ASSIM SE FAZ A REVOLUÇÃO NO CINEMA 70

Glauber Rocha

(Revista Manchete, Rio de Janeiro, n.939, abril de 1970, p.84-90. Artigo de revista republicado no livro de Glauber Revolução do Cinema Novo (Rio de Janeiro: Alhambra / Embrafilme, 1981; 2a edição revista e aumentada: São Paulo: Cosac Naify, 2004, p.222-229).

A casa é de Gianni Barcelloni, onde obrigatoriamente circula o cinema jovem mundial que passa por Roma. Aqui, o encontro de quatro das maiores figuras do cinema de hoje: Bernardo Bertolucci, italiano, cineasta; Miklos Jancso, húngaro, cineasta; Jean-Marie Straub, francês, cineasta; e Pierre Clementi, francês, ator. Bertolucci ficou famoso com o filme Antes da Revolução, apresentado com escândalo na Semana da Crítica do Festival de Cannes, em 1964. O filme rompia com o neo-realismo do cinema italiano e, tratando de um tema político, fustigava a hipocrisia, a covardia, o sentimento burguês disfarçado em revolucionário e concluía que não há outra saída para um jovem revolucionário burguês do que romper com suas origens (ou se integrar, de uma vez, no sistema). É este filme que influenciaria em Paris 68 os chamados ‘estudantes de maio’. Bertolucci fez Partner, adaptado de uma novela de Dostoiévski, desdobramento de tema anterior. Filme radical nas idéias e na forma, foi malhadíssimo pela crítica e fracassou. Atualmente, Bertolucci termina dois filmes: A Estratégia da Aranha, produção da TV italiana sobre uma novela de Jorge Luis Borges, e O Conformista, produção da Paramount sobre uma novela de Alberto Moravia. Miklos Jancso ficou falado há uns seis anos com Os sem-esperança mas foi Vermelhos e brancos que lhe deu projeção internacional junto ao público. Este húngaro com mais de quarenta anos lutou com armas nas mãos contra os invasores nazistas. Silêncio e grito, Os ventos brilhantes e Siroco de inverno são outros belos e polêmicos filmes de Jancso. Se Bertolucci é um rebelde ainda em busca de estilo, Jancso é criador de um estilo original de filmar e dirigir atores e sua celebridade nasce disso. Desenvolvendo experiências de Antonioni quanto ao uso do espaço e dos objetos de cena, Jancso praticamente destruiu a história, a anedota do roteiro e faz filmes a partir de evoluções de personagens, paisagem,

a liberdade é um preço muito caro pago ao progresso. isso quer dizer: atores imóveis em diálogos de alto nível literário. No momento. e filma os sons. ouvíamos a música de Bach. Casado com a cineasta francesa Danièlle Huillet. Seus filmes têm adoradores e detratores. em Othon. De uma simplicidade de vestuários e de encenação absoluta. O movimento é dado pelo ritmo da fala. concreto. mas todo esse requinte estético não é abstrato e visa demonstrar uma tese revolucionária: a burocracia estrangula o homem. no panorama do cinema contemporâneo. duros. vemos o tempo todo orquestras executando concertos de Bach. Straub estourou em 65. uma obscura tragédia de Corneille filmada em Roma. Pierre Clementi é o ator lançado por Buñuel em Belle de Jour. Jancso reflete muito mais do que protesta. Cenas fixas longuíssimas. Francês. O tema era forte. ouvimos os versos de Corneille. Simplesmente coloca os atores parados. Jean-Marie Straub é outro caso do cinema atual. Depois de Bach. Na sua linguagem simples e desesperadora. ninguém consegue ficar no meio-termo. Straub terminou Othon. todas as famosas “noções de cinema” que um crítico ou espectador possa ter. a única forma de filmar a vida de um músico é filmar sua música. mas foi a forma de Straub filmar que fundiu a cuca da crítica. ele está em Roma preparando uma co-produção húngaro-italiana para realização de um filme histórico de cinco capítulos de uma hora. de costas ou de perfil. um . cores e sons. Clementi saiu de um grupo teatral dirigido por Marc’O. Em cores.arquitetura. O ritmo do seu cinema é mais próximo da música do que do teatro. desertou da guerra da Argélia e se exilou em Munique. panfleto e reflexão política sobre o renascimento do nazismo na Alemanha. no Festival de Pesaro. eis o barato! Para Straub. Enfim. diante dos cenários antigos romanos. com um filme de uma hora chamado Os nãoreconciliados. a revolução precisa de homens nobres e puros e não de moralistas corruptos etc. São várias cenas fixas onde. o cinema é algo físico. numa co-produção alemã-italiana. A neutrabilidade da imagem e o dinamismo do som são as grandes contribuições de Straub para inverter e abrir alguns caminhos para o futuro do cinema. aquele bandido louco que estraga a vida da heroína. Para Straub. Em Bach. o filme – segundo o autor – “visa despertar no público o amor pela língua maravilhosa de Corneille”. Ele destrói todas as noções de espetáculo. os atores recitam o texto integral da peça. a par de algumas rápidas interferências dialogadas. “porque sua música é a sua palavra”. E a música vira palavra do filme seguinte – Crônica de Anna Magdalena Bach – biografia estética do compositor. No cinema de Straub a palavra vira música.

Seu nome cresceu e Hollywood andou acenando com grandes contratos. Straub – Espero que a indústria de cinema termine.. definitivamente. o cinema de sexo que é exibido no bas-fond. não quer adotar sua própria imagem no espelho e sua ruptura com o “sistema comercial” o transformou num caso raro. Um dos exemplos atuais de sucesso de pornografia é o filme Midnight Cowboy. Clementi resistiu bravamente. de uma grande hipocrisia em pensar que o sucesso de público que a indústria lhe oferece é um real sucesso artístico. E eu prefiro a pornografia esportiva. O cinema industrial prega o conformismo. publicitários. a falsa beleza. para mim. gente de bom gosto. atores. rompeu o contrato com seu agente. Celebridade internacional. Straub – Se vai acabar ou não. dando sempre a impressão de que está “fazendo arte”. Clementi é um dos raros exemplos de ator que não quer ser vedeta. Hollywood fez uma montagem calculada de todos os pequenos efeitos estéticos e dramáticos do cinema europeu e americano e vende isso tudo como se fosse arte. como reflexão filosófica. se deixam envolver pela pornografia disfarçada de Hollywood. sem o menor interesse no consumo comercial. escreve poesia ou música. A burguesia compra imitações de obras de arte pensando que é arte. A indústria de cinema é dirigida por gângsters que compram a consciência de escritores. a falsa arte. filmando como quem pinta. Eu estou filmando à margem do cinema industrial. o que Marlon Brando significou na América de ontem. depois de Belle. admitir que o cinema seja algo como a indústria de batatas. internou-se numa clínica. hoje ou amanhã. diretores. Isto. mas como concepção estética. Todas essas concepções são frutos de grande medo dos artistas de assumir sua própria condição de artistas. fotógrafos. é pornografia. na Europa de hoje. continuarei esperando que acabe. críticos e impõem produtos verdadeiramente porno-gráficos ao público. Eu digo pornográficos não porque tratem de sexo. Clementi significa. Eles falam e eu escuto (e falo também). Se tenho dificuldades financeiras. abandonou o sucesso comercial e se integrou no grupo americano do Living Theater. Glauber – Mas a indústria do cinema não vai acabar assim tão fácil.. Até mesmo intelectuais.. Esses quatro homens estão na casa de Barcelloni e é madrugada em Roma. isso é um problema meu. criou um excepcional personagem duplo em Partner. teve uma crise psicológica fortíssima.. como conclusão moral. não quer seu nome em destaque. Se cada cineasta tivesse essa . É como se eu vendesse uma imitação de Rubens dizendo que era um Rubens autêntico.jovem diretor que resolveu acabar com o tradicional formalismo monocórdio dos atores franceses. O grave é vender sua arte à indústria.

que somente alguns privilegiados podem ver um bom filme. Straub – . Mas em geral também temos problemas de censura. em geral. por um estilo de interpretação e um enredo cheio de lugares comuns. em sua grande maioria. Isso desde que o cinema existe... a arte não é tão desprezada como no Ocidente. por funcionários medíocres que não entendem de arte e que se julgam no direito de escolher o gosto do público. inclusive porque um filme exibido pela televisão é visto por muito mais gente do que se fosse exibido num cinema. mas não se pode negar que o nosso cinema está dirigido. E então. em Nova lorque ou em Moscou. Ora. concorda com Straub? Jancso – O nosso problema é diferente em certos aspectos. você tem funcionários centro-esquerda. então a indústria do cinema estaria perdida. o cinema seria feito pelos artistas e não pelos gângsters.. Jancso.. quando o público vai ver um filme que examina as . você tem funcionários demo-cristãos. ou seja. não vive da publicidade e. E assim por diante. se emburreceu por uma fórmula de começo-meio-final feliz. Não são técnicos e sim homens que têm cargos políticos. Assim o grande público se educou vendo um tipo de filme. Glauber – Você. que tem uma indústria de cinema estatal. pode produzir filmes sem qualquer interesse comercial e nos dar liberdade de política e estética. Isso é uma boa solução. o cinema pornográfico da indústria. Se o governo é demo-cristão. Straub – Mas seus filmes são distribuídos como os filmes comerciais soviéticos ou franceses em Budapeste? Jancso – A distribuição está programada. Glauber – E você acha que a televisão européia vai corrigir um pouco essa tirania comercial? Straub – A televisão também é dirigida por gente estúpida. porque isso supõe que o público não tenha bom gosto. há cinemas de arte e cinemas comerciais. assim. A diferença é que os filmes de arte são produzidos. Ora. Nesse sentido o cinema produzido pela TV combate. o que acontece é que o público não tem direito de ver os bons filmes. que é de país socialista.. Mas acontece que a TV na Itália ou na Alemanha é menos comercial do que o cinema. porque sem os intelectuais eles não poderiam fabricar a pornografia de luxo..Então é o mesmo sistema do Ocidente! O princípio do cinema de arte e do cinema comercial é um princípio fascista. porque é estatal. Se é centro-esquerda. porque a indústria coloca os filmes comerciais nos grandes cinemas e os filmes de arte nos pequenos. de forma conseqüente.consciência. se resolvessem não servir mais à indústria.

e a revolução deverá evoluir até remover todos os preconceitos conservadores. na medida em que o valor comercial não é tão importante quanto no Ocidente. um ensaio.. de Buster Keaton e outros.. os filmes de Chaplin. um romance.. que aqueles são burros e aqueles outros são sensíveis? O público deve ter o direito de escolher o filme que quer ver. os bons filmes por isso devem ser exibidos nos grandes cinemas e não nos cinemas de arte. Clementi – que escutava tudo sem dizer nada... Jancso – . um princípio fascista de divulgar cinema.. lutar contra o triunfo de uma só concepção de espetáculo... e assim as duas tendências convivem. Straub – O princípio está errado porque é preferível não se fazer cinema do que enganar o público ou separá-lo entre público burro e público sensível. Aurora. eu ...Sim. Cidadão Kane.. As pessoas que têm dinheiro. meses depois mostrou um filme de James Bond e as crianças não entenderam nada. isso depende do sucesso do filme. Essa é a grande liberdade que o cinema hoje em dia pode lhe dar. como se compra uma máquina de escrever... e se escreve uma carta.. (Neste ponto da conversa. Haverá sempre o sistema imbecil de Hollywood.Entre nós é diferente. tanto num país capitalista quanto num país socialista. O que vemos é que. numa sala de mil espectadores.contradições da realidade... ele mostrou para um grupo de crianças apenas os grandes filmes de arte do cinema. os preconceitos são os mesmos. o público reage. Reage – com razão – porque não conhece outra linguagem. uma caneta. alguns são mostrados em grandes salas. mas é relativamente barato comprar uma câmera Super-8 e fazer seu filme.. O cinema de arte teve seu sentido anos atrás. Meus filmes são mostrados em cinema de arte. Quem pode dizer. um poema. mas agora é um gueto... Todo mundo paternaliza o público e todo mundo tem falta de respeito pelo público.. uma forma de censura. O cinema comercial ensinou ao público uma linguagem que só lhe permite ler a mentira! Mas há o famoso teste que Henri Langlois fez na Cinemateca Francesa: durante meses.) Clementi – O negócio é que hoje existem câmeras de 8 mm e qualquer pessoa pode comprar uma e começar a filmar. Hollywood quis me contratar. apenas bebendo vodca – entra em órbita. Clementi – . Potemkin. Acharam uma grande porcaria! Jancso – Em nosso país nós fazemos um grande esforço para lutar contra a burocracia. Glauber – .

no Brasil existe a tese de que o cinema novo é uma porcaria e que o Brasil devia seguir o exemplo do cinema italiano. que a Itália é um país subdesenvolvido e que o cinema italiano não existe mais. quero que meus gestos e atos sejam físicos e mentais. inclusive perigoso. porque tenho uma visão pessimista e acho que a arte é uma atividade solitária.Você sabe. que toda nossa economia está nas mãos dos americanos e que o único produtor italiano que não tem dinheiro americano se chama Barcelloni. E quando a Mosfilm se une a Hollywood é sinal de que foi firmado um pacto para exterminar definitivamente a arte! E eu não estou nem contra nem a favor do sistema. proibido.. nem cultural nem economicamente. se rebelarem todos.Três dos melhores filmes da década de 60 foram Os fuzis. que depois a revende – muito mais caro ao público? Se ela aparece nua num filme não-comercial. quero ser um ativista de arte. é tudo americano feito na Europa! . mas eu devia interpretar papéis idiotas. eu devia tomar atitudes contrárias aos meus sentimentos. o cinema italiano de hoje é uma porcaria. O sistema comercial morrerá no dia em que todos os atores fizerem como eu. Eu acho estranho que um país que faz três obras-primas em dez anos tenha um cinema ruim. que é um professor e agora só faz filmes didáticos para a TV. Aliás. eu posso trabalhar dentro e fora do sistema. que ela vai ficar cada vez mais forte.. Bertolucci – Eu não acho que a indústria vai morrer. O que talvez não saiba a crítica brasileira é que nós também somos subdesenvolvidos... E. sua nudez é um gesto existencial. estou de acordo com Godard e estou de acordo também com Hitchcock. salvo Pasolini. que é um poeta. entre os produtores italianos que investem o dinheiro dos americanos nas co-produções com os soviéticos. e Rossellini. pelo contrário. para atrair público com seu corpo nu. então está certo. na liberdade artística total. mas eu pergunto: se uma estrela recebe dinheiro para aparecer nua. eu seria apenas um instrumento de comunicação da pornografia de que Straub falava.. no teatro tribal. E eu sou contra essa prostituição do ator. Eu estive nos Estados Unidos. depois.. Eu agora só faço filmes que me interessem e estou cada vez mais interessado no teatro coletivo. Acho.ganharia um milhão de dólares por ano. não existe cinema italiano ou francês. Bertolucci. por isso estou de acordo com Straub. quero dizer. eu devia fazer diálogos contra a minha moral. Glauber – . ela não está vendendo sua atração sexual ao produtor. que afinal minha vida seja um teatro.. porque agora começaram as co-produções entre a Itália e a União Soviética. Uma estrela pode aparecer nua num filme eu acho muito bonito. Vidas secas e Deus e o diabo na terra do sol. Bertolucci – . comprei uma Super-8 e fiz um filme sobre minha viagem..

hoje em dia. como cinema. numa livraria e leva para casa e bota para passar na TV. no entanto. no entanto. Bertolucci – O cineasta deve ficar livre como Rossellini e Buñuel. antes do Straub me interromper. Os americanos. do sistema ou fora do sistema. são provincianos! Bertolucci – Como eu ia dizendo. faremos nossos filmes com película magnética.. com cinco mil dólares... E depois a liberdade do filme magnético vai permitir reinventar o cinema.. intelectualmente. Clementi – O mais grave. Mas a . que deve ser agora em abril. Mas se você vai ver esses filmes hoje em dia. As cinematecas serão museus. Qualquer homem poderá filmar. encontro Pedro Portabella. ele conclui esse papo sobre o cinema do futuro: “Estou filmando com dez mil dólares. hoje em dia. Buñuel.. fazer do cinema a sua palavra. um cinema poético.. Straub – Buñuel fez o melhor filme político que eu já vi: Los Ambiciosos. (Chega José Celso Martinez e combina com Pierre Clementi uma excursão do Living Theater ao Brasil.Straub – E cinema europeu feito em Hollywood.Nenhum produtor. O sistema ficará fazendo os filmes comerciais e nós. haverá filas nos museus para se ver Chaplin. o mais importante cineasta independente da Espanha. é que a maioria dos cineastas que fala de política. Glauber – . realiza filmes pornográficos para o sistema. como o Louvre. Ora. a sua linguagem. é que o cinema italiano é o pior exemplo que se pode dar. lucidamente. Clementi – Buñuel é um homem livre. um homem que ninguém pode criticar porque ele é tão puro como se estivesse filmando com uma Super-8. que filmes! São os maiores ensaios antropológicos sobre o homem latino-americano. vai abrir uma nova estética.. E. como botaria um disco na vitrola. distribuiremos esses filmes como se distribui livros. científico. como o Prado. em Barcelona. Cidadão Kane. Hollywood importa as técnicas de Godard e Antonioni e produz “arte de luxo” como Midnight Cowboy ou The Graduate. Dentro de cem anos ninguém mais ouvirá falar de James Bond. ele fez filmes comerciais no México.. o filme de arte vai ser muito mais distribuído através dos cassetes do que mesmo através da televisão. Agora temos a câmera de TV e logo teremos os cassetes que vão distribuir os filmes magnéticos como se distribui música. Iremos aos Museus assistir Potemkin.. Chaplin. Nazarin e Los Olvidados são tema para duzentos ensaios. didático. e.. os autores. que faz contestação. já ousou meter o dedo num filme de Don Luis e. Você compra um filme num cassete do tamanho de um sabonete.) Uma semana depois. da mesma forma que há filas hoje para ver Picasso no Museu de Barcelona.

independência do cinema depende do cineasta. . porque a pior forma de censura é a autocensura.

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