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A VERDADE FAZ BEM

De pronto declino que nutria enorme antipatia por Paulo Francis. O achava esnobe, cáustico,
metido a aristocrata. O título da coluna que assinava, “Diário da Corte”, era a cereja no bolo da
minha contrariedade. Quando se metia a crítico literário, a despejar Ezra Pound e outros quase
desconhecidos entre nós, então minha tolerância ia pro vinagre. Quem era Francis para maltratar
a imagem do país e arrogar-se em tamanhas desfeitas? Eu não sabia quem ele era, como
também desconhecia por inteiro o tamanho da minha indigência.

Num belo dia encontro e leio um livro de Francis, meio no estilo autobiográfico, e descubro que
ele foi também um autodidata, que na juventude aventurou-se Brasil afora numa trupe teatral de
modestos recursos. Começava a plasmar-se naquele tempo um sujeito que, na idade madura,
seria nada menos que um homem culto, com apuradíssimo senso crítico e estilo próprio.

Graças à memória disponível na rede mundial assisti uma entrevista dele. O repórter pergunta se
ele ficava incomodado com a afirmação de que deixara de ser uma pessoa de esquerda para se
tornar um conservador. Cheguei a pensar que ele daria um esculacho no rapaz, mas com calma
e sem cinismo respondeu que não: afirmou que era uma criança, a imaginar soluções socialistas
para os problemas do país, e simplesmente se tornara adulto. Seu poder de síntese pulverizou a
malícia da pergunta. Não renegou a solidariedade com os mais pobres, apenas aprendeu que os
países ricos adotavam outro caminho, que nenhum país no mundo desenvolvido utilizava a
cartilha que a esquerda segue tentando vender em plena luz do dia e escuridão da razão.

Dias atrás visitei, como engenheiro, um grande grupo industrial da serra gaúcha. Antes da crise
chegaram a superar a marca de dez mil funcionários. Depois, debaixo das traulitadas da
recessão, foram forçados a demitir em levas, chegando à metade do efetivo. Mais de cinco mil
pessoas, numa só cidade, no olho da rua. Não pense que se trata de uma empresa atrasada e
ineficiente. Exemplo de gestão, com muito café no bule, não teve alternativa. De uns tempos a
esta parte voltaram a contratar e esperam, gradualmente, retomar o nível anterior.

As oscilações existem desde que o mercado existe. Não há, portanto, novidade alguma nesta
história, que tem como signatários todos quantos empreendem ou trabalham na iniciativa
privada. O que há de ser analisado é o comportamento dos poderes da república, que passaram
incólumes pelo holocausto de milhões de vagas de trabalho. Sacrifício inútil – filho da corrupção
e da incompetência, devotado ao deus do atraso e da incompetência,- mas não de todos.

Como prefiro textos atemporais e sobretudo me recuso a dar asas a cobras, não mencionarei um
nome sequer dos bandidos que atiraram nosso país no abismo. Devem ser esquecidos, o que
sei será difícil para um contingente considerável de pessoas que admirariam Al Capone - se
residissem na Chicago dos anos trinta,- ou são devotos de Papai Noel. Chega a ser melancólico
o culto a São Guevara, a Santo Antônio Gramsci e a alguns canalhas tupiniquins, inclusive
ladrões condenados e notórios traidores da pátria.

Homem de sorte, vivi o suficiente para compreender melhor Francis, que sequer era um dos
maiores de sua geração, que produziu gente do porte de Otto Lara Resende, Otto Maria
Carpeaux, Drummond e Antônio Callado. Pois foi dentre as frases mais famosas de Ezra Pound
que encontrei meu erro: “Podeis reconhecer um mau crítico porque ele começa por falar do
poeta e não do poema”. Não se tratava de poesia, mas foi o que fiz com Paulo Francis e sua
pronúncia de bêbado com final cortante. Dei importância para a forma e não para o conteúdo.

Tendo lido certas obras antes do devido tempo, também reconheço em outra sentença de Pound
o mais evidente acerto: “Os homens só podem compreender um livro profundo, depois de terem
vivido pelo menos uma parte daquilo que ele contém“. Assim, tendo vivido os fracassos das
pregações demagógicas e utópicas no Brasil e no mundo, temos o chamado do estado adulto
para rejeitar as narrativas que insistem em disseminar asneiras. Como as que negam o fracasso
do comunismo, insistindo que só não deu certo porque foi sabotado ou faltou tempo ... Aí é
demais. É subestimar a inteligência dos outros. Ou, pior, mentir pra si mesmo.

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