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Capa

Vítimas de Salazar - Estado Novo e violência política

João Almeida

Coordenador

Irene Flunser Pimentel / Luís Farinha

Fernando Rosas

Prefácio

2ª edição
Badana da Capa

JOÃO MADEIRA é investigando Instituto de História Contemporânea da


Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A
sua tese de mestrado intitula-se Os Engenheiros de Almas. O Partido
Comunista e os Intelectuais. Actualmente encontra-se a preparar o
doutoramento sobre o Partido Comunista Português (1943-1974).

LUÍS FARINHA é director adjunto da revista História e investigador do


Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e
Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É doutorado em História Política
e Institucional com a tese Francisco Pinto Cunha Leal, Político e
Intelectual - Uma Biografia, pela mesma universidade. Já a sua tese de
mestrado incidiu sobre O Reviralho. Revoltas Republicanas contra a
Ditadura e o Estado Novo.

IRENE FLUNSER PIMENTEL é investigadora do Instituto de História


Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade
Nova de Lisboa. Doutorada em História Contemporânea pela mesma
universidade a sua tese incide sobre a PIDE/DGS, polícia política do
Estado Novo, entre 1945 e 1974. Na tese de mestrado, debruçou-se sobre o
tema Contributos para a História das Mulheres no Estado Novo. As
organizações femininas do Estado Novo (Obra das Mães pela Educação
Nacional e Mocidade Portuguesa Feminina), 1936-1966.
Badana da Contracapa

Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial

Irene Flunser Pimentel

A partir dos anos 30, com a subida de Hitler ao poder, e durante a II


Guerra Mundial, Portugal tornou-se num porto de abrigo para milhares de
judeus e refugiados políticos que fugiam das perseguições nazis e do
Holocausto. Chegavam por via terrestre, através de Espanha, ou em navios
fretados, muitas vezes graças à ajuda de cônsules portugueses, como
Aristides de Sousa Mendes que, desobedecendo às ordens do regime e às
políticas de restrição de entrada da PVDE, lhes concedeu 'vistos que
significaram a sua salvação. O que encontraram em Portugal? Um país
pobre, conservador, orgulhosamente só, a viver numa ditadura rígida sob o
comando de António de Oliveira Salazar. Com a sua chegada e durante o seu
período de passagem, enquanto aguardavam saída para o exílio final, estes
refugiados trouxeram uma lufada de ar fresco a um país fechado sobre si
mesmo.

www.esferadoslivros.pt
Capa

Vítimas de Salazar

Durante mais de 30 anos António de Oliveira Salazar governou Portugal com


punho de ferro. Através de um regime nacionalista, autoritário e
repressivo, despolitizou-se, desmobilizou-se a participação cívica dos
portugueses e criou-se uma única e determinada imagem do país.

viviam amordaçados pelo lápis azul dos censores, controlados por escutas
telefónicas ou violação do seu correio, intimidados pelos informadores
que colaboravam com o regime. Atormentados pelas torturas da estátua ou
do sono perpetrados pela PIDE. Julgados por tribunais fantoches onde a
liberdade ficava à porta e onde os próprios advogados passavam a réus. Se
a sua atitude fosse considerada suspeita eram saneados, impedidos de
exercer a função pública, exilados ou deportados para campos de
concentração, ou simplesmente assassinados.

Estes homens e mulheres têm um rosto, sofreram a repressão, enfrentaram-


na de forma corajosa e muitos morreram de forma heróica a combatê-la. São
as Vítimas de Salazar.

Os historiadores João Madeira, Luís Farinha e Irene Flunser Pimentel


trazem-nos um estudo detalhado sobre os aparelhos repressivos do Estado
Novo, o seu funcionamento e acção, sem nunca perder de vista os seus
destinatários directos. Uma obra fundamental para compreender e não
esquecer a história do século XX português.

A esfera dos livros


Ficha Técnica

A Esfera dos Livros

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© João Madeira, Luís Farinha, Irene Flunser Pimentel, 2007 © A Esfera dos
Livros, 2007

l.a edição: Janeiro de 2007 2.a edição: Fevereiro de 2007

Capa: Paulo Condez

Imagem da capa: Cesaltina Maria Feliciano

(ANTT/Arquivo da PIDE-DGS - Reg. Presos C0005)

Revisão: Francisco Paiva Boléo

Paginação: Segundo Capítulo

Impressão e Acabamento: Tilgráfica

Depósito legal n.° 254 530/07

ISBN 978-989-626-044-6
Página de rosto

João Madeira (coordenador), Luís Farinha, Irene Flunser Pimentel

Vítimas de Salazar - Estado Novo e violência política

João Almeida

Coordenador

Prefácio de Fernando Rosas

2ª edição

A esfera dos livros


ÍNDICE

índice de siglas................................................ 11

Prefácio por Fernando Rosas ................................. 15

Memória da violência e violência da Memória...................... 15

1. As voltas que a Memória dá .............................. 15

2. A Democracia portuguesa e os acidentes da Memória............ 16

3. O contexto e a geografia temática do revisionismo historiográfico ...


20

4. Estado Novo e violência ................................. 21

5. Violência preventiva e violência punitiva .............. 26

Introdução................................................... 31

Capítulo 1 - A Censura por Irene Flunser Pimentel .......... 33

«O que parece, é»........................................... 33

Da Censura militar à censura civil............................... 35

Fiscalizar os jornais como os alimentos!...........................


36

A Censura do Estado Novo, nos anos 30 e 40...................... 38

Marchas, danças e canções apreendidas pela PIDE por João Madeira.. 43

Censura às agências noticiosas e à imprensa: o caso das cheias

que não aconteceram...................................... 47

A censura nos anos 50 e 60.................................... 49

«Estes escritores morreram!»................................... 53

O marcelismo: da «liberalização» à manutenção da Censura .... 57

«Não é permitida a divulgação de notícias, artigos, crónicas

ou comentários que...» .................................... 60

Lei de Imprensa: A Censura continuou como dantes .......... 66

Capítulo 2 - Escutas telefónicas e violações de correio por Irene Flunser


Pimentel . 73

«Operação Cegonha»........................................ 73

Escutas telefónicas .......................................... 77

Capítulo 3 - Os informadores da PIDE-DGS por Irene Flunser Pimentel 89


O informador Bruno dos Santos Cardoso ......................... 89

Mário Mateus, o informador executado .......................... 95

A «cultura» da delação em Portugal ............................. 98

António Viseu, um infiltrado no PCP e na extrema-esquerda .... 100

1961: Um ano de «desastres» do PCP............................ 102

Capítulo 4 - A Tortura por Irene Flunser Pimentel.............. 105

«Meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras.» 105

A «estátua» e o «sono»....................................... 108

O isolamento .............................................. 110

Mulheres torturadas ........................................ 112

Intensificação e generalização das torturas............... 116

A tortura, no final do regime................................... 119

O objectivo não era fazer «falar» mas sim «calar».............. 126

Capítulo 5 - Julgamentos políticos por Irene Flunser Pimentel. 129

Octávio Pato: agredido em pleno tribunal .................. 129

O caso José Bernardino: a «democraticidade» dos julgamentos políticos . .


. 131

Intimidar as testemunhas de Defesa.............................. 133

Violência e detenção de réus e de advogados em plena audiência 135

«Podem V. Exas. julgar como lhes apetecer...»; Manuel João da Palma


Carlos, de advogado de defesa para o banco dos réus por João Madeira.
139

Um advogado na mira do regime................................ 141

Uma vaga de solidariedade .................................... 143

O processo dos 108 por João Madeira............................ 146

Capítulo 6 - As medidas de segurança por Irene Flunser Pimentel... 151

Cumprida a pena e mantidos na prisão ........................... 151

As medidas de segurança ...................................... 155

O caso Manuel Guedes............... ....................... 157

O caso Álvaro Cunhal ...................................... 159


O caso Humberto Lopes...................................... 160

O caso Ângela Vidal e Campos................................ 164

O caso José Martins......................................... 167

O caso Domingos Arouca..................................... 171

Capítulo 7 - Os saneamentos na função pública por Luís Patinha. 175

Impedidos do exercício de «funções públicas» ......................


175

Decapitação da Resistência Republicana ....................... 177

O caso de Jaime Cortesão..................................... 180

O caso de José Manuel Sarmento de Beires .................... 182

Todos contra Salazar, Salazar contra todos ................... 184

O caso de Abel Salazar....................................... 186

A exclusão selectiva dos mais perigosos......................... 188

O caso de Bento de Jesus Caraça................................ 190

Acusados de falta de lealdade às Instituições .............. 192

Até ao fim, o mesmo regime ................................... 196

Capítulo 8 - Deportação e exílio por Luís Farinha .......... 199

Pelo mundo repartidos ....................................... 199

O ostracismo dos Republicanos ............................. 202

Ventos de Espanha.......................................... 206

Fuga pelos Pirenéus.......................................... 211

Exílio no Novo Mundo....................................... 213

Pelos quatro cantos ............. 221

Capítulo 9 - Campos de concentração por Luís Farinha ...... 229

O «campo da morte lenta» .................................... 229

Da «Aldeia Farpada» ninguém sai......................232

Colónias penais....................................... 238


«Recintos fortificados»....................................... 242

Campos do sudoeste......................................... 246

Se o mundo mudou........................................... 248

Capítulo 10 - O Exército por Luís Farinha.......................251

O Exército e o regime salazarista............................... 251

O «Exército-Polícia»......................................... 254

Parlamento encerrado, vida nova................................ 255

Contra o comunismo, avançar, avançar........................... 260

Sob os ventos da Guerra...................................... 263

Missão nacional em África.................................... 264

Capítulo 11 - A Legião Portuguesa por João Madeira...........269

A milícia «em obediência ao Governo» ....................... 269

Uma milícia criada por decreto................................. 270

O comício anticomunista de Agosto de 1936....................... 271

«A Legião, filha adoptiva do Exército» .........................275

Vigilância e denúncia anticomunista .......................... 278

Instrumento repressivo até ao fim do regime ....................284

Capítulo 12 - Mocidade Portuguesa e a formação de uma nova mentalidade

por Irene Flunser Pimentel.................................. 289

«Os rapazes ao sol! As raparigas mais na sombra» ............289

A organização dos jovens no início do Estado Novo ...........290

A criação de uma «mentalidade nova» ........................291

A transmissão dos valores do Estado Novo na MPF................293

Dos objectivos «totalizantes» ao triunfo da Escola...........302

Capítulo 13 - Os estudantes na mira do Estado Novo por Irene Flunser


Pimentel 305

A repressão dos estudantes .................................... 305


A «crise» estudantil de 1962................................... 309

Prisões de estudantes comunistas. 1964-1965....................... 312

Os estudantes e a Guerra Colonial............................... 319

A «crise» estudantil de 1969................................... 321

Os estudantes no final do regime .............................322

Capítulo 14 - Fome e repressão por João Madeira ...............329

Ermidas-Gare, 1941: Presos por roubar «tacos» de cortiça..... 329

Um Inverno pavoroso........................................ 331

A «revolta dos tacos» ........................................ 333

Era a fome................................................. 337

Sob o espectro da fome....................................... 338

Alhandra. Maio de 1944: «Queremos pão! Temos fome!» ............. 342

Bandeiras negras da fome ..................................... 343

Aprisionados nas praças de touros............................... 347

Capítulo 15 - A repressão na rua por João Madeira .............351

A morte de Catarina Eufémia nos campos do sul.................... 351

Convencer os de fora a largar o trabalho.......................... 353

Três tiros nas costas ......................................... 354

O Couço em «estado de sítio» ................................. 356

A jornada das oito horas...................................... 360

Aljustrel sob fogo da GNR .................................... 362

«Tiros em pontaria baixa» .................................... 364

A polícia de choque ......................................... 365

O espancamento............................................ 367

Capítulo 16 - Mortes violentas por João Madeira.............. 371

Alfredo Dinis assassinado a tiro na estrada de Bucelas...... 371

De «pé descalço» a militante operário............................ 373

Sob efeito da vigilância policial................................. 378


Dois crimes na prisão da PIDE do Porto por Irene Flunser Pimentel......
381

Crime e não suicídio........................................ 383

«Alcântara dos tiros cegos»: o assassinato de José Dias Coelho 385

Das lutas estudantis à clandestinidade........................ 387

«Operação Outono» ou o assassinato de Humberto Delgado ..... 389

A «descoberta» dos cadáveres.................................. 390

Os últimos passos de Humberto Delgado.......................... 392

Um furacão político ......................................... 396

O cerco da PIDE............................................ 398

Uma larga teia de cumplicidades................................ 402

O assassinato do estudante José António Ribeiro dos Santos

por Irene Flunser Pimentel.................................. 403

Capítulo 17 - A fraude eleitoral de 1958 por João Madeira.... 411

A derrota de Humberto Delgado................................ 411

Controlar todo o processo eleitoral.............................. 415

Notas ..................................................... 423

Bibliografia 449

ÍNDICE DE SIGLAS

AAC - Associação Académica de Coimbra

ACNUR - Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados

AEFDL - Associação de Estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa


AEISCEF - Associação de Estudantes do Instituto de Ciências Económicas e
Financeiras

AEIST - Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico


AEV - Acção Escolar Vanguarda

ANP - Acção Nacional Popular

AP - Associated Press

ARA - Acção Revolucionária Armada

ASP - Acção Socialista Portuguesa

CAPEN - Comissão de Assistência Pró-Emigrados Necessitados

CDE - Comissão Democrática Eleitoral

CEI - Casa dos Estudantes do Império

CEJAD - Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos

CEMAE - Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia

CEUD - Comissão Eleitoral de Unidade Democrática

CF - Comércio do Funchal

CGT - Confederação Geral do Trabalho

CIA (EUA) - Central Intelligence Agency

CMLP - Comité Marxista-Leninista Português

CPA - Comité Português Antifascista

CR - Conselho da Revolução

CSP - Conselho Superior de Polícia

CSP - Conselho de Segurança Pública

CTT - Correios, Telégrafos e Telefones

CUF - Companhia União Fabril

DGS - Direcção-Geral de Segurança

DGS (Espanha) - Dirección General de Seguridad

DGSC - Direcção-Geral dos Serviços de Censura

DGSCI - Direcção-Geral dos Serviços de Censura à Imprensa

DL - Diário de Lisboa

DRIL - Directório Revolucionário Ibérico de Libertação

EDE - Esquerda Democrática Estudantil

FA - Forças Armadas

FAC - Força Automóvel de Choque


FAI - Federação Anarquista Ibérica

FAP - Frente de Acção Popular

FAPLE - Frente Antitotalitária dos Portugueses Livres Exilados

FCL - Faculdade de Ciências de Lisboa

FCR - Frente Cívica Revolucionária

FDL - Faculdade de Direito de Lisboa

FEPF - Federação de Emigrados Portugueses em França

FJCP - Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas

FNAT - Fundação Nacional para Alegria no Trabalho

FP - France Press

FPLN - Frente Patriótica de Libertação Nacional Gil - Grupo de


Intervenção Imediata

GNR - Guarda Nacional Republicana

IML - Instituto de Medicina Legal

INTP - Instituto Nacional de Trabalho e Previdência

ISCEF - Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras

IST - Instituto Superior Técnico

JAP - Junta de Acção Patriótica

JCCP - Junta Central das Casas do Povo

JF - Jornal do Fundão

JSN - Junta de Salvação Nacional

LP - Legião Portuguesa

LUAR - Liga de Unidade e Acção Revolucionária

MAEESL - Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário de


Lisboa

MAS - Milícias Armadas Sindicalistas

MEN - Ministério da Educação Nacional

MFA - Movimento das Forças Armadas

MMI - Movimento Militar Independente

MND - Movimento Nacional Democrático


MNE - Ministério dos Negócios Estrangeiros

MNF - Movimento Nacional Feminino

MNI - Movimento Nacional Independente

MNS - Movimento Nacional-Sindicalista

MP - Mocidade Portuguesa

MPF - Mocidade Portuguesa Feminina

MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola

MRPP - Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado

MUD - Movimento de Unidade Democrática

MUDJ - Movimento de Unidade Democrática juvenil

NA - Notícias da Amadora

NATO (OTAN) - Organização do Tratado do Atlântico Norte

OAS (França) - Organisation de 1'Armée Secrète

OCN - Organização Cívica Nacional

OMEN - Obra das Mães pela Educação Nacional

ONMP - Organização Nacional da Mocidade Portuguesa

ONU - Organização das Nações Unidas

ORA - Organização Revolucionária Armada

ORL - Organização Regional de Lisboa (PCP)

ORS - Organização Revolucionária de Sargentos

PAIGC - Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo

-Verde

PCP - Partido Comunista Português

PCUS - Partido Comunista da União Soviética

PIDE - Polícia Internacional e de Defesa do Estado

PJ - Polícia Judiciária

PSP - Polícia de Segurança Pública

PVDE - Polícia de Vigilância e Defesa do Estado RGA - Reunião Geral de


Alunos

RIA - Reunião Inter-Associações


RPAC - Resistência Popular Anti-Colonial

RPL - Rádio Portugal Livre

SDECE (França) - Service de Documentation Extérieure et de Contre-


Espionage (a partir de 1982,DGSE - Direction Générale de Sécurité
Extérieure)

SEIT - Secretaria de Estado de Informação e Turismo

SNI - Secretariado Nacional de Informação

SPE - Sociedade Portuguesa de Escritores

SPN - Secretariado da Propaganda Nacional

SVI - Socorro Vermelho Internacional

TAP - Transportes Aéreos Portugueses

TLP - Telefones de Lisboa e Porto

TME - Tribunal Militar Especial

UAPRE - União Antifascista de Portugueses Residentes em Espanha

UDP - União Democrática Popular

UGCR - União Geral dos Combatentes pela República

UN - União Nacional

UPI - United Press International

UPU - União Postal Universal

URML - União Revolucionária Marxista-Leninista

URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas


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PREFÁCIO

Memória da violência e violência da Memória

1. As voltas que a Memória dá

A Memória histórica dos factos sociais e políticos não é só nem


principalmente uma faculdade psíquica de retenção ou convocação do
passado. É um processo social de construção das representações dos
acontecimentos pretéritos e das suas causalidades, um processo complexo e
frequentemente contraditório de tentar fixar um discurso interpretativo
e, a esse título, um terreno de disputa pela hegemonia de distintas
concepções, na realidade, acerca do sentido do presente e do futuro.

Esta actualidade, esta sobredeterminação do hoje sobre as condições de


produção dos discursos respeitantes ao passado, é em larga medida
incontornável. Precisamente neste sentido se pode dizer que a
«objectividade» ou a «neutralidade» não existem nos processos políticos
ou historiográficos de reconstrução da memória. O que existe, e isso os
distingue, são as regras de método específicas e individualizadoras do
debate historiográfico, do fazer história, regras que pretendemos
cientificamente exigentes e rigorosas, mas que não deixam de ser
instrumentais de uma actividade intelectual tão condicionada como as
outras pelo «caldo de cultura» que, em cada época, cada um e todos
carregam. O presente volume é constituído por um conjunto de narrativas
históricas acerca da memória da violência no Estado Novo, construído com
as regras e os métodos próprios da disciplina.
16

Mas, creio eu, com a consciência de que ele se inscreve, quer se queira
ou não, numa disputa pela memória enquanto valor legitimador do sentido a
dar aos dias de hoje, ou enquanto valor retrospectivamente legitimado
pelas prioridades actuais. Seja como for, e por maior rigor académico que
se deva emprestar à sua abordagem, este há-de ser, por muito tempo, um
terreno onde se defrontam hegemonias contraditórias quanto à coerência
global a criar. A memória da violência traz sempre consigo, de alguma
forma, a violência da memória. Não suponho que isso deva ser motivo de
maior inquietação para o historiador que trabalha seriamente no seu
ofício. Afinal, as representações da memória, por muito que cada discurso
de apropriação as tente mais ou menos cristalizar ou tornar imutáveis ou
intocáveis, comportam-se como sistemas eminentes plásticos, ligados às
diferentes conjunturas históricas e às lógicas específicas que
contraditoriamente as suportam. Decididamente, não há discursos
historiográficos definitivos, sobrepõem-se por camadas interpretativas ao
sabor das correntes que moldam o tempo em que se produzem, sendo talvez a
História, esse processo contínuo de construção, desconstrução e
reconstrução plasmado no processo social. Mais que não seja, uma espécie
de cardápio de leituras plurais onde, em cada época, a cidadania, quando
pode, se exerce também pela livre escolha das visões que mais convenham à
forma de cada um estar e intervir.

2. A Democracia portuguesa e os acidentes da Memória

Parece claro que a Revolução portuguesa de 1974/75, desencadeada pelo


movimento militar de 25 de Abril daquele ano, colocou imediatamente no
centro dos seus discursos e práticas, como fonte primeira de legitimação,
a memória dos oprimidos, dos perseguidos, dos torturados, dos humilhados
por quase meio século de ditadura, isto é, a memória do antifascismo. A
Revolução, ao sê-lo, ao transformar-se nela própria, fazia-se em nome do
resgate dessa memória enquanto património colectivo de um povo longamente
dominado. A memória antifascista do fascismo derrubado impunha, por isso,
as suas prioridades à acção revolucionária, era, se quisermos, a
consciência hegemónica imediata e urgente dos primeiros passos do
processo revolucionário.
17

Em nome dela, a iniciativa da massa, nas ruas, rompeu as hesitações dos


chefes militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) ou da Junta de
Salvação Nacional (JSN), procedeu à destruição do núcleo duro do aparelho
repressivo do regime deposto e obrigou às primeiras medidas de justiça
política contra os seus responsáveis e colaboradores. É importante
recordá-lo, pois é em nome dessa memória feita força social e política
que:

• se assaltou a Polícia Internacional de Defesa do Estado/Direcção Geral


de Segurança) (PIDE/DGS), se impôs a sua extinção, se caçaram os pides
nas ruas, se forçou a sua prisão e julgamento, bem como a dos seus
informadores e serventuários;

• se marchou para as cadeias políticas de Caxias e Peniche e se impôs à


JSN a libertação imediata e incondicional de todos os presos políticos e
a sua completa amnistia;

• se liquidaram a polícia de choque da Polícia de Segurança Pública


(PSP), a milícia da Legião Portuguesa (LP), as organizações da juventude
do regime, Mocidade Portuguesa (MP) e Mocidade Portuguesa Feminina (MPF)
e o partido único, a União Nacional (UN) depois chamada Acção Nacional
Popular (ANP);

• se encerraram os tribunais plenários e demitiram (pelo menos


temporariamente) os seus juízes;

• se assaltou e destruiu a censura prévia à imprensa e todas as formas


oficiais de limitação da liberdade de expressão na rádio, nos
espectáculos, etc...;

• se ocuparam os sindicatos nacionais corporativos e as autarquias


locais e se demitiram os seus dirigentes;

• se sanearam os antigos ministros e governantes, os dirigentes do


partido único, os responsáveis pela repressão e pelos aparelhos de
justiça política e de propaganda, os delatores e colaboradores da polícia
política, isto é, altos funcionários (e alguns pequenos), juízes, patrões
e quadros superiores, reitores, professores, directores de jornais,
militares, autarcas (seriam ao todo cerca de 12 000 em Fevereiro de 1975
(Nota 1)) em centenas de assembleias de massas participadas por milhares
de cidadãos nos ministérios, nas empresas, nas escolas, nos jornais e
estações de rádio, nas freguesias, nos bairros...
18

• se pôs termo, finalmente, à guerra colonial, com a resistência


generalizada aos embarques e a exigência do regresso das tropas enviadas
para os teatros de guerra em África.

Essa memória, em suma, mesmo na pluralidade das suas representações, foi


a cultura dominante dos primeiros meses da Revolução, e não só. Ela
significou a conquista da hegemonia por parte de uma visão global do
passado do regime e da resistência que ficaria impressa no código
genético da democracia emergente, isto é, na sua cultura largamente
aceite e nos seus textos jurídicos fundamentais. E de tal forma o era que
a ideologia do Estado Novo, aparentemente esgotado no longo esforço por
durar, saía de cena sem sequer assegurar continuadores nas principais
forças que concorriam à gestão do novo sistema político: nenhum partido
de direita se reivindicaria formalmente da herança do salazarismo, bem
pelo contrário. Na realidade, antes ainda de perder a batalha nas ruas,
bem antes, o regime tinha-a perdido nas consciências.

Entretanto, com a contenção pactuada do processo revolucionário, após o


«25 de Novembro» de 1975, com o declinar das grandes mobilizações, com a
«normalização» e a institucionalização da democracia iniciadas em 1976 e
a reorganização e ascensão das direitas sociais e políticas que se
reflectiria na decisiva revisão constitucional de 1982, no contexto desse
refluxo, vai emergir uma espécie de contracultura de negação/revisão da
memória constituída em discurso dominante nos 19 meses da revolução. Com
três manifestações principais. Em primeiro lugar, a anulação ou o
esvaziamento prático de grande parte das medidas de justiça exigidas e
parcialmente impostas pelo movimento de massa revolucionário contra os
responsáveis do regime político deposto, os seus polícias e
colaboradores. Em segundo lugar, o prolongado fecho de alguns arquivos
essenciais à investigação histórica sobre o Estado Novo e suas
instituições. Fosse por proibição do acesso (caso dos arquivos de Salazar
e Caetano, da PIDE, da LP, do partido único ou do geral dos arquivos
militares), ou por incontornáveis obstáculos materiais e burocráticos à
consulta dos demais fundos da Administração central. Em terceiro lugar,
com a construção progressiva de um discurso de revisão historiográfica
acerca da natureza do Estado Novo enquanto regime.
19

Os dois primeiros aspectos referidos prepararam, naturalmente, as


condições políticas e materiais para o surgimento de revisionismo
historiográfico. Sob o pretexto de combater os «excessos» cometidos em
nome da memória da repressão, invocando a urgência da «reconciliação» e
do restabelecimento da «concórdia nacional», o Conselho da Revolução (CR)
pós-novembrista, primeiro, e depois os sucessivos governos
constitucionais de finais dos anos 70 e dos anos 80 congelaram, reviram e
«reclassificaram» o geral dos processos de saneamento de cariz
antifascista sem outro critério que não fosse o da reintegração maciça: o
perdão para todos sem justiça para ninguém. Punidos e saneados em
definitivo só mesmo, por dolorosa ironia das coisas, os civis e militares
derrotados na aventura de Novembro. Mais do que isso, fizeram do
julgamento dos funcionários da polícia política - acusados da prática
continuada ao longo de dezenas de anos de um pesado rol de crimes de
tortura, de assassinato e de violências várias, no quadro da «associação
de malfeitores» que foi considerada a PIDE/DGS - uma farsa insultuosa de
desculpabilização política, tendo por complacente julgador o tribunal
militar.

Simultaneamente, já se referiu, agiam as políticas passivas de ocultação


da memória histórica do Estado Novo e do geral da nossa História
contemporânea, através da ausência de qualquer arremedo de polícia de
arquivos, o que redundava no fecho, abandono e deterioração dos
principais fundos indispensáveis à sua viabilização. Só depois de
aturados protestos e movimentações de parte da comunidade de
investigadores foi possível, a partir de 1991, obter legislação razoável
de acesso aos principais arquivos (designadamente ao da PIDE/UN/LP e de
Salazar, e o início de uma sempre acidentada, interrompida e
subfinanciada polícia nacional de arquivos. Mas esse foi, é necessário
dizê-lo, um ponto de viragem positivo para as investigações históricas
sobre o Estado Novo e o século XX em geral.

Em pano de fundo, iniciava-se, logo a partir de 1976, o estrangulamento


progressivo da Reforma Agrária, o contra-vapor às nacionalizações e a
perda de poder e de intervenção dos órgãos de vontade popular criados nas
empresas e nos bairros populares das cidades pelos movimentos sociais do
período revolucionário.
20

A democracia portuguesa resultava, de tudo isto, numa espécie híbrida, a


meio caminho entre a marca genética de «conquistas» que lhe imprimira a

Revolução (e que ela conseguira, em vários aspectos importantes,


conservar) e as pressões em sentido contrário que decorriam da lógica
económica e social do inexorável processo de integração europeia e dos
impactos iniciais da época da globalização capitalista.

3. O contexto e a geografia temática do revisionismo historiográfico

Penso que é precisamente neste contexto de equilíbrio instável entre o


que historicamente se conquistou e o cerco paulatino visando a
liquidação/restrição desse património de direitos sociais e políticos,
que se volta a disputar nos dias de hoje, o debate entre distintas
representações da memória histórica recente, distintamente legitimadoras
das escolhas a fazer. E encará-la enquanto tal, isto é, sem ingenuidade,
em nada diminuí nem a dignidade científica da discussão no campo que lhe
é próprio nem a importância cívica que ela reveste nos demais fora onde
possa e deva decorrer.

Porque, naturalmente, como atrás sugeri, há que distinguir nesta


controvérsia entre as diferentes abordagens do passado histórico recente
(e não só do nosso), dois terrenos diferentes: aquele que é específico
dos vários tipos de intervenção política e o terreno do debate
historiográfico propriamente dito, o que aqui se convoca. Ora um tal
debate, talvez seja oportuno relembrá-lo, não se pode fazer a golpes de
resoluções interpretativas de um qualquer comité central, ao sabor de
tropos de retórica moralista ou nostálgica, seja qual for a sua
inspiração, pautado por sentenças absolutórias ou condenatórias tão
sumárias como dogmáticas, guiado por obscuros processos de intenção,
ainda menos por decretos de judicialização da interpretação da História.
Como escreve Enzo Traverso, não se pode substituir a História crítica,
necessariamente plural, pelo moralismo ideológico e pelo preconceito.

Seja como for, é no contexto referido que se têm vindo a construir os


discursos de revisão da nossa História mais recente, frequentemente
retomando e reelaborando velhos temas da historiografia conservadora ou
até do discurso estadonovista, progressivamente ressuscitados. Às
políticas passivas de apagamento ou neutralização da memória, sucederam-
se as iniciativas doutrinárias da sua revisão.
21

Para o que neste texto especificamente nos interessa - a memória


histórica respeitante ao Estado Novo e à resistência antifascista -, o
labor de revisão tem-se exprimido, nos últimos anos, sobretudo, através
daquilo a que, em síntese, se poderá chamar uma visão banalizadora da
natureza e das políticas do regime.

Não me refiro necessariamente às posições que no quadro do já antigo


debate sobre o estudo comparado dos fascismos (até ao fim da II Guerra
Mundial) excluem o salazarismo dessa categoria. Essa opção pode não ter
nada a ver com os discursos banalizadores e quase desculpabilizadores do
Estado Novo. Falo das teorizações que enfatizam positivamente a
«excepção» salazarista construída em torno do seu «carácter civilista»
(uma «ditadura civil» saída de uma ditadura militar), do facto de ser um
«Estado de Direito», é certo que não democrático, mas, apesar de tudo,
«limitado pela moral e o direito», da temperança que lhe teria imprimido
a sua matriz católica, dos benefícios de ter como chefe um «ditador
catedrático» e professoral (por oposição aos duces e führers de extracção
plebeia e viso populista), tudo contribuindo para um regime de baixo teor
de violência, claramente distinto do «culto da violência» e da sua
prática muito mais generalizada por parte dos «verdadeiros» regimes
fascistas.

Vale a pena, então, concentrarmo-nos nesta questão do Estado Novo e da


violência, pois é precisamente disso que trata o presente volume.

4. Estado Novo e violência

Creio que convirá começar por lembrar que a violência está inscrita no
código genético de todos os regimes identificados pela época dos
fascismos, isto é, de todos os regimes do tipo fascista. Assentes
doutrinariamente na negação da herança da Revolução Francesa, na recusa
das concepções da soberania popular enquanto fonte de legitimação e,
portanto, do «demo-liberalismo» em geral, os teóricos da «revolução
contra-revolucionária» preocupavam-se pouco com o sentimento ou a vontade
das maiorias.
22

Auto-representando-se como elites, ou como «chefes» depositários de uma


missão salvífica transcendental, considerando-se os intérpretes da «nação
autêntica» de sempre e pretendendo reencontrá-la e resgatá-la das
desordens do presente, as direitas tornadas revolucionárias propunham-se
«curar» a pátria enferma para a «reerguer», para reatar o fio do
verdadeiro destino nacional, interrompido pelos parênteses a-histórico e
antinacional do liberalismo ou pervertido pela «lepra» socialista ou
comunizante.

Essa «cura» da nação contaminada ideológica e moralmente pela «anti-


nação», essa imposição da «verdade» contra a maioria da pátria doente e
decaída, havia de se fazer, necessariamente, pela violência esclarecida
das minorias, pela força, como uma cruzada, como um golpe de bisturi
extirpa o tumor, como um missionário que contraria, castiga ou corrige o
bárbaro da barbárie. «E tanto pior se o favorecido se revolta e salta.»
(Nota 2) Tratava-se, afinal, de regenerar a alma da nação contra ela
própria.

E bem se compreendia que tão ingente tarefa não pudesse dispensar a


violência como elemento centralmente constitutivo da própria acção de
resgate. Tratava-se de desencadear processos tendentes a suprimir as
liberdades fundamentais de associação e de expressão, de proibir os
partidos e fechar os parlamentos, de decretar o fim da luta de classes em
favor do enlace corporativo, de acabar com o direito à greve e a
liberdade sindical, de silenciar sem contemplações os restos
recalcitrantes da «traição» e da «subversão».

Só a força podia operar a «limpeza» sobre que se ergueriam os «novos»


Estados. Mas não era exactamente a violência em si mesma, ínsita na
natureza dos novos regimes e nas suas tarefas, que os individualizava
relativamente aos velhos liberalismos, onde também ela estava presente
como essência de suporte do seu carácter oligárquico. O que distinguia a
violência fascista ou protofascista era o ser potencial e teoricamente
irrestrita, exercida em nome de uma suprema razão nacional, racial ou
providencial face à qual não havia razão legítima. Uma razão suprema que
na sua tarefa purificadora e reconstrutora a tudo se impunha
tendencialmente sem limites ou que, na realidade, só reconhecia as regras
com que a si própria, e pelas suas próprias razões, e circunstâncias, se
autolimitasse.

Quando Salazar falava de um Estado Novo «limitado pela moral e pelo


direito», não estava a aceitar um sistema de heterolimitação do poder,
estava a falar da «moral» que o regime perfilhava como forma de estar e
livremente interpretava e do direito que tinha o poder praticamente
discricionário de produzir para si próprio.
23

Efectivamente, o que limitava o salazarismo não era este tipo de retórica


declarativa. Eram os equilíbrios internos dentro do regime e as relações
de força na sociedade. Mas dentro deste quadro, o poder do Estado era
praticamente todo aquele que entendesse, em cada momento, dever ter. Em
nada de essencial se distinguia do «absolutismo estatista» que apontava
ao fascismo italiano, provavelmente com factores de limitação bem mais
pesados por parte dos poderes tradicionais da coroa, das Forças Armadas e
das oligarquias, apesar da sua indiscutível adesão ao fascismo.

Numa época de crise política, económica e social do capitalismo,


sucessivamente abalado pelos impactos da Grande Guerra e da Grande
Depressão de 1929, para boa parte das classes dominantes da Europa mais
atrasada ou mais debilitada pelos efeitos acumulados desses choques e
pelas ameaças reais ou imaginárias da revolução social ou da massificação
da política, esse era o caminho para a reposição das taxas de lucro e da
«ordem» perdida. O parlamentarismo e o liberalismo oligárquico que
institucionalizavam a velha dominação política e social, mostravam-se
inadequados e até prejudiciais perante a profundidade da crise e das
ameaças, sobretudo nos países da semi-periferia ou para ela empurrados
pelas circunstâncias históricas da guerra e do pós-guerra. Nesse caldo
económico-social e cultural floresceram as várias reacções e ditaduras de
novo tipo, juntando em diferentes tipos de equilíbrio as velhas teorias
elitistas da contra-revolução com o jovem nacionalismo radical e plebeu
dos movimentos fascistas do pós-guerra. Desse pacto, dessa combinatória
diversamente experimentada nasceram os fascismos enquanto regimes.

Mesmo quando os partidos fascistas chegam ao poder nos termos da


legalidade do Estado liberal, pelas portas que lhes abre a
rendição/cumplicidade dos partidos tradicionais da oligarquia, a
violência mais ou menos discricionária é um elemento fundamental para a
imposição da «nova ordem» no plano político e da dominação social.
Destruir, ou reformar, ou neutralizar o velho Estado burguês, em nenhum
caso dispensará a acção regeneradora da violência, considerada em
diferentes graus pelos diferentes regimes deste tipo como necessidade
indispensável, até como virtude de culto, em qualquer caso não sujeita a
quaisquer limites que não fossem os ditados pelas próprias prioridades e
conveniências do novo poder.
24

Mesmo quando, no caso português, o regime entendia dar uma


pseudolegitimidade jurídica formal ao arbítrio.

Não penso, portanto, que possamos inventar um «violenciómetro», uma


espécie de medida para os graus de violência que funcione como critério e
distinção dos regimes que são fascistas dos que não são. A violência,
essa violência potencialmente irrestrita, é a essência comum ao conjunto
dos regimes de tipo fascista enquanto forma de negação e superação do
Estado liberal e de radicalização da dominação política e social por
parte das diferentes coligações de sectores dominantes que eles exprimem.
O grau e a extensão do uso dessa violência variaram de acordo com as
distintas características que esses regimes assumiram em cada formação
social concreta e de acordo com as circunstâncias históricas e o caldo de
cultura específico que condicionaram a sua evolução. De qualquer forma,
esta violência essencialmente ligada à «regeneração nacional» e, por isso
mesmo, tendencialmente sem mecanismos reais de heterolimitação, a não ser
na retórica dos seus autores, tal violência não é o que diferencia, mas
sim o que fundamentalmente identifica os regimes de tipo fascista;
Mussolini falava para todos: «A violência, para nós, está muito longe de
ser um desporto ou um divertimento. Ela é, como a guerra, uma dura
necessidade de certas horas históricas.» (Nota 3)

No caso do Estado Novo, Salazar desde muito cedo tem ideias assentes
sobre o papel da violência no regime nascente. Confidencia-as a António
Ferro nas entrevistas que lhe concede em 1932, como recém-empossado Chefe
do Governo (Nota 4) e proclama-as, nesse mesmo ano, num dos seus
discursos emblemáticos proferido a 28 de Maio do mesmo ano, nas vésperas
de ascender à presidência do ministério (Nota 5). O ditador concordava
com Mussolini em que a violência pudesse «ter vantagens, efectivamente,
em certas horas históricas», compreendia até aqueles apoiantes da
Ditadura que reclamavam «fazer-se mais largo apelo e maior uso da
violência» face à «grandeza dos males, das resistências e dos perigos», e
considerava, à luz da sua «reflexão e experiência», «que a força é
absolutamente indispensável na reconstrução de Portugal». Mas havia que
atender às características da «nossa raça» e dos «nossos hábitos», ao
«doentio sentimentalismo do povo português», tão «deseducado ou tão
defeituosamente educado» que não comportava sequer o rigor da justiça.
25

«E sendo assim como se pede para ele a violência?» O «processo


revolucionário da violência» estaria, pois, «contra-indicado entre nós» e
havia que obter «os mesmos fins por outros meios mais harmónicos com o
nosso temperamento e as condições da vida portuguesa». De contrário, tudo
podia ser deitado a perder. A força «indispensável» teria então de «ser
usada com a serenidade e a prudência capazes de assegurar a continuação
da obra e de desviar as complicações que a prejudiquem ou a tornem
impossível». A nova organização do Estado s a «reforma da sociedade
portuguesa» não se poderiam lavar a cabo «sob rajadas de temporal
desencadeado por nossas próprias mãos» (Nota 6). — E claro que esta
aparente conformação com os «brandos costumes» convivia sem excesso de
estados de alma, um pouco mais adiante na mesma entrevista que acima
citamos, com a conhecida apologia dos «safanões a tempo» por parte das
polícias contra os «temíveis bombistas que se recusavam a confessar»
(Nota 7), metáfora corrente para designar toda a forma de resistência ao
regime.

Na realidade, aquilo de que Salazar falava não era de nada parecido com a
renúncia à violência ou à força (que o ditador considerava
«indispensável» à tarefa reconstrutora), mas de uma sua gestão
politicamente racional, de acordo com as circunstâncias do meio social
sobre que actuava e que visava subjugar e controlar. Uma oligarquia
dominada pela preponderância dos sectores rentistas, ruralistas e
parasitários, ideologicamente mais tradicionalistas e conservadores, e
uma sociedade onde o peso da ruralidade cercava e, em parte, neutralizava
as ameaças reviralhistas ou grevistas de Lisboa (e da sua Margem Sul) e
do Porto, pareciam não privilegiar a radicalidade da mobilização da massa
ou da violência miliciana de outras experiências fascistas coevas. As
classes dominantes e as suas elites, agrupadas sob o chapéu do Estado
Novo e da chefia do salazarismo, nutriam uma genuína e essencial
desconfiança da rua, dos grupos milicianos, das «revoluções», de tudo o
que se furtava à tutela tradicional do Estado, das Forças Armadas ou da
Igreja Católica, mesmo que fosse para agir em nome da «ordem». Não
dispensavam, sem dúvida, essa nova radicalidade e o seu culto da
violência discricionária. Mas subordinavam-nos a outras formas de
violência, de sujeição e de enquadramento menos obviamente disruptoras e
mais adequadas aos métodos de dominação tradicionais na sociedade
portuguesa.
26

A violência política e social também se preferia a funcionar


«habitualmente».

Era uma espécie de gestão a dois tempos entre a violência preventiva,


«invisível» e quotidiana e a violência punitiva e mais selectiva da
repressão directa. Da sua conveniente articulação resultaram, a prazo,
maior eficácia dissuasora (ou pontualmente mobilizadora), uma conveniente
«economia do terror», ou seja, para usar a expressão de Hermínio Martins
(Nota 8) um «coeficiente óptimo de terror» sem excesso de vítimas ou de
custos, e, sobretudo, a criação de condições garantidoras da durabilidade
do regime. E esta dupla face da violência que marca a essência política e
ideológica do Estado Novo e, sobre ela, talvez valha a pena acrescentar
qualquer coisa.

5. Violência preventiva e violência punitiva

No Estado Novo português a violência tomou, portanto, dois caminhos no


seu afã de enquadrar a massa, moldar os espíritos e reprimir os
prevaricadores e resistentes à «ordem nova».

Em primeiro lugar, a violência preventiva, a forma mais constante, mais


omnipresente, mas mais «silenciosa» ou «invisível» da violência. A que
era apontada à dissuasão, à intimidação, privilegiando a contenção à
mobilização (sempre episódica e ratificatória). Nela desempenhava um
papel de fundo, no Portugal ainda essencialmente rural dos anos 30 aos
anos 50, a acção da Igreja Católica na legitimação ideológica do regime e
no controlo dos espíritos. É claro que ela era complementada por dois
tipos de órgãos do aparelho de Estado. Desde logo, os especializados no
policiamento e repressão preventivos - a Censura prévia aos órgãos de
informação e espectáculos, as escutas telefónicas e intercepções da
correspondência por parte da polícia política, a delação e os
informadores, o controlo selectivo que a polícia política exercia sobre
os candidatos à função pública, à organização corporativa e ao emprego
também em muitas empresas privadas. Mas além deles, actuavam os aparelhos
oficiais de inculcação ideológica, isto é, poderosos organismos que
tinham como missão, na família, na escola, nos locais de trabalho (fosse
do mundo urbano ou rural), nos lazeres, vigiar o quotidiano e inculcar
unívoca e autoritariamente os valores do «homem novo» salazarista e da
mulher a renascer como fada do lar e repouso do guerreiro, vinculada à
missão de o servir e à família como esteio da «nova ordem» (Nota 9).
27

Estamos a falar principalmente de dois tipos de aparelhos: por um lado, o


do Ministério da Educação Nacional, as organizações da juventude: a
Mocidade Portuguesa, MP, a MP Feminina, a Obra das Mães pela Educação
Nacional (OMEN), e toda a tentacular acção de saneamento ideológico dos
professores, dos currículos, dos livros únicos, das actividades escolares
e «circum-escolares», das famílias dos alunos, etc. Por outro lado, o
vasto aparelho da organização corporativa, ao nível das relações laborais
e das empresas, o Instituto Nacional do Trabalho e Previdência (INTP), ou
do controlo ideológico e político dos tempos livres e dos lazeres, a
Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), para as empresas e
organismos oficiais nas cidades, e a Junta Central das Casas do Povo
(JCCP), para o controlo das almas no mundo rural.

Toda esta imensa panóplia burocrática (do Estado e da organização


corporativa), com a sua acção intimidatória no dia-a-dia, com o clima de
intimidação e de abstenção cívica que alimentava («a minha política é o
trabalho»), visava instalar através duma surda socialização do medo, um
clima geral de acatação e submissão: «manda quem pode, obedece quem
deve». Como se traçassem uma linha divisória invisível, um primeiro
círculo de segurança que toda a gente que não quisesse correr sérios
riscos ou arranjar problemas graves, interiorizava não poder pisar. Era,
afinal, a fronteira do «viver habitualmente» que o salazarismo instalara
como quotidiano das pessoas comuns. E que vigiava minuciosamente,
preventivamente, para que se cumprisse sem sobressalto. A violência
preventiva era o principal esteio da segurança e da durabilidade do
regime.

Só depois agia a violência punitiva, a violência da repressão directa


contra o número sempre relativamente escasso (salvo nos períodos, também
circunscritos, de grandes mobilizações de massa) dos que ousavam desafiar
a «ordem estabelecida» e pisavam o tal risco delimitador do primeiro
círculo de segurança, militando ou apoiando as organizações clandestinas
de luta contra o regime, conspirando ou participando em actividades
revolucionárias, ou simplesmente aderindo a uma greve, assinando um
abaixo-assinado de protesto, comparecendo numa manifestação,
solidarizando-se com os presos políticos, ou frequentando iniciativas
culturais ou recreativas proibidas, tudo actividades automaticamente
passíveis de repressão policial com efeitos mais ou menos graves na
liberdade, na integridade física e na vida profissional dos
prevaricadores.
28

É neste domínio da repressão punitiva que actua o sistema da justiça


política do regime cujo centro nevrálgico era a polícia política, servida
sempre fielmente pela PSP, pela GNR, pela milícia da LP, pelos tribunais
especiais às suas ordens, pela rede de prisões políticas e campos de
concentração e por uma legislação penal e processual penal que legalizava
praticamente toda a espécie de violência e arbítrios contra os suspeitos
da prática de «crimes contra a segurança do Estado». Desde o recurso
sistemático à tortura e à prisão sem culpa formada por tempo
indeterminado, até ao cumprimento indefinido de penas de prisão, mesmo
sem sentença condenatória ou muito para além dela. De tudo isto o
presente volume dá detalhada notícia.

A violência repressiva da polícia política mostrou ser capaz de tudo o


que fosse necessário para atingir os fins do regime - incluindo o recurso
ao assassinato pela tortura nas cadeias ou por liquidação física dos
resistentes em emboscadas ou operações policiais de rua -, mas,
normalmente, procurando recorrer aos métodos extremos de assassinato em
casos restritos, pelo menos no combate às oposições em Portugal.

A tortura do sono, a «estátua», os espancamentos com vários tipos de


instrumentos de agressão, o isolamento prolongado, a chantagem e a
humilhação dos presos, a prisão arbitrária sem culpa formada nem
condenação judicial, foram os métodos constantemente usados pela polícia
política (e também nos postos da GNR e nas esquadras da PSP) a que o
regime procurará dar uma fachada de legalidade, sobretudo após a II
Guerra Mundial. O que emprestava a este «fascismo de toga» uma permanente
duplicidade entre um formalismo jurídico, por vezes quase surrealista, e
o recurso pelo Estado, a sua polícia política e os seus tribunais, a toda
a espécie de arbitrariedades.

É claro que consideração específica deve merecer a violência punitiva


contra os movimentos de libertação das ex-colónias e as populações
africanas, antes e durante a guerra colonial, tema que só agora começa a
ser abordado na bibliografia académica (Nota 10).
29

Aqui a polícia política e as suas forças para-militares especiais, em


colaboração estreita com as Forças Armadas, recorreram a formas extremas
de violência massiva contra as populações e as guerrilhas (prisões em
massa, designadamente em campos de concentração, massacres, torturas,
execuções sumárias, etc.). Dessa relação da violência colonial com o
«outro» africano, especialmente quando ele ousa pegar em armas, a partir
de 1961, não trata desenvolvidamente o presente livro. Mas é essencial
ter presente que a PIDE dos crimes de massa em África, a polícia
instrumento central da violência e das guerras coloniais, é a mesma que
actua na sociedade portuguesa, ainda que com outros métodos impostos
pelas maiores capacidades de defesa e de denúncia das oposições
portuguesas e pela improbabilidade dos benefícios para o regime da
aplicação de tais processos em Portugal fora de contextos extremos de
conflitualidade. Mas essa possibilidade de violência extrema existia,
existiam a técnica, os quadros e o precedente, bastava a oportunidade, se
ou quando ela surgisse. Afinal, essa era a natureza profunda do Estado e
da polícia política, convocáveis em caso de necessidade e quando as
relações de força o consentissem ou impusessem.

Cabe dizer que as Forças Armadas (FA), o verdadeiro esteio da segurança e


da violência legal do Estado, por isso, sempre, a última e decisiva ratio
da durabilidade do regime, apesar da sua autonomia funcional e da sua
superioridade simbólica, política e institucional face à polícia
política, nunca deixaram de lhe prestar uma activa colaboração e até de
agirem em conformidade com as prioridades de segurança do Estado que ela
definia e o governo fazia aplicar. Convém não esquecer que as FA sempre
desempenharam na História político-militar contemporânea portuguesa,
sobretudo, funções de ordem interna, de defesa do poder político das
ameaças originadas intramuros, e esse papel não foi senão reforçado com
as reformas militares de 1936/38 que, operando uma significada «limpeza»
política nos comandos (Nota 11), inauguraram um longo período de sujeição
política da hierarquia das FA ao Estado Novo.

Nestes termos, quando se coloca a questão de conhecer os factores da


longa duração do regime, do seu «saber durar», é talvez demasiado
simplista responder simplesmente com a polícia política, apesar do seu
papel fulcral.
30

O regime durou porque conseguiu, no essencial, subordinar duradouramente


os comandos das Forças Armadas; porque agiu, desde as suas origens, sobre
a perpetuação dos factores económico-sociais de estabilidade e até de
estagnação, mesmo com o preço da travagem política do desenvolvimento
económico; porque satisfazia geralmente o conjunto das classes
dominantes, o seu verdadeiro núcleo social de suporte; porque neutralizou
com sucesso e enquanto pôde os sectores sociais intermédios, e porque foi
eficaz, precisamente, na combinação dos dois tipos de violência de que
falamos - a violência preventiva e a violência punitiva - na contenção,
desmobilização e repressão da larga maioria dos trabalhadores
assalariados e das resistências sociais e políticas mais activas. A
História do Estado Novo, como a de todos os regimes da época dos
fascismos, é a história da eficácia dessa combinatória entre velhas e
novas formas de violência potencialmente discricionária. A da
intimidação, a da formatação dos espíritos, a da ignorância, a do temor
reverencial, e a da brutalidade crua da repressão contra a ousadia de se
pôr de pé. No fundo o salazarismo operou, em consonância com as ditaduras
de novo tipo da sua época, uma espécie de «modernização» das formas
antigas de opressão vindas do Portugal antigo e rural, cuja eficácia só a
industrialização, a urbanização e a emigração, a partir das «mudanças
invisíveis» dos finais dos anos 50 e principalmente dos anos 60 viriam a
pôr em causa, e com isso, a própria capacidade de sobrevivência do
regime.

Quando se perdeu o controlo das almas, não havia violência repressiva que
fizesse durar um regime esgotado, isolado, e progressivamente sem força
sequer para tornar eficaz a sua própria força.

Lisboa, 13 de Novembro de 2006

Fernando Rosas
INTRODUÇÃO

Reúnem-se aqui narrativas históricas de violência e de resistência.


Olham-se os aparelhos repressivos do Estado Novo, o seu funcionamento, a
sua acção, mas sem nunca perder de vista os destinatários directos,
imediatos - gerações de homens e mulheres que mentiram a violência do
regime, sofrendo-a, mas também enfrentando-a, a seu modo e como puderam,
tantas vezes de forma corajosa e até heróica, com custos de toda a sorte
na própria vida e com a própria vida. São vítimas de Salazar neste
preciso sentido.

Não se espere encontrar aqui um estudo sobre a violência no Estado Novo,


que tem vindo a ser parcelarmente realizado, que é globalmente
indispensável, mas não é este o seu lugar de desenvolvimento. Trata--se,
sim, de um conjunto de episódios e de situações que reflectiram, de modo
expressivo, frequentemente intenso, essa violência. São casos que
ressaltam da investigação que cada um de nós, que os escrevemos, temos
vindo a desenvolver nos últimos anos no âmbito do Instituto de História
Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa.

Porém as vítimas da violência do Estado Novo têm nome. Não os omitimos.


Tiveram e alguns têm ainda, existência real, família, amigos; que mantêm
ou de que ficaram memórias, interpretações, opções de vida e valores
sobre os quais, como sobre as querelas e disputas pela hegemonia que
travaram entre si, não temos que aferir no sentido estrito.
32

Não que lhes sejamos indiferentes, mas porque aquilo que fundamentalmente
nos preocupou foram os múltiplos modos e formas de actuação que se
tornaram caudais da resistência a um regime autoritário, repressivo e que
nunca desmereceu a sua familiaridade genética à família dos fascismos que
medraram entre guerras e que por cá se arrastou, sobrevivendo a
diferentes conjunturas e ambiências internacionais.

Trouxemos aqui o papel do exército, das forças policiais e dos assomos


milicianos do regime; a vigilância com as escutas telefónicas e as várias
redes de informadores; os procedimentos preventivos já na orla da
repressão directa - a censura, os saneamentos, a manipulação e fraude
eleitorais; mas também a violência da tortura e das prisões -as colónias
penais e campos de concentração, a deportação e o exílio; a iniquidade
dos julgamentos políticos; as investidas desabridas, cegas, sobre
populações famintas ou em protesto, as cargas policiais e as mortes, a
ocupação e militarização de aldeias e vilas inteiras, os assassinatos,
premeditados ou não.

Encontrar-se-ão sempre aspectos em falta, domínios por abordar, situações


e personagens que não referimos. Assumimo-lo nesta perspectiva de
trabalho, que foi a nossa. Mas, do mesmo modo, assumimos não ser imunes
ao tema e à forma como o tratamos - tomamos partido, o que está longe de
significar termos sobreposto esse modo de olhar e de avaliar ao resultado
da investigação que fazemos.

Mantivemos acontecimentos e personagens quase míticos da resistência à


ditadura, mas procurámos evitar a representação que, sobre eles, se foi
construindo e reproduzindo, tantas vezes segundo lógicas determinadas de
apropriação e interpretação.

Alguns parecem hoje querer omitir ou atenuar muitos destes aspectos,


reafeiçoando interpretações à sua volta, num processo feito aparentemente
de esquecimento, de ajuste de contas ou de reelaboração do passado como
se quisessem que tivesse sido outra coisa do que efectivamente foi.

Sobretudo quisemos que história e memória se enovelassem na dimensão


cívica que nos esteve sempre presente, evocando acontecimentos e
procedimentos tão próximos de nós, mas tão esquecidos ou desvalorizados.

Vila Nova de Santo André, Novembro de 2006

João Madeira
CAPÍTULO 1

A CENSURA

«O que parece, é»

Ao erguer, a partir de 1932, o Estado Novo corporativo, autoritário e


nacionalista, António de Oliveira Salazar declarou que estava feita a
«revolução legal», mas que faltava realizar a «revolução mental». Para a
realizar, foi lançada a chamada «Política do Espírito», com um mesmo
objectivo e uma dupla finalidade: a propaganda do regime, a cargo do
Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), dirigido por António Ferro, e
a Censura, dirigida inicialmente por Álvaro Salvação Barreto.

Através do SPN, o regime ditatorial pretendia, por um lado, dar aos


portugueses uma única e determinada imagem de um país e de um regime,
pretensamente sem conflitos, problemas, miséria e dificuldades, segundo a
norma de «o que parece, é», tão do agrado de Salazar. Por seu turno, o
aparelho censório servia, por outro lado, um propósito de despolitização
e desmobilização cívica dos portugueses, ao tentar impedir a tomada de
conhecimentos de alternativas sociais, culturais, políticas e ideológicas
ao Estado Novo. Os dois serviços - de propaganda e de censura -
estiveram, aliás, relacionados desde o início, e não por acaso, em 1944,
os dois foram reunidos, no Secretariado Nacional de Informação (SNI),
sucessor do SPN.

A atenção e vigilância da Censura salazarista exerceram-se não só sobre


as questões políticas, sendo que a própria palavra «política» era ela
mesma anatemizada, mas também sobre muitas outras, relacionadas com a
vida privada, social e moral.
34

Procurando dar a entender que não existiam, nem tinham cabimento em


Portugal, vários temas estavam impedidos de ser referidos nos jornais e
noutros meios de comunicação.

Quando o movimento estudantil começou a erguer-se contra o regime foi,


por exemplo, proibida na imprensa a inclusão de palavras como
«juventude», «estudante» e o próprio «movimento estudantil». Num país
onde se pretendia não existir a luta de classes, os jornais também não
deviam usar os termos escritos «proletário» e «sindicalista». As
associações, onde as pessoas se podiam encontrar e unir em torno de um
objectivo também não constavam na imprensa: era o caso, por exemplo, dos
«cineclubes» ou dos grupos «campistas». «Picasso» ou o nome da película,
Dolce Vita, que, ao passar no cinema, foi referida como o «último filme
de Fellini», foram outros tantos nomes interditos de circular (Nota 1),
não fossem os portugueses gostar desse pintor ou desse realizador. A
Censura também proibiu a menção a assuntos como o «suicídio», «aborto»,
«loucura», «burlas» ou «desfalques» em bancos, «bairros da lata»,
«aumento de preços», «emigração» ou «presidente da Câmara em tribunal».

Um autor de um estudo sobre a Censura no tempo de Salazar e Caetano,


chamou a esse aparelho o «preservativo do "velho regime"» (Nota 2), na
medida em que contribuiu para fazer de Portugal um país de ficção. Não só
não havia Censura, nem «Exame prévio», em Portugal, como não existiam:
«Presos políticos. Nem suicídios. Nem barracas. Nem cólera. Nem aumentos
de preços. Nem abortos. Nem guerra. Nem hippies. Nem greves. Nem droga.
Nem gripes. Nem homossexuais. Nem crises. Nem massacres. Nem nudismo. Nem
inundações. Nem febre amarela. Nem imperialismo. Nem fome. Nem violações.
Nem poluição. Nem descarrilamentos. Nem tifo. Nem Partido Comunista. Nem
fraudes. Nem poisos extra-conjugais. Nem racismo».

Quanto aos «governantes (impávidos, serenos, luminosos) não viajavam, não


adoeciam, não sofriam acidentes de viação, não comiam, não improvisavam
e, quando eram exonerados, faziam-no sempre «a seu pedido». Nada escapava
à censura, «desde Prémios Nobel a algas, desde bailes a missas, desde
gasolina a leite, desde emigrantes a pugilistas, desde o Pravda ao New
York Times, desde as orgias embuçadas aos «aliados e amigos» (Nota 3).
35

A Censura em Portugal modificou a própria verdade dos factos, dado que a


imprensa só contava o que lhe era permitido relatar. Por exemplo, quando
já se vivia em regime democrático, os meios de comunicação social
referiram-se a um acidente com um avião da TAP no Funchal, ocorrido em 19
de Novembro de 1977, como o primeiro acidente da transportadora aérea
civil portuguesa. Ora, esta companhia já tinha sofrido anteriormente, em
15 de Maio de 1973, um desastre em Moçambique, mas a Censura proibira
qualquer menção ao facto na imprensa (Nota 4).

Da Censura militar à censura civil

A Censura não surgiu repentinamente, em Portugal, nem foi uma criação do


Estado Novo. Efectivamente, tal como o fez relativamente a outras
instituições, nomeadamente as policiais, o novo regime, erguido por
Salazar, a partir de 1932/33, recorreu a mecanismos censores da I
República e, sobretudo, aos da Ditadura Militar, civilizando-os e
aumentando a sua eficácia.

Os dois diplomas que estabeleceram, na sequência do golpe militar de 28


de Maio de 1926, as bases da censura (Nota 5), proibiram, sob pena de
prisão e multa, a publicidade ou venda de quaisquer publicações com
«ultraje às instituições republicanas ou injúria, difamação ou ameaça
contra o presidente da República, no exercício das suas funções ou fora
dele». Além disso, caía também sob a alçada da Censura tudo o que
instigasse os cidadãos portugueses ao «cometimento de actos atentatórios
da integridade e independência da Pátria, ou prejuízo do Estado» e todo o
«boato ou informação ofensiva da dignidade ou do decoro nacional» (Nota
6). Finalmente, eram ainda proibidas «quaisquer publicações pornográficas
ou redigidas em linguagem despejada ou provocadora contra a segurança do
Estado, da ordem e da tranquilidade públicas» (Nota 7). Nessa legislação
de 1926, ficava, porém, previsto um procedimento judicial, que estava
longe da sua posterior submissão a tribunais especiais, militares ou
plenários. Por outro lado, o infractor não recebia voz de prisão,
bastando-lhe a assinatura do termo de identidade, para aguardar em
liberdade o julgamento.
36

No ano seguinte, um diploma sujeitou, porém, a processo sumário e


julgamento os que propagassem «boatos tendenciosos», bem como os que
distribuíssem ou conservassem «em seu poder quaisquer impressos ou
notícias tendenciosas ou de propaganda subversiva» (Nota 8). Embora
reconhecesse, através de outro diploma, também de 1927, a licitude de
«qualquer trabalho literário ou artístico seu, independentemente de
censura prévia», a Ditadura Militar estabeleceu, porém, uma cláusula de
excepção, através da frase: «salvo nos casos exceptuados em disposição
legal expressa, por motivos de ordem pública ou por efeito de convenções
internacionais» (Nota 9).

No ano de 1928, em que António de Oliveira Salazar foi nomeado ministro


das Finanças, foram erguidas a burocracia dos serviços de censura (Nota
10) e a Direcção-Geral dos Serviços da Censura à Imprensa (DGSCI),
ficando esta sob a direcção de um elemento das Forças Armadas, o major
Álvaro Salvação Barreto. Os serviços de censura foram depois sendo
aperfeiçoados, entre 1930 e 1932, período marcado pela instabilidade
político-militar resultante quer das conspirações militares contra a
ditadura quer das dissensões que se manifestaram no seio do bloco
político-militar apoiante do regime saído do movimento de 28 de Maio.

Por exemplo, alguns dias após a revolta de 26 de Agosto de 1931, que


pretendeu derrubar a ditadura militar, Salvação Barreto emitiu uma nota
oficiosa, instando os seus serviços de Censura a fazerem notar, às
publicações controladas, que deviam de «forma insofismável» e com
frequência marcar a sua defesa da «ordem e disciplina contra a loucura e
a violência» (Nota 11).

Fiscalizar os jornais como os alimentos!

Numa entrevista dada a António Ferro, em 1932, ao assumir a presidência


do Conselho de Ministros, Salazar disse ao seu interlocutor que
compreendia a irritação provocada pela existência de Censura, dado que
não havia «nada que o homem considere mais sagrado do que o seu
p9ensamento e do que a expressão do seu pensamento». Salazar contou que
ele próprio já havia sido «vítima da censura», confessando que chegara
mesmo, por isso, «a ter pensamentos revolucionários».
37

Hipocritamente, afirmou que o aparelho de Censura era «uma instituição


defeituosa, injusta, por vezes, sujeita ao livre arbítrio dos censores,
às variantes do seu temperamento, às consequências do seu mau humor».

No entanto, à pergunta de Ferro, por que não revogava então a Censura,


esclareceu que não o faria, pois não considerava «legítimo, por exemplo,
que se deturpassem os factos, por ignorância ou por má fé, para
fundamentar ataques injustificados à obra dum governo, com prejuízo para
os interesses do país». Nesses casos justificava-se a censura, «como
elemento de elucidação, como correctivo necessário». Observando que a
imprensa outrora existente em Portugal dava «a triste imagem dum saguão:
intrigas, insultos, insinuações, pessoalismos, provincianismos, baixa
intelectualidade», Salazar disse que o objectivo de um jornal era ser «o
alimento espiritual do povo» e, por isso, devia «ser fiscalizado como
todos os alimentos».

Para evitar, porém, «o mais possível», o «trabalho da censura», o novo


presidente do Conselho afirmou estar a pensar criar «um bureau de
informações a que os jornais» poderiam recorrer, «para se munirem de
elementos necessários à análise, e até à crítica, da obra do governo». A
criação de tal gabinete não acabaria, no entanto, com a Censura, dado
que, segundo Salazar, esta também tinha um «aspecto moralizador», ao
intervir necessariamente nos «ataques pessoais e nos desmandos de
linguagem». Além desse aspecto «moralizador», a Censura também era
chamada a intervir «no aspecto doutrinário», pois ela acabava por ser a
«função natural dum regime de autoridade», ao ter que actuar contra a
doutrina subversiva. A sugestão de Ferro de que isso poderia ser
resolvido com uma Lei de Imprensa, Salazar chamou a atenção para o facto
de os tribunais não darem «um rendimento necessário em delitos dessa
natureza» (Nota 12). O certo é que, pouco tempo depois de assumir o seu
novo cargo, Salazar emitiu, em 23 de Dezembro de 1932, uma circular, a
determinar a reorganização geral dos Serviços de Censura.

Noutra ocasião, ainda em conversa com António Ferro, Salazar repetiu a


afirmação de que a Censura constituía «a legítima defesa dos Estados
livres, independentes, contra a grande desorientação do pensamento
moderno, a revolução internacional da desordem». Para lutar contra o
«imperialismo ideológico do comunismo internacional» e «impedir a invasão
das ideias marxistas, a propagação de mentiras e o malefício da calúnia»,
a Censura era, para Salazar, uma «arma legítima» de um governo
autoritário.
38

«Em todo o caso - assinalava ainda o presidente do Conselho - o «regime


português» era «o mais brando e tolerante de todos os regimes
autoritários» então existentes (Nota 13).

Salazar estava consciente da inevitabilidade da formação de uma opinião


pública, tão numerosos eram, segundo ele, «os meios de comunicação», mas
considerava que ela devia ser «dirigida» pelo governo. À ousada pergunta
de Ferro, questionando Salazar se, no final de contas, a opinião pública
era a opinião do governo, este respondeu peremptoriamente pela negativa,
lembrando que, sem «uma opinião pública superior», não se poderia ter,
segundo ele, equilibrado o orçamento, porque os sacrifícios exigidos eram
grandes. Os governos - esclareceu - «nunca se deveriam escravizar à
opinião das massas, sempre inferior e muito diferente da opinião pública
da Nação». Ou seja, para Salazar, a opinião pública era indispensável ao
governo, mas este nunca deveria perder «o controlo da sua formação».

A Censura do Estado Novo, nos anos 30 e 40

Este desiderato foi sublinhado na nova Constituição Política, aprovada


pelo Plebiscito Nacional de 19 de Março de 1933, que instituiu o Estado
Novo. Ao mesmo tempo que garantia, no papel, a liberdade de expressão
(art.° 8), o texto constitucional adiantava que «leis especiais»
regulariam «o exercício da liberdade de expressão do pensamento», de modo
a «impedir preventiva ou repressivamente a perversão da opinião pública
na sua função de força social, e salvaguardar a integridade moral dos
cidadãos».

Pouco depois da aprovação da Constituição, outro diploma (Nota 14)


determinou, em Abril, a passagem da Censura, da tutela do Ministério da
Guerra, para a do Ministério do Interior, revelando-se assim, por parte
do governo, um propósito de civilizar esses serviços. Ainda segundo esse
diploma, todas as publicações, folhas volantes, continuavam a ser
sujeitas à censura prévia, sempre que incluíssem «assuntos de carácter
político ou social».
39

Por exemplo, o opúsculo A Maçonaria foi proibido pela Censura, em 1935,


por ter sido considerado como «propaganda Maçónica».

Diga-se, porém, que esse diploma de Abril de 1933 ainda deixava algum
espaço de liberdade aos editores e livreiros, possibilitando-lhes escapar
aos censores, desde que não deixassem transparecer claramente o «carácter
político e social» dos seus livros ou que não se tratasse de uma obra de
«propaganda política e social contrária ao Estado Novo». Por isso, a
Direcção-Geral dos Serviços de Censura (DGSC), criada em Junho de 1933
(Nota 15), intervinha frequentemente, a posteriori, a partir de
denúncias, ou em consequência da própria acção da secção de vigilância
política e social da Polícia Internacional (ou da sua herdeira, a PVDE).

Além disso, a Censura contava com a própria colaboração dos proprietários


de tipografias, livrarias ou de outros postos de venda de livros, que,
dessa forma, procuravam evitar multas, apreensões de livros ou o
encerramento dos seus estabelecimentos. Esta vontade de «repartir com os
próprios livreiros o encargo da repressão», como o faziam já «as
principais livrarias», ficou aliás expressa num relatório de 23 de
Novembro de 1933, feito a pedido do próprio Salazar, pelo chefe da
Censura, Salvação Barreto (Nota 16).

No final de 1933, o edifício do Estado Novo ficou quase concluído, com a


supressão da liberdade de reunião e a criação do SPN, bem como da polícia
política - a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) (Nota 17).
Os anos de 1934 e 1935 foram, pois, de repressão dos principais
adversários do regime, tanto à direita - extinção do Movimento Nacional-
Sindicalista - como, e principalmente, à esquerda, com a repressão e o
desmantelamento das organizações anarco-sindicalistas e comunistas. Num
discurso, proferido no teatro S. Carlos em Lisboa, em 28 de Janeiro de
1934, perante uma plateia de estudantes nacionalistas, que haviam acabado
do formar a Associação Escolar Vanguarda, Salazar voltou a afirmar que,
embora não sentisse «nenhuma simpatia pela censura» (Nota 18), esta era
um mal necessário.

Chegou o ano de 1936, com um claro endurecimento e mesmo de «fascização»


do regime, muito em consequência da vitória da Frente Popular e, depois,
da eclosão da guerra civil, na vizinha Espanha.
40

Em 21 de Setembro, a DGSC emitiu uma circular, assinada por Salvação


Barreto, apelando às suas comissões e delegações, para actuarem contra
todas as «equívocas demonstrações» da «acção comunizante» dos jornais,
«com o rigor indispensável ao seu completo aniquilamento». A circular
especificava, depois, os assuntos cuja publicação deveria ser proibida,
entre os quais se contavam «quaisquer disposições de serviço interno a
bordo dos navios de guerra» ou «protestos ou críticas» ao decreto recém-
emitido sobre salários mínimos ou ao custo de vida. Foram então cortadas,
por exemplo, notícias acerca de «exonerações de comandantes e imediatos
de navios de guerra» e da chegada ao Tejo de um navio italiano com
material de aviação.

Em Novembro de 1936, os serviços de Censura foram remodelados, através de


um Regulamento, que proibia, em todas as publicações, «ofensas aos Chefes
de Estado e Governo de nações amigas e seus representantes em Portugal»,
além de toda a «matéria que pudesse prejudicar as relações diplomáticas
com países estrangeiros». Por outro lado, o impedimento de toda a
«pormenorização de suicídios e de crimes, bem como de infanticídios,
quando não seguidos de prisão dos delinquentes ou da respectiva punição
aplicada pelos tribunais» (Nota 19).

Ordenava-se ainda uma maior vigilância sobre todas as notícias


relacionadas com movimentações de carácter militar, quer em Portugal e
nas colónias quer a nível europeu. Outras circulares da Censura
especificaram, posteriormente, os assuntos que não podiam ser publicados:
por exemplo, em 21 de Dezembro, uma nota impediu a publicação de
«qualquer notícia relativa à partida da Alemanha, viagem e chegada dos
novos aviões militares, sem que superiormente a Direcção o
autoriz(ass)e».

Após os anos de guerra civil no país vizinho (1936/39), o período da II


Guerra Mundial (1939/45) foi também muito rigoroso em termos da
intervenção da Censura, que respondeu, aliás, à preocupação manifestada
por Salazar relativa ao que considerou «inconcebível liberdade de
imprensa em política externa» (Nota 20). Pouco depois do início do
conflito mundial, o governo impôs uma estrita fiscalização estatal dos
emissores de amadores e de radiodifusão (Nota 21). Ainda, devido às
«circunstâncias excepcionais que a Europa» atravessava, determinou a
tomada de providências «no sentido de intensificar e estender a toda a
área da metrópole o serviço de escuta e fiscalização do funcionamento das
instalações radioeléctricas».
41

No âmbito do seu «serviço de guerra», a Censura tornou-se ainda mais


rigorosa relativamente à imprensa e às agências noticiosas estrangeiras.
Entre 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1939, foram, por exemplo,
cortadas: uma notícia a dar conta que Hitler estava a encarar uma acção
contra a Bélgica, transcrições de jornais franceses e ingleses com
(expressões injuriosas para Hitler e o governo alemão», bem como todas as
noticias vindas de Londres com revelações sobre as ambições de Hitler ou
de Estaline. Outras informações aparentemente anódinas como o
estabelecimento «de uma linha aérea entre Bordéus e Lisboa» ou um pedido
«para instalação de um campo de aviação próximo da Marinha Grande»,
também não escaparam ao lápis azul dos censores.

Estes fizeram também sentir a sua mão pesada sobre as notícias acerca da
presença de refugiados judeus e políticos em Portugal. Cortaram mesmo a
simples menção «refugiado», substituindo-a por estrangeiro, ou quando
muito «refugiado de guerra». Por exemplo, um extenso artigo, que deveria
ter surgido, em 23 de Junho de 1940, no jornal O Século, intitulado
«Refugiados de todas as nacionalidades aguardam em Vilar Formoso
autorização para seguirem para vários pontos do país», foi pura e
simplesmente cortado na íntegra (Nota 22). Se Portugal permaneceu neutro,
durante a II Guerra Mundial, o espaço público não ficou imune às notícias
da guerra. Para um maior controlo da imprensa, foi criado, em 19 de Março
de 1940, no âmbito da presidência do Conselho, um Gabinete Coordenador
dos Serviços de Propaganda e Informações (Nota 23), que tornou
nomeadamente obrigatória a remessa, ao SPN, de um exemplar de todas as
publicações periódicas editadas.

Diga-se, porém, que, contrariamente ao que se possa pensar, a inicial


propensão para privilegiar a publicação dos despachos das agências
noticiosas do Eixo, nos jornais portugueses, foi-se atenuando com o
tempo. O refugiado checo Eugen Tilinger, que passou por Portugal em Junho
de 1940, contou que, à época da invasão de França, a imprensa portuguesa
era germanófila, mas que, depois de Setembro de 1940, os jornais passaram
a publicar «75% de notícias britânicas e 25% de mentiras alemãs». Também
uma inglesa, que vivia então em Portugal, relatou, numa carta enviada à
família, no Reino Unido, que os jornais estavam a ficar cada vez mais
pró-aliados (Nota 24).
42

O próprio chefe da Censura, Salvação Barreto, considerou que eram


aliadófilos os jornais O Século, Diário de Lisboa, República, O Primeiro
de Janeiro e O Comércio do Porto, enquanto o Diário Popular e o Diário de
Notícias passaram a sê-lo, no decurso da guerra. Essa situação motivou
protestos quase diários, do ministro alemão em Lisboa, junto de Salazar,
que também era então ministro dos Negócios Estrangeiros. Num relatório,
de Setembro de 1940, enviado a Salazar, em resposta a novos protestos da
Legação alemã em Lisboa, Salvação Barreto afirmou, porém, que os
telegramas da Deutsche Nachrichten Bund (DNB) e da Radio Roma excediam
(em mais 314) os telegramas da agência noticiosa britânica, Exchange
Telegraph, publicados pelos jornais, a nível nacional (Nota 25).

Junto da Legação da Alemanha, o responsável pela Censura esclareceu que,


embora em Portugal não coubesse ao Estado «absorver» a imprensa, os seus
serviços tinham conseguido contrariar a «tendência» de dar mais relevo ao
esforço inglês na imprensa (Nota 26). Ao falar, no ano seguinte, acerca
do que considerava ser a «única função» da imprensa, o mesmo Salvação
Barreto afirmou que lhe cabia exclusivamente «afervorar os povos no amor
da Pátria e o Exército no exacto e rigoroso cumprimento dever que lhe é
indicado pelos chefes em harmonia com as resoluções governamentais». E
isso, mesmo «com prejuízo de quaisquer interpretações de particulares»
que visassem os interesses nacionais (Nota 27).

Em colaboração com a Censura, a PVDE começou, nesse ano, a tomar medidas


repressivas, sobretudo relativamente à escuta de emissões de rádio
aliadas, mas nunca conseguiu evitar as manifestações populares, que só se
tornaram mais subtis e indirectas. Em Abril desse ano, a Legação italiana
em Lisboa denunciou um agente da Philips, em Olhão, Algarve, que, através
da instalação, na rua, de um rádio, ligado nas horas de emissão da BBC,
provocava manifestações públicas contra o Eixo.

Locais privilegiados de difusão de propaganda foram também as salas de


cinema, onde a projecção de documentários sobre a guerra provocava
reacções entre os espectadores, que, perante a omnipresença da PVDE,
arranjavam meios subtis de expressão. O refugiado político Karl Retzlaw,
que chegou a Portugal no Verão de 1940, relatou uma ida ao cinema, em
Lisboa, contando que, à entrada e dentro da sala, estavam polícias,
prontos a intervir, caso surgissem manifestações do público.
43

Numa ocasião, quando Hitler apareceu no écran, o público começou a


arrastar os pés, quando surgiu Mussolini, os espectadores tossiram, e
quando apareceram os monarcas ingleses, gritaram em uníssono: «Viva o
Benfica!», identificando o popular clube de futebol com a Inglaterra
(Nota 28).

Ainda no âmbito do já referido Gabinete de Coordenação dos Serviços de


Propaganda e Informações, a DGSC elaborou, em Agosto de 1942, um estudo
sobre a defesa «da opinião portuguesa contra a propaganda estrangeira»,
onde foram analisados documentários passados no cinema, exposições de
fotografias e a actuação das agências noticiosas e dos serviços de
propaganda estrangeiros (Nota 29). Aquele Gabinete propôs, nomeadamente,
que aquela Direcção-Geral de Censura fosse autorizada, como já o fazia a
PVDE, a requisitar, aos CTT, a correspondência, de modo a tornar «mais
eficiente a organização das secções encarregadas de vigiar o trânsito das
publicações proibidas ou suspeitas» (Nota 30).

Em 1943, o governo tentou alargar a Censura também às publicações não


periódicas, mas não teve grande sucesso. Em 28 de Maio desse ano, foi
proibida a publicação, na imprensa, de entrevistas e comunicados acerca
dos elementos das forças destacadas e aquarteladas nos Arquipélagos dos
Açores e da Madeira, que, a partir de Novembro, passaram a depender da
prévia autorização do Serviço de Censura Militar. Quanto à Censura civil,
que funcionava, como se viu, no âmbito do Ministério do Interior, passou
para a dependência directa de Salazar, nomeadamente a partir da sua
integração no Secretariado Nacional de Informação e Cultura Popular
(SNI), que sucedeu ao SPN, em 1944.

Marchas, danças e canções apreendidas pela PIDE

A 3 de Maio de 1945, quando se avolumavam as notícias de que o fim da


guerra estava iminente, Fernando Lopes Graça, compositor e ensaísta,
escreve de Lisboa ao seu amigo e camarada, João José Cochofel, poeta e
também compositor, a morar em Coimbra. É uma carta exaltante, reveladora
do entusiasmo que crescia nos meios antifascistas em Portugal:
44

«Isto é que vai uma Primavera, hein! Mussolini executado como qualquer
reles bandoleiro, Hitler e a sua camarilha liquidada, Berlim nas mãos dos
russos, o fim da guerra à vista, as esquerdas triunfantes em França - não
se pode exigir muito mais dos Deuses e parece-me que eles não vão deixar
de gozar um Verão tranquilo, sem os sobressaltos, as interrogações com
que nos envenenaram a vida há perto de seis anos. Há certamente muita
coisa ainda na sombra - mas isto é já o começo do Grande Dia, por que
todos suspiramos há tanto tempo.»

Tudo se parecia encaminhar para ser efectivamente assim. O Verão de Lopes


Graça e de João Cochofel seria passado na tranquilidade da casa de campo
deste - a Casa do Pinhal -, no Senhor da Serra; porém o entusiasmo e a
vertigem desses tempos lançara-os num labor e num afã empolgantes. Graça
tivera a ideia de criar um cancioneiro revolucionário. Tratava-se de
reunir poesias de vários escritores, que Graça musicaria. Poesias que
enchessem os peitos de entusiasmo, que ajudassem a despertar
consciências, que transpirassem luta, combatividade, estabelecessem uma
comunhão entre os muitos que se queria que as cantassem.

Era uma iniciativa inédita no país. Embalados pelos ventos que sopravam
da Europa e do mundo, queriam rasgar janelas para que esses ventos
entrassem e se instalassem no país, que vinha sendo consumido pela
ditadura, sem liberdades.

Em meados de Agosto já haviam chegado ao Senhor da Serra os poemas de


Carlos de Oliveira e de José Gomes Ferreira, juntando-se aos de Cochofel.
Cada um contribuiria com duas composições. Arquimedes da Silva Santos e
Joaquim Namorado já haviam sido convidados e Lopes Graça iria fazer o
mesmo a outros de Lisboa - Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, Edmundo
Bettencourt, a que se juntaria José Ferreira Monte, que em Coimbra
secretariava a revista Vértice. Em carta a Joaquim Namorado, Cochofel
explicava o modelo que queriam adoptar: «Os versos devem ser muito
simples e directos, e sobretudo com um acentuado carácter revolucionário.
A música é também muito simples, fácil de decorar e de cantar. O
cancioneiro destina-se a suprir, de algum modo, a presente ausência, em
Portugal, de canções revolucionárias.»
45

Ao longo de Agosto e Setembro foram chegando à Casa do Pinhal a Canção do


Camponês, de Arquimedes, Mãe Pobre, de Carlos de Oliveira, Combate e
Canção de Maio, de Namorado, Clamor e Canção da Ceifa, de Ferreira Monte,
Trovas da Prisão e Hino ao Homem, enviadas por Armindo Rodrigues,
Jornada, de José Gomes ou o Canto da Esperança, de Mário Dionísio, e
Graça, quase de jorro, ia musicando-as todas.

Em meados de Setembro de 1945, o Cancioneiro estava concluído. Chamar-se-


ia Marchas, Danças e Canções. Era um primeiro repositório de danças e
canções que queriam devolver ao povo, para que as cantasse e dançasse. À
chamada tinha respondido a primeira linha dos poetas da sua geração que,
em boa medida com ele, haviam dado corpo à corrente neo-realista, uma
arte social, empenhada, comprometida, que tomava partido e que apesar das
peias da censura e da repressão trazia, nas condições concretas do país,
as premissas, a matriz conceptual do realismo socialista.

Fernando Lopes Graça, ainda no Senhor da Serra, redigiria o texto


introdutório, começando assim:

«Uma poesia de fundo popular e de projecção colectiva só se justifica e


atinge a sua verdadeira finalidade quando utilizada por aqueles a quem se
dirige. O livro, o folheto, a recitação são para isso meios insuficientes
ou, quando menos, dotados de eficiência relativa. Só mediante o veículo
da música, através do canto, ela pode viver verdadeiramente e agir a
fundo sobre a sensibilidade, estimulando à acção.»

A Empresa de Publicidade Seara Nova, proprietária da revista do mesmo


nome, dispunha-se a editar o cancioneiro que só sairia da gráfica em
Agosto de 1946. Nesta altura, já Salazar recuperara da primeira grande
crise do regime, aberta com a derrota do eixo nazi-fascista na guerra e
preparava-se para o contra-ataque.

Marchas, Danças e Canções tiveram escassos meses de circulação livre. No


início de Novembro de 1946 a Direcção de Serviços de Censura abre um
processo contra a edição do cancioneiro, que na realidade se inicia no
mês anterior com um ofício da PIDE ao Director de Serviços de Censura de
29 de Outubro, perguntando se está autorizada a circulação da publicação,
chamando a atenção em particular para dois poemas.
46

Bem sabia a PIDE que não. Um destes poemas era Canção Alegre, de Edmundo
Bettencourt, que escrevia: «Danço esta dança sem temor,/ que eu quero ter
a liberdade/ de abraçar o meu amor;/ que eu hei-de ter a liberdade/ de
ganhar para viver/ e não dançar/ e não dançar para esquecer.» O outro
poema sob a mira da polícia era a Canção do Camponês, de Arquimedes da
Silva Santos -«Adeus trigo, ai adeus trigo/ depois de ceifado, adeus/
amanho-te e não mastigo/, ai nem eu nem os meus» e, mais adiante, «Ai
campos como os meus olhos,/ rasos de água tanta vez./ foram-se as espigas
nos molhos/ vem fome para o camponês.»

A 1 de Novembro é requerido ao Gerente da Empresa de Publicidade Seara


Nova um exemplar da publicação e a 4 desse mês a Direcção de Serviços da
Censura responde à PIDE reconhecendo que Marchas, Danças e Canções não
fora objecto de qualquer apreciação prévia e solicita a sua apreensão.

Nesse mesmo dia, é o secretário-inspector da Mocidade Portuguesa que


envia um exemplar da publicação, porque entendia conter «matéria
censurável». Mas a decisão já estava tomada e o seu processo de aplicação
em marcha, ainda que formalmente fosse insinuado junto do editor que a
apreciação prosseguia.

Câmara Reys, o gerente da Empresa de Publicidade Seara Nova, confirmava


que as duas composições em causa não haviam ido à Censura, mas que
outras, como Jornada e Mãe Pobre, tinha inclusivamente sofrido cortes,
tendo sido aliás, por isso mesmo, publicadas na revista Seara Nova.
Estranha aliás que lhe seja pedido um exemplar, supostamente para
análise, no mesmo dia em que a PIDE investe com a apreensão de todos os
exemplares que pôde, num total de 978.

Fernando Lopes Graça, que entretanto apresentara parte do cancioneiro ao


vivo nas iniciativas que iam sendo realizadas por colectividades e
associações populares de cultura e recreio, fora chamado a prestar
declarações à PIDE. Prevendo o que se podia passar, não levou
deliberadamente consigo as letras e músicas e quando solicitado a
pronunciar-se sobre o seu conteúdo, dizendo que se esquecera, cumpriu o
que pensara ao ser intimado - «Hei-de cantar-lhas nas ventas». Mesmo
assim foram-lhe feitos alguns reparos, mas não lhe colocaram reparos
quanto à sua apresentação em público.
47

Também isto era invocado por Câmara Reys para que a proibição e apreensão
fossem reconsideradas, assim como os prejuízos financeiros que a situação
estava a provocar à empresa. Para mais, entendia que a edição de Marchas,
Danças e Canções não era abrangida pela legislação que determinava a
sujeição prévia à censura, tanto pelo tipo de publicação como pelo
conteúdo que, do seu ponto de vista, não era «política e social».

Formalmente, a Direcção de Serviços de Censura não dava grandes


aberturas, limitando-se a transcrever a legislação em vigor - «Continuam
sujeitos a censura prévia as publicações periódicas definidas na lei de
imprensa, e bem assim as folhas volantes, folhetos, cartazes e outras
publicações, sempre que em qualquer delas se versem assuntos de carácter
político ou social», como determinava o artigo 2.° do Decreto 24469, de
11 de Abril de 1933.

Mas tomada já a decisão, o assunto seria objecto de Despacho directo de


Salazar, de 18 de Novembro, sentenciando que «a apreensão está plenamente
justificada, interessa que seja séria e que além disso sejam chamados à
responsabilidade os autores». Uma informação do mês seguinte dos Serviços
ide Contencioso da Censura sistematizava toda a argumentação compilada
que justificara a decisão. Na sua posse o subdirector da Direcção de
Serviços de Censura informa a PIDE:

A edição constituía «uma nova modalidade de propaganda subversiva. (...)


Em cada estrofe dos seus poemas, há uma nítida provocação à revolta das
classes trabalhadoras, oferecendo-lhes a já estropiada promessa de
felicidade vinda do estrangeiro num porvir mais ou menos próximo».

Não obstante, letras e músicas furariam o cerco e a perseguição do


regime, continuando a ser cantadas, aprendidas, voltadas a cantar nos
ritmos da resistência ao Estado Novo em Portugal.

Censura às agências noticiosas e à imprensa: o caso das cheias que não


aconteceram

No pós-guerra, mais concretamente em 1949, foi criado o Conselho de


Segurança Pública, que conferiu à PIDE - sucessora da PVDE - o poder de
encerrar tipografias que imprimissem publicações, manifestos, panfletos
subversivos ou passíveis de perturbar a ordem pública.
48

A PIDE ficou também com a função de assegurar a colaboração com os


serviços de Censura e o SNI, na apreensão de livros e publicações
periódicas nas livrarias, bem como na vigilância da imprensa e das
agências noticiosas, nomeadamente estrangeiras.

Devido às repercussões internacionais e à imagem transmitida do regime


português ao estrangeiro, a PIDE e a Censura estiveram particularmente
atentas às agências noticiosas. Por exemplo, nesse ano de 1949, Luís
Lupi, responsável pela agência noticiosa Lusitânia e correspondente em
Portugal da Associated Press (AP), foi chamado à PIDE, por ser suspeito
de divulgar, no estrangeiro, que «os salazaristas haviam assassinado» o
dirigente comunista Militão Ribeiro, na Penitenciária de Lisboa (Nota
31). Em 1957, o mesmo Luís Lupi protestou contra a perseguição censória
de que era alvo, dando como exemplo os seus colegas de Praga, Budapeste e
Moscovo, que viviam em constante pavor para cumprirem a sua obrigação
honesta de jornalistas, para lembrar que nada podia justificar que se
criasse, em Portugal, «o mesmo estado de espírito».

Nove anos depois, em 1966, foi detido um funcionário de Lisboa da France


Presse (FP), Ludgero Pinto Basto, sob a acusação de ter transmitido
informações para Paris de maus tratos infligido pela PIDE a um detido
político. Pela mesma razão, a PIDE também chamou à sua sede o director da
AP em Lisboa, Denis Redmont, embora acusações contra os dois
correspondentes acabassem, posteriormente, por ser anuladas, devido a
pressão diplomática (Nota 32).

Também o correspondente da AP em Lisboa, Isaac Flores, foi alvo, em 1967,


de vigilância do informador da PIDE, «Visconde», o qual, numa linguagem
típica de denunciante, o acusou de manter relações cordiais com Fidel de
Castro e Che Guevara. Curiosamente, esse correspondente, que a PIDE dizia
ser adversário do regime português e da sua política ultramarina, era
também acusado de manter estreitas ligações com os serviços secretos dos
EUA (Nota 33). O mesmo Isaac Flores foi, aliás, nesse ano, chamado ao
Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), por ter tecido críticas à
Censura, a propósito das notícias sobre as catastróficas inundações, que,
em 1967, provocaram a morte de, pelo menos, 462 pessoas. Pelo mesmo
motivo, a PIDE também interrogou então o correspondente da United Press
International (UPI), Edouard Khavessian, acerca de uma informação dada
por essa agência, sobre protestos estudantis contra a actuação do governo
português em relação aos socorros prestados à população.
49

Considerando essa notícia difamatória para a reputação de Portugal, o


subdirector da PIDE ameaçou mesmo o dirigente da UPI de expulsão, caso
não revelasse a fonte da sua informação, mas o MNE interveio no sentido
contrário, também por pressão diplomática. Lembre-se que, ao mesmo tempo
que tentaram diminuir o número de mortos da tragédia das cheias, as
autoridade portuguesas acusaram a imprensa estrangeira de notícias
«tendenciosas» acerca da forma como o governo havia actuado. Ainda a
propósito dessas chuvas diluvianas que caíram na região de Lisboa na
noite de 26 de Novembro de 1967, o editor Francisco Lyon de Castro
relatou que foi o próprio Salazar a pedir a intervenção da Censura no
sentido de cortar as notícias sobre a catástrofe. Numa das frequentes
idas de Lyon de Castro ao director da Censura, este mostrou-lhe um cartão
de Salazar, a recomendar que a população portuguesa não fosse «mais
amargurada com notícias sobre este assunto» (Nota 34).

A censura nos anos 50 e 60

Em 3 de Outubro de 1957, ano de eleições para deputados à Assembleia


Nacional, a DGSC emitiu uma circular confidencial, proibindo, no âmbito
da propaganda eleitoral, «fazer acusações não concretizadas a possíveis
imoralidades administrativas, favoritismos do Poder, peculatos,
latrocínios, etc.». Também não eram consentidos «os ataques sistemáticos
aos poderes públicos, visando a desordem e a confusão, as insinuações e
as notícias falsas, o insulto e o desmando», bem como as notícias que
pudessem «comprometer a unidade moral e espiritual da Nação». A
propaganda de ideias pacifistas de inspiração comunista, a exaltação de
aspirações e revolta de nativos contra as autoridades ultramarinas, bem
como os ataques à religião católica e ao Pacto do Atlântico deviam, entre
outras, ser completamente banidas da imprensa.

Curiosa era a parte referente, na mesma circular, ao impedimento de


«tentativas de renovação da luta de classes». Proibia-se, assim, qualquer
menção à «qualidade de trabalhador ou operário» e sujeitava-se a
«correcções» as notícias relativas a manifestações, comícios ou comissões
de trabalhadores ou operários.
50

Dever-se-ia substituir, por exemplo, um «comício de trabalhadores», por


um «comício popular» e «muitos milhares de trabalhadores» por «milhares
de pessoas», enquanto a menção a «comício operário» era liminarmente
eliminada. Também não eram permitidas quaisquer referências a partidos ou
organizações clandestinas, devendo, aliás, a «palavra "partido"» ser
eliminada das notícias e relatos da propaganda eleitoral (Nota 35).

Em 1961, eclodiu a guerra em Angola, que se estendeu, nos anos seguintes,


à Guiné e a Moçambique. A Censura também passou a actuar sistematicamente
nessas colónias, acontecendo, aliás, que livros e discos, autorizados a
circular na chamada metrópole, eram ali proibidos, ou vice-versa (Nota
36). A guerra colonial introduziu também novos temas proibidos, chegando
mesmo a Censura a cortar, a partir de meados dos anos 60, as notícias
sobre as partidas de soldados para África. O próprio adjectivo «colonial»
e mesmo o substantivo «colónia» eram proibidos e, até ao final do regime,
nomeadamente nas campanhas eleitorais, pronunciar a palavra «guerra
colonial» constituiu motivo para o encerramento abrupto das sessões de
esclarecimento da oposição.

Na imprensa portuguesa, tudo o que cheirasse a «operários», ou a


«estudante» e «movimento estudantil» era logo cortado: por exemplo, em 15
de Maio de 1963, os censores avisaram os jornais, que não podiam «dar uma
linha» sobre os estudantes da Associação da Faculdade de Ciências de
Lisboa que tinham resolvido auxiliar crianças do ensino primário (Nota
37). Devia-se esse facto à entrada na cena política, a partir de 1962, de
um importante novo actor político - o movimento estudantil -, mas também
à ideia subjacente nessa notícia de que o governo não governava bem.
Também os acidentes ou mortes causados pelas más condições de vida dos
portugueses eram sistematicamente cortados. Relativamente à morte de duas
crianças, em Fajões (Oliveira de Azeméis), os Serviços de Censura
chegaram a telefonar aos jornais, em 13 de Dezembro de 1965, alertando-os
para que não podiam referir que a causa havia sido a ingestão de águas
inquinadas e o facto de «não haver um único fontanário lá no sítio» (Nota
38).

Nos anos 60, a Censura endureceu de forma assinalável.


51

PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE MINISTROS

Ofício Nº 262

Exmo. Senhor

Director dos Serviços de Censura Lisboa

Tenho a honra de comunicar a V. Exa. que por

determinação do Governo e em consequência do chocante procedimento do

jornal A República no seu número de ontem nos títulos e disposição do

noticiário acerca do gravíssimo caso do assalto ao paquete Santa Maria,

deve o jornal "A República" ser punido com 3 dias de suspensão a partir

de hoje.

Esta resolução deve ser imediatamente comunicada ao jornal.

A Bem da Nação

Gabinete do Ministro da Presidência, em 25 de Janeiro de 1961.

O CHEFE DO GABINETE,

A 24 de Janeiro de 1961, o jornal República fazia manchete com o assalto


ao paquete Santa Maria, liderado pelo capitão Henrique Galvão. Um dia
depois, o jornal era suspenso. (ANTT/ADS Censura, cx. 589, pasta 91)
52

Salazar, que, como se viu, já nomeava os responsáveis pela Censura,


colocou, em 20 de Outubro 1962, esses serviços directamente sob seu
controlo, esclarecendo, num despacho, que eles passavam exclusivamente a
depender da presidência do Conselho, não devendo acatar ordens de
qualquer outro departamento do Estado. Ou seja, «a deliberação de ser ou
não permitida a publicação» de artigos ou notícias cabia apenas aos
Serviços de Censura, independentemente de qualquer Ministério e, em caso
de dúvida, a decisão deveria «ser submetida à apreciação do ministro-
adjunto da Presidência ou ao Presidente do Conselho» (Nota 39).

O ano de 1965 foi particularmente duro para a oposição ao regime, graças


ao facto de a PIDE ter então intensificado e generalizado as torturas
violentas sobre os presos. Os Serviços de Censura colaboraram nesse
endurecimento repressivo, protegendo em particular essa polícia. Em 10 de
Julho, emitiu uma circular segundo a qual qualquer informação sobre
actividades da PIDE apenas deveria ser fornecida oficial ou
oficiosamente, por ela própria ou pelo SNI.

Entre outras notícias, que deveriam ser silenciadas, contavam-se a


publicidade das diligências e actividades das polícias, menções às
prisões políticas ou ao asilo político em embaixadas, comentários ou
referências a qualquer aspecto da actuação desta polícia, ao movimento do
seu pessoal, bem como a dados directos e indirectos ou velados acerca de
indivíduos com ligações à PIDE (Nota 40).

O jornalista José Nascimento, do Rádio Clube Português, sentiu


particularmente os efeitos dessa circular da Censura. Nesse ano de 1965,
deslocou-se a Espanha, para tentar entrevistar pessoas que tivessem tido
relação com a descoberta dos cadáveres de Humberto Delgado e da sua
secretária, Arajaryr Campos, deparando com uma barreira de silêncio, que
referiu numa reportagem transmitida pela rádio. Pouco tempo depois da
emissão, o jornalista recebeu um telefonema de um elemento do SNI, Vítor
Carvalho, a informá-lo de que o assunto da morte do general não podia ser
referido, a não ser que a informação sobre ele proviesse das «agências
autorizadas» do governo (Nota 41).

Se a Censura colaborava com a PIDE, esta pagava-lhe na mesma moeda. Mas


não foi só a PIDE a colaborar com os serviços de Censura, pois todas as
polícias do regime o faziam. Para só referir a PSP, mencione-se um
relatório, datado de 1966, em que o comandante-geral dessa polícia,
Marques de Oliveira, informou que os seus homens tinham apreendido, nesse
ano, 5258 livros pornográficos, 188 revistas, 1281 jornais e 6930 postais
pornográficos.
53

Outras instituições do regime também colaboraram directamente com o


aparelho censório, entre as quais se contaram os Correios, as Alfândegas,
os governadores civis, os governadores-gerais das colónias e a Legião
Portuguesa, além dos vários ministérios.

O escritor José Cardoso Pires salientou como um dos períodos mais negros
da censura, o «consulado do terror» de José Paulo Rodrigues,
subsecretário de estado da presidência do Conselho, entre final de 1962 e
Setembro de 1968. Segundo o autor de O Delfim e Dinossauro
Excelentíssimo, ao criar «um "Gabinete Fantasma", ultra-secreto e
omnipotente», Paulo Rodrigues «aprofundou o isolamento do gueto
literário, introduzindo-lhe um know how sofisticado que foi até ao
terrorismo cultural». «A censura passou a inflectir de preferência sobre
o autor e não sobre o texto» e, à «crítica desfavorável à obra do
escritor maldito, o "Gabinete Fantasma" dava-lhe curso livre» e à «que o
elogiasse punha-lhe o carimbo da proibição» (Nota 42).

«Estes escritores morreram!»

Mesmo quando o conteúdo de um livro era inócuo para a própria Censura, e


por isso autorizada a sua divulgação, o censor não deixava de fazer a
apreciação dos perigos potenciais que ele representava, por ter
determinado título ou ser da autoria de determinado escritor. Em 30 de
Outubro de 1953, o censor julgou «não haver inconveniente», na «leitura»
do livro Libertação, de Miguel Torga, pois incluía «simples composições
poéticas inocentes», não sem antes afirmar, porém, que o «título do livro
e o nome do seu autor, "Miguel Torga"», faziam suspeitar de que se
tratava de «uma obra de propaganda» (Nota 43).

Em Março de 1959, o escritor Aquilino Ribeiro foi alvo de um processo-


crime da PJ, devido à sua obra Quando os Lobos Uivam, considerada
abrangida pelo D. n.° 12.008, de 29 de Julho de 1926, que reprimia os
«abusos de liberdade de imprensa». A Censura tinha nomeadamente acusado
Aquilino de pretensas injúrias a algumas instituições do regime,
nomeadamente a PIDE e os tribunais plenários.
54

Lembre-se que, «acusado designadamente de ofender no seu livro

o Tribunal Plenário e os magistrados que nele prestavam serviço», o


processo movido a Aquilino foi destinado a ser julgado, no... Tribunal
Plenário (!)

De qualquer forma, muito por causa da pressão internacional e até


nacional contra esse processo, o 3.° Juízo Criminal acabou por concluir,
em 17 de Novembro de 1960, que o escritor não tinha querido atingir o
tribunal plenário, mas sim «o regime político vigente». Além disso,
considerou o crime abrangido por uma amnistia, publicada três dias antes,
por ocasião das comemorações henriquinas (Nota 44), tudo levando a crer
que esse perdão tivesse sido expressamente decretado para resolver o caso
de Aquilino Ribeiro, que se tornara muito incómodo para o regime, alvo de
crítica tanto em Portugal como no estrangeiro.

Entre outros exemplos da acção da Censura aos livros, relate-se uma


consulta à DGSC, feita por uma editora, em 1960, sobre a possibilidade de
fazer uma nova edição da obra Novelas Eróticas, do escritor e ex-
presidente da República, Manuel Teixeira Gomes. O censor autorizou a
reedição, considerando o livro uma «obra literária de alto mérito», mas,
com o argumento de que continha aspectos «de imoralidade», apenas
permitiu a sua publicação «em tiragem fora do mercado» (Nota 45). Três
anos depois, a mesma editora pretendeu editar as Obras Completas, de José
Régio, cujo romance, Jogo da Cabra Cega, publicado inicialmente em 1934,
havia sido proibida pela Censura. Esta última acabou por autorizar, com
«carácter excepcional», a publicação desse romance, mas apenas integrado
nas Obras Completas, impedindo a sua edição separada (Nota 46).

Em Julho de 1965, a PIDE realizou uma rusga à sede da editora «Europa-


América», de Francisco Lyon de Castro, apreendendo 73 000 livros, entre
os quais se contou a obra de Etelvina Lopes de Almeida, O ABC da
Culinária. Em resultado dessa busca, foram apreendidas, entre outras, as
seguintes obras: O Céu Não Tem Favoritos, de Erich M. Remarque, Os
Pastores da Noite, de Jorge Amado, As Mãos Sujas, de Jean-Paul Sartre, A
Noite de Iguana e Fumo de Verão, de Tennessee Williams, História
Universal da Infâmia, de Jorge Luís Borges, e A Promessa, de Dürrenmatt.
Nesse mesmo ano, a Censura proibiu vinte e três livros, editados por essa
editora, da qual nem mesmo o catálogo de publicações escapou ao controlo
censório (Nota 47).
55

Ainda em 1965, um elemento dos mesmos serviços da Censura contactou


telefonicamente o Jornal de Notícias do Porto, a dar-lhe conta de que
doravante seria cortada «qualquer referência aos seguintes escritores»:

«Luiz Francisco Rebello, Urbano Tavares Rodrigues, Sofia de Mello Breyner


Andresen, Francisco de Sousa Tavares, Mário Sacramento, Fausto Lopo de
Carvalho, José-Augusto França, Jorge Reis, Natália Correia, Manuel
Cardoso Mendes Atanásio, Alexandre Pinheiro Torres, Augusto Abelaira,
Fernanda Botelho, Manuel da Fonseca e Jacinto do Prado Coelho. Estes
nomes são cortados. Estes escritores morreram!» (Nota 48)

Diga-se que alguns destes escritores, como Alexandre Pinheiro Torres,


Augusto Abelaira, Fernanda Botelho e Manuel da Fonseca, foram, nesse
mesmo ano de 1965, chamados à PIDE, por terem feito parte do júri que
atribuíra o Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores
(SPE), ao livro Luanda, de Luandino Vieira, escritor angolano então preso
às ordens da PIDE, sob a acusação de pertença a um movimento
independentista de Angola. A sede da SPE em Lisboa foi assaltada e
destruída por elementos da extrema-direita e essa mesma associação foi
extinta pelo governo, em 21 de Maio de 1965.

O facto de todos estes acontecimentos terem ocorrido quase em simultâneo


é, no entanto, pura coincidência, dado que a mão longa da PIDE, o peso do
lápis azul e os telefonemas dos coronéis da Censura se fizeram sentir e
ouvir ao longo dos anos, antes e depois. A lista de condenados à «morte
civil» pela Censura incluiu ainda, entre outros, José Cardoso Pires,
Fernando Namora, Joel Serrão, Adolfo Casais Monteiro, Aquilino Ribeiro,
José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena. A lista dos proscritos
estrangeiros também era longuíssima, contando-se entre estes, os
brasileiros Álvaro Lins, Jorge Amado e Ferreira de Castro, ou outros como
Bertrand Russel, Pablo Neruda, Bertolt Brecht, Miguel Angel Astúrias e
Herbert Marcuse (Nota 49).

Como se viu, a Censura actuava frequentemente a posteriori e por


denúncias e com a colaboração das várias instituições do regime. Por
exemplo, em 23 de Novembro de 1966, o Ministério da Defesa Nacional
apresentou, ao seu colega do Interior, uma queixa contra o escritor Luís
de Sttau Monteiro, autor do livro Peças em Um Acto, entre as quais se
incluíam «A Guerra Santa» e «A Estátua», consideradas, por aquele
ministério, «um ultraje às tropas» em África.
56

Embora reconhecendo que os exemplares do livro já haviam sido


apreendidos, por ordem da Censura, o ministro da Defesa Nacional
considerou essa medida insuficiente. Ao lembrar que já outras publicações
de «carácter pacifista» tinham sido difundidas, «sem outra sanção - ao
que parece - além da apreensão», o ministro pretendia que tanto o autor
como a editora (Minotauro) fossem severamente punidos. Caso contrário -
adiantou o ministro - seria um «exemplo de impunidade séria e
particularmente perniciosa» na situação de guerra que então se vivia. O
ministro do Interior concordou com ele, dado que, em Dezembro, o informou
de que não só todos os exemplares do livro haviam sido apreendidos, como
a editora fora encerrada e o autor imediatamente «detido para organização
do respectivo processo-crime», pela PIDE (Nota 50). Mas, não eram apenas
as obras de carácter político que sofriam os rigores da censura, como se
pode ver, a craves de instruções dadas pelo Ministério do Interior, em
1967, à PSP e PIDE, acerca da necessidade de intensificar a repressão de
«publicações pornográficas e obscenas» (Nota 51). O regime, bem como a
sua Censura e a sua polícia não distinguiam, aliás, pornografia de
erotismo e, por isso, dois anos depois, em pleno período de
«liberalização» marcelista, a DGS apreendeu, numa livraria de Évora, O
Erotismo, de Georges Bataille.

Relativamente aos livros, a cidadã britânica, Jane Gilbert, relatou ao


Foreign Office, em 20 de Setembro de 1968, que, ao chegarem a uma
importante livraria de livros estrangeiros, cinco agentes da PIDE
confiscavam tudo o que mencionasse as palavras social, economics e
communism. Dando outros exemplos da actuação da Censura, a mesma cidadã
britânica contou que esta havia ordenado a apreensão da enciclopédia Mac
Donald, por considerar que continha poucas páginas sobre a história de
Portugal (Nota 52).

Nos últimos anos do regime ditatorial, três redactores da Direcção-Geral


da Informação (DGI), em serviço externo permanente, percorriam
diariamente as livrarias e consultavam os catálogos das editoras e
importadoras de livros. Redigiam, depois, relatórios semanais, em que
assinalavam, entre outros, os livros que se lhes afiguravam deverem ser
«apreciados pela censura».
57

Os relatórios eram enviados ao Director-Geral da Informação (DGI), criada


no âmbito da Secretaria de Estado de Informação e Turismo (SEIT), que, ao
mesmo tempo, também recebia, da DGS, informações sobre os livros
suspeitos. Depois, através de um Gabinete de Leitura Especializada (GLE),
a DGI emitia as suas conclusões e a decisão final: por exemplo, de
apreensão de determinado livro era então comunicada, ao editor ou
importador, ao grémio respectivo e às entidades policiais.

Por vezes, havia entendimentos e compromissos firmados entre os editores


e a SEIT, como aconteceu, em 25 de Junho de 1971, no caso do livro de
Maria Teresa Horta, Minha Senhora de Mim, que acabou por não ser
proibido, mas sobre o qual foi impedida qualquer referência pública ou
transcrição na imprensa (Nota 53). Mesma sorte não teve, em Maio de 1972,
o livro Novas Cartas Portuguesas, escrito em co-autoria pelas «três
Marias» - a mesma Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho
da Costa - que foi proibido, por se considerar que continha «passagens de
conteúdo imoral e pornográfico». O mesmo livro foi, aliás, enviado, pela
DGI, à PJ, que instruiu um processo-crime, mas este só foi julgado após
25 de Abril de 1974 e as três autoras acabaram por ser absolvidas (Nota
54).

O marcelismo: da «liberalização» à manutenção da Censura

Os jornais diários, alvo da Censura, eram também vigiados pela polícia


política, que aí mantinha informadores, como aquele que, em 24 de
Fevereiro de 1966, enviou um relatório com as biografias dos principais
colaboradores do Diário de Lisboa (DL) (Nota 55). Esse mesmo informador,
ou outro, que também estava, aliás, infiltrado no Sindicato dos
Jornalistas, denunciou, dois anos depois, os elementos considerados
esquerdistas desse jornal - Mário Castrim, Assis Pacheco e Silva Costa
(Nota 56). Em Maio desse ano de 1967, foi censurado um artigo do
semanário Comércio do Funchal (CF), jornal cor-de-rosa da Madeira, por
criticar a PSP de estar a fazer uma «caça à multa» (Nota 57). O número de
7 de Maio dessa publicação foi, por seu turno, impedido de sair à rua,
por conter um artigo sobre a ditadura militar grega, embora essa
suspensão acabasse por ser levantada, graças à interferência de deputados
da Assembleia Nacional pelo círculo do Funchal (Nota 58).
58

Nos derradeiros meses de Salazar à frente da Presidência do Conselho,


elementos da Censura continuavam a telefonar para os jornais, a dar os
seus recados. Foi o caso de um telefonema, recebido na imprensa diária,
em 25 de Abril (!) de 1968, onde um censor avisou que esta não deveria
tratar por «senhores» os «réus do Tribunal Plenário».

Nesse ano de 1968, algo mudou em Portugal. António de Oliveira Salazar


sofreu um acidente e foi substituído, na Presidência do Conselho de
Ministros, por Marcello Caetano, em 27 de Setembro. Durante os primeiros
meses do «marcelismo», houve, numa parte da oposição ao regime,
expectativas relativamente a uma possível política de «liberalização»,
nomeadamente em matéria de liberdade de imprensa.

Através do DL n.° 48 686 de 15 de Novembro de 1968, o novo chefe do


governo deixou de exercer influência directa nos Serviços de Censura, que
passariam, três anos depois, para a tutela da SEIT, criada após a
extinção do SNI. Foi também formado então o Conselho Nacional de
Informação, com a tarefa de se pronunciar «sobre as questões de interesse
para a informação pública».

É verdade que a Censura aparentou então uma certa abertura,


possibilitando a referência, na imprensa, de temas anteriormente
proibidos e corrigindo, no que respeitava aos livros, algumas situações
anteriores (Nota 60). Por exemplo, em 1969, uma circular da PIDE deu
conta do cancelamento de anteriores despachos de proibição das obras de
Mao-Tse-Tung, Jorge Amado, Baía de todos os Santos, S. Jorge dos Ilhéus e
País do Carnaval-Cacau-Suor, bem como O Autómata, de Alberto Morávia, e a
Inquisição Portuguesa, de António José Saraiva (Nota 61).

Deste autor, bem como de Óscar Lopes, a mesma editora «Europa-América»


vendeu rapidamente 30 000 exemplares da obra de referência, História da
Literatura Portuguesa, mas, ao preparar-se para fazer uma nova edição, o
editor, Francisco Lyon de Castro, recebeu uma circular do Ministério da
Educação Nacional, enviada aos estabelecimentos de ensino, a informar os
professores que o livro não deveria ser adoptado, nos cursos (Nota 62).

Muitos jornalistas utilizaram frequentemente a arma do humor e alguns


subterfúgios, para tornearem os rigores da censura, especialmente, no
período «marcelista».
59

Subterfúgios que não impediram, porém, as perseguições e a repressão,


como se pode se pode ver numa incriminação, por parte da DGS, feita ao
administrador do Diário de Lisboa, António Ruella Ramos, devido ao mesmo
suplemento «A Mosca», onde fora publicado um cartoon sobre o festival da
canção, de João Abel Manta, caricaturista que também foi alvo de processo
(Nota 63).

Acez Osnofa, o nome de Zeca Afonso na imprensa

O suplemento «A Mosca» do Diário de Lisboa, de 13 de Setembro de 1969,


apresentou um dossier sobre baladas, então muito em voga, com entrevistas
a vários cantores, ditos de «intervenção». Um dos principais cantores foi
José (Zeca) Afonso, constante alvo de denúncias de toda a espécie de
informadores da PIDE/DGS e dos serviços de Censura. O director destes
serviços solicitou à polícia a apreensão do livro Cantares de José
Afonso, pedindo-lhe uma investigação sobre quem o tinha editado e
impresso (Nota 64). Por causa disso, José Afonso foi chamado, em 23 de
Maio, ao posto da PIDE de Setúbal, aonde voltaria, posteriormente,
inúmeras vezes, tendo chegado mesmo a ser preso (Nota 65). José Niza,
produtor dos discos de Zeca Afonso relatou algumas formas utilizadas para
enganar a Censura. Como os discos incluíam habitualmente doze temas, Niza
pedia, ao cantor, vinte letras, algumas «muito fortes» e, dado que a
Censura não podia «cortar tudo», acabava por deixar passar todas as
outras, «menos fortes», que eram, assim, gravadas. A inclusão em disco da
canção «A Morte saiu à rua» - sobre o assassinato do escultor comunista,
José Dias Coelho, pela PIDE, em 1961 - foi por exemplo negociada, num
almoço com o chefe da Censura, Feitor Pinto, um ex-amigo e colega de
turma de Zeca Afonso, que, embora «do outro lado da barricada», acabou
por concordar com a gravação (Nota 66). O nome de Zeca Afonso estava
proibido de ser referido na imprensa. O jornalista Pedro Alvim publicou,
em «A Mosca» de 20 de Setembro de 1969, um inquérito de rua, sobre os
cantores de baladas, perguntando a alguém se conhecia «"Acez Osnofa", um
tal cantor de Coimbra». Dada a resposta negativa, Pedro Alvim aconselhou
o leitor a ler o nome «ao contrário»: Acez Osnofa transformava-se assim
em Zeca Afonso (Nota 67). Por outro lado, como as fotografias da capa de
«A Mosca» não iam habitualmente à Censura, foi colocada, na desse número,
uma fotografia de meia cara de José Afonso e outra de Francisco Fanhais.

Furiosos, os censores impuseram, depois, a ida de todas as capas de «A


Mosca» à Censura.
60

A actuação dos cantores de «intervenção» e de «protesto» foi, aliás,


objecto de um despacho do ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, de 23
de Abril de 1970, com instruções acerca dos requisitos exigidos nos
espectáculos em salas inscritas na Direcção-Geral dos Espectáculos (DGE),
onde participassem Zeca Afonso, o padre Francisco Fanhais, Manuel Freire,
Adriano Correia de Oliveira, Rui Mingas, José Jorge Letria, Tóssan, Deniz
Cintra, Grupo Intróito e José Barata Moura (Nota 68). A DGE alertou então
a DGS para o facto de se verificar, «com certa frequência, a realização
de espectáculos - algumas vezes até clandestinos», onde estavam a ser
«apresentadas canções cujas letras não foram submetidas à apreciação da
comissão de exame e classificação dos espectáculo» (Nota 69).

Estavam nesse caso, segundo a DGE, a maioria «das «baladas» que traduzem
ideias de contestação, de pacifismos, de reivindicações sociais, como
forma de luta contra as instituições vigentes e sobretudo contra a
posição de Portugal no Ultramar» (Nota 70). Por isso, a direcção-geral
solicitou à DGS que fosse prestada a maior atenção aos programas,
enumerando depois os cantores «que surgem com mais frequência, na sua
qualidade de amadores e sem reportórios autorizados, a cujos programas
não deve ser concedido o visto» (Nota 71).

«Não é permitida a divulgação de notícias, artigos, crónicas comentários


que...»

Apesar das expectativas de uma liberalização do regime, com a chegada de


Marcello Caetano à chefia do governo, o subsecretário de Estado da
Presidência do Conselho, César Moreira Baptista, apressou-se a emitir,
logo em 14 de Outubro de 1968, um despacho com as novas «Normas a
Observar pela Direcção dos Serviços de Censura (DSC)». Segundo essas
normas, não seria «permitida a divulgação de notícias, artigos, crónicas
ou comentários ou de quaisquer outros textos que:

1) possam atingir os princípios que informam a ordem jurídica


constitucionalmente estabelecida;

2) sejam ofensivos dos órgãos de soberania nacional, das instituições


vigentes, dos Chefes do Estado ou representantes diplomáticos de países
estrangeiros que mantenham relações diplomáticas com Portugal;
61

3) que ofendam a moral cristã tradicional do país;

4) que visem directamente, de modo isolado ou em campanhas, a alteração


da política adoptada quanto ao Ultramar Português;

5) que ponham em causa a orientação professada na política internacional


(tão intimamente relacionada com a política ultramarina do país);

6) que ataquem ou minimizem a posição de Portugal como membro da


Organização do Tratado de Aliança Atlântica (OTAN);

7) que atinjam, de qualquer modo, o presidente Salazar, cuja obra como


homem e como político, só pode ser discutida em termos que não diminuam a
sua figura;

8) que pretendam, directa ou indirectamente, estabelecer uma antinomia


política entre o presidente Salazar e o presidente do Conselho;

9) que procurem criar um clima de agitação social ou constituam o


incitamento à subversão, nomeadamente através da divulgação das doutrinas
marxistas ou de propaganda das actividades comunistas».

Entre outras normas, a mesma circular pedia para os serviços de Censura


estarem particularmente atentos a «problemas ligados a reivindicações de
salários e reivindicações académicas, sobretudo quando formulados em
termos demagógicos ou de subversão». De acordo com o ministro da Educação
Nacional, os inquéritos e as entrevistas com professores e estudantes
ficariam suspensos, bem como os textos que viessem a ser produzidos sobre
as eleições de 1969. Também não deveriam «ser aprovados textos ofensivos
das Forças Armadas» ou que defendessem ideias pacifistas e mereceriam «a
maior reserva todas as tentativas para fomentar campanhas de apoio e
adesão às novas orientações de certo sector da Igreja Católica».
Finalmente, nas páginas literárias e dedicadas à juventude, dever-se-ia
evitar cuidadosamente tudo o que pudesse, «do ponto de vista político e
moral, fazer perigar a formação das novas gerações» (Nota 72).
62

Como se vê, o rol de preocupações do governo tinha aumentado


exponencialmente, bem como os seus inimigos e temas proibidos, com

relevo para tudo o que dissesse respeito às reivindicações dos


trabalhadores e estudantes, à guerra colonial e ao prestígio das Força
Armadas, bem como a certos sectores católicos, ditos «progressistas»,
mais recentemente entrado no movimento de oposição ao regime.

Por exemplo, em 1969, uma circular da DGS ordenou a apreensão dos


Cadernos do Gedoc, editados por um grupo de católicos progressistas. Mais
tarde, o ministro do Interior enviou à DGS um pedido de apreensão de
todas as publicações que não tivessem o imprimatur da hierarquia da
Igreja. Gonçalves Rapazote sugeriu ainda a organização de equipas, com o
objectivo de esclarecer as matérias que oferecessem «reservas
doutrinárias ou políticas, procurando uma reacção sadia entre os
católicos não contestatários e defensores da nossa política ultramarina».

No final de 1969, um documento, intitulado «Instruções sobre a Censura à


Imprensa», especificou que a Censura deveria exercer uma particular
vigilância a tudo o que respeitasse:

- à «ideia da Pátria, à independência nacional e ao prestígio do País,


bem como ao respeito devido à bandeira, ao hino nacional e a outros
símbolos da Pátria;

- às instituições republicanas, e à honra e consideração do chefe do


Estado, Presidente do Conselho, membros do governo, parlamentares e
magistrados;

- à propaganda, incitamento e provocação à indisciplina social, à


subversão violenta das instituições e dos princípios fundamentais da
ordem social;

- ao incitamento à desobediência às normas legais e às autoridades;

- ao prestígio das Forças Armadas e a operações militares;

- e à divulgação de notícias ou boatos destinados a perturbar a


tranquilidade e ordem públicas ou a prejudicar o crédito público, ou que
sejam susceptíveis dessa perturbação ou prejuízo.»

O documento acrescentava que era ainda «expressamente proibida a narração


circunstanciada» dos casos de «vadiagem, mendicidade, libertinagem e
crime de suicídio, cometidos por menores de 18 anos, bem como de
julgamentos em que sejam réus». As «notícias de suicídios no País ou no
estrangeiro» de adultos apenas podiam ser dados em páginas interiores e
nunca com excessivo relevo.
63 e 64

<Reprodução do corte dos serviços da censura num artigo da revista Vida


Mundial e num artigo da cantora Joan Baez: omitida>
65

Não era, por outro lado, permitida «a menção de nomes de pessoas


meramente acusadas, indiciadas ou pronunciadas em processos-crimes
pendentes nos tribunais, salvo para anunciar os julgamentos». Da mesma
forma, os jornais estavam impedidos de relatar «crimes» e os respectivos
julgamentos e publicar fotografias de audiências dos tribunais ou de
presumidos delinquentes, de acusados ou de condenados, excepto a pedido
das autoridades judiciais ou policiais (Nota 73).

Acerca da Censura, o próprio Marcello Caetano nunca deixou, porém, de


manter uma grande ambiguidade. Numa visita a Angola, em Abril de 1969,
declarou que estava «a ser estudado um projecto de Lei de imprensa»,
avisando, porém, que não se poderia «terminar com a Censura de um dia
para o outro». Noutra visita, realizada em Julho, dessa feita ao Brasil,
o presidente do Conselho de Ministros reiterou «que não se encontrava
projectada qualquer lei de abolição do sistema (censório)». Segundo
argumentou, «após quarenta e três anos de existência (do regime), a
população portuguesa e gerações de jornalistas» estavam «habituados ao
regime de Censura» e que se esta «fosse abolida, o facto só serviria para
lançar a confusão, tanto no público como nos próprios profissionais de
Imprensa...».

Ao defender-se a si próprio, após ter sido apeado do poder pelo golpe


militar de 1974, lembrou que, embora se tivesse mantido, no seu
consulado, o «exame prévio dos textos a inserir na imprensa periódica»,
ele próprio tinha tido a preocupação de aliviar a censura (Nota 74). Num
Depoimento, também escrito após o 25 de Abril de 1974, Caetano lembrou
que o seu já referido projecto de Lei de Imprensa de 1958 revelara-se
estar desactualizado, dez anos depois, quando assumiu a chefia do
governo, até porque entretanto «surgira a subversão no Ultramar», não
sendo «altura de levianamente levantar» a Censura.

Por esse motivo, contou ter então pedido um estudo sobre uma nova
proposta de lei da imprensa, com o objectivo de preparar «uma transição
para a liberdade, que se iria processando na medida das possibilidades
oferecidas pelas circunstâncias». Assim como havia anteriormente
utilizado o critério de que a Censura em Portugal tinha sido necessária
enquanto forma de «prevenção» porque a imprensa portuguesa não tinha a
noção dos limites, Caetano argumentou que, devido a quase meio século de
censura, os jornalistas portugueses se haviam desabituado «do sentimento
das responsabilidades, a começar pelos directores dos jornais que
comodamente descarregavam sobre os censores o encargo de dizerem se um
texto devia ou podia ser publicado».
66

Ou seja, a Censura tinha sido necessária para responsabilizar os


jornalistas e directores de jornais, mas, após e por causa de 50 anos de
censores, aqueles mesmos tinham perdido o sentido da responsabilidade.

A censura «desabituara também a Administração Pública das críticas e do


esclarecimento oportuno da opinião» - continuou Marcello Caetano, segundo
o qual os «próprios leitores haviam perdido o critério para apreciar os
jornais e a matéria neles inserta». Por tudo isso, considerava ele que
era «preciso fazer a reeducação progressiva de todos estes elementos».
Recusando o argumento dos que retorquiam «que só na liberdade se aprende
a agir em liberdade», Caetano alegou que, quem não se acautelasse «em
controlar a prática das liberdades», arriscava-se a colher os frutos da
anarquia a que se sucederia, «como remédio heróico, a solução
totalitária» (Nota 75).

Lei de Imprensa: A Censura continuou como dantes

Em 20 de Abril de 1970, os deputados da chamada «ala liberal» da


Assembleia Nacional, Francisco Sá Carneiro e Francisco Pinto Balsemão,
apresentaram um projecto de Lei de Imprensa que previa o fim da Censura
prévia e a criação de uma comissão, junto do Ministério da Defesa
Nacional, para apreciação das notícias de carácter militar, enquanto
houvesse guerra em África. A discussão sobre a lei de Imprensa iniciou-se
em 27 de Julho do ano seguinte, sendo aprovado, na A.N., que a votação da
mesma fosse feita com base no texto recomendado por uma comissão
eventual, formada por deputados que apoiavam o governo, e não no texto
proposto por aqueles deputados da «Ala Liberal». O texto, proposto pela
comissão eventual, foi aprovado, com ligeiras alterações, em 9 de Agosto
de 1971, ano em que ainda foi criada, em substituição do SNI, a SEIT, da
qual dependia a Direcção-Geral da Informação (DGI) (Nota 76).
67

Num livro de memórias, escrito após 1974, Marcello Caetano contou que, ao
ocupar o cargo de ministro da Presidência entre 1955 e 1958, ele próprio
preparara uma Lei de Imprensa, «em que se discriminassem com bastante
precisão as matérias cuja publicação era vedada ou condicionada». Era
também seu objectivo regular «um processo sumário, rápido, para aplicação
aos delitos de abuso de liberdade de imprensa de penas, o menos pesadas
possível, mas de cuja acumulação resultassem automaticamente efeitos
graves: proibição de escrever, suspensão do jornal».

Ao justificar-se, num período em que tinha sido deposto pelo Movimento


das Forças Armada, Caetano utilizou o mesmo argumento já anteriormente
referido, de Salazar, para manter o regime de Censura. Lembrando que esta
já vinha da l.a República, considerou que era uma forma de «prevenção
para a qual tivera de se caminhar» porque a imprensa portuguesa não tinha
a noção dos limites, além de que «a repressão judicial dos delitos nela
cometidos era demorada, originava processos escandalosos e acabava por
ser ineficaz quando não contraproducente». Ainda segundo o relato de
Caetano, o governo, através do SNI, mantinha dois tipos de relações com a
imprensa: «as de promoção, apoio, colaboração com a imprensa, que era o
papel do Secretariado, e as de polícia dos delitos de imprensa que
pertencia a uma Direcção dos Serviços de Censura, composta quase só por
militares e gozando de bastante independência» (Nota 77).

Marcello Caetano lembrou que ele próprio tinha sido vítima da Censura, em
1957. Efectivamente, na sequência de um encontro em Ciudad Rodrigo, em 10
de Julho, entre Franco e Salazar, correra o rumor, transmitido na
imprensa estrangeira, de que havia aí sido discutida a conveniência de
ambos os países caminharem no sentido já definido pela Espanha, para o
regime monárquico. Para terminar com a especulação, Caetano falou com um
jornalista da United Press em Lisboa, dizendo que não existia em Portugal
«problema de regime». A declaração motivou indignados protestos de
elementos da Causa Monárquica, junto de Salazar, que proibiu a reprodução
das declarações do ministro da Presidência nos jornais. Salazar explicou,
aliás, essa atitude, junto de Marcello Caetano, numa carta, reveladora de
que quem realmente mandava na Censura era o ditador:
68

«Evidentemente todos estamos de acordo nisso - que "não está posto o


problema do regime" como diz na sua carta, mas a frase da U.P. é que "não
existe em Portugal problema de regime" e esta afirmação tem ou pode (...)
"ser entendida como estando no espírito do Governo definitivamente e para
sempre resolvida a questão da República e da Monarquia". (...) Por esta
razão me tornei a levantar da cama e falei para a Censura a dar a
indicação de que proveio serem eliminados os telegramas do estrangeiro
sobre a matéria.» (Nota 78)

Ainda no seu já referido depoimento, Caetano chamou a si o feito de ter


lançado a ideia da proposta da Lei de Imprensa de 1971, assinalando que
havia então sido suprimida a possibilidade de aplicação de sanções
administrativas, de modo que todas as infracções só pelos tribunais
podiam ser apreciadas e punidas e estabelecido o direito de recurso, a
instância competente. Ao reconhecer que o «"problema da censura" era dos
mais difíceis de resolver satisfatoriamente», dado que a lei «é executada
por homens e estes têm os seus critérios de interpretação, nunca se
podendo evitar "a existência de certo arbítrio dos censores"», Caetano
contou que muitas pessoas se lhe dirigiram, a protestar contra certo
corte:

«Pessoalmente expliquei a vários reclamantes que não podia nem devia


arvorar-me em censor-mor, ingerir-me num serviço que tinha os seus
órgãos, o seu pessoal e as suas normas e que era preciso responsabilizar
pela sua actuação. Nem sempre esta atitude foi compreendida. Penso que
era a única a adoptar pelo Presidente do Conselho. De contrário, seria a
institucionalização do arbítrio que se desejava reduzir quanto possível.
E impedir-me-ia de exigir dos serviços que pautassem a sua acção por
regras gerais e segundo as normas processuais legalmente estabelecidas.»
(Nota 79)

Caetano adiantou, porém, que, «apesar da difícil situação causada pela


guerra no Ultramar e pelo crescente atrevimento da subversão interna na
Metrópole, a imprensa portuguesa, em Abril de 1974, estava longe de ser
monótona, mera reprodução de um pensamento oficial, sem liberdade de
diferenciação ideológica»:
69

«Para só falar da imprensa diária de Lisboa, publicavam-se de manhã um


jornal católico - Novidades -, um jornal governamental - A Época -, um
jornal de centro-esquerda - O Século -, um jornal informativo conservador
- Diário de Notícias - sem falar no Jornal do Comércio. À tarde o público
tinha à sua disposição um jornal socialista - República -, outro de
tendência maoísta - Diário de Lisboa - e dois vespertinos informativos
-Diário Popular e Capital, em cujas redacções, especialmente no último,
preponderavam elementos comunistas ou simpatizantes. A intervenção do
exame prévio não impedia, pois, a expressão de tendências na imprensa.»
(Nota 80)

No entanto, apesar de uma certa liberalização, era claro, no final do


regime ditatorial, que a Censura - com o novo nome «Exame Prévio» -
continuava em vigor em Portugal. Mesmo alguns sectores que haviam
acreditado na possibilidade de liberalização do regime, revelavam a sua
desilusão. Entre estes, contou-se o escritor António Alçada Baptista, que
num livro intitulado Conversas com Marcello Caetano (1973), confessou que
o Exame Prévio era «um poderoso elemento de redução» dos criadores aos
mais diversos níveis. Relatou que ele próprio ficara inibido, «quando se
trataria de aplaudir os poderes nas coisas que mereceriam o meu aplauso,
ou de criticar a oposição naquilo que mereceria» a sua crítica (Nota 81).

Relativamente à Lei de Imprensa de 1971, o jornalista Jacinto Baptista


salientou que ela previa «o restabelecimento da censura prévia se a
Assembleia Nacional considerasse estar o país em "estado de emergência"
(devido à guerra de África)». Ora, como a Assembleia Nacional assim
prontamente o considerou, «a Censura continuou como dantes». O jornalista
Raul Rego observou, por seu turno que o «Exame Prévio» caetanista era «a
Censura Prévia de ontem, ou seja, a maneira de um governo ditatorial, a
despeito da Constituição, dominar por completo a opinião pública e a
orientar conforme lhe convém» (Nota 82).

Por outro lado, a polícia política continuou a colaborar estreitamente


com o «Exame Prévio». Em 1971, a DGS assinalou que o articulista do
Diário de Lisboa incutia «nos leitores o ódio à DGS», ao entrar na
«batalha» travada no sentido de os «interrogatórios» serem efectuados na
presença de advogados (Nota 83).
70

No mesmo ano, o chefe da delegação da DGS no Funchal informou a sua


direcção de que o Comércio do Funchal (CF) era uma publicação totalmente
desafecta ao regime, assinalando que um artigo, intitulado «28 de Maio de
1971», provavelmente da autoria de Vicente Jorge Silva, havia sido quase
totalmente cortado (Nota 84). Mesma atenção, por parte da Censura e da
DGS, tiveram a revista Seara Nova, cuja redacção foi alvo de inúmeras
buscas, o Jornal do Fundão (JF) e o Notícias da Amadora (NA). O facto de
este semanário noticiar, em 1 de Dezembro de 1973, que a DGS não queria
libertar António Dias Lourenço, após doze anos de prisão, levou a polícia
a pedir «providências ingentes contra estas farsas», ao presidente da
Comissão de Censura Prévia (Nota 85).

Dois anos antes do final do regime ditatorial ser derrubado, em 3 de


Novembro de 1972, o ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, alertou
para o aumento da edição de publicações atentatórias «contra a sociedade»
e a «ordem». Propôs, assim, à DGS, que organizasse brigadas policiais,
com o objectivo de visitar e notificar regularmente as editoras e as
livrarias, apreendendo os livros, vigiar a entrada de publicações
estrangeiras e organizar processos relativos às apreensões feitas (Nota
86). O Ministério do Interior solicitou, porém, à DGS, que não deixasse
que se confundisse, no espírito dos livreiros, o «sequestro» - que
sujeitava as publicações a ulterior decisão - com a efectiva «apreensão»
- que implicava a perda das publicações -, a qual só podia verificar-se
relativamente a «publicações proibidas pelos Serviços de Censura» (Nota
87).

«Efectiva apreensão» ocorreu, numa rusga realizada pela DGS, em 23 de


Março desse ano de 1972, na Livraria Europa-América, em Queluz, onde
foram apreendidos 400 livros e cartazes (Nota 88). A DGS também apreendeu
discos de cantores portugueses, como aconteceu na Discoteca Sassetti, de
Lisboa, em 7 de Fevereiro de 1973, onde foram apreendidos seis exemplares
do disco «Até ao Pescoço», de José Jorge Letria, três exemplares do disco
«Chants de la Révolution Cubaine», outros três de «Margem de Certa
Maneira», de José Mário Branco, e ainda três de um disco intitulado
«Lenine et les Chansons» (Nota 89).

Ainda por proposta do ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, a DGS fez


uma relação das tipografias que se dedicavam à impressão de livros
suspeitos, sujeitando-as a buscas e apreensões.
71

Foi o caso, ainda nesse derradeiro ano de 1974, de uma investigação


realizada por essa polícia, na Tipografia Águeda, em Coimbra, onde estava
a ser impresso um livro de poemas, «alguns de carácter antinacional», da
autoria de José Manuel Mendes. Na mesma cidade do Mondego, o agente
Feliciano Costa Soares investigou também uma tipografia onde tinha sido
impresso um livro, sobre irregularidades de um tenente da «polícia
secreta» e de um elemento da PJ, na Companhia Diamang, em Angola. O seu
relatório ficou com data de 5 de Abril de 1974; ou seja, foi feito vinte
dias antes do derrube do regime (Nota 90).
<Página em branco>
CAPÍTULO 2

ESCUTAS TELEFÓNICAS E VIOLAÇÕES DE CORREIO

«Operação Cegonha»

Entre as formas de vigilância da PIDE/DGS sobre a sociedade contaram-se


duas de grande importância, a intercepção postal e a escuta telefónica.
Quanto à intercepção postal - a chamada «operação cegonha» -, os CTT
terão chegado a manter, durante certo tempo, um grupo de funcionários
(catadores, catas ou farejadores) que colaboravam com a PIDE na violação
da correspondência. Mais tarde, porém, devido a queixas sobre desvios de
dinheiro de emigrantes e de correspondência diversa, esses elementos
foram afastados.

A PIDE passou então a assegurar este serviço sozinha e de forma directa,


na Estação Central dos Correios, no Terreiro do Paço/Praça do Comércio,
em Lisboa. No seu gabinete nessa estação central, equipado com
fotocopiadora, trabalharam, consoante os períodos, entre seis e quinze
agentes, chefiados por João Nobre, homem de confiança de António Rosa
Casaco. O que, aliás, não impediu que um desses agentes também tivesse
sido detectado, numa ocasião, a retirar correspondência da posta-
restante, acabando por ser expulso do local pelos trabalhadores da
secção.

Foi Rosa Casaco que introduziu os métodos de intercepção de


correspondência, instruindo alguns dos seus agentes no sentido de
interceptar também correspondência com valor económico (de bancos, grupos
económicos) ou que pudesse vir a servir como meio de chantagem (Nota 1).
74

Nas suas memórias, Rosa Casaco contou que se procedia ao controlo de


correspondência, na central de correio da Praça do Comércio e na estação
de Arroios, em Lisboa, através de quatro agentes, que faziam a triagem
das cartas, depois analisadas, na sede, por um inspector superior. O
próprio Rosa Casaco reconheceu que este «método de trabalho, na parte
reservada, por força das circunstâncias, era nalguns casos pontuais, em
rigor, inconstitucional». Afirmou ainda que a recolha, selecção, análise
e tratamento das informações se processava à «boa maneira portuguesa "em
cima do joelho"» (Nota 2).

Segundo contou o ex-elemento da DGS, Silvestre dos Reis Soares, após o 25


de Abril de 1974, a correspondência era retirada das centrais dos
correios e transportada para a sede da PIDE/DGS, onde pessoa
especializada abria as cartas e fotocopiava o que tinha interesse,
fechando-as e fazendo-as seguir para o destino. Segundo ele, a polícia
dava muito importância à «correspondência do sector intelectual» e
resultava frequentemente da intercepção postal, vigilâncias e prisões
(Nota 3). Nos últimos tempos da DGS, era o ex-inspector Sílvio Mortágua
que tinha a seu cargo a violação das cartas dos CTT, a cuja central, as
ia buscar o agente Orlando Couto Meneses, conforme deu conta o exigente
de l.a classe, Miguel Cadenas Caimoto, após 1974 (Nota 4).

A PIDE também analisava a correspondência separada pelos carteiros, de


acordo com listas de moradas de suspeitos, que aqueles eram obrigados a
entregar aos serviços de fiscalização dos CTT, que depois a remetia à
polícia política. A correspondência suspeita era aberta, lida,
fotocopiada e colocada novamente no envelope, que, depois de fechado, era
devolvido ao circuito de distribuição dos CTT. Ao violarem a
correspondência, os agentes podiam retirar das cartas alguns elementos
pontuais ou fotocopiá-las na íntegra. O material recolhido era
posteriormente arquivado, tanto no dossier da PIDE, referente ao autor da
correspondência, como ao d> seu destinatário, junto a processos em curso
ou canalizado para outros sectores. Por vezes, a carta original era pura
e simplesmente interceptada, sem que o destinatário nunca a recebesse, e
colocada directamente no ficheiro dele ou do remetente, no arquivo da
PIDE/DGS.

Os métodos de abertura da correspondência, em parte empiricamente


aprendidos e em parte transmitidos no curso da CIA, frequentado por
elementos da PIDE, em 1957, consistiam em vários dos seguintes passos.
75

Depois da abertura com vapor, introduzia-se, primeiro, cuidadosamente um


estilete ou a «ponta afilada de uma lapiseira num dos cantos de uma das
dobras laterais do envelope e nunca na de cima onde, em geral, se escreve
o endereço do remetente». Deslocava-se, depois, a «lapiseira, rodando-a
suavemente ao longo da linha de colagem» e abria-se, finalmente, pela
«dobra lateral, evitando rugas» para retirar o conteúdo, o qual era
depois reintroduzido da mesma forma. Os agentes eram aconselhados a terem
o cuidado de que a carta fosse dobrada «pelos vincos originais» e a nunca
abrirem o envelope «pela dobra do remetente porque, se alguma coisa
corresse mal e o destinatário fosse desconfiado», era logo ali que iria
investigar (Nota 5).

Apoiando-se nos serviços dos Correios, a intercepção de correspondência


pela PIDE/DS estava montada com conhecimento a nível ministerial, e
depois oficiada à administração dos CTT, a fim de facilitar o desvio da
correspondência. A PIDE requisitava aos CTT a «correspondência de todos
os locatários de um prédio (para desviar as suspeitas) e escolhia a que
mais lhe interessava ou, numa fase posterior, detectava, por métodos
sofisticados, as cartas ou encomendas dirigidas às pessoas, sobre as
quais recaíam suspeitas nas próprias estações de correio» (Nota 6).

O processo de intercepção de correspondência, por parte da polícia


política, e a cumplicidade da administração dos CTT está amplamente
documentada. Por exemplo, em 1 de Abril de 1948, a PIDE pediu, por
escrito, aos CTT para interceptar as cartas dirigidas a Júlio Pomar e,
através de um ofício de 14 de Agosto de 1951, dirigido ao director da
Administração Geral daquela empresa, solicitou «a fineza de mandar suster
a remessa a esta directoria das correspondências dirigidas» a Francisco
Lyon de Castro. A polícia apreendeu, assim, as cartas enviadas por este
editor ao escritor Jorge Amado, no Brasil, a correspondência para
editoras estrangeiras e para Piteira Santos, bem como livros dirigidos à
editora Europa-América, de obras de André Kedros e John Updike (Nota 7).

Em 26 de Fevereiro de 1953, a PIDE pediu ao chefe de estação dos CTT de


Coimbra que se dignasse «conceder ao portador, agente de 1.° (...) as
facilidades possíveis para o desempenho da missão de que vai incumbido,
referente à Casa dos Estudantes do Império (...)».
76

A frequência com que diversos dirigentes da PIDE, que não o director

dessa polícia, solicitaram aos CTT a intercepção de correspondência,


motivou, por vezes, algum incómodo por parte da administração dessa
empresa. Por exemplo, José Malheiros Sacchetti, chefe da então inspecção
da PIDE de Coimbra, recebeu, da subdirectoria desta polícia do Porto, uma
informação segundo a qual uma determinada mulher recebia, do estrangeiro,
revistas ilustradas, com propaganda subversiva no interior, e que, por
isso, «se impunha a censura da correspondência dirigida a essa pessoa».
Solicitou, por isso, «ao chefe interino da circunscrição de exploração da
Beira Litoral» dos CTT, a respectiva autorização para essa «censura», mas
recebeu um despacho do «Correio-mor, confirmado por delegação de S. Ex.a
o ministro, a lembrar que de futuro conviria que essas requisições fossem
assinadas» pelo director da polícia política (Nota 8).

A nível interno da PIDE, também houve, por vezes, problemas relacionados


com a intercepção de correspondência. Em 1954, a administração geral dos
CTT remeteu à PIDE várias cartas e revistas estrangeiras, destinadas a
Fernando Piteira Santos (Nota 9). Estas foram entregues aos serviços de
Censura dos S.R, (Serviços Reservados) dessa polícia, mas um inspector-
adjunto comunicou a esses serviços que a correspondência dirigida lhe
devia ser directamente entregue (Nota 10).

Houve também casos em que os CTT foram criticados por não estarem a
cumprir na perfeição a sua missão de censura da correspondência. Em 3 de
Junho de 1954, o director da PIDE solicitou ao chefe de estação dos CTT
na Amadora que, no futuro, enviasse «os objectos postais a remeter a esta
directoria para efeitos de verificação», em dois envelopes, «um deles com
a nota confidencial». Em 10 de Maio de 1963, o Ministério da Justiça
enviou ao seu colega de Interior um despacho confidencial, pedindo à PIDE
para averiguar como tinha sido possível os CTT receberem e expedirem
vários telegramas, sem «a assinatura dum remetente responsável»,
dirigidos àquele ministério a protestar contra a prisão do comunista José
Bernardino. Uma semana depois, um inspector-adjunto da PIDE aconselhou,
porém, o ministro da tutela do Interior, a não ferir as susceptibilidades
dos CTT, pois estes tinham «prestado a esta Polícia uma colaboração e um
auxílio dignos de apreço», que julgava não convir fazer correr o risco de
ferir. Acrescentava o inspector-adjunto, que admitia «que o funcionário
de uma estação telegráfica» não se tivesse apercebido «do significado do
texto do referido telegrama, pois não continha assunto sobre o qual os
CTT houvessem dado «instruções para efeitos de expedição ou recusa
desta».
77

Por isso, o caso deveria ser esquecido (Nota 11).

Esta prática de intercepção postal em Portugal foi criticada a nível


internacional. O Diário de Notícias, de 17 de Julho de 1958, inseriu um
artigo, intitulado «Salazar infringe as normas da União Postal
Universal», onde se noticiava que o Comité dos Intelectuais e Artistas
Portugueses Pró-Liberdade de Expressão, com sede no Brasil, acabara de
remeter à União Postal Universal (UPU), com sede em Berna, uma mensagem
de protesto contra a severa censura postal. Entre os signatários do
protesto, contaram-se Adolfo Casais Monteiro, Agostinho da Silva,
Francisco e João Sarmento Pimentel, Fidelino Figueiredo, Rodrigues Lapa,
Maria Archer, Zaluar Nunes e Tomaz Ribeiro Colaço. Consideravam estes que
essa censura de cartas, jornais, telegramas e chamadas telefónicas,
exercida pelo «governo ditatorial de Salazar», transgredia frontalmente
os princípios que a União Postal Universal sempre defendera e que
Portugal se comprometera, de resto, a respeitar. Ora, o governo de
Salazar estava a infringir, nomeadamente, a «liberdade de trânsito»
garantida pelos convénios da UPU em todos os territórios dos seus países
membros (Nota 12).

Acrescente-se, todavia, que os portugueses, regra geral, sabiam que a


correspondência era interceptada e diziam-no frequentemente nas próprias
cartas, de modo a que isso fosse lido pela PIDE. Por exemplo, uma senhora
do Montijo escreveu para uma amiga em S. Tomé: «Parece-me que o destino
(Há quem lhe dê outros nomes), teima em separar a nossa correspondência.
Há que ter paciência! Nós já devíamos ter aprendido a lição.» (Nota 13)

Escutas telefónicas

Segundo escreveu um professor da Escola Técnica da PIDE, na sua sebenta


«Noções de Direito», o «sigilo da correspondência» devia «equiparar-se ao
segredo das comunicações telefónicas», o qual só poderia «ser violado»
quando tal fosse «estritamente indispensável à instrução do processo».
Imagina-se a latitude, para a PIDE, do significado desse adjectivo
«indispensável».
78

Assim como um cargo na intercepção postal era dos mais ambicionados no


seio da PIDE/DGS, a chefia das escutas telefónicas não o era menos (Nota
14).

Com a aparelhagem de segunda geração de escuta, as chamadas dos telefones


eram desviadas para a sede da PIDE/DGS e gravadas, através de um sistema
aperfeiçoado, desde os contactos com a CIA, em 1957. Posteriormente, em
1964, a PIDE adquiriu, através dos serviços secretos franceses
(Renseignements Généraux-SDECE), uma aparelhagem de escuta telefónica
mais sofisticada de terceira geração.

O sistema «Dial», francês, do qual a PIDE/DGS tinha dez aparelhos,


permitia contar os impulsos enviados pelo telefone sob escuta, quando era
marcado o número de chamada. Este era, depois, automaticamente indicado
numa fita de papel, o que possibilitava a identificação posterior do
interlocutor de quem fizera a chamada. Com essa aparelhagem, a PIDE/DGS
tinha possibilidade de escutar cerca de quinhentos telefones em
simultâneo, embora esse número nunca tivesse chegado a ser alcançado,
devido a estrangulamento na transcrição dos textos (Nota 15).

O equipamento de escuta da PIDE/DGS encontrava-se no quarto andar da sua


sede da Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, numa área estritamente
reservada a que só meia dúzia de funcionários tinha acesso. «Os cabos
telefónicos, através dos quais era possível efectuar a intercepção,
estendiam-se dali por umas escassas centenas de metros até à estação dos
TLP da Trindade» (Nota 16).

Directamente dependente dos Serviços de Informação da DGS, dirigidos pelo


director dos mesmos, Álvaro Pereira de Carvalho, o sector da escuta
telefónica era chefiado, nos últimos anos, pelo subinspector Bernardino
da Cunha Azevedo (Nota 17). A PIDE/DGS dispunha, segundo uma fonte, de
uma capacidade máxima de escuta simultânea de cinquenta e seis telefones,
em Lisboa, e de oito, no Porto No entanto, na fase final do regime, teria
tido possibilidade de audição de cerca de setenta a oitenta telefones em
simultâneo (Nota 18).

Raras vezes tendo trabalhado em pleno, o sistema de escutas da PIDE/DGS


era muito importante na recolha de informações. Havia um certo número de
telefones que podiam estar em escuta vinte e quatro horas por dia, sendo
gravadas todas as conversações para esse posto telefónico e a partir
dele. Outros telefones eram escutados, de forma rotineira, de tempos a
tempos e por espaços de horas ou de dias.
79

Para além da escuta «normal», a PIDE/DGS fazia «cerca de onze horas


diárias de busca telefónica, por sondagem, sendo semanalmente actualizado
um ficheiro completo dos assinantes da zona de Lisboa, dispondo de dois
índices (nomes e moradas)». O telefone de uma determinada pessoa era
posto em escuta, para a obtenção de quatro tipos de informações: de
confirmação (ou não) dos motivos da escuta; de complementaridade
relativamente aos motivos da escuta; de definição do perfil humano,
social e psicológico do escutado e, finalmente, de fornecimento de
elementos para chantagem (Nota 19).

Formulário da PIDE/DGS das fichas das escutas telefónicas

Informação biográfica Nome, pseudónimos, nascimento (lugar e data),


filiação, nacionalidade, cônjuge, filhos, outros parentes, religião,
habilitações, idiomas, profissão, serviço militar, detenções, descrição
física.

Informação pessoal e particular Endereços das residências, endereços


dos escritórios, bens móveis e imóveis, criados, restaurantes, barbeiro,
cabeleireira, alfaiate, modista, médico, lojas, igrejas, desportos,
teatros, cinemas, clubes, bares, férias, passatempos, amantes, amigos
pessoais, visitas, sistema de transporte.

Informação política Filiação partidária, grau de convicções políticas,


sociedade ou associações a que pertence, outras informações políticas.

Emprego Posição que ocupa, ordenado e bónus, outros rendimentos,


viagens profissionais, número de telefone, reputação profissional, outras
informações relativas ao emprego.

Informações de controlo Dificuldades com a família, dificuldades no


emprego, bens que aprecia mais, aceitação de espórtulas, informação que
poderá ser usada como chantagem, idem para assustar ou deprimir.

Outras informações

Observações

Contactos

Fonte: Nuno Vasco e Óscar Cardoso, A Bem da Nação, pp. 131 a 136
80

As gravações obtidas eram, por vezes, guardadas nas fitas magnéticas, mas
na maioria dos casos as conversas eram passadas a escrito e seguiam para
o dossier individual de cada um dos interlocutores. Depois, os agentes
dissecavam a conversa, extraindo dela os elementos considerados
necessários, apontados em impressos próprios.

O ex-inspector da DGS, Óscar Cardoso, confirmou que os aparelhos de


escuta da polícia política foram obtidos junto do SDECE (serviços
secretos franceses), mas acrescentou que esses eram os mais antigos. Os
mais recentes, ao serviço da DGS, tinham sido adquiridos junto da CIA,
«dentro do espírito de cooperação de organizações congéneres». Segundo
ele, essa agência secreta norte-americana pediu à polícia portuguesa que
lhe transmitisse as escutas realizadas à representação diplomática de
Cuba em Lisboa. Quanto ao ex-inspector António Rosa Casaco, afirmou que,
pouco antes do 25 de Abril de 1974, a sede da DGS havia recebido
aparelhos novos de escuta, da Siemens (Nota 20).

Óscar Cardoso afirmou que a DGS escutou telefonemas entre militares


envolvidos no MFA e que alguns elementos do regime pediam, por razões
pessoais, para que certos telefones fossem colocados sob escuta. Citou o
caso de um oficial superior, que chegou a comandante da GNR, o qual
solicitou - e teve êxito -, a Álvaro Pereira de Carvalho que o seu
próprio telefone fosse escutado, pois desconfiava da mulher. Óscar
Cardoso negou, porém, que essa polícia tivesse escutado ministérios, o
presidente do Conselho e o presidente da República (Nota 21). O certo é
que, em 24 de Abril de 1974, a DGS tinha sob escuta, entre outros, os
telefones dos militares Francisco da Costa Gomes, António de Spínola,
Melo Antunes, Vasco Lourenço, Pinto Soares, Kaúlza de Arriaga, além de
praticamente todos os telefones dos jornais diários de Lisboa, bem como o
telefone de Manuel Homem de Melo, deputado da ANP (Nota 22). Outros
autores mencionaram ainda que a PIDE/DGS escutou as chamadas telefónicas
de Júlio Botelho Moniz, Viana d. Lemos, do próprio Marcello Caetano, do
marechal Craveiro Lopes e de Cecília Supico Pinto, dirigente do Movimento
Nacional Feminino (MNF), organização que apoiou o esforço de guerra do
regime.

Francisco Craveiro Lopes, que foi presidente da República, foi preterido,


em 1958, como candidato a esse cargo, por Salazar, que preferiu apoiar
Américo Tomás, contra Humberto Delgado.
81

Em Outubro de 1963, a PIDE considerou que Craveiro Lopes estaria


envolvido numa conspiração contra o governo e o subdirector dessa
polícia, Barbieri Cardoso, incumbiu a Brigada Especial de Vigilância
(BEV), chefiada por Agostinho Tienza, de investigar os telefonemas que o
ex-presidente da República, Craveiro Lopes, fazia para casa de um armador
conhecido, em S. João do Estoril.

Tienza montou vigilância ao marechal, tirou fotografias comprometedoras e


gravou conversas com uma determinada senhora. Depois, Barbieri Cardoso
teria ordenado o envio dessas provas ao marido da senhora, que reagiu de
forma violenta junto do marechal, que, por isso, teve um ataque cardíaco
(Nota 23). Esta versão foi transmitida, após 1974, à Comissão de Extinção
da PIDE/DGS, pelo então ex-chefe de brigada, Silvestre dos Reis Soares,
quando estava preso. No seu depoimento em tribunal, em 4 de Julho de
1979, este alegou, porém, que essa declaração anterior havia sido «fruto
de "invenção" e determinada por um estado psíquico anómalo em que se
encontraria devido a graves desinteligências com um superior hierárquico»
(Nota 24).

Quanto à escuta telefónica feita a Cecília Supico Pinto, em 1966, o seu


teor foi transmitido, por Fernando da Silva Pais, chefe da PIDE, ao
próprio Salazar. Em 28 de Janeiro, essa polícia escutou o diálogo dela
com um interlocutor, aspirante a um cargo no Estado, que solicitou «a
intervenção» da dirigente do Movimento Nacional Feminino (MNF). Esta
respondeu que também lhe interessava que ele ocupasse esse lugar «muito
engraçado» e que iria pôr a sua «bateria a trabalhar». Silva Pais
informou Salazar de que se tratava de um indivíduo, incorporado em 11 de
Junho de 1962, na Escola Prática de Aplicação Militar de Angola, em Nova
Lisboa, destinado ao curso de sargentos milicianos, por não reunir as
condições para frequentar o curso de oficiais milicianos, uma vez que não
havia completado o 7.° ano do liceu. Por não convir ser incorporado nessa
qualidade, baixara imediatamente à enfermaria, perdera, assim, a recruta
e passara à situação de licença registada até à incorporação seguinte,
quando se apresentaria em Mafra, após terminar o 7.° ano do liceu.

Em 11 de Abril de 1966, Cecília Supico Pinto foi escutada a telefonar a


um outro interlocutor, ao qual perguntou quanto dinheiro poderia «pedir»
anualmente, provavelmente para o MNF.
82

28/1/66

16,30

O ALBERTO DINIS MOKTA8HA EEBELO entra em contacto com a Cecília Supico


Pinto!

- Pois Cilinha, eu vou-lhe fazer um grande pedido. Como sabe, eu vou sair
daqui...

- Não sabia!

- Nem sei qual a minha situação na tropa, porque Já deixei de vencer por
aqui...

- Ó diabo, isso é indecente!

- Há uma coisa que eu tenho um interesse bestial e, nisso, é que a


Cilinha me pode ajudar...

- Diga

- É que saiu o BATALHA RIBEIRO

- De onde?

- Era o Secretário do Presidente do Conselho...

- Ah, por isso eu não tenho ouvido... então diga-me o seu nome todo

- ALBERTO DINIS MONTANHA REBELO

- E você é formado em quê?

- Não sou formado cá; sou formado lá fora, em organização científica de


trabalho... administração de empresas...

- E onde foi isso?

- Paris.

- Está bem! Eu vou ver isso!

- Fico-lhe muito obrigado e era um sítio muito engraçado!

- E a mim, também me interessa! (Cecília)

- É um pacto, é um pacto! Bu falei com o JOÃO ROCHA, mas ele disse-me que
falou com não sei quem e não sei mais nada...
- Eu vou pôr a minha bateria a trabalhar!

- É um lugar bastante esfomeado em relação ao que se ganha, mas cá fora


podia arranjar...

- Eu vou tentar...

A 28 de Janeiro de 1966 a polícia escutou um diálogo entre a dirigente do


Movimento Nacional Feminino e um interlocutor, aspirante a um cargo no
estado. (ANTT/AOS/CP-208)
83

O interlocutor respondeu que poderia pedir uns sete mil contos e ouviu,
da dirigente do MNF, que estava à espera de uma determinada pessoa, mas
provavelmente um elemento do regime. A resposta do interlocutor foi «esse
senhor é tenebroso, é um fascista da pior espécie!», e Cecília Supico
Pinto concordou com ele (Nota 25). O facto de a PIDE ter escutado
telefonemas desta esposa de um membro do governo e dirigente do MNF
confirma que essa polícia escutava efectivamente elementos do regime,
provavelmente para poder exercer futuras chantagens (Nota 26).

No entanto, como é evidente, a PIDE escutava sobretudo conhecidos


oposicionistas. Por exemplo, em 8 de Outubro de 1965, a PIDE anotou que
terminara naquela data «a escuta que vinha sendo feita na linha acima
indicada, a Alda das Neves Graça Espírito Santo», uma oposicionista
natural de S. Tomé e Príncipe (Nota 27). Em Agosto desse mesmo ano,
cessou também a escuta do telefone de Francisco Lyon de Castro (Nota 28).

Também a ex-presa política Maria Branco foi, por diversas vezes,


escutada. Num dos telefonemas, escutado pela PIDE, um interlocutor
indeterminado perguntou-lhe onde estaria à tarde, pois que ele «tinha de
ir à PIDE tratar daquelas coisas pois já foi avisado». No relatório de um
outro telefonema de um indivíduo «indeterminado» a Maria Branco, a PIDE
sublinhou a vermelho a passagem em que aquele dizia: «Olha, tenho aqui
uma carta da pessoa com quem estivemos em Paris, faz hoje um ano!» (Nota
29) Noutro telefonema para casa de Mário Soares, Maria Branco falou com o
filho deste, que a informou de que o espectáculo, em Leiria, realizado
pela sua mãe, a actriz Maria Barroso, tinha sido um sucesso.

Diga-se que, como é evidente, o telefone da casa de Mário Soares e do


Colégio Moderno, dirigido pela sua mulher, Maria Barroso, também estavam
sob escuta, como se pode ver da transcrição enviada a Silva Pais, de uma
conversa escutada, em 2 de Abril de 1968, de manhã, entre aquele
oposicionista, então em residência fixa na ilha de S. Tomé, e a sua
mulher (Nota 30).

Enviada ao major Silva Pais, foi também uma escuta telefónica, realizada
em 10 de Fevereiro de 1967, relativa a um incidente, na Faculdade de
Letras, durante uma conferência promovida pela Associação Académica, na
qual o professor Paulo Cunha teria sido desrespeitado.
84 e 85

<Reprodução de duas escutas telefónicas: omitida>


86

Trata-se de uma conversa entre duas jovens, onde uma delas contava o
episódio, em que Paulo Cunha reagira contra uma intervenção de

Isabel da Nóbrega, acerca das «mulheres que vão para os chás de caridade,
festas de caridade», sentindo que isso atingia a sua própria mulher
(Maria Amélia Pitta e Cunha, da Secção Auxiliar Feminina da Cruz Vermelha
Portuguesa).

Depois, os estudantes tinham desatado «aos berros» e a mãe de uma das


interlocutoras, Sophia de Mello Breyner Andresen, pedira a palavra,
afirmando que «a caridade é a mais importante das virtudes», mas que «a
caridade não é tentar emendar os males irremediáveis, a começar para que
não haja males, para que não haja aleijados, para que não haja pobres...
caridade sem justiça é impossível»! O discurso fora aplaudidíssimo e,
segundo uma das interlocutoras, «o Paulo Cunha ficou danado». Essa
conversa foi escutada, pois o telefone de Sophia Mello Breyner e
Francisco Sousa Tavares estava sob escuta, ouvindo a PIDE outro
telefonema da própria poetisa, onde esta se referia ao mesmo episódio,
reafirmando que «essas coisas de recuperação (de feridos da guerra) devem
ser feitas pelo Estado e não pela caridade, porque isso é vexar os
feridos!> (Nota 31)

Como se vê, os oposicionistas políticos do Estado Novo sabiam-se


escutados pela polícia quando telefonavam, e, embora nem sempre o fossem,
reagiam como se isso estivesse sempre a acontecer. Os que tinham maiores
responsabilidades políticas não falavam normalmente das suas actividades
pelo telefone mas abriam-se, por vezes escandalosamente, em assuntos da
sua vida íntima. Outros, por exemplo, começavam por dizer ao seu
interlocutor que tivesse cuidado com o que dizia, mas, passado um minuto,
descaíam-se em assuntos confidenciais. A maioria dos oposicionistas
«falava sempre por meias palavras ou por subentendidos - o que era a
melhor forma de chamar a atenção para o leitor da escuta, eventualmente
distraído» (Nota 32).

O rumor, aliás espalhado pela própria PIDE/DGS e, por razões diferentes,


pela oposição ao regime, de que esta polícia era «omnipotente e
omnisciente», porque tinha informadores por todo o lado, interceptava a
correspondência e escutava «todas» as conversas contribuiu para a própria
eficácia da sua actuação. Assim se espalhava, no seio da sociedade
portuguesa, um clima de desconfiança e medo, criado pelo pressentimento
da existência desses mesmos bufos e desses mesmos instrumentos de
vigilância policial.
87

Na realidade, a PIDE/DG obteve mais vantagens ao difundir a suspeita de


que vigiaria um número incalculável de correspondência e de telefones, do
que com a intercepção de cartas e as escutas que efectivamente executava.
(Nota 33)
<Página em branco>
CAPÍTULO 3

OS INFORMADORES DA PIDE-DGS

O informador Bruno dos Santos Cardoso

Manuel Bruno dos Santos Cardoso tinha vinte e três anos quando foi preso,
em 1940, no Porto, acusado de ter participado no crime da rua do
Bonjardim, um acontecimento ocorrido em Maio desse ano, largamente
noticiado pela imprensa. Tratou-se do assassinato do «capitalista»
septuagenário, António de Silva Freitas, por elementos do PCP e alguns
comunistas espanhóis, que tinham assaltado a sua casa para o roubar. Os
autores foram quase todos presos e condenados a pesadíssimas penas de
prisão e degredo, só saindo da cadeia em 1960. Quanto a Bruno dos Santos
Cardoso foi condenado a 10 anos de prisão maior celular, seguida de 20
anos de degredo.

Mais tarde, relatou à PIDE que a pesada pena a que havia sido condenado
se deveu ao facto de ter arcado com todas as responsabilidades do crime
da Rua Bonjardim, para se limpar face aos seus camaradas desafectos ao
regime que suspeitavam da sua colaboração com a polícia. Mas, mesmo
assim, estes camaradas viriam todos a abandoná-lo. Não se sabe se Bruno
dos Santos Cardoso já colaborava então com a PVDE, mas o certo é que, nos
anos 50, passou de facto a ser informador da PIDE, tendo então denunciado
o capitão Henrique Galvão, cujo caminho cruzou, em início de 1953, na
Penitenciária de Lisboa.
90

O capitão Henrique Galvão foi um dos tenentes do 28 de Maio de 1926,


tendo aderido, depois, ao Estado Novo, que, aliás, lhe pagara a
fidelidade, nomeando-o director da Emissora Nacional, logo que esta fora
criada, em 1935. No entanto, Galvão entrou depois em dissidência, quando,
na qualidade de inspector colonial e membro da Assembleia Nacional,
apresentou, em 1947, um relatório sobre uma visita a Angola. Neste,
Galvão confirmava abusos, cometidos no âmbito do Estatuto do Indigenato,
criticando este diploma, por ter instituído o trabalho forçado e as
deportações punitivas para S. Tomé ou para as minas do Transval. Já na
oposição ao governo, Galvão apoiou a candidatura de Quintão de Meireles à
presidência da República, em 1951, redigindo o respectivo programa e,
depois, constituiu a Organização Cívica Nacional (O.C.N.), para derrubar
a ditadura.

O local, onde os conspiradores se encontravam, num prédio da Rua da


Assunção, em Lisboa, passou, porém, a ser vigiado pela PIDE, que
conseguira infiltrar, na O.C.N., o informador António Júlio Borges. Este
convocou os conspiradores para uma reunião, em 7 de Janeiro de 1952, e,
quando estavam reunidos, «por volta do meio-dia», agentes da PIDE
irromperam nessa instalação «como uma praga de gafanhotos, armados de
pistolas e até de pistolas-metralhadoras». Os presentes, entre os quais
se contavam o capitão Henrique Galvão, o brigadeiro António Maia, o
coronel Tadeu, o comandante José Moreira de Campos e o major Pereira de
Macedo, foram presos. Julgado em tribunal militar, Henrique Galvão foi
condenado, em 31 de Março de 1953, a três anos de prisão maior.
Encontrava-se, na Penitenciária de Lisboa, para cuja enfermaria tinha
sido transferido, quando o seu caminho se cruzou com o de Bruno dos
Santos Cardoso.

Através deste último, a PIDE apurou que, em plena Penitenciária de


Lisboa, Henrique Galvão tinha sido o autor «de um pasquim clandestino e
anónimo intitulado "Moreanto"», composto e impresso pelo próprio recluso
Manuel Bruno dos Santos Cardoso, que estava autorizado, para ganhar algum
dinheiro, a fazer sebentas e apontamentos. Segundo o relatório da PIDE,
cerca de treze números do «pasquim Moreanto» tinham sido reproduzidos, em
quinhentos exemplares cada um, na Penitenciária, e uma segunda edição dos
três primeiros números havia sido feita fora dessa cadeia.
91

Depois de impressos, na Penitenciária, os exemplares de «Moreanto» eram


enviados para locais indicados por Henrique Galvão, através de
serventuários da própria cadeia. Estes remetiam-nos, no escritório do
advogado Filipe Mendes, na praça da Alegria, enquanto o médico Abel
Augusto das Neves e o empregado de escritório João Rafael de Almeida
Lourenço se ocupavam da reimpressão e difusão do referido «pasquim», no
exterior. Todos estes foram detidos, em 13 de Setembro de 1954.

Galvão, que entretanto deveria terminar, a 7 de Outubro desse ano, o


cumprimento da pena a que havia sido condenado pelo Tribunal Militar, foi
novamente detido pela PIDE, após ser denunciado, por Bruno Cardoso, e
transferido da Penitenciária para o forte de Caxias. Ao ser interrogado,
Galvão recusou prestar declarações, afirmando que não era «denunciante» e
entrou em greve da fome. Em 30 de Setembro, o seu advogado, Vasco da Gama
Fernandes, pediu o internamento de Galvão, mas a PIDE recusou. No
entanto, estava tão doente que não pôde ser ouvido pelo tribunal, em 11
de Outubro. Nove dias depois, acabou por ser internado no Hospital de
Miguel Bombarda.

No processo do caso «Moreanto», instruído pela PIDE e remetido ao


tribunal, em Março de 1955, foi ainda considerado réu o chefe dos guardas
da Penitenciária de Lisboa, Carlos Alberto Lino, acusado, por guardas, de
ter aceitado dádivas de presos e permitido que Bruno dos Santos Cardoso
recebesse no seu gabinete os clientes que lhe encomendavam trabalhos.
Carlos Lino confirmou este facto, mas defendeu-se da acusação de ter
possibilitado conversas entre Bruno dos Santos Cardoso e Henrique Galvão,
na enfermaria da Penitenciária, alegando que tal não se podia evitar,
tanto mais que os presos políticos, pelas facilidades que a lei lhes
concedia, podiam avistar-se com os outros detidos. Não resistindo à
pressão, este chefe dos guardas acabaria por se suicidar, conforme
contou, mais tarde, Mário Soares. Este deu ainda conta de que «a
«conspiração» - utilizando os serviços da cadeia, onde teve a arte de
descobrir cumplicidades para fabricar manifestos de denúncia dos
escândalos governamentais», de Henrique Galvão foi comentada, por todo o
país, «à boca pequena» (Nota 1).

Não tendo assistido à leitura da sentença, em virtude de estar doente,


Henrique Galvão foi condenado à pesadíssima pena de dezasseis anos de
prisão.
92

Uma pena quase perpétua, pois juntar-se-lhe-ia uma medida de segurança,


que acabou, porém, por não ser cumprida porque Galvão conseguiu
entretanto evadir-se, em 16 de Janeiro de 1959, do Hospital de Santa
Maria, onde estava internado sob prisão. Abrigou-se numa embaixada, de
onde partiu para a Venezuela e, depois, para o Brasil. Continuou a actuar
contra o regime, dirigindo, nomeadamente, em 1961, os assaltos ao paquete
«Santa Maria» e a um avião da TAP, que fazia a rota Casablanca-Lisboa. No
exílio, zangar-se-ia com o seu antigo companheiro de luta, Humberto
Delgado, e acabaria por morrer, em 26 de Junho de 1970.

Quanto a Bruno dos Santos Cardoso começou por tentar tocar a inexistente
veia sensível dessa polícia, ao contar a sua história desde jovem
estudante. Preso, desde 1940, na Penitenciária de Lisboa, havia pedido,
em 1954, a liberdade condicional ao Ministério da Justiça. Este, porém,
não lha concedera porque, segundo Cardoso, teria confundido o crime de
que este estava acusado, com outros dois casos: o assassinato, na ponte
D. Luís, do Porto, de um legionário e de um guarda-fiscal, e o caso de
Cambedo da Raia, onde houvera diversas mortes. Cardoso queixou-se ainda
de que, como era considerado detido «comum», estava na Penitenciária, no
meio de ladrões e assassinos, razão pela qual permanecia sempre na sua
cela, não gozando da hora de recreio, tendo mesmo tentado suicidar-se por
três vezes.

Em 27 de Maio de 1955, já depois de a PIDE ter esclarecido o caso


«Moreanto», Bruno Cardoso dos Santos foi transferido para o Hospital de
Júlio de Matos, a fim de se proceder a um exame às suas faculdades
mentais, mas, no regresso a Caxias, em 24 de Agosto, caiu das escadas,
desmaiando. Após ser conduzido ao Hospital de S. José, onde recuperou,
foi internado na enfermaria do Aljube, onde se tentou suicidar, com a
ingestão de cabeças de fósforos, dissolvidas em leite. Ao longo desse ano
de 1955, Bruno Cardoso dos Santos assinou diversos recibos,
respectivamente no valor de 2.500$00, 3.000$00, 1.820$00 e 8.200$60,
remetidos pela Penitenciária de Lisboa, para Caxias.

Estas quantias podiam estar relacionados com o seu trabalho anterior de


dactilografia e tipografia de sebentas realizado na Penitenciária, mas
outras, que lhe foram entregues pelo director de Caxias e pelo director
adjunto dos Serviços de Investigação da PIDE, de 200$00 e 5.000$00, já
não parecem ter sido retribuições por esse tipo de trabalho, mas sim um
pagamento pelo seu trabalho de colaboração com a polícia.
93

O facto de Bruno Cardoso dos Santos ter colaborado com a PIDE levou a que
recebesse pelo menos uma carta anónima manuscrita, onde era acusado «de
ter atirado para a miséria pessoas» e ter desgraçado diversos
funcionários da Penitenciária, através das suas denúncias. Tanto em
Caxias como no Aljube, continuou a colaborar com a PIDE, como relatou o
preso político José Magro que, no final de 1956, foi colocado na
enfermaria, ao lado de «um bufo conhecido, o Bruno, provindo da
Penitenciária», que fez «propostas insidiosas», alegando querer prestar
«serviços ao Partido» (Nota 2).

Em 24 de Novembro de 1956, Cardoso solicitou a revisão do seu processo,


no sentido de verificar se tinha direito a beneficiar das amnistias de
1945 e 1950, que apenas tinham atingido os presos políticos, argumentando
ele próprio que o seu crime havia sido estritamente político. Acrescentou
que, devido a essa razão, ele deveria ter cumprido a sua sentença em
Peniche, onde a cumpriam os presos políticos, e que isso apenas não
acontecera devido à PIDE ter considerado que esse forte não tinha as
«condições de segurança». O certo é que em vez de ser enviado para
Peniche, a divisão de Investigação da PIDE ordenou, em 26 de Fevereiro de
1957, que fosse internado em estabelecimento psiquiátrico, pois estava em
perigo de vida, devendo, por isso, ser tomadas todas as providências
necessárias, «sem se atender mesmo ao aspecto de segurança».

Em 6 de Março, o Dispensários de Higiene e Profilaxia Mental da capital


emitiu um parecer, segundo o qual ele sofria de «uma reacção psicótica,
de tipo carcerário e etiologicamente relacionado com o largo período de
clausura que tem suportado», pelo que devia ser transferido para um
hospital especializado. Internado, em 23 de Abril, no Hospital de Miguel
Bombarda, recebeu da PIDE, no dia seguinte, 2.500$00, remetidos pela
Penitenciária de Lisboa. Em 13 de Maio, Manuel Bruno dos Santos Cardoso
evadiu-se do pavilhão de segurança daquele hospital, juntamente com outro
internado. Este foi recapturado, mas Cardoso, não.

Em final de Agosto de 1960, a PJ não sabia aparentemente do paradeiro de


Manuel Bruno dos Santos Cardoso, pois solicitou à PIDE uma informação
acerca do seu paradeiro.
94

Esta respondeu que ele estava em parte incerta, o que não era verdade,
pois esta polícia sabia, pelo menos desde Julho de 1959, que ele se
encontrava em França, se é que não tinha sido a própria PIDE a enviá-lo
para esse país. Além disso, esta polícia foi sempre informada acerca de
Bruno Cardoso, pelo seu informador em Toulouse, «Bayonne», que transmitia
informações sobre os exilados portugueses, organizados na Federação dos
Emigrados Portugueses em França (FEPF), entre os quais se contavam Manuel
Valadares, Tomaz Ferreira Rato e Emídio Guerreiro - este último, a viver
precisamente naquela cidade.

Em 1960, a PIDE recebeu da própria polícia francesa um relatório, a dar


conta de que Bruno dos Santos Cardoso vivia em Toulouse, onde frequentava
a École Supérieure du Commerce. Não possuindo quaisquer documentos
portugueses, estava impedido de se inscrever no respectivo Consulado de
Portugal, necessitando de se apresentar como «estudante», para assim
justificar o seu «permis de séjour», junto das autoridades francesas.
Segundo esse relatório, Manuel Bruno Cardoso era considerado uma pessoa
estranha e cheia de contrastes, pois chegara a Toulouse dois anos antes,
andrajosamente vestido, apresentando-se como foragido político, mas,
passados poucos dias, já vestia com certa elegância, alegando ter ganho
dinheiro na lotaria.

O colaborador da PIDE, «Bayonne», também informou que Cardoso declarara


ter estado preso, durante vinte anos, na Penitenciária de Lisboa, onde
havia sido companheiro de presídio do capitão Henrique Galvão, de quem
teria recebido dinheiro, em troca de lhe haver facilitado a fuga em 1959.
No entanto, algum tempo decorrido, Cardoso confessara, à mesma pessoa,
que se sentia arrependido de ter atraiçoado o capitão Galvão e que havia
estado, nos últimos tempos, ao serviço da PIDE.

Devido a estas circunstâncias, o seu «prestígio» entre a colónia


portuguesa de Toulouse estava a decair progressivamente, considerando as
pessoas que ele era «louco», além de que ele próprio dizia já ter estado
internado num hospital psiquiátrico em Portugal. Os operários portugueses
aí emigrados olhavam-no de lado, como indesejável, porque não tinha modo
de vida conhecido, mas possuía dinheiro, deslocava-se numa motocicleta e
empregava o tempo em aventuras amorosas. O próprio informador da PIDE,
responsável por esse relatório, ponderava se Bruno dos Santos Cardoso não
estaria a «receber, do estrangeiro, um subsídio "chorudo"».
95

Noutra informação de 6 de Julho de 1960, também transmitida à PIDE,


Cardoso era novamente referido como tendo ganho a lotaria. Era, pelo
menos, o que ele próprio dizia à jovem francesa com quem queria casar.
Através dessa jovem, uma pessoa relacionada com o informador da PIDE
apurara que a polícia francesa estava a sujeitar Cardoso a uma apertada
vigilância e que esta se tinha «intensificado nos últimos tempos com
fortes pressões vindas de Paris». Não se sabe o que sucedeu
posteriormente a Bruno dos Santos Cardoso.

Mário Mateus, o informador executado

Mesma sorte não teve Mário Mateus, outro informador da PIDE. Em final de
Novembro de 1965, apareceu, numa floresta em Belas, o cadáver de um
homem, noticiando o Diário Popular, de 7 de Dezembro, que a polícia
estava à procura de três indivíduos, responsáveis por esse «crime». O
jornal referia uma nota oficiosa da PIDE, segundo a qual - erradamente -
a vítima seria Manuel José Pires de Carvalho Claro, um elemento da Frente
da Acção Popular (FAP), organização criada em 1964. O cadáver era na
realidade de Mário de Jesus da Silva Mateus, ex-elemento do PCP,
infiltrado, pela polícia política, na FAP, onde usara o pseudónimo
«Evaristo».

Segundo o historial, feito pela própria PIDE, sobre a Frente de Acção


Popular/Comité Marxista-Leninista Português (FAP/CMLP), tinham surgido,
em 1960, graves divergências no CC do PCP, onde um dos dirigentes,
Francisco Martins Rodrigues («Campos»), chegara a qualificar os seus
camaradas de pacifistas, de fazerem uma aliança com a burguesia e traírem
o proletariado. Contra a posição do Secretariado do PCP, que considerava
prematura a via armada, «Campos» defendia o recurso imediato à violência,
para derrubar a ditadura salazarista. Depois, através da declaração
«Defesa da unidade do movimento comunista internacional», datada de 1963,
o PCP alinhara com a URSS, no diferendo com a Albânia e a China, e, de
uma atitude divergente, Martins Rodrigues passara a uma de antagonismo
inconciliável e fora expulso do partido. Abandonou a sua casa ilegal em
Portugal e, radicando-se em Paris, formou uma nova organização, a FAP,
primeiro, e o CMLP, posteriormente.
96

Segundo um relatório do Gabinete Técnico da PIDE, os «comunistas da


tendência do Francisco Martins Rodrigues» eram «menos pacientes e
sobretudo, menos experientes e habilidosos» do que o PCP, preconizando «o
uso da força imediata, a tudo deitando mão para conseguir um derrubamento
rápido, não olhando nem a meios nem a violências». Quanto ao «chamado PCP
reconhecia que por si só não tinha força suficiente para derrubar o
regime vigente e procurava o apoio e a ajuda da "oposição" composta na
sua maioria pelos denominados burgueses-liberais, tomando a posição de
"lobo" disfarçado de "cordeiro" para os não assustar».

A PIDE obteve, desde logo, várias informações sobre a FAP e o CMLP, dos
serviços secretos espanhóis - Dirección General de Seguridad (DGS) - e
franceses - Renseignements Généraux e SDECE (Nota 3). Também de Paris, um
informador da PIDE deu conta da formação, por um tal «Mendes», do CMLP,
cujo «QG» estava situado na redacção do jornal Pekin Information, na
capital francesa. Este informador referiu que, criado por Francisco
Martins Rodrigues («António»), João Pulido Valente, Rui d'Espiney («Hugo»
em Paris), José Capilé («Júlio») e outros, o CMLP estava sediado em Paris
e tinha ainda comités na Bélgica, Suíça e na Argélia.

Quando os principais dirigentes da FAP/CMLP deixaram o exílio para entrar


clandestinamente em Portugal, a PIDE não demorou muito tempo a
desmantelar a organização, prendendo os seus elementos. Em 21 de Outubro
de 1965, foram detidos João Pulido Valente e João Evaristo de Jesus
Martins, seguindo-se, até Dezembro, as prisões de uma dezena de outros
militantes. A prisão de João Pulido Valente ocorreu, quando ele se devia
encontrar com Mário de Jesus da Silva Mateus, em casa deste, junto à
ponte de Entrecampos, em Lisboa. Este estivador de profissão e ex-
militante do PCP, que se tinha infiltrado na FAP/CMLP, à conta da PIDE,
sendo controlado pelo sub-inspector Baptista da Silva e, posteriormente,
pelo chefe de brigada José Gonçalves, que ordenou a detenção de Pulido
Valente.

Os dirigentes da FAP começaram a desconfiar de Mateus, que chegou a ter


um primeiro encontro com Rui d'Espiney, observado pela PIDE. Houve,
posteriormente, um segundo encontro entre os dois, na Rua da Penha de
França (Nota 4), e a PIDE voltou a não deter Rui d'Espiney.
97

Num terceiro encontro, em Belas, Martins Rodrigues e d'Espiney


interrogaram Mateus, que confessou trabalhar para a PIDE e, sujeito a um
julgamento revolucionário sumário, foi condenado à morte e executado.

Sobre o caso Mateus, a PIDE obteve informações, através de um documento,


apreendido ao funcionário do PCP, Álvaro Veiga de Oliveira («Lemos ),
quando este foi preso, em 19 de Dezembro de 1965. Constava aí que o
«morto de Belas teria sido membro clandestino do Partido, donde saiu por
ser expulso por questões de dinheiro». Preso no Aljube, revelara-se
agente da polícia, e, após ter denunciado Pulido Valente, fora morto
«pelos FAPs após julgamento sumário», não sem antes «de lhe esfriarem o
céu da boca» haver «confessado ter ligações com o chefe de brigada
Ferreira Clero». (Nota 5) O assassinato de Mateus foi reivindicado,
aliás, num panfleto intitulado «Avante revolução», de Novembro de 1966,
assinado pelo Comité Comunista Viva o Leninismo, que assinalou a «data
histórica de 26 de Novembro de 1965 em que pela primeira vez funcionou um
tribunal revolucionário» (Nota 6).

Francisco Martins Rodrigues («Campos», no CMLP, e «Armando», na FAP) foi


detido pela PIDE, em 30 de Janeiro de 1966, num encontro com Acácio Pinto
Barata Lima e, por seu turno, Rui d'Espiney e a sua mulher, Ana Rita
d'Espiney, foram presos, em 14 de Fevereiro. Dez dias depois, a imprensa
publicou uma nota oficiosa da PIDE, segundo a qual o crime de Belas havia
sido «um ajuste de contas entre agentes políticos na clandestinidade».
Interrogados pelo inspector Óscar Cardoso, por Sílvio Mortágua e Inácio
Afonso, Francisco Martins Rodrigues e Rui d'Espiney foram sujeitos a
violentas torturas e acabaram por confirmar terem assassinado Mário
Mateus.

A sentença do «crime de Belas» foi lida em 25 de Novembro de 1967, sendo


absolvidos José Manuel Pires de Carvalho Vilar, desenhador, e João
Natividade de Figueiredo, empregado de escritório, acusados de
encobrimento do crime. Ao último tinha ainda sido imputado o facto de ter
guiado a viatura que levara, na noite de 26 de Novembro de 1965,
Francisco Martins Rodrigues e Rui d'Espiney até Belas. Quanto a Francisco
Martins Rodrigues e a Rui d'Espiney foram, respectivamente, condenados a
penas de quinze anos e catorze anos e nove meses de prisão (Nota 7).
98

Em 1970, os dois foram novamente julgados, juntamente com João Pulido


Valente, por serem dirigentes da FAP/CMLP, no tribunal plenário de
Lisboa, presidido pelo juiz Morgado Florindo, que condenou os réus,
defendidos pelos advogados Macaísta Malheiros, Joaquim Mestre e José
Augusto Rocha (Nota 8), em cúmulo jurídico, respectivamente, a penas de
vinte, dezanove e quinze anos de prisão maior e medidas de segurança. Os
três só viriam a ser libertados de Peniche, no dia 27 de Abril de 1974,
na sequência do golpe militar de dois dias antes, tendo o general
Spínola, aliás, recusado a sua libertação, por considerar que o crime de
Belas havia sido comum e não político (Nota 9).

A «cultura» da delação em Portugal

À semelhança de todas as polícias políticas das ditaduras, a PIDE não


necessitava de ser muito aperfeiçoada nas tarefas de informação e de
investigação. Tinha desde logo a sua vida amplamente facilitada pela
utilização de uma ampla rede de informadores anónimos, pagos ou não, em
todos sectores da sociedade. Além disso, contava com a colaboração das
outras polícias, das Forças Armadas, da Legião Portuguesa, e de todas as
estruturas do regime e do aparelho distrital e local.

O inspector da PIDE/DGS, Fernando Gouveia, afirmou abertamente, num livro


de memórias, que a PIDE utilizou informadores, dizendo que nenhuma
polícia podia «dispensá-los» e que era uma hipocrisia «negar a sua
utilidade», qualquer que fosse a opinião sobre a moralidade do
«informador». Segundo Álvaro Pereira de Carvalho, director dos serviços
de Informação da PIDE/DGS, a partir de 1962, entendia-se como informador
«todo o indivíduo ligado ou com acesso a qualquer sector de actividade
politica "identificando-se" por um pseudónimo e que como pagamento do seu
trabalho recebia um ordenado mensal contra recibo».

Havia ainda, segundo Pereira de Carvalho, os chamados «colaboradores


eventuais: os indivíduos que tendo conhecimento de qualquer facto ou
actuação política julgados suspeitos entendiam ser sua obrigação ou
interesse comunicá-los à PIDE». No entanto, também essas informações
assim prestadas podiam ser remuneradas se, depois de estudadas, provassem
ter interesse. No caso de pagamento, este fazia-se contra recibo em nome
falso, ficando nele consignado a designação genérica de «serviços
prestados» (Nota 10).
99

Em Setembro de 1962, provavelmente já com a mão de Álvaro Pereira de


Carvalho, numa circular «secreta» do director da PIDE, Fernando da Silva
Pais admitiu que os portugueses já não tinham tanto medo da polícia
política como seria desejável. Por isso, instruíam-se os serviços dessa
polícia a fazerem renascer esse temor, «que lamentavelmente» se havia
esbatido, procurando melhorar a qualidade das informações em extensão,
profundidade e em nível (Nota 11). Mas, um dos meios de informações
principais da PIDE/DGS era evidentemente o conjunto de informadores (Nota
12), que provieram dos mais variados sectores sociais. Alguns estavam
mesmo muito bem colocados, como por exemplo os infiltrados no meio
estudantil. Se a origem e a classe social da maioria dos informadores era
baixa, a PIDE/DGS não deixou de ter alguns informadores de classes
sociais altas, oficiais militares, indivíduos de profissões liberais e
elementos do regime, entre os quais se contaram governadores civis e
presidentes de autarquias.

Como noutros regimes ditatoriais, a polícia política portuguesa contou


ainda com o apoio voluntário ou involuntário das populações, e isto num
país pequeno onde um clandestino tinha grande dificuldade em passar
despercebido. O facto de haver um grande número de informadores,
infiltrados nos mais diversos sectores durante os longos anos do regime,
e de muitos anónimos escreverem recorrentemente ao Ministério do Interior
e à PIDE, a oferecerem os seus serviços, é revelador de que existia, no
seio da população portuguesa, uma ampla e espalhada cultura de denúncia.
Iva Delgado lembrou que não se deve subestimar, como «auxiliar natural da
PIDE», o «papel das populações», «a impunidade da delação, a vingança de
ódios locais» (Nota 13).

A denúncia não foi, de facto, principalmente motivada por razões


ideológicas mas mais por interesses mesquinhos, como a inveja,
rivalidades ou vontade de exercer um pequeno poder no seio de um
determinado microcosmo. Diga-se que o fenómeno do excesso das denúncias
chegou mesmo a preocupar os governos de Salazar e Caetano, nomeadamente
os ministros do Interior, Trigo de Negreiros, em 1951 (Nota 14), e
Gonçalves Rapazote, em 1971, receosos das consequências que isso poderia
trazer ao apregoado corporativismo do regime.

Pode, assim, dizer-se que devido à longevidade da ditadura portuguesa, a


«cultura» de delação presente na população portuguesa durante tantos anos
marcou de forma duradoura o seu «código genético».
100

Por outro lado, a ampla rede de informadores, cuja quantidade era aliás
exagerada, de forma indirecta, pela própria polícia e até pela oposição
ao regime, contribuiu para espalhar o medo nos portugueses, convencendo-
os de que os olhos da PIDE os vigiavam por todo o lado e que meio país
denunciava outro meio.

Se isso não correspondeu evidentemente à verdade, não deixou de


multiplicar a eficácia do número mais reduzido de denunciantes,
contabilizados como tendo atingido entre dez e quinze mil, no final do
regime (Nota 15). O medo generalizado, e nem sempre justificado, fazia
com que se vissem polícias por todo o lado, porque o «temor da polícia
multiplicava o número de polícias». Da mesma forma, o «medo da delação»
potenciava «a delação, multiplicando-a» (Nota 16).

A força de qualquer polícia política advém menos dos seus efectivos, mas
sobretudo do facto de nas ditaduras se respirar um clima policial, em que
os informadores se multiplicam, a ponto de realizar uma espécie de
«polícia imanente», muito mais poderosa e totalizadora do que as
presenças inquietantes do inspector e do agente. Ou seja, se foi um facto
que essa polícia teve muitos informadores, a principal razão da sua
eficácia foi «o clima de desconfiança criado pelo pressentimento da sua
existência».

António Viseu, um infiltrado no PCP e na extrema-esquerda

António Viseu teve um percurso algo parecido com o de Mário Mateus, dado
que, além de serem ambos estivadores, estiveram os dois ligados ao PCP e
depois à FAP. Nascido em Ponte de Sor, em 1927, Viseu fora detido, pela
primeira vez, em 27 de Julho de 1963, e condenado, em 19 de Março do ano
seguinte, a uma pena de vinte meses de prisão correccional, sendo
libertado em Fevereiro de 1965. Ao ser novamente detido, em 1966, na
estação de Alcântara-Mar em Lisboa, juntamente com Fernando Lopes, a
detenção durou apenas meia hora, após a qual ele se teria desligado do
PCP.

Segundo contou o ex-chefe de brigada da PIDE/DGS, Manuel Lavado, após 25


de Abril de 1974, António Viseu teria então ficado «queimado» no PCP, por
ter sido solto, desconfiando esse partido de que a prisão, nesse ano, da
funcionária clandestina Graciete Casanova, se teria devido a ele.
101

Efectivamente, pouco tempo depois de ter sido detido e solto, Viseu foi
levado, por «Carlos Coxo» (Carlos Arménio de Sousa), outro informador da
PIDE que trabalhava numa companhia de navegação, a um encontro na Igreja
dos Anjos, com o chefe de brigada, José Gonçalves.

Passou depois a encontrar-se regularmente com este, no jardim das


Amoreiras e na esquadra da PSP da Praça da Alegria, prestando
nomeadamente informações sobre as lutas dos estivadores pela constituição
de um sindicato, em relatórios que assinava com os pseudónimos «Moreira»,
«Manuel de Oliveira», «Rio» ou «Manuel Rio» e «Estiva» (Nota 17). A prova
de que recebia dinheiro da polícia política, a troco de informações, está
num recibo, de 30 de Setembro de 1967, no valor de 3000$00, referente a
«informações prestadas»», assinado por «Estiva» e justificado por José
Gonçalves (Nota 18).

Após desligar-se do PCP, Viseu infiltrou-se de imediato na FAP, à qual se


ligou, através de João Marques de Almeida e com o qual fez parte do
«Comité Viva o Comunismo» dessa organização, dirigido pelo engenheiro
Sérgio d'Espiney, irmão de Rui. No resumo do processo, instruído pela
PIDE, assinado pelo inspector Abílio Pires, com a data de 15 de Dezembro
de 1967, afirmava-se que António Viseu, com o pseudónimo «Chico» na
FAP/CMLP, havia dado «à noite» - expressão usada pelo ex-chefe de brigada
da PIDE/DGS Manuel Lavado, para se referir a «denúncia» -, Marques de
Almeida e Sérgio d'Espiney, presos e condenados, respectivamente, a dois
anos e oito meses e a dois anos de prisão maior, com medidas de
segurança.

Enquanto isso, António Viseu conseguira «fugir» a salto, para França, num
período em que a FAP/CMLP no interior de Portugal estava praticamente
desmantelada. Mais tarde, António Viseu regressaria a Portugal, ligando-
se de novo ao PCP, através do alfaiate Joaquim de Sousa Duarte, natural
da Marinha Grande, com o qual havia estado preso, em 1963. Este último e
José Guerreiro Drago, outro elemento do PCP recém-libertado da cadeia,
após ter estado preso entre 1964 e 1969, foram ambos detidos, em 20 de
Maio de 1971, na alameda Afonso Henriques, em Lisboa, por denúncia de
Viseu (Nota 19). Joaquim de Sousa Duarte foi solto condicionalmente em 15
de Abril de 1972, mas José Drago, natural de Mértola, foi condenado a 5
anos de prisão maior, só saindo em liberdade, devido ao golpe militar de
25 de Abril de 1974.
102

Após ser detido às ordens do MFA, o ex-chefe de brigada da PIDE/DGS,


Manuel Lavado, afirmou que, no final do regime, Viseu esteve ainda ligado
ao MRPP, ao PC de Portugal e à facção marxista-leninista (URML), através
do seu trabalho de estivador no Barreiro (Nota 20). Prestou nomeadamente
informações sobre o militante Joaquim Luciano, desta última organização,
onde aliás a DGS também tentou infiltrar outro ex-elemento do PCP,
Francisco Cabedal, da Cova da Piedade, que conhecia, aliás, António Viseu
(Nota 21).

1961: Um ano de «desastres» do PCP

O principal adversário e alvo da PIDE, até ao final dos anos 60, foi o
PCP, no seio do qual essa polícia tinha vários informadores, que usavam
pseudónimos. «Joaquim» era o pseudónimo de um empregado do Comissariado
do Desemprego, que cedia a sua casa para reuniões do PCP, até ficar
«queimado» junto do partido, depois da detenção dos funcionários
comunistas José Bernardino, José Magro e Manuel Estanqueiro Nunes.

A detenção destes três elementos, num encontro partidário em S. Domingos


de Rana, em 24 de Maio de 1962, terá sido, porém, da responsabilidade de
outro informador da PIDE, Lázaro do Carmo Viegas («Madeira», pseudónimo
usado no PCP). Este último, que transportou, aliás, José Magro para esse
encontro partidário, tinha sido detectado, num encontro clandestino, com
outro «colaborador» da PIDE, José Maria de Jesus, na Av. 24 de Julho.
Mais tarde, detido pelo chefe de brigada José Gonçalves, em Cacilhas, que
o interrogara, Carmo Viegas afirmara trabalhar para a PIDE e ser
controlado pelo posto de Setúbal, pelo que fora libertado. O chefe de
brigada José Gonçalves passou depois a controlá-lo, encontrando-se
habitualmente com ele, numa ruela junto aos 4 caminhos da auto-estrada
Lisboa-Sintra (Nota 22).

Em 1961, Lázaro do Carmo Viegas transportou, na sua viatura Fiat, o


funcionário comunista Francisco Canais Rocha, para um encontro
clandestino com Octávio Pato, na Av. das Descobertas, em Belém. Este
conduzia então um automóvel Taunus, emprestado por um simpatizante do
PCP, cuja matrícula ficou na posse da PIDE, dado que esse encontro foi
presenciado pelo subinspector Baptista da Silva e pelo chefe-de-brigada,
José Gonçalves.
103

Ao indagar a quem pertencia o Taunus, a PIDE apurou que o seu


proprietário morava perto da Rua de S. Bento, onde Baptista da Silva e
José Gonçalves montaram vigilância (Nota 23). Na sequência dessa
localização, foram detidos, em final de 1961, alguns dos principais
dirigente do PCP, no que foi considerado um dos maiores «desastres» da
vida desse partido.

Octávio Pato foi detido, ao volante de um Anglia, na auto-estrada Lisboa-


Sintra. A PIDE apercebeu-se então de que não era este que conduzia o
Taunus visto por agentes na Rua Castilho, em Lisboa, mas outro dirigente
do PCP, Joaquim Pires Jorge, que por seu turno também foi capturado. A
PIDE prendeu ainda Júlio da Silva Martins e a sua companheira, numa casa
clandestina em Linda-a-Velha, onde o subinspector Baptista da Silva
manteve agentes que detiveram os funcionários comunistas Américo
Gonçalves de Sousa e Carlos Campos Costa.

Nessas capturas, que atingiram brutalmente o PCP, trabalharam duas


brigadas da PIDE, chefiadas pelo já referido subinspector Baptista da
Silva, com os chefes-de-brigada e agentes Ferreira Cleto e Inácio Ribeiro
Ferreira, reforçadas com pessoal da Investigação, chefiado pelo inspector
Gouveia (Nota 24).
<Página em branco>
CAPÍTULO 4

A TORTURA

«Meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras.»

Álvaro Cunhal contou que, da primeira vez em que foi preso, nos anos 30
do século XX, o colocaram algemado no meio de uma roda de agentes, onde
foi espancado a murro, pontapé, cavalo-marinho e com umas grossas tábuas.
Depois, deixaram-no cair, imobilizaram-no no solo, descalçaram-lhe os
sapatos e meias e deram-lhe violentas pancadas nas plantas dos pés.
Quando o levantaram, obrigaram-no a marchar sobre os pés feridos e
inchados, ao mesmo tempo que voltaram a espancá-lo. Isto repetiu-se por
numerosas vezes, durante largo tempo, até que perdeu os sentidos, ficando
cinco dias sem praticamente dar acordo de si (Nota 1).

Na sua segunda prisão, em Maio de 1973, José Lamego foi sujeito a


espancamentos e a dois períodos de «sono», respectivamente, de sete e de
seis dias e noites. Detido pela terceira vez, em finais de Janeiro de
1974, foi então sujeito a dezasseis dias e noites, ininterruptos, de
tortura do «sono», aos quais se sucederam, posteriormente, mais sete dias
e, de novo, mais três dias e noites. Sofreu ainda seis dias de «estátua»,
transformando-se então os seus pés «numas bolas enormes, a pele ficava
muito fina e sensível e as unhas das mãos sangravam». Ao descrever a
privação de sono, contou que se tratava da tortura «mais sofisticada»,
pois se ficava «numa apatia geral, com períodos de lucidez» e ao «fim de
três dias, vinham as alucinações visuais e auditivas» (Nota 2).
106

Ao chegar à presidência do Conselho de Ministros, em 1932, António de


Oliveira Salazar considerou desde logo os «inimigos do Estado Novo» como
«inimigos da Nação», contra os quais e ao serviço da qual - «isto é: a
ordem, do interesse comum e da justiça para todos» - se podia e devia
«usar a força, que realizava, neste caso, a legítima defesa da Pátria»
(sublinhado do próprio texto do «Decálogo»). Ao então jornalista António
Ferro que nesse mesmo ano o entrevistou, interrogando-o acerca dos maus-
tratos exercidos pela polícia política do novo regime, Salazar declarou
que se chegara «à conclusão de que as pessoas maltratadas eram sempre, ou
quase sempre, temíveis bombistas, que se recusavam a confessar, apesar de
todas as habilidades da Polícia, onde tinham escondido as suas armas
criminosas e mortais». Ora, segundo disse o chefe do Estado Novo, «só
depois de (a polícia) empregar esses meios violentos, é que eles se
decid(iam) a dizer a verdade», pelo que Salazar perguntou ao seu
interlocutor, «se a vida de algumas crianças e de algumas pessoas
indefesas não vale bem, não justifica largamente, meia dúzia de safanões
a tempo nessas criaturas sinistras...» (Nota 3).

Nos anos 30 e 40, a Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado (PVDE) -


polícia política do Estado Novo, criada em 1933 - utilizou sobretudo as
torturas físicas e os espancamentos, acompanhados da tortura da
«estátua», em que o detido era obrigado a estar de pé ou voltado para a
parede, sem a tocar e de braços estendidos - a posição de «Cristo» -
durante longas horas. Quando o preso se deixava cair, os pontapés
atingiam-no em todas as partes do corpo. De vez em quando, agentes
pegavam na cabeça do preso e batiam-na contra a parede.

Os espancamentos, muito utilizados no tempo da PVDE, nunca cessaram,


sendo posteriormente aplicados, pela Polícia Internacional de Defesa do
Estado (PIDE) - criada em 1945 -, em elementos das classes sociais mais
baixas, nos funcionários do PCP e não só. Hermínio Martins afirmou que,
se no passado «a severidade do tratamento era proporcional à posição
social e à ideologia (os operários comunistas eram os tratados da pior
maneira), houve nos últimos anos do regime «uma aparente igualização»
(Nota 4).
107

Após 1945, o meio de interrogatório eleição da PIDE foi a chamada tortura


do «sono» - ou seja, a privação de dormir durante dias e noites.

Habitualmente, depois de capturado, o preso político era levado, em


Lisboa, para a sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, e depois para
a prisão do Aljube ou para o forte de Caxias. À entrada para a cadeia, o
preso era despido, revistado, sendo-lhe retirados todos os objectos -
como óculos e atacadores - com que se pudesse suicidar ou localizar no
tempo. Não tinha visitas antes dos interrogatórios - ou enquanto a
polícia as proibisse -, não tinha acesso a livros, nem a papel, nem lápis
ou caneta. Era a cela, a parede e a espera...

Quando os interrogatórios não eram realizados no próprio Aljube, os


presos eram conduzidos à noite para o gabinete n.° 70 no 3.° andar da
sede da PIDE, com seis quartos. Nas sessões de tortura, participavam
todos os agentes, e às vezes escriturários, consoante um serviço de
escala («turnos») com a duração de quatro horas. Antes e durante o
interrogatório, as visitas do médico da PIDE/DGS tinham como função
assegurar aos torturadores que o preso tinha condições de saúde que
permitiam a continuação da tortura.

No relato da sua segunda prisão, ocorrida em 1962, Alcino Sousa Ferreira


referiu-se aos novos métodos de tortura usados pela PIDE. Afirmou que,
estudando caso a caso e aplicando a cada um o processo mais adequado, a
PIDE estava então a usar tanto as «amabilidades» como as «violências». No
primeiro caso, cumprimentava os presos, dizendo-lhes «nós não somos
inimigos; todos somos homens e podemos por isso entender-nos», servia
refeições e por vezes café, falava da família, «facilita(va)» visitas e
tentava fazer compromissos «vantajosos» exigindo «pouco» em troca: por
exemplo, «você só dá a casa, ou o pseudónimo ou uma ligação». No segundo
caso, podia haver umas pancadas para começar, seguindo-se-lhes, depois, a
«estátua», os insultos, a «pancada à bruta», a recusa de visitas e
correspondência e a longa incomunicabilidade. Alcino Sousa Ferreira
acrescentou que a polícia considerava «e com razão que desmoralizar o
preso é meio caminho andado para o fazer falar».
108

A «estátua» e o «sono»

Ainda segundo Alcino Ferreira, a PIDE utilizava, no início dos anos 60, a
tortura da «estátua» habitualmente no Aljube, onde a polícia se servia de
uma sala contígua à enfermaria, no último andar, com o chão de
fibrocimento e na qual eram colocados grossos cobertores nas portas, para
abafar o som. De entrada, a PIDE insistia para que o preso ficasse de pé,
mas se este reagisse, permitia-lhe que se sentasse e levantasse, pois o
que lhe interessava era o seu esgotamento, por falta de sono. Na
realidade, segundo acrescentava Alcino, quanto mais à vontade o preso
ficasse, pior era, dado que a fadiga e as crises nervosas só surgiam mais
tarde, mas com consequências mais graves. Em certos casos, quando se
reagia ou se tentava dormir, entrava a «pancada» e, quando o preso estava
esgotado, perguntavam: «queres ver-te livre disto? Fala».

Por outro lado, a polícia falava a cada preso, consoante a sua posição no
PCP e a sua cultura: aos simpatizantes dizia mal dos militantes; a estes
rebaixava os funcionários e a estes a direcção, dizendo a uns e outros
que os outros viviam regaladamente, com mulheres, automóveis e boas
casas. A cada um, a polícia dizia que os outros tinham «falado», pondo na
boca dele o que suspeitava ou conseguira investigar (Nota 5).

A «estátua» foi sendo progressivamente abandonada, não só porque o preso


podia recusar-se a «fazê-la»., atirando-se para o chão, mas também porque
era um meio de tortura que esgotava de forma demasiado rápida o detido.
Já impedir alguém de dormir era mais «fácil», além de que o sofrimento
era mais longo, porque no «sono», um detido «aguentava» mais tempo do que
na «estátua». Houve presos, por exemplo, que permaneceram durante mais de
duas semanas no «sono», o que era impossível na «estátua». Se a «estátua»
implicava o «sono», esta última tortura, que nem sempre implicava a
«estátua», foi o meio de tortura mais utilizado pela PIDE/DGS, e temido
pelos presos políticos, ao longo dos anos.

Em 1961, Octávio Pato foi impedido de dormir durante onze dias e onze
noites, de uma vez, e sete dias e sete noites, noutra, com um pequeno
intervalo de dois ou três dias.
109

Contou que, para impedirem o preso de dormir, os agentes da PIDE batiam


na janela com uma moeda. Isso fazia «um barulho que parece um tiro» e o
preso acordava aos sobressaltos, porque «adormecia de pé, mesmo a andar».
Ele próprio caiu, uma vez, redondamente no chão, o que era uma situação
muito perigosa, porque se batesse com a cabeça na ponta duma secretária,
o preso podia «ter morte imediata» (Nota 6).

Ainda no seu relatório de 1962, Alcino Ferreira avisou que a PIDE estava
a utilizar o que os «americanos» chamavam «interrogatório seguido»,
eufemismo para a tortura do «sono»: vários investigadores revezavam-se,
insistindo no mesmo ou mesmos pontos, muitas vezes aparentemente
insignificantes, durante horas e horas em que o impediam de dormir.
Embora esse processo ainda não estivesse a ser muito usado, por falta de
quadros capazes, a PIDE estava «tentando suprir essa deficiência com um
largo recrutamento de oficiais milicianos para investigadores»,
especializados para cada função.

A polícia política portuguesa começou efectivamente a aperfeiçoar


«cientificamente» os seus métodos de tortura, a partir do final dos anos
50, em contacto com serviços secretos e polícias de outros países,
nomeadamente os norte-americanos. Em 1957, elementos da PIDE assistiram a
cursos ministrados pela agência norte-americana, Central Intelligence
Agency (CIA), que decorreram em Camp Peary, perto de Williamsburg
(Virgínia), sob o nome codificado Isolation (Nota 7).

Depois, no início dos anos 60, a CIA realizou diversas experiências sobre
a «privação sensorial» nos interrogatórios (Nota 8), nas quais a PIDE se
inspirou. Não terá sido certamente uma coincidência o facto de a PIDE ter
utilizado métodos idênticos aos apresentados num Manual da CIA de 1963,
que incluía uma secção detalhada sobre «The Coercive Counterintelligence
Interrogation of Resistant Sources», (interrogatório de contra-
inteligência coercivo a fontes resistentes).

Entre as várias «técnicas coercivas», utilizadas de forma combinada, em


correspondência com a personalidade do preso, contavam--se a
«Debilitação», a «Dor» e, sobretudo, a «Privação de estímulos
sensoriais». Para debilitar o detido, sugeria-se o impedimento de dormir
e o fornecimento de refeições de forma irregular, de modo a desorientar o
interrogado e aniquilar a sua vontade de resistir. Quanto à dor,
infligida do exterior, era por vezes contra-producente, pois podia
intensificar a vontade de resistência do detido e, por isso,
aconselhava--se a optar por um tipo de sofrimento que parecia ser
aplicado pelo próprio preso.
110

Era, por exemplo, o caso da tortura da «estátua», em que o facto de o


indivíduo ser obrigado a permanecer de pé dava a ideia que a fonte da dor
não era o carrasco, mas a própria vítima (Nota 9). Na importante secção
«Privação de estímulos sensoriais», a CIA aconselhava a submissão do
prisioneiro ao «isolamento prolongado». Segundo o Manual, «a privação de
estímulos induz à regressão ao privar o sujeito do contacto com o mundo
exterior» e, ao dar-se-lhe «estímulos calculados durante o
interrogatório» o sujeito «regredido» tem tendência para encarar o
interrogador, que vem quebrar esse isolamento, «como uma figura
paternal». Daí, resultava a quebra da sua resistência (Nota 10).

O isolamento

Em Portugal, a polícia política recorreu aos espancamentos e a outras


agressões dolorosas, mas também precisamente à privação da mobilidade, na
«estátua», do descanso, na «tortura do sono», e do contacto com o mundo
exterior, através do isolamento. Muitos detidos pela PIDE/DGS referiram
que, após um período de serem sujeitos a violências e à tortura do
«sono», sentiram uma quase felicidade, com o retorno à cela e ao
isolamento. Mas depois, consideraram o isolamento mais difícil de
suportar do que a própria tortura, pois provoca, no indivíduo, um
sentimento permanente de ameaça sem objecto e uma vivência de
despersonalização.

No geral, a incomunicabilidade nas cadeias da PIDE/DGS durava à volta de


dois meses, embora pudesse ir até aos seis meses, com proibição de
livros, revistas e correspondência. Nessa situação, o silêncio tornava-se
insuportável, a imaginação enlouquecia o detido e os fantasmas provocavam
a perda das referências e a destruição da identidade, bem como da vida
civilizada. Isolado na cela, apenas com os seus pensamentos, o
prisioneiro desesperava, ante a expectativa do futuro suplício, ficando
com uma profunda sensação de vazio e desejando voltar a ver qualquer
pessoa, mesmo se esta só podia ser o seu carrasco.

Quando o iam buscar à cela, para uma nova sessão de tortura, o preso
quase experimentava uma sensação de «libertação» e era então que entrava
em cena o chamado torturador «bom», numa situação onde se tornava fácil
ceder e abandonar-se a ele.
111

Muitos torturados testemunharam que o «ponto de ruptura» surge quando o


torcionário pronuncia palavras simpáticas. E quando o indivíduo está
absolutamente só, isolado, desorientado, que ele mais facilmente pode
ceder e submeter-se ao poder do torturador, que representa então a
«ordem» do mundo e penetra no âmago da vítima (Nota 11).

Em 1949, Jaime Serra permaneceu em isolamento completo, na cadeia do


Aljube, durante seis meses, numa cela pequena (2 metros por 1 metro e
meio, sem cama, apenas um bailique que se levantava durante o dia para se
poder passear (Nota 12). Detido no mesmo ano, Álvaro Cunhal contou, mais
tarde, com pleno conhecimento de causa, que a «incomunicabilidade» «era a
pior de todas as torturas». Lembre-se que, no primeiro ano - i.e.,
durante catorze meses (Nota 13) - permaneceu sempre sozinho numa cela,
sem passeios, nem livros, nem jornais, e posteriormente ficou
incomunicável durante dez anos, na Penitenciária de Lisboa e depois em
Peniche (Nota 14).

Ao considerar o isolamento «bastante mais difícil de suportar do que um


espancamento» e «muito mais abalador que a mera violência física», ao
funcionar como um «silencioso, mas implacável demolidor da resistência
moral do preso», J. A. da Silva Marques descreveu a sua própria
experiência, quando foi detido em 1962:

«Sozinho numa cela, sem visibilidade para o exterior, sem nada para
fazer, sem ninguém para conversar, sem nada para ler, sem nada para
escrever, sem horas, sem dias, atravessando as intermináveis horas dos
dias e das noites, o preso no "isolamento" é verdadeiramente um homem só.
Sem tempo e sem espaço, retirado da vida. Como se tivesse sido metido num
buraco, e o mundo continuasse a rodar, passando-lhe por cima ou ao lado.
Antes entre inimigos.»

Uma reacção significativa era a dos presos em «isolamento» chamados a


interrogatório. Como se ansiava dia-a-dia essa chamada. Ir a
interrogatório era como ir ver o que se passava «lá fora». Um regresso ao
mundo. E quando se ouviam no corredor os passos da brigada que vinha
buscar um preso para interrogatório, e ela se dirigia para a cela ao
lado, sentia-se uma amargurada mistura de alívio e frustração.
112

A «sorte» de não ter ido, de não suportar provavelmente novos vexames ou


violências; e o não ter tido a «sorte» de ir, de ir «lá fora».

A defesa do preso contra a acção demolidora do «isolamento» está nas suas


reservas morais e psíquicas. Na capacidade de viver imaginariamente e de
construir um novo mundo físico, um novo quotidiano.

«(...) Poder-se-á dizer que se aprende a viver no "buraco"; mas estando


nele» (Nota 15).

Mulheres torturadas

A partir do início dos anos 60, quando deixaram de ser apenas encaradas
como mulheres de rebeldes e passaram a ser elas próprias consideradas
rebeldes, as mulheres começaram a ser torturadas da mesma forma que os
homens. Segundo contou Alda Nogueira, até à data da sua prisão em 1959,
«por sistema, a Polícia ainda não batia nas mulheres nem as obrigava à
tortura do sono» (Nota 16). No entanto, já dez anos antes, em 1949, Sofia
Ferreira tinha sido espancada com um cassetete e esbofeteada, com tal
violência, que ficou com um derramamento de sangue no olho esquerdo e
perturbações auditivas durante muito tempo (Nota 17). Mais tarde, na sua
segunda prisão, em 1959, foi submetida à «estátua» (Nota 18).

Em Janeiro de 1961, a operária agrícola do Couço, Maria Rosa Viseu, foi


esbofeteada pelas agentes Madalena e Odete, que depois lhe retiraram a
cadeira, pondo-a na «estátua», com os braços elevados à altura dos
ombros. Quando baixava os braços, obrigavam-na a levantá-los, à força de
murros. Ficou assim durante horas, até à segunda noite, quando Madalena e
a colega voltaram à sala, «sempre à porrada» e sem lhe permitirem ir à
casa de banho, para se lavar, deixando-a «toda suja de sangue por baixo,
já toda ferida». Às duas da tarde, apareceram na sala oito «pides», que a
interrogaram até às três horas da manhã. Levaram-na depois a uma sala
onde lhe puseram uma espécie de capacete em metal na cabeça, com duas
lâmpadas colocadas na direcção dos seus olhos. Na quarta noite sem
dormir, foi novamente colocada na «estátua» mas, não se aguentando mais
de pé, Rosa Viseu caiu no chão. Mais tarde, ameaçaram-na de que ficaria
nua e entraram agentes, que lhe levantaram a roupa, embora não a tivessem
despido.
113

Os interrogatórios prosseguiram ainda por mais um dia (Nota 19).

Quanto a Fernanda Paiva Tomás, dirigente do PCP, presa uma segunda vez,
em 1961, quando já era funcionária desse partido, foi também uma das
primeiras mulheres a ser torturada, segundo o padrão da tortura aplicado
aos presos do sexo masculino. Veja-se o seu testemunho:

«Eu própria tenha» uma experiência vivida. Uma primeira experiência de


oitenta horas consecutivas sem dormir, guardada por pides e tratada
constantemente por eles, com o cinismo e a baixeza de que a pide é capaz.
Depois uma segunda experiência. Exactamente do mesmo tipo, mas de noventa
e quatro horas. (...) Também Albertina Diogo presa actualmente no Forte
de Caxias, sofreu durante cinco dias a tortura do sono e foi insultada e
esbofeteada por uma mulher-agente. Seis camponesas do Couço (...) foram
submetidas a estas mesmas torturas durante 3, 4 e mais dias algumas mais
do que uma vez. Foram agredidas por agentes da PIDE que desceram às mais
vis insolências - clima de repressão policial, feroz, de imposições
castradoras e deformantes.» (Nota 20)

Albertina Diogo relatou que uma das coisas que mais a chocou, na PIDE,
foi o facto de, um dia, quando era levada para os interrogatórios, terem
aberto uma porta de uma sala, onde estavam, à sua espera, os seus dois
filhos que viviam com a avó desde os vinte meses de idade. Albertina
Diogo esteve a ser interrogada, entre uma segunda-feira e o sábado
seguinte. Ao quarto dia, as agentes Madalena e Odete deram-lhe tanta
pancada que lhe lesaram um ouvido para sempre. Empurram-na de encontro às
paredes e, como ela protestasse, atiraram-se a ela, «como feras»,
deixando-a «toda marcada, muito congestionada e a deitar sangue de uma
mão». Albertina Diogo relatou o que sofreu:

«O meu estado ia-se agravando e as alucinações sucediam-se. Quando me


punha de pé, o chão começava a balouçar a tal ponto que tinha que me
agarrar às paredes para não cair. (...)
114

No quinto dia de tortura, não sei se de dia se de noite, pois numa sala
fechada, sempre com as luzes acesas, não sabia nunca se era dia se era
noite, incharam-me as pernas e os pés, o que me obrigou a estar descalça
a partir daí. Seguiu-se um mal-estar contínuo, agravado por fortes
tonturas que me levaram a vómitos consecutivos. (...)

Só ao meio-dia é que o Tinoco me autorizaria a voltar para Caxias. Tive


que descer as escadas, descalça, porque os sapatos não me cabiam nos pés
e sempre amparada às paredes» (Nota 21).

Também Natália David, presa em 15 de Dezembro de 1961, foi submetida à


tortura da «estátua», do «sono» e a espancamentos. No entanto, até então,
as torturas de mulheres não se tinham ainda generalizado. O ponto de
ruptura, ou de viragem, foi de facto o ano de 1962, com a prisão, em 27
de Abril desse ano. de várias mulheres do Couço (Nota 22).

Uma delas, Maria Galveias, contou que esteve «onze dias de interrogação»
e, depois, mais seis dias e seis noites, enquanto Maria Madalena
Henriques ficou durante sessenta e seis horas sem dormir e a ser
espancada, ficando com o nariz torto e o corpo cheio de nódoas negras
(Nota 23). Maria da Conceição Figueiredo sofreu quinhentas e sessenta e
cinco horas de tortura do «sono» e foi diversas vezes espancada pela
agente Madalena, que a deixou com «o corpo todo negro e inchado» (Nota
24).

Maria Custódia Chibante, outra mulher do Couço, esteve na sala de


torturas vigiada pela agente Odete, que a tentou persuadir a comer, mas
como ela não o fizesse, esbofeteou-a selvaticamente. Foi rendida pela
agente Assunção, que espancou Custódia, durante toda a noite. Levantando
a saia da presa, espancou-a com o cassetete, a ponto de a deixar toda
negra, da cintura até à curva da perna, e sem quase ver do olho esquerdo,
devido ao inchaço provocado pelas bofetadas. Além de lhe bater na nuca,
em tipo de cutelo, agarrou-a pelo cabelo, que arrancou aos montes, e
forçou-a a andar de um lado para o outro com tanta velocidade, que quando
a largava, ela quase caía.

Ao convencer-se de que não a faria comer, apertou-lhe o nariz com força e


meteu-lhe um copo com leite nos lábios, que depois lhe despejou pela
cara, ao mesmo tempo que continuava a espancá-la. De seguida, Maria
Custódia foi colocada de «estátua» no meio da sala e espancada na nuca,
pela agente Madalena.
115

Ao fim de setenta e cinco horas sem dormir, chegou ao limite das suas
forças físicas, com a sensação de que o coração lhe saltava pela cabeça.
Foram então buscar um colchão imundo, no qual se deitou. No dia seguinte,
tentaram tirar-lhe o colchão, mas como ela não conseguisse suster-se em
pé, os interrogatórios continuaram, com ela sentada. Finalmente, ao verem
que não se recompunha levaram-na para Caxias, em braços, pois não
conseguia andar (Nota 25).

Olímpia Brás, também do Couço, foi colocada numa sala, na sede da PIDE de
Lisboa, onde as agentes Madalena e Assunção começaram a espancá-la, até o
seu braço esquerdo ficar completamente negro. Como não gritasse nem
chorasse, Madalena começou a bater-lhe com a cabeça na parede. Depois,
ficou sentada num banco, no meio da sala, sem se encostar, revezando-se
os agentes, que chegaram a ser vinte, para não a deixarem dormir, durante
horas e horas, com ameaças, insultos e humilhações. Ao fim de três
noites, entrou o inspector Silva Carvalho, avisando-a de que seria
despida se não falasse e, efectivamente, as agentes Madalena e Assunção
deixaram-na nua, batendo-lhe a primeira agente com um cassetete no peito
esquerdo, que ficou negro de repente (Nota 26).

Maria da Conceição Matos

Detida em 21 de Abril de 1965, no Montijo, Maria da Conceição Matos


seguiu nessa noite para a sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso,
onde a submeteram de imediato à tortura do «sono» e a avisaram de que,
enquanto não falasse, não iria «à casa de banho». E assim aconteceu,
ficando nas mãos de Adelino Tinoco e José Luís Inácio Afonso - chefe da
célebre «Brigada do Cavaleiro Branco» (Nota 27). Além de utilizar os
insultos, a tortura do sono e o espancamento, a PIDE foi mais longe,
desnudando-a. Mais tarde, Conceição Matos contou corajosamente a sua
impressionante experiência:

«Acabei por me agachar a um canto. Assim que me dispus a começar...


entraram na sala, de repelão, o Tinoco e o Serra. Levantei-me
imediatamente.

(...) O Tinoco avisou-me de que se sujasse a sala teria de a limpar com a


minha roupa.

(...)
6

Foram-me despindo aos poucos e tentaram obrigar-me a limpar a

porcaria com a minha roupa. Opus-me terminantemente e tiveram eles

que ensopar os excrementos e a urina na minha roupa. O Tinoco provocava-


me da forma mais soez, ofendendo-me na minha dignidade de

mulher. Eu já estava em combinação.

(...)

No último dia em que lá estive (na tortura do «sono»), a dada altura

entrou na sala a Mariette que revezava a colega e disse-me:

- Ainda cá está? Senhor inspector, por que não manda vir a Leninha?
Connosco ela não fala, talvez com ela as coisas se resolvam.

(...)

Entraram mais «pides» na sala e a Madalena foi-me despindo peça

por peça, enquanto me dizia:

- Fala ou não, sua puta?

Fiquei nua. Tentei encobrir-me atrás de uma mesa, mas ela empurrou-me
para o meio dos «pides».

Fiquei sozinha com a Madalena que imediatamente se atirou a mim a


espancar-me brutalmente, à bofetada e ao pontapé. (...)

Bateu-me tanto, tanto, para que eu chorasse, que sem poder parar de rir,
senti as lágrimas correrem-me, enormes, pela cara. Já não era senhora de
mim (...)

O «pide» Serra dava-me socos nos queixos para me obrigar a manter a


cabeça levantada. Erguia-me pelos sovacos e atirava-me com toda a força
para cima de uma cadeira. Fez isso muitas vezes. Eu já estava desvairada.
Então entrou um «pide» com uma folha de papel e, pensando que tinha
atingido o ponto crucial, disse-me: - Assine!

Gritei louca: - Não! Não! N... O último não ficou-me na garganta sufocada
Perdi a respiração. Tiveram de me bater muito na cara para que eu pudesse
respirar. Finalmente entrou um agente com a idade de mais ou menos vinte
anos e começou a cantar o "Treze de Maio". Nunca mais me esqueço!» (Nota
28)

Intensificação e generalização das torturas


A partir de 1965, as violências da PIDE aumentaram em quantidade e
qualidade, generalizando-se. António dos Santos Graça foi sujeito,
durante três meses e vinte e um dias, a bárbaras torturas e espancado.
117

Foi lançado frequentemente ao ar e contra as paredes, fechado numa cela


sem luz e sem cama, onde passou fome, e, numa ocasião em que caiu no
chão, foi obrigado a levantar-se, «com choques eléctricos» (Nota 29).

Ao voltar a ser preso, em 21 de Abril de 1965, com a sua companheira,


Conceição Matos, Domingos Abrantes foi sujeito à tortura do «sono»
durante cerca de onze dias. Chegou a um estado tão «lastimoso», que, para
o manterem acordado, dois agentes tinham de o arrastar, segurando-o pelos
braços, num período em que já estava sem sapatos, porque os pés já não
cabiam neles, devido ao inchaço. Domingos Abrantes relatou que então a
grande novidade «foi a "máquina" que, segundo os PIDEs, consultava o
cérebro das pessoas». Tendo «em conta o estado psicológico do indivíduo
que está preso, que está isolado e há vários dias na tortura do sono»,
acreditou e só mais tarde percebeu que aquilo «era mesmo tanga» e que não
havia nenhuma máquina (Nota 30).

Detida em 1965, sob a acusação de pertencer à FAP/CMLP, Maria José Lopes


da Silva foi submetida à tortura do «sono» e da «estátua», durante sete
dias e sete noites. Os elementos da PIDE, Abílio Pires, Santos Costa,
Varela, Mortágua e outros espancaram-na com uma matraca, quando estava só
de cuecas, e espetaram-lhe um canivete por todo o corpo, batendo-lhe de
tal maneira na boca que a deixaram sem poder comer (Nota 31). Nesses sete
dias, perdeu quinze quilos e os sapatos rebentaram, devido ao inchaço dos
pés. Depois de um período em Caxias, voltou à sede da PIDE, onde ficou
dois dias sem dormir. Depois de estar isolada durante mais de dois meses,
acabou por ser solta, quando os médicos avisaram que estava em risco de
cegar, em consequência da pancada sofrida. Foi condenada a uma pena
suspensa de vinte meses de cadeia (Nota 32).

Álvaro Veiga de Oliveira

Um dos presos, ou o preso, que mais tempo esteve na tortura do «sono» foi
Álvaro Veiga de Oliveira, detido em 20 de Dezembro de 1965 (Nota 33). Ele
próprio relatou as brutalidades a que foi sujeito:

«Torturaram-me durante trinta e sete dias no 3.° andar da António Maria


Cardoso. (...) Primeiro, estive dezassete dias na «estátua», só me
podendo sentar nos curtos períodos das refeições, mas sempre sem sair da
sala dos interrogatórios.
118

Durante esse tempo, espancavam-me, para me manter acordado, inclusive com


um cassetete eléctrico (...). Deixaram-me dormir uma noite (...) e voltei
a ser submetido à tortura do sono por mais dois períodos de dez dias, até
que entrei em coma. (...)

Ao décimo dia de tortura do sono, comecei a ter alucinações terríveis.


(...).

Fiquei com as orelhas inchadas, o canal auditivo completamente tapado e


insensibilizado a ponto de não sentir qualquer dor quando me davam

injecções nas orelhas.

(...) Uma vez, puseram-me a mão num cano de água a ferver e eu não senti
nada, de tão insensível que já estava. (...)

O subdirector Sachetti - que me disse que os 17 dias de estátua eram um


«novo recorde» - e o inspector Tinoco apareciam quase todos os dias,
cerca das quatro da madrugada, aparentemente vindos de boîtes ou outras
paragens do género. (...). Entre os habituais, durante o dia, sempre com
ameaças terríveis, contava-se também o inspector Mortágua (...)» (Nota
34).

Preso em 30 de Janeiro de 1966, acusado de ser dirigente da FAP/CMLP,


Francisco Martins Rodrigues foi ainda brutalmente espancado pelo
inspector José Gonçalves e um grupo de agentes, logo que entrou na sede
da PIDE. Três dias depois, o inspector Mortágua submeteu-o, durante mais
de meia hora, a um espancamento a soco e a pontapé e posteriormente o
agente Inácio Afonso sovou-o e chegou a fazer uma simulação de
fuzilamento, encostando-lhe uma pistola à cabeça. Apenas deu entrada na
cadeia de Caxias, em 15 de Março, pelo que passou um mês e meio fechado
num gabinete da sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso. Esteve então
privado de dormir, durante dois períodos, respectivamente, de sete e oito
dias, intervalados por algumas horas de repouso. Para não o deixarem
dormir, os agentes revezavam-se para obrigá-lo a correr continuamente à
volta do gabinete, à força de pancadas, e, quando caía, exausto, faziam-
no levantar à cacetada (Nota 35).

Em 1966, Mariana Janeiro foi sujeita ao suplício do sono durante dezoito


dias e dezoito noites e espancada de tal forma na cabeça que lhe romperam
a membrana do ouvido esquerdo e, à canelada, rasparam-lhe a pele das
pernas, de «onde corria sangue como se fosse água».
119

Espancada com uma matraca, ficou com o corpo todo negro e «inchada que
nem uma pipa». Deitaram-lhe água pela cabeça, para que não desmaiasse e
levasse mais pancada, fizeram-lhe dar voltas a uma mesa e saltar para
cima das cadeiras (Nota 36). Após ter sido solta, foi novamente presa, em
Julho de 1967, sendo ainda tratada de forma mais violenta, por ser
reincidente. Queimaram-lhe os olhos com fósforos e submeteram-na, de
novo, a treze dias de tortura do «sono». Foi também brutalmente espancada
e, numa ocasião, a agente «Teresa de Braga» deslocou-lhe o braço, com um
murro, deixando-a com tantas dores, que não conseguia parar de gritar
(Nota 37).

A tortura, no final do regime

A partir de final dos anos 60, quando o regime ditatorial estava a viver
os seus últimos tempos, as torturas aumentaram. Em 1971, os Serviços de
Investigação da DGS foram transferidos, da Rua António Cardoso, para o
Reduto Sul do Forte de Caxias e os interrogatórios, antes realizados na
sede da polícia, passaram a ser feitos a cerca de duzentos metros da ala
norte de Caxias, onde os presos estavam encarcerados. Os espancamentos,
com matracas e cavalos-marinhos, voltaram a ser utilizados em grande
escala, especialmente nos casos dos presos mais indefesos socialmente ou
contra os suspeitos da acção armada. Foi então que a duração da tortura
do «sono» atingiu limites indescritíveis, de mais de duas semanas
consecutivas. A privação do sono e à «estátua», novamente utilizada,
juntaram-se o funcionamento de altifalantes, com vozes, gritos e choros,
bem como os choques eléctricos e o uso de drogas estimulantes ou
calmantes (Nota 38).

Terrível foi o caso de José Pedro Soares, preso em 1 de Junho de 1971,


que sofreu um total de oitocentas e vinte horas de interrogatório e vinte
e um dias e noites sem poder dormir, além de ter permanecido isolado,
desde o dia da sua prisão, até 17 de Setembro. A primeira «"sessão" teve
a duração ininterrupta de seis dias e seis noites». Violentamente socado
na barriga tombou no chão, sendo depois pontapeada várias vezes, do que
lhe resultaram ferimentos no nariz e no olho direito.
120

<Reprodução de documento com escala da PIDE para interrogatórios:


omitida>
121

Em seguida, obrigaram-no a permanecer de pé, durante três dias e noites


consecutivas, e como «se tivesse recusado a comer enquanto fosse
torturado, quiseram-lhe introduzir um tubo no estômago para alimentação».

No quinto dia, «foi o director da cadeia quem tomou a iniciativa de


"persuasão" com socos na cara» e como «o preso o insultasse, novo grupo
de agentes entrou na sala para o agredirem a pontapé». Depois de tratado,
foi autorizado a deitar-se e a dormir, mas acordaram-no duas horas e meia
depois e conduziram-no de volta à prisão de Caxias, cerca das 18 horas do
dia 8. Estava terminada a sessão preliminar de «interrogatórios». Dormiu
em Caxias, da noite de 8 para 9 de Junho, e recebeu a visita dos pais,
mas às 16h30 foi reconduzido para Lisboa, para sofrer mais seis dias e
seis noites sem dormir, com períodos vários, sem cadeira para se sentar.

«Perante ameaças várias e incessantes, entre as quais a de lhe darem um


tiro na cabeça», o preso respondeu que eles seriam responsabilizados pelo
que acontecesse, o que foi suficiente para ficar sem cadeira um dia e uma
noite. Ao terceiro dia, os espancamentos recomeçaram e o agente Ricardo
Graça - António Pereira Coelho -, cuspindo na cara do preso, disse-lhe
que lhe faria o mesmo que, havia pouco tempo, fizera a um comunista da
zona de Lisboa: «Dei-lhe 7 tiros, e enquanto estiver nesta polícia
ninguém sai daqui sem se confessar. Para isso me deram uma pistola.»
Interrogatório e pancada prosseguiram até 15 de Julho, dia em que voltou
para Caxias, terminada a segunda fase do «interrogatório».

No dia 24, conduziram-no de novo para a última sala do corredor, onde


Ricardo Graça e outros dois agentes quiseram forçá-lo a comer, agredindo-
o tão selvaticamente que ficou a escorrer sangue de ambas as pernas, da
boca e da cara. Conduziram-no à casa de banho e mandaram-no lavar-se,
após o que, regressado à cela, surgiu o «director da cadeia acompanhado
agora de dois agentes empunhando matracas de borracha», que começaram
logo a bater no preso, deixando-o com a cabeça partida, o pescoço
tumefacto, ambos os braços inchados, com nódoas negras, e com sangue a
jorrar pelo nariz.

Após nova estadia em Caxias, iria começar o último, mais penoso e


prolongado período de sofrimento. «De novo na sala de martírio, os
agentes revezavam-se de três em três horas para não deixarem o preso
dormir» e repetiram-se as cenas de pontapés e socos por todo o corpo,
alternados com beliscões.
122

Foi ainda obrigado a manter a posição de sentido com os braços levantados


à altura dos ombros, os quais, ao baixarem, os agentes procuravam atingir
com pontapés. Ficou «com os braços em estado de não poder sequer fechar
as mãos».

Passados alguns dias entrou o agente «Ricardo Graça» - pseudónimo do


agente António Pereira Coelho -, com outro grupo, e mandou o preso
arregaçar as calças para que todos vissem os ferimentos nas pernas, e
depois puxou de um cavalo-marinho e começou a chicoteá-lo brutalmente. O
preso recusou despir-se e por fim foi forçado a deitar-se no chão
mantendo as pernas levantadas a um palmo do chão sendo chicoteado quando
os pés baixavam. Tinha as costas «inchadas a ponto de ser incapaz de
mover os braços, ambos os olhos ensanguentados, os lábios rebentados, os
restos das calças e da camisa coladas às muitas postelas de sangue que
tinha pelo corpo todo».

Posteriormente voltou a ser chicoteado pelo agente Ricardo Graça e por


mais dois agentes, que utilizaram um chicote de tiras de cabedal
entrançado. De mistura com o que se descreveu, houve ainda escarros na
cara, ofensas pessoais e à família, horas de «estátua» e caprichos vários
dos agentes encarregados de sustentar a vigília: fazer «tombar a cadeira
que o preso por vezes era autorizado a utilizar, bofetadas, torcer de
braços, estrondos feitos de surpresa para evitar que o preso sucumbisse
ao sono, copos de água atirados à cara para o mesmo efeito» (Nota 39).

Outro terrível caso passou-se com Júlio Lopes Freire (Nota 40), preso em
30 de Junho de 1971. Segundo contou, esteve em Caxias sem ser interrogado
até 19 de Julho, dia em que, após a visita com a família, se iniciaram os
interrogatórios. No segundo dia de interrogatório, pelas 21 horas, entrou
na sala o agente Joaquim dos Santos Costa, que, sem lhe fazer qualquer
pergunta, o espancou brutalmente com um chicote, acompanhando a agressão
de joelhadas nos músculos das pernas, que deixaram grandes manchas
negras. Ao regressar à sala, no terceiro dia de manhã, Santos Costa
começou por sorrir, convidando o preso a fazer declarações, após o que
saiu. Voltou mais tarde, espancando-o a murro e pontapé e gritando que o
preso o estava a fazer perder a cabeça.

Ao fim da tarde do dia 21 de Julho, entrou o inspector Manuel Rodrigues


Martins e, durante a noite, aos gritos, um agente com ar dos seus dezoito
anos, que, de braço dado com o preso, começou a andar às voltas na sala,
em passo acelerado, ordenando-lhe que gritasse.
123

Como o preso não o fizesse, de cada vez que este tentava parar, dava-lhe
uma cotovelada no estômago ou no peito que o fazia dobrar. A noite de 21
para 22 de Julho foi uma das piores e, no dia seguinte, foi espancado,
ora «pelo Santos Costa ora pelo pide pequeno».

Na noite desse dia entrou Santos Costa com Martins, Mortágua e outro, que
lhe disse para «falar», pois «não era mais do que uma lesma a lutar
contra um carro de guerra». Na noite de 23 para 24, Freire começou a ver
bichos enormes, na porta de entrada, e «coisas horríveis». Ouviu, depois,
gritos verdadeiros, de uma gravação cujo som era emitido por dois
altifalantes disfarçadamente colocados em duas paredes da cela. Por volta
das 5 horas da manhã, o plástico, o bicho, e os gritos tornaram a sua
situação «verdadeiramente horrível», aumentando as alucinações (Nota 41).

No último ano do regime ditatorial, homens e mulheres acusados de


pertencerem a diversas organizações foram presos e conheceram a crescente
selvajaria e a violência da DGS. Carlos Coutinho, suspeito de pertencer à
ARA, começou a ser torturado às 19 horas do próprio dia em que foi preso,
em 22 de Fevereiro de 1973. Essa primeira etapa durou cerca de cento e
noventa horas ininterruptas, em que foi impedido de dormir, numa sala
onde havia, nas paredes, dois simulacros de vasos para flores, com
emissores escondidos. Logo na primeira noite, os agentes da DGS
revezaram-se e um fazia de «bom» enquanto outro assumia a figura de
«mau». Por volta da meia-noite da terceira noite, já não conseguia
segurar as pálpebras e o número de agentes «maus» aumentou, tal como a
sua crueldade. Coutinho começou a ter alucinações de vários tipos: as
paredes pareciam mover-se e, ao aproximarem-se, tentarem esmagá-lo e, no
lavatório da casa de banho, passou a ver um tufo de vermes negros, que
cresciam e cobriam toda a porcelana. Ouviu ainda gritos de um homem a ser
torturado, pancadas nas paredes, cadeiras a cair, zumbidos, longas
conversas da sua mulher e gritos da filha.

Às vinte e três horas desse terceiro dia, tiraram-lhe a cadeira e


obrigaram-no a fazer a «estátua». Ao fim de sete horas, começou a sentir
os pés muito inchados e dores nas pernas e nos rins, perdendo a noção das
distâncias e esbarrando com as paredes.
124

Essas sete horas foram mais difíceis do que as noites anteriores, porque
os torcionários redobraram de crueldade, andando atrás dele às palmadas e
às patadas no chão, gritando aos ouvidos insultos e obscenidades e,
obrigando-o a andar, umas vezes depressa e outras mais lentamente, aos
berros.

No quinto dia, foi provavelmente drogado, porque, nas três ou quatro


horas que se seguiram, ficou possuído de uma alegria quase delirante e,
logo após o almoço, caiu numa depressão terrível. Também as alucinações
visuais e auditivas se tornaram mais frequentes e, à tarde, houve um
episódio que poderá ter sido um misto de alucinação e montagem, pois
escutou claramente a voz da mulher e o choro da filha. De então até ao
fim da oitava noite, as torturas foram em crescendo apocalíptico, mas,
como ficou com a memória perturbada, não soube o que se passou.

Do sexto, sétimo e do oitavo dias, apenas se recordou das muitas


alucinações, das dores de cabeça, dos zumbidos permanentes nos ouvidos,
da euforia estranha que se seguia ao café, da depressão enorme após o
almoço, duma semi-embriaguez a seguir ao jantar, dos empurrões e abanões
de outros agentes e, particularmente, do espancamento brutal na tarde do
sétimo dia. Uma das dores mais terríveis que sofreu foi causada por água
fria que, na sétima noite, lhe despejaram sobre a cabeça.

Na madrugada da oitava noite, deixaram-no finalmente dormir um bocado, e


na manhã seguinte transportaram-no para a cela, onde dormiu cerca de
quarenta horas. Mas poucos dias após a primeira etapa de torturas,
levaram-no para mais uma, que durou apenas dois dias, mas na qual lhe
tiraram os medicamentos que entretanto o médico lhe dera. Alguns dias
depois, algemado, ameaçado com pistolas e sem saber para onde ia, foi
enviado para o Hospital Júlio de Matos (Nota 42).

O ex-padre Luís Moita foi preso em 27 de Novembro de 1973, por quatro


agentes da DGS. Cerca das 10 horas, foi levado directamente para uma sala
de interrogatórios do reduto sul do forte de Caxias. Menos de meia hora
depois da entrada na prisão, começou o primeiro espancamento: quatro
agentes bateram-lhe ferozmente com matracas (uma delas era de aço em
espiral e as outras três de borracha dura).

Atingiram-no nos ombros, nos braços, nas nádegas e nas coxas, e deram-lhe
murros no estômago e nos intestinos, bofetadas na cara, pontapés e
joelhadas.
125

Cada vez que caía no chão, era obrigado a levantar-se e sovado ainda mais
violentamente. Teve alguns desmaios - sem nunca perder os sentidos por
completo - de modo que lhe atiravam copos de água. Um pouco antes do
meio-dia, suspenderam o espancamento para o almoço.

Após a sessão de fotografias para identificação, foi levado novamente


para a sala onde os agentes se atiraram, de calcanhares, para cima dos
seus pés, dando-lhe pontapés nas pernas, bofetadas e murros. Tão depressa
tremia de frio como sentia imenso calor e, de novo, teve diversos
desmaios, sendo obrigado a deitar-se no chão, para não cair desamparado.
Foi enviado para o reduto norte de Caxias, onde foi visto por uma
enfermeira, e no dia seguinte, por um médico, que lhe receitou um
antibiótico, para prevenir eventuais infecções no corpo.

A meio da tarde foi novamente levado para uma sala no rés-do-chão do


reduto sul, onde teve o segundo espancamento, já não «científico», mas
totalmente descontrolado e muito mais violento: seis agentes com matracas
(de metal, de borracha e de madeira) bateram em todos os pontos do seu
corpo, incluindo a cabeça e a cara. Deram-lhe também murros e bofetadas e
chegaram a atirar-lhe uma mesa para cima. Quando estava por terra,
metiam-lhe a matraca na boca e espezinhavam-lhe a cara. No meio dos
maiores insultos e ameaças de morte, deram-lhe uma almofada e um copo com
um líquido verde, que recusou engolir e voltou para o reduto norte.

No dia 29, depois de ter ido ao médico de manhã, deveria ter voltado ao
reduto sul, mas, ao ver a dificuldade que tinha em mover-se, o guarda
prisional disse ao agente que não podia ir. Passada a hora do jantar,
tomou um calmante e já estava preparado para dormir quando o foram buscar
para a sala de interrogatório, deslocando-se apoiado às paredes. Começou
então «a tortura do sono, numa altura em que não tinha posição possível
para o corpo e em que sentia dores intensas, sobretudo nos braços, nas
pernas e na região lombar».

Passado pouco tempo começou a inchar da cintura para baixo -apesar de


estar quase sem comer, tinha os intestinos muito dilatados e um enorme
inchaço na perna direita até ao joelho, que mal lhe cabia nas calças.
Esse inchaço foi desaparecendo e passou para os pés, ao ponto de Luís
Moita não aguentar os sapatos e passar a andar descalço. Na noite do dia
30 tornou a ser espancado por um agente, com a matraca de aço em espiral,
mas esse terceiro espancamento foi quase insignificante, comparado com os
dois primeiros.
126

Esteve seis dias seguidos na mesma sala de interrogatório, sem nunca


poder lavar-se, mas a tortura do sono durou quatro dias e meio, num total
de cento e catorze horas consecutivas. Embora nunca tivesse alucinações e
apenas algumas perturbações visuais, ficou num estado de imensa
prostração, acompanhado de um progressivo amolecimento da vontade e de um
aniquilamento da personalidade. Além destes seis dias, voltou à sala de
interrogatório mais dez vezes, numa média de seis horas de cada vez.
Esteve durante setenta e oito dias em regime de isolamento, sem recreios,
só escreveu a primeira carta ao fim do oitavo dia e teve a primeira
visita da família após três semanas de prisão (Nota 43).

O objectivo não era fazer «falar» mas sim «calar»

Em 24 de Abril de 1974 (!), um grupo de portugueses entregou uma


exposição ao presidente do Conselho, a protestar contra a «verdadeira
escalada da violência da polícia» que se estava a fazer sentir,
acompanhada «por um total despudor da DGS». Acrescentando que os presos à
ordem desta polícia surgiam com roupas ensanguentadas, rostos cobertos de
equimoses e manifestações de descontrolo nervoso, os signatários
observavam «a coincidência deste agravamento da brutalidade policial com
os problemas atravessados pelo regime e pelo governo» (Nota 44). No dia
seguinte à entrega deste abaixo-assinado, o regime e o governo caíram.

Após 25 de Abril de 1974, o psiquiatra Afonso de Albuquerque analisou as


consequências clínicas dos interrogatórios realizados pela PIDE/DGS,
através de uma amostra de cinquenta pessoas, presas entre 1966 e 1973.
Mencionou as seguintes causas das perturbações detectadas nesses ex-
detidos: o isolamento e despersonalização (50%); a privação de sono
(96%); os espancamentos (46%); a «estátua» (38%), os insultos e as
chantagens (30%), as variações de temperatura (8%); os altifalantes com
gravações (8%) e os choques eléctricos (4%).

Quanto às consequências imediatas da tortura, o psiquiatra observou as


seguintes: as alucinações e o delírio (76%); as perdas do conhecimento
(15%); os edemas dos membros inferiores (10%) e as tentativas de suicídio
(6%).
127

Foram ainda observadas sequelas a médio e longo prazo: falhas de memória


(16%); depressão (16%); insónias (8%); psicoses esquizofrénicas (8%) e
ansiedade, cefaleias, gaguez e dificuldades sexuais, entre outras (30%)
(Nota 45). Ao relatar as torturas da PIDE/DGS em Portugal, Afonso de
Albuquerque afirmou que, para essa polícia, fazer «falar» os presos não
era o mais importante. O que lhe interessava verdadeiramente era a
destruição da personalidade do preso e a criação de um clima de terror em
todo o país através do que contavam as pessoas mais próximas do detido.

Ou seja, a tortura nem sempre - ou quase nunca - tenta fazer «falar»,


servindo sobretudo para fazer «calar», ao encerrar, no mesmo silêncio,
tanto as vítimas como os carrascos, mas também os que encorajam e
programam a sua utilização. Agente de um poder violento, o aparelho
torcionário pretende «não só fazer falar a vítima, mas fazer calar toda a
oposição», instalando a submissão total e a paralisia em todos os que são
governados, bem como desactivando todos os que ele acusa de colocar em
perigo a ordem estabelecida.

O argumento, utilizado por Salazar, em 1932, para justificar a utilização


de «meia dúzia de safanões a tempo» é recorrentemente usado nos regimes
ditatoriais, mas não só, que justificam habitualmente o recurso à tortura
policial como possibilitando o salvamento de vítimas inocentes. Ora, ao
ser detido, em 30 de Junho de 1971, sob suspeita de fazer parte da
organização de luta armada, ARA, o jovem Júlio Lopes Freire (Nota 46) foi
enviado directamente para o forte de Caxias, onde permaneceu, sem ser
interrogado, até 19 de Julho, dia em que, após a visita com a família, se
iniciaram os interrogatórios. Ou seja, só foi interrogado - isto é,
torturado - dezanove dias após a sua detenção, pormenor que é muito
importante, pois deita por terra a justificação de governantes e da
própria polícia segundo a qual ela seria obrigada a torturar, para obter
informações sobre atentados, que possibilitariam os «inocentes» de serem
atingidos.
<Página em branco>
CAPÍTULO 5

JULGAMENTOS POLÍTICOS

Octávio Pato: agredido em pleno tribunal

Em final de 1961, o PCP sofreu uma verdadeira hecatombe, ao perder,


através de várias detenções realizadas pela PIDE, vários dos seus
dirigentes e funcionários. Em 15 de Dezembro, foram presos Júlio da Silva
Martins e a sua companheira, Natália David Campos, Américo Gonçalves de
Sousa e Carlos Campos Costa. No mesmo dia, foi detido Octávio Pato e a
sua companheira, Albina Fernandes.

Natural de Vila Franca de Xira, de uma família da oposição ao regime - o


seu irmão, Carlos Pato, morreria em 26 de Junho de 1950, após 130 horas
de estátua, às mãos da PIDE - Octávio Pato fizera a sua prova de fogo na
luta contra o Estado Novo, ao participar nas greves, em 1944, sendo então
referenciado pela polícia política. Dois anos depois, fora destacado pelo
PCP para ser um dos elementos da direcção do Movimento de Unidade
Democrática Juvenil (MUD Juvenil), cuja criação havia sido decidida no IV
Congresso (II ilegal) do PCP, realizado em 1946, na Lousã. Quando os
membros da Comissão Académica de Lisboa (Nota 1) e da Comissão Central
(CC) desse movimento juvenil - Mário Soares e Francisco Salgado Zenha,
entre outros -foram presos, em 1947, ano de intensa agitação estudantil,
Octávio Pato escapara à detenção, passando à clandestinidade, como
funcionário do Partido Comunista, a que já pertencia desde jovem.
130

Com o pseudónimo «Melo» e «Frazão», ascendera entretanto ao CC e, em


1953, ao Secretariado do PCP, sendo depois reeleito, no V Congresso (III
ilegal) deste partido, em 1957.

Octávio Pato vivera, assim, durante quinze anos em diversas casas


clandestinas, a última das quais em 1961, com Albina Fernandes
(«Rosália»), antes de ser detido. Recolhendo ao Aljube, Octávio Pato foi
sujeito a interrogatórios, durante os seis meses de prisão preventiva em
que permaneceu em isolamento total, mas recusou sempre responder às
perguntas da polícia, indicar a residência e assinar os autos, apesar das
violentas torturas a que foi sujeito. Quanto a Albina Fernandes, teve de
levar os filhos, Isabel, de seis anos, e Rui, de dois anos, para a sua
cela, ficando, por isso, com o sistema nervoso profundamente abalado.
Temendo uma cilada da polícia, permaneceu durante cerca de quinze dias
sem dormir, para estar sempre com os braços por cima deles e impedir,
assim, que os carcereiros os levassem, enquanto descansava (Nota 2).

Mário Soares, advogado de defesa de Octávio Pato, relatou o seu


julgamento, realizado em 17 de Novembro de 1962, «na presença de
observadores jurídicos internacionais», que, devido às «revelações acerca
das torturas praticadas pela PIDE», «marcaria uma data na história do
Plenário Criminal, nessa época presidido pelo juiz Silva Caldeira, de
triste memória!» (Nota 3) Entre as testemunhas de acusação arroladas pela
PIDE, contaram-se, como era habitual, elementos da própria polícia, os
agentes Carlos Varatojo e Cândido Pires, «que assistiram à leitura dos
autos», confirmando que haviam decorrido «sem qualquer forma de pressão».
Na sala do tribunal plenário, Pato denunciou as torturas a que fora
sujeito e tratou o tribunal como «marioneta do fascismo», esclarecendo
que, por isso, não se lhe dirigia. Considerou ainda uma «infâmia o facto
de o despacho de pronúncia do processo, instruído pela PIDE, referir que
ele e a sua companheira, «senhora Albina Fernandes», viviam «como
amantes», esclarecendo que o seu casamento não tinha sido «oficializado
unicamente em consequência directa da perseguição policial».

O próprio Pato narrou depois o seu julgamento, presidido pelo «famigerado


agente da polícia, o juiz Caldeira», onde este e os outros juízes
pretenderam que respondesse às suas perguntas, apenas com «sim» ou «não».
131

Pato recusou, esclarecendo que, como era acusado de ser comunista e


membro da direcção do PCP, queria explicar por que o era, mas os juízes
ordenaram-lhe que se calasse. Quando insistiu várias vezes em querer
prosseguir as suas declarações, o presidente do tribunal chamou os
agentes da PIDE, gritando: «Então não há aqui ninguém? Há aqui agentes ou
não há agentes para expulsar o homem?»

Surgiram então seis agentes dessa polícia que, após uma breve hesitação,
o expulsaram à força do tribunal. Octávio Pato agarrou-se à barra, o que
os obrigou a arrancarem-no dali «à força e à pancada». Agredido a murro e
a pontapé em pleno «tribunal», foi transportado, quase pelo ar, para o
calabouço do Tribunal da Boa-Hora, onde lhe foram comunicar a sentença
que o condenou a oito anos e meio de prisão maior. Devido à sua alegada
«perigosidade», o tribunal sentenciou-os ainda a medidas de segurança de
internamento. Ainda antes de ser violentamente expulso da sala de
audiência, Pato dirigira-se a um dos observadores estrangeiros, Martin
Roland Weyl, delegado da Associação Internacional dos Juristas
Democratas, dizendo-lhe: «Saiba que me enviam para o segredo: "Honra aos
franceses mortos pela liberdade".» (Nota 4)

O certo é que a presença desse jurista francês fez com que o julgamento
tivesse tido larga repercussão fora do país. Foi, aliás, também devido a
essa presença que os agentes da PIDE hesitaram em actuar imediatamente em
resposta às ordens do juiz João António Silva Caldeira (Nota 5). Octávio
Pato apenas foi solto, em 23 de Novembro de 1970, durante a vigência de
Marcello Caetano, devido a uma intensa campanha pela sua libertação e
após ter cumprido nove anos de prisão (Nota 6).

O caso José Bernardino: a «democraticidade» dos julgamentos políticos

Num editorial do jornal situacionista A Voz, de 22 de Maio de 1963, o


articulista contou ter lido, no avião, em que regressava de Itália, um
artigo do diário italiano La Stampa, sobre «Como decorrem em Lisboa os
julgamentos por crimes políticos». Tratava-se de uma entrevista com dois
advogados - um inglês e outro americano -, que tinham assistido a um
julgamento em Portugal, onde narravam «que o acusado, depois condenado a
dois anos e meio de prisão maior, não pôde pronunciar uma palavra até
quase ao fim do debate».
132

Acrescentava a notícia que, a «um sinal do presidente (do Tribunal), dez


homens, vestidos à paisana, avançaram contra o acusado e arrastaram-no
para fora da sala, ferindo-o com cacetes de madeira».

Para provar a «democraticidade» do julgamento, o editorialista de A Voz


observou que o mesmo tinha sido «público», com a assistência de
jornalistas estrangeiros e três advogados - Agostinho Battino, de Roma, o
americano Patrick Halliman e o inglês Ronald Waterhouse. Acrescentou, por
outro lado, que as acusações incluíam o «uso de falsos documentos de
identidade, deserção do Exército e actividades responsáveis como
funcionário do Partido Comunista Português» e que o réu havia confirmado,
sem hesitação, pertencer a esse partido.

Posteriormente, no final da sessão de leitura da sentença, acontecera


«então, e só então, que o réu, voltando-se para o público, disse em altos
gritos: "Abaixo o fascismo. Viva o Partido Comunista", e isto quando os
juízes estavam ainda a sair da sala do Tribunal». «Tendo em conta tal
atitude» - continuava o artigo -, «os guardas presentes na sala agarraram
o réu por um braço para o retirar da sala do Tribunal e o conduzir à
prisão», mas este, «com um gesto espectacular, destinado a impressionar o
público e os jornalistas estrangeiros, começou a resistir aos guardas,
recusando-se a sair da sala». «Os guardas viram-se então», segundo A Voz,
«obrigados a usar da força, arrastando-o para fora da sala, como
aconteceria em qualquer tribunal do Mundo» (Nota 7). Embora o artigo não
mencionasse o nome do elemento alvo desse tratamento, tratou-se
certamente do julgamento de José Manuel Mendonça Bernardino, realizado em
Maio de 1963, num tribunal presidido pelo desembargador Silva Caldeira
(Nota 8). Segundo o relato de um agente da PIDE, que assistiu às
audiências, o acusado afirmou ter sido submetido à tortura do sono
durante nove dias e nove noites, de uma vez, e sete dias e noites, noutra
ocasião. Bernardino disse ainda ter sofrido espancamentos, da parte de
agentes da PIDE, «procurando sem êxito, à força de torturas, ameaças e
promessas ignóbeis» o seu aviltamento (Nota 9). Quando declarou que quase
todos os estudantes teriam vindo depor em sua defesa, o juiz repreendeu-o
e como «teimasse em levar a sua avante», mandou-o recolher ao calabouço.

Ao ouvir tal ordem - continuava o relato do agente da PIDE -, José


Bernardino «começou a dar as vivas do costume» e, entre a assistência
houve uma senhora que, ao ver os agentes levarem o réu, completamente
dominado, para fora da sala de audiências, gritou: «Fascistas.
133

Abaixo o fascismo. Viva o PCP.» «Esta senhora, de nome Marina Mendonça de


Oliveira Dascalos, foi detida por ordem do senhor desembargador»,
enquanto de «entre o resto da assistência somente se ouvia a frase: "Isto
não se faz!".» (Nota 10) O que o relator da PIDE não disse é que houve
pessoas que protestaram, perguntando «faz-se isto?», que os agentes
interpretaram por «fascista».

O que se passou em tribunal deu, aliás, origem a um «inquérito», no seio


da própria PIDE. No relatório conclusivo desse «inquérito», a polícia
política deu conta de que José Bernardino, «durante uma das audiências do
julgamento, dirigiu-se em termos insultuosos e desrespeitosos aos
magistrados e ao tribunal» e, mandado «calar e guardar o respeito devido,
não modificou a sua atitude, provocando escândalo». O juiz presidente
pedira então «a remoção do preso para os calaboiços do tribunal, para
evitar a continuação do desacato». Face à resistência do réu em abandonar
a sala, fora «necessário levá-lo a força, dominando-o, sem que contudo se
tivessem exercido sobre ele violências que se possam qualificar de
agressão».

Tal comportamento era, segundo a PIDE, «insólito em qualquer julgamento


nos nossos tribunais», pelo que tudo indicava que a atitude do réu fora
planeada, «sabendo-se que nenhum tribunal de qualquer país pode admitir
ser insultado e desrespeitado pelos réus sem que o juiz faça retirar da
sala de audiências os indivíduos que assim se comportam» (Nota 11). Veja-
se a semelhança entre o artigo de A Voz e o relatório da PIDE. É que a
imprensa apenas podia publicar, relativamente a essa polícia, as notas
oficiosas da própria PIDE.

Intimidar as testemunhas de Defesa

Casos de intimidação da assistência e intimidação de testemunhas de


defesa, como a que se viu acima, também ocorreram frequentemente, nos
julgamentos políticos, em que as testemunhas de acusação eram
habitualmente elementos da própria PIDE. Por exemplo, no julgamento de
Isaura Silva, realizado em 15 de Julho de 1954, a testemunha de defesa,
Maria Isabel Aboim Inglês, protestou contra a presença de agentes da PIDE
na sala de audiências e, como terminou a discutir com o juiz, este
mandou-a para a prisão, por três dias, «por faltar ao respeito ao
Tribunal».
134

Diga-se também que esse julgamento foi filmado por um elemento da PIDE,
Pedro Duarte, para intimidar as testemunhas de defesa (Nota 12).

Num julgamento, realizado em 1957, o facto de a testemunha de defesa, Ruy


Luís Gomes, ter citado Salazar, segundo o qual «o regime político
português era anti-democrático, anti-liberal, autoritário e
intervencionista», valeu-lhe a remoção à cadeia, por três dias, sob a
acusação de haver proferido «ataques a pessoas do Governo». O advogado de
defesa, Avelino Cunhal, exigiu que ficasse na acta o facto de a
testemunha se haver limitado a reproduzir o que Salazar havia afirmado na
Assembleia Nacional, em 1940, sem intuitos de ofensa pessoal e, pelo
contrário, ter até feito propaganda das «bases doutrinárias dos
governantes». Requereu ainda que a testemunha explicasse a sua ideia, mas
o delegado do Ministério Público disse que ele só o poderia fazer, após o
cumprimento da sanção. Todos os advogados de defesa, Manuel João da Palma
Carlos, Luís Saias, Avelino Fernandes e Avelino Cunhal, renunciaram então
ao seu mandato de defensores, em protesto pelo que acontecera a Ruy Luís
Gomes. No relatório deste julgamento, realizado por dois agentes da PIDE,
estes alertaram a direcção desta polícia para a comparência no julgamento
de mais de cem testemunhas de defesa, «conhecidos inimigos do Regime»,
que formavam «uma espécie de "frente popular", em harmonia com as actuais
directrizes comunistas» (Nota 13).

Quanto à intimidação da assistência veja-se o relato do elemento da PIDE


que assistiu ao julgamento de Jaime Serra e Georgette Ferreira, realizado
em Outubro de 1955. Como a mãe de Serra não lograsse arranjar lugar na
sala, fora convidada a sair, pelo juiz, mas recusara-se, no meio de
«algazarra provocada pela irmã daquele réu», que apelidara os agentes da
polícia que enchiam a sala de «canalhas, bandidos». Por seu turno, Jaime
Serra qualificara o tribunal de «fantoche» e «fascista», gritando que o
governo era «inimigo do povo». A dado momento, a irmã de Serra começara a
gritar, afirmando ter um agente ao seu colo, e o réu, segundo o relator
da PIDE, instara-a a «dar uma bofetada naquele canalha», começando, de
dedo estendido, a contar, um a um, todos os cinquenta agentes presentes.
135

Como Jaime Serra se recusou a sentar-se, após a entrada na sala do juiz,


foi enviado à força para o calabouço do tribunal e agredido pelos agentes
da PIDE, que deram ordem de prisão à irmã do réu. O relator do julgamento
justificou a agressão a Serra por parte do agente Francisco Fernandes,
alegando que este apenas o teria agarrado «por um braço», ao perceber que
ele tentava fugir (Nota 14).

Violência e detenção de réus e de advogados em plena audiência

As agressões e os envios para o calabouço do tribunal de Jaime Serra, em


1955, de Octávio Pato e José Bernardino, em 1962, não foram casos únicos
em julgamentos políticos e não ocorreram apenas no Tribunal Plenário de
Lisboa. Um dos documentos do arquivo de Octávio Pato, apreendido pela
PIDE, quando o deteve, narrava precisamente um julgamento, realizado no
Tribunal Militar Territorial de Lisboa, em 28 de Novembro desse ano. Na
sessão, outro comunista detido, que foi aí julgado por ser acusado de
deserção - provavelmente Domingos Abrantes -, defendeu o PCP e foi
interrompido pelo juiz, com o argumento de que ele não podia aí fazer
«comícios». Ao afirmar que o tribunal lhe negava a defesa e ao responder
às «calúnias» de que estava ao serviço de Moscovo, considerando que
traidores à Pátria eram os «fascistas», foi também expulso da sala de
audiência, pelo juiz militar, que o condenou a três anos e meio de prisão
maior e medida de segurança (Nota 15).

Mais tarde, a detida política Sofia Ferreira contou que os anos 60 e 70


ficaram assinalados, na história dos tribunais do Estado Novo, «pelos
juízes Caldeira e Manso, que mandavam para o calabouço todos os presos
que tentassem fazer a sua defesa em tribunal». Quando «corajosamente
insistiam em desmascarar e denunciar os maus-tratos e as torturas
sofridas na PIDE, e tentavam defender as suas ideias democráticas,
denunciando a política fascista do governo» - relatou Sofia Ferreira - os
«réus» eram arrastados à força e sob espancamento, para o calabouço do
tribunal da Boa-Hora, onde lhes era lida a sentença.

Ela própria não escapou a essa violência e o seu advogado, Manuel João da
Palma Carlos, «foi expulso do tribunal pela sua posição firme de protesto
contra a forma como se processava o julgamento», em 1959 (Nota 16).
136

No tribunal plenário da Boa-Hora, mais uma vez presidido pelo juiz Silva
Caldeira, Manuel João da Palma Carlos pretendeu contestar a acusação e
explicar os objectivos dos partidos comunistas em todo o mundo, mas foi
interrompido, com o argumento de que isso não interessava à defesa dos
réus. À testemunha de acusação, agente Varatojo, da PIDE, o advogado
perguntou se ele podia «explicar ao tribunal quais os fins que o PCP»
visava, mas o juiz repetiu que não era permitido fazer tal pergunta.

Um ano repleto de julgamentos políticos

O ano de 1959, na sequência do «terramoto delgadista», foi abundante em


julgamentos políticos, muitos dos quais devido à exposição de muitos
elementos do PCP, no decorrer das eleições presidenciais do ano anterior.
Segundo um artigo de um jornal francês, provavelmente com dados retirados
do anuário estatístico português de 1959, 3811 pessoas tinham sido
presas, nesse ano, por delito de opinião. Entre os detidos, foram
julgados, por motivos políticos, entre Outubro desse ano e Agosto de
1960, 256 réus, dos quais 203 foram condenados a prisão, o que
representava uma percentagem de 79,3%. Entre estes, 98 tinham sido
sentenciados a 371 anos de prisão, seguidos de 294 anos de medidas de
segurança, ou seja, a 665 anos de prisão. Absolvidos haviam sido 53 réus
e 25 tinham sido condenados com pena suspensa (Nota 17).

Manuel João da Palma Carlos retorquiu então que não continuaria o


interrogatório se não fosse dado esse esclarecimento e o desembargador
ordenou-lhe a saída da bancada da defesa, nomeando Duarte Turras defensor
oficioso da ré. Sofia Ferreira levantou-se para dizer que não prescindia
do seu advogado, sendo-lhe ordenado que se sentasse. Ao ser perguntado
aos réus se queriam dizer algo, Sofia Ferreira afirmou que o julgamento
era «ilegal por não poder ser defendida pelo seu advogado», pelo que o
juiz a mandou recolher ao calabouço, sendo a sessão interrompida.
137

Reaberta a sessão, no dia seguinte, o juiz voltou a perguntar a Sofia se


tinha algo a dizer, respondendo ela afirmativamente e declarando que,
contrariamente à acusação, o PCP não era «uma associação ilícita e
subversiva que pretende derrubar o governo pela violência». Sendo-lhe
ordenado que se calasse, e como desobedecesse, foi novamente expulsa da
sala e enviada para o calabouço, onde lhe leram a sentença que a condenou
a cinco anos e seis meses de prisão maior e medida de segurança (Nota
18).

Em meados de Outubro de 1960, Maria Alda Barbosa Nogueira, acusada de ser


funcionária do PCP, foi julgada no tribunal plenário, também presidido
pelo juiz Silva Caldeira. Como acontecia habitualmente, o julgamento foi
«coberto» por um agente da PIDE, Fernando Gaspar, que depois o relatou,
por escrito. Segundo ele, «antes de lhe ser formulada qualquer pergunta»,
Alda Nogueira começara «a fazer a habitual propaganda comunista
canalizando-a no sentido de mostrar ao tribunal que o "partido" não
visava derrubar o governo por meios violentos» e o magistrado dissera-lhe
que só podia responder às perguntas. Como ela insistisse, o juiz mandara-
a calar.

Ainda segundo o relato da PIDE, as duas testemunhas de acusação, agentes


Paulino e Abílio Pires, poucos minutos ali se conservaram, pois as
perguntas feitas pelo advogado de defesa, Manuel João da Palma Carlos,
foram «consideradas inúteis pelo ajudante do Ministério Público». O
advogado pedira então que a proibição da resposta fosse lavrada em acta e
depois, cada vez que fizera perguntas às testemunhas de defesa, fora
interrompido pelo juiz. De novo, Palma Carlos pedira que ficassem
registadas em acta as alíneas da contestação, sobre as quais não podia
fazer perguntas.

Depois de um pequeno intervalo, Palma Carlos afirmou ao tribunal que,


sempre que voltava ao Plenário, tinha a esperança de que fosse dada,
«tanto aos réus como aos advogados, liberdade suficiente para a defesa»,
porque só assim se poderia fazer justiça, «mas que acabava de ver, pelo
andamento do próprio julgamento, que isso não sucedia». Depois de ser de
novo interrompido pelo desembargador, Palma Carlos disse que era a
segunda vez que ouvia o juiz dirigir-lhe a palavra «inutilidade e que,
como não quisesse ouvir a 3.a vez, nada mais dizia, sentando-se
seguidamente» (Nota 19).
138

Vários outros réus foram expulsos da sala em pleno julgamento e enviados


para o calabouço do Tribunal da Boa-Hora. Aconteceu em 28 de Novembro de
1961, no julgamento de Fernanda Paiva Tomás, depois de ela denunciar as
torturas da PIDE (Nota 20). Ao dirigente comunista, Joaquim Pires Jorge,
após ter feito uma declaração política, o juiz Caldeira ordenou a
evacuação da sala e o envio do réu para o calabouço. Ao ser levado por
seis agentes da PIDE, resistiu e, com a violência, sofreu a quebra de uma
hérnia. Em resultado disso, Pires Jorge, que ficaria preso até Novembro
de 1971, ouviu a sentença que lhe foi aplicada, de dez anos de prisão e
medidas de segurança, numa cela no tribunal da Boa-Hora (Nota 21).

O advogado Francisco Salgado Zenha narrou um episódio passado com um dos


seus constituintes, Joaquim Alves Araújo, mandado recolher, por ordem do
presidente do tribunal, «sob custódia ao calabouço». No recurso que esse
advogado apresentou ao tribunal, informou ter ido visitar o réu ao
calabouço, verificando, «com infinita tristeza», que «tinha sido
barbaramente seviciado». Não só tinha um hematoma extensíssimo que o
impedia de abrir o olho direito, como a fronte, a face e as gengivas
apresentavam lacerações e vestígios de agressões corporais (Nota 22).

Questionado por Zenha, «o mesmo réu, que se encontrava visivelmente em


estado de choque, referiu-lhe que tinha sido espancado a cavalo-marinho e
cassetete». Dirigindo-se aos juízes do tribunal, Zenha disse-lhe que eles
poderiam avaliar a sua emoção, ao ver que esse mesmo «jovem, altivo e
vertical», que havia prestado as suas declarações em tribunal «com
altivez e verticalidade», tivera «uma crise de choro convulsivo, como ser
humano que é, e a quem não podem recusar as necessárias garantias da sua
dignidade» (Nota 23).

Até ao fim do regime, os réus de processos políticos continuaram a ser


expulsos da sala de audiências e enviados para o calabouço do tribunal.
No relato do segundo julgamento dos dirigentes da FAP/CMLP, Francisco
Martins Rodrigues, João Pulido Valente e Rui d'Espiney, o chefe de
brigada da DGS, Silvestre Delgado Luís, informou que, no final, os três
réus voltaram-se para o público e «gesticularam com punhos erguidos»,
gritando palavras de ordem. Dizia ainda essa informação da DGS, que o
magistrado do Ministério Público tinha dado a indicação de que, prevendo-
se comportamento ainda mais reprovável por parte dos réus, na sessão
seguinte estes deveriam aguardar a sentença no calabouço (Nota 24).
139

«Podem V. Exas. julgar como lhes apetecer...»:

Manuel João da Palma Carlos, de advogado de defesa para o banco

dos réus

Manuel João da Palma Carlos já tinha sido ele próprio preso em pleno
tribunal. O julgamento arrastava-se desde princípios de 1957. Eram seis a
ser julgados m Tribunal Plenário de Lisboa, todos dirigentes ou quadros
políticos do Partido Comunista Português - Francisco Miguel, Carlos
Costa, José Vitoriano, Maria Ângela Vidal Campos, Vasco Cabral, Humberto
Lopes. Estavam todos presos em fim de cumprimento de pena, menos Humberto
Lopes, advogado de Santarém, que havia meses respondia em liberdade, sob
fiança.

Patrocinava-os um conjunto de advogados oposicionistas - Heliodoro


Caldeira, Manuel João da Palma Carlos, Luís Saias, Avelino Cunhal, a
maioria tarimbados na defesa, difícil embora sempre graciosa, de presos
políticos, oposicionistas ao regime, como eles.

Finalmente, a 23 de Julho, já o julgamento ia, noite dentro, na nona


sessão, quando se acabavam de ler acórdãos de sentença, verifica-se o que
desde início se previa - todo aquele processo e todo aquele julgamento
tinha em vista apenas um objectivo, que era o de prolongar o tempo de
prisão dos que vinham ali sendo acusados.

O processo fora instruído a partir da apreensão de pequenos papéis


manuscritos que circulavam entre os presos na cadeia de Caxias, o que
levava a PIDE a acusá-los de pertencerem a uma célula clandestina do PCP
dentro da própria cadeia.

Na realidade, o PCP mantinha uma organização dentro das prisões com


elevado nível de estruturação, direcção própria, organização por salas
com responsáveis, sistemas de comunicação interna e com o exterior,
capacidade de imprimir orientações específicas, determinar temas de
debate, organizar planos de fuga, e concretizá-los sempre que possível,
distribuir informação, inclusivamente imprensa, reproduzindo naquelas
condições concretas, quanto à compartimentação, à conspiratividade e à
disciplina, o essencial das normas de funcionamento e dos padrões de
comportamento da organização comunista no exterior da prisão.
140

O problema para a polícia era detectar e recolher dados materiais que


revelassem a existência desta rede orgânica nas cadeias, logo
aproveitados para a aplicação de sanções aos presos e para prolongar os
períodos de detenção.

Em Caxias, um dos guardas mais velhos desconfia de um barulho numa das


casas de banho e procede a uma revista minuciosa, acabando por encontrar
uma série de mensagens que eram aí deixadas pelo Carlos Costa para a
Maria Ângela, então sua companheira. Foi o suficiente para que um novo
processo começasse a ser instruído contra eles, a quem, aproveitando a
oportunidade, associaram os outros.

Humberto Lopes fora julgado e absolvido em 1955, mas, relacionado com


outro processo, só é posto em liberdade sob fiança. Acusavam-no agora de
também pertencer à organização prisional durante o tempo em que estivera
preso; isto porque lhe fora apreendido um documento manuscrito que
explicava a outro camarada seu, também detido e sobre quem impendiam
medidas de segurança, o conteúdo do decreto que as instituía,
aconselhando-o sobre a melhor forma de tratar do assunto e oferecendo o
seu apoio como advogado.

As penas aplicadas são pesadas. Carlos Costa levava dez anos de prisão,
medidas de segurança com internamento até três anos e perda de direitos
políticos por vinte; Francisco Miguel e José Vitoriano iam condenados a
cinco de prisão, até três de medidas de segurança e perda de direitos
políticos por quinze. Maria Ângela, três anos e meio de prisão e igual
período de medidas de segurança perda de direitos políticos.

Mesmo Humberto Lopes ia condenado a dois anos e meio de prisão mais as


restantes medidas, o que significava que deveria regressar à prisão logo
que o julgamento terminasse. Para mais, aquela pena impedia-o de usar o
seu diploma de advogado e exercer a sua profissão.

Manuel João da Palma Carlos, o seu advogado, manifestou de imediato a sua


discordância em relação ao acórdão, declarou ir interpor recurso e
requereu que Humberto Lopes pudesse aguardar a decisão de recurso em
liberdade, pois essa era a sua situação naquele momento.
141

Insurge-se o Ministério Público contra o teor do requerimento, alegando a


perigosidade do réu, logo correspondido pelo juiz, o que levou Palma
Carlos a apresentar novo requerimento instando o tribunal a explicar os
motivos da perigosidade de Humberto Lopes e por que não lhe admitia
caução, se fora essa a situação anterior.

Para o Ministério Público não havia nada a explicar e assim entendia


também o juiz, pelo que o requerimento era, naturalmente, indeferido.
Além disso, entendiam que o assunto não tinha relevância para que
constasse em acta de julgamento.

É então que Palma Carlos dá um murro na mesa, ergue a voz e num tom
exaltado dispara:

- «Podem V. Exas. julgar como lhes apetecer, com prova ou sem prova, mas
o que não podem é deixar de consignar na acta o que na audiência se
passa.»

Para o juiz estas palavras eram injuriosas, faltavam à verdade e ofendiam


o próprio tribunal. Estava dado o tom. De imediato, é levantado um auto
de notícia a Manuel João da Palma Carlos, sendo logo verbalmente
notificado daquela acusação e indicadas como testemunhas dois agentes da
polícia, um da PIDE e outro da PSP, ambos em serviço no tribunal.

Luís Saias, advogado de outros presos no mesmo processo é nomeado


defensor oficioso e Palma Carlos ainda consegue indicar como testemunhas
Pedro Pitta, ao tempo bastonário da Ordem dos Advogados, assim como
Constantino Fernandes e Sá Nogueira, dois conhecidos advogados
oposicionistas, tendo este já sido inclusivamente bastonário.

Saias tenta adiar o julgamento, procedimento possível mesmo em caso de


julgamentos sumários, para que pudessem ser convocadas testemunhas. O
juiz mostra-se inflexível e arrogante, não admitindo nem adiamento nem
testemunhas.

Palma Carlos passava assim de advogado a réu e era-lhe instaurado um


processo sumaríssimo.

Um advogado na mira do regime

O julgamento tinha decorrido até ali cheio de incidentes e num clima de


grande tensão. Avelino Cunhal, defensor de Carlos Costa, ao interrogar a
primeira testemunha ia vendo a cada passo cerceada a sua acção, pelo que,
também em protesto, decide prescindir de todas as testemunhas.
142

Heliodoro Caldeira, advogado de José Vitoriano confrontado com


impedimentos e restrições de toda a ordem, desistia, como protesto, da
representação, invocando total falta de condições e subestabelecendo em
Palma Carlos, que, ao aceitar, propõe o registo em acta dos fundamentos
da ocorrência, o que o juiz recusa, abruptamente.

Nas alegações dos réus, normalmente acusações vigorosas contra o regime,


estes iam sendo ríspida e constantemente interrompidos com o pretexto de
que estavam a atacar as instituições do regime - o governo, a PIDE, o
próprio tribunal, o que constituía um elemento perturbador do que deveria
ser um direito que assistia aos réus. Ia sucedendo assim à medida que
Carlos Costa, Vasco Cabral, Francisco Miguel iam tomando a palavra.

Os advogados protestavam, requeriam novas audições, mas sempre em vão.


Palma Carlos, que era também defensor de Francisco Miguel e de Vasco
Cabral, consegue ainda assim consignar em acta um protesto em que
assinala a falta de liberdade dos seus constituintes no uso da palavra,
mas o tom prepotente de todo o julgamento prosseguia inalterável.

A certa altura, já depois de os réus terem, naquelas condições,


intervindo, tendo sido mandados sentar, levantam-se todos de rompante,
num gesto concertado, com Carlos Costa a dizer alto que faziam um minuto
de silêncio em memória dos dois antifascistas mortos, alusão às mortes
sob tortura de Lemos de Oliveira, de Fafe, e de Manuel da Silva Júnior,
de Viana do Castelo, nas prisões da PIDE no Porto em Fevereiro-Março
desse ano de 1957.

A impertinência, o desassombro e a coragem de Manuel João da Palma Carlos


punham-no na mira do Tribunal Plenário de Lisboa desde há muito. Em 1936,
ainda jovem, Palma Carlos pertencera às várias organizações políticas,
designadamente o Socorro Vermelho Internacional e o Bloco Académico
Antifascista. Estivera por isso preso, entre Março e Dezembro desse ano,
no Forte de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo.

No final da guerra desempenhou um papel fundamental na constituição do


MUD, Movimento de Unidade Democrática, cuja Comissão de juristas
integrou.
143

Recolheu ele próprio amplamente assinaturas a reclamar por eleições


livres, subscreveu inúmeros documentos e petições contra as violências e
arbitrariedade policiais do regime e foi repetidamente advogado de
dezenas de presos políticos.

Num dos julgamentos de Francisco Miguel, no chamado «Processo dos 108»,


tantos eram os réus, tantas foram as dificuldades causadas que quando as
testemunhas de acusação foram instadas, recusou interrogá-las e abandonou
a sala como protesto. Anos mais tarde, em 1956, no julgamento de José
Cipriano e David Ferreira renuncia às procurações verberando s falta de
condições e de isenção do tribunal.

Em Março de 1953 recebe um telefonema de S. Tomé, de Américo do Espírito


Santo, que lhe fala da repressão brutal que a população estava a sofrer
por determinação do governador Carlos Gorgulho. Em escassos dias,
percebendo a gravidade da situação, com muitas dezenas de santomenses a
morrer e sujeitos a humilhações brutais, larga o trabalho que tinha em
mãos e voa para lá, onde durante muitas semanas enfrenta as autoridades
coloniais como advogado do povo.

Os juízes e os procuradores do Tribunal Plenário de Lisboa encontravam no


incidente do julgamento de Humberto Lopes e dos seus companheiros o
pretexto para lhe dar um aperto grande. A sua passagem abrupta de
advogado de defesa a réu significava isso mesmo.

Queriam vergar um advogado que frequentemente suscitava conflitos e


afrontamentos com os juízes e os acusadores, que não se calava, que não
tinha pejo em fazer daquele tribunal um local de combate aberto ao regime
de Salazar e que, para mais, mantinha intensa actividade política de
oposição. Aliás, ao mesmo tempo que tudo isto decorria, Manuel João da
Palma Carlos dispunha-se a ajudar a constituir e a integrar a lista da
Oposição pelo círculo de Lisboa às eleições para a Assembleia Nacional de
Novembro de 1957.

Uma vaga de solidariedade

Era meia noite quando Manuel João da Palma Carlos se torna réu daquele
processo sumaríssimo, por injúrias ao Tribunal.

Humberto Lopes não se contém e desabafa alto - «Este tribunal é uma


merda.» Será imediatamente expulso da sala e mandado conduzir à prisão.
144

Da assistência, a mulher deste, Arminda Lopes, indignada, verbera também


o tribunal e será, por isso, não só expulsa igualmente da sala como
condenada a três dias de prisão.

A sala é evacuada de público, Palma Carlos mandado sentar no banco dos


réus e o julgamento decorre de imediato, com a presença na sala apenas de
agentes da polícia, sendo proferida a sentença quatro horas depois.

Em protesto aberto, prescinde das testemunhas e declina a sua própria


defesa, declarando, cáustico, que o fazia na certeza de que o Tribunal
iria julgar e proferir uma decisão digna das suas tradições. Era a forma
de afirmar que não acreditava na imparcialidade do tribunal nem, por isso
mesmo, na sentença que dali saísse, que, invariavelmente, implicaria a
sua condenação.

Testemunhas ouvidas, só as de acusação, polícias em serviço no tribunal.

Como declinasse a sua própria defesa, o papel de Luís Saias foi


contrariado, mas por indicação expressa de Palma Carlos remeter-se ao
silêncio, que aguentou enquanto pôde.

No entanto, já perto do final, não se conteve e requereu a nulidade do


julgamento. Invocava a capacidade do tribunal, que entendia ter, como
efectivamente tinha, apenas competência para julgar crimes de natureza
política e o que ali se queria julgar era um pretenso delito de injúria.
E invocava também a incapacidade daqueles juízes o fazerem, para além do
levantamento do auto de notícia, pois, segundo eles, eram, eles próprios,
os ofendidos.

Evidentemente que o destino desta diligência foi, mais uma vez, o rotundo
indeferimento.

A sentença era a esperada. O Tribunal concluía provado o carácter


injurioso da frase pronunciada, de que citava apenas a parte inicial -
«V. Exas julgam como lhes apetece, com prova ou sem prova.» O resto era,
evidentemente, omitido, para, descontextualizando, melhor sublinhar o que
queriam forçosamente provar. Mas mais, acrescentam, como agravante, uma
intenção de injuriar «com ostensividade».

E, claro, para compor a decisão, o tribunal acrescentava não poder


considerar, por não dar como provado, o bom comportamento anterior do
réu, referência implícita às suas três passagens anteriores pelas
prisões, por motivos políticos.
145

Em 1936, mas também, ainda que brevemente, em 1946, na sequência de uma


carta quando defendia o Professor Ruy Luís Gomes e em 1949, no rescaldo
da campanha de Norton de Matos.

Assim, Manuel João da Palma Carlos é condenado a sete meses de prisão


correccional e a igual multa a quarenta escudos por dia de condenação,
assim como um ano de privação do exercício da advocacia como medida de
segurança, a cumprir depois da pena de prisão.

Declara então ir interpor recurso para o Tribunal da Relação. São então


arbitradas duas cauções para poder aguardar o desenvolvimento do processo
em liberdade, uma carcerária de quinze mil escudos e outra económica de
20 mil, recolhendo à prisão comum do Limoeiro, até poder prestar caução.

Trinta e cinco mil escudos era uma quantia muito elevada para a época, de
que Palma Carlos não dispunha. Aliás, o tribunal arbitrava assim para
mantê-lo efectivamente preso.

Valeu-lhe no entanto a solidariedade de Luís de Carvalho, um próspero


corretor da Bolsa do Porto, pai do dirigente comunista Guilherme da Costa
Carvalho, ex-estudante, então na clandestinidade, mas que passara já por
seis anos de prisão. Ao meio dia, num intervalo de tempo muito curto, as
fianças conseguiam assim ser depositadas e Palma Carlos saía em
liberdade.

A imprensa internacional, principalmente a brasileira, dá notícia do


facto. Foi o caso do Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, que publicou
um artigo de Prudente de Morais intitulado «O crime de Advogar», ou o
Jornal do Comércio, que trazia já no início de Agosto a manifestação de
solidariedade do Instituto dos Advogados Brasileiros. A revista O
Cruzeiro publica um expressivo artigo de Raquel de Queiroz e como a
censura em Portugal proibisse a circulação desse número da revista, o
artigo foi impresso em folha volante, de que se fizeram 860 mil
exemplares.

Em contrapartida, o que alguma imprensa nacional publicou limitou-se a


reproduzir com maior ou menor pormenor a versão do tribunal, o que levou
Palma Carlos a escrever uma carta aos jornais, explicando a situação e
contextualizando o acontecimento e as circunstâncias em que tudo se
passou, procurando corrigir a versão deturpada dos factos, que era
precisamente o que não interessava ao regime.
146

Todavia, a Ordem dos Advogados manifestou solidariedade com Manuel João


da Palma Carlos. O bastonário, Pedro Pitta, protestou directa e
insistentemente junto do ministro da Justiça, e os Conselhos Superior,
Geral e Distritais de Lisboa, Porto e Coimbra deliberaram prestar toda a
assistência e patrocínio no recurso, o que não viria a ser permitido pelo
governo.

Com o processo a subir ao Supremo Tribunal de Justiça, a sentença seria


aí efectivamente alterada, por maioria, anulando o tempo de prisão e a
medida de interdição do exercício de advocacia, mas mantendo a multa
pecuniária.

Palma Carlos comunica então à Ordem dos Advogados que iria recusar pagar
a multa e se fosse preso, como inevitavelmente sucederia, entraria em
greve de fome. O Conselho Geral da Ordem delibera suportar o pagamento da
multa através do seu Fundo de Reserva, pondo assim fim a este caso da
justiça política salazarista.

Ficava o sobressalto do processo na vida dos seus protagonistas, a


começar por Manuel João da Palma Carlos, que se via cercado, pressionado
e intimidado por levantar a voz num dos principais aparelhos do
salazarismo, assumindo a defesa num sistema que, sob débeis formalidades
e garantias esvaziadas, pretendia recusar aos acusados o direito de
defesa e aos seus defensores impor a improcedência dos actos e o
silêncio.

O processo dos 108

Em meados de 1948 inicia-se no 3.° Juízo do Tribunal Criminal de Lisboa o


julgamento do Processo n.° 14 202. Tratava-se de mais um processo
político, julgado pelo Tribunal Plenário de Lisboa, um tribunal de
excepção, que só na aparência funcionava dentro da estrutura judiciária
do Tribunal Criminal de Lisboa, embora dotado de juízes e procuradores
próprios. O processo começaria a ser instruído pela PIDE, a partir da
prisão, em Ovar, a 30 de Abril de 1947. Um indivíduo levantou suspeitas à
GNR, por transportar duas malas grandes ao desembarcar do comboio na
estação daquela vila. Revistadas as malas, verificou a Guarda conterem
livros, panfletos e jornais clandestinos. Foi de imediato preso e
entregue à PIDE.
147

Tratava-se de um funcionário clandestino do PCP com funções no aparelho


de distribuição da imprensa. A prisão fora, aparentemente, fortuita.
Porém, através dele foi possível chegar a um outro funcionário
clandestino, em casa de quem vivia, cujas funções políticas consistiam em
controlar vários Comités Regionais da zona de Coimbra. Tornou-se então
possível proceder a sucessivas prisões que tocaram seriamente as
organizações partidárias de Coimbra, Figueira da Foz, Lousã, Condeixa,
Alfarelos.

O funcionário inicialmente preso mudara-se para a zona de Coimbra, por


estar a ser perseguido na sua região de origem, o concelho de Coruche,
onde controlava várias organizações do sul do Ribatejo. Também aí se
realizaram bastantes detenções, designadamente em Coruche, no Couço, em
Alpiarça. A organização do PCP na aldeia do Couço, apesar de pertencer ao
concelho de Coruche, estava partidariamente ligada ao Alto Alentejo, o
que permitiu que a acção policial repressiva pudesse, a partir dos
interrogatórios aos elementos que iam sendo detidos, chegar também a
elementos dessa região, efectuar novas prisões e ir devastando a
organização partidária, fazendo aumentar a lista de indivíduos indiciados
e postos à disposição do Tribunal Plenário.

No turbilhão das detenções, tanto iam militantes de base como


simpatizantes, tanto dirigentes locais como funcionários clandestinos. No
sul, no Alentejo, a prisão do funcionário que controlava o Alto Alentejo
levara, depois de 10 dias de tortura de sono, à localização da sua casa,
em Évora. Quando a PIDE procede ao seu assalto, acaba por encontrar lá o
responsável máximo do PCP no sul, Francisco Miguel Duarte, que procedia à
transferência do arquivo clandestino.

Francisco Miguel ainda tenta reagir puxando de uma pistola, envolvendo-se


numa luta corpo-a-corpo com um dos agentes da PIDE, mas acaba sendo
preso, pela terceira vez.

O processo que a PIDE enviava ao Tribunal Plenário de Lisboa juntava


gente de vários pontos do país - Coimbra, Coruche, Alpiarça, Couço,
Redondo, Vila Viçosa, Évora, Mora, Torres Novas, Tomar, inclusive da
Madeira. Ao todo eram 108 réus, sendo um dos maiores processos colectivos
instruídos pela PIDE, daí o ter ficado conhecido como Processo dos 108,
que foram assistidos por 27 advogados de defesa.
148

Eram tantos os réus que para as sessões do julgamento foi necessário


recorrer à sala do Tribunal do Comércio, no Terreiro do Paço, em que os
presos ficavam cercados por um grande cordão de soldados da GNR.

As circunstâncias em que as sessões decorreram tornaram-se também muito


desconfortáveis para o governo. Com frequência, muitos dos réus ergueram
a voz para denunciar as violências que tinham sofrido durante o período
de prisão.

Francisco Miguel era o único réu a pertencer ao Comité Central do PCP,


sendo, por isso, o elemento mais responsável naquele processo, e como que
liderava a defesa colectiva, conduzindo as suas intervenções justamente
no sentido da denúncia e da acusação do regime, seguindo ao fim e ao cabo
a orientação que o seu partido dava aos militantes sobre a forma como se
comportarem naqueles tribunais. Diz Miguel:

«Os juízes fascistas não ligavam importância a essas queixas. Por


insistência dos 27 advogados, quase todas pessoas muito combativas no seu
campo de acção, os juízes foram obrigados a chamar como declarantes
Fernando Gouveia e uns quantos agentes ali acusados de maus tratos aos
presos.

Na tarde em que essas sinistras figuras compareceram no tribunal, houve


uma cena particularmente interessante. Quando Fernando Gouveia negava ter
torturado alguém, eu levantei-me e, como a lei exigia, pedi ao juiz que
perguntasse ao declarante se era ou não verdade ter sido eu torturado - e
expliquei como. Interpelado, Fernando Gouveia, o sinistro Gouveia,
respondeu que não era verdade. Eu estava no banco da frente e foi a dois
passos dele que, de pé, e já sem dar atenção ao juiz que me intimava a
sentar-me, lhe disse o que, certamente, ele nunca tinha ouvido de
ninguém. Não era a pessoa de Fernando Gouveia que me interessava esmagar,
reduzir a pó; era o governo, era o regime que eu atingia.» (Nota 25)

Criou-se uma enorme algazarra na sala, com os juízes aos gritos a


mandarem calar Francisco Miguel e a exigir. Francisco Miguel seria
retirado da sala violentamente por três soldados da GNR, que o juiz
convocara para o efeito até que a situação acalmasse.
149

Seria o preso a sofrer condenação maior, a seis anos de prisão por


pressão do Delegado do Ministério Público seguindo-se outros por ordem de
importância. No entanto, a maioria, 58, foram condenados a 18 meses,
sendo ainda 38 absolvidos.

A instrução desordenada do processo, o elevadíssimo número de réus, a


diversidade de situações e de contextos, o impacto público,
designadamente internacional que suscitara levariam a que daí em diante
não voltasse a haver praticamente mais nenhum processo colectivo com
tanta gente, optando a PIDE por instruir vários processos,
circunscrevendo-os geográfica ou sectorialmente.
<Página em branco>
CAPÍTULO 6

AS MEDIDAS DE SEGURANÇA

Cumprida a pena e mantidos na prisão

Francisco Miguel Duarte, nascido em Baleizão, em 1906, foi um dos


dirigentes do PCP que esteve durante mais tempo preso. Foi sucessivamente
detido pela PIDE em 10 de Janeiro de 1938, 1 de Dezembro de 1939, 25 de
Junho de 1947, 3 de Novembro de 1950 e 23 de Julho de 1960, somando o
tempo que passou atrás das grades um total de 21 anos e 2 meses. Esteve
também encarcerado, durante oito anos e meio, no Campo de Concentração do
Tarrafal, na Ilha de Santiago (Cabo Verde); ou seja, durante cinco anos e
meio da primeira vez e três anos, da segunda vez. Só foi colocado em
liberdade legalmente, uma única vez, em Fevereiro de 1946, pois em todas
as outras detenções saiu da cadeia por meio de fuga.

Em 1955, a PIDE propôs ao tribunal que lhe fosse prorrogada a medida de


segurança decretada pelo tribunal plenário em 1949, e isso apesar de o
seu comportamento ter sido considerado bom durante a estadia no Tarrafal,
no primeiro período de execução da pena. Segundo a PIDE, após a sua
remoção para o forte de Caxias, em Janeiro de 1954, o seu comportamento
tinha-se alterado completamente e por isso havia sido sujeito a vários
castigos e mesmo a um processo-crime, por participar na organização
prisional do PCP.
152

<Reprodução do documento com a aplicação da medida de segurança a


Francisco Miguel Duarte: omitida>
153

Por outro lado, a PIDE achara que, pela forma como Francisco Miguel

tinha respondido aos interrogatórios, na sequência do seu pedido de


liberdade condicional, ficara claro que ele pretenderia continuar a
praticar «novos actos de acção, colaboração e adesão contra a segurança
do Estado» e que, por isso, a sua «perigosidade» se mantinha. Em 2 de
Dezembro de 1955, o 3.° Juízo Criminal prorrogou-lhe a medida de
segurança (Nota 1).

Numa carta enviada no ano seguinte ao corregedor do crime junto desse


tribunal, o advogado de Francisco Miguel, Manuel João da Palma Carlos,
refutou o argumento da PIDE, ao propor a prorrogação da medida de
segurança, com alegação de que ele era um preso indisciplinado e havia
sido sujeito a diversos castigos na prisão. Segundo esclareceu o
advogado, os primeiros castigos tinham sido aplicados a Francisco Miguel
quando ele já havia terminado o cumprimento das medidas de segurança. Por
outro lado, ao aprovar a proposta da PIDE, o tribunal não havia
esclarecido se a conduta prisional podia determinar a prorrogação da
medida de segurança e se o comportamento do preso e o consequente castigo
eram contemporâneos do cumprimento dessa medida ou se o comportamento
posterior do recluso também a podia afectar.

Palma Carlos lembrou que, segundo o acórdão do tribunal criminal, a PIDE


viera requerer a prorrogação da medida de segurança a que estava sujeito
Francisco Miguel, alegando que ele continuava a pertencer ao CC do PCP,
tinha «maus instintos», «duas condenações, duas evasões e mais três
condenações» e, por isso, se mantinha o seu «estado de perigosidade».
Segundo o advogado, pretendia-se, com isso, castigar o pensamento e não a
acção do detido, razão pela qual apresentou recurso da decisão do
tribunal, baseando-se em dois motivos: por um lado, porque, até à data da
proposta de prorrogação, Francisco Miguel nunca tinha sofrido qualquer
castigo e, por outro lado, porque não havia provas que, após a sua prisão
de 1947, ele tivesse praticado actos de natureza política. O Ministério
Público pronunciou-se, porém, pelo não provimento da reclamação de Palma
Carlos e os juízes do Plenário, José Maria Cardoso de Meneses, Joaquim de
Matos Pinto Coelho e Fernando de Lucena Vasconcelos prorrogaram, em 21 de
Março de 1956, a medida de segurança.
154

<Reprodução da Carta de Francisco Miguel Duarte ao seu advogado, Manuel


João da Palma Carlos.

(Colecção do Autor): omitida>


155

Em 23 de Fevereiro de 1957, a PIDE voltou a propor a prorrogação da


medida de segurança, com os mesmos argumentos já anteriormente utilizados
de que, segundo as suas próprias declarações, Francisco Miguel estava
«longe de oferecer garantias de jamais voltar a exercer actividades
criminosas». Segundo a polícia, o recluso tinha-se disfarçado com uma
«transparente máscara», ao declarar que só «exerceria, se viesse a ser
solto, as actividades políticas permitidas pela Constituição da República
- as actividades legais». Porém, ao ser instado a concretizar, Francisco
Miguel desmascarara-se e regressara à sua antiga posição de militante
comunista, recusando-se a responder a quaisquer perguntas.

Achava a PIDE que ele estava a cumprir uma directiva do PCP que, «dada a
necessidade que tinha de recuperar os "funcionários"» presos, teria
determinado que todos estes se mostrassem «obedientes e acatadores dos
regulamentos prisionais», para assim poderem vir a ser libertados. A
polícia política concluía que Francisco Miguel almejava ser solto, «não
para reorganizar a sua vida, mas simplesmente para ir servir novamente o
chamado PCP, com vista a derrubar as instituições por meios violentos».
Por essa razão, mantinha-se, assim, «na mesma intensidade o seu estado de
perigosidade", que nem a pena que sofrera nem a medida de segurança que
estava cumprindo haviam atenuado, pelo que se propunha a prorrogação da
medida de segurança de internamento (Nota 2).

Francisco Miguel fugiu diversas vezes da cadeia, uma das quais na evasão
colectiva de Peniche, em 3 de Janeiro de 1960, mas foi recapturado, em
Julho, quando tentava atravessar clandestinamente a fronteira para
Espanha. Permaneceu, porém, pouco tempo detido, pois voltou a fugir, pela
quarta e última vez, na evasão colectiva de Caxias, em 4 de Dezembro de
1961. Em Maio de 1970, a DGS continuava à sua procura, mas ele
encontrava-se no estrangeiro.

As medidas de segurança

A eficácia da PIDE/DGS, apesar de ter alguns bons profissionais,


conhecedores dos seus alvos, resultou sobretudo dos enormes poderes que
essa polícia detinha. Entre estes, contaram-se a detenção preventiva, o
poder instrutório, o recurso às medidas de segurança, o uso ilimitado de
um aparelho de informadores por parte dos serviços de Informação e o
recurso à tortura nos interrogatórios, pelos serviços de Investigação.
156

Através da prisão preventiva (seis meses) e da medida de segurança


provisória (podia ir até 1 ano), cuja aplicação era da competência do
director da PIDE/DGS, essa polícia podia prender sem julgamento e
controlo judicial, até um ano e seis meses.

Quanto à medida de segurança de aplicação posterior ao cumprimento da


prisão, era usada para colocar fora de actividade e neutralizar os presos
políticos, considerados mais perigosos e não passíveis de «regeneração».
Com a lei de criação da PIDE, de 1945, apenas se podia internar em
manicómio, interditar o exercício de uma profissão, manter em liberdade
vigiada, fixar a residência ou proibi-la no local da falta, sendo essas
medidas aplicadas pelo juiz, a requerimento do Ministério Público. Mas, a
partir de 1947, a medida de segurança, bem como a fixação de residência,
a interdição de saída e a expulsão do país, passaram a ser aplicadas a
«crimes» políticos, dado que os delinquentes «terroristas» foram
equiparados a delinquentes de «difícil correcção».

A medida de segurança tinha ainda então um carácter não detentivo - ou


seja, de prisão - e a liberdade condicional era fiscalizada por via
administrativa, ou seja, pelo ministério da Justiça, mesmo se este e os
juízes corroboravam, na maior parte dos casos, as propostas da PIDE. Em
1949, a criação do Conselho Superior de Polícia (CSP) possibilitou a
imposição de uma medida de vigilância especial para os que já tivessem
sido condenados por crime contra a segurança do Estado. O mais importante
era, porém, que essas medidas, que podiam durar de um a três anos,
passaram a ter carácter detentivo, cabendo à PIDE propor a sua aplicação
e prorrogação.

O ministro da Justiça, Cavaleiro Ferreira, ergueu-se contra o facto de


essas medidas de segurança serem cumpridas em prisões do Ministério do
Interior, ou seja, da PIDE, lembrando que, apesar de esta polícia poder
propor a prorrogação da pena, a decisão final pertencia sempre aos
tribunais. No entanto, se era um facto que a PIDE apenas propunha a
aplicação e prorrogação das medidas de segurança e que estas deviam ser
aprovadas pelos tribunais, estes raramente tomaram uma opção contrária ao
da polícia, resultando, assim que era esta, na prática, a «determinar» a
sua aplicação.

Guilherme da Costa Carvalho foi o primeiro preso político a ser sujeito à


medida de segurança, após a criação do CSP, em 1949.
157

Numa das suas detenções, terminou a pena a que foi condenado, em 1951,
mas cumpriu, posteriormente, três anos de medidas de segurança, sendo
libertado apenas em 1954.

Em 1956, um diploma agravou o regime das medidas de segurança permitindo-


as por períodos indeterminados de seis meses a três anos, prorrogáveis
por três períodos sucessivos de três anos, mesmo nos casos de presos
absolvidos. António Brotas foi, segundo o próprio, «o primeiro cidadão
português enviado a tribunal em processo de segurança ao abrigo do DL n.°
40 550», de 1956. Preso em 11 de Maio desse ano e absolvido, em 18 de
Dezembro, o tribunal sentenciou-o, no entanto, «por convicção», ao
internamento por período indefinido de seis meses a três anos,
prorrogável. O critério que decidira da sua perigosidade social,
motivadora da medida de segurança, tinha sido apenas o facto de o
director da PIDE, António Neves Graça, ter afirmado que o «mal» de Brotas
já vinha desde os seus oito anos de idade.

Em Novembro de 1972, durante a vigência de Marcello Caetano na


presidência do Conselho de Ministros, a lei n.° 450/72 declarou «abolidas
as medidas de segurança de internamento», na metrópole. Desaparecia,
assim, a «categoria de presos indisciplinados e a possibilidade de
aplicação de uma pena indeterminada a qualquer condenado em pena de
prisão». No entanto, manteve-se a prorrogação da pena a dois períodos
sucessivos de três anos, aplicável «aos delinquentes habituais ou por
tendência e aos imputáveis perigosos, em razão de anomalia mental». Por
outro lado, o governo manteve as «medidas administrativas de segurança
aplicáveis ao ultramar».

O caso Manuel Guedes

Nascido em Lisboa, em 1910, Manuel Guedes era marinheiro-artilheiro de


profissão, quando foi recrutado por Francisco Paula de Oliveira
(«Pável»), para ingressar no PCP, onde passou a usar o pseudónimo
«Santos». Foi preso pela primeira vez em 21 de Julho de 1933, quando
prestava serviço na Armada e pertencia ao comité dirigente da Organização
Revolucionária da Armada (ORA) do PCP, onde orientava e redigia O
Marinheiro Vermelho.
158

Condenado em 22 de Janeiro de 1934, a uma pena de dezoito meses de prisão


correccional, evadiu-se e ingressou na clandestinidade.

Voltou a ser detido, em 30 de Abril de 1935, e condenado em 14 de


Dezembro a quatro anos de correccional. Foi novamente condenado, em 30 de
Maio de 1936, em mais 1 ano de detenção, mas evadiu-se em pleno
julgamento. Fugindo para Espanha, foi aí preso por estar indocumentado e,
quando a prisão onde estava detido foi tomada pelos nacionalistas, estes
entregaram-no à PVDE. Solto por amnistia, em 1940, participou no
movimento de reorganização do PCP dos anos 40, sendo reeleito membro do
CC no congresso de 1943, e do Secretariado, no de 1946. Caindo em
desgraça no seio da direcção partidária, foi porém forçado a deixar de
ser membro efectivo do CC, ficando apenas como suplente.

Após ser novamente preso, em Maio de 1952, e condenado, no ano seguinte,


a quatro anos de prisão maior e medida de segurança, esta foi novamente
prorrogada em 1958 e, em 17 de Fevereiro do ano seguinte, pouco antes de
terminar o terceiro ano consecutivo de medida de segurança, a direcção do
Forte de Peniche pronunciou-se a favor da sua libertação condicional. No
entanto a PIDE não foi da mesma opinião, afirmando não acreditar na
regeneração de Guedes e considerando, pelo contrário, que ele estaria a
cumprir a palavra de ordem do PCP com o objectivo de ser libertado e
continuar a sua actividade clandestina. A PIDE chegou mesmo a utilizar
como argumento, para que não fosse libertado, o facto de Guedes ter
afirmado que iria residir com uma prima, velha e pobre, caso fosse solto.

A posição da PIDE foi atendida pelo tribunal e Manuel Guedes continuou


detido, solicitando novamente, em final de 1961, a liberdade condicional
mas, num texto quase igual ao anterior, a PIDE voltou a considerar que
ele não devia ser solto. Ao terminar esse novo período de medida de
segurança, em 17 de Fevereiro de 1963, a PIDE continuou a recusar a sua
soltura, desta vez com o argumento de que as referências a Manuel Guedes,
na imprensa do PCP, provariam que esse partido o queria libertar, para
que voltasse à clandestinidade. De novo o tribunal acatou a decisão dessa
polícia, prorrogando a medida de segurança por mais dois anos.
159

Em 29 de Dezembro de 1964, doze anos após estar ininterruptamente detido,


Manuel Guedes foi internado no anexo psiquiátrico da Penitenciária,
querendo a PIDE fazer passar a ideia de que ele era doente mental.
Lembre-se que as medidas de segurança não podiam ser prolongadas por mais
de três períodos de três anos cada, salvo em caso de insanidade mental,
que justificasse a perigosidade do recluso para a vida pública. Foi esse
argumento que a PIDE quis alegar para não libertar Guedes, numa proposta
de 20 de Fevereiro de 1965, mas o Instituto de Criminologia considerou-o
«inteiramente normal sob o ponto de vista psíquico» e os médicos que o
examinaram recusaram a manobra policial, no sentido de o internar.

O advogado de Defesa de Manuel Guedes solicitou então o habeas corpus


(Nota 3) e o tribunal emitiu finalmente o mandato de soltura, em 16 de
Março, após treze anos de prisão ininterrupta, quando havia sido
condenado a uma pena de quatro anos (Nota 4).

O caso Álvaro Cunhal

Nascido em 1913 em Coimbra, filho de um advogado, Álvaro Cunhal


licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa, ingressando no PCP.
Estagiou nas escolas de quadros do PCUS, em Moscovo, entre 1933 e 1935,
ano em que foi eleito secretário-geral do CC da Federação da Juventude
Comunista Portuguesa (FJCP) e participou no VI Congresso da Internacional
da Juventude Comunista, na capital soviética. Em 1936, passou a pertencer
ao CC do PCP e, após uma estadia em Madrid e Paris, regressou
clandestinamente a Lisboa, onde reocupou o seu posto na FJCP. Preso em 22
Julho de 1937, e violentamente torturado pela então PVDE, foi julgado, em
25 de Maio de 1938, e condenado a três meses de prisão correccional, dada
por expiada, pelo que foi restituído à liberdade em 21 de Junho. Voltou a
ser detido em 30 de Maio de 1940 e novamente condenado a três meses de
prisão, saindo em liberdade em 18 de Novembro desse ano. A partir de 1941
dirigiu o chamado movimento de reorganização do PCP, entrando, no ano
seguinte, para o quadro de funcionários clandestinos e ingressando no
Secretariado desse partido, em 1942.

Detido de novo no Luso, em 25 de Março de 1949, ficou então mais de um


ano em total isolamento, sem acesso a leitura e papel para escrever.
160

Julgado em 1950, Álvaro Cunhal foi condenado, em 9 de Março, a dois anos


de prisão maior e oito de degredo, e a medidas de segurança. Na
realidade, Álvaro Cunhal foi condenado a «prisão perpétua» e nunca teria
saído (ou tão depressa) da prisão, se não tivesse fugido em 1960. Depois
de várias prorrogações da medida de segurança, o Juízo Criminal decidiu
prolongá-la novamente, em 16 de Janeiro de 1957, «a título provisório por
mais seis meses», e, em 17 de Julho, propôs a sua liberdade condicional,
com caução.

No entanto, o Ministério Público interpôs recurso dessa decisão e o


Tribunal Plenário prorrogou por mais três anos a medida de segurança,
revogando a libertação condicional. Dado que completaria esse novo
período de três anos de medidas de segurança em 24 de Janeiro de 1960, a
PIDE analisou pouco antes a sua situação, concluindo que Cunhal não
deixaria de retomar o seu posto no Secretariado do CC e lembrando que a
lei previa tratamento especial para os indivíduos que se apresentassem
«de difícil correcção». A PIDE considerava que, da «sua restituição à
liberdade, mesmo condicional, resultaria a inutilização da medida de
segurança que lhe foi imposta pois, não se havendo verificado nela
qualquer mudança benéfica, continua a revelar-se perigoso». Propôs, por
isso, a prorrogação dessa medida em mais três anos da medida de segurança
(Nota 5).

Em 3 de Janeiro de 1960, antes do início do cumprimento da medida, Álvaro


Cunhal fugiu, com outros nove dirigentes do PCP, do forte de Peniche,
após onze anos de reclusão.

O caso Humberto Lopes

Humberto Pereira Dinis Lopes era advogado em Santarém, quando foi preso,
pela primeira vez, em 1 de Junho de 1946, acusado de pertencer ao «comité
regional do Médio Ribatejo» do PCP, onde usava o pseudónimo «Júlio».
Condenado a dez meses de prisão correccional, cumpriu a pena, confirmada
pelo Supremo Tribunal em 13 de Outubro de 1948. Em 1952, Lopes foi
novamente preso, juntamente com os advogados Lino Lima e Carlos Cal
Brandão, por ter requerido, num abaixo-assinado, ao director-geral dos
Serviços Prisionais, a tomada de «medidas adequadas para normalizar a
situação existente, procedendo-se a um amplo e rigoroso inquérito» sobre
a greve dos presos em Peniche em Dezembro desse ano.
<8 páginas de fotografias diversas: omitidas>
161

Em resultado dessas diligências, o ministro da Justiça, Cavaleiro


Ferreira, publicou um despacho acusando os subscritores desse
requerimento de «abusarem» da profissão, para «fins inconfessáveis»,
«pretenderem injuriar» as autoridades constituídas, e terem «procedimento
impróprio de quem devia conhecer o valor moral do direito». À Ordem dos
Advogados, o mesmo ministro comunicou que esperava «não ter de proceder
rigorosamente em conformidade com a lei em relação aos mesmos
signatários», para salvaguarda da «honra da advocacia portuguesa». Além
dos três advogados presos, todos os signatários do requerimento à
Direcção-Geral dos Serviços Prisionais foram julgados, anos depois, no
Tribunal Plenário de Lisboa, que, porém, os absolveu, por não ficar
provado terem cometido o crime de «divulgação de notícias falsas e
tendenciosas susceptíveis de causarem alarme e inquietação pública» (Nota
6).

Humberto Lopes voltou a ser detido, em 13 de Novembro de 1953, acusado da


prática de «factos delituosos que teria cometido como membro do "partido
comunista português", dissimulado na comissão distrital de Santarém do
Movimento Nacional Democrático, onde exercia actividade e cumpria
tarefas» denominadas «trabalho legal». Meses depois, em Fevereiro de
1954, a PIDE remeteu o seu processo a tribunal, mas Humberto Lopes
permaneceu detido nos cárceres privativos da PIDE, no Aljube, na cadeia
da PIDE do Porto e no reduto norte de Caxias, até 15 de Março de 1955,
quando foi de novo julgado e absolvido.

Como explicou mais tarde o director da PIDE, Fernando da Silva Pais,


durante «o ano de 1954, quando se achava recolhido na Cadeia de Caxias,
aguardando julgamento por aquele delito de que veio a ser absolvido,
cometeu no próprio estabelecimento prisional novos factos puníveis,
servindo com a sua colaboração os fins e objectivos do "partido comunista
português"». Acontecera que, numa busca feita a diversos detidos
políticos, os funcionários prisionais de Caxias encontraram documentação
a Humberto Lopes, e a PIDE, apoiando-se nos papéis aí apreendidos,
acusou-o de fazer parte, em Caxias, da organização prisional do PCP,
juntamente com Ângela Vidal e Campos, Carlos Costa, António Vasco Cabral
e José Vitoriano.
162

Curiosamente, num dos documentos apreendidos, imputado a Humberto Lopes,


eram desfeitas algumas ideias erradas a propósito do diploma de 13 de
Junho de 1949, que instituíra o Conselho de Segurança Pública (CSP). O
documento esclarecia que, entre as atribuições do CSP, se contava o
estabelecimento da «medida de vigilância especial para pessoas que já
tenham sido condenadas por "crimes" contra a segurança do Estado». O
autor do documento - Humberto Lopes - lembrou, porém, que o director da
PIDE apenas podia propor a aplicação da «medida provisória de segurança
de internamento», porque era o tribunal que decidia em definitivo sobre
ela. Do mesmo modo, a PIDE podia propor a aplicação da medida de
segurança a quem não fosse sujeito a julgamento, ou a sua prorrogação,
quando já tivesse sido aplicada pelo plenário ou pelo Supremo Tribunal,
mas era sempre ao tribunal que cabia a sua efectivação (Nota 7).

O caso concreto, analisado no documento de Humberto Lopes, era o de um


preso, condenado a medida de segurança sem determinação de tempo e que,
por isso, não carecia de qualquer proposta de prorrogação da PIDE, antes
do final de três anos. Acrescentava-se, porém, que o detido podia
requerer ao juiz a libertação, no caso de se ser «delinquente primário»
(condenado pela primeira vez) e ter de se entender que «a medida era pelo
mínimo tempo», ou seja, um ano, o qual já se havia escoado. Quanto ao
argumento de o preso em questão ter sofrido muitos castigos, invocado
pela PIDE, para fundamentar a prorrogação da medida de segurança, não
colhia, segundo o autor do documento, porque essas punições haviam sido
ilegais, dadas pelos chefes da PIDE e não pelo director da cadeia (Nota
8).

Diga-se que, nesse documento, Humberto Lopes estava a referir-se ao seu


próprio caso. Após a sua absolvição, no julgamento de 1955, Humberto
Lopes foi acusado pela PIDE de participar na organização prisional do
PCP, quando estava detido. Permaneceu em liberdade, enquanto aguardou o
julgamento dessa acusação, realizado em 23 de Julho de 1957, em que foi
condenado a dois anos e meios de prisão maior, seguidos da medida trienal
de segurança de internamento, prorrogável por períodos sucessivos de três
anos, «enquanto durasse a sua "perigosidade"». O defensor de Humberto
Lopes, o advogado Manuel João da Palma Carlos, recorreu de imediato dessa
decisão condenatória para o Supremo Tribunal de Justiça (STJ), mas o
Tribunal Plenário de Lisboa, que admitiu o recurso, indeferiu, não
permitindo que ele aguardasse a decisão em liberdade caucionada.
163

Humberto Lopes ficou, assim, preso desde 23 de Julho de 1957, cumprindo


dois anos e meio de prisão e mais três de medida de segurança de
internamento prisional. Na proximidade do termo desta medida, a PIDE
pediu ao tribunal a prorrogação desta por mais três anos. O director da
PIDE, major Fernando da Silva Pais, justificou em 1963 esse pedido
afirmando que, através das declarações prestadas pelo recluso, se poderia
colher inicialmente a opinião de que houvesse «transposto já para a
margem do "partido comunista português" e ali permanecesse indiferente ao
desenvolvimento da acção partidária». No entanto - acrescentava Silva
Pais -, ao procurar esclarecer melhor a sua posição, Humberto Lopes
deixara «bem patente que se conservava pertinazmente vinculado àquela
associação ilícita e organização secreta e subversiva».

Adiantava ainda Silva Pais que, nessas declarações, o recluso persistia


«obstinadamente em considerar "como um erro judiciário" a pena de prisão
e correlativa medida de segurança de internamento», que então estava a
cumprir, das quais tinha recorrido, sem êxito. Lembre-se que, além de ter
afirmado que havia muito que não pertencia ao PCP e se absteria, no
futuro, de quaisquer actividades políticas, Humberto Lopes tinha
acrescentado não sentir que fosse «repulsivo o seu passado político por,
em seu entender, não ter agido por forma desonrosa». Tanto bastou para
que o director da PIDE considerasse que «a terapêutica mais adequada à
sua personalidade para se lhe destruir ou neutralizar os germes e
propensão para prosseguir a vida criminosa» seria «mantê-lo segregado do
convívio social», prorrogando a medida de segurança de internamento (Nota
9).

Na exposição apresentada ao tribunal, a recorrer desta decisão da PIDE, o


advogado de Humberto Lopes, Francisco Salgado Zenha, considerou não
existir qualquer razão para o recluso não ser libertado. Um dos seus
argumentos era o de que «a medida de segurança de internamento aplicada a
imputáveis» representava «indiscutivelmente um castigo, de natureza
substancialmente penal» e não se via por que motivo se deveria castigar o
recluso, até porque ele tinha empenhado «a sua palavra de honra de que se
absteria de quaisquer actividades políticas».
164

Quanto ao argumento da PIDE, segundo o qual a sua libertação interessaria


ao PCP, como revelavam os apelos à sua soltura na imprensa partidária,
Zenha considerou-o irrelevante, com as seguintes palavras: «Coitado do
Dr. Humberto Lopes! Encarcerado em Peniche há mais de seis anos e ainda
por cima o querem incriminar pelo que os outros dizem de si e que ele
próprio ignora.»

Relativamente à afirmação da polícia de que as punições sofridas pelo


recluso, em Peniche, provavam que continuaria ligado ao PCP, Zenha
considerou-a «de natureza puramente subjectiva», carecendo de qualquer
prova. Lembrou que, ao considerarem-se «tais castigos como razão idónea
para prorrogar a medida de segurança», estava-se a fazer do controle
judicial uma «mera falácia». Ou seja, bastava castigar «os reclusos
"administrativamente" tempos antes do termo da medida de segurança e
depois» exibiam-se «tais castigos em pretório, condimentados com
afirmações apropriadas a demonstrarem a temível "periculosidade" do
arguido» (Nota 10). O Tribunal Plenário, que julgou o pedido de
prorrogação da medida de segurança, acabou por dar razão a Salgado Zenha
e decidiu, em 17 de Julho de 1963, que Humberto Lopes devia ser
imediatamente restituído à liberdade.

O caso Ângela Vidal e Campos

Ângela Vidal e Campos era natural do Porto, onde aderiu ao PCP e se casou
com Rolando Verdial, com o qual ingressou na clandestinidade. Mais tarde,
foi colocada numa «instalação» clandestina, em Albufeira, com outro
funcionário do PCP, Carlos Costa, responsável pela organização do
Algarve. Tinha vinte e sete anos quando foi detida, em 12 de Junho de
1953, pela GNR, que suspeitou do casal, achando que faria parte de uma
quadrilha de malfeitores. No entanto, ao revistar a casa, essa guarda
apercebeu-se de que se tratava de uma casa de funcionários clandestinos
do PCP. Carlos Costa foi, por seu turno, preso na estrada, no mesmo dia,
ao voltar de um encontro partidário.

Natural de Fafe, aderira ao PCP em 1943, com apenas quinze anos de idade,
tornando-se, três anos depois, quando era estudante de Economia, um dos
fundadores do Movimento de Unidade Democrática Juvenil de Braga. Detido
pela PIDE, pela primeira vez, em 27 de Novembro de 1948, acabaria, porém,
por ser solto sob caução, por falta de provas.
165

Mesmo assim, acabaria por ser julgado, em 26 de Outubro de 1950, e


condenado a seis meses de prisão correccional e a uma medida de segurança
de um ano. No entanto, antes de ser recapturado, para cumprir a pena,
fugiu e ingressou na clandestinidade.

Os dois foram entregues à PIDE, em 1953, e transferidos para a sede de


Lisboa, na Rua António Maria Cardoso. Logo que ingressou na cadeia,
Ângela foi levada a tribunal e condenada a quatro meses de prisão, por
ter «falsamente» afirmado, ao ser detida, que era arquivista dos
Hospitais Civis do Porto, quando, na realidade, era funcionária do PCP na
clandestinidade. A PIDE considerou que, pela sua «atitude nos
interrogatórios», Ângela estava «cumprindo a "ordem" que o PCP impõe a
todos os seus "militantes" de nada revelarem à Polícia, quando presos».

Esclarecida «que a manter tal atitude» prejudicava o «apuramento da


verdade» e, «mais uma vez instada» para que revelasse «toda a sua acção
como "funcionária" daquela organização secreta e subversiva», respondeu
que não tinha declarações a prestar à polícia e se recusava a assinar os
autos. O mesmo comportamento teve Carlos Costa, concluindo a PIDE que a
«recusa» dos dois, «em descreverem e confessarem as suas actividades», só
confirmava «tratar-se de "funcionários" da associação secreta» que dava
pelo nome de PCP. Ou seja, as únicas provas que a PIDE tinha contra
ambos, além de documentos apreendidos a Carlos Costa, era o facto de nada
responderem à polícia (Nota 11).

Além de ser arguida no processo de 1953, Ângela foi ainda acusada, no ano
seguinte, de fazer parte, com outros detidos políticos - Carlos Costa,
Humberto Lopes, António Vasco Cabral, e José Vitoriano -, da organização
prisional do PCP, em Caxias. Quanto ao processo de 1953, apesar de ter
sido enviado ao Tribunal Plenário, em 5 de Dezembro desse ano, o
julgamento apenas se realizou em 23 de Julho de 1957. Ângela foi então
condenada a três anos e meio de pena maior e Carlos Costa sentenciado a
dez anos de prisão maior, ambos com medidas de segurança.

Embora a lei estabelecesse que o período entre o acto da prisão e o


julgamento não deveria exceder um ano, Ângela e o seu co-réu ficou,
assim, mais de quatro anos no chamado regime «prisão preventiva».
166

Ora, como aos condenados a prisão maior só era descontado metade do tempo
da prisão preventiva, as penas a que foram sentenciados corresponderam,
na realidade, no caso dela, a cinco anos e meio de prisão efectiva e, no
caso dele, a doze anos (a pena máxima aplicável então para o «crime» de
que era acusado).

Em Dezembro de 1958, Ângela Vidal e Campos casou-se, na cadeia, com


Carlos Costa, que, em 3 de Janeiro de 1960, fugiu do forte de Peniche,
numa evasão colectiva, com outros dirigentes do PCP. Devido a essa fuga,
a situação de Ângela, como a de qualquer companheira ou mulher de
fugitivo, piorou, pois a PIDE passou a alegar que se fosse solta, iria
encontrar-se com o marido, ingressando novamente na vida clandestina.
Porém, Carlos Costa foi recapturado em 17 de Dezembro de 1961, apenas
vindo a ser solto condicionalmente, em 1970, altura em que ingressou
novamente na clandestinidade (Nota 12).

Por seu lado, Ângela Vidal e Campos terminara entretanto a pena a que o
tribunal a havia condenado e iniciara o cumprimento da medida de
segurança, em 19 de Abril de 1959. Fez então um requerimento a solicitar
a liberdade condicional, informando o presidente do tribunal criminal
plenário de Lisboa, sobre o seu péssimo estado de saúde e dando conta de
que, segundo a Junta médica que a havia observado, ela devia ser
libertada ou internada num hospital (Nota 13).

Num documento interno do PCP, apreendido pela PIDE, em 1960, informava-se


que esta polícia havia recusado internar Ângela num hospital, em virtude
de este ser de «porta aberta» e, por isso, a tinha instalado numa sala da
chamada enfermaria da cadeia, com a detida Alda Nogueira, onde as duas se
encontravam isoladas. O documento informava ainda que diversos advogados
iriam fazer queixa à ONU da situação de Ângela e estavam a procurar
interná-la «até à libertação», pois não tinha condições de tratamento
continuado onde se encontrava (Nota 14). Efectivamente, em final de 1960,
sete advogados do Porto, Armando Bacelar, Mário e Carlos Cal Brandão,
António Macedo, Taveira da Costa, Araújo Correia e Sousa e Castro,
requereram ao Tribunal Plenário documentação para apresentar à ONU o caso
de Maria Ângela Vidal. A resposta foi a detenção e interrogatório dos
sete juristas, pela PIDE (Nota 15).

Nenhum dos pedidos de libertação condicional feitos por ela própria, pela
sua família e pelos advogados foi atendido pela PIDE, que prolongou
sucessivamente a sua medida de segurança, argumentando que a sua
«perigosidade» permanecia, como atestaria o seu «mau comportamento» e
«rebeldia», revelados na prisão.
167

Como prova desse alegado comportamento indisciplinado, a PIDE utilizou os


diversos castigos que Ângela havia sofrido na cadeia (Nota 16). Já quando
o pai pedira para Ângela ser transferida para o Porto, onde vivia a sua
família e o filho com seis anos, o «péssimo comportamento» da detida
servira de argumento ao inspector da PIDE, António José Rodrigues, para
recusar a transferência (Nota 17). Depois, face a novo pedido de
liberdade condicional, a PIDE voltou a recusar, em 12 de Fevereiro de
1962, alegando que era uma reclusa «indomável».

E, no entanto, Carlos Costa tinha sido capturado, o que anulava o


«perigo» de que ela se lhe juntasse, regressando à clandestinidade. Por
outro lado, como a própria PIDE reconheceu, a saúde precária de Ângela
tornava pouco provável o seu regresso a esse tipo de vida. A polícia
ainda utilizou como argumento o próprio facto de a família de Ângela
estar recorrentemente a solicitar a sua libertação, o que revelaria,
segundo a PIDE, que estaria a cumprir «ordens do PCP relativamente ao que
os familiares deviam fazer» pelos presos políticos.

Ângela Vidal e Campos foi liberta, em 31 de Março de 1962, nove anos após
a sua detenção, quando tinha sido condenada a três anos e meio de prisão
(Nota 18). A seguir a Fernanda Paiva Tomás, foi a segunda mulher a estar
mais tempo presa em Portugal, por motivos políticos. Como se viu, a PIDE
tentou fazer destas detidas políticas, como de muitas outras e muitos
outros, um exemplo e uma ameaça, um exemplo do que acontecia aos que se
juntavam à oposição organizada ao regime, com a ameaça de que ficariam
anos e anos atrás das grades, neutralizados. A própria rebeldia e
resistência no interior da prisão servia de argumento para a PIDE alegar
que a «perigosidade» dos detidos se mantinha e, assim, para o
prolongamento da detenção, através da medida de segurança.

O caso José Martins

José Martins, nascido em 1921 na Pampilhosa da Serra, era servente da


cadeia do Aljube. Tinha já dezasseis anos de serviço, quando foi preso,
aos quarenta e dois anos, pela PIDE, em 27 de Março de 1963.
168

A acusação prendia-se com o facto de ter desempenhado «tarefas de


"ligação" e troca de "mensagens" entre os "funcionários"» do PCP, presos
na cadeia do Aljube, e «os "dirigentes" que se encontravam em liberdade».
Segundo o libelo acusatório da PIDE, Martins havia possibilitado, ao
«"partido" uma "ligação" permanente entre uns e outros, indispensável não
só ao comportamento dos presos e às fugas, como também às precauções a
tomar no exterior».

Nas suas memórias, o capitão Varela Gomes, então detido no Aljube por
participação do frustrado assalto ao quartel de Beja, na madrugada de 1
de Janeiro de 1962, descreveu esse servente prisional como «um homem
simples e bom, de poucas letras, que auferia um salário de fome». Segundo
ele, Martins «facilitava a vida dos presos políticos naquilo que podia»,
levando e trazendo «notícias do exterior, recebendo algum dinheiro por
isso», mas sem nunca ter exigido o pagamento como condição prévia, nem
posto «um preço à sua solidariedade e ao enorme perigo que ela
comportava».

Também Mário Soares retratou esse servente do Aljube como «um homem
humilde e bom - o mais longe possível dos interesses da política», que,
de «tanto ver sofrer e de ser obrigado a presenciar calado tantas
injustiças, acabara por ganhar à polícia uma raiva profunda». Por isso,
não perdia «oportunidade de se mostrar solidário com os presos e de lhes
prestar, sempre que podia, pequenos serviços, quase só de pura
humanidade». Segundo Soares e outros, terá sido Rolando Verdial -
elemento do PCP que passou a colaborar com a polícia, em 1963 - a
denunciar José Martins à PIDE. A vingança desta polícia foi feroz. José
Martins foi brutalmente espancado durante muitos dias e, segundo o
testemunho de Fernando Rosas, a PIDE chegou a atirá-lo pelas escadas
abaixo do Aljube, gritando que ele era um «traidor».

Ao ser levado a julgamento, em Novembro de 1963, José Martins foi


absolvido pelo Tribunal Plenário, que não considerou provadas as
acusações movidas contra ele. Os juízes condenaram-no, porém, a uma
medida de segurança de internamento, sentença da qual o advogado de José
Martins, Francisco Salgado Zenha, recorreu, junto do Supremo Tribunal de
Justiça.
169

No seu recurso, reproduzido no livro de sua autoria, Quatro Causas, Zenha


afirmou que o processo de José Martins foi «um dos raríssimos casos em
que os Tribunais Plenários portugueses deram efectiva aplicação ao
disposto do art. 8.° do DL 40 550» de 1956, que possibilitava a aplicação
da medida de segurança política de internamento a «um arguido por delito
político, reconhecidamente inocente do crime por que vinha acusado, e
portanto, absolvido».

No capítulo do seu livro, precisamente intitulado «Uma Medida de


Segurança Politica de Internamento sem Crime», Zenha fez um autêntico
libelo acusatório contra a aplicação das medidas de segurança. Começando
por citar o seu professor de Direito de Coimbra, Beleza dos Santos,
segundo o qual todos os juristas eram unânimes em concordar que «tais
medidas de segurança jamais poderiam ser aplicadas aos delinquentes
políticos», Zenha recorreu, depois, às normas da própria Constituição
estado novista de 1933. Lembrou que as medidas de segurança «preventivas»
a que se referia o art. 124 da Constituição tinham de «ser entendidas
compatibilizadamente com o direito à liberdade de pensamento e
consciência alhures consignado (Constituição, arts. 4 e 8, n.° 4.°) e
portanto referindo-se à perigosidade social exclusivamente ».

Ora, a «perigosidade política» nunca podia «ser fundamento de medidas de


segurança moralmente incolores, não aflitivas, puramente reeducativas,
como soi dizer-se que está na natureza do próprio conceito de medida de
segurança». Ou seja - acrescentou Zenha -, para ser operante, a medida de
segurança política ou era eliminatória ou violentava a liberdade de
consciência e pensamento, sendo por isso inconstitucional. Ainda por
cima, quando a medida de segurança se aplicava «a inocentes de qualquer
crime, culpados apenas de serem incómodos para a ideologia vigente»,
então tornava-se «manifesto o conteúdo inconstitucional» dessa «pena de
mera polícia de ideias e suspeições persecutórias.»

Referindo-se, depois, ao caso concreto de José Martins, Zenha recordou


que, no seu libelo acusatório, a própria PIDE havia afirmado que o PCP
soubera «aproveitar-se da situação do recorrente Martins, o qual há cerca
de dezassete anos prestava serviço como servente na dita cadeia». Ainda
segundo a polícia, ao estar em contacto permanente com os reclusos, José
Martins «levava e trazia recados ou mensagens (verbais e escritas) para o
exterior, como ainda de uns presos para os outros dentro da própria
cadeia, e a troco de pequenas importâncias que recebia, apesar do
conhecimento perfeito de que o não devia fazer».
170

Posteriormente, o próprio Tribunal Plenário reconhecera «que o recorrente


não praticara qualquer facto criminalmente punível», declarara-o inocente
e não dera «como provado que fosse de recear da parte do recorrente a
perpetração futura de qualquer crime típico, pois tão-só constatou o
receio da repetição dos mesmos actos, ou análogos, por que fora
absolvido!». No entanto, porque dera «como provado que era de recear que
o recorrente repetisse ou continuasse as actividades por que o absolvera,
aplicou-lhe a medida de segurança política de internamento»!

Tornava-se, assim, evidente, segundo Zenha, que a medida de segurança não


era uma medida de «prevenção criminal», pois não se constatara «o receio
probabilístico do cometimento de qualquer crime». Antes pelo contrário,
reconheceu-se que «apenas havia o receio do cometimento de factos
análogos àqueles por que o recorrente fora absolvido, ou seja, não
criminais». Não «ficara provada a perigosidade normativa, criminal, única
que a lei consente, logo, também não era lícito aplicar a medida de
segurança». José Martins não merecia, assim, «tão grave e pesada sanção»,
pois tinha sido «um mero instrumento, e por mercenarismo», servido, «a
troco de gorjetas», de «estafeta a uns presos que exploraram relações de
amizade que tinha com alguns, provenientes do facto de serem conterrâneos
ou conhecidos de há muito». Ao concluir, Zenha afirmou que as medidas de
segurança de internamento eram materialmente inconstitucionais, pois
tinham «o seu assento não numa perigosidade social», mas «numa
perigosidade política, conceito artificial e anti-social que serve apenas
de capa a providências segregatória ou persecutória». A operatividade das
mesmas concretizava-se numa violação dos direitos fundamentais
consignados no art. 8, n.° 4 e no art. 4 da Constituição, na medida em
que atentava «contra a inviolabilidade do próprio pensamento íntimo». Por
outro lado, «a Constituição no seu art. 124 não consentia senão medidas
de segurança de prevenção criminal. Ora, José Martins não havia cometido
«nenhum crime, como fora provado» pelo Tribunal Colectivo, o qual
«reconhecera como único receio existente o de o recorrente tornar a
praticar factos análogos àqueles por que fora absolvido, logo, não
criminais».
171

Por todas essas razões, Zenha considerou que José Martins devia «ser
integralmente absolvido, nomeadamente da medida de segurança de
internamento que lhe foi aplicada». Assim não o entendeu, porém, o
Supremo Tribunal de Justiça. Em acórdão de 4 de Março de 1964, assinado
pelo relator Fragoso de Almeida, Barbosa Viana e Cura Mariano, negou
provimento ao recurso e acordou «na inteira confirmação do julgado
recorrido». José Martins apenas foi solto condicionalmente, em 20 de
Setembro de 1966, mais de três anos depois de ser detido.

O caso Domingos Arouca

Um mês após ter tomado posse do cargo de presidente da Direcção do Centro


Associativo dos Negros de Moçambique, em Lourenço Marques, o advogado
«negro» Domingos Arouca foi preso, em Maio de 1965, sob a acusação de ser
dirigente da Frelimo e responsável de «subversão psicológica», no sul
dessa colónia africana. É aqui utilizado o qualificativo «negro», porque
como se verá esse facto teve grande importância no caso, revelando a
componente racista existente quer na polícia política quer nos tribunais
portugueses. Entre Maio de 1965 e Junho de 1968, Arouca foi submetido a
isolamento total e impedido de ler qualquer jornal, incluindo a imprensa
portuguesa - já de si censurada -, contra a própria lei prisional, que só
permitia o regime de incomunicabilidade durante seis meses.

Embora o seu processo tivesse sido remetido, menos de seis meses depois
da detenção, ao Tribunal Militar Territorial de Moçambique, o julgamento
apenas foi marcado para Março de 1967, pelo que Arouca permaneceu em
regime de prisão preventiva durante dois anos. O julgamento foi depois
adiado sine die, sem que para tal se tivesse invocado «qualquer
fundamento - legal ou ilegal!!!». Iniciando-se finalmente em 13 de Junho
de 1967, o julgamento prolongou-se até 16 de Julho, data em que Arouca
foi condenado a 4 anos de prisão maior e medida de segurança, condenação
essa que transitou em julgado.

Havia, entretanto, sido promulgada, em Maio de 1967, uma amnistia por


ocasião da visita do Papa Paulo VI a Portugal, que mandava contar por
inteiro todo o tempo de prisão preventiva sofrida até à data da sua
promulgação.
172

Ora, essa amnistia não lhe fora aplicada, em consequência de o julgamento


se ter iniciado «após a amnistia»! Segundo diria, mais tarde, o advogado
de Arouca, Francisco Salgado Zenha, até parecia «que o adiamento do
julgamento inicialmente marcado se fez de propósito para o efeito!».

Em 1968, Domingos Arouca foi transferido, de uma prisão de Lourenço


Marques, para o forte de Peniche, na chamada metrópole, num período em
que o seu sistema nervoso estava de tal forma debilitado que, alarmado,
um médico quis interná-lo imediatamente, mas o inspector-adjunto da PIDE,
Manuel dos Santos Correia, não permitiu a sua hospitalização. Apenas dois
anos depois, em resultado de um movimento de pressão pública, Arouca
acabou por baixar ao hospital-prisão de Caxias, em 1970 (Nota 19). Neste
ano, houve uma nova amnistia, segundo a qual o tempo de prisão preventiva
sofrida seria descontado por inteiro, no cumprimento da pena de prisão.
Mas, mais uma vez, Arouca não beneficiou da amnistia, porque se entendeu
não ser aplicável aos «ultramarinos», não obstante ele ter sido
transferido, em 1978, das cadeias «ultramarinas», para as cadeias
«metropolitanas». Depois de permanecer, durante cerca de dois anos, na
Cadeia do Forte de Peniche, e cerca de outros dois anos no hospital-
prisão de S. João de Deus em Caxias, Domingos Arouca já havia expiado, em
final de Maio de 1972, a condenação imposta pelo Tribunal Militar de
Lourenço Marques - quatro anos de prisão, mais três anos de «medida de
segurança» -, razão pela qual o seu advogado, Francisco Salgado Zenha,
requereu o habeas corpus. Entretanto o DL n.° 184/72 tinha acabado com as
medidas de segurança, mas apenas na metrópole, pelo que Salgado Zenha
teve de prevenir-se contra o argumento de que tal diploma não era
aplicável ao requerente, pelo facto de ser «ultramarino ou por ter sido
condenado no Ultramar».

Lembrou que, conforme se lia no preâmbulo de tal decreto-lei, este


destinava-se «a incorporar na legislação ordinária as inovações da
última revisão constitucional, tendo ele de ser aplicado a todos os
presos em igualdade de circunstâncias». Ora, como Domingos Arouca se
encontrava em cadeias metropolitanas desde Junho de 1968, era, segundo
Zenha, «absolutamente absurdo e kafkiano» que houvesse, «dentro da mesma
cadeia, um Código Penal para os metropolitanos e outro Código Penal para
os ultramarinos!», o que «representava clara violação da Constituição».
173

Não havia, assim, «absolutamente nenhum preceito que impedisse a


aplicação imediata de tal dispositivo ao requerente». Se ainda dúvidas
houvesse, «elas teriam de ceder perante o preceito constitucional que
estabelecia o princípio da igualdade dos cidadãos perante a lei». Dever-
se-ia ainda ter em conta, segundo Zenha, a aplicação por analogia do
estatuído no Código Civil, segundo o qual se considerava «lei pessoal do
interessado a d sua residência habitual»; ora, esta última era o cárcere
metropolitano, desde 1968.

Francisco Salgado Zenha foi ainda mais longe, ao atacar a sacrossanta


ficção criada pelo regime de que este não era movido por qualquer
sentimento racista. «A verdade» - sublinhou - era que o preso, «negro -
no que tem muita honra - e nativo de Moçambique (sendo o primeiro
licenciado em direito negro moçambicano)», tinha sido «vítima de uma
verdadeira discriminação racial». Revelador dessa discriminação era o
facto de que, em consequência de um movimento de solidariedade de
advogados portugueses em 1970, a favor dos três colegas então presos por
motivos políticos, a cumprir medidas de segurança - Domingos Arouca,
Joaquim Monteiro Matias e Saúl Nunes -, estes dois últimos já haviam sido
postos em liberdade, enquanto o primeiro continuara detido. «Aqueles eram
brancos, o requerente é negro», explicou Zenha, que além de mencionar que
constava ter sido o ministro do Ultramar a opor-se à sua libertação,
perguntou: «Continuará ele preso porque é negro?» (Nota 20)

O advogado escreveu mesmo uma carta ao presidente do Conselho, Marcello


Caetano, a pedir-se uma intervenção, no sentido de ser concedida a
liberdade condicional a Domingos Arouca. Lembrou-lhe a libertação de
Joaquim Monteiro Matias e Saúl Rodrigues Nunes, enquanto Domingos Arouca
não beneficiara da mesma providência, apesar de a sua situação jurídica
em nada diferir da dos outros. A «não ser que se entendesse que o facto
de ele ser negro e originário de Moçambique era relevante para o efeito»
- afirmou ainda Zenha - acrescentando que tal discriminação «mais do que
injustificável», se afigurava «odiosa» (Nota 21).

O Supremo Tribunal de Justiça respondeu ao pedido de habeas corpus, em 5


de Junho de 1972, alegando que Domingos Arouca tinha iniciado, em 18 de
Junho de 1970, o cumprimento da medida de segurança - «que só terminaria
em 18/6/1973».
174

Como justificação dos motivos por que o detido não havia beneficiado dos
perdões concedidos pelas sucessivas amnistias, o Supremo Tribunal
apresentou dois argumentos diferentes. No caso da amnistia de 1967,
considerou que Arouca não estava abrangido por ela, em virtude de a
decisão condenatória ainda não ter sido proferida à data da entrada em
vigor do diploma. Quanto ao perdão de 1970, argumentou que a Portaria n.°
340/70, de 7 de Julho, que tornara aquele diploma extensivo ao Ultramar,
havia excluído expressamente Arouca, porque, à data da mesma, ele já se
encontrava no cumprimento da medida de segurança de internamento, imposta
por um tribunal ultramarino.

Quanto ao facto de Arouca «residir» numa prisão metropolitana, o Supremo


Tribunal argumentou que «a lei penal não era de aplicação pessoal, mas
sim de aplicação territorial». Ora, como Domingos António Arouca se
encontrava «em estabelecimento metropolitano, unicamente por falta de
estabelecimento adequado no Ultramar, havia que aplicar ao caso as leis
ultramarinas e não as metropolitanas». Considerava, assim, o Supremo
Tribunal que não se estava a infringir «o princípio constitucional da
igualdade dos cidadãos perante a lei, visto que, segundo a Constituição»,
o Estado português constituía um «ordenamento jurídico pluri-
legislativo». Por outro lado, como o Dec.-Lei n.° 184/72, que tinha
acabado com as medidas de segurança ainda não se havia «tornado extensivo
ao Ultramar», apenas quando o Tribunal competente julgasse expiada a
medida de segurança, poderia Arouca ser libertado (Nota 22). Os
conselheiros (Nota 23) do Supremo Tribunal de Justiça decidiram, assim,
indeferir a petição de habeas corpus, requerida por Domingos António
Mascarenhas Arouca (Nota 24).

Devido à movimentação e pressão de advogados e de diversos portugueses e


estrangeiros, a favor da libertação de Arouca, o próprio chefe de
gabinete do Ministério do Interior escrevera entretanto, em Março de
1972, ao director da DGS, sugerindo que soltasse o detido. O argumento do
ministério da tutela da DGS era a de que a bem documentada «perigosidade»
de Arouca se continuaria a revelar no futuro e, por isso, lhe deveria ser
concedida «liberdade em termos tais que permitisse apreciar as suas
actividades durante esse período e garantir até uma severa acção
ulterior» contra as mesmas (Nota 25). Porém, Domingos Arouca apenas foi
libertado em 19 de Junho de 1973, no dia a seguir a terminar o tempo
máximo de reclusão.
CAPÍTULO 7

OS SANEAMENTOS NA FUNÇÃO PÚBLICA

Impedidos do exercício de «funções públicas»

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.

Nem é ditosa, porque o não merece. Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço

A pouca sorte de nascido dela.

Jorge de Sena, «A Portugal»,

Araraquara, 6/12/1961

Jorge de Sena estava há dois anos no Brasil quando escreveu o poema «A


Portugal». Saiu do país depois de uma tentativa de golpe de Estado em que
esteve implicado e de que temia as consequências: a prisão, os tribunais
e, quase com toda a certeza, a proibição de desempenhar qualquer função
como funcionário do Estado. No Brasil, o poeta procurava, nas palavras de
Mécia de Sena, «aquela liberdade de viver e expressar-se que lhe era
indispensável e não havia na pátria» (Nota 1). Jorge de Sena era apenas
um dos mais brilhantes intelectuais portugueses do século XX que o Estado
Novo obrigava a sair do país por «falta de lealdade às instituições»,
impedindo-o do exercício de «funções públicas».
176

Durante quase meio século, intelectuais, militares, ex-políticos


republicanos, liberais, socialistas, comunistas, muitos deles na condição
de funcionários públicos, foram sendo demitidos dos seus cargos e
funções, acusados de hostilidade à Constituição e de não «darem garantia
de cooperar na realização dos fins superiores do Estado». Aos
funcionários demitidos, juntavam-se todos os outros portugueses
desafectos ao regime a quem nunca seria possível aspirar a qualquer cargo
público, por sobre eles constar algum reparo da polícia política ou da
Legião Portuguesa.

O mote para toda a legislação que foi consagrando a prática de demissão


dos funcionários públicos «desafectos» foi dado logo em Fevereiro de
1927, pelo governo da Ditadura Militar, em telegrama enviado ao alto-
comissário de Angola e governadores da Guiné e S. Tomé: «Nenhum dos
deportados pode ser admitido como funcionário do Estado ou corpos
administrativos, nem contratado...» (Nota 2)

A demissão ou a separação de serviço (esta última mais comum no caso de


militares), apesar de sustentada por inúmeros diplomas legais, passou a
ser uma muito comum prática discricionária do governo (decidida pelo
Conselho de Ministros), que raramente carecia das decisões dos tribunais.
Depois de uma suspeita, militares e funcionários públicos eram, de
imediato, demitidos, separados ou reformados, «sem prejuízo das penas que
[pudessem] vir a ser-lhes aplicadas em julgamento nos tribunais
competentes». Adquiria formas jurídicas diferenciadas, da expulsão pura e
simples, à demissão ou à separação de serviço e aposentação (nestes dois
últimos casos com manutenção de alguns direitos, mas de forma muito
limitada). Na prática, também outras formas discriminatórias como a
deportação, o banimento do território por prazo determinado, a residência
fixada ou a transferência constante entre prisões se mostraram como
instrumentos de separação ou demissão, pela impossibilidade de o
funcionário poder desempenhar o seu cargo durante o impedimento.

A depuração do funcionalismo público foi uma prática constante, mas


adquiriu uma dimensão mais forte nos períodos de maior tensão política do
regime. As primeiras grandes purgas aconteceram entre os anos de 1927 e
1931, quando muitas centenas de militares e funcionários públicos se
viram afastados das suas funções por resistirem à institucionalização da
Ditadura nas revoltas do Reviralho.
177

Depois de afastados os mais intransigentes, o Estado Novo voltou-se para


os sectores liberais (e mesmo para a oposição nacional-sindicalista e
monárquica), durante o biénio de 1933-35. Com a instauração do novo
regime, no tos contingentes de militares e funcionários públicos se vêem
afastado das suas funções no Estado. Para o final da Segunda Guerra
Mundial, o regime tremeu com as mudanças que se avizinharam no país.
Milhares de portugueses acreditaram na transição pacífica do regime e
expuseram-se aos olhos da polícia e do Ditador. Quando recuperou do susto
o regime foi implacável: entre 1946 e 1949, dezenas de professores,
militares e outros funcionários foram demitidos da função pública. Nas
duas décadas seguintes, e apesar de algumas medidas de reintegração dos
funcionários demitidos anteriormente, o afastamento dos mais incómodos
manteve-se como uma prática política comum.

Decapitação da Resistência Republicana

Na sequência da revolta de 3-7 de Fevereiro de 1927, aquela que colocou a


Ditadura Militar à beira do colapso -, Carmona, o chefe do governo,
declarava em entrevista a jornais estrangeiros que iria pôr de lado a
atitude cordata que até aí tinha adoptado para com os «políticos» e, que
de futuro seria intransigente, desorganizando os «agrupamentos políticos»
e «depurando o funcionalismo» (Nota 3). Na sequência da revolta, foram
dissolvidas todas as unidades militares implicadas e demitidos todos os
militares e funcionários públicos que tinham tomado parte nos
acontecimentos, com deportação imediata dos principais responsáveis.

Uma semana depois da revolta, a Ditadura impunha, pelo Decreto n.° 13137,
de 15 de Fevereiro, a separação de serviço, com 50% do vencimento, de
«todos os magistrados, funcionários civis e oficiais do Exército e da
Armada que tomaram parte na preparação ou na execução dos movimentos
revolucionários do mês de Fevereiro». O mesmo decreto previa ainda a
expulsão pura e simples de todos os agentes policiais e a «baixa de
serviço» dos sargentos das Forças Armadas e da Guarda-Fiscal.
178

A demissão de alguns dos principais líderes civis revolucionários


apanhou-os já a caminho do exílio: Jaime Cortesão, Raul Proença e David
Ferreira eram demitidos da Biblioteca Nacional, Álvaro de Castro da
Escola Colonial, José Domingues dos Santos da Faculdade de Engenharia do
Porto, Filipe Mendes do Comissariado dos Serviços de Emigração, Jaime de
Morais do Conselho Superior de Colónias.

A esmagadora maioria dos militares e funcionários demitidos ou afastados


do serviço rumaram às colónias de Angola, S. Tomé e Príncipe, Guiné e
Cabo Verde. Nos locais de deportação eram-lhes conferidos abonos de
alimentação e subsídios de vestuário, de acordo com a sua categoria
administrativa. No entanto, a economia depauperada das colónias e as
dificuldades burocráticas conduziram a maioria dos deportados a uma
situação de pobreza extrema e de desespero. Os que como o tenente Agatão
Lança - o «herói do Rato» - tinham meios próprios ou apoio entre os
colonos decidiram-se pela fuga para o exílio. Aos outros restava a espera
de uma decisão do Governo, o que só aconteceu, para a maioria, durante os
anos de 1928-1929, durante os «governos de aclamação» de Vicente de
Freitas e de Ivens Ferraz.

No entretanto, a sua situação era deveras aflitiva. Em Angola, o alto-


comissário era obrigado a abrir um crédito de 500 contos para acudir às
situações mais difíceis, sem que tal obviasse a degradação progressiva da
vida dos degredados. Muitos tinham chegado à colónia com a roupa que
vestiam no corpo «com lamentável desprestígio para o indígena, para a
raça e para o Exército, porque os militares usam ainda as suas fardas e
as dos praças, especialmente, vão-se cobrindo de remendos» (Nota 4).

Como demitidos, os deportados recebiam apenas 50% do soldo - um soldo


que, por acção do imposto de «Salvação Pública» (Nota 5), se tinha
depauperado ainda mais nestes anos de equilíbrio forçado das contas
públicas. Com estas magras quantias, alimentavam os agregados familiares
que se mantinham na metrópole, restando-lhes a procura de uma ocupação
por conta de particulares. Mas, nessa condição, perdiam o direito ao
abono de alimentação por parte do Estado.

Enquanto decorriam os julgamentos dos responsáveis da Revolta de


Fevereiro de 1927, ocorreu uma outra vaga de demissões dos implicados na
«Revolta do Castelo», de 20 de Julho de 1928.
179

O novo disposto normativo (Decreto n.° 15790, de 27 de Julho de 1928)


reactualizava as decisões do anterior: tipificava os crimes e definia as
sanções respectivas: separações de serviço e reformas compulsivas, com
50% do vencimento para os oficiais, baixas de serviço para os sargentos,
demissões dos funcionários públicos. A fixação das penas e a fixação do
lugar de deportação seriam feitas pelo «Conselho de Ministros e
promulgadas e executadas pelos Ministros competentes», sem direito a
«recurso algum».

A terceira grande vaga de demissões desta primeira fase ocorreu depois


das revoltas de 1931, nas Ilhas (Açores e Madeira) e no Continente (2 de
Maio e 26 de Agosto de 1931). Para levar de vencida esta intransigente
facção demo-liberal do Exército e da sociedade civil, a Ditadura vai
endurecer os meios repressivos. Para muitos revoltosos o caminho será a
«redeportação» para locais cada vez mais inóspitos, onde se constituem os
primeiros campos de concentração e onde a distinção entre soldados e
generais deixou de ser tida em conta.

Nos finais de 1932, o desespero havia-se apoderado de todas estas


centenas de democratas deportados ou exilados, sem apoio material e
vivendo dos últimos recursos. Apercebendo-se da situação, o governo de
Salazar, constituído cinco meses antes, decreta uma amnistia, que uma
ampla maioria dos demitidos aceita por reconhecidas dificuldades
económicas. Nos últimos dias de 1932 e durante o primeiro semestre de
1933, retornam ao país centenas de opositores, à excepção de uma lista de
50 nomes, considerados «os mais perigosos» (Nota 6). É uma entrada no
país que muitos consideram humilhante, mas que se justificava pela sua
situação e pela incapacidade política de engendrar uma solução para a
transição do regime (Nota 7).

Uma significativa parte dos retornados não conseguiu, depois de


concluídos os processos judiciais a que se viram sujeitos no Tribunal
Militar Especial, a reintegração nos antigos lugares e postos que
ocupavam antes da demissão. Restava-lhes a ocupação por conta de
particulares ou, de novo, o caminho da deportação e do exílio ou da semi-
clandestinidade, na luta pelo derrube do Estado Novo.
180

O caso de Jaime Cortesão

À inquirição que a PVDE lhe fez sobre a sua actividade revolucionária,


Jaime Cortesão respondeu com elevada dignidade e coragem:

«... Perguntado se é verdade ter sido juntamente com os doutores Jaime de


Morais e Moura Pinto dirigente do grupo revolucionário conhecido pelo
"Grupo dos Budas" respondeu que exerceu dentro das actividades desse
grupo as funções de intermediário com personalidades espanholas em
especial escritores. Perguntado se pode explicar a natureza dessa
mediação respondeu que foi de carácter de assistência e algumas vezes
revolucionária. Perguntado se se julga responsável pelos actos desse
grupo em relação às várias tentativas que ele fez para a eclosão em
Portugal de um movimento revolucionário destinado a derrubar primeiro a
ditadura e depois o Estado Novo respondeu afirmativamente» (Proc. Crime
n.° 1580/936, da PVDE, IANATT.)

Jaime Zuzarte Cortesão, escritor, intelectual, foi um resistente


republicano desde a primeira hora. Nasceu em Ançã (Cantanhede), em 29-4-
1884 e morreu em 14/8/1960. Formou-se em Medicina em 1909 e exerceu
funções docentes de História e Literatura no Porto, entre 1911 e 1915.
Foi eleito deputado pelo Porto, na legislatura de 1915 a 1917.
Voluntariou-se para combater na Flandres, onde foi ferido em combate.
Regressado ao país, foi nomeado director da Biblioteca Nacional em 1919,
cargo que exerceu até 1927.

Homem de letras e cidadão interventivo, mação, estará na primeira linha


do movimento da Renascença Portuguesa (criado em 1911), sendo um dos
principais colaboradores, da revista Águia. A partir de 1912 dirige o
quinzenário A Vida Portuguesa, ao mesmo tempo que ajuda a impulsionar a
Universidade Popular do Porto, inaugurada também naquele ano de 1912. Na
direcção do jornal O Norte, desde 1914, é um convicto guerrista que
participa activamente na Junta Revolucionária do Porto para derrubar a
ditadura de Pimenta de Castro.

Foi preso durante o Sidonismo e, daí em diante, é cada vez mais clara a
sua orientação política de defesa de uma República democrática e
progressiva. À frente da Biblioteca Nacional desde 1919, Jaime Cortesão
agrega em torno de si um escol de grande envergadura intelectual e
cívica, onde avultam as figuras de Raul Proença, Aquilino Ribeiro,
António Sérgio, Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, Leite de Vasconcelos,
Afonso Lopes Vieira, Mário de Azevedo Gomes, Luís Câmara Reis, entre
outros.
181

Deste grupo saíram as maiores iniciativas culturais dos anos 20, com
destaque para a criação da revista Seara Nova, em 1921, de enorme
impacto, tanto cultural como político. Neste mesmo ano, Jaime Cortesão
foi eleito membro da Academia das Ciências de Lisboa, depois de uma
actividade literária onde já eram significativas as obras de poesia, de
teatro e de história.

A sua actividade de resistente à Ditadura iniciou-se nos dias seguintes à


da queda da República. A frente da Junta Revolucionária do Porto, é um
dos líderes da Revolta de 3 de Fevereiro de 1927 naquela cidade. Com a
derrota do Reviralho, é demitido do seu cargo de Director da Biblioteca
Nacional e refugia-se em Paris, onde ajuda a fundar a Liga de Paris, a
principal organização responsável pela luta contra a Ditadura Militar no
exílio, até 1931.

Com a implantação da II República em Espanha, instala-se em Madrid, onde


lidera um dos núcleos mais activos da Resistência, o «Grupo dos Budas»,
responsável pelas ligações com o governo republicano espanhol, de que
resultou apoio material aos exilados e financeiro e de armamento para a
«revolução em Portugal». Em 1934 é obrigado a sair de Espanha por estar
acusado de aquisição e transporte de armamento. Regressa em 1936, depois
da implantação do governo da Frente Popular. Participa aí na
reorganização dos antifascistas exilados, com a criação da UAPRE e da
Frente Popular Portuguesa e tem uma intensa actividade ao lado do governo
republicano legítimo, participando nos Congressos Internacionais dos
Escritores Antifascistas. No desfecho da Guerra Civil de Espanha,
atravessa os Pirenéus em fuga e instala-se temporariamente em França.
Regressou a Portugal em 1940, mas foi preso na fronteira e enviado para
Peniche, de onde transitou para o Aljube de Lisboa.

Em 13 de Setembro de 1940, foi notificado pela PVDE de que tinha o «prazo


de trinta dias para se retirar do território nacional para país da sua
escolha (...) findo o prazo e caso não tenha abandonado o território
nacional, o governo decidirá sobre o destino a dar-lhe».

Jaime Cortesão parte para o Brasil, naquele que será o segundo exílio, de
onde só regressará, definitivamente, em 1957, três anos antes da sua
morte.
182

Aí desenvolveu uma intensa actividade cívica e de investigação, com uma


obra repartida pelo ensaio e crítica literária, pela literatura infantil
e educação, pela tradução e pela História, sua paixão maior.

Já com 74 anos, em 1958, conheceu a sua quarta prisão, ao lado de outros


opositores do Directório Democrato-Social, como Mário de Azevedo Gomes e
António Sérgio, depois de ter sido indicado, em 1957, como candidato a
presidente da República por aquela área política, convite que declinou.

O caso de José Manuel Sarmento de Beires

Em 21 de Novembro de 1933, Sarmento de Beires, o herói da viagem aérea


que ligara Portugal a Macau em 1924, foi preso em Lisboa, na Rua da
Padaria n.° 15, 2.° Direito. Desde 1928, altura em que subscreveu o
Manifesto revolucionário da gorada Revolta do Castelo, que entrava
clandestinamente no país, por nessa altura ter sido considerado desertor
do seu posto de major da Aeronáutica. Segundo a polícia - a recém-nascida
PVDE -, o preso «atirara para a cadeia umas boas dezenas de indivíduos».
Ele tinha sido, no último ano, o líder clandestino de um movimento
revolucionário com ligações ao coronel Ribeiro de Carvalho, um marechal
do reviralhismo, ao mesmo tempo que aliciara o «legionário vermelho»,
Joaquim Godinho, e muitos outros antifascistas recrutados no
republicanismo radical.

Preso no Forte Militar da Trafaria, foi julgado em Tribunal Militar


Especial, em Junho de 1934 (Proc. 9/34 do TME) e acusado de três crimes
políticos: de ser o líder de uma organização revolucionária civil e
militar que actuava entre o Entroncamento e Abrantes, detentor de
armamento e munições abundantes; de ter tomado parte no movimento
revolucionário de 26 de Agosto de 1931, altura em que chefiara uma coluna
do Campo de Esquadrilhas de Aviação de Alverca; finalmente, de ter
preparado um movimento revolucionário em Novembro de 1933, o qual não
teria chegado a eclodir. Absolvido da primeira acusação, foi condenado
pelas segunda e terceira a sete anos de desterro sem prisão e perda de
direitos políticos por dez anos.
183

Ao julgamento, que o inibia de todos os direitos políticos e civis,


seguiu-se o habitual périplo pelas prisões continentais e atlânticas:
Aljube, Penitenciária, S. João Baptista (Terceira, Açores) e de novo
regresso ao Continente. Em Março de 1935 parte para Macau, com residência
fixa naquela colónia do Oriente. Em 1936 evadiu-se de Macau e exilou-se,
sucessivamente, nos anos seguintes, em Espanha, Marrocos, França e, por
último, Brasil, país onde chega em 1940, depois de uma viagem atribulada.

Afastado do seu posto de militar desde 1928, mantivera uma intensa


actividade conspirativa, estabelecendo ligações entre os vários comités
do interior e do exílio, numa actividade clandestina que os informadores
policiais conheciam a posteriori, mas sem conseguirem barrar-lhe o passo.
Em Lisboa, onde foi muitas vezes referenciado durante os anos de 1932 e
1933, o informador de serviço indicava-o como «trajando frequentemente de
mulher».

Durante a II Grande Guerra, na impossibilidade de entrar em Portugal,


Sarmento de Beires rumou ao Brasil. Em 1945 subscreve, com Jaime Cortesão
e outros republicanos exilados, uma Mensagem aos «Três Grandes de
Postdam» onde denunciam a «ditadura feroz» de Salazar e os seus campos de
concentração, ao mesmo tempo que exigiam o fim das «prolongadas
complacências» das democracias ocidentais para com o ditador português.

Banido do território nacional por dois anos em 1932, condenado pelo TME
em 1934, num processo expedito, sem direito a recurso, que o governo da
Ditadura resolveu com a deportação para Macau, Sarmento de Beires
configura, no campo militar, o lugar do opositor que o poder político
afastou do seu posto de oficial e do país por mais de duas décadas. Em
Novembro de 1951, regressado ao país, Sarmento de Beires foi reintegrado
no Exército, no posto de major, com a obrigação de manter uma posição de
neutralidade em relação ao regime que o tinha ostracizado em 1928.

Para além de pioneiro da aeronáutica, Sarmento de Beires foi um reputado


seareiro que deixou a sua obra repartida pelo jornalismo, pela poesia,
pelo romance e pela vertente técnica da sua especialidade militar. Nasceu
em Lisboa em 1893 e morreu no Porto em 1974.
184

Todos contra Salazar, Salazar contra todos

A partir de Agosto de 1933, com o endurecimento da política salazarista e


com a publicação, a partir de Setembro, dos seis principais decretos-leis
que instauravam o Estado Novo Corporativo, as oposições intensificam o
seu labor conspirativo. Anarquistas e comunistas constituem um «Comité de
Unidade» que prepara febrilmente a «greve geral revolucionária»; por seu
lado, os Republicanos procuram acelerar a reposição da República
constitucional.

Perante a fascização crescente do regime nascente, radicalizam-se as


oposições; sob o ascenso do movimento comunista, o major José Sarmento de
Beires, o líder reviralhista mais activo neste período, prepara na
clandestinidade a revolução, sob a orientação de um programa político
radical e frentista, elaborado por republicanos no exílio galego.

Os tempos eram, no entanto, outros. A polícia política refinara os seus


métodos repressivos: em 19 de Novembro de 1933, o governo mandava
transferir os «150 prisioneiros mais perigosos do Forte de Peniche para
Angra do Heroísmo», na maioria militares e funcionários públicos que
permaneciam presos, por não estar ainda concluído o seu processo judicial
de reintegração, iniciado com a amnistia de 1932. Ou então por terem
voltado a ser presos como «medida preventiva», como aconteceu no mês de
Julho anterior a um vasto conjunto de oposicionistas. Estão neste caso o
coronel Hélder Ribeiro, os tenentes-coronéis Ribeiro de Carvalho e Cunha
Aragão, os capitães Alberto Magalhães e Francisco Larcher, os tenentes
Filipe Piçarra e Carmona e Silva, o alferes Saloio e os civis Mário
Mesquita, Eduardo Guilherme de Faria e António Sérgio.

Ao fim de sete longos anos de luta, a oposição republicana sentia-se


completamente vencida. Numa carta a Bernardino Machado, o tenente Agatão
Lança (que entrou clandestinamente no país por uma meia dúzia de vezes
para fazer a Revolução), exprime a sua desilusão: «Toda a gente está
convencida da excelência do governo e da situação portuguesa. É
desesperante, mas, creia-o V. Exa., é assim.» (Nota 8)

Foi esta consciência de impotência do campo republicano que levou alguns


reviralhistas a buscarem uma aliança táctica com sectores que,
habitualmente, se tinham manifestado a favor da Situação: nacionais-
sindicalistas e mesmo monárquicos.
185

O final do ano de 1934 e todo o ano de 1935 foi um tempo reservado a


reunir todas as «pontas» da oposição a Salazar. O movimento
revolucionário esteve marcado para ocorrer a 10 de Setembro daquele
último ano, mas foi desmantelado nos primeiros momentos do golpe. A
designada «Revolta de Mendes Norton» unia «todos» contra o Ditador:
reviralhistas da rede do tenente-coronel Ribeiro de Carvalho, nacionais-
sindicalistas da obediência de Rolão Preto, monárquicos que se
reconheciam em Paiva Couceiro, ou liberais como António Sérgio e
Francisco Cunha Leal e até mesmo sectores radicais organizados em torno
da Organização Revolucionária da Armada/Organização Revolucionária de
Sargentos (ORA/ORS) (Nota 9).

Da Intentona de Setembro, resulta a prisão de mais de uma trintena de


envolvidos, a maioria dos quais militares ou funcionários públicos, a
quem o Estado Novo deportou, na condição de demitidos ou separados do
serviço.

Vencidos os mais activos opositores, o Estado Novo deslocou a sua acção


para o controlo ideológico e para o combate aos núcleos intelectuais que
lhe faziam frente. Em 21 de Maio de 1935, uma nova Lei obrigava os
funcionários públicos à assinatura de uma declaração anticomunista e de
não pertença a organizações secretas, ao mesmo tempo que são ilegalizadas
as sociedades secretas, designadamente a Maçonaria.

A iminência da guerra e a fascização da Europa tornavam-se evidentes para


todos os observadores com a invasão da Abissínia pela Itália, com a
dissolução dos parlamentos e com a impotência da Sociedade das Nações
para controlar o armamentismo dos países do Eixo (Nota 10). Por isso, à
esquerda, e sob a hegemonia comunista, formava-se, em 1934, a Liga
Portuguesa Contra a Guerra e o Fascismo. Em torno do jornal O Diabo,
fundado em 1934, outras iniciativas de contestação à Situação se tornam
evidentes. Em 10 de Fevereiro de 1935 (n.° 33), o jornal dá notícia de um
almoço de confraternização que reunira mais de 100 jornalistas,
escritores e artistas, entre eles António Sérgio, e que se mobilizaram
para fundar um Ateneu Cultural. Na área liberal, a Vida Contemporânea,
dirigida por Francisco Cunha Leal, um outro adversário temível de
Salazar, procurava «ampliar a curiosidade e lobrigar as formas do
futuro», desde 1934. Contava entre os seus colaboradores assíduos com
homens como Abel Salazar e Vasco da Gama Fernandes.
186

Procurava «educar os elementos selectos da sociedade, de modo a que


[pudessem] tornar-se os apóstolos e os propulsores da educação das
massas». (Nota 11)

Uns e outros, procuravam disputar a António Ferro a sua «política do


espírito». Salazar não lhes perdoou a ousadia. Em 5 de Setembro de 1935,
depois de um almoço de confraternização da Vida Contemporânea, Cunha Leal
foi preso e banido do território nacional por dois anos, na companhia do
ex-ministro republicano, Domingos Leite Pereira, nesta altura chefe da
secretaria judicial da 5.a vara de Lisboa e do ex-deputado Prestes
Salgueiro.

Uns dias depois, em 15 de Maio daquele ano, um núcleo duro das mais
eminentes personalidades da cultura do país foram abrangidas por um novo
diploma legal (Nota 12) «de defesa do Estado», entre elas Abel Salazar,
um dos colaboradores da Vida Contemporânea. O governo decretava o
afastamento e a reforma compulsiva dos «funcionários ou empregados, civis
e militares, que tenham revelado ou revelem, espírito de oposição aos
princípios fundamentais da Constituição e não dêem garantia de cooperar
na realização dos fins superiores do Estado Novo». Ao mesmo tempo, o
mesmo decreto estabelecia que não podiam ser nomeados, contratados ou
admitidos a concurso para cargos públicos, indivíduos nas mesmas
condições, nem mesmo admitidos alunos desafectos a escolas que davam
acesso ao funcionalismo. Nestas condições, cerca de uma trintena de
personalidades (militares, altos funcionários públicos e professores)
foram demitidas dos seus cargos. Entre eles estavam Nuno Simões,
director-geral do Supremo Tribunal Administrativo, Adelino da Palma
Carlos, assistente do Instituto de Criminologia de Lisboa, Aurélio
Quintanilha, professor da Faculdade de Ciências de Coimbra, José Mendes
Norton de Matos, professor do Instituto Superior Técnico, Jaime Carvalhão
Duarte, professor do Ensino Primário, coronel Norberto Ferreira
Guimarães, etc.

O caso de Abel Salazar

Nas palavras finais do seu currículo, depois de referir que fora demitido
sem processo nem julgamento, consta esta perplexa consideração: «Quer
dizer, oficialmente, eu não conheço ainda a razão da minha demissão;
particularmente, eu sei que a razão principal foi o sistema filosófico em
questão [sistema filosófico que o próprio Abel Salazar considera próximo
do da Escola de Viena].
187

Devo acrescentar que nunca fui político; durante toda a minha vida
ocupei-me somente da actividade intelectual» (O Trabalho, Viseu,
25/12/1935, cit. in Cruz Malpique, Perfil Humanístico de Abel Salazar,
Livraria Civilização Editora, Porto, 1956, p. 35).

E acrescentava, em carta a um amigo: «... Não tenho, pois, ambições


políticas, nem jamais as terei, como jamais as tive. Mas tenho deveres
sociais, que cumprirei conforme os ditames da Ética científica.» (Op.
cit., p. 36.)

Abel Salazar foi um médico-investigador de renome internacional,


professor, artista plástico e escritor. Nasceu em Guimarães, em 19/7/1889
e morreu em Lisboa em 29/12/1946.

Estudante de excepcionais qualidades, formou-se em Medicina, tendo obtido


o doutoramento em 1915. Iniciou a sua carreira académica universitária
ainda estudante e progrediu rapidamente até professor catedrático da
cadeira de Histologia da Universidade do Porto, em 1919. Viajou por toda
a Europa, foi membro de várias sociedades científicas e organizou o
Instituto de Histologia e Embriologia que se tornou num centro de
investigação de renome, com um trabalho científico reconhecido
internacionalmente.

Em 1935, foi demitido do seu lugar de professor universitário, por razões


políticas, tendo rumado a Paris onde prosseguiu os seus estudos
científicos, na área da histologia e embriologia. Numa referência
indirecta às suas razões (que opunha às do ditador), escrevia em 1935:
«Quando a mulher junta à beleza o talento, e ao talento a coragem, e à
coragem o martírio - e quando o martírio é devido a uma causa nobre -
podemos quase venerá-la como deusa. Tal é Hipátia, cujo nome merece ser
recordado, nos tristes tempos de hoje. Filha do matemático Téon de
Alexandria, discípula de Plutarco de Atenas, Hipátia, casta e bela como
uma Atena viva, soube manter, no seio da Alexandria dilacerada pelo
fanatismo das seitas cristãs e judaicas, os direitos do pensamento, da
ciência e filosofia livres.» (Op. cit., p. 39.) Seu biógrafo e discípulo,
Cruz Malpique considera que Abel Salazar foi o «desassombro em pessoa»,
um crítico feroz da Ditadura que lhe calou a voz quanto pôde, pelo
artifício da censura.
188

Por isso também, a hierarquia universitária era implacável para os


incómodos. Perguntando ao director da sua faculdade se podia responder às
inúmeras solicitações que lhe chegavam de outros investigadores
estrangeiros, este transcreveu-lhe um despacho do reitor: «A separação de
serviço do Prof. Abel Salazar foi determinada pelos inconvenientes da sua
actuação de carácter político e social sobre a população escolar. Nestas
condições, não é de permitir que frequente os laboratórios e mais
dependências universitárias.» (Ofício de 11 de Novembro de 1935.) Abel
Salazar não podia entrar no Instituto que ajudara a criar, estava mesmo
impedido de entrar na biblioteca da Faculdade para levantar as separatas
científicas que publicara e não podia sair para o estrangeiro, em
resposta aos inúmeros convites que os institutos estrangeiros congéneres
lhe dirigiam.

Longe da cátedra, alargou a sua produção filosófica, pedagógica e


científica e dedicou um tempo maior a sua vocação artística de agua-
fortista, desenhador, pintor e escultor, deixando uma obra de mais de
dois mil trabalhos de pintura, escultura e gravura, hoje guardados em
Fundação existente com o seu nome.

Depois da sua demissão, Abel Salazar viveu ainda uma década. Dez anos de
Ditadura que privaram o país (e a humanidade) do pulsar criativo do
cientista e do empenhamento ético do cidadão.

A exclusão selectiva dos mais perigosos

Os últimos anos da década de 30 foram marcados pela entrada de sucessivas


levas de exilados no país. Cerca de meia centena de oficiais e
funcionários públicos regressam pela amnistia concedida por Salazar no
âmbito das comemorações do X aniversário ao 28 de Maio (Nota 13).

Alguns, como o tenente-coronel Ribeiro de Carvalho, regressaram por terem


defendido uma completa neutralidade na Guerra Civil de Espanha (Nota
14).Os restantes fazem depender o seu regresso do desfecho da guerra e
acabam por entrar no país em dois momentos diferentes: uns depois da
retirada dos republicanos espanhóis da Catalunha, em 1939, outros em
Junho de 1940, na altura da amnistia concedida no âmbito das Comemorações
dos Centenários (Nota 15). A amnistia de 1940 abrangeu mais de três
centenas de repatriados, entre eles Jaime Cortesão, Bernardino Machado,
Agatão Lança, Jaime de Morais.
189

Destes, a maioria seria presa à chegada à fronteira, correndo para muitos


processos em tribunal, sob acusação de «traição à pátria». Para muitos,
os processos arrastam-se pelos tribunais durante anos, sem solução à
vista. Para outros, como Jaime Cortesão e Jaime de Morais, a polícia
submete-os a interrogatórios; no final, notifica-os para saírem do
território nacional, para país à sua escolha. Para estes dois resistentes
republicanos a reintegração nos quadros do funcionalismo (condição que
haviam perdido em 1927) só viria a ocorrer no final da década de 50,
depois do regresso do seu exílio brasileiro.

A Segunda Guerra trouxe à Ditadura um recrudescimento das lutas internas,


em forma de greves ou de reorganização das forças políticas clandestinas
mas, ao mesmo tempo, uma relativa acalmia, em comparação com o que
acontecera na década anterior. Isso não impedia, no entanto, que se
mantivessem as prisões indiscriminadas, como aquela que aconteceu a
Agostinho da Silva, em 1943. Uns meses depois, o professor e poeta auto-
exila-se no Brasil, depois de uma passagem pela Argentina e pelo Uruguai.

Porém, terminada a Guerra, alguns elementos dos sectores democráticos não


directamente concitados com o Partido Comunista constituem, em 8 de
Outubro de 1945, o Movimento de Unidade Democrática (MUD), com o
objectivo de concorrer às eleições de Novembro desse ano, já que o
governo tinha aventado a hipótese de poderem surgir listas de deputados
«contrários à situação». O movimento obteve uma adesão popular inesperada
e, apesar das restrições governamentais (a partir de 27 de Outubro, o
governo considerava o MUD «um elemento de subversão social»), deu
oportunidade a que os líderes do MUD se multiplicassem em actividades
públicas de esclarecimento, através de entrevistas a jornais, cartas
abertas, em comícios ou em manifestos políticos, onde denunciavam a
hipocrisia do governo e se apresentavam como capazes de elaborar um
programa político alternativo e de o pôr em prática.

Esta falsa oportunidade dada pelo governo permitiu, como em outros


momentos políticos da Ditadura, que a oposição abandonasse a
semiclandestinidade em que vivia para se apresentar em público, em
especial uma intelectualidade empenhada, onde sobressaíam figuras como as
dos matemáticos Bento de Jesus Caraça e Ruy Luís Gomes e do jovem músico
Fernando Lopes Graça.
190

Depois de ter desistido de concorrer à eleições de 1945, o MUD decidiu


manter-se em actividade, forçando a estreitíssima faixa de liberdade
concedida pelo governo da Ditadura. O contra-ataque governamental para a
sua dissolução aconteceu na sequência da tomada de posição pública do MUD
sobre a candidatura de Portugal às Nações Unidas, em Agosto de 1946, cuja
primeira recusa considerou «uma humilhação nacional». O governo
considerou esta posição uma «traição à pátria» e decidiu prender e
instaurar processos disciplinares aos professores Mário de Azevedo Gomes
e Bento de Jesus Caraça, membros da Comissão Central, de que resultou a
demissão das suas funções docentes.

O caso de Bento de Jesus Caraça

Bento de Jesus Caraça, matemático, professor, homem de cultura e político


antifascista. Filho de trabalhadores rurais, nasceu em Vila Viçosa a 18
de Abril de 1901 e morreu em Lisboa em 25 de Junho de 1948. Em 1918
termina o curso liceal e matricula-se no Instituto Superior de Comércio
(actual ISEG). Em 1919, ainda estudante, foi nomeado 2.° assistente
temporário do ISC. Dez anos depois era professor catedrático daquele
Instituto onde foi desenvolvendo, até à sua demissão pelo governo, em
Outubro de 1946, uma intensa e inovadora actividade académica e
científica. Destaque-se, em 1938, a criação do CEMAE - Centro de Estudos
de Matemáticas Aplicadas à Economia, para o qual é eleito director.

A par da sua actividade académica, ou melhor, profundamente implicado com


essa carreira académica, Bento de Jesus Caraça assume a fraterna comunhão
do especialista com o anseio universal de conhecimento de todos os
homens, aliando o pensamento à acção, num apostolado laico de reconhecido
valor. Como Romain Rolland, uma referência incontornável daquele início
de século entre a intelectualidade empenhada, Bento Caraça também
acreditava que «todo o pensamento que não age é um aborto ou uma
traição». Por isso, a partir da guerra, vemo-lo a dirigir a Universidade
Popular Portuguesa e a desdobrar-se em conferências e cursos onde a
cultura - não a de alguns, mas a de todos os homens -, lhe surge como a
questão central do seu tempo.
191

Não evitando a polémica com o projecto elitista de cultura dos


«seareiros» - onde António Sérgio surge como a bandeira avançada -, Bento
Caraça não teme os riscos da vulgarização do saber, porque acredita na
perfectibilidade humana e tem fé na libertação do homem, de todos os
homens: «O que se pretende vulgarizar é, precisamente, o que pertence ao
domínio geral, e aí não há nada que não possa ser apreendido pelo comum
dos homens.» O intelectual de tipo novo, a que Bento Caraça adere, é
empenhado social e politicamente e olha para a libertação do homem como
obra de emancipação do próprio homem, num processo dialéctico onde a
função do detentor do saber é a de ajudar a elevar o conhecimento dos
seus concidadãos, abrindo-lhe os caminhos da autonomia.

Crente na iminência da «Cidade Nova», como aquele local onde se


realizariam as plenas capacidades do homem - de todos os homens -, Bento
Caraça assume o papel de um militante da cultura, onde a «formação
integral do indivíduo» passa a ser, na sua opinião, o problema crucial do
seu tempo. No início da década de 30, vemo-lo empenhado, através de
publicações e conferências, no nascimento do «homem novo», capaz de
construir o futuro pelas suas próprias mãos. É nesta linha de ideias que
dirige a Biblioteca Cosmos, uma colecção de divulgação científica e
artística com ampla aceitação popular.

Mas Caraça é também o homem que olha de forma preocupada o avanço do


mundo para o fascismo e para a guerra. Em 1934 funda, com outros, a Liga
Contra a Guerra e Contra o Fascismo, uma organização semiclandestina que
apoiará a formação da Frente Popular Portuguesa.

Em 1945, ajuda a fundar o Movimento de Unidade Democrática (MUD),


desempenhando um papel fulcral na actuação política daquele movimento
entre os anos de 1945 e 1946. Na sequência desta actividade política,
será preso por mais de uma vez e demitido da universidade, em Outubro de
1946.

Esse será o princípio do processo de agravamento do seu estado de doença,


que o conduzirá à morte dois anos depois. Jovem ainda, mas afastado da
actividade que tinha abraçado empenhadamente duas décadas antes, Bento
Caraça desaparece do mundo dos vivos a meio de uma obra ímpar de
investigação e de doação generosa do conhecimento aos mais
desfavorecidos.
192

Em Lisboa, o seu funeral, em 1948, reuniu uma grandiosa multidão de


homenagem popular ao professor e cidadão, numa afirmação silenciosa do
espírito antifascista e de combate antigovernamental que também animara
Caraça, desde pelo menos 1934.

Acusados de falta de lealdade às Instituições

O MUD mantém-se activo durante o ano de 1947, reivindicando a dissolução


da Assembleia Nacional e a realização de eleições livres. No entanto, o
governo recompõe-se das dificuldades da guerra, promove a sua remodelação
e entra definitivamente ao ataque. Na Primavera daquele ano prende
diversos membros do MUD e da sua organização juvenil (o MUDJ) e, em
Junho, decide-se pela aposentação compulsiva de uma trintena de
personalidades eminentes da magistratura e do ensino, reeditando a purga
realizada em Maio de 1935. Entre os escolhidos estão Francisco Pulido
Valente e Luís Dias Amado, professores da Faculdade de Medicina de
Lisboa, João Remy Freire, do Instituto Superior de Ciências Económicas de
Lisboa, ou Manuel José Nogueira Valadares, da Faculdade de Ciências de
Lisboa. Os demitidos eram acusados de terem fomentado a agitação nos
meios académicos «contra medidas policiais, além de legítimas,
absolutamente estranhas à vida escolar» e de terem dado cobertura à
actuação de «uma incipiente organização juvenil em que se depositaram
esperanças exageradas» - numa referência óbvia à actividade do MUDJ. Aos
professores e assistentes envolvidos, considerava a nota governamental,
interessava-lhes mais «o apostolado ideológico que o exercício do múnus
docente» (Nota 16).

A decisão do Conselho de Ministros de Salazar de 14 de Junho de 1947


conduziu também à aposentação forçada de um vasto número de altas
patentes militares, uns antigos republicanos oposicionistas, como o vice-
almirante José Mendes Cabeçadas, e outros novos opositores, alguns deles
apoiantes da Situação até à Segunda Guerra. Entre os novos descontentes
reformados compulsivamente estão o general José Garcia Marques Godinho,
os brigadeiros Eduardo Corregedor Martins e António de Sousa Maia e os
coronéis Luís Gonzaga Tadeu e Carlos Tavares Afonso dos Santos (Carlos
Selvagem).
193

<Publicação em Diário do Governo da demissão compulsiva de professores


universitários em 1947: omitida>
194

<Notícia da demissão compulsiva de oficiais das Forças Armadas (O Século,


de 15 de Junho de 1947). (Hemeroteca/Lisboa/O Século): omitida>
195

Eram, segundo o Governo, militares que tinham faltado ao seu dever de


lealdade às instituições e praticado actos sediciosos.

Como acontecera com o MUD, o governo da Ditadura foi permitindo a


preparação de um «movimento subversivo», desde o final da guerra.
Conhecia, através da Polícia Política os intervenientes e as suas
ligações e aproveitou a sua saída à rua, na «Revolta da Mealhada» (10 de
Outubro de 1946), reeditada na intentona de 10 de Abril de 1947, para os
aniquilar.

No decurso da prisão a que foi sujeito por acusação de «actividades


contra a segurança do Estado», declarou Mendes Cabeçadas «ter visto com
desgosto, por motivo dos seus ideais políticos, estabelecer no país um
regime de poder pessoal, com características semelhantes às do fascismo
e, aproximando-se o fim da guerra, pensou que para o país havia toda a
vantagem em terminar esse sistema odioso em todo o mundo por se lhe
atribuir a causa da guerra (...) Aos sentimentos democráticos do
respondente satisfaz a Constituição e o que desejaria é que ela fosse
cumprida em toda a sua pureza. Infelizmente, não são satisfeitos os
princípios nela consignados e o princípio da eleição dos poderes
legislativo e executivo é completamente iludido» (Nota 17).

Em função da sua posição política, aliou-se aos «descontentes» militares


do regime, assinou com eles o «Pacto de Almada» (Nota 18) (ca. de
Setembro de 1946) e comprometeu-se a apoiar um golpe militar para exigir
ao presidente da República a deposição de Salazar e a constituição de um
«Governo Transitório» que garantisse a democratização do país.
Consideravam nesse documento que o Exército tinha concordado com a obra
de saneamento financeiro empreendida por Salazar, como uma solução para o
caos da administração pública. Porém, passada essa fase, a chamada
«Ditadura Nacional», limitou-se a «imitar a estrutura dos estados
totalitários», com o apoio da Censura e da Polícia Política, forjando uma
falsa legitimidade na base de um «plebiscito simulado». Tal governo
afastou os portugueses da civilização moderna e do concerto das nações.
Acreditam os signatários, por outro lado, que o presidente da República
se tem sentido constrangido a manter aquela situação, com receio de que
qualquer alteração faça cair o país no caos político e social. Por isso,
dentro do mesmo espírito que animou alguns dos promotores do 28 de Maio,
pretendem dar condições de suporte militar ao presidente da República
para que proceda à transição do regime (Nota 19).
196

Têm um programa político vasto e profundo de que se destaca a retoma da


vida partidária, a reforma do Parlamento, a autonomia do Executivo em
relação ao Poder Legislativo e a reforma da administração pública
orientada por critérios estritamente funcionais. Para o efeito formulam
um programa político imediato que passa pela aprovação de uma Lei
Constitucional Provisória, pela libertação dos presos políticos, pela
reposição de todas as liberdades, pela extinção de todos os organismos
repressivos e pela reforma da Justiça.

Até ao fim, o mesmo regime

O afastamento de funcionários públicos e de militares por «manejos contra


a segurança do Estado», ou por simples suposição de deslealdade às
instituições, manteve-se uma prática constante ao longo das décadas de 50
e 60. Apesar de se terem alargado e diversificado as oposições, em
particular na década de 60, também era mais vasto o catálogo dos
desafectos em posse da PIDE/DGS e da Legião Portuguesa. De resto, alguns
dos diplomas legais aprovados pelo governo nos anos 30, como o célebre
Decreto n.° 27 003, de 14 de Setembro de 1936, que impunha a todos os
candidatos a funcionários públicos e administrativos o repúdio formal do
comunismo e a aceitação da «ordem social estabelecida pela Constituição
de 1933», mantiveram-se em vigência até ao final do regime. Este
saneamento preventivo da função pública era obtido debaixo de uma enorme
pressão económica sobre os candidatos e ritualizado com um juramento
solene.

Os efeitos desta política persecutória é ainda hoje difícil de avaliar em


toda a sua extensão, até pela inexistência de estudos quantificativos
seguros. Conhecem-se inúmeros casos - em particular aqueles que, pela sua
visibilidade pública, romperam a barreira armada do silêncio imposta pelo
regime. Estão neste caso os intelectuais, os homens de letras, os
jornalistas, os artistas plásticos, os músicos, a gente do espectáculo,
ou mesmo os professores, cujas vozes se faziam ouvir, apesar do ferrete
pesado da censura. Quem não conhece o caso do cônsul Aristides de Sousa
Mendes?
197

Do músico e musicólogo Fernando Lopes Graça? Da arquitecta Virgínia


Moura? Do professor e historiador Vitorino de Magalhães Godinho? Do
professor e escritor Joaquim Namorado? Do professor, poeta e cantor José
Afonso? Mas estes são apenas casos que retratam, pela sua exemplaridade,
uma realidade muito mais vasta e diversificada.

No entanto, quantos outros portugueses anónimos foram expulsos ou, pior


ainda, quantos foram impedidos de desempenhar funções no Estado por
discordarem da política oficial do regime? Impossível saber.

A Revolução de 25 de Abril de 1974 criou condições legais para que os


militares e funcionários públicos afastados pudessem requerer a sua
reabilitação cívica e reintegração profissional. No entanto, esta é
apenas uma parte pequena do contingente dos perseguidos: muitos não
chegaram vivos ao 25 de Abril e, mesmo entre os vivos, nem todos
reivindicaram a sua reabilitação. Muitos acabaram por não regressar do
exílio, onde buscaram os meios de sobrevivência que não conseguiam obter
no país.

Porém, tão importante como conhecer a extensão do problema, é assinalar a


perversidade dos princípios que faziam tábua rasa das competências
individuais e da igualdade no acesso aos cargos públicos e privados,
impondo restrições de ordem política e ideológica, quando não de ordem
cultural e étnica.
<Página em branco>
CAPÍTULO 8

DEPORTAÇÃO E EXÍLIO

Pelo mundo repartidos

Mário Castelhano, o líder anarco-sindicalista que foi secretário-geral da


CGT e Director do jornal A Batalha, cumpriu a via-sacra de uma deportação
de segunda, até que a morte o encontrou, enfermo e desamparado, no «campo
da morte lenta», a 12 de Outubro de 1940. Doente dos intestinos, tomava
como remédio, a conselho do médico assistente do campo, papas de farinha.

Tinha iniciado a sua deportação africana com uma longa estadia de três
anos em Vila Nova de Seles, na colónia de Angola, no rescaldo da
Revolução de Fevereiro, por ser «um conhecido elemento avançado, fazer
parte dos principais orientadores dos elementos extremistas, sendo
considerado perigoso e indesejável...». Não foi tempo perdido para este
«revolucionário de doutrina social». Mesmo no atraso de Angola, continuou
a agitação, a par do ataque cerrado à Ditadura que encontrava adeptos em
todos os colonos e, em especial, entre os reviralhistas deportados.

A 8 de Setembro de 1930, Mário Castelhano foi mandado embarcar no


primeiro barco que passou para a Madeira. A bordo do «Mousinho»,
combalidos e doentes, dezenas de deportados asfixiavam. Atlântico fora,
S. Tomé à vista, com os olhos postos na ilha do destino. Lisboa, a 40
horas de boa marcha, depois de meses e meses de afastamento forçado, era
uma miragem que vergava os presos ao aviso antecipado da morte ou da
tragédia pessoal.
200

Onde iria acabar o seu périplo?

O Salazarismo instalou-se e marginalizou portugueses de todos os campos


políticos: republicanos, monárquicos, comunistas, anarquistas e
nacionais-sindicalistas. Salazar estava contra todos e todos estavam
contra Salazar.

Durante a Ditadura Militar e o Estado Novo, os exilados foram expulsos


(ou auto-exilaram-se) por razões políticas e por razões económicas. No
entanto, a maioria, oriunda das classes médias (militares, funcionários
públicos, intelectuais e homens de letras ou estudantes), acabou por
desenvolver uma actividade e prover ao seu sustento. Ao contrário dos
deportados, enviados para regiões inóspitas, onde nenhuma ocupação humana
era possível, a não ser na condição de semi-escravatura. Na verdade, os
deportados não escolhiam o local de degredo - era-lhes imposto como uma
pena e um opróbrio (Nota 1). A deportação e o exílio conheceram quatro
fases diferenciadas, todas elas concluídas com amnistias restritas ou
indultos e perdões individuais. As primeiras grandes levas ocorreram no
decurso das revoltas reviralhistas que abalaram o país, numa guerra civil
larvar, entre os anos de 1927 e 1931. Os ostracizados são, na grande
maioria, militares e políticos, para além de uma franja significativa de
gente operária e sindicalista implicada na acção directa» e no lançamento
das bombas que davam início ao assalto dos quartéis. Os primeiros,
mobilizando apoios e meios económicos, saíam para o exílio pela
clandestinidade e raramente iam parar às colónias africanas (Cunene,
Malanje, Guiné, Cabo Verde, Oe-Kussi - Timor). Quando muito, era-lhes
fixada residência nos Açores e na Madeira, uma espécie de paraísos da
deportação. Os segundos acabaram quase todos nos primeiros campos
africanos de «cadastrados», que bem se podiam considerar campos de
concentração. Em 1932, a Ditadura concedeu uma amnistia a todos os
deportados e exilados (Nota 2), «com excepção dos 50 mais perigosos»,
onde se contavam republicanos como Afonso Costa ou Bernardino Machado.

A segunda fase ocorreu após a institucionalização do Estado Novo, em


1933, e prolongou-se até ao início da Segunda Guerra Mundial.
201

No entanto, continuava a ser diferenciado o tratamento dado aos


adversários do novo regime. Os «políticos», militares ou civis,
demandavam o exílio espanhol ou francês. Alguns regressaram durante o ano
de 1936 e foram amnistiados, outros foram apanhados nas malhas da Guerra
Civil de Espanha e aí permaneceram até ao seu epílogo, tendo regressado
em 1940. Depois de terem afirmado a sua posição na «Declaração de Tours»,
beneficiaram muitos da designada «amnistia dos Centenários». (Nota 3)
Outros haviam já regressado em 1936 e tinham sido amnistiados (Nota 4) ou
haviam-se sujeitado ao crivo policial e à acção do Tribunal Militar
Especial. Ao invés, o mundo operário, radicalizado pela luta sindical,
contra a fascização das suas organizações, e disposto a lutar de ai mas
na mão, foi inaugurar os verdadeiros campos de concentração do regime, em
especial o do Tarrafal, no arquipélago de Cabo Verde (Nota 5).

Goradas todas as esperanças de democratização do regime salazarista, em


1945, depois da guerra, uma nova leva de exilados demandou o Novo Mundo,
em busca de realização pessoal e de solidariedade política. Alguns, como
Jaime Cortesão, mal chegam ao país, em 1940, são presos, o que os leva a
procurar, de imediato, o exílio brasileiro. Expulsos do funcionalismo
público ou impossibilitados de realizar a sua vida, também intelectuais e
homens de letras como Agostinho da Silva, José Rodrigues Miguéis ou Jorge
de Sena (para apenas falar nos nomes mais sonantes) se exilaram no
continente americano. Neste caldo republicano-socialista irão integrar-
se, embora com grandes dificuldades, os «descontentes» do regime que, no
pós-guerra, cortaram dramaticamente com Salazar: Henrique Galvão,
Humberto Delgado, ou Queiroga Chaves. Desta terceira vaga de exilados,
alguns voltarão ao país, decorria a década de 60, mediante a concessão de
indultos ou perdões individuais. Os mais intransigentes, como Galvão ou
Delgado, estarão destinados a morrer no exílio ou às mãos da polícia
política do regime.

Com a radicalização política de extrema-esquerda que ocorreu em meados da


década de 60, no decurso da Guerra Colonial, e acompanhando a emigração
económica massiva para a Europa, uma nova vaga de exilados demandou o
destino europeu, da França e Bélgica à Escandinávia, da Suíça às
democracias do leste. Alguns são jovens refractários ou desertores da
Guerra Colonial, outros formam os embriões de partidos políticos
surgidos, ainda na clandestinidade ou depois da Revolução de 25 de Abril,
que lhes abrirá, definitivamente, as portas da liberdade.
202

O ostracismo dos Republicanos

A prisão de vultos grados do Republicanismo pelos responsáveis da


Ditadura Militar e a sua deportação para as ilhas atlânticas, sem
processo formado ou julgamento, começou logo em Julho de 1926, dois meses
depois do 28 de Maio. Depois do afastamento do general Gomes da Costa, o
líder da revolta que derrubou a República, foram presos alguns dos
militares que, numa primeira fase, apoiaram o movimento do 28 de Maio,
como os coronéis Ribeiro de Carvalho e Tamagnini Barbosa, ou o capitão
Augusto Casimiro e, em Janeiro de 1927, depois da apresentação de
protesto dos Directórios dos partidos republicanos democráticos junto das
embaixadas estrangeiras em Lisboa, foram deportados o general Sá Cardoso,
o coronel Hélder Ribeiro, enquanto outros responsáveis políticos
republicanos conseguiam fugir do país. Porém, a grande vaga repressiva
acentuou-se após a derrota da «Revolução Sangrenta» que agitou o país nas
primeiras semanas de Fevereiro de 1927. Logo a 15 de Fevereiro, o Decreto
n.° 13 137 previa a separação de serviço, com 50%. do vencimento, de
todos os funcionários públicos e oficiais do Exército e da Armada. Entre
muitos outros, são afastados Jaime Cortesão, Raul Proença e David
Ferreira da Biblioteca Nacional, Álvaro de Castro da Escola Colonial,
José Domingues dos Santos da Faculdade de Engenharia do Porto, Filipe
Mendes do Comissariado dos Serviços de Emigração e Jaime de Morais do
Conselho Superior de Colónias. O mesmo decreto previa a expulsão pura e
simples de todos os agentes, guardas e chefes da polícia e a baixa dos
sargentos do Exercito, Armada, GNR e Guarda-Fiscal que participaram na
revolta de Fevereiro. São também dissolvidos todos «os centros políticos
e associações de qualquer natureza» que tenham tomado parte na Revolução.
Entre outros, são encerrados os sindicatos dos Profissionais da Imprensa,
do Pessoal da Câmara Municipal de Lisboa, dos Marinheiros e Moços da
Marinha Mercante e os Centros Republicanos Almirante Reis, José Domingues
dos Santos e Afonso Costa.
203

A vaga repressiva completou-se pela deportação e expulsão do país dos


principais opositores. Cerca de um milhar de prisioneiros seguiu para as
ilhas e colónias. Nos dias 19 e 22 de Fevereiro, a bordo do navio Infante
de Sagres, saíram cerca de 500 presos e cerca de 570 a bordo do navio
Lourenço Marques.

Em Angra do Heroísmo e nas colónias ficaram deportados, sem julgamento


prévio, alguns dos mais destacados militares reviralhistas, iniciando aí
um périplo africano que, de transferência em transferência, os levaria a
todos os posto; improvisados do ostracismo republicano. Foi o que
aconteceu ao general Sousa Dias, desembarcado em S. Tomé e Príncipe (na
companhia dos principais implicados na Revolução de Fevereiro - almirante
Câmara Leme, coronel Freiria, major Tamagnini Barbosa, capitão-tenente
Sebastião da Costa, tenente Joaquim Videira, entre outros), transferido
nos finais de 1927 para Ponta Delgada, depois para o Funchal, em 1929,
onde virá a chefiar a «Revolta da Madeira» de 1931. Na sequência desta
revolta, seria (re)deportado para Cabo Verde, onde viria a falecer, em
1934, sem nunca ter regressado à metrópole.

Muitos outros republicanos, mesmo não directamente implicados na


Revolução, foram expulsos, como Bernardino Machado, ou fogem à prisão e
rumam ao exílio, a maioria pela cidade de Vigo, onde viria a constituir-
se o primeiro núcleo de emigrados. Aí se virão a encontrar o comandante
Jaime de Morais, Jaime Cortesão, o capitão João Sarmento Pimentel,
Augusto Casimiro dos Santos, entre muitos outros.

A par dos deportados políticos, ou seja, dos republicanos com


responsabilidades políticas na condução da República, cresceu também o
número dos avançados, anarco-sindicalistas e comunistas, que igualmente
optaram pela conspiração contra a Situação. Tinham perfeita consciência
de que a queda da Ditadura não viria trazer o mundo utópico por que
lutavam; no entanto, restabelecida a liberdade democrática por que
lutavam os republicanos, isso havia de permitir-lhes falar, organizar e
desenvolver a sua propaganda, sem as agruras da repressão ditatorial. Por
isso estiveram na primeira linha do assalto aos quartéis e combateram de
armas na mão na primeira linha dos revolucionários que assentaram
baterias nas ruas do Porto, ao lado dos republicanos, na revolta de 1927.
204

Eles constituíram o Sector B da Penitenciária de Lisboa. Havia-os


intelectuais, jornalistas e homens de letras, mas a maioria vinha do
mundo operário: tipógrafos, marceneiros, metalúrgicos. Uma aristocracia
libertária já bem referenciada pelas polícias da República que assistiu,
indefesa, ao encerramento do jornal anarco-sindicalista A Batalha, nos
primeiros tempos da Ditadura Militar, e que foi expulsa dos sindicatos
livres ainda existentes. Estaria condenada a sobreviver nos «cemitérios»
africanos de Vila Nova de Celes, de Conda ou de Angoiva, os primeiros
«campos de concentração», à custa de 600 escudos mensais que, em 1929,
baixaram para 400, antes de experimentar o Tarrafal, a partir de 1936. Na
Madeira, dezenas de deportados recebiam no porto os que chegavam, tão
ignorantes uns como outros quanto ao local que lhes estava destinado. Os
que chegavam de Angola não podiam desejar pior. Nos casebres onde os
tinham alojado, o clima africano, húmido e quente, deixara em todos as
marcas definitivas das febres delirantes. Pão, um prato «não muito
vantajoso» e água tinha sido a dieta de muitos durante todo o tempo da
estadia em África. Só os fortes resistiam sem abalos.

Para deportados e para exilados fugidos do país, a Madeira foi ponto de


passagem. Poucas horas depois de chegarem partiam de novo, para os
Açores, normalmente no velho «Carvalho Araújo»: o mesmo cenário, a mesma
desolação. Nos cais, grupos de deportados saudavam os que acabavam de
chega r, uns duzentos ao todo, durante quase toda a década de 30.
Republicanos, socialistas ou anarquistas e libertários eram todos
«bolchevistas» a necessitar de correcção para o governo da Ditadura. Eram
poucos no número, mas muitos pela decisão e pela rijeza com que se
dispunham a combater a situação. Por isso o Governo Militar os foi
separa.do, aos grupas de dez, quinze, vinte... S. Miguel, S. Maria,
Terceira, Pico.

Alguns deportados tinham pertencido ao escol de desinteressados que viam


na República a sua Dulcineia, cavaleiros do Ideal, capazes de todos os
sacrifícios para salvá-la do abismo. Agatão Lança fora expulso das
bancadas de S. Bento pelos ditadores para, uns meses depois, em Fevereiro
de 1927, passar à porta do Parlamento onde se lhe juntou a guarda. Com os
marinheiros que arrebanhara no Quartel de Alcântara e com a guarda do
Palácio constituiu o «exército» que ergueu as «barricadas da liberdade»
de S. Mamede, ao Rato, para fazer frente à Ditadura.
205

Resistiu heroicamente à flagelação das forças da Ditadura, durante três


dias e duas noites, sem alimentação, sem artilharia e sem dormir, até à
exaustão completa dos meios. Saiu com os seus marinheiros para a Cadeia
Nacional, como preso comum e daí o mandaram para a deportação angolana,
depois de uma curta estadia no Castelo de Angra.

De Luanda, onde lhe fixaram residência, o 1.° tenente Agatão Lança evade-
se no início de 1928, para um exílio em Paris de onde sairá tantas vezes
como aquelas que retornará, sempre confiante na futura revolução
redentora. Como elemento próximo da Liga de Paris (Nota 6), vai estar
presente nas negociações que tiveram como finalidade a unidade de todas
as forças republicanas contra a Ditadura. Em 1928, voltará ao país para
participar na «Revolta do Castelo»; em 1931 interna-se em Espanha de onde
acompanha a «Revolta das Ilhas»; no ano seguinte junta-se à lista dos
«cinquenta, mais perigosos», banidos do território nacional por dois
anos. Mas nem por isso se lhe reconhece o heroísmo e o valor, pois não
será convocado para a Reunião de Beirys, promovida sob a égide de
Bernardino Machado, em Novembro daquele ano. Em carta a Lago Cerqueira,
um companheiro Democrático, lamentará que o antigo presidente trate mal
«... ele e outros oficiais que não pertencem à Liga de Paris (...). Sua
Exa. para comprazer ao António Sérgio que quer o exclusivismo das honras
do ataque à Ditadura para a Liga de Paris (...) mete os emigrados todos
organizados na Liga. Todos os outros, embora tenham forçado a fronteira
oito vezes para combater a Ditadura, não contam» (Nota 7). Nesta altura a
vitória de Salazar era já quase definitiva: as derrotas do Reviralho
ameaçavam dividir os oposicionistas em contendas demolidoras.

Nos anos seguintes (1932-1933), Agatão Lança rumará à Galiza onde, num
grupo de liberais de que se destaca Cunha Leal, ajudará a fundar a União
Geral dos Combatentes pela República: com a UGCR, a revolução só teria
lugar se pudesse contar com o apoio de todos (conservadores, avançados,
democráticos...), dentro e fora do país. Tomava fôlego a estratégia que
desconfiava da Revolução vinda de fora, da Espanha republicana, como a
imaginavam os «Budas», ligados à Liga de Paris. Agatão Lança era um dos
«50 mais perigosos» que a amnistia de 1932 não considerou susceptível de
perdão. Regressará ao país em 1940, depois do início da Segunda Guerra
Mundial.
206

Ventos de Espanha

Depois da implantação da II República, em 14 de Abril de 1931, a Espanha


passou a ser o destino comum de todos os refugiados políticos
portugueses, até ao desfecho da Guerra Civil: aí residiam ou lá se
encontravam com frequência, fugidos clandestinamente por uma fronteira
que, mesmo muito controlada, nunca deixou de permitir o «salto» dos
emigrados. O governo de Salazar sempre exigiu o seu «internamento» para
além de uma centena de quilómetros da fronteira; porém, fora o período do
«segundo biénio» da República, mais favorável aos interesses do Ditador,
esse «internamento» nunca foi respeitado, em especial na fronteira galega
(Valença - Tuy, Vila Nova de Cerveira, La Guardia), no Alentejo (Marvão,
Elvas - Badajoz) e (Vila Nova de Ficalho) ou no Algarve (Vila Real de
Sto. António - Ayamonte).

Antes do início da Guerra Civil (que isolou Portugal da Espanha


republicana pelo cordão militar franquista estabelecido entre Sevilha e a
Corunha), a fronteira era uma linha que ora se galgava em fuga, depois do
desaire de uma revolta ou de uma greve mal sucedida, ora se transpunha
para reatar as relações e para refazer as redes de oposição ao governo de
Salazar.

Com o apoio expresso de Manuel Azaria ou de Marcelino Domingo,


estabeleceu-se em Madrid um núcleo da Liga de Paris, sob a liderança de
Jaime Cortesão. Juntam-se-lhe o comandante Jaime de Morais e o ex-
deputado republicano, Alberto Moura Pinto (entre muitos outros). Sob a
sua égide, constitui-se a Comissão de Assistência Pró-Emigrados
Necessitados (CAPEN), negoceia-se um empréstimo avultado com o financeiro
espanhol D. Horácio Echevarneta e adquirem-se armas junto do Consorcio
Militar Armero para fazer a revolução em Portugal. Enredados pela sorte
da II República, raramente conseguiram dar resposta às aspirações e
exigências das hostes oposicionistas exiladas: chamaram-lhes «Budas» e
acusaram-nos de não saberem utilizar o apoio espanhol na subversão da
Situação em Portugal. Em Sevilha, em Vigo ou na Corunha, (re)fizeram-se
continuamente os «comités revolucionários» reviralhistas que anunciavam a
revolução para «amanhã». De tempos a tempos, a vinda de Afonso Costa (de
Paris) ou de Bernardino Machado, reunia em Vigo ou em La Guardiã o grosso
desta oposição tresmalhada.
207

A Espanha chegavam também os que fugiam da deportação e dos primeiros


campos de concentração da Ditadura Militar. Em Setembro de 1932, a «carga
humana» que tinha sido transportada pelo navio Pedro Gomes para o enclave
de Oe-Kussi Ambeno (Timor), na sequência da revolta de «26 de Agosto de
1931», rompeu as barreiras impostas, meteu-se numa barcaça pelo mar
oceano e foi apanhada por um navio holandês que fazia transporte para a
Europa. Nela regressaram um dezena de oficiais, entre eles o coronel
Fernando de Utra Machado, antigo ministro da República, e o tenente
Francisco de Oliveira Pio que, durante a Guerra Civil de Espanha, havia
de ser o comandante do célebre 5.° Regimento (Nota 8) de Milícias
Militares, na Serra de Guadarrama.

Na sequência do «18 de Janeiro de 1934», uma revolta do mundo sindical


(anarquista e comunista), acossado pela «fascização dos sindicatos»,
centenas de activistas foram presos, uns julgados, outros enviados para
as prisões atlânticas. Muitos ainda, conseguindo fugir, iriam engrossar o
campo anarquista ibérico da F.A.I. ou as redes comunistas que circulavam
clandestinamente entre Portugal e o país vizinho.

Depois da sua consolidação, o Estado Novo criou inimizades tanto à


esquerda como à direita. Dos nacionais-sindicalistas, alguns integraram-
se na Situação. Outros, os «rolões», seguiram o seu chefe, Rolão Preto
(Nota 9), e foram banidos do território nacional, na sequência da
designada «Revolta de Mendes Norton», ocorrida em Setembro de 1935.

Neste contexto, de «caça a todos os campos» adversários, serão banidos do


território nacional, por dois anos, muitas personalidades do campo
republicano ou da oposição moderada, entre eles Domingos Pereira e
Francisco Cunha Leal, antigos deputados e ministros da República. O
último destes regressará a Espanha, onde irá permanecer até à amnistia de
Maio de 1936 - um destino que já conhecera entre 1930 e 1932.

Também os monárquicos incómodos foram expulsos do país e escolheram


Espanha como destino. Em 10 de Março de 1938, o histórico Henrique Paiva
Couceiro foi preso em Arbo, junto à fronteira de Melgaço, quando se
preparava para chefiar um golpe contra Salazar, que acusava de não
defender Angola. A revolta (conhecida como «Intentona de Coimbra») havia
de ser tentada em finais de Maio daquele ano.
208

<Apelo à unidade subscrito por dois dos principais dirigentes


republicanos a partir do exílio de Paris. (Fundação Mário Soares):
omitido>
209

<Credencial da Maçonaria emitida a Afonso Costa. (Fundação Mário Soares):


omitida>
210

Espanha era, pois, muito especialmente a partir da vitória da Frente


Popular, o lugar de todos os (des)encontros da oposição contra Salazar.
Regressam a Madrid os «Budas», que tinham estado implicados no «caso
Turquesa» (de tráfico de armas através da Espanha, com destino à
revolução em Portugal), estabelece-se a liberdade de circulação dos
exilados e fica facilitada a propaganda na imprensa espanhola (Liberal,
El Sol, Heraldo de Madrid) e na rádio (Union Radio de Madrid). Logo a
partir de Abril de 1936, Madrid é o lugar onde «todas as oposições» se
esforçam por firmar um programa de Frente Popular: de Paris vem Afonso
Costa, José Domingos dos Santos e o comunista Francisco Paula de
Oliveira, «Pável»; de Portugal chegam muitos outros, entre eles o jovem
comunista Álvaro Cunhal, «Duarte». Constitui-se a União dos Antifascistas
Portugueses e alguns dos exilados decidem-se por uma participação directa
na Guerra Civil que teve início no Verão daquele ano: Oliveira Pio na
Frente de Madrid, Alexandrino dos Santos na Frente de Aragão, a par de
outros com menores responsabilidades de liderança.

A partir de 1937, a Frente Popular terá mesmo o seu jornal no exílio - o


UNIR, dirigido por José Domingues dos Santos -, com o apoio de uma
organização de massas dos emigrados portugueses em França -a Federação
dos Emigrados Portugueses em França (F.E.P.F.), a qual chegou a
mobilizar, em cidades como Paris ou Toulouse, comícios com centenas de
participantes, na base de um forte movimento sindical reivindicativo que
se dispunha também a apoiar os republicanos espanhóis.

Perante a inoperância orgânica da Frente Popular, grupos de anarquistas e


comunistas desagregados (ou até sob a crítica dos líderes do exílio)
levam a cabo acções terroristas isoladas: em 20 de Janeiro de 1937,
ocorrem acções de sabotagem em Lisboa, numa operação conjunta da oposição
interna e de elementos vindos de Espanha, entre eles o célebre Silvino
Ferreira. Uns meses depois volta a Portugal, e com o concurso de
anarquistas da liderança de Emídio Santana participa, a 4 de Julho, no
atentado falhado a Salazar.

A Segunda Guerra vai encontrar os emigrados políticos portugueses num


trânsito intenso, entre França, Espanha e Portugal. Muitos regressam a
Portugal, na Primavera de 1939, no rescaldo da Guerra Civil de Espanha.
Alguns, como os coronéis Ribeiro de Carvalho e Cunha Aragão, tinham-no
feito já há mais tempo: quando a Guerra Civil de Espanha começou,
decidiram «baixar bandeiras» por considerarem perigosa a luta
oposicionista naquele contexto internacional.
211

Apesar de dispersos pela França e pelo Norte de Africa, os republicanos


firmaram a sua posição na «Declaração de Tours»: a grave situação
internacional levava todos os não-comunistas a porem-se ao lado do
governo, na defesa da integridade nacional. No entanto, estava longe do
Fim a tragédia do exílio dos combatentes republicanos que ergueram a
primeira barreira à Ditadura. Para muitos, entre os quais Jaime Cortesão,
a entrada no país seria seguida de inquérito, prisão e vigilância da
polícia política - o estigma da traição acompanhou-os até para além da
morte física. Impossibilitados de viver livremente no seu país, rumaram
ao Novo Mundo onde iniciaram um segundo exílio, nalguns casos até que a
morte os levasse.

Fuga pelos Pirenéus

Sob o peso de colunas de fumo intenso e as sacudidelas dos


bombardeamentos aéreos e da artilharia, Barcelona fraquejava ao rumor da
chegada iminente dos franquistas. Antecipava-se a catástrofe com os
preparativos da debandada colectiva. Perante a derrocada da frágil ordem
revolucionária instalou-se o caos nos transportes e nos abastecimentos.

Jaime Cortesão conseguiu um salvo-conduto para atravessar os Pirenéus, em


direcção a França. Reuniu o que pôde em dois pequenos automóveis e uma
camioneta e deixou para trás anos de trabalho em ficheiros e livros que
nunca mais conseguiu recuperar. Consigo viajavam a mulher, uma filha e a
família do comandante Jaime de Morais, ao todo onze pessoas. Subiram a
Centellas pela noite, evitando os bombardeamentos. Aí, o grupo de
portugueses aumentou para três dezenas de pessoas.

Três dias depois da partida deste grupo de fugitivos, a 26 de Janeiro de


1939, Barcelona caía nas mãos dos franquistas. Moles humanas, perseguidas
pela flagelação implacável dos vencedores, engrossaram as colunas de
fugitivos que demandavam o sul de França. A pé, em maior número, ou em
carros puxados por animais, os fugitivos rolavam incessantemente, na
ânsia de salvar os parcos haveres que haviam juntado à partida.
212

Em S. João de Abadessas, duzentos portugueses que haviam combatido na


Guerra Civil, temendo pela sua sorte, pedem a interferência de Jaime
Cortesão, um dos líderes reviralhistas com mais prestígio junto do
governo republicano espanhol, nessa altura já refugiado em Figueras.

Nos dias seguintes, o grupo dos fugitivos vai aumentando de número.


Escasseia a alimentação e tornam-se intransitáveis os caminhos, cobertos
por um forte nevão e devassados por chuvas copiosas e pelas colunas de
refugiados. Em Mollo, já junto à fronteira, os caminhos abarrotavam de
refugiados e de montões de malas e colchões abandonados. Desesperado, o
grupo de portugueses, uns cinquenta por essa altura, decidiu acomodar-se
numa casa de montanha, onde um outro de igual número se tinha acolhido
já. «Éramos cinquenta náufragos, escorrendo água, tomados de aflição e
desespero», conta Jaime Cortesão (Nota 10). Durante uma noite e um dia
disputaram entre si o calor da lareira, a parca alimentação, o espaço e
os insultos, num cenário indescritível de horroroso.

No dia seguinte, com a fronteira à vista de um quilómetro, tornaram-se


inúteis os carros, de tal modo era densa a neve acumulada. Daí em diante,
viaja-se a pé, com os bens mais preciosos às costas. Um carro de bois
carregou toda a mercadoria de duas camionetas - ou o que dela restava. Já
em França, a carga não resistiu a um declive acentuado e despenhou-se por
uma ravina abaixo. Tudo ou quase tudo se perdeu, entre a neve e a lama.
Jaime Cortesão recuperou manuscritos e ficheiros, muito manchados pela
neve, mas perdeu o que restava dos seus livros.

Em França, esperava-os um país desolado e aflito com a invasão dos


refugiados da Guerra de Espanha e que parecia adivinhar a outra invasão -
essa mais dramática -, que havia de ocorrer uns meses depois, pela mão de
Hitler. Alguns fugitivos, os mais afortunados, conseguiram a
solidariedade das organizações em que militavam - republicanas,
socialistas, comunistas, maçónicas... Com esse apoio rumaram a Bordéus, a
Bayonne ou a Biarritz, onde puderam preparar o retorno a Portugal. Outros
- os comunistas, os anarquistas, «perigosos» e «indesejáveis» -, haviam
de ir ocupar os «campos de concentração» do sudeste: Gurs, Argélès-sur-
Mer...
213

Comunistas e perigosos

Em 25 de Maio de 1939, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado enviava


ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, com carácter de urgência, «uma
relação dos portugueses emigrados no estrangeiro, bem como outra também
de nacionais que se encontram nos campos de concentração de França».
Nesse ofício urgente, a polícia política era de parecer que «a nenhum
deles devia ser concedido novo passaporte nem revalidados os que
possuírem, sem que primeiramente a PVDE informe da conveniência ou
inconveniência no deferimento das pretensões».

Relação de alguns portugueses internados nos Campos de Concentração,


considerados perigosos.

CAMPO DE GURS:

Firmino Mattos ou Firmino Lopes Matos - comunista - Barraca 25.

Manuel Augusto Monteiro - comunista - F.A.I. - Barraca 12.

Dr. Eduardo Monteiro - comunista perigoso - Barraca 25.

Fernando Macarrão - Ferreita ou Felgueira - anarquista - Barraca 23.

Manuel José Lourenço - d; Algarve - C.N.T. - Barraca 13.

Manuel Firmo, antigo empregado do Sul e Sueste, e C.N.T. /F.A.I. -Barraca


13.

Paninho, antigo operário do Sul e Sueste - comunista - Barraca 23.

Dr. Manuel Reis, médico - comunista; foi oficial rojo, hoje presta
serviços clínicos no campo de Gurs onde está concentrado - Barraca 23.

José Gonçalves Lima - C.N.T. - Barraca 25

Francisco Barros Cachapuz - é o chefe comunista do campo de Gurs; homem


de acção, perigoso - Barraca 13.

Consulado de Portugal em Bayonne, 14 de Agosto de 1939

(Arquivo Histórico do Ministério dos Negócios Estrangeiros, 2.° Piso,


A59, Maço 268)

Exílio no Novo Mundo


Cosme de Riba d'Ouro pertenceu durante mais de uma década ao número
incerto de ilegais que entrou clandestinamente na América, quando a
Europa, a ferro e fogo, hipotecava a sua liberdade nas mãos dos
aventureiros totalitários.
214

Desceu às docas, malhou os costados ao sol dos grandes trilhos sem fim e
quis pertencer a essa América de horizontes ilimitados e índios livres.
Ganhou a naturalização durante anos perseguida e gozou-a, por escasso
período de tempo, na Guerra do Pacífico, a «lutar contra o fascismo». A
morte em combate selou o seu destino de ser português - o de lutar pela
Liberdade no outro lado do mundo.

Dantes lutava-se com palavras «e com os poucos vinténs de que se


dispunha. Mas as palavras não chegam». Cosme teria desejado voltar ao seu
país acanhado para se «bater com uma arma nas unhas» e derrubar os que o
queriam «reduzir à fome, à ignorância e à sujeição». Na sua voz campónia
«havia um eco de profecia trovejante» - que alimentava a ânsia de
liberdade daquela Gente de Terceira Classe, ofendida pela República, que
tudo prometera, e mal tratada pela Ditadura. Cosme esteve, quanto pôde,
presente nos grandes comícios de Madison Square Garden onde um seu
compatriota, o «Companheiro Pombo», electrizou a multidão presente com
palavras de solidariedade para com a martirizada República Democrática de
Espanha, destruída pelas tropas de Franco.

Cosme é um nome. Nomeia a epopeia trágica dos que demandaram a «Terra da


Promissão», com os olhos postos neste lado do Atlântico, onde um Ditador
consentido guiava a seu belo prazer a nau desconjuntada. Carregavam
consigo a miséria e a ignorância e um desejo infinito de mudança.

Cosme de Riba d'Ouro é o nome da personagem do conto homónimo de José


Rodrigues Migueis, integrado na obra Gente de Terceira Classe (Nota 11).
Destinos paralelos, os destes dois emigrados - personagem e narrador.
Expulsos de um país que os rejeita, encontram-se longe dele, irmanados
pela solidariedade dos que falam na mesma língua a palavra Liberdade, sem
vigilância da polícia e a humilhação da miséria satisfeita. O narrador
(ou Rodrigues Miguéis ele próprio?) há-de guiar os passos de Cosme até a
«um bom lóia» e ser-lhe útil na naturalização que o defenderá de uma
iminente deportação. Cosme é o húmus que dá sangue e cor às palavras do
narrador. E também a projecção da consciência cívica de Miguéis, sempre
ávida de justiça e de liberdade.

Neste narrador sabemos que existe Miguéis, ou uma parte dele - aquele que
chega a Nova Iorque, exilado de um país onde se lhe tornava difícil
respirar e quando na Ibéria a Espanha ardia em labaredas contagiantes.
215

Depressa se tornou no «Companheiro Pombo» a quem, no Madison Square


Garden, os arautos da revolução internacional reservaram quatro minutos
para expressar, em nome do Comité Português Antifascista, a solidariedade
com os republicanos espanhóis em luta pela democracia (Nota 12). Anuncia
a criação da Frente Popular Portuguesa (Nota 13) e a sua disposição para
combater até à morte a aliança dos ditadores Franco e Salazar. Era o
primeiro antifascista português a poder falar dos verdadeiros
sentimentos» do seu povo e do desejo de liberdade diante da América e do
mundo.

Escrevia e lutava: realizava a unificação do pensamento político e da


arte, como dirá uns anos mais tarde, numa carta ao seu amigo David
Ferreira. Entretanto, as democracias ocidentais descarregaram o seu peso
no Pacto de Munique, Hitler invadiu a Polónia e Paris sucumbiu. Qual
paladino da Liberdade, Miguéis combatia o fascismo internacional e a
hipocrisia das, «democracias ocidentais» ao lado dos trabalhadores.

Em 1945, no mundo a guerra acabou, mas a luta continuou para os


portugueses. Em comícios, na rádio «Voz de España Combatiente», Miguéis
prosseguia, em nome do Comité Luso-Americano pró-Democracia, a denúncia
das prisões políticas de Salazar, a existência do Tarrafal, o «Dachau do
fascismo português», a falsa neutralidade do Ditador. Distribuía
bofetadas aos «apaziguadores» que viam em Salazar um «ditador paternal» e
se preparavam para o eternizar no poder e tomava, quase inevitavelmente,
o partido do heróico povo soviético e dos seus líderes. Em 20 anos de
«gigantesco esforço», tinham edificado, a partir do nada, «um mundo
novo», capaz de, através dos seus «soldados-operários», derrubar a
«máquina ciclópica de destruição posta em marcha pelo nazismo» (Nota 14).

Enquanto Salazar eternizava o «campo da morte lenta», vagas sucessivas de


exilados fugiam ao calvário das prisões para instalar-se em Marrocos e
todo o Norte de África, França e, principalmente, Brasil. A este último
país haviam chegado, em finais de 1940, banidos do território nacional,
Jaime Cortesão e os seus companheiros de luta na Guerra Civil de Espanha,
num percurso idêntico ao dos milhares de espanhóis que, saídos do seu
país, aportaram ao México. Tinham entrado em Portugal no âmbito da
amnistia dos Centenários (1940), presos e julgados e, logo de seguida,
obrigados a sair do país para sítio à sua escolha.
216

Com voz activa no jornal Estado de S. Paulo e na emissora Cruzeiro do Sul


(onde se destacava o major aviador Sarmento de Beires), constituem a
Frente de Unidade Antifascista, com que promovem comícios e manifestações
pelo final da Guerra para denunciar a eternização de Salazar com o apoio
das «democracias ocidentais».

Em 1949, com a América a fechar-se sobre si própria, sob a manta de uma


Guerra Fria aniquilante, o Brasil parecia constituir um destino melhor
para os homens de letras exilados. Aí tinha chegado, também desejoso de
exílio, um Agostinho da Silva para fazer do Brasil o seu «novo mundo» de
fantasia e obra libertadora. Rodrigues Miguéis, que por um ano (1946)
tinha regressado a Lisboa, também em 1949 demandará o Brasil onde, em
1946, já havia publicado Onde a Noite se Acaba. O país onde nasceram era
um campo de concentração onde, amarguradamente, se viviam os «anos de
chumbo», ou na versão dos antifascistas, onde o «fascismo voltava a
erguer a cabeça».

Ao invés, estavam prestes a entrar em acção os guerrilheiros da Sierra


Maestra que haviam de fazer de Cuba e de Fidel um lugar de inspiração
para o que tinha de ser feito na Península Ibérica: acção directa, de
armas na mão, no derrube dos ditadores. Para o final da década de 50,
refazem-se as redes de solidariedade luso-espanholas, estabelecem-se
contactos internacionais, prepara-se a luta armada e estendem-se as bases
até Marrocos e sul de França. Tinham chegado ao Brasil, entre outros,
três líderes políticos - três ex-militares que se descontentaram com
Salazar, todos eles com provas dadas na defesa inicial do regime e também
no combate que lhe moveram a partir da Segunda Guerra. Fernando Queiroga
Chaves, o capitão do «Golpe da Mealhada», Henrique Galvão, o africanista
que deu a conhecer o Portugal de Salazar ao mundo com o «Assalto ao Sta.
Maria» e Humberto Delgado, o «General sem Medo» que o Ditador decidiu
mandar assassinar em Badajoz, na década seguinte.

Na verdade, em Portugal, Delgado tinha ajudado a mostrar que as «mudanças


invisíveis» dos anos 50 estavam a produzir frutos até há pouco
imprevisíveis: a partir da sua campanha eleitoral, novos sectores da
sociedade portuguesa nascem para a política. De um deles, a Igreja
Católica, virá a sair um dos exilados que mais perturbou a «paz» do
regime - D. António Ferreira Gomes, o «Bispo Vermelho».
217

Saído de Portugal em 1959, permaneceu no exílio europeu (Espanha,


Alemanha e França) uma década, durante a qual lhe foi, sistematicamente,
negado o regresso.

É certo que alguns exilados, como Jaime Cortesão, vendo aproximar-se o


fim dos seus dias, haviam de regressar a Portugal, depois de uma vida de
prisões e de dificuldades no exílio. No entanto, S. Paulo e Rio de
Janeiro foram, no final da década de 50 e no início da seguinte, os
grandes pólos do exílio português. Políticos e homens de letras gozavam a
«liberdade dos trópicos» e imaginavam aí a forma de afastar o Ditador. Em
1959, chegava ao Brasil Jorge de Sena, um dos grandes vultos da
literatura portuguesa do século XX, para depois demandar os Estados
Unidos, onde continuava Rodrigues Miguéis, depois de uma curta estadia no
Brasil. Como muitos outros exilados e deportados portugueses, acabaram os
seus dias no exílio: o primeiro em Sta. Bárbara, o outro em Nova Iorque,
não sem que antes Jorge de Sena tivesse experimentado o regresso ao
Portugal de Abril.

Nesse mesmo ano de 1959, Queiroga Chaves, um emissário do Movimento


Nacional Independente, fundado por Humberto Delgado, partia, em nome
deste último, para buscar auxílio político e material junto de Fidel de
Castro. Também nesse ano, em Abril, aí chegaram o próprio Humberto
Delgado, depois de se ter refugiado na Embaixada do Brasil, em Lisboa, e
Henrique Galvão, também ele evadido do Hospital de S. Maria em Lisboa,
onde se encontrava preso e internado. Depois de uma fuga espectacular,
obteve asilo na Embaixada da Argentina e um salvo-conduto do governo para
sair do país, em direcção a Buenos Aires.

No Brasil, o histórico Capitão Sarmento Pimentel, chegado aí no rescaldo


do longínquo 3 de Fevereiro de 1927, era a figura-chave de todo este
frenesi revolucionário. Em Outubro de 1961, o capitão era o presidente da
Comissão Executiva da recém-fundada União Democrática Portuguesa, que se
constituíra em torno do jornal Portugal Democrático de S. Paulo, fundado
em 1957. A UDP era uma formação unitária anti-fascista que se propunha
«desmascarar internacionalmente a ditadura e coordenar o apoio político e
financeiro para as lutas internas». Definiu-se um «novo rumo»: o de
preparar a verdadeira «Revolução Portuguesa do Século XX», à imagem do
que havia acontecido em Cuba, onde acabava de ser demonstrado que «o amor
da liberdade, uma disciplina férrea e meia dúzia de ideias generosas»
podiam iluminar o mundo.
218

<Credencial de Sarmento Pimentel no exílio brasileiro. (Colecção do


Autor): omitida>
219

<Carta do Comité dos Intelectuais a Fidel Castro. (Colecção do Autor):


omitida>
220

<Cuba na rota dos apoios aos exilados políticos portugueses no Brasil.


(Colecção do Autor): omitida>
221

Reuniram-se meios materiais, apoiaram-se os primeiros movimentos de


libertação africanos e o direito à auto-determinação e independência dos
povos coloniais, estabeleceram-se contactos com os espanhóis no exílio e
enviaram-se ao seu destino os primeiros emissários dessa «revolução
ibérica».

Pelos quatro cantos

Nos primeiros anos da década de 60, o Ditador deu início à Guerra


Colonial e os exilados portugueses no Brasil alargaram as suas alianças
estratégicas pelo Norte de África, onde tinham uma base de organização os
movimentos de libertação das colónias portuguesas. Ao mesmo tempo
firmavam amizade com os opositores espanhóis exilados, de que o acordo de
Humberto Delgado com o governo republicano espanhol no exílio, chefiado
por Emílio Herrera, é um exemplo a reter.

A dispersão por pólos diferenciados do exílio e a falta de apoios


políticos no interior do país (onde se preparava o «longo silêncio» do
período da Guerra Colonial) fizeram com que a acção política dos exilados
desta terceira vaga acabasse por resolver-se em actos isolados, alguns
espectaculares e de grande impacto internacional. Em Marrocos, Queiroga
Chaves fundou a Frente Cívica Revolucionária, comandou campos de treino
revolucionário e preparou a insurreição na Península Ibérica, com apoio
dos espanhóis aí exilados15. Em 1961, já depois do início da Guerra
Colonial, Henrique Galvão, em aliança também com revolucionários
espanhóis, fundou o DRIL (Directório Revolucionário Ibérico de
Libertação) e desencadeou espectaculares acções de propaganda contra o
regime: a «Operação Dulcineia» - assalto ao Paquete S. Maria e a
«Operação Vago» - lançamento de panfletos da FAPLE (Frente
Antitotalitária dos Portugueses Livres Exilados), sobre Lisboa, a partir
de um avião da TAP, tomado de assalto, na carreira Casablanca-Lisboa.
Nesse annus horribilis de 1961 ainda, Humberto Delgado entrou
clandestinamente no país para apoiar a «Revolta de Beja» e daquilo que
dela resultasse iniciar a libertação do país.

Daí em diante, a guerra colonial passou a ser o «nó górdio» de toda a


situação, obrigando os exilados a alterações estratégicas importantes.
222

<Relações internacionais do exílio português em França (Portugal


Democrático, Outubro de 1960).

(Hemeroteca/Lisboa/Portugal Democrático): omitido>


223

Saído do Brasil em 1963, Humberto Delgado deslocou-se para a Europa e


depois para Argel, onde, com o apoio de Ben Bella, se instalou e dirigiu
a Junta Revolucionária Portuguesa, órgão directivo da FPLN (Frente
Patriótica de Libertação Nacional), constituída por diferentes correntes
da oposição, mas onde o Partido Comunista tinha uma posição hegemónica.
Henrique Galvão, por seu lado, logrou chegar, em 1963, à Comissão de
Descolonização da ONU, onde defendeu uma «terceira via» para a
descolonização dos territórios coloniais portugueses (Nota 16).

As dificuldades de subversão da Ditadura e o «silêncio» nacional sobre o


drama da guerra colonial acentuaram as divisões internas da Frente, tanto
mais que começavam, muito lentamente, a verificar-se dissensões no campo
comunista que limitavam a sua liderança no exílio, ao mesmo tempo que
outras famílias políticas iniciavam a sua refundação. Com Francisco Ramos
da Costa e Mário Soares, Tito de Morais, um dos membros da Junta de
Argel, fundava em Genebra a Acção Socialista Portuguesa que, anos mais
tarde, em Roma, publicava o Portugal Socialista, jornal responsável pela
propaganda clandestina socialista em Portugal.

No entanto, pelo menos ate 1970, a FPLN foi uma plataforma de grande
importância para a oposição exilada. Livre da censura, e com apoios do
governo argelino, a Frente fazia chegar a Portugal a Rádio Voz da
Liberdade, com a marca de voz do poeta Manuel Alegre e com toda a
informação que do país era carreada pelos agentes de ligação e do
estrangeiro pelos restantes núcleos de exilados portugueses. No silêncio
sepulcral do país censurado, as «novas» podiam vir (e normalmente vinham)
de fora: «que "cento e dez democratas" tinham tido a coragem de exigir a
libertação de Manuel Serra, o dirigente católico e do bispo do Porto,
durante anos impedido de voltar ao país; que os democratas portugueses da
América tinham enviado um memorial à ONU onde condenavam a política
colonialista de Salazar, exigiam o fim da guerra colonial e a
autodeterminação e independência dos povos coloniais; que o PAIGC tinha
infligido uma pesada derrota às tropas portuguesas que pretendiam retomar
as áreas já libertadas da Guiné-Bissau...» Podia ser ouvida duas vezes
por semana (mais tarde três) e teve uma audiência considerável pelos
finais dos anos 60, antes das cisões que marcaram a vida política da
Frente.
224

Mas esta não era a única rádio clandestina a operar fora do território
nacional. Do outro lado do Mundo, em Bucareste, o Partido Comunista
manteve activa a Rádio Portugal Livre, que passou a difundir em várias
frequências de onda curta, a partir do dia 12 de Março de 1962, em trinta
minutos de antena diários. Era a voz oficial dos comunistas, dirigida ao
seu próprio quadro de militantes, filtrada pelas orientações políticas
dos seus líderes no exílio. Um exílio que se desenrolava entre Moscovo,
Praga, Bucareste, Argel e Paris, com entradas clandestinas constantes no
país.

Com o assassinato de Humberto Delgado, pela PIDE, em 1965, fechava-se uma


primeira fase deste ciclo político marcado pela emergência da guerra
colonial e pela necessidade urgente de democratizar o país para, em
diálogo aberto, lhe pôr cobro. Daqui em diante, a oposição exilada irá
dividir-se entre a liderança, já não hegemónica, do PCP e a emergência de
novas correntes políticas de extrema-esquerda, muitas delas oriundas de
dissidências no interior do próprio movimento comunista. A evolução do
ambiente internacional e a persistência do inamovível regime salazarista
português deu origem, a partir de 1963, a uma forte discussão no interior
do PCP e ao aparecimento de uma corrente «pró-chinesa» que criticou a
«coexistência pacífica» e defendeu a luta armada para derrubar a
ditadura. Constitui-se o Comité Marxista-Leninista Português e a Frente
de Acção Popular (FAP) que desencadearam fortes adesões no movimento
estudantil.

«Desertamos com armas»

Quando chegavam a Mafra, a escola de formação de oficiais, os milicianos


não abrandavam a agiprop (agitação e propaganda) que já desenvolviam na
universidade. Embalados pelos «comícios-relâmpago» que a polícia
adestrada da ditadura não conseguia evitar em escolas e cantinas
universitárias, pensavam na «acção directa» e na luta urbana como quem
tivesse estado na Sierra Maestra. Muitos tinham-se aproximado da FAP
(Frente de Acção Popular) e definido uma palavra de ordem para a acção:
«Nós desertamos com armas.»
225

Prestes a partir para a frente de combate, muitas vezes como comandantes


(mais ou menos improvisados) de um pelotão de soldados, a quem a pouca
sorte conduziu à guerra, advertiam-nos, na instrução, com uma palavra de
ordem inesperada: «Atenção, no mato quando pressentirmos os
guerrilheiros, faz-se marcha-atrás!» Não por cobardia ou traição,
obviamente. Muitos desses milicianos tinham ido parar à tropa após um
processo disciplinar que os suspendera da universidade, depois de terem
sido presos pela «polícia de choque» no final de uma qualquer manif. Era
o castigo que o regime de Salazar reservava a todos os jovens
universitários que teimavam em compreender «os ventos da história» e a
lutar contra a guerra colonial.

Nos quartéis, a máxima «desertamos com armas» dava, por vezes, os seus
frutos: cunhetes e armas, passavam, como que por milagre, para depósitos
escondidos, em casa de familiares ou de amigos.

A seguir vinham os dias escondidos, a deserção, a fuga pela fronteira


espanhola, com um passaporte falso que a organização política se
encarregara de aprontar. Para trás ficavam os planos de luta magicados
nas noites de conversa e de tertúlia: raptar o ministro do ditador com
amante em Carnide, desviar armas nos quartéis, agitar as ruas com papéis
clandestinos... E também os pais, os amigos que, com certeza, haviam de
ser incomodados pela PIDE para darem informações dos fugitivos e das
armas.

À sua frente ficava a «Europa», após a travessia da Espanha, feita de


comboio até Madrid, na companhia de amigos, nos melhores casos. Depois de
avião: Paris, onde os aguardava um «contacto» da organização. Daí para
Bruxelas, onde talvez fosse possível obter o estatuto de refugiado
político como militante anticolonial.

Longos meses depois da chegada, conseguiam o certificado do ACNUR,


passaporte com nome próprio, e integravam-se na comunidade de refugiados
portugueses que habitava o bairro da Universidade Livre de Bruxelas.
Alguns reiniciavam a vida académica, com uma matrícula num curso novo, ao
mesmo tempo que encontravam ocupação em trabalhos de recurso.

Na Bélgica ou em França, a vida corria normalmente, sem acidentes, a não


ser a investida de algum polícia curioso, avisado de Lisboa sobre
perigosidade do «emigrante».

Em Lisboa, sim, a vida tornara-se difícil. A PIDE conseguia descobrir a


«rede» e prender os amigos que tinham escondido o armamento retirado do
quartel ou guardado o material de agiprop.
226

A família do «fugitivo» tornava-se suspeita e vigiada. As cartas,


enviadas, por cuidados redobrados, para as direcções de amigos, eram
mesmo assim interceptadas. No envelope violado, a polícia do regime
enfiava contra-propaganda e reenviava-a maldosamente aos familiares.

Mas Paris era uma tentação para os jovens inquietos que sonhavam com o
homem novo. Maio de 68 abria-lhes, inesperadamente, as portas para o
mundo que ansiavam. Podia começar-se por lá a revolução que desejavam
para Portugal...

As notícias circulavam com facilidade nessa Europa dos finais da década


de 60: em certa altura, o France-Soir anunciava ao mundo o assalto a uma
carrinha de valores por quatro homens encapuçados. Pouco tempo depois, o
líder da LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária), Palma Inácio, era
apanhado em Portugal, com armas que tinha ido buscar à Checoslováquia. A
polícia política não precisava de grandes investigações para perceber as
ligações... Bastava ligar alguns fios. Era com muitos dos jovens
refractários e desertores que se arquitectavam estes planos
(im)possíveis: libertar o país a partir da tomada da Covilhã, raptar
pessoas importantes e exigir a sua troca pela libertação de presos
políticos, e outros... De um romantismo revolucionário sem limites.

Ao mesmo tempo que ocorriam cisões na oposição de esquerda crescia o


número de jovens desertores da guerra e de refractários que demandavam o
apoio das democracias ocidentais e aí obtinham, por vezes com
dificuldades, um estatuto de exilados. Constituíam um segunda fila, ao
lado do volumoso caudal da emigração económica portuguesa, com a qual
muitas vezes se confundiam. Muitos continuaram e concluíram os seus
estudos e encontraram trabalho e ocupação. As condições difíceis da
emigração portuguesa que se arrumava pelos bidonvilles dos arredores de
Paris, deu oportunidade a que uma geração de «cantores de intervenção»,
onde avultaram Luís Cília, José Mário Branco, Vitorino ou Sérgio Godinho,
se constituísse par amplificar as lutas dos portugueses emigrados.

Radicalizados pelo ambiente que se vivia em França nos finais da década


de 60 - um dos principais sítios de acolhimento -, e pela descrença sobre
a situação portuguesa que se sucedeu à «Primavera Marcelista», esta
juventude estudantil fugida à guerra colonial veio a constituir o melhor
alfobre das ideologias extremistas que passaram a defender a acção armada
como forma de derrube do regime.
227

Em 1967, a Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR) deu início à


acção armada, com o assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz,
executada por um comando vindo do exterior, liderado por Hermínio da
Palma Inácio. Em 1970, após uma ruptura no seio da FPLN, em Argel, o
núcleo que persistiu passou a apoiar as Brigadas Revolucionárias,
lideradas por Carlos Antunes e por Isabel do Carmo, e com o apoio de
«católicos progressistas».

A par do nome mítico de Álvaro Cunhal, um outro começa a ter impacto na


comunidade internacional e a agregar consensos no campo democrático e
socialista - o de Mário Soares. Em 1967, acusado de ter prestado
«informações falsas e difamatórias» à imprensa internacional, foi
desterrado para S. Tomé, uma prática que fazia lembrar formas antigas de
deportação de republicanos, durante a ditadura militar. Depois das
eleições para a Assembleia Nacional de 1969, em que Mário Soares,
associado aos socialistas moderados, concorreu com a CEUD (Comissão
Eleitoral de Unidade Democrática), o seu prestígio aumenta junto das
sociais-democracias europeias, por onde viaja incessantemente. Em 1970,
no decurso de declarações sobre o futuro colonial do país, é acusado em
processo da DGS, de desenvolver actividades que promovem a «separação dos
territórios portugueses da Mãe-Pátria». Com receio de ser preso no
regresso ao país, decidiu-se pelo exílio em Paris, de onde viaja por toda
a Europa e pelo Mundo. Sob a sua égide, formar-se-á na Alemanha (Bad
Munstereifeld) o Partido Socialista, em 19 de Abril de 1973.

Nem todos regressaram do exílio europeu; alguns fizeram-no de forma


faseada, ao longo de anos. A esmagadora maioria, entrou no país nos
primeiros dias que se sucederam à Revolução de 25 de Abril de 1974.

Pelo caminho ficaram aqueles que as condições difíceis de deportação e


exílio não deixaram regressar. Muitos desapareceram deste mundo sem
regressarem ao país depois de doenças devastadoras, como Henrique Galvão,
outros foram impedidos pela Polícia Política ou simplesmente
assassinados, como o general Humberto Delgado.

Por outro lado, homens de letras como Rodrigues Miguéis ou Jorge de Sena
nunca terão abandonado a «subtil nostalgia do exilado» que lhes alimentou
a vida, nem aceitado a persistência das mazelas deste «reino cadaveroso»
e renitente na mudança.
228

Podem ter regressado temporariamente, como Sena, mas foi no exílio que
morreram.

Durante quase meio século, Portugal abdicara de alguns dos seus

melhores filhos (nas letras, nas ciências, na política) em troca do


silêncio instaurado e do imobilismo satisfeito. Com a ostracização dos
indesejáveis, o Ditador tinha o caminho aberto para impor o seu projecto
político conservador e imperialista.
CAPÍTULO 9

CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO

O «campo da morte lenta»

E.P.(Nota 1) inaugurou o Campo do Tarrafal ainda jovem. Durante a sua


permanência nunca teve qualquer hipótese de ver o seu «processo»
progredir ou ter fim. Saiu dez anos depois, já um homem, crismado pelo
Sol dos trópicos, pelos trabalhos forçados e pelos castigos arbitrários
dos carcereiros.

A sua primeira prisão ocorreu em 17 de Janeiro de 1934, nas vésperas da


revolta anarco-comunista que encheu de desassossego a cintura industrial
de Lisboa, anunciando a «greve revolucionária» que se acreditava iria
derrubar a Ditadura. E. P. era um dos muitos activistas políticos que o
Estado Novo se esforçava por reduzir à completa inactividade e
inoperância. Voltou a ser preso antes de sair para a União Soviética,
como jovem quadro responsável pela Federação das Juventudes Comunistas.

No início da tarde do dia 29 de Outubro de 1936, ao fim de doze dias de


viagem nos porões do Luanda, guardados por uma Companhia da GNR e por
outra de «landins» de Moçambique, E. P. e centena e meia de companheiros
aportaram à baía da Vila do Tarrafal, Ilha de S. Tiago, por entre os
barcos dos pobres pescadores locais.

Pelo caminho, a caravana recolheu os «mais perigosos» do Forte de S. João


Baptista, em Angra do Heroísmo, Açores. Entre eles, Mário Castelhano, o
líder anarquista que se destacara na «Revolta das Ilhas», Gabriel Pedro e
Bento Gonçalves, activos comunistas.
230

Gabriel Pedro tinha sido condenado a «dez anos de degredo em colónia à


escolha do Governo». À falta de condenações - ou mesmo de processos de
acusação claramente constituídos em tribunal -, o Estado ditatorial
justificava as deportações para a nova «colónia penal» como «prisões
preventivas» de duração indefinida.

Dois a dois, com malas e sacos às costas, onde transportavam vestuário e


livros, atravessaram a vila do Tarrafal por entre alas de indígenas
estupefactos e desconfiados.

As condições inóspitas da Ilha de S. Tiago, a precariedade das


instalações que nunca foram concluídas à luz do plano inicial e o
isolamento completavam o quadro negro desta «prisão política», instalada
no fim do mundo. Sob a jurisdição arbitrária da polícia e do exército (de
forças regulares e militarizadas), instituía-se o reino do terror e da
impunidade, com os presos obrigados a permanecerem no campo prisional por
períodos muito mais longos do que aqueles que tinham sido decididos pelos
tribunais (Nota 2) - ou que a polícia renovava a seu belo prazer, sem
qualquer interferência do «Estado de Direito» que Salazar propagandeava.

E. P. e os companheiros referem-se aos mandantes como se de reis se


tratasse: «No reinado do cruel capitão Manuel dos Reis ficou bem clara a
nossa indefesa situação de prisioneiros daquela terra de ninguém. Logo à
chegada vociferou-nos: "Vocês aqui não têm direitos, só têm deveres a
cumprir. E não se iludam - quem entra aquele portão é para morrer. Vão
todos cair como tordos!"»

O primeiro «período agudo» do Tarrafal ocorreu em 1937-39, no contexto da


instauração do novo regime e da sua consolidação fascizante, perante a
iminência do novo «perigo espanhol» desencadeado pela Guerra Civil.
Depois da «Queda» da Catalunha e de Madrid, viveram-se, com o decurso da
II Guerra Mundial, tempos muito difíceis no Tarrafal. Para dentro da
prisão, os carcereiros enviavam a propaganda nazi-fascista, fazendo crer
que o mundo se havia de render à loucura de Hitler.

Nestes períodos, a polícia política e os carcereiros exultavam de


convicções e requintavam nos castigos e punições. E. P. conta como
Gabriel Pedro foi parar à «frigideira», onde permaneceu vários dias «a
pão e água». Tudo porque não tirara o chapéu à passagem por um dos
guardas do campo. Ia-se para o «segredo» por protestar pelas más
condições de alimentação, ou por recusar o trabalho forçado em condições
de saúde precárias.
231

O plano inicial de construção do Tarrafal não incluía a «frigideira». Mas


esses sítios de tortura existiram e foram documentados por muitos dias de
dor física e moral de dezenas e dezenas de prisioneiros.

«A frigideira»

«Este edifício, de sete metros de comprimento por 3 e meio de largo, tem


a forma rectangular e é coberto superiormente por um tecto de cimento
armado. Divide-o em dois pequenos compartimentos uma parede interior.
Dista do campo duzentos metros. Próximo fica o quartel da companhia
indígena. A cinco metros corre uma ribeira, que vai desaguar lá em baixo
ao mar. Durante a época das chuvas, é o ruído das águas, deslizando no
leito, que muitas vezes distrai os presos, ou o barulho dos pretos
dançando o batuque. De noite ouvem-se as sentinelas gritando alerta e os
animais que pastam na planície. Exteriormente é a paisagem desoladora,
sem vegetação e sem beleza. Interiormente é um inferno onde a saúde se
esgota.

Para nós esta prisão não é o «segredo». O «segredo» é o calaboiço


bafiento, sem ar e sem luz, do Aljube ou da fortaleza de Peniche. Esta
prisão chama-se «frigideira». A luz e o ar entram através de três bura-
quinhos feitos na pesada porta de ferro e por um pequeno rectângulo,
aberto junto ao tecto. Durante o dia, o sol quente dos trópicos aquece as
portas e as paredes deste pequeno túmulo. O ar aquece lá dentro. O calor
torna-se insuportável. Os presos despem-se, mas o calor não deixa de os
torturar. Dos seus corpos cansados cai o suor em bica. Se são muitos,
condensam-se no tecto gotas de água, e quando caem, longe de serem um
alívio, são uma tortura.

Quatro passos de um canto a outro e o preso fez o seu percurso. As


paredes rebocadas de cimento, não estão caiadas. (...) A água para beber
é sempre em quantidade diminuta e trazem-na de manhã num pequeno cântaro,
que não leva mais de 4 litros. (...) Cada preso está condenado a
permanecer aí por um prazo que raras vezes fica aquém dos dez dias e
muitas vezes se estende a quarenta e cinquenta. E em dias alternados o
alimento é pão e água. Nos outros come-se o caldo da sopa, com alguns
feijões no fundo do prato. Não há colher.
232

Ninguém se pode lavar aí porque faltam o sabão, a água e a toalha. (...)


A lata onde se evacua está destapada; o cheiro da urina caustica os
olhos, e é outra tortura. Quando são muitos vão de rastos até à porta e
respiram através dos buraquinhos o ar que vem do campo. A tudo isto
junta-se a monotonia do isolamento, se não há companheiro. Se são mais de
dois a existência lá dentro começa a tornar-se difícil, porque o ar
escasseia, o calor é maior, a água falta.. De noite, os mosquitos vêm. Da
picada do mosquito surge a febre, da febre vem a morte pela biliosa e
pela perniciosa. Não são raros os casos de presos levados dali em braços
ou amparados.»

Pedro Soares, Tarrafal Campo da Morte Lenta, Edições Avante!, pp. 31-32.

Da «Aldeia Farpada» ninguém sai

«A situação era sombria, e duvidosas quaisquer hipóteses de melhoria da


situação. As poucas energias que nos restavam teriam de ser aproveitadas
enquanto era tempo. Foi decidida a fuga e para o efeito foram indicados
para construírem o comité organizador Mário Castelhano, Arnaldo Simões
Januário, Bento Gonçalves, José de Sousa, eu, e creio que também Melo
Fogaça. Foi elaborado um plano e abordámos os deportados que não
pertenciam a cada uma das organizações, a anarquista e a comunista, assim
como elementos como o Lebroto e o tenente Piçarra, que deram a sua
adesão. Contávamos com a colaboração de dois soldados da companhia
indígena, o Malange e o António. Constituíram-se brigadas que deveriam
assaltar o quartel da polícia, prender o director e o médico que residiam
na vila. Se essa aventura fosse favorável, depois de cortarmos as
comunicações e apreender os carros que houvesse na vila, seguiria uma
coluna armada, chefiada pelo camarada Mário Castelhano, em direcção à
cidade da Praia e tomaria não só o quartel como também a estação da
Marconi. Todas as embarcações que houvesse na Praia seguiriam para a baía
do Tarrafal, onde embarcaríamos em direcção a Dacar.(...)

«No dia 2 de Agosto de 1937, o Malange e o António entraram de serviço, e


depois de nos confirmarem a sua disposição de nos ajudar, os grupos
concentraram-se na cozinha, pois seria por detrás desta que
atravessaríamos o arame farpado.
233

«O armamento de que dispúnhamos limitava-se às estacas que sustinham as


espias das nossas barracas de lona e, em comparação com o que possuía o
quartel, tornava-se muito arriscado o que pretendíamos executar. (...)

«Um pouco antes da hora marcada para se atravessar o arame farpado, vejo
vir em direcção à cozinha um guarda acompanhando o preso que dormia fora
do campo, transportando um saco de grão. (...) Assim que o guarda entra
na cozinha, os camaradas começaram a fugir em direcção às barracas. O
guarda, que também não esperava encontrar ninguém na cozinha, começou a
apitar, dando o alarme. Ainda eu e os meus camaradas não havíamos chegado
às barracas e já as metralhadoras e espingardas se faziam ouvir em todos
os sentidos», descreve Acácio Tomaz de Aquino (Nota 3).

A 2 de Agosto de 1937, depois de uma primeira tentativa de fuga falhada


do Tarrafal, os fugitivos foram encarcerados no «segredo» ou
«frigideira». Nos dias seguintes, muitos caíram com febre. Em forma de
represália e para evitar qualquer outra tentativa de fuga, iniciou-se a
construção de uma vala em redor do campo. Esta deveria ter quatro metros
de largura na parte superior e a altura de três metros.

Ao sol escaldante de Agosto, o trabalho dos presos tornou-se ameaça de


morte. Várias dezenas adoeceram, enquanto cerca de duas centenas
continuavam, diariamente, a abrir a vala. Vieram as chuvadas de Agosto.
Fortes bátegas inundavam as barracas - já apodrecidas por um ano de sol
escaldante -, e encharcavam o leito dos doentes. Alguns, os mais
debilitados, ocupavam a enfermaria, mas a assistência médica de Esmeraldo
Pais Prata era insuficiente e a escassez de medicamentos completava o
quadro de miséria: «O termómetro e os clisteres eram os únicos
medicamentos que possuíamos.» (Nota 4) Em Setembro, a tragédia apoderou-
se daquela «colónia» de resistentes antifascistas: em quatro dias
morreram seis prisioneiros: Pedro Matos Filipe, Francisco José Pereira,
Augusto Costa, Francisco Domingues Quintas, Rafael Tobias Pinto da Silva
e Cândido Alves Barja.

Ao lado da enfermaria ficava a «casa mortuária», onde foi colocado Rafael


Tobias na «véspera de falecer, pois pensava-se que não duraria senão
alguns minutos.
234

<Notícia sobre o Tarrafal no jornal Portugal Democrático (Dezembro de


1960) que se editava em S. Paulo, Brasil. (Colecção do Autor): omitida>
235

A agonia prolongou-se até ao dia seguinte, e o fraco ruído do estertor


penetrou através do tabique de madeira» (Nota 5) para a enfermaria onde
resistiam os outros doentes.

Daí em diante ninguém duvidaria mais das intenções assassinas do capitão


Manuel dos Reis, a quem os prisioneiros alcunharam de «Manuel dos
arames». O campo situado na Achada Grande cumpria em pleno a missão de
extermínio dos mais frágeis e debilitados pelos efeitos terríveis do
paludismo. No início da estação das chuvas, o planalto antes desértico e
inóspito, tornava-se pantanoso e um poço de mosquitos. A falta de higiene
e as águas inquinadas completavam o quadro epidémico que enchia de terror
os prisioneiros.

Talhados pela luta agreste da clandestinidade, os homens mantinham o


«estado de espírito oficial»: ignoravam a amargura e resistiam às
violências do dia-a-dia no campo: fardas de caqui amarelecidas e podres,
botas rotas, trabalhos forçados, espancamentos, castigos... Foram muito
raros os «rachados», a quem os carcereiros chamavam «regenerados» e dos
quais sacavam informações preciosas.

No entanto, houve mortes que foram castigos demasiado violentos: a de


Mário Castelhano, em 1940, a de Bento Gonçalves, em 1942, verdadeiras
referências simbólicas da luta política antifascista. Ninguém conseguiria
evitar o choro colectivo ou o desespero perante a omnipresença da morte e
o estado do mundo. Duas «comunas» - uma anarquista, outra comunista -
foram, nestas circunstâncias, baluartes de resistência solidária e forma
de afirmação ideológica de cada um dos campos políticos. Prestava-se
apoio, emprestavam-se livros, partilhava-se o pouco que chegava:
alimentos, tabaco, medicamentos, dinheiro. Recompunha-se o puzzle dos
pedacinhos de jornal que serviam de papel higiénico na latrina dos
guardas - a «Rádio Merda», como lhe chamavam depreciativamente os
encarcerados.

E. P. reforçou as suas convicções políticas e aprendeu o muito que os


prisioneiros «mais ilustres» podiam ensinar. Com Álvaro Duque, Bento
Gonçalves, Júlio Fogaça e Alberto Araújo aprendeu matemática, português,
línguas estrangeiras e ciências. Até alemão, com dois prisioneiros que
ali tinham ido parar. Para E. R, o Tarrafal foi a universidade que nunca
pôde frequentar.

Da «aldeia farpada» não saía ninguém, a não ser esporadicamente para


transporte da água de consumo ou, em épocas de menor repressão, para
tomar um banho de mar, sempre vigiado pelos guardas do campo.
236

A seguir à primeira tentativa de fuga, outra se lhe seguiu, um ano


depois, também sem efeitos práticos: Manuel Faria Borda e Manuel
Alpedrinha tentaram iludir a vigilância e fugir do campo. Foram apanhados
por disparos das sentinelas e remetidos à «frigideira» por dez dias, a
pão e água. Apesar dos constantes fracassos, nunca deixou de haver
tentativas de fuga no Tarrafal.

Mais forte que o medo

«Em 1943, eu, meu pai e três companheiros decidimos tentar uma nova fuga,
mesmo sem o apoio do Partido. Valeu-nos o ostracismo dos camaradas para o
resto da vida. Embora não tenha sido expulso, fui suspenso por dois anos
de todas as actividades partidárias. Curiosamente, o relato desta fuga
não aparece devidamente referida nas várias memórias que já saíram sobre
o Tarrafal. Estudámos todo o sistema de segurança ao pormenor. Sairíamos
no período de rendição dos guardas, por ser o período em que o controlo
era menos apertado. Se permanecêssemos no exterior um bom bocado, o novo
guarda deixaria de saber há quanto tempo tínhamos saído. Não era uma
operação muito difícil, excepto para o meu pai, que não conseguia
justificar a sua saída de uma forma fácil. Acabou por sair também,
escondido atrás de uma zorra. Eu, que trabalhava na oficina, tentaria
sair com o Augusto Macedo para pôr uma bateria à carga no exterior do
campo. O Rato e o Nascimento aproveitaram as facilidades que tinham pelo
facto de, diariamente, irem rachar lenha para os guardas. Pelas dez da
manhã conseguimos sair os cinco do campo. Tínhamos escolhido o dia em que
um veleiro que costumava vir à ilha tinha atracado num porto próximo. O
nosso objectivo era chegar à costa o mais depressa possível, e atingir o
veleiro.

O primeiro problema surgiu quando o Rato e o Nascimento foram vistos


junto da horta onde trabalhavam os «rachados», à vista dos guardas.
Cometeram um erro imperdoável, porque tinham escolhido um itinerário
diferente do combinado. Perante este azar, eu, o meu pai e o Macedo
decidimos rumar à praia com a finalidade de conseguir um barco de
pescadores para tentar chegar ao veleiro, uns sete quilómetros afastado
de nós. Quisemos adquirir o barco de um pescador, mas não foi possível.
Como tínhamos em nossa posse um rascador e uma pistola simulada,
conseguimos forçar o dono do barco.
237

Remámos o mais rapidamente que pudemos, debilitados por uma estadia


prisional já longa, num mar difícil. Chegámos quase à vista do veleiro.
Mas os guardas, já avisados, decidiram perseguir-nos num outro barco.
Aproximaram-se de nós perigosamente, de tal modo que decidimos acostar e
seguir por terra. Porém, a arriba era elevadíssima, o mar forte e o nosso
barco partiu-se em mil pedaços na atracagem. Conseguimos salvar-nos e
subir a encosta até ficarmos à vista da praia onde estava atracado o
veleiro.

Estivemos próximos, muito próximos da liberdade. Porém, atrás de nós


tínhamos os guardas que, tendo chegado ao porto, se decidiram por vir ao
nosso encontro por terra. Ao início da tarde, escondemo-nos num pequeno
abrigo de rocha para despistarmos os guardas, mas fomos denunciados por
alguém que por ali andava. Algumas horas depois fomos apanhados dentro do
nosso esconderijo e obrigados a render-nos. O Rato e o Nascimento andaram
dias fugidos pelas montanhas, antes de serem capturados.»

(Relato de E. P. sobre a fuga de cinco prisioneiros do Tarrafal)

Guardado por dois torreões de cimento e por uma vala funda cercada de
arame farpado, o campo do Tarrafal representava um corte radical com o
mundo exterior. Durante dez anos, E. P. não ouviu música, nem soube das
novidades do mundo - a não ser pelas notícias filtradas que os
carcereiros «crivavam» à medida das suas acções deliberadas de propaganda
e de desmoralização dos encarcerados. Nos «períodos agudos», o «desleixo»
forçado dos carcereiros ou as suas arbitrariedades constituíam as
verdadeiras formas de repressão: os livros eram apreendidos, a
correspondência era violada e retida, os medicamentos não entravam no
campo e o escasso pessoal médico tardava em aparecer para tratar das
emergências. Nestes períodos enlouquecia-se ou morria-se no Tarrafal.

Do exterior, chegava por vezes o som monocórdico das carpideiras ou dos


búzios que acompanhavam os enterros indígenas, num cemitério localizado a
dois passos do campo. O cantorio mais forte era, no entanto, o dos corvos
e dos milhafres, habituados aos restos de comida inquinada que os
prisioneiros se recusavam a ingerir.
238

Colónias penais

As Colónias Penais começaram por ser «depósitos» de degredados para onde


se enviavam cadastrados: em Malanje-Caxita, em Luanda, no Cunene, em S.
Tomé, em Canhabaque (Guiné). Nos finais da década de 20 do século
passado, em plena ditadura militar, muitos milhares de deportados
vagueavam por estas prisões «naturais» do fim do mundo, onde a doença e a
morte rondava a cada momento. Levas sucessivas de cadastrados alimentavam
estas «colónias» de trabalhadores forçados à capinagem, à reparação de
estradas ou a outros trabalhos do mesmo tipo. Eram todos «perigosos»
presos «sociais» que o poder exportava na ânsia de «sanear» a sociedade.
Entre eles havia naturalmente criminosos, mas também muitos acusados de
conspirarem contra a ditadura, de liderarem movimentos de contestação ou
de organizarem a insurreição «redentora». Por essa altura, calculava-se
que permaneciam, só em Angola, cerca de 4 milhares de deportados, vivendo
em condições miseráveis. Com a mudança da natureza do poder político que
resultou da ascensão da direita conservadora no seio da Ditadura Militar,
alteraram-se os critérios de selecção dos degredados, mas não se
modificaram os meios de castigo e punição, antes se refinaram os
processos.

Ao lado de operários e anarco-sindicalistas, os ditadores colocaram todos


os seus adversários políticos: militares republicanos, intelectuais,
jornalistas, líderes políticos, em suma, toda a oposição ao regime. Como
resultado das primeiras revoltas contra a ditadura, todos estes
republicanos oposicionistas foram segregados para o exílio ou para a
deportação. Durante a década de 30, este grupo foi acrescentado de
contingentes sucessivos de comunistas, de anarquistas ou de libertários.

Nos primeiros tempos, não se modificaram substancialmente as condições de


deportação em relação ao que já era hábito. Ataúro e Oe-Kussi (Timor)
eram sítios longínquos, mas mesmo assim permitiram a fuga. S. João
Baptista de Angra do Heroísmo era há muito presídio militar, mas mesmo
assim permitia que os presos se relacionassem com a população civil e
chegassem a participar em revoltas, como aconteceu em Abril de 1931.
Durante todo esse mês o general Sousa Dias e os seus homens resistiram
heroicamente na Madeira, esperando desesperadamente a revolta solidária
do Continente e o apoio dos republicanos exilados em França e Espanha.
239

A «República» da Madeira repôs a Constituição e as liberdades públicas,


pugnou pela resolução dos problemas económicos e sociais e desencadeou
uma enorme esperança nas outras ilhas e colónias, em especial na Guiné e
nos Açores. A sua derrota militar foi também a derrota política quase
definitiva dos núcleos de republicanos liberais e democratas que lutavam
para repor a República constitucional e regenerada.

Três meses depois, centenas de resistentes contra a ditadura -


republicanos, socialistas, comunistas, anarquistas, ou tão só resistentes
pela Liberdade -, inauguravam os primeiros campos de concentração
improvisados do novo regime ou aguardavam que os «arrumassem», às portas
de Bissau, da Praia ou de Luanda, a bordo dos «transportes» Gil Eanes,
Luanda ou Pedro Gomes. É para essa ampla «colónia» de presos e deportados
que a ditadura militar, em primeiro lugar, e o Estado Novo de seguida, se
preocuparam em encontrar condições de segurança e em impedir as fugas,
muito comuns nas improvisadas colónias penais de S. Nicolau (Cabo Verde),
de Oe-Kussi (Timor), da Guiné, de S. Tomé e Príncipe e de Angola. Ao
mesmo tempo que simplificavam o critério de condenação às motivações
políticas, colocando no mesmo patamar soldados e generais. Num protesto
dirigido ao governador da Província de Cabo Verde, depois do internamento
em S. Nicolau, o general Sousa Dias deplora, muito justamente, o facto de
ter sido dado um tratamento inaceitável a «antigos oficiais do Exército,
na sua maioria galardoados com as mais nobilitantes condecorações em
campanha, apresentando uma folha de serviços à Pátria e à República que
lhe dão jus à consideração de todos os portugueses...» (Nota 6)

Na verdade, a ditadura militar tinha apenas subido um patamar na


desconsideração dos direitos humanos dos seus prisioneiros: nivelara
antigos republicanos - muitos deles generosos e incondicionais defensores
da República -, pela bitola dos presos sociais «perigosos».

Chegados no vapor África à cidade da Praia, os republicanos deportados


tinham sido conduzidos ao Lazareto, por «entre alas de soldados
indígenas». O local foi cercado de arame farpado, as janelas fechadas a
prego e o grupo instalado na «mais anti-higiénica das aglomerações».
240

Alguns dias depois partiam para o campo de concentração de S. Nicolau


onde lhes foi imposta uma disciplina de tipo militar em tempo de guerra:
alvorada às seis, incomunicabilidade absoluta, proibição severa de
«exposição ou exibição de escritos» e entrega da correspondência aberta
para expedição. Um rigoroso condicionamento de circulação, dia e noite:
em caso de resistência ou tentativa de evasão, as patrulhas e sentinelas
(lembremos, indígenas!) estavam autorizadas a utilizar armas. Em tudo o
mais, S. Nicolau prenunciava já a Colónia do Tarrafal: entrada das
refeições por um postigo, rigoroso controlo de todas as saídas e
entradas.

Pelo Verão de 1931, S. Nicolau acumulava cerca de cento e sessenta


deportados. As instalações eram as do antigo seminário da vila de Ribeira
Brava, que já tinha servido de instalação a prisioneiros alemães.

De uma carta escrita pelo deportado Raul Madeira, a bordo do Gil Eanes
(Guiné, 10 de Julho de 1931), ficou-nos um relato sucinto das condições:

«Os presos estão divididos em três categorias, tendo os de l.a as suas


instalações no primeiro andar, os de 2.a no rés-do-chão e os de 3.a em
casas que outrora devem ter sido de arrecadação. Os de 2.a e 3.a não têm
camas, dormindo, por isso, sobre enxergas, o mesmo tendo acontecido aos
de l.a categoria até há pouco tempo. A alimentação é a pior que se pode
imaginar, pois além de os géneros serem ordinários, e por vezes
deteriorados, é mal confeccionada por negros de Angola, que primam por
não terem o maio ínfimo cuidado higiénico. Assim, é obrigatório, a todas
as refeições, a massa deteriorada e a carne que, por vezes, é cozinhada
em verdadeiro estado de putrefacção.

«O correio é censurado e o deportado que tente a veleidade de descrever


estas verdades é imediatamente encarcerado na cadeia civil da vila (...).

«A vigilância é exercida por uma companhia de pretos, comandada pelo


capitão André Dias da Silva, sobejamente conhecida como pessoa de poucos
escrúpulos e pouco honesta. Este indivíduo, antigo comissário-adjunto da
polícia de segurança pública de Coimbra, tem naquela cidade uma larga
história, e é ali conhecido por André dos Passarinhos (...)» (Nota 7).

Para chegar ao exterior, os deportados tiveram que mobilizar uma


informação cifrada, comum entre os militares e necessariamente
reinventada no caso da correspondência particular.
241

Antes da amnistia de 1932 (Decreto n.° 21 943, de 5 de Dezembro), os


contactos entre a deportação e o exílio espanhol (em especial o instalado
na Corunha) foram intensos e duradouros, sem que daí decorresse alguma
possibilidade de alteração das condições prisionais dos deportados.

No entanto, nesses campos estavam alguns dos militares que não foram
amnistiados, por serem considerados «perigosos», entre eles o general
Sousa Dias, verdadeira figura tutelar da deportação em Cabo Verde.
Lançado pela ditadura o boato de que só aceitaria ser amnistiado se
igualmente o fossem todos os «oficiais deportados que serviram sob as
suas ordens», denunciou a hipocrisia mas aproveitou para confirmar que
essa, sim, seria a sua atitude. Foi-lhe constituído processo político
(TME, proc. 115/35) e arquivado em 6/2/1936, por motivo de morte. Na
verdade, o general Sousa Dias foi um dos primeiros combatentes pela
República a morrer nos campos de concentração de Cabo Verde, decorria o
ano de 1934.

Na sequência da revolta de 26 de Agosto de 1931, em Lisboa cerca de


quatro centenas de presos, sem julgamento nem processo formado, foram
deportados para as colónias portuguesas em mais uma «leva» que encheu por
completo os destinos mais próximos (Angra, Cabo Verde, Guiné) e reservou
para os «chefes revolucionários» os lugares mais longínquos e
inacessíveis de Dili, ilha de Ataúro e enclave de Oe-Kussi, em território
holandês. A distância, o isolamento e o clima faziam destes locais
verdadeiros campos da morte:

«Em Oe-Kussi havia um verdadeiro campo de concentração, com profundos e


largos fossos cheios de água e, em volta, os postes de arame farpado.
Metralhadoras em posição vigiavam o campo de um monte próximo.» Este é o
relato de um conjunto de fugitivos que lograram abandonar o local em
Fevereiro de 1932, com a ajuda de um comerciante inglês. Do enclave
saíram nove prisioneiros, num pequeno barco a remos, sendo depois
recolhidos por um navio inglês em alto mar. Entre os fugitivos
encontrava-se o ex-ministro das Colónias, Fernando Utra Machado, os
capitães Alfredo Mendonça e José Pereira Gomes, o jornalista e ex-
deputado Miguel de Abreu, os tenentes Oliveira Pio, Manuel António
Correia e Eduardo Carmona, o oficial da Marinha Mercante, Manuel Vireilha
da Costa, e o comerciante Joaquim Munhá. Aportaram a Marselha no início
de Abril, onde receberam o apoio de Afonso Costa e de outros exilados.
242

Muitos irão permanecer em Espanha e mesmo participar activamente na


Guerra Civil, ao lado dos Republicanos, como aconteceu com Oliveira Pio
ou Utra Machado. Regressarão ao país em 1939, para se submeterem a
tribunal e serem de novo presos.

«Recintos fortificados»

Num dos périplos impostos aos deportados que tinham sido instalados no
campo de concentração de S. Nicolau, os prisioneiros em trânsito para o
depósito da Ponta do Sol, na Ilha de Santo Antão, puderam perceber a
sofreguidão com que, por aquela época, a ditadura desenvolvia os planos
de implantação de um «definitivo» campo de concentração nas terras
inóspitas de Cabo Verde. Em carta a seu filho, o general Adalberto Sousa
Dias relata o desembarque dos responsáveis do Campo de S. Nicolau muito
próximo de um sítio que dava pelo nome de Tarrafal, onde «iam observar o
estado de adiantamento das obras, e providenciar em harmonia...» a
instalação dos resistentes que excederia - na opinião de Sousa Dias -,
tudo o que até ali se tinha praticado:

«O local é simplesmente pavoroso!

O Tarrafal - misérrima povoação de pescadores, fica situado próximo e ao


lado de uma apertada ravina de ásperos e escalvados flancos -, flancos
elevados e de abruptos declives, que se alargam um pouco, próximo ao mar,
e onde se está estabelecendo o aludido campo de concentração. Três
raquíticas árvores é a única vegetação que ali se encontra. O sol,
batendo todo o dia, neste pedregulhoso e árido terreno, sem que possível
seja furtar-se à ardência dos seus raios, converterá, certamente, a
existência dos desterrados que para li forem mandados numa torturante
vida de esfacelamento físico e moral!... Mas há mais: ao lado desse
campo, onde já estão levantadas quatro casas desmontáveis, adquiridas no
estrangeiro, fica, como já te disse - a misérrima povoação do Tarrafal -
uma centena de paupérrimos casebres, dos quais, os mais luxuosos, dispõem
de uma estreita fenda, junto à porta de entrada.
243

Nenhuma dessas verdadeiras cubatas, é caiada; e em todas a cobertura é de


colmo.

A única indústria desta pobre gente, é a pesca; e sobretudo a pesca da


baleia, cujas gorduras derretem para a extracção de óleo! O cheiro
nauseabundo que tudo isto produz, é, dizem, perfeita e completamente
horrível!...

Pois, nem com esta desgraçada gente se permitirá o convívio, pois lá


estão em volta das casas desmontáveis, os postes para ser pregado o arame
farpado da vedação do estreito campo de prisão!...» (Nota 8)

Timor, a Guiné e especialmente Cabo Verde reuniam todas as condições para


vencer a resistência republicana à ditadura: bastava que não se
alterassem muito as condições «naturais» daqueles sítios do fim do mundo:
inóspitos, despovoados e inacessíveis. Era suficiente um arame fardado
para evitar a fuga, uma companhia para impor a ordem, um médico para
manter a aparência de apoio clínico e o mínimo para sobreviver.

De resto, não seria mais fácil vencer a oposição constitucional pela


humilhação e pelo degredo? Referenciavam-nos como «perigosos bombistas»,
desembarcavam-nos por entre alas de soldados indígenas e rodeavam-nos de
arame farpado, pregando-lhes as janelas dos sítios onde chegavam para que
ninguém desejasse acercar-se deles.

A destruição dos opositores pelo desterro não constituía, sequer,


qualquer requinte da acção ditatorial. Um governador colonial considerara
mesmo que, «se mandasse, desembarcava os deportados numa das ilhas
desertas, e dava-lhes vinho e facas, que eles se encarregariam de se
desfazer uns dos outros» (Nota 9).

Com estes governadores prepotentes e a ajuda de alguns capitães


aventureiros (muitos deles já beneficiados com os novos galões por
serviços «brilhantes» prestados à ditadura como tenentes), o governo da
ditadura e os seus timoneiros, Carmona e Salazar, não necessitavam de
grande imaginação doutrinária e legislativa. Em 6 de Novembro de 1933
(pelo Decreto-lei n.° 23 203), Salazar decretava e Carmona promulgava
sobre o desterro dos portugueses «julgados e punidos» por «crimes de
rebelião»: todos os que fossem acusados de atentados contra a integridade
do território nacional, contra o governo constituído e contra a
autoridade do presidente da República e dos ministros.
244

Como se fosse difícil amordaçar o pensamento, os ditadores consideravam


que «atentado» não era só o acto, mas também os actos preparatórios -
mesmo que esses estivessem apenas no pensamento de cada um. No que tinham
absoluta razão: o mais perigoso é a ideia. Mas como julgar as ideias que
cada um cogita no seu pensamento?

Os «crimes de rebelião» seriam punidos com a pena de desterro, por seis a


doze anos, podendo ir a quinze ou a vinte e cinco por reincidência, e o
desterro cumprido em regime de prisão, num «recinto fortificado ou
colónia penal estabelecida numa ilha das colónias, exclusivamente
destinada a tal fim, à escolha do governo». O mesmo decreto previa ainda
a criação de um Tribunal Militar Especial, com sede em Lisboa,
encarregado dos autos de investigação, com «força de corpo de delito».

Tudo expedito: as investigações, a marcação do julgamento (Nota 10) e o


próprio julgamento. Para os crimes «mais graves», o julgamento seria
sumário, sem recurso a processo preparatório. Deverá ter sido esta
rapidez relâmpago que permitiu que muitos presos tivessem estado numa
colónia penal pelo prazo de muitos anos, sem culpa formada ou julgamento,
para depois se verificar, depois de julgados, que nem condenados deveriam
ter sido. O Decreto dos Ditadores previa ainda o castigo de demissão aos
funcionários públicos que fossem acusados de «infracções disciplinares de
carácter político».

No entanto, esta era apenas a «face legal» de um regime que pretendia, a


todo o custo, manter a aparência de um Estado de Direito. Porque no seu
artigo 45.° o diploma era claro e expedito: «O Governo, por deliberação
tomada em Conselho de Ministros, poderá proibir a residência em
território nacional a todos aqueles cuja presença julgue inconveniente à
segurança das instituições e ordem pública.» Em nenhuma circunstância
parecia tão útil a governamentalização da Justiça e a ditadura do Chefe
do Governo!

Pouco mais de dois anos depois, em 23 de Abril de 1936, dando cumprimento


à legislação anterior, foi criada «uma colónia penal para presos
políticos e sociais no Tarrafal, Arquipélago de Cabo Verde» (pelo
Decreto-lei n.° 26 539). A colónia ficaria instalada na Achada Grande e
teria capacidade para quinhentos presos, indiferentemente da sua situação
de condenados ou de prisioneiros por prevenção.
245

A lei recomendava o isolamento em torno da colónia penal, de modo a


impedir o contacto com a população circundante, mas não abdicava do
recurso a uma «companhia indígena» para manter a ordem prisional.
Simplificava deste modo os meios humanos deslocados e garantia a
humilhação da população prisioneira.

A necessidade de uma instalação urgente dos presos «perigosos e


indesejáveis» fora do continente e a desconcentração recomendável dos
prisioneiros acumulados em S. João Baptista (Angra do Heroísmo) exigia,
aos olhos dos ditadores, o recurso a instalações de carácter provisório
«utilizando-se os meios adequados, e entre eles os destinados ao campo de
concentração da Ilha de S. Nicolau» (Art. 11.° do Decreto-lei 26 539).
Por outras palavras, a urgência de dispersão dos opositores mais
combativos contra o Estado Novo justificaria a instalação dos deportados
em quaisquer condições: sem casas definitivas, sem condições logísticas,
mesmo sem condições de segurança. O recurso oportunista ao trabalho
forçado dos próprios prisioneiros era uma solução demasiado atraente para
ser desperdiçada: custo zero, formas de castigo garantidas, humilhação
certa...

Num artigo apenas, o legislador deixava cair a fachada legal que tentara
imprimir ao longo de todo o texto. A «colónia penal» - «necessária»,
planificada - poderia muito bem, por motivos de urgência, acabar por ser
um campo de concentração, como fora o de S. Nicolau desde 1931:
oportunisticamente improvisado e desumano.

O ante-projecto (Nota 11) do campo do Tarrafal foi apresentado ao


ministro do Interior, em 5 de Setembro de 1935, depois de um ano de
trabalho de campo de um engenheiro militar em Cabo Verde que seguia as
instruções do ministro e da PVDE. Tratava-se de preparar a instalação
urgente de quinhentos a seiscentos «colonos», em regime de internato, e
utilizando a mão-de-obra dos «internados» na segunda e terceira fases de
construção e conservação, tanto na instalação das infra-estruturas como
nos trabalhos oficinais e agrícolas e na construção de estradas e obras
de hidráulica.

No plano original, o local foi concebido como campo de trabalho forçado,


com a finalidade de castigar os condenados por crimes sociais e
políticos, utilizando essa mão-de-obra como forma de colonização de um
espaço ultramarino com potencialidades agrícolas, com base na água da
nascente da Ribeira de Prata, a 5 mil metros de distância do campo.
246

Seriam modestas as construções, avisava o projectista. O «colono» viveria


segundo a determinação da direcção da colónia em espaços diferenciados:
da «quase inteira liberdade», com permissão de saída, até às «celas
disciplinares», de completo isolamento. No entanto, a descrição dos
espaços, com a previsão da construção de muros de segurança de sete
metros e meio de altura entre as diferentes zonas do campo desfaz, por
completo, a ideia de um estabelecimento colonizador.

Por fim, a urgência de alojar os resistentes que se encontravam


espalhados pelas prisões do continente (Peniche, Aljube, Penitenciária e
esquadras da PSP), das ilhas (S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, S.
Nicolau, em Cabo Verde) e das colónias (Guiné, Angola), bem como prevenir
a acção revolucionária numa Ibéria em chamas, determinou, em definitivo,
a natureza do campo do Tarrafal de Santiago. Quando chegaram os primeiros
«colonos», em Outubro de 1936, o sítio tinha instaladas algumas barracas
de lona, cercadas de arame farpado, para além de instalações destinadas à
direcção. Em tudo o resto - dormitórios-casernas, celas de isolamento e
de «disciplina», postos de vigia, vala de segurança -, os «prisioneiros-
colonos» seriam os seus próprios carrascos: construíram, instalaram e
conservaram as suas próprias prisões.

Campos do sudoeste

Solidariedade! Solidariedade! Solidariedade! Esta a palavra de ordem que


se repetia no Liberdade (jornal antifascista português) pelos meses de
Maio e Junho de 1939 para dar socorro aos «evacuados» da Guerra de
Espanha. No início desse ano, milhares de homens, mulheres e crianças
fugidos aos nacionalistas tinham atravessado os Pirenéus nas piores
condições materiais e morais. No sul de França, alguns tinham conseguido
obter a solidariedade das organizações políticas em que militavam:
republicanas, maçónicas, comunistas... Mas a grande maioria dos
refugiados não obteve esse auxílio; ficou à mercê da compaixão do povo
francês e sob os efeitos de um Inverno rigoroso.
247

Emídio Guerreiro, um desses refugiados, levanta o véu da odisseia.


Chegado de Espanha com outros companheiros de luta, «ganhou lugar» num
armazém desconfortável. Daí passou com os outros «portugueses» a um campo
de futebol, em Arles-sur-Tech, transformado em campo de concentração. Aí
conviviam, na mais completa insalubridade, «indivíduos com os membros
arrancados, feridos, verdadeiros destroços humanos...» (Nota 12).

Aflito com a extrema delicadeza do problema humanitário e político criado


pelos milhares de refugiados recém-chegados de Espanha, o governo de
Daladier promoveu uma gigantesca operação de instalação de campos de
refugiados em toda a região do sudoeste da França: em Gurs, Argélès-sur-
Mer, Montauban... Aí foram recolhidos emigrantes, brigadistas,
combatentes republicanos, activistas políticos e sindicais, gente de
Espanha, mas também homens e mulheres de todo o mundo que tinham
combatido ao lado dos republicanos, ao todo uns cento e oitenta mil ex-
combatentes. Portugueses também, aproximadamente uns trezentos. Muitos
deles difíceis de identificar pelos nomes, mas facilmente referenciados
pela Polícia Política de Salazar sempre que manifestavam o desejo de
regressar ao país. Alguns, como o tenente Oliveira Pio - um reviralhista
exilado e chefe de Operações do 23.° Corpo do Exército republicano
espanhol, organizado para defender Valência dos nacionalistas em 1938 -,
saiu de Espanha com as suas tropas e foi com elas «internado» no campo de
concentração de Montauban.

Viviam nas piores condições esses homens e mulheres «enclausurados nos


campos de concentração» do sul de França. Muitos desejavam voltar a
Portugal, mas sem recursos, o retorno era impossível.

A partir dos meses de Maio-Junho de 1939, a PVDE fez chegar, com


insistência, listas de «expatriados» portugueses ao Ministério dos
Negócios Estrangeiros, com a indicação recorrente de que esses
portugueses se encontravam «no estrangeiro, a maioria nos campos de
concentração franceses» (Nota 13). Recomendava-se ainda que não fossem
concedidos novos passaportes a estes portugueses, nem revalidados os
antigos.

Aproximava-se a passos largos a Segunda Guerra Mundial. Muitos


«emigrados» portugueses, como aconteceu a Emídio Guerreiro, acabaram por
aceitar trabalho nas fábricas de indústria de guerra da região de
Toulouse, nalguns casos sob a pressão política de uma França invadida.
248

Mas os tempos eram conturbados. Emídio Guerreiro chegou a desempenhar


funções de chefia na Fábrica de Pólvora de Toulouse. Porém, um dia, foi
preso. Questionou os carcereiros, mas não obteve resposta. Percebeu que
se tornara suspeito, como todos os militantes de esquerda, em especial os
comunistas regressados da Guerra de Espanha. Em França, o Partido
Comunista tinha sido ilegalizado. Foi então transferido para o Campo de
Concentração de Argélès-sur-Mer, perto de Perpignan. Dormia-se «entre
palha e ratazanas», comia-se um caldo povoado de bichos por latas de
conserva usadas e trabalhava-se em regime forçado e obrigatório - segundo
o seu relato. Emídio Guerreiro tentou a primeira fuga e foi capturado;
tentou a segunda fuga e conseguiu integrar-se na Resistência francesa.

Muitos outros continuaram nos campos de concentração. Porém, a situação


degradava-se a cada momento, com o avançar da guerra e o rosário das
privações. Os internados eram pressionados para se integrarem nas
unidades especiais do exército francês, a Legião Estrangeira, ou para se
alistarem como «voluntários» nas brigadas de trabalho encarregadas do
reforço das fortificações (Nota 14).

Eram estes os destinos dos portugueses e dos espanhóis: terminada a


Guerra de Espanha, não tinham para onde ir. A não ser que teimassem em
regressar ao seu país, em ditadura. Mas, se regressassem, outro caminho
os esperava: o envio para o Tarrafal, como aconteceu aos dois irmãos,
Mário e Manuel Baptista Reis, a Alípio dos Santos Rocha, a Júlio Mateus
Farinha, a Miguel Francisco Ramos, onde chegaram em 1941.

Se o mundo mudou...

Em 1944 chegavam notícias do exterior. Já ninguém - nem os guardas -


acreditava na vitória das ditaduras. Manuel Francisco Rodrigues, um dos
prisioneiros do Tarrafal, já sabe que «Está em marcha a corrida para
Berlim e os gloriosos exércitos das democracias e da URSS avançam quase
sem resistência». Descreve a mudança: «Até os guardas do Tarrafal da
Morte se tornaram subitamente nossos amigos, desculpando-se, quando nos
referíamos às atrocidades de outrora: - «Eram ordens... eram ordens...»
(Nota 15).
249

Nos finais de 1944, mudou o director. Magnanimamente, um aparelho de


rádio foi instalado na barraca de madeira existente sobre um dos torreões
de entrada do campo: para ouvir música e os noticiários da Emissora
Nacional.

Em meados de 1945 foram «separados» do campo - embora permanecessem sob o


regime de prisão - cerca de quarenta prisioneiros. Sob o efeito de fortes
pressões internacionais, mais setenta foram amnistiados em Outubro
daquele ano. Aguardaram no campo que chegasse o navio de transporte; o
Guiné chegou a 25 de Janeiro de 1946. No Campo do Tarrafal ficavam ainda
cerca de quarenta prisioneiros, os ex-marinheiros da Revolta de 1936,
condenados a penas pesadas.

A 1 de Fevereiro de 1946, o navio de ex-tarrafalistas aproximou-se do


cais de Alcântara. Uma multidão - de familiares e antifascistas -
aguardava os prisioneiros, braços estendidos ao futuro de esperança que o
pós-guerra tinha aberto também em Portugal. Um dos recém-chegados relata
a situação: «... saímos a custo da gare marítima. O movimento das gentes
e de viaturas era intenso nas vizinhanças. Voltávamos a ouvir o tlim-tlim
dos eléctricos, que avançavam céleres pela Avenida 24 de Julho.» (Nota
16)

A amnistia dos presos políticos e a extinção do Tarrafal passaram a ser


duas das principais exigências do Movimento de Unidade Democrática (MUD),
constituído em Outubro de 1945. Como voltou a ser bandeira de campanha da
candidatura do general Norton de Matos, em 1949.

No entanto, passado o sobressalto do pós-guerra, o salazarismo recompôs-


se e o combate ao comunismo voltou a poder ser invocado para, de novo,
enviar prisioneiros para o Tarrafal. Na sequência do chamado «julgamento
dos 108», que termina em Novembro de 1948, Francisco Miguel, um dos
comunistas amnistiados em 1946, volta ao Tarrafal, em 1951. Aí
permanecerá até 1953, altura em que, sob prisão, foi transferido para o
Forte de Caxias. O Tarrafal viria a encerrar em 28 de Janeiro de 1954.

A inserção do país de Salazar em organismos internacionais como a NATO


(1949) e a ONU (1955) e as suas pretensões de aproximação ao mundo
democrático recomendariam tudo menos a existência de uma «colónia penal»
em Cabo Verde.
250

Por isso, no Verão de 1953, os últimos marinheiros foram transferidos


para o forte de Peniche e, uns meses depois, também Francisco Miguel
deixa o Tarrafal.

O Tarrafal tinha sido o «ponto magnífico!» para atingir os objectivos de


uma «colónia penal» no fim do mundo: «Vento, sol canicular, água
imprópria, vegetação raquítica, mosquitos em abundância, durante todo o
ano, e sobretudo, durante quatro meses, quando os ventos do nordeste
param... Que ponto tão bom para exterminar presos políticos, sem que se
pudesse dizer que tinham sido liquidados!...» (Nota 17)

Em sucessivas levas (de 1936 a 1951), cerca de quatro centenas de


prisioneiros habitaram a «colónia penal» do Tarrafal. Muitos tornaram-se
doentes pulmonares, a maioria contraiu doenças de tipo palustre. Trinta e
dois morreram, a maioria de biliosas ou perniciosas, por manifesta
insuficiência de tratamento antipalúdico e condições de higiene e
alimentação deficientes (Nota 18).

Se mais nada houvesse para caracterizar a natureza ditatorial e


autoritária do salazarismo, bastaria o Tarrafal. O regime era «uma
política e não apenas uma Constituição, avisava o ditador.
Institucionalmente, foi uma «ditadura constitucionalizada», considera
Braga da Cruz (Nota 19). Mas, politicamente, foi uma «ditadura do chefe
do governo», com suporte num regime prisional preventivo, sujeito não à
lei, mas ao arbítrio da administração: militar, policial e até judicial.
No Tarrafal, uma ampla maioria de prisioneiros não tinha culpa formada;
muitos permaneciam no campo mesmo depois de já terem concluído as suas
condenações; outros ainda não tinham sido julgados ou então estavam
condenados a simples prisões correccionais.

Sem o encarceramento das oposições políticas - mesmo sem a sua eliminação


objectiva -, dificilmente o regime de Salazar teria sobrevivido por mais
de quatro décadas de repressão e de silêncio.
CAPÍTULO 10

O EXÉRCITO

O Exército e o regime salazarista

«Os generais, neste país, estão apodrecidos. Venham os capitães capazes


de os pôr de lado e marchar para a democracia»

Fernando Queiroga Chaves Portugal Oprimido, 1958

Em 1957, alguns dias antes das eleições para a Assembleia Nacional que
mais uma vez ignoraram o clamor das oposições a António de Oliveira
Salazar, Fernando Queiroga Chaves, um desalinhado capitão português no
exílio brasileiro, dirigia-se, numa Carta Aberta, em nome da Frente
Cívica Revolucionária, às Forças Armadas de Portugal. Exortava-as a
abandonarem o conformismo e o imobilismo e a imporem ao governo a
realização de eleições livres que «assentassem em legislação adequada,
recenseamento sério, escrutínio correcto e propaganda sem peias de
qualquer ordem» (Nota 1). Estas tinham sido, no fim de contas, as
exigências que sucessivas tentativas revolucionárias tinham programado
impor ao chefe do Governo, desde as primeiras revoltas contra a ditadura,
até aos putsches militares que intentaram derrubar Salazar antes e depois
da Segunda Guerra Mundial.
252

Queiroga tinha começado por ser um dos jovens militares que apoiara a
Revolução de 28 de Maio, que expulsara do governo e do Congresso os
partidos; no entanto, depois da guerra, considerava que a intervenção
militar de 28 de Maio tinha sido «empalmada» por Salazar e pelos seus
apoiantes, tendo-se perdido o sentido original de regeneração que animava
a maioria dos militares revoltosos - «honestos, mas incapazes de dar
concepção jurídica às aspirações do povo» (Nota 2). Muitos desses
militares, como o subsecretário da Guerra, Santos Costa -, considerava
ainda Queiroga na sua Carta Aberta - tinham mesmo hipotecado a «honra e a
dignidade militares em holocausto aos interesses de uma oligarquia de
homens sem escrúpulos».

Longe do país pequeno onde fizera o seu tirocínio político e militar e


aberto às grandes realidades do mundo americano em mudança , acelerada,
Queiroga denuncia as perversões de umas Forças Armadas alinhadas pelo
regime político ditatorial. Foi papel de Santos Costa, afirma Queiroga,
«Dotar o Exército de meios materiais que permitissem, pela força, tornar
inoperantes quaisquer tentativas de reconquista das mais elementares
liberdades, sem as quais não é possível salvaguardar a dignidade humana,
quebrar todos os liames de camaradagem, distinguir os mais acomodaticios
e subservientes, aviltar pelo medo, transformar as instituições
[militares] num "exército-polícia", com as baionetas voltadas para o
interior...». A reorganização das Forças Armadas, iniciada nos anos 30,
longe de corresponder a uma dignificação dos militares e das suas
instituições, tinha antes sido orientada, segundo o capitão Queiroga,
para uma «domesticação» daqueles que defendiam uma transição pacífica
para um regime constitucional (depois da regeneração da República por uma
ditadura temporária) e para uma subordinação do poder militar aos
desígnios do ditador.

Na década de 20 do século passado, antes do golpe militar que em 28 de


Maio mudou definitivamente o curso da história do país, as Forças Armadas
estavam profundamente divididas e implicadas nas diferentes instâncias do
poder político-administrativo e partidário do país. Longe de imprimirem
um curso claro e seguro aos acontecimentos, as Forças Armadas foram antes
um palco (e um instrumento) da intensa luta política que dividiu o país
entre República liberal e ditadura.
<Reprodução do Manifesto às Forças Armadas subscrito por Fernando
Queiroga, no Rio de Janeiro, Brasil: omitido>
254

Pelo seu interior passaram algumas das linhas de fractura política mais
fortes, em especial nos grandes momentos de viragem da conjuntura
internacional, após as duas guerras mundiais.

O «Exército-Polícia»

Fernando Queiroga - como muitos dos militares empenhados na regeneração


política do país -, não chegou vivo ao 25 de Abril e, por essa razão, não
pôde confirmar algumas das convicções que o tinham acompanhado desde
1937. Antes de mais, a ideia, muitas vezes afirmada, de que o regime
dificilmente se regeneraria no sentido democrático e por si próprio se
encaminharia para resolver o problema do Ultramar. Depois, a convicção de
que se impunha a acção libertadora das Forças Armadas, essas mesmas que,
por razões diferentes, haviam mudado o curso dos acontecimentos em 28 de
Maio de 1926.

Tinham uma vantagem estes militares exilados: eram desafectos ao regime,


tinham sido ostracizados e, por essa razão, não tinham que participar nas
guerras coloniais. Saíram a tempo da teia com que Salazar manietou as
Forças Armadas e as conduziu ao desastre da índia e aos outros desastres
que se anunciavam em África, em particular na Guiné e em Moçambique. No
exterior, puderam ter a completa percepção de como o chefe do Governo
transformou um desaire em mais um balão de oxigénio para prolongar a vida
do regime: sem opinião pública livre, com umas Forças Armadas
«domesticadas» e um povo dormente, foi fácil ao ditador arrebanhar o país
ao grito de «Para Angola e em Força». Daí em diante e, pelo longo período
de treze anos, as Forças Armadas foram neutralizadas pelo desgaste de uma
acção militar exigente e pela ideia de uma superior «missão civilizadora»
em África.

Como conseguira, então, o ditador constituir o seu «Exército-Polícia»? Em


primeiro lugar, atribuindo a esse mesmo exército as funções que ele está
preparado para, tradicionalmente, desempenhar, mesmo com recurso à
violência ou à guerra: a instauração da ordem, da disciplina e da
hierarquia. Em segundo lugar, respondendo, embora timidamente, a algumas
das suas mais sentidas reivindicações: modernização dos equipamentos e
reorganização dos corpos militares (Nota 3).
255

Por fim, reorientando no sentido da «política nova» a enorme capacidade


política, técnica e administrativa das Forças Armadas, com afastamento
dos «generais conservadores», ou seja, daqueles militares que acreditaram
num regresso ao constitucionalismo republicano e sua substituição pelos
adeptos das novas soluções autoritárias.

De facto, o Exército manobrava uma parte importante das alavancas do


poder do Estado e, quando esse Estado fraquejou, no decorrer da década de
20 - perante as enormes dificuldades do pós-guerra -, tomou-o de assalto
e imprimiu-lhe um sentido político novo. Uma parte muito significativa
dos responsáveis militares pelo movimento que derrubou a República podia
não saber como fazer; porém, sabia o que queria: o fim do poder
legitimado por eleições livres, a corporativização dos interesses
económico-sociais, a repressão das reivindicações sindicais e a restrição
das liberdades, com recurso à censura e ao ostracismo dos intransigentes,
acompanhando o movimento conservador de fundo que varria a sociedade
portuguesa da época. Esses militares foram directamente responsáveis pela
condução da Ditadura Militar (1926-1933) e do Estado Novo que se lhe
seguiu e nenhuma destas opções ou medidas deixou de ser equacionada - ou
mesmo tomada, quando possível, a começar pelo desmantelamento das
instituições republicanas, logo nos dias a seguir ao Movimento do 28 de
Maio.

Parlamento encerrado, vida nova

Dois dias depois do golpe militar que derrubou a I República, um comando


militar chefiado pelo capitão Carlos Vilhena (Nota 4) encerrou o
Congresso da República. Este era o gesto fundador do novo regime a
anunciar, suficientemente simbólico e eficaz. Agradaria, de igual modo,
aos dois blocos político-militares que, em aliança táctica, se aliaram
para acabar com a República democrática: aos constitucionalistas, do
almirante Mendes Cabeçadas e ao general Sinel de Cordes e comandante
Filomeno da Câmara, de pendor monárquico e integralista, que visavam
implantar um regime anti-constitucional. Para estes dois sectores
militares (e muito especialmente para o segundo), responsáveis pelo
derrube da República e pela instauração da Ditadura Militar, o Parlamento
era um estorvo e um símbolo da «acção nefasta dos políticos e dos
partidos», a que queriam pôr cobro.
256

Ao fim de mais de um século de liberalismo, esta luta frontal entre


autoritarismo e democracia, presente em toda a sociedade, desenrolava-se
especialmente nos quartéis, onde os «sovietes de oficiais» (numa
designação do republicanismo de esquerda) impunham muitas das linhas do
futuro regime. Desde logo, ocupando as chefias políticas do país e as
alavancas do poder, do topo à base, apresentando-se arrogantemente como
os «Messias» dos anunciados «governos de competências» com que as
«sereias conspiradoras» aliciavam o país, desde pelo menos 1923. Depois,
escolhendo autocraticamente o governo e os seus elementos, como aconteceu
com a vinda de António de Oliveira Salazar para desempenhar o papel
providencial de «mago das finanças». Durante todo o período da Ditadura
Militar, e em especial até 1930, são predominantemente militares os
ministérios, com as chefias dos generais Carmona (Nota 5), Vicente de
Freitas (Nota 6), Ivens Ferraz (Nota 7) e Domingos de Oliveira (Nota 8).
Também as pastas da Defesa e do Interior serão entregues a militares, com
objectivos claros de manter a ordem pública interna, ameaçada pela
resistência republicana e social à Ditadura e de impor uma repressão
feroz sobre todas as manifestações das liberdades públicas: de opinião,
de reunião, de associação, de expressão eleitoral, ou de contestação ao
poder ditatorial em constituição.

É assim que, logo em Julho de 1926, são presos vultos grados do


republicanismo e deportados para as ilhas, sem processo formado ou
julgamento. Apoiantes de Mendes Cabeçadas e de Gomes da Costa, como os
coronéis Ribeiro de Carvalho e Tamagnini Barbosa eram presos e, em
Janeiro seguinte, depois da apresentação de um documento de protesto dos
Directórios dos partidos republicanos junto das embaixadas estrangeiras,
foram presos António Maria da Silva, o líder dos Democráticos, o coronel
Hélder Ribeiro e o general Sá Cardoso, líderes republicanos com
responsabilidades governamentais durante o regime deposto, enquanto
outros conseguiam fugir do país, através de Espanha. A imprensa
republicana, tradicionalmente combativa e virulenta sofreu, a partir de
Julho (ainda sob a vigência do governo do general Gomes da Costa), os
primeiros entraves da censura.
257

A partir de 1927, todos os jornais passaram a trazer, no cabeçalho, um


selo no interior do qual se inscrevia «Visado pela Comissão de Censura»,
como se o país continuasse a viver num estado de guerra. A partir de
Outubro de 1926, floresceu uma intensíssima literatura clandestina, como
única forma de contornar a falta de liberdade. Por volta de 1933,
desaparecia, quase por completo, toda a imprensa local republicana, de
carácter semi-legal, substituída por uma imprensa oficiosa domesticada.

O desmantelamento definitivo das instituições republicanas liberais e


democráticas veio a ocorrer na sequência dos sucessivos golpes falhados
da resistência republicana, em especial depois da «Revolta de 3-7 de
Fevereiro de 1927» e das Revoltas de 1931, nas Ilhas (Madeira e Açores) e
no Continente. Nas palavras do ministro da Defesa, coronel Passos e
Sousa, a «Revolução de Fevereiro» tinha sido «um incidente lamentável,
mas talvez providencial». Na verdade, a Revolução forneceu o pretexto
para militarizar ainda mais profundamente a vida social e política e para
afastar «os militares impuros que se juntaram aos insurrectos». São
dissolvidas unidades militares, demitidos ou separados do serviço os
constitucionais intransigentes, na grande maioria funcionários públicos e
militares. Ao mesmo tempo, são dissolvidos «os centros políticos e
associações de qualquer natureza» que tenham tomado parte na preparação
ou na execução da Revolução. São encerrados sindicatos, partidos
políticos, centros republicanos e deportados centenas de revoltosos,
militares ou civis.

Esta depuração prossegue pelos anos seguintes e agudiza-se depois das


grandes revoltas de 1931: na Madeira, nos Açores e em Lisboa (26 de
Agosto). Aprofundam-se os antagonismos entre militares constitucionais e
autoritários e a repressão agudiza-se. Da Madeira, os oficiais revoltosos
são conduzidos ao inóspito arquipélago de Cabo Verde, onde inauguram o
«Campo de Concentração de S. Nicolau», verdadeira antecâmara do «Campo da
Morte Lenta do Tarrafal» (Nota 9) ou, em alternativa, ao «Campo de
Concentração de Oe-Kussi», em Timor, de onde só a fuga pode salvar a
vida. A transportá-los, os deportados têm antigos colegas de armas e,
quando chegam, também são militares, organizados em destacamentos mistos,
de continentais e tropas indígenas, que os recebem e guardam em campos de
arame farpado.
258

Ao mesmo tempo, as Revoltas Republicanas contra a Ditadura permitiram


evidenciar o apoio indefectível à Ditadura de um vasto conjunto de baixas
patentes militares - os tenentes -, imbuídos de ideologias extremistas,
nalguns casos simpatizantes do fascismo, que vieram a desempenhar um
papel decisivo nos acontecimentos que conduziram à instalação do Estado
Novo e à consagração do salazarismo. Vemos o tenente Morais Sarmento a
combater na primeira linha contra o Reviralho, no Porto ou em Lisboa os
tenentes Humberto Delgado, Henrique Galvão, Óscar Ruas, Assis Gonçalves;
assistimos ao seu empenhamento na instauração das estruturas políticas do
novo regime; acompanhamos a sua acção na recolonização imperial da Africa
onde por exemplo o tenente, depois capitão Henrique Galvão teve um papel
determinante.

A par da construção do novo regime, os militares vieram a desempenhar um


papel fundamental na repressão interna dos descontentes, quer em actuação
de rua quer na organização dos primeiros embriões da «polícia política» e
da concentração de esforços que culminou na criação da PVDE, em 1933.
Nesta reorganização das duas polícias - a Polícia Internacional
Portuguesa e a Secção de Vigilância Social e Política -, foi fundamental
a figura do capitão Agostinho Lourenço (Nota 10), em perfeita articulação
com o ministro do Interior (um militar) e com o chefe do Governo.

Daí em diante, ficava definido o quadro judicial a «justiça política» que


iria permanecer, com ligeiras alterações, até ao fim do Estado Novo. A
polícia criada tinha «um carácter secreto e político», competia-lhe a
prevenção e repressão dos «crimes sociais» e tinha competências
instrutórias, pois os autos por ela levantados e as investigações faziam
fé em juízo e valiam de corpo de delito. Para completar este quadro
institucional aberrante, o governo da ditadura criou um Tribunal Militar
Especial (Nota 11), onde eram julgados, de forma muito expedita, os
«crimes sociais» e tinha, sob a sua jurisdição, um conjunto vasto de
«prisões políticas», de onde não era seguro poder sair, mesmo com
autorização dos tribunais.
259

Sabres de Cavalaria

Em 1931, a «assustadora crise de trabalho» colocou Portugal às portas da


revolução social. Por todo o país, e em especial nas zonas de grande
concentração operária, milhares de trabalhadores reúnem-se (ou fazem
greve) para contestar os salários em atraso, a suspensão do trabalho, a
desregulação dos horários e a prisão ou deportação dos seus camaradas
mais activos.

No Porto e em Lisboa, o 1.° de Maio foi comemorado num clima


revolucionário. Na capital, a primeira força da GNR a sair para a rua, no
início da tarde, era forçada a recolher ao quartel, depois de ser incapaz
de dispersar a multidão reunida no Rossio. Terá que reforçar a sua acção
com uma camioneta, equipada de metralhadoras. São arremessadas bombas e
disparados tiros, a partir das janelas, e a ordem só regressará pelo fim
do dia.

No Porto, os populares invadiram o centro da cidade e manifestaram-se


ruidosamente com «Morras à Ditadura» e «Vivas à República». Os ânimos
encontravam-se profundamente exaltados com a morte do estudante Branco,
de Medicina, por uma força mista da polícia e de militares, no dia 28 de
Abril, e que tinha motivado uma gigantesca manifestação na véspera do 1.°
de Maio. Assim, o Governador Civil decidiu entregar o governo da cidade
ao Comando Militar da Região. Na repressão da insurreição distinguiu-se
um jovem tenente de Cavalaria, mais tarde arrependido da sua acção - o
tenente Fernando Queiroga Chaves - que, sobre os acontecimentos de 1931,
nos deixou o seu relato fantasiado (Nota 12).

Na messe dos oficiais do 6 de Cavalaria, o rádio anunciava que uma Junta


Militar tinha formado um novo governo em Lisboa. O major desligou o rádio
e, num toque de clarim, reuniu toda a guarnição para avisar que havia
tumultos na Praça da Liberdade. Milhares de homens e mulheres ignoraram
as ordens da polícia; deviam entrar em acção os sabres e as carabinas de
Cavalaria.

Na Praça, a multidão recebeu a Cavalaria com golpes de paus e pedradas.


Enfurecidos, os militares atiraram as montadas sobre o povo, desfechando
golpes à esquerda e à direita. Centenas de populares formaram uma
barreira intransponível e obrigaram o 6 de Cavalaria a parar. Humilhado,
o general decidiu recuar e ir buscar recursos. Porém, com a sua
autorização, o tenente Queiroga reuniu as forças existentes e, numa
bravata, arremeteu de novo sobre a multidão amotinada.
260

Em formação fechada, os jovens tenentes varreram a Praça da Liberdade em


sucessivos avanços, brandindo os sabres sobre os corpos caídos. Algumas
horas depois, a Praça estava limpa e o tenente Queiroga podia orgulhar-se
do louvor que recebeu e da promessa de promoção que lhe foi feita pelo
seu general.

Contra o comunismo, avançar, avançar

A partir de Maio de 1936, Salazar toma conta da pasta da Guerra que antes
estivera nas mãos dos mi1itares. Com o apoio do subsecretário de Estado,
capitão Santos Costa (Nota 13), procede à redefinição das linhas
estratégicas da defesa nacional, orientadas agora para a protecção
territorial do continente, contra o «perigo espanhol». Está,
definitivamente, aberto o caminho à modernização e reorganização das
Forças Armadas, que o Ditador tinha feito adiar até aquele momento.

Na condução dos militares, Salazar irá promover a aquisição de armamento,


a ida de missões militares aos palcos de guerra com vista à sua
modernização técnica, seguro que estava agora do afastamento dos
militares de tradição republicana liberal, sempre susceptíveis de poderem
enfileirar em contestações ao regime.

A ameaça espanhola de «comunização da Ibéria» - real ou imaginária -,


constituiu a grande causa justificativa da necessidade de definir uma
política mais interventiva na Guerra de Espanha e de proceder à
militarização da sociedade civil, como forma de defesa da subversão
revolucionária da Situação. Pela primeira vez, Salazar aceita a
milicianização do regime, através da criação da Legião Portuguesa e a
militarização da juventude, com a fundação da Mocidade Portuguesa.

Apesar de preconizado por alguns dos elementos mais radicais da direita


nacionalista, a Legião Portuguesa nunca foi um organismo autónomo e
independente do Exército. Na sua origem, foi inspirada por membros da
Cruzada Nun'Álvares, da Liga 28 de Maio e, sobretudo, por ex-nacionais-
sindicalistas que se afastaram do seu dirigente histórico, Rolão Preto.
261

No entanto, a organização nunca pôde desenvolver acções semelhantes às


das suas congéneres europeias, de Espanha, de Itália ou da Alemanha. A
reforma militar de 1937, decretada já pelo novo ministro da Guerra,
acabou por subordinar inteiramente a Legião Portuguesa ao Exército, tanto
no desenrolar das suas acções como no recrutamento e organização dos seus
quadros (Nota 14).

Na verdade, as leis 1960 e 1961, de 1937, que fixaram a nova configuração


das Forças Armadas, confirmavam que os quadros da Legião deviam ser «em
regra, constituídos por oficiais do exército ou da armada, de preferência
na situação de reserva». Em tempo de guerra, a Legião ficaria «submetida
às leis militares» e, em tempos de paz, as forças da Legião Portuguesa
poderiam «ser colocadas na dependência do Ministério da Guerra, para
efeito da manutenção da paz e da ordem públicas, em casos particularmente
graves, ou para tomar parte em exercícios e manobras».

Embora subordinada ao ministro da Educação Nacional, a Mocidade


Portuguesa, criada em Maio de 1936, pretendia igualmente corresponder à
«militarização do quotidiano», preparar a nova «Nação Armada» e fomentar
«o sentimento da ordem, o gosto da disciplina e o culto do dever
militar». No topo da hierarquia tinha, normalmente, um civil; porém, as
actividades paramilitares eram comandadas por um oficial superior do
Exército ou da Armada e, nos lugares intermédios de delegados e
subdelegados, eram também oficiais do Exército os responsáveis. O
enquadramento dos jovens era ainda completado numa Escola de Graduados,
onde os cadetes poderiam obter treino pré-militar com armas de guerra.

Tanto uma como outra (Mocidade e Legião), são organizações que se


entendem numa conjuntura particularmente grave, quando a Europa se
preparava para confrontar a sua tradição liberal com as soluções
autoritárias e fascistas, numa guerra total que começou em Espanha e só
acabou em Estalinegrado. Regimes e oposições (legais ou clandestinas)
prepararam-se activamente para uma luta de vida ou de morte. Em Portugal,
estas organizações nunca estiveram desenquadradas do Exército, que lhe
deu cobertura e inspirou a organização.

É também neste contexto que é possível compreender o papel da Missão


Militar Portuguesa de Observação em Espanha, cujas funções técnicas são
documentadas pela realização de numerosos estudos no terreno - de
armamento e estratégia -, mas de que se não pode, igualmente, ignorar a
componente política.
262

Para além dos relatórios estritamente militares, os membros da Missão


estavam também encarregados de recolher informações de ordem política,
que dirigiam ao chefe do Estado-Maior da Missão Militar Portuguesa,
sedeado em Burgos. O caso da prisão do coronel Fernando de Utra Machado,
um reviralhista exilado desde 1932, é neste caso exemplar. Em 8 de Março
de 1939, o capitão L. do Sacramento Monteiro, da Representação de
Zaragoça, soube da prisão do coronel Utra Machado na Prisão Celular de
Barcelona. Com autorização da «Dirección de Seguridad», visitou-o na
cadeia, interrogou-o, e na companhia do juiz encarregado de formar o
processo, procedeu a «um inquérito sumário sobre a sua atitude e actuação
durante a permanência na zona vermelha». Todas as informações foram
depois utilizadas pela PVDE, quando da prisão de Utra Machado, ao entrar
em Portugal, em Abril de 1939.

A politização das Forças Armadas neste contexto de combate de vida ou de


morte do regime salazarista, permitiu ainda que outras missões de
policiamento lhes fossem atribuídas, quando, normalmente, elas teriam
sido entregues a forças policiais, ou a corpos militarizados, como a GNR.
Refira-se, a título de exemplo, a instalação do Campo de Concentração do
Tarrafal e a guarda dos opositores que aí estiveram detidos entre 1936 e
1954. O campo era guardado por um capitão que agregava a ele a estrutura
intermédia de comando e uma companhia de soldados de origem angolana. O
primeiro chefe do campo foi o capitão Manuel Martins dos Reis, um ex-
conspirador da Intentona nacional-sindicalista de Lisboa, de 10 de
Setembro de 1935 - a conhecida Revolta de Mendes Norton -, que decidiu
colaborar com o regime e, por isso, foi recompensado com o comando das
prisões atlânticas, primeiro Angra do Heroísmo, depois o Tarrafal.

A Segunda Guerra Mundial, que impôs mudanças brutais ao mundo, não


derrubou a Ditadura em Portugal. Porém, os «anos de chumbo» foram também
os anos de importantes «mudanças invisíveis» nas Forças Armadas.
263

Sob os ventos da Guerra

Para justificar as mudanças de azimute que imprimiu ao seu percurso


político-militar depois da Segunda Guerra Mundial, o capitão Queiroga -
que vimos seguindo desde a bravata da Praça da Liberdade até ao combate
anti-salazarista do exílio brasileiro - escrevia numa carta a um amigo:
«Hoje [1947] as circunstâncias são completamente diferentes do que eram
em 1938: a Humanidade marcha para uma mais definitiva afinidade social.»
(Nota 15) Para muitos oficiais das Forças Armadas - inclusive para alguns
dos que tinham ajudado a implantar a Ditadura Militar e o Estado Novo -,
as alterações democráticas decorrentes da Segunda Guerra Mundial
implicariam, igualmente, uma mudança de regime político em Portugal. Essa
sensibilidade à necessidade de mudança tornou-se ainda mais evidente
depois da estadia de muitos oficiais superiores no estrangeiro, no âmbito
da modernização militar que decorreu da integração do país na NATO, em
meados da década de 50.

Mas, na verdade, com o apoio de algumas democracias ocidentais e dos


Estados Unidos, o Portugal de Salazar preparava-se para durar,
constituindo-se como um dos baluartes do anticomunismo no «mundo livre».
Desmantelado o Movimento de Unidade Democrática (MUD) e a via de
transição pacífica e eleitoral preconizada, o golpismo militar voltava a
surgir para a oposição democrática como a alternativa mais expedita para
afastar Salazar e impor uma transição de regime.

Assim, em Junho de 1946, formou-se a Junta Militar de Libertação


Nacional, envolvendo altas patentes do Exército e da Marinha, que
pensavam poder contar com o apoio do velho companheiro de armas, o
presidente Carmona. Aos oficiais descontentes, juntam-se antigos
republicanos conservadores, como o vice-almirante Mendes Cabeçadas e
mesmo alguns civis, de orientação política moderada, como o ex-ministro
João Lopes Soares. Firmam, em Setembro desse ano, o «Pacto de Almada»,
com vista ao derrube de Salazar e à sua substituição por um «governo
provisório» que revogasse a Constituição e o Acto Colonial e preparasse a
transição para a democracia (Nota 16). O movimento termina no falhado
«Golpe da Mealhada» (10 de Outubro de 1946), comandado pelo Capitão
Queiroga Chaves, com diferentes ramificações pelo país.
264

No entanto, o movimento voltou a preparar-se para sair à rua uns meses


depois, em 10 de Abril de 1947. Pelas suas implicações ao mais alto nível
da hierarquia militar comprometida com o regime, evita-se a prisão e o
julgamento de muitos dos conspiradores. No entanto, tal não impede a
demissão e reforma compulsiva de professores das Universidades de Coimbra
e Lisboa e a prisão de alguns militares de alto posto, que foram sujeitos
a julgamento e prisão. Pela segunda vez, o Exército encontrava-se
profundamente dividido entre constitucionalistas e defensores do regime
ditatorial e voltavam a abrir-se fendas profundas numas Forças Armadas
que, na sua esmagadora maioria, tinham sustentado a Ditadura e o Estado
Novo. Não eram já só os militares constitucionais a conspirar, como
acontecera nas duas décadas anteriores. Alguns dos mais indefectíveis
apoiantes, como o capitão Henrique Galvão (Nota 17), tornaram-se inimigos
frontais de Salazar.

Estes movimentos militares conspirativos prosseguiram caminho pelas


décadas seguintes e ganharam uma especial evidência por altura das
eleições presidenciais. Em 1952, foi desmantelado um desses movimentos,
organizado a partir da campanha presidencial do almirante Quintão
Meireles, e onde Henrique Galvão era figura de topo, o mesmo acontecendo
no final desta década e nos primeiros anos da década seguinte.

Missão nacional em África

Na sequência da campanha eleitoral do general Humberto Delgado (1958),


constituiu-se o Movimento Militar Independente, que irá desencadear o
«Golpe da Sé», assim designado por um dos núcleos estar sedeado na Sé de
Lisboa. Mais uma vez a conspiração radicava em sectores colocados ao mais
alto nível das Forças Armadas, alguns próximos do ex-presidente da
República, Craveiro Lopes.

Dois anos depois, a sedição partia das mais altas instâncias militares,
envolvendo o ministro da Defesa, Júlio Botelho Moniz, o ministro e o sub-
secretário do Exército, o chefe do Estado-Maior do Exército e os
comandantes das três Regiões Militares. A «Abrilada» de 1961, tem um
amplo apoio em toda a oficialidade que não acreditava na «solução
militar» para as colónias e pretendia afastar Salazar do poder, mas não
resultou.
265

Desta vez, o antagonismo político entre militares e o governo de Salazar


atingia as mais altas esferas do poder das Forças Armadas e do regime.

No último dia daquele ano de 1961, o derradeiro golpe militar, antes de a


Guerra Colonial se ter imposto como «missão nacional», falhou já no
teatro de operações. O «Golpe de Beja» era comandado pelo capitão Varela
Gomes e apoiado por personalidades e núcleos de exilados, em
correspondência com as Juntas Revolucionárias criadas no país, depois da
campanha de Humberto Delgado.

Com o início da Guerra Colonial, em Março de 1961, inicia-se um longo


processo de consenso forçado em torno da «missão nacional» em África. A
fragilidade dos recursos humanos e materiais absorveu por completo as
chefias militares, mesmo aquelas que em Abril de 1961 se rebelavam contra
a solução de Salazar. A inexistência de uma opinião pública livre
impediu, pelo menos no início, uma forte oposição à guerra. Por isso, a
propaganda, centrada nos efeitos perversos da «congolização» da África e
na «missão civilizadora» dos portugueses acabou por atingir os seus fins.
Só com a «milicianização» das Forças Armadas e os efeitos negativos
acumulados da guerra começou a surgir uma consciência crítica sobre a
situação colonial, pelos finais da década de 60. Até aí, a esmagadora
maioria da oficialidade que prestou serviço nos três palcos de guerra,
aceitou a missão sem grandes reservas políticas.

Em Março de 1961, quando a vaga de terror desencadeada pela UPA de Holden


Roberto se abateu sobre o norte de Angola, a contra-ofensiva militar foi
desencadeada pelo reduzido contingente ainda existente naquela província
ultramarina, em aliança com os colonos desalojados, numa modalidade que
em tudo se assemelhou ao terrorismo daquele movimento africano de
libertação. O Exército português estava longe de compreender ou estar
preparado para uma guerra contra-subversiva, onde a acção social de
captação das populações é o trunfo principal. De resto, ainda há pouco
tempo, as forças militares e de segurança se tinham mostrado incapazes de
conter o descontentamento dos agricultores de algodão da Baixa do
Cassange, tendo optado pela repressão pura e dura, sem poderem
compreender que a África de 1961 já não suportava o estatuto de uma
colónia de exploração, como sempre tinha sido até aí.
266

O mesmo tinha acontecido com o descontentamento do Cais de Pidjiguiti,


dois anos antes, na Guiné, onde a repressão provocou cerca de meia
centena de mortos.

Com o decorrer da guerra, os militares foram percebendo que a guerra


subversiva era invencível com o uso exclusivo de armas. A «solução
Spínola», de captação e integração das populações, experimentada na Guiné
já nos finais da década de 60, teve, pelo menos, o condão de mostrar as
insuficiências históricas da colonização e preparou o general para
aceitar o primado do político na resolução do problema colonial.

Mais tarde, a impaciência do governador Kaúlza de Arriaga conduziu-o aos


maiores desastres da guerra no norte de Moçambique. Não «tinha tempo»
para obter o consentimento das populações, porque a guerra estava a
aproximar-se do fim. Em vez de convencê-las, optou pela «limpeza» pura e
simples das populações e das aldeias insurrectas, de que resultaram
alguns dos piores flagelos de toda a Guerra Colonial (Nota 18).

Quis o tempo e a História que fossem os capitães a redimir o longo


período de conformismo e de imobilismo das Forças Armadas, sujeitas a um
regime autoritário, que ajudou a montar, e que as usou de forma perversa
para garantir a sua própria sustentação.

Pacificação dos nativos «desobedientes»

Em 1953, S. Tomé era uma grande roça europeia. Aos naturais estavam
reservados escassos 7% do território da região nordeste. Para
corresponder aos anseios dos «roceiros», o governador e comandante
militar de S. Tomé, tenente-coronel Carlos de Sousa Gorgulho, permitiu a
intensificação da campanha de «contratação» dos indígenas e permitiu a
importação de dois mil e quinhentos cabo-verdianos. Estas medidas criaram
condições para a contestação dos «contratados», com apoio dos
«civilizados», ou seja, das populações «assimiladas».

Entre 2 e 8 de Fevereiro de 1953, uma enorme contestação deflagrou por


toda a ilha. Em resposta, forças mistas do Exército, da polícia e de
milícias de colonos exerceram uma brutal repressão dos amotinados. Ficou
conhecido como o «massacre de Batepá».
267

Nos seus relatórios dos acontecimentos, o governador mostrava como a


contestação dos indígenas era uma coisa comum: «... quando alguma pessoa
pressiona um pouco mais, com a intenção de pôr [os nativos] a trabalhar,
imediatamente desponta aquele fermento de rebeldia que existe em todo o
forro» (Primeiro Relatório Secreto do Governador ao Ministro do Ultramar,
s.d.).

Para justificar esta insubordinação de Fevereiro, o governador denuncia a


propaganda comunista de Salustino Graça, que teria conduzido os indígenas
a actos de indisciplina e à greve. Assim, logo no dia 2, Sousa Gorgulho
faz publicar um edital por toda a ilha onde tenta demover os
contestatários: «Tendo chegado ao conhecimento do Governo que indivíduos
desafectos à actual situação política, conhecidos como comunistas,
propalam boatos tendenciosos no sentido de que os filhos de S. Tomé irão
ser obrigados a contratar-se como serviçais para trabalhos nas roças, o
Governo esclarece que nenhum filho da terra deve dar crédito a essas
atoardas, antes deve denunciar à polícia tais indivíduos (...). O Governo
apenas vem insistindo, e continuará a fazê-lo, para que todos os filhos
da terra o ajudem a levar a cabo a grande obra de Fomento que o Governo
Central idealizou e que só com a colaboração de todos pode ser feita.
Espera por isso o Governo que a população nativa apta para o trabalho
acorra às obras do Estado mostrando assim o seu repúdio aos boatos que
malevolamente foram lançados. Os responsáveis por tais atoardas estão
sendo vigiados pela Polícia, que lhes lançará a mão em momento oportuno.»
(«Nota Oficiosa», in A Voz de S. Tomé, n.° 95, 5/2/53.)

Às sete da manhã do dia 4, cerca de duzentos homens atacaram o


comissariado de polícia de Vila Trindade, empunhando objectos cortantes.
Os agentes do posto responderam com metralhadoras e granadas, de que
resultaram várias vítimas.

Perante a gravidade da situação, o governador e comandante militar


publicou um segundo edital em que mandava encerrar todos os
estabelecimentos de Vila Trindade, proibia a circulação pública dos
indígenas depois das 21 horas e previa a prisão para quem fosse portador
de catanas ou outras armas do mesmo tipo.

No dia 5, com o auxílio dos soldados angolanos recrutados para a polícia,


dos «contratados» de Angola e Moçambique recrutados como serviçais e o
concurso decisivo dos colonos armados, o tenente-coronel Sousa Gorgulho
constituiu um pequeno exército para se lançar na «caça ao negro».

Destas acções de repressão resultaram baixas em número indeterminado


entre os indígenas no dia 6 e, conforme refere o Relatório do Comando
Militar, «... o resultado do cessar definitivo de toda a resistência
significou um aumento no número de vítimas (...), enquanto nas operações
de limpeza foram arrasadas algumas casas, onde os forros tinham o seu
quartel-general, possuíam armas e alimentos, tendo sido apreendidos
muitos machetes e zagaias abandonadas.
268

Simultaneamente, iniciou-se em toda a ilha a detenção dos nativos que


fossem encontrados armados e em desobediência, o que ocasionou capturas
que excedem o milhar». Para manter o fogo cerrado durante esta semana
sangrenta de S. Tomé, o Comando Militar foi obrigado a requisitar
munições a Angola, que enviou «100 000 cartuchos de escopeta Lee Enfield,
1000 granadas de mão defensivas, 500 granadas de mão ofensivas, 10 000
cartuchos de pistola metralhadora modelo Braço de Prata», além de outros
equipamentos. Eram armas militares, para serem manejadas por soldados com
experiência de actuação nos exércitos coloniais, sob a direcção de um
governador de Província que acumulava a função de comando militar do
território.
CAPÍTULO 11

A LEGIÃO PORTUGUESA

A milícia «em obediência ao governo»

José Lima Costa, comandante de Terço da Legião Portuguesa, no início dos


anos 70, levava já vinte de legionário, servidos «lealmente e sem
condições», como faz questão de lembrar numa carta que dirigiu ao
comandante-geral. Não é que então, ao fim daquele tempo todo, houve quem
o quisesse caluniar a propósito duma dívida por saldar havia anos e que,
para mais, tinha sido contraída a um indivíduo que acabara por ser preso
como burlão?!

Quiseram-no tramar dentro da Legião e o certo é que ninguém da corporação


mexeu uma palha em sua defesa ou teve um gesto que fosse de
solidariedade. Ressentido, lembra «os termos dos louvores que foi
recebendo no curso dos anos e os empenhamentos em que teve de arriscar a
sua reputação e o seu futuro em favor da corporação que serviu e serve».
E vai mais longe enumerando acções em que diligentemente participou na
qualidade de legionário: assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, em
1965, Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade
de Lisboa, Embaixada da Suécia; secretaria da candidatura do General
Humberto Delgado, sedes do CDE e CEUD, nas eleições de 1969; prisão de um
dos organizadores das manifestações do 1.° de Maio de 1962 em Lisboa, de
um grupo de elementos vindos de Madrid para realizar acções armadas no
país.
270

Este Costa tinha perfeita noção de que essas acções eram feitas à margem
da lei e numa situação normal seriam consideradas crime, fosse por
assalto à mão armada, rapto, roubo de documentos, agressões ou provocação
de desordens. Mas era a Legião Portuguesa que as praticava ao serviço do
regime de Salazar, por isso deveriam ser consideradas provas de dedicação
e confiança.

Uma milícia criada por decreto

A Legião Portuguesa foi criada por decreto do governo de 30 de Setembro


de 1936. Aceite o facto assim mesmo, isso acabava por não corresponder
exactamente à vontade e à impetuosidade dos sectores que, à maneira
fascista e imitando os exemplos italiano ou alemão, sustentavam a criação
de uma milícia civil, com cariz paramilitar, armada. Não era, porém, esse
o entendimento de Salazar. Por isso se opôs a um movimento com essas
características, criado a partir de baixo ou de fora dos aparelhos
político institucionais com que quis dotar o Estado Novo.

A forma como se opôs ao Movimento Nacional Sindicalista, a expressão


fascista mais acabada dessa inspiração no exemplo alemão, mas sobretudo a
forma como manobrou no sentido da sua desagregação e da integração de
muitos dos seus dirigentes e quadros, é revelador disso mesmo. O
Movimento Nacional Sindicalista, criado em 1932, por jovens radicais de
direita vindo do integralismo lusitano e da Liga 28 de Maio liderados por
Rolão Preto, depois de um fugaz período de crescimento, que lhe permite
no ano seguinte com os seus 19 000 membros, quase equiparar-se em
aderentes à União Nacional, entra rapidamente em colisão com os
objectivos de Salazar. Desmultiplicando-se em comícios pelo país, das
críticas quer à Constituição quer à União Nacional passa rapidamente à
afronta directa a Salazar que, implacável, decretará em Junho de 1934 a
sua ilegalização e a expulsão para Espanha dos principais dirigentes.

Do seu seio sairá, entretanto, uma cisão pró-salazarista que, mesmo mais
moderada e submetendo-se à vontade do ditador, reclama uma milícia
nacionalista e insiste num sindicalismo corporativo de combate.
271

De vida igualmente efémera servirá de placa giratória para o


enquadramento de um importante sector de nacionais-sindicalistas nos
aparelhos criados pelo Estado Novo, particularmente no aparelho
corporativo, desde o INTP, Instituto Nacional do Trabalho e Previdência,
aos Sindicatos Nacionais.

Ainda assim, em 1935, um grupo relativamente extenso de dirigentes dos


sindicatos corporativos insistirá na ideia de uma milícia para o regime,
propondo as Milícias Armadas Sindicalistas, a que Salazar não atenderá
(Nota 1).

Mas a criação da Legião Portuguesa reportar-se-á à nova conjuntura aberta


com a Guerra Civil de Espanha. Nesse ano de 1936, voltam a erguer-se
vozes reclamando uma milícia, exacerbados que andavam os ânimos com a
situação em Espanha. A vitória da Frente Popular era vista como a vitória
eminente do comunismo e sentida como um garrote que se apertava ao Estado
Novo em Portugal.

A tentativa, por parte dos sectores mais radicais, de reanimar a velha


Cruzada Nacional Nuno Álvares Pereira como uma milícia reflecte esse
ímpeto que a situação em Espanha ajudava decisivamente a radicalizar.

Será, todavia, do comício nacionalista e anticomunista no Campo Pequeno,


em 28 de Agosto de 1936, que sai uma moção, subscrita por vinte mil
assinaturas, formalmente entregue a Salazar duas semanas depois,
propondo-lhe justamente a criação de uma milícia - a Legião Portuguesa -
que, desta vez, sim, será reconhecida e aceite em Conselho de Ministros
logo no dia seguinte como «organização patriótica de voluntários
destinada a organizar a resistência moral e social da Nação contra os
inimigos da Pátria e da Ordem» (Nota 2), como, presunçoso, noticiaria o
Diário da Manhã.

O comício anticomunista de Agosto de 1936

Com a vitória da Frente Popular em Espanha, cresciam os temores e


exaltavam-se os ânimos nos meios conservadores e fascistas em Portugal. O
Diário da Manhã, na dianteira, sustenta, contra o «perigo vermelho» que
soprava do lado de lá da fronteira, a ideia de um corpo de voluntários de
feição nacionalista e anticomunista que sustivesse os efeitos de
contaminação em território nacional.
272

Congregavam-se os organismos do regime onde era mais densa a presença dos


fascistas portugueses - o Diário da Manhã, evidentemente; o Rádio Clube
Português dos irmãos Botelho Moniz que se destacava no apoio às forças
nacionalistas insurrectas; o Instituto Nacional de Trabalho e Previdência
e os Sindicatos Nacionais; a decadente, mas viva Liga 28 de Maio; a
recém-fundada Mocidade Portuguesa.

Vai ganhando corpo e recebendo apoios a ideia de um grande comício


anticomunista. Salazar está a par do que se passa e deixa a ideia
avançar. Sabe que a última palavra será sua. É o reflexo da conjuntura
incendiária que se vive pela Primavera-Verão de 1936. Era como que se de
uma Frente Nacional Anti-Comunista se tratasse. É aliás assim mesmo que,
ao longo de vários dias o Diário da Manhã vai dando conta da iniciativa.

Sem data nem local ainda escolhidos, a Comissão Executiva da União


Nacional acerta o passo «considerando da maior oportunidade a grande
manifestação anti-comunista promovida pelos trabalhadores portugueses,
por intermédio dos Sindicatos Nacionais do distrito de Lisboa decidiu
aplaudir e apoiar essa iniciativa». Estavam identificados os
organizadores e os vários apoiantes, configurando esse desejo de frente
sobre o cimento do anticomunismo.

A Praça de Touros do Campo Pequeno é o espaço escolhido para o comício. A


fim de garantir a lotação do recinto são distribuídos bilhetes pelos
organismos corporativos e pelas organizações apoiantes.

A uma semana do comício o Diário da Manhã anuncia que os bilhetes


previamente distribuídos já são em número superior à capacidade da praça
de touros e promete «luz a jorros e com milhares de estandartes e
bandeiras», ao mesmo tempo que se noticia a retransmissão radiofónica dos
discursos pela Emissora Nacional e pelo Rádio Clube Português.

A data do comício é definitivamente fixada para 28 de Agosto de 1936, uma


sexta-feira, à noite. O comício é apresentado como resultado da
«necessidade sentida pelas forças nacionais-corporativas portuguesas de
formarem uma Frente Nacional Anti-Comunista que seja, por sua vez, o
prolongamento em Portugal daquela parte internacional da ordem cuja
constituição as circunstâncias impõem».
273

O comício será um espectáculo político minuciosamente preparado. É


estabelecida a distribuição dos sectores - o 1 e o 7 para os Sindicatos
Nacionais de Lisboa, o 2 e o 3 para os de Setúbal, Barreiro, Porto e
Braga, o 6 para a Mocidade Portuguesa, a arena para a União Nacional e a
Liga 28 de Maio. No sector 1, a primeira fila estava reservada às
delegações das organizações fascistas alemã, italiana e espanhola. Nos
camarotes centrais ficavam as entidades oficiais e a zona onde se
profeririam os discursos.

A decoração dos camarotes e de todo o espaço fora cuidadosamente


prevista. A locução orientada para suscitar um entusiasmo permanente e um
espírito galvanizador. No exterior foi previsto um espaço vedado com
altifalantes para que aqueles que não coubessem na praça pudessem ouvir
os discursos.

A chegada dos sindicatos nacionais e das organizações apoiantes mereceu


uma atenção particular e uma planificação detalhadíssima. Os Sindicatos
corporativos de Lisboa convocaram os seus associados para se concentrarem
no Terreiro do Paço, do mesmo modo que a Mocidade Portuguesa, para
receberem as delegações do sul e do norte e darem corpo a uma grande
manifestação que viria a percorrer todo o longo trajecto até ao Campo
Pequeno.

O pormenor ia ao ponto de se definirem locais de paragem - o Monumento


aos Mortos da Grande Guerra, por exemplo, onde os manifestantes deveriam
fazer a saudação romana, isto é, a saudação fascista.

A entrada do cortejo no Campo Pequeno tornava-se assim como um primeiro


clímax, tão arrebatador quanto possível, numa manifestação perfeitamente
encenada e em que os participantes eram tomados como peças de um grande
dispositivo propagandístico.

Os representantes do Fascio italiano entram também em grupo no recinto


fazendo a saudação romana, de modo a suscitar igual resposta, igual
atitude por parte dos que aí já se encontravam.

A imprensa do regime fala de um recinto «literalmente cheio» com mais de


20 mil pessoas. Tudo estava efectivamente preparado para que assim fosse.

Finalmente os discursos. Muitos, dez ao todo, de importância diferente,


evidentemente, mas com lugar à palavra para os representantes dos
Sindicatos Nacionais de Lisboa, Setúbal, Porto e Covilhã.
274

O de Setúbal, por exemplo, trajando a rigor, assentaria o seu discurso a


partir desse facto:

«Nós, os Camisas de Ganga, gritamos: o Estado Novo deve expurgar de vez


esses renegados portugueses e para tanto pode contar inteiramente
connosco, os camisas de Ganga, que estamos dispostos, se para tanto
recebermos ordens daqueles a quem devemos obediência, a esmagar com a
nossa força disciplinada toda essa cáfila de bandoleiros, de portugueses
a soldo dos Camisas Vermelhas.»

Usariam da palavra ainda os representantes do INTP e da Mocidade


Portuguesa, da Federação dos Viticultores do Centro e Sul, do Exército.
Mas o discurso mais importante seria o do Capitão Jorge Botelho Moniz:

«Nós, nacionalistas, somos legião e somos portugueses. Constituamos a


Legião Portuguesa, a legião onde só entram "portugueses" (...)
disciplinados, dignos e honrados, que aceitem como lema "Pela família,
Pela Pátria, Pela Civilização Lusitana."

«Será uma legião de nacionalistas: portanto combaterá o comunismo e todos


os demais inimigos do progresso nacional...»

A Botelho Moniz caberá, finalmente, a leitura da moção que formalmente


defende a criação da Legião. Uma ideia que seria finalmente aceite por
Salazar.

No fim de Setembro a Legião Portuguesa será então formalmente criada, por


decreto. Era o Decreto-Lei n.° 27 058, de 30 de Setembro de 1936, que
promulgava a decisão do governo. Desta forma, Salazar absorveria e
enquadraria a reiterada proposta, secando-lhe o carácter «civil» e
enquadrando-a juridicamente na tutela do governo. O espírito miliciano
que estivera na raiz da ideia, por sugestão dos fascismos emergentes, era
submetido à tutela estatista do ditador, embotando-se-lhe desta forma um
maior extremar de acções.

Como se declarava no preâmbulo do próprio Decreto-Lei, a subordinação ao


governo era inflexível, total e directa «para que não se corrompa nem se
desvie dos seus fins».

Gorava-se desta forma a tentativa de fazer da Legião uma milícia civil,


copiada a papel químico das suas congéneres italiana e alemã. Ficava, no
entanto visível, a traços suficientemente carregados, a inspiração
fascista e a adequação às características do regime português.

Salazar, sempre desconfiado em relação aos movimentos cujo controlo lhe


pudesse escapar, deixava os animadores da ideia com pouco espaço de
manobra que não passasse pelo regozijo público com a criação da Legião
Portuguesa.
275

O Ministério do Interior e o Ministério da Guerra passavam a tutelar o


novo organismo, onde ingressariam muitos dos nacionais-sindicalistas
dissidentes de Rolão Preto, designadamente aqueles junto de quem Salazar
manobrara para desfazer o Movimento Nacional Sindicalista três anos
antes.

A Junta Central, de nomeação governamental, a quem competia a direcção


política e administrativa da organização, começou por ser presidida por
João Pinto da Costa Leite (Lumbrales), na altura secretário de estado das
Finanças e que se vinha afirmando como um dos mais promissores quadros do
Estado Novo. Costa Leite havia sido aluno de Salazar em Coimbra,
integrara a Liga 28 de Maio, pertencera ao Grande Conselho do Movimento
Nacional Sindicalista e fora um dos mais importantes apoios de Salazar na
manobra cisionista de 1933.

Porém, tudo o que se relacionasse com aspectos militares estava entregue


a um comandante-geral, que deveria ser um militar graduado, cuja nomeação
dependia do Ministério da Guerra, pasta governativa que, naquela
conjuntura, Salazar abraçara em Maio de 1936. O primeiro comandante-geral
foi o coronel João Nepomuceno Namorado de Aguiar, que fora ministro da
Guerra já em Ditadura Militar e que era ao tempo comandante da PSP no
Porto.

Na constituição destes órgãos, Salazar procurou um equilíbrio construído


através da participação de gente oriunda ou com ligações fortes aos
aparelhos e sectores que convergiam na nova organização - a União
Nacional, a Mocidade Portuguesa, o Exército, o que restava da Liga 28 de
Maio, o INTP...

«A Legião, filha adoptiva do Exército»

Do ponto de vista orgânico, a Legião Portuguesa adoptava uma direcção


bicéfala - Junta Central e Comando Geral - ainda que o comandante
integrasse a Junta. Este seria uma das suas principais especificidades e
daqui resultaria um primeiro ponto de fricção interna, gerando tensões
logo nos seus primeiros tempos de vida.
276

Em torno da interpretação das competências de cada um desses órgãos


acabariam rapidamente por confrontar-se duas concepções de milícia, fosse
a que veiculavam os sectores mais excitados que haviam pressionado a sua
criação, fosse a que se acolhia à vontade e ao entendimento de Salazar.

Tinha força a corrente que continuava a querer ver na Legião Portuguesa


uma organização autónoma, radical, com fortes componentes milicianas.
Assim pensava inclusivamente o seu comandante-geral, Namorado de Aguiar.
No fundo uma milícia que continuaria a ter nas suas congéneres italiana e
alemã, os modelos que a tornariam «tal qual as fascistas».

Todavia, a Assembleia Nacional, ao legislar sobre a organização do


Exército, trataria das questões substanciais que estavam no centro da
disputa sobre o que deveria ser a Legião Portuguesa e, dessa forma,
encerraria a polémica. Nada de chefias militares próprias, independentes,
com mecanismos de recrutamento e de remuneração específicos, nada de
feições excessivamente militaristas, de arroubos mobilizadores
desmedidos, nada de crescimento que ao fim e ao cabo pudesse criar um
corpo autónomo, uma força de pressão exagerada, um foco de problemas em
potência, desequilibrando compromissos e relações de força desenhados sob
a égide e a tutela do ditador.

Por isso, a Assembleia Nacional, a que não era alheia a mão de Salazar,
não hesita em subordinar a Legião, no que toca às questões militares, ao
Ministério da Guerra e ao Exército. Como diria Tose Alberto dos Reis,
presidente da AN, «a Legião aparece assim, rigorosa e exactamente como
filha adoptiva do Exército» (Nota 3). Nem que isso implicasse, como
implicou, não só alterações na composição dos órgãos dirigentes, como
também nos corpos mais propensos ao milicianismo, nas estruturas
distritais e até nas concelhias. Tratou-se de uma verdadeira purga, que
consumiu justamente os sectores mais arrebatados que a haviam fundado -
ex-nacionais sindicalistas e monárquicos, principalmente, agora
devidamente neutralizados e... afastados.

Pelo caminho tratou-se de pôr fim a uma infiltração comunista,


aconselhada aliás na imprensa clandestina do PCP, que tanto deveria
preocupar os dirigentes e o próprio Salazar, embora a sua dimensão não
devesse ser relevante.

A partir daí, não fora sequer necessário mexer propriamente na estrutura


orgânica da Legião, mas tão-só no seu quadro de dirigentes. A principal
substituição foi a do comandante geral.
277

A Namorado Aguiar sucederia Casimiro Teles, um general que comandara a


Escola Prática de Infantaria. Em consequência viriam novas substituições
que mexeram quer com os adjuntos militares do comandante quer com a
própria Junta Central, mesmo que Costa Leite se mantivesse como
presidente. Em cadeia viriam a seguir os comandantes distritais.

Este foi, afinal, entre finais de 1937 e meados de 1938, o preço da


«normalização» tal como a entendia Salazar desde início.

Infiltração comunista na Legião Portuguesa?

Num relatório que dois dirigentes do Partido Comunista Português enviam


para Moscovo, em Setembro de 1938, referem a determinada altura que «uma
pessoa que está sob a nossa influência colabora na revista teórica da
Legião Portuguesa».

Confirmavam assim dois dos principais responsáveis comunistas a presença


a um nível elevado e restrito da Legião Portuguesa se não de militantes,
pelo menos de gente que era directamente influenciável e de quem poderiam
- não é exagerado depreender-se - receber informações.

Por esses anos de 1937 e 1938 nas páginas do Avante!, da imprensa


clandestina do PCP repetiam-se artigos aconselhando à infiltração na
Legião Portuguesa, de modo a minar a organização, enfraquecê-la, provocar
dissídios internos, desagregá-la.

Como dizia um dos números do órgão central do Partido Comunista, «os


antifascistas conscientes não devem hesitar em aderir à Legião, desde que
o façam com o fito de se porem em contacto com os trabalhadores e
legionários honestos que aí se encontrem para neutralizar a influência
que o fascismo exerce sobre eles, para enfraquecerem a disciplina interna
da Legião, para tornar ineficaz a acção da Legião Portuguesa e,
finalmente, para informar as organizações antifascistas dos manejos e dos
projectos desta seita criminosa».

Tratava-se da aplicação da directiva do VII Congresso da Internacional


Comunista que preconizava as Frentes Populares e, para isso, estabelecia
a necessidade de disputar a influência das massas populares onde elas
estivessem, mesmo nas organizações fascistas.

Era, em Portugal, o caso da Legião e da Mocidade Portuguesa. Nunca foi


fácil implementar esta directiva.
278

A resistência dos militantes comunistas de base era muito forte. Educados


numa tradição política de confronto aberto, em muitos casos eivada de
sectarismo, como se poderiam dispor a trabalhar junto de quem desenvolvia
uma política ferozmente anticomunista, que não hesitava em denunciar
militantes, activistas, mesmo simples trabalhadores, sempre que
suspeitassem das suas antipatias para com o regime?

Há notícias aqui e ali de indivíduos suspeitos pela sua condição de


legionários. É normalmente a polícia que actua na quadrícula do
território, seja a PSP nas cidades ou a GNR nas vilas e aldeias, que
relata estas situações, como teria acontecido em Viseu, em Bragança ou no
Bombarral. Mas mesmo que isso pudesse ter acontecido num caso ou noutro,
a extensão da infiltração dificilmente poderia ser grande. Todavia, sendo
conhecida, sempre teria de provocar receios e cautelas na própria
estrutura da organização.

A Junta Central tem Salazar ao corrente desta situação que constitui,


aliás, objecto de vigilância e investigação por parte dos próprios
Serviços de Informação da Legião.

Quando se tratou de proceder à normalização com o afastamento dos


dirigentes, quadros intermédios e legionários mais exaltados e defensores
de uma LP mais autónoma, mais miliciana e mais radical, entre finais de
1937 e inícios de 1938, os suspeitos de infiltração comunista foram
corridos. Em carta a Salazar, Costa Leite, o presidente da Junta Central,
dá conta da limpeza efectuada e referindo-se em particular a esses
indivíduos reconhecerá que não são tantos «como se falou».

Mas já o contrário, isto é, a infiltração de legionários nas fileiras das


oposições, e designadamente no PCP, prosseguirá, também com efeitos
limitados, mas na lógica da sua própria existência e dos seus próprios
objectivos - coadjuvar o governo na detecção e repressão dos opositores
ao regime.

Vigilância e denúncia anticomunista

O carácter nacional da organização fizera-a assentar desde início numa


estrutura de âmbito distrital, colocando, por nomeação da Junta Central,
à frente de cada distrito um comandante, necessariamente militar, oficial
do Exército ou da Armada.

Por sua vez, a base organizativa em cada distrito era o agrupamento de


cada cinco legionários numa quina; duas ou três quinas compunham uma
secção; três secções formavam uma lança; quatro ou cinco lanças, um
terço; três terços, um batalhão.
279

Num distrito podiam assim existir vários batalhões em função da


implantação e do número de legionários existentes.

Paralelamente, mas perfeitamente integrados na estrutura orgânica,


existiam corpos especiais, directamente dependentes do comandante-geral.
A Brigada Naval foi, pelo número de legionários aderentes, porventura o
mais importante desses corpos no arranque na nova organização, tendo sido
constituída ainda em 1936 por sócios dos clubes náuticos existentes como
por marítimos dos Sindicatos Nacionais ligados ao mar. Logo nas primeiras
semanas da sua existência já reunia quatrocentos legionários.

Era na prática um Batalhão de Marinheiros ou secção naval, comandado por


um oficial da Armada - Henrique Tenreiro - que ascenderia à segunda Junta
Central logo no ano seguinte.

Na mesma altura foi também criada a Força Automóvel de Choque, com um


batalhão em Lisboa e com diferentes estruturas a nível distrital
compostas por legionários que possuíam carta de condução.

Nestes tempos de arranque da LP, a Junta Central e o Comando Geral


decidiriam constituir um Serviço de Informações, cujo objectivo
fundamental era proceder a uma vigilância sistemática e obstinada a todos
os elementos desafectos ao regime. Eram os serviços secretos da Legião
Portuguesa.

Este serviço revelar-se-ia de uma importância fundamental. As directivas


que tinha do Comando Geral precisavam as formas e os objectivos concretos
da sua actuação. Em primeiro lugar, deviam verificar a nível local, fosse
nos municípios, nos tribunais ou nas repartições públicas, mesmo no
exército ou nas forças policiais, se havia elementos desafectos ao
regime, quem eram, que influências tinham, o que diziam, com quem se
relacionavam. Tinham em vista os comunistas, os republicanos
conspiradores, os antifascistas em geral.

Depois deveriam estar atentos a quaisquer manifestações contrárias ao


governo nos sítios de maior concentração de pessoas, fossem mercados e
feiras, tabernas e cafés ou os largos das aldeias, das vilas, das
cidades. Do mesmo modo em relação às instalações e empresas onde pudessem
existir explosivos, de modo a vigiar qualquer eventual roubo ou cedência
desses materiais que pudessem ser utilizados em atentados bombistas.
280

<Informação da Legião sobre a Oposição, em Aljustrel. (ANTT/Ministério do


Interior/maço 519 - pasta 77): omitida>
281

As orientações eram detalhadas, pormenorizadas a tal ponto que até


chegavam a determinar vigilância sobre columbófilos, para vigiar a
possibilidade de utilização dos pombos no estabelecimento de comunicações
entre grupos oposicionistas.

Este serviço produziu uma enorme quantidade de informações, muitas delas


sem qualquer fundamento ou sem qualquer expressão ou correspondência real
sobre indivíduos indicados como opositores ao regime, fosse nas fábricas
e empresas, como nas ruas e aldeias. Eram denúncias, frequentemente
abjectas, que devassavam a vida dos indivíduos, as suas relações de
amizade, diabolizavam as suas ideias, exagerando-as em boa parte dos
casos.

Uma determinada informação recolhida ou produzida por um legionário no


seu local de residência ou de trabalho era transmitida ao oficial mais
próximo, que podia ser um comandante de terço, por exemplo; o qual, por
sua vez, a remetia para o oficial de informações agregado ao comando
distrital respectivo, de onde era canalizado para o comando central.

Todas as informações eram sistematizadas pelo serviço de informações do


comando central e arquivadas em processo próprio, juntando-se a outros
dados entretanto recolhidos sobre o mesmo assunto ou sobre o mesmo
indivíduo. No entanto, em função da sua importância, podia implicar uma
comunicação à Junta Central e daí canalizada para o Ministério do
Interior ou directamente para a polícia política, a PVDE.

1947 - Informações de Legionários sobre as greves de Lisboa

Cdo. 340/47. AG 5370. de 17 de Junho de 1947

Consta que:

Na estação da Carris, de Santo Amaro, continuam a fazer-se subscrições a


favor dos operários grevistas que se encontram sem trabalho.

Quem recebe os donativos é o conductor n.° 45, JOSÉ ARCAS, no que é


ajudado pelo seu colega n.° 49, de apelido CABRITA.

Nas primeiras subscrições conseguiram angariar 2800$00 que foram


entregues à Comissão dos Estaleiros Navais.

Cdo. 345/47. AG 3370. de 18 de Junho de 1947 Consta que:


282

JOSÉ SOARES, «O Malatesta», elemento que organizou a paralização dos


estivadores, encontra-se em Torres Vedras, ou próximo

Cdo. 366/47. AG 3370. de 27 de Junho de 1947

Consta que:

JOÃO DA SILVA MANATA, que era operário chefe nas oficinas da Companhia
Nacional de Navegação, e que se encontra preso, era um dos principais
distribuidores de manifestos clandestinos dentro daquelas oficinas, sendo
também um dos elementos que mais propaganda fez entre o operariado para
que aderissem ao movimento grevista.

Cdo. 367/47. AG 3370, de 27 de Junho de 1947

Consta que:

Tem sido visto nas imediações do Conde Barão, o ex-operário-chefe da


Companhia Nacional de Navegação, que consta ser procurado pela Polícia.

(...) Quando da preparação do movimento grevista costumava fazer


prelecções aos colegas, incitando-os a aderirem.

Cdo. 370/47. AG 2213. de 30 de Junho de 1947

Consta que:

Quem faz a distribuição do Avante, no meio dos estivadores são os


seguintes elementos:

ZÉ CARAMBOLA e CHINA.

O presidente do Sindicato recebeu de um deles o último número daquele


jornal.

Cdo. 308/47. AG 3370. de 23 de Maio de 1947

Consta que:

Foram novamente admitidos ao trabalho, na SOCIEDADE GERAL, o ajudante de


serralheiro, de nome SALVADOR, o JOSÉ JOÃO RODRIGUES, morador na Rua
Marquez de Pombal, n.° 4, Barreiro, os quais foram dos principais
fomentadores da última greve.

Cdo. 276/47. AG 3379. de 9 de Maio de 1947

Consta que:

Nas oficinas da Companhia da Carris, em Santo Amaro, todas as semanas se


fazem quetes entre os operários para garantir a féria aos grevistas das
Construções Navais.
283

Cdo. 277/47. AG 3370. de 9 de Maio de 1947

Consta que:

Foi readmitido ao serviço nos Estaleiros Navais da CUF, o «Manecas dos


Engenhos», um dos principais agitadores do operariado daquela Empreza.

Também anda a tratar da sua readmissão o ajudante de traçador ALBERTO


RODRIGUES DE ALMEIDA, que esteve preso e foi posto em liberdade.

Cdo. 278/47. AG 3370. de 9 de Maio de 1947

Consta que:

Têm ido para os Estaleiros Navais de Viana do Castelo muitos dos


operários grevistas que não foram readmitidos.

Esteve ou ainda está em Lisboa o Engenheiro Américo Rodrigues, que


pertence àquele estaleiro, o qual tem contactado muitos daqueles
operários.

Este engenheiro esteve em tempos nos Estaleiros da CUF.

Cdo. 279/47. AG 3370. de 9 de Maio de 1947

Consta que:

A Comissão Distrital do MUD, no Porto, enviou há dias à Comissão Central


da mesma organização, em Lisboa, a quantia de 24000$00, para distribuir
pelos operários grevistas.

Cdo.280/47. AG 3370. de 9 de Maio de 1947 Consta que

JOAQUIM D'ALMEIDA MESQUITA faz intensa propaganda como contínuo da CNN e


continua a trabalhar.

Cdo. 381/47. AG 3370. de 9 de Maio de 1947 Consta que:

Muitos dos elementos grevistas estão sendo subsidiados pela Legação da


Jugoslávia.

Cdo. 247/47. AG 3370. de 8 de Maio de 1947

Consta que:

Entre o pessoal das Construções navais continua a notar-se


descontentamento e a fervilhar a ideia de manter a produção reduzida, se
não a de irem para a greve.

Esta ideia é ajudada pela propaganda daqueles que não foram readmitidos e
que mantêm ligações com os que retomaram o trabalho.
284

No dia 5, foi distribuído entre o pessoal da Sociedade Argibay, um


manifesto, onde era transcrito um documento enviado aos jornais, sendo
assinado por uma «Comissão Central» com data de Abril (...).

Cdo. 275/47. AG 3370. de 8.5.47

Consta que:

No Poço do Bispo, apareceram espalhados alguns manifestos, intitulados


«Lucta até à Victória da Comissão de Unidade dos Trabalhadores em Greve.»

IAN/TT, Arquivo do Gabinete do Ministro do Interior

Maço 550

Instrumento repressivo até ao fim do regime

Nos primeiros meses da sua existência, a Legião Portuguesa cresceu


bastante. O Diário da Manhã apelou directamente à inscrição que podia
inclusivamente ser feita nas sedes da União Nacional, da Liga 28 de Maio,
da FNAT - Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, nos Sindicatos
Nacionais ou nas Casas do Povo. Em Março de 1937, seis meses depois do
decreto de criação, existiriam em todo o país trinta e oito mil
legionários. No final de Agosto andariam pelos cinquenta mil, mas com
tendência a estabilizar pelos meses seguintes.

Em 1939 seriam cinquenta e três mil, principalmente concentrados em


Lisboa, onde existiam trinta e cinco núcleos. Apesar de o regulamento de
1938 proibir a obrigatoriedade das inscrições dos funcionários públicos
na Legião, na realidade essa imposição estava implícita na prática. A
inscrição seria aliás sempre vista como condição facilitadora para
arranjar emprego, assegurar a promoção ou acautelar o despedimento.

A regulamentação por parte do governo era de tal ordem que o próprio


uniforme seria aprovado por decreto-lei - camisa colonial com a cruz de
Cristo ao peito, do lado esquerdo, calças com ou sem polaina, bivaque.

Durante a Segunda Guerra Mundial a organização sofreu transformações de


algum significado, embora a tendência tivesse sido para uma diminuição
gradual e progressiva do número de filiados, como se o entusiasmo inicial
se fosse dissipando.
285

No entanto, nunca, até Abril de 1974, quando foi extinta, abandonou


completamente as funções de vigilância e de intimidação.

Durante a guerra, a Legião, contrariando a postura oficial de


neutralidade perante o conflito, adoptara publicamente posições germa-
nófilas. Em 1941, Costa Leite assina uma ordem de serviço elogiando o
combate anticomunista da Alemanha, ao mesmo tempo que a organização
desenvolve uma intensa propaganda pró-nazi (Nota 4).

No entanto, Salazar, a partir do momento em que percebeu que o curso do


conflito se havia invertido e que a vitória do bloco nazi-fascista era
cada vez menos provável, tratou de anular e contrariar tais posições.

Foi, por isso, que aceitou em 1942, em plena conjuntura de guerra


mundial, a criação do serviço especial de Defesa Civil do Território,
cuja preparação vinha dos anos anteriores, abrangendo as chefias
intermédias, mas sempre na dependência do Exército. Não se tratava
propriamente de um serviço de combate, mas, mais uma vez,
fundamentalmente de vigilância, em particular sobre os estrangeiros
residentes ou em trânsito que pudessem desenvolver actividades de
espionagem. No papel desenhavam-se, evidentemente, outras funções
relacionadas com a mobilização nacional e com a manutenção das
actividades produtivas ou a protecção dos recursos e sectores
estratégicos nacionais em caso de cenário de guerra, incluindo a
protecção às populações.

Nesta conjuntura a acção da Legião tornar-se-ia particularmente notada,


principalmente na repressão do ciclo de movimentações grevistas de 1942,
43 e 44.

Ao longo do tempo algumas estruturas foram mudando de designação,


aparecendo e reaparecendo em função das necessidades do momento, mas sem
perder de vista os objectivos da organização.

A Força Automóvel de Choque, por exemplo, viria a desempenhar ao longo da


ditadura funções de vigilância sobre as manifestações, equipando os
carros com aparelhos de comunicação, de modo a que o comando pudesse
estar permanentemente informado dessas acções de rua das oposições. Essas
viaturas estavam preparadas para comunicar com uma outra estacionada no
pátio do quartel-general da LP, podendo mais facilmente accionar a
intervenção, fosse das brigadas de choque ou, sobretudo, das forças
policiais repressivas.
286

O legionário Casal Ribeiro, administrador da Cidla, cedia carros da


empresa para esse efeito, e quando se deu a tentativa de golpe das
Caldas, carros da brigada seguiram a coluna de militares revoltosos,
informando da evolução dos acontecimentos.

A intervenção directa dos legionários estava a cargo, já nos anos 60, dos
Gil, Grupos de Intervenção Imediata, formados por antigos combatentes das
forças especiais do exército colonial

Ainda em 1973, na campanha eleitoral, eram os GII que percorriam as ruas


de Lisboa procurando detectar e agredir os grupos que faziam propaganda
da oposição, colando cartazes e pinchando as paredes.

Também por esta altura, com a intensificação da agitação estudantil e a


proliferação de grupos radicais de esquerda nos meios universitários, a
Legião passou a dedicar-lhes uma atenção acrescida e uma acção
acrescidas.

Algumas dezenas de panfletos apreendidos - o relatório de um legionário

«Terço Universitário de Lisboa, n.° 1

Relatório do Cadete Carlos Henriques da Silva Jourdan, n.° 118679

Depois de abandonar o Quartel General da Legião Portuguesa, onde assistiu


a uma reunião com o Comandante do terço Universitário de Lisboa, Ferreira
de Passos, dirigiu-se a casa tomando o autocarro n.° 32, cerca das 18
horas.

Perto do Arco do Cego entraram três estudantes que, perto da Feira do


Livro, vendo o aparato policial que se traduzia, afinal, na presença de
Guardas da Polícia de Segurança Pública, a dois e dois, comentaram
«parecem manos que estão com medo que lhes roubem os livros».

Alertado pelo palavreado verificou que traziam pastas com emblemas do


Instituto Superior Técnico, notando ainda que tinham espalhado pelos
bancos do piso superior do autocarro, panfletos idênticos ao que junta a
este relatório mas apreendeu e entregou à PSP posteriormente.
287

As estudantes referidas supra, saíram nos Restauradores. Verificou o


cadete que se tratava de propaganda subversiva que justificava acção
imediata.

Descendo, também, do autocarro e seguindo-as pediu a intervenção do


agente da PSP que se encontrava «ao pé do correio» (e que já foi indicado
ao Estado Maior daquele organismo), pedindo-lhe a colaboração que lhe foi
negada, apesar da identificação por cartão branco da Legião Portuguesa.

Face à negativa (sob pretexto que «era necessário ir à esquadra pedir ao


capitão), o cadete agradeceu ironicamente e chamou-lhe «nabo».

Continuando a perseguição até à Igreja de São Domingos dirigiu-se a um


outro carro da PSP conseguindo que o chefe lhe cedesse dois guardas que o
seguiram até outro carro da mesma corporação onde um chefe deteve as três
raparigas.

O chefe de esquadra da Mouraria apreendeu algumas dezenas de panfletos


que foram entregues às autoridades competentes (DGS e PSP).

Transportadas as detidas para o Governo Civil realizou-se a conversa


telefónica que V. Exa. conhece.

Respeitosamente subscreve o cadete Carlos Henrique da Silva Jourdan

A Bem da Nação

Lisboa, 18 de Maio de 1970»

In Josué da Silva,

Legião Portuguesa, força repressiva do fascismo

Lisboa, Diabril, 1975, p. 69

Durante anos a fio, a Legião Portuguesa manteve ainda um importante


serviço de escutas, estando encarregada de gravar e transcrever as
emissões de rádio transmitidas de vários países para Portugal, como era o
caso de Rádio Moscovo, da Rádio Portugal Livre e da Rádio Voz da
Liberdade, transmitidas a partir de Bucareste e Argel, respectivamente.

Porém, a tendência de evolução aponta no sentido de um progressivo


esvaziamento do carácter miliciano e autónomo, com a substituição ou
domesticação dos sectores que haviam impulsionado a sua criação. A saída
de Costa Leite de presidente da Junta Central em 1944 vem de algum modo
assinalar esse processo.
288

A Legião Portuguesa vai tornar-se até ao fim do regime num instrumento,


progressivamente mais fraco, mas um instrumento ao serviço das forças
repressivas, designadamente o Exército e os aparelhos policiais - PSP,
GNR e a própria PIDE. O papel desempenhado pelo Serviço de Informações,
pelo Serviço de Escutas, pela Força Automóvel de Choque ou pelo Grupo de
Intervenção Imediata vai precisamente nesse sentido.
CAPÍTULO 12

MOCIDADE PORTUGUESA

E A FORMAÇÃO DE UMA

NOVA MENTALIDADE

«Os rapazes ao sol! As raparigas mais na sombra»

Em 28 de Maio de 1938, rapazes e raparigas com as fardas da MP e MPF


desfilaram, pela primeira vez, em Lisboa. A presença de raparigas num
desfile motivou, porém, polémica no seio do regime onde alguns temeram a
«militarização» e «masculinização» das jovens. Para sossegá-los, um
artigo, publicado, no Boletim da MPF assegurou que, «naquela tarde cada
um estava no seu posto: os rapazes marchando ao som das cornetas e dos
tambores e as raparigas seguindo com os olhos e o coração a bandeira que
os guia - e as guia também a elas! Os rapazes ao sol! As raparigas mais
na sombra» (Nota 1).

E, para que não restassem dúvidas, Maria Guardiola, comissária nacional


da MPF, esclareceu ainda nesse ano que a necessidade de ministrar às
filiadas «uma intensiva preparação de aspecto exterior» não correspondia
«a quaisquer intuitos de militarização presente ou futura no sentido
másculo da palavra» (Nota 2). O assunto foi considerado de tal
importância, que no livro oficial da organização, ficou assinalado que a
MPF não era «uma milícia feminina com aspirações masculinas», mas, sim,
«uma organização de raparigas que não deixam de ser raparigas» (Nota 3).

Em seguida, ficava claramente exposto o tipo de educação que se pretendia


ministrar a cada uma das organizações - masculina e feminina - da
juventude.
290

Ou seja, enquanto a MP adestraria, «na sua instrução pré-militar


defensores para a Pátria» e prepararia «com a sua educação política e
social colaboradores activos dos homens do Estado», a MPF habilitar-se-ia
«para prestar a sua colaboração dentro do lar, da família que o seu amor,
o seu trabalho e o seu espírito cristão tornarão a base sólida do Estado
Novo» (Nota 4).

A organização dos jovens no início do listado Novo

O propósito de enquadrar estatalmente a juventude havia já surgido, anos


antes, no seio do novo regime nascido com o golpe militar de 28 de Maio
de 1926, quando, em 1931, o ministro da Instrução Pública da Ditadura
Militar, Gustavo Cordeiro Ramos, sugerira a criação da Liga Nacional
Mocidade Portuguesa, que não chegara, porém, a ver a luz do dia (Nota 5).
Depois, em 1932, ano em que se tornou chefe do governo, António de
Oliveira Salazar concedeu uma entrevista a António Ferro, onde revelou
que o novo regime que estava prestes a erguer não deixaria de «olhar as
crianças como sendo os homens e as mulheres de amanhã». Esclareceu,
porém, que não simpatizava com o «sistema italiano, espécie de absorção
pelo Estado, a organização excessivamente nacionalista e belicosa dos
"Balilas"» (Nota 6). Ainda em 1932, Salazar mostrou a intenção de
«modificar a mentalidade dos portugueses», a começar pelas crianças, que
constituíam «o terreno virgem em que essa educação nova mais poderia
frutificar» (Nota 7).

Por seu lado, no I Congresso da União Nacional, realizado em Abril de


1934, António Carneiro Pacheco, futuro ministro da Educação Nacional,
apelou à formação corporativa da nação, de modo a preparar «a geração
sadia em cujas mãos [havia] de prosperar o Estado Novo» (Nota 8).
Inspirando-se no pensamento de Salazar, segundo o qual «a origem da crise
era intelectual e moral» e por isso se deveria encetar a «reforma dos
costumes e mentalidades», Pacheco propôs que o Estado integrasse os
jovens num «movimento» nacionalista e formasse ideologicamente «o Homem
Novo, isto é, do Português com o ideal, a mentalidade, e a mística do
Interesse Nacional» (Nota 9).
291

Num discurso, proferido nesse ano, o presidente do Conselho atribuiu um


papel crucial na formação da tal nova mentalidade, ao Estado - e

não à Família ou à Igreja -, enquanto «representante e guarda do


interesse geral», a «posse da infância e da juventude, a educação no
sentido nacionalista, a formação da mentalidade geral, os exercícios, os
jogos, os desportos, os cuidados de revigoramento físico e moral da raça»
(Nota 10).

O tema estava na ordem do dia, pois foi em 1934 que, ao mesmo tempo que
atingiu brutalmente o movimento operário e sindical, Salazar deu uma
machadada nos adversários políticos à sua direita, ao extinguir a
organização fascista não estatal, Movimento Nacional-Sindicalista (MNS),
dirigida por Rolão Preto. Para preencher, no meio escolar e
universitário, o espaço político deixado vazio pela extinção do movimento
nacional-sindicalista, foi então criada, no âmbito do SPN, a primeira
organização estatal de juventude - Acção Escolar Vanguarda (AEV) -, em
cuja sessão de lançamento, no Teatro de S. Carlos, Salazar definiu, pela
primeira vez, o comunismo como «a grande heresia da nossa idade» e o
adversário principal do Estado Novo. Ao contrário da Mocidade Portuguesa,
a organização estatal que lhe viria a suceder, a AEV foi, porém, uma
organização de filiação voluntária mista, que incluía, no seu seio,
embora com pouca expressão, raparigas.

O primeiro grande desfile de «mil e seiscentos vanguardistas», rapazes e


raparigas fardados, ocorreu em 28 de Maio de 1935, não sem que estes
tivessem sido recebidos, em Lisboa, a tiro, por comunistas, conforme
relatou o órgão da AEV, curiosamente chamado Avante (Nota 11). Numa
sessão de propaganda da União Nacional realizada, no mesmo dia, em Braga,
Francisco José Nobre Guedes propôs a criação de uma mocidade escolar
«oficial, forte e disciplinada» (Nota 12), na qual a inclusão de
raparigas primava, porém, pela ausência. Ainda nesse ano foi sugerida a
criação de uma organização feminina estatal - as Bases Femininas da Nova
Nação -, mas a proposta não teve qualquer consequência (Nota 13).

A criação de uma «mentalidade nova»

O ano seguinte, 1936, quando se iniciou a Guerra Civil espanhola, em que


o Estado Novo apoiou os golpistas militares franquistas, foi certamente
um período de «crispação fascizante» do regime salazarista.
292

Multiplicaram-se então os grandes comícios anticomunistas, foi aberto,


para os opositores comunistas e anarco-sindicalistas, o campo de
concentração do Tarrafal, e lançada, num comício realizado no Campo
Pequeno, em Lisboa, a ideia da criação da milícia paramilitar - Legião
Portuguesa (LP).

Foi também no início desse ano que, após ter tomado posse da pasta da
Instrução Pública, que viria a chamar Ministério da Educação Nacional,
António Carneiro Pacheco apresentou a Proposta de Lei n.° 1941 - aprovada
em 11 de Abril -, na qual estava incluído o propósito de criação da
Mocidade Portuguesa (MP). A Base XI dessa Lei anunciava que seria dada, à
«mocidade portuguesa uma organização nacional e pré-militar que
estimule[asse] o desenvolvimento integral da sua capacidade física, a
formação do carácter e a devoção à Pátria e a coloque[casse] em condições
de poder concorrer eficazmente para a sua defesa».

Antecipando-se às críticas dos que consideravam a criação da nova


organização de inspiração fascista e nazi, Carneiro Pacheco assegurou que
tanto a Escola como a MP lutariam «contra o paganismo e pela moral
cristã», assim como contra a «tendência para uma ginástica meramente
apolínea» que traria «a saúde física para o indivíduo, mas poderia
transformar-se em culto do corpo» (Nota 1). Em 14 de Agosto, Carneiro
Pacheco esclareceu que, na luta sem tréguas entre a «civilização cristã,
património bimilenário de uma ética e de uma cultura acumuladoras de
benemerências» e o «comunismo, partido da destruição de toda a estrutura
moral, individual, ou colectiva», a MP tomaria «uma posição clara pela
civilização cristã» e combateria o «suspeito internacionalismo» (Nota
15).

Cinco dias depois de a Organização Nacional Mocidade Portuguesa (ONMP, ou


MP) ter sido regulamentada, em 19 de Maio (Nota 16), Carneiro Pacheco
justificou a sua criação, devido à crise que a Família, sem condições
para a «sua missão educativa», estava a viver, e à insuficiência da
Escola, à qual cabia cooperar com a família «na formação integral da
juventude» (Nota 17). Como «só uma mentalidade nova faria ressurgir
Portugal», o ministro da Educação Nacional anunciou ter encetado a
reforma da Escola, cuja principal finalidade era «moldar» as crianças,
sacrificando «um enciclopedismo pretensioso ao robustecimento do corpo, à
energia da vontade, ao espírito de iniciativa, à constituição do
carácter» (Nota 18).
293

Antes, porém, que a Escola, «oficina dos pais de amanhã», fosse


reformada, tornara-se necessário criar uma organização da juventude que
transmitisse a «consciência e unidade nacionais, hábitos de coesão e
patriotismo militante, disciplina militar, activa confiança nos destinos
de Portugal» e uma organização de mulheres, para «corrigir e suprir as
deficiências» nos pais «de hoje» (Nota 19). Por isso, foi criada, ainda
em 1936, a Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN), com a missão de
«estimular a acção educativa da Família» e «preparar melhor as gerações
femininas para os seus futuros deveres maternais, domésticos e sociais»
(Nota 20). Era à OMEN que competia, por isso, organizar a secção feminina
da Mocidade Portuguesa (Nota 21), que, no entanto, apenas foi
regulamentada em 8 de Dezembro de 1937, com o nome de Mocidade Portuguesa
Feminina (MPF).

Depois de as organizações de juventude do Estado Novo surgirem à luz do


dia em 1938, a imprensa passou a noticiar regularmente na semana do 28 de
Maio, no 1.° Dezembro e, mais tarde, no 10 de Junho, os desfiles de
jovens da MP nas ruas. Apesar de terem assumido proporções mais
reduzidas, um aspecto mais desorganizado e menos marcial do que as
manifestações dos movimentos de juventude fascista e nacional-socialista,
os cortejos públicos da MP não deixaram de revelar, até 1945,
características semelhantes às coreografias mobilizadoras das
organizações congéneres europeias, nacional-socialista e fascista, não
faltando o braço estendido.

Depois, ao longo dos anos, gerações de jovens portugueses, dos sete aos
catorze anos, bem como para os que frequentavam o primeiro ciclo dos
liceus, foram obrigados a filiar-se nessas duas organizações e a
frequentar as suas actividades, exceptuando os das instituições
militares. Foi através delas que o regime salazarista transmitiu a sua
ideologia e as noções de obediência e adaptação ao Estado Novo, por parte
dos jovens das classes médias ou mais altas, considerados como
pertencentes à futura elite do país.

A transmissão dos valores do Estado Novo na MPF


294

A MPF começou por organizar os seus primeiros centros nos liceus


femininos Maria Amália Vaz de Carvalho e D. Filipa de Lencastre, de

Lisboa, Carolina Michaëlis do Porto, e Infanta D. Maria, de Coimbra, aos


quais se juntaram, no final da década de 40, os liceus Rainha D. Leonor,
de Lisboa, e Rainha Santa Isabel, do Porto. Segundo contou Manuela
Saraiva, que chegou a dirigente da MPF, foi enquadrada na MPF, no
primeiro trimestre do ano lectivo de 1937/38, quando frequentava o Liceu
de Maria Amália Vaz de Carvalho. A reitora desse liceu, que era ao mesmo
tempo comissária nacional da MPF, Maria Guardiola, ordenou às alunas que
se juntassem no recreio, onde foram repartidas em grupos de cinco, tendo-
lhes sido dito que cada um deles constituía de então em diante uma
«quina». Manuela Saraiva considerou que foi então uma das escolhidas para
usar a farda da MPF e, mais tarde, para integrar o primeiro grupo de
graduadas por ser familiar de um reitor de outro liceu. Recorda que a sua
mãe mandou fazer o uniforme e o chapéu, «medonho, igual ao das
italianas», e que, mais tarde, participou em grandes festas no Estádio
Nacional, a única ocasião em que as raparigas se reuniam com os rapazes
da MP, «mas cada um por seu lado» (Nota 22).

Em 1940, haveria, segundo dados da M PF, 13 120 lusitas - ou seja,


filiadas do ensino primário -, 17 075 infantas e 6000 vanguardistas
-filiadas do ensino secundário - e 2155 lusas, um grupo que incluía
alunas dos últimos anos do liceu, estudantes universitárias e outras com
mais de dezoito anos, não inseridas em qualquer grau de ensino. Conclui-
se, assim, que a MPF abrangia, em 1940, só 5,2% das alunas do ensino
primário, mas, curiosamente, 93% das alunas dos ensinos médio e
secundário técnico e liceal.

Ao longo dos anos 40, foram também criados centros em escolas oficiais e
em colégios particulares do ensino primário, assim como em escolas
técnicas e nos liceus mistos das capitais de distrito, mas a MPF nunca
atingiu, assim, a maior parte das escolas primárias, e pode dizer-se que
foi, ao longo dos anos, essencialmente urbana e liceal. Basta, aliás,
comparar o número de centros que a MPF tinha no início da década de 50
com os da MP para se reparar na distância que existia, do ponto de vista
organizativo, entre as organizações feminina e masculina de juventude.
Enquanto esta última tinha, em Outubro de 1951, 469 centros de formação
geral - 312 centros escolares e 157 extra-escolares - e 11 000 centros
escolares primários nos quais incorporava mais de 300 000 lusitos (Nota
23), a MPF limitava-se a organizar na mesma data 105 043 filiadas em 1251
centros no ensino primário e no ensino secundário.
295

Cerca de dez anos depois, em 1960, a organização feminina enquadrava,


porém, 49,9% das alunas primárias e mais de 95% das alunas do ensino
secundário (Nota 24).

A partir de 1947, a inscrição dos rapazes e das raparigas na MP e MPF era


feita nos centros das escolas primárias e das escolas do ensino
secundário juntamente com a matrícula escolar, ficando os filiados
sujeitos a um regime de faltas às actividades da organização, idêntico ao
das faltas às disciplinas escolares. Todas as alunas do ensino primário e
dos três ciclos do ensino liceal feminino deviam obrigatoriamente
frequentar actividades - integradas nos horários escolares - de formação
moral e nacionalista, orfeão e educação física.

Depois do II Congresso da MP, realizado em 1956, a frequência das


actividades especializadas das organizações de juventude passou a ser
voluntária a partir do 4.° ano do ensino secundário e do 1.° ano dos
cursos de formação do ensino técnico - ou, seja, 2.° ano das escolas
técnicas -, o que levou à elaboração de um novo plano de actividades, em
vigor a partir do ano lectivo de 1957/58. A comprovação da frequência nas
actividades obrigatórias das MP continuava a contar para efeitos de
passagem do ano lectivo.

Uma das actividades de frequência obrigatória, na MPF, era, até ao final


da II Guerra Mundial, a formação moral e nacionalista, ligada sempre à
formação cristã, dado que, como considerava a organização, Portugal era
historicamente cristão, e o catolicismo legitimava o nacionalismo
português (Nota 25). A «formação moral e nacionalista» foi considerada o
«centro de todas as actividades» da MPF, pois difundia a única «moral
possível - a moral cristã, fundamento da vida colectiva e seiva das
instituições portuguesas desde a origem da nacionalidade».

Sob a cúpula da religião católica que tudo enformava, pretendia-se


formar, por um lado, uma elite feminina com a vocação de educar e servir
socialmente, e criar, na «massa», o conceito da missão da mulher no lar.
A «nova» mulher seria cristã, «moralmente sã», «portuguesa» e ao serviço
do Estado Novo no espaço próprio que lhe era reservado. Por isso, a
filiada foi desde logo também educada no culto dos chefes do regime e das
dirigentes das organizações femininas, mas... non troppo.
296

Todos os anos, quando passava mais um ano sobre a morte de Carneiro


Pacheco, a MPF realizava uma missa onde não faltavam filiadas dos liceus,
dos colégios e das escolas técnicas de Lisboa. O culto do criador da MPF
foi ultrapassado só pelo culto do «chefe» Salazar, particularmente
intenso nos anos 40, quando em cada aniversário e manifestação de apoio
ao ditador se incluía a presença coreografada de jovens fardadas da MPF
(Nota 26).

Mas, em 1943, Maria Guardiola afirmou que «Deus, Pátria e Família» era,
por essa ordem, a trilogia que devia iluminar a vida de todas

as «nossas raparigas» e que «a fé cristã, base da maior felicidade humana


[era] a mais sublime das tradições nacionais». Por isso, o «primeiro
passo colectivo foi a romagem a Fátima realizada para que a MPF, em
primeiro lugar, se apresentasse e se consagrasse à Virgem Maria,
Padroeira de Portugal». A organização feminina esclareceu assim que a sua
primeira fidelidade ia para a Virgem Maria e para a religião católica, e
que, mais do que em manifestações políticas, a MPF participaria, como o
fez, sobretudo em manifestações religiosas de homenagem à sua celestial
padroeira.

Além das actividades - obrigatórias ou voluntárias - no meio escolar, a


MPF mobilizou também as suas filiadas para campanhas, manifestações e
iniciativas periódicas, pontuando, fora dos estabelecimentos escolares,
as várias datas e épocas do ano com eventos recorrentes para melhor
enquadrar as jovens e impor ante elas a presença da organização. As
exposições de Berços e Enxovais nas Semanas das Mães, os Salões de
Educação Estética, as Embaixadas da Alegria e da Bondade e os Folares da
Páscoa patentearam expressivamente a forma como a MPF pretendeu mobilizar
as «suas» raparigas e para que fim: para a maternidade e o lar e/ou para
o apostolado social e religioso. A MPF preocupou-se também muito com o
que liam as filiadas, proibindo-lhes determinados livros e divulgando
entre elas a «boa» literatura, na qual se incluía, em primeiro plano, a
portuguesa, de Gil Vicente a Júlio Dinis, cancioneiros e poemas -
religiosos e nacionalistas -, sobretudo de Correia de Oliveira e do padre
Moreira das Neves, assíduos colaboradores das revistas da MPF. Esta
também se preocupava com os filmes que as filiadas viam, nomeadamente com
cinema americano, que veiculava, entre as jovens das classes média e alta
das cidades às quais a MPF se dirigia prioritariamente, valores mais
livres e um modelo oposto àquele que o Estado Novo pretendia para as
mulheres.
297

Em Maio de 1943, Maria Teresa Navarro, directora do centro universitário


de Lisboa da MPF, queixou-se da influência perniciosa de Hollywood e
exortou as raparigas a «não aceitar servilmente os figurinos
estrangeiros... só porque são estrangeiros».

Além das actividades da MPF, na escola e fora dela, que serviram para
inculcar a ideologia nacionalista e cristã no seio das raparigas
portuguesas assim como para enquadrá-las, mobilizá-las e adaptá-las ao
regime, as publicações da MPF foram, sem dúvida, os principais meios de
transmissão de valores e comportamentos entre as jovens que as liam. No
número um da primeira publicação da MPF, Boletim da MPF, surgido em 13 de
Maio de 1939, a comissária nacional da MPF, Maria Guardiola, apresentou
os inimigos a combater — o «egoísmo», o «materialismo» e o «feminismo» -
e as características modelares da futura mulher que se pretendia criar -
«disciplinadas, fortes, viris sem ser masculinas, com espírito
profundamente cristão e nacional», orientadas para a «acção no lar, na
família e na sociedade».

Uma breve leitura do Boletim da MPF nos seus primeiros cinco anos de vida
revela uma vontade de moldar as leitoras, através de artigos
maioritariamente dedicados à transmissão de valores e de comportamentos
numa tentativa, aliás, compartilhada com a Igreja, de substituir o papel
educativo das famílias. Embora o Boletim tivesse a pretensão de se
dirigir a todas as jovens portuguesas, foi de facto as das classes
sociais mais altas que quis e conseguiu atingir, como se pode ver pelos
principais defeitos que se propôs combater: a futilidade, o hedonismo, a
soberba, a vaidade e a arrogância.

No Boletim da MPF recusava-se, por um lado, o universalismo - no sentido


da igualdade de acesso universal aos mesmos direitos - e promovia-se, por
outro lado, o elitismo, dois conceitos que aliás não se contradiziam mas
se complementavam. De um lado, estava o futuro escol feminino, e, do
outro, as raparigas de meios cuja miséria e potencial conflitualidade
social a MPF tentava atenuar através da caridade cristã e da ideologia
corporativa. Os textos sobre desporto também tinham como alvo as
raparigas de um estrato social médio e alto, incentivando a prática de
modalidades elitistas (Nota 27), onde havia sempre o cuidado de refrear
os exercícios violentos e o espírito competitivo, mas também o de
criticar certas mães por impedirem, com os seus temores, as filhas de
praticar exercício físico.
298

O período das férias servia habitualmente de pretexto para artigos sobre


o campo e a praia, locais onde as filiadas de famílias mais ricas
passavam os longos meses de Verão. As dirigentes da MPF temiam as
mudanças que pudessem ocorrer durante um longo período de três meses em
que a sua influência sobre as raparigas era substituída pela das famílias
e de amigos potencialmente desviantes e, antes da partida, transmitiam
inúmeros conselhos sobre o que as jovens deviam ler e a forma como se
deviam comportar (Nota 28). Vejam-se os conselhos do Boletim da MPF às
filiadas que passavam as férias; no campo:

«A tua casa fica talvez paredes meias com as casas dos pobres. Não há
palácios. Mas vê como é lindo o "cenário rústico" dessa casa de aldeia
[...] E olha, os casinos, porque suspiras talvez, não te fazem falta! É
bem melhor gozares as manhãs a passear do que perderes as noites a
dançar. Aproveita bem as tuas manhãs de férias. Passa pela casa de Deus.»
(Nota 29)

Mas o local onde as jovens das classes média e alta passavam


habitualmente as suas férias era evidentemente a praia; ora, quem diz
praia diz fato de banho, uma das maiores preocupações da MPF (Nota 30).
Num artigo sobre a praia do Estoril, a articulista elogiou o fato de
banho regulamentar da MPF, apelando às suas leitoras para abandonarem o
«maillot feio e impróprio»:

«Tende personalidade e coragem para afirmar essa personalidade não vos


acanhando de aparecer correctas, mas sabendo dar alegremente o exemplo. A
vossa influência pelo exemplo pode ser enorme. [...] Raparigas da
Mocidade, o vosso dever é reagir contra tudo o que é mau. Se vos
criticarem, que importa? [...] Vesti com orgulho o fato de banho da
Mocidade: ele fala por vós e diz aos que vos vêem quem vós sois:
verdadeiras raparigas alegres e saudáveis - mas puras.» (Nota 31)
299

Num artigo de Setembro de 1940, Maria Joana Mendes Leal queixou-se, no


Boletim da MPF, de que na praia da Figueira da Foz as jovens portuguesas
não se distinguiam das estrangeiras de «ar desavergonhado» -
provavelmente as refugiadas de guerra - e que nunca tinha visto «um único
fato de banho que obedecesse às regras da moral» até vislumbrar, com
alegria, três «queridas raparigas» com os fatos de banho da MPF (Nota
32). O grande argumento para demover as filiadas de imitar a moda usada
pela maioria das raparigas era o de que não deviam «igualar a massa
medíocre e grosseira» (Nota 33), devendo, por isso, escolher um fato de
banho «com uma saia não muito curta e sem excessivo decote».

A MPF preocupou-se sobretudo com as relações das jovens com pessoas de


outros meios sociais, com as famílias, com as companheiras de escola e
com os jovens. Em Setembro de 1943, o Boletim da MPF deu às leitoras
conselhos sobre como lidar com as criadas, termo que começava a ser
depreciativo em Portugal, «mercê da falta de generosidade» com que eram
tratadas. Contra essa situação, acrescentar-se-ia mais tarde a
necessidade de «olhar caridosamente para quem «servia», não troçar da sua
ignorância, ter a noção de que se tratava de «uma pobre rapariga às vezes
vinda de outra terra cheia de saudades dos seus», e «tender a fazer da
criada uma pessoa amiga» (Nota 34).

A partir do final da II Guerra Mundial, a MPF tentou contrabalançar as


modas vindas de uma Europa em construção, em que se tentava, através de
novos hábitos, esquecer os anos de guerra. Em Setembro de 1945, o Boletim
criticou a «moda do cabelo curto que empolgou e foi usada por todas as
classes» e a «permanente», que eliminava, na aparência, as diferenças
sociais entre as jovens: «a menina do liceu, a criada, a mulher da
hortaliça, a varina tudo usa permanente [...] parecem angolanas» (Nota
35). Em Abril de 1947, as críticas da MPF dirigiram-se contra o swing e a
jovem que «rodava o botão da telefonia e implora[va] do batuque frenético
de qualquer music-hall, o barulho» ou gastava o tempo no cinema, «já
neura e desiludida» (Nota 36).

Em 1 de Maio de 1947, surgiu com o novo nome, Menina e Moça (M&M), a


publicação de massas da MPF que pretendia chegar já não só às filiadas,
mas «a todas as raparigas de Portugal» e, por isso, tinha um aspecto
gráfico mais arejado, além de não mencionar, no título, o nome da MPF. Na
M&M, a ideologia passou a ser introduzida, de forma mais subtil do que no
Boletim da MPF, em rubricas onde se notava um esforço para acompanhar os
novos tempos: «História da Música»; «Cinema»; «Modas»; «Leituras» e
«Desporto».
300

No entanto, a revista continuou sobretudo a difundir determinados valores


morais e comportamentos, induzidos nas diversas rubricas.

Num teste publicado em 1948, subordinado à pergunta «serás tu uma boa


filha?», concluía-se que esta era aquela que preferia um serão em casa
com a família, ajudava a mãe nos afazeres domésticos, não proclamava a
sua independência e consultava sempre os pais porque a sua opinião «nem
sempre é parcial e antiquada» (Nota 37). Se, na vida familiar, a filiada
devia aceitar a autoridade paterna, encarando-a como uma emanação da
autoridade de Deus, nas relações com os jovens, devia ver a liberdade
como «um bem que o abuso transforma[va] em mal». A jovem «séria» devia,
por isso, ser prudente, vigiar os seus próprios sentimentos e fazer-se
respeitar; o epílogo seria, nesse caso, o casamento, «o mais sério acto e
o mais lindo sonho» a que as jovens podiam aspirar. Outros artigos
enumeravam os defeitos de «que eles não gosta[va]m» (1954) e «as
qualidades que eles mais aprecia[va]m» nas raparigas (1961).

Em 1957, a Menina e Moça mantinha a mesma postura paternalista e


elitista, transmitindo nomeadamente a ideia de que os ricos não eram mais
felizes do que os pobres, mesmo que estes fossem «selvagenzinhos e feios»
e tivessem fome e frio. No final da década de 50, a revista começou,
porém, a preocupar-se com dar a conhecer às leitoras, jovens de classes
sociais diversas, através de entrevistas com «raparigas como nós mas com
um género de vida tão diferente da facilidade, da futilidade, do
comodismo que tantas vezes constitui a nossa vida» (Nota 38). O ano de
1958 - não por acaso foi o ano do «terramoto delgadista», em que muitos
jovens se envolveram na candidatura presidencial de Humberto Delgado -
foi profícuo em conselhos sobre relações entre jovens dos dois sexos.

As raparigas deviam abster-se de ostentar êxitos amorosos, leviandades e


frivolidades, pois só as «provocadoras» eram responsáveis pelos
atrevimentos dos rapazes. Numa «Carta a uma rapariga», publicada nesse
ano, a articulista dirigia-se a uma jovem que encontrara no cinema:

«não gostei do modo como quase te abandonaste sobre o ombro. Fiquei com a
impressão que se ele te pedisse um beijo lho darias. [...] pensas que te
vais casar com ele mas talvez isso não aconteça [...]
301

Não estou a chamar-te estúpida, mas é que as teorias modernas têm o


condão de tornar as raparigas inconscientes do bem e do mal. Precisas de
alguém que te tire dessa onda de modernismo e inconsciência. Confia tudo
à tua mãe. Quem melhor que ela te poderá guiar?»

Foi também a partir desse ano de 1958 que os novos tempos surgiram de
forma recorrente na revista. Um artigo da M&M de Janeiro desse ano
abordou o tema dos «bandos» de jovens e outro apresentou o tipo de
raparigas que a MPF abominava: «as que dormem vestidas», a intelectual
que usa «roupa em acordeão» ou «a ruiva que usa bailarinas» deixando o pé
deformado. No ano seguinte, surgiu um novo inimigo: o «existencialismo».
Maria Joana Mendes Leal queixou-se de ter encontrado numa recente viagem
a Paris um jovem português que se vangloriava de ter visitado «caves
existencialistas» e, noutro artigo, apelava-se às portuguesas para que
fossem «modernas» mas «existencialistas, não!».

Surgira entretanto um novo factor de modernidade, a televisão, «uma


janela aberta para o mundo» que «mete o mundo no lar» e que, por isso,
nunca devia ser ligada durante as refeições para se «respeitar esses
momentos de intimidade familiar» (Nota 39). Mais tarde, em Janeiro de
1962, a televisão continuou a ser considerada um «poderoso meio de
cultura mas também de dissipação, recreativo mas destrutivo do ambiente
familiar, com possibilidade de educar mas com nefastas influências nas
mentalidades e nos costumes».

Chegara também o tempo de se condenar a «nova vaga», «vaga desgrenhada,


arrastada para o mal e mediocridade» (Nota 40) e de se fazer apelo à
leitora para que não se transformasse numa «rapariga boneca». No final da
década, a MPF tentava desesperadamente manter, num «mundo moderno», os
seus valores e a defesa da «civilização cristã», por contraponto à
«civilização moderna». Ao mesmo tempo que erigia como inimigas as novas
modas que arrastavam a juventude - os mods e rockers que se tinham
substituído aos blousons noirs e teddy-boys e os que só falavam de
«Vietnams» - a MPF analtecia a «verdadeira juventude», aquela que honrava
«a sua geração» e frequentava as actividades da organização.
302

O tema do exercício de uma profissão quase não foi abordado pelo Boletim
da MPF, como se o facto de ocultar uma realidade, embora ténue, afastasse
milagrosamente o que a organização feminina mais temia: a atracção das
raparigas às quais se dirigia pelo trabalho fora do lar. Mas essa
realidade era incontornável, anos 50 e 60, em que já havia nos liceus
tantas raparigas como rapazes e em que elas ingressavam crescentemente
nas universidades. Começaram então a surgir, na Menina e Moça, artigos
sobre o assunto, onde se alertava as jovens para não desdenharem uma
profissão, dado que algumas talvez nunca se casassem e que outras podiam
ter de vir a enfrentar a viuvez. A escolha deveria, porém recair sobre
profissões «femininas» convenientes: cursos de professorado primário,
enfermagem e de educação infantil.

Dos objectivos «totalizantes» ao triunfo da Escola

Como se viu, o regime ditatorial português teve propósitos iniciais


«totalizantes», à semelhança de outros regimes que vigoraram na Europa,
nos anos 30 e 40. Pode-se considerar o regime de obrigatoriedade das MP
um factor de «totalização» e «estatização» violenta da juventude. Mas,
como em tudo, entre a vontade do Estado Novo e a prática, houve uma
distância. Lembre-se que a filiação só foi compulsiva para os jovens
escolarizados, até uma certa idade, e acabou por ser mitigada, não só
porque as duas organizações estatais de juventude não estavam implantadas
em todos os estabelecimentos de ensino, como porque muitos jovens
arranjavam maneira de não frequentar as respectivas actividades da
organização feminina. Por outro lado, tanto a MP como a MPF não se
substituíram totalmente à Igreja, à Família e à Escola, na educação dos
jovens.

O Estado Novo manteve, no começo, um conflito com a Igreja, à qual


disputou a assistência, a educação e as organizações das mulheres e da
juventude e, ao mesmo tempo que erigiu a Família como núcleo primário do
seu edifício e se propôs defendê-la, infringiu frequentemente o seu
espaço privado, ao monopolizar e arregimentar as crianças e os jovens.
Essas contradições e essas rivalidades acabaram, porém, por se
transformar em interesse comummente partilhado e em colaboração mútua.
303

A contradição entre a Igreja e o Estado acabou por ser resolvida através


da coexistência das organizações femininas e de juventude estatais com as
associações católicas e através da partilha, entre elas, da mesma missão
«recristianizadora» e da mesma doutrina moral e religiosa.

Quanto às relações que mantiveram com a Família, tanto a OMEN como as MP


- mesmo se esta última arrastou por vezes os filiados e sobretudo as
filiadas, para actividades fora do «lar» - atribuíram às mulheres e às
jovens uma missão familiar e instilaram nos jovens a obediência à
família, educando-os para serem os futuros «chefes» destas.

Diga-se também que, quer a MP quer a MPF não politizaram nem


«ideologizaram» todos os aspectos da vida privada dos jovens. Por um
lado, porque destinava, no geral, às futuras mulheres um espaço recatado
de actuação doméstica no lar e, aos futuros maridos, aos quais era
reservado o espaço público, a actuação política apenas era possibilitada
aos que se mostravam a favor do regime, sendo, entre todos os outros,
incentivada a despolitização. Por outro lado, porque a inculcação
ideológica estatal, que, aliás, se atenuou após 1945, coexistiu sempre
com a catequização religiosa.

Relativamente ao relacionamento com a Escola, é certo que o Estado Novo


permitiu que, até ao final da década de 50, as Mocidades actuassem, com
poderes crescentes, no seio dos estabelecimentos de ensino e interviessem
nos planos curriculares. Assistiu-se, assim, compreensivelmente a uma
luta surda de competências entre as direcções dos estabelecimentos de
ensino e a da organização feminina e masculina de juventude quanto à
atribuição das respectivas funções. Uma das maiores fontes de atritos e
de conflito entre a MPF e a Escola foi a questão da duplicação de
actividades da Mocidade com as aulas do plano escolar.

As queixas da MPF contra os reitores dos liceus e os directores das


escolas continuaram, assim como não cessaram os protestos destes contra a
actuação da organização feminina, crescentemente criticada pelo próprio
MEN. Em 1966, ao remodelar as Mocidades, o ministro Inocêncio Galvão
Teles acabou definitivamente com a possibilidade de as organizações de
juventude interferirem no seio da Escola, ao transformar as MP em
organismos de actividades circum-escolares, sob a direcção das
autoridades escolares.
304

Trinta anos depois da criação das organizações de juventude, esse diploma


do MEN significou a derrota do projecto estatal «totalizante» de
enquadramento de toda a juventude e ainda o triunfo da Escola, a partir
de então a única responsável pública pela educação dos jovens nos
estabelecimentos de ensino. Em 1971, outra grande machadada contra as MP
foi dada pelo ministro da Educação Nacional, Veiga Simão, ao terminar com
a obrigatoriedade de filiação nas organizações estatais de juventude,
esvaziando-as numericamente.

O regime salazarista manteve-se sempre em tensão entre dois grupos de


atitudes que também se fizeram sentir na OMEN e nas MP: entre a
mobilização e o enquadramento das mulheres e dos jovens, por um lado, e a
desmobilização e a despolitização dos portugueses, por outro lado; entre
a recusa do totalitarismo, por um lado, e a vontade estatal de criar um
«homem novo» e de arregimentar e enquadrar segmentos da população, por
outro lado. Por ter sabido manter essas tensões em equilíbrio, por
escolher frequentemente terceiras vias e apoiar-se ora num ora no outro
dos pólos das contradições no seu seio sem nunca eliminar nenhum, o
Estado Novo soube durar.

Mas a essa durabilidade não terá sido alheia - além de outros factores -
a imposição de uma única ordem ideológica, moral e religiosa para a qual
contou, nas organizações feminina e de juventude, com uma aliada de peso
- a Igreja Católica Embora tivessem tido a veleidade, nos anos 30, de
criar um «homem novo», as organizações estatais de enquadramento das
mulheres e dos jovens limitaram-se a transmitir valores tradicionais,
católicos e conservadores. Valores esses compartilhados pela Igreja
Católica, cujo ascendente moral e religioso foi difundido, na OMEN e nas
MP.
CAPÍTULO 13

OS ESTUDANTES NA MIRA DO ESTADO NOVO

A repressão dos estudantes

Durante a ditadura de António de Oliveira Salazar, os intelectuais e


elementos de profissões liberais foram sempre alvo da vigilância da
polícia política, que procurava detectar os que aderiam ao campo
oposicionista. Essa vigilância iniciava-se desde o momento em que eles
eram estudantes universitários e, mesmo em alguns casos, ainda antes, nos
bancos dos liceus. Numa sociedade com escassa mobilidade social em que
esses estudantes eram oriundos, na sua esmagadora maioria, das classes
mais altas da sociedade, o regime desejava que eles viessem a constituir
a futura elite do país. Por isso, a sua polícia preocupou-se sempre
quando eles revelavam dissensão relativamente ao statu quo e se juntavam,
ao invés, à oposição à ditadura.

A partir do pós-guerra, à medida que alguns estudantes começaram a


agitar-se e organizar-se contra o Estado Novo, passaram a surgir como
sector social específico e, consequentemente, a serem alvos da repressão.
Foi da agitação estudantil de 1947 que surgiu uma geração de jovens da
oposição, envolvidos ou não no PCP.

Em 29 de Abril de 1947, uma nota oficiosa do governo informou que a


«agitação provocadora em alguns estabelecimentos de ensino de Lisboa» se
inseria «no plano de agitação comunista». Depois, no último dia do mês de
Maio, a polícia invadiu as instalações da Faculdade de Medicina de
Lisboa, ao Campo Santana, motivando o pedido de demissão do director
desse estabelecimento de ensino, António Flores.
306

Em Julho de 1947, a movimentação estudantil estendeu-se a Coimbra, onde a


direcção da Associação Académica havia passado a ser controlada, desde
1945, por sectores da oposição ao regime encabeçados por Francisco
Salgado Zenha.

A prisão dos membros da Comissão Académica de Lisboa do Movimento de


Unidade Democrática Juvenil (MUD J), Mário Ruivo, Castro Rodrigues,
Joaquim Ângelo Rodrigues, Fernando Pulido Valente, José Carlos Gonçalves,
Orlando Pereira e outros (Nota 1), sucedeu-se a dos membros da Comissão
Central (CC) desse movimento - António Areosa Feio, Orlando Pereira,
Mário Soares e Francisco Salgado Zenha, entre outros. Mário Soares
relatou o julgamento, onde ele e os seus companheiros, acusados de
divulgar «notícias falsas», foram condenados a três meses de prisão, com
perda por cinco anos dos direitos políticos. Francisco Salgado Zenha,
«que tinha às costas um "crime" suplementar», ligado «ao tempo em que
tinha sido presidente da Associação Académica de Coimbra», foi, porém,
condenado a dois anos de prisão (Nota 2).

Além de se envolverem no MUD Juvenil, organização frentista encarada,


pela PIDE, como um apêndice juvenil do PCP (Nota 3), muitos jovens também
participaram nas candidaturas presidenciais da oposição, entre as quais
se destacou a do genial Norton de Matos, em 1949. Em 18 Janeiro, no
decurso dessa campanha presidencial, foi detido pela PIDE, com outros
companheiros, o jovem Carlos Aboim Inglês (Nota 4), segundo o qual ele e
os colegas detidos fizeram inicialmente «um bocado laracha de tudo
aquilo» e efectivamente, como eram estudantes universitários, acabaram
por não ser mal tratados (Nota 5).

Aboim Inglês contou, porém, que, a dado momento, um chefe de brigada e


outro agente da PIDE lhe mandaram tirar os óculos e começaram então «ao
murro e ao pontapé», ferindo-o e abrindo-lhe «um lanho na boca, que
deitava sangue». Às perguntas que a polícia lhe fazia, para o envolver no
PCP, ele repetiu que era «aderente do MUD Juvenil, movimento legal de
defesa dos interesses da juventude», até que «eles desistiram e fizeram a
asneira» de o levar de novo para Caxias. Quando os seus colegas, e mais
tarde familiares, viram os seus ferimentos, fizeram um grande escândalo e
foi movido um processo ao agente e ao chefe da brigada Menezes, que «foi
castigado com quinze dias de perda de salário» (Nota 6).
307

Como reconheceu o próprio Aboim Inglês, a PIDE fazia então «as suas
diferenças de classe no tratamento dos presos», tratando os intelectuais
e estudantes de forma mais benigna do que os operários e assalariados
rurais. Isso mesmo foi corroborado por Lino Lima, um outro estudante
preso, segundo o qual a sua prisão foi de «ouro», enquanto a PIDE tratava
com brutalidade os operários e camponeses, sobre os quais «ninguém
telefonava ao director a saber deles» (Nota 7).

Aboim Inglês referiu ainda o aparecimento, na sede da PIDE, de um colega


seu, da Faculdade de Letras, que era nem mais nem menos o chefe de
brigada da PIDE, Farinha dos Santos (Nota 8), o qual tentou, sem sucesso,
convencer Aboim Inglês a falar. Também Mário Soares, novamente detido, em
1949, referiu, entre os elementos da PIDE que então o interrogaram, o
mesmo Farinha dos Santos, seu «antigo colega na Faculdade de Letras que,
para vergonha da Universidade Portuguesa, chegaria anos depois a
professor (Nota 9).

A partir do momento em que Francisco Salgado Zenha se tornou presidente


da Associação Académica de Coimbra (AAC), em Maio de 1945, as eleições
para a direcção dos organismos estudantis nunca deixaram de ser
atentamente vigiadas pela PIDE. Esta assinalou, por exemplo, que, nas
eleições para a AAC, no ano lectivo 1950/51, tinham sido novamente
eleitos estudantes comunistas, com a aprovação do reitor «comunizante»,
Maximino Correia, graças ao desinteresse dos «nacionalistas» (Nota 10).

Em 29 de Fevereiro do ano seguinte, quinze estudantes da Escola Superior


de Belas-Artes de Lisboa (ESBAL), entre os quais se contou José Dias
Coelho, foram expulsos dessa faculdade, sob a acusação de participarem em
acções de propaganda contra a NATO, no âmbito do MUD e do MUD J. Por
pertencerem a este movimento juvenil, Vasco Cabral e Agostinho Neto, dois
estudantes das colónias que, mais tarde, viriam respectivamente a ser
dirigentes do PAIGC e MPLA, foram, por seu turno, presos em Lisboa, em
1954, o primeiro ao regressar de uma reunião internacional de juventude
no estrangeiro e o segundo por recolher assinaturas a favor do movimento
da paz.

Não foram os únicos e, nesse ano, as prisões da PIDE, em especial no


Porto e em Coimbra, encheram-se de jovens do MUD Juvenil.
308

Desencadeou-se de imediato, no estrangeiro, um movimento pela sua


libertação, reclamada em telegramas endereçados ao presidente da
República, por mais de meia centena de intelectuais e artistas, sobretudo
franceses. Ao presidente da República, que lhe enviara esses telegramas,
Salazar respondeu que, nos «últimos tempos, a polícia tem manifestado a
sua grande preocupação acerca da captação muito intensa de estudantes
para as organizações comunistas».

Preocupação também revelava Salazar com o facto de muitos desses jovens


pertencerem às «melhores famílias, tanto em bens como em formação moral».
Acrescentando que estes se revelavam tão facciosos que toda a conversão
ou esperança de os converter pareciam perdidas. Considerou o caso tão
«grave, que só por meios policiais» era difícil de controlar, pelo que se
tornava necessária uma «contra-ofensiva ideológica» (Nota 11).

Efectivamente, a PIDE assanhou-se particularmente, entre 1954 e 1956,


contra o MUD Juvenil, prendendo muitos jovens que foram torturados e
depois levados a tribunal. Enquanto essa polícia tentava, nos
interrogatórios, apurar se eles eram ou não também membros do PCP, os
jovens defenderam-se sempre com o argumento de que pertenciam a um
movimento juvenil legal, razão pela qual não deviam estar presos (Nota
12). No julgamento desses cinquenta e dois elementos do MUD Juvenil,
apenas iniciado em 12 de Junho de 1957, o tribunal plenário do Porto
condenou António Borges Coelho, Pedro Ramos de Almeida, Cecília Ramos de
Almeida, Hermínio Marvão, Hernâni Silva e Ângelo Veloso, acusados de
pertencerem ao PCP, absolvendo trinta e três dos restantes (Nota 13).

O final de 1956 e o ano de 1957 voltaram entretanto a ser um período de


agitação estudantil, nas academias de Lisboa, Coimbra e do Porto, contra
o DL n.° 40 900, com o qual o governo restringiu a autonomia das
associações estudantis. No ano seguinte, ano de eleições para a
presidência da República, milhares de jovens e estudantes apoiaram a
candidatura do general Humberto Delgado, que acabou por congregar em seu
torno toda a oposição ao regime. Foi nesta campanha eleitoral que se
revelou, por seu turno, uma nova geração que se viria a expressar na
chamada «crise estudantil» de 1962, na qual se envolveram, pela primeira
vez de forma alargada, muitos jovens.
309

Crescentemente isolado e em luta por sobreviver, a resposta do governo


foi implacável contra a agitação social e política que abalaria o país
entre 1958 e 1962.

A «crise» estudantil de 1962

Neste ano o meio estudantil agitou-se pela primeira vez de forma massiva.
Tudo começou quando dirigentes estudantis, reunidos na Associação
Académica do ISCEF, decidiram, em 3 de Fevereiro, a criação provisória do
Secretariado Nacional dos Estudantes Portugueses e a realização, em
Março, do I Encontro Nacional de Estudantes, para debater problemas
sociais e pedagógicos. As comemorações do Dia do Estudante, que deveriam
ocorrer entre 23 e 25 de Março, foram proibidas e, a 24, polícia de
choque, comandada por Horta Veiga, invadiu a cidade universitária de
Lisboa e carregou sobre os estudantes.

Em nota oficiosa, divulgada através do SNI, o governo justificou a


proibição do Dia do Estudante, afirmando que «elementos de acção
declaradamente subversiva tentaram desviar das actividades escolares». Em
plenário realizado durante a tarde de dia 25, no estádio universitário,
foi decretado o luto académico, interrompido, dois dias depois, após uma
reunião entre representantes de estudantes de Direito e Medicina com o
ministro da Educação Nacional, onde as comemorações do Dia do Estudante
foram aprazadas para 7 e 8 de Abril.

A 5 deste mês, o MEN proibira de novo as comemorações, o que originou, da


parte de Marcello Caetano, o pedido de demissão do cargo de reitor da
Universidade Clássica de Lisboa, no que foi acompanhado por alguns
directores das faculdades. No dia seguinte, foi marcada a realização de
novo luto académico nas academias de Lisboa e Coimbra, e no dia 7 a
polícia de choque interveio para reprimir a manifestação estudantil que
decorreu entre o estádio universitário e o Campo de Santana, na capital
(Nota 14). Em 6 de Abril, o chefe do gabinete do ministro do Interior deu
conta à PIDE de que, de acordo com informações, o licenciado em Direito,
Jorge Sampaio, tinha tomado parte activa como orientador e orador nas
reuniões académicas da cidade universitária de Lisboa, pedindo para a
polícia encetar as diligências adequadas. No mês seguinte, a PIDE
informou a tutela do que se estava a passar na cidade universitária,
relevando as intervenções dos estudantes Vítor Wengorovius, Jorge Ribeiro
Santos, Eurico Figueiredo, Afonso Barros, Abílio Teixeira Mendes, Silva
Graça e José Medeiros Ferreira (Nota 15).
310

Em Coimbra, o Senado da universidade instaurara entretanto, a 9 de Abril,


processos disciplinares aos membros da direcção da Associação Académica,
devido à aprovação de uma moção em Assembleia Magna, pedindo a demissão
do reitor e, a 12, um plenário estudantil decidiu retomar o luto
académico. O MFN declarou a suspensão da direcção das associações
estudantis e a interdição das suas actividades. No dia 7 de Maio, uma
portaria suspendeu os seus gerentes da AAC, cuja sede foi assaltada pela
polícia e encerrada três dias depois. As 38 secções desportivas e
culturais da AAC suspenderam as suas actividades e a assembleia de
grelados anunciou que não se efectuaria a queima das fitas. A 19 de Maio,
a sede da AAC foi novamente assaltada pela polícia, que reprimiu
violentamente uma manifestação de estudantes, prendendo muitos deles.

Em Lisboa, centenas de estudantes tinham entretanto participado, em 8 de


Maio, numa manifestação contra o regime, e no dia seguinte, um plenário
estudantil, realizado no Estádio Universitário de Lisboa, decidiu a greve
às aulas, às provas de frequência e aos exames finais. Um grupo de
dirigentes associativos anunciou que entraria em greve da fome na cantina
universitária para lutar pela sobrevivência das associações e a autonomia
da universidade, mas no dia seguinte a polícia prendeu os grevistas,
sendo os jovens levados para a prisão de Caxias, e as jovens para o
Governo Civil de Lisboa. José Bernardino, funcionário clandestino do PCP,
que havia sido secretário-geral da RIA, e Eurico de Figueiredo,
presidente da comissão pró-associação de Medicina, foram por seu turno
detidos, respectivamente a 24 e 28 de Maio.

Entretanto, as associações estudantis de Lisboa promoveram uma homenagem


aos docentes que tinham apoiado os estudantes, nomeadamente ao professor
Lindley Cintra, o qual viria a ser agredido pela polícia numa nova
invasão da cidade universitária, em 4 de Junho. No último dia do mês, foi
aprovada, num plenário das associações de estudantes, a proposta de
elaboração de um projecto de regulamentação da actividade circum-escolar
e de um novo estatuto universitário, tendo sido os estudantes que nele
participaram reprimidos pela polícia.
311

Depois, o movimento estudantil entrou em refluxo. A 14 de Junho, foi


levantada a greve aos exames; três dias depois, foi reprimida uma
tentativa de concentração de estudantes diante do Aljube, onde estava
preso Eurico Figueiredo, e no dia 27 foi dispersa pela polícia nova
manifestação estudantil no Campo de Santana. Dois dias depois, um
despacho ministerial excluiu por trinta meses de todas as escolas de
Lisboa, vinte e um dos oitenta e seis grevistas da fome, enquanto trinta
e quatro estudantes de Coimbra foram alvo de penas de suspensão e
expulsão das universidades (Nota 16).

À agitação estudantil de 1962, juntaram-se também alunos de diversos


liceus de Lisboa, que formaram uma Comissão Pró-Associação, cujo código
de comunicações foi interceptado pela PIDE (Nota 17), que não deixou de
reprimir os seus membros. Em 17 de Abril desse ano, um agente da PIDE,
informado de que cerca de cinquenta alunos do Liceu Francês tinham
estavam junto do Liceu de Maria Amália, para convencer as alunas a não
irem às aulas, em sinal de luto pela proibição do dia do estudante,
deslocou-se a esse estabelecimento de ensino.

Uma aluna do Liceu Maria Amália, que distribuía um comunicado, Graça


Rodrigues, com dezassete anos, foi levada para a esquadra de Campolide e
depois interrogada pelo subinspector da PIDE, a cujas perguntas recusou
responder. A reitora do liceu Maria Amália agradeceu ao agente a sua
«atitude em relação ao assunto» (Nota 18). No ano seguinte, a PIDE
informou o Ministério do Interior, de que um professor do «nosso lado»
estava preocupado porque a filha, uma aluna de quinze anos do Liceu Maria
Amália, tinha defendido ideias comunistas. A PIDE sugeriu assim à tutela
que os estabelecimentos de ensino esclarecessem os estudantes e os
encarregados de educação sobre o assunto (Nota 19).

Em 1969 foi enviado à DGS, provavelmente por um informador, um exemplar


do jornal de alunos do Liceu Francês Charles Lepierre, intitulado «Club
360», considerado «propaganda comunista» (Nota 20). No liceu de Maria
Amália Vaz de Carvalho, a DGS assinalou o aparecimento, em Março de 1970,
de panfletos a convocar as alunas para um colóquio.

Quanto ao liceu D. Pedro V, a DGS preocupou-se, em Abril de 1972, com o


surgimento de inscrições «subversivas», culpando o retiro pela
indisciplina aí reinante (Nota 21). Nesse ano, a DGS investigou uma
reunião do Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário de
Lisboa (MAEESL), com a presença de cerca de mil jovens, dissolvida pela
PSP, que prendeu alguns deles, depois de escaramuças (Nota 22).
312

Em Novembro de 1973, o reitor do Liceu Nacional de Cascais chamou a PSP,


queixando-se de que estudantes estranhos à escola aí tinham entrado, para
convocar um plenário do MAEESL para a Faculdade de Medicina. O certo é
que, a 16 de Dezembro, a PSP deteve cento e cinquenta e um alunos
liceais, presentes numa reunião ilegal, numa sala da Faculdade de
Medicina de Lisboa, entre os quais dezoito deles foram entregues à DGS.
(Um deles tinha apenas quinze anos de idade.)

O reitor do Liceu Nacional da Amadora também chamou a PSP, devido ao


facto de terem surgido inscrições contra a guerra colonial nas paredes e
de «supostos estudantes entre dezasseis e dezoito anos» terem colocado um
cartaz contra a «repressão fascista» e o «policiamento e militarização da
escola». Por seu turno, a DGS assinalou nesse ano a existência de
distúrbios no Liceu Nacional de Oeiras, o surgimento de papéis da
Resistência Popular Anti-Colonial (RPAC) no liceu Pedro Nunes de Lisboa e
o lançamento de panfletos contra o «autoritarismo» dos professores no
Liceu Nacional de Sintra.

No entanto, nem todos os reitores se comportaram da mesma forma. Por


exemplo, no liceu Camões de Lisboa, a DGS assinalou, em 1974, que a
reitora não tinha tomado quaisquer medidas após a queixa do pai de uma
aluna insultada por uma colega, por se recusar a assinar um documento a
favor da amnistia. Por outro lado, quando elementos da DGS foram
investigar o aparecimento, no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, de um
panfleto a reclamar «liberdade para estudantes presas», a respectiva
reitora ordenou à vice-reitora que não fornecesse informações a essa
polícia e que a remetesse para o director-geral do Ensino Secundário
(Nota 23).

Prisões de estudantes comunistas. 1964-1965

Ainda no ano de 1963, a PIDE elaborou um relatório sobre o Instituto


Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), a dar conta de que
a respectiva AE estava a recrutar os seus activistas entre os alunos do
1.° ano dessa Faculdade, assistindo-se ao desenvolvimento de actividades
de propaganda, desenvolvida «por elementos partidários fiéis à linha
subversiva».
313

Segundo esclarecia a PIDE, esses alunos recentemente ingressados no


ISCEF, «já nos últimos anos do curso secundário se vinham interessando
pelos assuntos associativos, através das comissões pró-associações,
orientadas técnica e partidariamente» por elementos da AE do Instituto
Superior Técnico (IST).

Um dos primeiros estudantes presos, já em Abril de 1964, foi José Luís


Saldanha Sanches, então com vinte anos, acusado de resistência a agentes
de autoridade e agressão a um guarda da PSP, cujos guardas o haviam
ferido a tiro. Saldanha Sanches acabaria por ser detido pela PIDE, em 29
de Abril, no hospital dos Capuchos, onde estava internado sob prisão, à
ordem da PSP (Nota 24).

A 6 de Dezembro de 1964, João Crisóstomo Teixeira, estudante do Instituto


Superior Técnico e membro de um organismo de direcção do PCP para uma
parte do sector estudantil de Lisboa, é preso no decurso de um encontro
de rua com Nuno Álvares Pereira, controleiro de toda a organização
estudantil que usava o pseudónimo «Moreira».

Álvares Pereira integrava um nível de controlo partidário especialmente


criado para os sectores estudantil e intelectual, cujo responsável era
António Joaquim Gervásio, um assalariado agrícola de Montemor-o-Novo,
membro do Comité Central.

Nascido em 1927, natural de Ponta Delgada, teria, segundo as suas


próprias declarações, iniciado a sua actividade em 1959. É efectivamente
referenciada a sua presença logo em Janeiro desse ano num jantar
comemorativo do 31 de Janeiro e em Maio subscreve o manifesto «402
estudantes das 3 Academias», reclamando o afastamento de Salazar. Porém
só passa a militante no ano seguinte. Integra então uma das células da
faculdade de Direito, passando depois ao sector militar durante o período
em que esteve na tropa.

Em Setembro de 1961 passa a funcionário do PCP, substituindo José


Bernardino no controlo do sector estudantil de Lisboa25, no âmbito da
reorganização operada no trabalho partidário entre os estudantes, que
decorre da chamada correcção ao «desvio de direita», empreendida por
Álvaro Cunhal a partir da sua fuga da prisão no ano anterior.
314

Sem conseguir criar uma nova organização do tipo e com a pujança do MUD
Juvenil, que morrera naturalmente, mesmo antes de ser formalmente extinto
em 1956 e sem reeditar ainda a experiência de uma nova organização
comunista para a juventude, como fora a Federação Portuguesa das
Juventudes Comunistas, o PCP lança-se na criação de células e comités
entre os estudantes, organicamente distintos das células de empresa e dos
Comités Locais, configurando no entanto um sector específico em cada
Direcção de Organização Regional onde isso se justificasse - Lisboa e
Coimbra, principalmente, cada um controlado por um funcionário
clandestino.

Embalado pelo novo fôlego que a correcção do «desvio de direita»


imprimira e que a própria conjuntura política de 1961-62 propiciara, as
organizações estudantis crescem exponencialmente. É de 1961, por exemplo,
a criação do organismo dos liceus em Lisboa, que tanto se viria a
expandir nos anos seguintes.

Regendo-se por um modelo orgânico profundamente centralizado, Nuno


Alvares Pereira, enquanto controleiro dos estudantes de Lisboa, conhecia
a organização profunda e detalhadamente e era ele próprio quem em muitos
casos decidia sobre os novos recrutamentos, examinando-os um a um.

É certo que a investigação directa e a rede de informadores permitia à


PIDE ter um grau de suspeição sobre quais eram os estudantes
simpatizantes do PCP, principalmente entre os mais activos e os mais
expostos, mas de qualquer forma tratava-se de um retrato desfocado e
muito fragmentado.

Em Novembro de 1964, pouco antes de ser preso, Nuno Álvares Pereira


redige um relatório para o partido sobre a situação conspirativa no
sector em que refere que 12,5% dos quadros são conhecidos como comunistas
pela polícia e 20% fortemente suspeitos de ter ligações partidárias (Nota
26).

Há nos arquivos da PIDE um documento intitulado «Organismo de Direcção


Regional de Lisboa do Partido Comunista Português segundo o funcionário
"Moreira" - Nuno Álvares Pereira» (Nota 27), datado de 6 de Dezembro de
1964, que é precisamente a data em que este fora preso juntamente com
Crisóstomo Teixeira, o que, a ser verdadeira a referida data, remete para
um conhecimento prévio por parte da PIDE de uma minuciosa descrição de
toda a estrutura do Partido Comunista entre os estudantes de Lisboa, em
relação a nomes e respectivas células e comités em que estavam
integrados, bem como os cargos e posições que ocupavam.
315

Longa lista de muitas e muitas dezenas de nomes, que somariam mais de


quatro centenas.

É certo também que no seu magro processo-crime instruído pela PIDE (Nota
28) em todos os autos de perguntas aí incluídos, entre 7 de Dezembro de
1964 e 5 de Abril de 1965, Álvares Pereira nega sempre pertencer ao PCP,
e uma informação da polícia política de 6 de Abril conclui que «Não foi
possível reunir elementos de forma a poder-se concretizar a suspeita de
que o arguido (...) se vinha dedicando à prática de actividades
contrárias à segurança do Estado» (Nota 29).

Trata-se evidentemente de documentos falsos, destinados a possibilitar a


sua libertação, encobrindo as extensas denúncias que fez. Em meados de
Abril de 1965, fosse desde antes da sua prisão fosse nos dias que se lhe
seguiram, Nuno Alvares Pereira entregou à polícia, com um grau de
pormenor impressionante, todo o sector estudantil de Lisboa, indicando os
quatro escalões da organização, desde a troika de controlo às células de
Faculdade, aos militantes dispersos e às JAP, Juntas de Acção Patriótica,
criadas no âmbito da FPLN.

Os documentos em posse da PIDE indicam a constituição dos dois organismos


que compõem o chamado 2.° escalão, com nomes e pseudónimos, bem como a
escola que frequentam, assim como as células e comités de escola que cada
um desses elementos por sua vez controla, que constituíam os 3.° e 4.°
escalões partidários.

Segundo esse documento, João Crisóstomo Teixeira, por exemple, fazia


parte de um dos dois organismos controlados directamente pelo Nuno
Álvares Pereira, usava o pseudónimo «Gonçalo» e controlava, ao nível do
3.° escalão, as células da Faculdade de Ciências, do Instituto Superior
Técnico e o organismo composto pelos dois militantes que faziam parte da
RIA, Reunião Inter-Associações. Dirigia ainda, no 4.° escalão, outros
sectores na Faculdade de Ciências - duas células com quatro membros cada,
mais quatro militantes individualmente e outros quatro que desenvolviam
actividade nas JAP. Acrescia a estas tarefas de controlo no 4.° escalão,
no IST, mais uma célula, através da qual era controlado o presidente da
respectiva Associação de Estudantes.

Se quando a PIDE prende Crisóstomo sabe de tudo isto e o força mesmo


assim a muitos dias de interrogatórios duríssimos, sob tortura, o que
pretendia era apenas a sua confirmação no sentido de o dobrar para, de um
modo completamente abjecto, o obrigar a confessar o que afinal já sabia.
316

Este comportamento repetia-se em relação aos restantes elementos, que iam


sendo presos em função do referido documento onde toda a organização do
PCP entre os estudantes de Lisboa era dissecada, de cima a baixo, escalão
a escalão.

Fernando Rosas, que passara da célula dos liceus à célula de Direito e


depois viria a integrar o organismo de 2.° escalão, a que não pertencia
Crisóstomo, controlava no 3.° escalão as células das faculdades de
Direito e Letras, assim como várias ligações individuais, e no 4.°, em
Direito, mais duas células e nove militantes individuais ou por
organizar. Também neste escalão, mas em Letras, ainda controlava outras
duas células e cinco militantes por organizar.

Mais tarde, quando preso, na grande leva operada em Janeiro de 1965, em


resultado das declarações de Nuno Álvares Pereira, a polícia desdobra à
sua frente uma longa tira de papel com este vasto organigrama,
pressionando-o a confirmar o que sabia, na base de que não serviria de
nada negar.

Há gente presa nesta altura que afirma ter mesmo visto Nuno Álvares
Pereira, que seria formalmente libertado ainda antes do final desse mês
de Dezembro de 1964, a observar algumas das sessões de interrogatórios.

Houve casos dramáticos, como o de Fernando Baeta Neves, estudante de


Direito que, preso e tomado de pânico, engoliu as lentes dos óculos na
própria sala de interrogatórios, numa tentativa de suicídio.

Só a organização estudantil de Coimbra pôde escapar praticamente incólume


a esta enorme vaga repressiva. O seu responsável, Valentim Alexandre,
mantinha contacto com Nuno Álvares Pereira, para efeitos de coordenação
nacional do movimento estudantil, mas «Vieira», como Valentim era
conhecido no PCP, apesar da insistência nunca quisera revelar o nome dos
poucos militantes organizados do sector em Coimbra.

A traição de Nuno Álvares Pereira foi tão longe quanto pôde. Não foi só -
e era tanto! - a organização estudantil. Revelou as quantidades de
imprensa clandestina - setecentos exemplares do Avante! - que nesse ano
eram distribuídas na Academia de Lisboa, endereços em Paris para onde se
devia comunicar, a partir do interior do país, a composição e funções da
célula criada para intervir junto dos estudantes oriundos das colónias
que gravitavam em torno da CEI, Casa dos Estudantes do Império, os
comités por onde, mesmo que esporadicamente, passou.
317

Forneceu listas de militantes e ex-militantes que estavam em discordância


com a linha política do PCP e se aproximavam da FAP, Frente de Acção
Popular, criada por dissidência do partido, bem como relatou ou
esclareceu a partir de documentos que tinha na sua posse, o
posicionamento de vários quadros em relação ao debate político e
ideológico que a propósito desta dissidência se travou no partido.

Também do ponto de vista da estratégia política para a intervenção no


movimento estudantil esclareceu longamente sobre as principais
reivindicações a desenvolver, o papel das diferentes estruturas legais,
desde as Associações e Pró-Associações à RIA e à CEI ou a propósito do
lançamento de Comissões de Apoio à libertação dos estudantes presos.

Na Universidade de Lisboa tratou-se de um verdadeiro terramoto. A


estrutura estudantil do PCP desabou, gorando-se anos de trabalho
persistente, de alargamento, de reforço da influência política,
precisamente por efeito das denúncias de um dos que, tendo trabalhado
praticamente desde início nessa construção, a renegou completamente.

A situação tornara-se particularmente grave porque decapitava o movimento


estudantil numa altura em que se começava a ultrapassar uma certa ressaca
resultante da forma como se encerrara a crise académica de 1962. Mas o
arranque dessa vaga repressiva, iniciado com a prisão de Crisóstomo
Teixeira no início de Dezembro, fora subestimado. Foi inicialmente tido
como mais um percalço na vida partidária, sem se lhe atribuir a
verdadeira dimensão do que por aí viria. As férias do Natal, cortando
praticamente todo esse mês, contribuíram também para amortecer o choque.
Porém, quando no início de Janeiro de 1965 as prisões se multiplicam, o
alarme é geral. Numa só noite são presos cinquenta jovens militantes
comunistas. José Luís Saldanha Sanches, que saíra da prisão uns dias
depois da prisão de Crisóstomo e de Nuno Álvares Pereira, e que portanto
não fora envolvido naquela leva, é um dos que tenta reconstituir a teia
quebrada. O ambiente é dramático. Escreviam um comunicado a denunciar as
prisões e estava sempre incompleto, porque havia constantemente novos
nomes a acrescentar (Nota 30).
318

Evidentemente que a PIDE não prendeu toda a gente que sabia militar no
sector. Escolheu os mais activos, os que desempenhavam funções e tarefas
de maior responsabilidade. Não podia nem queria fazê-lo de outro modo.
Por um lado porque com o safanão quis provocar um recuo natural, um
retraimento e o abandono da actividade entre os mais timoratos que não
tinham sido presos. Por outro, porque preferiu também deixar o que se
designava por «abcessos de fixação», pontas da meada em liberdade,
indivíduos referenciados a vigiar posteriormente para observar o processo
de reconstituição da organização, preparando evidentemente nova investida
no momento considerado mais oportuno.

Pode considerar-se que o movimento estudantil entra numa fase de refluxo


de que só sairá em 1968/69, mas nem mesmo assim as coisas correriam da
melhor forma para o regime. Mas foi possível manter a manifestação
prevista para escassos dias depois da data em que ocorreram as prisões. É
aliás plausível que a PIDE tenha cirurgicamente procedido às prisões
naquele preciso dia, também para desmobilizar a iniciativa planeada pelos
estudantes, que era contra o Decreto-Lei n.° 40 900, uma lei velha que
pretendia regular e delimitar as actividades das associações de
estudantes e que o governo se preparava para alterar em sentido
igualmente negativo, do ponto de vista do movimento estudantil.

Dois dias depois das prisões, cerca de trezentos estudantes irrompem pelo
salão nobre da Reitoria, onde discursava Paulo Cunha, o reitor da
Universidade de Lisboa, na cerimónia que assinalava o dia da
Universidade. Aos gritos de «assassinos» denunciam a cumplicidade entre
as autoridades académicas e o regime.

A imprensa estrangeira, como The Times, dará conta da violência sobre


jovens de quinze e dezassete anos presos, mas será pouco para denunciar
as violências, esbofeteamentos, queimadelas de cigarro, torturas do sono
e da «estátua», ofensas, ameaças, humilhações (Nota 31).

Disso darão conta os comunicados estudantis, com uma carga política cada
vez maior. E a imprensa clandestina, também. A resistência não cessa,
como pretendia o governo, apesar da profundidade do golpe desferido, um
golpe que teve no centro o comportamento de Nuno Alvares Pereira.
319

Os estudantes e a Guerra Colonial

Apesar da repressão policial sobre quadros estudantis, a crise estudantil


de 1964/65 foi, contraditoriamente, uma viragem para a politização do
movimento académico» (Nota 32), assistindo-se então a greves às aulas e
manifestações contra a polícia e estreitando-se a diferença entre
dirigentes e dirigidos associativos, ao mesmo tempo que nascia a
contestação pedagógica e se robustecia a crítica de fundo ao regime33.

O Diário da Manhã divulgou, em 28 de Janeiro de 1965, uma nota da PIDE


sobre essas prisões no meio estudantil, negando que, como constava, os
estudantes tivessem recebido maus-tratos.

Salazar foi directamente informado acerca das prisões pelo director da


PIDE, segundo o qual, ao contrário dos protestos de muitos pais e colegas
de estudantes presos, estes não tinham sido detidos devido a actividades
académicas, mas por actividades partidárias contra a segurança do Estado
(Nota 34).

A fim de pôr termo à actividade académica e de «normalizar» a vida


económica da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências, foi
nomeada, pelo governo, em Maio de 1965, uma comissão administrativa,
presidida por Rui Manuel Bernardo Portugal. Em 1967, a PIDE assinalou que
vários «associativos», entre os quais se contavam Ernâni Pinto Basto,
Adolfo Steiger Garção e Sara Amâncio, que tinha estado presa nas
detenções de 1964/65, iriam concorrer às eleições para a direcção da
associação da mesma faculdade (Nota 35).

O dia 25 de Novembro desse ano foi marcado por chuvas diluvianas em


Lisboa e arredores, que causaram centenas de mortos, não sendo divulgada
na imprensa a magnitude do desastre e do número de vítimas. Muitos
estudantes de Lisboa mobilizaram-se para ajudar as populações,
apercebendo-se, nesse contacto, das terríveis condições em que viviam
muitos portugueses. Essa consciencialização política também se reforçou
com a crescente oposição à guerra colonial e posteriormente com os
acontecimentos de Maio de 1968 em França.

Como o assunto da guerra colonial era tabu, grupos de estudantes


realizaram, em Fevereiro de 1968, na capital, uma manifestação contra a
intervenção norte-americana no Vietname, que, como habitualmente, foi
reprimida pela polícia.
320

No Verão, decorreram em Coimbra manifestações estudantis a favor de mais


amplas liberdades e eleições livres para as associações académicas,
enquanto em Lisboa os estudantes exigiram a demissão dos responsáveis
pela universidade. O Ministério do Interior e o governo estavam então
muito preocupados com a actividade política nos estabelecimentos
universitários da capital, observando que a agitação não parava nem nos
meses de férias (Nota 36).

Entretanto Salazar sofreu, nesse Verão de 1968, um acidente, tendo de ser


operado de urgência e acabando por ser substituído na Presidência do
Conselho por Marcello Caetano. Em 8 de Dezembro desse ano, uma nota
oficiosa do MEN, publicada na imprensa, deu conta de que devido à
agitação e ao clima de desordem verificados no Instituto Superior Técnico
(IST), tinham sido suspensas as actividades e os dirigentes associativos.
Depois, tomando de surpresa os estudantes que se preparavam para fazer
greve e ocupar o IST, o governo ordenou o encerramento desse Instituto e
a entrada da polícia nas instalações, onde esta apreendeu os arquivos da
AE.

Por isso, a Reunião Inter-Associações (RIA) decretou, nesse mês de


Dezembro, uma greve geral às aulas em Lisboa, denunciando a violência
policial e promovendo manifestações de protesto. Sobre essa «tentativa de
alteração pública de estudantes dos liceus e das faculdades», o
informador da PIDE, que assinava «Lojistas», relatou a essa polícia que a
PSP dera ordem de dispersar mas que os estudantes não tinham cedido, pelo
que era de lastimar que essa polícia não tivesse «ordem para empregar a
força». Apenas depois - continuava o informador -, quando os estudantes
tinham começado a gritar «assassinos» e «eleições livres», «por ordem não
sei de quem, a Polícia teve de empregar a "força"» para dispersá-los
(Nota 37).

Diga-se que a PIDE manteve diversos informadores no meio estudantil, como


se pode ver pelo relatório de um deles, de pseudónimo «Reis», que ainda
nesse mês de Dezembro destacou num relatório os elementos que considerava
mais activos do movimento associativo (Nota 38). Outro informador, com o
pseudónimo «Esteves», relatou à PIDE uma reunião de protesto contra o
saque das instalações da AEIST, realizada em 6 de Janeiro de 1969, com a
presença de cerca de quatrocentos estudantes que exigiram a demissão do
director do IST (Nota 39).
<Várias fotos sobre os campos de concentração do Tarrafal, Legião
Portuguesa, Manuais Escolares, Mocidade Portuguesa e agitação estudantil,
rusgas da GNR, etc,: omitidas>
321

A «crise» estudantil de 1969

No entanto, ao contrário de 1962, em que a agitação dos estudantes foi


sobretudo relevante na academia de Lisboa, foi na cidade do Mondego que
mais se fez sentir a «crise estudantil» de 1969. A 17 de Abril desse ano,
o chefe do Estado, Américo Tomás, deslocou-se a Coimbra para inaugurar o
novo edifício de Matemáticas na Cidade Universitária. Na ocasião, Alberto
Martins, o representante dos estudantes, presidente da Direcção-geral da
AAC, fez uma intervenção apesar de ter sido impedido de falar durante a
sessão (Nota 40). Foi preso, ocorrendo diversos incidentes com
estudantes, em protesto contra essa prisão. No dia seguinte, os membros
da direcção da AAC foram suspensos, por determinação do MEN, ficando
impedidos «de quaisquer actividades relacionadas com a universidade,
incluindo a frequência às aulas, até à conclusão do inquérito». A
Academia decidiu a greve geral às aulas, com a qual se solidarizaram
cerca de cento e cinquenta docentes da Universidade de Coimbra. Numa
intervenção na RTP, no dia 30, o ministro da Educação, José Hermano
Saraiva, referiu os «actos de indisciplina» verificados nessa
universidade, afirmando que o retorno à ordem seria inexoravelmente
mantido, o que aconteceria com o fecho da universidade, em 6 de Maio.

Como previsto, iniciou-se a 2 de Junho de 1969 a greve aos exames na


Universidade de Coimbra, registando-se cerca de 85% de adesão. Sob a
acusação de «tumulto público» ou «motim empregando violências e
insultos», a PJ procedeu à detenção de estudantes denunciados por
informadores da PIDE/DGS. A brigada dos Serviços Centrais da delegação de
Coimbra desta polícia tinha também ao seu serviço diversos informadores,
que seguiram as assembleias magnas de estudantes e as greves aos exames,
denunciando e fotografando os estudantes mais activos e os professores
apoiantes da luta estudantil (Nota 41).

Numa das fotografias, surgia uma jovem, que havia furado a greve, rodeada
por vários estudantes, ameaçando rapar-lhe o cabelo, embora nada tivesse
acontecido, segundo relatou a PIDE. Diga-se que a jovem, tratada de
«traidora» pelos seus colegas, era Isabel Tinoco, filha do célebre
inspector dessa polícia e que o caso, considerado «crime» comum, foi
entregue à PJ que deteve e maltratou vários estudantes (Nota 42).
322

Em 18 de Junho de 1969, o inspector-adjunto da delegação de Coimbra


enviou um relatório, onde se observava que mesmo homens do regime achavam
que, caso o governo tivesse revelado maior prudência, se poderia ter
evitado a crise estudantil. Atribuindo essa «onda» à indisciplina de
alguns professores assistentes, muitos dos quais já tinham participado na
agitação estudantil de 1962, a PIDE concluía, no seu relatório, que a
Universidade de Coimbra tinha de ser saneada, caso contrário essa «erva
daninha» destruiria «a seiva duma geração».

Em Agosto, o governo encerrou a AAC, demitindo os corpos gerentes e


suspendendo todas as secções, e a 26 desse mês a delegação da PIDE de
Coimbra informou a sua direcção de que a PJ estava a convocar todos os
que se tinham inscrito para os exames em Outubro perguntando por que não
o tinham feito na «época normal», partindo, assim, do princípio de que
tinham então feito greve (Nota 43). Em Janeiro de 1970, um informador da
DGS - novo nome da PIDE - enviou a essa polícia relatórios
circunstanciados sobre o ambiente académico de Coimbra, relatando que se
respirava aí um ar de descontentamento e que alguns «assistentes»
universitários eram, no seu íntimo, «"Judas" que procuram trair o fim a
que foram chamados».

Noutra carta, o informador pediu que se lembrasse ao futuro titular do


MEN, Veiga Simão, que os responsáveis políticos não podiam «estar de
costas voltadas» para a juventude, «alimentando o seu natural
inconformismo», mas deveriam, sim, penetrar «no seu seio, quanto mais não
seja para a "entreter"» (Nota 44). Com veleidades inicialmente
reformadoras, o novo ministro da Educação Nacional, Veiga Simão, mandaria
arquivar, em Abril, os processos disciplinares pendentes sobre estudantes
de Coimbra.

Os estudantes no final do regime

O movimento estudantil não voltou a deixar de se agitar em Coimbra, no


Porto e em Lisboa, especialmente contra a guerra colonial, sendo a
resposta do governo a repressão. Entre 1969 e 1974, foram encerradas pela
DGS quase todas as associações de estudantes do país e introduzidos, pelo
Ministério do Interior, «gorilas» em algumas faculdades, nomeadamente na
de Direito de Lisboa.
323

Marcello Caetano afirmou então que as escolas superiores se haviam


transformado «em centros de doutrinação revolucionária, infectando
gravemente a juventude que havia de formar os quadros da vida económica e
social e era chamada a conduzir os soldados nas operações contra-
subversivas no Ultramar» (Nota 45).

No período «marcelista», a expressão «movimento associativo» e o


associativismo estudantil, iniciado em 1956 (Nota 46) e alargado durante
a «crise» de 1962, passaram a estar definitivamente ultrapassadas.
Durante as movimentações de 1969, assistiu-se efectivamente a uma
crescente politização das Associações de Estudantes (AE) e à
multiplicação de adesões estudantis à luta anti-regime. O movimento
estudantil deixou de apenas reivindicar a autonomia e a liberdade
universitárias para se tornar um meio de crítica da própria universidade
e do regime e um movimento formado por estudantes que não se queria
restringir, na luta que desenvolvia, ao meio em que eles viviam.

O associativismo enquanto única forma de organização dos jovens


universitários já não respondia às solicitações constantes do movimento.
O PCP continuou a investir nas AE, mas foi perdendo crescentemente
terreno para facções mais à esquerda, para os inúmeros grupos maoístas,
marxistas-leninistas e de luta armada. Em pleno marcelismo, uma
considerável parte do movimento estudantil em geral, com especial
incidência nas correntes mais radicais, não se desconfiava das boas
intenções da reforma marcelista, como a acusava de ser um veículo de
captação e sedução de pessoal para as fileiras do regime (Nota 47).

Estas temáticas estiveram no centro da agitação estudantil em Lisboa,


«simbolizada pela ocupação do ISCEF e seus "cursos livres"». Nesta
faculdade, realizou-se, em 1970, uma RGA para debater o envio aos membros
das direcções das AAEE (associações de estudantes) de uma notificação da
DGS, segundo a qual estas estariam a extravasar os seus fins meramente
académicos. Um dos oradores dessa reunião, Eduardo Ferro Rodrigues,
observou que, através da nota oficiosa da DGS, os estudantes haviam
ficado impedidos de fazer piquetes de greve ou de boicote aos exames,
pelo que sugeriu que se pedisse aos professores, muitos dos quais estavam
ao lado dos estudantes, para não darem aulas (Nota 48).
324

Informada pela PSP, da realização de colóquios sobre sindicalismo, nessa


faculdade, desde 1970 (Nota 49), a DGS notificou, em 28 de Janeiro do ano
seguinte, a AEISCEF, então dirigida por Ferro Rodrigues, para deixar de
promover actividades subversivas, propondo ao Ministério do Interior o
encerramento dessa associação (Nota 50).

Também a Associação de Estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa


(AEFDL) organizara, em 1970, um curso de sexualidade, bem como
conferências contra a guerra colonial, para a qual haviam convidado o
advogado Francisco Salgado Zenha que por essa razão fora detido pela DGS,
em 19 de Fevereiro (Nota 51). Esta polícia elaborou, nesse mês, uma lista
dos estudantes que tinham um papel relevante no desenvolvimento da
agitação estudantil na Faculdade de Direito (Nota 52), concluindo que
existiam duas linhas políticas na respectiva associação estudantil
(AEFDL): uma, composta por elementos do PCP, e outra, que integrava
elementos da Esquerda Democrática Estudantil (EDE) e do Movimento
Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP).

No mês seguinte os dirigentes da AEFDL também receberam a notificação da


DGS, a avisar que «as associações de estudantes não podiam continuar a
exorbitar dos seus fins e deviam cessar toda a actividade de propaganda
política e toda a actuação ilegal». Informada certamente por um seu
«colaborador», a DGS concluiu, no mês seguinte, quais os estudantes que
faziam parte do grupo responsável pela inscrição de frases subversivas
nas instalações sanitárias e pela afixação de cartazes e tarjetas na
AAFDL. Dias depois, a PSP encontrou nessa Faculdade um panfleto que dava
conta de que o corpo de contínuos das faculdades iria ser reforçado com
antigos pára-quedistas, ex-fuzileiros e ex-comandos, que haviam resolvido
«continuar a cumprir o seu dever em defesa da Pátria». Tratava-se dos já
referidos «gorilas», vinte e três dos quais estariam, segundo o panfleto,
a ser treinados no Estádio Nacional, auferindo um ordenado de 4000$00
mensais.

A DGS apanhou ainda outro panfleto, da Comissão Contra a Repressão, a


informar das prisões, em 1971, dos dirigentes estudantis Francisco Bruto
da Costa e Graça Marques Pinto, acusados de pertencerem à célula do PCP
da FDL e alvo de violências nos interrogatórios policiais (Nota 53). Em
Abril, foi a vez de ser detido o dirigente da mesma Faculdade, Alberto
Costa, posteriormente impedido pela DGS de concorrer a adido de embaixada
no MNE, com a informação de que não oferecia «garantia de cooperar na
realização dos fins superiores do Estado» (Nota 54).
325

O mesmo aconteceu a outro estudante de Direito, Urgel Augusto Fernandes


dos Santos, ao concorrer a uma vaga de professor do ensino secundário
(Nota 55).

Na Faculdade de Ciências de Lisboa (FCL), a respectiva AE passou a ser


dirigida, no ano lectivo de 1970/71, por elementos da lista intitulada
«Por uma universidade popular» (ligada ao grupo marxista-leninista, CML
de P (Nota 56). A AEFCL também recebeu a já referida notificação da DGS,
de Fevereiro de 1971 e, dois dias depois essa polícia propôs ao
Ministério do Interior a convocação de uma reunião do Conselho de
Segurança Pública para decidir o imediato encerramento das instalações
das AEs envolvidas e a apreensão do respectivo mobiliário.

Em 14 de Maio, a DGS enviou uma circular aos seus postos fronteiriços,


instando-os a passar uma rigorosa busca pessoal à presidente da AEFCL,
Maria da Glória Ramalho, logo que esta entrasse ou saísse do país, e o
certo é que, ao entrar pela fronteira de Ficalho, foi revistada embora
nada lhe tenha sido encontrado (Nota 57). No dia 26, um agente da DGS à
paisana deteve três estudantes da FCL por distribuírem um «comunicado aos
estudantes e à população, assinado pelas AAEE», mas os mesmos foram
retirados das «garras da polícia», por outros elementos. Finalmente, no
dia 28 de Maio, a PSP invadiu essa Faculdade, na Rua da Escola
Politécnica, para impedir uma greve às aulas marcada para a véspera.

Do seu já referido informador «Reis», a DGS apurou que vários estudantes


tinham então andado a distribuir panfletos e que ele próprio, para obter
uma «aparência estudantil», havia participado na distribuição (Nota 58).
Alvo de um mandato de captura desde Outubro de 1972, Maria da Glória
Ramalho acabaria por ser detida, em 23 de Janeiro de 1973, pela PSP,
chamada a dispersar uma RGA, pelo director da faculdade, Almeida e Costa
(Nota 59).

Em Janeiro de 1971, o IST foi encerrado num momento em que a Universidade


Clássica de Lisboa também estava em pé de guerra e nove mil estudantes da
Universidade de Coimbra faziam greve de protesto contar a prisão de oito
colegas. Em 16 de Maio de 1972, a polícia de choque invadiria, com cães,
o IST e o ISCEF, mas uma semana depois, temeroso das reacções, Marcello
Caetano ordenaria ao ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, que fossem
evitados métodos extremos de repressão:
326

«O recurso às companhias móveis, por exemplo, só se justifica perante


casos de manifestações tempestuosas em campo aberto, ou quando haja risco
de ela se produzir e convenha tentar o efeito dissuasor. É normalmente
desaconselhável em académicos e com grupos juvenis. A dissolução de
grandes ajuntamentos e a evacuação de edifícios devem ser tentadas por
avisos e meios dissuasórios. Quando estes não dêem resultado, há meios
incruentos hoje em uso por todas as polícias do mundo, como sejam os
gases lacrimogéneos.» (Nota 60)

No entanto, a 12 de Outubro de 1972, dois elementos da DGS assassinaram a


tiro, no ISCEF, o estudante Ribeiro dos Santos, desencadeando-se nos dias
seguintes diversas manifestações, nomeadamente no seu funeral.

No dia 21, o secretário de estado da Instrução e Cultura, Costa André,


disse que o objectivo último da agitação estudantil era destruir os
fundamentos em que assentava a organização da vida contemporânea e
derrubar o governo. Considerando que «a acção desenvolvida por grupos
organizados para a luta ilegal, em todos os terrenos», não estava a ter
«a resposta adequada das forças de segurança, nomeadamente da PSP», o
ministro do Interior ordenou às forças da ordem para «preparar e
experimentar formas de actuação» que conduzissem «à efectiva
identificação dos grupos subversivos». Apelou ainda à «constituição de
brigadas especiais», que filmassem e fotografassem os grupos que, depois
das manifestações, espalhavam panfletos, para «ulterior identificação e
chamada à responsabilidade» (Nota 61).

Muitos estudantes foram então presos e, em 24 de Novembro, mês em que


ocorreram manifestações estudantis contra a guerra colonial em Coimbra, o
IST foi encerrado. Seguiu-se, no fim do mês, o encerramento da Faculdade
de Letras de Lisboa, decidida pelo respectivo Conselho Escolar. Em 2 de
Dezembro, foi a vez de o Conselho Escolar da Faculdade de Medicina de
Lisboa propor o encerramento desse estabelecimento de ensino, durante o
ano lectivo 1972/73.
327

<Ofício da PSP à DGS de entrega de alunos liceais presos numa reunião do


MAESL na Faculdade de Medicina, 1973: omitido>
328

Depois, o mesmo aconteceu às Faculdades de Direito e Ciências, bem como


ao ISCEF e ao Instituto Industrial de Lisboa. Estava-se em Janeiro de
1974, nos últimos quatro meses em que a DGS ainda iria actuar. Uma das
últimas informações desta polícia sobre o meio estudantil foi a de que um
aluno da ESBAL pedira a um grupo de estudantes para levantarem o braço,
caso «fossem» a favor de Marcello Caetano. O resultado foi que ninguém o
fez (Nota 62).
CAPITULO 14

FOME E REPRESSÃO

Ermidas-Gare, 1941: Presos por roubar «tacos» de cortiça

Naquele Inverno de 1940-41, instalado no seu gabinete na Câmara Municipal


de Santiago do Cacém, o farmacêutico Luís Augusto da Gama, um «histórico»
do republicanismo local que se foi inclinando à direita até vir a apoiar
o Estado Novo e a tornar-se presidente da câmara substituto, reagia às
queixas que lhe chegavam de Ermidas-Gare.

A localidade da banda oriental do concelho ainda não havia adquirido o


estatuto de sede de freguesia, integrava a de Alvalade, mas vinha
adquirindo alguma notoriedade por ali se situar o ponto de bifurcação da
linha férrea de sul e sueste com o ramal de Sines. À escala da região era
naquela altura um pequeno entreposto comercial, mas de alguma expressão,
até porque ali se vinham instalando alguns fabricos, oficinas e depósitos
de cortiça, que os montados das propriedades da zona começavam por
abastecer. No recenseamento geral da população que acabara de se realizar
em Dezembro de 1940, só em Ermidas-Gare residiam quase 1500 indivíduos.
Era o mais importante núcleo industrial do concelho. Aí e em Ermidas-
Aldeia, a curtos quilómetros, com mais de 650 habitantes, concentrava-se
também a maioria dos assalariados rurais dessa parte da freguesia.
330

O telegrama que o presidente substituto da Câmara Municipal de Santiago


do Cacém envia ao governador civil de Setúbal logo nos primeiros dias de
Janeiro de 1941 resume bem o problema com que os proprietários fundiários
da zona o instavam:

«Fui informado que um grupo composto tresentos individuos infestam


propriedades tirando cortiça das árvores freguesia Alvalade. Torna-se
urgente vinda agentes polícia de vigilância e defesa do Estado.»

Mas o que de tão grave se passava para que os efectivos da Guarda


Nacional Republicana não conseguissem por si só tratar do problema?

Gama assustou-se certamente com as queixas dos proprietários rurais - uma


multidão, trezentos indivíduos à solta pelos campos a apanhar tacos de
cortiça pelas propriedades não seria propriamente um acontecimento banal.

Efectivamente a GNR não tinha forças locais para fazer face a uma
situação daquelas. Na quadrícula do terreno, os postos da GNR não iam
além de meia dúzia de soldados com um cabo-chefe a comandá-los.

Em freguesias grandes, como era a de Alvalade, com tais efectivos apenas


podiam realizar duas ou três patrulhas diárias, e dos três postos
existentes no concelho de Santiago do Cacém apenas no da sede do concelho
havia possibilidade de esse serviço ser feito a cavalo.

Esses pequenos destacamentos, confinados ao meio rural, serviam para


reprimir actos de pequena dimensão, intimidar, sobretudo para vigiar,
agora mais do que isso... nem juntando todos os destacamentos das
localidades mais próximas.

A intervenção da Guarda Nacional Republicana fora circunscrita às zonas


rurais a partir de 1928 com o objectivo expresso de cuidar da ordem nos
campos, sendo essa força militarizada incumbida de desempenhar funções de
vigilância, como as que eram nos meios urbanos atribuídas à polícia
política.

A tutela da GNR passará em 1937 do Ministério do Interior para o


Ministério da Guerra, nem por isso perdendo as funções de vigilância, que
obrigavam a corporação a comunicar de imediato à PVDE todos os casos
susceptíveis de pôr em causa a ordem política do regime.
331

Esta tendência para o reforço da GNR como aparelho militar e político com
funções no âmbito da segurança do regime, em associação estreita com a
PVDE, vinha-se acentuando, até pelas sugestões feitas em 1940 por uma
delegação da polícia fascista italiana encarregada de estudar a
reorganização das polícias portuguesas.

O que acontecia era que se sucediam as queixas junto da Câmara Municipal


sobre a invasão de herdades, por parte de grupos relativamente grandes
para apanharem, sem autorização dos proprietários, tacos de cortiça.

Aquilo parecia coisa combinada. Podia haver mão de agitadores comunistas.


Já não era só matéria para a Guarda, que, no entanto, não tomara a
iniciativa de comunicar os factos à polícia política. Justificava-se por
isso, pensava o edil, que fosse ele próprio a chamar a polícia política.
E foi o que fez!

Um Inverno pavoroso

O Inverno de 1940-41 estava a ser particularmente violento. Segundo o


Banco de Portugal, 1940 tinha sido mesmo o pior ano agrícola dos últimos
cinco anos. Às más colheitas da Primavera e do Verão, com quebras
drásticas na produção de trigo, seguiram-se grandes frios, que agravavam
a época mais dura do ano para os assalariados agrícolas dos campos do
sul.

A monocultura do trigo e algumas actividades complementares, como a


extracção da cortiça, faziam da Primavera e do Verão as épocas de mais
trabalho, sendo frequentemente necessário recorrer a mão-de-obra exterior
às vilas e às aldeias. Chegavam então grandes ranchos e homens, mulheres
e crianças, vindos de mais longe, dos chãos ingratos e divididos das
Beiras ou do Algarve.

Os assalariados reuniam-se semanalmente nos largos das localidades, nas


praças de jorna onde alugavam os seus braços, escolhidos por manageiros e
feitores, que estipulavam o valor da jorna. Trabalhava-se ainda de sol a
sol. Então, mesmo que mal pago, com jornas baixíssimas, havia trabalho.
332

No Inverno, pelo contrário, rareavam os trabalhos agrícolas e grassava,


por isso, o desemprego, a miséria e a fome, em cenários que as próprias
autoridades consideravam assustadores. Eram crises cíclicas de trabalho
cujos efeitos sociais pairavam como ameaça sempre prestes a rebentar e
que regedores, presidentes de câmara e governadores civis procuravam de
há muito amortecer. Criavam-se então trabalhos públicos, frequentemente
comparticipados entre o estado central e as câmaras municipais, que
absorviam temporariamente essas multidões de assalariados desempregados
na construção de estradas e de barragens, na pavimentação de ruas,
noutros melhoramentos locais. Porém, naquele ano, praticamente nem
trabalhos públicos tinha ainda havido.

Mesmo sem ser nas actividades agrícolas, como nas minas do Lousal, por
exemplo, a escassos quilómetros de Ermidas, onde residia uma boa parte
dos mineiros, a situação era igualmente aflitiva. Desde o início da
guerra que se tornavam crescentes as dificuldades de exportar minério
para a Bélgica, como normalmente sucedia. A semana de trabalho reduzia-se
a dois dias e pairavam ameaças de despedimentos.

A conjuntura internacional de guerra começava aliás a condicionar


fortemente a economia. Os preços disparavam sem que os salários os
acompanhassem, iniciando-se um processo de degradação dos salários reais
dos trabalhadores com consequências dramáticas ao nível das condições de
vida.

Sem um palmo de terra, o essencial da jorna destinava-se à compra de


géneros alimentares e sem jorna e, com os preços a disparar, era a fome a
entrar porta dentro da maioria de quase meio milhar de famílias.

Os tacos de cortiça surgiam assim como um meio de enfrentar esta situação


dramática. A extracção da cortiça fizera-se, como de costume, pelo Verão.
Nas árvores ficavam pequenos restos de cortiça, os tacos, normalmente
junto à base do tronco, que os tiradores deixavam e que já não eram
aproveitados pelos agrários. No entanto, caso houvesse compradores ainda
podiam constituir alguma forma de rendimento.

Um ou outro proprietário, vendo a miséria pavorosa daquela gente sem


trabalho, consentira mesmo que pudessem apanhar os tacos de cortiça.
333

O expediente até podia nem ser novo, podia ser relativamente tolerado
pelos proprietários mais sensíveis à fome e à miséria que corria à volta.
O lavrador da Herdade da Mal Sentada havia inclusivamente autorizado a
GNR de Alvalade a emitir licenças para a apanha dos tacos na sua
propriedade aos mais necessitados. Outros três ou quatro lavradores
haviam procedido do mesmo modo, tanto nessa como noutras freguesias
vizinhas. Mas outros, a maioria, não.

Alguns dos donos das fabriquetas e oficinas de cortiça aceitavam, por sua
vez, comprar os tacos a preço mais baixo do que o praticado antes,
evidentemente. Sempre era cortiça mais barata, um bom negócio, e
instigavam os assalariados rurais, os mineiros e outra população pobre e
desempregada a apanharem os tacos, com a garantia de que os comprariam.

A necessidade e a fome levara à organização de grupos grandes, que podiam


ter dezenas de pessoas e que tanto entravam pelas herdades para as quais
tinham licença, como iam por montados, cujos proprietários não permitiam
tal coisa.

Deste modo, muita da cortiça comprada pelos pequenos industriais era,


pelos padrões vigentes, roubada, porque apanhada em propriedades sem
autorização dos agrários e dos lavradores. A sede por aquele negócio era
tanta que havia compradores que chegavam a dizer que se quisessem cortar
os sobreiros, até a lenha compravam.

A situação repetia-se. Já em finais de Dezembro de 1940, um g: upo de 27


indivíduos fora preso pela GNR na Herdade do Monte Branco quando
carregado de tacos se preparava para os ir vender a dois industriais
corticeiros de Ermidas.

A «revolta dos tacos»

A 3 de Janeiro de 1941, um grande grupo, de muitas dezenas de pessoas,


entrara pela Herdade Grande, nos arredores de Ermidas-Gare com o mesmo
intuito de apanhar tacos de cortiça. No dia seguinte, o cabo-chefe de
Ermidas bem pediu apoio ao seu colega de Alvalade, mas não conseguiu
reunir mais que três soldados para além de si. Como o número de homens
fosse insuficiente tratou de solicitar reforço ao comandante da secção,
em Grândola.
334

<Ofício do Presidente da Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz ao


Delegado de Évora do INTP sobre o momento social no período das ceifas.
(ANTT/Ministério do Interior/Maço 519 - pasta 77): omitido>
335

E lá vieram mais dois soldados de Grândola, outros dois de Santiago do


Cacém, a que acresceriam quatro guardas da Polícia de Segurança Pública,
que faziam serviço nas minas do Lousal.

Com esta força de uma dúzia de soldados e polícias foi feita a primeira
«leva» de prisões - cinquenta e seis. Não houve qualquer resistência,
muitos entregaram-se voluntariamente, descansados, pois se até alguns dos
proprietários tinham permitido que se pudessem apanhar tacos nas suas
herdades...

Como não houvesse meio de transporte que os conduzisse à sede do


concelho, foi necessário alugar uma camioneta, na qual seguiram apenas no
dia seguinte, amontoados como gado.

Perante esta situação desesperada, enfurecia-se a população - as


mulheres, filhos, outros familiares, amigos. Algumas das mulheres
chegaram a deitar-se no chão para que a camioneta não passasse. Ateava-se
grande alvoroço pela aldeia.

Outros mais, como residissem nos arredores da aldeia de Ermidas-Gare e


não houvesse condições nem para os prender nem para os transportar nesse
dia, foram intimados a comparecer no posto pela manhã seguinte, para
seguirem então para Santiago. Seria a 2.a «leva».

À chegada dos primeiros, o presidente substituto achou que eram poucos,


que aquele número de presos não condizia com as proporções da queixa que
lhe fora apresentada, com a dimensão do problema, pois até chamara a
PVDE.

A GNR, não dispondo de meios suficientes não estava, portanto, a cumprir


convenientemente as suas funções e vá de pedir mais meios, agora
directamente à PSP de Setúbal, passando por cima do comandante da GNR de
Grândola que, pressionado e suficientemente irritado, mas alarmado,
seguiu para Ermidas num carro cedido pelo presidente da Câmara de
Grândola acompanhado por dois soldados, onde tomou conhecimento da
passagem das forças da PSP, fortemente armadas, em direcção a Santiago,
para onde também se encaminhou.

Reunia-se ali um pequeno «estado-maior», composto pelo presidente da


Câmara substituto, que chefiava, pelo comandante da secção da GNR de
Grândola e pelo comandante distrital da PSP de Setúbal, que chefiava por
pouco tempo a força destacada, pois o presidente da câmara substituto
teimava na gravidade da situação em Ermidas, para onde tratou de
recambiar as forças militares e policiais e os respectivos comandantes.
336

O dispositivo militar e policial instalar-se-ia na rua principal da


aldeia numa atitude intimidatória, dispondo no meio do aparato a moto-
metralhadora que haviam trazido de Setúbal. Uma brigada da PVDE, composta
por um chefe e dois agentes, não tardaria também a chegar ao local, onde
já tinham então sido feitas mais 50 prisões da 2.a «leva». Nesse dia à
tarde seriam ainda presos mais 40 indivíduos. Era a 3.a e última «leva»
que totalizava praticamente centena e meia de prisões, um décimo da
população local.

Eram fundamentalmente assalariados agrícolas e mineiros, mas havia


também, entre eles, pelo menos dois industriais corticeiros e
colaboradores seus, que haviam comprado a cortiça ou que o iriam fazer.
Seriam todos igualmente transportados para a sede do concelho, onde
decorreriam os interrogatórios por parte da PVDE. Só passados vários dias
sobre os acontecimentos é que a maioria dos presos foi sendo posta em
liberdade, aos poucos para evitar mais tumultos. Quarenta, no entanto,
seriam transferidos para a Penitenciária de Setúbal. Para a polícia estes
eram os «receptadores, instigadores e desordeiros». Mas, ainda assim,
muitos eram assalariados famintos, como um deles, espanhol, com mulher e
seis filhos, mineiro no Lousal, que inquirido por que fora roubar cortiça
tendo emprego na mina, apresentou como resposta uns recibos de
vencimentos que atestavam como em duas semanas de trabalho tinha recebido
apenas 35 escudos.

Foram as mulheres destes, sem qualquer amparo, que determinaram ir em


conjunto a Santiago do Cacém e postar-se frente à Câmara Municipal,
afirmando a sua fome e reclamando a liberdade dos companheiros.

Tal desassombro assustara os vereadores, que se comprometeram a enviar


uma carrinha com géneros, semanalmente, a Ermidas para suprir
dificuldades maiores daquelas famílias que estavam sem qualquer
rendimento.

Em meados de Fevereiro, quando o impetuoso ciclone destrói casas,


culturas e arranca árvores, muitos sobreiros, houve quem invocasse a ira
divina contra as queixas dos agrários gananciosos contra a multidão
faminta que lhes estava a roubar uns insignificantes tacos de cortiça.
337

Todavia, seria necessário esperar por Abril e Maio, cinco meses, para que
os últimos presos pelo roubo de cortiça fossem postos em liberdade.

Era a fome...

Se para o presidente da Câmara substituto de Santiago do Cacém

se tratava de uma revolta, de um movimento colectivo que passava pela


invasão de propriedades privadas e de roubo de cortiça, matéria que
requeria a intervenção da polícia política, para o governador civil

de Setúbal a actuação do povo de Ermidas tinha contornos, características


de um movimento inspirado e dirigido pelo Partido Comunista Português.

Não era, porém, essa a situação. Não se tratava de um movimento

político. O que animava aquela gente, o que a empurrava, o que

levava a organizarem-se em grandes grupos deambulando pelos montados,


munidos de machados e facas era a fome, a miséria em q.ie viviam.

Sabiam que os tacos agarrados ao pé dos sobreiros, que arrancavam como


podiam, vendidos a quem, mesmo por baixo preço, os queria comprar era,
nos meses pavorosos do Inverno, a única fonte de rendimento que poderiam
obter.

Quando presos, muitos deles havia dois e três dias que não comiam

e os organismos começavam inclusivamente a rejeitar o aguado rancho da


prisão.

Para o regime o espectro do tumulto social só tinha por resposta o


accionamento dos mecanismos repressivos - o pedido de intervenção por
parte da Câmara Municipal em resposta às queixas dos agrários; a
vigilância e repressão da GNR, a subir de tom, nervosamente, quanto mais
incontrolável a situação se mostrasse. Numa aliança quase total com os
proprietários fundiários, a GNR intimidava e prendia, para que, na
suspeita de manobra comunista, se chamasse a polícia política, a PVDE
que, selectivamente então, inquiria e identificava os desordeiros mais
perigosos, os agitadores infiltrados que cavalgando o tumulto social o
que queriam era a subversão do regime.
338

Para esses o destino era a prisão, o uso da força para obter mais
informações, a extensão da rede infiltrada, com os tribunais, se caso
disso fosse, na altura ainda os tribunais militares especiais, julgando
em função da acusação instruída pela própria polícia política, condenando
a penas de prisão prolongadas no continente, nas ilhas, no Tarrafal.

Accionados todos esses mecanismos, o que encontraram pela frente em


Ermidas foi uma população faminta, famílias e famílias inteiras sem
trabalho, vivendo no limiar da sobrevivência, andrajosamente vestida, mas
primeiro reprimiram, humilharam, aviltaram, agiram como se de uma revolta
organizada se tratasse e só depois, num intervalo de meses, acabariam por
verificar e concluir, impunemente, que era a desgraça, a fome, a miséria
«que assoberba(va) aquela gente».

Sob o espectro da fome

Em Novembro de 1941, o jornal 1° de Maio, órgão da FNAT -Fundação


Nacional para a Alegria no Trabalho, o organismo criado pelo Estado Novo
que tutelava o enquadramento político dos lazeres dos trabalhadores,
publicava as conclusões de um inquérito às Casas do Povo em que afirmava
que nos meios rurais, nas épocas de crise, havia assalariados agrícolas
que «se alimentam apenas com pão e azeitona».

O regime não conseguia deixar de reconhecer a situação pavorosa de


carência alimentar que grassava nos meios rurais, mas também urbanos.
Daniel Barbosa, que fora ministro da Economia nos dois anos anteriores,
afirmava em 1949 que «a situação económica da maior parte dos agregados
familiares portugueses era, pode dizer-se, insustentável, e o problema
passou, portanto, do campo económico para o campo político, criando-se
uma atmosfera pesada, cheia de descontentamento pelo país inteiro».

Na conjuntura da guerra, principalmente a partir de 1941, os preços


dispararam e os géneros escassearam, traduzindo-se na degradação das
condições de vida das classes populares. Falta a batata, o arroz, o
bacalhau, o sal, o azeite.

Faltam os géneros e fica a nu a incapacidade em assegurar a sua melhor


distribuição.
339

Instala-se o mercado negro e a especulação, cujos tentáculos vão desde os


grandes comerciantes e armazenistas aos organismos corporativos e às
entidades locais, onde germina a corrupção.

Forças policiais e governos civis constatam a situação. Sentem à sua


volta a fome e o descontentamento a crescer e reclamam medidas. Na
própria Assembleia Nacional, há deputados, não obstante terem sido
criteriosamente escolhidos pelo regime, que exprimem grande desconforto
face a essa situação. Mesmo no governo, há ministros, como os da
Economia, que percebem que a situação se está a tornar socialmente
explosiva.

Salazar, relutante, só tardiamente, por finais de 1943, determinará a


organização de um sistema nacional de racionamento. Mas as capitações são
insuficientes, chegam mesmo a diminuir em 1944 em relação a géneros como
o açúcar, o sabão e o azeite, ao mesmo tempo que passam a abarcar novos
géneros de primeiríssima necessidade, como o pão.

O ciclo de greves durante a guerra - Outubro-Novembro de 1942, Julho-


Agosto de 1943, Maio de 1944 - não é alheio a este agravamento da
situação económica e social.

A solução preconizada por Salazar e vários dos seus ministros, que era a
do equilíbrio comercial, da auto-suficiência, sintetizada no lema
propagandístico «produzir, poupar, organizar, distribuir» falhava em toda
a linha. É o próprio Salazar que o reconhece ainda em 1942. Não resistia
às grandes debilidades estruturais da economia portuguesa à
desarticulação dos circuitos comerciais, particularmente agudizadas num
ambiente internacional de guerra.

As grandes dificuldades são generalizadas e as carências alimentares


enormes. Em meio rural, evidentemente, com todas as suas
vulnerabilidades, mas mesmo em meio operário, onde o regime de salários
era, comparativamente, um pouco melhor do que nos campos.

Recorria-se a uma alimentação baseada no pão, uma malga de feijão e


couves regada com um fiozito de azeite, açordas com um pedaço de
bacalhau, uma sardinha que se divida por dois e três filhos, um bocado de
toucinho. Frequentemente, em épocas de crise mais dura, quando se
almoçava, já não se jantava.

Há, quer no campo quer na cidade, uma situação de enorme défice calórico
numa dieta sobrecarregada de hidratos de carbono, mas muito carente de
gorduras e proteínas, especialmente de origem animal.
340

Alimentos essenciais, como a carne e o peixe fresco, o leite e os

ovos constituíam elementos extraordinários no quotidiano da alimentação


popular.

Os estudos sobre alimentação estimavam que um agregado familiar


necessitasse de 12 800 calorias diárias, o que, para 1943, por exemplo,
significaria um salário diário de 28$85; todavia o salário diário médio
era de 15$30. Três anos mais tarde esse salário médio era de 22$26, mas,
com a inflação, o mínimo ideal diário a auferir pelos trabalhadores
saltara para os 36$17.

Neste contexto é de subalimentação crónica e de fome que falamos, com


todo o cortejo de consequências ao nível das doenças e da mortalidade,
particularmente infantil, que teria crescido entre 1939 e 1946 de lll,3%
para 148,6%.

O governo de Salazar respondia à pobreza nas cidades através de processos


caritativos - a Sopa dos Pobres ou as Campanhas de Auxílio aos Pobres de
Inverno, que dava continuidade ao Socorro de Inverno, criado a meio dos
anos 30.

Mas a situação era de tal ordem que os seus efeitos eram limitados.
Salazar ver-se-ia aliás na necessidade de reforçar as dotações para estas
campanhas.

As melhorias registadas no pós-guerra ao nível dos abastecimentos,


conseguida com a importação em larga escala de géneros, matérias-primas e
combustíveis, suportadas pelas reservas de ouro acumuladas durante a
guerra, contêm a especulação e o mercado negro, assegurando a contracção
da turbulência social.

Todavia, as dificuldades alimentares mantêm-se principalmente a sul, nos


vastos campos da economia do trigo, não tanto pela falta de géneros, mas
pela impossibilidade de os comprar nas duras invernias de desemprego e
fome. No Inverno de 1949, o pároco de S. Cristóvão, no concelho de
Montemor-o-Novo, escreve uma carta a Salazar expondo-lhe a situação
social na sua paróquia:

«Senhor Presidente, permita-me V. Excia., que muito respeitosamente eu


declare que os rurais vivem esfaimados, no verdadeiro sentido da palavra.
Não têm roupas, vestuário, calçado, nem alimentação suficiente; por toda
a parte os ouço lamentarem-se da sua triste situação. Vê-se de dia para
dia definhar-se a sua saúde.
341

São os rurais que, em geral, têm as famílias mais numerosas, e são também
eles que têm os salários mais baixos.

Há nesta paróquia onde resido, uma família composta de 13 membros, onde


só um filho mais velho ajuda o pai, sendo os salários, geralmente de
17$00.

O que se dá neste caso, dá-se infelizmente com outros.»

Esta situação social que levava a que grandes grupos de assalariados e


suas famílias percorressem as ruas das vilas e das aldeias esmolando e
intimidando os proprietários e as autoridades.

A forma de resolver a situação era abrir trabalhos públicos pelo Inverno


- reparação de estradas, pontes, nas barragens, obras municipais, limpeza
de ribeiras - para onde se canalizava o maior número possível de
assalariados rurais. Através de jornas baixas pagas pelo estado,
procurava-se atenuar a tensão social e o medo resultantes do desemprego e
da fome.

Em 1947, em Beja, o governador civil preparara um plano distrital de


obras públicas de Inverno, concelho a concelho, estimando que se
conseguisse dar trabalho temporário de 5000 a 7500 assalariados
neutralizaria os efeitos da crise no seu período mais agudo. Mas tudo
isto necessitava de ser financiado e os esforços nesse sentido raramente
se traduziam na absorção da totalidade dos desempregados

Era a recorrência deste tipo de situações que levava ao conflito social e


à atracção crescente pela cidade, dadas as limitações da resposta
caritativa posta em marcha pelo governo. Então, ao conflito social e à
mendicidade que extravasavam as margens rígidas deste sistema respondia o
governo com a repressão aberta.

A GNR, a PSP, a PIDE eram lançadas sobre as greves, concentrações e


movimentos colectivos, insultando, agredindo e prendendo a eito. A
polícia perseguia, por outro lado, a mendicidade urbana, conduzindo para
albergues distritais os que fossem apanhados a esmolar, submetidos depois
a trabalho compulsivo sob vigilância policial.

Mas a situação não conseguia ser resolvida. Num estudo publicado já nos
anos 50 sobre as condições de vida dos trabalhadores rurais diz-se mesmo
- «Há homens, mulheres e crianças, constituindo legiões de farrapos
humanos, abandonados em seus corpos e em seus vestuários.»
342

Nos anos seguintes, ainda que a situação alimentar melhorasse, continuava


a persistir um enorme défice alimentar. Persistia uma dieta baseada no
pão, fosse de milho a norte, de centeio nas serranias das Beiras ou de
trigo a sul; o peixe, a fruta e a carne continuavam a entrar de modo
meramente episódico na alimentação da maioria da população. As mudanças
continuavam terrivelmente lentas. Em 1974 o desnível com as dietas
alimentares europeias permanecia muito grande.

Alhandra. Maio de 1944: «Queremos pão! Temos fome!»

A massa de gente formava-se e movia-se a partir dos portões da Cimentos


Tejo. A fábrica com as suas chaminés, pavilhões e armazéns dominava
Alhandra, ali pregada à beirinha do Tejo, emparedada entre o rio e a
linha de comboios, frente ao mouchão que tomara o nome da terra. Não era
a única fábrica, mas a mais importante das redondezas, nó grande da corda
industrial que vinha de Lisboa a Vila Franca de Xira, irmanado com
Sacavém e a Póvoa de Santa Iria.

Entre o meio-dia e a uma da tarde, aproveitando o intervalo para o


almoço, a fábrica parou. Silenciaram-se as máquinas, suspendeu-se o
alimento dos fornos. De todo o lado, de todas as secções, os operários
largavam o trabalho, aderiam à greve. Seguiam o incitamento daqueles
papéis fininhos onde o Partido Comunista apelava à greve contra a falta
de géneros, contra o racionamento do pão; exortava a que largado o
trabalho se encaminhassem em marcha de fome até Vila Franca, até à Câmara
Municipal, para apresentar as suas reclamações.

A Cimentos Tejo estava no centro daquele movimento. Pela importância da


fábrica, evidentemente, mas também pela própria consistência da
organização do PCP. As greves de 8 e 9 de Maio de 1944 foram preparadas
em Alhandra, tomando a cimenteira como mola propulsora e pólo agregador.

Por isso, ao mesmo tempo que os operários começavam a largar o trabalho


na Cimentos Tejo, mãos diligentes, incumbidas das tarefas, chegavam à
Igreja Matriz, no alto da vila, e à escola feminina, tocando os sinos a
rebate, chamando as mulheres, os trabalhadores do comércio, os homens que
haviam largado o turno da noite da fábrica e mal haviam descansado em
suas casas, os operários da construção civil, dispersos por pequenas
obras, os trabalhadores dos telhais e das pequenas oficinas, os homens
dos ofícios.
343

Em A-dos-Loucos, aldeia próxima, a mobilização iniciara-se manhã cedo


nesse dia. Às oito horas começa a concentrar-se gente no largo,
arrancando pelos caminhos fora, percorrendo aldeolas, lugares e casais -
Forte, Cotovios, Rodulha, Ribeira, Casal da Coxa, Badalinho. À passagem
por S. João dos Montes já o sino da aldeia tinha tocado a rebate. Era
gente que largava o trabalho na construção civil, mulheres que suspendiam
a lida da casa, pequenos camponeses e assalariados que deixavam a labuta
da terra engrossando sempre aquela corrente humana a querer juntar-se à
marcha que entretanto descolara da Cimentos Tejo.

O engenheiro da cimenteira ainda procura demover os trabalhadores em


greve - seriam uns quatrocentos -, mas sem efeito e lá acabara encolhendo
os ombros, impotente perante aquela multidão de centenas de homens e
mulheres que antes de se encaminharem para Vila Franca ainda se dividem
em dois grupos para incorporar mais gente nas fábricas e empresas da
terra - a da «Juta», a de descasque de arroz, a «Figueira», a «Vatel» ou
a de pimentão, do «Gonzalez»....

Era um mar de gente. Duas mil pessoas, segundo o PCP, pouco mais de mil,
alvitravam outros. Fosse como fosse, era de facto um grande número de
pessoas que se movimentava e muitas outras o quiseram também fazer,
embora, tolhidas pelo medo, acabassem por sair do cortejo à medida que
este avançava estrada fora1.

Bandeiras negras da fome

Mas o que fazia mover tanta gente? O apelo do Partido Comunista, a


propaganda, a organização montada num curto espaço de tempo, seria
insuficiente se tudo isso não tivesse como base, como factor fundamental
de mobilização, um mal-estar, um grande descontentamento, enormes
dificuldades e uma profunda degradação das condições de vida das classes
populares naquela conjuntura particular de guerra.

O custo de vida aumentou brutalmente, com taxas médias anuais que, de


1938 a 1944, foram de 14,5%, por exemplo, enquanto os salários foram
praticamente congelados, provocando quebras reais acentuadas.
344

No sector dos cimentos, como no descasque de arroz ou nos têxteis, nesse


mesmo período, a quebra do salário real foi sempre superior aos 20%.

O agravamento do quotidiano dos assalariados foi tremendo, a maioria,


para mais, completamente desprotegida socialmente, seja pelos contratos
colectivos que apenas abrangiam uma minoria de trabalhadores, seja pela
inexistente segurança social.

«Produzir e poupar» era o lema da ditadura, ao mesmo tempo que sectores


patronais arrecadavam lucros da ordem dos 500%.

A escassez de géneros, derivada do efeito da turbulência da guerra nas


estruturas produtivas, agravada com o desvio de uma parte da produção
para os países do bloco nazi-fascista, desarticulou circuitos de
abastecimento e levou ao racionamento dos produtos alimentares de
primeira necessidade, fomentando ao mesmo tempo o contrabando e o mercado
negro, a que apenas muito poucos tinham acesso, ainda que fosse uma
fabulosa fonte de enriquecimento dos comerciantes, armazenistas e
intermediários corruptos e sem escrúpulos.

Desde Dezembro de 1943 que se havia iniciado um sistema de racionamento.


Na região de Lisboa, a ração de azeite era de 7,5 dl/mês, a de arroz 600
gramas, massa 400, bacalhau 1 quilo, sabão 400 gramas. Os géneros eram,
evidentemente, insuficientes e recorrer ao mercado negro impossível pelos
altíssimos preços praticados. A situação era portanto de falta de géneros
e de fome.

Na Primavera de 1944 assiste-se ainda a um agravamento desta escassez de


géneros de primeira necessidade. Em Março-Abril, géneros como o feijão,
grão ou a batata, bases da dieta popular, haviam praticamente
desaparecido do mercado. Em Abril desse ano, o governo diminui o
racionamento do açúcar, do sabão, do azeite e decreta o início do
racionamento do pão. Meia ração diária de pão de l.a era inferior a 200
gramas e de pão de 2.a menos de 300 gramas.

As Câmaras Municipais e as Juntas de Freguesia deveriam organizar o


racionamento, recenseando as famílias, a quem eram atribuídas as cartas
familiares, contendo senhas de diferentes cores, correspondendo cada uma
a um género alimentar diferente. No caso do pão, as famílias eram
obrigadas a inscreverem-se numa padaria onde iriam levantar as rações
diárias através de uma senha que, para mais e ao contrário do que sucedia
anteriormente, devia ser paga - 50 centavos para «custear as despesas de
papel e impressão» (Nota 2).
345

O PCP acompanhava a situação. Apercebia-se da degradação das condições de


vida das classes laboriosas, do descontentamento que crescia, da
radicalização que sacudia expressivos sectores operários e populares.

Dizia-se que no dia a seguir em que começasse o racionamento do pão,


rebentaria uma greve geral (Nota 3).

A 1 de Maio, o Diário da Manhã, o jornal oficioso do regime,


congratulava-se com a «atitude de elevada compreensão social que o povo
de Lisboa dignamente soube manifestar perante o racionamento do pão»
(Nota 4). Tratava-se de mera propaganda.

Escassos dias antes, Alfredo Dinis, dirigente do Partido Comunista,


controleiro da região de Lisboa, escreve ao Secretariado do Comité
Central, dizendo: «Considero o mês de Maio como um momento
excepcionalmente esplêndido para um movimento nacional de luta pelo pão»
(Nota 5), e reúne-se depois com Álvaro Cunhal, a quem explica com mais
detalhe a sua opinião, indicando que os objectivos fundamentais do
movimento a desencadear eram o protesto contra a falta de géneros, a
reclamação de aumento geral de salários e a oposição às exportações para
o Eixo.

Dinis admitia mesmo que se o movimento fosse forte na região de Lisboa,


poderia gerar condições para passar a um fase insurreccional assumindo um
carácter abertamente político e visando o derrube do próprio regime.

A proposta de Alfredo Dinis vai à reunião do Secretariado, de onde sai a


convocação de uma greve para os dias 8 e 9 de Maio de 1944, que seria
dirigida por um Comité de Greve só constituído por funcionários
clandestinos do partido, incluindo dois membros do Comité Central, que
responderiam directamente ao Secretariado.

O PCP edita um manifesto, cuja tiragem prevista era de cem mil


exemplares, onde se podia ler:

«Heróicos trabalhadores da região de Lisboa! A greve! Na manhã do dia 8


apresentai as vossas reivindicações ao patronato, paralisai o trabalho,
em seguida fazei manifestações de rua pelo pão e pelos géneros.
Trabalhadores do campo!
346

Na manhã de dia 8 tocai os sinos a rebate, parai o trabalho, juntai-vos


todos, marchai sobre as vilas em grandes marchas da fome. Operários das
vilas e aldeias! Paralisai o trabalho, uni-vos aos camponeses. Mulheres
do nosso povo! Abandonai os vossos lares e juntai-vos aos vossos
companheiros, aos vossos irmãos. Todos unidos, braço com braço, ombro com
ombro.

Que as grandes manifestações e marchas da fome se dirijam ao governo, às


autoridades, exigindo Pão e "Géneros. Desfraldai bandeiras negras, as
bandeiras da fome. Levai cartazes, onde griteis que tendes fome e quereis
Pão.» (Nota 6)

Se em Lisboa a greve não consegue descolar em empresas decisivas para o


alargamento do movimento, como a Carris ou a CUF, confinando-se a
pequenas paralisações nos estaleiros navais ou em sectores pouco
expressivos pelo impacto e pela capacidade de arrastamento, como a
construção civil ou pequenas oficinas, também na industrial Margem Sul do
Tejo - Barreiro, Almada, Setúbal, Amora, Montijo - onde tantas
expectativas haviam sido postas, a paralisação do trabalho frustra-se. A
sua amplitude circunscreve-se drasticamente.

É apenas na cintura industrial de Vila França de Xira e nos campos


adjacentes que adquire maior amplitude e melhores resultados. Na Póvoa de
Santa Iria, a Covina é o coração do movimento. Com a fábrica parada, é
junto aos seus portões que se organiza a marcha, juntando quase 600
operários e resistindo à repressão da GNR. Tocam os sinos a rebate,
juntam-se mulheres e homens, conquistam-se fábricas e oficinas nas
localidades por onde passa, em direcção a Sacavém.

Aí já a Fábrica de Louças, as Chitas e muitas outras haviam entrado em


greve, com os operários a abandonarem-nas e a partirem ao encontro da
marcha que vinha da Póvoa, rumando em direcção a Loures.

A meio caminho entre Sacavém e Vila Franca, Alhandra está em ebulição e a


marcha formada a partir da Cimentos Tejo é para Vila Franca que se
encaminha com as bandeiras negras e as faixas brancas onde, pintadas a
alcatrão, toscas letras gritavam por Pão e Géneros.
347

Aprisionados nas praças de touros

Em Alhandra, os primeiros incidentes com forças da repressão ocorrem


ainda dentro da povoação. Um dos engenheiros da Cimentos Tejo, como nem
com ameaças conseguisse desmobilizar os trabalhadores de arrancar com a
marcha, chama a Guarda.

Porém, a força policial é insuficiente perante tanta gente e limita-se a


seguir a marcha na sua cauda com homens a pé e uma camioneta com uma
metralhadora montada em cima com dois soldados e o sargento, pronto a
usá-la. É à chegada a Vila Franca, pouco antes da Praça de Touros, que se
dão os incidentes. Um grupo de marinheiros da Escola de Mecânicos, ao
surgir pela frente da multidão, terá desorientado a GNR que carrega de
espada e bastões em punho, chegando a disparar. Maria Trigueiros, mulher
de Alhandra, conta esses acontecimentos:

«Eu fui na manifestação e andei com a bandeira negra que recebi das mãos
da Rosa Charrua, que lhe passei logo depois e ela deu-a à Deolinda. Na
manifestação íamos muitas mulheres. Caímos, eu e a Maria Raimunda, junto
ao muro da escola da Marinha na Quinta das Torres, numa valeta, com o
susto dos tiros lançados ao ar. Ainda fiquei a sangrar do lado esquerdo
da face por causa da queda, porque a GNR começou a bater no pessoal...»
(Nota 7)

Na confusão gerada, a GNR consegue dividir o cortejo em duas partes.


Instala-se a confusão. Há quem consiga fugir, galgar a linha de comboio e
regressar a casa. Há quem sinta a discreta solidariedade dos marinheiros,
abrindo os pequenos portões da escola, para facilitar a fuga dos
manifestantes.

Os quadros comunistas, mais afoitos, tomam a cabeça da manifestação e


procuram levá-la para diante, avançar em direcção a Vila Franca, cumprir
o objectivo traçado, evitando a debandada geral, procurando conter,
vencer o pânico. Mesmo assim, homens e mulheres - andarão pelos
quinhentos -, rapidamente cercados, ali mesmo à entrada da vila, com a
Praça de Touros pela frente, para onde serão encaminhados sob a ameaça
das baionetas e das armas de fogo.
348

Ali ficaram algumas horas, à porta, deitados pelo chão, vigiados de perto
pela GNR. Daí ainda alguns conseguiriam fugir, furando a rede,
esgueirando-se pela linha de comboios fora. Só ao cair do dia seriam
metidos dentro da Praça de Touros, na arena, permitindo que as famílias
lhes fossem levar cobertores e alguma coisa de comer.

Foi durante a noite que a PVDE foi interrogando aquelas centenas de


homens e mulheres à procura dos cabecilhas. Formavam grupos em função das
empresas em que trabalhavam e em função do que julgavam ser as suas
responsabilidades, iam sendo separados e enviados para a Praça de Touros
do Campo Pequeno, em Lisboa, juntando-se a muitos outros vindos de outros
lados, onde permaneceram durante alguns dias, até serem remetidos para a
prisão de Caxias.

Tarefa frustrada, pois perante tão massivo número de detenções, sendo


ainda escasso o conhecimento da organização local do PCP, tornava-se
quase impossível destrinçar responsabilidades, como era praticamente
impossível manter tanta gente presa por muito tempo.

No dia seguinte, a 9 de Maio, intensifica-se no entanto a repressão


selectiva. O conhecimento policial do meio, as indicações da rede de
informadores, particularmente da legião Portuguesa e algumas declarações
de detidos fazem soar o alarme junto dos militantes comunistas que haviam
escapado às prisões. Pela região sabe-se de quem se trata, alguns são
avisados disso mesmo e fogem, no caso dos quadros do PCP «mergulham» na
clandestinidade, tornam-se funcionários políticos. É, entre outros, o
caso de Gui Lourenço, de António Vale e da sua mulher, Aurélia, de
António Tavares, de José Lopes Batista, de Atilano Reis, de Soeiro
Pereira Gomes.

Soeiro, escritor e chefe dos escritórios da Cimentos Tejo, era de há


muito militante comunista. Pertencia ao Comité Regional, era directamente
controlado por Alfredo Dinis e durante a greve fizera a ligação entre a
região, até Santarém, e o Comité Dirigente. A 11 de Maio, perante a
iminência da sua prisão, pressentindo o cerco policial a adensar-se à sua
volta, parte para a clandestinidade acompanhado de Atilano Reis, um jovem
de Vila Franca que o vai buscar a casa de táxi, dirigindo-se a Lisboa,
onde «mergulhou» na clandestinidade, chegando a membro do Comité Central.

Dois dias depois, quando a PVDE se dirige à sua casa de Alhandra para o
prender, apenas encontra a mulher.
349

Enraivecidos levam-na presa, ameaçando só libertá-la quando Soeiro


Pereira Gomes se apresentasse à polícia (Nota 8).

A imprensa do regime ou manietada pela censura dá uma imagem de um país


tranquilo, como se o movimento não tivesse passado de um ligeiro e
desapercebido sopro de vento. Para uns, a greve fora completamente
gorada, enquanto para outros, os acontecimentos ocorridos eram obra de
marginais. Segundo o Diário da Manhã, «O País desconheceu a tentativa de
greve e (...) nem um por cento dos operários obedeceu às combinações dos
agitadores.» (Nota 9)

Mas Alhandra é, pelos dias da greve e seguintes, uma terra em


sobressalto. Por determinação governamental, as fábricas mantêm-se
encerradas, como a Cimentos Tejo, a Têxtil do Sul ou a Empresa Nacional
de Penteação de Lãs e muitos, muitos dos seus trabalhadores presos,
enquanto outros andam fugidos, a monte. As tabernas foram obrigadas a
encerrar às 19 horas para evitar ajuntamentos nocturnos. Mesmo as
fábricas que puderam continuar em laboração fizeram-no com a condição de
não admitir pessoal grevista.

O Ministério da Guerra, através dos Serviços de Mobilização Industrial,


controlou todo este processo, obrigando ao despedimento do pessoal que
aderiu à greve e ficando mesmo a sua admissão noutras fábricas dependente
da autorização do ministério.

Os patrões, encarregados e engenheiros que alegadamente tiveram alguma


complacência com o movimento sofreram, por isso, represálias. O director
da Cimento Tejo seria chamado a Lisboa, preso e demitido, enquanto um
engenheiro francês da fábrica da «Figueira» que tolerou a entrada dos
grevistas da Cimentos Tejo na sua fábrica passou dois dias nos calabouços
do Governo Civil, em Lisboa.

Tudo isto, para além das inúmeras ameaças: fuzilamento dos manifestantes
presos na Praça de Touros de Vila Franca, envio imediato dos cabecilhas
para o Tarrafal...

Todavia, nalgumas fábricas, os aumentos salariais, mesmo que pequenos e


obtidos alguns meses depois, assim como a revisão do sistema e quotas de
racionamento, designadamente do pão, não são indiferentes ao ímpeto do
movimento de Maio de 1944, ainda que limitado e circunscrito à cintura
industrial de Vila Franca e muito em particular a Alhandra.
350

O regime assustava-se efectivamente com os acontecimentos e punha em


prática o mesmo tipo de medidas e de procedimentos que já adoptara nas
greves de Julho-Agosto de 1943, igualmente em plena conjuntura de guerra.
A PVDE, a GNR, as autoridades administrativas locais, a Legião
Portuguesa, a Censura, o Ministério da Guerra conjugavam esforços na
aplicação de medidas violentas, que se pretendiam esmagadoras, de modo a,
pela repressão e pelo medo, fazer recuar os vacilantes e punir os mais
ousados. Se a fome exaltava os ânimos e desesperava as vontades, havia
que reprimir a fundo, evitar que a contaminação e o alastramento pudessem
conferir dimensão regional ou até nacional e pudessem perigar o regime
sob o espectro da insurreição.
CAPITULO 15

A REPRESSÃO NA RUA

A morte de Catarina Eufémia nos campos do sul

A 19 de Maio de 1954, o Diário de Lisboa, baseando-se num relato

telefónico referente a um acontecimento ocorrido nesse mesmo dia na


aldeia de Baleizão, nas proximidades de Beja, publicava uma pequena nota:
«Numa desordem entre trabalhadores de uma propriedade agrícola, foi
chamada a intervir para restabelecer a ordem, uma força da GNR. Da
refrega, resultou a morte de uma jornaleira, Maria da Graça, de 30 anos,
casada, mãe de três filhos menores. Foram efectuadas prisões.»

Rápida, a notícia conseguira contornar as margens rígidas da Censura. Já


O Século, com menor sorte, daria no dia seguinte a versão dos factos que
as autoridades entendiam como mais conveniente - houve uma desordem entre
os trabalhadores da ceifa, a GNR foi chamada e os «soldados viram-se
obrigados a disparar alguns tiros para o ar, [porém] uma das praças ao
dar uma pontuada com a espingarda em Catarina Eufémia (...) a arma
disparou-se e uma bala foi atingi-la».

Não obstante, corrigir-se-ia o nome da assalariada rural tombada pelas


balas da GNR. Tratava-se de Catarina Eufémia, 26 anos, casada, 3 filhos,
natural de Baleizão, mas residente em Quintos, a alguns quilómetros.
352

Baleizão, sede de freguesia, a escassos 13 km de Beja, quase à beira da


margem direita do Guadiana. Predominava o latifúndio e a grande
propriedade, principalmente de gente de fora, a residir na cidade. Em
1959, na freguesia, num total de 385 propriedades apenas 25 tinham mais
de cem hectares, mas a sua área correspondia a praticamente 74% da
superfície considerada. A aldeia era uma concentração de assalariados. No
censo de 1950, dos 3028 habitantes na freguesia, só na aldeia havia 1571
activos e com profissão, sendo que, destes, 1458 dedicavam-se à
agricultura.

Se de Verão a ceifa acolhia os trabalhadores da terra e ainda necessitava


de mais, que tinham de vir de fora, de Inverno, os trabalhos da apanha da
azeitona não chegavam para todos. Organizavam-se então ranchos que
cruzavam o Guadiana em busca de trabalho nos olivais de Brinches, Pias,
Serpa ou Moura.

Nesses meses de fome ia-se ao rabisco da azeitona ou à caça, mesmo em


período de defeso, expedientes proibidos, com a GNR sempre à espreita
para intimidar, multar, agredir.

Mesmo em época de maior abundância de trabalho, as jornas eram magras e a


alimentação baseava-se no pão. Em sopas de alho e vinagradas, com um naco
ressequido de bacalhau, ou apenas pão com toucinho cru, com uma sardinha
às vezes dividida por três. Nos piores momentos chegavam-se a colocar
pedras no taleigo do farnel para que os outros, companheiros, filhos, não
percebessem que nada tinham que comer.

Catarina integrava os ranchos da terra, assim designados porque incluíam


gente da localidade ou das cercanias em que se realizavam os trabalhos
agrícolas. Estavam em greve. Reclamavam jornas mais altas, 52$00 para os
homens e 32$00 para as mulheres. Era frequentemente assim pela Primavera
e início do Verão. Na altura das ceifas, os trabalhos não podiam esperar
e a pressão sobre os agrários tornava-se, por isso, mais forte.

Era nesta altura, com tanta necessidade de mão de obra, que os agrários
tinham de recorrer aos ranchos de fora. Vinham grupos de mulheres e de
homens dos outros lados do Alentejo, de mais perto ou de mais longe.
Vinham também do Algarve ou das Beiras, gente que descia à planície em
busca do trabalho e do pão que lhes faltava nas suas terras, onde, meses
a fio, deixavam a família, os amigos, os vizinhos.
353

Estes recebiam em regra menos. As necessidades e as agruras da distância


tornavam-se maiores, e com isso tornava-se também mais fácil aceitarem o
que os agrários lhes queriam pagar.

Convencer os de fora a largar o trabalho

O Dr. Fernando Nunes era um desses agrários, proprietário abastado de


Beja, com terras em Baleizão. Com os jornaleiros da terra em greve e um
campo de favas por apanhar, deita mão de um desses ranchos de fora, de
Penedo Gordo, homens e principalmente mulheres a quem paga a 18 e 12$00
ao dia.

Mal a notícia de que os de Penedo Gordo estavam a apanhar fava para o Dr.
Fernando Nunes, ali mesmo às portas de Baleizão, logo duas das
assalariadas dos ranchos da terra em greve se dispuseram a ir convencer
os de fora a largar o trabalho e a aderir também à greve. Mas sem
resultado, pois acabaram escorraçadas pelo feitor.

Ao voltarem à aldeia e ao contarem o sucedido, a indignação cresceu e


depressa se juntou um grande grupo. Eram centenas de homens, mulheres com
crianças pela mão e ao colo que se chegaram aos de Penedo Gordo,
convencendo-os assim a suspenderem o trabalho.

A força militar da secção da GNR em Baleizão conseguiria dispersar aquele


grande grupo de trabalhadores rurais, pressionando depois os do rancho
regressassem ao trabalho.

A GNR, com o seu dispositivo territorial disseminado numa profusa rede de


postos e subpostos locais controla a quadrícula do território social;
desempenha um papel fundamental na manutenção de uma ordem ao serviço dos
grandes agrários e dos poderes locais, sejam Grémios e Casas do Povo,
Câmaras Municipais ou a União Nacional.

A Guarda conhece o ambiente por dentro, identifica os que, pela exposição


pública, se destacam, ameaça, prende quando necessário, protege os
ranchos de fora, acode rapidamente ao chamado dos lavradores.

Crescia a indignação com a acção da GNR. Formavam-se grupos mais pequenos


junto à aldeia, na berma das estradas falando, gesticulando, fervendo de
indignação.
354

Uma camioneta cheia de guardas que entretanto passava na estrada,


cruzando neste tempo de tensão social acrescida mais amiudadamente os
caminhos do Alentejo, ao ver tanta gente parou, formou e de baioneta
armada quis dispersar a multidão, que lhes fez frente, acabando a polícia
por recuar e ir-se embora.

Como uma onda a levantar-se, o ambiente fervia em Baleizão, os ânimos


andavam exaltados, os assalariados teimavam em convergir para junto do
rancho de fora, que continuava a trabalhar, protegido pela Guarda.

Três tiros nas costas

O agrário fora entretanto informado em Beja do que se estava a passar e


dirige-se rapidamente à aldeia. Ao mesmo tempo, o comandante da secção da
GNR, tenente Carrajoia, também já no local, procura dispersar os
trabalhadores rurais, impedir a formação de grupos e, acima de tudo,
mantê-los afastados e evitar que chegassem de novo à fala com os de
Penedo Gordo.

Os soldados de armas apontadas formavam uma barreira entre o povo e o


rancho. Mais atrás, perto do rancho, abrigado por uns molhos de favas,
ficou Carrajoia armado com uma metralhadora ligeira. O agrário
acompanhava também de muito perto os trabalhos.

Perante tanta pressão dos de Baleizão em quererem só falar com os do


rancho, a Guarda deixou passar, para esse efeito, um grupo de quinze
mulheres. Carrajoia salta ao caminho e, aparentemente descontrolado e
impulsivo, depois de disparar uma primeira rajada para o ar, que não
teria sustido as mulheres, dirige-se à que vem à frente, com um filho de
oito meses nos braços e entre o insulto, a agressão física, o tombo da
criança e os tiros à queima-roupa correu um instante.

Catarina Eufemia morreria ali com três tiros nas costas. Na versão
corrente, Carrajoia teria abordado a mulher em termos intempestivos -
«Que queres, bruta?», a tempo ainda desta lhe retorquir - «Quero é pão
para matar a fome aos meus filhos! Quero paz! Tenho fome!»
355

Acabaria por ser o agrário a impedir danos mais extensos. Carrajola teria
feito novos disparos, mas para o ar. O corpo seria colocado no carro do
agrário e rapidamente transportado para o hospital de Beja.

Os trabalhadores não se teriam apercebido de que o corpo partia dali já


sem vida e disso só tomaram conhecimento pela noite. A aldeia seria
ocupada pela GNR que impôs recolher obrigatório. No posto da Guarda
vários trabalhadores iam sendo interrogados.

A 20 de Maio realizou-se o funeral. Milhares de pessoas de Baleizão e de


Beja juntaram-se frente ao hospital à espera que o carro funerário
saísse. Terá sido nesta altura que começou a circular a informação de que
Catarina estava grávida, o que a autópsia não confirmaria.

Numa manobra de diversão, a polícia pôs a circular que o corpo ia para


Lisboa e quando um carro sai do pátio do hospital tomando essa direcção,
a polícia e a GNR carregam sobre o povo, que reage à pedrada e no corpo a
corpo. Dispersada a multidão, um outro carro sairia finalmente com o
corpo em direcção a Quintos, em cujo cemitério seria sepultada.

Dias depois são feitas 12 prisões em Baleizão. A 24 de Maio é que termina


a greve com o regresso dos assalariados ao trabalho por uma jorna de
40$00, ainda que pelo menos o agrário Fernando Nunes acabasse por pagar
uma jorna de 50$00 para os homens.

Foram dias de grande tensão. Alguns agrários recusaram-se a meter ao


trabalho gente da terra. Os guardas da GNR andavam com os nervos em
franja. A PIDE manteve dois agentes na aldeia durante 28 dias. Onze
assalariados - 3 homens e 8 mulheres - iriam a julgamento sumário, mas
absolvidos seriam recebidos por uma aldeia alvoroçada.

Uma informação policial de finais desse mês de Maio sobre a «situação e


ambiente geral no Alentejo» refere que o ambiente é bom, excepto na
região de Beja, onde prevê um agravamento substancial, pois «pensam
queimar as searas desde Cuba a Moura e bem assim irem para uma greve de
grande vulto, na qual terão papel preponderante as mulheres, que serão
das da frente».

Catarina Eufémia assassinada tornar-se-ia num dos mais poderosos mitos da


resistência ao Estado Novo, símbolo da resistência colectiva dos
assalariados agrícolas dos campos do sul.
356

<Lista mensal de presos da PIDE, Janeiro de 1951 (ANTT/MAI - GM - PI 003


cx. 248): omitida>

De qualquer forma, o modo como tombou varada pelas balas da GNR,


simboliza também bem a função e o lugar de uma força militar como a GNR
agindo como guardiã do regime na quadrícula do terreno, impondo-se pela
intimidação e pela violência.

O Couço em «estado de sítio»

João Camilo, barbeiro, natural do Couço e aí residente, tinha 38 anos


quando foi preso pela segunda vez, ao fim da manhã de 23 de Junho de
1958. Com ele mais três indivíduos dessa mesma localidade do concelho de
Coruche.

A GNR e a PIDE respondiam assim à greve que eclodia nesse dia, depois de
duas semanas de congeminação.

Como por muito lado, o anúncio dos resultados das eleições presidenciais
de 8 de Junho, conferindo uma vitória confortável ao almirante Américo
Tomás, o candidato do regime, haviam constituído uma enorme decepção e
levantado uma funda desconfiança de fraude eleitoral.
357

Podia lá ser de outra forma, se o entusiasmo e a amplitude do apoio ao


general Humberto Delgado fora tão grande.

É certo que no Couço, mesmo oficialmente, o general ganhara, mas ninguém


se conformava com os resultados gerais e reclamava-se greve para pôr
cobro a tamanha desvergonha (Nota 1). Seria a resposta popular à fraude
eleitoral! Admitindo essa possibilidade, mas não a convocando
explicitamente, o Comité Central do Partido Comunista hesitava em
momentos cruciais. Ainda assim eclodem greves, espontâneas ou por
iniciativa de organismos locais do PCP entre 12 e 16 de Junho na zona de
Almada, nos conserveiros e os pescadores em Matosinhos e na Afurada, na
zona de Vila Franca de Xira e entre os assalariados rurais de Baleizão,
Vale de Vargo, Serpa, Escoural, Quintos, Alandroal...

Só a 18 de Junho é que a Comissão Política do PCP apela à generalização


das greves por todo o país, cujos efeitos se começarão a notar justamente
a partir de 23 (Nota 2). E foi nesse dia que se desencadeou a greve no
Couço, uma das mais importantes ocorridas a sul.

Falava-se muito na greve por esses dias entre as gentes do Couço. Teriam
havido inclusivamente reuniões amplas, pelos campos, à noite, com vista à
sua preparação, da última das quais, na véspera, saiu um Comité de Greve,
composto por 15 elementos, vencendo-se a indecisão de alguns e levando
por diante um protesto que ia de encontro à vontade e à determinação de
muitos (Nota 3).

Na manhã de 23, o comércio, as oficinas não abriram portas, os


assalariados não pegaram ao trabalho e a população - destacavam-se as
muitas mulheres - saiu à rua num ambiente descrito como de grande
alegria, de festa. O Couço estava de facto em greve.

As forças locais da GNR e a brigada da PIDE que já estava na aldeia jogam


na intimidação. É neste contexto e com este fim que é preso João Camilo,
há muito identificado com o PCP e que, para mais, se havia então
destacado à frente da comissão local de apoio à candidatura de Arlindo
Vicente. E com ele mais três indivíduos, irmãos, que se encontravam no
largo e que não teriam dispersado à ordem da Guarda.

Porém, o efeito é o contrário. Frente ao quartel da GNR, para onde foram


levados os presos, começa a juntar-se gente, muita gente.
358

O PCP fala em mais de 4 mil pessoas. Seriam mil ou mil e quinhentas, uma
grande concentração de gente, de qualquer forma. Grita-se por liberdade,
contra a tirania, contra o fascismo, dão-se vivas a Arlindo Vicente e a
Humberto Delgado, os dois candidatos presidenciais da oposição, exige-se
a libertação dos presos (Nota 4).

É de uma greve política que se trata. Atarantados com a situação, os


agrários, os homens do regime, percebem-no bem. A Guarda pede mais força
policial. Porém, à medida que a situação aquece, as dificuldades de
comunicação da aumentam, pois entretanto os fios dos telefones haviam
sido cortados ou enleados.

Num jipe O comandante da força local da GNR tenta avançar, de modo a


dispersar a concentração, mas a população resiste, faz frente, dão-se
confrontos, mas a Guarda é obrigada a recuar e a libertar os presos.
Camilo é vitoriosamente transportado aos ombros dos manifestantes.

Não demorará, no entanto, com a chegada de reforços policiais a que a


situação se altere completamente. De novo segundo o PCP seriam 300 os
elementos da GNR a invadir o Couço, a ocupar literalmente a povoação. Vêm
de Santarém, mas também de Évora, de Portalegre, de Elvas. Quatro ou
cinco soldados armados passam a patrulhar cada rua. Intimam
agressivamente a dispersão. Não permitem ajuntamentos, nem sequer ninguém
nas ruas (Nota 5).

No dia seguinte a resistência popular reorganiza-se. Grupos, por vezes


grandes, de dezenas de elementos, partem pelos campos, de rancho em
rancho, apelando à greve. São os «gafanhotos» (Nota 6). A paralisação do
trabalho alastra pelos campos fora. Nos arredores do Couço, em Santa
Justa e Santana do Mato, desenvolve-se em direcção a Coruche, às
barragens do Maranhão e de Montargil, no caminho de Avis.

Enleiam-se nos objectivos abertamente políticos da greve, outras


motivações, económicas, reportando-se às jornas baixas, 20$00 e menos
para as mulheres, nalguns casos, reforçando-se deste modo os factores de
mobilização e a abrangência do movimento. Com as searas maduras era a
altura das greves por jornas mais altas, pressionando os agrários entre a
cedência ou a perspectiva de perder a colheita.

São feitos novos cortes de linhas telefónicas, enquanto a Guarda tenta


enfrentar a situação. Multiplicam-se as prisões.
359

Muitos, na iminência de serem presos, fogem, pernoitam pelos campos. Mas


a greve persiste. Se as estradas estão cada vez mais policiadas, os
«gafanhotos» trocam as voltas à Guarda, evitam-nas, andam por veredas e
caminhos velhos.

Será no entanto a repressão, o aumento do número de indivíduos presos que


determinará o fim da greve ao cabo de seis dias, a 28 de Junho.

João Camilo será novamente detido logo no dia seguinte à sua libertação e
entregue à PIDE «por abandono do trabalho» (Nota 7), para só ser
libertado seis meses depois.

Algumas prisões foram feitas pela GNR no encalço dos grupos de


«gafanhotos», outras, cirurgicamente dirigidas, decorriam dos
interrogatórios e das informações recolhidas quer pela GNR quer
directamente pela PIDE.

Na herdade de Água Boa, a GNR de Mora prendeu um grupo de 13 mulheres,


todas morando no lugar de Varejola, nas proximidades do Couço «por terem
ido a um rancho de outras mulheres e homens que ali andavam trabalhando,
incitando-os e querendo-os obrigar a declararem-se em greve» (Nota 8).

Mas a PIDE elaborara várias listas com aqueles que considerava serem os
orientadores da greve, alguns dos quais andavam fugidos, como Joaquim
José Dias, conhecido como «O Capador», que aparecia à cabeça da lista e
que era referenciado nos relatórios policiais como tendo procedido ao
corte dos fios telefónicos e encabeçado o grupo de «gafanhotos» que se
dirigiu à barragem de Montargil para instigar à greve (Nota 9).

Ainda assim a polícia política envia a tribunal mais de 80 indivíduos,


homens e mulheres, em pelo menos seis processos diferentes. E se a grande
maioria das prisões ocorre em Junho, a PIDE regressa ao Couço para
juntamente com a Guarda efectuar em Setembro interrogatórios, sempre
marcados pela agressividade e ainda algumas prisões.

Há famílias com vários elementos presos, mãe, filhos, nora... (Nota 10),
a maioria dos quais, apesar da falta de provas consistentes, só serão
libertados entre Outubro e Dezembro desse ano.
360

Não obstante movimentações sociais anteriores e a presença activa do PCP


a partir do segundo pós-guerra, os contornos desta greve, a sua duração,
os confrontos com a GNR, a astúcia dos militantes comunistas trocando as
voltas à Guarda e à PIDE, a amplitude da base de apoio à greve,
envolvendo grande parte da população, assalariada ou não no latifúndio,
colocavam a localidade sob intensa vigilância policial, desencadeando uma
onda de investidas policiais e forçando-a a um ambiente de quase estado
de sítio permanente que se arrastou durante muitos meses.

A jornada das oito horas

Porém, a conflitualidade social não desapareceu na ressaca da greve de


1958. Com o desemprego estrutural pelo Inverno, realizavam-se
concentrações frente à Casa do Povo, reclamando trabalho, fosse nas obras
públicas ou para os agrários. Mas era assim por todo o sul, seguindo a
geografia do trigo e do seu ciclo produtivo e, por isso, a intensa
vigilância policial até podia tomar essas movimentações como espontâneas.

Menos espontâneas, no entanto, algumas iniciativas, como o piquenique que


no primeiro de Maio de 1960 juntou mais de um milhar de pessoas ou outros
convívios do mesmo género que, reunindo muita gente, favoreciam formas
subtis de propaganda e de discussão.

Sob esta aparente espontaneidade e até uma certa capa de ingenuidade, o


Partido Comunista iniciara logo após a vaga repressiva de 1958 um intenso
trabalho de reorganização que acabaria por beneficiar do espírito e da
mobilização verificadas na greve de Junho desse ano.

Quando em Dezembro de 1960, conjugando informações recolhidas, a PIDE


irrompe pelo Couço de madrugada, invade e rebusca uma série de casas e
procede a um vasto conjunto de prisões, a organização comunista dispõe de
cerca de 150 militantes organizados, vários comités de assalariados
agrícolas, uns de homens e outros de mulheres, organismos para a luta
económica, para a juventude e para o trabalho unitário, um aparelho de
imprensa que distribuía 170 exemplares do jornal Avante!, 160 de O
Camponês e 70 de O Militante, 250 simpatizantes e vários pontos de apoio
(Nota 11).

Os interrogatórios sob tortura prolongada vão suscitando novas prisões e


preciosas informações sobre o funcionamento partidário.
361

São presos mais de três dezenas de indivíduos e instaurados seis


processos. Contrariamente ao que sucedera dois anos antes, muitos dos
arguidos são condenados a penas de prisão que, nalguns casos, sendo de
dois anos, com a aplicação das iníquas medidas de segurança, faz com que
só saiam da prisão em 1966 (Nota 12).

Meses depois destas prisões, as movimentações nas praças de jorna


continuam a ocorrer e nas eleições de Novembro de 1961 houve mesmo uma
concentração de muitas dezenas de pessoas junto à secção de voto onde se
gritou por Amnistia e contra Salazar, ao mesmo tempo que se reclamava
direito a voto.

Prevendo a situação, as ruas do Couço eram patrulhadas pela GNR a cavalo


e perante os incidentes são chamados reforços motorizados a Coruche para
dispersar os manifestantes.

No ano seguinte, a propósito da luta pelas 8 horas de trabalho, que


envolveu uma grande preparação com a realização de grandes reuniões no
campo, a PIDE volta a invadir a aldeia na madrugada de 27 de Abril, antes
das datas marcadas para as greves e para o 1.° de Maio, tomaram de
assalto algumas casas, metendo portas dentro por arrombamento,
provocando, insultando, espancando e prendendo 10 homens e 5 mulheres,
sujeitos a tortura para obter declarações que constituíssem matéria de
prova e a quem foi instaurado processo, remetido para o Tribunal
Plenário.

Para além disso a GNR e a PIDE montaram um esquema de vigilância e


intimidação pelas estradas do sul, e também no Couço, evidentemente, com
inúmeros pontos de controlo, pedindo a identificação de quem passava e
patrulhando as aldeias e vilas.

Mesmo assim, houve dois dias de greve pela jornada de trabalho de oito
horas e realizaram-se piqueniques para assinalar o dia do trabalhador. A
organização comunista conseguia, mais uma vez, resistir à ofensiva
policial, reorganizar-se e manter níveis de actividade que atarantavam as
forças repressivas, em particular a PIDE, e os agrários. Serão desta
altura as tentativas mais sérias de implementar uma rede de informadores
e de infiltrar mesmo a organização comunista local. Contudo, sem efeito
visível.
362

Seriam, nos campos do sul, transformações de natureza económica,


designadamente por via da mecanização da agricultura, que iriam provocar
o êxodo rural, quer para as cinturas industriais quer para a emigração,
esvaziando a base social que naquele tremendo contínuo de quase quatro
anos havia conseguido resistir a vagas repressivas aparatosas, mantendo a
actividade reivindicativa e acompanhando as grandes batalhas políticas de
dimensão nacional que, naqueles anos, sacudiram o regime.

De 1962 em diante não se registariam mais vagas de prisões e de


intimidação violenta com a ocupação da aldeia. Mas o Couço, mercê dessa
enorme turbulência social e política que cruzou os anos de 1958 a 1962
inscrever-se-ia como «aldeia vermelha», tanto para a resistência à
ditadura e ao seu imaginário como para o regime e os seus aparelhos
repressivos.

Aljustrel sob fogo da GNR

A 28 de Abril de 1962, já o dia se tinha cerrado sobre a vila de


Aljustrel, quando estalaram dois foguetes lançados do largo da feira. Por
toda a vila ressoaram vozes alteradas, mas era do largo que o alvoroço
mais se inflamava. Seriam centenas de homens e mulheres de todas as
idades, vindas de todos os lados, que se agrupavam, encaminhando-se para
o quartel da GNR, um troço de 400 metros galgado em dois tempos.

Gritavam «Abaixo a guerra de Angola!; Amnistia, Amnistia!; Abaixo o


salazarismo!» e cantavam o hino nacional. Uma patrulha da Guarda que
regressava ao quartel cruzara-se com aquela multidão irada debaixo de
vaias, pedradas e, diziam, que até de tiros de pistola. Por isso trataram
de acelerar o passo não fossem linchá-los com a fúria em que estavam.

Pouco antes, na rua central da vila, já o comandante da secção da GNR e


três soldados da mesma força haviam, a custo, conseguido dispersar
pequenas concentrações de pessoas, meia dúzia aqui, dez acolá, falando em
surdina, como quem espera alguma coisa. Fora necessário pedir reforços ao
posto e a animosidade e resistência dos populares era patente. Mandados
dispersar, metiam-se nos cafés, saltavam de uns para os outros,
reagrupando-se em pequenos magotes, trocando as voltas aos guardas. Fora
necessário esvaziar os cafés e tabernas para desocupar a rua. Mas o novo
foco de movimentação popular, agora do outro lado da vila, como que
anunciado pelos morteiros, mostrava que a situação não estava nada
resolvida, como pensara o comandante da Guarda.
363

Reacendia-se a agitação e com força acrescida. Julgava a GNR que o posto


ia ser assaltado e que o fito dos manifestantes era libertarem os presos
que a PIDE aí tinha mantido para serem enviados para Lisboa.

O ambiente andava tenso em Aljustrel nos últimos tempos. Vila mineira


desde o século XIX, assente sobre a grande faixa piritosa que cruzava
transversalmente o sudoeste peninsular, constituía a mais importante
concentração operária do Alentejo.

Se a questão social não tinha propriamente as mesmas tradições da Mina de


S. Domingos, o outro grande centro mineiro alentejano, o certo é que a
que a partir de meados do século passado, do segundo pós-guerra, com o
declínio de S. Domingos, vinha ganhando força e alguma impetuosidade.

Concentrações junto ao Sindicato Nacional dos Operários Mineiros e


Ofícios Correlativos do Distrito de Beja, sindicato corporativo cuja sede
se justificava que estivesse em Aljustrel: reclamações, exposições,
abaixo-assinados, greves tomando como palco a poderosa empresa mineira de
capitais belgas - a Societé Belge des Mines, que dispunha de posto
policial próprio constituído por agentes da PSP, tudo isto, acompanhado
pela presença intimidatória da GNR e da PIDE, frequentemente chamada para
prender os que mais se expunham na actividade contra o regime, ia
construindo a simbólica de vila vermelha sob a hegemonia do Partido
Comunista Português.

Nesse mês de Abril de 1962, a bem dizer ainda não tinha saído da memória
da população o movimento grevista de dois anos antes por aumentos de
salários, que começara com uma espécie de greve de zelo, suficiente para
rapidamente começar a afectar a produção, enervando a administração que
despede 12 trabalhadores e manda chamar a GNR, a PSP e a PIDE para
policiar as minas e prender os cabecilhas. Por mais salários e contra os
despedimentos, os trabalhadores e os 150 mineiros a trabalhar nos Algares
ocupam o fundo da mina enquanto os de cima e os do turno seguinte,
acompanhados de mulheres e filhos, ocupam o sindicato corporativo. As
ocupações duram mais de um dia e só pela violência e pela repressão
dobram o movimento. Fica, no entanto, o exemplo, a perdurar meses fora.
364

Comemorava-se agora o segundo aniversário daquele movimento e, para mais,


aproximava-se o 1.° de Maio. Como de costume a PIDE fizera prisões para
intimidar e prevenir e a GNR reforçara os seus efectivos na vila,
passando a patrulhá-la ostensivamente.

Um dos elementos que se encontrava preso era Edmundo Silva, somando essa
a várias outras passagens pelas prisões salazaristas. Tratava-se de um
conhecido oposicionista local, em cuja livraria se reuniam adversários
declarados do regime, onde se discutia acaloradamente a situação
política. Ao todo teriam sido presas 10 ou 15 pessoas, a maioria da vila
de Aljustrel, mas também de Jungeiros e Montes Velhos, aldeias do termo.
Nas placas das estradas à volta da vila aparecia escrito a grossas letras
negras - Fora Salazar!

«Tiros em pontaria baixa»

Naquela noite de Abril de 1962, sete soldados da GNR sob o comando de um


2.° sargento saíram ao encontro da multidão que avançava. Foi a cem
metros do posto que os confrontos se deram. A Guarda quis dispersar a
manifestação, deu ordens para isso, mas encontrou pela frente gente
determinada que lhes respondeu - «Bandidos, larguem as armas e não sejam
cobardes. Venham para aqui!» Ao mesmo tempo voavam pedras arremessadas
pelos manifestantes, empurrões e de novo os guardas a dizerem que também
tiros de caçadeira e até de pistola.

Amedrontados com a situação, em clara inferioridade numérica, responderam


com a força das armas. O relatório da própria GNR sobre os acontecimentos
não dá lugar a grandes dúvidas: «Em face da situação e das ordens
existentes, o comandante da força deu ordem para se fazer uso das armas e
a execução de algumas descargas para o ar. Como a multidão não se
intimidasse e continuasse a agredir a força, foram feitos tiros para eles
em pontaria baixa, de que resultou terem sido atingidos alguns dos
manifestantes» (Nota 13).

O pessoal do posto da PSP, ao serviço da Empresa Mineira, tratou


rapidamente de ocupar o paiol e a central eléctrica, receando a ocupação
daquelas instalações por parte dos manifestantes.

Mas, à força de tiros, a manifestação é desbaratada e no tropel da


debandada há correrias por todo o lado, gritos desencontrados, mulheres e
crianças derrubadas, balas crivadas nas paredes das casas e nos muros das
ruas.
365

No chão fica o corpo de dois homens, mortos pelas balas da Guarda -


António Adângio, solteiro, 27 anos, militante do Partido Comunista, e
Francisco Madeira, casado, 41 anos, ambos mineiros e residentes em
Aljustrel.

Quatro ficaram feridos com gravidade, dois homens, um servente de


pedreiro de 17 anos e um mineiro de 25, e duas mulheres, domésticas, de
40 e 50 anos. Muitos outros, igualmente molestados, conseguiriam fugir
pelo seu pé ou ajudados por companheiros e vizinhos.

Só depois de reassumido o controlo da situação na vila pela GNR, é que


foram recolhidos os corpos tombados em plena rua para serem então,
rapidamente transportados para os hospitais de Aljustrel e de Beja, onde
os feridos seriam mantidos sob prisão.

Os funerais realizar-se-iam logo no dia seguinte, a 29 de Abril, mal os


corpos chegaram de Beja, onde haviam sido autopsiados, menos de 24 horas
depois dos fatídicos acontecimentos e apenas com a presença da família,
por força do forte dispositivo policial presente, que vedou o acesso ao
cemitério.

Os aparelhos policiais repressivos do regime teriam conseguido apaziguar


Aljustrel de efervescências tumultuarias de envergadura, mas não
conseguiriam impedir que se tornasse um símbolo da resistência contra o
regime, uma resistência contra a ocupação da vila pelas forças policiais,
contra o policiamento dos movimentos e dos pensamentos dos seus
habitantes, contra a intimidação, a prisão de muitos deles, os dois
assassinatos e os muitos feridos nos confrontos, como os que ocorreram em
Abril de 1962, mas fundamentalmente contra a promiscuidade total entre os
interesses dos capitais mineiros e a protecção total e violenta que o
regime lhes facultou.

A polícia de choque.

As eleições de deputados para a Assembleia Nacional estavam marcadas para


12 de Novembro de 1961.
366

A Oposição, que apresentara listas em oito círculos do Continente e no


Funchal, anunciara a 7 desse mês que retirava as suas candidaturas por
falta de condições democráticas. Por esses dias, o PCP fazia distribuir
milhares de tarjetas apelando a manifestações contra a farsa eleitoral no
dia 11, na véspera das eleições.

Nesse dia, a Avenida da Liberdade, para onde fora convocada a


manifestação em Lisboa, estava ocupada por centenas de polícias de choque
armados, soldados da GNR a cavalo e brigadas da PIDE. O trânsito estava
cortado no acesso à Praça dos Restauradores e ao Rossio. Mesmo assim, a
partir dos lados da avenida a manifestação ainda se consegue formar,
gritando: «Abaixo a burla!, Liberdade!, Amnistia!, Paz!»

As brigadas móveis da PSP - a polícia de choque - investem então


violentamente sobre os manifestantes, à bastonada e à coronhada,
agredindo inclusivamente quem acidentalmente passava pelo local. São
disparados tiros para o ar e lançados gases lacrimogéneos.

Em Almada, também nesse dia, as brigadas de choque da PSP intervieram


brutalmente, secundadas pela GNR e pela PIDE. A manifestação, que
arrancara da Cova da Piedade, só consegue ser dispersada na zona da
Academia Almadense, em pleno centro de Almada. Nos recontros, a PSP acaba
por assassinar Cândido Capilé, um jovem operário corticeiro, militante
comunista.

Quando o funeral se realiza, a 14 de Novembro, Almada está ocupada com


muitas centenas de polícias e soldados da GNR. Só membros da polícia de
choque seriam à volta de duzentos, que voltam a intervir contra um mar de
gente indignado por a polícia ter levado o corpo a sepultar em Lisboa.

Já durante a campanha, a presença das brigadas móveis da PSP destacara-se


na instalação de um ambiente repressivo, com intervenções brutais em
várias ocasiões. Em Lisboa, por exemplo, a polícia de choque intervém a
29 de Outubro, depois do funeral de Câmara Reys, que fora director da
Seara Nova, quando se forma uma manifestação de jovens que avança do
cemitério do Alto de S. João para a praça do Chile; a 2 e a 6 de Novembro
sobre manifestações estudantis que se entrelaçam com o contexto eleitoral
gritando por eleições livre e por liberdade.
367

A presença da polícia de choque, a Companhia Móvel da PSP, com as suas


brigadas, especialmente treinadas e equipadas para enfrentar situações de
agitação e de protestos nas ruas, tornava-se particularmente mais intensa
e mais notada naquela conjuntura directamente saída das eleições
presidenciais e da campanha do general Humberto Delgado, dois anos antes.
O ano de 1961 fora particularmente agitado, mas o ano que se lhe seguiu
foi ainda mais tumultuoso, e a presença da polícia de choque tornou-se
frequente e particularmente repressiva, fosse nas manifestações do 1.° de
Maio ou na crise académica da Primavera-Verão desse ano, em Lisboa e em
Coimbra.

Esta unidade policial fora criada em 1937, por proposta do então tenente
Silva Pais, feita logo no ano em que entrara para a PSP. A conjuntura que
então se vivia era muito marcada pela situação de guerra civil em
Espanha, com forte agitação nas ruas por parte das forças e sectores que
se identificavam com o campo republicano no país vizinho, o que levou a
uma grande radicalização por parte do governo. A situação política
propiciava a criação de uma unidade policial especialmente destinada à
repressão de rua e Silva Pais, que viria a ser director da PIDE a partir
de 1962 e até 1974, percebera-o claramente.

Com uma actuação dirigida particularmente para os meios urbanos, a


intervenção da polícia de choque passaria a tornar-se uma constante para
reprimir as manifestações estudantis, como as que ocorreriam nos períodos
eleitorais, promovidas pelas oposições ou ainda pelas comemorações do 1.°
de Maio.

O espancamento

Eram quatro, cinco, surgidos da noite, que as agarravam, abanavam,


levantando as saias, puxando pelos decotes, procurando por papéis,
manifestos.

Já dentro do carro estacionado, Urbano Tavares Rodrigues, escritor, na


altura com 46 anos, candidato às eleições de 1969 para a Assembleia
Nacional pelo círculo de Beja na lista oposicionista, esperava que as
suas amigas entrassem, para lhes dar boleia. Saiu do carro e procurou ir
em defesa delas, apesar daquela pistola que uma mão firme, experimentada,
empunhava quase encostada à sua cabeça, enquanto lhe gritava: «Dá cá os
papéis, meu comunista de merda, ou mato-te já.» (Nota 14)
<Relatório sobre a situação do país enviado ao ministro do Interior nas
vésperas do 25 de Abril de 1974: omitido>
369

Outros, muitos outros, tinham-se já juntado aos agressores. Seriam agora


uns doze, talvez mais, em círculo à sua volta, insultando-o e agredindo-o
a murro, sacando de compridos bastões com que o vergastavam
impiedosamente na cabeça, nas costas, nos braços e nas pernas.

Quis resistir, quis responder às agressões reagindo com murros e pontapés


em todas as direcções, quase sempre no ar, sem atingir ninguém.
Organizados, afastavam-se dos seus movimentos desconexos para investir,
certeiros, de seguida. Durante uns dez minutos, indefeso, foi
ininterruptamente espancado, mesmo caído sobre a capota do carro.

Tudo se passara na madrugada de 6 de Outubro de 1969, à saída de uma


sessão pública da CEUD - Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, uma
das listas da oposição ali desavinda. Primeiro fora a presença grossa da
PSP no local para intimidar e desaconselhar a participação dos mais
susceptíveis na sessão pública. Depois, desaparecida a polícia, vinha a
PIDE e Legião Portuguesa para tratar dos que, mesmo assim, haviam ousado
comparecer.

Urbano Rodrigues, de entre os agressores, ainda reconheceu alguns dos


agentes da PIDE que o haviam interrogado e vigiado poucos meses antes,
quando fora preso pela última vez, em 1968. Mais tarde dir-lhe-iam que
outros dos que o haviam atacado eram da Legião Portuguesa.

Rompendo as malhas apertadas da Censura, alguns jornais noticiaram, como


puderam, o acontecido. Veio então, cínico, o ministro da Justiça da
altura estranhar que as coisas assim se tivessem passado, pois não fora
apresentada qualquer queixa por agressão. Secundavam-no alguns jornais,
mais mancomunados com o governo, duvidando também do ocorrido.

Em resposta, quis Urbano Rodrigues esclarecer em carta aberta o que


realmente havia sucedido, o que a Censura impediu, proibindo a sua
publicação fosse em que jornal fosse.

A liberdade, mesmo em período eleitoral, que se dizia tolerada, era


aquilo. Uma sucessão de arbitrariedades e violências, orquestrada pelo
regime, cujo objectivo era condicionar e reprimir a actividade das
oposições.
370

As reuniões, quando não eram proibidas, eram vigiadas; as sessões


públicas realizadas sempre na presença de um agente policial que as
interrompia quando entendia serem excessivas as críticas ou as denúncias
ao governo; as sedes e residências dos candidatos devassadas e
vasculhadas à procura de documentação e propaganda que considerassem
subversiva; os candidatos intimados a prestarem declarações na Polícia
Judiciária; as listas das oposições objecto da intervenção provocatória
de toda a sorte de elementos do regime, do presidente do Conselho às
comissões da União Nacional, através de notas, comunicados, conversas
televisivas, folhetos...

Depois de múltiplas dificuldades na constituição das listas de


candidatos, com vários candidatos e a própria lista por Moçambique
rejeitadas, depois de proibidas muitas reuniões preparatórias da
intervenção eleitoral, a intimidação e a agressividade subiam de tom com
o chamado «período oficial» de campanha.

A 9 e 11 de Outubro, em Braga e em Lisboa, as sedes de campanha da CDE


são assaltadas e saqueadas. A 15 é a vez de uma tipografia onde se
imprimia o programa eleitoral. A 16 é a sede novamente assaltada e
agredidos activistas, além da agressão a Urbano Rodrigues que ocorre
nessa mesma noite. A 23 dá-se o rapto de um activista à saída duma das
sedes da CDE de Lisboa, sendo conduzido à força para o quartel da Legião
Portuguesa, onde é espancado. A 24, é expulsa do país a delegação da
Internacional Socialista que tinha vindo acompanhar o dia das eleições15.

Porém, desses acontecimentos, dirá Urbano Tavares Rodrigues trinta anos


depois: «Conservo desses dias intensos de luta e de convívio caloroso com
as populações memórias de violência: o espancamento de que fui alvo em
Lisboa, na Praça de Entrecampos, tendo eu respondido a soco à agressão
dos pides e legionários até cair exausto: como conservo, acesa no meu
peito, a saudade das reuniões, das sessões em que falávamos ao povo, da
multidão que por vezes nos seguia, num despertar de esperança, num
acordar de cidadania» (Nota 16).
CAPÍTULO 16

MORTES VIOLENTAS

Alfredo Dinis assassinado a tiro na estrada de Bucelas

Era ainda jovem o homem que pedalava de bicicleta, descendo do Sobral de


Monte Agraço para Bucelas, naquela estrada que conduzia a Loures, nos
arredores de Lisboa.

Nas curvas e contracurvas da estrada deserta era possível, mesmo de


longe, notar a sua presença, à luz daquela manhã de Verão, 4 de Julho de
1945, ora aparecendo ora desaparecendo na linha sinuosa que corria
encostada ao desnível acentuado que tombava, pela direita, para uma
várzea apertada, dividida por amanhadas courelas de semeadura e hortejos.

José Gonçalves, um antigo anarquista que renegara paixões da juventude


para servir a polícia política do regime, percorria também essa estrada.
Era chefe de brigada de rua da PVDE. Sabia que naquele dia, naquela
manhã, naquela estrada passaria um importante funcionário e dirigente do
Partido Comunista Português, precisamente o homem que controlava a região
de Lisboa, dirigindo-se a um encontro com outro camarada.

Conhecia o seu pseudónimo, «Alex», de «Alexandre», nome de guerra dentro


do partido, mas talvez não a sua verdadeira identidade, do mesmo modo que
desconhecia o local concreto em que esse encontro se daria.
372

Como era costume os funcionários clandestinos do Partido Comunista


deslocarem-se de bicicleta, presumia que este também assim o fizesse.

Destacou, por isso, dois dos agentes que o acompanhavam para que
percorressem a pé essa estrada, mas no sentido inverso, de Bucelas para o
Sobral, atentos ao movimento de ciclistas, ao mesmo tempo que, numa
carrinha, em marcha lenta, acompanhado apenas de um motorista, que ia
avançando, ganhando terreno, não fosse o encontro ocorrer num qualquer
ponto mais acima da estrada.

Terá então visto ao longe o jovem ciclista que, como previa, vinha em
sentido contrário. Pôde, ainda assim, escolher o sítio para estacionar a
viatura e colocar-se em terra para o intimar a parar.

Embalado por uma descida, à entrada da Bemposta, o jovem trazia


velocidade e, galgada uma curva, depara com José Gonçalves. Verifica
rapidamente tratar-se de uma operação policial. Sem outra alternativa não
teria hesitado em avançar, ultrapassando Gonçalves. Seria o motorista que
mais atrás, fora da carrinha, como o chefe de brigada lhe ordenara, se
colocaria à sua frente, atrapalhando-lhe os movimentos e obrigando-o a
cair. «Alex», mais ágil, resiste, liberta-se do motorista, mas volta a
envolver-se num corpo-a-corpo, agora com José Gonçalves, que está armado.
«Alex» também. Puxa de uma pistola, um revólver «Smith», que, como estava
instituído no PCP, todos os funcionários deveriam transportar consigo
para usar em último caso. Era de uma situação dessas que se tratava.

Incapaz de dominar fisicamente «Alex», José Gonçalves não hesita em


disparar, por mais de uma vez, praticamente à queima-roupa, acertando-lhe
de modo fulminante pelo menos na face.

O corpo, já cadáver, será apressadamente colocado na carrinha e


transportado para Lisboa, para o Hospital de S. José. Passa, por isso, ao
Instituto de Medicina Legal, para ser autopsiado. Só aí, reconhecido pela
família, a polícia confirmará que o pseudónimo «Alex» corresponde a
Alfredo da Assunção Dinis, traçador naval, de 28 anos, na clandestinidade
desde 1943.

Nenhuma circunstância consegue atenuar o carácter violento, criminoso, do


acto que ceifa a vida a Alfredo Dinis. Não há pretensa justificação de
legítima defesa, como a PVDE invocou e a que a Repartição de Justiça do
Governo Militar de Lisboa anuiu, mandando arquivar o processo.
373

A acção daquela brigada de rua era uma ponta descoberta de um vasto


aparelho repressivo que tinha precisamente na polícia política, na PVDE,
a sua espinha dorsal. Era um aparelho montado para vigiar e reprimir,
dependente do Ministério do Interior, mas cuja acção era directamente
supervisionada e acompanhada pelo próprio Salazar.

A PVDE vigiava, prendia e torturava, liquidava, sem hesitar, se fosse


caso disso. A sua impunidade decorria dessa função repressiva central que
desempenhava no seio do regime.

De modo premonitório, as perseguições, prisões e torturas abatiam-se em


grande escala nessa Primavera-Verão de 1945 sobre o PCP. O assassinato de
Alfredo Dinis ocorre precisamente nessa altura, quando ainda não haviam
cessado os ecos retumbantes da vitória dos Aliados sobre o nazi-fascismo
na Segunda Guerra Mundial.

Quando escassos meses mais tarde, em Outubro, o governo determina o fim


da PVDE e a criação da PIDE, não procede a nenhuma inflexão, a nenhuma
reforma de fundo quanto à polícia política. É de uma operação de
cosmética que se trata, aconselhada pela evolução da situação e pelo novo
quadro político internacional decorrente da guerra.

Quando a família dos fascismos soçobrava pelo mundo fora, em Portugal,


Salazar, parente próximo dessa família, resistia, recompunha-se, contra-
atacava, aguentava-se. A essência do regime mantinha-se num mundo mudado.

De «pé descalço» a militante operário

Alfredo da Assunção Dinis nasceu em Lisboa, em 1917, na actual freguesia


de S. Paulo (antiga Marquês de Pombal), entre o ascensor da Bica e os
Banhos de S. Paulo, com o Tejo aos pés. Zona pobre, antiga, polvilhada de
velhas associações sindicalistas ligadas ao mar e às actividades
marítimas. No Largo de S. Paulo conviviam gerações de militantes
operários, anarquistas, socialistas, comunistas, gente que vivia na
proximidade e em função do cais e das actividades portuárias. Bairro
popular cujo formigueiro de vida percorria o caminho curto entre o
desespero e a revolta, filha de uma vida de trabalho e sofrimento, e o
turbilhão de sonhos e ideias por uma vida e um mundo melhor.
374

Os seus pais haviam acorrido à cidade grande, vindos do mundo rural em


que se desenhava o país, na procura do que a cidade continuaria a negar.
Aí nasceu e cresceu, pé descalço, entre a escola das primeiras letras e a
outra, a da rua e do rio. Habituado desde cedo a lutar pelo prato de sopa
e pelo naco de pão, paga por um chão esfregado em casa de vizinhos, não
regateando serviços, ao acaso, que lhe dessem magros tostões, vendendo
flores pela mão da mãe nas ruas da cidade, chegaria quase menino ainda,
de fato de zuarte, ao calvário das oficinas, porta de entrada no mundo
proletário.

De aprendiz a militante operário o passo foi curto. Aos 19 anos, em 1936,


entrava no PCP. Teria sido recrutado por Augusto de Almeida Martins,
caldeireiro, três anos mais velho, que quando preso em finais de Setembro
de 1937, morre às mãos da polícia nesse mesmo dia.

Residia então num dos becos adjacentes à velha Rua do Cruzeiro, um dos
dormitórios operários da Lisboa ocidental. Repartia a sua actividade
entre a actividade da célula, ainda uma célula de rua, e a do Socorro
Vermelho Internacional (SVI) a secção portuguesa da organização de
solidariedade internacional que havia sido criada na periferia da
Internacional Comunista para socorrer as famílias dos presos políticos
comunistas. A sua acção espraia-se pela zona ocidental que conhecia como
as próprias mãos. Tanto reúne no jardim de Santo Amaro come na Praça
Afonso de Albuquerque, em Belém, área de intervenção do Comité Local do
SVI, a que pertence. Distribui o «Solidariedade», órgão do Socorro. Segue
a orientação de participar nos clubes e associações locais. Em Novembro
de 1937 faz-se sócio da Sociedade Filarmónica Recordação d'Apolo.

Trabalhava em Cacilhas e estudava à noite na Escola Industrial Marquês de


Pombal. Ao ser preso, às 7h30 do dia 25 de Agosto de 1938, no Cais do
Sodré, quando se preparava para tomar o barco para o trabalho na outra
banda, é-lhe apreendido um livro sobre desenho de construção naval.

Condenado a 19 meses de prisão, passa pelas prisões de Caxias e de


Peniche, de onde vem a ser libertado em finais de Novembro de

1939. Incorporado no exército enquanto preso, ao sair da prisão é


imediatamente chamado ao serviço militar, seguindo para a Companhia
Disciplinar de Penamacor, ou não se tratasse de um corrécio com cadastro
político. Terá sido aí que conhece Álvaro Cunhal.
375

Estará pouco depois, logo no ano seguinte, entre os que mais cedo aderem
à vulgarmente designada «reorganização» do PCP, processo de refundação
empreendido por um conjunto de militantes e quadros que haviam sido
libertados do campo de concentração do Tarrafal, do forte de Angra do
Heroísmo e das prisões do continente, na amnistia dos Centenários,
concedida em 1940, quanto eram comemoradas num nacionalismo exaltado as
datas de 1140 e 1640.

Militantes e organizações foram integrados, um a um, caso a caso, neste


novo PCP. Em vez de células de rua organizavam-se células de empresa e
Comités Locais, organizara-se um aparelho de distribuição da imprensa
partidária em larga medida paralelo à organização por células, criava-se
um corpo hierarquizado e eficaz de funcionários políticos, que se alojava
em casas clandestinas geralmente fora dos grandes centros, movimentando-
se norma geral de bicicleta, segundo regras rígidas e sob uma disciplina
fortíssima.

É então traçador naval na Parry & Son, à época um dos mais importantes
estaleiros da margem sul do Tejo, em Cacilhas. Integra a célula do PCP da
empresa, de que seria responsável, pertencendo, por isso, também ao
Comité Local de Almada.

É aí que trabalha quando eclodem as greves de Outubro-Novembro de 1942,


na arrancada do ciclo grevista dos anos de guerra. O PCP é surpreendido
por um movimento que constitui reacção incontida às medidas do governo
que agravavam as dificuldades crescentes que a conjuntura de guerra vinha
impondo, com salários baixos e reduzido poder de compra.

Se a malha orgânica do PCP não consegue propriamente dirigir a greve,


está nalguns casos dentro do movimento, procurando conferir-lhe dimensão
política. A Parry &C Son é, na margem sul, uma dessas empresas.

O carácter em larga medida espontâneo do movimento grevista não permite à


polícia identificar plenamente os militantes comunistas mesmo nos locais
onde estes se esforçaram por encabeçar um processo já em andamento, mas a
recolha de elementos e a acção dos informadores faz com que o cerco
policial se vá apertando, particularmente nos principais meios operários.
Dinis escapa à prisão, mas estaria suficientemente referenciado pela
polícia. Passa então à clandestinidade. Torna-se funcionário do Comité
Regional de Lisboa.
376

Nenhum dos grandes problemas que tinham levado às greves no Outono de


1942 está resolvido. Não era difícil prever novas greves num prazo não
muito longo, que vêm a eclodir em Julho-Agosto de 1943. A organização do
Partido Comunista está agora completamente em cima do movimento, convoca-
o e dirige-o. Elementos do Secretariado, como Álvaro Cunhal ou José
Gregório, intervêm directamente, mantêm contactos intensos com a
organização partidária. Entre 26 e 28 de Julho estão em greve por toda a
Margem Sul do Tejo e em Lisboa 50 mil operários.

Os dirigentes comunistas estão na rua, multiplicam-se em contactos com as


fábricas, usam da palavra nos locais de maior concentração operária, como
Alfredo Dinis, em Alcântara. São ténues os limites entre a organização
partidária e os comités de greve. Sucedem-se os manifestos e panfletos do
PCP.

O governo não demora a tomar medidas de força: brutal intervenção


policial, cargas de cavalaria da GNR à espadeirada; verdadeira ocupação
militar da zona oriental de Lisboa e no Barreiro, mobilização militar
nalgumas empresas, encerramento compulsivo de fábricas com ameaça de
lock-out, prisões indiscriminadas, tentativas de furar a greve.

Ao mesmo tempo o governo, com despachos em catadupa, sujeita as empresas


de serviço público ao foro militar, permite o lock-out, ameaça com
repressão, permite a substituição de trabalhadores em greve, sanciona
despedimentos.

Se dirigentes como Alfredo Dinis alimentavam grande expectativa nesse


alargamento da greve, na mira de a tornar num curso insurreccional, o
Secretariado do PCP ia percebendo, a partir dos últimos dias de Julho,
que tal não era possível e a questão que se colocava era a de como
recuar, de modo a não perder posições nem permitir o sentimento de
desaire nos meios operários, a começar no próprio partido. Foi esta a
orientação que prevaleceu.

As grandes greves de Julho-Agosto de 1943 vão estar no centro dos debates


do III Congresso do PCP, que se reúne em rigorosas condições de
clandestinidade em Novembro desse ano. Alfredo Dinis é um dos 17 quadros
que participam no Congresso, de onde sai membro do Comité Central. É
agora conhecido como «Alexandre» ou «Alex».
377

Dinis torna-se no mais importante dirigente em toda a zona de Lisboa e


Margem Sul, controlando organizações locais, reunindo com os principais
quadros, recrutando novos funcionários, procurando constituir Comités
Regionais em Lisboa, no Baixo Ribatejo, na Margem Sul, no Alentejo
Litoral.

Em 1944, face ao descontentamento popular provocado pelo racionamento do


pão, Alfredo Dinis propõe novas greves, cujas datas serão definidas pelo
Secretariado do Comité Central para 8 e 9 de Maio, sendo criado um Comité
Dirigente de Greve, que, naturalmente, também o incluía.

A greve dirige-se em particular à região de Lisboa, ao Ribatejo e à


Margem Sul, onde o racionamento do pão começara a vigorar. Porém, em
Lisboa a greve não arranca em empresas-chave, como a CUF e a Carris, e do
Barreiro à Amora, de Setúbal ao Montijo não se regista nenhuma
paralisação. Apenas na corda industrial de Vila Franca de Xira, o Baixo
Ribatejo, toma maiores proporções. Mas de novo a repressão segue o modelo
aplicado no ano anterior com o encerramento das empresas aderentes. São
despedidos e presos centenas de grevistas e manifestantes, encaminhados
para a praça de touros de Vila Franca. Desses, a PVDE faz prisões
selectivas, mas praticamente não toca a organização clandestina.

Entre um conhecimento ainda vago e difuso sobre a nova organização do PCP


por parte da PVDE e tarefas cada vez mais intensas, cada vez mais
exigentes que a própria conjuntura política com o final da guerra à vista
trazia, obrigam a deslocações mais intensas dos funcionários do Partido
Comunista, a frequentarem locais por vezes pouco recomendáveis, com os
informadores, legionários, situacionistas à espreita de movimentos e de
gente estranha particularmente nos meios operários e populares, nas
grandes eixos de circulação ou nos meios rurais, pequenos, fechados e
conservadores, onde o aparelho clandestino do PCP tinha as suas bases.

A instalação clandestina de Alfredo Dinis ficava entre Torres Vedras e


Sobral de Monte Agraço e aí se realizaram algumas reuniões de direcção,
que implicavam longas deslocações dos seus membros, muito demoradas,
quase sempre de bicicleta, atravessando vastas zonas do país.

«Alex» era um dirigente em ascensão, muito dinâmico e com grandes


qualidades de organizador.
378

Viria, por isso, a ser escolhido para o Bureau Político do Comité Central
numa reunião ampliada do CC em Maio de 1945, em Espinho. Não terá, no
entanto, muito tempo para exercer esse novo cargo.

Sob efeito da vigilância policial

A PVDE vinha desenvolvendo intensa actividade principalmente através de


José Gonçalves e da sua brigada de rua, na dependência hierárquica do
inspector Fernando Gouveia, que se achava uma espécie de aristocrata da
polícia, mais eficaz e sobretudo mais inteligente do que os seus colegas,
mas nem por isso menos violento, mesmo que quisesse com frequência
aparentar um verniz de delicadeza persuasiva, que não era mais do que a
expressão da intimidação psicológica, primeiro, física logo depois, sobre
os presos políticos que lhe caíam na alçada. Gonçalves desenvolvia uma
acção diária, metódica e persistente, de vigilância directa, de rua e de
ligação a uma rede de informadores angariados nos meios operários e
populares, que foi tecendo ao longo do tempo e que lhe permitiram ir se
progressivamente apercebendo da mudança de métodos de acção e de regras
de funcionamento estabelecidas pela «reorganização» do Partido Comunista.

José Gonçalves e Fernando Gouveia demoraram muito tempo a perceber a nova


organização e a adaptarem o seu funcionamento policial e repressivo a
essa nova realidade. Nos meios operários de Lisboa, por exemplo, de
Alcântara a Cabo Ruivo, ou na Margem Sul do Tejo, no Barreiro ou em
Cacilhas, se a vigilância dava a conhecer militantes de base,
desapareciam as reuniões nos jardins, nos becos ou nos meandros do cais e
ainda mais se esfumava a presença dos dirigentes no terreno.

Mesmo algumas prisões que em 1942 tocaram directamente o núcleo de


direcção central do PCP não permitiram à polícia perceber bem do que se
tratava. Até nas greves de Julho-Agosto de 1943 e de Maio de 1944, entre
tanta gente presa, a esmo, ficava difícil distinguir quem era um simples,
mas corajoso, grevista, arrastado por condições de vida dramáticas, quem
eram os militantes nas fábricas, cujos registos policiais só confirmavam
velhos militantes de actividade e participação reduzida, e, mais ainda,
quem eram os funcionários e os dirigentes partidários que contactavam os
responsáveis de célula ou que queriam conhecer os novos militantes recém-
recrutados.
379

Só por volta de 1945 é que o conhecimento da polícia sobre a organização


do PCP começava a tomar alguma proporção, para o que o rumo da guerra com
o desenho progressivamente mais nítido da vitória dos Aliados certamente
contribuíra bastante, suscitando entre os militantes e dirigentes
comunistas um entusiasmo e um activismo que acabaria por expô-los mais do
que deveriam.

Mas, mesmo assim, os novos métodos de trabalho deixavam a descoberto


muito pouco e foi em boa medida mercê de um conjunto de factores
fortuitos, de pura sorte, que a polícia poderia começar a puxar pelos
ténues fios de uma meada que conduziria ainda nesse ano de 1945 ao início
de uma grave e profunda ofensiva contra o PCP,

Vários militantes e mesmo funcionários do PCP presos podiam referir um


tal «Alex» que os recrutara, com quem haviam contactado, que passara
pelas suas casas para reunir com diferentes organizações de base, que os
havia instruído e passado contactos para mergulharem na clandestinidade,
mas quanto à sua residência, às datas e locais por onde viria a passar, à
sua identidade segura, concreta, disso a polícia sabia pouco, mesmo que
fosse avançando, pouco a pouco, o conhecimento da estrutura e do modo de
funcionamento do novo PCP.

Porém, a vigilância policial dava frutos. No início de Julho d 1945, a


brigada de rua de José Gonçalves monta vigilância e prepara a prisão de
dois funcionários que faziam a travessia fluvial do Barreiro para Lisboa.

Um deles, Joaquim Campino, tinha recentemente ascendido ao Comité


Central, tinha a seu cargo os Comités Regionais da Margem Sul e do
Alentejo Litoral e dependia de «Alex» na hierarquia do partido.

Rapidamente compreenderam, ainda dentro do barco, que estavam a ser


vigiados e que não tinham grandes meios de iludir os polícias. Seriam
ambos presos à chegada a Lisboa. Campino tentou esboçar por mais de uma
vez a fuga, sendo espancado e, já na sede da PVDE, mantido durante dois
dias de pé, imóvel e sem se poder sentar, numa prática de tortura muito
usada, conhecida como «estátua».

Entre a documentação que lhe foi apreendida no momento da prisão estava a


agenda, onde constava um encontro com «Alex» e «Joa», dois dias depois,
em «Sobra», pela manhã.
380

A polícia perceberá rapidamente que tinha a oportunidade de interceptar e


prender «Alex», presumindo que o local do encontro seria algures na
estrada de Sobral do Monte Agraço para Loures.

Em dois dias, a brigada de José Gonçalves prepara a emboscada e consegue


efectivamente surpreender «Alex». A PVDE, temendo manifestações por
ocasião do funeral, iludindo os antigos colegas de trabalho de Alfredo
Dinis que acorreram em grande número, levou o caixão apressadamente de
carro para o cemitério do Alto de S. João, manobra que não surtiria
completamente efeito por pressão da família. Aí, o caixão seria, como
hábito, aberto e os presentes puderam ver as marcas de bala disparada num
dos olhos, o que voltaria a ser evidenciado, cinco anos mais tarde, em
Setembro de 1950, quando se procedeu à trasladação dos ossos.

Operário, jovem, abnegado, corajoso, dotado de singular intuição


política, Alfredo Dinis era a expressão do que de mais promissor esse
novo partido gerara em matéria de quadros e dirigentes políticos. E,
nesse sentido, o seu assassinato revelava-se um golpe de grande
profundidade.

A PVDE, mesmo que pudesse não conhecer completamente a verdadeira


identidade de «Alex» seguia lhe o rasto. José Gonçalves interrogando
Joaquim Campino teria dito: «Sei que o Alex anda armado. Se um dia o
encontro, hei-de deixá-lo puxar pela arma para ter o prazer de o abater.»

É provável que a 4 de Julho de 1945, quando José Gonçalves manda parar


Alfredo Dinis naquela curva da estrada de Bucelas, à entrada da Bemposta,
a sua intenção fosse prender para interrogar e pela violência tentar
obrigar a falar um dos mais importantes dirigentes que saía do processo
de refundação do PCP. Todavia, não terá hesitado em levar à prática a
sanha assassina que transparece das palavras que proferira dias antes e
tenha disparado os tiros que provocaram morte imediata ao jovem dirigente
comunista.

As circunstâncias e o próprio perfil de Alfredo Dinis tornam-no num dos


mitos mais fortes da história do PCP, mas a forma como foi assassinado
constitui um dos maiores exemplos da violência repressiva, criminosa,
exercida pela polícia política, a mão mais dura e mais cruel do estado
policial que foi o Estado Novo.
381

Dois crimes na prisão da PIDE do Porto

Em 21 de Fevereiro de 1957, o jornal República noticiou uma morte, na rua


do Heroísmo, n.° 329, no Porto, após quinze dias de «dolorosos
sofrimentos, do sr. Joaquim Lemos Oliveira, de 48 anos, grande democrata
de Fafe, que deixava viúva e quatro órfãos». Este «fim inesperado e
trágico» havia lançado, segundo o jornal, «a maior tristeza no coração de
todos e a resolução firme de nunca mais esquecer» a memória do falecido.
O que a notícia não referia, devido à censura, era que o local da morte -
curiosamente numa rua chamada «Heroísmo» - tinha sido a delegação da PIDE
naquela cidade nortenha.

Joaquim Lemos de Oliveira, barbeiro de Fafe, tinha sido preso em 29 de


Janeiro de 1957 e sucumbira, em 14 de Fevereiro, de «suicídio», segundo
afirmou o sub-inspector da PIDE, Costa Pereira, que o tinha, aliás,
interrogado. A autópsia não se fez normalmente, pois os estudantes de
Medicina que, por hábito, a ela deveriam ter assistido, haviam sido
impedidos de estar presentes (Nota 1). A morte de Lemos de Oliveira não
foi, porém, única, pois pouco tempo depois, no dia 3 de Março, morria,
também na mesma delegação da PIDE do Porto, Manuel Fiúza da Silva Júnior,
um trabalhador de Viana do Castelo, com 69 anos.

Diversos presos políticos, detidos naquela delegação da PIDE, enviaram,


em 11 de Março, ao presidente da República, uma petição de inquérito
(Nota 2) às circunstâncias pouco claras em que se tinham dado, no espaço
de quinze dias, as mortes dos dois presos políticos, Manuel Fiúza da
Silva Júnior, «o Ruque-ruque», e Joaquim Lemos Oliveira, «o Repas».
Relativamente a este último, os peticionários relataram que tinha estado
nos gabinetes de investigação da PIDE, desde 30 de Janeiro a 6 de
Fevereiro. Ora, nesse período de interrogatório, os presos políticos eram
habitualmente submetidos às torturas da «estátua» e do «sono»: ou seja,
eram obrigados a permanecer de pé e impedidos de dormir. Os signatários
contaram ainda que, quem resistisse à ordem arbitrária de estar de pé,
era «agredido de toda a maneira» e que, à mais leve tentativa de
repousar, as violências redobravam, num propósito decidido de forçar os
presos «às declarações» que mais convenciam a PIDE.
382

Após esses 8 dias de torturas, Lemos de Oliveira regressara à cela, onde


ficara numa situação de total isolamento, apesar do seu grande abatimento
físico e moral. Relataram ainda os signatários que, ao trazê-lo para o
quarto, poucos dias antes da sua morte, um agente da PIDE «dirigiu-se ao
guarda, para que o recolhesse, em termos insultuosos para a dignidade do
preso, afirmando que andava aquele homem a morrer e que nunca mais
morria». Quanto a Manuel da Silva Júnior, tinha aparecido morto, quinze
dias depois, em condições por esclarecer, pois «estava isolado e
encarcerado num calabouço absolutamente impróprio para ser habitado por
um ser humano». Consideravam os signatários que essas duas mortes se
haviam dado devido à situação prisional de excepção reservada aos presos
políticos (Nota 3).

A morte dos dois presos foi referida, em pleno Tribunal Plenário do


Porto, por 52 detidos políticos, ligados ao processo do MUD Juvenil.
Quando o juiz-presidente deu por aberta a audiência, ordenando aos réus
para se sentarem, todos eles, bem como os advogados de defesa,
permaneceram de pé, em homenagem aos dois camaradas mortos (Nota 4). Da
mesma forma, 72 advogados de Lisboa e do Porto enviaram, em 23 de Maio de
1957, uma exposição ao governo a exigir um inquérito às circunstâncias da
morte dos dois detidos.

Dois anos depois, um grupo de católicos lançou um abaixo-assinado contra


a PIDE e a repressão, onde explicavam que tinham sido fortemente
influenciados pelos casos de «dois homens mortos há pouco, no decorrer
dos tratos que lhes deu a PIDE do Porto». Contara também para a feitura
desse abaixo-assinado uma notícia, transmitida no Diário de Notícias, de
1 de Agosto de 1958, que dava conta da morte súbita, na via pública, em
Lisboa, de Raul Alves, soldador, de 44 anos, residente em Vila Franca de
Xira.

A notícia acrescentava que era «do domínio público que numerosas pessoas
presenciaram pela mesma data um homem pendurado exteriormente numa das
janelas da sede da PIDE até se precipitar, com gritos lancinantes» (Nota
5). Acontecia que Raul Alves estava preso, no terceiro andar da sede da
PIDE, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, e que uma das testemunhas
que o tinha visto a despenhar-se de uma janela era a mulher do embaixador
do Brasil, Álvaro Lins, que chegou mesmo a queixar-se do facto, junto do
cardeal Cerejeira.
383

Crime e não suicídio

Quanto à morte dos dois presos no Porto, em 1957, os protestos e abaixo-


assinado levaram mesmo o próprio regime à realização de um inquérito,
presidido pelo juiz António Alexandre Soares Tomé, da comarca de Vinhais.
Este chamou alguns dos advogados signatários do pedido de inquérito e
recolheu testemunhos de presos e de elementos da PIDE.

Interrogada pelo juiz Tomé, em 18 de Junho de 1957, Isaura, a viúva de


Joaquim Lemos de Oliveira, contou que o marido lhe havia dito baixinho,
numa visita que ela lhe fizera na sede da PIDE do Porto, que «o mais mau
é enquanto não passam estas constipações». A mulher achou que ele se
estava a referir a maus-tratos sofridos, até porque o marido se
apresentava «magro, amarelo, fraco». Isaura contou ter depois recebido da
PIDE o sobretudo do marido, manchado de sangue, que havia entregado ao
advogado Mário Cal Brandão. Deu ainda conta de que as suas duas filhas e
o seu genro tinham visto o cadáver do marido, na morgue, e este
apresentava manchas ou feridas, «assim pisado».

Edite da Silva Lemos de Oliveira, filha de Joaquim, e o genro deste,


Marcelino Gonçalves, confirmaram ter visto manchas negras na cabeça do
pai e sogro. O genro acrescentou que os empregados da morgue haviam
concordado que ele teria certamente sido «apertado» e que um funcionário
da PIDE teria dito «andou-se a suicidar, agora que lhe faltavam dois dias
para se ir embora, foi para causar complicações à polícia».

Por seu lado, Mário de Araújo, que também estava preso na sede da PIDE do
Porto, afirmou ter ouvido, na sua cela, uma voz a dizer: «O Sr. Guarda,
pegue ou meta para aí esse incréu (...) que anda para aqui a morrer e
nunca mais morre.» Contou que Lemos de Oliveira tinha sido levado, várias
vezes, da sua cela n.° 3, para ser sujeito a interrogatórios e que, na
última vez, havia estado fora mais de sete dias, sem regressar. Este
acabara de voltar à cela, quando, pelas 12 horas, Mário Araújo ouvira o
guarda Mendes Coelho a descer as escadas, «com ar atrapalhado», e, por
volta das 16 horas, apercebera-se de muito movimento no corredor,
apurando então que Lemos de Oliveira havia sido encontrado enforcado.
384

No depoimento prestado ao juiz Tomé, o filho de Manuel da Silva Fiúza


Júnior contou que o pai tinha sido preso e levado para a esquadra da PSP,
na terça-feira à noite, antes de ser entregue à PIDE do Porto. Na
segunda-feira seguinte de manhã, o filho deslocara-se ao Porto, para
visitar o pai, mas não pudera vê-lo. Um elemento da PIDE levara-o ao
subdirector desta polícia, que lhe dissera que o pai se havia suicidado,
enforcando-se com o forro da gabardina. Depois, na morgue, o filho
perguntara se «o pai tinha morrido em consequência de algum choque
eléctrico», mas responderam-lhe que ele se tinha enforcado. Dez dias
depois, a PIDE fora buscá-lo, para que falasse de novo com o subdirector
e, nas declarações então prestadas, o filho contara que o pai tinha
anteriormente tentado enforcar-se com um pullover.

Esta conversa do filho foi, depois, utilizada pela PIDE, fora do


contexto, para dar a entender que Manuel da Silva Fiúza Júnior era um
«suicida». Por isso, o juiz Tomé ouviu o testemunho do guarda da PSP,
Moisés Gonçalves da Rocha, da esquadra onde Manuel Fiúza tinha estado
detido, antes de ser entregue à PIDE. O guarda referiu, de facto, uma
conversa com o preso, em que, falando da sua transferência para a sede da
PIDE do Porto, onde já havia sido anteriormente sujeito a violências, ele
lhe teria dito que era natural que lhe acabassem «lá com a vida», até
porque, devido à sua idade avançada, não se «aguentaria com aquilo».

No processo do inquérito, conduzido pelo juiz Tomé, constam fotografias


dos dois presos mortos, na posição em que presumidamente teriam sido
encontrados, bem como relatórios do Instituto de Medicina Legal (IML) do
Porto. Chocante é o facto de os dois homens, detidos em total isolamento,
e por isso sem qualquer contacto entre eles, se terem suicidado de uma
forma quase idêntica, após a feitura de nós elaborados. Se é verdade que
houve diversas tentativas de suicídio nos cárceres privativos da PIDE,
devido às condições prisionais e aos tremendos sofrimentos provocados
pelas torturas, também não deixa de ser estranho que o modo utilizado
pelos dois detidos do Porto tenha sido muito semelhante (Nota 6).

O IML referiu a «suspensão incompleta, apoiando-se os pés no soalho do


quarto», no caso de Joaquim Lemos de Oliveira, o qual pendia de um laço
constituído por uma camisola de malha de algodão pendurado no gancho de
um cabide.
385

Quanto a Manuel da Silva Fiúza Júnior, tinha sido encontrado, virado para
a parede, incompletamente suspenso, com os pés apoiados no chão. O laço
que envolvia o seu pescoço era constituído de uma tira de pano de
gabardine, pendendo do tubo metálico da instalação eléctrica.

Segundo a versão da PIDE, o «comportamento e a conduta, quer de um quer


de outro detido, eram normais e regulares e portanto nada fazia prever a
atitude desesperada que ambos viriam a tomar, iludindo a vigilância dos
guardas». Dizia ainda a polícia que essa «atitude desesperada» se devia
atribuir «a um brusco abatimento moral, pois, infelizmente, já não é(ra)
a primeira vez que elementos comunistas atentam contra a existência após
fazerem confissões dos delitos que vinham cometendo» (Nota 7). É o que se
chama denegrir dois mortos, que já não se podiam defender.

Anos depois, em 1971, já durante a vigência de Marcello Caetano na


presidência do Conselho de Ministros, o advogado da oposição, Fernando
Abranches Ferrão, tentou reabrir o caso, enviando uma carta nesse sentido
a Manuel Geraldes Nunes, então chefe de gabinete do ministro do Interior.
Instado por este último a prestar informações sobre o caso, o director da
DGS, Fernando da Silva Pais, deu conta de que o magistrado judicial,
António Tomé, não «teria apurado a existência de qualquer infracção de
carácter penal pois nada fora participado ao Ministério Público» e, por
consequência, nenhum funcionário da DGS havia sido «acusado em juízo». O
chefe de gabinete escreveu, depois, a Abranches Ferrão, informando-o de
que se tratava «de um caso inequívoco de suicídio comprovado por exame
médico-legal em que a Polícia correu os riscos habituais de tratar com
desesperados e se mover no terreno da paixão política» (Nota 8).

«Alcântara dos tiros cegos»: o assassinato de José Dias Coelho

A noite fechara-se cedo naquelas vésperas de Natal, 19 de Dezembro de


1961. José António Dias Coelho vinha descendo do Alto de Santo Amaro e ao
entrar na Rua dos Lusíadas dirigiu-se a uma leitaria. A sua descrição
correspondia à que os três agentes da PIDE possuíam para o identificar.
386

Uma viatura da polícia política havia-os deixado uma hora antes entre os
cruzamentos da Leão de Oliveira com a Rua da Creche. Esperavam-no. Sabiam
que mais minuto menos minuto passaria por ali. A informação batera certo.
Alguém o denunciara.

Eram oito da noite. O que primeiro o avistou depressa percebeu que se


tratava do funcionário clandestino do Partido Comunista que deveriam
prender. Essa tinha sido a ordem recebida do chefe de brigada, José
Gonçalves. Dá sinal aos outros, postados todos que estavam ao longo
daquele troço da rua. Juntam-se a meio desse percurso e preparam-se para
o deter. António Domingues, que dirigia o grupo policial, encarrega um
dos seus parceiros, Pedro Ferreira, de ir buscar o carro, que ficara mais
acima com o motorista.

Ao sair da leitaria atravessou a rua e foi passar mesmo junto aos


polícias. Algum gesto inadvertido, mais brusco, algum pressentimento
inexplicável, o permanente estado de alerta em que tinha de se encontrar,
fosse o que fosse, fê-lo desconfiar dois passos adiante. Grita: «PIDE!,
PIDE!» e desata a correr em direcção à rua da Creche.

Na perseguição, os agentes da PIDE, Domingues e Manuel Lavado, o terceiro


dos agentes, procuram agarrá-lo, imobilizá-lo. Tudo se passa muito
rapidamente. Domingues, por momentos chega a prendê-lo com as duas mãos,
mas Dias Coelho, ágil, solta-se com um esticão. Sabe que é assim que deve
proceder, evitar a todo o custo a prisão. Vai ser de novo alcançado, tem
a mão e o braço imobilizados quando Domingues, já de pistola em punho
dispara, uma, duas vezes. A segunda bala é certeira, à queima-roupa,
atinge-lhe o coração. As pernas fraquejam. Tem a noção de que foi
atingido.

Sem esperar pela viatura que haviam trazido, tomam um táxi, levando o
dirigente comunista, cuja vida se esvai. Dirigem-se ao hospital mais
próximo, o da CUF. Ainda lhe é prestada alguma assistência, mas Dias
Coelho morrerá pouco depois. Eram 20h38 desse dia 19 de Dezembro de 1961,
assinala a carta do médico de serviço.

Transferido para o Instituto de Medicina Legal, o relatório de autópsia


não deixa lugar a grandes dúvidas - «A arma empregada (arma de fogo), a
sede do orifício de entrada do projéctil e a distância a que a arma deve
ter sido disparada fazem presumir intenção de matar.»

António Domingues, agente de 2.a classe da PIDE, não era propriamente um


novato no serviço de rua.
387

Havia vários anos que desempenhava funções de vigilância a militantes do


PCP e havia procedido a várias prisões. Não foi, por isso, uma qualquer
inexperiência que o levou a puxar da pistola e a disparar com o cano
quase colado ao corpo de Dias Coelho. Fê-lo, porque assim preferiu a
arriscar a eventualidade da fuga, porque aquela tarefa, uma aparentemente
simples detenção de rua, lhes ia escapando entre as mãos. Daí a natureza
criminosa da sua actuação, perfeitamente integrada, afinal, nas normas de
conduta da própria polícia.

Das lutas estudantis à clandestinidade

José António Dias Coelho, escultor, 38 anos, na clandestinidade desde


1955, era membro da Direcção da Organização Regional de Lisboa do PCP.
Natural de Pinhel, filho de um escrivão de direito, a residir em Lisboa
desde 1938, vai aderir à FPJC, Federação Portuguesa das Juventudes
Comunistas, em 1942, ano em que se matricula no Curso de Arquitectura da
Escola de Belas-Artes de Lisboa.

Três anos mais tarde, com o fim da guerra, adere ao MUD, Movimento de
Unidade Democrática, organização entretanto criada que inflama esperanças
e vontades na luta pelo fim da ditadura, integrando a sua CEJAD, Comissão
de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos. Em consequência, está
na organização das Exposições Gerais de Artes Plásticas, que se iniciam
em 1946, passando aí a expor com regularidade a partir do ano seguinte.

Ainda em 1946, mudando de Arquitectura para Escultura, mas mantendo-se em


Belas Artes, vai desde logo pertencer ao MUD Juvenil, então criado,
pertencendo à respectiva Comissão de Escola, onde se destaca.

É preso pela primeira vez em 1949, em plena campanha eleitoral de Norton


de Matos, e em 1952 na sequência de uma intenso conjunto de acções de
protesto contra a realização da reunião do Conselho da NATO em Lisboa
será expulso de todas as escolas do país por um ano e impedido de
leccionar, actividade profissional que iniciara pouco antes.

Já na clandestinidade, é incumbido com a sua companheira, Margarida


Tengarrinha Dias Coelho, de organizar a estrutura de falsificação de
documentos, designadamente passaportes e bilhetes de identidade,
fundamental na sustentação da actividade clandestina do Partido
Comunista.
388

Contribui ao mesmo tempo com ilustrações para um jornal Avante!, órgão


central do PCP, graficamente renovado. Passa ainda a controlar o sector
intelectual da Organização Regional de Lisboa do PCP.

O assassinato de José Dias Coelho ocorre num momento de fortíssima


repressão sobre os comunistas. Quatro dias antes haviam sido presos
vários dirigentes nas vésperas de uma reunião do Comité Central e havia
também sido invadida a casa onde estava instalado o aparelho de
falsificação de documentos e preso Júlio Martins, que o havia substituído
nessa tarefa.

Vários inspectores, chefes de brigada e muitos agentes foram mobilizados


para esse intenso conjunto de operações repressivas que vinham passando
pela exploração das informações da vasta rede de informadores, alguns
colocados no interior do próprio Partido Comunista e por uma
intensificação da vigilância e das operações de rua.

A conjuntura política que incendiara o país escassos anos antes com a


campanha presidencial do general Humberto Delgado não parara de se
agravar. Esse mesmo ano de 1961 fora frenético de acontecimentos. O
assalto ao Santa Maria, o início da guerra colonial em Angola, a queda de
Goa, a fuga colectiva d prisão de Caxias no carro blindado de Salazar, a
participação da oposição nas eleições de Novembro.

Significativamente, o último desenho de Dias Coelho publicado no Avante!


evocava a morte de Cândido Capilé, um jovem militante operário,
corticeiro, de 17 anos, baleado numa manifestação realizada em Almada
contra a farsa das «eleições» de Novembro desse ano.

A ira do regime aumentava, trespassava dos discursos governamentais,


reclamando das suas polícias, designadamente da PIDE, mais actividade,
mais resultados, mais repressão. Os «tiros cegos» que assassinaram Dias
Coelho eram parte dessa sanha desesperada que tinha na PIDE a guarda
avançada da repressão política.
389

«Operação Outono» ou o assassinato de Humberto Delgado

Primeiro dois rapazes, depois o pai de um deles, declaram num dia de


Primavera de 1965 ter encontrado ocasionalmente dois cadáveres num sítio
denso de vegetação, na proximidade da fronteira de Espanha com Portugal,
a poucos quilómetros de Vila Nueva del Fresno, à beira de um caminho
pouco utilizado e em mau estado, designado Los Maios Pasos.

Separados por menos de cem metros, cada um dos corpos jazia, meio
descoberto, em covas mal tapadas. O seu estado de decomposição era já
muito avançado. A autópsia teve, por isso, de se fazer ali mesmo.

Um deles, de mulher, com 30 a 40 anos de idade, muito danificado,


principalmente na cabeça, apresentava, no entanto, na região temporal
direita vestígios de hemorragia provocada por contusão e, na zona do
pescoço, a ausência de 4 vértebras cervicais parecendo apontar para
estrangulamento.

O outro, de homem, aparentando 50 a 60 anos, evidenciava infiltração


hemorrágica do parietal direito, fractura do maxilar inferior e da base
do crânio, revelando ter sofrido várias contusões ainda cm vida, que lhe
teriam determinado a morte. O seu corpo encontrava se abundantemente
coberto de cal viva, envolvido num cobertor e amarrado por cordas.

Em ambos os casos, os relatórios das autópsias apontam para crime por


agressão com objecto contundente. As análises periciais levavam ainda a
concluir que mesmo que o autor material pudesse ser uma única pessoa,
deveriam ter sido várias a intervir no processo que levou às duas mortes.
Apesar da inexistência de sinais de bala, essa possibilidade não era
excluída.

A data das mortes é, finalmente, situada entre dois a três meses antes9.

Nestas circunstâncias a identificação dos corpos tornava-se difícil, não


fora o facto de, no homem, se terem conservado, para além de restos de
peças de vestuário, duas palmilhas ortopédicas nos sapatos e um anel com
as iniciais HD.

A partir desses elementos, a polícia espanhola associa logo os corpos ao


desaparecimento de um homem e uma mulher do hotel Simancas, em Badajoz,
dois meses antes.
390

O homem que aí se instalara apresentara um passaporte emitido em Argel em


nome de Lorenzo Ibanez, 58 anos, nascido no Brasil e residente naquela
cidade. A mulher, por sua vez, mostrara um passaporte brasileiro, cuja
titular era Arajaryr Canto Campos Moreira, 34 anos, nascida e residente
no Brasil.

Exames periciais revelavam similitude entre diversas peças de vestuário


com que ambos haviam sido encontrados e a que constava da bagagem deixada
no hotel. Eram também do mesmo tipo as palmilhas que o homem usava e as
que haviam ficado no hotel.

O que ainda naquela altura não se dissera é que a polícia espanhola sabia
perfeitamente que o passaporte em nome de Lorenzo Ibanez era falso e
estava mais do que referenciado que o seu portador era nem mais nem menos
que o general Humberto Delgado, cujos movimentos vigiara até ao seu
súbito desaparecimento.

Não lhe convinha, evidentemente, admiti-lo de imediato. Quis esperar


ainda mais alguns dias até à confirmação oficial. Depois de apurar a
impressão digital do general e também já depois de a viúva e de dois dos
filhos confirmarem ser o anel encontrado igual ou muito semelhante ao que
normalmente usava, a polícia espanhola «descobria» finalmente a
identidade do corpo aparecido em Villa Nueva del Fresno.

Nessa altura, já a imprensa espanhola e alguma internacional afluíam ao


local e haviam começado a noticiar da grande probabilidade, quase
certeza, de se tratar dos corpos de Humberto Delgado e da sua secretária,
Arajaryr Campos.

A «descoberta» dos cadáveres

O duplo crime ocorrera mais de dois meses antes. O tal Lorenzo Ibanez,
afinal Humberto Delgado, fora visto pela última vez em Badajoz com a sua
acompanhante no final da manhã de 13 de Fevereiro de 1965.

O alerta quanto ao seu desaparecimento fora dado algum tempo depois por
vários círculos oposicionistas no exílio. Henrique Cerqueira, tido como
representante pessoal de Humberto Delgado em Marrocos, cumpre as
directivas que o general lhe havia deixado.
391

A 23 de Fevereiro, se continuasse sem notícias suas, «nesse dia estaria


morto ou preso». Convoca, por isso, a imprensa internacional e comunica o
seu desaparecimento.

Mais tarde, em Paris, é Emídio Guerreiro, que havia recebido um postal de


Delgado remetido a 13 de Fevereiro de Badajoz, quem consegue convencer a
Federação Internacional dos Direitos do Homem da necessidade de averiguar
o desaparecimento, para o que é criada uma comissão de investigação
composta por três advogados, um italiano, um francês e um inglês.

Passara-se desde logo a especular muito sobre o facto. A partir de Argel,


a própria Rádio Voz da Liberdade, da Frente Patriótica de Libertação
Nacional, de que Delgado fora presidente e da qual cindira não havia
muito, duvida do seu desaparecimento e inclina-se mais para uma manobra
de propaganda que acha ser ao jeito do general (Nota 10).

Noutros meios oposicionistas no exílio, na Venezuela ou no Brasil,


admite-se a possibilidade de prisão em Espanha e entrega à PIDE ou do seu
rapto por parte da polícia política portuguesa, trazendo-o para o
interior do país.

A PIDE desenvolve, por sua vez, uma vasta manobra de intoxicação


informativa explorando as versões que colocavam o seu desaparecimento e
eventual morte no quadro das disputas entre diferentes sectores e ramos
da oposição, insinuando a sua morte às mãos do comunistas.

A polícia espanhola, que perdera efectivamente Delgado de vista, empenha-


se em saber o que aconteceu. Vira-se de imediato para a sua congénere
portuguesa, tendo-lhe inclusivamente comunicado esse facto no preciso dia
em que lhe perde o rasto, a 13 de Fevereiro (Nota 11). A PIDE descarta-se
do caso, inventa explicações ou cerra-se num silêncio pesado. Mesmo
diligências ao mais alto nível entre o embaixador espanhol em Lisboa e
Salazar esbarram num mutismo cínico.

Cúmplice com o governo português na vigilância ao general, mas não


estando directamente envolvida no seu desaparecimento, a polícia
espanhola rapidamente percebeu a origem do facto. E investigou.
Reconstituiria assim os últimos passos de Delgado e Arajaryr em Badajoz e
conseguiria chegar às fossas de Los Maios Pasos, nos primeiros dias de
Abril (Nota 12), isto é, três semanas antes de montar a operação de
«descoberta» dos cadáveres a 24 desse mês.
392

A data é cirúrgica, já que praticamente coincide, antecipando-se apenas


dois dias à divulgação dos resultados da investigação da Federação
Internacional dos Direitos do Homem realizada em Marrocos e em Portugal,
que lhes havia permitido chegar a conclusões essenciais, designadamente
colocando Badajoz no término de um percurso que configuraria uma cilada
montada a Humberto Delgado.

A partir daí, o governo espanhol, temendo uma campanha internacional de


grandes repercussões, decide não dar mais cobertura aos silêncios e às
mentiras da PIDE e do governo português e não terá, por isso, grande
margem de manobra para evitar um processo judicial que aclararia alguma
coisa, ainda que não esclarecendo tudo, nem nunca indo longe de mais,
porque para isso era essencial a colaboração das autoridades portuguesas,
o que, da parte destas, estava completamente fora de questão.

Os últimos passos de Humberto Delgado

Humberto Delgado e Arajaryr chegaram a Badajoz na manhã de 12 de


Fevereiro de 1965. Haviam entrado na véspera em Espanha, vindos de
Marrocos, por Ceuta, até Algeciras e passam por Sevilha antes de chegarem
à cidade estremenha. Dirigem-se separadamente ao Hotel Simancas onde se
alojaram, mas seriam frequentemente vistos em conjunto.

Delgado, no dia da chegada, ter-se-ia inclusivamente levantado da mesa


onde almoçava com a sua secretária, no hotel, para, com evidente
nervosismo, ir falar com um grupo de indivíduos que aí estavam igualmente
alojados, um dos quais com ar magrebino, mas sem que, estranhamente, os
seus nomes tenham sido devidamente registados, o que impediria sempre o
apuramento das suas identidades.

Atribui-se-lhes no entanto a possibilidade de, depois do seu


desaparecimento, terem revistado o quarto do general e da sua secretária
e levado não só documentos como alguns haveres pessoais de mais valia,
particularmente de Arajaryr.

Durante a tarde apanham um táxi para a estação ferroviária, que mandam


esperar, regressando pouco tempo depois. Parece não terem encontrado a
pessoa que esperavam.
393

Inquirem então o taxista sobre a melhor forma de chegar a Madrid, seja


desde Badajoz ou desde Sevilha. Depois dirigem-se ao posto de turismo
onde insistem na mesma informação, bem como nos voos de Madrid para
Casablanca, como se ponderassem o regresso a Marrocos ao revelar-se
infrutífera a sua deslocação a Badajoz.

Na manhã seguinte Arajaryr adquire para dia 15 de Fevereiro dois bilhetes


de autocarro para Sevilha. Ambos aproveitarão para enviar de Badajoz
postais à família e a amigos. O carimbo do postal enviado a Emídio
Guerreiro, em Paris, regista as 13.30 horas de dia 13. Outro segue para o
Brasil, para Álvaro Lins, o embaixador brasileiro em Lisboa, que lhe dera
asilo em 1959. Arajaryr escreve à filha, também no Brasil (Nota 13).

Havia claramente um encontro marcado em Badajoz, na estação ferroviária,


provavelmente com várias horas de recurso, que até ao final da manhã
havia falhado.

Entretanto, na véspera de manhã, em Lisboa, na sede da PIDE, o inspector


Rosa Casaco determina a Agostinho Tienza que se prepare para partir
consigo naquele próprio dia para Espanha, na previsão de aí permanecerem
um ou dois dias. Seriam acompanhados pelo subinspector Ernesto Lopes
Ramos e pelo chefe de brigada, Casimiro Monteiro. Casaco é o elemento
mais graduado e chefia a operação, distribuindo-lhes passaportes, chapas
de matrícula falsas, que, imediatamente antes de transporem a fronteira,
substituiriam as dos dois carros em que se transportavam.

Pernoitam a poucos quilómetros do posto fronteiriço de S. Leonardo, de


modo a entrarem em Espanha na manhã seguinte. O responsável da PIDE em S.
Leonardo, António Gonçalves Semedo, acompanha-os mesmo ao posto espanhol
de Villanueva del Fresno e apresenta Tienza aos polícias espanhóis, nos
termos da respectiva identidade falsa, como seu colega que, com amigos,
iriam passar o fim-de-semana a Sevilha.

Não obstante, os dados dos passaportes apresentados, das matrículas dos


carros e até os números dos chassis e dos motores serão diligentemente
registados pelos polícias espanhóis.

É com um destes elementos da PIDE que Humberto Delgado vai concretizar o


almejado encontro ao início da tarde na estação ferroviária de Badajoz.
394

Não sabe que se trata do subinspector Ernesto Lopes Ramos, mas sim de um
advogado que lhe fora apresentado como Ernesto Castro Sousa, elemento de
ligação com uma ampla rede de conspiração revolucionária militar e civil,
existente no interior do país, disposta a derrubar o regime.

Aquele encontro fora marcado semanas antes, em finais de Dezembro de


1964, e destinava-se a pôr Delgado em contacto com os presumíveis
dirigentes militares desse movimento, vindos propositadamente do interior
do país.

Ramos, ao encontrar Humberto Delgado acompanhado da sua secretária,


Arajaryr, ter-se-ia mostrado surpreendido e tenta, sem efeito, demovê-los
dessa presença incómoda.

Ambos serão assim conduzidos pelo subinspector da PIDE no sentido


Badajoz-Villa Nueva del Fresno até um local afastado, mas visível, da
estrada, nas imediações de Olivença. Na aba de um pequeno cerro, eram
aguardados por um carro do qual descem três homens.

Humberto Delgado terá então compreendido que alguma coisa não estava
bater certo. E reage. Casimiro Monteiro puxa da pistola, munida de
silenciador, dispara várias vezes, atingindo o general, que cai,
esvaindo-se em sangue. Antes ou depois de morto, terá sido agredido
repetidamente na cabeça com objecto contundente.

Arajaryr terá igualmente reagido face ao que se estava a passar. E


agredida na cabeça e estrangulada, depois. É possível que tenha também
sido atingida a tiro.

Nas imediações de Olivença, a meio da tarde de 13 de Fevereiro de 1965, a


PIDE acabava de assassinar Humberto Delgado e a sua secretária
brasileira, Arajaryr Campos.

Agostinho Tienza vai ao carro buscar uma manta, uma corda e cal-viva, com
que vinha munido de Portugal, com que o corpo do general é envolvido como
se de um improvisado saco se tratasse, que é enchido com cal-viva, para
acelerar a decomposição do corpo. Ao arrastá-lo até à bagageira do carro
fica no chão um visível rasto de sangue. Arajaryr é também colocada na
bagageira de um dos carros ou, segundo um passante fortuito, transportada
mesmo no banco sentada, com um chapéu enterrado na cabeça (Nota 14).

Os carros afastam-se do local uns bons quilómetros em direcção a Villa


Nueva del Fresno, atravessam a povoação, procuram a direcção da fronteira
com Portugal, mas é antes do posto espanhol, não muito longe, a 2 km, que
vão depositar os corpos, muito perto de um caminho muito pouco
frequentado e em muito mau estado, chamado Los Maios Pasos.
395

Aproveitam duas fossas naturais abertas no terreno, separadas uns 75


metros uma da outra, cobrindo-as com pedras que vão buscar perto. Tudo
indica que o local fora previamente escolhido por Rosa Casaco, prevendo
essa situação.

O regresso da brigada da PIDE e a reentrada no país faz-se mais a sul,


pelo Rosal, já a 14 de Fevereiro, logo pela manhã do dia seguinte ao
assassinato.

Iniciava-se então uma rápida operação de limpeza de vestígios, de modo a


não deixar nenhum indício da participação policial portuguesa no crime de
Olivença. Rosa Casaco telefona a António Gonçalves Semedo, avisando-o de
que em circunstância ou momento algum deve revelar a verdadeira
identidade do grupo que passara a fronteira de S. Leonardo. Os documentos
que Delgado trazia consigo e de que é despojado são destruídos. Em Beja,
ainda nessa manhã, no posto da PIDE são repostas nos carros as chapas de
matrícula verdadeiras.

Mais tarde, os documentos dos carros utilizados, que eram propriedade de


Ernesto Lopes Ramos e Agostinho Tienza, são viciados e será alugada uma
moradia em Rio de Mouro, onde os próprios carros serão pura e
simplesmente destruídos.

À chegada a Lisboa, Rosa Casaco procura Álvaro Pereira de Carvalho,


director de serviços da PIDE, para lhe comunicar a forma como a operação
tinha decorrido. Este comunica com os seus superiores - Barbieri Cardoso,
subdirector geral, e Silva Pais, director da PIDE. A decisão que tomam é
precisamente no sentido de manter a operação no mais absoluto segredo.

Para todos os efeitos, Delgado havia desaparecido. Desconheciam o seu


paradeiro, negavam qualquer implicação ou conhecimento sobre o caso e iam
soltando informações falsas, frequentemente contraditórias, mas que
insinuavam poder estar morto, mas às mãos de antigos aliados com os quais
rompera, os comunistas, evidentemente.
396

Um furacão político

A candidatura de Humberto Delgado às eleições presidenciais de

1958 tivera um efeito telúrico sobre o regime. Como um sismo, abanara os


alicerces do Estado Novo, provocara fissuras na sua estabilidade, cavara
dissensões, mas, fundamentalmente, correspondera às expectativas e ao
desejo de mudança de vastas camadas sociais, recolhendo apoios
expressivos entre operários, trabalhadores, empregados de serviços,
profissões liberais, mesmo em sectores das Forças Armadas.

Desde o fim da Segunda Guerra que o regime não se assustara tanto nem se
vira confrontado com uma crise de tão grande profundidade. A vitória de
Américo Tomás, o candidato de Salazar, fora percebida como resultado de
uma vastíssima operação de burla eleitoral desencadeada desde o
recenseamento ao apuramento dos votos num pano de fundo de agressividade,
violência e ausência de liberdades. Nas fileiras do regime não havia
euforias ou entusiasmos e não grassava propriamente o optimismo.

Depois das eleições, Humberto Delgado esteve longe de se calar e de


regressar obedientemente ao redil salazarista, recusando ser remetido
para uma função decorativa, longe do país. Por isso, denunciou a prisão
de dirigentes e activistas dos seus serviços de candidatura, não se
cansou a divulgar casos de fraude leitoral desça "ada, impugnou os
resultados eleitorais, desdobrou-se na redacção e divulgação de
comunicados, abaixo-assinados, cartas a membros do governo, deu
entrevistas a jornais estrangeiros, lançou o MNI, Movimento Nacional
Independente com parte substancial dos seus apoiantes no concurso
eleitoral, compareceu nas tradicionais comemorações do 5 de Outubro.

Se o governo hesitou na forma como lidar com Delgado e o próprio Salazar


preferiu uma solução de «prateleira», desde cedo se verificou que tal não
era possível e, por isso, desde Outubro que a estratégia governativa
passou a ser orientada no sentido de puni-lo pelas suas declarações,
particularmente à imprensa estrangeira e de afastá-lo compulsivamente das
Forças Armadas.
397

Perante o cerco que se desenhava à sua volta, com o levantamento da


imunidade militar decidida pelo governo nos primeiros dias de

1959 e com a possibilidade de estar a ser montada uma provocação

com o objectivo de o prender à porta de sua casa, decidiu a 12 de Janeiro


pedir asilo político à embaixada do Brasil, que o embaixador Álvaro Lins,
apesar da delicadeza política e diplomática da situação, prontamente
concedeu (Nota 15).

Parte para o Brasil em meados de Abril de 1959. Iniciava-se uma nova


etapa na sua acção política, agora no exílio, mas sempre vigiado de perto
pela polícia política de Salazar. As suas actividades e movimentações
foram nessa altura diligentemente relatadas por um informador infiltrado,
bem colocado e reconhecido nos círculos oposicionistas radicados no
Brasil, que, semana após semana, enviava relatórios circunstanciados à
embaixada portuguesa no Rio de Janeiro, que por sua vez eram remetidos
para a PIDE, em Lisboa (Nota 16).

Procura reorganizar o seu MNI, esforça-se por reagrupar núcleos e


personalidades que, no Brasil como noutros países sul-americanos, se
opunham a Salazar. Aproxima-se de Henrique Galvão, que se encontrava em
Caracas, na Venezuela, congeminando o assalto ao paquete Santa Maria. Ao
mesmo tempo lança entendimentos e bases de cooperação com grupos de
exilados políticos espanhóis aí radicados, designadamente com o governo
espanhol no exílio, chefiado por Emílio Herrera. O DRIL, Directório
Revolucionário Ibérico de Libertação, é a expressão desse trabalho
porfiado, cujo acordo formal de constituição seria assinado também em
Caracas em Janeiro de 1960 (Nota 17).

É neste ambiente que Arajaryr Campos conhece o general, tornando-se sua


secretária após convite do tesoureiro da Associação General Humberto
Delgado, que era seu padrinho. Passará desde então, Junho de 1959, a
segui-lo devotada e corajosamente18 até serem ambos assassinados.

No final desse ano, Delgado empreende uma viagem pela Europa, cujo
objectivo é contactar dirigentes políticos de esquerda, sensibilizá-los
para a situação portuguesa e solicitar o seu apoio. Desloca-se à
Inglaterra e à Holanda, porém a ofensiva diplomática do salazarismo
limita a sua acção e vê-se constrangido a desistir da deslocação a
França.

Ao mesmo tempo, mantém contacto com alguns dos sectores militares e


políticos que o haviam apoiado na candidatura, que continuam a conspirar
e que organizam uma acção militar que se iniciaria com o assalto ao
quartel de Beja na primeira madrugada de 1962. Envia ao país Manuel Serra
que dirige no interior os preparativos.
398

Ele próprio, que deveria apenas chegar quando o movimento triunfasse, não
resiste e entra clandestinamente no país acompanhado da sua secretária,
nos últimos dias de 1961. Passam a fronteira de camioneta, usando o
general um passaporte português falsificado.

As fragilidades do movimento são muitas e o golpe aborta rapidamente, mas