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Neizon Mateus Bezerra Paiva

3º ano, noturno
Filosofia das Ciências Humanas
Docente: Sinésio Ferraz Bueno

Redigir uma redação esclarecendo os principais conceitos empregados por Adorno em sua
análise crítica do fascismo e explicando o papel do ressentimento e da impostura como
elementos subjetivos que sustentam a agressividade grupal.

O filósofo alemão Theodor W. Adorno nos apresenta em suas análises como a lógica
inerente ao capital tornou-se algo que implica tanto no aspecto econômico da sociedade quanto
na realização da liberdade integral do indivíduo, especialmente quando se pensa no atual estado
de desenvolvimento tecnológico do capitalismo. A autonomia do indivíduo é moldada pela
estrutura social e político-econômica, o que conduz os indivíduos a não se entenderem mais como
sujeitos enquanto imersos a mecanismos de controles que circundam as mercadorias e a indústria
cultural em si.

A partir disso, o mundo capitalista é posto como um sistema que se caracteriza pelo
abrandamento do indivíduo ante a um todo coercitivo e opressor, e aos olhos de Adorno é
justamente por meio desse enfraquecimento do eu que se emerge inclinações fascistas na
sociedade. Para Adorno, a personalidade despótica não sobrevém tão somente do alto, em
consonância a ideologias conservadoras, mas antes é pungida pela apatia e marasmo
reproduzidos pelo indivíduo em face a realidade capitalista, isto é, o indivíduo débil busca
compensar sua fragilidade ao se identificar com a figura autoritária, sendo que esta presença
totalitária se realiza em um movimento dialético quando reproduzida pelo arranjo econômico
mundial que impele a população a se manter em uma posição de estagnação, assim, a
personalidade fascista se sustenta na constância dessas pressuposições sociais objetivas
articulados a possibilidade de angariar poder.

Assim sendo, é possível destacar que Adorno nota que há uma dialética inerente ao
fascismo, em que ao mesmo tempo que a necessidade de superação desse estado irracional é
evocada em face a uma junção social forçada, concomitantemente é o estímulo de convencimento
suscitado ao indivíduo que busca se manter com a impostura. Essa circunstância de negação
coletiva exige do indivíduo uma resignação tamanha que o propicia a receptividade de tal
contradição mesmo que ainda esteja presente numa sociedade burguesa liberal e com
potencialidades a serem desenvolvidas.

A teoria psicanalítica de Freud concebe a libido como o elemento que reúne os indivíduos
em grupos, ao passo que determina às pessoas uma necessidade de pertencimento ao coletivo,
nessa perspectiva indica também a demanda por um líder no qual a libido social é depositada de
modo a assegurar a unificação do grupo, posto que este carrega o ideal do eu da massa, ele
possibilita uma identificação geral emparelhada a determinada apreensão da realidade. Apoiado
na psicanálise, Adorno toma a interpretação do mal-estar da civilização do autor como
pressuposto e evidencia a existência de uma imensa repressão de desejos humanos em virtude
da expressão de pulsões de morte que vão de encontro a sociedade. Para Adorno, o mundo atual
é materialmente capaz de corresponder tais carências a serem supridas, contudo, o citado mal-
estar e toda coação social apenas se intensificaram ao longo do tempo, visto o notável
crescimento dos índices de violência, nesse sentido argumenta que há nos indivíduos um
sentimento de enclausuramento dado o processo de racionalização intrínseco à modernidade e,
por conseguinte, as ditas pulsões de morte se expressam de modo a tornar a civilização
gradualmente mais irracional e intolerante.

Isto posto, Adorno coloca que o ethos fascista parte de uma consciência formada apenas
parcialmente, no qual carece duma devida racionalidade e se sustenta em um sentimento de
rancor, dessa forma, compara os indivíduos que são privados de quaisquer resquícios de livre-
arbítrio ao termo jitterbug, que diz respeito a um inseto que é atraído passivamente a
determinados estímulos tais como a luz, o que nos leva a pensar nos homens de maneira análoga
a insetos, sem autonomia, por consequência a personalidade fascista é acentuada pela
insatisfação produzida e reproduzida pela própria necessidade de adequação a uma realidade que
se mostra impositora. À vista disso os sentimentos de inquietação e agressividade que deveriam
ser canalizados a esta apatia social e a questões de desigualdade e injustiça, voltam-se à cultura
per se, o que implica em direcionar qualquer rancor aos sectos mais frágeis da hierarquia social,
aqueles que são diferentes, inábeis, fracos nos mais diversos sentidos, isto é, a revolta que
deveria incorrer a estrutura política e econômica é proferida a indivíduos em específico, sejam
estes tangíveis ou não.

A educação a qual a criança está sujeita nos seus primeiros anos de vida nos é retratada
como fundamental para a construção dessa personalidade intransigente. A escola de base
assume hábitos e costumes que expressam a lógica duma sociedade patriarcal na qual a
virilidade masculina e a capacidade de suportar sofrimentos físicos ou emocionais antes a
qualquer sentimento de compaixão tornam-se valores fundantes, isso proporciona aos indivíduos
que compõe o meio façam-se impossibilitados de desenvolverem sua humanidade através de
relações [de fato] afetivas, que prezem por valores nobres e indulgentes tendo em vista o bem-
estar comum. Em suma, Adorno observa que uma educação rígida e sem envolvimento afetivo
tende a inferir no surgimento de pessoas indiferentes para com as ânsias humanas, porquanto
aqueles que carregam marcas de severidade veem-se na liberdade de aliviar suas pulsões de
morte que foram tanto reprimidas.
Novamente aos ombros da teoria freudiana, o autor aponta a autoridade do pai como
substancial para o desenvolvimento da criança, posto que sua presença é um fator de
identificação muito significativo nos primeiros anos de vida, ele configura uma autoridade que é
absorvida e apropriada pela criança, sendo uma referência a se espelhar, a figura paterna
personifica o eu ideal da criança. Para tanto, o desenvolvimento apresentado como saudável dá
se não pela subjugação a soberania paterna, mas pela superação desta quando o pai passa a ser
entendido como um ser imperfeito e passível de falhas, o indivíduo, então, questiona seus ideais
mais profundos e começa a ter maior consciência de si mesmo e da realidade que o cerca.
Entretanto, por mais que a superação da figura de autoridade paterna seja o caminho para o
desenvolvimento de indivíduos saudáveis socialmente, a sociedade moderna criou circunstâncias
para que a flor da personalidade fascista possa aflorar. Adorno aponta que a família que antes
possuía papel fundamental na acepção do caráter do indivíduo tornou-se um setor enfraquecido
nesse sentido, e muito por conta do momento em que se encontra o desenvolvimento do sistema
capitalista dada a acentuação da divisão do trabalho e a consolidação da sociedade massificada,
desse modo, a psiquê do indivíduo não mais assume a autoridade paterna, se debilita e abre
espaço para forças sociais coativas que deixam a pessoa suscetível ao mindset fascista.

Adorno sustenta que entre a dita impostura e a consciência crítica existe algo como um
“fino véu”, mas que em contrapartida é inacreditavelmente difícil de ser desvelado, à medida que a
vontade do próprio indivíduo é a de sustentar as contradições de tal ideologia, que começam a
ficar cada vez mais evidentes, a aceitação do fascismo é reforçada, mas dialeticamente um
potencial de esclarecimento social ganha forma. Diante disso, Adorno salienta que uma possível
resistência ao fascismo vá de encontro a uma sólida barreira emocional que envolve o coletivo
fascista, sendo a noção de ressentimento que a fundamenta e se opõe a racionalidade iluminista.
É como se uma “fúria cega” fosse em direção a verdade, a realidade passa a ser representada de
maneira paranoica quando as inclinações e pulsões de morte são projetadas naqueles que
apresentam alguma ameça ao regime, o que nos leva a considerar que para o autor, a única
medida efetiva contra essa falsa consciência do real é a autonomia, a autoconsciência que nos
conduz a questionar uma possível participação.

Portanto, para Adorno o embate para com o fascismo deve se apoiar na educação, aos
termos do filósofo: “A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a
educação”, sendo essa a condição primeira a nortear qualquer argumentação sobre educação. A
educação nos é apresentada como algo que deve carregar uma “pedagogia do esclarecimento”,
em que cabe a escola a orientar as crianças a devida educação política de modo a desenvolverem
empatia aos oprimidos e lucidez crítica quanto as violências realizadas pelo próprio ocidente.
Ademais, Adorno destaca que em vias dessa educação emancipadora é preciso que a crítica se
oriente sobretudo para a ideologia difundida na indústria cultural de forma a possibilitar aos
indivíduos a capacidade de compreender a realidade atual autonomamente.

Pelo exposto, Adorno aponta para um enriquecimento cultural que sirva de antítese a
hegemonia decadente da indiferença intrínseca a sociedade capitalista somada aos sentimentos
destrutivos coadunantes da mentalidade fascista, e para isso deve-se apreender o fascismo como
uma resposta ao próprio desenvolvimento do capitalismo conjuntamente ao progresso do
patriarcado ante a natureza, o que nos leva a sua compreensão do fascismo como um movimento
inserido no processo histórico, dessa forma, por meio da emancipação, do esclarecimento, isto é,
o desenvolvimento de potencialidades humanas voltadas a valores iluminista, propicia-se uma
vindoura superação dialética do fascismo.