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Eleny Vassão

Consolo
Eleny Vassão de Paulo Aitken

Consolo
Editora Cultura Cristã

Primeira edição - 1990

Segunda edição – 1993

Terceira edição – 1996

Revisão: Maria Suzete Castelatto

Editoração Eletrônica: Calil Robson de Mello

Capa: Franco e Associados

Conselho Editorial: Cláudio Marra (presidente), Aproniano Wilson


de Macedo, Augusto Nicodemos, Fernando Hamilton Costa,
Sebastião Bueno Olinto.

EDITORA
CULTURA CRISTÃ

Rua Miguel Teles Jr., 382/394.


Cambuci – 01540-040 – São Paulo/SP.
Tel.: (011) 270-7099 – Fax (011) 279-1255

Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas


Editor: Cláudio Ântonio Batista Marra
ÍNDICE
Consolo...................................................................................................................................1
Eleny Vassão de Paulo Aitken.............................................................................................2
Consolo...................................................................................................................................2
ÍNDICE...............................................................................................................................3
DEDICATÓRIA......................................................................................................................4
AGRADECIMENTOS............................................................................................................5
APRESENTAÇÃO.................................................................................................................6
INSPIRAÇÃO E DESAFIO...................................................................................................9
Editor.............................................................................................................................10
UMA PALAVRA DA AUTORA...........................................................................................10
1- Provação...........................................................................................................................12
REAÇÕES NAS PROVAÇÕES.......................................................................................20
Opção pela vida.................................................................................................................21
A opção pela morte...........................................................................................................22
JÓ: SEU SOFRIMENTO..................................................................................................24
A importância da gratidão.................................................................................................28
Nas cinzas.........................................................................................................................31
2 - Os Amigos de Jó..............................................................................................................34
SENTADOS NAS CINZAS..............................................................................................36
3 - Consolo...........................................................................................................................41
MARIA JOSÉ...................................................................................................................42
BRANCO DINAMITE.....................................................................................................47
4 - Jesus Sentou nas Cinzas...................................................................................................52
JESUS É DEUS, MAS SENTOU NAS CINZAS DO LIXO...........................................52
ELE SENTOU NAS CINZAS MAS NÃO NOS JULGOU.............................................53
ELE SENTOU NAS CINZAS E, NOS ACEITOU E CATIVOU....................................58
ELE SENTOU NAS CINZAS E SE ENVOLVEU...........................................................61
ELE SENTOU NAS CINZAS...E NOS TOCOU.............................................................63
ELE SENTOU NAS CINZAS...E NOS OUVIU..............................................................65
ELE SENTOU NAS CINZAS...E NOS PERMITIU FALAR COM ELE........................68
5 -O Teu Deus Onde Está?................................................................................................70
6 - A Cura de Deus................................................................................................................76
QUANDO DEUS APARECE...........................................................................................78
7 - Perdão..............................................................................................................................81
Conclusão..............................................................................................................................87
Bibliografia...........................................................................................................................88
DEDICATÓRIA

Ao meu querido marido, Galvin Aitken, presente de Deus, toda a


minha gratidão e amor. Ele tem me ensinado a amar, dando-me prazer e
alegria em ser-lhe submissa e fiel companheira. Juntos temos glorificado
ao Senhor com uma só equipe de ministério e vida.
Aos meus queridos filhos, que também enriquecem meus dias,
Dalton, Davi, Denis e Daniel, e aos meus “novos filhos”, Aimee e Todd.
AGRADECIMENTOS

Aos meus amigos “Branco Dinamite”, Tânia e Pedro, pela sua


disposição em compartilhar, através deste livro, o consolo recebido de
Deus.
À minha família, pelo incentivo e envolvimento na sua composição:
Papai, pela apreciação do material e provisão de meios para que
fosse executado.
Tia Cora, “decifrando” minha letra e datilografando com eficiência
e carinho. Tio Amantino, compilando suas ilustrações de sermões sobre
Consolo dos últimos sessenta anos e outros textos sobre Jó, e
prontamente cedendo-os para o meu uso. Também por sua apreciação
final do trabalho.
Tio Miro, pela tradução de grande parte do comentário bíblico aqui
usado.
Aos meus amigos:
Dr. Armando Sambarato, pelas valiosas e duras, mas carinhosas
críticas a este trabalho. Ajudou-me a ver uma outra realidade e a
melhorar o conteúdo.
Ao Reverendo George Alberto Canelhas, pelo cuidado e interesse
em ler o manuscrito e comenta-lo comigo.
Aos pacientes, a quem Deus ministrou consolo através de minha
pessoa.
Ao Senhor, por tantas bênçãos, misericórdia e amor; inclusive por
ter-me confiado o ministério da consolação e continuado comigo,
sustendo-me nessa abençoada missão.

APRESENTAÇÃO
Aproximadamente doze anos atrás, enquanto servia como
palestrante numa semana de Estância na Palavra da Vida, fiquei
conhecendo Eleny Vassão. Naquele primeiro encontro Eleny nada mais
era do que um nome como qualquer outro. Durante aquela semana,
contudo, pude observar seu profundo interesse nas Sagradas Escrituras.
Nada melhor que um ouvinte fazendo anotações sem fim para motivar
um ministrante da Palavra.
Essa observação fez com que desejasse conhece-la mais de perto.
Tivemos várias conversas naquela semana. Logo percebi que estava
diante de uma pessoa singular. Junto com aquela fome insaciável pela
Bíblia existia uma vida que personificava seus conhecimentos. Seu amor
genuíno pelas coisas de Deus e sua vida altruísta me impressionaram
como tem sido o caso na vida de que todos que a conhecem.
Vivendo e servindo a Deus em Muriaé, MG, não tivemos mais
contato até voltar para São Paulo no princípio de 1989. Em 1990 fui
convidado para fazer parte de uma diretoria de Capelania Hospitalar que
estava em formação. Tive então encontros com a Eleny um mês, sim,
outro mês, não, por ocasião de reuniões envolvendo a diretoria. E isso
permitiu que o trabalho de capelania fosse observado mais de perto.
Havia um pouco de ironia em tudo isso, pois nunca consegui ficar
dentro de um hospital por muito tempo. Fazia apenas visitas de beija-flor
para membros docentes da igreja. O cheiro de hospital, as cenas
grotescas e os gemidos de pacientes sofrendo, representavam para mim
um quadro totalmente insuportável.
Mas tudo isso mudou quando a minha esposa, Margarida,
companheira fiel de 35 anos (namoro, noivado e casamento) adoeceu.
Depois de uma curta passagem pela UTI do Hospital Osvaldo Cruz, tendo
sofrido um infarto bastante sério, ela foi transferida para o Incor do
Hospital das Clínicas. Pela primeira vez, em toda minha vida, tive que
permanecer nos corredores, nas salas e no quarto de um hospital por
um período de tempo que nos parecia uma eternidade. De repente,
estava diante de uma realidade nunca vivida por mim, totalmente
imprevista, pois um mundo de sofrimento havia atingido em cheio o
nosso lar. Dois dias depois recebi um ligação às dez horas da noite que
me deixou totalmente desnorteado: “Sr. Gavin, infelizmente a sua
esposa teve uma grande piora no seu estado físico, de fato, ela acabou
de falecer! Por favor, esteja aqui amanhã cedo, munido de toda a
documentação necessária”.
No dia seguinte lá estava eu na porta do Incor, acompanhado por
uma família muito querida, e de amigos meus. Mas, ao entrar naquela
sala de recepção, senti a necessidade de alguém que pudesse sentir a
profundeza de minha dor, que pudesse experimentar meu sofrimento,
que pudesse comunicar palavras de consolo, alguém que teria passado
por esta mesma experiência minha. Eu nunca lembro de ter recebido
uma resposta tão logo às minhas orações, pois ao entrar naquele
hospital, bem diante de mim abriu-se a porta do elevador e desceu a
própria Eleny Vassão. Ela ficou tão surpresa quanto eu, pois, não
sabendo do falecimento de minha esposa, tinha procurado o quarto dela
a fim de visitá-la. Ao tomar conhecimento do fato ela logo pensou,
coitado do meu amigo Gavin, como gostaria de encontra-lo. Um abraço,
sem palavras, de alguém que tinha perdido o marido poucos anos antes,
em circunstâncias bem semelhantes e no mesmo hospital, me trouxe a
compreensão que tanto pedia a Deus.
Passaram-se muitos meses. Durante esse tempo, estando nos EUA
em visita à minha família, realizei um check-up para ver meu quadro de
saúde. Mais uma vez Deus operou de uma forma fantástica. A minha
consulta foi marcada com um médico cristão que conhecia a minha
esposa e que soube do falecimento dela. Para mim, aquele consultório
se transformou naquele dia num verdadeiro santuário de Deus, pois o
médico do corpo efetuou o papel de um médico de alma, passando para
mim as várias etapas por onde teria que caminhar no meu luto.
Regressando ao Brasil, reassumindo meus compromissos, tentei
fugir da realidade enterrando-me por inteiro nos meus estudos. Longas
horas se passaram, dias compridos, cheios de solidão e saudades.
Chorava abertamente longe da vista dos filhos, para que pudesse estar
firme e forte na presença deles. Não consegui, contudo, enganar a
minha filha de 21 anos de idade.
Um dia, ao chegar em casa, tendo voltado de seu serviço, a Aimee
me confrontou pela primeira vez, com todo o carinho possível e com
uma preocupação bastante amorosa, tão característica dela. “Pai”, disse
ela: “sei que o senhor está sendo muito forte e corajoso em face de tudo
que tem acontecido. Creio eu, contudo, que muito desta força sua é
devido ao fato de eu ainda continuar no lar, fazendo-lhe companhia. No
futuro talvez bem próximo vou me casar e, então, o senhor vai estar
sozinho. Portanto, se eu fosse o senhor daria um jeito na sua vida”.
Apesar de ter levado um susto, em conseqüência dessa ousada
proclamação de uma filha minha que parecia se amadurecer de uma
hora para outra, me pus a refletir sobre um assunto que ainda não tinha
ocupado meus pensamentos naquela altura. Deus nem me deu tempo
de pensar muito, mas já tinha agido por trás do cenário. No dia seguinte,
em sua soberania, ele colocou a Eleny em contato comigo por telefone.
Eu não pretendo contar o resto da história, seria detalhada demais
e fui solicitado apenas para escrever o prefácio de um de seus livros e
não para escrever um livro meu. Só quero deixar, contudo, alguns
pensamentos a respeito deste livro.
Quantas vezes tenho escolhido um livro de minha vasta biblioteca,
de aproximadamente 1.500 volumes, e tenho lido o seguido comentário
em muitos deles: “Nunca prestei muita atenção aos escritos de tal, tal
autor até aqui que o fiquei conhecendo em pessoa”. A minha história é
bem melhor. Eu já gostava dos livros e admirava muito a autora deles.
Mas quando ela se tornou a minha esposa compreendi bem melhor o
valor dos livros e principalmente de escritores em si.
Durante os meses de meu luto, o que ocupou dois anos de minha
vida, ela me transmitiu, de uma forma bem mais vivida, o conteúdo de
seu livro Consolo. Achei incrível, mas os mesmos passos do luto que me
foram apresentados por aquele médico, se achavam bastante
desenvolvidos neste livro e ricamente ilustrados pela vasta experiência
da Eleny no Hospital das Clínicas e no Instituto de Infectologia Emílio
Ribas.
Hoje tenho prazer de me envolver diariamente neste ministério de
Capelania, ao lado de minha esposa. Como a minha vida e o meu
ministério de ensino têm sido enriquecidos por uma convivência íntima
com esta preciosa e valiosa serva do Senhor. Eu a tenho em grande
estima e a considero como uma recompensa, ainda em vida, por ter
servido a Deus, fielmente, por uns trinta anos nesta Pátria amada.
Em colaboração com meus filhos, Todd e Aimee, uma nora, Marília,
uma neta, Bárbara, um futuro genro, Edgard, e quatro filhos adotivos,
Dalton, Davi, Denis e Daniel, filhos da Eleny, apresento-lhes um livro
escrito por uma esposa exemplar, uma mãe superdedicada e, acima de
tudo, uma ministra de misericórdia, muito preciosa aos olhos de Deus e
uma fonte de consolo para inúmeros pacientes e seus familiares.

São Paulo, Inverno de 1995.


Gavin Levi Aitken
Missionário com Missões Cristãs em Muitas Terras
Professor do Seminário Bíblico Palavra da Vida
Professor da APEC e Conselheiro de seus obreiros
INSPIRAÇÃO E DESAFIO

Misericórdia é uma palavra extremamente significativa. Quando


descreve um dos atributos de Deus ela revela o aspecto do caráter
divino que nos dá alívio e esperança em face de nossa rebeldia e
depravação. É por sua misericórdia que Deus nos resgata.
Mas o Deus de toda a misericórdia deseja vê-la em nós também,
enquanto convivemos com a miséria e a necessidade que nos cerca. Na
verdade, segundo Jesus, precisamente nosso modo de reagir ás
carências do próximo será recordado pelo Senhor no dia final. Não
seremos questionados quanto a artigo de fé, não seremos chamados a
fazer uma apresentação lógica e sistemática do que cremos. Não que
seja sem importância o nosso credo. Dá-se que, melhor do que palavras,
nossos atos de misericórdia darão conta de nossas convicções.
Consolo, de Eleny Vassão, é livro de elevada capacidade
inspirativa e de grande desafio. Ele nos fala da misericórdia de Deus e
nos estimula ao ministério da consolação. A exposição bíblica, ao mesmo
tempo em que apresenta a pessoa de Deus, também nos chama para
fazer o trabalho divino. O exemplo de homens e mulheres dedicados a
consolar nos convidam também a orar à nossa volta como Deus nos
olhou. Misericordiosamente.

Cláudio A. B. Marra
Editor
UMA PALAVRA DA AUTORA

Trabalhando há mais de doze anos junto aos pacientes no Hospital


das Clínicas de São Paulo, e há seis anos no Hospital Emílio Ribas com
pacientes terminais de AIDS, achei que me seria muito fácil transmitir
conceitos sobre Consolo. Mas, ao apanhar papel e caneta para iniciar
este livro, descobri como é difícil definir o que é consolar. Esta
dificuldade se deve em grande parte porque tal conhecimento é algo
contínuo, prático e específico para cada situação, para cada pessoa.
Estou sempre aprendendo no contato diário com os meus pacientes e
descobrindo minha incapacidade para faze-lo, bem como a pobreza de
minhas palavras e, ainda, minha insuficiência de amor. Tenho
encontrado a necessidade de estar a cada momento dependendo do
Senhor, buscando no seu grande coração a sabedoria e a compaixão
para consolar.
Por todas essas razões, é por demais difícil para eu colocar
sensações, emoções – como risos e lágrimas -, sobre um papel frio e
impessoal. Mas o faço pela urgente necessidade de preparar
consoladores para atender a um mundo triste e vazio, cheio de valores
(em grande parte sem valor real), que se aproxima cada vez mais da
borda de um poço escuro e sem fundo.
Relato aqui algumas experiências vividas com alguns pacientes
aos quais pude ser útil levando-lhes consolo. Não o faço com outra
intenção senão a de através deste compartilhamento, levar o leitor a
apreciar algumas idéias acerca do que eu entendo como consolo,
ajudando para que se torna também um consolador.
Escrevo este livro em oração, pedindo ao Senhor que fale ao seu
coração como tem falado ao meu.
A idéia de faze-lo partiu da observação do consolo oferecido por
alguns irmãos de nossas igrejas, que, mesmo tendo boas intenções, não
sabem como transmiti-lo, imitando, muitas vezes, os “amigos de Jó” e
deixando o paciente irritado e deprimido por ter sido “consolado” com
julgamentos ou “chavões” evangélicos generalizados e fora do contexto.
Baseei-me no estudo do livro de Jó: em suas perdas, seu
sofrimento, nas fases de sua crise e na diferença entre o consolo
desejado e o oferecido pelos amigos.
Muitas vezes agimos como fariseus, com uma estrutura mental
rígida e sem misericórdia. Queremos salvar o mundo inteiro, e nos
esquecemos dos fracos, dos feridos, dos doentes que estão morrendo ao
nosso redor.
Usamos textos e mais textos bíblicos na tentativa de exorcizar
pecados ocultos nas pessoas e consola-las, mas isso não acontece.
Creio que Deus quer nos ensinar consolar com o seu consolo,
através de Jó e também das experiências que nos tem permitido viver.
Este é um livro muito especial para mim porque foi escrito com a
ajuda de três amigos e irmãos muito queridos, a quem eu conheci no
leito da enfermidade: Tânia, Pedro e “Branco Dinamite”. Eles estudaram
o livro de Jó e juntos discutimos muitos trechos, nos quais eles se
identificaram com a dor de Jó, o consolo por ele recebido, seus
questionamentos e suas perdas. Através deste estudo reafirmaram sua
fé em Deus, debaixo de uma nova visão de sua pessoa. Crescemos
juntos.
“Branco Dinamite” é um ex-paciente do Hospital das Clínicas, a
quem eu pude evangelizar e consolar, acompanhando por dez anos. Ele
é jovem, está paraplégico numa cadeira de rodas. Sabe o que é sofrer,
mas tem sido consolado por Deus.
Tânia foi paciente do Hospital das Clínicas por 26 anos. Morou ali
desde os dois anos, depois de ter paralisia infantil e ficar tetraplégica.
Faleceu em dezembro de 1994.
Pedro também morou no Hospital por dezenove anos, companheiro
de dor de Tânia. Aceitou a Jesus por seu testemunho e, além de ser
“irmão dela, da Eliana, Luciana, Cláudia, Paulo e Anderson por afinidade,
pela condição e por formarem uma mesma”família” no hospital, também
foi seu irmão em Cristo.
Estes adolescentes são, na sua maioria, tetraplégicos, e estarão
sempre presos a uma cama. Dependem de um pulmão artificial e de
cuidados especiais de enfermagem. Têm sofrido muito, mas são muito
alegres. Que entra nessa enfermaria pensando em consola-los, sai
consolado e muito mais feliz. O consolo de Deus e de algumas pessoas
tem aliviado suas dores, fazendo deles fonte de bênçãos e de consolo
para todos aqueles que deles se aproximam.
Em Setembro de 1991 o Senhor provou-me duramente através da
morte de meu marido Fálsico Cavalcanti, aos 42 anos. Isso aconteceu
subitamente, deixando-me em estado de choque com quatro filhos
adolescentes, entre 9 e 15 anos.
Mas todos nós pudemos experimentar o “consolo que excede todo
o entendimento”, da parte do Senhor. Através dele ficamos mais fortes.
Mesmo em meio à dor pudemos falar de consolo com maior autoridade.
Depois de quatro anos, em meio ao luto e a sérias provações, Deus
ouviu as minhas orações, dando-me um marido que veio preencher
todos os meus sonhos e ainda mais. Gavin Aitken é missionário
americano há mais de 30 anos no Brasil e também viúvo, com um casal
de filhos já adultos.
Temos sido muito felizes em todos os aspectos, integrando família,
dons e ministérios para a glória de Deus.
Meu amigo leitor, meu desejo sincero é que, através deste livro,
sua vida seja edificada e o nome do Senhor seja glorificado.

Eleny Vassão

1- Provação

Queridos irmãos, a vida de vocês está cheia de dificuldades e de


tentações? Então, sintam-se felizes, porque quando o caminho é áspero,
a perseverança de vocês tem uma oportunidade de crescer. Portanto,
deixem-na crescer, e não procurem desviar-se dos seus problemas.
Porque quando a perseverança de vocês estiver afinal plenamente
crescida, vocês estarão preparados para qualquer coisa, e serão fortes
de caráter, íntegros e perfeitos.

(Tiago 1:2-4 Bíblia Viva).


Confissão

Senhor,
não clamou teu Filho do alto da cruz:
“Deus meu, Deus meu,
porque me desamparaste?”
E não era e é ele substituto perfeito,
único aceito e exigido por ti?
Porque, então, esta imensa sensação
de abandono e distância,
se nele e em seu sacrifício
coloquei a minha confiança?
Por amor de ti mesmo,
de quem uso o nome,
não me coloques em provas demasiado fortes.
Só tu sabes até que ponto a corda pode ser
distendida sem se romper:
mas eu não tenho a força de teus heróis,
Senhor...
Sou quase toda carne.
Uma carne que sofre, grita, blasfema,
pesa-se, vinga-se em si mesma,
anseia desaparecer, fundir-se em algo maior, mais alto, mais perto
de ti.
Se a cada vez que sucumbir à própria fraqueza
levares-me alguém, que só sei tão precioso
depois de o perder,
não sei que futuro me espera.
Receio acabar mais só que tu mesmo
No princípio.
E tu te bastavas. Mas, mesmo assim, nos criaste
porque precisava de um objeto para o teu amor...
Disse-se blasfêmia, o teu perdão, Senhor.
Mas face à tua onisciência, de que adiantaria a simulação?
É melhor a confissão:
terrível, dolorosa como um tumor
rasgado sem anestesia,
mas necessária e inevitável, para purificação...(1)

Para pensarmos em sofrimento e provação, temos de pensar em


Jó. O nome desse homem foi registrado na Bíblia, servindo-os como
exemplo de fé, como prova de que o homem bom também é provado,
como consolo para todos os que sofrem. O livro de Jó conta à história de
um homem bom assoberbado por aflições. É despojado das suas
riquezas, da sua família e da sua saúde, sem saber por que Deus
consentiu naquilo. Somente o leitor sabe que Deus está procurando
comprovar ao Diabo que a fé de Jó é genuína. Três amigos vêm consola-
lo na sua desgraça, e se envolvem numa longa discussão. Os amigos
procuram explicar o que acontecera vinculando os sofrimentos de Jó aos
seus pecados. Jó rejeita a teoria deles. Ao invés de aceitar o seu
conselho no sentido de arrepender-se e assim reconciliar-se com Deus,
Jó insiste na sua própria inocência e questiona a justiça do tratamento
dado por Deus.
A esta altura, intervém o quarto personagem, Eliú, e faz quatro
discursos que, segundo pensa, solucionarão o problema; mas eles não
fazem diferença. Finalmente, o próprio Senhor se dirige a Jó. Seu
discurso transforma a atitude de Jó, que responde com submissão
contrita. Por fim, Deus declara que Jó sofrera sem culpa pessoal e lhe
restaura a prosperidade e a felicidade.
Passaremos agora a estudar o livro de Jó mais detalhadamente,
observando de perto sua pessoa, sua tragédia e reação diante dela, e os
conselhos de seus amigos. Ficaremos surpresos ao notar que muitos
desses conselhos são repetidos hoje por pessoas com boas intenções,
mas realmente sem preparo, causando resultados por vezes
desastrosos.
Deus abençoou Jó com grande prosperidade. Era o homem mais
rico de todo o Oriente. Possuía ouro e prata em abundância, exercia
grande influência em sua comunidade, era respeitado e honrado por
todos. Tinha grande sucesso em seus empreendimentos, sua esposa e
seus filhos estavam ao seu redor; sua mente e seu corpo eram
saudáveis e estavam em pleno vigor. Este homem era também completo
em termos de caráter e moral. Ele era um exemplo de integridade
quanto à moralidade e à religião. Possuía a consciência limpa, tanto
diante de Deus quanto diante dos homens. E o mais importante: era um
servo de Deus.

(1)
Deus fala na sombra, pág. 14.
Jó realmente era um homem bom e fiel a Deus. Tão bom e tão fiel
que se destacou diante dele, chamou sua atenção. Numa certa ocasião,
quando os anjos se reuniram na presença do Senhor, Satanás o
Acusador, estava entre eles (jó 1.6 BV).
Deus reuniu-se com todos os anjos, os bons e os maus. Muita
gente por aí dz que há uma grande luta entre o bem e o mal, Deus e
Satanás. É mentira. Satanás é um anjo mau, caído, pai da mentira,
acusador dos homens, tentador, e tudo o que há de mal. Mas ele não é o
Senhor, não tem estatura de Deus, nem seus atributos. Deus é o Senhor,
e está no controle de tudo.
Ele permite certas ações de Satanás, mas continua com as rédeas
nas mãos.
E Jó foi achado digno de ser provado por Deus e tentado por
Satanás.
É Deus quem chama a atenção de Satanás para Jó, quando o
inimigo conta que estava rodeando a terra e observando os homens:
“Você observou bem a meu servo Jó?”, perguntou o Senhor. “Não
há homem igual a ele em toda a terra, tão sincero e justo, obediente a
Deus e cuidadoso para não cometer pecado!” (Jó 1.8 BV).
Jó amava a Deus, sua fé era profunda e não se baseava nos bens
que recebia dele. Mas Satanás duvidou disso diante de Deus.
“Jó tem razão para isso”, respondeu Satanás. “O Senhor deu a ele
do bom e do melhor, protegendo a Jó e sua família de todos os males e
tristezas e fazendo dele um homem riquíssimo. Não é sem razão que Jó
obedece! Experimente, porém, tirar todas as riquezas e os bens que o
Senhor deu a Jó; ele vai se revoltar e dizer coisas horríveis contra o
Senhor” (Jó 1.9-11 BV).
Quando a nossa fé em Deus está apoiada nos bens que ele nos dá,
estamos em perigo. Temo muito por alguns irmãos que, em suas
orações, só agradecem pelas coisas que Deus lhe tem dado e sempre
pedem mais. Quando vêm as provações, começam a duvidar dele por
não estar sendo o Deus-Papai Noel que aprenderam a amar não por ele
mesmo, mas por seus presentes. É como a criança que aguarda ansiosa
pela chegada do Papai Noel. Se ele vier sem a sua sacola de presentes,
a criança ficará decepcionada. Seu amor não é ao Papai Noel, mas aos
presentes que ele lhe dá. E era isto que Satanás queria provar a Deus,
envergonhando-o através de Jó, quando este o abandonasse em meio ao
sofrimento. Talvez no parecer de Satanás a piedade de Jó fosse artificial
por nunca ter passado por um teste. Deus lhe dera tudo e o protegera
do mal.
Então Deus deu permissão a Satanás para tenta-lo. E o Senhor
respondeu a Satanás: “Você pode destruir tudo o que deu a Jó, mas não
toque no corpo e na saúde dele” (Jó 1.12 BV).
E foi assim que ele perdeu tudo, inclusive seus dez filhos. Algumas
tempestades da vida vêm de repente: uma grande perda, uma derrota
esmagadora, uma grande dor. Tudo desabou sobre a cabeça de Jó. De
uma só vez, perdeu tudo e todos – dor estonteante, enlouquecedora.
Mas a sua fé não estava em seus bens, e Deus foi glorificado em seu
sofrimento através de uma fé limpa, sem interesses:
Mesmo no meio de tanta desgraça, Jó não pecou nem disse que
Deus era culpado do seu sofrimento (Jó 1.22 BV).
Um homem pode ficar diante de Deus despojado de tudo quanto à
vida lhe deu e ainda assim nada lhe faltar.
“O estóico zomba daquele que derrama lágrimas, ao crente,
porém, não é proibido chorar. Às vezes, diante de uma dor muito grande,
a pessoa permanece calada, enquanto a tesoura do tosquiador roça a
sua carne trêmula; mas. Quando o nosso coração se abate sob uma
série contínua de provações, podemos buscar alívio no choro. Há,
porém, algo ainda superior a isto”.
Dizem que em certos lugares fontes da água doce saltam no meio
das águas salgadas do mar; que as mais lindas flores dos Alpes se
encontram nos recantos mais agrestes e escarpados das montanhas;
que os mais sublimes salmos foram o produto da mais profunda agonia
da alma. Pois bem, assim, entre as múltiplas provas, aqueles que amam
a Deus encontrarão motivo de grande alegria”(2).
Quando há calmaria na minha vida, a princípio “aproveito” para
fazer tudo que me dá prazer, e aos poucos vou me afastando de Deus.
Já quase não leio a Bíblia, oro somente nas refeições aquela “reza”
decorada e repetida... e fico vazia. Louvo ao Senhor porque ele não me
deixa ficar assim. Meu ministério no hospital é cheio de provações
contínuas, e não terei palavras para consolar se não estiver em
comunhão com o Senhor. Sinto-me falando “palavras de vento” a
pessoas que precisam desesperadamente de consolo. E não tenho o que
lhes dar. E sou vazia. Mas ele me desafia constantemente, não me deixa
sem provas e lutas, porque me conhece. Sabe quanto eu preciso delas
para crescer. E ele conhece os meus limites. Somente porque estou
aprendendo a amá-lo sobre todas as coisas e tenho a certeza de que ele
me ama, posso ter a confiança de me entregar-me em suas mãos sem
impor condições.
Deus é fiel... e não permitirá... que sejamos provado além das
forças que ele mesmo nos dá para vencer.
Que alívio saber disso! “Quando Deus põe um peso sobre nós, ele
sempre põe seu braço debaixo”.
Mas nem sempre permitimos que o Senhor atue em nós. É
dolorido, dá trabalho e não queremos o seu toque. Preferimos ficar
comodamente estacionados.
Muitas vezes queremos somente uma “porção de Deus”, de forma
que atenda às nossas necessidades e nos deixe acomodados. Mas ele
não permite que o tenhamos em nossas mãos, ele nos quer
incondicionalmente nas suas.

(2)
Mananciais do Deserto, pág. 78.
“Eu gostaria de comprar três dólares de Deus, que não chegue a
fazer explodir a minha alma e nem venha incomodar meu sono, mas que
seja suficiente para garantir-me um copo de leite quente e uma soneca
ao sol. Não quero dele uma quantidade tão grande que me faça amar os
negros, nem colher beterrabas junto com os trabalhadores migrantes.
Quero êxtase, não transformação pessoal; quero o calor de um ventre
materno, não um novo nascimento. Quero um quilo de eternidade em
um saquinho de papel. Por favor, dê-me três dólares de Deus!”(3).
Nosso ego não deseja Deus na sua inteireza, mas tê-lo a uma
distância razoável. Queremos dele apenas uma porção suficiente para
nos salvar no inferno, para nos dar bênçãos, para nos proteger, para nos
impedir de sofrer. Não queremos conhece-lo profundamente, e só o
buscamos verdadeiramente quando estamos no fim de nossas forças,
sem mais nada para lhe oferecer, quando temos mais consciência de
nossa nudez.
Mas Deus quer fazer de nós pessoas úteis em suas mãos. Não
vasos de barro vazios, mas cheios da sua pessoa, transbordando de
amor por ele, dessedentando outros que nos rodeiam. Ele quer que
sejam doadores, não somente receptores; servos, e não superastros.
Deus quer nos fortalecer, aperfeiçoar e nos tornar semelhantes a
Jesus. Ele não quer que sejamos como vasos de vidro ou porcelana.
Deseja ver-nos como peças de aço, enrijecidas, capazes de suportar
torções e compreensões até o máximo, sem se partir.
A fé cresce em meio às tempestades.
Ele sabe o meu caminho; se ele me provasse, sairia eu como o
ouro (Jó 23.10).
É no meio das tempestades da vida que exercitamos a fé e vemos
a Deus com mais clareza.
“Quando Deus quer um carvalho, ele o planta num lugar onde as
tormentas o fortificarão e onde as chuvas se abaterão sobre ele, pois é
no meio da batalha contra os elementos que o carvalho ganha suas
fibras rijas e se torna o rei da floresta.
As árvores mais fortes não são as encontradas ao abrigo das
florestas, mas as de campo aberto, onde ventos de todos os lados às
açoitam, curvam e torcem, até que por fim atinjam toda a sua estatura.
Essa madeira é a mais procurada para o fabrico de carrocerias e de
instrumentos pesados.
Quando Deus quer aperfeiçoar um homem de Deus o coloca em
meio de alguma tempestade. A história dos grandes homens é sempre
de rudezas e asperezas. Ninguém se faz grande, enquanto não tiver
passado pelas ondas de tormenta e encontrado a resposta da sua
oração: ‘Ó Deus, torna-me, quebranta-me, faze-me’.
Portanto, quando virmos um gigante espiritual, lembremo-nos de
que a estrada que devemos palmilhar para ficar ombro a ombro com ele
não é aquela alameda florida e ensolarada, mas, sim, um trilho íngreme,
(3)
Wilbur Rees, citado no livro Eu, um servo?
estreitoso e rochoso, onde as rajadas do inferno quase nos derrubam,
ode pedras pontiagudas nos rasgam a carne, onde espinhos nos ferem a
fronte, e onde répteis venenosos nos atacam de todos os lados.
Os heróis da vida são os que foram açoitados pela tormenta e
marcados pela batalha”(4).
Uma heresia que engana e confunde a muitos diz que quanto mais
nos tornamos íntimos de Deus, quanto mais o conhecemos, mais fáceis
se tornam as coisas. Há por aí uma falsa teologia dizendo que Deus quer
que seus filhos estejam alegres, tenham tudo o que desejam e, se
alguma coisa lhes falta em bens materiais, é porque sua fé está
pequena.
“Por essas idéias, quando enfrentamos provações, nosso primeiro
pensamento é de que Deus está nos punindo. Ou então supomos que, se
orássemos mais, as circunstâncias não frustrariam os nossos sonhos.
Esse pensamento não se coaduna com a vida e a mensagem de Jesus
Cristo, nem com a dos santos, mártires e fiéis seguidores do Mestre.
Nossa oração não deve ser por vidas fáceis, mas por vidas capacitadas
por Deus, que se tornam grandes pela sua graça”(5).
Satanás estava usando Jó, com a permissão de Deus, para
desacreditar o nome do próprio Deus, querendo faze-lo renunciar
totalmente a ele e a amaldiçoá-lo. Mas mesmo quando Jó foi ferido em
todo o seu corpo, sofrendo por muito tempo, abandonado, sozinho,
cuspido, não abandonou ao seu Deus. Questionou, reclamou, brigou,
mas não o deixou.
E mesmo diante de mais este sofrimento terrível Jó não disse uma
palavra má contra Deus (Jó 210 BV).
Jó fora sacudido, mas não prostrado pelas calamidades. Ele não
tinha orgulho ou medo de ser considerado menos espiritual por chorar
sua dor diante de todos. A graça nos ensina não a viver sem tristeza,
mas a mantê-la sob controle, conectando-a com a penitência, a
submissão, a fé e a esperança.
“Um erro que Satanás sempre comete e o de pensar que Deus é
limitado com ele. E outro, é o de pensar que os servos de Deus são
iguais aos dele: aproveitadores que se vendem a qualquer preço,
hipócritas que têm uma vida superficial e orgulhosos que nunca
aceitariam ser humilhados.
Quanto mais ele esmagava a Jó, mais este exalava um perfume
que ao mesmo tempo agradava a Deus e deixava Satanás boquiaberto.
Quanto mais pressionado, mais proclamava Jó a sua lealdade a Deus.
Satanás foi obrigado a ver um homem reabilitado e um Deus glorificado,
na medida em que os dois continuaram a caminhar juntos, num
relacionamento perfeitamente satisfatório. Jó foi a Deus com sua dor
esmagadora, curvou-se até o pó, e o adorou.

(4)
Mananciais do Deserto
(5)
O Senhor do Impossível, pág. 45.
Foi a maravilhosa graça divina na vida de Jó que o impediu de
amaldiçoar a Deus; foi a constante presença de Deus com ele; foi o
imbatível poder de Deus em sua vida.
Nós não precisamos de graça para morrer, mas sim, para viver.
Quando chegar a hora de morrermos, nós a teremos”(6).
Nossas noções acerca de Deus influenciam o modo como reagimos
às provações. Se não crermos que ele nos ama, que faz com que todas
as coisas cooperem para o nosso bem – mesmo que no momento não
possamos entende-las – e que ele está no controle absoluto de tudo, não
permitindo que nenhuma dor seja maior que o consolo que ele mesmo
nos dá para suportar e vencer, então, só então nos desesperaremos.
O apóstolo Paulo foi um homem que andou com Deus. O Senhor o
usou maravilhosamente para levar o seu Evangelho aos não-judeus, e
sua amizade por ele era tão grande que Deus lhe fez revelações
maravilhosas sobre a sua pessoa e projetos. Mas ele conhecia a Paulo, e
não queria que a grandeza dessas revelações fizesse com que o
apóstolo se orgulhasse, afastando-se do Pai. Então, deu-lhe um presente
amargo, para faze-lo permanecer sempre fiel.
Uma coisa eu digo: em vista de serem tão extraordinários estas
experiências que eu tive. Deus ficou receoso de que me inchasse com
elas: por isso, foi-me dado uma doença que tem sido um verdadeiro
espinho em minha carne, um mensageiro de Satanás para me ferir e me
atormentar, e para esvaziar meu orgulho. Em três ocasiões diferentes
implorei a Deus que me fizesse ficar bom de novo. E cada vez ele disse:
“Não. Mas eu estou com você; isso é tudo de que você precisa. Meu
poder revela-se melhor nos fracos” (2 Co 12.7-9 BV).

“Se desenvolvermos um relacionamento com Deus independente


das circunstâncias de nossas vidas, então poderemos ser capazes de
ficar firmes quando a realidade física desmoronar. Podemos aprender a
confiar em Deus apesar de toda a injustiça da vida. Não é essa a lição
principal de Jó?”(7).
“No livro de Jó, vemos que Satanás sugeriu que Jó foi condicionado
a amar a Deus pelo que este lhe dava. Mas Jó calou o Acusador ao
declarar sua fé apesar de tudo o que acontecera. Despojado de tudo,
exceto de sua liberdade, ele ainda assim exercitou aquela liberdade para
crer num Deus a quem não podia ver”.(8)
Conforme vemos, a batalha mais importante não ocorreu nos céus
ou ao redor de Jó, mas dentro dele. Confiaria em Deus? Os céus
aguardavam sua resposta, que Deus já sabia. Ele nos ensina que nos
momentos em que a fé é mais difícil e menos provável, então ela é mais
necessária.

(6)
Além da dor, pág. 78.
(7)
Decepcionado com Deus, pág. 181
(8)
Decepcionado com Deus, pág. 170
Deus sabe como eu temo passar por grandes provações. Ao
imaginar a perda de Jó, seus bens, seus filhos e sua saúde... sua dores
terríveis, sua incapacidade de agir, sua perplexidade por não entender
como o Deus de amor podia permitir tanto horror...realmente, tenho
medo de sofrer uma fração do que ele sofreu.
Mas a Palavra de Deus conforta o meu coração. A certeza de Sua
presença sustentando-me em qualquer provação reanima meu espírito,
dando-me a segurança da vitória.
Seu conforto dá-me ousadia de perguntar, como Paulo:
Que podemos dizer diante de coisas tão magníficas quanto essas?
Se Deus está do nosso lado, quem é que pode estar contra nós? Visto
que ele, em nosso favor, não poupou nem o seu próprio Filho, mas o
entregou por todos nós, será que certamente não nos dará tudo o mais?
Quem se atreve a nos acusar, a nós, que Deus escolheu para sermos
dele? Será que Deus faria isso? Nunca! Foi ele quem nos perdoou e nos
deu direito de ficar com ele.
Quem nos condenará, então? Cristo? Não! Foi ele quem morreu
por nós e voltou à vida por nossa causa, e agora está sentado no lugar
de maior honra junto a Deus, rogando por nós lá no céu.
Quem, então, pode jamais ocultar de nós o amor de Cristo?
Quando estamos em aflição ou em desventura, quando somos
perseguidos de morte ou destruídos, será que isso acontece porque ele
não mais nos ama? E se tivéssemos fome, ou ficarmos sem dinheiro, ou
passamos por perigos, ou formos ameaçados de morte, será porque
Deus nos desamparou?
Não, pois as Escrituras nos dizem que por sua causa precisamos
estar prontos a enfrentar a morte a qualquer momento do dia – somos
como ovelhas prontas para ser abatidas no matadouro. Mas, apesar de
tudo isso, temos uma vitória esmagadora por meio de Cristo, que nos
amou a ponto de morrer por nós.
Estou convencido de que nada poderá jamais separa do seu Amor.
A morte não o pode, nem tampouco a vida. Os anjos não o poderão, e
todas as forças do inferno não poderão afastar de nós o amor de Deus.
Nossos temores pelo dia de hoje, nossas preocupações sobre o dia de
amanhã ou o lugar onde estivermos – bem alto no céu ou nas
profundezas do mar – nada, jamais, será capaz de separar-nos do amor
de Deus demonstrado pelo nosso Senhor Jesus Cristo quando morreu
por nós (Romanos 8.31-39 BV).

REAÇÕES NAS PROVAÇÕES

“É desconcertante ver como a vida torna algumas pessoas tristes


e outras graciosas. Duas pessoas podem atravessar o mesmo vale de
circunstâncias de desanimadoras. Um sai com renovado vigor e alegria,
a outra, com ressentimento e desânimo. A alguns, a tragédia os edifica;
mas a outros, os desmorona. Alguns crescem, outros murcham”.(9)
Durante os primeiros meses depois do trauma, a pessoa necessita
de tempo e compreensão. Diante de uma crise, uma provação, cada um
de nós tem pela frente uma decisão a tomar: optar pela vida, o que
nos leva a superar a crise, crescer e ter maior maturidade; ou optar
pela morte, deixando que esta tenha domínio sobre a vida.
Opção pela vida
As pessoas que fazem essa porção refletem sobre o que passaram,
conversam com os amigos ou parentes íntimos sobre os seus
sentimentos recobram a confiança nelas mesmas e voltam a trabalhar
com dedicação e a colabora com os outros em busca de um futuro
melhor. Elas cresceram em meio à dor, tornaram-se mais sábias e
maduras, aprenderam a usar os “ciclones da vida”.
“Perguntei a um piloto qual a maior dificuldade de vôo através da
zona do Caribe. ‘São os ciclones?’ indaguei. A resposta foi: ‘Não;
podemos aproveitar os ciclones. Eles se movem vagarosamente no seu
centro, de modo que colocamos o avião nas suas margens e, assim,
temos atrás de nós um vento de cem milhas. Ao regressar, tomamos a
outra margem do ciclone. Aproveitamos, assim, o ciclone tanto na ida
quanto na volta”.(10)
Nossas reações determinam o tipo de vida que levaremos. Diante
da dor, poderemos reagir nos lastimando amargurados ou com confiança
e coragem, fazendo com que o mal nos torne melhores.

Crescendo em meio à crise


Como poderemos crescer em meio à crise?
Dr. Jorge Maldonado nos fala sobre este tema em seu livro
Consolacioán Y Vida. Para crescermos em meio à crise precisamos:
a. Refletir sobre o acontecido: o que me aconteceu? Como isso me
afetou?
b. Aceitar a perda: o que aconteceu, acontece! Nada posso faze
para mudar o que passou.
c. Expressar sua dor: encontrar alguém com quem possa
desabafar.
d. Dar a si mesmo tempo para sarar: compreender que não dever
apressar-se em seu processo de recuperação.
e. Fazer os ajustes necessários para seguir adiante: a vida não
parou; vale a pena continuar vivendo!
Como reagir, optando pela vida?
Desabafar seus sentimentos.
Uma pessoa sacudida profundamente por uma tragédia está
afetada social, econômica e psicologicamente. Há como um terremoto
sem seu interior. Isto produz tensões, muita dor, desejo de gritar, chorar,
(9)
O Senhor do Impossível, pág. 1.
(10)
O Caminho, pág. 257.
de acabar com a vida. Estes sentimentos se manifestam em tão grande
intensidade que parecem um vulcão em erupção.
É necessária a liberação destes sentimentos de maneira correta. E
a melhor maneira de faze-lo é falando honestamente sobre seus
sentimentos em relação ao acontecido, sem medo de se expressar, com
palavras sem pré-elaboração, brotando diretamente do coração. Se
sentir vontade de morrer ou se estiver zangado com Deus, deve dize-lo.
Falar sem medo de escandalizar, de ofender, de blasfemar, de ser
incoerente. Falar sobre um sentimento inconfessável é o primeiro passo
para domina-lo e suplanta-lo.
1.2 Redirecionar a conduta.
A tragédia produz mudanças inevitáveis. Se se tratar da perda de
uma pessoa, não a teremos mais para falar ou ouvir nossas
confidências. Se se tratar da perda de uma coisa, teremos que aprender
a viver sem ela e sem as comodidades e benefícios que ela nos
proporcionava. Precisamos refazer nossa conduta diante dessa nova
realidade.(11)
Neste novo caminho é importante a contribuição da fé e da
esperança. Sair de uma catástrofe sem a ajuda da fé é algo quase
impossível. Se não cremos em Deus, buscando nele as forças,
dificilmente iremos em frente. O fato de que nossa vida precisa ser
redirecionada para novos alvos, exige de nós forças que somente a
pessoa de Jesus pode nos dar.
Diante do caos, da destruição de nossos referenciais, precisamos
buscar novas metas para nossa vida e para nossa família. A falta de
esperança e de planejamento é sinal de que a morte se instalou em nós.
Ficamos imóveis, apáticos e sem ver nada além de trevas. Mas a
esperança de que mesmo nos momentos difíceis e desfavoráveis
podemos lutar, trabalhar e vencer nos impulsionará para frente”.
A opção pela morte
Roberto estava com dezessete anos quando foi internado no
Hospital Emílio Ribas. Jogado na rua pela família, abandonado pelos
amigos, sem dinheiro, sem trabalho, era terreno aberto para as doenças
oportunistas dentro de seu quadro de AIDS. Era muito difícil conversar
com ele. Encolhido sobre o leito, olhar sem vida, movimentos lentos e
sem expressão, retratava a morte em vida. Só o vi falando em voz alta
uma vez: brigava com a enfermeira porque não queria mais tomar
banho, nem a deixava trocar os lençóis de sua cama. Queria ir embora,
mas não tinha como, nem para onde ir. Isso aconteceu na sexta-feira. No
sábado Roberto morreu. Sem palavras, sem complicações de seu estado
clínico, nada. Sem explicações. Ele havia optado pela morte e ninguém
poderia detê-lo.
Podemos saber que uma pessoa optou pela morte pelos seguintes
sintomas:
1.1 Separação
(11)
Consolación y Vida, pág. 43.
Ela evita a confrontação física ou psicológica com a realidade.
1.2 Negação
Quando a pessoa nega ter sentido, ou se nega a expressar algum
dos sentimentos relacionados com as reações iniciais (tristeza, raiva,
medo, culpa, etc.). A negação consiste em exagerar ou menosprezar um
ou mais desses sentimentos, ultrapassando o sintoma inicial como forma
de compensar outra emoção reprimida, como é o caso do pranto
contínuo muito tempo depois do trauma.
Tal comportamento é uma forma de evitar sentir raiva ou culpa.
1.3 Agressividade
Caracteriza-se por uma defesa desmedida dos direitos próprios, a
ponto de não respeitar os direitos alheios. Egoísmo! O único que vale é o
seu direito, o resto “que se dane”.
1.4 Passividade
É acomodação, apatia, mesmo diante da violação de seus próprios
direitos.
1.5 Interdependência
Comportamento competitivo em relação às outras pessoas,
especialmente aquelas que sofreram perdas iguais ou semelhantes às
suas. É uma maneira de dizer que sua perda foi maior que a dos outros,
pelo que se justifica a sua dor. Ou, a contrário, ao comparar sua perda
com a de outros, procura provar a si mesmo o que se passou com ela
não e nada comparável a perda da outra pessoa.
Existem muitas pessoas que não foram preparadas para a morte e
a dor, principalmente numa sociedade como a nossa, que vive para os
prazeres sem pensar na possibilidade de algo trágico lhe acontecer.
Quando enfrentamos a dor e a perda, assumindo nossos sentimentos e
expressando-os, aceleramos nossa recuperação. Algumas têm
dificuldades de expressar seus sentimentos, por razões culturais, pela
formação familiar (homem não chora!) ou pelas características de seu
temperamento.
Se a pessoa não começar a “trabalhar” sua perda dentro de uma
certa faixa de tempo, fatalmente evoluirá para uma crise secundária
com as seguintes características:
1. Depressão crônica
Algumas pessoas reagem à dor da perda com apatia, parando na
vida. Mas se isso se prolongar por mais de seis meses, a pessoa não
voltar a trabalhar e chegar a separar-se dos demais é possível que
precise da ajuda de um bom psicólogo ou psiquiatra cristão. Ela pode
estar em perigo de romper com a realidade e refugiar-se em um mundo
interior e fecho (psicose ou loucura).
2. Hiperatividade
Agora, seu desejo de trabalhar não é mais para ser útil. É uma
fuga de seus problemas.
3. Hipoatividade
É uma extensão do sintoma inicial da apatia. Ela passa o dia todo
com um mínimo de atividade, não se penteia mais, não quer tomar
banho, trocar de roupa ou sair de casa.
4. Superidentificação
A pessoa se identifica tanto com o morto que passa a agir como
ele faria. Isto requer uma ação rápida em busca de ajuda profissional.
5. Somatização crônica.
Agora ela vive continuamente enferma. O impacto emocional que
a feriu também atingiu fisicamente.
6. Alteração relacional
Ela passa a comportar-se de maneira muito diferente da
costumeira.
7. Fármaco-dependência
A pessoa passa a experimentar o álcool, remédios ou outras
drogas, e se vicia.
8. Agressividade e ou tentativa de suicídio
Ela se torna muito agressiva e ou tentar matar-se.

9. Criminalidade
Começa a portar-se mal. Sem nunca ter tido problemas com a lei,
começa a cometer pequenos furtos e a andar em más companhias.
10. Falta de afetividade
Ela se torna insensível, indiferente e perde o desejo de dar ou
receber carinho. Precisa de muita ajuda para que não ponha fim à
própria vida.
Qualquer pessoa que não esteja fortemente apoiada numa fé
verdadeira pode correr o risco de perder a esperança e optar pela morte.
A intervenção de um consolador amoroso, que seja usado por Deus em
sua reabilitação, comunicando-lhe a certeza de presença e ação do Pai
em vida poderá tira-la do “fundo do poço”, levando-a a optar pela vida.

JÓ: SEU SOFRIMENTO

Jó, o homem mais justo e temente a Deus que existiu sobre a face
da terra, estava arrasado. Primeiro perdera todos os seus bens
materiais: seu rebanho de ovelhas fora queimado; os bois, os camelos e
os jumentos, roubados. Depois perdeu quase todos os seus servos, a
quem tratava com dignidade e amor. A seguir, como se já não bastasse
tanta desgraça, um de seus servos a que sobrevivera veio dar-lhe a mais
triste notícia: todos os seus filhos estavam reunidos na casa do irmão
primogênito, compartilhando da amizade e carinho uns dos outros,
quando um vento muito forte derrubou a casa sobre eles e todos
morreram. A saudade, juntando-se à tristeza, trouxe à sua mente
lembranças de imagens passadas, de momentos alegres.
Como se espera o nascimento de um filho! Nove meses de
preparo, de carinho, de espera para ver o rostinho tão lindo daquele
bebê que se mexe no interior da mãe. Então chega o dia tão esperado: o
primeiro choro, e seus olhos enchem-se de lágrimas ao contemplar
aquele ser perfeito que Deus formou em segredo. Todos os dedinhos
perfeitos, a boquinha sempre faminta, o calor do corpinho tão amado.
Depois, você o acompanha enquanto cresce, participa da alegria de ver
seus primeiros passos, sorri com suas peraltices, faz-se criança com ele
em seus brinquedos. Logo ele está na escola, em pouco tempo já é um
adolescente e tem vontade própria, já luta por sua opiniões.
Quantas lutas, cheias de momentos de alegria e de tristeza! Mas
tudo vale a pena, é maravilhoso podermos acompanhar o crescimento
de nossos filhos, sonharmos juntos, planejarmos com cada m sobre seu
futuro, sua profissão, vivermos juntos a vida. Mas, de repente, sem
nenhum aviso nem explicações, ele sofre um acidente ou fica muito
doente e morre. Deixa de existir desaparece de nosso convívio, de nossa
intimidade e deixa um enorme vazio. Seus livros, sua cama, seus objetos
favoritos, suas fotos...tudo continua intacto, mas ele se foi para sempre.
Uma dor profunda e surda esmaga o nosso coração. Milhões de
pensamentos desconexos voam pela nossa mente, sem que consigamos
organiza-los. Não há uma linha definida, somente confusão. Uma
vontade absurda de gritar, chorar, morrer, e ao mesmo tempo uma dor
tão grande que nos faz calar. Mudos, pois não há como expressar tudo
isso em palavras.
Jó se lembrava de cada um de seus filhos com carinho, com
saudade. Ainda não podia crer na notícia. A realidade era por demais
difícil de aceitar. Num piscar de olhos, acabou-se o barulho de vozes,
risos, o canto, as discussões...tudo se aquietou. Todos se foram.
Morreram. De sua família tão grande, só restou a esposa que, naquelas
circunstâncias, não o socorreu como era de se esperar. Ter-lhe-ia sido
mais arrasador o choque? Não estava preparada para tanto?
Mas, como diz o dito popular, “Desgraça pouca é bobagem”. Em
meio a tanta dor, Jó adoece. Não um simples resfriado ou alguma
doença que se resolvesse por si mesma ou através do chá de ervas da
vovó. Tudo começou com uma coceira, e logo apareceram as manhas na
pele, que da noite para o dia se transformaram em tumores que
purgavam e causavam dores constantes.
A identificação de doenças com nomes antigos não é fácil tarefa,
mas a opinião médica dos nossos dias sugere que a doença de Jó fosse
um caso de furunculose estafilocócica generalizada. (12) Outros já falam
em elefantíase(13) e ainda outros em lepra.(14) Em artigos na revista Fé e
Vida, o Prof. Flamínio Fávero, então Catedrático de Medicina Legal na
Faculdade de Medicina de São Paulo, ligada ao Hospital das Clínicas,
(12)
Novo Comentário da Bíblia, pág. 468
(13)
Bíblia Vida Nova
(14)
Jó – Introd. e Comentários
concluiu que a doença de Jó era Pênfigo Foliáceo, ou Fogo Selvagem. E a
conclusão dele parece à única que combina com a descrição da Bíblia.
Mas a falta de pormenores impede o diagnóstico clínico. Só podemos
avaliar de “longe” sua dor ao ler os dados que a Bíblia nos fornece:
1. Essa doença atacou-lhe o corpo inteiro; somente a gengiva não
foi afetada: Então Satanás partiu da presença do Senhor e
lançou uma terrível doença sobre Jó. O corpo de Jó ficou
inteiramente coberto de feridas abertas e cheias de pus, dos
pés à cabeça (Jó 2.7 BV).
2. O mau hálito e o cheiro de seu corpo tornavam-no repugnante:
Minha própria esposa não chega perto de mim por causa do
mau cheiro que sai de minha boca quando falo; por causa do
mau cheiro dessas feridas abertas, meus próprios irmãos não
se aproximam de mim (Jó 19.17 BV).
3. Muitas infecções. As chagas criavam vermes, pústulas que
estavam em constante erupção: A minha carne está vestida de
vermes e de crostas terrosas; a minha pela se encrosta e de
novo supura (Jó 7.5).
4. Emagreceu muito e seus dentes apodreceram: Os meus ossos
se apegam à minha pele e à minha carne, e salvei-me só com a
pele dos meus dentes (Jó 19.20).
5. A pele descascava e ele tinha febre: Minha pele, dura e negra,
se quebra e cai; dentro de mim, os ossos queimam como fogo
(Jó 30.30).
6. Chorava muito: Já não tinha mais lágrimas; meus olhos já estão
vermelhos de tanto chorar e tenho profundas olheiras, como
um homem prestes a morrer (Jó 16.16 BV).
7. Sofria de insônia e pesadelos: Quando vou me deitar penso:
Quem dera que já fosse de manhã! Mas a noite é comprida e eu
me viro de um lado para outro na cama, sem poder dormir (Jó
7.4 BV). Quando vou dormir penso que o sono me fará esquecer
a dor e o sofrimento, mas o Senhor me assusta com pesadelos
horríveis (Jó 7.13, 14 BV).
8. Falta de visão: ...e sobre as minhas pálpebras está à sombra da
morte (Jó 16.16b)
Os outros o olhavam com olhares perturbados:
Quando os três viram Jó, de longe, não reconheceram seu amigo,
de tão mudado que estava (Jó 2.12 BV).
Meu coração está quebrado em pedaços; meus dias estão cheios
de dor e sofrimento. Minhas noites são cheias de dor e parece que os
meus ossos estão sendo furados e quebrados sem parar. Minha doença
é tão terrível que meu corpo ficou todo deformado, minhas roupas
ficaram cheirando a pus e colaram à minha pele (Jó 30.16-18 BV).
EU ESTIVE COM JÓ

Nunca imaginei que veria um homem como Jó. A cena tão horripilante
e cruel que a lançamos para a dimensão de filmes de terror. Mas ele estava
ali na minha frente. Muito magro, com o corpo semicoberto pelos lençóis, só
deixava ver a sua cabeça, os braços e o peito coberto por tumores. Seu
nome era Antônio. Aproximei-me e o chamei, mas ele mal podia abrir os
olhos cobertos de pústulas, que estavam também dentro das pálpebras,
deixando escorrer o sangue e o pus mal-cheiroso. Suas mãos estavam em
carne viva. Não havia lugar são em seu corpo. Quando me olhou, os olhos
semi-cerrados, mostrou-se feliz com minha presença. Finalmente alguém se
aproximara dele! Já fazia quatro meses que estava nesta situação e, apesar
de todo cuidado médico, ninguém conseguia melhorar muito o seu estado.
As pústulas se fechavam durante algum tempo para, em seguida, se
abrirem novamente. Penso que senti o mesmo impacto que devem ter
sentido os amigos de Jó: dor, ao ver tanto sofrimento, e a incapacidade de
saber que nem mesmo a Medicina tinha solução para esse mal. Chorei por
pensar como ele estaria se sentindo naquela situação. A única coisa que
podia fazer no momento era ficar ao seu lado, quieta, orando ao Senhor
para que aliviasse seu sofrimento.
Foi ele quem começou a falar. Agradecia a Deus por ter me mandado
ali, consola-lo. Dizia que Deus é muito bom, e tinha certeza de que o Senhor
estava cuidando dele. Não tinha medo da morte e até estava ansioso para
que ela chegasse logo, mas enquanto isso não acontecia estava disposto a
enfrentar a vida e o sofrimento com fé.
Falei-lhe de Jesus, de seu amor, seu perdão, e da certeza da Vida
Eterna garantida a todos que lhe entregam suas vidas. Contei-lhe a
experiência de Jó e ele sorriu consolado. Emocionado, agradeceu a minha
visita, pedindo que orasse por ele e que voltasse sempre.
Ao encontrar pessoas em grande sofrimento, como o Antônio,
preocupo-me com tipos de palavras a usar para consola-las, certa de que as
encontrarei revoltadas contra Deus. Mas sempre me surpreendo, pois a
situação é inversa. Vejo-as clamando pela presença mais íntima de Deus,
louvando-o por seu amor e companhia. Quando não lhes resta mais
esperança, anseiam pelo céu, preocupadas em saber como chegar lá!
A perda de seus filhos e bens trouxe-lhe a dor, porque representou
o início de um processo de morte.
Jó estava sofrendo, em meio a muitas dores do corpo e da alma.
Estava passando por uma época de crise; e diante dela, tinha de
escolher: ou fazer uma opção pela vida, superando a crise,
amadurecendo e tendo vitória sobre a morte que se instalou em sua
vida, ou então permitir que os sinais de morte se incorporassem cada
vez mais nele, deixando que dominassem sua vida. É necessário ter
amigos que possam ajudar, trabalhando criativamente sobre os
sentimentos que acompanham a perda, optando pela vida, lutando
contra a morte, exercendo o ministério de consolação, transmitindo vida.
Jó estava começando a enfrentar a crise e creio que, chocado e
ferido como estava, sua primeira reação foi de negação ou
incredulidade.
Jó deve ter demorado muito a crer no que de fato acontecera com
seus filhos. Talvez ele tenha pensado: “Não é possível! Faz uma hora que
conversei com eles!”.
“Essa reação de incredulidade é como um mecanismo de defesa
utilizada como proteção emocional diante da dor intensa. Essa etapa
não dura muito, porque a própria realidade leva a pessoa a assumir a
veracidade de fato de sua perda.
Vencida a primeira etapa, teve início um processo para enfrentar a
dor. Sofrer ante a perda, manifestar exteriormente este e outros
sentimentos é uma reação normal, natural e necessária (15)”.
Uma determinada linha de interpretação bíblica ensina que o
cristão nunca pode estar triste, que o sofrimento não cabe na vida do
crente e que se deve constantemente louvar a Deus por todos os fatos
da vida. Nada mais é perigoso que isto. Afastar a dor seja por contenção
de suas manifestações, pela repressão do choro ou escapando em
atitudes místicas é “extremamente prejudicial, ao contrário do que
muitos pensam”.
A Bíblia nos diz para louvarmos a Deus em todas as circunstâncias
(porque ele as permite para o nosso crescimento), mas não por todas as
circunstâncias.

A importância da gratidão
Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei; o Senhor o deu, e o
Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor (Jó 1.21).
Jó não reclamou, não brigou com Deus por ter tirado seus filhos e
seus bens. Ficou triste, muito triste, é claro. Mas não atribuiu a Deus
falta alguma (Jó 1.22).
(15)
Consolación y Vida, pág.
REAÇÕES NATURAIS DIANTE DAS CRISES

1. Angústia. – É uma experiência normal nas pessoas que viveram uma grande tragédia.
Normalmente não podem dormir, têm pesadelos, tribulação, estão inquietas, tornam-se
sensíveis, irritáveis, assustam-se com tudo, desconfiam, sentem-se incapacitadas para
fazer as coisas, desesperam-se por estar sós.
2. Ira. – Podem dirigi-la contra a natureza, o destino, contra Deus, até mesmo contra os
que morreram (“e me deixaram só”), contra os que sobreviveram (porque eles e não
outros?) e ainda contra as pessoas que querem ajuda-las.
3. Medo. – Principalmente quanto ao futuro; não vêem como poderão seguir adiante sem a
pessoa que morreu, ou têm medo de que a tragédia possa se repetir. A perda do Mestre,
com a crucificação, produziu medo nos discípulos, que acabaram escondidos, temendo
que os judeus fizessem o mesmo com eles.
4. A culpa – É o sentimento mais comum ante uma perda. A pessoa se reprova por coisas
que deixou de fazer pela pessoa querida.
5. Somatização – Podem ficar enfermas fisicamente: dores de cabeça, dores no corpo,
enjôos, diarréia, desmaios, sensação de pressão no peito, pressão, sufocamento, falta de
ar, cansaço, falta de sono.
Sabemos que no caso de Jó, sua doença não era por uma fatalidade, mas sim, causada por
Satanás para prova-lo.
6. Alteração de comportamento – As pessoas mudam de conduta diante de uma crise. Há
quem se torne indiferente, apática, sem vontade de fazer nada, nem sequer levantar-se.
Outras tornam-se demasiado ativas, não param quietas, não podem dormir, trabalhar
sem parar. Outras ainda, têm visões e ouvem vozes.
7. Idéias suicidas – Diante da perda, muitas pessoas pensam que seria melhor morrer.
Porque pois, me tiraste da madre? Ah! Se eu morresse, ante que olhos nenhuns me vissem
(Jó 10.18).
8. Emoções intensas – É normal e saudável manifestar essas emoções e falar delas. Não é
saudável conte-las e reprimi-las; é melhor expressa-las com franqueza para sentir alívio.
“Durante os primeiros meses depois do trauma, a pessoa necessita de tempo e compreensão
para vivenciar, elaborar e logo perder naturalmente os sintomas iniciais”.
(16)

Jó era agradecido pelos bens que Deus lhe permitira possuir. Ele
não achava que Deus era obrigado a lhe dar todas as coisas boas por ele
(16)
Consolacioón y Vida, pág. 32.
ser um homem bom. Sabia que tudo que recebia era pelo amor e pela
graça de Deus, não por seus méritos pessoais.
“A gratidão gera alegria de viver e o ser agradecido é a expressão
de maturidade e saúde. A gratidão nos leva a sentir a vida como um
presente constante(17)”.
A cada novo amanhecer, ainda na cama, agradeço ao Senhor por
mais um dia de vida e entrego-me entusiasmada em suas mãos,
esperando as “surpresas” que ele me preparou nesse dia. Viver é
realmente uma aventura segura quando sabemos estar nas mãos de um
Deus que nos ama, que tem controle absoluto sobre todas as coisas e as
usa (mesmo que nos pareça mal) para o nosso bem.
Paulo e Silas (Atos 16.25), dentro da prisão, com os pés presos ao
tronco, as costas feridas, cheias de vergões feitos pelos chicotes,
cantavam louvores a Deus, seguros do seu amor e direção.
“Aquele que é agradecido aprende a ser feliz com as pequenas
coisas da vida. Não espera pelos grandes e fantásticos eventos para se
alegrar. Olhando ao seu redor, crê que tudo quanto tem é um presente.
Não existe nele a busca do prazer como um fim em si mesmo; com
atitude madura e saudável desfruta do que tem e dá graças a Deus, a
seus semelhantes, e à vida por serem tão generosos consigo(18)”.
Jó se alegrava com seus filhos, com as reuniões de família, com a
riqueza e a comodidade que esta lhe dava, mas jamais colocou neles o
seu coração. Não se prendeu a eles. O Senhor continuava a ser seu
maior tesouro, e seus filhos e bens, presentes do Amor do Pai.
Mas, além da perda, Jó estava enfermo em sua carne. Nem ele,
sendo tão bom, escapou. A doença atinge a todos, indistintamente. Ela
nos lembra que somos frágeis, finitos e que também vamos morrer um
dia. Arranca-nos de nossos devaneios e futilidades, desafiando-nos a
buscar a Deus e a viver dentro de uma nova dimensão, planejando cada
dia cuidadosamente e vivendo-o intensamente, como se fosse o último.
“A graça não mantém os crentes longe da morte. A riqueza não
pode comprar sua isenção dela. A riqueza não pode prevenir contra os
seus assaltos. Reis e súditos, patrões e empregados, ricos e pobres,
cultos e incultos, professores e alunos, médicos e pacientes, ministros e
ouvintes, todos caem igualmente diante desse grande inimigo.
A doença ajuda a amolecer o coração dos homens e lhes ensina a
sabedoria(19)”.

Deus sempre cura?


“Alguns dos santos desta terra não foram curados e morreram no
leito, de não pequenos sofrimentos. Será que Deus não os quis curar?
Sim; ele apenas adiou a cura para a hora da cura definitiva pela
ressurreição. Curou mais tarde. Nesse ínterim, ele concede poder ao
(17)
Curar também é tarefa da igreja, pág. 46.
(18)
Curar também é tarefa da igreja, pág. 47.
(19)
Doença.
sofredor, não só para suportar o sofrimento, mas também para utiliza-lo
até à libertação final. Há muitos que são chamados para o ministério do
sofrimento, para carregarem a cada dia a sua cruz e viverem a despeito
disso(20)”.
Quando leio o magnífico texto bíblico de Hebreus 11, observo
nessa “galeria dos heróis da fé” homens e mulheres que realmente
andaram com Deus, provando este fato através de circunstâncias
adversas em suas vidas. Gente com a gente que escolheu obedecer,
colocando a vontade do Senhor acima da sua própria. Gente que teve
falhas, mas sabia que mesmo que Deus estivesse entristecido com eles,
não deixava de lhes dar o amor de Pai, e arrependidos voltavam para os
seus braços para serem usados em grandes missões.
Nesse texto, vemos nomes como o de Abel, Enoque, Noé, Abraão,
Sara, Jacó, José, Moisés, Raabe, Gideão, Baraque, Sansão, Jafté, Davi,
Samuel e dos profetas.
Todas estas pessoas confiaram em Deus e, como conseqüência,
ganharam batalhas, destruíram reinos, governaram bem o seu próprio
povo, e receberam o que Deus lhes prometera; foram preservados do
mal numa cova de leões e numa fornalha ardente. Alguns, por meio da
sua fé, escaparam de morrer à espada. Alguns se tornaram fortes
novamente, depois de estarem fracos ou doentes. Outros receberam
grande força na batalha; fizeram exércitos inteiros recuar e fugir. E
algumas mulheres, por meio da fé, receberam de volta seus queridos já
mortos. Mas outros confiaram em Deus e foram espancados até a
morte, preferindo morrer em lugar de abandonarem a deus para ficar
livres – confiando que depois disso eles se levantariam novamente para
uma vida melhor. Alguns foram escarnecidos e suas costas foram
dilaceradas com chicotes, outros foram acorrentados em masmorras.
Alguns morreram apedrejados e outros serrados ao meio; a outros foi
prometida à liberdade se renegassem a fé, e depois foram mortos à
espada... Passaram fome, ficaram doentes e foram maltratados – bons
demais para este mundo (HB 11.33-38 BV).
Eles não foram curados, protegidos da morte, mas eram pessoas
especialmente amadas por Deus.
Andaram com os corações gratos pela companhia do Senhor,
fizeram da alegria de Deus a sua força, e não reclamaram diante do
sofrimento. Homens e mulheres dos quais o mundo não era digno.

Nas cinzas
Jó estava sentado nas cinzas. Triste, com muitas dores, sofrendo
tremendamente, Jó procura o consolo da companheira de sua vida.
Aquela que podia sentir sua dor, porque fora atingida na mesma
proporção: também perdera tudo e todos. Ela se aproximou de Jó, olhou-
o e sentiu-se muito irritada ao ver a atitude submissa dele diante de
Deus e dos acontecimentos. Havia perdido a fé, a esperança. Dirigiu a Jó
(20)
O Caminho.
palavras de desespero, de quem não espera mais nada da vida: Você
ainda vai tentar ser muito religioso, mesmo depois de tudo o que Deus
nos fez? O melhor que você tem a fazer é amaldiçoar a Deus e morrer
(Jó 1.9 BV).
Mas Jó sabia que só lhe restava a fé. Não uma fé infantil, apoiada
nos bens que Deus lhe dera e depois tirara. Fé na pessoa de Deus, e não
no que Ele lhe dava.
“Almejar a Deus e viver na graça não nos isenta de passar pelo
vale de lágrimas – nem tudo são rosas, nem tudo é planície, há vales
profundos e vales áridos; há ermos, há desertos, há sequidão, há
esterilidade(22)”.
Felizes são também as pessoas que fazem do Senhor a sua força e
resolvem, em seu coração, seguir pelos retos caminhos de Deus! Elas
são capazes de transformar riquezas e sofrimentos em alegrias e
bênçãos, transformar lugares secos em fontes, em lugares cobertos de
flores e frutos com a chuva da primavera. Sempre que surge uma
dificuldade, elas recebem a força de Deus...(Salmo 84.5-7 BV).

D. HILDA

D. Hilda era uma senhora muito amiga, irmã na fé, membro da Igreja Presbiteriana
da Lapa. Professora dedicada e atenciosa; era muito amada pelos seus alunos. Ao
aposentar-se, ofereceu-se para trabalhar junto à Capela Evangélica do Hospital das
Clínicas, e a parte que lhe coube foi a de lecionar para os pacientes com paralisia infantil.
No dia do primeiro contato com seus alunos. D. Hilda levantou-se da cama sentindo ainda
fortes dores nas costas que a manteve em repouso por vários dias. Quando tudo estava
tratado para o início das aulas, percebeu que se sentia cada vez mais doente. Procurou
médicos, massagistas, acupunturistas, fez dezenas de exames, até que se definiu seu
diagnóstico: linfoma, e num estado tão adiantado que não teria mais nenhum tratamento.
Lembro-me de ter sido informada do diagnóstico pelos seus médicos e, junto com eles,
comunicado ao seu marido Plácido e seu filho Marcos. Foram momentos difíceis, de
muitas lágrimas. Não sabíamos bem como lhe comunicar a notícia, quando ela nos disse: -
Sabe, os médicos conversaram comigo hoje: estou com linfoma, não tenho mais
tratamento, e vou morrer. Mas estou em paz, não me preocupo, porque o Senhor está
comigo.
As palavras morreram em nossas gargantas, e só pudemos ficar ao seu lado,
segurar na sua mão e chorar junto com ela.
D. Hilda ficou pouco tempo no hospital. Preferiu morrer em casa. Mesmo neste
tempo de internação, pode contar às médicas a razão de sua paz – a certeza da vida eterna
– e falar-lhes de seu amigo Jesus.
Nunca a encontrei revoltada, brava ou reclamando de seu problema.
Compartilhava, sim, suas muitas dores, e pedia que lêssemos a Bíblia e orássemos com
ela. Havia gratidão ao Senhor em seu coração, muita paz refletida em seus olhos.
Um dia antes de sua morte estive em sua casa, levando um coral para cantar hinos
em louvor e gratidão a Deus, em voz suave, para animá-la e consola-la. Ela chorava,
agradecida, chamando um a um dos coralistas para segurar sua mão e abençoa-la. Morreu
(22)
No Divã de Deus.
em paz, sem questionamento e sem revolta.
Mas a esposa de Jó reagiu de maneira diferente ao sofrimento; ela
optou pela morte em vida, pela revolta, pelo escuro. Não podia mais crer
num Deus que lhe tirava tudo o que mais amava. Melhor seria morrer a
vive dessa maneira. Amaldiçoar ao Deus a quem servira toda a vida e
que “em troca” os tratava assim.
“Sem mais nada na vida, sentindo-se o lixo da humanidade,
levanta-se do lugar onde fora tão rico e abençoado e se arrasta para
outro, que se coaduna mais com seu atual estado de espírito: o monturo.
Ali era o vazadouro público, que se situava fora dos muros da cidade. Ali
se queimava, a intervalos regulares, as imundícies e o lixo da terra. Era
o ponto de encontro dos cães e de jovens sem eira nem beira; aqueles,
ávidos dos resto de carne que pudesse ainda encontrar agarrados às
carcaças que por ali se atiravam; estes, sempre prontos a desenterrar e
a aproveitar o que outros haviam lançado fora. Foi ali, naquele lugar de
miséria e de refugo, que se sentou aquele que fora o maior de todos do
oriente(23)”.
Jó estava sentado nas OMISSÃO cinzas do lixo; agrilhoado, emudecido,
sufocado, confuso, irado, desprezado, rejeitado, dolorido, sem refúgio,
sem amor, O bemsozinho.
que deixamos de fazer. Este é o tema do Juízo Final, como Cristo descreve em
MateusJó25.31-46. Ao contrário
precisava de do gente.
moralismo, Gente
que imagina que ele nos
amiga e reprovará
querida pelas que
faltas o
que cometemos, Jesus nos lembra que seremos julgados pelas boas
compreendesse, sentisse sua dor, deixando-o chorar e desabafar. Que ações que deixamos de o
fazer.
ajudasse a recomeçar a viver. Jó sonhava com alguém que viesse sentar
Lembrem-se também de que, saber o que deve ser feito e não fazer, é pecado (Tiago
com ele nas cinzas.
4.17 BV).
Onde encontrar todos aqueles amigos que sempre estavam em sua casa, nas horas
felizes de festas, banquetes, nascimentos? Onde estavam seu irmãos, parentes e também,
aqueles pobres, viúvas e órfãos, a quem sempre prestou cuidados? Todos haviam sumido. Eles
se omitiram em prestar socorro. De estar ao lado de Jó quando ele mais necessitava.
Nós também temos nos omitido. Nossos pastores. Nossas igrejas. Temos oferecido
uma ajuda muito superficial e distante, só para cumprirmos o nosso “dever cristão”.
Os médicos também têm se omitido. Até mesmo os cristãos, que teriam todas as
condições de ajudar. E em alguns corações mais sensíveis brota a culpa. Graças a Deus que
ainda há alguns que sentem a culpa e caminham para uma mudança de atitude.
Dr. Paul Tornier, em seu excelente livro Culpa e Graça fala-nos sobre esse assunto:
“A culpa da omissão nos ocorre constantemente na nossa atividade profissional. Será
que damos às pessoas que estão de algum modo ligadas a nós tudo o que Deus quer que nós
lhes demos? Será que nós não nos contentamos, muito freqüentemente, com um trabalho
superficial? Será que nós, médicos, não sentimos às vezes que o medicamento que
prescrevemos não é senão um paliativo ineficaz? Não seria necessário ir mais fundo, abordar
os problemas de vida que entrevemos por trás da angústia de nosso próximo? Mas talvez isso
seja árduo e difícil, não saberemos o que dizer diante de problemas delicados. Isto pode nos
levar a um terreno pouco familiar, mesmo a questões morais e religiosas sobre as quais não
nos sentimos seguros. Então, uma receita á farmácia, um conselho de higiene, uma boa
palavra de encorajamento ou de simpatia profunda, já é alguma coisa. Nós tentamos nos
justificar dizendo a nós mesmos que fizemos o nosso dever de médicos. Um padre, um pastor
(23)ou um amigo poderá fazer o restante, e melhor do que nós. Será que o paciente não esperava
O Novo Comentário da Bíblia, pág. 469.
mais de seu médico?” (21).
É fácil sermos “técnicos”, deixando o atendimento psicológico para o psicólogo e o
espiritual para o capelão. Mas Jesus disse aos seus discípulos: Dai-lhe vós mesmos de comer
(Mateus 14.16).
(22)

2 - Os Amigos de Jó
O amigo é sempre leal, mas na hora da dificuldade ele se torna
mais que um amigo; passa a ser nosso irmão.
(Provérbios 17.17 BV)
Abrindo com dificuldades os olhos cobertos de tumores, Jó vê ao
longe três vultos que se aproximam, caminhando em sua direção.
Quando a distância é menor, nota que eles também olham para ele e
param assustados. Não reconhecem naquela sombra enegrecida de
homem o amigo das horas felizes. Ninguém lhes dissera que seu estado
físico era assim tão repugnante. Em sinal de angústia e dor erguem sua
voz e choram, rasgando seus mantos.
Muito de fala contra os “amigos de Jó”, mas poucos sabem dar
valor a estes versículos que descrevem sua fidelidade e consolo. Quando
todos os outros fugiram, se omitiram, eles permaneceram fiéis. Haviam
conhecido Jó em seus dias de prosperidade, comido e se alegrado com
ele, e ali escolheram ficar agora, na hora da dor e do choro.
Elifaz era um patriarca importante, solene, conservador e sincero
em sua simpatia. Seu nome significa “Deus é Puro”. E confortar significa
estar ao lado daquele que é fraco, apoiando-o. Bildade, cujo nome
significa “Velha amizade” era outro consolador. Zofar era o terceiro.
Sua vinda animou um pouco a Jó, na esperança de receber deles
algum consolo.
Aqueles homens importantes, bem vestidos, vindo de tão longe,
desceram de seus pedestais, identificaram-se com o amigo e com ele

(22)
Culpa e Graça.
sentaram nas cinzas. Foram longos sete dias e noites em que ali
permaneceram calados, por causa da intensidade da dor do amigo.
Deram uma maravilhosa prova de amizade.
Durante os sete dias seguintes, os três se sentaram junto com Jó,
sobre as cinzas, sem dizer uma única palavra, porque viram que a dor
de Jó era grande demais e falar não ajudaria em nada. (Jó 2.13 BV).
Tenho aprendido a calar-me diante da dor de um paciente, mas
tenho muito a caminhar ainda, porque sei que não conseguiria faze-lo
durante sete dias e sete noites. Provavelmente ficaria tentando quebrar
aquele silêncio, procurando palavras para preenche-lo.
O que fazer quando a pessoa não quer falar? Nestes casos, é
quando se requer o ministério da consolação, porque ao não falar a
pessoa está reprimindo seus sentimentos, está interiorizando-os. O
ministério da consolação, nestes casos, tem início com o calar-se junto.
Não podemos cair na tentação de falar. Se ela não quer falar, muito
menos ouvir. Poderemos manifestar nossa solidariedade através de
pequenos gestos carinhosos, como abraça-la, segurar a sua mão. Chorar
junto com ela... mas nunca falar. Ninguém há que, sabendo ter ao lado
um bom amigo disposto a ouvi-lo, vai ficar muito tempo calado. Logo
abrirá a boca para desabafar. Mas é necessário esperar que este silêncio
seja quebrado por ele. Conversando com a Tânia e o Pedro, perguntei-
lhes: - Por que é tão importante ficar calado durante algum tempo diante
daquele que está sofrendo?
Eles me responderam:
- A pessoa que se cala, fica em silêncio, sente com mais
profundidade o problema do outro. É bom ter alguém ao meu lado
quando estou triste, com problemas, chorando... eu sinto falta de uma
pessoa amiga, que me compreenda (Tânia).
O Pedro respondeu:
- Quando perdemos alguém querido ou estamos sofrendo por
algum outro motivo, se o amigo vem nos consolar e mantém calado, ele
pode sentir com mais intensidade os nossos sentimentos, pode se
aprofundar mais. Mas eu acho que é bom a pessoa falar também, por
que é falando que poderá nos ensinar algumas coisas, dar opiniões que
ajudem a resolver os problemas. Sabe, uma vez o Shieh (médico-
residente evangélico) encontrou-me chorando. Aí, ele chegou perto de
mim, me abraçou e passou a mão na minha cabeça. Como eu não falei
nada e continuei a chorar, ele pegou uma cadeira, sentou-se ao meu
lado, pegou minha mão, encostou a cabeça na minha cama e começou a
chorar também, enquanto orava baixinho. Choramos juntos por algum
tempo e quando eu estava melhor, peguei a Bíblia e começamos a ler
juntos e a compartilhar. Contei o problema pelo qual estava passando,
pedi sua opinião e, devagarinho, bem devagarinho, foi se estampando
um sorriso no meu rosto. Então, ele cantou uma música para:

Lá está o meu tesouro,


Lá onde não há choro
Onde todos cantaremos juntos
Hinos de Louvor ao Senhor...

Ele me disse que quando canta esta música e o sofrimento é muito


grande, ele fica pensando no céu, em suas ruas de ouro; fica contente
em saber que iremos para lá por causa de Jesus, e que lá não haverá
mais choro. “Quando eu converso profundamente com algum amigo
sobre as maravilhas de Deus, parece que Deus se aproxima de mim e
me conforta, acaricia e abraça com seus braços fortes. Então eu fico
com o coração muito leve, e sinto que é Deus mesmo quem está me
consolando. É muito gostoso quando isso acontece. Eu sinto as mãos de
Deus sobre mim, e sei que ele não me despreza e me dá alegria mesmo
em meio à tristeza”.
“Gosto demais de todos os meus amigos que moram ali, naquela
enfermaria de Paralisia Infantil. Admiro sua alegria, a força que
transmitem, a maneira como enfrentam e, ao mesmo tempo, convivem
com o sofrimento”.
“Neste sete anos no Hospital das Clínicas, convivendo diariamente
com eles, tenho aprendido a não compara-los, pois, mesmo que estejam
no mesmo contexto, têm estruturas diferentes; e a respeita-los,
principalmente quando estão sofrendo por algum novo problema”.
“O processo de sofrimento torna um caminho diferente para cada
pessoa, mas é importante que ela se permita sofrer. Ninguém, que tenha
perdido um ente querido, vai ganhar uma recompensa especial no céu
por voltar à normalidade imediatamente, como se a pessoa jamais
tivesse existido. Os que conseguem atravessar bem um período de dor
são, em geral, aqueles que reconhecem seus sentimentos, admitem sua
ira ou amargura, procuram vence-las e dão a si mesmos tempo para
serem curados(24)”.
Cada pessoa reage de maneira diferente ao sofrimento. Não
podemos padronizar reações, tempo de sofrimento ou intensidade. Mas
é importante deixa-la fazer a nossa agenda de consolo, mostrando-nos a
sua necessidade e quando devemos falar.
“Somente quando nos colocamos a favor da pessoa que sofre,
contactando-a em seu contexto de vida e referências de significado,
somos capazes de ser ajudadores(25)”.
Uma mãe que perdeu três filhos, disse:
A melhor coisa que alguns de meus amigos fizeram por mim foi
permitir que eu chorasse. Eles não me censuravam, apenas deixavam
que eu chorasse(26).
Jó estava calado.

(24)
A relação de ajuda dos “mui amigos” de Jó.
(25)
Rosas em dezembro, pág. 62.
(26)
Rosas em dezembro, pág. 53.
“Você pode ter toda a teologia do universo, mas na hora em que a
coisa dói na carne, penetra as emoções, atravessa o peito, confunde a
cabeça, agoniza a alma, mexe com as entranhas, fica difícil equacionar a
dor(27)”.
“Jó estava calado. Tão perturbado que não podia falar. Como numa
panela de pressão, revolvia-se dentro dele o calor terrível de
pensamentos negativos, que o tornavam mudo, estático. E é isso o que
acontece quando somos envolvido por uma onde de angústias; ou
extravasamos num torvelinho de queixas e murmurações, ou
silenciamos(28)”.

SENTADOS NAS CINZAS

Os amigos de Jó ficaram sete dias e sete noites sentados nas


cinzas com ele, mas quando começaram a falar, demonstraram não
estar “empatizados” com o amigo e nem sequer percebendo a
intensidade de sua dor. Não foram capazes de compreende-lo e, ao abrir
a boca, revelaram o que estavam pensando durante esse longo tempo:
“Por que Jó estava sofrendo assim? O que ele fez para merecer isso?
Qual o tamanho de seus pecados para ser castigado tão duramente por
Deus? Não podemos compreender nossas idéias com as deste homem!
Temos que leva-lo a verdade!”
“O mundo demonstra uma generosa simpatia para com os doentes
e enfermos, mas esta simpatia está bem longe de ser tão altruísta como
se imagina. Há toda sorte de desprezo, de repugnância, de julgamentos
escondidos atrás dessa caridade aparente e mesmo algumas vezes, na
condescendência da caridade.
Na realidade, há no inconsciente de todas as pessoas uma certa
repugnância defensiva contra a doença e a enfermidade, vestígios da
miséria humana que preferimos esquecer. A pobreza, a doença e a
morte trazem ao espírito o problema existencial com uma brutalidade
dolorosa, ao qual muitos desejariam, conscientemente ou não, fechar os
olhos.
A doença estimula a sensibilidade dos doentes, que percebem
intuitivamente em muitas pessoas saudáveis uma certa resistência, que
sentem como desprezo ou repulsa.
Jesus Cristo, com seu realismo habitual, refere-se a esta tendência
humana de voltar as costas ao sofrimento, na parábola do Bom
Samaritano (Lucas 20.31), e na do Juízo Final *Mateus 25.43) (29)”.
Os amigos de Jó fizeram intervenções centradas em sua ansiedade
e compulsão de “salvadores”.

(27)
No Divã de Deus, pág. 23.
(28)
No Divã de Deus, pág. 141.
(29)
Culpa e Graça, págs. 18 e 19.
Porque eles estavam julgando Jó, não quiseram ouvi-lo, e deixaram
de ser consoladores que aliviam a carga do sofredor para se tornarem
“consoladores modestos” como Jó os acusa:
Assim também vós outros sois nada para mim; vedes os meus
males e vos espantais (Jó 6.21).
Vós, porém besuntais a verdade com mentiras, e vós todos sois
médicos que não valem nada. Oxalá vos calásseis de todo, que isso
seria a vossa sabedoria! (Jó 13.4 e 5).
Tenho ouvido muitas coisas como estas; todos vós sois
consoladores molestos, Porventura não terão fim essas palavras de
vento? (Jó 16.2-3).
Por que me perseguis como Deus me persegue, e não cessais de
devorar a minha carne? (Jó 19.22).
Vocês foram como esses riachos para mim; eu esperava encontrar
ajuda, mas vocês se afastaram, espantados com a minha desgraça (Jó
6.21 BV).
Ao que me parece vocês são donos da sabedoria, são a voz do
povo....Agora, porém, os meus próprios amigos zombam e fazem pouco
caso de mim! Vocês se sentem muito seguros e por isso zombam de
quem está sofrendo, empurram que já está tropeçando! (Jó 12.2,4b,5
BV).
...porque vocês torcem o sentido das minhas palavras. Vocês são
médicos que não sabe descobrir doenças! Se vocês calassem a boca
mostrariam mais sabedoria do que dando esses conselhos tolos!...De
que adianta vocês falarem essas mentiras tolas e pensarem que são
“mensageiros de Deus”? Será que Deus ficaria satisfeito em ver que
vocês torcem a verdade para provar que ele está certo? (Jó 13.4, 5, 7 8
BV).
Já estou cansado de ouvir o que vocês estão me dizendo. Afinal,
que espécie de amigos são vocês? Querem me consolar ou me acusar?
Suas palavras é que são vazias e sem sentido. O que eu fiz para vocês
me encherem os ouvidos com essas respostas tolas? (Jó 16. 2,3 BV).
Vocês zombam de mim enquanto eu derramo lágrimas sinceras
diante de Deus, pedindo que ele me ouça como faria um homem com
seu amigo (Jó 16.20,21 BV).
Até quando vocês vão me castigar com essas acusações falsas?
Até quando encherão meu coração de tristezas? Já perdi a conta de
quantas vezes me ofenderam e me acusaram de ser um pecador
rebelde...Vocês estão querendo usar a minha desgraça para provar a si
mesmos que são muito justos e sinceros (Jó 19.2,3a BV).
Já não chega o castigo que recebo de Deus? Será que vocês
também vão se voltar contra mim? (Jó 19.22 BV).
Ouçam o que eu digo! Se ao menos vocês ouvirem, isso já será um
alívio para o meu coração. Tenham um pouco mais de paciência comigo
e depois que eu falar vocês podem zombar o quanto quiserem (Jó 21.2,3
BV).
De consoladores, se transformaram em trituradores. Foram
insensíveis, grosseiros, usaram linguagem violenta e ofensiva.
Colocaram sal e vinagre em suas feridas, ao invés de óleo.
Mas o grave é o julgamento, seja verbal, seja velado, que os
doentes sentem nos são, sobretudo nos mais bem intencionados em
suas palavras de conforto. Muito freqüentemente, são os visitantes mais
dedicados que causam culpas mais funestas. Prova disto está nos
amigos de Jó e nos seus belos discursos! Eles tiveram, a princípio, a
delicadeza de se calarem “sete dias e sete noites” diante de sua dor.
Eles não lhe voltaram as costas; vieram para sofrer com ele e consola-lo.
Mas, envolvidos pelo zelo, começaram a conversar, a filosofar, a exortar;
falaram tanto que prejudicaram a Jó; com tantas palavras bonitas, lhe
fizeram mais mal que todos os seus males, de tal maneira que ele
exclamava: Vós todos sois médicos que não valem nada (Jó 13.4).
Por trás dos nobres propósitos dessas saudáveis pessoas, o doente
Jó percebe um terrível espírito de julgamento, uma insinuação constante
de que os males que o assolam são punições divinas! Mesmo nas
exortações à fé, Jó sente uma acusação, quando Bildade lhe diz: Mas se
tu buscares a Deus, e ao Todo-Poderoso pedires misericórdia, se fores
puro e reto, ele, sem demora despertará em teu favor, e restaurará a
justiça da tua morada (Jó 8.5,6). E evidentemente déia entender que, se
Jó não sara, é porque não implora ao Todo-Poderoso, ou que não lhe é
obediente o bastante! Assim, Jó replica (21.27): Vede que conheço os
vossos pensamentos e os injustos desígnios com que me tratais.
“Assim, nós vemos crentes, teólogos e leigos de todas as igrejas e
de todas as denominações, sobretudo as mais zelosas em socorrer
doentes, esmaga-los com testemunhos religiosos, proclamar com força o
poder de Deus que sara os que confiam nele, dando a entender ao
doente que lhe falta fé(30)”.
Em resumo, os amigos de Jó diziam:
Jó, Deus está tentando dizer-lhe algo. Seu sofrimento tem sido
enorme, e deve haver uma razão. O único motivo lógico é que Deus está
zangado com algum pecado seu. Portanto, confesse sua falta e Deus
aliviará o seu sofrimento.

SATANÁS ATACA ATRAVÉS DOS AMIGOS

“Quando um general falha num ataque direto, ele, muitas vezes,


tem meios para aplicar um ataque indireto; quando não pode forçar a
posição de um inimigo, ele o faz retroceder; e um exército que resiste
galhardamente contra repetidos ataques frontais, ficará muitas vezes
em pânico quando as tropas inimigas atacarem pela frente ou por trás.
Mais fatal ainda será o resultado quando os próprios aliados subitamente
se voltarem contra ele e se transformarem em colunas de ataque.
Satanás tinha falhado no ataque direto; as mais esmagadoras aflições
(30)
Culpa e Graça.
tinham falhado contra o constante Jó: mas a batalha ainda não estava
ganha. E a peculiaridade da última prova, que lhe veio em conjunto, é
surpreendente. Era um ataque não de frente, mas de lado; ataque não
dos seus inimigos declarados, mas daqueles que se diziam seus amigos.
A última prova de Jó foi trazida pela dura suspeita de seus amigos. A
altercação entre eles era de que sob o governo justo de Deus há sempre
nesta vida uma concordância exata entre o pecado e o castigo, e que as
calamidades que se abateram sobre Jó só podiam ser conseqüência de
grandes pecados.
Podemos traçar um paralelo entre os sofrimentos de Jó e os de
Jesus. Ainda que em medidas diferentes, ambos eram sustentados por
Deus, eram justos, testemunhas da verdade e da santidade; ambos
tiveram um fim vitorioso sobre seus acusadores. Mas há outro ponto de
coincidência entre eles: foram atacados por seus inimigos e traídos por
seus amigos. Nisso, eu penso, se constituiu a amargura desta última
prova pela qual Jó passou.
Destituído de todos os bens terrenos, Jó certamente contava com a
simpatia de seus amigos; mas até isso lhe foi negado. Seus amigos não
só falharam, mas ainda se tornaram seus acusadores e tentaram abalar
a sua fé na própria integridade(31)”.
Leila e eu estávamos no Pronto-Socorro acompanhando uma
amiga enferma quando fui chamada por uma Assistente Social para
atender outra mulher. Esta senhora estava desesperada, chorando,
gemendo e gritando, por saber que seu filho de treze anos estava
morrendo. Assentamo-nos num lugar mais calmo e deixamos que ela
falasse. Contou-nos que tudo começara havia cinco meses. O garoto,
filho muito meigo e querido a ajudava nos trabalhos caseiros, começou a
sentir fortes dores de cabeça. Feitos os exames, constatou-se que ele
estava com um tumor cerebral em estado avançado. Com muito
sacrifício, ela o levara freqüentemente para o tratamento, com
radioterapia e quimioterapia, mas de nada adiantou. Naquela manhã o
tumor havia se rompido e a criança estava à morte. A mãe chorava
muito, e uma das frases que disse chamou minha atenção: - A culpa é
minha, eu não tive fé suficiente para salva-lo, por isso ele está
morrendo!
E logo começou a explicar:
- Sou da Igreja Universal do Reino de Deus e ouço todos os cultos
pelo rádio, colocando um copo de água sobre ele, para que seja
abençoado e eu possa ungir meu filho. O pregador disse que se eu
tivesse muita fé, com certeza meu filho seria curado. Minha fé foi muito
pequena, por isso que ele está morrendo; eu sou culpada! Deus não
ouviu minhas orações!
A pobre mulher queria morrer de dor pelo filho e pela culpa de não
tê-lo salvado. Fico ao mesmo tempo triste e irada ao ouvir frases assim:
“Deus é Pai, ele vai cura-lo” ou “Ele não vai morrer se você fizer isto ou
(31)
Old Testament Scripture – Characters – Job – pág. 39.
aquilo”; “Você não pode desistir. A morte vem de Satanás. Se desanimar,
o estará entregando a Satanás, e se ele morrer será porque você fez
isso”.
Quanta ignorância! Que distorção da teologia! Com isso esmaga a
pessoa já arrasada!
“Há curas divinas; há curas miraculosas; há curas pela oração e
pela fé. Os que tiveram esta experiência ou os que dão testemunho
disso devem falar delas para a glória de Deus e para sustentar a
esperança dos doentes”.
Mas há pessoas que ultrapassam rapidamente as fronteiras da
verdade em tais testemunhos; generalizam como se Deus curasse todos
que invocam; e culpam todos que recorrem à medicina científica ou aos
medicamentos, como se estes não fossem também dons de Deus.
Os motivos que incitam certos crentes a exagerarem no
testemunho são tão nobres que eles não se apercebem do mal que
podem fazer à causa e aos doentes. Diante de um paciente que obteve a
cura, outros doentes, que invocaram a Deus e não obtiveram respostas,
podem sentir-se culpados com a própria falta de fé e até mesmo
decepcionados e desanimados .
Até as mais belas exortações suscitam culpa. Deve-se...deve-
se...Deve-se ter paciência, deve-se suportar, deve-se aceitar, deve-se
esperar, deve-se lutar...E o doente sente-se culpado por não ter
paciência, por não poder esperar, lutar, aceitar. Será que a pessoa
visitante faria melhor em seu lugar? Os sofrimentos de muitas pessoas
são agravados, sem querer, pelos conselhos dos crentes mais caridosos.
3 - Consolo
Que Deus maravilhoso nós temos. Ele é o pai do nosso Senhor
Jesus Cristo, a fonte de toda a misericórdia, e aquele que tão
maravilhosamente nos conforta e fortalece nas dificuldades e
provações! E por que ele faz isso? Para que, quando os outros estiverem
aflitos, necessitados da nossa compaixão e do nosso estímulo,
possamos transmitir-lhes essa mesma ajuda e esse mesmo consolo que
Deus nos deu.
(2 Coríntios 1.3-5 BV)
“Consolar é um ministério. O mais difícil, talvez. Agradável é ouvir
música, contar histórias alegres, falar sobre sucesso, principalmente o
próprio. Procurar os que choram, penetrar o misterioso país das
lágrimas, assusta” (Myrtes Mathias).

Tesouros das Escuridades


Deus me deixou conhecer o remorso:
sentir-me réptil e verme;
ré e promotora, o dedo estendido na própria
direção, num ângulo só possível
numa consciência que se debate na angústia
de voltar atrás, começar de novo.
suplicando a graça única
de mais uma oportunidade
que, provavelmente, seria perdida mais uma vez...
Deus me permitiu passar pela dor,
sem esperança de cura,
sem promessa de libertação...
Deixou-me conhecer o abandono,
o esquecimento,
a solidão, maior ainda, porque não no deserto,
“onde feras e anjos” fazem companhia,
mas no meio da multidão...
Permitiu-me passar pela tentação...
Não foi tudo de uma vez só.
Houve uma seqüência, um “crescendo”
para baixo, sempre para baixo, até onde
os “porquês” não encontraram resposta,
nem no céu, nem no inferno...
E então, só então, escuridão compacta,
sólida, o milagre aconteceu:
A pedra bruta fez-se brilhante lapidado,
mais precioso ainda contra o fundo negro da dor.
E eu retornei:
Marcada e exausta como quem sai
de uma batalha;
exultante como quem volta com os despojos.
Não saberei nunca porque foi preciso
descer a tal escuridade,
mas terei sempre um “porque” como início
da resposta que Deus quer que eu seja:
Quando me confessarem erros, chorarem
fracassos, clamarem por oportunidades
perdidas, falarem de dor,
haverá uma sinceridade muito maior
em meu gesto de consolo, minha palavra de compreensão:
uma identificação só possível naqueles que,
passando pelas “escuridades”,
lembraram-se
das promessas, tomaram posse delas
e voltaram com seus “tesouros”, tão mais
preciosos por causa do contraste,
do milagre que lembram,
do preço que custaram ao Senhor!...(32)

MARIA JOSÉ

Na escuridão daquela enfermaria do Hospital Emílio Ribas, Maria


José chorava baixinho. Já era tempo de estar dormindo, mas aquela
notícia a arrasara. Há muitos dias suportava dores enlouquecedoras, ma
à vontade de sarar e voltar para junto do marido e do filhinho,
ajudavam-na a ter esperança renovada e força para lutar. Queria crer
que a Medicina tivesse uma solução para seus pés e suas mãos
gangrenadas, seqüela da meningococcemia. Estavam muitos prestos, e,
sem algumas partes, murchos e a pele rasgando-se, expondo partes da
carne. Seus dedos pareciam feitos de plástico preto, todo enrugado.
Mas naquela noite, todas as esperanças tinham ido por água
abaixo. Sua médica lhe dissera que teria que amputar todos os dedos da
mão, e depois os dois pés, acima dos tornozelos. Seus sonhos, aos 22
anos, tornaram-se pesadelos. Como continuar a viver?
Sentada ao seu lado, chorávamos juntas. Como poderia consola-
la? Quais palavras poderiam ajuda-la nesta hora?
“Deus, o Senhor está me castigando? Será que eu cometi pecados
tão grandes para que o Senhor me castigue assim? Eu mereço todo este
sofrimento?” Maria José chorava, e lançava sua dor aos céus. “Por que
eu? Não queria muita coisa da vida; só poder cuidar do meu nenê,
arrumar minha casinha de dois cômodos, viver bem com meu
marido...mas como faze-lo, sem mãos e pés?”
(32)
Deus fala na sombra, págs. 10,11.
Orei ao Senhor pedindo ajuda e comecei a conversar com ela.
Disse-lhe que não sabia a razão porque Deus estava permitindo aquele
sofrimento, mas estava certa de que ele estava sofrendo com ela. Falei-
lhe de seu amor e também de nossa separação dele. Contei-lhe acerca
de Jesus, inteiramente Deus e inteiramente homem; de seu
sofrimento...sobre a cruz. Falei-lhe de seu propósito, de sua ressurreição
e da vida nova e eterna que oferece a todos os que nele crêem. Sobre o
corpo novo e perfeito que teremos no céu, eternamente com o Senhor.
Oramos juntas, e o Senhor estava presente. Maria José convidara Jesus
para ser seu Salvador, Senhor de sua vida. Entregou-se sem reservas,
sem barganhas, crendo que somente ele poderia ajuda-la e fortalece-la
para que pudesse voltar e viver plenamente, apesar de tudo. Ensinei-lhe
dois cânticos:

Não há impossível para Deus,


Não, não há,
Meu Deus tem todo poder.
Ele fez tudo o que existe
No céu, terra e mar.
Meu Deus tem todo o poder.

Disse-lhe que ele tem todo o poder em suas mãos para cura-la,
mas não sabia se este seria o seu propósito. Mas que ela deveria estar
pronta a aceita-lo, fosse este qual fosse, porque ele estaria com ela,
mostrando-lhe o caminho, carregando-a no colo, enxugando suas
lágrimas e confortando-ª
Depois cantamos:

Desanimados? Não! Não! Não!


Dores, tristezas, podem surgir,
Com Cristo alegres vamos seguir.
Desanimados? Não! Não! Não!

Seus olhos avermelhados de chorar possuíam agora um novo


brilho. A alegria e a esperança transbordavam de seu coração e
transpareciam em seu rosto. Estava com o Senhor, incondicionalmente.
Estava certa de seu socorro aqui e agora, e tinha plena convicção de
uma vida nova, com um corpo novo e perfeito para sempre no céu.
Ao chegar ao hospital na manhã seguinte, notei que a
enfermagem daquele setor estava muito preocupada com a moça. Como
lhe dar uma notícia tão má, sobre sua amputação? Acalmei-as, dizendo-
lhes que a paciente já sabia de seu estado, e que estava bem.
Rapidamente dirigi-me à sua enfermaria; conversamos brevemente, e
depois começamos a cantar. Sua companheira de quarto também
aprendera os cânticos, e tomou parte no recém-formado conjunto.
Quando as enfermeiras entraram na enfermaria, não podia
acreditar no que viam. Como era possível uma pessoa com dores
terríveis, prestes a sofrer amputações, estar com aquele rosto alegre, os
olhos brilhantes e cantando? Milagre?! Só mesmo Deus poderia estar lhe
dando forças!
Transferida para o Hospital das Clínicas, ainda esperou dez dias
pelas amputação, pois, havia greve dos funcionários.
Após vários adiamentos, finalmente chegou o dia da cirurgia. No
Centro Cirúrgico, o anestesista estranhou: - Você não está triste, com
medo?
Ao que Maria José respondeu:
Estou triste, sim, mas não estou com medo. Orei, pedindo a Jesus
que estivesse aqui comigo e ele está aqui! Estou segura em suas mãos”.
A medicação para que dormisse não fez efeito, e Maria José
assistiu a toda a cirurgia. Ouviu o barulho irritante da serra, viu quando
seus pés foram cortados e depois jogados no balde, ao lado da mesa de
cirurgia. Sofria, mas sentia uma paz inexplicável.
Voltando à enfermaria após a cirurgia, consolou seu pai. Naquela
noite, as dores foram muito fortes, mas Maria José podia testemunhar a
força que a socorria e que era sobre-humana.
Passaram-se os dias em meio a infecções, curativos dolorosos e
sem anestesia, febres e também depressões. Mas a moça reagia a tudo
com sua fé e vontade de viver. Suas companheiras de enfermaria
sentiam-se fortalecidas pelas suas reações, e com ela começaram a
cantar aqueles cânticos aprendidos em meio à dor. Brincamos que
contrataríamos aquele coral para alegrar outros pacientes.
Depois de alguns dias, Maria José já estava sentada na cama, toda
feliz por estar conseguindo comer sozinha e também por poder limpar
sua mesinha de cabeceira.
Logo foi embora para casa. Mutilada, mas consolada pelo Senhor,
com o corpo e a alma curados, e viva para sempre.
Quando nossa vida segue uma rotina diária, sem grandes
oscilações, podemos falar em sofrimento, como o de Maria José, mas
torna-se algo muito distante e irreal no meio de nossa alegria. Vendo
pessoas com problemas ou enfermas, é-nos fácil consola-las com
palavras espirituais e amigas. Às vezes até atrevemos a lhes dizer: “Sei
que você está passando”, quando na verdade nunca experimentamos
nada parecido para saber o que é doer.
Foi o que aconteceu com um pastor chamado Joachim Braun. Em
todos os seus anos de pastorada já pregara muitos sermões sobre
sofrimento e consolo, oficiara muitos enterros, confortara muitas famílias
enlutadas, visitara e consolara muitos enfermos. Sofrera ao faze-lo, mas
nunca havia sentido na pele a dor de perder alguém muito próximo e
querido. Foi na morte da esposa que ele sentiu a força arrasadora do
sofrimento. Confortado por amigos, mas principalmente por Deus, saiu
da experiência mais maduro, mais pronto a consolar, com consolação
igual a que recebera de Deus. Ele escreve:
“O meu sofrimento é um poder; uma força obscura e sinistra. É
uma força que agarra a pessoa, erguendo-a do chão, a ponto de faze-la
flutuar no ar, indefesa, sem qualquer ponto de apoio. Só com muito
esforço conseguia lembrar-se de que nos dias bons considerava o
sofrimento uma bênção, e com esta convicção consolara outras pessoas
sofredoras. Agora, porém, só lhe voltam à mente pequenos fragmentos
da convicção, ela já perdeu sua força. Seu mundo está sendo destruído.
A totalidade do seu mundo! Como continuar lutando? Não é em si
próprio nem no mundo que ele vai achar forças para lutar. Pois necessita
de uma força mais poderosa, capaz de compensar a força da gravidade
que pesa sobre ele. Portanto, ela não pode ser deste mundo” (Joachim
Braun – Entre o Consolo e as Lágrimas).
Todos nós fomos feridos e carregamos nossas chagas. Diante delas
temos uma opção a fazer; ou fazemos de nossa dor um modo de nos
identificarmos com a dor do outro – nos abrimos, choramos,
compartilhamos e deixamos que o Senhor comece a nos curar – e o
consolo que Ele nos dá transborda em nós, consolando outros também;
ou nos fechamos em nós mesmos, desenvolvendo nossa
autocompaixão, tornando-nos amargurados com Deus e o mundo e não
servimos para nada, a não ser para destruir e azedar outras vidas.
Não existe cristão sem cruz. Teremos de passar muitas vezes pela
aflição durante nossas vidas. Perdas, traições, dores físicas, decepções,
abandonos...muitas vezes nosso espírito quedará quieto, tristonhos e
abatido sob tremendo peso.
A resposta a este sofrimento reside no questionamento, no
aprendizado, na paciência e na aceitação. Não é aceitar simples e
resignadamente os problemas, sofrimentos e provações. É triunfar sobre
eles, cantar vitória, mesmo em meio à dor. Assim como a prata se
purifica com o fogo, o cristão é o atleta de Deus cujos músculos
espirituais se fortificam com a disciplina do treinamento nas
dificuldades.
Algumas pessoas têm um talento especial e uma aptidão para
doar-se e portar poder curador. Dispõem-se a aprender a amar, a sofrer
junto, a consolar.
É relativamente fácil “amar” coisas abstratas como, por exemplo,
a paz, multidões com fome ou mesmo toda humanidade. Também amar
aqueles que nos amam é fácil. O problema verdadeiro reside em amar
pessoas a quem não conhecemos, mas que precisam de nós. Precisamos
aprender a amar. Há muitas pessoas sofrendo, buscando
desesperadamente um gesto de carinho, um olhar de consolo, uma
palavra de esperança.
Muitos de nós sabemos disso tudo, mas ficamos de braços
cruzados, esperando uma emoção forte que nos impulsione à ação. Mas
o tipo de amor que Jesus ordena que mostremos não é uma emoção.
Não tem nada a ver com simpatia ou afeição. É mais do que “cumprir
um dever” ou dar receitas de consolo. Madre Tereza de Calcutá, ao ser
chamada para receber o prêmio Nobel da Paz, fez um discurso breve e
simples: “Sou um a mulher pequena. Não lhes peço dinheiro, tempo, ou
algum esforço especial; só peço que cada um dê a si mesmo, até doer”.
Dar coisas é relativamente simples, mas consolar é dar a si
mesmo, e todos os cristãos estão envolvidos neste ministério de cura e
consolação.
Deus sofreu conosco em Jesus, e nos consola da maneira com que
Ele mesmo se consolou e foi consolado no Filho.
“Se temos um Deus que se compadece, temos que ter um
salvador que sofra. E só há verdadeiro sentimento de compaixão para
com alguém que sofre em um coração que também foi ferido.
Não podemos fazer bem aos outros sem que isto nos custe alguma
coisa, e nossas aflições são o preço que pagamos pela capacidade de
termos compaixão. Quem quiser ajudar precisa sofrer primeiro. Quem
quiser salvar precisa primeiro ter experimentado a cruz de alguma
forma. E não podemos ter a alta felicidade de socorrer os outros, sem
termos provado o cálice que Jesus bebeu e ter-nos submetido com que
Ele foi batizado(33)”.
A nossa própria vida torna-se uma escola onde, sofrendo e sendo
consolado, aprendemos a divina arte de consolar.
O mundo está cheio de corações necessitados de consolo, e
precisamos estar aprendendo a consolar. Somos feridos para aprender,
pelo modo como o Grande Médico nos trata as feridas, a dar os
primeiros socorros aos feridos. Muitas vezes não conseguimos entender
por que estamos passando por determinado sofrimento. Mais tarde, ao
identificarmos alguém na mesma situação, poderemos entender seu
olhar aflito e lhe contar como também passamos por aquele problema e
como vencemos. Então agradecemos ao Senhor por ter-nos ensinado a
consolar. Quando andarmos diariamente com o Pai, refletiremos sua luz
neste mundo escuro; como rios de água viva, a serenidade e a alegria
dele fluirão através de nossa vida, contagiando as pessoas ao nosso
redor.
“É uma vida íntima com Deus que dá poder às nossas palavras e
persuasão aos nossos argumentos, fazendo deles um bálsamo de
Gileade para uma pessoa necessidade de conforto(34)”.
O apóstolo Paulo nos conta que as coisas que lhe aconteceram e o
consolo que recebeu fizeram-no capaz de ser fonte de consolo para
outros.
Em Hebreus 2.18, encontramos uma referência quanto às provas
pelas quais Jesus passou: Pois naquilo que Ele mesmo sofreu, tendo sido
tentado, é poderoso para socorrer aos que são tentados.

(33)
Mananciais, pág. 169.
(34)
Um recado para ganhadores de almas, pág. 17
A pessoa que sofreu realmente não fala muito sobre isso. Paulo
não exibia seus sofrimentos, mas via que a aterradora experiência pela
qual havia passado lhe era muito útil, o fizera voltar-se para Deus. Havia
lhe demonstrado sua dependência absoluta dele.
O perigo de uma vida próspera é fazer alentar uma falsa
independência. Faz-nos pensar que estamos capacitados para andar
sozinhos. Para cada oração que fazemos a Deus nos dias de
prosperidade, dez mil se elevam na adversidade.
É na hora da dor que o homem descobre quem são seus
verdadeiros amigos e aprende o quanto necessita de Deus.
Através da dor e da consolação recebida de Deus, Paulo construiu
uma confiança inabalável no Senhor. Agora ele sabia o que Deus podia
fazer por ele. E se pudera ajuda-lo a atravessar essa situação, podia
ajuda-lo em tudo.
O amor de Cristo fluindo através de nós leva-nos a nos doarmos.
Damos de nós mesmos porque não podemos deixar de faze-lo, ao ver
uma pessoa necessitada. Na verdade, isto é dar da maneira de Deus,
pois ele amou tanto o mundo que deu o seu Filho.
A palavra consolação vem de paraclêsis, que quer dizer
encorajamento, conforto.
Podemos usar técnicas para consolar as pessoas, aperfeiçoando-
nos a cada dia, dando o melhor de nós mesmos. Mas estas nunca serão
suficientes para o que sofre. Quando deixarmos, nossos atos ou palavras
ficarão guardados por breves momentos na mente daqueles a quem
consolamos. A dor e a tristeza voltarão rapidamente. Mas o consolo
cristão é diferente. Creio que não há verdadeiro consolo sem haver a
evangelização. Somente quando o paciente ou o que sofre receber a
Jesus como seu Salvador será consolado a todo o momento pelo Espírito
Santo que passou a habitar nele. Para o cristão, consolar é levar vida em
meio à dor e à morte, através do Espírito Santo, o Consolador de Deus.
Sua consolação reanima o que está abatido, angustiado, sofrido e
que foi tocado pelos sinais da morte. Jesus Cristo pode ser chamado
Consolador, parakleto, porque sua missão foi dar vida aos homens
carregados pela morte. Sua missão consoladora se baseou em
comunicar vida em abundância.
A Bíblia nos fala de um homem chamado Barnabé como Filho da
Consolação. Sua vida, observada através dos relatos bíblicos, destaca
esse ministério da consolação. Sua sensibilidade antes as necessidades
do próximo se mostrou de forma concreta em várias ocasiões. Ele era
um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé (Atos 11.24). Barnabé
não foi um teórico, um falador de palavras bonitas e de sermões
consoladores. Não foi um homem de “receitas” maravilhosas para
consolação. Foi alguém sensível que sentiu a dor do outro e se
identificou, se pôs ao lado e comunicou vida em meio a situações de
morte. Consolar é acolher o que tem medo, angústia, depressão, apatia,
vícios; o que chora, o que sente dor, frustração.
BRANCO DINAMITE

“Branco Dinamite” era seu apelido. Bem merecido, é verdade, por


sua atuação como cabeça de quadrilha em assaltos e pequeno tráfico de
drogas.
Ao mesmo tempo em que era sucesso como dançarino nas
“danceterias”, tornou-se o terror das festas de casamento e aniversário,
onde entrava com sua “turma” para “animar”, quebrando garrafas e
arranjando brigas.
Fugir da polícia era sua grande diversão: pulava de um telhado
para outro, escalava muros... às vezes era pego, mas por ser menor de
idade, só levava uma grande surra em algum matagal mais afastado.
Mas toda essa vida de aventuras e perigos não o levou a nada. Por
amor a uma garota, estava disposto a deixar aquilo tudo. Sentar a seu
lado, olhar seu rosto meigo era algo que o amansava, levando-o a optar
por uma vida mais calma. Mas a fama de briguento já estava feita.
Dessa vez, tudo começou quando alguém “mexeu” com sua garota.
Branco não pensou duas vezes: atirou-se sobre o rapaz atrevido. A
lanchonete, palco de encontro de namorados, transformou-se em um
caos de cadeiras e vidros quebrados. Em pouco tempo a briga acabou, e
Branco voltou para casa. Não encontrando seu irmão e companheiro,
voltou ao local da briga com o sangue ainda quente. A polícia estava lá.
Alguém lhe gritou algo que não pôde entender. Continuou a andar. Foi
então que ouviu que um tiro e sentiu algo penetrar em suas costas. Não
sentiu mais o chão. Caiu ensangüentado.
Levado às pressas para o Hospital das Clínicas, chegou quase
morto, sem movimentos.
Dr. Mendonça, médico e professor muito conceituado e
competente, investiu no rapaz sua habilidade, operando-o e salvando-
lhe a vida. Mas a bala causara graves danos: passando milagrosamente
entre o coração e o pulmão, sem atingi-los, saíra pelo pescoço, deixando
na medula a sua marca. Branco estava tetraplégico.
Cessado o efeito da anestesia, começou a recobrar a consciência e
a tentar mover-se. Mas foi como um pesadelo. Nada se mexia. Não podia
sentir seu próprio corpo. Desesperado, em seus dezenove anos, atirou-
se da cama, ninguém sabe como, tentando acabar com a vida. Mas nem
isso lhe era possível fazer.
Os dias foram passando e pouco a pouco o rapaz começou a sentir
além do pescoço, parte do peito e os braços, recuperando parcialmente
os movimentos.
Num dia em que eu estava apressada, quase no final do período
de visitação no prédio, entrei em sua enfermaria e comecei a conversar
com um rapaz que estava ao seu lado. Depois de algum tempo já ia
retirar-me, quando seu olhar desesperado me atraiu. Pele amorenada,
cabelos crespos quase loiros olhos arregalados e vermelhos de tanto
chorar. Dei-lhe atenção, ouvi seu choro, consolei-o como podia e prometi
voltar no dia seguinte.
Com a convivência, nossa amizade foi crescendo, fui descobrindo
sua história. Quando pequeno, sua avó o levara para uma igreja
evangélica, e foi ela mesma quem lhe deu seu nome: Josué.
Mas assim que o moleque pôde se livrar, preferiu ficar na rua,
brincando com os outros moleques e aprendendo a brigar, a roubar e a
fazer muitas outras coisas desse tipo.
Lembrou-se da voz da velhinha chamando-o aos domingos pela
manhã:
- Filho, vamos à igreja! Deus o ama e quer tê-lo perto dele!
Mas o rapazinho, correndo com os outros, só respondia:
- Se ele me quer mesmo, que venha atrás de mim, porque eu sei é
que não vou atrás dele!
Agora, semi-imóvel no leito, encostado contra a parede, sem
possibilidade de fugir, Josué viu-se encurralado por Deus. Tempo para
pensar era o que não lhe faltava. Aventuras e fugas, bailes e festas
desapareceram de sua mente. Mas havia um vazio no coração. Talvez
pela primeira vez, viu-se pecador, separado, sem recursos, e voltou seu
rosto para Deus. Angustiado e arrependido, convidou Jesus para ser seu
Salvador.
As mudanças não aconteceram rapidamente. Durante esses anos,
passou por várias fases na aceitação de seu estado de paraplegia:
negação, rejeição, revolta com Deus e com todos os que simplesmente
“podiam andar”. Depois passou a cultivar a autocomiseração e também
a barganhar com Deus por sua cura.
Estabeleceu alvos curtos e em longo prazo para colocar um
aparelho nas pernas e quadris, o que lhe permitira a andar com a ajuda
de muletas. Nada deu certo. Ficou triste. Perdeu a vontade de lutar e de
viver.
Acompanhando-o há cinco anos, em muitos momentos de alegria
e muitos mais de tristeza. Aprendi a conhece-lo e a ama-lo como ele é.
Tenho crescido muito. Aprendido com ele. Convidei-o para ajudar a
escrever este livro, estudando e refletindo juntos sobre o livro de Jó. Seis
que ele pode sentir, pelo menos em parte, a dor que Jó sofreu. Ele sabe
o que é querer ser consolado em meio ao sofrimento.
Agora, quero deixar que ele mesmo nos conte sobre sua
experiência de vida, e seu contato com a vida de Jó:
- Fácil falar com Deus quando tudo está bem, mas quando se
passa por uma situação como a minha, tudo fica mais difícil. Depois que
recebi o tiro, percebi que só me restava uma opção: poderia escolher
entre crescer, aprendendo a conviver com o problema, ou ficar louco e
morrer. Hoje, que eu estou com uma cabeça boa para pensar e avaliar
tudo o que me aconteceu, sei que se eu estivesse andando, realmente
não iria parar de fazer o que eu fazia.
- Para andar na malandragem você tem que pagar um preço muito
alto. Eu acho que ganhei, saí lucrando com o tiro: hoje eu conheço Jesus,
tenho uma “cabeça razoável” e uma amiga que me ama e a quem eu
amo. Antes, eu tinha tudo, mas não tinha nada. É fácil você ser amado
pelas pessoas quando tem algo para lhes oferecer. Não posso entender
como alguém gostou de mim quando eu não tinha nada para oferecer,
para merecer sua amizade. Para mim, foi ao mesmo tempo a melhor e a
pior coisa: ganhei de um lado e perdi de outro. Por exemplo, ontem eu
estava triste, desanimado. Peguei a minha Bíblia e comecei a ler. Hoje já
acordei “esperto”, contente pela segurança, por ter Alguém em quem
confiar.
- Quando comecei a andar com a malandragem, via tudo como um
sonho. Tinha tudo nas mãos da maneira mais fácil. Mas, com o passar do
tempo, fui descobrindo algumas coisas: queria mais drogas, e comecei a
roubar. Vi pessoas sendo baleadas, estupradas e não pude fazer nada,
só virar a cara. Nessas horas fiquei apavorado, tentei sair dessa turma,
mas não vi ninguém que me ajudasse, que me falasse de Deus na minha
língua, de modo que eu pudesse entender. Pensando na minha vida, eu
vejo que sou culpado de estar assim. Estou preso em uma prisão sem
grades: a cadeira de rodas. Aqui aprendo a ficar calmo, usar mais a
cabeça, crescer, conhecendo mais a Deus, sou mais gente.
- Se não estivesse aqui, provavelmente estaria entre as grades,
numa cadeia, e afundando, tornando-me cada vez mais animal. Para
mim, era a cadeia ou a cadeira, pela minha culpa. Na malandragem
você só age na escuridão da noite e aprende a não confiar em ninguém.
Seu melhor amigo é o calibre. A gente aprende a se defender atacando.
Mas quando eu me converti, fui mudando aos poucos. Tinha medo de ser
forçado a mudar, mas fui conquistado sem pressão, pelo amor. Meus
amigos que não me vêem a tempo, chegam para mim e dizem “Você
está diferente! Está sorridente, mais calmo...está fumando algum
“bagulho” (droga)? Eu parei com as drogas. Para isso precise de suas
coisas: vontade de parar e uma pessoa que me aceitou como sou, sem
me criticar. Que foi firme comigo nas horas de necessidade soube
chamar minha atenção.
- Quando alguém me aceitou como eu sou, eu abri as minhas
defesas e o meu coração. Foi muito importante para mim, ler várias
vezes o livro de Jó, e falar sobre ele. Este livro da Bíblia é especial para
mim, ali via o meu coração. Não sei o que é, mas sinto uma paz me
penetrando, aliviando. Lendo este livro, vi que Jó era um homem bom,
que procurava se afastar do mal. E mesmo assim ele perdeu tudo o que
tinha, sofreu com a morte de seus filhos e ficou doente. Fiquei irritado ao
ver como os amigos que deveriam consola-lo o criticavam, inventando
mentiras sobre ele. Outra coisa que eles faziam de errado era falar que
Deus não se importa com o homem, se ele é bom ou faz coisas erradas.
Pela terceira vez. Elifaz respondeu a Jó: “Você pensa que pode
ajudar a Deus com sua sabedoria? Por mais sábio que você possa ser, só
será capaz de ajudar a si mesmo. Você pensa que Deus tira alguma
vantagem se você for um homem justo? Pensa que ele ficará mais feliz
se você for honesto e obediente? Ou será que você pensa que Deus lhe
dá este castigo justamente porque você respeita e obedece a ele? De
jeito nenhum! Você está sendo castigado porque é um pecador rebelde!
Seus pecados, Jó, são muitos e muito grandes!” (Jó 22.2-5 BV).
- Elifaz também prometia a Jó, em nome de Deus, coisas que Deus
não lhe dizia:
Se você se arrepender e se voltar para Deus, ele devolverá tudo o
que você perdeu (Jó 22.23 a BV).
Sabe que várias pessoas crentes que vieram me visitar disseram a
mesma coisa? “Se você for para a igreja e se tornar um supercrente,
Deus lhe dará de vota o uso de suas pernas!” Este tipo de gente faz
você se afastar da igreja, porque quando você vê que Deus não o curou,
fica revoltado com ele e não quer ouvir mais nada.
- Outros crentes chegaram para mim e disseram: “Sei o que você
está passando!” Sabem nada! Ninguém sabe o que é uma cadeira de
rodas enquanto não fica preso a ela. Como estes crentes, os amigos de
Jó davam-lhe conselhos sem saber o que ele estava passando, sem
sentir sua dor. Falaram de um plano diferente daquele em que ele
estava. A melhor política teria sido continuarem calados.
- Outra coisa que aprendi com Jó é que posso falar com Deus tudo
o que penso, com ousadia. Posso lhe fazer perguntas sobre a razão de
ele ter permitido isto. Eu sempre fico a me perguntar porque eu fui
atingido. Há tanta gente pior por aí, que mata, estupra, toma dez tiros e
sai andando do hospital. Porque eu estou numa cadeira de rodas? Um
dos amigos de Jó disse uma coisa muito certa:
Sim, Deu faz essas coisas acontecerem na vida do homem, em
alguns casos duas ou três vezes para livrar esse homem de morte
eterna e fazer brilhar sobre ele a luz da vida (Jó 33.29 BV).
- Com o tiro eu saí ganhando. Hoje eu tenho em quem me apegar.
Sei o que me atingiu porque encarei o meu sofrimento de frente, não
fugi dele. Ainda que não possa entender as razões de Deus, sei que ele
me deixou ficar vivo, mas deixando uma marca: a paraplegia. Aprendi
muito com Jó, com sua humildade, seu amor a Deus e sua transparência,
falando com liberdade com o Senhor. No seu encontro com Deus,
recebeu dele uma nova visão. Reconheceu como era pequeno. Saiu do
sofrimento enriquecido e fortalecido, mesmo que não tivesse recebido
explicações das razões do seu sofrimento. Deus só nos diz aquilo que
podemos entender. Quando não conseguimos, ele alivia a dor, dando-
nos forças para suporta-la.
- O que estava faltando na minha vida é o alívio para minha dor. O
que dói mais é o coração, quando vejo meus colegas correndo,
passeando, e tenho que ficar parado numa cadeira de rodas. Isto não é
sentir pena de mim mesmo. Não há mais críticas a Deus , nem às
pessoas, mas a mim mesmo! Eu queria ter tido, há cinco anos atrás uma
“cabeça diferente”. Mas para crescer, precisei cair, bater a cabeça, ficar
numa cadeira.
- Eu sou muito grato a Deus porque ele pôs você e minha mãe na
minha vida: as duas pessoas que eu mais amo no mundo. Quando tornei
o tiro, ele pôs você perto de mim. Se ele não tivesse me dado mais
nada, eu já seria grato a Ele. Ouço as suas críticas “numa boa”, porque
sei que você gosta de mim e me aceita como sou. Às vezes penso que
cheguei ao final das forças, mas Deus sempre me mostra uma nova luz.
Você segurou a minha “barra” comigo, sem ter obrigação nenhuma.
Muitas vezes eu a tratei mal. Uma parte de mim queria ficar perto de
você, confiar, e outra não. Demorei dois anos para confiar, porque
sempre achei que você era como outras pessoas que conheci. Não podia
entender porque você não cuidava de pessoas mais fáceis. Por que
invadir o mundo de um solitário? Nunca haviam conseguido entrar
dentro de mim como você entrou. Eu tinha medo, raiva. Tinha muitas
portas trancadas dentro de mim, e você estava abrindo todas elas. Com
você e com Jó, aprendi que consolar é dar carinho, sentar-se ao lado,
escutar e dar força a uma pessoa carente, em sofrimento. Os amigos de
Jó não o consolaram. Quem o consolou foi Deus. Não o Deus distante,
mas o Deus amigo, que o sustentou durante o sofrimento aliviando-o
quando a pressão era muito grande. Ele não o deixou ser provado além
de suas forças.
- Jó conversava livremente com Deus. Falava de sua dor, sua
decepção, sua revolta, mas francamente. E enquanto falava, era
consolado. E ao mesmo tempo em que era consolado por Deus, ia sendo
curado. Ninguém sabe o que é sofrer na pele, passar pela sua dor. Ela é
só sua. Mas Deus sabe o que é uma cadeira de rodas, sabe o que eu
sinto. Somente Ele pode consolar profundamente. E Ele tem me
consolado.
4 - Jesus Sentou nas Cinzas
Lendo o Evangelho de João, percebo Jesus sentando-se nas cinzas
da miséria do homem muitas vezes, de maneiras diferentes,
respondendo à necessidade de cada pessoa.
Ele sentou junto ao poço, ouvindo e oferecendo a água vida à
mulher samaritana. Parou junto ao tanque de Betesda, rodeado por
multidões de doentes, e curou o homem paralítico havia 38 anos.
Preocupou-se com a multidão faminta e a alimentou. Atendeu com
atenção e carinho a surdos, cegos e coxos, identificando-se
profundamente com sua dor, curando-os e salvando-os.
Jesus foi diferente dos amigos de Jó: sentou realmente nas nossas
cinzas, sem contudo, sujar-se com elas. Ficou sentado sobre elas
conosco muito mais que sete dias e sete noites, porque ainda hoje vem
bucar-nos nas cinzas, senta ao nosso lado e depois levanta-nos delas
para que andemos a seu lado.

JESUS É DEUS, MAS SENTOU NAS CINZAS DO LIXO

A atitude de vocês deve ser semelhante aquela que nos foi


mostrada por Jesus Cristo que, embora Deus, não exigiu nem tampouco
se apegou a seus direitos como Deus, mas pôs de lado seu imenso
poder e glória, ocultando-se sob a forma de escravo e tornando-se como
os homens. E se humilhou ainda mais, chegando a ponto de sofrer uma
verdadeira morte de criminoso numa cruz (Filipenses 2.5-8 BV).
Em 1 Samuel 1, encontramos o relato da vida de Davi e Jônatas, e
os versos 1, 3 e 4 chamam minha atenção:
Sucedeu que, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jonatas
se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou com à sua própria alma.
Jônatas e Davi fizeram aliança, porque Jonatas o amava como à
sua própria alma. Despojou-se Jonatas da capa e que vestia e a deu a
Davi, como também a armadura e inclusive a espada, o arco e o cinto.
Jonatas, era um príncipe, filho de Saul. Davi era apenas um pastor
de ovelhas. Pequeno, aparência simples, desconhecido e insignificante. “
E Deus faz isto conosco: toma pessoas insignificantes, meros
espectadores das estradas da vida, pra conduzi-los ao maravilhoso
palácio das bem-aventuranças(35)”.

(35)
Amor Incondicional, pág. 75.
Davi não merecia o amor de Jonatas. Não tinha nada a lhe
oferecer. O que poderia um humilde pastor de ovelhas oferecer de
presente a um príncipe? Mas Jônatas não lhe ofereceu seu amor só em
palavras. “O príncipe retirou de si tudo o que possuía e o colocou sobre o
camponês. E Davi se acha completamente vestido, trajado por Jônatas.
Está todo vestido como príncipe e o príncipe como camponês(36)”.
Eu tenho conhecido a graça de Jesus, que, sendo riquíssimo, se fez
pobre para que eu, que era um “mendigo espiritual” pudesse ser
exatamente rico por causa da pobreza dele. Ele tomou sobre si toda a
minha fraqueza e culpa, meu andar inconstante, e revestiu-me com a
sua capa de justiça.
Vocês sabem como nosso Senhor Jesus era cheio de amor e
bondade: embora fosse tão rico, ele se fez tão pobre para ajuda-los, de
tal maneira que, tornando-se pobre, ele pudesse fazer vocês muito ricos
(2 Co 8.9 BV).
No livro Amor ilimitado, de Festo Kivengere, há a citação de um
interessante texto de O. Henry, do livro O presente dos magos, em que
ele narra a história de um casal de americanos.
“Eles eram muito pobres; não possuíam quase nada neste mundo.
Mas a moça, Della, tinha cabelos belos e longos. Eles eram a sua glória,
e podiam cobri-la como um rico manto. A única coisa que o marido, Jim,
possuía era um relógio de ouro puro, uma jóia que pertencera ao seu pai
e avô.
E os dois se amavam profundamente.
Era véspera de Natal, e Della queria dar a Jim um belo presente,
mas tinha pouco mais de um dólar. Então ela se dirigiu a uma loja de
perucas da cidade e vendeu seu cabelo. Eles cortaram sua bela
cabeleira e lhe deram vinte dólares. Com esse dinheiro ela comprou uma
corrente de ouro para o relógio de seu querido Jim.
Enquanto isto, Jim pensava no que daria à sua esposa Della. Por
fim, vendeu seu relógio e comprou-lhe duas belíssimas travessas para o
cabelo.
Mas, à noite, ao voltar para casa , Jim viu que sua amada esposa já
não tinha os longos cabelos. E ela o presenteou com a corrente de ouro
para um relógio que ele não mais possuía. Cada um pensara em dar
tudo para o outro, sem pensar no preço”.
Amor desmedido é aquele que se dá todo em favor da pessoa
amada. Mas o próprio Jesus fez muito mais que isso.
“Fora ele que, num gesto de extrema extravagância, deixara a sua
glória, esvaziara-se de seu poder , domínio e autoridade, e se tornara
como nós. Este é o modo de amar mais extravagante que se conhece.
Foi exposto nu, deixado em absoluta solidão, envergonhado, para que,
pudesse abraçar um mundo nu, solitário e vergonhoso (37)”.

(36)
Amor Ilimitado, pág. 76.
(37)
Amor Ilimitado, pág 93.
Nossa memória precisa ser sempre reavivada para que nos
lembremos que foi só pelo seu amor e pela sua misericórdia que ele nos
presenteou com a sua graça. Estávamos de mãos vazias, sem nada para
lhe oferecer.

ELE SENTOU NAS CINZAS MAS NÃO NOS JULGOU

Acho que o nosso grande problema é a amnésia espiritual, que nos


faz esquecer esses fatos tão facilmente. Pensamos ser maiores que
Jesus. Convidamos para as nossas igrejas pessoas que “têm cara de
crente”: boas, honestas, responsáveis, que têm alguns “pecadinhos”
mas que são aceitas pela sociedade. Quando saímos sentimo-nos “os
bons”, “os heróis”, para fazer evangelização entre prostitutas, travestis,
drogados e ladrões, falamos de Jesus e do Evangelho, mas nossas
palavras perdem a autoridade porque todos podem sentir em nossa
pessoa o julgamento implícito. “Eu, com toda a minha espiritualidade,
bondade e santidade, senti ‘pena’ de você e deixei a minha comodidade
e vim aqui falar que você é mesmo um miserável pecado, e que, se não
se arrepender, irá para o inferno”. Admirados com nossa atuação,
voltamos satisfeitos para as nossas igrejas e aguardamos os resultados.
Às vezes, pela misericórdia de Deus (para conosco), aparece uma
daquelas pessoas na igreja; nós a colocamos em destaque para que
todos vejam a nossa excelente evangelização e, ao mesmo tempo, em
escanteio, porque ela tem “cara, trejeitos e trapos” de pecadora.
Queremos nós transforma-la, e não esperamos que o Espírito Santo faça
o seu trabalho em seu coração.
“Bom número de cristãos pensam que a obra cristã é formar a
crítica da vida. Se assim fosse, estaríamos na extremidade do turbilhão
do farisaísmo. E isto acabaria transformando a Fé Cristã num tribunal de
onde se criticaria e julgaria a vida. Mas, o centro da Fé Cristã não é um
tribunal, e sim, a Cruz. O centro não é uma crítica em paralelo, mas uma
identificação com o homem que toma sobre si o pecado alheio e, nesse
processo, suplica: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. A
redenção vem pelo sofrer com o culpado, pelo culpado. E não pelo
apontar e criticar o pecador. A crítica não converte os pecadores. A cruz,
sim; só a cruz os converte(38)”.
Gosto muito de conversar, consolando e evangelizando ladrões
que são baleados ou estão com AIDS e ficam internados no Hospital das
Clínicas e no Hospital Emílio Ribas. Eles sabem quem são – pecadores.
Sabem que não merecem nada – esperam pela misericórdia e não usam
máscaras. É difícil para eles crer que Deus possa amá-los mesmo assim,
e que o sacrifício de Jesus pode pagar até pelos seus pecados. Mas o
meu relacionamento com eles tem sido muito bom. Tenho orado ao
Senhor para que Ele coloque em meu coração amor por aquele
(38)
O Caminho, pág. 145.
indivíduos. Que ponha diante de meus olhos a imagem limpa que o
Senhor imprimirá neles depois de transformados. E procuro trata-los
como Jesus os trataria.
Depois de aproximar-me deles com um sorriso e ouvi-los o tempo
que cada um achar necessário, digo-lhes: “Eu vim lhe trazer hoje uma
boa notícia. Vim dizer-lhe que eu amo você, e que Deus o ama ainda
mais, e o aceita como você é. Mas na nossa vida, nós vivemos “pisando
na bola com Deus”, fazendo e pensando coisas que são erradas, e Ele
conhece o nosso pensamento, e chama a isso de pecado. Isso o
entristece e nos afasta dele, mas mesmo assim Ele continua a nos
amar. José, ele ama a você e a mim também, e não só de falar, como
nós ouvimos tanto por aí. Jesus mostrou que nos amava ao se fazer
gente como a gente, experimentar na pele o que é a tentação, a
provação, mas sem pisar na bola com Deus nem uma vez; como prova
maior de Seu amor, deu Sua vida para pagar pelos nossos pecados. José,
Ele ama demais você. Fez você para Ele mesmo, e quer hoje entrar em
sua vida, limpar tudo que há de sujo aí dentro, como fez comigo
também, e lhe dar um começo novo, uma vida nova. E também a
certeza de uma vida eterna depois desta, onde estaremos para sempre
com Ele. Estas são as boas notícias. Você pode aceitar o seu amor e ser
uma nova pessoa, ou continuar sendo quem é hoje. A escolha é somente
sua diante de Deus”.
A seguir eu os ensino a orar, a falar com Deus e deixo-lhes algum
trecho bíblico para ler.
“Todos os juízos que faço dos outros somente os endurecem e
produzem neles defesa própria e forte resistência. Ajuda-me, pois, a
sofrer pelos homens, e com eles, deixando a ti a tarefa de julga-los. Que
eu espalhe ao meu redor o amor, e somente o amor(39)”.
Jesus sentou nas cinzas com os pecadores e mostrou-lhes o Seu
amor. E sabe quem foram aqueles que o criticaram? Os fariseus! Os que
ditavam todas as leis e as colocavam como um peso sobre o povo, mas
que não conheciam a lei do amor, da graça. Mais tarde, quando Jesus e
seus discípulos almoçavam na casa de Mateus, muitos conhecidos
espertalhões estavam lá como convidados. Os fariseus ficaram
indignados. “Por que o mestre de vocês se reúne com homens como
esses?” “Porque as pessoas que estão bem não precisam de médicos!
São os doentes que precisam”, foi a resposta de Jesus (Mateus 9.10-12
BV).
Quando nos dispomos a consolar alguém, temos de pedir ao
Senhor continuamente que aumente o nosso amor por ele, renove a
cada momento a humildade para sabermos que não somos melhores
que ninguém, coloque em nosso coração a convicção de sua
misericórdia em nossa vida para que, no decorrer da conversa, não
comecemos a julgá-lo. Dr. Paul Tournier, em seu livro Culpa e Graça, no
fala sobre “O Espírito de Julgamento”.
(39)
O Caminho, pág. 146.
“É fácil a princípio, escutar sem preconceitos. É ainda mais fácil
quando o paciente nos inspira confiança ou, também, quando ainda não
sabemos nada sobre ele. Mas torna-se mais difícil quando se trata de um
velho conhecido, quando conhecemos também a família, o meio
ambiente e seus problemas. Os doentes sabem disso e estão mais
dispostos a consultar um psicoterapeuta distante do que um de sua
própria cidade. Contudo, pouco a pouco, inevitavelmente formamos uma
opinião sobre o paciente. Algumas de suas reações nos decepcionam.
Nós temos uma profunda sede de vida, de relacionamentos
alegres e livre. Precisamos que nossos amigos nos considerem sem
preconceitos, vendo-nos como somos e não através de luneta de uma
doutrina moral, de uma teoria científica ou de um diagnóstico médico.
Pois é assim que Deus nos olha.
Assim, todo conselho objetivo, quer seja moral ou psicológico, tem
sempre, até certo ponto, o caráter e o peso de um julgamento. É o
conselho de um homem para outro homem, uma pretensão de
arbitragem, uma pretensão de superioridade deste que pronuncia sobre
o outro. Assim, toda discussão intelectual, mesmo conduzida no melhor
espírito de pesquisa em prol da verdade, tem mais ou menos o sentido
de uma luta pelo domínio, uma briga pelo poder. Cada um se
engrandece demonstrando que tem razão, e que o outro, por
conseqüência, está errado e é culpado”.
Todos se defendem
Todo mundo sob o golpe de uma acusação, tem um reflexo de
defesa, de justificação própria. A resposta à acusação brota
imediatamente em seu espírito. Os argumentos surgem aos borbotões,
eles embotam o pensamento e não deixam nenhum lugar à humilhação
ou a uma confissão de faltas. “Há mil razões válidas para se desculpar”.
No ardor da consolação dos amigos de Jó, que a esta hora já se
transformara em discussão, ele se defendeu mostrando suas obras:
Naquele tempo eu tinha um lugar reservado entre os cidadãos
influentes e dignos de respeito. Quando os jovens me viam chegando,
levantam-se a abriam o caminho; os velhos ficavam em pé, em sinal de
respeito. Até as autoridades deixavam de lado os assuntos importantes
e se calavam quando eu chegava. Homens ricos e importantes paravam
de falar sobre negócios para me escutar. Minhas palavras eram a alegria
da cidade e todos me conheciam como um homem honesto e justo.
Eu ajudava os pobres que estavam sendo explorados e os órfãos
que não tinham ninguém para lhes dar abrigo. Ajudava os que estavam
às portas da morte e eles me abençoavam; eu ajudei muitas viúvas e
ficarem alegres novamente! Em todas as minhas ações eu procurava ser
justo; fiz da justiça minha roupa de todo dia. Eu servi de vista para os
cegos e de perna para os aleijados. Fui um pai para os pobres e
necessitados e até aos estranhos eu protegi e julguei com justiça (Jó
29.7-16 BV).
Quem me conhecia procurava sempre ouvir meus conselhos e
todos se calavam para me escutar. Quando havia alguma dúvida ou
discussão, eu sempre tinha a última palavra, pois todos aceitavam
minhas opiniões. Todos esperavam pelos meus conselhos como a terra
seca espera pela chuva da primavera. Quando alguém estava triste e
desanimado, o meu sorriso lhe ANTÔNIO
devolvia a alegria e a disposição de viver.
Para o meu povo eu era um guia para mostrar o caminho, um rei que
comandavaHá um oshomem a quem
exércitos, eu admiro
um chefe profundamente.
que organizava e um Seu amigo para
nome é Dr. José Roberto
consolar os tristes (Jó 29.21-25 BV). Nery. É cirurgião, professor da
Faculdade de Medicina
E, de fato, aos olhosdade Universidade
Deus, Jó era oSão Paulo,
melhor iniciou
homem o a Terra
sobre
transplante de fígado “inter-vivos” e é muito conceituado
(Jó 1.8). Por outro lado, mesmo reconhecendo-se pecador, ele sabia que em
osuaseuárea por ser não
sofrimento um profissional competente
era conseqüência e muito
de algum humano.
pecado seu (Jó 19.4
Mas minha principal admiração por ele não é
BV). Aliás, mesmo quando a pessoa tem culpa, não é acusando-a por tudo que ele que a
faz, mas sim pelo
levaremos ao arrependimento. que ele é. Em suas horas livres temos
evangelizado
“O verdadeirojuntosarrependimento
no Hospital Emílio nãoRibas.
surgeAndando
tão rápido juntos
assim, não
pelas enfermarias, ouvindo e falando de Jesus
tem esse caráter automático de um determinismo psicológico. O aos pacientes,
também conversamos
arrependimento muito, de
só vem depois e aumcada
longo dia eu vejoapós
combate, maisumaa defesa
pessoa de Jesus
tumultuada. na vida deste
Arrepende-se irmãoquando
somente e amigo tão querido.
a convicção de pecado vem
Logo que eu convidei para estar
de dentro e não de fora; quando vem do profundo comigo nestedo hospital
nosso ser, do
ele temeu pelo perigo da contaminação (Hospital
diálogo íntimo com Deus, da ação do Espírito Santo e não dos Emílio Ribas
é somente dos
julgamentos para moléstias infecciosas) por causa de seus
homens.
filhos.
AsDisse-me
censuras quetêm
oraria,
o eefeito
conforme fosse aem
contrário orientação
um homem do são;
Senhor, iria ao meu encontro no hospital
desencadeiam um inexorável mecanismo de justificação, mesmo no dia seguinte.
Quando chegou,
havendo intenções disse-me:
puras e a melhor boa vontade da parte de quem
critica. -Como sempre, o Senhor venceu. Se Davi podia dizer: O
Senhor é a minha força e o meu escudo, eu também posso
dizer: “O Senhor é a minha força e a minha máscara”.
Começamos a visitar os pacientes. Logo nos primeiros
dias, ele dizia não sentir um amor especial por qualquer
paciente. Passou a orar sobre este assunto, e o Senhor lhe
respondeu colocando à sua frente Antônio, um travesti. Eu já o
havia visto, naquele leito junto à janela, mas preciso confessar
que não senti nenhum amor por ele. Era a coisa mais feia que
eu já vira, mas o Dr. Nery o viu com outros olhos. Antônio tem
mais de sessenta anos e deve ter passado grande parte de
sua vida nessa ‘profissão’. Seu rosto foi marcado por cirurgias
plásticas mal feitas. Seu nariz foi moldado de forma bem
afeminada, seus lábios em forma de coração, as maçãs do
rosto bem acentuadas com silicone, e na testa, junto dos
cabelos, uma cicatriz de lado a lado, sinal de outra cirurgia
plástica. Seus cabelos são oxigenados, as unhas compridas,
sobrancelhas exageradamente finas e encurvadas e seios
volumosos, à custa de injeções de silicone. No queixo vejo
crescendo alguns fios de barba. Sua voz é grave e apagada, o
olhar perdido, sem expressão. Nenhuma simpatia, nenhum
sinal de amor. Morto que ainda respira. Quem poderia amar
alguém assim?
Mas Deus pôs amor pelo Antônio no coração do Dr. Nery.
Fui eu quem primeiro lhe falei, e não tive palavras para conter
minha indignação diante do quadro:
-Só Jesus, Antônio, só ele pode ajuda-lo, transforma-lo,
Continuou a dar-lhe atenção e carinho, orando diariamente por
ele. Foi muito gratificante quando Antônio disse que queria ter
Jesus como Salvador. Fiquei ao lado, enquanto Dr. Nery orava
com ele e por ele. Após a oração, quando lhe perguntou onde
estava Jesus, ele respondeu:
- Aqui, dentro do meu coração:
Tenho certeza de que a conversação de Antônio
não se deu tanto pelas palavras que o médico usou, mas de
sua demonstração de amor incondicional assemelhou-o muito
a Jesus, e deixou no coração daquele homem uma porta
aberta para a atuação do Espírito Santo.
“Os que exercem alguma influência sobre você não são
aqueles que vivem tentando corrigi-lo com suas críticas, e sim,
(41)

Todo julgamento é destruidor

(41)
Culpa e Graça
Assim, a trágica conseqüência do julgamento que afloramos em
alguém é a de lhe barrar o caminho da humilhação e da graça, pois o
empurramos precisamente ao uso dos mecanismos de justificação de si
mesmo. Em lugar de livra-lo de suas faltas, fazemos com que ele as
defenda. Para ele, nossa voz abafa a voz de Deus. Nós o tornamos
impermeável a esta voz divina que não escutamos senão no silêncio. As
respostas apaixonadas que o nosso julgamento desencadeia em sua
alma fazem nel grande alarido(40)”.
Somente quando Jó se viu face-a-face com o Senhor, com a sua
santidade e justiça, pôde ver-se como realmente era. Reconheceu seu
coração enganoso, mesmo sob toda a sua luta para não pecar. Viu que
ele não era deus, mas homem, e que não poderia chamá-lo para
justificar seus atos divinos diante de Jó. Somente pela sua Graça ele
poderia justificar a Jó.
“Talvez pensemos que somos pessoas muito boas, mas só
pensaremos assim enquanto não nos acharmos diante daquele que
personifica a própria pureza. É a luz pura de Deus que transpassa o
homem de um lado a outro. Só conseguiremos manter uma aparência de
grande santidade enquanto não nos colocarmos em contato com esta
luz, mas depois que o fizermos não haverá lugar onde possamos
esconder.

ELE SENTOU NAS CINZAS E, NOS ACEITOU E CATIVOU

“A necessidade de aceitação é básica no desenvolvimento da


personalidade. Todos nós necessitamos de ser queridos, valorizados e
compreendidos pelas pessoas que nos rodeiam(42)”.
Precisamos de alguém que nos ame e nos aceite como somos na
infância, na adolescência, na mocidade, no casamento, na velhice e,
finalmente, no momento da morte; precisamos ter quem aceite nossa
partida e se despeça de nós de maneira tranqüila e carinhosa e um Deus
que nos receba na vida eterna.
É importante sabermos que cada pessoa é diferente e especial.
Tem suas virtudes, falhas e também limitações. Aceita-la é amá-la
incondicionalmente, caminhando a seu lado e deixando que o Espírito a
transforme e nos transforme através dessa amizade.
Jesus tratava a cada pessoa de maneira especial; quando falou
com Nicodemos (João 3), por exemplo, um homem seguro de si, que
precisava nascer de novo. Se Jesus usasse as mesmas palavras com
uma pessoa fraca e com sentimento de inferioridade, talvez o resultado
não fosse bom. Não se pode generalizar. Os temperamentos são
diferentes, e também suas estruturas físicas e psíquicas. A mesma frase
pode ajudar na cura de um e na morte do outro.
(40)
O Caminho, pág. 147.
(42)
Amor ilimitado, pág. 33.
Quando sabemos que somos aceitos e amados por Deus como
somos, abrimos nosso coração para que ele nos capacite a amar e
aceitar as pessoas assim como Ele faz conosco.
Quando aceitamos uma pessoa, permitimos que ela nos cative e
aprendemos a amá-la cada dia mais.
Diálogo entre a raposa e o Principezinho (de O Pequeno Príncipe):
“Minha vida é monótona. Eu caço galinhas e os homens me
caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem
também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas,
minha vida será como cheia de sol. Conhecerei um ruído de passos que
será diferente de todos os outros. Os outros passos me fazem entrar
debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse
música. E depois, olha! Vês, lá longe os campos de trigo? Eu não como
pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram
coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será
maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará
com que eu me lembre de ti. E amarei o barulho do vento no trigo(44)”.
Quando temos uma companhia, alguém que é nosso amigo, que
nos ama e nos aceita assim como somos, por maior que seja a nossa dor
ela diminui de intensidade, a solidão vai embora a vida tem nova cor e
sentido.
Aquele que aceita os demais com abertura e franqueza, que
compreende a sua própria necessidade de estar com os outros, e
também compreende que os outros têm necessidade da sua presença,
desfrutará de uma agradável convivência, sem divisões internas ou
externas que o separem do mundo. Será uma pessoa sã.
Jesus é o caminho, e leva o homem ao encontro com Deus, consigo
mesmo e com o próximo, dando significado à sua existência.
Fico maravilhada ao ler a Bíblia e encontrar Jesus atuando em
diferentes situações, em ver seu carinho e atenção para com cada
pessoa, principalmente para com aqueles que a sociedade rejeitava. Seu
consolo principiava pelo envolvimento, aceitação e amor incondicionais.
Pelo ouvir com atenção. Pelo toque, pelo colocar-se “nas cinzas”, chorar
e sofrer com aquela pessoa consolando-a.
Jesus estava no meio do povo, ensinando-o, quando aconteceu
algo inédito: os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma
mulher que havia sido surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de
pé no meio de todos, exigiram de Jesus um julgamento.
“Mestre”, disseram a Jesus, “esta mulher foi encontrada no próprio
ato de adultério. A lei de Moisés manda que seja morta. O que o Senhor
acha?” ...Ficaram esperando uma resposta; então ele se ergueu e disse:
Muito bem, joguem pedras até ela morrer. Mas só aquele que nunca
pecou pode jogar a primeira!”. Depois abaixou-se de novo e escreveu
mais um pouco na terra. Os líderes judaicos foram saindo um a um,
começando pelos mais idosos, até que só deixaram Jesus com a mulher
(44)
O Pequeno Príncipe, pág. 66.
diante da multidão. Então Jesus se ergueu novamente e disse a ela:
“Onde estão os teus acusadores? Nenhum deles condenou você?”. “Não
Senhor!”, disse ela. E Jesus disse: “Eu também não. Vá embora e não
peques mais” (Jo 8.4-11 BV).
Aqueles homens que a levaram à presença de Jesus estavam
andando com os saltos-altos da lei e da religião. Eles estavam certos: na
lei de Moisés, a mulher pega em adultério deveria ser apedrejada. Para
eles, ela não era uma pessoa, mas sim um caso. Eles a estavam usando
para procurar uma falha em Jesus e terem como acusa-lo.
Como eles, nós gostamos muito de contar casos: alguém que se
matou, alguém que morreu, alguém que adulterou, alguém que está
enfermo, alguém que está endemoniado... Casos para ilustrar nossas
conversas e nossos sermões.
Em casos nós não nos envolvemos, só os observamos à distância,
ou em contatos puramente profissionais e superficiais. Mas Jesus não
trata assim as pessoas. Ele sabe que cada uma foi feita pelo Pai, com
muito amor e cuidado, e Ele próprio oferece uma vida para que estas
tenham vida.
Tu criaste todas as partes internas do meu corpo; tu uniste todas
essas partes para formar o meu corpo enquanto eu ainda estava no
ventre de minha mãe... Tu conhecias perfeitamente cada parte do meu
corpo enquanto eu ainda estava sendo formado no ventre de minha
mãe, como a semente que cresce debaixo da terra. Antes mesmo de o
meu corpo tomar forma humana tu já havias planejado todos os dias da
minha vida; cada um deles estava registrado no teu livro! (Salmos 139.
13-16 BV).
Para Jesus, cada pessoa é única, especial e tem de ser aceita e
valorizada. Quando tratamos uma pessoa que está caída com
julgamento e sem amor, criamos nela uma resistência à Palavra.
Atrapalhamos a ação do Espírito Santo.
O arrependimento não começa quando somos condenados. A
condenação somente conduz ao desespero. É o amor que leva ao
arrependimento.
Às vezes, damos a impressão de que o perdão só é concedido se
forem preenchidas umas tantas condições.
Os amigos de Jó lhe diziam que nem lhe adiantaria orar ou fazer
algo para ser ouvido por Deus.
Se você se arrepender e voltar para Deus, ele devolverá tudo o
que você perdeu. Se você limpar todo o pecado que havia em sua
família, se deixar de lado seu amor pelo dinheiro e jogar fora seu ouro
fino ganho desonestamente, então o próprio Deus, o Todo-Poderoso,
será a sua riqueza, o seu ouro e a sua prata...
Suas orações serão respondidas e você cumprirá com alegria as
promessas que fez a ele. Todos os seus planos darão certo e os seus
caminhos serão cheios de luz (Jó 22.23-25, 27-28 BV).
Se, se, se ... acusações falsas e sujas. Supostos pré-requisitos para
que Jó fosse aceito por Deus, para que suas orações fossem ouvidas.
Voltemos à mulher pega em adultério; quando todos, acusados pelas
suas próprias consciências, se retiraram. Jesus se dirigiu à mulher e
tratou seu problema em particular. Ele a chamou de “Mulher”, a mesma
palavra que pronunciou quando se dirigiu à própria mãe nas bodas de
Caná (João 2.4).
Mulher significa “prezada senhora”; ele lhe deu um tratamento
digno como ela nunca recebera.
Prezada senhora, onde estão os teus eles? Ninguém te condenou?
Tampouco eu te condeno. Vai, e não peques mais.
Tratada como uma dama, aceita, amada. Olhada com respeito.
Como chegar a essa condição para merecer esse tratamento? Como não
amar Alguém que a aceitou e a considerou como um ser humano?
E foi esse amor que a fez dirigir-se a Jesus e a chamá-lo de
“Senhor”. Ela queria que ele fosse o Senhor, o dono de sua vida. Vida
nova, respeitável, para agradar Àquele que a amou primeiro.
Lutaria cada dia para dominar seus desejos sexuais procurando
uma vida decente, que glorificasse ao seu Senhor.
Uma pessoa que é aceita passa a aceitar-se também, e a crescer.
Levanta-se da lama, ganha vestes novas e se esforça para nunca mais
suja-las. No amor e aceitação de Jesus, ela encontra forças e esperança
para começar de novo. Um novo caminho. Uma nova pessoa.

ELE SENTOU NAS CINZAS E SE ENVOLVEU

Não podemos consolar alguém estando ausentes ou mantendo-se


à distância. “Isto quer dizer que, se uma pessoa está se afogando num
mar agitado, temos que nos molhar, temos que entrar em contato com
ela. Significa que, se uma pessoa está se extraviando, não podemos
ignora-la, mas precisamente estender a mão para alcança-la e restaura-
la. Ninguém aprende a nadar em uma sala de visitas, com um manual
de curso por correspondência. Temos que entrar na água(45)”.
E foi o que Jesus fez. Ele não ficou lá no céu chorando por nossos
pecados e nos mandando cartões com mensagens. Ele se fez um de nós
e veio sentir na pele as nossas dores, sentar-se ao nosso lado, chorar
junto conosco, providenciar o remédio para os nossos males (sua vida) e
nos consolar.
Até falar com a mulher samaritana (João 4.4-30), ele sentou junto
do poço. Falou com ela, envolveu-se em seu problema para poder trata-
la. Ele se encontrou com ela no plano em que ela se achava: seu lar
ainda estava desfeito, sua vida vazia, sua fama muito ruim. Ele a trouxe
até ele, mostrando-se como a Água da Vida.

(45)
Eu, um servo?, pág. 186.
Zaqueu era chamado de “pecador” pelos fariseus. Assim eram
considerados todos os de sua profissão, coletores de impostos. Ele tinha
dinheiro, estavam bem com o governo e podia viver sem se preocupar
com os fanáticos religiosos. Mas não era feliz, levava uma vida isolada
solitária.
Foi então que ouviu falar de um homem chamado Jesus. O que
mais o impressionara nesse relato, fora a notícia de que Jesus sabia
fazer as pessoas se sentirem à vontade em sua presença,
principalmente publicanos e pecadores.
Ouviu dizer que ele não se preocupava com a crítica dos religiosos
e até se assentava e comia em casa de pessoas com má reputação,
fazendo-as sentirem-se amadas. De algum modo, a presença dele as
fazia sentirem-se mais humanas.
Zaqueu quis ouvir esse homem. Reuniu-se à multidão, recebeu
muitas cotoveladas, e subiu numa árvore que lhe possibilitaria ver Jesus
quando passasse por ali. Jesus parou debaixo daquela árvore. Olhou
Zaqueu com olhos de amor. Aceitou-o, mesmo sabendo quem era. A
mensagem do seu olhar deve ter sido:
-Zaqueu, eu não vim aqui por acaso. Vim ao seu encontro. Sabia
que você, mesmo tendo tudo, não tem nada. Sua vida está vazia, você é
solitário, não tem razão para viver. Quero ir à sua casa, não importa
quão confusa sua vida esteja. Eu vim para conserta-la. Para salva-la.
Jesus não pregou. Apenas caminhou com Zaqueu para a casa dele.
Sentou-se com ele. Comeram juntos. Ouviu-o com amor. Envolveu-se
com ele. Mas aquele laço de amor prendeu aquele homem e toda a sua
vida foi transformada.
Precisamos aprender a aceitar as pessoas, envolver-nos com elas,
a amá-las incondicionalmente, assim como Jesus faz conosco.
Que nós possamos aprender com o Mestre a amar e, não nos
importando com quem falamos, nos envolvermos profundamente com as
pessoas para leva-las a Jesus.
Lembro-me do testemunho de um rapaz, ex-travesti, que tocou
profundamente minha vida. Ele conta que aceitou a Jesus num hospital,
após sofrer um acidente muito grave. Ficou com o corpo todo engessado
e a cabeça enfaixada e imóvel. Ali, ouviu falar que Jesus o amava, o
aceitava como ele era e queria envolver-se em sua vida, perdoando-o,
salvando-o e transformando-o. Este rapaz saiu do hospital uma nova
pessoa. Vibrando de amor por Jesus, foi logo procurar uma igreja
evangélica, mas não quiseram aceita-lo porque ele era “diferente”, com
todos os seus trejeitos. Depois de andar por várias igrejas e ter a mesma
recepção e decepção, uma o acolheu. Mas todos tinham vergonha de
serem vistos a seu lado. Falavam à distância, oravam à distância, mas
não se aproximavam. Mas ali, Deus havia colocado uma moça especial.
Ela afastou os preconceitos e passou a andar com ele, discipulando-o.
Envolveu-se. Sem medo de críticas, sem vergonha, tratando-o como
uma pessoa respeitável, considerando-o. E este rapaz cresceu. Começou
a perceber em que era diferente dos outros homens e, por amor a Jesus
e consideração à amiga, esforçou-se para mudar. Ficava horas diante do
espelho, observando e corrigindo seu jeito de andar e seus trejeitos. No
gravador, gravou uma fita com a sua voz e com a voz de um homem
normal e esforçou-se por imita-lo. Hoje, ele é realmente um homem, sem
nenhuma característica afeminada. Novo, transformado ... porque
alguém resolveu se envolver com ele.
“Participar do processo de consolo é não fugir de nenhuma
situação, é não arrumar desculpas para não estar presente quando
acontecerem situações consideradas desagradáveis, é permitir o choro
que brota lá de dentro, especialmente quando o outro estiver chorando,
e chorar junto com ele. É estar presente de corpo e alma e não somente
de corpo e máscaras. É não ter medo de expressar as angústias, as
tristezas, preocupado com “o que vão pensar de mim”, “o que vão dizer
de mim”. O que pensarem, o que disserem será problema dos outros,
não nosso.
Estar disponível completamente, não diz respeito a ficar ali todo o
tempo, mas dedicar o tempo que for possível, sem se anular como
profissional, como cônjuge e muito menos como gente, para atender
àquela pessoa de modo inteiro, de corpo e alma(46)”.

ELE SENTOU NAS CINZAS...E NOS TOCOU

Todos nós precisamos ser amados e admirados. Gostamos de ser


chamados pelo nosso nome. Receber elogios por pequenos atos,
reconhecimento pela nossa pessoa. A vida oferece muitas oportunidades
de alcançarmos as pessoas com uma palavra, um gesto ou um toque.
Quantas pessoas passam pela nossa vida a cada dia, e não fazemos
nada por elas.
Há em todos nós, em certas circunstâncias, uma necessidade de
sermos aceitos fisicamente, de sermos tocados com carinho, de sermos
beijados.
Quanta gente sedenta por um carinho! Durante a juventude a pele
é agradável, saudável: os jovens sentem-se orgulhosos de seus corpos e
não se envergonham de tocar ou serem tocados. Mas e aquele senhor
idoso, na solidão em que o deixou a esposa quando faleceu, ou os filhos
ao estabelecerem suas próprias vidas? E aquele enfermo, com a pela
seca e rachada, tocada apenas pelas mãos do médico, em caráter
puramente profissional, técnico? Quem irá toca-los com carinho?
Jesus aproximou-se dos enfermos e tocou-os; suas mãos estiveram
em contato com a lepra quando tocou leprosos que apenas eram
tocados por outro leproso, se é que eram tocados.
Quando ensino alunos nos nossos cursos de Visitação Hospitalar,
sempre lhes digo para não oferecerem a mão ao paciente, se possível
(46)
Os que partem, os que ficam, pág. 109.
não toca-lo, para não lhe transmitir infecções ou serem contaminados.
Mas isto nem sempre deve ser feito. Há ocasiões especiais em que as
palavras são insuficientes, a dor muito grande, e o amor tem que ser
expresso através de um toque. Refiro-me principalmente a pacientes
idosos e também aos pacientes terminais, que já não conseguem falar e
pouco ouvem, mas cujos olhares aflitos nos atraem e levam nossos
dedos a acariciar seus cabelos, segurar suas mãos.
Certa noite estava no Hospital Emílio Ribas visitando algumas
pessoas com AIDS em estado terminal. No leito junto à porta estava um
rapaz de dezoito anos e aproximadamente trinta quilos. Pálido,
esquelético, sem dentes, gemia de dor e gritava desesperado. Disse-lhe
algumas palavras,tentei acalma-lo, mas nada deu resultado. Pedi à
enfermeira que conversasse com o médico e lhe providenciasse um
remédio para a dor, ao que ela me informou que ele já o havia tomado
há pouco tempo. Sem saber como agir, saí e fui atender a outro paciente
que me chamava, ouvindo seus gritos desesperado pelo corredor. Depois
de alguns minutos voltou o silêncio. Acabando de atender ao segundo
paciente, voltei para ver o que acontecera ao rapaz. Rita, uma amiga
que me fazia companhia naquela noite, havia entrado no quarto; em pé,
encostando-se ao seu leito, aconchegou o rapaz, cobriu-o e começou a
acariciá-lo, enquanto segurava sua mão. Não disse nada, só o tocou. Aos
poucos ele foi se acalmando, e fechando os olhos, dormiu. Abandonado
pela família, rejeitado por todos, ele precisava de um toque de amor.

Pequena
Deus, como minhas mãos estão velhas!
Nunca disse isto em voz alta,
mas como estão velhas!
Ah! como já me orgulhei delas:
eram suaves como pele de pêssego.
Agora, são como páginas velhas,
como folhas secas.
Quando foi que estas mãos delicadas, graciosas,
envelheceram, enrugaram-se assim?
Agora estão aqui sobre meu colo,
testemunho mudo deste velho corpo
que me serviu tão bem.
Quanto tempo faz que ninguém me toca?
Vinte anos?
Faz vinte anos que estou viúva...
Respeitada.
Sorriram-se muitas vezes.
Mas ninguém me toca,
ninguém me abraça;
nunca me apertam assim,
calidamente,
para que eu veja desaparecer
a solidão que é sempre minha.
Ah! Senhor, quando me lembro de como
minha mãe me abraçava
quando alguém me magoava ou me feria!
Ela me apertava entre seus braços,
acariciava meus cabelos sedosos
e batia-me suavemente nas costas
com suas mãos delicadas
Oh! Deus, como estou tão só!
Lembro-me do primeiro rapaz que me beijou
Nós dois tão novos nisso...
Sabor de lábios jovens.
Ah! Sentir dentro em mim esses mistérios
ainda desconhecidos.
Recordo-me de Quique... e das crianças
(só posso recordá-los juntos).
Daquele desejo profundo e inexperiente
de jovens amantes,
vieram os bebês;
e enquanto cresciam,
crescia também o nosso amor.
Deus, Quique não se importou
quando meu corpo engordou
nem quando murchou um pouco...
Ele ainda o amava e o tocava:
não nos preocupávamos
por já não sermos tão esbeltos...
Nossos filhos me abraçavam muito.
Oh! Deus, como estou sozinha!
Por que não criamos nossos filhos
para que fossem bobos e nos dessem ternura,
em vez de criá-los para serem dignos e corretos?
Vês? Cumprem seu dever:
Vêm à minha casa
em seus carros modernos.
vem ao meu quarto e
cumprimentam-me educadamente.
Mas não me tocam...
Chamam-me "Mamãe" ou "Vovó";
nunca me chama de "Pequena";
Mamãe me chamava de "Pequena";
e até meus amigos.
Quique me dizia "Pequena" também.
Mas eles se foram.
"Pequena" também se foi.
Só "Vovó" está aqui.
Como tudo está sozinha(47)!

ELE SENTOU NAS CINZAS...E NOS OUVIU

Ouvi atentamente as minhas razões. e já isso me será a vossa


consolação (Jó 21.2).
"Houve uma pessoa a quem sempre serei profundamente grato,
pois na época em que passava por grande depressão teve amor por
mim, ouviu-me com paciência, sem me julgar, escutou minhas tolices,
escutou minhas contradições...escutou, escutou, escutou, e durante
todo o tempo em que me escutava, não se deixou levar pela tentação de
bancar Deus comigo".
"Todas as pessoas que já passaram por um sofrimento muito
grande conhecem o valor de um amigo que, embora creia saber a
solução para tudo, limita-se apenas a escutar as perguntas. Os amigos
de Jó não pararam para ouvi-lo. Eles ouviram as palavras que brotavam
de seus lábios, mas estavam surdos ao clamor de sua alma(48)".
"Todos nós, sem exceção, estamos mais interessados em nós
mesmos - nossos sentimentos, reações, futuro, como parecemos aos
outros - do que em qualquer coisa. Sua dor de dente, por exemplo, afeta
você mais profundamente do que saber que dois bilhões de pessoas irão
dormir com fome esta noite(49)".
É necessário um esforço extra para sairmos "de dentro de nós
mesmos", para desviarmos nossa atenção para alguém, ouvir de
verdade e conhecer apoio sincero. Fazer isso é expressar carinho e
cuidado, que é uma faceta do amor.
Os amigos de Jó, em seu silêncio de sete dias e sete noites,
preparavam sermões, discursos e receituário de fórmulas de consolação
para jogar sobre Jó. Não se identificaram com ele na sua dor, não
exerceram ações de consolação, mas o massacraram com seu
palavrório.
As vezes em que Jó quis expressar seus sentimentos ante a perda
de seus filhos e bens, foi repreendido pelos "consoladores". Precisamos
aprender que não haverá verdadeira consolação enquanto não ouvirmos
de coração aquele que sofre, sem nos alarmarmos com as palavras que
escutamos.
Precisamos deixá-lo desabafar. Impedir o desabafo é aumentar a
dor, tal como fizeram os "consoladores" de Jó, e suas atitudes foram
consideradas como pecado aos olhos de Deus.
A melhor maneira de fazer o outro desabafar é deixá-lo falar. Este
falar implica a necessidade de alguém escutar. A pessoa que ouve não
(47)
D. Bonhoeffer, citado em Curar também é tarefa da igreja, págs. 74-75.
(48)
Decepcionado com Deus, pág. 41.
(49)
A arte de relacionar-se com as pessoas.
deve ser somente alguém sentado diante do que fala, mas alguém que
participa, que pergunta, que procura entender aquele que fala, que
sente o que ele está sentindo. Quando o consolador dispõe-se a escutar
empaticamente, ele não ouve somente as palavras, mas observa gestos,
fisionomia, tom de voz, postura e os interpreta de maneira a "ouvir"
além das palavras. Ao nos tornarmos "ouvintes ativos", perdemos nossa
identidade e convicções, saímos de nós mesmos e entramos no mundo
da pessoa, focalizando sobre ela toda a nossa atenção, demonstrando
interesse e carinho.
Se quisermos consolar alguém que está sofrendo, a melhor coisa
que podemos fazer é nos colocarmos à sua disposição, sensíveis e
amorosos, para ouvi-la. Ela precisa expressar seus sentimentos de
maneira confortável para si, sem medo de condenação.
Betsy Burnham era esposa de pastor, tinha duas filhas e levava
uma vida normal, até descobrir que estava com câncer e ter que ser
internada em um hospital em grande sofrimento. Ela escreveu o livro
Quando seu amigo está morrendo, que muito nos ajuda a aprender a
visitar enfermos, pois ela descreve seus sentimentos, analisando cada
visita, e mostrando-nos as horas em que recebeu maior consolo.
É do leito de dor que ela escreve:
"Há dias em que eu tenho vontade de falar sobre meus
sentimentos, meu tratamento, o aborrecimento de ficar deitada de
costas no hospital, minha preocupação com meu marido e filhas. Outros
dias, não consigo sequer tocar na idéia de câncer. Eu nunca sei qual vai
ser a minha disposição. Mas gostaria se meus amigos me perguntassem
diretamente sobre o que eu gostaria de conversar(50)".
A doença grave confina muito. Seu amigo ou sua amiga pode ter
que ficar de cama, num hospital ou em casa, por longo tempo. Quando
você pergunta: 'Como você está se sentindo?' a reposta pode ser muito
bem ser esta: 'aborrecido(a)!'.
Neste ponto, não mude a conversa por uma descrição egoísta de
todos os últimos filmes que assistiu e esportes ao ar livre que praticou.
Sonde o tédio da pessoa. Ela talvez gostasse de ler algumas revistas ou
fazer algum trabalho manual. Em muitos casos, o tédio é provocado
apenas pela idéia de que a vida continuou sem você, que ninguém se
importa em estar ao seu lado no lugar em que você se encontra.
As emoções são um ponto importante sobre o qual seu amigo ou
amiga talvez queira falar. Não se esqueça de que esse é um terreno
delicado. Algumas vezes as pessoas perguntam: 'Como você se sente
passando por tudo isso? Minha resposta poderia ser geral: 'Miserável'.
Num momento assim, amigos especiais ajudarão a especificar a emoção
como um primeiro passo para tratar com ela. No curso da conversa você
pode perguntar: 'A sua doença o torna zangado? Sente-se solitário? Qual
sua maior preocupação? Quais as suas maiores necessidades?(51)".
(50)
Quando seu amigo está morrendo, pág. 20.
(51)
Quando seu amigo está morrendo, pág. 23.
“Ouvir é um dos primeiros e melhores passos para ajudar seu
amigo ou sua amiga a vencer as lutas emocionais, mentais e espirituais
que acompanham a moléstia. Um amigo que ouve enfrenta a seu lado os
conflitos íntimos, levando juntamente o seu fardo, transmitindo-lhe parte
de sua energia para que possa lutar pela vida(52)”.
“Quando nos dispomos a ouvir com interesse e amor, percebemos
que principiamos ouvindo fatos e passaremos a ouvir sentimentos. À
medida que o relacionamento se aprofunda, começamos a ouvir
confissões íntimas que aliviam a pessoa. A confissão a Deus encarnado
no ouvido atento e perdoador do irmão é um recurso poderoso para
promover a saúde. Ao abrir seu coração o outro descarregará o peso do
segredo que corrói sua saúde espiritual e física.
Aquele que foi ouvido e perdoado será o que vai escutar e perdoar;
e assim se cria um crescente espírito de aceitação e perdão.
O problema é que quase todos nós fugimos dos relacionamentos
profundos; fomos condicionados a dar respostas superficiais nos
momentos mais delicados. “Bem na hora em que nosso amigo está
passando por um período duro e precisa ouvir de coração para coração,
damos uma resposta formal: ‘Olhe, tudo vai acabar bem! Basta você
aprender a manter-se firme e pensar em coisas agradáveis que logo
voltará para casa, quando menos esperar(53)”.
Não sei quem ensinou que o cristão jamais deve expressar
emoções negativas. Os amigos de Jó ficaram chocados e embaraçados
com suas queixas e procuraram silencia-lo. Mas ele se queixou
amargamente de sua dor e sofrimento, mesmo assim mantendo-se
apenas apegado a Deus. Num momento estava se dirigindo aos amigos
e, no seguinte, falando com Deus. Suas palavras são chorosas,
questionadoras, mas ele se expressa com liberdade, com intimidade
diante de um Deus que o conhece profundamente e continua a amá-lo.
Tenho certeza de que Ele compreende os nossos sentimentos, e não nos
volta as costas quando estamos fracos, magoados ou deprimidos. Não
exige que fiquemos “bonzinhos” e falemos “direitinho” para nos ouvir,
para nos dar atenção. Ele está conosco onde estamos: nos cumes das
montanhas ou no “fundo do poço”.

ELE SENTOU NAS CINZAS...E NOS PERMITIU FALAR COM ELE

“Existe uma interpretação muito infeliz do livro de Jó que leva as


pessoas a sofrerem em silêncio. Quando alguém se atreve a perguntar
alguma coisa a Deus, ou a sugerir-lhe que gostaria de ser curado, essa
interpretação o faz sentir-se culpado.

(52)
Quando seu amigo está morrendo, pág. 25.
(53)
Quando seu amigo está morrendo, pág. 30.
Detesto aquela frase: ‘Não chorei! Não fale nada!’ As lágrimas são
uma forma de terapia, e o desabafo também. As emoções reprimidas
explodem, mais tarde, de outra forma(54)”.
Nosso cuidado para não parecer que estamos revoltados contra
Deus, faz com que limitemos nossos lamentos a palavra “aceitáveis”,
mas que não expressam nossos sentimentos.
“Um cristão não deve expressar sentimentos de revolta, mas
dobrar-se à vontade de Deus”. Isso é estoicismo, é manter uma espada
sobre a cabeça e uma faca sobre a língua; não é cristianismo. É
realmente significativo ler em Marcos 15.34: Meu Deus, meu deus,
porque me abandonastes? (Salmo 22). O grito de Jesus serve como linha
de abertura para este Salmo. Embora seja verdade que a resignação em
face da vontade de Deus é uma virtude, ela não exclui uma certa luta
com Deus, um forte diálogo com Ele. De fato, somente uma grande fé
torna isso possível, e quanto maior for a luta, tanto maior deverá ser a
resignação. Não há motivos para se escandalizar com linguagem dos
Salmos ou de Jó ou de Jeremias.
O próprio Jesus chorou (João 11.35).
É uma queixa honesta, expressa de forma lógica ao Senhor. É um
diálogo tão espantoso, que muitos se sentem inclinados a recuar frente
ao possível fato de se dirigir ao Senhor em forma assim viva com a de
lamento: “Por que? Por quanto tempo? Acorda! Levanta-te!”
As “confissões” de Jeremias têm o mesmo teor dos lamentos. Este
profeta, mais do que os outros, revelou os sofrimentos pessoais que teve
de suportar, apesar de saber que o Senhor estava com ele (Jeremias 1.8,
18-19).
A murmuração exprime desgosto em face de uma calamidade
irreversível, ao passo que o lamento é um apelo à compaixão de Deus,
para que ele intervenha e mude a situação de desespero.
Walter Brueggemann, em seu livro The Formfulness of Grief (A
criatividade da dor), desenvolveu o tema lamento e o comparou, em
forma de constraste e semelhança, a vários estágios que Elizabeth
Kübler-Ross, em seu livro On Death and Dying (Da morte e agonia),
detectou em pacientes hospitalizados. O primeiro degrau é o abandono
e isolamento afetados por um enfermo. Ele fez meus parentes se
afastarem de mim e meus amigos me considerarem um desconhecido.
Meus parentes não me dão ajuda e meus amigos nem se lembram de
mim. Meus próprios empregados, que vivem em minha casa, me
desprezam e dizem que eu sou um estranho...Minha própria esposa não
chega perto de mim...Meus amigos mais chegados, aqueles a que eu
mais amava, também me condenam e me desprezam (Jó 19.13-16, 19
BV). O segundo estágio é de angústia e indignação e repercute no
lamento, onde a angústia desempenha papel importante. Em terceiro
lugar, a “barganha” criada pelo paciente que deseja dar exemplo de
“bom comportamento” (Jó 29 e 31). Em quarto lugar, o sentido de
(54)
Além da dor, pág. 76.
depressão e inutilidade pode ser ilustrado pelo Salmo 22.6. Mas eu valho
menos que um homem! Não passo de um verme; todos zombavam de
mim e sou desprezado pelo meu povo. Entretanto, o salmista mantém
diálogo contínuo com o Senhor; aí a depressão incentiva a petição.
Finalmente, o estágio de aceitação no paciente corresponde à certeza de
que foi ouvido(55)”.
Muitos de nós temos um conceito errado do que seja “falar com
Deus”, orar. Ao ouvirmos que um irmão vai orar na igreja, já sabemos de
cor suas palavras, porque são sempre as mesmas. Cheias de reverência,
com frases bem elaboradas, agradecimentos e pedidos muito dignos,
mas sempre iguais. Atrevo-me a dizer que Deus está enjoado destas
“rezas” vazias, que não são conversas.
Orar é conversar com Deus com espontaneidade e intimidade, é
abrir o meu coração, rir e chorar, sabendo que estou sendo ouvido. É
também questionar as coisa que estão me acontecendo e que eu não
entendo, é confessar a ele não só os meus pecados, mas também a
minha irritação pelo que está permitindo, pelo que as pessoas estão
fazendo.
É falar o dia inteiro, sem que os lábios se movam, é deixa-lo
participar das pequenas e das grandes coisas do dia-a-dia.
“Em sua mais extrema aflição Jó clamou ao Senhor. O supremo
desejo de um aflito de Deus é, uma vez mais, ver face a face de seu Pai.
Sua primeira oração não é: “Ah se eu pudesse ser curado da
enfermidade que agora enche o meu corpo de chagas!” nem “Ah!, se eu
pudesse ver meus filhos trazidos de volta das profundezas da morte e
minhas propriedade mais uma vez reavidas das mãos do espoliador!
Mas io seu primeiro e mais profundo clamor é: “Ah! se eu soubesse onde
encontra-lo – aquele que é o meu Deus – e pudesse chegar ao seu
tribunal!
O desejo de ter comunhão com Deus se intensifica devido a terem
fracassado todas as outras fontes de consolação. Jó havia sido traído em
sua esperança de que os amigos o consolassem. Ele descarta todas as
esperanças terrenas e exclama: “Ah, se eu soubesse onde encontrar o
meu Deus! Nada nos ensina melhor quão precioso é o Criador, do que a
percepção da futilidade de tudo que nos cerca(56)”.
Joachim Braun, pastor ferido com a morte de sua esposa, escreve:
“Orar é mais que falar com Deus. Muitas vezes é clamar e gritar a
Deus. Isto a gente só aprende na dor e nos momentos de aflição. Eu
percebo que na oração operam não só as orações vocais, a razão e o
sentimento, mas a totalidade do homem: corpo, alma e mente. Não é
em livros nem em escrivaninhas que aprendemos oração e assistência
espiritual. Aprendemo-las em situações bem pessoais e conflitantes de
nossas vidas, quando estamos atônitos e feridos, quando chegamos à
estaca zero. Estamos então preparados para receber a Palavra de Deus
(55)
Jó e Salmos
(56)
Oração Eficaz.
de forma bem pessoal, para depois transmiti-la ao próximo em
misericórdia e muito amor(57)”.
Uma mãe perdeu seus três filhos em idades e situações diferentes
da vida. Ele escreveu um livro muito inspirador, chamado Rosas em
Dezembro, onde conta como Deus coloca pessoas ou situações boas e
de consolo quando tudo o mais está cinzento e morto. Ela escreve:
“Deus se tornou meu Consolador. Ele está sempre à minha
disposição, não se impacienta comigo, não me julga nem rejeita quando
admito estar magoada. Deus experimentou a tristeza. Ele foi de fato um
Pai enlutado, porque também teve um filho que sofreu e morreu”.
“Orar com alguém aflito é falar simples e objetivamente com Deus,
enquanto segura sua mão ou abraça. Orações bem elaboradas em
termos difíceis ou muito “pastorais” soam distantes e artificiais”.
“O pastor deve criar um ambiente em que é aceitável sentir
mágoa até contra Deus. Ele entende e ama o paciente muito mais do
que o pastor e a família do doente. Todos devem aceitar sua frustração,
desânimo e mágoa, ajudando-o a desabafar, até mesmo expressando
coisas ilógicas e absurdas” (Cuidados pastorais em hora de crise).
“Uma audaciosa mensagem do livro de Jó é que você pode dizer
mais coisas para Deus. Lançar sobre ele a sua tristeza, a sua ira, a sua
dúvida, a sua amargura, a sua traição, a sua decepção. Ele pode
absorver tudo isso(58)”.

5 -O Teu Deus Onde Está?


Deus, tu me lançaste na lama, e me tornei semelhante ao pó e à
cinza.
Clamo a ti, e não me respondes; estou em pé, mas apenas olhas
para mim...
De um montão de ruins não estenderá o homem a mão, e na sua
desventura não levantará um grito por socorro?
Acaso não chorei sobre aquele que atravessava dias difíceis, ou
não se angustiou a minha alma pelo necessitado?
Aguardava eu o bem, e eis que me veio o mal; esperava a luz,
veio-me a escuridão. (Jó 30.19, 20, 24-26).

Das profundezas clamo


Perdoa-me a franqueza,
a quase audácia da confissão.
(57)
Entre o consolo e as lágrimas, pág. 14.
(58)
Decepcionado com Deus, pág. 235.
Mas, neste momento, tu me pareces
terrivelmente abstrato.
Tão distante, que minha alma se angustia
como alguém que procura um objeto
sabendo ter coragem de acreditar
que ele já não existe.
Terei sido hipócrita durante
todo este tempo?
usando-te apenas como elemento
de prestígio, mas sem nenhuma convicção
da existência tua?
Mas, se assim fosse, por que te escrevo?
Por que me dói tanto sentir-te distante?
Como posso compreender o grito do poeta:
Onde estás que não me respondes?
e o clamor do patriarca:
Que mal te fiz, Espreitador de homens?
Não és tu o autor de tudo?
Não tens nas mãos todo o poder?
Que esperas, então, para transformar-me em algo útil,
digno da tua coleção?
Não te parece isso uma omissão cruel?
Tu o sabes; aliás, tu mesmo o afirmaste:
Sem mim, nada podeis fazer.
No entanto, aí estás,
invisível em algum lugar,
gozando sua perfeição, enquanto,
cá embaixo, eu me debato.
Verme sob o monturo, cavando uma abertura
na direção do sol.
É isso justo?
Talvez.
É misericordioso?
Não sei.
Bem, posso compreender que queiras
instruir-me através de alguma forma
da dor.
Mas não te seria mais fácil
modelar-me de uma só vez?
Trocando logo o pano velho pelo novo,
sem me submeteres a um processo
que é a minha limitação e
parece longo e cruel?
Já uma vez prometeste trocar
meu medo por uma canção.
E eu cantei por algum tempo.
Mas, agora, mais uma vez me escapas,
e eu me sento ao pé de um fogo pagão
para aquecer-me, e para esquecer.
Não será preciso que o galo cante
para fazer-me lembrar
que não é meu lugar aqui.
Quer eu fuja, quer me cale,
descobrirão que nossos caminhos
se cruzaram um dia,
e a marca ficou,
indelével, como um timbre
a ferro e fogo.
Por isso, já que nem mesmo tua onipotência
pode retirar o que me deste,
volta!
Vem ter comigo, ou leva-me para onde estás.
Se o meio é a morte, não importa.
O essencial,
o desesperadamente necessário,
é apenas tu mesmo.
Amante de minha alma,
Senhor do meu destino,
Raboni meu!
(Myrtes Mathias)
Passando os olhos sobre vários livros do Antigo Testamento, e
principalmente sobre o de Provérbios, encontramos versículos que
justificam a teologia pregada na época de Jó e proclamada por seus
amigos.
“Os bons serão abençoados e protegidos por Deus, e os ímpios
pagarão por seus pecados com a perda de seus bens e queridos, dores e
angústia. Se você está sofrendo, Jó, é porque você é ímpio, tem pecados
escondidos e a mão de Deus está pesando sobre você”.
Mas o Senhor que permitiu que Jó passasse por todo o sofrimento,
também permitiu que suas palavras e sua vida fossem registradas em
sua Palavra, a Bíblia, para nos ensinar que nem sempre o sofrimento é
resultado do pecado, servindo-nos de consolo quando passamos pelo
“vale de lágrimas”.
Caio Fábio em No Divã de Deus, fala sobre a pretensão que temos
de, porque somos filhos de Deus, pensamos que recebemos dele um
“guarda-chuva” contra os problemas da vida:
“Porque somos ‘fiéis’, achamos que Deus tem a obrigação de ser o
nosso ‘pastor alemão’ invisível, e não permitir que sejamos assaltados;
porque somos ‘crentes’, e cantamos e erguemos as mãos, julgamos que
Deus tem a obrigação de não permitir que vírus algum penetre o nosso
corpo; porque somos pretensos ‘santarrões’, pensamos que a
misericórdia de Deus em nossa vida só se configura através da
impossibilidade de sentirmos dor; porque só somos crentes do Deus de
Abraão no bons dias de Abraão, esquecemos que seu Deus é o Deus de
Moriá e também o de Jó – é o Deus irrespondível”.
Jó mostrara-se humanitário com a escória humana. Eram pessoas
que não mereciam nada, mas Jó chorou por elas, ajudou-as, cuidou de
suas necessidades e dores. Mas agora, quem chora por Jó? A última
alegação no sentido de possuir humanidade já se foi quando ela se torna
uma piada pública para os mais depravados e ninguém os refreia. Agora,
Jó é o paria em quem as pessoas cospem.
Mas agora se riem de mim os de menos idade do que eu e cujos
pais eu teria desdenhado de pôr ao lado dos cães do meu
rebanho...Agora eu me tornei motivo de zombaria e brincadeiras
maldosas para esse tipo de gente. Eles me desprezam fogem de mim e
não perdem uma chance de me cuspir no rosto (Jó 30.1 Almeida At 9,10
BV).
Mas, pior que o desprezo e a rejeição, os maus tratos e o nojo que
ele provoca nos outros, o horror de não poder fugir de seu próprio corpo,
de seu próprio cheiro de pus, de sua dor, de tudo isto estar acontecendo
em uma razão, sem que Jó tenha feito nada por merecer...pior é ele
saber quem é o culpado de todo o seu mal: Deus. Jó sabe que Ele tem o
controle sobre todas as coisas; portanto, se o mal está lhe acontecendo,
Deus está permitindo.
Deus, tu me lançaste na lama... Clamo a ti, e não me respondes;
estou de pé, mas apenas olhas para mim (Jó 30.20, 21).
Jó suplicava que Deus o ouvisse, que lhe prestasse atenção, que
desse ouvidos ao seu clamor, mas parecia que Deus estava distante,
olhando-o indiferentemente. Tento imaginar a dor de Jó pela aparente
ausência da atuação de Deus. Sentira-se como uma criança pequena, de
quem se tirara tudo e que agora estava doente, chorando, pedindo com
seus olhinhos lacrimejantes que o pai cuidasse dela, mas este se
mantém frio, olhando-a, vendo-a chorar e clamar sem lhe responder.
Sua maior dor não provinha do desprezo dos amigos e parentes,
nem de suas perdas, nem de suas feridas...mas da aparente ausência de
Deus em sua vida.
Posso imaginar pessoas de má fama rodeando Jó e jogando em sua
cara:
- Como é, Jó, você não era aquele homem riquíssimo, cheio de
filhos e de felicidade que sempre estava falando que Deus o amava, e
que das suas mãos vinham todas aquelas bênçãos? Que Deus é esse
que o atira na lama e o trata com crueldade? Jó, onde está o teu deus?
Para Jó, a regra “a pessoa ceifa aquilo que semeia” não tinha
aplicação. Jó deveria ser tratado conforme tratava os outros. Ele buscava
a Deus continuamente e amparava os necessitados, mas para ele
também não teria aplicação do Salmo 41; não na sua visão limitada e
humana dos fatos.
Deus abençoa quem ajuda o necessitado. Deus salva essas
pessoas no dia da dificuldade. O Senhor protege e guarda suas vidas.
Quando estiverem doentes, o Senhor estará ao seu lado, cuidando delas
com muito carinho (Sl 41.1, 2a, 3 BV).
Jó estava cansado de se lamentar das agonias físicas de sua
enfermidade, sem o alívio de uma palavra bondosa ou um toque de
carinho. Seus amigos continuavam sentados junto a ele, mas não
choravam com ele e nem lhe serviam de consolo.
“Quando a dor começa a perfurar nossa carne e a penetrar nosso
espírito, e depois permanece ali corroendo, a nossa mente fica como que
anuviada e o cérebro se põe a emitir pensamentos como: ‘Deus está
morto: ou não está aí, ou não se interessa por mim(59)”.
Um comentarista do livro de Jó fala de sua surpresa ao ver o seu
principal motivo de queixa:
“Eu esperava encontra-lo se queixando de sua pobre saúde e
lamentando a perda dos filhos e dos bens, mas, para minha surpresa, Jó
disse relativamente pouco a respeito dessas questões. Ao invés disso,
concentrou a atenção apenas no tema da ausência de Deus. O que mais
o machucara era a sensação de clamar desesperadamente e não
receber resposta”.
Era como se Deus tivesse cessado de agir. Jó estava no fundo de
um poço de angústia, um lugar escuro e desesperador e não conseguia
ver sequer um pequeno feixe de luz. Há momentos em que nos
tornamos “birrentos” e nos recusamos a consolar-nos. Olhando para a
nossa situação e ficamos “com dó” de nossa miserabilidade. Choramos,
oramos de joelho, de pé, deitados, mas Deus continua calado, distante.
E o silêncio de Deus nos angustia. Será que Deus mudou? Será que Ele
esqueceu de ser benigno? Será que Ele resolveu alienar-se da vida
humana? A emoção toma conta de nossos pensamentos e nos
recusamos a pensar que Deus pode ter suas razões, um plano em meio
à nossa confusão e dor, e que só Ele pode fazer com que todas as coisas
cooperem para o bem daqueles que o amam.
“É tenebroso quando nos deixamos guiar por nossas emoções; é
pavoroso e aterrorizante quando permitimos que o mundo dos sentidos,
das emoções, norteie nossa vida; quando nos deixamos dirigir pelo
sentir e existencializamos a nossa fé. É por isso que a Palavra de Deus
afirma que o justo anda por fé; e é de fé em fé e não pelo que vê nem
pelo que sente(60)”.
“Muitas vezes a fé é substituída pelo que está diante dos olhos e
pelos sentimentos. As emoções felizes e as experiências profundas que
satisfazem o coração fazem parte da vida cristã, mas isso não é tudo. Ao
longo do caminho estão as aflições, conflitos, combates e provas, e não
devem ser contados como infelicidades, mas como parte de nossa
necessária disciplina.
(59)
Além da dor.
(60)
No divã de Deus, pág. 24.
Façamos distinção entre o fato da presença de Deus e a emoção
do fato. É uma felicidade quando, embora a nossa alma se sinta solitária
e deserta, a fé pode dizer: “Eu não te vejo, eu não te sinto, mas embora
eu esteja como estou, tu estás aí. A fé está além dos sentimentos e das
emoções(61)”. O inimigo tem duas ciladas: ou nos faz desanimar, e então
perdemos a esperança, nos sentimos derrotados e que não servimos
para nada; ou então leva-nos a duvidar de Deus, quebrando assim a
única fonte de esperança e alívio, o elo da fé que nos liga ao Pai.
“Ah! se eu soubesse onde encontrar meu Deus!”
A pior de todas as perdas é perder o sorriso do meu Deus.
“Ah! se eu soubesse onde encontra-lo?”
“Distância ou fadiga não são nada, se a alma somente soubesse
para onde ir, logo percorreria a distância. Nada me desanimaria se
tivesse a esperança de, ao final, permanecer em sua presença a sentir a
delícia do seu amor(62)”.
Mas qual a razão de Deus não responder a Jó?
“O objetivo básico de Satanás era manter Jó na escuridão. Se Deus
tivesse dito uma inspirativa palavra de estímulo, ‘Faça isso por mim, Jó,
como um Cavaleiro da Fé, como um mártir’, então Jó teria tido uma
nobre razão para sofrer e o teria feito alegremente. Mas Satanás havia
questionado se a fidelidade de Jó poderia sobreviver sem uma ajuda ou
explicação exterior. No momento em que Deus aceitou as condições, a
neblina invadiu a vida de Jó.
O tipo de fé que Deus valoriza parece se desenvolver melhor
quando todas as coisas ficam confusas, quando Deus permanece calado,
quando a neblina invade(63)”.
Jó possuía um tipo de fé muito especial: a fé que se mantém a
qualquer preço. Não era uma fé ingênua. Esta talvez não se mantivesse
quando sua oração não fosse respondida, quando o assunto não fosse
resolvido. Não era um fé infantil, mas madura. Muitas vezes nossa fé é
calada no Salmo 23: O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Mas a
verdadeira fé é aquela que pode se abrir também para o Salmo 22: Deus
meu, Deus meu, porque me desamparaste? Durante a nossa vida
podemos experimentar estes dois tipos de fé: “Podemos experimentar
períodos de intimidade incomun, quando cada oração é respondida de
uma maneira óbvia e Deus parece íntimo e cuidadoso. E também
podemos experimentar “períodos de neblina”, quando Deus permanece
calado, quando nada funciona de acordo com o convencionado e todas
as promessas da Bíblia parecem ostensivamente falsas. A fidelidade
significa aprender a crer que, fora do perímetro de névoa cinzenta, Deus
ainda reina e não nos abandonou, não importam as aparências(64)”.

(61)
Mananciais do Deserto.
(62)
Oração Eficaz.
(63)
Decepcionado com Deus, pág. 203.
(64)
Decepcionado com Deus, pág. 205.
A maior prova que Jó passou não foi a perda de tudo e de todos.
Foi a ausência do sorriso de Deus.
Há uma mensagem do livro Mananciais do Deserto que consola
meu coração e renova minhas forças e confiança no Senhor. Conta a
bonita história de uma senhora crente que teve um sonho a respeito de
três pessoas que oravam:
“Enquanto estavam de joelhos, o mestre chegou-se a elas.
Ao aproximar-se da primeira, inclinou-se e, sorrindo com amor,
falou-lhe com voz suave.
Deixando-a, dirigiu-se à segunda, mas só pôs a mão sobre a sua
cabeça curvada e deu-lhe um olhar de aprovação.
Pela terceira, ele passou quase abruptamente, sem se deter para
uma palavra ou um olhar. A mulher, em seu sonho, pensou consigo:
Quanto ele deve amar a primeira; à segunda ele deu sua aprovação,
mas nenhuma das demonstrações de amor que deu à primeira; a
terceira deve tê-lo entristecido muito, pois não lhe deu nenhuma palavra
e nem sequer um olhar. O que será que ela fez e por que ele fez tanta
diferença entre elas? Enquanto procurava interpretar a atitude de seu
Senhor, ele mesmo aproximou-se dela no sonho e disse: ‘Ó mulher, quão
erradamente me interpretaste. A primeira mulher de joelhos precisa de
toda a minha ternura e cuidado para conserva-la em meu caminho.
Precisa sentir o meu amor, meu cuidado e auxílio a cada momento do
dia. Sem isso iria falhar e cairia. A segunda já tem uma fé mais forte e
um amor mais profundo e posso esperar dela que confie em mim sejam
quais forem as circunstâncias e o que quer que os outros façam.
A terceira, que eu parecia nem notar e quase negligenciar, tem fé
e amor da mais alta qualidade, e eu a estou treinando, através de
processos energéticos e drásticos, para o mais alto e santo serviço.
Ela me conhece tão de perto e confia em mim tão inteiramente,
que não depende de palavras, olhares ou qualquer demonstração
sensível de minha aprovação. Não desmaia nem desanima diante de
nenhuma circunstância que eu a faça atravessar; ela confia em mim,
mesmo quando o sentimento, a razão e os mais fortes instintos do
coração natural se rebelariam – porque sabe que estou operando nela
para a eternidade, e que o que eu faço, conquanto não o saiba explicar
agora, compreendê-lo-á depois.
Eu me calo em meu amor porque amo além do poder de expressão
das palavras e do poder do entendimento do coração humano, e
também por causa de vós, para que possais aprender a me amar e
confiar em mim correspondendo espontaneamente ao meu amor e com
o amor dado pelo Espírito, sem o estímulo de nenhuma coisa exterior
para faze-lo brotar’.
Ele fará maravilhas, se aprendermos o mistério do seu silêncio, e
se o louvarmos por todas as vezes em que ele retira as suas dádivas a
fim de que conheçamos melhor o doador e o amemos mais(65)”.
(65)
Mananciais do Deserto, pág. 45 e 46.
6 - A Cura de Deus
Porque ele faz a ferida e ele mesmo a ata; ele fere e as suas mãos
curam. (Jó 5.18).
Jó estava cansado de sofrer, de se defender, de discutir e
principalmente de clamar a Deus e não obter resposta.
Desgastado física, mental e psicologicamente, e até mesmo
confuso espiritualmente, recusava-se a seguir o conselho de seus
pretensos consoladores, para arrepender-se, admitir seu pecado a fim de
ser perdoado e restabelecido por Deus. Mas faze-lo equivaleria a admitir
que seu sofrimento era um castigo pelo pecado. E Jó era inocente.
Os “consoladores” julgavam Jó a partir da teoria tradicional do
bem e do mal, da retribuição de Deus conforme os atos humanos.
Eles algemaram Deus, limitaram-no numa moldura teológica
própria, humana. Desenvolveram as seguintes teses:
1. O homem reto recebe como prêmio de Deus a prosperidade.
2. O sofrimento é o castigo que Deus dá ao homem pelo pecado.
Retratam a Deus como um ser inflexível, de métodos rígidos.
Adoravam a Deus com uma deformidade espiritual: o seu lado de justiça
era muito mais longo do que o da bondade e misericórdia. Um juiz
cósmico, à caça de erros nos homens. Eles falaram sobre Deus sem
conhece-lo. Defenderam a justiça de Deus, mas com argumentos
superficiais; Jó com razão defende sua própria integridade, mas
contando com a justiça de Deus.
“A história de várias religiões revela uma firme tendência entre os
seres humanos: pôr limites à divindade. Se Deus não é feito à imagem
do homem, pelo menos tentam limitar sua liberdade. Deus deve agir de
acordo com a definição estabelecida por eles. Os conceitos humanos de
justiça e amor se tornam o esquema, gaiola ou jaula da divindade. Isso é
verdade em relação aos que professam fidelidade ao Deus da Bíblia.
O Senhor ultrapassa os limites que a “justiça” impõe à sua relação
de aliança com Israel”.
Mas Jó estava cheio de perguntas... e exigia respostas.
Jó estava colocando Deus no banco dos réus. Quando as pessoas
experimentam a dor, irrompem em perguntas, as mesmíssimas
perguntas que atormentaram Jó. Por que comigo? O que está
acontecendo? Deus se importa? Existe um Deus?
“Jó pôs Deus no banco dos réus, acusando-o de atos injustos
contra um homem inocente. Irado, satírico, traído, Jó vagueia o mais
próximo possível da blasfêmia. Ele expressa as nossas mais profundas
queixas contra Deus. Deus não está sendo julgado neste livro. É Jó que
está em julgamento. O tema do livro não é o sofrimento: onde Deus está
na hora da dor? O tema é a fé: onde Jó está na hora da dor? Como ele
está reagindo?(66)”.
(66)
Decepcionado com Deus, pág. 163.
Deus não faz tanta questão de ser analisado. Ele deseja,
principalmente, ser amado.
Mas Jó só quer saber de explicações. Eliú, o outro consolador que
se calara até aquele momento por ser o mais jovem, à espera de que os
mais velhos oferecessem a Jó as respostas ao seu questionamento,
começa a falar. O nome de Eliú significa: “Ele é eu Deus”. Apesar de sua
arrogância e de ter repetido muitas das falas de seus amigos, ele
prepara Jó para ouvir a palavra do Senhor. Sustentou a soberania de
Deus, demonstrando que Deus aflige os homens com os mais santos
propósitos: submissão e confiança no Senhor.

QUANDO DEUS APARECE

Jó estava dolorido por saudade do sorriso de Deus. Pelo vazio que


lhe causava sua ausência.
Outro dia, estava conversando com meu amigo Branco sobre este
texto, e ele me emocionou com suas palavras. É impressionante como
Deus nos usa para conduzir as pessoas as pessoas até Ele, e como estas
vêem em nós reflexos de Sua Pessoa.
Houve um tempo em que eu me cansei de suas lamentações, de
sua auto- piedade. Ele só repetia a mesma história: relembrava o dia em
que levou o tiro, julgava as pessoas que estavam cuidando dele,
reclamava de suas dores e da desgraça que o atingia e brigava com
Deus. Ouvi-o muitas vezes, mas fiquei cansada, enjoada. Não tinha mais
prazer em estar ao seu lado e sentia que minha presença ali só o
ajudava a reclamar mais e mais. Não queria ouvir, eu já me cansara de
escutar, por isso resolvi sair de sua vida por algum tempo. Continuei a
morar na mesma casa, a dois quarteirões de distância, mas afastei-me.
E ele descreve seus sentimentos em relação a este tempo:
“No tempo em que você ficou longe – morava tão perto, mas
estava tão distante, não falava comigo, não me dava atenção – eu sofri
muito. Senti sua falta. Fiquei muito só, muito triste. Mas reconheço que
foi muito bom. Parei, pensei, reavaliei, percebi meu erro e mudei. Não
entendia o por quê de sua frieza e tinha muitas perguntas a lhe fazer.
Queria explicações. Então um dia, você voltou. Você não falou nada, não
explicou nada. Só deu um sorriso e voltou. Naquele dia eu poderia
morrer – e feliz! Porque você tinha voltado a olhar para mim”.
Às vezes você pensa que uma pessoa é sua. Que não tem vontade
própria e que você nunca poderá perde-la. Quando ela se afasta, mostra
que é gente, que não lhe pertence, aí, então, você passa a lhe dar valor,
ao que você tinha e perdeu.
Pensamos que Deus é nosso, e que é obrigação dele ficar conosco.
Mas Ele não é nosso, e sim nós somos dEle. Ele é livre para agir como
quer.
Quando Deus apareceu a Jó, suas perguntas lhe morreram na
garganta. Nada era tão importante quanto a presença do Senhor, sua
atenção e seu sorriso.
Depois disto, o Senhor, do meio de um redemoinho, respondeu a
Jó: ‘Quem é você para negar a sabedoria dos meus planos com a sua
completa ignorância?’ (Jó 38.2).
“Quando Deus aparece, cessam todas as nossas argumentações.
Jó esqueceu-se de seu sofrimento, parou de raspar a crosta purulenta de
seu corpo, largou seus cacos, parou de atirar perguntas a Deus,
acusações aos seus consoladores. Esqueceu as cinzas, o esterco, o lixo,
os leprosos, os cães...Ficou ciente apenas de uma realidade: Deus
estava ali(67)”.
Pela primeira vez na vida esse homem bom, justo, inculpável, reto,
esse santo homem que morava em Uz viu para si mesmo como Deus
via.
E Deus começa a falar. Ele não demonstra piedade e não explica
nada. Não responde diretamente às perguntas de Jó, nem dá atenção ás
suas queixas.
Responde-lhe com um bombardeio de perguntas, que colocam o
homem em seu devido lugar – e Deus no lugar de Deus.
E quando Deus fala e questiona a Jó, suas acusações caem por
terra. Deus menciona “de raspão” os fenômenos – o sistema solar,
constelações, tempestades, animais selvagens – e questiona Jó. O único
erro de Jó formara-se durante sua enfermidade: ele se julgara
suficientemente grande para exigir de Deus respostas, para julga-lo. Jó
quisera tratar a Deus como homem. Mas é Deus quem o chama: “Jó,
venha para cá, seja homem! Responda-me! Vamos ver se você pode me
ensinar! Cresça e apareça! Se você não consegue compreender o mundo
visível onde você vive, como tem a ousadia de esperar compreender um
mundo espiritual que nem pode ver?”.
Jó sabia que não podia responder às perguntas de Deus. Só Deus
sabia as respostas, porque criara todas as coisas. Mas ele questionou Jó
para lhe mostrar que era apenas um homem, e que Aquele que lhe
falava era o Deus verdadeiro.
E Jó reconheceu sua pequenez:
Sou indigno, que te responderia eu? Ponho a mão na minha boca
(40.4).
Mas Deus não pára aí. Ele se põe a fazer perguntas de cunho
moral a Jó, perguntas que exigem um nível de discernimento profundo,
que só Deus possui. O que ele queria dizer era: “Como ousa me pedir
explicações, Jó, se você não é capaz de dominar um hipopótamo, se não
consegue domar um crocodilo, se não pode resolver os problemas
morais da humanidade, se não sabe responder às perguntas mais
fundamentais sobre a criação e sobre a vida?

(67)
Além da dor.
Como é que você ousa me pedir satisfação? Como me atreve a me
desafiar?
E Jó fica arrasado; envergonhado. E finalmente dispõe-se a
reconhecer que não pode lutar contra Deus, e que o mesmo que ele
respondesse às suas perguntas, provavelmente ele não entenderia.
Tentar explicar o tipo de coisas que Jó quer saber, seria como tentar
explicar Eistein a um insignificante marisco... Deus não revela seu
magnífico projeto. Ele revel a si próprio.
Então respondeu Jó ao Senhor: “Agora eu compreendo que o
Senhor pode fazer tudo o que quiser e que ninguém pode impedir o
Senhor de realizar seus planos. O Senhor perguntou quem foi o
ignorante que tentou negar a sua sabedoria e justiça; fui eu, Senhor.
Falei de coisas que não entendia, coisas que eu não conhecia pois eram
maravilhosas demais para mim. O Senhor me disse: “Escute-me e eu lhe
farei algumas perguntas que você deve responder”.
Agora eu respondo: “Somente agora eu conheço o Senhor de
verdade! Antes eu só o conhecia de ouvir falar. Por isso eu me
arrependo de meu orgulho e me cubro de terra e de cinza para mostrar
minha tristeza” (Jo 42.1-5).
Jó agora via a Deus. Os amigos de Jó pretendiam ser porta-vozes
de Deus e queriam a todo preço obrigar Jó a confessar pecados que
estariam causando aquelas desgraças em sua vida. Jó se revolta contra
essa suspeita e acusação, e no ardor de sua defesa fica cada vez mais
endurecido, reivindicando contra Deus e se tornando surdo à sua
resposta. Foi necessário que seus amigos se calassem para que Jó
escutasse a voz de Deus e se reconciliasse com Ele. Da mesma forma, é
necessário que a nossa voz se cale, que desistamos de nossos
julgamentos sobre alguém, para que este possa escutar a voz de Deus,
cujo julgamento é totalmente diferente do nosso.
Jó viu a Deus realmente pela primeira vez na vida. O conhecimento
que até então tinha dele era de “ouvir falar”, de segunda mão, era
informação dada por alguém ou revelação recebida por outro, não por
ele mesmo.
Como conhecemos a Deus? Só de ouvir sermões de igreja, de ouvir
falar sobre Ele? Só de ler a Bíblia e procurar andar com retidão para
agrada-lo?
Deus quer ser nosso amigo íntimo, quer participar de detalhes da
nossa vida. Quer andar conosco. Sorrir conosco. Sentar nas cinzas
conosco.
Agora Jó possuía um conhecimento pessoal de Deus, e sua visão
da pessoa divina também se transformou. Já não era mais embaçada,
distorcida; agora ele podia vê-lo nítida e claramente, mesmo sem ter
capacidade de entender todos os seus atos. Mas Jó não estava mais à
busca de explicações; só o que ele desejava era um relacionamento com
Ele, e agora o possuía. Sua perspectiva era maior. Jó ainda estava
doente, sentado nas cinzas, em dores, mas agora louvava a Deus. Tudo
o que Deus lhe disse não chegou a ser tão importante quanto o simples
fato de que ele apareceu.
Maria José, aquela paciente da qual já falamos algumas páginas
atrás, provou esse fato.
Quando foi levada para o centro cirúrgico, para que seus pés
fossem amputados, orou muito pedido a Jesus para que estivesse com
ela e lhe desse paz, aliviando a dor e tirando o seu medo. Mesmo
acordada, assistindo à cirurgia, vendo e ouvindo o ruído da serra
cortando seus pés, não teve medo. Diante do espanto dos médicos,
pôde confessar: “eu estou um pouco triste, não sei explicar porque Deus
está permitindo todo este sofrimento, mas sei que Ele está aqui comigo.
Posso sentir a sua presença, confio nele, e isso me basta”.
A verdadeira batalha terminou quando Jó se recusou a largar Deus,
fazendo assim com que Satanás perdesse a aposta.
“Os amigos de Jó pensavam que ele estava morrendo. Mas ele não
estava morrendo. Estava nascendo ali um novo homem” (Branco).
Deus atuou num homem bom, digno dos maiores elogios,
tornando-o ainda melhor. Aprimorando-o. Purificando-o. Santificando-o.
Com amor e por amor ele passou pelo fogo, queimou suas impurezas,
aperfeiçoando-o através do sofrimento.
“Que possível explicação poderia consolar Jó?
O conhecimento é passivo, intelectual; o sofrimento é ativo,
pessoal. Nenhuma resposta intelectual solucionará o sofrimento. Talvez
seja por isso que Deus enviou seu próprio Filho como uma das respostas
à dor humana, para experimenta-lo e absorve-la dentro de si. A
encarnação não “solucionou” o sofrimento humano, mas trouxe uma
resposta ativa e pessoal.
Se você olhar para o livro de Jó em busca de resposta para os “por
quês”, ficará frustrado. Deus recusou-se a responder, Jó retirou as
perguntas e os três amigos se arrependeram de todas as suas
pressuposições errôneas.
A fé exige que nós confiemos em Deus quando não há qualquer
prova visível dele – tal qual Jó o fez!(68)”.

(68)
Decepcionado com Deus, págs. 191 e 199.
7 - Perdão
Mudou o Senhor a sorte de Jó, quando este orava pelos seus
amigos; e deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra. (Jó 42,10).
Para mim, em todo o livro de Jó não há parte mais linda que esta.
Digo isso porque através deste texto Deus falou ao meu coração e me
ensinou a perdoar como Jó foi capaz de faze-lo. Eu já estudei muito
sobre o perdão. Já li vários livros, assisti muitas palestras, fiz alguns
trabalhos e até preguei muitas vezes sobre este tema, sempre
baseando-me em Jesus. Ma foi interessante descobrir que o entrave que
havia em minha vida e que eu ainda não conseguiria descobrir qual era,
encontrei justamente como falta de perdão. Constantemente ficava
amargurada, e deixava voltar à minha mente lembranças de cenas da
minha vida onde fui rejeitada, judiada, abandonada, tratada mais como
animal do que como gente. Sentia-me no direito de guardar comigo este
fatos, mastiga-los, sentir sua dor e condoer-me. Talvez o exemplo de
Jesus, o Deus-homem, estivesse muito distante, fosse divino “demais”
para identificar-se comigo. Precisei aprender com Jó para chegar a
entender melhor o perdão que Jesus ofereceu na cruz.
Jó sofreu injustamente do ponto de vista humano. Ele não tinha
nada a pagar, andava em comunhão com Deus, dirigia sua família como
um sacerdote no lar, tratava seus empregados com dignidade, fazia o
bem a todos os que necessitavam, sem interesse, com amor autêntico.
No entanto, quando perdeu tudo, e adoeceu, foi abandonado, rejeitado,
cuspido por muitos a quem ajudara, todos os amigos traíram sua
confiança e o deixaram. Seus parentes sumiram. A comunidade onde
era tão estimado e respeitado virou-lhe as costas, alimentando em seu
coração acusações contra sua pessoa.
Os únicos que ficaram foram quatro amigos: Elifaz, Bildade, Zofaz
e Eliú que, de consoladores, se transformaram em torturadores. Suas
exortações eram inaplicáveis, sem cuidado, rudes, agressivas,
insensíveis. Vinagre em lugar de azeite nas feridas de Jó. Encarnaram a
falsa religião e mostraram como ela pode gerar dureza e crueldade.
Deus apareceu para restaurar Jó. Mas ele não queria fazer uma
restauração parcial. A primeira coisa que Jó recebeu no seu
aparecimento, foi uma nova visão de Deus. Um Deus que não está
limitado pela visão do homem, que não pode ser contido dentro de uma
caixinha e julgado. A segunda coisa, é que Jó recebeu uma visão de si
mesmo... e sentou nas cinzas. Antes, um lugar de fuga, de amargura.
agora, o único lugar onde ele reconhecia que deveria estar diante de
Deus. Com o coração cheio de alegria, transbordando de prazer pelo
reencontro, louva ao Senhor ali mesmo onde estava até então
questionando e reclamando. Agora seu amor é maior, sua visão
diferente. E Deus queria restaurar Jó. Mas de nada adiantaria dar-lhe em
dobro tudo o que perdera, outros dez filhos, se em seu coração ainda
houvesse rancor e amargura. Ter tudo, mas alimentar a raiz da
amargura deixaria Jó tão pobre por dentro quanto agora estava por fora.
Tudo poderia estar colorido, feliz, mas ele só veria uma cor: cinza. A
amargura poderia vê-lo viver só, trancado dentro de si mesmo. Tendo
tudo, mas não tendo nada. Morto em vida. Sentado num trono, mas com
o coração no monturo.
Será que um homem pode perdoar um Deus a quem serve e ama,
em quem deposita toda a sua confiança, de quem fala continuamente
exaltando seu amor e soberania, mas que lhe permite perder tudo o que
mais ama e joga-o sobre o lixo, para ser cuspido pelos homens?
Será que um homem pode perdoar os parentes que se afastam e
deixam que a tragédia tenha curso total na vida dele?
Será que ele pode perdoar pretensos conselheiros, que em seu
sofrimento só lhe dirigem palavras de crítica, sem nenhuma compaixão,
aumentando a sua dor?
Jó estava diante destas opções: perdoar e ficar livre ou deixar que
as raízes da amargura penetrassem em sua vida.
Ele poderia ter aproveitado o momento, quando o Senhor chamou
a atenção de Elifaz e seus amigos, e pedir para eles um castigo ainda
maior. E quando Deus o orientou no sentido de ajudar os outros a
oferecerem sacrifícios pelos seus pecados, ele poderia ter-se recusado.
Sua alma estava ferida.
"Nada é mais sujeito a receber e reter impressões que a alma. Ela
é parte inerente à sensibilidade divina - esse nervo existencial de Deus,
que Ele próprio compartilhou conosco. Pela alma fluem as sensações e
nela ficam abrigadas as impressões, das mais violentas às mais leves e
sutis. ela registra tudo, desde os mais duros discursos até os mais
simples e ingênuos diálogos. Esses registros se imprimem não só na
forma de lembranças, mas também de impressões profundas que
atingem as nossas emoções. suas marcas são removíveis, nem com
calmantes, sequer com cirurgia. Mesmo o tempo - o chamado "grande
médico" - é incapaz de apagá-las, pelo menos completamente.
Tenho observado que o contato profundo com a alma humana,
quando realizado a partir da técnica, resulta quase invariavelmente na
simples descoberta das feridas. A alma é vasculhada, mas suas
machucaduras não são cauterizadas. Descobre-se a lesão, mas não se
providencia o remédio. o fato é que a técnica dispõe de instrumentos
muito bons, mas não possui o bálsamo que alivia e faz esquecer a
dor(69)".
"A insofismável verdade é que somente o Senhor Jesus tem meios
de oferecer o tratamento para os nossos achaques, conflitos, dores e
perturbações íntimas(70). Depois de conhecidas as mais fortes razões
para as feridas de diferentes origens que se alojam em nossa alma, será
através da Palavra de Deus - que é viva e permanente - que
encontraremos a cura(71)".
Jó não se vingou. Ele decidiu em seu coração perdoar seus amigos,
e Deus o encheu com o perdão, com o seu amor.
A única oração que posso imaginar que Jó tenha feito por seus
falsos amigos é a mesma que Jesus fez na cruz: Pai, perdoa-lhes, porque
ele não sabem o que fazem. Depois de ser rejeitado pelo seu próprio
povo, humilhado, açoitado, cuspido, coroado com espinhos, abandonado
e traído, Jesus pôde perdoa-los e ainda morrer por eles e por nós, ainda
antes que nos arrependêssemos e tentássemos merecer seu perdão. Jó
prefigurou o que Jesus faria pelo mundo todo. E Jó não poderia ter orado
pedindo que Deus os perdoasse, não poderia ter oferecido sacrifício por
eles, se ele mesmo não os tivesse perdoado. Mas Jó os perdoou e
consolou seus corações até então sensíveis. Acredito que dali para
frente eles aprenderam o que é consolar, porque eles se sentiram
podres, pequenos, tiveram de se humilhar diante de Deus e daquele a
quem julgaram tão violentamente - e Deus jogou sobre eles mesmos
(principalmente sobre Elifaz), todo aquele julgamento que haviam dado
a Jó:
Estou muito zangado com você e seus dois amigos, Bildade e
Zofar. O que vocês disseram a meu respeito não estava certo; Jó estava
com a razão; vocês, não! Por isso, levem sete touros e sete carneiros ao
meu servo Jó e peçam a ele para sacrificar ofertas queimadas em favor
de vocês três. Depois Jó fará oração por vocês e só assim não lhes darei
o castigo que seu pecado merece, pois vocês não me apresentaram a Jó
tal como eu sou (Jó 42.7 e8).
E Jó perdoou e ficou livre. Livre da amargura, da autocomiseração,
livre de si mesmo. Somente o perdão traz toda esta libertação, a alma
limpa e dolorida, o coração leve e em paz.
(69)
A cura das feridas interiores, págs. 11 e 12.
(70)
A cura das feridas interiores pág. 7.
(71)
A cura das feridas interiores pág. 42.
Somente quando Jó perdoou é que ele foi restaurado. Deus havia
curado uma ferida mais perigosa e profunda que a exterior: a da alma.
Agora Deus poderia lhe dar tudo e em dobro; reconstruir sua felicidade,
sua vida, porque Jó estava livre, maduro, feliz na alma. Aprendamos com
Jó o que é perdoar. Muitas vezes nós pensamos que estamos perdoando.
Mas sentimos nosso coração truncado por alguma coisa que não
sabemos o que é, e que nos impede de amar mais intensamente. Falta o
perdão autêntico.
Perdoar não é:
1. "Fingir não se importar" com a ofensa.
2. Dizer que as ofensas não o atingiram, porque você é muito
superior a esses ataques.
3. "Fazer de conta" e passar por cima das coisas que o magoam.
4. Mera polidez, tanto ou diplomacia,
5. "Esquecer". Impossível esquecer primeiro e depois perdoar.
O perdão nunca olha o pecado só por cima ou por alto. Ele não
torna o mal sem importância.
Esquecer é resultado de perdão completo, nunca o meio de
alcançá-lo. É o último degrau, não o primeiro. "Quando somos atingidos
pela traição de uma confiança ou pela quebra de uma amizade,
queremos ater-nos ao ressentimento, ir no encalço de nossa própria
libertação, defendermo-nos até a última palavra e colocar a culpa no
devido lugar!
"Mas o perdão rejeita o ego que exige 'seus direitos'. Repudia a
vingança aberta".
"Perdoar custa caro. Se quebro um objeto de grande valor que
você guardava com muito carinho e você me perdoa, você sofre a perda
e eu fico livre".
"Perdoar custa caro. Perdoar... é levar sobre si a culpa do pecado
do outro; o criminoso é solto, o ofendido liberta-o, suportando na sua
própria repulsa e transmutando-a em amor. Deus nos perdoa carregando
sobre si a culpa do pecado que cometemos contra ele... ele absolve
nossa culpa e nos torna livres. O perdão passa através do pecado para a
libertação" (Myron Augsburger).
Jó ficou com a dor causada pelos conselhos de seus amigos e
deixou-os sair livres. Pagou muito caro, mas ficou livre. Podia caminhar
tranqüilamente pelas ruas, de cabeça erguida. Não tinha raiva de
ninguém, não precisava fugir de encontros com ninguém. Ele os
perdoara. Libertara. Crescera, e eles cresceram também.
Perdão é substituição, e teve sua expressão perfeita em Jesus. Ele
tomou o nosso lugar, suportando a própria indignação, sua repulsa pelo
nosso pecado. Ele não ignorou nosso pecado. Tomou tão a sério o insulto
total de nosso pecado que percorreu todo o caminho do Calvário para
morrer.
A cruz mostra quão duro foi para Deus perdoar. Ali Deus pagou em
si mesmo a nossa dívida. A dívida que Ele não devia.
Deus estava em Cristo, pessoalmente, reconciliando consigo o
mundo (2 Co 5.19).
...como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós (Cl
3.15).

Como posso aprender a perdoar?

Perdoar quando o custo é exorbitante, a dor insuportável e sua ira


ainda arde?
Você não pode. Sozinho, não. É muito, muito difícil. Você necessita
de toda a força que possa absorver de Deus para amar e perdoar.
O segredo está em admitirmos para Deus que não temos forças
para fazê-lo. Mas dizer-lhe também que nos decidimos a fazê-lo. Então,
deixá-lo agir dentro do nosso coração para nos capacitar. O segredo está
em Deus trabalhar dentro de você e você fora, na vida. Ele trabalha
dentro de você, você desenvolve isso no coração e na mente.

Perdoar é:

1.Compreender o outro - Há sempre um motivo oculto atrás de


cada ato. Precisamos ver a diferença entre o que ele fez o que ele é.
Deus nos ama, mesmo odiando o nosso pecado. Por amor a nós, Ele
perdoa nossos atos, quando nos arrependemos.
Jó sabia que seus consoladores eram pessoas rigidamente
religiosas, cumpridoras da lei, mas que não tinham intimidade e
conhecimento do Senhor, portanto eram limitados, julgavam conforme
suas próprias leis.
2.Valorizar o outro - Não importa quão grande seja a ofensa que
nos fez, ele é homem. Um homem pelo qual Cristo morreu.
"Nenhum homem é tão vil que não seja objeto do amor de Deus.
Nenhum homem (por mau que seja) está excluído do perdão de
Deus a menos que se exclua pela sua própria falta de arrependimento.
Nenhum homem pode ser considerado sem valor, já que Cristo o
próprio Deus morreu por ele.
Nenhum homem é indigno de amor. Se Deus o ama, então pode
fazê-lo através de mim!(72)".
Mas Jó só pôde perdoar depois de ter-se encontrado com o Senhor,
sentindo seu amor, visto a si mesmo como pecador, recebido o perdão
do Senhor. Aí, então, ele estava pronto para aprender a perdoar. Perdão
oferecido livremente, como Deus lhe oferecera.
"Amar o inimigo não significa amar o lodaçal em que a pérola jas,
mas amar a pérola que jaz no lodo" (Rolf Luther).

(72)
Livre para perdoar, pág. 38.
O segredo do perdão é o amor. Amar a Deus sobre todas as coisas,
aceitar o amor e perdão dele em Jesus e deixá-lo encher seu coração
com seu amor divino. Transbordar atingindo a outros. Ser "uma fonte a
jorrar para a vida eterna".
Aquele que beber da fonte que eu lhe der..." (Jo 4.14).
Conclusão
Como toda boa história, tudo começou com: "era uma vez um
homem bom, rico, feliz e profundamente temente a Deus". Todos
esperavam que pequenos incidentes acontecessem no desenrolar da
história do nosso herói, mas as coisas não foram assim tão simples.
A história desse homem, Jó, esmagado pela perda dos filhos,
doente, abandonado pelos familiares e pelos amigos tem como
agravante alguns amigos que colocam "vinagre em suas feridas" através
de seu julgamento desumano e insensível.
Sofrendo com a permissão de Deus, mas também com seu
amparo, descobre no sofrimento uma riqueza enorme. Vê-se pequeno e
indigno diante de Deus que, em sua grandeza, não lhe dá explicações de
seus atos, mas que mesmo em sua aparente distância, dá-lhe a certeza
de seu amor.
Somente aquele que foi ferido, que passou por grandes
sofrimentos à semelhança de Jó, quando o coração clamou aflito durante
dias causticantes e noites insones, sabe a necessidade de consolo do
Senhor, vindo através de longas conversas com o Pai e de pessoas que
se identificam com a nossa dor, ajudando-nos a suportá-la. Pessoas
disponíveis e sensíveis, que buscam no Senhor a sabedoria e a
prudência, instrumentos seus para o consolo.
O autor de Provérbios nos diz que palavras agradáveis são como
favos de mel, doces para a alma e medicina para o corpo (Pv 16.24).
Palavras sábias e misericordiosas, movidas por profunda empatia e
compaixão consolam o coração aflito, dando-lhe ânimo, ajudando-o a
abrir os olhos e ver novamente as cores da vida.
O livro de Jó termina como as histórias: Depois de seu sofrimento e
vitória, Jó ainda viveu 140 anos. Ele ainda chegou a conhecer seus netos
e bisnetos e morreu, velho e feliz, depois de uma vida longa e
abençoada (Jó 42.16, 17 BV).
Consolar é ministério. Este mundo aflito e agonizante necessita de
pessoas que, mesmo fracas e sofrendo, já provaram na intimidade o
consolo do Senhor e agora se põem em suas mãos para serem enviadas
a consolar.
Que Deus maravilhoso nós temos - Ele é o Pai de nosso Senhor
Jesus Cristo, a fonte de toda a misericórdia, e aquele que tão
maravilhosamente nos conforta e fortalece nas dificuldade e provações!
E por que Ele faz isso? Para que, quando os outros estiverem aflitos,
necessitados da nossa compaixão e do nosso estímulo, possamos
transmitir-lhes essa mesma ajuda e esse mesmo consolo que Deus nos
deu. (2 Co 1.3,4).
Bibliografia
 A arte de relacionar-se com as pessoas, Osborne, Cecil. Juerp, 1987.

 Aconselhamento cristão, Collins, Gary R. Ed. Vida Nova, 1984.

 A Cura das feridas interiores, D'Araújo F., Cáio Fábio. Ed. Vinde, 1986.

 Além da dor, Baker, Don. Ed. Betânia, 1987.

 Amor ilimitado, Kinvengere, Festo. Ed. Betânia 1979.

 A psiquiatria de Deus, Allen, Charles L. Ed. Betânia, 1981.

 Bíblia Vida Nova, Edições Vida Nova, 1990.

 Bíblia Viva, Editora Mundo Cristão, 1989/1990.

 Canta, mesmo quando, Mathias, Myrtes. Ed. Redijo, 1981.

 Comunique com amor, Hendricks, Howard G. Ed. Livros Colab, 1983.

 Conforto em tempos de enfermidade, Power, P.B. Ed. Fiel, 1985.

 Consolación y Vida, Inhauser, Marcos R. e Maldonado, Jorge E. CLAI,


1988.

 Cuidados pastorais em hora de crise, Young, Jack. Juerp, 1988.

 Culpa e Graça, Tournier, Paul. ed. ABU, 1985.

 Curar também é tarefa da igreja, Zandrino, Ricardo. Ed. CPPC, 1986.

 Decepcionado com Deus, Yancey, Philip. Ed. Mundo Cristão, 1980.

 Deus fala na sombra, Mathias Myrtes. Juerp, 1985.

 Deus sabe que sofremos, Yancey, Philip. Ed. Vida I, 1985.

 Doença, Ryle, J.C. Ed. PES.


 Entre o consolo e as lágrimas, Braun, Joachin. Ed. Sinodal, 1986.

 Eu, um servo?, Swindoll, Charles. Ed. Betânia, 1983.

 Ganhando através da perda, Christenson, Evelyn. Ed. Mundo Cristão,


1986.

 Jó e Salmos, Murphy, R.e. Ed. Paulinas, 1985.

 Jó - Introdução e comentário, Anderson, Francis I, Ed. Mundo Cristão,


Série Cultura bíblica, 1984.

 Livre para perdoar, Augsburger, Davi. Ed. Vida. 1989.

 Mananciais no deserto, Cowan, Letttie. Ed. Betânia, 1980.

 Mesmo na tempestade, Vassão, Amantino Adorno. Ed. Betânia, 1984.

 No Divã de Deus, D'Araújo F., Caio Fábio. Ed. Vinde, 1988.

 O Caminho, Imprensa Metodista, Jones, Stanley E. 1973.

 OId Testament Scripture Characters, Primitive Era, Job.

 O novo comentário da Bíblia, Edições Vida Nova, 1969.

 O problema do sofrimento, Lewis, C.S. Ed. Mundo Cristão, 1983.

 Oração Eficaz, Spurgeon, C. H. Ed. PES.

 O Senhor do impossível, Olgivie, John Lloyd. Ed. Vida, 1988.

 Os que partem, D'Assumpção, Evaldo Alves, os que ficam. Ed. O


Lutador, 1987.

 Pregando sobre os problemas da vida, Perry, Lloyd M. Sell, Charles.


Juerp, 1989.

 Psicologia pastoral para todos los Cristianos, León, Jorge A. Ed.


Caribe, 1981.

 Quando alguém que você ama está morrendo, Kopp. Dr. Ruth. Ed.
Juerp, 1989.
 Quando seu amigo está morrendo, Burnham, Betsy. Ed. Mundo
Cristão, 1985.

 Rosas em dezembro, Heavlin, Marilyn Willett. Ed. e Distr. Candeia,


1989.

 Um passo mais. Eareckson, Joni e Estes, Steve. Ed. Vida, 1980.

 Um recado para ganhadoras de almas, Bonar, Horatius A Ed. Vida


Nova, 1989.