You are on page 1of 7

N.

o 184 — 11-8-1998 DIÁRIO DA REPÚBLICA — I SÉRIE-A 3869

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA b) A regulação, no âmbito da política de ordena-


mento do território e de urbanismo, das relações
entre os diversos níveis da Administração
Decreto do Presidente da República n.o 35/98 Pública e desta com as populações e com os
de 11 de Agosto representantes dos diferentes interesses econó-
micos e sociais.
O Presidente da República decreta, nos termos do
artigo 135.o, alínea a), da Constituição, o seguinte:
É nomeado, sob proposta do Governo, o ministro Artigo 3.o
plenipotenciário Manuel Nuno Tavares de Sousa para
Fins
o cargo de embaixador de Portugal no Cairo.
Constituem fins da política de ordenamento do ter-
Assinado em 14 de Julho de 1998. ritório e de urbanismo:
Publique-se. a) Reforçar a coesão nacional, organizando o ter-
O Presidente da República, JORGE SAMPAIO. ritório, corrigindo as assimetrias regionais e
assegurando a igualdade de oportunidades dos
Referendado em 22 de Julho de 1998. cidadãos no acesso às infra-estruturas, equipa-
mentos, serviços e funções urbanas;
O Primeiro-Ministro, António Manuel de Oliveira b) Promover a valorização integrada das diversi-
Guterres. — O Ministro dos Negócios Estrangeiros, dades do território nacional;
Jaime José Matos da Gama. c) Assegurar o aproveitamento racional dos recur-
sos naturais, a preservação do equilíbrio
ambiental, a humanização das cidades e a fun-
cionalidade dos espaços edificados;
ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA d) Assegurar a defesa e valorização do património
cultural e natural;
e) Promover a qualidade de vida e assegurar con-
Lei n.o 48/98 dições favoráveis ao desenvolvimento das acti-
de 11 de Agosto vidades económicas, sociais e culturais;
f) Racionalizar, reabilitar e modernizar os centros
Estabelece as bases da política de ordenamento
urbanos e promover a coerência dos sistemas
do território e de urbanismo
em que se inserem;
A Assembleia da República decreta, nos termos dos g) Salvaguardar e valorizar as potencialidades do
artigos 161.o, alínea c), 165.o, n.o 1, alínea z), 166.o, espaço rural, contendo a desertificação e incen-
n.o 3, e do artigo 112.o, n.o 5, da Constituição, para tivando a criação de oportunidades de emprego;
valer como lei geral da República, o seguinte: h) Acautelar a protecção civil da população, pre-
venindo os efeitos decorrentes de catástrofes
naturais ou da acção humana.
CAPÍTULO I
Princípios e objectivos Artigo 4.o
Dever de ordenar o território
Artigo 1.o
1 — O Estado, as Regiões Autónomas e as autarquias
Âmbito locais devem promover, de forma articulada, políticas
1 — A presente lei estabelece as bases da política de activas de ordenamento do território e de urbanismo,
ordenamento do território e de urbanismo. nos termos das suas atribuições e das competências dos
2 — A política de ordenamento do território e de respectivos órgãos, de acordo com o interesse público
urbanismo define e integra as acções promovidas pela e no respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos
Administração Pública, visando assegurar uma ade- cidadãos.
quada organização e utilização do território nacional, 2 — O disposto no número anterior envolve as obri-
na perspectiva da sua valorização, designadamente no gações de zelar pela efectiva consolidação de um sistema
espaço europeu, tendo como finalidade o desenvolvi- de gestão territorial e de acautelar os efeitos que as
mento económico, social e cultural integrado, harmo- demais políticas prosseguidas possam, aos diversos
nioso e sustentável do País, das diferentes regiões e níveis, envolver para o ordenamento do território e o
aglomerados urbanos. urbanismo.
Artigo 5.o
Artigo 2.o Princípios gerais
Objecto
A política de ordenamento do território e de urba-
Constitui objecto da presente lei: nismo obedece aos princípios gerais de:
a) A definição do quadro da política de ordena- a) Sustentabilidade e solidariedade intergeracio-
mento do território e de urbanismo, bem como nal, assegurando a transmissão às gerações futu-
dos instrumentos de gestão territorial que a ras de um território e de espaços edificados cor-
concretizam; rectamente ordenados;
3870 DIÁRIO DA REPÚBLICA — I SÉRIE-A N.o 184 — 11-8-1998

b) Economia, assegurando a utilização ponderada h) A reabilitação e a revitalização dos centros his-


e parcimoniosa dos recursos naturais e culturais; tóricos e dos elementos de património cultural
c) Coordenação, articulando e compatibilizando o classificados;
ordenamento com as políticas de desenvolvi- i) A recuperação ou reconversão de áreas degra-
mento económico e social, bem como as polí- dadas;
ticas sectoriais com incidência na organização j) A reconversão de áreas urbanas de génese ilegal.
do território, no respeito por uma adequada
ponderação dos interesses públicos e privados 2 — Nos diversos espaços, a programação, a criação
em causa; e a manutenção de serviços públicos, de equipamentos
d) Subsidiariedade, coordenando os procedimen- colectivos e de espaços verdes deve procurar atenuar
tos dos diversos níveis da Administração as assimetrias existentes, tendo em conta as necessidades
Pública, por forma a privilegiar o nível decisório específicas das populações, as acessibilidades e a ade-
mais próximo do cidadão; quação da capacidade de utilização.
e) Equidade, assegurando a justa repartição dos 3 — O ordenamento do território e o urbanismo
encargos e benefícios decorrentes da aplicação devem assegurar a salvaguarda dos valores naturais
dos instrumentos de gestão territorial; essenciais, garantindo que:
f) Participação, reforçando a consciência cívica
dos cidadãos através do acesso à informação a) As edificações, isoladas ou em conjunto, se inte-
e à intervenção nos procedimentos de elabo- gram na paisagem, contribuindo para a valo-
ração, execução, avaliação e revisão dos instru- rização da envolvente;
mentos de gestão territorial; b) Os recursos hídricos, as zonas ribeirinhas, a orla
g) Responsabilidade, garantindo a prévia ponde- costeira, as florestas e outros locais com inte-
ração das intervenções com impacte relevante resse particular para a conservação da natureza
no território e estabelecendo o dever de repo- constituem objecto de protecção compatível
sição ou compensação dos danos que ponham com a normal fruição pelas populações das suas
em causa a qualidade ambiental; pontencialidades específicas;
h) Contratualização, incentivando modelos de actua- c) As paisagens resultantes da actuação humana,
ção baseados na concertação entre a iniciativa caracterizadas pela diversidade, pela harmonia
pública e a iniciativa privada na concretização e pelos sistemas sócio-culturais que suportam,
dos instrumentos de gestão territorial; são protegidas e valorizadas;
i) Segurança jurídica, garantindo a estabilidade d) Os solos são utilizados por forma a impedir a
dos regimes legais e o respeito pelas situações sua contaminação ou erosão.
jurídicas validamente constituídas.

CAPÍTULO II
Artigo 6.o
Sistema de gestão territorial
Objectivos do ordenamento do território e do urbanismo

1 — O ordenamento do território e o urbanismo pros- Artigo 7.o


seguem objectivos específicos, consoante a natureza da Caracterização do sistema
realidade territorial subjacente, promovendo:
1 — A política de ordenamento do território e de
a) A melhoria das condições de vida e de trabalho
urbanismo assenta no sistema de gestão territorial.
das populações, no respeito pelos valores cul-
2 — O sistema de gestão territorial organiza-se, num
turais, ambientais e paisagísticos;
quadro de interacção coordenada, em três âmbitos
b) A distribuição equilibrada das funções de habi- distintos:
tação, trabalho, cultura e lazer;
c) A criação de oportunidades diversificadas de a) O âmbito nacional, que define o quadro estra-
emprego como meio para a fixação de popu- tégico para o ordenamento do espaço nacional,
lações, particularmente nas áreas menos desen- estabelecendo as directizes a considerar no
volvidas; ordenamento regional e municipal e a compa-
d) A preservação e defesa dos solos com aptidão tibilização entre os diversos instrumentos de
natural ou aproveitados para actividades agrí- política sectorial com incidência territorial, ins-
colas, pecuárias ou florestais, restringindo-se a tituindo, quando necessário, os instrumentos de
sua afectação a outras utilizações aos casos em natureza especial;
que tal for comprovadamente necessário; b) O âmbito regional, que define o quadro estra-
e) A adequação dos níveis de densificação urbana, tégico para o ordenamento do espaço regional
impedindo a degradação da qualidade de vida, em estreita articulação com as políticas nacio-
bem como o desequilíbrio da organização eco- nais de desenvolvimento económico e social,
nómica e social; estabelecendo as directrizes orientadoras do
f) A rentabilização das infra-estruturas, evitando ordenamento municipal;
a extensão desnecessária das redes e dos perí- c) O âmbito municipal, que define, de acordo com
metros urbanos e racionalizando o aproveita- as directrizes de âmbito nacional e regional e
mento das áreas intersticiais; com opções próprias de desenvolvimento estra-
g) A aplicação de uma política de habitação que tégico, o regime de uso do solo e a respectiva
permita resolver as carências existentes; programação.
N.o 184 — 11-8-1998 DIÁRIO DA REPÚBLICA — I SÉRIE-A 3871

3 — O sistema de gestão territorial concretiza a inte- ritoriais que, pela sua interdependência, neces-
racção coordenada dos seus diversos âmbitos, através sitam de coordenação integrada.
de um conjunto coerente e racional de instrumentos
de gestão territorial. 2 — São instrumentos de planeamento territorial os
planos municipais de ordenamento do território, que
compreendem as seguintes figuras:
Artigo 8.o
a) O plano director municipal, que, com base na
Instrumentos de gestão territorial
estratégia de desenvolvimento local, estabelece
Os instrumentos de gestão territorial, de acordo com a estrutura espacial, a classificação básica do
as funções diferenciadas que desempenham, integram: solo, bem como parâmetros de ocupação, con-
siderando a implantação dos equipamentos
a) Instrumentos de desenvolvimento territorial, de sociais, e desenvolve a qualificação dos solos
natureza estratégica, que traduzem as grandes urbano e rural;
opções com relevância para a organização do b) O plano de urbanização, que desenvolve, em
território, estabelecendo directrizes de carácter especial, a qualificação do solo urbano;
genérico sobre o modo de uso do mesmo, con- c) O plano de pormenor, que define com detalhe
substanciando o quadro de referência a con- o uso de qualquer área delimitada do território
siderar na elaboração de instrumentos de pla- municipal.
neamento territorial;
b) Instrumentos de planeamento territorial, de 3 — São instrumentos de política sectorial os planos
natureza regulamentar, que estabelecem o com incidência territorial da responsabilidade dos diver-
regime de uso do solo, definindo modelos de sos sectores da administração central, nomeadamente
evolução da ocupação humana e da organização nos domínios dos transportes, das comunicações, da
de redes e sistemas urbanos e, na escala ade- energia e recursos geológicos, da educação e da for-
quada, parâmetros de aproveitamento do solo; mação, da cultura, da saúde, da habitação, do turismo,
c) Instrumentos de política sectorial, que progra- da agricultura, do comércio e indústria, das florestas
mam ou concretizam as políticas de desenvol- e do ambiente.
vimento económico e social com incidência 4 — Constituem instrumentos de natureza especial os
espacial, determinando o respectivo impacte planos especiais de ordenamento do território.
territorial;
d) Instrumentos de natureza especial, que estabe-
lecem um meio supletivo de intervenção do Artigo 10.o
Governo apto à prossecução de objectivos de Relações entre instrumentos de gestão territorial
interesse nacional, com repercussão espacial,
ou, transitoriamente, de salvaguarda de prin- 1 — Os instrumentos de planeamento territorial
cípios fundamentais do programa nacional de devem prosseguir as orientações definidas pelos instru-
ordenamento do território. mentos de desenvolvimento territorial.
2 — Os instrumentos de desenvolvimento territorial
e os instrumentos de política sectorial traduzem um com-
Artigo 9.o promisso recíproco de integração e compatibilização das
Caracterização dos instrumentos de gestão territorial respectivas opções, determinando que:

1 — São instrumentos de desenvolvimento territorial: a) Os planos sectoriais desenvolvam e concretizem,


no respectivo domínio de intervenção, as direc-
a) O programa nacional da política de ordena- trizes definidas no programa nacional da política
mento do território, cujas directrizes e orien- de ordenamento do território;
tações fundamentais traduzem um modelo de b) Os planos regionais de ordenamento do terri-
organização espacial que terá em conta o sis- tório integrem as regras definidas no programa
tema urbano, as redes, as infra-estruturas e os nacional da política de ordenamento do terri-
equipamentos de interesse nacional, bem como tório e nos planos sectoriais preexistentes;
as áreas de interesse nacional em termos agrí- c) A elaboração dos planos sectoriais vise a neces-
colas, ambientais e patrimoniais; sária compatibilização com os planos regionais
b) Os planos regionais de ordenamento do terri- de ordenamento do território, relativamente aos
tório que, de acordo com as directrizes definidas quais tenham incidência espacial.
a nível nacional e tendo em conta a evolução
demográfica e as perspectivas de desenvolvi- 3 — Os planos regionais de ordenamento do território
mento económico, social e cultural, estabelecem e os planos sectoriais vinculam as entidades públicas
as orientações para o ordenamento do território competentes para a elaboração e aprovação de planos
regional e definem as redes regionais de infra- municipais relativamente aos quais tenham incidência
-estruturas e transportes, constituindo o quadro espacial, devendo ser assegurada a compatibilidade
de referência para a elaboração dos planos entre os mesmos.
municipais de ordenamento do território, 4 — Os planos especiais de ordenamento do território
devendo ser acompanhados de um esquema traduzem um compromisso recíproco de compatibiliza-
representando o modelo territorial proposto; ção com o programa nacional da política de ordena-
c) Os planos intermunicipais de ordenamento do mento do território e os planos regionais de ordena-
território, que são de elaboração facultativa, mento do território e prevalecem sobre os planos muni-
visam a articulação estratégica entre áreas ter- cipais e intermunicipais.
3872 DIÁRIO DA REPÚBLICA — I SÉRIE-A N.o 184 — 11-8-1998

5 — Na elaboração de novos instrumentos de gestão 2 — A classificação do solo determina o destino


territorial devem ser identificados e ponderados os pla- básico dos terrenos e assenta na distinção fundamental
nos, programas e projectos com incidência na área a entre solo rural e solo urbano, entendendo-se por:
que respeitam, já existentes ou em preparação, e asse-
guradas as necessárias compatibilizações. a) Solo rural, aquele para o qual é reconhecida
vocação para as actividades agrícolas, pecuárias,
florestais ou minerais, assim como o que integra
Artigo 11.o
os espaços naturais de protecção ou de lazer,
Vinculação dos instrumentos de gestão territorial ou que seja ocupado por infra-estruturas que
não lhe confiram o estatuto de solo urbano;
1 — Os instrumentos de gestão territorial vinculam
b) Solo urbano, aquele para o qual é reconhecida
as entidades públicas.
vocação para o processo de urbanização e de
2 — Os planos municipais e especiais de ordenamento
edificação, nele se compreendendo os terrenos
do território são ainda vinculativos para os particulares.
urbanizados ou cuja urbanização seja progra-
mada, constituindo o seu todo o perímetro
Artigo 12.o urbano.
Direito de informação
3 — A qualificação dos solos regula, com respeito pela
Os particulares têm direito à informação tanto nos
sua classificação básica, o aproveitamento dos terrenos
procedimentos de elaboração e alteração, como após
em função da actividade dominante que neles possa ser
a publicação dos instrumentos de gestão territorial, pre-
efectuada ou desenvolvida, estabelecendo o respectivo
vistos no n.o 2 do artigo anterior, podendo, designa-
uso e edificabilidade.
damente, consultar o respectivo processo, adquirir
4 — O regime de uso do solo é estabelecido em ins-
cópias e obter certidões.
trumentos de planeamento territorial, que definem para
o efeito as adequadas classificação e qualificação.
Artigo 13.o
Garantias dos particulares
Artigo 16.o
1 — São reconhecidas aos titulares de direitos e inte-
resses lesados por instrumentos de gestão territorial vin- Execução
culativos dos particulares as garantias gerais dos admi-
nistrados e, nomeadamente: 1 — A Administração Pública tem o dever de pro-
ceder à execução coordenada e programada dos ins-
a) O direito de promover a respectiva impugnação; trumentos de planeamento territorial, recorrendo aos
b) O direito de acção popular; meios de política de solos que vierem a ser estabelecidos
c) O direito de apresentação de queixa ao Minis- na lei.
tério Público e ao Provedor de Justiça. 2 — Para a execução coordenada e programada dos
instrumentos de planeamento territorial, os meios de
2 — São ainda reconhecidos os direitos de acção política de solos a estabelecer na lei devem contemplar,
popular e de apresentação de queixa ao Provedor de nomeadamente, modos de aquisição ou disponibilização
Justiça relativamente a todos os instrumentos de gestão de terrenos, mecanismos de transformação fundiária e
territorial cujos efeitos não vinculem directamente os formas de parceria ou contratualização, que incentivem
particulares. a concertação dos diversos interesses.
3 — A coordenação e programação dos instrumentos
de planeamento territorial determina para os particu-
CAPÍTULO III lares o dever de concretizar e adequar as suas pretensões
Regime de uso do solo e execução dos instrumentos às metas e prioridades neles estabelecidas.
de planeamento territorial

Artigo 14.o Artigo 17.o


Uso do solo e das águas Programas de acção territorial

1 — A ocupação, a utilização e a transformação do 1 — A coordenação das actuações das entidades


solo estão subordinadas aos fins, princípios gerais e públicas e privadas interessadas na definição da política
objectivos específicos estabelecidos nos artigos 3.o, 5.o de ordenamento do território e de urbanismo e na exe-
e 6.o do presente diploma e conformam-se com o regime cução dos instrumentos de planeamento territorial pode
de uso do solo definido nos instrumentos de planea- ser enquadrada por programas de acção territorial.
mento territorial. 2 — Os programas de acção territorial têm por base
2 — Idênticos fins, princípios gerais e objectivos são um diagnóstico das tendências de transformação das
aplicáveis, com as devidas adaptações, ao ordenamento áreas a que se referem, definem os objectivos a atingir
das águas e zonas envolventes, marginais ou ribeirinhas. no período da sua vigência, especificam as acções a rea-
lizar pelas entidades neles interessadas e estabelecem
Artigo 15.o o escalonamento temporal dos investimentos neles
Classificação e qualificação do solo
previstos.
3 — A concretização dos programas de acção terri-
1 — O regime de uso do solo é definido mediante torial é assegurada mediante acordo celebrado entre
a classificação e a qualificação do solo. as entidades neles interessadas.
N.o 184 — 11-8-1998 DIÁRIO DA REPÚBLICA — I SÉRIE-A 3873

Artigo 18.o d) Os planos de pormenor são de iniciativa das


câmaras municipais tendo em conta a concre-
Compensação e indemnização
tização dos programas de acção territorial.
1 — Os instrumentos de gestão territorial vinculativos
dos particulares devem prever mecanismos equitativos 5 — Os planos especiais de ordenamento do território
de perequação compensatória, destinados a assegurar são elaborados pela administração central, sendo asse-
a redistribuição entre os interessados dos encargos e gurado que:
benefícios deles resultantes, nos termos a estabelecer
na lei. a) A decisão de sujeitar áreas delimitadas de um
2 — Existe o dever de indemnizar sempre que os ins- ou de vários municípios à disciplina de um ins-
trumentos de gestão territorial vinculativos dos parti- trumento de natureza especial, com fundamento
culares determinem restrições significativas de efeitos em relevante interesse nacional, bem como a
equivalentes a expropriação, a direitos de uso do solo sua aprovação são da competência do Conselho
preexistentes e juridicamente consolidados que não pos- de Ministros;
sam ser compensados nos termos do número anterior. b) As autarquias locais abrangidas intervêm na sua
3 — A lei define o prazo e as condições de exercício elaboração e execução;
do direito à indemnização previsto no número anterior. c) Os planos especiais de ordenamento do terri-
tório devem ter em conta os planos municipais
existentes para a sua zona de influência e obri-
gam a adequação destes, em prazo a estabelecer
CAPÍTULO IV por acordo com as câmaras municipais.

Regime dos instrumentos de gestão territorial 6 — Os planos sectoriais com incidência territorial são
elaborados pela administração central e aprovados pelo
Artigo 19.o Governo, ouvidas as autarquias locais abrangidas.
Regime jurídico
Artigo 21.o
O regime jurídico dos instrumentos de gestão ter-
ritorial é estabelecido através de diplomas legais com- Participação e concertação
plementares da presente lei.
1 — Os instrumentos de gestão territorial são sub-
o
metidos a prévia apreciação pública.
Artigo 20. 2 — A elaboração e aprovação dos instrumentos de
Elaboração e aprovação gestão territorial vinculativos dos particulares são
objecto de mecanismos reforçados de participação dos
1 — O programa nacional da política de ordenamento cidadãos, nomeadamente através de formas de concer-
do território é elaborado pelo Governo e aprovado pela tação de interesses.
Assembleia da República, ouvidas as Regiões Autóno-
mas, as regiões administrativas e os municípios.
2 — Os planos regionais de ordenamento do território Artigo 22.o
são elaborados pelas juntas regionais, com audição dos Pareceres da junta regional
municípios abrangidos, e são aprovados pelas assem-
bleias regionais, com posterior ratificação pelo Governo. 1 — Os pareceres a emitir pela junta regional rela-
3 — Os planos intermunicipais de ordenamento do tivamente aos planos municipais e intermunicipais inci-
território são elaborados pelas câmaras municipais dem sobre a sua articulação com os objectivos, princípios
envolvidas e, após parecer da junta regional, aprovados e regras aplicáveis no município ou municípios em causa,
pelas assembleias municipais respectivas, estando sujei- definidos por instrumentos de desenvolvimento terri-
tos a ratificação pelo Governo. torial, de planeamento territorial, de política sectorial
4 — Os planos municipais de ordenamento do ter- ou de natureza especial.
ritório são elaborados pelas câmaras municipais e apro- 2 — A junta regional deve suscitar a ilegalidade dos
vados pelas assembleias municipais, estabelecendo-se as instrumentos de planeamento territorial sujeitos à sua
seguintes regras específicas: apreciação junto das entidades competentes para a res-
a) Os planos directores municipais estão sujeitos pectiva aprovação.
a parecer da junta regional e a ratificação pelo
Governo;
Artigo 23.o
b) Os planos de urbanização estão sujeitos a pare-
cer da junta regional e a ratificação pelo Ratificação pelo Governo
Governo quando não se conformem com o
plano director municipal que os abrange ou sem- 1 — A ratificação pelo Governo dos planos regionais,
pre que este não seja eficaz; intermunicipais e municipais destina-se a verificar a sua
c) Os planos de pormenor estão sujeitos a parecer conformidade com as disposições legais e regulamen-
da junta regional e a ratificação pelo Governo tares vigentes, bem como a conformidade com instru-
quando não se conformem com o plano director mentos de desenvolvimento territorial, de planeamento
municipal ou com o plano de urbanização que territorial, de política sectorial ou de natureza especial
os abrangem ou sempre que estes não sejam válidos e eficazes, sem prejuízo do disposto no número
eficazes; seguinte.
3874 DIÁRIO DA REPÚBLICA — I SÉRIE-A N.o 184 — 11-8-1998

2 — A ratificação dos planos pode ser parcial, apro- de ordenamento do território, das políticas sectoriais
veitando apenas à parte conforme com as normas legais com incidência territorial e articulação entre os planos
e regulamentares vigentes e conforme com os instru- directores municipais.
mentos de gestão territorial eficazes. 3 — A câmara municipal apresenta, de dois em
dois anos, à assembleia municipal um relatório sobre
a execução dos planos municipais de ordenamento do
Artigo 24.o território e a sua articulação com a estratégia de desen-
Publicidade volvimento municipal, sendo igualmente apreciada a
eventual necessidade de revisão ou alteração dos planos.
1 — São publicados em Diário da República todos os
instrumentos de gestão territorial.
2 — Poderão ser estabelecidos ainda outros meios de Artigo 29.o
publicidade que garantam uma adequada divulgação. Acompanhamento da política de ordenamento do território

1 — A lei deve estabelecer formas de acompanha-


Artigo 25.o mento permanente e avaliação técnica da gestão ter-
ritorial e prever mecanismos que garantam a qualidade
Alteração
dos instrumentos que a concretizam.
1 — Os instrumentos de desenvolvimento territorial 2 — A lei deve estabelecer ainda a criação de um
e os instrumentos de política sectorial são alterados sem- sistema nacional de dados sobre o território, articulado
pre que a evolução das perspectivas de desenvolvimento aos níveis regional e local.
económico e social o determine.
2 — Os instrumentos de gestão territorial vinculativos
dos particulares devem respeitar um período de vigência CAPÍTULO VI
mínima legalmente definido, durante o qual eventuais Disposições finais e transitórias
alterações terão carácter excepcional, nos termos a defi-
nir por lei. Artigo 30.o
3 — São directamente aplicáveis aos instrumentos de
gestão territorial referidos no número anterior as novas Aplicação directa
leis ou regulamentos que colidam com as suas dispo- 1 — Os princípios e regras consagrados pelo presente
sições ou estabeleçam servidões administrativas ou res- diploma que sejam directamente exequíveis entram em
trições de utilidade públicas que afectem as suas vigor na data estabelecida no artigo 36.o
prescrições. 2 — Sem prejuízo do disposto nos artigos seguintes
Artigo 26.o e sempre que directamente exequíveis, são ainda de apli-
cação imediata os princípios e regras relativos à eficácia
Suspensão dos diversos instrumentos de gestão territorial.
Os instrumentos de gestão territorial podem ser total
ou parcialmente suspensos em casos excepcionais e Artigo 31.o
quando esteja em causa a prossecução de relevante inte- Planos regionais de ordenamento do território
resse público.
1 — Os planos regionais de ordenamento do território
Artigo 27.o aprovados nos termos do Decreto-Lei n.o 176-A/88, de
Revisão 18 de Maio, continuam em vigor até à sua revisão obri-
gatória pelos órgãos das regiões administrativas.
Os instrumentos de gestão territorial vinculativos dos 2 — A revisão referida no número anterior obedece
particulares são obrigatoriamente revistos no prazo e às regras de competência consagradas no n.o 2 do
condições legalmente previstos. artigo 20.o da presente lei, devendo ocorrer nos três anos
subsequentes à primeira eleição das assembleias regio-
nais, após o que, caso não sejam revistos, os actuais
CAPÍTULO V planos regionais de ordenamento do território deixarão
de vincular os particulares.
Avaliação da política de ordenamento do território 3 — Verificada a revisão prevista nos números ante-
riores, os planos regionais de ordenamento do território
Artigo 28.o revestir-se-ão da eficácia estabelecida nos n.os 2 e 3 do
Relatórios sobre o estado do ordenamento do território artigo 10.o da presente lei.
4 — Os planos regionais de ordenamento do território
1 — O Governo apresenta de dois em dois anos à cuja elaboração foi previamente determinada pelo
Assembleia da República um relatório sobre o estado Governo, mas cuja aprovação ocorra depois da entrada
do ordenamento do território, no qual é feito o balanço em vigor da presente lei terão o respectivo conteúdo
da execução do programa nacional da política de orde- integrado pelos princípios consagrados pela presente lei,
namento do território e são discutidos os princípios designadamente em matéria de eficácia e de relacio-
orientadores e as formas de articulação das políticas namento com os demais níveis e instrumentos de gestão
sectoriais com incidência territorial. territorial.
2 — A junta regional apresenta de dois em dois anos 5 — Até à instituição em concreto das regiões admi-
à assembleia regional um relatório sobre o estado do nistrativas mantêm-se as actuais competências da admi-
ordenamento do território a nível regional, no qual se nistração central relativas à elaboração e aprovação de
aprecia a execução, ao nível regional, do plano regional planos regionais de ordenamento do território.
N.o 184 — 11-8-1998 DIÁRIO DA REPÚBLICA — I SÉRIE-A 3875

Artigo 32.o Artigo 35.o


Legislação complementar
Planos municipais de ordenamento do território
1 — No prazo de um ano serão aprovados os diplomas
1 — Até à instituição em concreto das regiões admi- legais complementares que definirão:
nistrativas mantêm-se as actuais competências da admi-
nistração central relativas ao acompanhamento da ela- a) O regime jurídico do programa nacional da polí-
boração dos planos municipais de ordenamento do tica de ordenamento do território;
território. b) O regime jurídico dos planos intermunicipais
2 — Após a aprovação do programa nacional de polí- de ordenamento do território;
ticas de ordenamento do território e dos novos planos c) As alterações aos regimes aplicáveis à elabo-
regionais de ordenamento do território, a ratificação ração, aprovação, execução, avaliação e revisão
de planos municipais pelo Governo só terá lugar nos dos planos regionais de ordenamento do ter-
casos em que seja suscitada, no âmbito do procedimento ritório, dos planos municipais de ordenamento
de elaboração e aprovação dos planos, a desconformi- do território e dos planos especiais de orde-
dade com as disposições legais e regulamentares vigentes namento do território.
ou com instrumentos de gestão territorial eficazes.
2 — No mesmo prazo serão ainda aprovados os diplo-
mas legais complementares que definirão:
Artigo 33.o a) O regime dos instrumentos de política de solos,
destinado a proporcionar as adequadas condi-
Planos especiais de ordenamento do território
ções para a elaboração, desenvolvimento e exe-
cução dos instrumentos de planeamento ter-
Os planos especiais de ordenamento do território são ritorial;
os planos de ordenamento de áreas protegidas, os planos b) O regime dos instrumentos de transformação
de ordenamento de albufeiras de águas públicas e os da estrutura fundiária, da iniciativa da Admi-
planos de ordenamento da orla costeira. nistração Pública, necessários à execução dos
instrumentos de planeamento territorial.
Artigo 34.o
Artigo 36.o
Outros planos Entrada em vigor

1 — Todos os instrumentos de natureza legal ou regu- A presente lei entra em vigor 30 dias após a sua
lamentar com incidência territorial actualmente existen- publicação.
tes deverão ser reconduzidos, no âmbito do sistema de
planeamento estabelecido pela presente lei, ao tipo de Aprovada em 30 de Junho de 1998.
instrumento de gestão territorial que se revele adequado O Presidente da Assembleia da República, António
à sua vocação específica. de Almeida Santos.
2 — O disposto no número anterior deverá considerar
que: Promulgada em 28 de Julho de 1998.
a) A produção de quaisquer efeitos jurídicos exter- Publique-se.
nos pelos instrumentos com incidência territo- O Presidente da República, JORGE SAMPAIO.
rial a integrar no sistema de planeamento ter-
ritorial dependerá sempre, nos termos do Referendada em 30 de Julho de 1998.
artigo 11.o, n.o 2, da presente lei, da possibi-
lidade de converter aqueles instrumentos em O Primeiro-Ministro, António Manuel de Oliveira
planos municipais de ordenamento do território Guterres.
ou em planos especiais de ordenamento do
território;
Lei n.o 49/98
b) Além de determinar o alcance dos efeitos jurí-
dicos a produzir, a integração em qualquer das de 11 de Agosto
categorias de instrumentos de gestão territorial
A Assembleia da República decreta, nos termos da
legalmente previstas impõe o cumprimento das
alínea c) do artigo 161.o, da alínea b) do n.o 1 do
regras relativas à respectiva elaboração, apro-
artigo 165.o e do n.o 3 do artigo 166.o da Constituição,
vação e entrada em vigor; para valer como lei geral da República, o seguinte:
c) A integração nas categorias previstas no sistema
de gestão territorial deverá fazer-se no prazo
de dois anos a contar da entrada em vigor da Artigo único
presente lei, findo o qual deixam de vincular O n.o 1 do artigo 1.o da Lei n.o 5/95, de 21 de Feve-
os particulares todos os instrumentos de natu- reiro, passa a ter a seguinte redacção:
reza legal ou regulamentar com incidência ter-
ritorial que não se enquadrem no elenco típico «Artigo 1.o
legalmente estabelecido.
Dever de identificação

3 — No prazo máximo de 180 dias, o Governo definirá 1 — Os agentes das forças ou serviços de segurança
em diploma próprio o procedimento a adoptar. a que se refere a Lei n.o 20/87, de 12 de Junho, no