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Não à censura

1. Gaudêncio Fidelis
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6 de dezembro de 2017
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No dia 10 de setembro de 2017, um acontecimento extraordinário mudaria para
:
sempre nossa percepção da censura e da deturpação da verdade para fins obscuros: o
fechamento unilateral e autoritário da exposição Queermuseu – Cartografias da diferença na
arte brasileira, pelo Banco Santander, o patrocinador, promotor e realizador do evento.
Queermuseu é uma mostra que faz uma incursão artística em questões relacionadas à
expressão e à identidade de gênero, à diferença, e à diversidade (incluindo diversidade
da forma artística) na arte brasileira, por meio de um conjunto de obras que percorrem
um arco histórico que vai de meados do século 20 até a contemporaneidade. Com
trabalhos representativos da amplitude estética e geracional da produção das várias
regiões do país, esta foi a primeira exposição com tal envergadura na América Latina e
a quarta já realizada no mundo, reunindo 264 criações de 85 artistas brasileiros, com
obras provenientes de coleções públicas e privadas.

Uma obra de arte, independentemente do mérito artístico que lhe seja atribuído pela
crítica ou pela historiografia, é considerada em essência “patrimônio da humanidade”
e, portanto, deve ser preservada e protegida de danos físicos e morais. Um
colecionador, público ou privado, não pode, por exemplo, adquirir uma obra de arte
com o intuito de destruí-la intencionalmente ou fazer uso dela para vilipendiá-la,
devendo preservar e zelar por sua integridade, sob pena de incorrer em um crime
contra o patrimônio. O patrimônio cultural representado por essa exposição é de
extraordinário valor artístico, pois se trata de um conjunto importante de obras de arte,
em sua maioria reconhecidas no Brasil e fora dele. O conjunto reunido é representativo
do patrimônio artístico brasileiro, e um processo de difamação dessas obras, como foi
posto em curso, implica difamar o patrimônio cultural do país diante da sociedade
brasileira e da comunidade artística internacional. Não foi por outra razão a
repercussão que o incidente adquiriu na imprensa nacional e estrangeira.

A exposição Queermuseu foi interrompida pelo Santander abruptamente trinta dias antes
da data prevista de seu encerramento, em decorrência de manifestações que duraram
apenas dois dias, realizadas pelo MBL, cujos integrantes ingressaram no espaço da
exposição agressivamente, gerando vídeos e fotografias e produzindo uma narrativa
difamatória de caráter moralista sobre o evento, baseada em apenas quatro obras de
um universo de 264 que compõem a mostra. O encerramento, por parte do banco
Santander, viria então a consumar o maior dos crimes. A instituição não só
interrompeu a exposição, como também consolidou o processo de censura ao reter as
obras por 30 dias depois da decisão de seu término. Ela permaneceu montada até o
dia 8 de outubro, quando teve início sua desmontagem, sem que o público tivesse
acesso a ela. Aqui é importante salientar que a retenção das obras caracteriza um fato
extremamente grave, com diversas consequências, entre elas, os danos irreparáveis
que foram causados ao patrimônio artístico e cultural brasileiro.

O Santander solicitou o empréstimo dessas 264 obras com o objetivo único de que elas
fossem exibidas publicamente, empréstimo esse que foi realizado graciosamente pelos
emprestadores. Tal procedimento é realizado por meio da adoção de um protocolo
internacional, através de um loan form (formulário de empréstimo), um documento
contratual que determina os requisitos necessários para o empréstimo de obras de arte
(seguro, climatização, direitos de imagem etc., e outras necessidades específicas de
acordo com cada emprestador). Ao interromper a exposição, o Santander
automaticamente cancela o contrato de empréstimo e subverte seu objeto ao não
devolver as obras de imediato aos seus emprestadores. Por que o Santander não
providenciou a imediata devolução das obras requer ainda uma resposta. Ao que tudo
indica, tal fato se deveu à intenção premeditada de desmoralizar o todo da exposição,
justificando assim seu fechamento. Mais do que isso, é possível que o Santander tenha
enganado a todos e solicitado tais obras com objetivos escusos, caracterizados desta
forma, a priori ou a posteriori.

Há ainda um agravante, uma vez que inúmeras destas obras pertenciam a museus
públicos, sendo que algumas delas encontravam-se em exposição permanente. Mesmo
obras pertencentes a coleções privadas deixaram de ser emprestadas para outras
exposições no período, e muitas delas foram negociadas pela curadoria para serem
exibidas na Queermuseu. Obras de arte estão, por natureza, dispostas para o olhar
público mesmo quando em coleções privadas. Ainda mais grave é o fato de que,
enquanto essas obras estavam sendo privadas da visitação pública, o processo
difamatório em curso continuava em franca expansão, não permitindo que a sociedade
pudesse usufruir delas por si mesma. Já condenadas moralmente pelo Santander por
intermédio da nota pela qual o banco comunicou o fechamento da exposição, tais
obras não tiveram em nenhum momento a possibilidade de defesa por meio de sua
realidade material. A instituição impediu, assim, ao realizar esse “sequestro”, que as
obras se defendessem ou mesmo prosseguissem para outras mostras.
É inconcebível, ética e moralmente, que uma instituição solicite obras para a exibição
pública, retire-as de visibilidade sob uma lamentável nota de condenação, não as
devolva e, ao mesmo tempo, continue difamando-as moralmente enquanto inviabiliza
sua visibilidade. Com o fechamento da exposição, as obras não encontraram a
possibilidade de veicular sua própria essência: o seu confronto com o espectador. Um
dos processos mais perniciosos empreendidos nesta cruzada difamatória posta em
curso pelo MBL, e consolidada pelo Santander Cultural, foi a recusa e o desprezo pela
verdadeira narrativa dessas obras. Como se não bastasse, uma outra falsa narrativa foi
sobreposta e inscrita sobre elas com o objetivo de transformá-las em protagonistas de
uma construção simbólica maléfica e danosa, de conteúdo criminoso. Uma mentira
articulada e construída para enganar uma parcela da sociedade brasileira, privada
agora da possibilidade de averiguação visual.

A tragédia para o patrimônio artístico brasileiro é imensurável, mas pode ser


compreendida da seguinte forma: a impossibilidade de milhares de pessoas de verem
a exposição. Calcula-se que o volume de público projetado, com base na média diária
de visitação que a exposição vinha obtendo já na fase inicial, chegaria a cerca de 70
mil visitantes. Houve, então, cerceamento da liberdade de escolha, pois as pessoas
foram impedidas de ver a exposição – uma vez que a narrativa criada objetivava não
só determinar o que um pequeno grupo proclamou que poderia ou não ser visto pela
maioria da população brasileira – e houve igualmente o cerceamento da liberdade de
expressão (em tese sempre se fala de um todo em potencial) – uma vez que a
narrativa implicava determinar, por julgamento, não só o que poderia ou não ser visto,
mas o que poderia/deveria ou não ser produzido pelos artistas. Isso foi deixado muito
claro pelo MBL e pelos grupos ultraconservadores e fundamentalistas que o seguiram
na construção dessa narrativa: de que a exposição fazia apologia à pedofilia, zoofilia e
pornografia e promovia o vilipêndio de símbolos religiosos. A impossibilidade de o
público continuar o diálogo e o debate sobre as questões levantadas pela exposição e
sobre a validade ou invalidade da narrativa difamatória roubou assim o direito ao
conhecimento e à informação, processo caracterizado pela Constituição brasileira
como censura.

O que vem sendo colocado em curso é um processo de criminalização da arte e dos


artistas e a caracterização do museu e dos espaços de exposição como lugares de
prática do crime organizado. Por exemplo, no último dia 18 de outubro, os deputados
Alberto Fraga (DEM-DF), Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e Laura Carneiro (PMDB-RJ)
promoveram uma reunião da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime
Organizado da Câmara dos Deputados para tratar justamente das “exposições de
arte”. A CPI dos Maus-Tratos, cujo objetivo era “investigar maus-tratos em crianças e
adolescentes”, tendo como presidente o senador Magno Malta (PR-ES), notório
representante da bancada evangélica no Congresso, empreendeu uma cruzada
moralista de perseguição aos artistas, curadores e pessoas relacionadas às exposições,
acusando-as de pedofilia e de atos criminosos, em um claro desvio do objeto da CPI.
Sabe-se que nenhuma exposição pode de fato promover a pedofilia, prática nefasta
empreendida por redes de crime organizado.

Alguns dias depois do fechamento da exposição Queermuseu, o MBL recorreu a órgãos de


mídia com a contranarrativa de que o que eles haviam empreendido não era censura,
e sim boicote. Vale esclarecer aqui por que a campanha difamatória empreendida pelo
MBL constitui, sim, um ato de censura e um crime contra o patrimônio e por que o
fechamento da exposição pelo Santander deve ser caracterizado da mesma forma. A
diferença entre censura e boicote é nítida. Novas formas de censura incluem
mecanismos empregados por meio da força de qualquer ordem e pela utilização de
táticas desonestas e não pacíficas, incluindo nesse caso táticas de milícia, das quais o
MBL frequentemente faz uso com o objetivo de impedir o acesso ao conhecimento ou à
informação. Um boicote, por sua vez, se caracteriza por uma manifestação pacífica que
pode eventualmente utilizar táticas de guerrilha cultural ou financeira. O MBL nesse
caso utilizou coerção, pressão e ataques morais e verbais com vista à intimidação e à
livre circulação do público no espaço da exposição. Lembrando que seus membros
ingressavam no local da mostra com câmeras em punho, abordando pessoas de todas
as faixas etárias, chamando-as de pedófilas, depravadas, “admiradoras” de
pornografia, e infinitas outras qualificações desabonadoras e constrangedoras que
podem ser vistas em vídeos que circulam nas redes sociais. Tais táticas buscavam
constranger e intimidar o público e proibir a livre circulação de pensamento, causando
por fim o fechamento da exposição; objetivo atingido em apenas dois dias de uma
campanha difamatória articulada nas redes sociais.

A luta para reabrir a exposição encontrou alento no convite feito pelo Museu de Arte do
Rio (MAR). As negociações haviam sido concluídas e a exposição estava pronta para
viajar para o MAR, onde abriria em 11 de novembro. Na semana anterior à realização
da coletiva de imprensa, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, fez uma
declaração pública contrária à ida da exposição para a cidade em um vídeo difamatório
e calunioso, acusando mais uma vez a exposição de promover a pedofilia e a zoofilia. O
tom de deboche e cinismo do prefeito deve ser assinalado em uma referência que ele
faz dizendo que a exposição só iria para o Rio, se fosse para o “fundo do MAR”. É
preciso lembrar que o patrimônio cultural inclui também o patrimônio natural e a
paisagem. Vale assinalar nesse caso a Convenção sobre a Proteção do Patrimônio
Mundial Cultural e Natural adotada pela Conferência Geral da UNESCO em 1972. O
patrimônio cultural subaquático é protegido pela Convenção da UNESCO designado,
justamente, sob a rubrica de Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático.

Ligar o nome do museu à depreciação das belezas naturais que caracterizam parte de
seu patrimônio natural, pelo qual a cidade do Rio de Janeiro é mundialmente
conhecida, faz da manifestação do prefeito um ato desabonador para todo o país,
mesmo porque este se encontra na liderança de uma das cidades brasileiras mais
importantes do mundo. É fundamental assinalar ainda que a paisagem natural do Rio
de Janeiro, como frequentemente é o caso em outras situações, está intimamente
ligada à cultura brasileira e sua projeção internacional. Um exemplo objetivo é o
impacto da cidade em manifestações musicais, como a canção “Garota de Ipanema”
de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, mundialmente conhecida. Uma vez que o museu é
gerido por uma organização social contratada pela Prefeitura, o prefeito detém o poder
de cancelar o contrato com ela a qualquer momento e substituir integralmente o corpo
administrativo do museu de imediato.

A acusação de pedofilia e zoofilia por parte de Marcelo Crivella a uma exposição de


arte brasileira de tamanha importância artística e patrimonial não tem precedentes na
vida pública do país. Este o fez em uma atitude de covardia, uma vez que tem foro
privilegiado, constituindo evidente abuso de poder. Especialmente depois de instâncias
como o Ministério Público Federal terem constatado a inexistência de tais acusações
relativas à exposição já no segundo dia de seu fechamento em Porto Alegre. Ao gravar
o vídeo e tornar pública sua intenção de impedir o MAR de receber a exposição, torna-
se flagrante a atitude de difamar e criminalizar a produção artística para fins obscuros.
A declaração de Crivella envolve aspectos éticos do exercício da administração pública,
pois incita fortemente não só atitudes criminosas contra a arte, como também o
desrespeito aos mecanismos de preservação do patrimônio cultural e artístico, às
instituições culturais e museológicas que ele deprecia ao direcionar seus ataques ao
MAR, à comunidade artística e a todos os seus membros por extensão. Nesse momento
temos mais uma vez uma perigosa conjunção de fatores em que a censura ingressa na
vida criminosa do obscurantismo fundamentalista.

GAUDÊNCIO FIDELIS é curador, doutor em História da Arte pela Universidade do Estado de Nova York