capelas. O maior exemplo de
sincretismo entre costumes pagãos e cristãos é o cristianismo irlandês, que ainda hoje
conserva hábitos célticos mesclados a liturgias cristãs. Os padres tinham a seu favor o
tempo, o poder e a força. Os pagãos tinham que lutar sozinhos contra a profanação de
seus templos, crenças e costumes. Desta maneira, o povo simples dos campos foi
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acostumando-se à nova religião, e gradualmente, foi sendo convertido. Mas os
sacerdotes restantes da Antiga Religião não se renderam à nova ordem. Juntamente
com pessoas ainda fiéis às antigas crenças, mantiveram o culto ao Deus de Chifres e à
Deusa Mãe.

As crenças pagãs, enfatizando a adoração aos Deuses e a realização dos festivais de


fertilidade, foram amalgamando-se à magia popular, criando a Bruxaria Européia. A
magia popular consistia em um conjunto de feitiços feitos com o uso de ervas, bonecos
e diversos outros meios. Estes feitiços tinham como objetivo a cura, a boa sorte, atrair
amores, e fins menos nobres, como a morte de algum inimigo. São práticas
desenvolvidas a partir do que restara da magia simpática pré-histórica, unidas ao
conhecimento xamânico dos povos bárbaros.

Os teólogos cristãos passaram então a sustentar que a Bruxaria não existia. Assim,
pretendiam terminar com a credibilidade dos bruxos e anular sua influência. Foi um
período de relativa paz para a Arte. Mas logo os cristãos perceberam que seus esforços
para exterminar completamente o paganismo não haviam dado resultado. Fizeram
então mais uma tentativa: transformaram o Deus de Chifres na personificação do Mal,
do Antideus, do Inimigo.

A natureza dos Deuses pagãos é completamente diferente da do todo-poderoso “senhor


de bondade” dos cristãos. Nossos Deuses são quase “humanos”, pois têm
características tanto ‘boas’ quanto ‘más’. A teologia cristã já pressupunha a existência
de um antagonista a seu Jeová (o ‘Satan’ hebraico do Antigo Testamento e o ‘diabolos’
do Novo): um Inimigo. Ele ainda não possuía forma definida e, quando era
representado, o era em forma de serpente, como a que persuadiu Adão a comer a fruta
da Árvore da Sabedoria. Dando a seu Satã a forma do Deus de Chifres (notadamente
de deuses agropastoris Como Pã e Sileno, dotados de cascos de bode e pequenos
cornos), os cristãos conseguiram iniciar um clima de terror e medo em relação aos
praticantes da Antiga Religião, o que os forçou a praticarem seus ritos em segredo.

Mas a era mais triste da Arte ainda estava por vir. A Era das Fogueiras A situação da
Igreja até o século XIII era caótica. Facções adversárias lutavam entre si, cada uma
degladiando-se em favor de um dogma. Nos numerosos concílios realizados, ora uma
das facções impunham sua visão, ora outra. Isso favorecia um desmoralizante 'entra-
e-sai' de dogmas, o que desacreditava a Igreja. Algumas destas facções também
criticavam a corrupção e o jogo de poder dentro da classe sacerdotal, e levantavam
dúvidas sobre o poder espiritual do papado. Foi então criado um instrumento de
repressão: o Tribunal de Santa Inquisição consistia em um corpo investigatório
ignorante, brutal e preconceituoso, dirigido pela ordem dos Dominicanos.

Sua função primordial era a de acabar com as facções que se opunham a Igreja
(denominadas 'heréticas'), através do extermínio sistemático de seus membros.
Exemplos destas facções 'heréticas' eram os cátaros, os gnósticos e os templários.
Com o tempo, os cristãos perceberam outro uso para seu Tribunal. Ainda persistiam
Cultos aos Deuses Antigos, e, graças a transformação do Deus de Chifres no Demônio
Cristãos, eram acusados de delitos absurdos, como o canibalismo, a destruição de
lavouras (acusar de tal crime uma Religião dedicada à manutenção da fertilidade das
colheitas é, no mínimo, ridículo) e muitos outros. Foi então proclamada, em 1484, a
Bula contra os Bruxos, pelo Papa Inocêncio VIII. Neste documento, ele relacionava os
crimes atribuídos aos bruxos e dava plenos poderes à Inquisição para prender,
torturar e punir todos aqueles que fossem suspeitos do 'crime de feitiçaria'.

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Em 1486 foi publicado o Malleus Malleficarum ('Martelo dos Feiticeiros'), escrito pelos
dominicanos Kramer e Sprenger. O livro, absurdo e misógino, era um manual de
reconhecimento e caça aos bruxos, e, principalmente, às bruxas (o livro trazia
afirmações surpreendentes, como: "quando uma mulher pensa sozinha, pensa em
malefícios"). A partir daí, a Igreja abandonou completamente a postura de ignorar a
Bruxaria: pelo contrário, não acreditar na sua existência era considerada a maior das
heresias. Iniciou-se então um período de duzentos anos de terror, conhecido entre os
bruxos como "Era das Fogueiras".

Mas os bruxos (e também os hereges e inocentes: doentes mentais, homossexuais,


pessoas invejadas por poderosos, mulheres velhas e/ou solitárias) não pereciam só em
fogueiras: eram também enforcados e esmagados sob pedras. Isso quando não
pereciam nas torturas, as quais são tão cruéis e sádicas que não merecem nem ser
mencionadas. A Inquisição tornou-se uma válvula de escape para as neuroses da
época: em época de forte repressão sexual, condenavam-se mulheres jovens, que eram
despidas em frente a um grupo de 'investigadores', tinham todo seu corpo revistado
diversas vezes, a procura de uma suposta marca do diabo' e, por fim, eram açoitadas,
marcadas a ferro e violentadas.

Terminavam condenadas e executadas como bruxas. Seu crime: serem mulheres


jovens, belas e invejadas. Anciãs que moravam sozinhas, geralmente em companhia
de alguns animais, como gatos (daí a lenda da ligação dos gatos com as bruxas), eram
alvo de desconfiança e logo declaradas 'feiticeiras', e assim, assassinadas. A maioria
das vítimas dos tribunais de Inquisição não eram verdadeiros praticantes da Arte, mas
muitos bruxos pereceram na mão dos cristãos. Aproximadamente nove milhões de
crimes como este foram cometidos durante a Inquisição, ironicamente em nome de
uma religião que se dizia 'de amor'. Nunca uma religião demonstrou tanta necessidade
de exterminar seus antagonistas como o cristianismo.

A perseguição aos bruxos não resumiu-se apenas ao países católicos: espalhou-se pela
Europa protestante. Os protestantes não se guiavam pelo Malleus Malleficarum, mas
davam razão à sua paranóia através do uso de uma citação do Antigo Testamento:
"não deixarás que nenhum bruxo viva". Na Era das Fogueiras, os praticantes da
Antiga Religião adotaram o único comportamento que lhes possibilitaria a
sobrevivência: "foram para o subterrâneo", ou seja, mantiveram o máximo de discrição
e segredo possível. A sabedoria pagã só era passada por tradição oral, e somente entre
membros da mesma família ou vizinhos da mesma aldeia. Como técnica de proteção,
os próprios bruxos ajudaram a desacreditar sua imagem, sustentando que a Bruxaria
não passava de lenda, ou disseminando idéias de bruxos como figuras cômicas e
caricatas, dignas de pena e riso.

Por volta do final do século XVII, a perseguição aos bruxos foi diminuindo
gradativamente, estando virtualmente extinta no século XVIII. A Bruxaria parecia,
finalmente, ter morrido. Mas os grupos de bruxos ("covens") resistiam, escondidos nas
sombras. Algo que surgiu nos primórdios da humanidade não morreria assim tão
facilmente.
O Renascer da Bruxaria
A partir da metade do século XIX, a Bruxaria tornou-se novamente objeto de
discussão, graças ao renascer do interesse em mitologia, folclore e magia. Em 1862,
Jules Michelet lançou sua obra "A Feiticeira", na qual falou sobre a sobrevivência dos
cultos pagãos nas Idades Média e Moderna e sobre o surgimento paralelo do
satanismo. Apesar de importante, as principais intenções de seu livro eram políticas:

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pretendia provar que a Bruxaria era um culto surgido nas camadas inferiores da
sociedade em protesto à repressão da classe dominante.
Isso pode ser verdadeiro para o satanismo, mas não corresponde à realidade quando
se trata de Bruxaria. Mas isso não diminui a importância de seu livro: sua tese da
sobrevivência dos cultos pagãos influenciou o trabalho de vários antropólogos e
folcloristas do final do século XIX e do início do século XX. Um deles foi o norte-
americano Charles Leland, um folclorista conhecido na época por suas pesquisas
sobre cultura cigana.

Em 1899, Leland lançou um livro intitulado "Aradia, ou o Evangelho das Bruxas". Foi
a primeira obra de grande importância para o renascimento da Bruxaria no século XX.
Neste livro, Leland registrava as crenças reunidas por uma bruxa toscana chamada
Maddalena, que ele conhecera em uma viagem pela Itália no ano de 1866. O livro fala
da vecchia religione praticada naquela região: o culto à Deusa Aradia, filha de Diana
com seu irmão Lúcifer. Aradia foi la prima strega ('a primeira bruxa'), enviada à Terra
por sua mãe para ensinar as artes da feitiçaria aos humanos.

A idoneidade do livro é contestada atualmente por alguns historiadores da feitiçaria,


que argumentam que Leland dirigiu sua pesquisa para enquadrar-se em suas
concepções e nas idéias de Michelet. Outros dizem ainda que Maddalena traiu a boa fé
do folclorista. O fato é que nada disto tira o mérito do livro, um clássico da Bruxaria
moderna. A década de 20 produziu dois importantes livros para a Bruxaria moderna:
um deles foi "O Ramo de Ouro" ('The Golden 'Bough'), gigantesca obra do antropólogo
James Frazer, versando sobre rituais de fertilidade.

As idéias que expôs em sua obra, juntamente com o conhecimento passado por Leland
em 'Aradia' levaram a antropóloga Margaret Murray a lançar seu importante livro "O
Culto de Bruxaria na Europa Ocidental" ('The Witch-Cult in Western Europe'), em
1921. Nele Murray sustentava que a Bruxaria era uma antiqüíssima religião
organizada, presente em toda a Europa, baseada no culto a um deus chifrudo da
fertilidade, que ela denominou de Dianus (ela falou mais sobre ele em seu livro 'The
God of the Witches'). De acordo com ela, essa religião havia sobrevivido à perseguição
e continuava com suas práticas, de maneira oculta. Muitas críticas já foram feitas à
Murray, e a maioria se baseou na fraqueza de alguns de seus argumentos para
defender a suposta 'organização' dessa religião.

Hoje sabemos que ela não era tão organizada nem praticada em tantos lugares quanto
Murray sustentava, mas indubitavelmente existia um culto pagão, praticado de
formas diferentes em lugares diferentes, que sobreviveu à perseguição. Em 1948
Robert Graves escreveu sua excelente obra "A Deusa Branca" ('The White Goddess'),
no qual concordava com Murray quanto à existência de um culto pagão disseminado
pela Europa, mas apoiava a tese de que sua divindade mais importante era uma
Deusa-Mãe, e não o Deus de Chifres. Três anos depois, em 1951, caíram as últimas
leis anti-feitiçaria da Inglaterra.

A porta estava aberta para os bruxos. Surge então Gerald Gardner, o mais importante
personagem do renascimento da Bruxaria como religião. Gardner era um folclorista
inglês, amigo pessoal do grande mago Aleister Crowley. Admirador de Frazer e Murray,
realizava profundas pesquisas sobre os cultos de fertilidade pré-cristãos e sua
sobrevivência. No decorrer destas pesquisas, em 1939, conheceu um grupo de pessoas
que mais tarde descobriu fazerem parte de um Coven secreto (como o eram todos, na
época). Gardner ficou fascinado: a existência destes bruxos confirmava as teses de
Margaret Murray. Estabeleceu uma relação de amizade profunda com os membros
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deste Coven (denominado Coven de New Forest), e acabou por receber Iniciação. O
Coven de New Forest, dirigido por uma bruxa conhecida por 'Old Dorothy', era
representante de uma tradição que havia sobrevivido às perseguições.

Há quem insinue que Gardner inventou o Coven para dar bases à seu trabalho
posterior, e que Old Dorothy nem ao menos existiu. Essas declarações foram
brilhantemente refutadas com evidências históricas por Doreen Valiente, no ensaio
"Em Busca de Old Dorothy", publicado no livro 'The Witches' Way" ('O Caminho dos
Bruxos'), do casal Janet e Stewart Farrar.

Com o passar do tempo, Gardner preocupou-se com o futuro da Tradição, pois todos
os membros do Coven eram idosos, e não havia previsão de aceitar novos iniciados.
Ele não aceitou esse destino, e pediu permissão para publicar algumas práticas da
religião. Relutantes, os Sábios do Coven negaram. Mesmo assim, Gardner publicou,
em 1948, "High Magic's Aid", um romance no qual descrevia, sutilmente, alguns
rituais da Arte. A publicação do livro causou polêmica entre o Coven de New Forest, e
Gardner quase foi banido. Mas, com a queda das leis anti-feitiçaria, os Sábios do
Coven reviram sua posição e deram permissão a Gardner para afirmar que a Bruxaria
estava viva, desde que não revelasse nenhum segredo. Então, em 1954, Gerald
Gardner publicou o primeiro livro da Bruxaria Moderna: "Witchcraft Today", seguido
de "The Meaning of Witchcraft"(1959). Neles, Gardner afirmava estarem certas as
teorias de Murray, pois ele mesmo era um bruxo iniciado.

Os livros falavam apenas superficialmente sobre a Tradição que lhe havia sido
confiada, concentrando-se mais no aspecto histórico da religião. Paralelamente à
publicação dos livros, Gardner saiu do Coven de New Forest e iniciou seu próprio
Coven, iniciando pessoas que lhe pareciam sinceras e dedicadas. A essas pessoas,
transmitia integralmente o conteúdo de um manuscrito, por ele denominado de "Livro
das Sombras". Este livro continha integralmente a Tradição do Coven de New Forest,
mesclada a práticas mágicas retiradas da Clavícula de Salomão e dos escritos de
Crowley. Seu conteúdo, copiado por todo iniciado, passou a ser denominado de
Tradição Gardneriana, a primeira Tradição da Bruxaria Moderna. O 'Livro das
Sombras' Gardneriano teve três versões, conhecidas pelas letras A, B e C. O texto que
é utilizado atualmente pelos Covens Gardnerianos é o C, escrito por Gardner em
conjunto com uma de suas iniciadas, Doreen Valiente, responsável por grandes
mudanças no texto original. Valiente "paganizou" ao máximo os ritos e textos,
retirando qualquer influência de magia judaico-cristã ou textos escritos por Crowley.

Atualmente, a Gardneriana é a mais sigilosa de todas as Tradições modernas. Gardner


morreu em 1964, e o comando de seus Covens foi passado à Monique Wilson,
conhecida como Lady Olwen. Na década de 60, surgiu outro personagem importante
na história moderna da Arte: Alex Sanders, que recebeu o título de "Rei dos Bruxos".
Sanders era um grande interessado em bruxaria, que nunca havia conseguido
ingressar em um dos Covens Gardnerianos. De algum modo que até hoje não está
bem esclarecido, conseguiu tomar posse de um 'Livro das Sombras' Gardneriano.

Uniu o conhecimento do livro (provavelmente cópia do texto A) ao que afirmava ter


sido transmitido por sua avó, uma bruxa familiar. Sanders possuía um temperamento
completamente antagônico ao de Gardner. Era um especialista em marketing pessoal,
o que lhe deu extrema notoriedade. Milhares de pessoas foram iniciadas em seus
Covens, e ele aparecia em entrevistas em TV, rádio e jornais. Era tão público que foi
ameaçado de maldição por bruxos mais tradicionais, temendo que ele revelasse algum
grande segredo da Arte. Mas isto nunca ocorreu: Sanders era um "show-man", mas
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Wicca – Um caminho mágico
Marcelo Sette Câmara – (91) 9116-4215
não era burro. A Tradição Alexandriana, fundada por Alex Sanders, é muito
semelhante à Gardneriana. Sua principal diferença é a maior ênfase mágico-
cabalística, quase inexistente na Tradição de Gardner. Sanders morreu em 1988, mas
sua Tradição é uma das mais difundidas no mundo. Existe também uma Tradição
moderna denominada Alexandriana-Gardneriana (Al-Gard), que tenta conciliar os
ensinamentos de ambas, com a inclusão de novos elementos, em sua maioria de
origem céltica .Os maiores representantes públicos atuais da Al-Gard são Janet e
Stewart Farrar, da Irlanda.

Nos EUA, o primeiro bruxo a se manifestar publicamente foi o anglo-gitano Raymond


Buckland, iniciado por Gardner e Lady Olwen. Considerado pelo próprio Gardner um
de seus herdeiros, Buckland migrou para os Estados Unidos logo após a morte do
bruxo. Lá, ganhou notoriedade por seus livros sobre Ocultismo e por ser o fundador
da Tradição Saxônica da Bruxaria, a Seax-Wica. Nos Estados Unidos, com raras
exceções, a Arte ganhou um novo aspecto, inexistente na Bruxaria Européia: o aspecto
político. A Bruxaria uniu-se ao feminismo para gerar uma nova forma da Religião.
Surgiram então Covens denominados "Diânicos", formados só por bruxas. Algumas
das representantes da Bruxaria feminista americana são Starhawk, Zsuzsana
Budapest e Laurie Cabot. Com exceção da primeira, nenhuma delas é levada muito a
sério pelos bruxos tradicionalistas europeus, que julgam-nas produtoras de distorções
no verdadeiro espírito da Arte.

Instrumentos da Magia
Os instrumentos usados nos rituais da Wicca têm a sua origem perdida no tempo.
Eles são importantes focos de concentração e ferramentas para provocar alterações de
consciência, mas é preciso que se saiba exatamente o seu significado para que sejam
usados corretamente. Embora eles possam dar um toque de beleza e alegria aos
rituais, uma verdadeira Bruxa jamais deve ficar dependente deles, porque a verdadeira
Bruxa se faz com a mente e com o coração.

O Altar

Sempre que possível, uma Bruxa deve ter seu Altar, que deverá ser seu ponto de
ligação com os Deuses. Não precisa ser nada complicado ou luxuoso.
Tradicionalmente, ele deve ficar voltado para o Norte. Uma vela preta é colocada a
Oeste simbolizando a Deusa, e uma vela branca a Leste para o Deus (alguns wiccanos
as usam invertidas). No Altar deve estar o Cálice e o Athame, o Pentagrama, a Varinha
e outros objetos utilizados nos rituais. Também é comum se colocarem símbolos para
os Quatro Elementos, como uma pena para o Ar, uma planta para a Terra, uma vela
vermelha ou enxofre para o Fogo, e, logicamente, Água para esse mesmo Elemento.
Muitas pessoas colocam um símbolo para a Deusa e o Deus, como uma concha e um
chifre, ou mesmo estátuas e gravuras dos Deuses. Abuse da sua criatividade, pois o
Altar é o seu espaço pessoal, onde deve ser colocado todo o seu Amor. Se, por algum
motivo, você não puder montar um Altar onde você mora, crie um espaço na sua
imaginação, pois o verdadeiro Templo está dentro de você, ou vá para a Natureza e
faça dela o mais lindo de todos os santuários.

A Vassoura

A vassoura mágica, ao contrário das crenças populares, não é um instrumento em que


a bruxa “monta e sai voando”. Nossos vôos são apenas astrais. Seu cabo representa o
Deus, e seus pelos, a Deusa. Ela é utilizada antes de rituais, onde a bruxa varre todo
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o local, sem tocar a vassoura no chão, “limpando” apenas as energias negativas do
local. Esta é uma velha conhecida e amiga das Bruxas. Toda Bruxa que se preza tem
uma Vassoura. Ela representa a União das Energias Universais. Os pelos e o cabo
representam, respectivamente, os órgãos sexuais feminino e masculino. Havia um
ritual muito antigo em que as Bruxas saíam “cavalgando” as vassouras pelos campos
e dando grandes pulos, para que as plantas crescessem da altura de seus saltos.
Talvez daí tenha vindo a crença de que podiam voar. Também havia certos ungüentos
e plantas alucinógenas que provocavam a Viagem Astral, o que poderia dar a
impressão de estar voando.

E se as Bruxas tivessem algum modo de anular a gravidade? Talvez nós consigamos


resgatar esse conhecimento algum dia, mas não tente comprovar essa teoria,
especialmente se você mora em apartamento. A Vassoura pode ser decorada com
Símbolos Sagrados e ter a sua Assinatura Mágica. Antes do ritual, ela é usada para
varrer o local onde ele será realizado, representando a limpeza espiritual de toda
Energia Negativa.

Esse varrer é mais do que uma limpeza física, na verdade não precisa nem encostar os
pelos da vassoura no chão. O wiccano pode apenas visualizar os excessos astrais que
surgem onde as pessoas vivem. Ela também serve de ponte entre o espaço do círculo e
o mundo exterior, isto é, ela pode ser colocada deitada num ponto, e, se alguém
precisar sair, pode fazê-lo pulando a Vassoura sem quebrar o círculo, e procedendo da
mesma forma ao voltar.

É bom saber que crianças e animais podem entrar e sair do círculo sem quebrá-lo. Em
algumas tradições, a Sacerdotisa cavalga a vassoura ao redor do Caldeirão. Isso pode
ser muito engraçado, mas os Deuses da Wicca têm muito bom humor e não fulminam
ninguém que dê algumas risadas durante o ritual. Em algumas cerimônias de
Casamento, os noivos pulam a vassoura como símbolo de sorte e felicidade (em
casamentos de escravos na América como também nas núpcias ciganas).

Na Bruxaria Italiana, chamada Stregeria, Bruxas não voam em Vassouras, e sim, em


bodes pretos. A vassoura já era sagrada desde a antiguidade, no México pré-
colombiano uma espécie de deidade-bruxa, Tlazelteolt era representada nua voando
em uma vassoura. Já os chineses cultuam uma deusa das vassouras que é invocada
para trazer bom tempo em períodos de chuva. Provavelmente devido a seu formato
fálico ela se tornou um poderoso instrumento contra pragas e praticantes de magia
negra. A vassoura utilizada para magia, deve ser reservada para esse único fim.

A Túnica

Embora muitos "Covens" (reunião de 13 pessoas praticantes da wicca – em alguns


casos mistos e em outros somente mulheres) prefiram trabalhar “vestidos de céu”, ou
seja, completamente nus, existe a opção de se usar a Túnica, tradicionalmente negra.
A cor negra isola as energias negativas, sendo ótima para ser usada quando se tem
contato com grandes multidões ou pessoas negativas, pois impede que a sua energia
seja "vampirizada". A cor negra não tem nenhuma ligação com o Mal, como se
costuma pensar erroneamente. Ela representa o Útero Universal, do qual nasceu toda
a Luz, a escuridão da Terra onde germinam as sementes. Porém, não se deve usar
somente a cor negra, pois precisamos da vibração de todas as cores.

Trabalhar nus ou com Túnicas deve ser uma escolha do grupo. Deve-se ter o cuidado
para que a nudez não atraia pessoas mal-intencionadas. A nudez deve ser um sinal de
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pureza, de libertação de nossos medos e tabus. Para tanto, é preciso ter um coração
puro diante dos Deuses e dos nossos semelhantes, trabalhando muito bem com
nossos corpos. É impossível se trabalhar inibida pela nudez, o que tornará o ritual
totalmente improdutivo. Se esta for a situação, é melhor usar uma Túnica, mas, com o
tempo, é preciso superar esses bloqueios, pois eles são frutos de uma moral Judaico-
Cristã repressiva, sendo que a nudez deve ser encarada como algo natural.

A Varinha

A varinha é usada para traçar o círculo em um ritual (assim como o athame), para
dirigir encantamentos e para trabalhos de invocação. Ela deverá ser feita da madeira
de sua árvore predileta - Você deverá cortar um delgado galho e deixar no lugar
pedaços de unha, alguns fios de cabelo ou qualquer outra oferenda que ligue a árvore
a você. A Varinha Mágica tem o mesmo simbolismo do Athame, embora segundo
algumas tradições esteja mais ligada ao elemento Fogo. Tradicionalmente, ela deve ser
feita de uma árvore sagrada como a Aveleira, o Carvalho ou a Macieira, embora
qualquer árvore pode servir, desde que você tenha por ela alguma predileção ou
ligação emocional. O galho da árvore deve ser cortado na Lua Crescente, e antes
sempre se deve pedir a autorização da árvore. Depois de cortado o galho, deve-se
deixar alguma oferenda em agradecimento. Ainda hoje, as Bruxas seguem esse
procedimento, deixando mel e leite para as Fadas e Elementais, e um pouco de comida
para os pássaros, grãos, pedras, cristais de quartzo, etc.

A Varinha pode ser enfeitada com símbolos, fitas, cristais ou algum objeto pessoal. O
bastão é um instrumento de invocação, a Deusa e o Deus podem ser chamados para
assistir o ritual por meio de palavras e de um bastão erguido. Serve também para
desenhar símbolos, círculo no solo, para indicar a direção do perigo se equilibrado na
palma da mão ou no braço de um bruxo ou mesmo para mexer um preparo no
caldeirão. Para alguns wiccanos o bastão representa o elemento ar. O corte do bastão
para alguns wiccanos deve ser do tamanho do cotovelo até a extremidade do
indicador. O tipo de madeira recomenda-se salgueiro, sabugueiro, carvalho, macieira,
pessegueiro, avelã e cerejeira, porém deve-se pedir permissão para o corte e deixar
uma oferenda após o corte, que nunca deve exceder 25% do tamanho da planta. Caso
não encontre nenhuma das madeiras acima, o bastão pode ser de qualquer tipo de
madeira e até comprado. Não se preocupe com a busca do bastão ideal, ele virá até
você. Qualquer tipo de madeira será imbuída com energia e poder.

O Caldeirão

Instrumento feminino, simboliza o Útero Sagrado, onde todas as coisas são geradas.
Quando um bruxo deseja que algo se transforme ou que germine, ele “põe essa coisa
no caldeirão” (através de símbolos, imagens ou representações). Tradicionalmente, ele
é negro e possui três pernas, que simbolizam os três aspectos da Grande Mãe: Virgem,
Mãe e Anciã. Embora algumas tradições discordem, o Caldeirão é o instrumento mais
importante e significativo para as Bruxas. Ele representa o Útero da Grande Mãe, ou
seja, a origem do Universo e de toda a Vida. Dele viemos e para ele retornaremos
eternamente. É no Caldeirão que as Bruxas preparam os feitiços, as poções e acendem
o fogo para os rituais, quando não é possível acender uma fogueira ao ar livre. Nele se
realiza a Grande Alquimia Universal. Em muitos feitiços ele pode conter água ou vinho
energizado pela Luz da Lua. De preferência, ele deve ser de ferro, com três pés,
representando os três aspectos da Deusa. Na falta de um caldeirão, uma panela ou
tigela pode substituir, desde que não seja de material sintético, como teflon, plástico
ou alumínio.
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Wicca – Um caminho mágico
Marcelo Sette Câmara – (91) 9116-4215
Está ligado ao elemento Água. As lendas celtas acerca do caldeirão de Cerridwen
tiveram grande impacto na wicca contemporânea. O caldeirão geralmente é o ponto
central dos rituais. O caldeirão pode ser um instrumento de scrying (contemplação) ao
ser cheio de água e ter seu fundo escuro observado. E também para preparar as
famosas bebidas wiccanas, mas tenha em mente que você vai precisar de um fogo
forte e muita paciência para ferver líquidos em caldeirões grandes.

O Punhal ou Athame

Instrumento masculino que é utilizado na abertura de círculos, em rituais de


invocação e expulsão e para traçar o pentagrama. Ele deve ter dupla face e um cabo
preto, a fim de armazenar alguma energia. Tradicionalmente ele tem a forma de uma
lua crescente; porém pela dificuldade de encontrar tal punhal, qualquer um poderá
ser utilizado. Tradicionalmente, o punhal da Wicca é de lâmina dupla com cabo preto,
sendo chamado Athame (pronuncia-se átame), uma palavra de origem incerta que
significa “O que não morre”. Ele representa a energia masculina, sendo um símbolo
fálico dentro do ritual. Ele é utilizado para abrir círculos, e, durante a Consagração, é
introduzido no Cálice para simbolizar a União do Deus e da Deusa. Os ramos mais
tradicionalistas substituem o Punhal pela Varinha Mágica, alegando que ele foi
introduzido recentemente na Wicca, não fazendo parte dos instrumentos tradicionais.

O mesmo se diz da Espada, pois ele é um instrumento de Magia Cerimonial, que nada
tem a ver com a Bruxaria. Na falta de um Athame clássico, qualquer faca serve para o
mesmo fim, desde que não tenha sido usada para tirar qualquer tipo de vida ou
derramar sangue. Caso não queira usar o Punhal, abra o círculo com a Varinha, um
Cristal, ou mesmo com o dedo, como se e faz na Wicca Irlandesa, conhecida como
Witta.

O Athame não é utilizado como instrumento de corte na Wicca, mas sim para
direcionar a energia gerada durante os ritos e encantamentos. Raramente é utilizada
para invocar ou chamar as deidades, pois é um instrumento de comando e
manipulação de poder. Normalmente é cega, de fio duplo e com cabo preto ou escuro.
O preto absorve poder. Alguns wiccanos entalham símbolos mágicos em suas facas,
normalmente tirados da Chave de Salomão, mas isso fica a seu critério. Como em
muitos instrumentos de magia, a faca se torna poderosa com seu toque e sua
utilização. É um instrumento que causa mudanças e assim associado ao elemento
fogo.

Faca de cabo branco

Também chamada de Bolline - é uma faca prática, de trabalho, ao contrário da faca de


cabo escuro que é puramente ritualística. É utilizada para cortar galhos, ervas,
cordas, flores e plantas em geral.

Cálice ou taça

Outro instrumento feminino, também simboliza o Útero Divino. É utilizado para a


consagração do vinho, e em rituais, junto ao punhal, para representar a sagrada
união (quando o sacerdote ou sacerdotisa insere o athame dentro do cálice com
vinho). Associado ao mito do Santo Graal, o Cálice é usado para consagrar e beber o
vinho dos rituais, tendo o mesmo simbolismo do caldeirão.

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Ele foi introduzido na Wicca em época mais recente. Em algumas tradições mais
puristas é substituído por uma concha ou um chifre, onde se toma o vinho. Ele
também pode ser substituído por uma taça, ou mesmo um copo, desde que não seja
de material sintético. Da mesma forma que o Caldeirão, liga-se à Água.

Bola de Cristal

São extremamente populares hoje em dia, porém a maioria encontrada no mercado é


feita de vidro temperado e não cristal. As de cristal além do custo relativamente alto,
você pode perceber incrustações ou irregularidades. Nós wiccanos utilizamos os
cristais posicionados no altar, para representar a Deusa.

Pentagrama

O pentagrama representa os quatro elementos, terra, água, fogo e ar, sendo guiados
pelo quinto elemento, o espírito (Éter). Sempre que possível, use-o perto de você, seja
em forma de amuleto, jóia ou qualquer outro. Embora muitos achem que o
Pentagrama não pertença originalmente à Bruxaria, ele se tornou um de seus maiores
símbolos. A Estrela de Cinco Pontas representa as quatro Energias Formadoras do
nosso Planeta, isto é, Água, Fogo, Terra e Ar, mais o quinto Elemento, que é o Espírito.
Usado com uma ponta para cima, ele é o símbolo da magia Benéfica, onde a Energia
do Espírito controla as quatro Energias Formadoras da Matéria.

Muitos Satanistas usam o Pentagrama com duas pontas para cima, significando o
triunfo da Matéria sobre o Espírito, ou a vitória do Mal sobre o Bem. Deve-se lembrar
que, originalmente, o Pentagrama com duas pontas para cima representava o Deus
Cornífero, e o Útero da Grande Mãe por sua semelhança com um útero e duas
trompas. Só depois do advento do Cristianismo ele foi desvirtuado como símbolo do
Mal. Quase todas as Bruxas usam um Pentagrama no pescoço, como símbolo de sua
religião, mas isso não é nenhuma obrigação.

Livro das Sombras

Todo o bruxo deverá ter, uma espécie de “diário” onde registrará todos seus
conhecimentos e descobertas no ramo da magia. Quando um bruxo falece, seu livro
ou é entregue a familiares ou é guardado em seu coven ou é queimado, para guardar o
Segredo da Arte.

Outros elementos

Além desses, também são utilizados incensários, cristais, espadas, velas e outros
símbolos. Use e abuse de sua criatividade quando for montar um altar. Lembre-se de
homenagear os elementos, colocando incenso para o ar, água representar a ela
mesma, enxofre para o fogo e um pouco de terra, ou o galho de uma árvore para o
elemento Terra. Também utilize símbolos para os Deuses, como por exemplo uma
concha para Afrodite e uma maçã para Dioniso. Seu altar é algo particular - assim, só
você poderá decidir o que colocar nele. Também fazem parte da Wicca outros
instrumentos como o Sino para abrir e fechar rituais, Castiçais e outros objetos
opcionais. Muitos Covens tocam instrumentos musicais. Enfim, o melhor é usar a
imaginação para criar seus rituais.

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Wicca – Um caminho mágico
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Insensário

É um queimador de incenso. Você pode comprar seu incensário ou confeccioná-lo. O


mesmo pode ser feito com material simples e barato. Pode ser feito com uma simples
concha do mar, um taça, pote com areia ou sal até a metade, use sua criatividade e
intuição para a confecção do seu incensário. A utilização de incensos em rituais e em
magias é uma arte em si só e por si só.

Na magia cerimonial, às vezes pede-se a aparição de “espíritos” por meio da fumaça


dos incensos. Mesmo não sendo uma característica da Wicca, por vezes pode-se ver o
Deus e a Deusa no enrolar da fumaça. Rituais wiccanos celebrados no interior de
prédios não serão completas sem a utilização de incensos, já ao ar livre, uma fogueira
pode substituí-los. Para alguns wiccanos o incensário representa o elemento ar e
pode-se ser posicionado no altar em frente às deidades (se houver).

Diário Mágico

Devemos buscar, antes de mais nada, o conhecimento de nós mesmos para que nosso
caminho dentro da Magia se inicie sem que nos “pregue peças” no futuro. Para que
venhamos a nos conhecer realmente, devemos conhecer tanto nosso lado positivo
quanto o negativo, e nada melhor para isso do que adotar um Diário Mágico.

Mas o que vem a ser um Diário mágico? Pode ser um caderno comum, pautado ou
não, que pertence somente a você. Devido à sua natureza, não deve ser mostrado a
ninguém, nem mesmo à pessoa que você mais ama, pois é extremamente pessoal. O
importante é ser realmente fiel e crítico, mesmo duro, consigo mesmo para que o efeito
seja o desejado.

Comece separando o diário em três partes distintas e as nomeie da seguinte forma:

o Pontos Negativos;
o Pontos Positivos;
o Análise.

Pontos Negativos: Busque tomar nota de todos os seus pontos negativos, desde
seus defeitos, hábitos, paixões, impulsos ou traços desagradáveis de seu caráter.
Nessa parte você deve ser fiel consigo mesmo, e evitar “camuflar” pontos que são
negativos. Volte atrás no tempo, até onde sua memória permitir, visualize os fatos
marcantes de sua vida e anote tudo o que você considerar como negativo, mesmo os
fatos mais insignificantes. Veja onde estão seus defeitos e em que você errou em uma
determinada situação. Veja as repercussões que seu ato nessas situações levaram.
Caso os pontos negativos se repitam em situações diferentes, anote-os também,
mesmo em duplicidade.

Quanto mais você descobrir melhor. Nada deve permanecer oculto ou velado. Lave a
sua alma até que se purifique totalmente, dê uma boa varrida em tudo que é negativo.
Para tanto, dedique alguns minutos de seu tempo, pela manhã e à noitinha, ou nos
momentos livres de seu dia. Use esse tempo para refletir e tentar descobrir se ainda
há alguns defeitos escondidos, e ao descobri-los passe-os imediatamente para o papel,
e que nenhum deles fique esquecido. Caso apareça um novo, desconhecido, não
hesite, anote-o imediatamente. Use de uma a quatro semanas, pois o importante é que
o registro seja realmente fiel.

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Pontos Positivos: Utilize o mesmo esquema acima, mas anotando seus pontos
positivos. Veja as conseqüências positivas de seus atos e o bem que trouxeram
para você e/ou para os outros. Utilize também de uma a quatro semanas, sendo o
mais fiel possível.

Análise: Nesse ponto, faça uma separação, uma triagem nos pontos negativos e
positivos, separados por colunas. Nesse momento, os pontos positivos e negativos que
se repetirem devem ser colocados de forma que fiquem juntos. Por exemplo, se um de
seus pontos negativos é o egoísmo, e ele surgiu em vários momentos diferentes de sua
vida, selecione-os e repita na análise quantas vezes for necessário.No final, quando
todos os pontos negativos e positivos estiverem devidamente catalogados, você terá
uma visão panorâmica de seu verdadeiro interior. E você poderá passar à segunda
fase do exercício.

Segunda parte

Busque atribuir para cada um de seus pontos negativos e positivos um dos quatro
elementos – Fogo, Ar, Terra e Água. Aqueles em que houver alguma dúvida, considere
como indiferente. Não se preocupe pois à medida em que for fazendo o exercício você
conseguirá determinar o elemento correspondente.

Por exemplo:

Pontos Negativos

Fogo: Irritação, ódio, ciúmes, vingança, ira, etc.


Ar: Leviandade, fanfarronice, supervalorização do ego, bisbilhotice, negligência.
Água: Indiferença, frieza de sentimentos, transigência, negligência, timidez, teimosia.
Terra: Preguiça, falta de consciência, lentidão, melancolia, etc.

Pontos Positivos

Fogo: Atividade, entusiasmo, determinação, ousadia, coragem, etc.


Ar: Esforço, alegria, agilidade, bondade, prazer, otimismo, etc.
Água: Sensatez, sobriedade, fervor, compaixão, serenidade, perdão, Ternura.
Terra: Atenção, perseverança, escrupulos, pontualidade, responsabilidade, etc.

Depois de tudo feito, use a semana seguinte, reflita sobre cada um dos elementos e
divida-os em três grupos. No primeiro coloque os defeitos mais evidentes, que
possuem mais força e que surgem na primeira oportunidade ou ao menor estímulo. No
segundo grupo coloque aqueles defeitos que surgem mais raramente e com menos
força. E no terceiro coloque aqueles defeitos que chegam só de vez em quando e em
menor escala.

Assim você terá dois Espelhos Astrais da alma, um negro com as características
ruins, e um branco com os traços bons e nobres do seu caráter. Esses dois espelhos
mágicos devem ser considerados como dois autênticos Espelhos Ocultos, e ninguém
tem o direito de olhar para eles. Caso lhe ocorra, ao longo do seu trabalho de
evolução, mais uma ou outra característica boa ou ruim, ainda poderá incluí-la
sob o elemento correspondente. Esses dois espelhos mágicos dão ao mago a
possibilidade de reconhecer, com bastante precisão, qual dos elementos é o
predominante em seu caso, o espelho branco ou negro.

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Wicca – Um caminho mágico
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Esse reconhecimento é necessário para alcançar um equilíbrio mágico e o benefício
que se obtém através desse Diário Mágico, é que você (se for honesto consigo mesmo
na execução do exercício) passará a se conhecer de uma forma mais completa, e
poderá trabalhar tanto seu lado negativo como o positivo, o que o ajudará a crescer de
uma forma mais completa. Além disso, você aprenderá a reconhecer os momentos em
que poderá executar seu Ritual e feitiço sem a interferência de sentimentos negativos
que podem prejudicar, de alguma forma, seus resultados. Esse exercício também dará
a você um ponto de partida para conhecer e trabalhar seu “lado negro”.

O Coven

Muitos se perguntam se é melhor ser uma Bruxa Solitária ou fazer parte de um Coven.
Isso depende do temperamento de cada um. As duas coisas têm suas vantagens e
problemas. Trabalhando sozinho, você tem liberdade e autonomia, sem depender da
opinião do grupo. Por outro lado, dentro de um Coven, você pode encontrar amizades
e pessoas com quem dividir suas idéias e dificuldades, pessoas mais experientes para
lhe ensinar e muita alegria nos rituais.

Cabe a você determinar sua forma de trabalho, pois a energia só flui num clima de
muita alegria e descontração. O mais comum é encontrarmos pessoas que
comemoram os Sabaths em grupo, mas mantêm um trabalho independente como
Bruxo Solitário. Para se trabalhar num Coven é preciso que haja total afinidade entre
os membros. Todas as opiniões devem ser ouvidas para que se chegue a um consenso.

O Coven é formado por 13 pessoas, cada uma representando um mês do ano, pois,
nas Sociedades Matrifocais, o ano segue o Calendário Lunar de 13 meses de 28 dias,
mais um dia, no total 365 dias. Daí vem a expressão “Um Ano e um Dia”, pois,
quando é iniciada, a pessoa estuda durante esse período para, depois, confirmar
seus votos. Não é necessário que se tenha 13 pessoas no Coven, pois é melhor se
trabalharem duas ou três pessoas afinadas do que uma multidão que não se entende.

Um Coven problemático é uma grande dor-de-cabeça, e nenhuma energia positiva


consegue fluir nessas condições. Ao atingir mais que 13 membros, algumas pessoas
do Coven podem optar por formar seus próprios grupos interligados, dando origem ao
que se chama de Clã. Dentro do Clã, todos os Covens mantêm a sua independência e
trocam informações. Num Coven, todas as pessoas são iguais.

Muitas vezes, usa-se expressões no feminino. Isso não deve ser visto como se o
homem fosse menos importante para a Wicca. Deve haver um equilíbrio entre as
energias masculina e feminina para que haja harmonia em nossas vidas. Os covens
possuem graus hierárquicos, dependendo de coven para coven. Normalmente os
membros são:

o Alta Sacerdotisa: a líder feminina de um coven, normalmente de terceiro grau.


Ela representa a Deusa em um ritual e dá a palavra final em um círculo.
o Alto Sacerdote: o líder masculino de um coven, normalmente de terceiro grau.
Representa o Deus em um ritual.
o Anciã(o): um membro do coven que mereceu seu terceiro grau e que seja ou
tenha sido uma Alta Sacerdotisa ou Sacerdote em seu próprio coven.
o Terceiro grau: completa e total dedicação aos Deuses e à comunidade Wicca.
o Segundo grau: completou seu primeiro grau e é qualificado para ensinar
estudantes do primeiro grau. É o grau do verbo: “fazer”.

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Wicca – Um caminho mágico
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o Primeiro grau: aquele que se dedicou a aprender a Arte. Esse é o grau do
verbo: "saber".
o Dedicado: aquele que está aspirando o primeiro grau e decide se dedicar ao
caminho da Wicca.
o Neófito: uma pessoa interessada em Wicca, mas que ainda não sabe nada.

Os covens devem escolher uma Alta Sacerdotisa e Sacerdote que sejam democráticos e
bons, além de justos e sábios porque não importa o que os outros membros do coven
falem é a Alta Sacerdotisa quem dá a palavra final, mesmo que essa seja contra todos
os outros.

Os rituais são feitos após o crepúsculo, seguindo a Roda do Ano. Caso se trate de
um ritual para a realização de um Feitiço, é melhor seguir as tabelas de Horário
Planetário, mas sem se prender demasiadamente a eles, pois nem sempre se pode
fazer o Ritual no dia e hora mais propícios. O Coven pode fazer alguma visualização ou
alguma atividade relacionada com o Sabá ou Feitiço a ser realizado. Logo após, a
Sacerdotisa e o Sacerdote realizam a Consagração do Vinho.

Exemplo de um ritual em um coven para uma celebração:

A Sacerdotisa segura o Cálice com ambas as mãos e diz:

o Este é o Útero da Grande Mãe. Dele todas as coisas do Universo foram criadas.

Então, o Sacerdote segura o Athame com as duas mãos e introduz a ponta no Cálice,
tocando levemente o vinho, enquanto diz:

o Este é o Falo Divino. Este é o Poder da Fertilidade.

A Sacerdotisa diz:

o A União da Deusa e do Deus foi feita. Toda a vida foi criada. Abençoado seja o
Amor dos Deuses.

Todo o Coven responde:

o Abençoado seja.

O Sacerdote retira o Athame do Cálice, beija a lâmina e recoloca no Altar. A


Sacerdotisa derrama um pouco de vinho no Caldeirão (ou no chão, se o ritual for ao ar
livre). Isto é chamado Libação, e representa uma oferenda aos Deuses. Depois, ela
bebe um gole de vinho, dá o Cálice ao Sacerdote, que, após beber, passa aos outros
membros do Coven. O último a beber devolve o Cálice à Sacerdotisa, que deve
recolocá-lo no Altar. As funções do Sacerdote e da Sacerdotisa podem mudar durante
a Consagração, mas, nesse caso, se o Sacerdote segura o Cálice, ele deve se ajoelhar
diante da Sacerdotisa. Todos os membros devem beber vinho e comer um pedaço de
pão, quando o ritual exigir que ele seja compartilhado. Nesse caso, o primeiro pedaço
também deve ser jogado no caldeirão como oferenda. Depois da Consagração, os
membros podem queimar suas oferendas e pedidos no Caldeirão.

Nessa hora, todos devem dar as mãos e girar ao redor do fogo, para criar o Cone do
Poder. Esse é o nome da Grande Massa de energia criada durante o Ritual. Ela circula
pelos corpos energéticos de todos os membros do Coven e se junta num ponto acima
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Wicca – Um caminho mágico
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do Círculo. Essa concentração de energia recebeu esse nome porque os videntes dizem
enxergá-la em forma de cone, de onde vieram as representações de Bruxas e Magos
usando chapéus pontudos. Muitos dizem que essa forma auxilia a captação de poder,
como acontece nas pirâmides.

Se você quiser testar é só fazer uns chapéus em forma de cone para o seu grupo. Se
não ajudar em nada, pelo menos é bem divertido. Cabe à sacerdotisa perceber quando
o nível de energia atingiu um nível satisfatório. Então, ela ergue os braços e todos
imitam o seu movimento, lançando o Cone em direção ao Universo, para que seus
objetivos sejam realizados.

Depois de enviado o Cone, todos devem entrar numa fase de relaxamento, onde se
pode dançar, ler poesias ou simplesmente partir para os Bolos e Vinho. Esse
compartilhar de alimentos é uma das partes mais importantes do Ritual, pois é
através da sua Alegria que você faz a verdadeira Comunhão com os Deuses. O Ritual
não deve ter muitas formas rígidas. Cada um deve criar a sua própria forma de
chamar os Deuses. Não se desespere caso você gagueje ou esqueça aquele belo ritual
decorado. Dê umas boas risada e vá em frente.

Se você não tem senso de humor, esqueça a Wicca, pois você nunca será uma Bruxa.
Isto não quer dizer que você possa entrar no Círculo para fazer palhaçadas, sem
nenhum respeito aos Deuses. A Bruxaria tem seus momentos de descontração e
seriedade. Cabe a você saber diferenciar as situações. Quando o grupo decidir
terminar o Ritual, as pessoas que evocaram os Deuses devem agradecê-los e se
despedir. A mesma pessoa que traçou o círculo deve destraça-lo, fazendo o traçado no
sentido oposto, e também deve se despedir de todas as entidades que foram
convidadas e agradecer sua ajuda, dizendo:

o Pelo Amor do Deus e da Deusa, pelos Guardiões dos Quatro Quadrantes, eu


destraço este Círculo Sagrado. Ele está Aberto, mas não Quebrado. Que ele seja
enviado ao Universo.

o Feliz encontro, feliz partida, feliz encontro novamente. Que assim seja, para o
Bem de Todos.

É muito importante a criatividade nos Rituais. Eles não devem ser interrompidos, e,
salvo em caso de necessidade, nenhum membro deve sair do Círculo até o final. Se
isso tiver que ser feito, deve-se pular a Vassoura para não quebrá-lo, pois, se isso
ocorrer, todo o Ritual de Abertura terá que ser feito novamente. Quem tiver algum
problema de Saúde não deve participar dos Rituais. Se alguma pessoa se sentir mal,
deve sair imediatamente do Círculo. Grávidas, pessoas idosas ou muito jovens devem
ter cuidados especiais.

Pode-se iniciar as pessoas no Coven a partir dos 13 anos, ou, no caso das meninas,
após a primeira menstruação. Não é comum crianças pequenas nos Rituais, mas elas
podem participar de alguns Rituais em família. Para os que têm filhos, é aconselhável
que se criem Rituais leves para que as crianças conheçam os Deuses e desenvolvam
seu Amor pela Natureza. Um exemplo seria criar um Ritual simples para que as
crianças consagrassem um jardim ou pedissem aos Deuses proteção para seus
bichinhos de estimação.

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A Bruxa Solitária deve seguir os mesmos passos dados acima, com a diferença de que
ela mesma consagrará o Vinho e dançará em volta do Caldeirão para formar o Cone do
Poder. Não se preocupe, pois você, desde que tenha a necessária concentração, poderá
formar um Cone do Poder tão bom quanto um grupo de várias pessoas, especialmente
se elas não estiverem em sintonia. Se a pessoa estiver sendo iniciada num Coven, ela
deve ser trazida para dentro do Círculo e iniciada pela Sacerdotisa ou Sacerdote. Fará
os votos e prometerá nunca revelar os nomes mágicos de seus companheiros do
Coven. Em muitos Covens, a pessoa é apresentada aos Quatro Quadrantes, enquanto
a Sacerdotisa desenha com o dedo um Pentagrama em sua testa e em seu coração.
Então, a pessoa revela seu Nome Mágico para o Coven e recebe seu Athame, seu
Pentagrama e outros símbolos do Coven.

Cada grupo deve criar seu próprio Ritual de Iniciação, mas procurando evitar coisas
como vendar os olhos, amarrar ou encostar o Punhal no peito das pessoas, pois isso é
bastante desagradável. O Ritual de Iniciação é uma ocasião festiva e não um trote de
faculdade. Depois de Iniciada, a pessoa passará por um período de Um Ano e Um Dia
de estudos para depois confirmar seus votos. Se, em algum momento, ela decidir
deixar o Coven, poderá fazê-lo sem sofrer pressões, ameaças ou maldições.

O Coven não poderá fazer com que ninguém jure coisas absurdas nem interferir na
vida particular de seus membros. Isto não cabe dentro da Wicca, e só pessoas
desequilibradas agem dessa forma. Todas as pendências devem ser resolvidas durante
os Esbaths, de maneira amigável, e nunca durante os Rituais. Toda Bruxa deve ter a
sua vida solitária fora do Coven, sendo que este não deve se responsabilizar ou
intrometer nessas atividades. O Coven não pode exigir dinheiro para que as pessoas
sejam iniciadas ou assistam aos rituais, mas é lícito que os membros contribuam para
a manutenção do grupo e cobrem por serviços como cursos, palestras, atendimento
através de oráculos, etc., visto que o grupo sempre precisará de fundos para se
manter, funcionando como uma cooperativa.

Tradições
Falar sobre Tradição não é um assunto simples dentro da Wicca. De acordo com o
dicionário “Tradição é um método específico de ação, atitude ou ensinamentos que são
passados de geração para geração”. Seu significado é um pouco mais completo dentro
da Wicca, pois consiste em um conjunto específico de rituais, ética, instrumentos,
liturgia e crenças que são passados para os iniciados de um determinado coven. A
Wicca é uma Religião que possui diversas Tradições. Cada Tradição possui sua
própria estrutura, rituais, liturgias, mitos próprios que são passados de praticante
para praticante. Mas todas elas seguem um mesmo princípio:

o A celebração da Deusa e do Deus através de rituais sazonais ligados à Lua e


ao Sol, os Sabaths e Esbaths.

o O respeito à Terra, que é encarada como uma manifestação da própria


Deusa.

o A magia é vista como uma parte natural da Religião e é utilizada com


propósitos construtivos, nunca destrutivos.

o O proselitismo é tido como inadmissível.

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Modificada de uma Tradição para outra, a filosofia, os ritos, as concepções são
diversas e diferentes e isso acontece, às vezes, dentro de uma mesma linha. Com uma
certa freqüência, algumas Tradições não reconhecem um iniciado em outra, o que faz
com que muitos participantes da Wicca se iniciem em mais de uma Tradição distinta.
Existem alguns pontos divergentes entre as diversas Tradições, como por exemplo o
Livro das Sombras. Cada uma possui seu próprio onde são descritos seus Ritos
sagrados e as idéias sobre a Divindade. Em alguns casos é comum os integrantes de
uma Tradição afirmar que o seu Livro é o único descendente do primeiro Livro das
Sombras redigido. Outro ponto de divergência entre as Tradições relaciona-se à
hierarquia. Algumas são extremamente hierárquicas, enquanto em outras a hierarquia
é inadmissível e tida como tabu.

Algumas Tradições aceitam e incentivam seus membros a praticarem Bruxaria


sozinhos, enquanto em outras é terminantemente proibido a prática mágica de
qualquer tipo fora do Coven e sem a supervisão do Alto Sacerdote ou da Alta
Sacerdotisa. Isto acontece porque na Wicca não existe nenhum dogma ou liturgia fixa
e na maioria das vezes o único ponto em comum que une as inúmeras Tradições é a
crença na Deusa, criadora de tudo e de todos e a supremacia Dela em seus cultos.

Devido à grande quantidade de tradições existentes, e da pouca ou nenhuma


informação disponível sobre elas, torna-se difícil escolher uma definida. Embora todas
possuam pontos positivos e “negativos” e existam algumas bem recentes não consegui
ainda optar por uma específica, principalmente pela falta de informação. Não vejo um
motivo que impeça de se criar uma nova Tradição, unindo todas ou parte de todas, ou
ainda criando novos conceitos, isso deve ficar a cargo de cada um.

Algumas Tradições

Por necessidade, estas definições são gerais, pois cada Bruxo mesmo que faça parte de
uma Tradição específica poderia definir seu caminho como sendo diferente.

Tradição 1734:

Tipicamente britânica é às vezes uma Tradição eclética baseado nas idéias do poeta
Robert Cochrane, um auto-intitulado Bruxo hereditário que se suicidou através da
ingestão de uma grande quantidade de beladona. 1734 é usado como um criptograma
(caracteres secretos) para o nome da Deusa honrada nesta tradição.

Tradição Alexandrina:

Uma Tradição popular que começou ao redor da Inglaterra em 1960 e foi fundada por
Alex Sanders. A Tradição Alexandrina é muito semelhante à Gardneriana com
algumas mudanças menores e emendas. Esta Tradição trabalha à maneira de Alex e
Maxine Sanders, que diziam terem sido iniciados por sua avó em 1933. A maioria dos
rituais são muito formais e embasados na Magia cerimonial. É também uma tradição
polarizada, onde a Sacerdotisa representa o princípio feminino e o Sacerdote o
princípio masculino. Os rituais sazonais, na maior parte são baseados na divisão do
ano entre o Rei do Azevinho e o Rei do Carvalho e diversos dramas rituais tratam do
tema do Deus da Morte/Ressurreição. Como na Tradição Gardneriana a Sacerdotisa é
elevada à autoridade máxima. Entretanto, os precursores para ambas Tradições foram
homens. Embora similar a Gardneriana, a Tradição Alexandrina tende a ser mais
eclética e liberal. Algumas das regras estritas Gardnerianas, tais como a exigência do
nudismo ritual, são opcionais.
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Alex Sanders intitulou-se a certa altura “Rei das Bruxas”, considerando que o grande
número de pessoas que tinha iniciado na sua tradição lhe dava esse direito. Nem os
seus próprios discípulos o levaram muito a sério, e para a comunidade Pagã no geral
esse título foi apenas motivo de troça, quando não de repúdio. Janet e Stewart Farrar
são os mais famosos Bruxos que divulgaram largamente a Tradição Alexandrina em
suas publicações.

Tradicional Britânica:

Uma Tradição com uma forte estrutura hierárquica e graus. Os Rituais estão
centrados na Tradição Céltica e Gardneriana.

Wicca Céltica:

Uma Tradição muito telúrica, com enfoques na natureza, os elementos e elementais,


algumas vezes fadas, plantas, etc. Muitas “Bruxas Verdes” (Green Witches) e Adeptos
do Druidismo seguem este caminho, centrado no panteão Céltico antigo e em seus
Deuses e Deusas.

Tradição Caledoniana ou Caledonni:

Uma tradição que tenta preservar os antigos festivais dos escoceses e às vezes é
chamada de Tradição Hecatina.

Tradição Picta:

É uma das manifestações da Bruxaria tipicamente escocesa. Na maioria das vezes é


uma forma solitária da Arte. Seu enfoque prático é basicamente mágico e possui
poucos elementos religiosos e filosóficos.

Bruxaria Cerimonial:

Usa a Magia cerimonial para atingir uma conexão mais forte com as divindade e
perceber seus propósitos mais altos e suas habilidades. Seus Rituais são
freqüentemente derivações da Magia Cabalística e Magia Egípcia. Embora certamente,
mas não de forma intencional, este caminho é infestado freqüentemente por egoístas e
pessoas inseguras que usam a Magia Cerimonial para duas finalidades (adquirir tudo
aquilo que querem, atingir níveis mais altos para poderem olhar de cima). Estes
atributos não são uma regra em todos os Bruxos Cerimoniais, e há muitos Bruxos
sinceros neste caminho.

Tradição Diânica:

Algumas Bruxas Diânicas só enfocam seus culto na Deusa, são muito politicamente
ativos, e feministas. Outras simplesmente enfocam seu culto na Deusa como uma
forma de compensar os muitos anos de domínio Patriarcal na Terra. Algumas usam
este título para denotar que são “as Filhas de Diana”, a Deusa protetora delas. Há
Bruxas Diânicas que são tudo isto , algumas que não são nada disto, e outras que são
um misto disto. A Arte Diânica possui duas filiais distintas:

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Uma filial, fundada no Texas por Morgan McFarland que dá a supremacia à Deusa em
sua thealogy, mas honra o Deus Cornífero como seu Consorte Amado e abençoado. Os
membros dos Covens dividem-se entre homens e mulheres. Esta filial é chamada às
vezes “Old Dianic” (Velha Diânica), e há alguns Covens descendentes desta Tradição,
especialmente no Texas. Outros Covens, similares na thealogy mas que não
descendem diretamente da linha de McFarland, e que estão espalhados por todo EUA.

A outra filial, chamada às vezes de Feitiçaria Feminista Diânica, focaliza


exclusivamente a Deusa e somente mulheres participam de seus Covens e grupos.
Geralmente seus rituais são livres e não são hierárquicos, usando a criatividade e o
consenso para a realização de seus rituais. São politicamente um grupo feministas. Há
uma presença lésbica forte no movimento, embora a maioria de Covens estejam
abertos a mulheres de todas as orientações.

Tradição Georgina:

Esta Tradição foi criada por George Patterson, que se auto intitulou como sendo um
“Sumo Sacerdote Georgino”. Quando começou o seu próprio Coven, chamou-o de
Georgino, já que seu prenome era George. Se há uma palavra que melhor pode
descrever a Tradição de George, seria “Eclética”. A Tradição Georgina é um composto
de rituais Celtas, Alexandrinos, Gardnerianos e tradicionais. Mesmo que a maior parte
do material fornecido aos estudantes sejam Alexandrinos, nunca houve um imperativo
para seguir cegamente seu conteúdo. Os boletins de noticias publicados pelo fundador
da Tradição estavam sempre cheio de contribuições dos povos de muitas outras
Tradições. Parece que a intenção do Sr. Patterson era fornecer uma visão abrangente
aos seus discípulos.

Ecletismo:

Um Bruxo eclético é aquele que funde idéias de muitas Tradições ou fontes. Assim
Como no caldeirão de uma Bruxa, são somados elementos para completar a poção que
é preparada, assim também são somadas várias informações de várias Tradições para
criar um modo mágico de trabalhar. Esta "Tradição" que realmente não é uma
Tradição é flexível. Geralmente, são criados rituais e Covens de estrutura livre.

Tradição das Fadas ou Fairy Wicca:

Há várias facções da Tradição das Fadas. Segundo os membros desta Tradição, seus
ritos e conhecimentos tiveram origem entre os antigos povos da Europa da Idade do
Bronze, que ao migrarem para as colinas e altas montanhas devido às guerras e
invasões ficaram conhecidos como Sides, Pictos, Duendes ou Fadas. Uma Bruxa desta
Tradição poderia ser ou trabalhar com energias da natureza e espíritos da natureza ,
também conhecidos como fadas, Duendes, etc. Alguns dos nomes mais famosos desta
Tradição são Victor e Cora Anderson, Tom Delong (Gwydion Penderwyn), Starhawk,
etc.

Os seus Precursores são Victor Anderson - nasceu em 1917 e dizia-se descendente de


Havaianos e Africanos. Ele foi iniciado no Coven Harpy, em Bend, Oregon, ainda em
sua adolescência. O Coven Harpy era um Coven da Fairy Tradition (Tradição das
Fadas), que se distinguia muito dos Círculos Gardnerianos e Neo-Pagãos vigentes até
então. O Coven Harpy se dissolveu na época da segunda guerra mundial. Victor
Anderson casou-se com Cora em 1944 e juntos começaram a introduzir outros
conhecimentos e práticas, inclusive materiais das Tradições Gardneriana a
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Alexandrina, à Tradição das Fadas e resultou no que mais tarde passou a ser
chamada de Fairy Wicca ou Feri Faith. Em 1960, Victor e Cora conheceram Gwydion
Pendderwen que se tornou um dos mais renomados iniciados do casal Anderson.
Gwydion espalhou os conhecimentos da Fairy Wicca na comunidade Neo-Pagã dos
anos 70 até meados de 80. Infelizmente Gwydion morreu em um acidente de
automóvel em 1981, mas deixou belos cânticos e invocações utilizadas até hoje na
liturgia da Tradição. Abaixo dois textos tradicionais da Fairy Wicca, um escrito por
Gwydion e outro por Victor Anderson:

O Nome
Por Gwydion Pendderwen

"Ela é a uivadora dos muitos ventos


Seu nome é as cinco estações do ano.
Amante do primeiro Senhor
Mãe de dúzias de Deuses que andam pelos caminhos estrelados
Irmã e Esposa do Portador da Luz
Mulher Ela é, de nobre poder da paixão
Branca e azul ao mesmo tempo e ainda o Arco-íris,
Negra como o nulo sonho escuro"

Bênçãos
Por Victor Anderson - do livro "Espinhos da Rosa de Sangue" editado em 1970

"Tu de todos os sagrados, ultrajados e sábios nomes


Mãe de rameiras e iniqüidades,
Que suporta o fiel na destruição e chamas,
Confessando ações vis e blasfêmias.
Pela Terra, Seu corpo fértil, Abençoada Seja.
E pelas Águas Viventes do Seu útero,
Pelo Ar, Seu sopro que se move no mar,
Pelo chamado de vida da grama verde da tumba,
Pelo Fogo, Seu Espírito,
Abençoada Seja com poder!
As Crianças de Seu Amor nascem entre a destruição
Possa haver Luz e clareza nas horas negras
Brilhe Lua Branca, Cresça nos caminhos
De cada um , eterno caminho apaixonado.
Abençoe e ilumine a todos,
Evo-he"

História da Tradição

A Fairy Wicca ou Tradição das Fadas tem em comum com as outras vertentes da Arte
uma tradição linear de mistérios e poder. Seus membros acreditam na comunicação
direta com a Divindade. Isto é um contraste com algumas outras Tradições que
praticam o psicodrama ritual em larga escala. Entre as características que mais
distingue a Fairy Wicca está o uso do Poder das fadas, que caracteriza a linhagem
desta vertente Wiccana, pois segundo os membros desta Tradição, seus ritos e
conhecimentos tiveram origem entre os antigos povos da Europa da Idade do Bronze,
que ao migrarem para as colinas e altas montanhas, devido às guerras e invasões,
ficaram conhecidos como Sides, Pictos, Duendes ou Fadas.

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Nesta Tradição é dada uma forte ênfase a expansão da consciência. É uma Tradição
voltada a exploração espiritual. Os Fairy Wiccans respeitam profundamente a
sabedoria da natureza e tudo o que a envolve. Os Deuses não são vistos como forças
psicológicas, arquetípicas ou manifestação do inconsciente coletivo, mas são reais,
com um sistema de moralidade diferente do nosso próprio e nós teríamos
responsabilidade com cada um deles. Há um corpo específico de cantos e material
litúrgico da Tradição. Muito disto se originou com Victor Anderson e Gwydion
Pendderwen que forneceram um arsenal para muitos Círculos em funcionamento,
cuja criatividade poética é altamente estimada. As práticas mágicas da Fairy Wicca (ou
Feri, como Victor chama) são altamente invocatórias, encorajam a manifestação
direta dos Deuses através de práticas como "Puxar a Lua Para Baixo", que confere
talentos psíquicos ou sensibilidade especial para algumas práticas específicas.

Os Ritos da Fairy Wicca possuem diversos estilos e podem ser tirados de muitas
fontes. Há uma linhagem iniciatória traçada desde Victor e Cora Anderson e Gwydion
Pendderwen. As energias trabalhadas nesta Tradição incluem:

o a visualização do fogo azul


o um corpo de material poético e litúrgico
o Deuses e arquétipos específico da Tradição
o a doutrina dos Três Selfs
o o uso de um cíngulo de cor específica
o um sentido de "tribo" ou "clã" para o Coven
o a veneração ao Deus Cornífero como o Filho Amado e Consorte da Deusa

Hoje existem várias facções da Tradição das Fadas, mas podemos apontar como
característica inerente à maioria dos praticantes dela o uso dos espíritos da natureza,
conhecidos como Fadas, Duendes, Gnomos, etc. em seus rituais. Embora o Victor
Anderson seja reconhecido mundialmente como o professor-fundador desta Tradição,
é possível identificar influências que formaram a Fairy Wicca antes de sua forma
presente evoluir para ser o que é hoje. Há influência de uma dispora africana muito
forte, principalmente Dahomeana, e a Teoria do 3 Selfs (Selves-em inglês correto) foi
trazida da Magia Kahuna. O material de Victor não é a única fonte dentro da Tradição
e existem inúmeros outros.

A Fairy Wicca é uma Tradição extremamente aberta à evolução e cada iniciado traz
uma direção nova às suas práticas e rituais. Alguns praticantes, como Gwydion e
Eldri Littlewolf, enredaram em caminhos Xamânicos, além de trabalharem
extensivamente com a Religião Céltica. Outras influências (como a Meditação Tibetana
e Magia Cerimonial) começaram a fazer parte da Tradição com Gabriel Caradoc.
Victor, Gwydion, Caradoc, Brian Dragon e Paladin escreveram lindas poesias e
liturgias para rituais que são utilizadas até hoje pelos praticantes da Fairy Wicca em
todo o mundo. As aulas de Gabriel forneceram treinamentos excelentes na liturgia da
Tradição e seus estudantes continuam a transmitir seus ensinamentos. Francesca De
Grandis, que compôs Sharon Knight, adicionou sua inspiração para o corpo de
material litúrgico da Tradição e Starhawk usou os conceitos desenvolvidos na Fairy
Wicca, expressando suas convicções e práticas, mas fornecendo explicações mais
claras sobre o conceito dos 3 selfs e uso do Pentáculo de Ferro.

O Conceito do Self e os Pentáculos

Na Fairy Wicca, o conhecimento humano é dividido em 3 Selfs, Eus ou almas, como


também são chamados. Eles são:
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o Self Jovem;
o Self Discursivo;
o Self Profundo.

Os 3 Selfs podem nos ajudar a compreender como somos, como funcionamos e


integrar as várias partes do nosso ser. O Self é o Eu, a individualidade e a identidade
de cada ser humano. Cada pessoa utiliza mais um tipo de Self que o outro e, segundo
a Fairy Wicca, é isso que a caracteriza cada um de nós. Além disso, podem ser muito
úteis na hora de manipular a energia nos trabalhos mágicos. Abaixo uma pequena
correspondência dos 3 Selfs:

Self Jovem: representa a mente inconsciente, ao hemisfério direito do cérebro. Nos


comunicamos com ele através de símbolos, imagens e sensações. É ele que nos
impulsiona a seguir em direção de nossos sonhos mais recontidos e a arriscar. Está
associado à energia elemental do corpo (Raith), já que é através dele que recebemos
energia e vitalidade. O Self Jovem percebe o fluxo das energias e se comunica sem a
necessidade de palavras. Ele trabalha com o mundo das puras sensações que podem
ser visuais ou auditivas. O Self Jovem contém toda a memória das experiências
passadas, que emergem através dos instintos. No corpo humano, sua força está
concentrada no Chakra Básico. Sua energia é gerada através da água e ar puros,
exercícios físicos, sexo e através do transe.

Self Discursivo: representa a mente consciente, o hemisfério esquerdo do cérebro. É


ele que organiza o que é concebido pelo Self Jovem. Ele funciona através da análise. É
com ele que julgamos, inquerimos, culpamos e nos deixamos culpar. É ele que forma a
realidade escondida por trás das aparências, racionaliza e define as experiências
sensoriais. Aqui encontra-se presente os nossos instintos sociais e necessidades. No
corpo humano sua força está concentrada no Chakra Cardíaco. Sua energia é gerada
através da combinação da energia de todos os seres.

Self Profundo: é o Divino que existe dentro de cada um de nós e não há referências
psicológicas para explicá-lo. O Self profundo representa o espírito, a essência, que
existe além do matéria, espaço e tempo. Ele é a junção das polaridades. Ele é o
espírito que nos impulsiona e guia. Está associado diretamente ao Self Jovem e
indiretamente ao Discursivo. É através dele que estabelecemos conecção com o Divino
e a possibilidade de conhecer o passado, presente e futuro. A sua força está
concentrada em nossa aura e no nosso Chakra Coronário. Sua energia é gerada pelo
Universo e ritos sagrados

O Pentáculo de Ferro

O Pentáculo de Ferro é um dos principais símbolos, utilizados na Tradição das Fadas,


para possibilitar que cada pessoa trabalhe suas habilidade mágicas. Através dele
aprendemos a dar forma às energias, transformar-se e explorar os 5 pontos do nosso
Pentáculo interno:

o Sexo: que é a energia Primal


o Self: o nosso Eu
o Paixão: as emoções
o Orgulho: A auto-estima
o Poder: O poder interior

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Cada um desses pontos está associado a uma ponta do Pentagrama e o intuito de
trabalhar com o Pentáculo de Ferro é fazer com que as 5 pontas estejam em perfeito
equilíbrio e harmonia. O Pentáculo de Ferro é apenas uma das 3 formas principais de
desenvolver e fortalecer o poder em cada pessoa segundo esta Tradição. Além dele
existem mais outras duas que são consideradas essenciais:

O Pentáculo de Pérola

Que possui as pontas do amor, sabedoria, conhecimento, lei e poder.

O Pentáculo de Chumbo

Que possui as pontas do nascimento, Iniciação, consumação, repouso e morte

Tradição Gardneriana:

Fundada por Gerald Gardner nos anos de 1950 na Inglaterra. Esta tradição contribuiu
muito para Arte ser o que é hoje. A estrutura de muitos rituais e trabalhos mágicos
em numerosas tradições são originárias do trabalho de Gardner. Algumas das
reivindicações históricas feitos pelo próprio Gardner e por algumas Bruxas
Gardnerianas têm que ainda serem verificadas (e em alguns casos são fortemente
contestadas) porém, esta Tradição apoiou muitas Bruxas modernas. Gerald B.
Gardner é considerado "o avô" de toda a Neo-Wicca. Foi iniciado em um Coven de
Newforest, na Inglaterra em 1939. Em 1951 a última das leis inglesas contra a
Bruxaria foi banida (primeiramente devido à pressão de Espiritualistas) e Gardner
publicou o famoso livro ”Witchcraft Today”, trazendo uma versão dos rituais e as
tradições do Coven pelo qual foi iniciado. Garnerianismo é uma tradição
extremamente hierárquica. A Sacerdotisa e o Sacerdote governam o Coven, e os
princípios do amor e da confiança presidem. Os praticantes desta Tradição trabalham
"Vestidos de Céu" (nus), além de manterem o esquema de Seita Secreta. Nos EUA e
Inglaterra os Gardnerianos são chamados de "Snobs of the Craft" (Snobes da Arte),
pois muitos deles acreditam que são os únicos descendentes diretos do Paganismo
purista.

Cada Coven Gardneriano é autônomo e é dirigido por uma Sacerdotisa, com a ajuda
do Sacerdote, Senhores dos Quadrantes, Mensageiro, etc. Isto mantém o linhagem e
cria um número de líderes e de professores experientes para o treinamento dos
Iniciandos. A Bíblia Completa das Bruxas (The Witches Bible Complete) escrita por
Janet e Stuart Farrar, como também muitos livros escritos por Doreen Valiente têm
base nesta Tradição e na Tradição Alexandrina em muitos aspectos.

Tradição Hecatina:

Uma Tradição de Bruxos que buscam inspiração em Hécate e tentam reconstruir


e modernizar os rituais antigos da adoração a esta Deusa. É algumas vezes
chamadas de Tradição Caledoniana ou Caledonii.

Bruxo Hereditário ou Tradição Familiar:

Um Bruxo que normalmente foi treinado por um ente familiar e/ou pode localizar sua
história familiar em outro Bruxo ou Bruxos. Os Bruxos Hereditários são pessoas que
têm, ou supõem ter, uma ascendência Pagã (mãe, tia e avó são os alvos mais
visados). A maioria dos Hereditários não aceitam a infiltração de outras pessoas fora
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de sua dinastia, porém algumas Tradições Familiares “adotam” alguns membros,
escolhidos “à dedo” em seu segmento.

Bruxa de Cozinha:

Uma Bruxa prática que é freqüentemente eclética, enfoca e centra sua magia e
espiritualidade ao redor do “forno e do lar”.

Seax-Wicca ou Wicca Saxônica:

Fundada em 1973, pelo autor prolífico, Raymond Buckland que era, naquele
momento, um Bruxo Gardneriano. Uma das primeiras tradições precursoras em
Bruxos solitários e o auto-iniciados. Estes dois aspectos fizeram dela um
caminho popular.

Bruxo Solitário:

Uma pessoa que pratica a Arte só (mas pode se juntar às festividades de Sabbat
em um Coven ou com outros Bruxos Solitários ocasionalmente). Um Bruxo
Solitário pode seguir quaisquer das Tradições, ou nenhuma delas. A maioria de
Bruxos ecléticos são Solitários.

Tradição Strega:

Começou ao redor na Itália em 1353. A história controversa sobre esta Tradição pode
ser achada em muitos locais e em muitos livros. Arádia ...Gospell of the Witches
(Arádia...A Doutrina das Bruxas) é um deles.

Tradição Teutônica ou Nórdica:

Teutônicos são um grupo de pessoas que falam o norueguês, fosso, islandês, sueco, o
inglês e outros dialetos europeus que são considerados “idiomas Germânicos”. Um
Bruxo teutônico acha freqüentemente inspiração nos mitos tradicionais e lendas,
Deuses e Deusas das áreas onde estes dialetos se originaram.

Tradição Asatru:

Teve suas origens no Norte da Europa e é uma das facções das Tradições Teutônica e
Nórdica. Esta Tradição é praticada hoje por aqueles que sentem uma ligação com os
nórdicos e teutônicos e que desejam estudar a filosofia e religiosidade da antiga
Escandinávia, através dos Eddas e Runas. Encoraja um senso de responsabilidade e
crescimento espiritual, freqüentemente embasados nos conceitos atribuídos aos
nobres guerreiros de tempos ancestrais.

Tradição Algard:

Uma americana iniciada nas Tradições Gardneriana e Alexandrina, chamada Mary


Nesnick, fundou essa "nova" tradição que reúne ensinamentos de ambas tradições sob
uma única insígnia.

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Bruxaria Tradicional:

Todo Bruxo tradicional dará uma definição diferente para este termo. Um Bruxo
tradicional é aquele que freqüentemente prefere o título de Bruxo à Wiccano e define
os dois como caminhos muito diferentes. Um Bruxo tradicional fundamenta seu
trabalho mágico em métodos históricos da tradição, religiosidade e geografia de seu
país.

Tradição Galesa de Gwyddonaid:

Uma Tradição Galesa Céltica da Wicca, que adora o panteão galês de Deuses e
Deusas. Gwyddonaid, foi quem grosseiramente traduziu a ignóbil obra galesa "Árvore
da Bruxa (Tree Witch)" e propagou esta forma de trabalhar magicamente.

As Tradições

Veja resumo por datas abaixo, respectivamente pela ordem: Ano de Fundação / Nome
da Tradição e/ou Fundador.

1951 Gerald Gardner e seu Coven


1953 Tradição Traditionalist (Cochrane) Witchcraft
1954 Tradição Rhean.
1955 Tradição Boread.
1957 Tradição 'Brighton Coven Craft'
1963 Tradição Alexandrian Witchcraft
1964 Tradição 1734
1965 Tradição 'Sara Cunningham's Family'
1966 Tradição The Regency
1968 Tradição Ordem da Silver Crescent
1968 Ordem Majestic / Tradição Majestic.
1968 Tradição Church and School of Wicca.
1967 Tradição Alexandrian Witchcraft (Ramo Alemão)
1969 Tradição American / Mohsian
1970 Tradição Alexandrian Witchcraft (U.S.A.)
1970 Tradição Dianic (MacFarland) Witchcraft de Wicca Feminista
1970 Tradição Pagan Way Witchcraft
1970 Tradição American Celtic (Sheban)
1970 Tradição Sisterhood and Brotherhood of Wicca
1970 Tradição Du Bandia Grasail Line
1970 Tradição Church of the Eternal Source
1970 Tradição Sicilian Witchcraft (na América)
1972 Tradição Keepers of the Ancient Mysteries
1972 Tradição Seax-Wicca
1973 Tradição Kingstone
1973 Tradição Americana da Assembly of Wiccan
1973 Tradição Open Goddess Tradition
1973 Tradição Druidic Craft of the Wise
1974 Tradição Dianic Feminist Witchcraft
1974 Tradição Isian
1974 Tradição Western Isian
1974 Tradição Algard Witchcraft
1974 Tradição American Traditional Witchcraft
1975 Tradição Blue Star Witchcraft
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1975 Tradição Minoan Brotherhood
1975 Tradição Maidenhill Tradition
1975 Tradição Ganymede/Chthonioi branch
1975 Tradição Gardnerian-Eclectic Witchcraft
1975 Tradição Halifax
1975 Tradição Ravenwood
1976 Tradição Cerridwen
1976 Tradição Glainn Sidhr Witchcraft
1976 Tradição 'The Tradition'
1976 Tradição The Roebuck / Ancient Keltic Church
1977 Tradição Temple of Danann
1978 Tradição Hyperborean
1978 Tradição Celtic Wicca (Nossa Senhora do Encantamento)
1979 Tradição Odyssian Tradition (Wiccan Church of Canada)
1980 Tradição Unicorn
1980 Tradição Minnesota Church of Wicca
1980 Tradição Celtic Traditionalist (Foxwoods) Witchcraft
1982 Tradição Minoan Sisterhood
1982 Tradição Alexandrian Witchcraft (Irlanda)
1983 Tradição Aquarian Tabernacle
1984 Tradição Communitarian Witchcraft / Wicca Communitas
1983 Tradição Windblown
1985 Tradição New Albion
1985 Tradição Pagans for Peac
1985 Tradição Pagan Way Witchcraft
1985 Tradição Caledonii Tradition
1986 Tradição do NFG branch
1986 Tradição Rainbow Wheel
1986 Tradição Northwind
1986 Tradição Sacred Grove
1987 StarKindler
1987 Tradição StarKindler
1990 Tradição Eleusinian Tradition
1990 Tradição Blackring Witchraft
1990 Tradição Serpentstone
1990 Tradição Star Sapphiran
1990 Tradição Crystal Moon
1990 Tradição Chthonian Tradition
1990 Tradição Ceili Sidhe
1991 Tradição Protean
1991 Tradição Neo-Alexandrian Witchcraft (Canada)
1991 Tradição Black Forest
1991 Tradição Protean
1991 Tradição California Gardnerian (CalGard) Witchcraft
1992 Tradição Tuatha De Danann Tradition
1993 Tradição Daoine Coire
1994 Tradição Cornfield Tradition
1996 Tradição Aglaian
1996 Tradição Reformada
1996 Tradição Oldenwilde Traditional Witchcraft
1997 Tradição Knight Phases
1997 Prytani Tradition (Clan Ragan)
1997 Tradição Morganan Tradition
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1997 Tradição Elemental Spirit
1977 Tradição Brighton Traditional Craft
1997 Tradição Dragon's Weave
1998 Tradição Earthwise
1998 Tradição Evergreen Tradition.

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Índice
O Altar ..........................................................................................................................................51
A Vassoura.....................................................................................................................................51
A Túnica........................................................................................................................................52
A Varinha.......................................................................................................................................53
O Caldeirão....................................................................................................................................53
O Punhal ou Athame......................................................................................................................54
Faca de cabo branco.......................................................................................................................54
Cálice ou taça.................................................................................................................................54
Bola de Cristal...............................................................................................................................55
Pentagrama.....................................................................................................................................55
Livro das Sombras.........................................................................................................................55
Outros elementos...........................................................................................................................55
Insensário.......................................................................................................................................56
Diário Mágico................................................................................................................................56
Pontos Positivos.............................................................................................................................57
O Coven.........................................................................................................................................58
Algumas Tradições........................................................................................................................62

Tradição 1734: ..............................................................................................62

Tradição Alexandrina: ..................................................................................62

Tradicional Britânica: ...................................................................................63

Wicca Céltica:................................................................................................63

Tradição Caledoniana ou Caledonni:.............................................................63

Tradição Picta:...............................................................................................63

Bruxaria Cerimonial:.....................................................................................63

Tradição Diânica:...........................................................................................63
Tradição Georgina:........................................................................................64
Ecletismo:
.......................................................................................................................64

Tradição das Fadas ou Fairy Wicca:..............................................................64


O Nome..........................................................................................................................65
Bênçãos..........................................................................................................................65
História da Tradição.......................................................................................65
O Conceito do Self e os Pentáculos...............................................................66
O Pentáculo de Ferro.....................................................................................67
O Pentáculo de Pérola ...................................................................................68
O Pentáculo de Chumbo................................................................................68
Tradição Gardneriana:...................................................................................68
Tradição Hecatina:.........................................................................................68
Bruxo Hereditário ou Tradição Familiar:......................................................68
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Bruxa de Cozinha:.........................................................................................69

Seax-Wicca ou Wicca Saxônica: ..................................................................69

Bruxo Solitário: .............................................................................................69

Tradição Strega:.............................................................................................69
Tradição Teutônica ou Nórdica:....................................................................69

Tradição Asatru:............................................................................................69

Tradição Algard:............................................................................................69

.......................................................................................................................69
Bruxaria Tradicional:.....................................................................................70

Tradição Galesa de Gwyddonaid:..................................................................70


As Tradições..................................................................................................70

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