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A Identidade Polimorfa

Antropologia Filosófica - Recensão

Pedro Filipe de Moura Ribeiro Vilar

‘A Identidade Polimorfa’ corresponde a uma secção, a segunda, da segunda parte do livro de Edgar
Morin ‘O Método 5. A Humanidade da humanidade – a identidade humana.’ ; originalmente
publicado em língua francesa no ano de 2001.

Edgar Morin atribui a esta parte do livro um tema específico, a ‘Identidade Individual’, que irá
desenvolver na supradita secção.

“Cada indivíduo é único e cada individuo é composto por numerosos indivíduos que ele não
conhece” (Octávio Paz).

Tal é a epígrafe que nos introduz nas questões da identidade e nos introduz, portanto, num discurso
onde o monismo identitário, a estanquicidade da identidade, fixa, monolítica é fortemente
problematizada. Primeiro, porque quando falamos de homem falamos de homem e de mulher, e
quando nos referimos a estes individualmente não estamos a excluir de cada um a sua parte do
outro género:

“Pretendo afirmar que o masculino está no feminino, e vice-versa, geneticamente, anatomicamente,


fisiologicamente, psicologicamente, culturalmente. Raras são as mulheres totalmente femininas e os
homens totalmente masculinos pela soma dos critérios biológicos. (pg.81)”

A idade, as fases de avanço existencial, também trazem descontinuidades, “transformações da


personalidade, por exemplo, invertendo a dominação de uma herança parental sobre a outra”,
indicando flutuações temperamentais, exprimindo um ascendente temporário, paterno ou materno;
“E, contudo, através da multiplicidade sucessiva das idades, cada um, sem disso se aperceber, traz
consigo, presentes em qualquer idade, todas as idades” (pg.82).

Talvez a dualidade primeira seja ainda para Edgar Morin, no entanto, aquela de que somos capazes
de nos aperceber quando nos entrevemos a nós mesmos, quando nos desdobramos em observador
que é observado e que é ainda observável – eventualmente, ad infinitum, numa sucessão de
distanciamentos a si próprio;“(…) a experiência universal do duplo é testemunho deste
desdobramento espontâneo que constitui a experiência arcaica de si.” (pg.83)

Edgar Morin ocupa-se depois da identidade enquanto memória referencial, antiga e recorrente: “A
identidade pessoal define-se, em primeiro lugar, pela referência aos antepassados e aos pais.”
(idem) e um pouco mais à frente “(…) definimo-nos em referência à nossa aldeia, à nossa província,
à nossa nação, à nossa religião.” (pg. 84)
Pensamos que a nossa identidade também se organiza pela recusa de determinados caracteres,
eventualmente recusando aqueles a que acabamos de aludir: a não pertença à aldeia de origem, a
renúncia aos valores religiosos primeiros, p. ex.; teríamos assim uma identidade negativa, que se
define pelo que afasta de si, pelo que inclui e exclui.

Outras dualidades interiores mostradas por Morin: “A dualidade do corpo e do Espírito” (idem), “Os
fenómenos ditos patológicos de dupla ou múltipla personalidade” (pg. 86), “A multiplicidade de
papeis sociais” (pg.88), o actor que “ consegue vestir e despir uma personagem «tão facilmente
como um fato»” (idem).

Por último, o autor aborda aquilo a que designa “as cavernas interiores”; estas são como que as
nossas remotas profundezas, as sobrevivências atávicas de um tempo marcado por “perigos, trevas,
fome, sede, fantasmas, demónios”(pg.90), reminiscências identificadas com um “ id inominável, um
impessoal anónimo” (idem).

Todo o ser humano é um “cosmos secreto”, isto é, encerra o universo em si, é um “eu contínuo e um
ego descontínuo”, “transporta com ele ao mais alto grau o paradoxo do múltiplo e do uno”, e esta é
sem dúvida a lição mais produtiva e insistentemente declinada por Edgar Morin ao longo deste
capítulo da Identidade Humana.