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Seminário

de Leitura
2018

L’être - Consultório de Psicanálise


Apresentação
Virgínia Kathia Gubert Verch


A formação em Psicanálise é uma experiência de cada um, necessariamente
compartilhada. Caminhada sozinha, mas não solitária. Percurso no um a um, como se faz numa
análise, no necessário caminho entre a demanda de saber e a própria questão.
Formação que visa garantir a abertura ao inconsciente. Para isto existe a psicanálise, para
fazer falar o inconsciente, para fazer falar, se por vivo, interrogar. O saber que está em jogo é
o saber interrogar e interrogar-se, não visando o saber textual, mas sem abrir mão do rigor
conceitual. A psicanálise propõe compartilhar sua experiência e não se mortificar no ideal da
busca de saberes.
É com este propósito que nos reunimos neste seminário, e interrogações não faltaram...
Estudar psicanálise.... Se formar analista... Inconsciente... Crianças... Autismo...
Diagnósticos.... Quantas questões nos permearam, angustias inevitáveis da clínica.
No meio de tantas interrogações, uma se sobrepôs: a criança, um sujeito. Como se forma
um sujeito?
Nos debruçamos sobre alguns textos na busca de um farol no meio de um vasto oceano.
Encontramos a palavra que se traduziu em linguagem num “palavrear” precioso. Encontramos
um olhar que desenha as marcas pulsionais num corpo, não importando sua cronologia, pois o
inconsciente é atemporal, produzindo novos olhares em velhas estruturas. Nos deparamos
com o espelho... com os olhos do um no olhar do outro, fazendo do espelho o antecipador do
Eu e abordamos sobre como o Outro faz borda num corpo ainda a ser bordado. Tropeçamos
num vulcão que entra em erupção na economia pulsional, deixando seus sulcos na terra fértil
que se prepara para as pegadas que marcam, escrevendo o sujeito. Mas, o mais precioso
mesmo desse encontro, foi a forma como cada um tomou os textos, transformando-os em
questões, e depois em outros textos; e a transformação que o próprio escrito produziu em cada
um.
Que este seja um primeiro passo para adentrar o longo caminho da formação
psicanalítica que só é possível através desta implicação e da aposta de que não é a passividade
da informação ou compreensão de conceitos que se constrói um caminho, mas a possibilidade
de se fazer autor do próprio texto.

Palavrear
Tanise Creuz


Palavras...palavras... palavras...o que me dizem de mim?
Quando retomei meus escritos e pensei “qual nome vou dar? “
Me ocorreu: “O poder da palavra”!
“Peraí! Esse nome não é estranho”...
“Revirei” os arquivos de meu computador e lá estava: o roteiro de um espetáculo cênico
criado por mim há dez anos cujo título é “O poder da palavra”.
Lá estavam, a me provocar, emergindo do tempo, meus escritos, falando de palavras e
poder.
E do que se trata esta história?
De cientistas (razão) que querem viajar para o futuro (out) com o objetivo de se
apropriarem de tecnologia (respostas) para dominar o mundo (saber).
Embarcam na máquina do tempo e ao invés de irem para o futuro (ato falho) vão parar
no passado (in) encontrando, Esopo (inconsciente) que lhes fala através de fábulas (linguagem)
onde animais e seres inanimados (significantes) vivem histórias (narrativas) que na verdade
querem falar de outra coisa.
Que coisa é essa?
Por que conto esta história?
Porque ela fala de mim. É a minha questão, que emerge novamente quando Virgínia Kátia
Gubert Verch, orientadora do Seminário de Psicanálise do qual participo, nos provoca a
produzir um escrito sobre uma questão que seja nossa.
E qual a questão que me trouxe inquietude?
Elsa Coriat (1999) em Uma psicanalista em Paris fala de “...palavras que fundam esse
corpinho humano como sujeito”.
Me causou estranhamento o uso da palavra “palavra” com uma função tão poderosa de
“fundar um sujeito”!
Para mim, analfabeta em Psicanálise, palavras fazem parte de enunciados verbais com
estruturas linguísticas sintáticas e semânticas, organizadas de acordo com as regras da Língua,
para produzir comunicação, ou seja, transmitir uma informação.
Depois de toda essa verborragia nem é precioso anunciar minha formação como
professora, adepta da Filosofia, a arte de questionar.
Uma vez que um bebê não apreendeu o significado das palavras, nem possui a habilidade
fonoarticulatória para emissão verbal, como pode esse “corpinho humano”, pela palavra, ser
fundado como sujeito?
E se sua mãe não tiver a habilidade da fala desenvolvida, por questões fisiológicas,
neurológicas ou cognitivas?... O bebê não irá responder ao desejo materno de saber “o que ele
quer”, se verdadeiro este for?
Então não se trata de “palavra” só pela palavra, enquanto unidade linguística com
significado, ou por sua entonação, intenção, escolha, contexto; mas significando “linguagem”.
Bernardino (2018) diz que é requisito para a passagem do “ser um corpo” para “ter um
corpo” que um Outro faça inscrições de ordem linguageira. Também se refere ao sujeito como
habitante da linguagem, segundo Lacan.
Linguagem, para além da palavra, da fala, possibilitando aos não falantes, não ouvintes,
não cognoscentes, constituírem-se como sujeitos pela linguagem expressada, comunicada,
transmitida, captada e apreendida.
Linguagem que traduz uma (não) intenção, um (não) desejo, uma marca do inconsciente,
do não dito, do não dizível, mas que se coloca, que permeia, que contagia.
Linguagem involuntária que se manifesta em todas as formas de comunicar, na fala, na
falta, no gesto, voz, toque, olhar.
Então sua função na constituição do sujeito está no que “não” é dito (no sentido literal),
o que é do inconsciente, o que está no campo do desejo em relação à relação com o outro que
não se transmite na palavra, pela palavra simplesmente, mas por algo além.
No caso Nádia, um bebê de treze meses que se situava numa condição considerada "de
hospitalismo", quase catatônica, sem movimentos, sem brincar, sem demonstrar qualquer
prazer, aparentando retardo psicomotor, foi atendida por Rosine Lefort. A psicanalista
observou em Nádia, “um olhar vivo”... “de um sujeito desejante”.
Neves, 2010 (p.101), citando Lefort (1984 [1951 52]) relata “...que Nádia fazia uso do
corpo de Rosine como via para o dizer. Então, a analista afirmou que foi, “a partir daí que ela
(Nadia) me força a abandonar toda ideia de buscar seu bem, a me despojar de toda intenção
de ajudá-la, a lhe permitir se dizer e poder ser ouvida”.
Não foi possível palavrear a fala estabelecida no grito silencioso do olhar de uma e na
ânsia acolhedora da outra. E ainda assim a troca se fez acontecer pela linguagem do olhar, do
corpo, da fala muda que se fez entender por ser originada/sustentada pelo desejo de ser visto
e de ver... ser ouvido e ouvir... e assim, creio eu, sujeitos se estruturam.



Referências:
BERNARDINO, Leda Mariza Fischer. A intervenção psicanalítica nas psicoses não decididas na
infância. In Proceedings of the 5. Colóquio do LEPSI IP/FE-USP, 2004
CORIAT, Elsa. Psicanálise e Clínica de Bebês: A Psicanálise na Clínica de Bebês e Crianças
Pequenas. Artes e Ofícios, 1999.
LEFORT, R e R. O nascimento do Outro . Salvador/BA: Biblioteca Freudiana Brasileira. 1984. In
NEVES, Brenda. De um olhar ao outro: a intervenção da psicanalista Rosine Lefort na clínica
com a criança Nádia. Dissertação (Pós-graduação em Psicologia) - Faculdade de Filosofia e
Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. 2010.



Marcas que marcam

Tarcila Martins Bandeira




Sinto atração pelas produções da infância, elas provocam curiosidade e delas surgem
interrogações. Em busca de respostas seguiram-se muitas leituras, reflexões e discussões que
a psicanálise foi revelando, a medida em que caminhava por elucidar coisas que mais pareciam
incógnitas, passo a passo surgiram lampejos que indicaram por onde seguir.
Durante os estudos do Édipo em Lacan (HUGO BLEICHMAR, 1984) que descreve sobre a
estruturação intersubjetiva caminhei na penumbra até encontrar portas que se abriram,
algumas delas revelaram novos conhecimentos, outras escondiam outras interrogações.
Entre tantas perguntas uma surgiu mais inquietante: O que faz com que algo marque a
criança?
Quem é esse bebê? Ele chega com olhos curiosos a procura de um outro que cuide de
suas necessidades, e um Outro que lhe apresente, através da linguagem, este estranho e novo
mundo. Um Grande Outro que possa garantir a sua existência como um ser único com marcas
constitutivas que definirá o lugar que vai ocupar nessa família, e o lugar de existência nesse
mundo.
Ele chora, grita pedindo pela satisfação imediata de suas necessidades biológicas. O
corpo sente, ele percebe algo diferente?
Uma folha em branco, penso que é assim que se parece a criança quando nasce. Para
que possa se inscrever algo nesta folha é preciso que outro da mesma espécie o tome como
um ser desejante e, por meio de significantes, marcam a criança inserindo em uma organização
familiar e social.
Ele chora, a mãe interpreta como fome, ela amamenta seu filho acalmando sua fome e
ao mesmo tempo instalando o prazer.
Manenti escreve, “entre eles, uma troca de olhares em que a alimentação da criança
parece ser somente uma contingência. Aquele que olha a cena sente-se completamente
excluído, e ao mesmo tempo fascinado por aquele circuito que ali se fecha: o bebê olha para
mãe, é olhado por ela e se vê no seu olhar. Na verdade um alimenta o olhar do outro” (p. 122,
2006).
Ela fala com ele, acaricia seu corpo, fixa seu olhar, investe e inscreve no frágil corpinho
oferecendo a ele a oportunidade de existir. Pela fala a mãe marca o corpo da criança e essas
marcas deixadas pelo outro vão inscrever os significantes. Unindo linguagem e corpo desperta
o desejo que permite a esse corpo de carne e osso passar a se constituir como sujeito. Através
da fala, do olhar que a mãe dirige a esse que chora, respondendo ao filho, ela supõe saber a
razão do seu choro.
Em Escritos da criança, Rejane Farias explica: “são os atos da função materna que deixam
marcas, que irão inscrevendo quem é o bebê” (p. 89, 2006).
Mas é no momento que a mãe retira o seio que ela constrói no bebê a falta do objeto.
Para que se estruture um sujeito, a falta é necessária, pois o ato provoca nesta criança a pulsão
como movimento entre o biológico e o psíquico, a qual só pode ser aliviada por meio do outro.
É esse outro que pela repetição vai inscrever no filho o traço de memória. Desta forma, a mãe
amamenta seu filho acalmando sua fome, e ao retirar o seio, desperta no bebê uma tensão no
sentido de desejar que esse outro queira suprir o que sempre vai faltar.
Dona desse saber, a mãe investe nesse corpinho de carne, mapeando uma zona erógena
no corpo do filho e o enlaçando a significantes. Assim, a mãe, como Outro de linguagem, vai
significando um corpo e, ao mesmo tempo, o nomeando, dando um lugar a este pequeno ser
no discurso.

Referências:
BLEICHMAR, H. Introdução ao estudo das perversões. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984.
JERUSALINSKY, A. N. et al. Escritos da criança nº 5. Porto Alegre: Linus Editora, 2006.





A- Bordar
Solange Emilia Rufca


“Não aprendemos de qualquer um, aprendemos de quem outorgamos o dever e o direito
de nos ensinar. “ - Alicia Fernandes.

E digo mais, não nos construímos a partir de qualquer um, mas a partir de um olhar.
É um corpo (pedaço de carne). Pedaço construído em partes e membros, percepções e
necessidades, desconstruídos de símbolos e simbólicos.
Neste nascimento o que temos? Uma história, desejos e complementações. Mas aqui
tem algo que nasceu?
Do corpo alimentado em suas necessidades e nomeado pelo que toca e pela falta um
caminho de olhar e olhares, de relações imaginárias e reais, que ao se desvendar tentam
reconhecer as bordas e as brechas constitutivas de um sujeito.
As palavras inundam o corpo que as interpreta? Dá um sentido? O sujeito será sempre
uma repetição de um olhar, de uma inundação?
A palavra tem o dever e o direito de a- bordar para quem ouve. Se nos perguntarmos e
não existe uma resposta continuaremos e percurso, assim podemos ter possibilidades de
reconstruir, reconstruir, reconstruir...


Velhas estruturas, novos olhares
Edson Luiz Sarti


Era meu primeiro dia como psicanalista naquela instituição de abrigo para idosos.
Na verdade, era meu primeiro dia como jovem psicanalista após me autorizar a atender.
Sentia um misto de sensações e sentimentos, como um jovem que, apaixonado, abriga
uma nuvem de borboletas em seu âmago.
Desta vez não era paixão. Ao menos, não uma paixão romântica.
Respirei profundamente, como um mergulhador prestes a entrar em mares profundos, e
tomei coragem para abrir a porta da frente.
Fui recepcionado por uma funcionária que me acolheu em seu sorriso e me informava
sobre assuntos aparentemente úteis a mim.
Enquanto ela falava, algo desviava a minha atenção e o meu olhar:
Em um canto daquela sala, de frente à uma janela fechada, havia um velho solitário,
sentado em sua poltrona.
Com o olhar vago, atravessava o vidro em pensamentos.
O que será que olhava?
Ao pegar seu prontuário com a enfermeira, me deparei com o diagnóstico de Alzheimer.
Será que procurava memórias a ermo com o olhar?
Intrigado, decidi fechar meus olhos para poder observá-lo com mais atenção.
Primeiro, visualizei os seus ossos. Depois, uma camada escassa de carne. Finalmente
pude ver a sua pele.
Mas antes que eu distanciasse o olhar, percebi algo que não havia visualizado
anteriormente.
O homem era feito de ossos, carne, pele e, talvez o que me atraiu mais o olhar: seus
muitos vazios.
Percebi em seu corpo abundantes fendas.
Hiatos pelos quais corriam livremente líquidos, carregados de letras.
Ansioso, talvez por uma suposta inexperiência, me preocupei com aquele senhor.
Pensei: “se vazar todo o líquido, o que sobrará do velho”?
Decidi então que deveria conter os vazamentos.
Alcancei uma pequena bacia com numerosos prendedores de roupas.
Aos poucos, consegui suturar cada uma das aberturas daquele corpo.
Mas tão logo que terminei minha tarefa, um a um dos prendedores foram caindo,
desistindo do pobre homem.
Pensei cautelosamente por alguns minutos e visualizei um punhado de elásticos de
prender dinheiro.
“Bingo! “ Murmurei baixinho.
Iniciei novamente o processo de fechamento das fendas.
Terminada minha tarefa e percebendo que os elásticos haviam se fixado, me emocionei.
Mas a esperança de salvar aquele senhor se esvaía progressivamente a cada elástico que
se rompia.
Exaurido em minhas tentativas, resolvi desistir da tarefa.
Decidi então abrir os olhos.
E lá estava o velho sentado à janela, exatamente como havia visto quando entrei.
Com um profundo desânimo me conformei em deixa-lo e saí até o jardim para respirar.
Não conseguia entender exatamente porque não era possível estancar aqueles vazios.
Introspectivo, mirei vagarosamente o olhar para aquela janela e lá estava, do outro lado
do vidro, aquele senhor.
Foquei meu olhar no seu e, seguindo-o, percebi que se fixava em um vaso.
Um objeto surrado pelo tempo, exposto a toda espécie de intempéries.
Recipiente que outrora abrigou muitas flores, abriga agora um pequeno punhado de
terra.
Caminhei até o vaso e ao tocá-lo, tive um insight:
“Assim como a terra, o vazio é fértil! “.
Entendi que não precisava suturar as fendas.
Foi então que me voltei novamente àquele senhor, agora com o vaso em mãos.
E decidi fechar os olhos para observá-lo com mais atenção.
Olhei para cada fenda, que continuava a expelir uma torrente de líquidos e letras.
Cuidadosamente, com o punhado de terra em minhas mãos, soprei em direção ao velho.
Delicadamente, a nuvem de poeira tocava a sua pele e se unia à torrente.
E o homem floresceu em palavras.
Caminhei com o olhar por todo o seu corpo.
Enquanto algumas palavras germinavam rapidamente e se evidenciavam ao mundo,
outras, mais tímidas, apareciam com cautela.
As primeiras, brotaram em seus pés.
No direito, apareceu “objeto” e, no esquerdo, “desejo”.
Pelas pernas pude perceber os termos “mãe simbólica” e “mãe imaginária” se
espalhando rapidamente como pêlos a nascer na puberdade de um adolescente.
Continuei minha observação respeitosa e encontrei, próximo à púbis, duas palavras que
brotavam sempre juntas: “outro (em minúscula) e “Outro” (em maiúscula).
Neste momento da observação haviam muitas letras germinando e visualizei por todo o
corpo a eclosão da palavra “falo”.
Foi então que percebi novas a surgir: no abdome, “pai”, em seu tórax “Lei” e, bem ali no
coração, muito próxima dessas duas: “castração”.
Subindo até a proximidade do pescoço, percebi pulsar na jugular a palavra “pulsão”.
E neste oásis que se formava à minha frente, encontrei na face um buquê de três termos
que formava a expressão “Complexo de Édipo”.
Uma mão recaiu sobre meu ombro.
Abri os olhos.
O velho, agora em pé, com o olhar fixado ao meu, irrompe o silêncio entre nós e indaga-
me:
“Do que é feito um sujeito? “