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Formação Continuada de

Professores: uma ênfase


cultural

IMMANUEL KANT

SOBRE A PEDAGOGIA

Profª Drª Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira

Prof. Cássio Ricardo Feres Riedo


Profª Drª Marta Garcia Fernandes

Profª Drª Joyce Wassem

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Formação Continuada de Professores:
uma ênfase cultural

Apresentação

Este é um texto de Apresentação do Programa “Formação Continuada de


Professores: uma Ênfase Cultural e dos MOOCs que o compõe. Nele
apresentamos a proposta e as atividades que serão necessárias para o seu bom
aproveitamento.
Este Programa é composto pelo estudo de autores clássicos da educação e
tem como intenção oportunizar, aos participantes, reflexão sobre grandes ideias
educacionais que perduram pela história da educação, relacionando-as com as
práticas pedagógicas do seu cotidiano escolar.

v Público Alvo

O Programa foi pensado para participantes interessados em estudar os


autores clássicos relacionados com a educação, notadamente, para professores
preocupados em aprofundar conhecimentos e conceitos teóricos que embasam a
prática docente. Pretende-se desta forma, favorecer reflexões sobre o fazer
pedagógico no cotidiano escolar.

v Objetivos do Programa

O Programa tem como objetivos:

§ Viabilizar um aprofundado conhecimento de autores clássicos da


educação e com isso, promover a formação geral de professores da
educação básica e de outros interessados;
§ Ampliar a compreensão conceitual das ideias de obras clássicas e
favorecer o posicionamento crítico dos participantes sobre estas;

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Este Programa é oferecido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em
Educação Superior (GEPES), da Faculdade de Educação, da Universidade
Estadual de Campinas (FE-UNICAMP).
A Coordenação do Programa está sob responsabilidade de:
§ Profa. Dra. Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira
§ Profa. Dra. Joyce Wassem
§ Doutorando Cássio Ricardo Fares Riedo
§ Doutorando Fabrízio Marchese
§ Doutorando Gilberto Oliani
§ Doutoranda Marta Fernandes Garcia

O Programa é desenvolvido por meio da leitura e discussão de obras


clássicas de alguns dos principais autores da área da educação, trabalhadas em
cada MOOC.

v Informes Gerais

O Programa será desenvolvido na forma de MOOCs referentes a cada um


dos autores clássicos.

- O que é MOOC?

MOOC é a abreviação de Massive Open Online Course, que em português


é Curso Massivo Aberto Online. Tem como principal característica, possibilitar ao
participante um engajamento ativo de acordo com suas metas, conhecimentos
prévios e interesse, possibilitando a auto-organização e promovendo a autonomia.
A modalidade MOOC foi adotada neste Programa por possibilitar espaço de
interações entre os participantes e viabilizar o compartilhamento de conhecimentos.

- Quanto aos conteúdos

Cada autor será trabalhado em um MOOC por meio de 6 a 10 videoaulas,


tendo cada uma, aproximadamente, de 8 a 15 minutos.

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O conteúdo será uma obra do autor em estudo, com a leitura prévia do livro,
dos textos organizados pelos coordenadores deste Programa e pelo
acompanhamento das videoaulas.
Cada participante poderá estudar um ou mais autores apresentados no
Programa e receber o Certificado referente ao autor estudado.
Em cada MOOC serão desenvolvidas atividades de diferentes naturezas.
Cada uma delas tem a finalidade de conduzir o participante a compreender
conceitos e ideias principais do autor, bem como favorecer espaço de diálogo com
colegas por meio de Fóruns, promovendo reflexões sobre sua prática e a realidade
educacional em que atuam.
Para cada MOOC há uma estimativa de tempo de estudo de 2 a 4 horas para
o desenvolvimento das atividades por vídeoaula, embora esse tempo dependa de
cada participante.
Nos textos elaborados pela Coordenação do Programa estão trabalhadas:
§ as ênfases dos conceitos teóricos presentes nas obras;
§ as principais ideias concernentes às questões da educação;
§ o contexto social, cultural, político, educacional em que a obra foi escrita.

- Quanto a avaliação dos participantes

A avaliação será desenvolvida de forma processual por meio de diferentes


momentos em cada um dos MOOCs, uma vez que estes se referem aos
conteúdos específicos da obra em estudo.

O processo avaliativo considerará o efetivo envolvimento dos participantes


nas atividades programadas, as quais terão sempre como base, a leitura da obra,
dos textos organizados pelos coordenadores, o acompanhamento das videoaulas,
a participação em Fóruns de discussão e a produção de reflexão desenvolvidos por
meio de questões abertas e fechadas.
Os Fóruns serão espaços de discussão entre participantes visando trocas,
diálogos, apreensão de conteúdos e compartilhamento de experiências.
A produção de reflexão relativa às questões abertas será corrigida online
com a apresentação automática do progresso do aluno. Esta avaliação proporciona

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um feedback ao participante sobre seu processo de compreensão da obra e
solicitará, quando necessário, a reelaboração da produção para uma reavaliação.
Todas as tarefas terão prazos para a sua execução, o que é também uma
caraterística do MOOC.
Espera-se que cada participante saia mais rico do processo circular: -
Reflexão individual → reflexão coletiva → reestruturação da reflexão individual -
com mais conhecimentos e melhores condições de explorar novas práticas no
cotidiano educacional.
Terá direito ao certificado digital do MOOC, emitido pela Escola de Extensão
da Unicamp – Extecamp, o estudante que tiver aproveitamento de no mínimo 70%,
no processo avaliativo.

- O que é esperado dos participantes

Como em qualquer outro curso desenvolvido em EaD, a modalidade MOOC


exige:

§ Motivação para aprender;


§ Engajamento;
§ Determinação;
§ Autonomia;
§ Colaboração;
§ Disciplina;
§ Comprometimento com as atividades avaliativas.

Ressaltamos novamente, que o objetivo do Programa “Formação


Continuada de Professores: uma ênfase cultural” é favorecer um conhecimento
construído de forma ativa, por meio do engajamento individual e interação coletiva
entre os participantes com os mesmos interesses. Mais importante, o objetivo é
favorecer uma base para ancorar mudanças na sua prática educacional.

Desejamos à todos um ótimo curso.

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Formação Continuada de Professores:
uma ênfase cultural

Por que ler os clássicos

Profa. Dra. Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira

É interessante responder ao questionamento “Por que ler os clássicos na Formação


Continuada de Professores “ especialmente, autores clássicos da área da educação.
Vamos comentar sobre a importância de conhecer alguns dos autores clássicos da
educação.

Embora pareça contraditório, a importância de ler os clássicos está naquilo que eles
têm para contribuir com a educação dos nossos dias.

A definição de um clássico, em qualquer área, é a de que o conhecimento resultante


da leitura é de grande valor para as ações que estamos empreendendo no momento, isto
é, as ideias contidas nele ultrapassam o tempo no qual foi escrito.

Gasparin (1997) afirma que um clássico ultrapassa seu tempo e representa fonte
inesgotável de conhecimentos. São leituras que se tornam conhecimentos permanentes e,
mesmo em uma releitura, o leitor descobre novo saberes. Para o autor, “retornando aos
clássicos, progredimos intelectualmente” (GASPARIN, 1997, p. 40).

Ítalo Calvino (1993, p. 10), no seu livro “Por que ler os clássicos” diz que “estes são
conhecimentos formativos que favorecem embasamento para as experiências e que
fornecem escalas de valores, paradigmas de beleza, coisas que continuam a valer
sempre”. A leitura dos clássicos é um importante instrumento para se pensar a educação
na sua complexidade, isto é, na relação que tem com os demais campos do saber, uma
vez que abordam a questão de forma ampla, dando aos educadores melhores condições
de entender as relações da educação com a sociedade, a cultura, as tradições e com as
diferentes áreas de conhecimentos que a compõem.

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Ao analisar a importância do conhecimento adquirido por meio dos clássicos,
Nussbaum (1997, p. 67) os classifica como “uma das melhores bússolas” que os
estudantes podem obter na sua formação universitária.

Essa importância não está em supostas lições imortais ou morais, mas, porque a
profundidade e a diversidade das ideias adquiridas, possibilitam ao professor exercitar a
reflexão com liberdade de conhecimentos diante das questões do cotidiano. Permitem
também, em cada nova situação, encontrar uma nova resposta.

Um estudo realizado pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra, divulgado em


2013, mostra que obras clássicas estimulam mais o cérebro do que uma literatura mais
simples. Com a ajuda de scanners, o professor de literatura Philip Davis (2013) e outros
psicólogos da Universidade de Liverpool, monitoraram a atividade cerebral de 30
voluntários enquanto liam trechos de clássicos como William Shakespeare, T.S. Eliot,
William Wordsworth e outras referências literárias britânicas. Depois monitoraram a mesma
atividade de leitura de textos mais simples e verificaram que, durante a leitura dos
clássicos, o cérebro apresentava mais partes “iluminadas” do que a leitura de textos mais
simples.

Perceberam também que esse tipo de leitura produzia uma ação mais benéfica ao
leitor do que leituras de autoajuda. Isto sinaliza que a leitura dos clássicos auxilia o leitor a
refletir e reavaliar suas próprias experiências. Por esse motivo, Philip Davis, responsável
pela pesquisa, acredita que os clássicos seriam mais úteis do que livros de autoajuda.

Isto porque, os clássicos representam livros ricos em ideias, em reflexões, em


descobertas. Mesmo para os que leram um clássico, quando fazem uma releitura, sempre
encontram novas descobertas, pois, um clássico nunca termina de dizer tudo na primeira
vez que o lemos. Nesse sentido, Gasparin (1997, p. 40) diz que:

Clássico é um autor ou obra que não apenas lemos, mas que


relemos com a mesma curiosidade, com o mesmo interesse, como
se fosse a primeira vez. E a cada leitura descobrimos novos
encantos, novas ideias, novas percepções da realidade que o autor
nos mostra.

A obra clássica é uma fonte perene que nos ajuda a entender quem somos e o
porquê de onde estamos. São escritos por pensadores que captaram, de maneira especial,
as questões da humanidade e propiciam a sensibilidade, o estímulo para uma leitura mais
adequada das questões do nosso tempo e, no caso da educação, os autores clássicos dão
sustentação ao nosso trabalho docente, dotando de significados e conteúdos nosso
discurso e nossa prática educativa. A obra clássica tem o que dizer em todos os tempos e

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sociedade. Ela foi posta à prova do tempo e continua a iluminar a compreensão dos temas
a que se dirige. Não a lemos com o objetivo de transpor as ideias mecanicamente para o
nosso tempo, mas nelas encontramos conhecimentos para trabalhar a singularidade de
cada momento histórico.

Cada época, cada cultura, cada área do saber, cada expressão da cultura possui
seus clássicos. Assim temos clássicos nas artes, na música, na filosofia, na matemática,
nas ciências em geral, no cinema, etc. O que eles têm em comum e o que os faz ser
considerados clássicos é, segundo Gasparin (1997), a quebra de cânones tradicionais, a
busca de novos horizontes frente a determinadas situações sociais, a indicação de
transformação social a partir da crítica e da proposição de uma nova forma de agir, pensar,
refletir, entender, planejar, reconstruir.

No entanto, o clássico não profetiza, não é uma obra desvinculada do seu tempo,
de sua sociedade, de sua história. Por isso, ao estudar um clássico, ou ao ler uma obra
clássica, temos que conhecer a biografia do autor, o contexto social, cultural, econômico e
político em que viveu, pois é nesse cenário que a obra surgiu, que se estruturou e é no
cruzamento desse contexto com as ideias da obra, que se tem um melhor entendimento
das suas proposições. A partir desse referencial não podemos entender um clássico como
uma soma de acontecimentos, de dados ou de fatos lineares. Ele deve ser entendido como
um projeto aberto para novas construções que se faz em cada espaço social e tempo
histórico.

Segundo Calvino (1993), caberia à escola, favorecer ao estudante o contato com


autores clássicos para uma formação mais ampla e cultural do que a simples leitura de
textos rápidos, buscando conhecimento instrumental para respostas aos problemas da
sociedade. O que reina em toda parte é o instrumentalismo estreito, o discurso da
adaptação utilitária e momentânea, enquanto as questões fundamentais do próprio
conhecimento são ignoradas, particularmente em um mundo onde a ideia de cultura se
torna inconsistente.

Libâneo (2003) fala que a falta de educação geral é preenchida por uma semicultura
que é uma espécie de cultura feita de vivências que não ultrapassam os limites impostos
por uma falta de formação mais abrangente. De forma geral, os professores têm no nível
superior uma formação mais técnica e menos teórica, defendida por um discurso de que a
formação deve ser prioritariamente prática.

Para Libâneo (2003, p. 38), “Nossos problemas vêm de nossa formação social que
nos legou uma pobreza cultural, nos legou, na verdade, uma semicultura”. Chama a

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atenção para o desafio que está presente na formação dos professores quanto a ser capaz
de compensar a precária formação cultural, científica e estética.

A formação de professores há muito se ressente da falta de experiência com a


leitura e interpretação do pensamento de grandes autores e obras que marcaram, e
marcam, a gênese de conceitos fundamentais para a educação, bem como do
desenvolvimento da capacidade de análise, ponderação e embasamento sólidos para
compreender a complexidade da educação.

Favorecer uma experiência com o pensamento de alguns desses clássicos é o que


se pretende com estes cursos. Esperamos que o diálogo com eles favoreça um terreno
fértil de questionamento, de apreciação crítica, de posicionamentos sólidos, de
problematizações sobre a educação e sobre questões pertinentes a ela, como a respeito
do homem, do mundo, da sociedade, do conhecimento, da escola, do aluno, do currículo,
do conteúdo, entre outros. O aprendizado sistemático que a leitura e a interpretação das
obras clássicas pode favorecer aos professores, os levará a empreender novas e mais
qualificadas ações no cotidiano escolar.

Esperamos desta forma que as aulas apresentadas no decorrer dos cursos


contribuam expressivamente para a formação continuada de vocês participantes.

REFERÊNCIAS

CALVINO, Ítalo. Por que ler os Clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

DAVIS, P. Shakespeare and Wordsworth boost the brain, new research reveals. The
Telegraph, 13/01/2013. Acesso em 16/05/2017.

Disponível em: http://www.telegraph.co.uk/news/science/science-


news/9797617/Shakespeare-and-Wordsworth-boost-the-brain-new-research-reveals.html.

GASPARIN, J. L. Comênio: a emergência da modernidade na educação. Petrópolis: Ed.


Vozes, 1997.

LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da escola Pública: a pedagogia crítico-social dos


conteúdos. 19ª. edição. Coleção Educar. Edições Loyola. São Paulo. 2003.

NUSSBAUM, Martha Craven. Cultivating Humanity: a classical defense of reform in


Liberal Education. Seventh Printing. Cambridge: Harvard University Press. 2003.

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Formação Continuada de Professores:
uma ênfase cultural

Immanuel Kant: Vida, Obra e Contexto Histórico

Profa. Dra. Elisabete M. A. Pereira


Doutorando- Fabrízio Marchese

Neste texto apresentamos o filósofo Immanuel Kant e a obra que vamos


trabalhar é “Sobre a Pedagogia”. A escolha desta obra se deu por ser nela que
Kant deixa mais claro seu posicionamento sobre a educação. Vamos comentar as
relações entre os aspectos biográficos de Immanuel Kant, sua obra “Sobre a
Pedagogia”, o contexto histórico em que viveu e escreveu.
Immanuel Kant viveu no século XVIII. Nasceu em 22 de abril de 1724, na
cidade de Köenigsberg, que pertencia, naquela época, à Prússia Oriental, hoje
território da Alemanha, e faleceu na mesma localidade em 12 de fevereiro de 1804,
com quase 80 anos, o que por si só poderia ser considerado um fato admirável,
visto a expectativa de vida para aquele período histórico na Europa, ser muito baixa.
Kant foi o quarto filho de uma família de onze. Seu pai João Jorge Kant
exerceu as atividades de seleiro e de pequeno comerciante, e sua família possuía
recursos limitados, tendo duas de suas irmãs trabalhado, em certos momentos,
como empregadas domésticas. Sua mãe, Ana Regina Reuter, era fervorosa adepta
do Pietismo, uma linha do Protestantismo Luterano.
O Pietismo teve grande influência na vida e obra de Kant. Foi um movimento
religioso que determinava a seus seguidores uma vida simples por meio de estreita
obediência às leis e às virtudes bíblicas. Valorizava as experiências individuais,
sendo seu tema central a experiência com Deus. Sublinhava uma conduta no
seguidor desapegada do mundo material e firmada no apoio mútuo da comunidade
reunida em culto e estudo da Bíblia. Além destes comportamentos o que teve
grande influencia em Kant foi o desenvolvimento de uma moralidade austera no

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comportamento, especialmente no que tange à alimentação, vestimenta e lazer e
enfatizaram um sentimento de responsabilidade para com o mundo. Estes
elementos religiosos que compõem o Pietismo vão estar muito claros na obra
estudada neste curso.
Além de ter recebido essa sólida educação moral de seus pais, Kant com 13
anos, foi estudar como aluno interno no Collegium Fredericianum, que era dirigido
por Francisco Alberto Schultz, seguidor de Jakob Spener, célebre expositor do
PIETISMO.
Pascal (2005) afirma que as marcas da religião e da educação familiar foram
as principais responsáveis por Kant ter dedicado grande parte de seus trabalhos às
questões da Moral.
Kant ao mencionar recordações da infância diz que: “Jamais viu nem ouviu
na casa paterna coisa alguma que não se conformasse com a probidade a decência
e a veracidade” (apud, Pascal, 2005) .
Ao deixar o Collegium Fredericianum, no ano de 1740, com 16 anos,
ingressou na Universidade de Köenigsberg. Lá frequentou as aulas do curso de
Filosofia e de Ciências, e segundo Guyer (2009), o pensador que mais o influenciou
nesse período foi o também pietista Martin Knutzen.
Kant escreveu sua primeira obra, “Pensamentos sobre a verdadeira
avaliação das forças vivas” em 1747, com 23 anos. Nela estabelece relações entre
o pensamento de Descartes e Leibniz. Nesse período Kant aprofundou estudos da
matemática e teve os primeiros contatos com a Física de Newton. Nesse mesmo
ano de 1747, ocorre outro fato marcante na vida de Kant. Seu pai faleceu e ele teve
que deixar a universidade.
Para poder pagar suas despesas cotidianas, Kant tornou-se professor
particular e, durante cerca de 10 anos, ministrou lições para os filhos de famílias
nobres da região, em especial para a família Keyserling, que lhe propiciou alto nível
de convivência social, permitindo que se relacionasse com expoentes da sociedade
prussiana.
No ano de 1755, publicou sua segunda obra, “História universal da natureza
e teoria do céu”, na qual, segundo Flamarion Tavares Leite (2007), sugere uma
explicação mecanicista da origem do mundo, baseada nos estudos de Newton.
Nesse mesmo ano, após as apresentações dos trabalhos “Esboço sumário de
algumas meditações sobre o fogo” e “Nova explicação dos primeiros princípios do

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conhecimento metafísico”, obteve sua habilitação docente, um título necessário
naquela época para ministrar curso na universidade, embora ainda não como
professor contratado.
Durante quinze anos Kant trabalhou na Universidade de Köenigsberg como
Docente Livre, ministrando cursos financiados pelos próprios alunos, e, só após a
publicação da “Dissertação sobre a forma e os princípios do mundo sensível e do
mundo inteligível”, obteve a posição de professor titular da própria Universidade de
Köenigsberg.
Kant nunca deixou essa universidade e nela foi Reitor, professor na
Faculdade de Filosofia e mudou os destinos desta instituição, tornando-a conhecida
no mundo inteiro como a universidade de Kant.
Uma das marcas mais características do filósofo foi sua disciplina cotidiana
e extraordinária força de vontade. Sua rotina iniciava-se às 5 horas da manhã,
trabalhava até às 7 horas e ia para as aulas. A tarde fazia um passeio exatamente
às 15h30m, e de tão regular e pontual, afirma-se que as pessoas da cidade
acertavam o relógio com base na sua aparição para o passeio vespertino. Não tinha
o hábito de jantar e recolhia-se para descanso às 22 horas. Sua longevidade, acima
da média para o período histórico, está associada às atividades regulares e a uma
dieta desenvolvida por ele mesmo, influência do pietismo.

v Contexto
Kant viveu no século XVIII, que é conhecido como “Século das Luzes”, em
referência ao Iluminismo que foi um movimento cultural na Europa para mobilizar
o poder da razão, a fim de reformar a sociedade e o conhecimento herdados da
tradição medieval. Abarcou inúmeras tendências e, entre elas, buscava um
conhecimento apurado da natureza, com o objetivo de torná-la útil ao homem
moderno.

O iluminismo é uma atitude geral de pensamento e de ação. Os iluministas


admitiam que os seres humanos estavam em condição de tornar este mundo um
lugar melhor mediante livre exercício das capacidades humanas e do engajamento
político-social. Immanuel Kant como resposta à questão "O que é o iluminismo?",
descreveu de maneira lapidar:

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O iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma
tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são
aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria
razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado
da própria tutelagem quando esta resulta não de uma
deficiência do entendimento mas da falta de resolução e
coragem para se fazer uso do entendimento
independentemente da direção de outrem. Sapere aude!
Desafio a ser sábio - esse é o lema do iluminismo. (KANT,
1985, p. 100)

No século XVIII se deu alguns acontecimentos científicos que foram


relevantes para o tempo histórico de Kant como: a) a criação da máquina a vapor
por Thomas Newcomem, em 1712; b) a formatação da teoria da combustão química
por Lavoisier em 1780, considerado, posteriormente, o Pai da Química e que ficou
famoso por afirmar que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se
transforma; c) a criação do para-raios em 1752, por Benjamin Franklin. Foi também
no século XVIII que os gênios musicais Bach e Mozart compuseram seus principais
trabalhos.
Devemos ressaltar ainda, os acontecimentos políticos e econômicos do
século XVIII, que são relevantes para a compreensão da obra kantiana e fatos
históricos significativos que tomaram forma no período em que Kant atingia sua
maturidade filosófica.
Podemos destacar entre aqueles de maior relevância; a Guerra de
independência dos Estados Unidos; a assinatura da Constituição Americana; a
Revolução Francesa e o consequente movimento constitucionalista em muitas
nações europeias; a elaboração da Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão em 1789; o grande crescimento da indústria têxtil inglesa em 1789.
No campo da literatura, o século XVIII pode ser considerado um dos mais
férteis, e como Kant, outros autores clássicos publicaram seus trabalhos, alguns
inclusive, exercendo forte influência sobre o filósofo alemão como o grande filósofo
suíço Jean-Jacques Rousseau, que publicou, por volta de 1760, suas duas
principais obras “O Contrato Social” e “Emílio”.
Segundo a biografia de Kant, a única vez que este não saiu a tarde para
caminhar, como era seu costume, foi quando estava lendo o Contrato Social, pois
perdeu a hora de tão interessado que estava nela.

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Ainda nesse mesmo período, outro filósofo iluminista, o francês Voltaire,
publicou “Cândido”, “Cartas Filosóficas”, “Orestes” e “Dicionário Filosófico”. Voltaire
é conhecido pela sua defesa das liberdades civis. Suas obras e ideias influenciaram
pensadores importantes tanto da Revolução Francesa quanto da Americana.
Montesquieu publicou sua obra prima, “Do Espirito das Leis”, Diderot e D’Alambert
lançaram a primeira enciclopédia e Adam Smith publicou “Pesquisa sobre a
Natureza e as causas da riqueza das Nações”.
Parcela considerável de biógrafos de Kant consideram que suas obras
podem ser classificadas segundo três períodos de sua vida; o primeiro período, de
1745 a 1770; o segundo período de 1770 a 1790; o terceiro período abrange de
1790 até seus últimos dias, 1804.
O primeiro período de 1745 a 1770 é caracterizado como a fase pré-crítica
da filosofia kantiana, e diz respeito à filosofia conhecida como dogmática, isto é, as
ideias colocadas apresentam-se sempre como certas e indiscutíveis. É um período
em que sua produção é considerada sob grande influência de seus mentores e sem
posições originais, ou que demonstrem amadurecimento de sua filosofia.
Compartilha das ideias filosóficas daquele período, especialmente as alemãs, como
o racionalismo dogmático de Leibniz e os estudos da ciência newtoniana. É nesse
período também que tem contato com as obras de Jean Jacques Rousseau “Emílio
” e “Contrato Social”. Nessa primeiro período ainda se destacam outros de seus
trabalhos, com preocupações variadas como: o movimento e o repouso; as provas
da existência de Deus, o belo e o sublime.
Nesse período de 25 anos (1745-1770) Kant escreveu 22 trabalhos.
“Pensamentos sobre a verdadeira avaliação das forças vivas, e exame das
provas de que se serviam o Sr. De Leibniz e outros mecanicistas nessa
controvérsia” (1747);
“Pesquisa sobre a questão: Sofreu a Terra certas modificações no seu
movimento de rotação desde a sua origem?” (1754);
“História universal da natureza e teoria do céu, ou Ensaio onde se trata do
sistema e da origem mecânica de todo o Universo segundo os princípios de
Newton” (1755);
· “Esboço sumário de algumas meditações sobre o fogo” (1755);
· “Nova elucidação dos primeiros princípios do conhecimento metafísico”
(1755);

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· “Monadologia física: exemplo do uso da metafísica unida à geometria na
ciência da natureza” (1756);
· “Sobre as causas dos terremotos por ocasião do sinistro que atingiu as
regiões ocidentais da Europa pelo fim do ano passado” (1756);
· “História e descrição do terremoto do ano de 1755” (1756);
· “Considerações sobre os terremotos observados nos últimos tempos”
(1756);
· “Novas observações para a explicação da teoria dos ventos” (1756);
· “Programa e anúncio do curso de geografia física, com uma consideração
sobre o problema: Se os ventos do oeste em nossas regiões são úmidos,
porque passam sobre um grande mar?” (1757);
· “Nova concepção do movimento e do repouso” (1758);
· “Ensaio de algumas considerações sobre o otimismo” (1759);
· “Pensamentos sobre a morte prematura do Sr. João Frederico de Frunk”
(1760);
· “A falsa sutileza das quatro figuras silogísticas” (1762);
· “Ensaio para introduzir na filosofia o conceito das quantidades negativas”
(1763);
· “O único fundamento possível para uma demonstração da existência de
Deus” (1763);
· “Estudo sobre a evidência dos princípios da teologia natural e da moral”
(1764);
· “Observação sobre o aventureiro João Komarnicki” (1764);
· “Ensaio sobre as doenças da cabeça” (1764);
· “Observações sobre o sentimento do belo e do sublime” (1764);
· “Os sonhos de um visionário esclarecido pelos sonhos da Metafísica” (1766);
· “Do primeiro fundamento da diferença das regiões no espaço” (1768); e
· “Da forma e dos princípios do mundo sensível e do mundo inteligível”
(1770).

No segundo período (1770 – 1790), podemos perceber os traços que


estabelecem o pensamento kantiano como um dos mais brilhantes estudos
filosóficos já elaborados. As distinções entre o mundo dos fenômenos e o mundo

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dos números já pode ser percebida na obra “A forma e os princípios do mundo
sensível e do mundo inteligível” e também na Dissertação de 1770 ”.
Flamarion Tavares Leite (2007) afirma que a preocupação em justificar a
física de Newton contra o empirismo e o ceticismo, consistiu em uma das
engrenagens motoras para o surgimento da importante obra de Kant, “Crítica da
razão pura”. Uma das obras mais conhecida de Kant, escrita neste segundo
período.
Entre 1780 e 1790, surgem suas maiores obras. Além da “Crítica da razão
pura”, escreveu “Prolegômenos a toda metafísica futura que possa apresentar-se
como ciência”, “Fundamentação da metafísica dos costumes ”, “Crítica da razão
prática ” e “Crítica do juízo”. Essa é a década de ouro da produção kantiana, e num
período de 10 anos, Kant produziu os estudos que alterariam, para sempre, a forma
do ser humano entender o mundo e a sua existência. Neste segundo período Kant
produziu 27 obras:

· “Resenha da obra de Moscati sobre a diferença de estrutura dos animais e


dos homens” (1771);
· “Da diferentes raças humanas” (1775);
· “Sobre o instituto filantrópico de Dessau” (1776);
· “Crítica da razão pura” (1781);
· “Prolegômenos a toda metafísica futura que possa se apresentar como
ciência” (1783);
· “Ideia de uma história universal do ponto de vista cosmopolítico” (1784);
· “Resposta à pergunta: Que é esclarecimento” (1784);
· “Recensão da obra de Herde” (1785);
· “Sobre os vulcões da Lua” (1785);
· “Da ilegitimidade da contrafação de livros” (1785);
· “Sobre a definição do conceito de raça humana” (1785);
· “Fundamentação da metafísica dos costumes” (1785);
· “Primeiros princípios metafísicos da ciência da natureza” (1786);
· “Conjeturas sobre o começo da história da humanidade” (1786);
· “Algumas observações sobre o escrito de Jacobi: Exame das horas matinais,
de Mendelssohn” (1786);
· “Da medicina corporal enquanto diz respeito à filosofia” (1786);

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· “Que significa orientar-se no pensamento” (1786);
· “Sobre o Princípio do Direito Natural de Hufeland” (1786);
· “Sobre o uso de princípios teleológicos em filosofia” (1788);
· “Crítica da faculdade de julgar ou Crítica do juízo” (1790);
· “Sobre o iluminismo e os meios de remediá-lo” (1790);
· “Sobre três dissertações de Koestner” (1790).

No terceiro período, de 1790 até seus últimos dias em 1804, encontram-se


publicações que não viriam alterar a linha de pensamento construída por Kant.
Pode-se destacar desse período as obras “A religião dentro dos limites da simples
razão” (1793), e a “Metafísica dos costumes” (1797). No último período, Kant
escreveu 22 obras e foi o período em que “Sobre a Pedagogia” foi publicada, sendo
sua última obra, escrita em um período em que Kant já era um pensador e filósofo
consagrado.

· Sobre o insucesso de todos os tentames filosóficos em matéria de Teodicéia


(1791);
· Sobre o mal radical (1792);
· A religião dentro dos limites da simples razão (1793);
· Sobre o lugar comum: Isto pode ser verdade em teoria, mas de nada serve
na prática (1793);
· Sobre a filosofia em geral (1794);
· Da influência da lua sobre o tempo (1794);
· O fim do mundo (1794); Projeto de paz perpétua (1795);
· A Soemmering: Sobre o órgão da alma (1795);
· Sobre um tom distinto recentemente adotado em filosofia (1795);
· Ajuste de uma disputa matemática decorrente de um mal-entendido (1795);
· Anúncio da próxima conclusão de um tratado de paz perpétua em filosofia
(1795);
· Primeiros princípios metafísicos da doutrina da virtude (1797);
· Sobre um pretenso direito de mentir por humanidade (1797);
· Sobre a indústria do livro (1798);
· O conflito das Faculdades (1798);
· Antropologia do ponto de vista pragmático (1800);

17
· Lógica (1800);
· Geografia física (1802); e
· Sobre a pedagogia (1803), aos 79 anos.
Kant envolveu-se em um desentendimento com o rei da Prússia, Frederico
Guilherme II no ano de 1793, por decorrência de obra publicada que versava sobre
Religião. Esta obra, composta por quatro capítulos, teve seu primeiro capítulo
autorizado, mas a partir do segundo, não recebeu o imprimatur, que seria o aval de
um setor de censura do rei. Kant pediu auxílio à Faculdade de Teologia de
Köenigsberg e à Faculdade de Filosofia de Iena, que acabou por autorizar a
publicação da obra, apesar do veto do poder monárquico. Em 1794, novamente o
rei censurou Kant, acusando-o de distorcer princípios fundamentais da religião
Cristã, e o obrigou a um juramento em que se comprometia a não mais escrever ou
tratar verbalmente questões religiosas. Kant desculpou-se e se comprometeu
oficiosamente.
Após a morte do Rei Frederico Guilherme II (1797), Kant entendeu que
estava novamente apto a trabalhar o tema, visto compreender que seu
compromisso de súdito se dera pessoalmente e exclusivamente ao rei falecido não
se estendendo tal obrigação a seus sucessores e, de fato, posteriormente abordou
questões religiosas em “O conflito das faculdades”.

v REFERÊNCIAS

GUYER, P. Kant. São Paulo: Ideias&Letras, 2009.

KANT, I. Resposta à pergunta: O que é Esclarecimento? In: Immanuel Kant:


Textos Seletos. Petrópolis: Vozes, 1985.

KANT, I. Crítica da razão prática. São Paulo: Martin Claret, 2004.

KANT, I. Crítica da razão pura. São Paulo: Martin Claret, 2003.

KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. São


Paulo: Martin Claret, 2005.

LEITE, F. T. 10 lições sobre Kant. Petrópolis: Ed. Vozes, 2007.

PASCAL, G. Compreender Kant. Petrópolis: Ed. Vozes, 2005.

ROUSSEAU, J.J. Do contrato social. São Paulo: Martin Claret, 2002.

18
SCRUTON, R. Kant. São Paulo: L&PM Editores, 2011.

Décadas do século XVIII. Disponível em:

http://pt.wikipedia.org/wiki/século_XVIII. Acesso em: 30/10/2014

Marcos na vida de Kant. Disponível em:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant. Acesso em: 27/10/2014.

Principais acontecimentos históricos do século XVIII. Disponível em:

http://www1.uol.com.br/bibliot/linhadotempo/index4.htm

19
Formação Continuada de Professores:
uma ênfase cultural

O Homem em “Sobre a Pedagogia” - Immanuel Kant

Profa. Dra. Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira

Nesta obra, “Sobre a Pedagogia”, Kant fundamenta suas ideias sobre a Arte
de Educar. Ela é resultante de suas aulas em curso de Pedagogia na Universidade
de Köninsberg nos anos de 1776/ 1777, depois nos anos de 1783/ 84 e finalmente
em 1786/87. É um texto escrito no final do século XVIII, mas publicado, pela
primeira vez, em 1803.
Apesar de ser escrito há mais de 200 anos, nos faz refletir sobre as questões
amplas da educação de hoje. Neste texto, vamos nos ater à questão do “Homem”.
Ao falarmos de homem, estamos nos reportando à filosofia Kantiana.
Kant abre o texto do livro “Sobre a Pedagogia” indicando que “O Homem é
a única criatura que precisa ser educada” (p. 11). Por educação entende o cuidado
desde a infância (a conservação, o trato), a disciplina, a instrução e a formação.
Consequentemente, o homem é infante, educando e discípulo” (p. 11).
É interessante chamar atenção para a diferenciação que Kant faz entre o
homem e os demais animais. Para ele, todos os demais animais nascem com
instinto para usar suas características próprias, mas o homem precisa da educação
para desenvolver a sua condição de homem, isto é, a sua humanidade. O homem
é dotado de razão, mas precisa da educação, da instrução, da cultura para se tornar
o que ele é: um ser racional e moral.
A partir desta constatação, Kant desenvolve todo um pensamento sobre
como o homem se torna Homem e, nesse sentido, tece considerações para os
aspectos que são unificados no processo de educar, como: a disciplina, a moral, a
instrução, a razão, a liberdade, a ética. Sendo o homem uma criatura unificada, a
ação da educação deve considerar todos estes aspectos, os quais compõem a

20
totalidade indivisível do ser humano. É ao longo do processo educativo que o
homem desenvolve essa humanidade.

v Característica do Homem
O Homem, para Kant tem características próprias que devem ser observadas
pela educação.
§ O homem é naturalmente inclinado à liberdade e à esta “tudo sacrifica” (p. 13);
§ Ele tem disposições naturais para o bem, (p. 24);
§ Pela disciplina de atitudes o homem aprende a não seguir apenas os seus
caprichos e a não conservar uma “certa selvageria” (p. 14);
§ Ele nasce com a lei moral dentro de si, mas também com disposição para seguir
impulsos, os quais devem ser corrigidos pela disciplina que é um dos aspectos
constituintes do educar;
§ Ele é sempre limitado pela instrução que recebe e por isto, Kant afirma que
ainda não se sabe onde o homem poderá chegar com suas disposições
naturais;
§ O Homem por si só não cumpre sua destinação humana e tem necessidade do
processo da educação;
§ Ele deve produzir em si a moralidade, desenvolvendo suas disposições para o
bem, o que pressupõe agir com liberdade e segundo sua razão e preceitos
morais;
§ Como um ser de liberdade, o homem tem um fim em si mesmo.
§ Ao se tornar moral e sábio, o homem se torna feliz;
§ Assim, ele é resultante do que a educação faz dele e tem necessidade de
cuidados e de formação.

Para Kant, se encontram no homem duas condições de conhecimento:


a) a racional, por meio da qual os objetos são pensados, e
b) a sensível, por meio da qual os objetos são dados à intuição.

Estas duas condições, a racional e a sensível, conciliam o dever e o querer


fazer e, por isso, Kant propõe uma educação que oriente o querer e o dever e o

21
verdadeiro resultado da educação é o livre exercício da inteligência e o
aperfeiçoamento das faculdades humanas.
Kant chama a atenção para o fato de que no Século XVIII, o homem não
tinha atingido plenamente a finalidade de sua existência. Podemos indagar: será
que o homem a atingiu nos dias de hoje?
Para Kant, os educandos deveriam ser postos aos cuidados de grandes
mestres que lhes proporcionariam desenvolvimento intelectual, moral, social. Por
meio desse desenvolvimento é que se faria avançar os alcances da humanidade.
Vemos, na obra que estamos lendo, que Kant dá uma grande importância
ao papel da educação para que o homem alcance sua humanidade. Isto pode ser
constatado na afirmação: “Quem não tem cultura de nenhuma espécie é um bruto;
quem não tem disciplina ou educação é um selvagem” (p. 16).
Pela importância da educação e seu papel no desenvolvimento da
humanidade do próprio homem, Kant crê que as futuras gerações possam
promover maiores alcances no sentido do aperfeiçoamento da sua humanidade, e
isto está expresso em afirmações como: “o grande segredo da perfeição da
natureza humana se esconde no próprio problema da educação” (p. 16).
O homem visto por Kant é o que tem por fim último a “perfeição a que está
destinada a humanidade e para a qual ela tem a disposição” (p. 22).
Kant nesta obra exaltou o homem enquanto ser dotado de razão, liberdade,
vontade, capacidades intelectuais para desenvolver a sua humanidade, e acredita
que, pela sua condição racional, ele sempre tende a ações em direção a um estado
mais perfeito de humanidade.
Para ele, o progresso humano é uma constante e cada homem tem a
capacidade de engendrar seu próprio progresso e elevação pessoal, todos
possibilitados pela ação livre e racional de suas escolhas e determinações.
Considerando a característica inteligível do homem e por ela a condução
moral para o bem, Kant entende que a humanidade é “integralmente” boa.
Com o conceito de homem livre e autônomo, por meio do desenvolvimento
das faculdades humanas, Kant nos leva a pensar uma educação que desenvolva
as capacidades dos educandos para alcançar as metas às quais se propõe
livremente. Neste sentido, desenvolvem a moral e contribuem para o
desenvolvimento da espécie humana.

22
A educação é a abordagem principal deste nosso trabalho. Ela será vista
como a base principal para o ser humano desenvolver toda a sua condição de
homem.

23
Formação Continuada de Professores:
uma ênfase cultural

A liberdade e a disciplina em “Sobre a Pedagogia” - de


Immanuel Kant

Profa. Dra. Elisabete M. A. Pereira Garcia


Profa. Dra. Joyce Wassem
Profa. Dra Marta Fernandes

Este texto trabalha a questão da Liberdade e da Disciplina na obra de Kant


que estamos estudando - “Sobre a Pedagogia”.
Vamos focar a liberdade e a disciplina mais detidamente, porque são
elementos essenciais na pedagogia de Kant.
Vale perguntar: Por que Kant aborda a liberdade e a disciplina numa obra
que trata da Pedagogia? Você percebe, na sua vivência, ligações entre esses 3
aspectos: pedagogia, liberdade, disciplina?
Como já comentamos em textos anteriores, a obra Sobre a Pedagogia é
iniciada com uma frase forte: “O homem é a única criatura que precisa ser educada”
(p. 11). O que pode então a liberdade e a disciplina colaborar para a educação do
homem?
Vejamos algumas reflexões feitas por Kant. Para ele, o homem é
naturalmente inclinado à liberdade, mas vê que ele (homem) precisa exercê-la com
disciplina. Daí a importância que ele dá em se trabalhar a disciplina desde cedo,
desde criança. Ele diz: “A disciplina submete o homem às leis da humanidade e
começa a fazê-lo sentir a força das próprias leis” (p. 13). Como apresentamos na
bibliografia de Kant, ele havia lido Rousseau, especialmente o livro “O Contrato
Social” onde Rousseau aborda as questões da vida em sociedade.
Kant afirma que sem disciplina, ou seja, o homem sem limites balizados pela
disciplina, ele seguiria todos os seus caprichos. A liberdade da qual Kant nos fala é
a que é conduzida pela razão, aquela de tendência nobre da qual falou Rousseau.
Kant argumenta que, “quando se deixou o homem seguir plenamente sua vontade

24
durante toda a juventude e não se lhe resistiu em nada, ele conserva certa
selvageria por toda a vida” (p. 13-14). Vemos nessa afirmação a base e a
importância que Kant dá à questão da disciplina. Para ele, ela ajuda a transformar
o estado bruto do homem, em humanidade.
Kant vê que a disciplina é um elemento essencial no processo de formação
e instrução do homem para que sua humanidade aflore e conduza seus
comportamentos de forma a serem os mais adequados para a vida em sociedade.
Para Kant, é preciso impedir que as crianças e jovens façam uso nocivo de suas
potencialidades. Assim, a disciplina se torna um guia na condução do uso da sua
liberdade.
Em uma de suas citações ele diz: “Os pais, os quais já receberam certa
educação, são exemplos pelos quais os filhos se regulam” (p. 21). Depreendemos
daí a importância que os pais e instituições sociais exercem sobre a questão da
disciplina e da liberdade e de como, em nossos dias, continua a ser necessária a
integração entre família e escola. Percebemos, desta forma, que há uma confiança
de Kant na disciplina, como meio de tirar o homem de uma possibilidade de agir de
forma selvagem, ou seja, sem o trato humano, sem obedecer às normas de bom
convívio social.
Kant enxerga na disciplina um “caminho” para contribuir na educação do
homem. Ela é tão importante que ele chega a afirmar: “a falta de disciplina é um
mal pior que a falta de cultura, pois esta pode ser remediada mais tarde, ao passo
que não se pode abolir o estado selvagem e corrigir um defeito de disciplina” (p.
16). O homem, portanto, deve ser disciplinado para que tenha condições de impedir
que a sua selvageria prejudique o próximo e a sociedade de maneira geral.
Da mesma forma, Kant argumenta que o homem tem disposições para o
bem, e estas disposições também devem ser desenvolvidas.
Essa crença na capacidade para o bem é bastante forte em Kant e, nesta
obra ele afirma: “Na verdade, não há nenhum princípio do mal nas disposições
naturais do ser humano. A única causa do mal consiste em não submeter a
natureza a normas. No homem não há germes, senão para o bem” (p. 23).
Assim, construir a humanidade significa construir um mundo em que o
respeito pelo outro está acima dos desejos e caprichos de cada um. Para tanto, o
caminho proposto por Kant é o do uso da sua razão, isto é, o do agir conforme
manda a razão, o do agir de forma reflexiva e não por impulsividade.

25
Kant dava à educação um papel preponderante na formação do homem e
com isso, acreditava que, por meio dela, haveria uma evolução aprimorada da
natureza humana. Para ele, ainda não temos ideia da perfeição que a natureza
humana é capaz e assim, cabe à educação favorecer esse contínuo
aperfeiçoamento.
Para ele, a educação é uma arte, cuja prática também necessita ser
aperfeiçoada. Isto nos aponta para a importância da formação continuada dos
homens, e dos professores em especial.
Kant afirma nesta obra, que a educação é a maior e mais importante questão
posta aos homens, pois os conhecimentos dependem dela, e a educação, destes
conhecimentos. Sendo que a educação e os conhecimentos se desenvolvem
mutuamente, via que cabia a cada geração acrescentar mais experiências e
conhecimentos para as próximas, e que a fase anterior de conhecimentos é base
para o desenvolvimento da formação do homem.
Para Kant, um dos maiores problemas da educação é o de poder conciliar
a submissão às leis, isto é, à disciplina, ao exercício da liberdade. Para ele, a
sujeição às leis é necessária, pois ensina o educando a fazer bom uso da liberdade.
Para tanto, a educação é feita em dois períodos. No primeiro, o
educando deve obedecer às leis para que se torne disciplinado. No segundo, o
educando pode e deve refletir e usar a sua liberdade, desde que considere e
submeta tal liberdade a certas regras. Neste momento, a obediência deixa de ser
mecânica e passa a ser moral, internalizada e refletida.
Ainda quanto à liberdade, Kant se fez a seguinte pergunta: de que modo
cultivar a liberdade? E sua resposta foi:
É preciso habituar o educando a suportar que a sua liberdade seja
submetida ao constrangimento de outrem e que, ao mesmo tempo,
dirija corretamente sua liberdade. Sem essa condição, não haverá
nele senão algo mecânico; e o homem, terminada sua educação,
não saberá usar sua liberdade (p. 32-33).

Sendo a liberdade um dos fins mais essenciais da educação, Kant descreve


regras para se fazer uso dela:
1. “É preciso dar liberdade à criança desde a primeira infância e em todos
os seus movimentos, [...] com a condição de não impedir a liberdade dos
outros, como no caso de gritar ou manifestar sua alegria alto demais,
incomodando os outros” (p. 33). Vemos aqui a importância da liberdade

26
para Kant, devendo-se apenas cuidar para que a criança não corra riscos,
não faça mal a si mesma ou atrapalhe os outros.
2. “Deve-se-lhe mostrar que ela pode conseguir seus propósitos, com a
condição de que permita aos demais conseguir os próprios” (p. 33);
3. “É preciso provar que o constrangimento que lhe é imposto tem por
finalidade ensiná-la a usar bem sua liberdade, que a educamos para que
possa ser livre um dia, isto é, dispensar os cuidados de outrem” (p. 33).
Assim, para Kant, a educação escolar possui um importante papel na
constituição do homem livre, autônomo, racional, prudente e consciente, pois é
pela educação escolar, que aprende a conhecer e medir suas próprias forças e
a conhecer o limite que o direito dos demais lhe impõe. É pela educação que a
criança percebe a importância da disciplina e da liberdade e se forma para a
prudência, a qual prepara o homem para se tornar um cidadão.
A liberdade não é agir sem normas, não é satisfazer caprichos, não é
agir independentemente do dever, não é ignorar a necessidade do outro. Ao
contrário, é agir para e pelo bem da sociedade. Por esta razão é que a
educação, como prática ou moral, é fundamental para que o homem possa viver
como um ser livre, consciente, autônomo e responsável para com as questões
da sociedade a que pertence.

27
Formação Continuada de Professores:
uma ênfase cultural

A Moral em “Sobre a Pedagogia” - Immanuel Kant

Cássio R. F. Riedo
Marta Fernandes Garcia
Profa. Dra. Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira

Neste texto abordamos as ideias de Kant sobre a moral e a moralidade


expressas na introdução do livro, “Sobre a Pedagogia”. Vejamos as referências
diretas à moral e à moralidade feitas por Kant.
Kant escreve: “O homem deve, antes de tudo, desenvolver suas disposições
para o bem; a Providência não as colocou nele prontas; são simples disposições,
sem a marca distintiva da moral” (p. 19). Kant pontua que a moral possui uma marca
que a distingue, e que orienta o desenvolvimento da disposição do homem para o
bem.
É importante verificarmos que, neste trecho, embora Kant entenda que a
moral seja uma “disposição natural” do homem, assinala que ela não é um instinto
e, por isso, precisa ser desenvolvida pela educação para que o homem produza,
em si mesmo, a moralidade. Para Kant, esta deve ser a preocupação central da
educação e ser tomado como núcleo da ação pedagógica.
Ao trabalharmos a inter-ação entre educação e moral, é interessante chamar
a atenção para a atualidade do que Kant propõe nesta passagem: “não se deve
educar as crianças segundo o presente estado da espécie humana, mas segundo
um estado melhor, possível no futuro, isto é, segundo a ideia de humanidade e da
sua inteira destinação” (p. 22).
Em outra passagem enfática do livro relacionando moral e educação, Kant
diz “Tornar-se melhor, educar-se e, quando se é mau, produzir em si a moralidade:

28
eis o dever do homem” (p. 19). Compreende-se que para Kant, a moralidade é
dever do homem e é também o modo pelo qual ele pode se tornar melhor.
Podemos então, verificar que para Kant, a educação tem um objetivo claro -
a produção da moralidade no homem para o desenvolvimento da sua própria
humanidade.
A questão da moral, é assim, a condição da humanidade e da felicidade do
homem. Isso fica claro na passagem: “De fato, como poderíamos tornar os homens
felizes se não os tornamos morais e sábios?” (p. 28).
Ao mencionar os deveres da educação, Kant lista ainda, quatro outros
deveres e, dentre estes, diz que a educação “deve, por fim, cuidar da moralização”
(p. 26, grifo da obra). Afirma que: “Na verdade, não basta que o homem seja capaz
de toda sorte de fins; convém também que ele consiga a disposição de escolher
apenas os bons fins” (p. 26). Bons fins para Kant são “aqueles fins aprovados
necessariamente por todos e que podem ser, ao mesmo tempo, os fins de cada
um” (p. 26).
Reparem que não se apresenta como oposição de cada um a todos, mas,
pelo contrário, é ao mesmo tempo de todos e de cada um. Kant afirma que este
dever é o mais importante e que é, de modo geral, descuidado, pois que ensinamos
às crianças aquilo que julgamos essencial, particularmente, conteúdos, e deixamos
a moral para um pregador religioso.
Ele enxergava sua sociedade como uma sociedade com boa evolução, mas
afirmava: “Vivemos em uma época de disciplina, de cultura e de civilização, mas
ela ainda não é a da verdadeira moralidade” (p. 27-28).
Para Kant, esta conquista está na força da educação e diz: “uma educação
pública completa é aquela que reúne, ao mesmo tempo, a instrução e a formação
moral” (p. 30).
Kant, da mesma forma que Jean-Jacques Rousseau, defende que todos os
seres humanos são capazes de distinguir o bem do mal, que não há nenhum
princípio do mal nas disposições naturais do ser humano, mas que são as leis
morais que o leva a praticar o bem para a coletividade em detrimento dos seus
caprichos e interesses individuais.
Pare ele, o ser humano, ao contrário do animal que está determinado a agir
desta ou daquela maneira, possui uma margem de liberdade, podendo agir de
acordo com os princípios que atribui a si mesmo. Só podemos, portanto, falar em

29
moralidade se considerarmos que o ser humano é um ser livre. Kant faz da boa
vontade a condição de toda a moralidade. Sendo governada pela razão, a boa
vontade é boa pelo seu próprio querer. A moralidade em Kant é concebida
independentemente da sua utilidade e a intenção moral só é conhecida pela
consciência do indivíduo. O valor moral de uma ação reside, portanto, na intenção.
Agir por dever exige um conhecimento das regras, das normas, a que se tem
de obedecer, mas Kant não se preocupa em inventariar um conjunto de regras.
Pelo contrário, procura o fundamento de todas as regras, ou seja, trata-se de
encontrar o que está na base de toda escolha.
É por isso que Kant distingue máximas de leis morais. As máximas são os
princípios subjetivos da ação, isto é, os princípios concretos segundo os quais
agimos. Já as leis morais são objetivas, isto é, são consideradas como válidas para
todo ser humano, enunciando a forma como todo homem deve agir.
A fórmula kantiana não nos diz para agirmos desta ou daquela maneira, não
nos dá o conteúdo da lei, apenas nos indica a forma como devemos agir. Este é o
princípio moral fundamental, um mandamento incondicional e assume a forma de
um imperativo categórico.
O que é um imperativo categórico? Kant distingue imperativo categórico de
imperativo hipotético. Enquanto o imperativo hipotético apresenta uma ação como
meio para alcançar determinado fim (por exemplo, ser bom para ganhar a simpatia
dos colegas; estudar para tirar uma boa nota e agradar aos pais), o imperativo
categórico indica que a ação é necessária e boa em si mesma, independentemente
dos fins que possam ser alcançados com ela. Assim, o legislador supremo da
moralidade é a razão humana.
O valor moral da ação não reside no efeito que dela se espera, pois o
fundamento da vontade é a representação da lei e não o efeito esperado. A moral
kantiana é a moral do dever, da autorregulação da razão, que concilia dever e
liberdade. É importante deixar claro, que o conceito moral de Kant é independente
de qualquer sentido religioso.
Kant retoma a questão da liberdade nesta parte do texto, dizendo que a
liberdade humana é o fundamento de nossas ações e princípios de vida e faz parte
essencial da prática moral. E como a lei moral tem origem na razão, cada indivíduo
é legislador e responsável por aquilo que faz. A moralidade pressupõe, portanto, a
autonomia da vontade que pressupõe a liberdade.

30
31
Formação Continuada de Professores:
uma ênfase cultural

A Educação Física em “Sobre a Pedagogia” - Immanuel


Kant

PARTE 1
Prof. Cássio R. F. Riedo
Profa. Dra. Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira
Profa. Dra Marta Fernandes Garcia

Veremos neste texto, a primeira parte do capítulo “Sobre a educação física”,


da obra “Sobre a Pedagogia” da página 37 a 58, da sexta edição, publicada pela
editora da Unimep, de 2011.
Vamos começar pela definição de Kant para a educação física que é
totalmente diferente do que entendemos por educação física enquanto uma
disciplina da escola ou como um curso de graduação. Para ele, a educação física
“consiste propriamente nos cuidados materiais prestados às crianças ou pelos pais
ou pelas amas de leite1 ou pelas babás2” (p. 37).
Reparem, no entanto, que a relação com o corpo físico permanece, mas não
se limita às tradicionais “atividades físicas”, pois um dos conceitos fundamentais
dessa forma de entender a educação física passa pelos “cuidados materiais” que,
no entendimento de Kant, vão desde a alimentação até a formação do caráter moral
das crianças, passando inclusive por aspectos culturais. Nesta definição, criança,
conceitualmente, é uma categoria mais abrangente do que a de alunos, ou seja,
Kant aqui se dirige à formação da criança que se processa em todos os ambientes.
Retomando a definição de que a educação física consiste propriamente nos
cuidados materiais prestados às crianças pelos pais, amas de leite ou pelas babás,

1
Ama de leite é a mulher que oferece leite materno para outra criança que não seja a sua. Era uma figura
comum no tempo de Kant e é por isso que ele se refere a ela ao falar da educação física.
2
É importante ressaltar que Kant ao mencionar “babás” não está se referindo a pessoas de uma classe
privilegiada, mas a qualquer pessoa que estivesse responsável pelos cuidados com a criança.

32
é importante observar quais são, para Kant, as pessoas responsáveis pela
educação física da criança. Para ele, os responsáveis são todas as pessoas
diretamente ligadas aos cuidados da criança, ou seja, os pais, as amas de leite, as
babás e as pessoas pertencentes às instituições sociais organizadas para esse fim.
Outro aspecto importante a perceber nessa definição é o que Kant entende
por “cuidados materiais”. Cuidados materiais são tudo o que se oferece à criança
para o seu bom desenvolvimento, desde a alimentação até o conforto físico. Quanto
à alimentação Kant considera desde os cuidados com a amamentação até a
temperatura dos alimentos.
Quanto à amamentação, Kant assume os ensinamentos de Rousseau de
que o leite materno é essencial para a criança e que ela o deve receber desde o
primeiro leite, conhecido como “mecônio”. Apresenta que o leite humano é diferente
do leite animal. Assim a criança deve receber o leite humano, da mãe ou de uma
“ama de leite”, que era uma figura comum naquele tempo, mas hoje é bastante rara,
pois há nas maternidades o “banco de leite humano”.
Quanto ao cuidado físico, Kant diz que não se deve manter a criança muito
aquecida pois seu sangue é mais quente que o do adulto. Kant foi um dos primeiros
a pregar que os bebês não deviam ser enfaixados, o que, para ele, era deixá-los
como múmias. As crianças deviam, ao contrário, ficar com os membros soltos, pois
afirmava que as faixas deixavam os bebês com os membros doloridos e em nada
os auxiliava a se desenvolver.
E quanto ao apetite da criança, afirmava que este devia ser estimulado pelas
atividades físicas e não por estimulantes artificiais.
Estas observações são importantes para Kant por entender que, nesta fase,
a educação das crianças deve seguir a forma da sua própria natureza e não é
necessário nada artificial para o seu natural desenvolvimento. Quanto ao sono, diz
que a criança deve dormir em “horas marcadas, para não perturbar as funções
corporais” (p. 49).
As propostas de Kant para a primeira fase de desenvolvimento da criança
visam uma harmonia entre corpo e contexto sociocultural. Afirma que, “uma
excitação prematura dos nervos engendra muitas desordens na vida” (p. 40). Da
mesma forma, ressalta que os alimentos líquidos não deviam ser muito quentes.
Percebemos com estas observações o que Kant denomina “cuidados materiais”. É
importante reparar no texto, como Kant vai apresentando o ambiente circundante

33
da criança em relação aos cuidados materiais. Os “cuidados materiais” não se
restringem à alimentação ou ao espaço geográfico circundante, mas passa pela
interiorização dos comportamentos.
Kant preocupa-se muito com os hábitos, os quais define como
comportamentos que são incorporados como necessidades, após serem
continuamente repetidos. Chama também a atenção para os limites impostos às
crianças, chegando a afirmar que não se deve permitir “aos infantes contrair hábitos
que mais tarde se tornem necessidades” (p. 40). Para ele, estes cuidados devem
ser tomados, pois se torna dificílimo desabituar as crianças depois que os
comportamentos se instalam como um hábito.
Nesta parte do livro Kant fala da educação da índole que é o conjunto de
traços e qualidades, inclinação e temperamento naturais e inerentes ao indivíduo
desde o seu nascimento. É interessante observar que esta educação é também
denominada por ele de “educação física”.
Kant chama a atenção para o limite da disciplina dizendo que não há nada
mais funesto para a criança do que uma disciplina obstinada e servil com a
finalidade de dobrar a sua vontade. Diz que ao trabalhar a disciplina nas crianças
deve-se cuidar para que esta “não trate as crianças como escravas, mas, sim, que
as faça sentir sempre sua liberdade, mas de modo a não ofender a dos demais” (p.
50). Vemos aqui o princípio sobre o limite da liberdade individual que é o de
respeitar a liberdade dos outros.
Para que esta fase da educação da criança seja harmoniosa, Kant diz que
não se deve empregar frases que envergonhem a criança, pois isto a torna tímida.
Também não se deve chamar a atenção na frente dos outros para que ela não fique
embaraçada. Caso se proceda dessa forma, nascerá nela um comportamento
reservado e nefasto.
Kant entende que “De fato, muitas fraquezas do homem não provêm da falta
de ensinamento, mas daquilo que lhes comunicam as falsas impressões” (p. 52).
Como exemplo, diz que é criado nas crianças o medo de aranhas, de sapos e assim
por diante, e que elas conservam esse medo pelo resto da vida.
Para reforçar a ideia de desenvolvimento social do ser humano, Kant afirma
que,

34
é nosso dever fazer com que a criança perceba seus defeitos, mas,
ao mesmo tempo, não deixando transparecer demais nossa
superioridade e autoridade, para que ela se forme por si mesma,
como uma pessoa que deve viver em sociedade, uma vez que, se
o mundo é bastante grande para ela, é também para os outros (p.
58).

Nesta questão da formação para o social, Kant se preocupa com o


comportamento da criança, ressaltando que esta “não se mostre importuna em
sociedade, mas também que não se mostre insinuante” (p. 58). Ao contrário, deve
se mostrar familiar sem importunações e sincera sem impertinências. É
responsabilidade dos adultos não inspirar “noções de comportamento que servirão
apenas para torná-la acanhada e tímida, ou que, ao contrário, lhe sugiram o desejo
de se fazer prevalecer” (p. 58).
Kant, nesta parte da obra se preocupa em demonstrar a relação da
educação física com a cultura e diz que é a cultura que distingue o homem do
animal. Quanto à cultura, diz que ela consiste notadamente no exercício das
condições humanas sobre o contexto, e que o essencial consiste em cultivar a
habilidade natural, isto é, a cultura, que é produto da condição natural do homem.
Portanto, para Kant, “cabe zelar para que na cultura do corpo também se eduque
para a sociedade” (p. 57).

35
Formação Continuada de Professores:
uma ênfase cultural

A Educação Física em “Sobre a Pedagogia” - Immanuel


Kant

PARTE 2

Cássio R. F Riedo
Profa. Dra. Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira
Profa. Dra. Joyce Wassem

Esta parte da obra “Sobre a Pedagogia” que se refere à questão da


Educação Física, foi divido em duas partes. A primeira, abordou os temas que se
encontram entre as páginas 37 à 58. Trabalharemos agora o conteúdo das páginas
59 à 83 (estas páginas são relativas a obra publicada em 2011, 6ª edição).
Nesta parte Kant inicia informando que, depois de expor sobre o cuidado
com a educação física, vai expor o cuidado que se deve ter com a “cultura física
do espírito”. Para ele, esta forma de cultura também pode ser denominada de
cultura física, uma vez que vê uma forte relação entre a natureza do corpo e a da
alma. Para ele, as duas naturezas devem ser cultivadas para impedir que se
corrompam. Em suas palavras:

a natureza do corpo e a da alma concordam no seguinte:


cultivando-as, deve-se procurar impedir que se corrompam
mutuamente e buscar que a arte aporte algo tanto àquele como a
esta. Pode-se, portanto, em certo sentido, qualificar de física tanto
a formação da alma quanto a do corpo (p. 59).

36
Kant chama a atenção para a diferença que existe entre a formação física
da alma e a formação moral, assinalando que a formação moral se refere ao uso
da liberdade e, a formação física da alma, se refere à natureza do homem.
Neste texto vamos abordar sobre o que é a cultura física do espírito (que ele
também chama de “cultura da alma”). Para Kant esta se divide em: cultura livre e
cultura escolástica. Entre elas há uma diferenciação de formação no homem.
A cultura livre é semelhante ao divertimento, onde a criança aprende
enquanto brinca e cultura escolástica é relativa à escolarização e está vinculada à
habilidade.
Nesta diferenciação entre cultura livre e cultura escolástica, Kant diz que a
cultura escolástica, que é a resultante da escolarização, deve ser vista pela criança
como um “trabalho”. Isto a diferencia da cultura livre que é mais um divertimento.
Kant comenta diferentes planos de educação no sentido de encontrar o
melhor método educativo para a cultura escolástica, que são:
- O método de deixar que as crianças aprendam tudo por diversão. Kant
critica este método por não levar a criança a diferenciar tempo de brincar e tempo
de trabalhar. Argumenta que se deve dedicar horários diferentes a estas duas
espécies de cultura e que o homem precisa de ocupações sérias com fins
determinados. Para ele, a escola é o melhor lugar para aprender as questões
relativas a esse “trabalho” e é prejudicial à criança se a acostumamos a considerar
tudo um divertimento. Nesse sentido, afirma que a educação é uma ação impositiva,
“mas nem por isso escravizante” (p. 62)
- O método de aprender as regras pelo seu uso. Kant questiona se
“convém começar com o estudo das regras abstratamente, ou devemos aprendê-
las após seu uso? Devemos aprendê-las ao mesmo tempo em que o seu uso?” (p.
66-67). Ao questionar se devemos aprendê-las ao mesmo tempo que seu uso, Kant
se posiciona que se deve aprender as regras ao mesmo tempo que seu uso.
- O método de ordenar as regras por classes e verificar a ordenação
entre elas. Nesse sentido, Kant entende que a gramática deve preceder o estudo
das línguas.
Voltando agora à cultura livre, aquela do divertimento, Kant assinala que ela
progride continuamente e é voltada às potencialidades superiores e que, na
educação, todas as potencialidades (superiores e inferiores) devem ser
desenvolvidas de forma relacionadas, isto é, não se deve desenvolver uma potência

37
por si mesma, mas cada uma em relação às outras. Como exemplo, indica que se
deve desenvolver a espirituosidade tendo em vista o entendimento.
Fica claro neste exemplo que, para Kant, a espirituosidade é uma
potencialidade do ser humano, inferior ao entendimento. A espirituosidade sem o
entendimento pode levar o indivíduo apenas a dizer disparates. O entendimento,
ao contrário, leva ao conhecimento geral. Outro exemplo é o desenvolvimento da
imaginação a serviço da inteligência.
Ainda em relação às potências, Kant diz que a memória é necessária para o
discernimento e que o cultivo da memória é importante, mas que ela é
potencializada a partir do entendimento. Memorizar é diferente de decorar ou
“aprender de cor”. Exemplifica com o caso da aprendizagem de línguas e da
geografia. A memória é útil para conhecimentos que precisam ser conservados, isto
é, “que têm pertinência com a vida real” (p. 69).
Outra atenção é com a instrução pela qual se deve unir o saber e a
capacidade. Vê a matemática como a principal ciência para essa finalidade. Diz ser
necessário aprender a distinguir a ciência (conhecimento formal, sistemático) da
simples opinião ou da crença (conhecimento assistemático). O entendimento é
alcançado por meio de regras, de fórmulas e não mecanicamente. É esse resultado
que é transmitido à memória, isto é, é o entendimento que é transmitido à memória.
Entre as potências do entendimento estão a razão e a capacidade de julgar.
A capacidade de julgar é necessária para formar o entendimento próprio e para não
repetir ideias sem as ter compreendido. Já a razão leva ao conhecimento dos
princípios, leva, segundo Kant, à “reflexão a respeito do que acontece segundo
suas causas e seus efeitos. Trata-se de uma razão prática” (p. 69-70).
Kant coloca grande valor no poder da educação para a formação moral do
homem e para o bem-estar da sociedade. É principalmente nesta obra, “Sobre a
Pedagogia”, que ele toma a educação como uma das mais importantes ferramentas
para formar moral e eticamente o ser humano, digno de viver em sociedade,
respeitando os seus direitos e os direitos dos outros.
Assim, não recomenda aos educadores conseguir a obediência dos
educandos utilizando os critérios da recompensa e da punição. Para ele, o uso
destes artifícios provocará a formação de um homem inconstante e sem caráter,
que age e pensa de acordo com as circunstâncias e suas recompensas, deixando

38
de agir segundo a sua razão. Isto impede a educação moral, isto é, a educação do
agir segundo normas internas que o faz um homem livre.
Argumenta que o homem deve agir segundo sua liberdade, sua moral e
ética, para orientar-se de forma adequada no mundo. Kant apresenta nas páginas
67 e 68 uma ideia da finalidade global da educação e do modo de consegui-la:
v Cultura geral da índole. A que se dirige à habilidade e ao aperfeiçoamento
físico e moral, sendo:
a) cultura física: - a que se alcança com a prática e a disciplina. É
cultura passiva, onde o educando segue orientação externa.
b) cultura moral: - é a interiorizada por meio das regras da cultura e
não por meio de disciplina ou hábito mecânico, está vinculada ao dever, a
uma ordem interna e é exercida por fundamento e visão das consequências
da ação.
v Cultura particular da índole. Kant define esta cultura como sendo as
potências do entendimento manifestas pela inteligência, pela imaginação,
pela memória, atenção e espirituosidade. É a cultura dos sentidos, como por
exemplo, o sentido da visão.

Apresenta que todas estas capacidades devem ser desenvolvidas de forma


ativa, isto é, por meio da ação dos educandos e assim, estas serão fortalecidas.
Por exemplo, a memória precisa da atenção, dos sentidos e do entendimento.
De acordo com Kant, uma das atitudes fundamentais na educação das
crianças, tanto para pais como para professores, é a de não as tornar tímidas, o
que acontece quando lhes são dirigidas palavras injuriosas ou quando são
envergonhadas frequentemente.
Argumenta que não se alcança a educação envergonhando-as ou as
fazendo se sentirem inferiores aos mais velhos, mas, se as educa quando
entendem a razão das atitudes tomadas pelos pais ou professores.
Todo o conteúdo da obra “Sobre a Pedagogia” é o de apresentar o cerne da
educação que é, essencialmente, a formação do homem moral. Sendo esta
formação a mais essencial, entende-se o porquê da ênfase kantiana em considerar
fundamental a cultura moral. Vejamos esta afirmação da página 81. “A moralidade
é algo tão santo e sublime que não se deve rebaixá-la, nem iguala-la à disciplina”.

39
A cultura moral é obtida por meio dos fundamentos da formação do caráter
que, por sua vez, é desenvolvido permitindo às crianças verificar em todas as coisas
“um certo plano, certas leis, as quais devem seguir fielmente” (p. 81). Isto as leva a
perceber uma lei geral, uma lei necessária, a qual desperta a obediência como um
elemento essencial de seu caráter, como prescrição de dever que lhes será útil por
toda vida. A prescrição de dever equivale a obedecer a razão.
Um outro traço essencial do caráter é a veracidade. Este traço é tão
essencial para Kant como se verifica pela afirmação: “Uma pessoa que mente, não
tem caráter” (p. 86).
O traço seguinte da formação do caráter apontado por Kant, é a
sociabilidade. Os professores devem cuidar para que todas as crianças se sintam
acolhidas da mesma forma, para não gerar ciúmes, sentimento contrário à amizade.
Para ele, a criança não deve viver isolada, ao contrário, deve manter relações de
amizade, que é “o mais doce de todos os prazeres da vida” (p. 87).
Ainda em relação à formação do caráter, Kant chama a atenção para a
questão da punição e de quando ela pode ser aplicada. A punição só deve ser
utilizada quando houver transgressão de uma ordem. A punição pode ser física ou
moral.
A punição moral é a que leva a criança a refletir sobre sua atitude, a que a
faz entender não ser adequado aquele tipo de procedimento. A que a leva a não
querer repeti-lo. A punição física é a relativa a castigos físicos, nem sempre
acompanhados de reflexão. Estes devem ser usados com precaução para que não
gerem atitudes servis. Kant afirma que “de nada valem os castigos aplicados com
raiva” (p. 85), pois é preciso que as crianças percebam a finalidade do dever cuja
transgressão acarreta a punição.
Como uma última observação a respeito da educação, Kant argumenta que
a instrução deve ser adaptada à idade da criança e que não se deve esperar ou
induzi-la a fazer coisas que não lhe sejam próprias em suas idades.

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Formação Continuada de Professores:
uma ênfase cultural

A Educação Prática em “Sobre a Pedagogia” - Immanuel


Kant

Profa. Dra. Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira

Nesta parte do livro, Kant expõe que a educação prática é composta por 3
dimensões:
a) a habilidade;
b) a prudência;
c) a moralidade.

Como são 3 aspectos bastante importantes, vamos apresentar cada um


deles, conforme entendidos pelo autor.

v Habilidade
Verifica-se que Kant não fala da habilidade manual, mas da habilidade do
pensar e, para isto, entende que esta deve ser sólida e bem fundamentada. Deve
ser traduzida em ação e tornar-se, pouco a pouco, um hábito. Kant aqui refere-se
à condição de execução. Afirma que esta “habilidade” é o elemento essencial do
caráter de um homem.
v Prudência
O princípio da Prudência é o princípio da ação, especificamente ligado aos
meios, os quais se encontram ligados ao amor a si e à felicidade própria. Para Kant,
a razão sozinha produz seus objetivos independentemente das condições
limitantes da natureza humana. Aqui, o termo prudência é sinônimo de pragmático,
refere-se ao talento e à habilidade que um ser humano tem de usar o outro em vista

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de seus propósitos, mas também se relaciona à capacidade de estabelecer seus
próprios fins e agir de acordo com eles em direção ao seu aperfeiçoamento.
Devemos lembrar que o ato prático e o moral em Kant são possíveis por meio da
liberdade, conforme já trabalhamos nos textos anteriores.
Deste modo, a prudência de que fala Kant é a conduta de adequar o
comportamento do homem consigo mesmo, com os outros homens e com as coisas
do mundo. A prudência tem relação com a conduta moral.
v Moralidade
Esta dimensão é a questão essencial de Kant. Todo seu trabalho pedagógico
gira em torno da moralidade. Ela diz respeito ao caráter que é uma condição
adquirida pelo domínio dos sentimentos e das tendências. O homem não deve
deixar que estes o domine, o guie sem nenhuma restrição. A restrição é feita pela
compreensão racional da necessidade de agir moralmente. Caráter consiste na
resolução firme e justa e no empreendimento do que se decidiu. Kant exemplifica
que o Homem que toma uma decisão e não a cumpre, faz um mal a si, pois acaba
perdendo a autoconfiança. Além da perda de confiança em si, Kant diz que pouco
se pode esperar de quem adia sempre o cumprimento dos seus propósitos. Com
isso, apresenta alguns passos para ser fortalecido o caráter das crianças.
A primeira coisa a se fazer é ensinar as crianças, por meio de exemplos e
com regras, os deveres a cumprir, os quais são os que estas têm em relação a si
mesmas e aos demais. Kant explica quais são:
§ Deveres para consigo mesmas: Significa não satisfazer apenas seus
desejos e inclinações, mas ser comedidas e sóbrias, conservando a
dignidade da natureza humana, isto é, não se entregar aos vícios e à
intemperança, que é a falta de moderação, de não ter autocontrole sobre os
atos e ações. É necessário fazer a criança perceber a dignidade humana em
sua própria pessoa, como por exemplo, fazendo-a verificar que quando
mente, se coloca abaixo da dignidade humana, pois “a mentira torna o
homem um ser digno do desprezo geral e é um meio de tirar a estima e
credibilidade que cada um deve a si mesma” (p. 96). Kant afirma que não se
deve mentir, nem por necessidade. Não se pode conceber um único caso
em que a mentira seja justificável.
§ Deveres para com os demais: Para Kant, devemos fazer com que as
crianças aprendam desde cedo a respeitar os direitos humanos e a colocá-

42
los em prática. Acredita que as condutas devem ter referências, as quais são
para a vida toda. Defende que não se deve permitir que uma criança humilhe
a outra e também enfatiza que, para ensinar a conduta moral, nenhuma
criança deve ser humilhada na frente de outras, fazendo com isso, com que
não se estime. Indica que não se deve usar frases que possam humilhar a
criança como: “Vede como esta ou aquela criança se comporta bem?” (p.
100). Isto pode provocar nela sentimento de frustração. Ensina ainda que
não se deve permitir que uma criança se sinta mais importante por ter
nascido em condições mais favoráveis financeiramente que outras. Kant diz
que é prejudicial ao indivíduo se estimar por meio do valor que o outro tem
dele, e não pelo valor de seu próprio julgamento.

Aponta que os anseios humanos (chamados por ele de apetites), são de três
espécies: formais, materiais e o anseio da duração destas duas coisas.
Os formais são relativos ao poder e à liberdade. Como exemplo cita: “a ambição
das honras, do poder e das riquezas”(p.101). Os materiais são relativos a objetos
que trazem satisfação como a volúpia, o bem-estar material e social, os
entretenimentos. Como exemplos da terceira espécie de anseios estão as
condições que proporcionam despreocupações com o futuro.
Kant indaga se o homem é moralmente bom ou mau por natureza?
Responde dizendo que não é bom nem mau, pois não é um ser moral por natureza.
Afirma que o homem “torna-se moral apenas quando eleva a sua razão até os
conceitos do dever e da lei” (p. 102). Afirma ainda, que o homem traz em si
tendências originais para todos os vícios e que suas inclinações e instintos podem
impulsioná-lo para um ou outro lado. Só sua razão o coloca no caminho certo e
poderá se tornar moralmente bom graças ao desenvolvimento da virtude.
Kant aponta a importância das virtudes e diz que estas são de três classes:
de puro mérito; de estrita obrigação; de inocência. As de puro mérito compreendem
“a magnanimidade (que consiste no conter-se, seja na cólera, seja no amor da
comodidade e das riquezas), a beneficência e o domínio de si mesmo” (p.94). As
de segunda classe consistem na lealdade, na decência e na pacificidade. As de
terceira, são a honradez, a modéstia e a temperança.
Quanto aos vícios, diz que a maior parte deles derivam do estado de barbárie
e são os da malignidade, isto é, da baixeza, da estreiteza de ânimo que se

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explicitam como inveja, ingratidão, alegria pela desgraça alheia, da infidelidade, da
dureza de coração, da avareza e da preguiça.
No que diz respeito à educação religiosa das crianças, questiona se é
possível lhes inculcar, desde cedo, os conceitos religiosos. Entende que esta é uma
questão pedagógica muito discutida e que a criança, por ainda não se conhecer e
não conhecer ao mundo, pode não compreender o temor do poder de Deus. Assim,
nas questões religiosas é importante que as crianças percebam que tudo na
natureza se refere a Deus e que a melhor forma da criança adquirir um conceito de
Deus, poderia ser a de analogia com a figura de um pai. Mais enfaticamente
questiona em quê, de fato, consiste a religião. Respondendo diz que é uma moral
aplicada ao conhecimento de Deus. Para ele,

Os Cânticos, as preces, o frequentar a igreja, tudo isto deve servir


unicamente para dar aos homens novas forças e nova coragem
para se tornarem melhores; ou ser expressão de um coração
animado pela representação do dever. Tudo isto é preparação para
as boas obras, mas não é boa obra em si. Não podemos agradar
ao Ser Supremo, a não ser tornando-nos melhores (p. 98).

Com essa forma de entender as leis religiosas, elas aparecem como lei
natural e não como uma arbitrariedade, tornando-se a religião, uma moral. Quando
a religião não vem acompanhada pela consciência moral, não adquire eficácia e se
torna um culto supersticioso. A lei a que nos submetemos se tornam consciência e
referência para nossas ações.
Quanto ao sexo, Kant diz que na idade de 13 ou 14 anos se desenvolve nos
adolescentes a tendência ao sexo e que estes já estão em condições de ouvir sobre
tema como: a atração pelo outro sexo, o casamento, a constituição da família, a
propagação da espécie e a não buscar unicamente os prazeres. Assim, eles se
tornam homens e bons cidadãos, pois vão constituir família quando tiverem
condições de sustentá-la.
Por fim, Kant traz considerações quanto ao agir dos jovens e a levá-los a
tornarem-se membro da sociedade. Em suas palavras:
Deve-se orientar o jovem à humanidade no trato com os outros, aos
sentimentos cosmopolitas. Em nossa alma há qualquer coisa que
chamamos de interesse: 1) por nós próprios; 2) por aqueles que
conosco cresceram e, por fim, 3) pelo bem universal. É preciso
fazer os jovens conhecerem este interesse para que eles possam

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por ele se animar. Eles devem alegrar-se pelo bem geral mesmo
que não seja vantajoso para a pátria, ou para si mesmos (p. 106).

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