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A antropologia e a “crise”

João de Pina-Cabral

No final de 2009, foi-me pedido que fizesse condições de vida das populações. Tudo isso é ver-
uma apreciação sobre a situação política global e sua dade e é, no cômputo geral, muito positivo. Por que
relação com a antropologia sociocultural num mo- não estamos, então, mais otimistas sobre o futuro?
mento em que se celebravam vinte anos sobre o fim Não se trata meramente de um apego à nostal-
da Guerra Fria e em que começávamos a entender gia – a tal velha querença fadista lusitana. Pelo con-
as tremendas implicações da crise financeira norte- trário, creio que se trata de uma reação bem lúcida:
-americana de 2008. Passado mais de um ano, no olhamos à nossa volta e percebemos que os proble-
início de 2011, vejo-me confrontado com novos mas do passado continuam presentes no nosso ho-
eventos de ordem política global e de natureza aca- rizonte de possibilidades. A lição central que nos
dêmica que reforçam as minhas convicções de que vemos obrigados a reter é que a história nem está
estamos perante uma época de viragem na qual a an- prestes a acabar (em qualquer um dos sentidos que
tropologia tem de procurar novas perspectivas. se possa ir dando ao famoso sentimento hegeliano),
nem parece provável que venhamos a deparar-nos
com soluções definitivas para os males mais persis-
Primavera de 2009 tentes da condição humana.
No início da década de 1990, em face da que-
Passaram vinte anos sobre o fim da Guerra Fria. da do Muro de Berlim e da revolução informática,
Durante esse intervalo, no mundo da lusofonia, as- muitos chegaram a pensar que teríamos entrado
sistimos ao fim de duas guerras civis, à consolidação num círculo virtuoso que permitiria uma nova ne-
da vida democrática, a uma significativa melhoria nas gociação da ordem global no sentido de uma maior
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humanização. Afinal, esse sonho perdeu-se devido economistas” de Harvard, apóstolos deste evange-
à ganância dos que controlam o grande capital in- lho da destruição. Para nós, pelo contrário, meros
ternacional apoiados no imperialismo militarista mortais que vivemos naquilo que eles chamam
anglo-americano. com desprezo “a economia real”, o que se revela
Acontece que, infelizmente, nem sequer o incompreensível é a fé que eles esperam que tenha-
fim do ciclo político de conservadorismo radical mos nesse tal Mercado com M maiúsculo, que é
nos Estados Unidos, anunciado pela surpreenden- suposto assegurar os interesses deles para o bem de
te vitória de Barack Obama, nos pode dar muita todos nós. Para dar só um exemplo de como a pa-
esperança. Não há como esquecer que, para além ralisia perante a ganância desmedida é quase total,
do aniversário da queda do Muro de Berlim, esta- as conhecidas práticas corruptas e chantagistas do
mos agora também a celebrar um outro aniversário, setor dos cartões de crédito nos Estados Unidos
também ele prenhe de significado: fez há pouco oi- não foram sequer minimamente coarctadas como
tenta anos que ocorreu o crash financeiro de 1929 resultado da crise do crédito, nem há previsão de
em Wall Street. Ora, hoje, estamos outra vez no que venham a ser.
meio de mais uma “crise” financeira global. Ao mesmo tempo, parece ser possível adivinhar
Nos últimos meses, em face dessa nova e gra- certa incapacidade, por parte da maior economia
víssima crise, verificamos que, mais uma vez, não do mundo, de se reestruturar internamente. Situa-
serviram para nada as lições do passado; no rescaldo ções de crescente descalabro da coisa pública como
da crise não foram tomadas quaisquer das medidas as que estamos a assistir em estados norte-america-
que todos, unanimemente, consideram necessárias nos, como a Califórnia, parecem ter passado para
para controlar no futuro a ganância desenfreada do além da simples cura. Mais ainda, nem a situação
grande capital internacional. Aliás, surpreenden- político-militar no Médio Oriente promete resol-
temente, a administração de Obama manteve no ver-se a curto prazo, nem a invasão do Afeganistão
poder os mesmos homens e os mesmos interesses promete aproximar-se de uma qualquer solução sa-
corporativos que estiveram na origem da crise, as- tisfatória num futuro previsível. Como resultado da
sim como da vergonhosa resposta inicial ao débâcle, guerra no Iraque, o endividamento nacional norte-
liderada ainda pela administração de Bush e Che- -americano atingiu níveis que nunca anteriormente
ney. Os comentadores econômicos falam a uma só tinham sido sequer imagináveis.
voz: evitou-se, de fato, o colapso do sistema finan- Torna-se claro que, a médio prazo, novos agen-
ceiro mundial, mas nada de essencial foi mudado. tes se afirmarão na cena internacional, cujas inten-
Urge relembrar que, ainda a crise estava a re- ções não são já formuladas em termos imperiais –
velar-se e já se via que, nos agentes financeiros, não como eram os projetos políticos anglo-americano
há como confiar. Sua ganância é verdadeiramente ou soviético pós-Segunda Guerra Mundial –, mas
suicida – a primeira reação dos banqueiros de Wall novamente em termos nacionais. Estou a pensar
Street às tentativas do governo norte-americano de em atores como a Rússia, a China, a Índia ou o
impedir o colapso financeiro que eles tinham oca- Brasil. Quem profetizava há uns anos o fim das ló-
sionado foi distribuir em salários descomunais e em gicas nacionalistas em nome do transnacionalismo
dividendos chorudos o dinheiro que lhes estava a ou do cosmopolitismo estava a entender mal.
ser entregue e que iria ter que ser pago pelos res- Seria até possível ver com bons olhos a disso-
tantes cidadãos – se bem que, para essas pessoas, lução do poder do mediador imperial norte-ame-
podemos legitimamente perguntar-nos se o concei- ricano que dirigiu solitariamente a ordem mundial
to de cidadania chega sequer a fazer sentido (Pina- nos últimos vinte anos. No entanto, é fácil perceber
-Cabral, 2005). que existem também fortes perigos nas alternativas.
A noção de que pudessem ter-se preocupado Como exemplo, temos aí o comportamento dos atu-
em tentar impedir os previsíveis despedimentos ais governantes russos nas suas antigas áreas de influên​
em massa que, entretanto, sobrevieram parece- cia colonial ou dos chineses nas suas áreas de frontei-
-lhes até irracional – como afirmam os “grandes ra, não são só geográficas como também étnicas.

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À luz do que hoje sabemos, de um ponto de humanamente mais deletérios e mesmo criminosos.
vista tanto demográfico como ambiental, não é ra- Em vez de simplesmente nos pormos na posição do
cional pensar que possa existir uma alternativa às anjo vingador sobre os cientistas sociais do passa-
formas de vida urbanas que caracterizam crescente- do, seria importante tentar entender quais as im-
mente a contemporaneidade. Não haverá também plicações das nossas próprias posições atuais. Ainda
nunca mais uma alternativa para uma vida humana nos dias que passam a disciplina econômica e os
minimamente satisfatória fora da sociedade de con- acadêmicos que a representam nas mais conceitua-
sumo, pois não existem caminhos para trás na his- das universidades de todo o mundo têm sido parte
tória humana e a nossa dependência da tecnologia integral desse processo de destruição da economia
veio para ficar. real e da acumulação vergonhosa de riqueza, cujos
Diante disso, urge compreender que (a) nun- males agora nos perseguem.
ca mais haverá margem para a exploração espon- A antropologia contemporânea, preocupada
tânea do meio ambiente para fins de subsistência e como está com o contato direto com as gentes que
(b) nunca mais existirá espaço para uma economia estuda, parece ter aprendido algo com os erros do
independente das instituições financeiras globais. passado. Não é fácil encontrar nas últimas décadas
Não nos esqueçamos que a população global con- exemplos da gravidade dos que caracterizaram a
tinua a aumentar desenfreadamente num mundo antropologia em climas históricos mais imperiais.
onde os recursos ambientais estão exaustos e onde Contudo, devemos perguntar-nos em que medida
a globalização financeira está praticamente automa- é que estamos a contribuir para pensar ativamente
tizada. Nosso mundo não é mais o mundo robusto os problemas que nos rodeiam.
que a técnica dos séculos XIX e XX depredava sem Preocupa-me especialmente que saibamos en-
sequer pensar no assunto. contrar saída para a linguagem de relativismo cul-
As ciências sociais e a antropologia em particu- turalista que tem caracterizado as décadas neolibe-
lar contribuem diariamente com sua investigação rais e que nos levou à crise teórica da própria noção
empírica e sua análise para um melhor conheci- de humanidade que presentemente vivemos. O fato
mento da realidade que nos rodeia. Temos, porém, de terem surgido na história longa da humanidade
que nos lembrar de que, tal como as engenharias, as profundas diferenças de ordem sociocultural que
ciências sociais fazem também parte do mundo da urge respeitar e proteger em nome da nossa huma-
técnica e, como tal, também são parte incontorná- nidade comum não nos deve nunca impedir de ver
vel do mundo onde viveremos no futuro. os interesses mais gerais dessa mesma condição hu-
E é muito fácil esquecermo-nos de quão tris- mana comum (Pina-Cabral, 2006).
temente ambivalente é a herança que agora rece- Para nós, que somos hoje plenamente coevos
bemos. Cientistas sociais ainda há menos de um uns dos outros nas partes mais diversas do mundo
século, cheios do que eles achavam ser as melhores (Fabian, 2001), é importantíssimo saber fugir à “fa-
intenções, imiscuíram-se em alguns dos projetos po- lácia do tudo ou nada” na atribuição de sentido a
líticos mais sinistros que a humanidade jamais ima- expressões tais como humanidade ou alteridade cul-
ginou. Não me refiro unicamente ao nazismo ou tural (Pina-Cabral, 2009a). Caso nós, os cientistas
ainda à contribuição de cientistas sociais norte-ame- sociais, não tivermos a sageza de o fazer, não pode-
ricanos ou soviéticos para a espionagem e a opressão remos contribuir para que a globalização financeira
política. Há aspectos que são menos conhecidos mas e técnica a que temos assistido seja acompanhada
que merecem nossa atenção: por exemplo, Hendrik por instrumentos politicamente negociados para
Verwoerd, o inventor do apartheid, era professor de gerir seus efeitos perversos sobre os seres humanos e
sociologia e psicologia social inspirado pela acade- sobre o nosso mundo comum.
mia norte-americana dos anos de 1930 e subsidiado Para nos salvarmos, não é razoável continuar a
pela Carnegie Foundation (1993). confiar nas metafísicas estafadas e enganosas nem do
Ora, não foi só no passado que houve ligações Mercado, nem do Estado, nem do Divino. Não que-
entre as ciências sociais e os movimentos políticos ro que me interpretem como estando a falar contra a

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livre iniciativa econômica, contra a boa governança ristas de “cultura”, “grupo” ou “sociedade” que têm
ou contra o apego de cada um aos seus deuses – não governado nossas vidas durante o século XX, o con-
só não o faço como consideraria estulto fazê-lo. ceito de ecumene aponta para a abertura e não para
Contudo, a construção de instâncias políticas o fechamento e ainda para a existência e persistên-
explicitamente globais de proteção dos nossos inte- cia de continuidades na construção e diversificação
resses comuns é condição incontornável da sobre- humanas (Pina-Cabral, 2010). Mais ainda: aponta
vivência da humanidade. Um desses interesses co- para uma noção de coabitação onde a divisão entre
muns de especial monta, por exemplo, é o direito à comunicação e ação não se apresenta para uma visão
diversidade cultural e religiosa – algo que não pode do mundo decisivamente pós-cartesiana.
ser visto como um direito culturalmente local ou Caiu o muro em Berlim, mas montou-se outro
uma qualquer herança particular de alguma parte entre Israel e a Palestina e outro entre o México e
da humanidade (gênero “o Ocidente” ou “o mundo a restante América do Norte e ainda outro que é,
pós-cristão”). Acontece que, num futuro não tão dis- afinal, o Mediterrâneo. Ora, penso que vale a pena
tante assim, podemos bem vir a ser dominados por aqui referir ainda mais um aniversário recente: há
agentes políticos de abrangência global para quem pouco menos de um mês comemoraram-se os dez
esse pressuposto do “diálogo das nações” possa não anos do aparecimento do primeiro cadáver que
fazer sentido – como já é hoje o caso, por exemplo, deu à costa nas Ilhas Canárias – um jovem africano
entre os georgianos, os tibetanos ou os uigures. Por morto durante o esforço desesperado de chegar ao
isso até estou convencido que, nos dias que passam, emprego, de poder ganhar a vida honradamente.
nos compete aos antropólogos socioculturais traba- Estou cada vez mais convencido de que a con-
lhar ativamente no sentido de reconstruir a possibi- cepção de um mundo como fechado em universos
lidade teórica de um discurso ecumenista. ontológicos estanques e não comunicantes (com
Os seres humanos vivem, sim, dentro de espa- todas as implicações políticas de uma tal visão) não
ços contínuos de intercomunicação humana – mas só é incorreta como é profundamente perversa.
não em espaços fechados. O multiculturalismo an- Acontece que é precisamente tal visão que é pro-
tropológico, que inicialmente se apresentava como tegida por toda uma geração de pessoas que, entre
uma opção libertária, respeitadora da diferença, veio si, se acham enormemente distantes – pessoas que,
a revelar-se, afinal, como mais um instrumento de do lado radical, vão de Bin Laden a Talal Asad e, do
polarização identitária. Quando hoje a chance- lado liberal, vão de Dick Cheney aos pseudoacadê-
ler alemã anuncia o que chama “o fim do modelo micos como Huntington ou alguns dos gurus das
multiculturalista”, ela está cinicamente a jogar com principais escolas de economia norte-americanas
a fraqueza dos que pensavam que se podia arrumar (Pina-Cabral, 2008).
a humanidade em caixinhas. Em vez de falarmos de Queiramos ou não, nossos mundos humanos
sociedades e culturas unitárias, urge inventar uma são intercomunicantes e, como insiste corretamen-
linguagem do estilo da que Tolkien usa na sua fic- te Johannes Fabian, somos coevos uns dos outros.
ção quando fala do middle-earth ou que os gregos A linguagem unitarista do sociocentrismo moder-
usavam quando falavam em oikômene – o espaço de nista dividia os humanos em sociedades e culturas
interação humana. Nos dias que correm não existe que eram supostas se bastarem a si mesmas. Essa
uma ecumene, existem ecumenes dentro de ecume- visão, porém, tem que ser abandonada em face do
nes, porque não há fronteiras à comunicação huma- que se passa no mundo atual e também do que,
na do tipo que era constituído pelos oceanos Atlânti- cada vez mais, sabemos sobre o passado.
co ou Pacífico nas eras anteriores à Moderna. Nosso Nestes vinte anos desde a queda do Muro de
mundo é uma ecumene de ecumenes – um network Berlim, observamos o colapso do discurso ecu-
of networks, como lhe chama Ulf Hannerz (1991) – mênico – tanto o religioso como o político – por
por muito que, no seu interior, sejam identificáveis obra e graça de uma série de radicais particularistas.
outras ecumenes; isto é, espaços de maior densidade Tanto às mãos de Ratzinger e Bin Laden como de
humana. Contrariamente aos conceitos particula- Dick Cheney e deeconomistas neoliberais, fomos

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obrigados a assistir de mãos baixadas à destruição tanto, percebemos que a administração Obama ou
e à deslegitimação dos esforços de constituição das não soube ou não quis distanciar-se das políticas
pontes de entendimento humano de cariz global econômicas e dos agentes financeiros que levaram a
que tinham caracterizado a resposta horrorizada aos América a ser hoje um dos países mais desiguais do
dislates da Segunda Guerra Mundial. mundo, onde 20 por cento do rendimento é ganho
As últimas duas décadas da humanidade foram por um por cento da população (International He-
lideradas por uma geração que não entendeu que rald Tribune, 10/11/2010).
há riscos que não devem ser corridos – uma geração Ao mesmo tempo, na Europa, assistimos no
que se desinteressou do fato de que há limites para a decorrer dos últimos meses à derrocada do modelo
robustez do mundo e da humanidade. Hoje, volta a europeísta que movia a União Europeia como pro-
ser possível simpatizar com o sentimento que movia jeto civilizacional. Penso que houve quem julgasse
as pessoas que quiseram reconstruir o mundo após que se tratava de um mero soluço econômico, cuja
as duas horríveis guerras mundiais. Como cientistas solução surgiria a curto prazo. Não foi isso, porém,
do social, temos que fazer a nossa parte e trabalhar o que se passou. Após a reação europeia à chamada
no sentido de reconstruir os instrumentos intelectuais “crise”, o que ficou para trás foram as ruínas insti-
que nos permitam comunicar esse projeto. tucionais de um dos mais ambiciosos projetos po-
Confrontados com estes três aniversários: o da líticos e civilizacionais que jamais foi posto em an-
queda do Muro de Berlim – que nos lembra que damento na história da humanidade: a integração
a Segunda Guerra Mundial só acabou com o fim política de um continente feita pela paz e acordo
da Guerra Fria; o da Grande Depressão – que nos mútuo e não pela guerra.
lembra que, estando nós mais uma vez a viver uma As agências de crédito internacional perceberam
grave depressão econômica, nada voltou a ser feito que podiam explorar a falta de confiança mútua que
no sentido de proteger os seres humanos da rapina sempre existiu entre os europeus e que, infelizmente,
do grande capital; e o do pobre rapazito que terá foram a principal causa da Segunda Grande Guerra.
sido atirado morto às ondas pelos seus companhei- Viram claramente – e sem que tivessem de esconder
ros num barco à deriva após ter sucumbido à inani- fosse o que fosse – que aqui estava a hipótese de re-
ção nessa grande aventura africana de chegar ao tra- cuperar algumas da perdas ocasionadas pela crise que
balho... Diante desses três monumentos, por assim a sua própria ganância criara. Explorando o profun-
dizer, que podemos nós responder-lhes? do desprezo que os europeus do norte continuam a
Espero que, de um ponto de vista de um antro- sentir pelos europeus do sul, foi possível às agências
pólogo, a resposta que temos a dar não seja só a de de crédito criar uma atmosfera de suspeita que levou
que não sabemos sequer muito bem o que é um ser os países da periferia do euro ao colapso econômi-
humano e não temos outra explicação que não seja co através de um aumento totalmente irracional da
estética da razão de acreditarmos que a diversidade oneração do endividamento público.
sociocultural é um bem a proteger. Como cientistas Não está em dúvida que, em casos como a
sociais temos a obrigação de trabalhar na recolha e na Irlanda e a Grécia, erros gravíssimos de governa-
análise de evidência empírica no sentido de recons- ção necessitavam urgentemente de ser corrigidos.
truir os instrumentos intelectuais que nos permitam Maiores, sem qualquer dúvida, foram os erros de
voltar a pensar como viável o projeto ecumênico. governação cometidos por George W. Bush e seu
séquito, para dar um só exemplo. Mais ainda, co-
metidos em plena praça pública, tais erros deveriam
Outono de 2011 ter sido corrigidos anteriormente não fosse o de-
sinteresse mútuo que aparentemente existe no seio
Passou pouco mais de um ano desde que es- da União Europeia e que explica que o desgoverno
crevi estas palavras. Infelizmente, toda a atmosfera crescente de um país tão importante para a Europa
de ameaça e inquietude que o texto acima reflete como a Itália continue a ser visto como um mero
foi horrivelmente confirmada. Mais ainda, entre- tema de chacota pelos meios políticos europeus.

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O que está em causa é que, perante um ataque Mas, infelizmente, vejo menos razões do que
abertamente orquestrado por agências financei- há um ano para sentir que as ciências sociais, e a
ras sediadas em Nova York, os políticos de países antropologia em particular, estejam em condições
como a Alemanha e o Reino Unido sentiram que de responder ao enorme desafio que as confronta
havia mais proveito eleitoral próprio em exacerbar globalmente. Acaba de ocorrer um evento que é
a crise do que em impedi-la. Hoje, os cidadãos da patente evidência do desnorteamento em que vi-
zona euro veem suas economias reais paralisadas vemos no seio das nossas disciplinas, mostrando
e o projeto político europeu de rastos sem perce- que aspreocupações com a fundamentação teórica
ber porquê; tudo isto para proveito das agências da nossa comum condição humana não eram de-
de crédito internacional? Não é claro ainda qual o sajustadas. Cito-o unicamente como sinal de que o
prejuízo social e econômico que tal causará a mé- desnorteamento da economia global se aplica tam-
dio prazo à própria Alemanha. bém à vida intelectual e científica. Trata-se, afinal,
A situação parece ter sido interrompida pela in- de um pequeno evento que não teria significado
tervenção das autoridades chinesas (quem diria há maior não fossem as suas repercussões mediáticas.
uma década atrás que daí surgiria a indispensável Estas transformaram um mero equívoco causado
voz de bom senso!) e pela lenta compreensão por pela falta de bom senso numa ameaça genuína à
parte dos governantes alemães das implicações que antropologia e às ciências sociais como um todo.
poderiam advir do colapso da moeda única, entre Levada por qualquer desejo de pacificar os de-
outros fatores. Hoje, na Península Ibérica, na Gré- sencontros recorrentes entre várias correntes antro-
cia e na Irlanda, vivem-se dias negros em que, para pológicas, a direção da Associação Americana de
além do sofrimento das famílias de classe média Antropologia (pres. Virginia Dominguez) decidiu
cujos rendimentos foram severamente diminuídos, mudar o documento de “Objetivos de Longo Prazo”
toda uma geração de jovens entra na vida adulta sem (Long-Range Plan) substituindo a palavra “ciência”
uma probabilidade razoável de vir a ter um emprego pela expressão public understanding (lit. “entendi-
estável. Essa fronteira do trabalho que constituía o mento público”, se bem que a frase seja de difícil
Mediterrâneo, a prazo, esbater-se-á mais uma vez. tradução em português). O curioso da situação é
Acontece que não está em causa unicamente o que se descobriu posteriormente que a intenção des-
colapso das economias reais destes países, está tam- sas pessoas, afinal, não era sequer a de negar a con-
bém em causa o colapso de um modelo social-de- dição científica da antropologia! Confundidos pelas
mocrático de sociedade que visava explicitamente correntes que estiveram na moda há uns anos atrás
impedir situações de desigualdade vergonhosa tais sobre o public understanding of science, estes senho-
como a que se vivem hoje nos Estados Unidos pós- res acharam que, então, a antropologia, mais do que
-Bush ou as que se viveram durante tanto tempo ciência, seria um public understanding!1 O lado cô-
na América Latina. A reação à crise por parte de mico do equívoco teria vencido – e estaríamos hoje
quase todos os governos dos países periféricos do todos a rir – não fosse ter sido esta a primeira vez
euro atingidos pelo ataque à dívida soberana foi há anos que a disciplina antropológica foi debati-
no sentido de assentar as políticas de resolução da da nos principais órgãos de comunicação de massas
crise numa forte diminuição das condições de vida mundiais no sentido de se afirmar que a direção da
das classes médias, mantendo os ganhos desme- principal associação antropológica mundial decidira
surados das classes altas. Tudo isto em nome de que a antropologia já não era um saber científico
uma concepção de economia que deixa perplexa (New York Times, International Herald Tribune etc.).
qualquer pessoa que atenda seriamente ao que se O episódio, pelo seu absurdo, não merece ser
afirma. Surgem mesmo alguns casos mais despu- debatido em termos epistemológicos sérios (ver, por
dorados de agentes financeiros que argumentam contraste, o volume 53 (2) de 2009 da revista Social
que os europeus do sul estavam a viver acima das Analysis dedicado a esse debate). Caso tal fosse fei-
suas condições – curiosamente, tal parece excluir to, haveria que discutir os diferentes entendimentos
os detentores das grandes fortunas! que existem entre os cientistas sociais sobre como

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qualificar o que é ciência e como ver a natureza dação do sistema econômico de um país, os que
científica das práticas que caracterizam tradicional- argumentam com a Liberdade de Imprensa contra
mente a antropologia sociocultural. Mal estaria se a destruição espúria do crédito de uma disciplina
não houvesse desacordo, já que o debate é o próprio científica ou de um cidadão estão a inverter perver-
sangue da ciência. O que merece ser refletido neste samente a lógica dos fatores. Por vezes, as distinções
equívoco é a forma como ele se aproxima do seme- são, de fato, difíceis: a vida amorosa turbulenta de
lhante equívoco que levou ao abafamento financeiro qualquer ator de cinema não pode ser equiparada
das economias dos países periféricos da zona euro. na sua relevância aos trágicos desmandos de Ber-
Para o jornalista Nicholas Wade, que explorou lusconi nas suas ilhas privadas; da mesma forma, a
publicamente o episódio – e cujo texto no New falta de atenção de alguns colegas sobre os debates
York Times de 9 de dezembro sugere que ele sabia epistemológicos não podem ser confundidas com
se tratar de um equívoco –, o bom nome públi- o crédito científico de toda uma disciplina. Saber
co da antropologia como forma de conhecimento distinguir entre esses diferentes tipos de situação e
científico era totalmente irrelevante. O jornalista saber proteger a humanidade desse tipo de explora-
opõe evidence-based science a formas de engajamen- ção é talvez um dos principais desafios civilizacio-
to político paternalista como as duas opções abertas nais da contemporaneidade.
à antropologia. Dessa maneira, diminui tanto o va- O que urge concluir, porém, é que a antro-
lor epistemológico da antropologia como ciência, pologia sociocultural necessita de reconstruir sua
como o valor moral da intervenção política funda- própria imagem perante os efeitos deletérios do
da sobre o legítimo conhecimento científico. culturalismo relativista se quiser contribuir posi-
Longe de mim criticar um jornalista pelos er- tivamente para repensar nosso mundo. E não nos
ros dos antropólogos. O que merece a nossa aten- esqueçamos: tal como a técnica, as ciências sociais
ção é que, tal como no caso da “crise” dos países não estão distantes das nossas vidas quotidianas.
periféricos do euro, estamos perante uma situação Elas contribuirão sempre, como têm contribuído
em que os interesses localizados de agentes parti- até hoje, para o mundo em que vivemos.
culares em criar uma opinião pública podem cau- Acontece que é muito difícil para uma disci-
sar, através dos efeitos potenciadores dos meios de plina científica sair dos modelos que a constituí-
comunicação de massa, estragos irreparáveis para ram historicamente. Apesar de ser muito fácil jul-
projetos de enorme relevância pública. Os políti- gar moralmente os cientistas do passado – como
cos europeus que pensaram ganhar votos com a ex- fazem com tanto gosto os especialistas em “ética”
ploração do etnocentrismo intraeuropeu (Merkle, que tanto se fazem ouvir nas reuniões da nossa
Cameron, Sarkozy etc.), tanto quanto o jornalista disciplina – é, pelo contrário, muito difícil pen-
que explorou as gafes cometidas por antropólogos sar fora dos esquemas que o passado nos legou.
desatentos, comportam-se como os paparazzi que Foi fácil aos antropólogos da segunda metade do
levaram a princesa Diana à morte. século XX deixarem de usar a palavra “primitivo”,
Estamos hoje numa situação em que urge pro- que tinha sido tão importante na constituição da
teger os interesses coletivos em face desse tipo de nossa disciplina. Contudo, não foi igualmente fácil
irresponsabilidade. Não está em causa qualquer libertarem-se dos efeitos teóricos e metodológicos
irresponsabilidade individual, já que tanto os po- que a noção implicava. Ainda hoje, o primitivismo
líticos como os jornalistas em causa acabaram por metodológico nos persegue, agora silenciosamente
ganhar proveitos próprios com os atos que comete- mediado por formas radicais de culturalismo (Pina
ram. Está em causa uma noção ecumênica de cole- Cabral, 2009b).
tivismo, em que a participação de cada um na causa Pensar a humanidade não é nem criar frontei-
pública seja vista em termos de lógicas sempre mais ras de excepcionalidade em torno dessa mesma hu-
abrangentes de responsabilização humana. manidade, nem abdicar da herança da pluralidade
Tal como os que argumentam com o Mercado humana. Saber pensar a condição humana como
contra a necessidade de impedir a simples depre- parte do esforço científico geral dos nossos tempos

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à luz do evolucionismo biológico é talvez o desafio


principal da nossa disciplina nos dias que passam.

Notas

1 Disponível em <http://www.aaanet.org/about/Gover-
nance/Long_range_plan.cfm>.

BIBLIOGRAFIA

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