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COMUNIDADES TERAPÊUTICAS

NOVA ESPERANÇA

MANUAL DO PROFISSIONAL DE
REFERÊNCIA
(CONSELHEIRO)
GUIA PRÁTICO

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

2018

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INTRUDUÇÃO

Considerando a necessidade de proporcionar aos Acolhidos das Comunidades


Terapêuticas Nova Esperança um ambiente propício, que favoreça a
identificação entre os pares e potencialize assim este importante elemento
terapêutico;

Considerando a redação do item IV do parágrafo primeiro do artigo 11 da


resolução CONAD 01/15 – Marco Regulatório da Comunidades Terapêuticas -
que preconiza a indicação de um Profissional de Referência a cada Acolhido;

Considerando a necessidade de proporcionar aos Acolhidos das Comunidades


Terapêuticas Nova Esperança um atendimento cada vez mais especializado e
individualizado e que atenda às suas demandas singulares;

Considerando as demandas cada vez mais complexas apresentadas por estes


Acolhidos, que se manifestam não só sob a forma de comprometimento clínico
e psiquiátrico, mas também na condição de problemas psicossociais graves e
complexos;

A partir do mês de fevereiro do ano de 2018, a Coordenação Geral das


Comunidades Terapêuticas Nova Esperança iniciou a implantação do sistema
de divisão de grupos em cada uma das suas cinco unidades de Comunidades
Terapêuticas existentes.

Tais mudanças se justificam pelas considerações relacionadas acima e em sua


decorrência, surge uma nova figura na vida da Comunidade Terapêutica: o
Profissional de Referência, ou o Conselheiro, como será chamado aqui.

Desta forma, fez-se necessária a criação de um instrumento que descrevesse


as atribuições desta nova função, sua conceituação e indicasse a postura e as
técnicas a serem adotadas pelo profissional ao exercê-la.

O documento traz ainda considerações sobre o contexto histórico no qual esta


função e alguns dos conceitos e técnicas a ela relacionados surgiram e
pondera sobre a relação destes com outros tipos de profissionais e
atendimentos à dependência química.

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APRESENTAÇÃO

O objetivo deste Manual é apresentar maneiras do Profissional de Referência


(Conselheiro) aplicar suas qualidades básicas, tornando-se mais eficiente e
criando um ambiente que estimule o Acolhido a vivenciar plenamente seu
Plano de Atendimento Singular (PAS), mantendo o enfoque terapêutico,
possibilitando um melhor atendimento, utilizando-se de técnicas claras e
consonantes com os princípios e ensinamentos do modelo de Comunidade
Terapêutica.

Profissional de Referência: “O profissional


encarregado da oferta e da integração das atividades,
serviços e dos demais profissionais envolvidos. Cabe a
ele facilitar a integração social do indivíduo, mapeando
sua rede social, identificando demandas, propondo
soluções e fornecendo aporte. Pode fazer a
interlocução com familiares e grupos de convívio,
promovendo e facilitando reuniões com estes.”. Ribeiro &
Laranjeira (org.), 2013.

Para um melhor entendimento, no que concerne às atribuições, posturas e


rotinas do Conselheiro, este manual foi subdividido em cinco itens iniciais, à
saber:

I. O dia a dia do Conselheiro;


II. O conselheiro como Modelo;
III. O conselheiro e suas Competências Técnicas;
IV. O conselheiro como Agente de Mudanças;
V. O conselheiro, o Registro e a Coleta de Dados;
VI. A História – O Modelo Minnesota
VII. Técnicas de Aconselhamento
VIII. Considerações Finais
IX. Bibliografia Consultada
Boa leitura!

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I. O DIA A DIA DO CONSELHEIRO:

Membros de uma Comunidade, trabalhando juntos para ajudarem uns aos


outros e a si mesmo. Um ambiente de auto-ajuda é aquele que dá apoio e
tem uma preocupação humanizada e estimula a autonomia.

1. Além das atividades previstas no cronograma, o Conselheiro


promove reuniões semanais com os Monitores (ou Integradores) de
seu Grupo;

2. O Conselheiro indica os Monitores (ou Integradores) e Padrinhos de


seu Grupo observando parâmetros e critérios pré-estabelecidos.

3. O Conselheiro mantém sessões de Aconselhamento Individual


regularmente com os Acolhidos de seu Grupo; **
**Abordaremos as técnicas de aconselhamento na págs.11e 12.

4. O Conselheiro participa ativamente da construção do PAS dos


Acolhidos de seu Grupo, acompanha a sua execução além de o
reavaliar regularmente;

5. O Conselheiro atualiza e evolui os prontuários dos Acolhidos de seu


Grupo utilizando linguagem técnica e adequada;

6. O Conselheiro encaminha e acompanha as demandas dos Acolhidos


de seu Grupo aos demais membros da equipe Multidisciplinar, bem
como à sua família;

7. O Conselheiro tem acesso, atende e aconselha a família dos


Acolhidos de seu Grupo nos sábados de visita ou outras ocasiões,
bem como notifica pais ou responsáveis que deixam de participar ou
atuam de forma equivocada no processo de recuperação de seus
Acolhidos;

8. O Conselheiro convoca (sob supervisão da Coordenação), pais ou


responsáveis à unidade da C.T. para realizar intervenções junto aos
Acolhidos de seu Grupo;

9. O Conselheiro busca sanar ou reverter situações de pedido de alta


antecipada por parte dos Acolhidos de seu Grupo;

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10. O conselheiro estimula o envolvimento e adesão dos Acolhidos do
seu Grupo no processo de aprendizagem social promovido pela
Comunidade Terapêutica – a autoajuda;

11. O Conselheiro zela pelo bom funcionamento da Comunidade


Terapêutica e o bem estar de TODOS os seus acolhidos;

12. O Conselheiro trabalha em equipe. Suas decisões sempre são


coletivas: discutidas, analisadas e/ou referendadas pela Equipe
Multidisciplinar ou Coordenação;

II. O CONSELHEIRO COMO MODELO

O comportamento e as atitudes do Conselheiro devem exercer uma


influência positiva sobre os membros da Comunidade através da figura
modelo. Tanto a Equipe como os Residentes precisam ser encorajados a
se tornarem modelos positivos.

1. O Conselheiro mantém-se suficientemente “afastado” de cada caso de


modo a não envolver-se emocionalmente com o mesmo, o que pode
interferir em seu desempenho profissional;

2. O conselheiro conhece e zela pelo respeito e cumprimento do Código de


Ética da Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas –
FEBRACT, da qual as Comunidades Terapêuticas Nova Esperança são
filiadas;

3. O Conselheiro conhece e difunde a proposta, a cultura e os


ensinamentos do modelo de Comunidade Terapêutica;

4. O Conselheiro é antes de tudo, um membro da Comunidade


Terapêutica, assim, NUNCA se coloca acima de suas normas.
Igualmente, deve ser o primeiro a respeitá-las e zelar para que todos as
cumpram;

5. O Conselheiro mostra-se atencioso e cuidadoso nos atendimentos que


faz e em relação às solicitações que lhe são dirigidas pelos Acolhidos e

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suas famílias, busca sempre favorecer a empatia e o vínculo terapêutico
com quem atende;

6. O Conselheiro não extrapola suas atribuições institucionais, evitando


assim assumir uma postura de “especialista” diante de determinadas
demandas. Faz encaminhamentos sempre que necessário;

7. O Conselheiro zela por sua própria saúde e recuperação, frequenta


grupos de apoio e/ou busca ajuda profissional;

8. O Conselheiro zela por sua boa aparência, apresentando-se para o


trabalho com roupas adequadas e limpas, cabelos alinhados e barba
feita, assim como deve ser solicitado aos Acolhidos de seu Grupo;

9. O Conselheiro busca continuamente aprimorar-se nas técnicas


pertencentes à sua área de atuação por meio de leitura, cursos e
capacitações;

10. O Conselheiro em recuperação, mantém sua abstinência de álcool e


substâncias ilícitas e em todos os outros casos evita também a
automedicação com psicotrópicos. Zela por uma conduta social
adequada, uma vez que ocupa cargo de grande relevância e confiança
da C.T e população em geral.

III. O CONSELHEIRO E SUAS COMPETÊNCIAS TÉCNICAS

Existe uma gama de teorias e conceitos com os quais o Conselheiro deve


estar familiarizado e idealmente deve ser capaz de utilizar em seu dia a
dia. Ainda que muitos destes conceitos sejam novos para jovens
Conselheiros, a busca por estes conhecimentos deve ser contínua e
incessante.

1. O Conselheiro é capaz de fazer a avaliação do comprometimento


relativo ao uso de álcool e outras drogas de determinado caso utilizando
os elementos descritos pela teoria da Síndrome de Dependência
Alcóolica (SDA) de Edwards & Gross;

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2. O Conselheiro é capaz de fazer a avaliação motivacional e adotar o
manejo mais adequado utilizando a conceituação dos Estágios de
Prontidão para Mudança de Prochasca & Di Clemente;

3. O Conselheiro é capaz de avaliar os fatores de risco e de proteção do


uso de SPAs, bem como quais são os recursos internos e externos dos
quais os indivíduos dispõe para lidar com estes, utilizando os conceitos
de Prevenção de Recaída de Marlatt & Donovan;

4. O Conselheiro conhece o Programa de 12 Passos das irmandades


anônimas, bem como sua bibliografia, filosofia e funcionamento;

5. O Conselheiro é capaz de compilar e sintetizar as informações acerca


de um caso de modo a reunir elementos suficientes para a elaboração
de seu PAS, bem como para a organização de uma História Clínica;

6. O Conselheiro conhece os conceitos básicos referentes à neurobiologia


da dependência;

7. O Conselheiro conhece a classificação das drogas e seus efeitos no


organismo, bem como os sinais e sintomas de sua síndrome de
abstinência específica;

8. O Conselheiro está familiarizado com os conceitos e estrutura das


técnicas de aconselhamento;

9. O Conselheiro conhece os conceitos referentes à Entrevista


Motivacional, bem como é capaz de empregar este recurso;

10. O Conselheiro conhece o impacto do uso de SPAs e suas implicações


na vida e na saúde de populações específicas – Mulheres, Idosos,
Adolescentes;

11. O Conselheiro conhece o impacto e a interface existente entre o uso de


SPAs, a sexualidade humana e comportamentos de risco (HIV/AIDS,
Hepatites, etc.)

12. O Conselheiro conhece as noções básicas da Abordagem Familiar com


famílias de dependentes químicos.

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IV. CONSELHEIRO COMO AGENTE DE MUDANÇA

Os Acolhidos absorvem ensinamentos da CT e aperfeiçoam ao mesmo


tempo seu comportamento e as suas atitudes, proporcionando uma maior
interação com o grupo e expressando sentimentos de sucesso e auto-
eficácia. A Equipe Técnica, incluindo os Conselheiros devem ser os
facilitadores deste processo.

1. O Conselheiro é o principal agente de mudança com relação aos


Acolhidos, promovendo a cultura e os ensinamentos da Comunidade
Terapêutica e da recuperação;

2. O Conselheiro é o principal agente de mudança com relação aos


Acolhidos, orientando-o e facilitando o processo de aprendizado social
proporcionado pelo uso do ambiente total da Comunidade Terapêutica;

3. O Conselheiro é o principal agente de mudança com relação aos


Acolhidos, auxiliando-o a estabelecer metas curtas, objetivos diários e
de forma sistemática executar seu Plano de Atendimento Singular –
PAS;

4. O Conselheiro é o principal agente de mudança com relação aos


Acolhidos, ensinando-o e orientando-o a respeito da programação dos
12 Passos, da filosofia e do funcionamento das irmandades anônimas,

5. O Conselheiro é o principal agente de mudança com relação aos


Acolhidos, ensinando-o e orientando-o a respeito de Programas de
Prevenção de Recaída;

6. O Conselheiro é o principal agente de mudança com relação aos


Acolhidos, utilizando-se das técnicas de aconselhamento, entre outras,
ele dá suporte e assiste aos Acolhidos em sua recém-conquistada
autonomia;

7. O Conselheiro é o principal agente de mudança com relação aos


Acolhidos, orientando-o e auxiliando-o na construção e execução de um
Projeto de Vida;

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8. O Conselheiro é o principal agente de mudança com relação aos
Acolhidos, servindo como Modelo em atuação dentro e fora da
Comunidade Terapêutica.

V. O CONSELHEIRO, O REGISTRO E A COLETA DE DADOS

Dados e registros corretos e atualizados são da maior importância e a


única forma de promover-se melhorias contínuas nos processos e
atendimento na Comunidade Terapêutica. A escassez de dados acerca
das práticas e resultados do Modelo de Comunidade Terapêutica faz com
este que seja olhado com restrições em muitos meios.

1. O Conselheiro faz registros regularmente e os mantém atualizados;

2. O Conselheiro registra com linguagem técnica e adequada todas as


ações e intervenções realizadas na Comunidade Terapêutica nos
Livros de Ocorrências e nos prontuários dos Acolhidos;

3. Ao realizar registros, o Conselheiro limita-se a narrar os fatos


fidedignamente, evitando opinar, avaliar ou fazer julgamentos acerca
dos mesmos;

4. O Conselheiro se dispõe a coletar dados e usar instrumentos de


pesquisa sempre que solicitado;

5. O Conselheiro compreende a importância e valoriza a necessidade


dos registros e da coleta de dados acerca do atendimento, dos
resultados obtidos e dos diversos aspectos da população acolhida
pela Comunidade Terapêutica;

Conforme objetivo transcrito, os cinco itens deste Manual do Conselheiro


apresentaram as rotinas, técnicas e habilidades esperadas dos membros da
Equipe de uma Comunidade Terapêutica: Conselheiros treinados, abertos à
mudanças e adequações, capazes de um desempenho profissional cada dia
mais eficaz frente aos desafios de sua profissão.

VI. A HISTÓRIA - O MODELO MINNESOTA

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A Lei Seca nos Estados Unidos (1920-1933) reduziu drasticamente o
consumo de álcool e com isto caiu o número de alcoólatras naquele país,
apesar da ocorrência da atividade criminosa, paralela personificada por Al
Capone em Chicago. Durante essa época, os hospitais e instituições que se
dedicavam ao tratamento de alcoolismo quase desapareceram.

A abolição da Lei Seca e o transtorno da Segunda Guerra Mundial,


contribuiram para uma epidemia de alcoolismo, sem que houvesse qualquer
previsão para tratamento institucional a não ser o encaminhamento para
manicômios.

Assim, com o término da guerra em 1945, o sistema de saúde mental


estava sobrecarregado, sem pessoal e verba. Por exemplo, 80% dos internos
do manicômio estadual em Willmar, Minnesota, foram diagnosticados como
alcoólatras ou ébrios, como eram chamados naquela época.

Dr. Nelson Bradley, o Superintendente de Willmar e o jovem psicólogo de


sua equipe, Dr. Daniel Anderson, diante da falta de pessoal e de uma
metodologia eficaz, tomaram uma medida inédita para diminuir essa
população. Eles convidaram leigos, membros de Alcoólicos Anônimos,
alcoólatras em recuperação, para tentar administrar essa população. Os
resultados foram tão expressivos que alguns desses leigos foram
contratados como os primeiros conselheiros ou consultores em
alcoolismo.

O que se desenvolveu então foi um modelo totalmente diferente do


tratamento tradicional que era individual e analítico. O processo tornou-se
essencialmente grupal, no qual as pessoas trocavam estórias até chegar a
sentir que estavam “captando o programa”, uma sensação de “aha!”. “Não
estou sozinho. O que aconteceu comigo já aconteceu com outros também.” Até
os profissionais começaram a reconhecer que “a verdadeira terapia acontecia
quando a equipe de terapia ia para casa.” John Burns – O Modelo Minnesota no Brasil

Importante: As Comunidades Terapêuticas Nova Esperança não adotam o


Modelo Minnesota de atenção à Dependência de Álcool e outras Drogas, sua
metodologia é antes influenciada pelo modelo Norte Americano de

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Comunidades Terapêuticas (Day Top Village), incluindo ainda elementos da
Comunidade Terapêutica proposta por Maxwell Jones. Muito embora, a figura
do Conselheiro e as técnicas de aconselhamento devam fazer parte de sua
práxis diária.

VII. TÉCNICAS DE ACONSELHAMENTO

O Aconselhamento é a intervenção psicossocial mais amplamente utilizada em


dependência química e contribui para uma evolução positiva do tratamento.
Consiste, fundamentalmente, de apoio, proporcionando estrutura, monitoração,
acompanhamento da conduta e encorajamento da abstinência.

Proporciona também, serviços ou tarefas concretas tais como encaminhamento


para emprego, serviços médicos e auxílio com questões legais.

VII.I. Objetivos primários:

Construção de um ambiente e uma relação voltada para:

 Apoio, análise, compreensão e solução de problemas específicos;


 Ajuda no processo de tomada de decisões importantes, e
operacionalização de objetivos relevantes para o indivíduo;
 Fornecimento de elementos para que o indivíduo possa mudar atitudes;
comportamentos ou a percepção de uma dada situação problemática;
 Não pretende ser um tratamento em si.

VII.II. Duração e estrutura:

Pode ser mínimo (3 minutos), breve (3-10 minutos) ou intensivo (mais de 10


minutos). Pode ser aplicado por qualquer profissional adequadamente treinado
e apresenta quatro fases:

1. Avaliação (identificação do problema).

2. Aconselhamento (estratégias motivacionais).

3. Assistência.

4. Acompanhamento

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VII.III. Estratégias motivacionais:

 Informações;
 Esclarecimentos;
 Encorajamento;
 Ensino de habilidades específicas;
 Sugestões racionalmente fundamentadas e pautadas em um
conhecimento detalhado dos contextos e das vivências;
 Reforço e condicionamento;
 “Empoderamento”;
 Organização social e mudanças na configuração do ambiente;
 Técnicas que ajudem a expressão emocional dentro de um ambiente
mais seguro e propício.

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VIII. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O termo “aconselhamento” vem sendo utilizado historicamente para uma


extensa variedade de atividades e intervenções, relacionadas principalmente à
promoção do desenvolvimento humano e do bem estar pessoal. Propõe-se a
fazer isso através da descoberta, avaliação, realce e incremento dos recursos
internos e interpessoais de indivíduos e grupos, visando de forma geral, uma
melhor qualidade de vida e uma maior satisfação pessoal.

Entretanto enquanto prática social, o aconselhamento desde suas origens


teórico-conceituais (até por ser uma prática híbrida, reunindo saberes tanto do
campo da educação como da psicologia e enfocando tanto aspectos cognitivos
como afetivos emocionais), concentrou imprecisões e dúvidas em sua
definição, conceituação, características essenciais, limites e possibilidades,
dificultando sobremaneira, uma clara demarcação e discriminação de suas
fronteiras e de sua específica identidade.

Confundiu-se no decorrer de sua história e nas diferentes situações aonde


foi aplicado, com outras práticas que igualmente utilizavam-se de uma escuta
cuidadosa e de uma atenção mais personalizada às demandas do outro, tais
como a psicoterapia, a atividade educativa, as práticas de acolhimento em
saúde e a orientação personalizada, que também não tinham uma definição
clara, consensual e precisa, e que eram vistas como distintas de outras
práticas assistenciais mais tradicionais (consulta médica, consulta de
enfermagem ou de assistência social e psicologia).

Com o passar dos anos, este tipo de relação de ajuda veio se


especializando cada vez mais, acumulando diferentes técnicas e metodologias,
princípios e abordagens. Desde a década de 20 até a década de 50, passou-se
a denominar aconselhamento esta prática de ajuda mais focalizada e objetiva,
de caráter mais situacional, educativo e preventivo que, de forma geral, se
propunha a construir um ambiente e uma relação voltados para o apoio, para a
solução de problemas específicos e para a tomada de decisão. Tal prática foi
se estruturando e, em muitos países, definiu-se, inclusive, como uma profissão
e atividade específica, distinta da psicoterapia e da psicologia clínica e de

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outras profissões de ajuda, como assistência social, medicina, psiquiatria e
enfermagem (Whiteley, 1999).

Contudo, as fronteiras entre aconselhamento e a psicoterapia sempre


foram alvo de intenso debate.

Apesar disso, o Aconselhamento enquanto uma prática tem sido


mundialmente utilizado na área de saúde como estratégia: de prevenção,
de mudança de comportamento, de resolução de problemas específicos,
como de ajuda na adesão a tratamentos e condutas terapêuticas dentro
das mais variadas áreas do campo da saúde: DST/aids, tabagismo,
alcoolismo, orientação sobre amamentação, violência, dor, orientação em
contracepção, orientação genética, acompanhamento de pacientes
cardíacos, pacientes com câncer, orientação alimentar, diabéticos,
usuários de drogas, entre outros.

Em todas estas áreas especificas esta prática tem sido incorporada de


forma diferente e com objetivos distintos segundo as necessidades de cada
situação. Muitas vezes ela tem sido identificada como uma prática de
orientação, como espaço da passagem de informação, e às vezes tem um
caráter maior de apoio emocional, ou de resolução de problemas específicos.
Porém tanto no Brasil como em outras partes do mundo, esta prática é utilizada
sem a incorporação de seu marco conceitual e de sua origem, ou seja, sem
que se identifique sua especificidade, que habilidades são necessárias para
seu desenvolvimento, seu alcance e seus limites. Isto leva a diferentes
concepções e interpretações sobre ao aconselhamento e a diferentes formas
de atuação o que impede uma possível avaliação das ações desenvolvidas.

É importante examinar a confusão existente na compreensão desta


prática, porque as dificuldades relacionadas ao processo de aconselhamento
em diferentes áreas aonde ele tem sido implantado têm sua origem em
conflitos bem mais antigos, associados à própria definição e delimitação do
aconselhamento enquanto uma atividade específica

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(Lewis, 1970; Santos, 1982; Scheeffer, 1976; Whiteley, 1999) in Recuperando
as origens históricas e conceituais do aconselhamento, Lígia Rivero Pupo;
Instituto de Saúde – SES/SP; SP, 2006.

IX. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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