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Manual para pais de crianças opositivas,

desafiadoras e desobedientes

1ª edição

RIO DE JANEIRO | 2014


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

Teixeira, Gustavo

T266r
O reizinho da casa [recurso eletrônico] / Gustavo Teixeira.
- 1. ed. - Rio de Janeiro: BestSeller, 2014.
recurso digital

Formato: ePub
Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de
acesso: World Wide Web
Apêndice
Inclui bibliografia e índice
Agradecimentos, prefácio, apresentação, ISBN 978-85-
7684-849-3 (recurso eletrônico) 1. Transtorno desafiador e
opositivo em crianças. 2. Distúrbios do comportamento em
crianças. 3. Crianças-problema - Modificação de
comportamento. 4. Crianças-problema - Educação. 5. Livros
eletrônicos. I. Título.

14-09816
CDD: 618.9289
CDU: 616.89-053.2/.6

Texto revisado segundo o novo


Acordo Ortográfi co da Língua Portuguesa.
TÍTULO ORIGINAL:
O REIZINHO DA CASA
Copyright © 2014 by Gustavo Teixeira

Capa: Elmo Rosa


Editoração eletrônica da versão impressa: Abreu’s System Todos os
direitos reservados. Proibida a reprodução, no todo ou em parte, sem
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Rua Argentina, 171, parte, São Cristóvão
Rio de Janeiro, RJ – 20921-380

Produzido no Brasil ISBN 978-85-7684-849-3

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Dedico este livro aos meus reizinhos da casa, Pedro
Henrique e João Paulo.
AGRADECIMENTOS

Aos meus queridos amigos, sempre presentes em


minha vida e que emprestaram seus nomes aos
personagens deste livro.
Ao psicólogo cognitivo-comportamental
Maurício Bastos, pela revisão técnica desta obra.
Ao César de Moraes, o “Cesão”, médico
psiquiatra da infância e adolescência e prefaciador
desta obra.
SUMÁRIO

Agradecimentos
Prefácio
Apresentação

1. Transtorno desafiador opositivo

2. Quais são as causas?

3. Transtornos associados

4. Tratamento

5. Transtorno de conduta

6. Transtorno de personalidade antissocial

7. Skinner e as técnicas comportamentais


8. Guia dos Pais

Apêndice I.
Tabela de economia de fichas
Apêndice II.
Menu de recompensas

Apêndice III.
Contrato pais-filho
Apêndice IV.
Diário escolar de comportamento
Bibliografia
O autor
PREFÁCIO

Com características semelhantes a outros


transtornos comportamentais com início na
infância e adolescência, o estudo do transtorno
desafiador opositivo pode nos ajudar a compreender
as principais causas, a evolução e as melhores
opções de tratamento deste e de outros transtornos
mentais.
Uma primeira importante característica é o
aspecto dimensional do transtorno: apesar de haver
alguns sintomas que são observados no
desenvolvimento normal, a alta frequência e a
intensidade dos sintomas transformam
comportamentos considerados normais em
comportamentos disfuncionais, geradores de forte
impacto negativo sobre a dinâmica familiar e a vida
social e escolar dos indivíduos afetados.
Como em outros transtornos comportamentais, a
presença de comorbidades psiquiátricas associadas
ao transtorno desafiador opositivo é comum.
Quanto maior o número de transtornos
psiquiátricos presentes, maior o impacto, mais
difícil é o tratamento e pior a sua evolução.
Outra importante característica do transtorno
desafiador opositivo é sua etiologia multifatorial,
que considera a associação dos aspectos genéticos,
emocionais e ambientais dos indivíduos opositores
como sua melhor explicação causal.
Comumente, o seu curso é associado a outros
transtornos psiquiátricos graves, como o transtorno
de conduta, o abuso de substâncias psicoativas e o
transtorno de personalidade antissocial. A presença
do transtorno desafiador opositivo na infância pode
ser um fator de risco para desenvolver esses
transtornos a partir da adolescência.
Por ser um transtorno frequente e iniciado
precocemente, propostas psicoeducacionais que
ofereçam um maior conhecimento (por parte dos
professores e pais) dos principais sintomas e das
formas de prevenção e intervenção precoces
constituem uma importante forma de tratamento e
de se evitar o curso deteriorante do transtorno.
O mérito deste “guia para pais” é a forma clara e
objetiva com que o autor lida com esses temas. O
livro nos transmite informações essenciais sobre as
formas de avaliação e diagnóstico, além de suas
principais causas e transtornos associados. O
assunto se aprofunda nas principais opções de
tratamento e nos fatores de bom e mau
prognóstico. É finalizado com dicas práticas para se
lidar com indivíduos com transtorno desafiador
opositivo (como reforço positivo e punições
brandas) que podem ser utilizadas por pais e
responsáveis em qualquer modelo educacional.
Um ponto central do livro é a importância da
aliança entre pais, professores e profissionais de
saúde. Essa aliança constitui a base de qualquer
proposta terapêutica. Quando o tripé “família,
escola e profissional da área de saúde mental”
funciona bem, a eficácia do tratamento atinge seu
ápice.
Em relação ao autor, o colega Gustavo tem se
destacado por sua sólida formação, seus livros, seus
sites e palestras de orientação para pais, professores
e população em geral.
Além disso, sua participação em entidades
associativas nacionais e internacionais (como a
Associação Brasileira de Neurologia, Psiquiatria
Infantil e Profissões Afins e a American Academy of
Child and Adolescent Psychiatry) lhe permite
manter-se constantemente atualizado.
No Brasil, apesar da reconhecida importância dos
métodos psicoeducacionais, os profissionais, pais e
professores ainda são muito carentes de obras como
esta, bem-feitas e baseadas em evidências científicas
atualizadas.
DR. C ÉSAR DE MORAES
PROFESSOR DE PSIQUIATRIA INFANTIL
DO C ENTRO DE C IÊNCIAS DA V IDA — PUC-
C AMPINAS
APRESENTAÇÃO

A desobediência dos filhos é um problema que


interessa a todos os pais, professores e pessoas que
lidam com o público jovem. Para além do que o
senso comum e a tradição de nossos pais e avós nos
ensinam, o que mais podemos saber sobre como
lidar com essa realidade? E quando o problema
alcança a gravidade de uma doença? O que fazer?
Gustavo Teixeira é um médico especialmente
envolvido com essas questões e nos oferece, de
maneira simples e direta, um quadro esclarecedor de
como entender e identificar o transtorno desafiador
opositivo, quadro sintomático que extrapola a
simples desobediência de um jovem que se esforça
para desenvolver a identidade marcando posições e
definindo seu contorno a partir da oposição com o
outro. Trata-se, sim, de um conjunto de
comportamentos profundamente perturbadores da
harmonia familiar e impeditivos para o ajuste à
escola e à maioria dos contextos sociais que
compõem o trajeto de construção de uma vida
produtiva e com laços afetivos duradouros.
Este livro tem início com uma visão acessível das
características do transtorno na família e na escola,
sua avaliação diagnóstica e seu curso de
desenvolvimento. Ajuda a esclarecer sobre as causas
e outros transtornos associados. Uma ênfase
importante que marca a preocupação do autor é a
prevenção e a intervenção precoce. Observações
importantes são feitas no sentido de sensibilizar a
sociedade para um olhar precoce sobre o que fazer
na escola antes que os problemas se tornem de
maior gravidade, na forma de um transtorno da
conduta ou de um transtorno da personalidade
antissocial.
O autor oferece uma base de princípios da
psicologia comportamental para guiar
procedimentos educativos e de intervenção sobre o
desafio e a desobediência. Este guia para pais,
professores e profissionais interessados atende não
apenas ao problema educacional específico dos
transtornos em questão, mas serve também como
um guia educacional geral, até mesmo para o
manejo da relação com os jovens em
desenvolvimento normal. Técnicas simples são
apresentadas junto a exemplos ilustrativos fáceis de
serem aplicados. Este livro representa uma
interessante introdução para os estudiosos do tema
e um bom guia para pais e professores.

DR. MAURÍCIO C ANTON BASTOS


PSICOTERAPEUTA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL,
DOUTOR EM PSICOLOGIA PELA UFRJ
CAPÍTULO 1

TRANSTORNO DESAFIADOR
OPOSITIVO

Dezembro de 2002, sábado de sol forte no Rio de


Janeiro, 2 horas da tarde. Eu me preparava para
pegar uma praia — a turma de amigos já me
aguardava no tradicional Posto 8 de Ipanema —
quando recebi um telefonema do serviço de
emergência no qual trabalhava. Perguntavam se eu
estaria disponível para um atendimento na cidade
de Niterói.
— Mas é claro, Zé Antonio! Qual é o caso?
Um pai de família havia ligado desesperado,
dizendo que o filho estava agressivo, nervoso e se
recusando a ir para a aula de reforço escolar,
ameaçando bater na mãe e na avó.
Bem, mudança de planos... e ao trabalho. Rápida
troca de roupas, e em alguns minutos estava
dirigindo pela ponte Rio-Niterói. Momentos depois
eu adentrava a residência, onde um pai angustiado
solicitava minha ajuda. O relato do pai de Ricardo
era que o filho frequentemente desafiava e se
opunha à sua autoridade, apresentava-se agressivo,
discutia, não aceitava regras familiares e tinha um
desempenho escolar ruim, pois se recusava a realizar
deveres ou a copiar do quadro-negro.
Ao entrar na residência, os pais me conduziram
por um corredor que levava à sala de estar. Ali, eu
esperava encontrar um adolescente forte e raivoso,
talvez adepto do fisiculturismo, praticante de artes
marciais, pronto para brigar com qualquer pessoa
que cruzasse seu caminho; entretanto, para minha
surpresa, deparei-me com ele: o reizinho da casa!
Tratava-se de um garoto com apenas 8 anos de
idade, 1,40 metro de altura, gorducho, sentado na
única poltrona da sala, em frente à televisão, com
um grande pacote de biscoitos. Ele gritava com
todos:
— Quero mais biscoito! Agora! Agora, pô!
Foi prontamente atendido pela avó.
Parecia que algo realmente disfuncional estava
ocorrendo naquela família; o garoto parecia um
“reizinho sentado no trono”, delegando ordens e
realizando exigências a todos da casa. Ele realmente
dominava os pais, era o “dono do pedaço”!
Eu estava diante de um quadro clínico comum
nos consultórios médicos de psiquiatria infantil, um
caso clássico de transtorno desafiador opositivo.
Como poderia uma criança daquela idade desafiar,
manipular e mandar nos próprios pais?
O transtorno desafiador opositivo é uma
condição comportamental comum entre crianças de
idade escolar e pode ser definido como um padrão
persistente de comportamentos negativistas, hostis,
desafiadores e desobedientes observado nas
interações sociais da criança com adultos e figuras
de autoridade de uma forma geral, como pais, tios,
avós e professores, podendo estar presente também
em seus relacionamentos com amigos e colegas de
escola. Esse transtorno pode estar relacionado com
outras condições comportamentais e
frequentemente precede o desenvolvimento do
transtorno de conduta, uso abusivo de drogas e
comportamento delinquencial.
As principais características do transtorno
desafiador opositivo são perda frequente da
paciência, discussões com adultos, desafio, recusa a
obedecer a solicitações ou regras, perturbação e
implicância com as pessoas, que podem ser
responsabilizadas pela criança e pelos seus erros ou
mau comportamento. Ela se aborrece com
facilidade e em geral se mostra enraivecida,
agressiva, irritada, ressentida e vingativa. São
crianças que apresentam uma dificuldade no
controle do temperamento e das emoções, uma
teimosia persistente; elas são resistentes a ordens e
parecem estar testando os limites dos pais a todo
momento.
Os sintomas aparecem em vários ambientes, mas
é na sala de aula e em casa que estes podem ser mais
bem-observados. Tais sintomas devem causar
prejuízo significativo na vida social, acadêmica e
ocupacional da criança. É importante observar que
no transtorno desafiador opositivo não há sérias
violações de normas sociais ou direitos básicos
alheios, como ocorre no transtorno de conduta.
Estudos americanos atribuem esse diagnóstico em
cerca de 10% das crianças em idade escolar, sendo
duas vezes mais frequente entre meninos. Os
sintomas iniciais do transtorno desafiador opositivo
ocorrem normalmente entre 6 e 8 anos de idade.
Com frequência, essas crianças e adolescentes têm
baixa autoestima e baixa tolerância às frustrações,
humor deprimido, ataques de raiva e poucos
amigos, pois costumam ser rejeitados pelos colegas
por causa de seu comportamento impulsivo,
opositor e de desafio às regras sociais do grupo. O
início do uso abusivo de álcool e outras drogas
merece especial atenção nesses casos, pois os
conflitos familiares gerados pelos sintomas do
transtorno, comportamentos de oposição e de
desafio podem facilitar o envolvimento
problemático com essas substâncias no futuro.
É muito importante ressaltar que o transtorno
desafiador opositivo é muito mais do que aquela
“birra” ou desafio típico de uma criança, que seria,
na verdade, uma simples reação contextual de
oposição, por exemplo, quando a criança deseja um
sorvete e não é atendida pela mãe. Devemos
entender também que um comportamento
opositivo temporário é comum, fazendo parte do
desenvolvimento normal da criança, tendo inclusive
um aumento natural durante a adolescência. No
transtorno desafiador opositivo nos deparamos com
crianças que apresentam sintomas severos,
provocando graves prejuízos em sua vida acadêmica
e social e interferindo muito no relacionamento
com membros da família.
Saber diferenciar esse transtorno de um
comportamento opositivo e desafiador normal que
toda criança experimenta durante seu
desenvolvimento, conforme cresce e ganha mais
autonomia, é fundamental. Por exemplo, costumo
dizer que nós, seres humanos, quando nascemos,
ganhamos um “kit de sobrevivência”, nosso cérebro.
Apesar de sermos os seres vivos mais desenvolvidos
do planeta, no nascimento possuímos um cérebro
pequeno e pouco desenvolvido. Diferentemente de
outros animais, como um bezerro ou mesmo o
Bandit, meu cachorro, que com apenas 2 meses já é
capaz de se locomover e se alimentar sozinho, e
ainda aprontar as mais diversas estrepolias. Um
bebê humano é um ser completamente dependente
de seus cuidadores até pelo menos os primeiros anos
de vida. O que um bebê recém-nascido faz quando
está com fome? Quando está com sede? Quando
está com frio? Quando deseja a companhia da mãe?
A resposta será sempre a mesma: chora! Na verdade,
a natureza, muito sábia, nos equipou com esse kit
básico de sobrevivência, capaz de despertar a
atenção da mãe sempre que necessário, e que
proporcionou a perpetuação da espécie durante os
últimos 200 mil anos. No decorrer dos dias, meses
e anos após o nascimento, esse cérebro pequeno,
com poucas células nervosas e ligações sinápticas,
irá se desenvolver, ganhar peso, novas conexões
axoniais e dendríticas, e em algum tempo esse ser
humano será capaz de atribuições fantásticas,
ganhando muita autonomia.
Essa criança em desenvolvimento poderá, certo
dia, estar passeando no shopping center com a mãe.
Que características permitirão dizer que essa criança
possui aproximadamente 2 anos de idade? A
resposta certa é: se a criança já anda e fala algumas
palavras, é possível que possua cerca de 2 anos.
Nesse momento do desenvolvimento, muitos pais
costumam relatar comportamentos de oposição de
seus filhos, fato amplamente observado em outras
culturas, como a americana, que caracteristicamente
chama essa fase do desenvolvimento de terrible two,
ou os “dois anos terríveis”.
Vamos a mais um exemplo que ilustra essa
questão: quando um bebê de colo acompanha a
mãe ao supermercado e esta deseja buscar um
extrato de tomate ou um frasco de maionese, o
bebê, por razões óbvias, obrigatoriamente a
acompanha. Anos mais tarde, a mesma mãe pode
encontrar dificuldades ao adentrar o supermercado
com seu filho. Ora, caso o filho não deseje
acompanhá-la a determinada área do
estabelecimento, ele andará em outra direção, por
exemplo, ou falará: NÃO! Eis, por sinal, a primeira
palavra que muitas crianças aprendem a falar, algo
absolutamente normal, devo dizer.
Dessa forma, é muito importante que pais,
responsáveis e educadores saibam diferenciar esse
comportamento opositivo normal que toda criança
vivencia durante seu desenvolvimento conforme
ganha autonomia.
Avaliação e diagnóstico

Algumas investigações clínicas são importantes para


um correto diagnóstico de crianças com o
transtorno desafiador opositivo. A avaliação se
inicia com uma cuidadosa entrevista médica com os
pais ou responsáveis pela criança. Nesse momento
serão investigados os sintomas, características e
prejuízos que motivaram a busca por ajuda médica.
Essa avaliação familiar será muito importante
para entendermos os padrões de comportamento
dos pais, o estilo e o método de criação parental
empregados, a interação social entre os membros da
família, a comunicação parental, além da história
familiar de transtornos comportamentais,
alcoolismo, drogas, agressividade e violência.
A avaliação escolar também será fundamental
nesse processo investigativo, afinal a criança passa
grande parte de seu dia na escola. Através de uma
avaliação escolar dissertativa, poderemos obter
informações essenciais a respeito do desempenho
acadêmico, do padrão de comportamento em sala
de aula e no recreio escolar, da interação social com
colegas, professores e funcionários da instituição de
ensino.
Para facilitar a compreensão do quadro clínico,
descrevo os critérios diagnósticos segundo o Manual
Diagnóstico Estatístico dos Transtornos Mentais da
Associação Americana de Psiquiatria (American
Psychiatry Association) para o transtorno desafiador
opositivo:

A. Um padrão de comportamento negativista,


hostil e desafiador que dure pelo menos 6 meses,
durante os quais 4 (ou mais) das seguintes
características estão presentes:
(1) frequentemente perde a paciência
(2) frequentemente discute com adultos
(3) com frequência desafia ou se recusa
ativamente a obedecer a solicitações ou regras
dos adultos
(4) frequentemente perturba as pessoas de
forma deliberada
(5) frequentemente responsabiliza os outros por
seus erros ou mau comportamento
(6) mostra-se frequentemente suscetível ou é
aborrecido com facilidade pelos outros
(7) está frequentemente enraivecido e ressentido
(8) está frequentemente rancoroso ou vingativo
Obs.: Considerar o critério satisfeito apenas se o
comportamento ocorre com maior frequência
do que se observa tipicamente em indivíduos de
idade e nível de desenvolvimento comparáveis.
B. A perturbação do comportamento causa
prejuízo clinicamente significativo no
funcionamento social, acadêmico ou ocupacional.
C. Os comportamentos não ocorrem
exclusivamente durante o curso de um transtorno
psicótico ou transtorno do humor.
D. Não são satisfeitos os critérios para transtorno
da conduta e, se o indivíduo tem 18 anos ou mais,
não são satisfeitos os critérios para transtorno da
personalidade antissocial.
Na escola

O desempenho escolar pode estar comprometido, e


reprovações escolares são frequentes. Esses jovens
não participam de atividades em grupo, recusam-se
a pedir ou a aceitar ajuda dos professores e querem
sempre solucionar seus problemas sozinhos.
Essas crianças desobedecem e desafiam a
autoridade de professores e funcionários da escola,
são muito impulsivas, brigam com colegas de sala
de aula, não aceitam ordens, não realizam deveres
escolares e sempre responsabilizam os outros por
seu comportamento hostil e disfuncional.
Transtorno desafiador opositivo na escola

Discute com professores e colegas.


Recusa-se a trabalhar em grupo.
Não aceita ordens.
Não realiza deveres escolares.
Não aceita críticas.
Desafia a autoridade de professores e
coordenadores.
Deseja tudo ao seu modo.
É o “pavio curto” ou o “esquentado” da turma.
Perturba outros alunos.
Responsabiliza os outros por seu
comportamento hostil.

Curso e prognóstico

O curso e a evolução do transtorno desafiador


opositivo são variáveis. Formas leves apresentam
melhores prognósticos e evoluções positivas,
enquanto sintomas mais severos tendem a tornar-se
crônicos quando não tratados.
Crianças com início precoce e sintomas severos
do transtorno desafiador opositivo, incluindo brigas
corporais, agressividade, pais usuários de drogas e
níveis socioeconômico e cultural menos favorecidos
são fatores que aumentam o risco para a piora do
quadro e futuro desenvolvimento do transtorno de
conduta na adolescência. Estatisticamente, 67% das
crianças com o diagnóstico de transtorno desafiador
opositivo deixarão de apresentar os sintomas nos
anos seguintes, desde que acompanhadas
terapeuticamente, enquanto que as restantes
poderão perpetuar os sintomas ou ainda intensificá-
los até se transformarem em um transtorno de
conduta.
Desta forma, cerca de 30% das crianças com
diagnóstico inicial de transtorno desafiador
opositivo irão evoluir para o transtorno de conduta
na adolescência, e naquelas em que o início dos
sintomas opositivos e desafiadores foi precoce, antes
dos 8 anos de idade, o risco de evolução para o
transtorno de conduta será muito maior. Quando o
transtorno desafiador opositivo não é tratado, a
evolução para o transtorno de conduta pode ocorrer
em até 75% dos casos. Diante desse fato, diversos
autores consideram o transtorno desafiador
opositivo um antecedente evolutivo do transtorno
de conduta. Logo, o diagnóstico e o tratamento
precoce podem exercer um importante papel
preventivo com o manejo desses sintomas.
Essas crianças também apresentam uma
incidência maior de transtornos comportamentais
associados no decorrer dos anos, principalmente
para o transtorno de déficit de
atenção/hiperatividade, transtornos do humor e
transtornos ansiosos.
O grau de agressividade, uso de drogas e presença
de família disfuncional, hostil, violenta ou
negligente são alguns dos fatores de pior
prognóstico ao portador do transtorno desafiador
opositivo.
Aproximadamente 10% das crianças com
transtorno desafiador opositivo, após evoluírem
para o transtorno de conduta, terão uma evolução
para o transtorno de personalidade antissocial,
também chamado de sociopatia, outra condição
comportamental gravíssima e que será abordada em
detalhes nos capítulos seguintes.
Dessa forma, o prognóstico do transtorno
desafiador opositivo é variável e dependerá de uma
série de fatores, havendo melhor prognóstico para
aqueles em que os sintomas são menos severos,
quando existe um ambiente familiar estável e
positivo, quando não existe história de sociopatia
entre os pais e cuidadores, quando os níveis
socioeducacional e econômico são mais favoráveis, o
coeficiente de inteligência da criança é normal e
existem poucos sintomas de outros transtornos
comportamentais, como o transtorno de déficit de
atenção/hiperatividade.
Para aqueles estudantes submetidos a
intervenções precoces, isto é, quando o início do
tratamento ocorre logo após o aparecimento dos
sintomas, o prognóstico é mais favorável e os
resultados terapêuticos são melhores.
CAPÍTULO 2

QUAIS SÃO AS CAUSAS?

As causas do transtorno desafiador opositivo são


complexas e multifatoriais. Os estudos científicos
evidenciam que múltiplos fatores de risco estão
relacionados com o surgimento do transtorno. Esses
fatores são eventos, características ou processos que
aumentam as chances do desencadeamento do
problema comportamental, e seu desenvolvimento
está provavelmente relacionado com a quantidade
de fatores de risco presentes na criança. Todos esses
possíveis fatores estão relacionados com questões
sociais, psicológicas e biológicas, sendo suas
interações responsáveis pelo surgimento,
desenvolvimento e curso clínico da condição.
O entendimento das causas do transtorno é
imprescindível para a aplicação de intervenções
precoces, pois conforme os fatores de risco são mais
e mais agregados diminuem-se as chances de sucesso
terapêutico.

Fatores biológicos

As pesquisas médicas não são conclusivas com


relação à origem genética do transtorno desafiador
opositivo, entretanto diversos artigos descrevem a
possível relação genética familiar em seu
desencadeamento, assim como reforçam a ideia de
que o temperamento da criança modula o
surgimento do transtorno no futuro.
Estudos identificaram que mulheres que fumam
durante a gravidez, assim como gestantes
abusadoras de álcool, apresentam maiores chances
de gerar filhos com o diagnóstico de transtorno
desafiador opositivo. Outros dados apontam que
crianças prematuras, com baixo peso no
nascimento, complicações de gestação ou no
momento do parto, além de crianças com doenças
crônicas, apresentam mais chances de desenvolver a
alteração comportamental.
Alguns fatores biológicos relacionados com
características da própria criança, como
temperamento, negativismo, baixa capacidade de
adaptação a mudanças, déficits neuropsicológicos,
dificuldades de linguagem, memória, planejamento,
organização, disciplina, atenção e julgamento,
também influenciariam no desenvolvimento do
transtorno. Dificuldades acadêmicas, transtornos de
aprendizagem, déficit intelectual, transtorno de
déficit de atenção/hiperatividade, transtornos do
humor, lesões neurológicas, todas essas
características estariam ligadas ao surgimento do
transtorno desafiador opositivo.
Outros estudos descrevem alterações estruturais
no córtex pré-frontal, região cerebral responsável
pelo controle das emoções e da impulsividade,
alterações no funcionamento de substâncias
neurotransmissoras dos sistemas serotoninérgicos,
dopaminérgicos e noradrenérgicos, baixa de cortisol
e níveis elevados de testosterona, entretanto esses
dados também não são conclusivos.
É importante ressaltar que não existem exames
laboratoriais ou de imagem, como tomografia
computadorizada e ressonância nuclear magnética,
capazes de realizar o diagnóstico, sendo este
efetuado através de uma avaliação clínica criteriosa
envolvendo a criança, a família e a escola.

Fatores psicológicos

Hipóteses comportamentais descrevem que o


surgimento do transtorno desafiador opositivo
estaria relacionado com questões ligadas ao
aprendizado social e a modelos de apego, isto é,
crianças agressivas, por exemplo, apresentam uma
dificuldade no processamento de informações
ligadas ao relacionamento social. Assim, têm
dificuldades para lidar com frustrações do dia a dia,
não conseguem criar soluções ou estratégias para
lidar com os problemas e culpabilizam as outras
pessoas por seu mau comportamento.
Muitas vezes observo lares opressores e com
normas demasiadamente rígidas. Nesse caso, a
criança convive diariamente com a violência,
hostilidade e as brigas dos pais. Essa criança pode
assumir o comportamento dos pais como “normal”
e levar essa conduta aprendida para o ambiente
escolar. Ora, dentro de casa ela aprende que tudo
deve ser resolvido com “violência, no grito e na
agressividade”, e assim tentará resolver seus
problemas da mesma forma.
Outro padrão interessante pode ser observado em
crianças que vivem em lares onde os pais não dão
limite aos filhos; esse outro perfil comportamental
sugere que a oposição seria um comportamento
aprendido e reforçado, no qual a criança exerce
controle sobre as figuras de autoridade. Por
exemplo, a mãe solicita ao filho que arrume seu
quarto. Nesse momento o filho tem um ataque de
raiva, chorando, gritando e negando-se a arrumá-lo.
A mãe é coagida a retirar a solicitação, e nesse
momento está ensinando esse comportamento ao
filho. Toda vez que ela fizer uma nova solicitação
que o desagrade, este realizará o comportamento
aprendido, que será sempre reforçado toda vez que
a mãe se desautorizar. Desta forma, a consequência
é um efeito “bola de neve”, e a tendência natural é
o agravamento e a piora dos sintomas a cada dia.
Fatores sociais

Não existem padrões sociais definidos, contudo


algumas pesquisas científicas identificaram uma
relação entre famílias com baixos níveis
socioeconômicos e o transtorno desafiador
opositivo. Comportamento agressivo precoce e
rejeição no grupo de amigos da escola, por exemplo,
são fatores sociais importantes que normalmente
precedem um comportamento delinquencial e
aumentam as chances de a criança apresentar o
diagnóstico.
Questões sociais como violência doméstica, falta
de estrutura familiar, moradia em áreas de grande
criminalidade e ambientes familiares em que regras
e limites sejam pouco claros podem contribuir para
o desencadeamento dessa condição
comportamental. Dessa maneira, a convivência de
filhos com pais ausentes, negligentes, agressivos,
violentos, abusadores, usuários de álcool ou outras
drogas, em lares onde a falta de envolvimento
parental na criação dos filhos, a falta de afeto e de
suporte emocional, a ausência de diálogo e a prática
inconsistente de disciplina estejam presentes, pode
favorecer o surgimento do transtorno desafiador
opositivo.
Fatores escolares também são descritos como
facilitadores do transtorno. Ambientes escolares
inadequados, com salas de aula superlotadas,
professores despreparados, negligentes e com
dificuldade para aplicar disciplina e lidar com
alunos que apresentam problemas comportamentais
podem favorecer o surgimento do transtorno.
CAPÍTULO 3

TRANSTORNOS
ASSOCIADOS

Crianças com transtorno desafiador opositivo


podem apresentar algumas condições
comportamentais associadas, como transtorno de
déficit de atenção/hiperatividade. Essa associação é
muito comum, estando presente em até 14% dos
casos. Essas crianças apresentam maior
agressividade, maior impulsividade, mais conflitos
com outros estudantes, maior dificuldade nos
relacionamentos sociais e pior desempenho
acadêmico. Essa associação piora o prognóstico de
tratamento e pode ainda facilitar a evolução do
transtorno desafiador opositivo para o transtorno
de conduta.
Outros problemas comportamentais associados
ao transtorno desafiador opositivo são os
transtornos ansiosos, depressão, transtorno bipolar
do humor e a prática de bullying no ambiente
escolar.
A seguir descrevo as principais características
dessas condições comportamentais comumente
associadas ao transtorno desafiador opositivo.

Transtorno de déficit de
atenção/hiperatividade

Comportamentos característicos de crianças e


adolescentes com transtorno de déficit de
atenção/hiperatividade (TDAH) incluem
dificuldade em focar a atenção em um único objeto.
Eles são facilmente distraídos, parecendo não
escutar quando alguém lhes dirige a palavra, e agem
como se estivessem no “mundo da lua”. Podem não
terminar seus deveres de casa, apresentando grande
dificuldade em se organizar, e frequentemente
perdem seus materiais escolares, chaves, dinheiro ou
brinquedos.
A criança pode se apresentar inquieta, não
conseguindo permanecer sentada, abandonando sua
cadeira em sala de aula ou durante o almoço de
família. Está sempre a mil por hora ou como se
estivesse “ligada em uma tomada de 220V”, fala em
demasia e dificilmente brinca em silêncio, está
sempre gritando. Os pacientes com esse diagnóstico
apresentam prejuízos no desempenho acadêmico e
social, pois têm dificuldade em se organizar, manter
atenção em sala de aula, realizar deveres escolares
ou permanecer sentados ou quietos.
Adolescentes com o diagnóstico de TDAH
experimentam drogas mais precocemente, usam-nas
em maior quantidade, tornam-se mais dependentes
e demoram mais tempo para buscar tratamento.
Esses fatos estariam relacionados com uma
tendência maior de automedicação realizada na
busca por alívio dos sintomas de inquietação
motora, hiperatividade e agitação que o TDAH
promove. Há também uma menor percepção do
abuso, maior dificuldade de cessação do uso e
menor senso crítico na escolha do grupo por esses
jovens.
Transtorno de ansiedade generalizada

O transtorno de ansiedade generalizada é


caracterizado por grande e excessiva preocupação,
muita ansiedade e intensa dificuldade para
controlá-la. Essas preocupações causam dificuldade
no funcionamento social, acadêmico e ocupacional
dessas crianças e adolescentes. O transtorno está
relacionado com sentimentos de apreensão e
dúvida, cansaço, fadiga, tensão muscular, distúrbios
do sono, dificuldade de concentração e
irritabilidade.
Crianças com transtorno de ansiedade
generalizada apresentam grande preocupação diante
de eventos futuros, grande ansiedade relacionada
com sua aceitação pelo grupo escolar, por amigos e
colegas do condomínio ou do clube, por exemplo.
Essas crianças encontram-se frequentemente
preocupadas com múltiplos assuntos, como se o
mundo fosse repleto de perigos e problemas,
superestimam situações problemáticas, são
negativistas, pessimistas e parecem estar sempre
aguardando por eventos catastróficos.

Depressão infantil

Crianças e adolescentes com depressão


normalmente apresentam-se com os seguintes
sintomas: tristeza, falta de motivação e humor
deprimido, contudo é comumente observado um
humor irritável ou instável. Esses jovens podem
apresentar mudanças súbitas de comportamento
com explosões de raiva ou envolver-se em brigas
corporais no ambiente escolar ou durante a prática
esportiva.
A criança pode apresentar dificuldade em se
divertir, queixando-se de estar entediada ou “sem
nada para fazer”, e rejeitar o envolvimento com
outras crianças, dando preferência a atividades
solitárias.
A mudança comportamental de uma criança
anteriormente bem socializada e entrosada com o
grupo e que passa a isolar-se na sala de aula ou no
recreio escolar pode ser um importante sinal de
alerta a professores. A queda do desempenho
acadêmico quase sempre acompanha o transtorno.
Visto que crianças e adolescentes com depressão não
conseguem concentrar-se em sala de aula, há perda
do interesse pelas atividades, falta de motivação,
apatia e lentificação do pensamento, e o resultado
disso tudo é observado no boletim escolar.
Queixas físicas como cansaço, falta de energia,
dores de cabeça ou dores de barriga são comuns.
Insônia, preocupações, sentimentos de culpa, baixa
autoestima, choro excessivo, hipoatividade, fala em
ritmo lento e de forma monótona e monossilábica
também ocorrem em grande número de casos.
Pensamentos recorrentes de morte, ideias e
planos de suicídio podem estar presentes em todas
as idades, e os atos suicidas tendem a ocorrer com
maior frequência entre essas crianças e adolescentes.
Normalmente os comportamentos de risco
durante a adolescência são comuns, entretanto estes
podem se acentuar durante episódios depressivos
como a prática sexual promíscua sem proteção e o
abuso de álcool e de outras drogas.
Transtorno bipolar do humor

O transtorno bipolar do humor na infância e na


adolescência é uma condição grave que afeta
consideravelmente a vida de crianças e adolescentes
acometidos. Apresenta como característica principal
a fase maníaca do transtorno, com alteração ou
oscilação do humor, que pode se apresentar
exaltado ou irritável, e essa mudança súbita de
humor comumente produz ataques prolongados de
raiva ou agressividade, chamados de tempestades
comportamentais.
As tempestades comportamentais estão associadas
com irritabilidade, ataques de fúria, impulsividade,
dificuldade nos relacionamentos, brigas com colegas
e familiares. Esse temperamento agressivo provoca
piora dos sintomas opositivos e desafiadores que
com frequência estão presentes.
Na escola é observada a piora no desempenho
acadêmico, acompanhada de grande dificuldade de
concentração, hiperatividade, agressividade,
labilidade afetiva, autoestima aumentada,
hipersexualidade, piadas e diálogos de caráter sexual
ou desejos de realização do ato ocorrendo com
grande inadequação na maneira de agir e pensar.
Alguns pacientes relatam que não conseguem fazer
nada graças a pensamentos que não param de
“correr em sua mente”.
Há conflito de ideias, insônia, envolvimento
excessivo em atividades prazerosas que apresentam
potencial elevado de consequências negativas, afeto
inapropriado, excitabilidade, fala acelerada e
agitação psicomotora. Pensamentos mágicos com
ideias de grandeza, riqueza e poder também podem
estar presentes.
Outra característica importante do transtorno
bipolar do humor na infância e adolescência são as
fases ou períodos de depressão, durante os quais a
criança apresentará os sintomas clássicos da
depressão infantil, como tristeza, falta de
motivação, choro fácil, baixa autoestima e
pensamentos recorrentes de morte.
Bullying

Trata-se de um termo do inglês ainda sem tradução


para o português e que significa o comportamento
agressivo entre estudantes. São atos de agressão
física, verbal ou moral que ocorrem de modo
repetitivo, sem motivação evidente, e são
executados por um ou vários estudantes contra
outro, em uma relação desigual de poder,
normalmente dentro da escola, sobretudo na sala de
aula e no recreio.
O bullying está relacionado com
comportamentos agressivos e hostis de alunos que
se julgam superiores aos outros colegas, acreditam
na impunidade de seus atos dentro da escola e
muitas vezes pertencem a famílias desestruturadas,
convivendo com pais opressores, agressivos e
violentos.
Os alvos de bullying normalmente são jovens
tímidos, quietos, inseguros, retraídos, com pouca
habilidade social, poucas amizades, crianças
facilmente intimidadas e incapazes de reagir aos
atos de agressividade. Com frequência, são
fisicamente fracas e menores que os agressores, além
de mais jovens, e assim têm dificuldade para se
defender das agressões.
CAPÍTULO 4

TRATAMENTO

O conhecimento dos sintomas, características e


evolução natural do transtorno desafiador opositivo
evidencia a possível progressão dos sintomas para o
transtorno de conduta quando nenhuma
intervenção é realizada. O possível envolvimento
prematuro e evidentemente problemático com
álcool e outras drogas e a chance de evolução para
um transtorno de personalidade antissocial na idade
adulta nos fazem acreditar que quanto mais tardio é
feito o diagnóstico e o início do tratamento, piores
serão os sintomas e mais difícil será reverter o
quadro comportamental.
Desta maneira, a prevenção e a intervenção
precoce são palavras-chave para o sucesso
terapêutico dessas alterações comportamentais.
Seria como se tivéssemos a possibilidade de
interromper o crescimento dessa verdadeira “bola de
neve” em formação, ou, ainda, como se pudéssemos
botar a “locomotiva de volta aos trilhos” o mais
rápido e precocemente possível.
As intervenções preventivas para crianças em
idade escolar se baseiam em programas
psicoeducacionais para pais com estratégias de
controle comportamental, treinamento em
habilidades sociais, resoluções de conflitos e técnicas
de controle da raiva. Para prevenção em
adolescentes, os programas psicoeducacionais
devem se basear em intervenções cognitivas,
treinamento em habilidades sociais, orientação
vocacional e reforço escolar para aqueles que
estiverem apresentando dificuldades acadêmicas.
Intervenções escolares devem focar no trabalho de
prevenção ao bullying, na prevenção ao consumo de
álcool e de outras drogas, na identificação de
possíveis quadros de transtorno desafiador opositivo
para avaliação e no tratamento com médico
psiquiatra especialista em infância e adolescência.
Desta forma, uma estratégia importante para a
prevenção do transtorno desafiador opositivo se
baseia na aplicação de programas psicoeducacionais
aos pais e a programas educacionais escolares, num
trabalho conjunto com professores, psicopedagogos,
orientadores e coordenadores educacionais.
O tratamento preconizado pelos principais
guidelines internacionais e recomendado pela
Academia Americana de Psiquiatria da Infância e
Adolescência (American Academy of Child and
Adolescent Psychiatry) engloba um esquema
interdisciplinar, envolvendo múltiplas áreas da vida
de relação da criança, diferentes ambientes,
incluindo a escola e sua família através de
intervenções psicoterapêuticas, associado a
medicação e medidas socioeducativas de orientação
aos pais e professores, com duração de tratamento
variável, dependendo de cada caso.
A seguir são enumeradas as estratégias
terapêuticas mais utilizadas no tratamento do
transtorno desafiador opositivo:
Tratamento medicamentoso

Diversos estudos científicos comprovam a eficácia


de alguns medicamentos para tratamento do
transtorno desafiador opositivo. Tais medicamentos
apresentam resultados promissores no manejo dos
sintomas e são capazes de diminuir a impulsividade,
agressividade, nervosismo e ataques de raiva que
frequentemente acompanham essa condição
comportamental.
É muito importante ressaltar que tais
medicamentos não são curativos; na verdade, eles
aliviam alguns sintomas do transtorno, melhorando
a adequação comportamental, elevando a
autoestima, dando qualidade de vida à criança, à
sua família, aos amigos, professores e a todas as
pessoas que interagem com ela. Essa melhoria
favorece o trabalho dos demais profissionais
envolvidos com o tratamento e produz uma melhor
eficácia terapêutica, levando a um melhor
prognóstico.
Graças à alta prevalência de condições
comportamentais associadas ao transtorno
desafiador opositivo, deve ser realizada uma
avaliação médica criteriosa e esses transtornos
devem ser concomitantemente tratados, se
encontrados.
A seguir descrevo as principais classes de
medicamentos utilizadas para tratamento do
transtorno desafiador opositivo:

Antipsicóticos ou neurolépticos

São medicamentos utilizados para tratamento de


quadros de agressividade, impulsividade e explosões
de raiva frequentemente presentes no transtorno
desafiador opositivo. Os mais usados são
denominados de antipsicóticos atípicos,
medicamentos modernos, seguros e com perfil
reduzido de efeitos colaterais, sendo os principais a
risperidona, a quetiapina e o aripiprazol.
Estabilizadores do humor

São utilizados para controle de comportamentos


agressivos, violentos, para diminuição da
impulsividade e nos casos associados ao transtorno
bipolar do humor. Os mais utilizados são o
carbonato de lítio, o divalproato de sódio, a
carbamazepina, a oxcarbazepina, a lamotrigina e o
topiramato.
Psicoestimulantes

São fármacos utilizados para o tratamento do


transtorno do déficit de atenção/hiperatividade —
quadro comportamental frequentemente associado
ao transtorno desafiador opositivo —, como o
metilfenidato e a lisdexanfetamina.

Antidepressivos inibidores seletivos da


recaptação de serotonina

São medicamentos muito seguros, eficientes e bem-


tolerados, sendo utilizados para tratamento de
episódios depressivos ou quadros ansiosos
associados ao transtorno desafiador opositivo. Os
principais fármacos são a fluoxetina, a sertralina, a
paroxetina, o citalopram, o escitalopram e a
venlafaxina.
Tratamento psicossocial

O tratamento psicossocial envolve uma série de


estratégias que objetivam a melhoria das relações
sociais da criança com seus pais, familiares,
professores, orientadores pedagógicos, funcionários
da escola e amigos. As principais técnicas são
descritas a seguir:

Psicoterapia cognitivo-comportamental

Trata-se das principais ferramentas


psicoterapêuticas utilizadas no tratamento do
transtorno desafiador opositivo. Essas técnicas
visam a diminuir o negativismo observado nesses
pacientes e a modificar deficiências cognitivas,
como: habilidades de comunicação, controle do
impulso, controle da raiva e agressividade,
realizando também um treinamento em habilidades
de resolução de problemas e treinamento em
habilidades sociais objetivando a melhoria da
flexibilidade e o aumento do limiar de tolerância à
frustração.
O treinamento do controle da raiva irá ajudar no
desenvolvimento de estratégias e métodos pela
criança para lidar com comportamentos e reações a
sentimentos ligados à raiva e ao controle da
impulsividade. Métodos comportamentais como o
de “economia de fichas” pode auxiliar na
organização de rotinas e criação de limites essenciais
para a melhoria, adaptação e adequação social
dessas crianças.
Terapia familiar

Estruturas familiares disfuncionais estão


intimamente relacionadas com o desenvolvimento e
a manutenção do transtorno desafiador opositivo,
portanto intervenções familiares são quase
obrigatórias nesses casos.
O objetivo dessa terapia é auxiliar a família para
melhorar o estilo de interação e de funcionamento
social, podendo promover a modificação do sistema
familiar, que frequentemente alimenta os sintomas
opositivos na criança. Para tanto, técnicas
comportamentais, estruturais e de comunicação
podem ser apresentadas e estimuladas. O foco é o
funcionamento do sistema familiar e o
comportamento da criança no contexto de
múltiplos ambientes, como família, escola e grupo
de amigos. O desenvolvimento de habilidades para
resolução de conflitos entre membros da família e
aplicação de soluções práticas para conflitos do dia
a dia são enfatizados.
A criação dessa relação familiar positiva facilita o
diálogo, tornando mais fácil o manejo de
comportamentos inapropriados, e pode ajudar a
criança a controlar suas próprias emoções.

Psicoeducação familiar

A psicoeducação familiar consiste no trabalho de


informação e orientação aos pais e familiares da
criança sobre o diagnóstico, sintomas, etapas do
tratamento, curso e prognóstico. O debate sobre
estratégias de como lidar com o jovem no ambiente
doméstico para promover o tratamento é
enfatizado.
Treinamento de pais

Baseia-se na aplicação de técnicas de treinamento e


orientação de pais com o objetivo de favorecer a
interação e a relação entre pais e filhos,
promovendo comportamentos positivos da criança e
diminuindo os sintomas do transtorno desafiador
opositivo. O aconselhamento e o treinamento de
pais acerca do manejo dos sintomas de desafio e
oposição em casa são de extrema importância para o
sucesso do tratamento, e essa orientação irá ajudar
no entendimento dos pais sobre o funcionamento
comportamental da criança, auxiliando na
modificação de suas posturas perante ela, agindo
como um mecanismo para “ensiná-los” a
desencorajar e corrigir comportamentos desafiadores
e problemáticos do filho e encorajar
comportamentos adequados e assertivos.
Psicoeducação escolar

O trabalho de informação e orientação aos


professores, diretores, orientadores pedagógicos e
funcionários da escola será essencial no manejo dos
sintomas no ambiente escolar objetivando o sucesso
do tratamento. Esse trabalho pode ser feito através
de programas pedagógicos direcionados aos
profissionais da educação e a todos os funcionários
da instituição de ensino que tenham contato com a
criança.

Intervenções escolares

As intervenções escolares são muito importantes no


tratamento. Na escola, professores e funcionários
podem encontrar mecanismos mais adequados para
reintegrar o aluno em sala de aula e no recreio.
Técnicas comportamentais podem ser aprendidas
para que a promoção e o estímulo de
comportamentos aceitáveis do aluno sejam
introduzidos e atitudes de desrespeito e agressão
sejam desencorajadas.
Problemas de relacionamento entre estudantes
em sala de aula e prejuízos acadêmicos estão
relacionados com aumento de agressividade e de
comportamentos de conduta, portanto essas
estratégias comportamentais, associadas ao
treinamento em habilidades sociais e aulas de
reforço escolar, podem ajudar muito para um bom
prognóstico desses alunos.
CAPÍTULO 5

TRANSTORNO DE
CONDUTA

– Calem a boca, vocês dois!


Esta foi a frase mais ouvida durante aquele
atendimento. Tive que solicitar a saída do jovem de
14 anos da sala do consultório para dar
continuidade à entrevista com seus pais, que
pareciam desconsolados e não sabiam mais o que
fazer com o filho.
As dificuldades com Tito tiveram início com os
sintomas de oposição e desafio aos 6 anos. O
quadro foi evoluindo com o avanço da idade.
Desinteresse pelos estudos, desafio às regras,
discussões com adultos, agressividade e suspensões
por mau comportamento eram frequentes na vida
do jovem, e sempre culminavam com a expulsão
dos colégios em que estudava.
Os atos de vandalismo, como pichação de muros
da vizinhança e pequenos furtos, também estavam
presentes, sempre acompanhados por uma turma de
amigos. Na semana anterior, Tito agredira a mãe
com um violento tapa no rosto, após discussão
motivada pelo afogamento intencional do cachorro
da família na piscina de casa, morto pelo
adolescente.
Esse caso exemplifica a evolução de um quadro
comportamental iniciado pelo menos oito anos
antes dessa situação atual. Estou falando do
transtorno de conduta, uma condição
comportamental muito grave e considerada um
quadro evolutivo do transtorno desafiador
opositivo.
Esse transtorno é um conjunto de alterações
comportamentais apresentadas por algumas crianças
e adolescentes, marcado por conduta agressiva,
desafiadora, antissocial, em que os direitos básicos
alheios, regras e normas sociais são violados. Trata-
se de um quadro mais grave quando comparado ao
transtorno desafiador opositivo, sendo responsável
por frequente encaminhamento aos serviços de
saúde mental da infância e adolescência.
Mais predominante no sexo masculino, acredita-
se que aproximadamente 9% dos meninos e 4% das
meninas com menos de 18 anos tenham o
transtorno. Os meninos apresentam os sintomas
mais precocemente, entre os 10 e 12 anos de idade,
e as meninas normalmente entre os 12 e 16 anos.
Os sintomas do transtorno de conduta são mais
frequentes nos adolescentes de sexo masculino,
sendo a agressão física contra colegas e os problemas
de relacionamento as características iniciais do
transtorno.
Observamos diariamente nos noticiários policiais
exemplos clássicos de comportamento
delinquencial, jovens que depredam e destroem
patrimônio público, picham muros, furtam carros e
se envolvem em brigas em bares, boates e eventos
sociais, ou ainda jovens de classe média que furtam
residências e entram para o tráfico de drogas.
Muitos desses jovens apresentam o transtorno de
conduta.
A violação de regras é o componente marcante
desse transtorno. Jovens com esse problema
apresentam comportamento antissocial, com
agressão física e comportamento cruel com outras
pessoas e animais.
Não demonstram sentimento de culpa ou
remorso pelos seus atos, são negativistas,
desafiadores, hostis e podem realizar atos de
vandalismo, roubos e destruição de patrimônio
alheio. Furtos frequentes em lojas de departamentos
ou de objetos pessoais de colegas em sala de aula,
além de violência e intimidações contra outros
estudantes, podem ser observados em quadros
iniciais do transtorno de conduta.
Com frequência apresentam dificuldades em
interações sociais e possuem poucos amigos, e os
sintomas de baixa autoestima, baixa tolerância à
frustração, irritabilidade e explosões de raiva
normalmente estão presentes. Todos esses fatores
culminam em comportamentos delinquenciais,
provocações de brigas corporais em ambiente
escolar ou na rua, inclusive com a utilização de
armas como faca, bastão ou arma de fogo.
Descrevo a seguir os critérios diagnósticos
segundo o Manual Diagnóstico Estatístico dos
Transtornos Mentais da Associação Americana de
Psiquiatria (American Psychiatry Association) para
o transtorno de conduta:

A. Um padrão repetitivo e persistente de


comportamento, no qual são violados os direitos
básicos dos outros ou normas ou regras sociais
importantes apropriadas à idade, manifestado pela
presença de três (ou mais) dos seguintes critérios
nos últimos 12 meses, com pelo menos um critério
presente nos últimos seis meses:
(1) frequentemente provoca, ameaça ou
intimida outros
(2) frequentemente inicia lutas corporais
(3) utilizou uma arma capaz de causar sério
dano físico a outros (por exemplo, bastão,
tijolo, garrafa quebrada, faca, arma de fogo)
(4) foi fisicamente cruel com pessoas
(5) foi fisicamente cruel com animais
(6) roubou com confronto com a vítima (por
exemplo, bater carteira, arrancar bolsa, extorsão,
assalto à mão armada)
(7) forçou alguém a ter atividade sexual consigo
(8) envolveu-se deliberadamente na provocação
de incêndio com a intenção de causar sérios
danos
(9) deliberadamente propriedade alheia
(10) arrombou residência, prédio ou automóvel
alheios
(11) mente com frequência para obter bens ou
favores ou para evitar obrigações legais
(12) roubou objetos de valor sem confronto
com a vítima (por exemplo, furto em lojas, mas
sem arrombar e invadir; falsificação)
(13) frequentemente permanece na rua à noite,
apesar de proibições dos pais, iniciando essa
prática antes dos 13 anos de idade
(14) fugiu de casa à noite pelo menos duas vezes
enquanto vivia na casa dos pais ou lar adotivo
(ou uma vez, sem retornar por um extenso
período)
(15) frequentemente gazeteia a escola, iniciando
essa prática antes dos 13 anos de idade
B. A perturbação no comportamento causa
prejuízo clinicamente significativo no
funcionamento social, acadêmico ou ocupacional.
C. Se o indivíduo tem 18 anos ou mais, não são
satisfeitos os critérios para o transtorno da
personalidade antissocial.
Especificar tipo com base na idade de início:
Tipo com início na infância: Início de pelo
menos um critério característico de transtorno de
conduta antes dos 10 anos de idade.
Tipo com início na adolescência: ausência de
quaisquer critérios característicos de transtorno de
conduta antes dos 10 anos de idade.

Especificar gravidade:
Leve: poucos problemas de conduta, se existem,
além daqueles exigidos para fazer o diagnóstico, e
problemas que causam apenas um dano pequeno a
outros.
Moderado: número de problemas de conduta e o
efeito sobre outros são intermediários, entre “leve” e
“severo”.
Severo: muitos problemas de conduta além
daqueles exigidos para fazer o diagnóstico ou
problemas de conduta que causam dano
considerável a outros.
Na escola

Na escola, o desempenho está comprometido na


maioria das vezes, pois ele não participa das aulas,
não realiza trabalhos ou deveres escolares. Entre
esses alunos são grandes as incidências de abandono
e reprovações.
Pode ser observada uma postura agressiva contra
outros estudantes. Intimidações, ameaças e
agressões físicas, verbais e morais ocorrem com
frequência, sendo caracteristicamente autores de
bullying no ambiente escolar. Agressão contra
professores e funcionários da escola também são
comuns.
Mentiras, fugas, destruição de carteiras, roubo e
furto de objetos pessoais de colegas de sala de aula,
uso de álcool e de outras drogas e formação de
verdadeiras gangues de jovens também podem
ocorrer na escola que frequentam.
Transtorno de conduta na escola

Mentiras.
Brigas corporais.
“Matar aula”.
Destruição de carteiras.
Roubo de material escolar.
Agressividade e ameaças contra professores e
alunos.
Hostilidade com colegas de turma.
Consumo de álcool e de outras drogas.
Desempenho escolar fraco.
Isolamento social.
Praticante de bullying.

Assim como no transtorno desafiador opositivo,


não existe uma causa específica para o transtorno de
conduta e acredita-se que vulnerabilidades genéticas
estariam associadas a fatores ambientais ou
estressores sociais que funcionariam como
desencadeadores do transtorno.
Esses estressores sociais frequentemente
envolvidos no desencadeamento do transtorno de
conduta estão ligados a ambientes familiares
caóticos, com a presença de violência doméstica
representada por pais agressivos, negligentes e
ausentes. Esses fatos colaboram para a criação de
um modelo comportamental nos filhos, que passam
a apresentar comportamento semelhante no
ambiente escolar e em situações sociais de modo
geral.
Famílias instáveis com brigas conjugais, pais
abusadores de álcool ou de outras drogas e abuso
físico ou sexual na infância também podem
contribuir para o desenvolvimento do transtorno de
conduta. Esse transtorno também se apresenta mais
comumente nas classes socioeconômicas menos
favorecidas, onde a violência pode estar mais
presente.
Outros transtornos comportamentais na infância
e na adolescência apresentam-se frequentemente
associados ao transtorno de conduta, sendo os mais
comuns os transtornos do humor, transtornos
ansiosos, transtornos por uso de drogas e o
transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, a
principal condição associada, estando presente em
até 70% dos casos.
Alguns fatores são considerados de mau
prognóstico ao transtorno de conduta, como início
precoce dos sintomas, baixo nível intelectual e
econômico, falta de apoio familiar, envolvimento
judicial precoce, grande agressividade, uso de
álcool, drogas e a associação com outros transtornos
comportamentais.
O transtorno de conduta está relacionado com
maior risco de criminalidade na idade adulta, uso
abusivo de drogas, menos anos de educação, índices
mais elevados de desemprego e prejuízos nos
relacionamentos sociais.
O curso desse transtorno é variável, podendo
regredir ou continuar na idade adulta. Nos casos
em que há continuação dos sintomas, a evolução
para a dependência química de drogas e para o
transtorno de personalidade antissocial pode ocorrer
com frequência. Alguns estudos referem que cerca
de 40% dos adolescentes com transtorno de
conduta evoluem para o transtorno de
personalidade antissocial na idade adulta.
Quanto mais precocemente o adolescente é
diagnosticado e devidamente tratado, maiores serão
as chances de ser reintroduzido e readaptado ao
convívio em sociedade.
Nos casos graves de transtorno de conduta a
possibilidade de sanções legais através do Juizado
da Infância e da Adolescência e do Conselho
Tutelar pode contribuir para o desencorajamento
de comportamentos de má conduta na
adolescência.
CAPÍTULO 6

TRANSTORNO DE
PERSONALIDADE
ANTISSOCIAL

O termo “personalidade” é definido como a


somatória de traços emocionais e comportamentais
que caracterizam a pessoa em sua vida cotidiana. O
transtorno de personalidade é uma variação desses
traços de caráter, destoando de maneira geral do
comportamento da maioria das pessoas. Essa
alteração dos traços da personalidade causa uma
mudança no funcionamento social da pessoa, o que
leva a um padrão estranho, inflexível e mal-ajustado
de relacionamento.
O transtorno de personalidade antissocial,
também conhecido como sociopatia ou psicopatia,
se refere às pessoas adultas que praticam atos
ilícitos, criminosos, e que apresentam uma
incapacidade de respeitar normas e regras sociais.
Muito importante salientar que o sociopata ou
psicopata não possui deficiência intelectual; pelo
contrário, é muito inteligente e utiliza dessa
capacidade intelectual, muitas vezes acima da
média, para ludibriar e enganar outras pessoas.
Também não apresenta alucinações ou delírios,
característicos dos portadores de esquizofrenia.
O transtorno de personalidade antissocial está
presente em até 3% dos homens e 1% das
mulheres, sendo mais prevalente em áreas urbanas
pobres. Alguns estudos descrevem que pessoas com
o transtorno de personalidade antissocial podem
representar até 75% da população carcerária.
Estudos científicos identificam uma questão
biológica importante ao descrever que o transtorno
da personalidade antissocial é mais comum entre
membros da mesma família, principalmente ao
encontrar maior concordância entre parentes de
primeiro grau de indivíduos com o transtorno do
que na população geral.
Outros estudos constatam que o ambiente
doméstico também influencia no aumento do risco
de desenvolvimento dessa alteração de
personalidade. Assim como no transtorno
desafiador opositivo e no transtorno de conduta,
lares hostis, agressivos e violentos estão mais
relacionados com o desenvolvimento do transtorno
de personalidade antissocial. Aliás, a presença dessas
condições comportamentais na infância e na
adolescência é considerada fator de risco para a
personalidade antissocial, sendo o transtorno de
conduta um preditor importante, visto que pode
evoluir para esse transtorno de personalidade em
mais de um terço dos casos, enquanto que o
transtorno desafiador opositivo está diretamente
relacionado com o transtorno de personalidade
antissocial em até 10% dos casos.
Esses pacientes podem apresentar um
comportamento agradável, sedutor e cativante, mas
que esconde uma personalidade manipuladora,
adversa e egoísta. São muito inteligentes e possuem
alto poder de convencimento, sendo capazes de
atrair suas vítimas para esquemas fraudulentos ou
atos criminosos graves, enganando e ludibriando
para tirar proveito próprio. Grandes vigaristas,
golpistas, estelionatários e falsários ilustram bem
esse perfil psicológico. Essas pessoas são
consideradas “frias”, calculistas, e apresentam uma
ausência completa de remorso por seus atos.
Mentiras, irritabilidade, agressividade e brigas
corporais são outras características observadas no
transtorno de personalidade antissocial.
Seus relacionamentos amorosos são superficiais,
egoístas, e o abandono de seus pares ocorre
frequentemente. Quando possui filhos, o sociopata
pode demonstrar uma postura autoritária,
negligente, irresponsável e inconsequente.
A seguir, descrevo os critérios diagnósticos
segundo o Manual Diagnóstico Estatístico dos
Transtornos Mentais da Associação Americana de
Psiquiatria (American Psychiatry Association) para
o transtorno de personalidade antissocial:

A. Um padrão invasivo de desrespeito e violação


dos direitos dos outros, que ocorre desde os 15
anos, como indicado por pelo menos três dos
seguintes critérios:
(1) fracasso em conformar-se às normas sociais
com relação a comportamentos legais, indicado
pela execução repetida de atos que constituem
motivo de detenção
(2) propensão para enganar, indicada por
mentir repetidamente, usar nomes falsos ou
ludibriar os outros para obter vantagens
pessoais ou prazer
(3) impulsividade ou fracasso em fazer planos
para o futuro
(4) irritabilidade e agressividade, indicadas por
repetidas lutas corporais ou agressões físicas
(5) desrespeito irresponsável pela segurança
própria ou alheia
(6) irresponsabilidade consistente, indicada por
um repetido fracasso em manter um
comportamento laboral consistente ou honrar
obrigações financeiras
(7) ausência de remorso, indicada por
indiferença ou racionalização por ter ferido,
maltratado ou roubado outra pessoa
B. O indivíduo tem no mínimo 18 anos de
idade.
C. Existem evidências de transtorno de conduta
com início antes dos 15 anos.
D. A ocorrência do comportamento antissocial
não se dá exclusivamente durante o curso de
esquizofrenia ou episódio maníaco.

O curso do diagnóstico é crônico, podendo


ocorrer diminuição dos sintomas com o avanço da
idade. Condições associadas, como uso abusivo de
álcool e outras drogas, ocorrem com frequência,
além de quadros depressivos.
O tratamento é muito difícil, visto que esses
pacientes dificilmente buscam ou aceitam auxílio
médico e psicológico, pois não conseguem
identificar seu comportamento como problemático.
Entretanto, poderiam se beneficiar de intervenções
psicoterapêuticas e medicamentos para controle da
agressividade, ansiedade ou depressão.
CAPÍTULO 7

SKINNER E AS TÉCNICAS
COMPORTAMENTAIS

Natural do estado americano da Pensilvânia, B. F.


Skinner foi um psicólogo influente, defensor de
reformas sociais, pesquisador da Universidade de
Harvard e considerado o criador do chamado
behaviorismo radical.
Skinner realizou estudos importantes na área da
análise do comportamento e descreveu o
aprendizado como uma causa desse
comportamento, considerando a possibilidade de
modificá-lo à medida que aprendemos. Ele afirmava
que essa aprendizagem do ser humano poderia ser
realizada a partir de estratégias de recompensa e
punição para a modificação do comportamento,
denominado de condicionamento operante.
Skinner acreditava que o comportamento
humano poderia ser modulado basicamente por
essas estratégias, também chamadas de reforçadores
positivos, isto é, as pessoas seriam capazes de
aprender melhor através de recompensas ou
premiações por seu comportamento. Defendia
também que o ser humano, ao ser punido, seria
capaz de aprender a evitar determinado
comportamento, embora acreditasse que
reforçadores positivos eram bem mais eficientes.
Seus pensamentos influenciaram
consideravelmente a educação e a medicina do
comportamento, e Skinner foi inclusive consultor
do Departamento de Educação dos Estados
Unidos.
As técnicas comportamentais abordadas neste
capítulo são direta ou indiretamente relacionadas
aos estudos realizados pelo professor Skinner e sua
equipe entre as décadas de 1950 e 1990; repetidas,
experimentadas e utilizadas até hoje com muito
sucesso em todo o mundo. Estudos publicados nos
Estados Unidos e em países da Europa mostram
que há uma redução entre 50% e 90% dos
problemas comportamentais infantis relacionados
com indisciplina, desafio e oposição às regras com a
utilização desses métodos, sendo essas intervenções
muito eficientes para auxiliar na melhoria do
comportamento do seu “reizinho” ou
“rainhazinha”.
Essas estratégias são também baseadas no
excelente trabalho do psicólogo cognitivo-
comportamental americano Lynn Clark, professor
emérito de psicologia na Western Kentucky
University.

Premiação de comportamentos positivos


Uma primeira regra para estimular o bom
comportamento da criança é premiar
comportamentos positivos. Essa técnica parte do
princípio de que todo comportamento estimulado,
elogiado ou reforçado terá probabilidade
aumentada de vir a se repetir no futuro.
Mas quais prêmios ou recompensas podem ser
oferecidos às crianças e aos adolescentes? Bem, será
muito importante que esse prêmio seja motivador, e
a criança e o adolescente precisam se sentir atraídos
por essa premiação, que poderá ser, por exemplo,
um abraço, um beijo, um elogio, um carinho ou
frases de incentivo (“parabéns”; “bom trabalho”;
“continue assim”).
Certos privilégios ou prêmios poderão ser
oferecidos, como assistir à televisão por mais tempo,
horário extra no computador, sair para comer uma
pizza, ir ao cinema, ou mesmo um presente, como
um brinquedo, jogos, um chocolate ou um DVD
novo.
Partindo desse princípio comportamental de que
todo comportamento estimulado tem suas chances
aumentadas de se repetir no futuro, elogios do tipo
“Parabéns, Isabela, você guardou sua mochila no
armário!” aumentam as chances de Isabela guardar
sua mochila no dia seguinte, por exemplo.
Desta forma, o objetivo será elogiar
comportamentos positivos para que venham a se
repetir e passem, no decorrer do tempo, a fazer
parte da vida da criança, tornando-se um
comportamento automático!
O grande problema é que muitas vezes pais
acabam por “premiar” maus comportamentos e
depois não entendem o porquê da repetição e
perpetuação dessa conduta. Eis um exemplo:
Camila, 7 anos, está assistindo à televisão e começa
a chorar compulsivamente depois que dona Maria,
sua mãe, diz que está na hora de ir para a cama;
afinal, amanhã é dia de aula e a pequena Camila
precisa acordar cedo. Como a filha não para de
chorar, dona Maria diz:
— Não precisa chorar desse jeito, Camilinha,
tudo bem... Você pode assistir mais trinta minutos
de televisão, Ok?
Dessa maneira, dona Maria está acidentalmente
premiando a choradeira da pequena Camila.
Provavelmente, da próxima vez que desejar algo, a
criança repetirá o chororô, comportamento
anteriormente “premiado” com os trinta minutos
extras de televisão, e o problema poderá se tornar
cada vez pior com as sucessivas desautorizações de
dona Maria.

Método de economia de fichas

Uma maneira interessante de aplicar esse conceito


de premiação para estimular comportamentos
positivos na criança é a aplicação da chamada
“tabela de economia de fichas”.
Trata-se de um método comportamental
eficiente em que uma tabela contendo
comportamentos-alvo a serem estimulados na
criança é criada. Será muito importante que os itens
da tabela sejam colocados de uma forma assertiva e
positiva. Por exemplo: “Isabela, mantenha seu
quarto arrumado!”, em vez de “Isabela, não
bagunce seu quarto”.
Esses comportamentos são colocados em um
calendário semanal, e cada item da tabela receberá
uma nota no fim do dia: 1 ponto, caso o
comportamento adequado tenha sido realizado
corretamente, e 0 ponto, caso o comportamento
não tenha sido realizado.
A pontuação pode ser realizada de diferentes
formas. Por exemplo: desenho de um rosto feliz
com caneta verde para comportamento positivo e
rosto triste com caneta vermelha para o não
cumprimento do combinado em cada item. A
tabela contará com os sete dias da semana, e a
criança que alcançar determinado número de
pontos no fim da semana, após a somatória de
todos os itens, poderá ser premiada ou não,
conforme o combinado.
A tabela pode ser afixada na geladeira de casa,
por exemplo, e a pontuação diária deve ser realizada
pelos pais na presença da criança. Desta forma, os
pais poderão mostrar à criança o motivo para o
ganho de pontuação ou não de cada item. Essa
tabela deverá ser trocada semanalmente. Itens
poderão ser mantidos, trocados ou acrescentados no
decorrer das semanas, conforme a necessidade. Vide
exemplo de uma tabela de economia de fichas no
Apêndice I.
Para esse reforçador positivo surtir efeito, a
técnica deve ser realizada ininterruptamente por
pelo menos 6 semanas. Além da possibilidade de
premiação semanal, a criança que for premiada
poderá receber uma ficha de plástico no fim dessa
semana, que poderá ser guardada em um pote, por
exemplo. Os pais podem combinar que, ao adquirir
um determinado número de fichas, estas poderão
ser trocadas por um outro prêmio escolhido entre
opções do menu de recompensas criado pelos pais.
Veja no Apêndice II um exemplo de menu de
recompensas.
A técnica de economia de fichas é semelhante à
conduta de professores que oferecem “pontos
positivos” para os alunos que realizam um
determinado trabalho ou se comportam
adequadamente na sala de aula.
Um mito relacionado com a tabela de economia
de fichas frequentemente me é indagado no
consultório:
— Doutor, não posso fazer isso com o Marcelo,
pois desta forma estarei comprando meu filho!
Bem, ao aplicar a tabela de economia de fichas,
você estará ensinando ao seu filho conceitos
importantes de relacionamento e de regras sociais.
Nesse caso, Marcelo precisa saber que todo
comportamento traz consequências e que, para ser
“premiado”, precisa colaborar com os pais. Da
mesma forma que ao conseguir um trabalho
quando adulto, o pequeno Marcelo precisará
cumprir suas obrigações para receber no fim do mês
o tão esperado “prêmio”, seu salário. Para aqueles
pais que consideram uma “compra” de
comportamento, faço a seguinte proposta:
aceitariam trabalhar de graça em uma empresa?

Erros na aplicação da tabela de economia de


fichas

Alguns erros frequentes podem inviabilizar o


sucesso da técnica. Eis os principais:

A criança manipula os pais e recebe pontos por


comportamentos não cumpridos.
A criança executa o comportamento desejado
parcialmente e recebe o ponto ou a metade da
pontuação.
A criança não atinge a pontuação mínima para
premiação, entretanto recebe a recompensa.
Os pais não se organizam, não preenchem a
tabela corretamente e não mostram à criança os
motivos do não recebimento dos pontos.

Contratos pais-filho

Muitas vezes, quando lido com crianças opositivas e


desafiadoras, costumo propor um acordo escrito
entre os pais e a criança. O objetivo do contrato é
auxiliar na resolução de um problema específico de
comportamento através de sua documentação
utilizando-se uma linguagem objetiva e simples.
Inicialmente, os pais devem se sentar com a criança,
conversar e identificar uma situação problemática.
Essa questão é discutida, e a solução do problema é
negociada entre ambas as partes. A partir daí, o
contrato poderá ser escrito e assinado por todos.
Evite a escolha de problemas difíceis de
mensurar. Por exemplo: “Felipe deve melhorar seu
comportamento.” O problema a ser resolvido deve
ser específico, por exemplo: “Marcelo deve manter
seu quarto arrumado, livros na estante, roupas e
brinquedos guardados no armário”; ou “Rafael deve
chegar das festas aos sábados até meia-noite”; ou,
ainda: “Ângela deve realizar os deveres de casa
diariamente às 15 horas.”
Da mesma forma, o contrato deve exigir
compromissos e deveres de ambas as partes. Nos
exemplos acima, os pais poderiam ter os seguintes
deveres respectivamente: os pais de Marcelo se
comprometem a permitir que ele brinque no
computador diariamente até as 19 horas; os pais de
Rafael se comprometem a permitir que ele
frequente as festas aos sábados à noite; os pais de
Ângela permitem que ela brinque na casa de sua
vizinha e escute MP3 após o horário de estudo.
O não cumprimento do contrato resultará em
penalidades descritas nele. Após a assinatura do
contrato, mantenha uma cópia com a criança e
guarde outra em um local de fácil acesso a todos da
casa, em um quadro de avisos ou afixado na
geladeira, por exemplo.
Veja exemplo de um contrato pais-filho no
Apêndice III.

Método de antecipação de problemas

Uma estratégia importante no manejo de


comportamentos ligados à indisciplina pode ser a
antecipação de mau comportamento. Uma vez que
os pais já identificam problemas em situações
específicas, eles podem determinar regras e alertar a
criança ou adolescente sobre isso, antecipando e
prevenindo futuras situações problemáticas.
Por exemplo: a mãe de Nicolau, 10 anos de idade,
o leva a uma festinha de aniversário. Antes de
chegar ao local do evento, ela poderá estabelecer
regras de conduta com o pequeno Nicolau, um
plano de comportamento que deverá ser
compartilhado com a criança sobre como se
comportar nesse ambiente, antecipando situações
problemáticas ocorridas no passado. No caso,
Nicolau havia brigado com um aniversariante em
uma festa na semana anterior, após ter enfiado o
dedo indicador no meio do bolo, além de não ter
aceitado brincar com outros colegas durante a
mesma festa.
Assim, a mãe de Nicolau relembrou as situações
problemáticas ocorridas na última festa, orientou
sobre o comportamento esperado do filho para esse
novo evento e o alertou de que o não cumprimento
desse plano resultará em consequências, como a
utilização de técnicas punitivas, como castigo,
perda de privilégios ou prêmios.
Portanto, pais que dialogam com seus filhos de
forma clara e objetiva, orientando, explicando e
estimulando comportamentos desejáveis, aumentam
as chances de sucesso dessa técnica comportamental!
No caso de Nicolau, sua mãe o elogiou muito
quando foram embora da festa, pois nesse dia seu
comportamento foi exemplar.
Métodos de punição comportamental

Em algumas situações os pais podem e devem


utilizar métodos de punição branda por mau
comportamento. Claro que premiar o bom
comportamento pode parecer mais interessante para
muitos pais, entretanto a punição de mau
comportamento será necessária e deverá ser
utilizada em determinados casos.
Existem diversos tipos de punições, e em nenhum
caso serão utilizadas punições físicas, condutas
agressivas ou ameaças. Punições físicas apenas
ensinam às crianças e aos jovens que todo problema
pode ser resolvido com violência, e esse estilo de
comportamento dos pais será ensinado aos filhos.
Vale a pena lembrar que muitas crianças e
adolescentes se mostram agressivos e violentos na
escola porque aprenderam esse padrão de
comportamento com os pais.
Basicamente, gostaria de descrever seis técnicas de
punição que podem e devem ser utilizadas para a
correção de comportamentos desobedientes,
desafiadores e opositivos. Os estudos científicos
demonstram que esses métodos são muito
eficientes, principalmente se aplicados em conjunto,
utilizando muito bom senso e seguindo os
conselhos e dicas sugeridos no capítulo seguinte, o
Guia dos Pais.

Broncas e desaprovação

Uma maneira interessante de aplicar disciplina será


a utilização de punições brandas, como broncas e
desaprovações, a comportamentos errados da
criança. Muitos pais, ao tentar coibir indisciplinas
dos filhos, caem em um grande erro: tornam-se
irritados, agressivos e acabam gritando, ofendendo,
ameaçando ou discutindo com a criança.
Seja calmo, breve, enfático e objetivo na
orientação ao filho ou filha. Muitos pais que se
propõem a dar uma bronca iniciam um verdadeiro
sermão, transformando-se em verdadeiros
pregadores, e passam a reclamar de diversas coisas,
realizando julgamentos e declamando uma série de
queixas que não têm nada a ver com o motivo da
bronca, como no exemplo a seguir da pequena
Flávia:
Flávia, 8 anos, brigou com a irmã mais nova, e a
mãe lhe deu uma bronca:
— Você brigou com sua irmã, não pode... E olhe
seu quarto, está uma bagunça: tem roupa para
todos os cantos... Olhe seus brinquedos, todos
quebrados, porque você é descuidada. Ah, e na hora
do banho é sempre a mesma coisa, você não me
obedece...
Esse tipo de bronca não se mostra eficaz, pois
prejudica e dificulta o entendimento da criança,
que no fim dessa história nem se lembra do motivo
inicial da desaprovação.
Outra questão importante será enfatizar ao filho
que você está desapontado ou chateado com o
comportamento ou atitude dele e não exatamente
com ele. Isso, na verdade, tem uma grande
diferença, pois muitos pais costumam criticar o
caráter ou a personalidade da criança, prejudicando
imensamente sua autoestima. Também evite
comparações entre irmãos ou com colegas da
criança. Eis outro exemplo:
Em vez de dizer: “Hélcio, você não estudou para
a prova, só tira nota baixa, o Fabiano é melhor que
você... você só faz coisa errada”, diga: “Hélcio, você
precisa estudar mais para se dar bem na prova.
Vamos lá, você consegue!”

Consequências naturais por mau


comportamento

Em determinadas situações os pais podem permitir


que consequências naturais por indisciplina ou
desrespeito às regras ocorram e assim mostrar à
criança o resultado negativo de seu comportamento.
Por exemplo: Isabel, 10 anos, briga com suas
colegas durante o treino de futsal; provavelmente
ela vai experimentar a rejeição delas no próximo
encontro.
Fabiano, 9 anos, desmonta e quebra seu
videogame intencionalmente; ele pode vivenciar a
consequência natural de ficar sem o brinquedo, sem
tê-lo substituído pelos pais. João, 15 anos, quebrou
o aparelho celular ao arremessá-lo contra a parede,
durante um momento de raiva e descontrole após
uma briga com a namorada. Ele vivenciará a
consequência natural de ficar sem um aparelho
celular!
Portanto, pais, não premiem esses
comportamentos negativos com outro videogame
ao Fabiano ou com um novo aparelho celular ao
João!

Consequências lógicas por mau


comportamento
Outra forma de punição ao mau comportamento
será a aplicação de consequências lógicas por
atitudes opositivas, desafiadoras e desobedientes.
Por exemplo: Gustavo, 7 anos, andou de bicicleta
na rua, desrespeitando a regra de pedalar apenas na
calçada; consequência lógica: foi proibido de usar a
bicicleta por uma semana. Renata, 6 anos, estava se
recusando a escovar os dentes; foi proibida de
comer balas e chocolate até que iniciasse o hábito
de escovação diário. Eduardo, 9 anos, não aceita
comer verduras e legumes; consequência lógica:
enquanto não se alimentar corretamente, não tem
direito a comer sobremesa.
Penalidades por mau comportamento

Determinadas atitudes da criança podem merecer


penalidades específicas, mas que não tenham
relação direta com o mau comportamento. Por
exemplo, Rachel, 11 anos, xingou e bateu no irmão
mais novo; penalidade: Rachel está proibida de
assistir à televisão por um dia. Aline, 10 anos, se
recusou a arrumar seu quarto: foi penalizada com a
proibição de brincar na casa de sua amiga naquela
tarde. Roberta, 14 anos, não realizou seus deveres
de casa; penalidade: seu iPod ficou retido por um
dia.
É muito importante que os pais apliquem
penalidades que tenham um significado para a
criança, pois de nada adiantaria retirar o iPod da
Roberta se ela raramente escutasse músicas, por
exemplo.
Também evite aplicar penalidades do tipo: “Você
está proibido de assistir à televisão por um ano.” A
penalidade deve ter um significado de perda
imediata para a criança ou o adolescente. Se for
aplicada por um extenso período de tempo,
provavelmente o jovem esquecerá inclusive o que a
motivou.
Além disso, muitos pais se desautorizam e
“reduzem” a penalidade posteriormente. Sendo
assim, valem dois novos lembretes: nunca se
desautorize e nunca determine um castigo que você
não poderá cumprir.
Canto do castigo

Essa técnica punitiva significa uma rápida


interrupção das atividades que estavam sendo
realizadas por seu filho. Ele é colocado nesse local
“chato” imediatamente após o mau
comportamento, permanecendo sentado em um
banquinho, longe da televisão, logicamente, ou de
qualquer fonte estimulatória, brinquedo ou jogo, e
deverá permanecer pelo tempo de um minuto para
cada ano de idade.
Um despertador deve ser colocado nesse local
para cronometrar os minutos do castigo, e a criança
poderá sair do castigo apenas após o disparo do
despertador. Durante o período em que a criança
estiver de castigo, ignore seus pedidos, perguntas e
reclamações: ela deve aprender que somente
receberá atenção após o despertador tocar. A técnica
mostra-se muito eficaz com crianças entre 3 e 11
anos de idade, e a criança deve ser estimulada a
pensar durante o castigo sobre seu mau
comportamento e sobre a consequência aplicada.
Caso seja preciso colocar dois ou mais filhos no
canto do castigo simultaneamente, em caso de uma
briga entre eles, por exemplo, opte por locais
diferentes, onde um não tenha contato com o
outro. Muito importante: nunca coloque o canto
do castigo no próprio quarto da criança, pois, como
descrito anteriormente, este local deve ser
considerado “chato” e “sem nada para fazer”.
O canto do castigo deve ser também um local
seguro e bem-iluminado. Eu me lembro de um caso
em que a mãe colocou a filha na garagem escura,
localizada nos fundos da casa. Bem, o objetivo do
canto do castigo não é apavorar a criança, e sim
deixá-la em um local “chato” para interromper
imediatamente o mau comportamento e para que
ela possa pensar sobre o ocorrido.
Para a utilização de qualquer técnica
comportamental de disciplina, as “regras do jogo”
devem ser explicadas à criança. Nesse caso, ela deve
saber como irá funcionar o método, os motivos e
objetivos da utilização do canto do castigo e sobre o
despertador para o controle do tempo. Quando
ocorrer o mau comportamento, a criança já saberá a
respeito da possível consequência de seu ato, a
punição, portanto não grite com ela, apenas a
encaminhe ao canto do castigo.
O canto do castigo tem dois objetivos principais:
interromper o problema comportamental
imediatamente e, no longo prazo, ensinar a criança
a se disciplinar. Essa técnica é fácil de ser aplicada
pelos pais, é um modelo racional e pacífico, capaz
de interromper muitos tipos de mau
comportamento, favorece o diálogo entre a criança
e seus cuidadores, promovendo o entendimento e a
aprendizagem dela sobre regras e consequências de
seus atos.
O canto do castigo pode ter uma utilização
semelhante para interromper, por exemplo, a briga
entre dois irmãos pela disputa de um brinquedo ou
jogo de computador. Nesse caso, o brinquedo ou o
jogo de computador pode ser colocado no canto do
castigo. Observe os seguintes casos:
Letícia, 9 anos, e o irmão José Carlos, 6, brigam
por um boneco. A mãe das crianças recolhe o
boneco e o coloca em cima da geladeira,
juntamente com o despertador, marcando nove
minutos no cronômetro. Ela repetirá essa ação, caso
a briga e disputa pelo boneco se repita.
Anderson, 11 anos, e Carol, 10, brigam para
jogar o novo videogame que ganharam da avó. O
pai desliga o aparelho e coloca o despertador em
cima da televisão, cronometrando 11 minutos até
despertar. Ele poderá repetir o procedimento caso o
problema venha a ocorrer novamente.

Erros na aplicação do canto do castigo:

Erro Nº1
Nunca converse ou discuta com a criança durante
a aplicação do canto do castigo. Imediatamente
após o mau comportamento, direcione-a ao castigo
e a ignore até que o despertador toque. Algumas
crianças permanecem gritando ou chorando durante
esse período; na verdade, elas desejam atenção dos
pais, portanto ignore a tentativa de manipulação da
criança até o fim do castigo.
Erro Nº 2
Nunca utilize o quarto da criança ou outro local
interessante para o canto do castigo. Opte pelo
banheiro, sala ou outro local “chato”.
Erro Nº 3
Nunca realize ameaças ou intimidações de que a
colocará no canto do castigo, efetivamente utilize a
técnica todas as vezes que o mau comportamento
ocorrer.
Erro Nº 4
Nunca utilize períodos muito longos para o
canto do castigo, utilize sempre 1 minuto para cada
ano de idade da criança.
Erro Nº 5
Não crie um ambiente hostil para o canto do
castigo, que não é um local para amedrontar a
criança, mas apenas um local “chato” para
interromper imediatamente o mau comportamento
e fazê-la pensar sobre o ocorrido e sobre as
consequências de seus atos.
Erro Nº 6
Não se desautorize. Muitas vezes os pais são
coagidos a retirar a punição por recusa da criança
em cumprir o castigo. Por se tratar de uma criança
opositiva, desobediente e desafiadora, será possível
que ela se rebele contra o canto do castigo e grandes
serão as chances de ela tentar impedir que você seja
um pai ou mãe que imponha limites. Portanto, se a
criança se recusar a ir para o canto do castigo, faça o
seguinte: para uma criança com menos de 4 anos de
idade, carregue-a até o canto do castigo e seja
enfático na imposição da regra. Caso a criança
tenha entre 5 e 12 anos de idade, informe que a
recusa de ir imediatamente ao canto do castigo
resultará no acréscimo de 1 minuto para cada 10
segundos de demora para o cumprimento da
punição. Acrescente os minutos de punição e, se
mesmo assim a criança continuar a se recusar a
cumpri-la, anuncie que esse comportamento
resultará em uma penalidade, como descrito
anteriormente neste capítulo. Acrescente a
penalidade combinada.
Caixa do castigo

Uma outra estratégia semelhante será a criação de


uma “caixa do castigo”. O objetivo dessa técnica
será apreender os objetos pessoais como brinquedos,
jogos e roupas que a criança deixa espalhados pela
casa. Por exemplo, Aline, 8 anos, espalha suas
bonecas pela casa toda e sempre apresenta
dificuldade em guardá-las quando solicitada. A mãe
coloca a caixa do castigo na sala, próximo às
bonecas, posicionando também o despertador junto
à caixa. Solicita o recolhimento de seus pertences e
cronometra 2 minutos para que Aline recolha e
guarde suas bonecas no armário. Caso Aline não
recolha as bonecas no tempo combinado, a mãe
deve recolher as bonecas deixadas no chão da sala
colocando-as na caixa do castigo. Estas são
mantidas ali até domingo, quando poderão ser
devolvidas a Aline. A conduta da mãe será refeita
caso o problema se repita.
CAPÍTULO 8

GUIA DOS PAIS

O Guia dos Pais é um conjunto de dicas e


recomendações para a promoção de um ambiente
doméstico saudável e acolhedor, visando à melhoria
da comunicação e à harmonia entre os membros da
casa, diminuindo assim as possibilidades do
desencadeamento ou piora de comportamentos
opositivos, desafiadores e desobedientes dos filhos.
Devo informar que este guia não é uma “receita de
bolo”, com todas as informações possíveis e com a
solução mágica de questões relacionadas com
indisciplina e desrespeito dos filhos, mas apresenta
ferramentas importantes para ajudá-los nessa difícil
jornada de orientação e criação.
Descrevo a seguir as 12 regras do Guia dos Pais:

1. Tenha um ambiente doméstico saudável

Uma criança que cresce em um ambiente doméstico


saudável, respeitador, com pais presentes e
participativos em sua vida, terá menores chances de
apresentar problemas relacionados com
comportamentos desafiadores, desobedientes e
opositivos.

2. Estabeleça regras e limites

Toda criança necessita de regras e limites. Parece


óbvio, mas não é exatamente o que costumo
identificar no consultório em muitos casos,
principalmente quando falo no transtorno
desafiador opositivo. Observo diariamente muitos
reizinhos, ditadores e pequenos tiranos que
dominam, manipulam e mandam nos próprios pais.
Afinal, quem está no comando? Existe uma
hierarquia nesse lar? Portanto, estabeleça as regras
da família; seus filhos precisam saber que o “rei” e
“rainha” da casa são os pais.
Para tanto, famílias que conseguem estabelecer
regras claras e objetivas de convivência facilitam o
estabelecimento de um ambiente saudável entre
pais e filhos. Crianças necessitam de regras muito
bem estabelecidas para estruturar suas vidas,
portanto os pais devem conversar entre si e dialogar
com seus filhos, estabelecendo regras, limites e
consequências de mau comportamento ou
desobediência. Essas regras podem ser discutidas em
reuniões de família, envolvendo os pais e os filhos.
As possíveis consequências por mau
comportamento devem ser realizadas, quando
necessário, como um ato de amor, e não como uma
simples punição. Atos de ameaça, revanche ou
punições físicas e morais, como humilhações, devem
ser evitados, pois não servem a nenhum propósito.
Bater na criança, por exemplo, poderia reforçar
comportamentos agressivos contra outros colegas na
escola.
Conceitos éticos e morais formados com regras
claras e objetivas favorecem a formação de
habilidades sociais importantes na criação do
caráter e serão utilizados por toda a vida.

3. Faça pedidos claros e objetivos

Frequentemente me deparo com pais que se


queixam de que seus filhos não lhes obedecem, não
cumprem suas solicitações e pedidos. Entretanto, ao
questionar por um exemplo de tais pedidos,
costumo ouvir relatos como este:
“Doutor, o Bruno tem 10 anos de idade e já
cansei de repetir antes de sair de casa: ‘Bruno,
quando eu voltar do trabalho, quero ver você de
banho tomado, Ok?’”
Nesse caso o problema está na forma como esse
comando foi feito, pois a mãe de Bruno nunca tem
hora para chegar do trabalho — às vezes ela chega
em casa às 16 horas, em outros dias chega às 18
horas e em outros às 21 horas —, portanto, ela
realiza o pedido de maneira vaga. Ora, Bruno
simplesmente não sabe o horário em que deve
tomar banho!
A provável solução desse problema de
comunicação poderia ser:
“Bruno, por favor, tome banho às 18 horas.”
Informação clara, objetiva, enunciado curto e
simples.
Outro exemplo interessante é da mãe que passa
informações excessivas e desnecessárias à criança,
como nesse exemplo:
“João Paulo, no período da tarde, quero que você
tome banho no banheiro dos fundos, pois o
encanamento do banheiro da frente estourou e o
rapaz vai consertar amanhã. Ah, e não se esqueça do
xampu azul, pois o amarelo é o antialérgico do seu
irmão, hein...”
Ufa, no fim desse pedido o pobre João Paulo não
sabe se é para tomar banho no banheiro da frente
ou se não é para tomar banho, pois o encanamento
do banheiro está quebrado, ou porque acabou o
xampu etc.
Mãe, simplifique, facilite o entendimento de seu
filho através de uma solicitação também simples e
objetiva:
“João Paulo, por favor, tome banho às 17 horas
no banheiro dos fundos e use o xampu azul.”

4. Pai e mãe devem falar a “mesma língua”

Realmente é essencial que ambos os pais concordem


na maneira de agir e lidar com seu filho. Questões
comportamentais de indisciplina estão mais
presentes, por exemplo, entre filhos de pais que
discutem, divergem e que não concordam na
maneira de educar os filhos.
As divergências entre os pais ou cuidadores
expõem fraquezas, falta de comando e descontrole,
permitindo assim que o filho os manipule à sua
maneira, da forma mais conveniente a cada
momento e em cada situação.

5. Seja um exemplo positivo e pacífico para o


seu filho

Muitos pais confundem limite e monitoramento


com intolerância, autoritarismo e violência. Na
verdade, a família é um grande modelo de
aprendizagem para a criança, ou seja, todo
comportamento apresentado pelos pais pode ser
aprendido e copiado pelo filho, que os observa a
todo momento. Pais agressivos, violentos e que
realizam ameaças aos filhos estarão ensinando esse
modelo agressivo a eles. A criança que apanha dos
pais e escuta ameaças e gritos quando é
indisciplinada, por exemplo, pode aprender esse
comportamento como correto e passar a apresentar
a mesma postura na escola, entre amigos.

6. Seja amigo de seu filho


O significado de amizade, segundo o Dicionário
Aurélio, é: “Sentimento fiel de afeição, apreço,
estima ou ternura entre pessoas.” Portanto, seja
amigo e esteja sempre presente na vida de seu filho.
Tire um tempo livre diariamente para passar alguns
momentos com seu filho ou filha. Exerça uma
atenção positiva, conversando, brincando,
praticando esportes, passeando com ele e buscando
soluções para os mais diversos assuntos.
Nesse momento, não perca tempo criticando ou
dando ordens, apenas se divirta e aprecie o
momento com seu filho. Em muitos casos de
crianças com comportamentos opositivos e
desafiadores, os pais não aproveitam o pouco tempo
que têm ao chegar do trabalho para interagir
positivamente com seus filhos e acabam por
desperdiçar um tempo precioso com brigas, críticas,
ameaças, reclamações e gritos.
Pesquisas demonstram que um bom
relacionamento entre pais e filhos é um importante
fator protetor em relação aos problemas de
comportamento. Neste sentido, posso afirmar que
uma das funções da família é dialogar, esclarecer
dúvidas, ensinar limites e ajudar a criança ou o
adolescente a lidar com frustrações. Realize
passeios, faça refeições à mesa com toda a família
sempre que possível. A integração familiar é
essencial para auxiliar na prevenção e no manejo de
problemas de indisciplina.

7. Fortaleça a autoestima de seu filho

Baixa autoestima é uma das grandes características


de crianças e adolescentes com sintomas de
oposição, desafio ou que se envolvem com drogas.
Portanto, ajude a criar uma boa autoestima em seu
filho exercendo um reforço positivo às suas atitudes
através de elogios, carinho e atenção. Nunca diga
coisas do tipo: “Você não faz nada certo” ou “Você
é pior que todo mundo na escola”.

8. Esteja atento às mudanças da adolescência

A adolescência é uma fase de grandes mudanças


físicas e comportamentais, logo, esteja preparado
para novos desafios e dificuldades na criação de seus
filhos. Situações conflituosas, brigas, novas
exigências, novas amizades e afastamento da família
podem ocorrer. Procure dialogar e entender a busca
por identidade dos filhos adolescentes.

9. Esteja atento à saúde mental de seu filho

Uma parcela importante de crianças e jovens com


problemas de indisciplina apresenta transtornos
comportamentais como depressão, quadros
ansiosos, transtorno desafiador opositivo,
transtorno de conduta ou transtorno de déficit de
atenção/hiperatividade. Na presença de prejuízos
acadêmicos e de relacionamentos sociais, procure
orientação de um médico psiquiatra especialista em
infância e adolescência para avaliação
comportamental completa. Na maioria das vezes,
uma intervenção precoce pode exercer importante
papel no tratamento desses sintomas.

10. Ensine sobre as “pressões” da juventude

A “pressão” que adolescentes vivenciam para serem


aceitos em determinados grupos é corriqueira e essa
influência é determinante em sua maneira de agir,
pensar, falar, se vestir e se comportar, por exemplo.
Essa “pressão” para ser aceito pode ser positiva
(para tirar boas notas no colégio, praticar esportes e
se tornar membro da equipe da escola) ou negativa
(“matar” aula, fumar cigarro, beber cerveja no
boteco após a aula, depredar patrimônio público ou
furtar objetos em lojas). Portanto, cabe a você
orientar seus filhos sobre a importância da
individualidade e de saber diferenciar a “pressão
positiva” da “pressão negativa” exercida pelos
amigos e colegas.

11. Estimule a prática de esportes

Estimular as práticas esportivas é uma estratégia


importante no tratamento dos problemas de
indisciplina. Através do esporte, conceitos básicos
de respeito, ética, moral, hierarquia,
companheirismo, organização, liderança,
cooperação, trabalho em equipe, competição,
aprendizagem de regras, limites, desenvolvimento
de habilidades motoras e sociais serão estimulados e
ensinados.
Esportes de luta, como judô, capoeira, tae kwon
do e jiu-jítsu, ajudam no autoconhecimento,
controle das emoções, disciplina e na inclusão
social. A autoestima da criança será protegida,
sendo o esporte considerado um fator de proteção
também ao envolvimento com álcool e outras
drogas. Além disso, praticando esportes ao lado de
seu filho, seus laços afetivos ficarão mais fortes.

12. Comunique-se com a escola


A comunicação entre pais e professores é muito
importante para a identificação e o monitoramento
do comportamento do estudante. Portanto,
comunique-se com professores e coordenadores
pedagógicos sempre que necessário. A experiência
diária de professores com o aluno poderá ser de
grande valia para a discussão e a busca conjunta por
estratégias e soluções de problemas de indisciplina
do estudante presentes tanto na escola quanto em
casa.
A utilização de uma agenda escola-casa pode ser
uma estratégia interessante de comunicação entre
pais e professores. Com a “correria” do dia a dia,
muitas vezes pais apresentam dificuldades de estar
em contato diário ou semanal com o corpo
pedagógico da escola, e essa agenda pode ser uma
bela ferramenta de comunicação.
Uma estratégia interessante para se conhecer e
posteriormente monitorar o comportamento da
criança ou adolescente na escola será por meio de
um diário escolar de comportamento, como
exemplificado no Apêndice IV. O comportamento
do estudante será estudado com o auxílio do diário
e será muito importante para o entendimento e o
planejamento de estratégias de adequação
comportamental no ambiente escolar.
APÊNDICE I.
TABELA DE ECONOMIA DE
FICHAS

NOME: Maurício, 10 anos DATA: Segunda-feira, 4


de março de 2014

COMPORTAMENTO DIAS DA SEMANA


S T Q Q S S D
1. Manter o quarto 1 1 1 0 0
arrumado
2. Comer toda a salada 0 1 0 0 1
no almoço
3. Participar 1 0 0 1 1
adequadamente das
atividades propostas
pela professora na
escola
4. Ser educado com os 1 1 1 0 1
colegas da escola
5. Realizar os deveres 1 0 1 1 0
de casa às 15 horas
6. Escovar os dentes 1 1 1 1 0
após as refeições

Comportamento positivo = 1 ponto


Comportamento negativo = 0 ponto Pontos
necessários para o prêmio semanal + 1 ficha = 25
pontos Prêmio desta semana: Ir ao aniversário do
Rafinha na lan house do tio Geraldo Adaptado de
Clark, L. SOS: Help for Parents, 2003.
APÊNDICE II.
MENU DE RECOMPENSAS

NOME: Maurício, 10 anos


DATA: Março de 2014

CUSTO EM
RECOMPENSA
FICHAS
Ir ao McDonald’s 2
Ir à sorveteria 2
Ir à lan house 4
Barra de chocolate 1
DVD novo 2
Assistir à televisão durante a 3
semana até as 21 horas
Jogar no computador por duas 3
horas durante a semana
Dormir na casa do Guilherme 2
Comprar 1 jogo de videogame 6

Adaptado de Clark, L. SOS: Help for Parents, 2003.


APÊNDICE III.
CONTRATO PAIS-FILHO

Eu, Marcelo, concordo em: manter meu quarto


arrumado, livros na estante, roupas e brinquedos
guardados no armário.

Nós, pai e mãe, concordamos em: permitir que


Marcelo brinque no computador diariamente até as 19
horas.

Caso Marcelo não cumpra sua obrigação, estará


proibido de brincar no computador até que cumpra o
que foi combinado.

DATA: 5 de março de 2014


CONTRATO TERMINA EM: 30 de maio de 2014,
podendo ser renovado.

ASSINATURAS: (Filho) (Pai) (Mãe) Adaptado de


Clark, L. SOS: Help for Parents, 2003.
APÊNDICE IV.
DIÁRIO ESCOLAR DE
COMPORTAMENTO

NOME: Ricardo, 8 anos DATA: 11 de março de 2014


SEMANA: 1

NOTAS DA
COMPORTAMENTO
SEMANA
S T Q Q S
Participação em atividades em 2
sala de aula
Qualidade do dever de casa 2

Respeito às regras na sala de 1


aula
Respeito aos funcionários da 3
escola
Comportamento no recreio 2
escolar
Comportamento com outros 1
alunos

PONTUAÇÃO TOTAL DA SEMANA: Excelente


=4
Bom = 3
Regular = 2
Insuficiente = 1

Nome do(a) professor(a): Maria Comentários sobre


o comportamento do aluno na semana:
Adaptado de Barkley, R. A. e Benton, C. M. Your
Defiant Child, 1998.
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Editora BestSeller, 2013.
O AUTOR

Dr. Gustavo Teixeira é natural de São José do Rio


Preto, no estado de São Paulo. Estudou nos
Estados Unidos, graduando-se pela South High
School, em Denver, no Colorado, local onde
aprendeu pela primeira vez sobre programas
escolares de inclusão de crianças com necessidades
especiais.
Dr. Gustavo tornou-se médico aos 25 anos e
continuou seus estudos no Instituto de Psiquiatria
da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É
também especializado em dependência química pela
Universidade Federal de São Paulo, em saúde
mental infantil pela Santa Casa do Rio de Janeiro e
possui curso de extensão em psicofarmacologia da
infância e adolescência pela Harvard Medical
School.
O médico brasileiro é mestre em educação pela
Framingham State University, nos Estados Unidos,
onde desenvolve importante trabalho de
psicoeducação nos transtornos comportamentais
infantis.
Palestrante internacional em inclusão e educação
especial, Dr. Gustavo apresentou dezenas de
workshops nos últimos anos, em países como
Austrália, Coreia do Sul, Áustria, Inglaterra, Suécia,
e também escolas internacionais e cursos de verão
nos Estados Unidos para o Department of Special
Education and Communication Disorders da
Bridgewater State University, no estado de
Massachusetts, onde é professor visitante. No
Brasil, ele também realiza palestras em
universidades e escolas para orientar professores
sobre as principais condições comportamentais que
afetam crianças e adolescentes no ambiente escolar.
CONTATO COM O AUTOR

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