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INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES

E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Marcelo Moreira Cavalcanti


Valéria Neves Domingos Cavalcanti

Universidade Estadual de Maringá


Departamento de Matemática

Maringá
2010
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
ii E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV
Ficha Catalográfica

Cavalcanti, Marcelo M. e Domingos Cavalcanti, Valéria N.

Introdução à Teoria das Distribuições e aos Espaços de Sobolev/


Marcelo M. Cavalcanti e Valéria Neves Domingos Cavalcanti/ Mar-
ingá:

UEM/DMA, 2007.

iii, 460p. il.

Livro Texto - Universidade Estadual de Maringá, DMA.

1. Teoria das Distribuições.

2. Espaços de Sobolev.
Conteúdo

1 RESULTADOS BÁSICOS SOBRE DISTRIBUIÇÕES 1


1.1 Espaço de Funções Testes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
1.2 Distribuições sobre Ω . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
1.3 Suporte de Distribuições . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
1.4 Um Repasso à Transformada de Fourier . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29
1.5 O espaço de Schwartz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
1.6 Distribuições Temperadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50

2 PROPRIEDADES ELEMENTARES DOS ESPAÇOS DE SOBOLEV 55


2.1 Geometria dos Espaços de Sobolev . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
2.2 O Espaço W0m,p (Ω) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
2.3 O Espaço W −m,q (Ω) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62
2.4 Reflexividade nos Espaços de Sobolev . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
2.5 Aproximações por Funções Regulares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68

3 IMERSÕES DE ESPAÇOS DE SOBOLEV 91


3.1 Desigualdades Notáveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91
3.2 Teoremas de Imersão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105

4 PROPRIEDADES DO PROLONGAMENTO 131


4.1 Prolongamento: Caso Ω = Rn+ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
4.2 Prolongamento: Caso Ω limitado bem regular . . . . . . . . . . . . . . . . 141
4.3 Resultados de Imersões e Compacidade para Caso W m,p (Ω). . . . . . . . . 154

iii
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
iv E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

4.4 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165

5 OS ESPAÇOS H s 177
5.1 Os Espaços H s (Rn ) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 177
5.2 Os Espaços H s (Ω) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 189
5.3 Os Espaços H s (Γ) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 202

6 TEORIA DE TRAÇO 207


6.1 Traço de uma Função de H 1 (Ω) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 207
6.1.1 Caso Ω = Rn+ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 208
6.1.2 Caso Ω Aberto Limitado com Fronteira Γ Bem Regular . . . . . . . 228
6.2 Traço de Ordem m de uma Função de H m (Ω) . . . . . . . . . . . . . . . . 245
6.3 Fórmulas de Green Generalizadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 278
6.4 Aêndice: Partição C ∞ da Unidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 298
6.5 Exercı́cios referentes aos Capı́tulos 5 e 6 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 313

Referências bibliográficas 316


v

APRESENTAÇÃO

Sob o nome de “Iniciação à Teoria das Distribuições e aos Espaços de Sobolev”


encontram-se alguns resultados básicos sobre a Teoria das Distribuições, Espaços de
Sobolev e Teoremas de Traço.
A motivação de escrever este texto surgiu quando cursávamos o Doutorado na UFRJ,
sob a orientação dos professores Manuel Milla Miranda e Luiz Adauto Medeiros, aos quais
somos eternamente gratos pela nossa formação.
Este texto não pretende, evidentemente, comparar-se aos clássicos R.A. Adams [1], H.
Brézis [3] ou J.L. Lions e J.E. Magenes [10], dentre outros; mas abordar de maneira mais
detalhada alguns resultados neles contidos.
Para uma boa leitura deste livro são necessários, por parte do leitor, co-nhecimento
prévio dos espaços vetoriais topológicos, bem como da Teoria de Medida e Integração
e fundamentos da Análise Funcional. Além disso, supõe-se, evidentemente, que o leitor
esteja familiarizado com os conceitos e resultados fundamentais da Análise no Rn e Ge-
ometria Diferencial.
Esperamos que este material auxilie àqueles que ingressam na área de Equações Difer-
enciais, ou ainda, àqueles que por ela se interessem. Este é o propósito deste texto.
Gostarı́amos de agradecer aos nossos alunos, desde a primeira turma de Mestrado em
Matemática da Universidade Estadual de Maringá (1999) bem como ao Professor Juan
Amadeo Soriano, pela leitura deste texto e correção de alguns erros nele encontrados.
Deixamos aqui registrado que é de nossa inteira responsabilidade todo e qualquer erro
encontrado neste manuscrito e, agradecemos, antecipadamente, toda e qualquer mani-
festação de correção do mesmo.
Gostarı́amos, ainda, de agradecer ao querido Mestre Alvércio Moreira Gomes pelo seu
incentivo constante e pelo seu grande exemplo de vida.
Finalmente, gostarı́amos de agradecer ao amigo Wilson Góes pelo excelente trabalho
de digitação e estética.

Maringá, Outubro de 2007

Os Autores
Capı́tulo 1

RESULTADOS BÁSICOS SOBRE


DISTRIBUIÇÕES

1.1 Espaço de Funções Testes


Denotaremos por x = (x1 , x2 , . . . , xn ) os pontos do Rn , por K o corpo dos números reais
ou complexos, por α = (α1 , α2 , . . . , αn ) as n-uplas de números inteiros não negativos e
escreveremos |α| = α1 + α2 + · · · + αn e α! = α1 !α2 ! . . . αn ! . Denotaremos por
∂ |α|
Dα =
∂xα1 1 ∂xα2 2 . . . ∂xαnn
o operador derivação.
No caso 0 = (0, 0, . . . , 0), o operador D0 estará representando o operador identidade.
Diremos que α ≤ β, α = (α1 , α2 , . . . , αn ) e β = (β1 , β2 , . . . , βn ), se αi ≤ βi para i =
1, 2, . . . , n. Se u e v são funções numéricas com um número suficiente de derivadas, temos
a fórmula de Leibniz:
X α!
Dα (uv) = (Dβ u)(Dα−β v).
β≤α
β!(α − β)!

Seja Ω um aberto do Rn . Denotaremos por Lp (Ω), 1 ≤ p ≤ +∞, o espaço de Banach


das (classes de) funções definidas em Ω com valores em K, tais que |u|p é integrável no
sentido de Lebesgue em Ω, com norma
Z  p1
p
||u||Lp (Ω) = |u(x)| dx , para 1 ≤ p < +∞

e essencialmente limitadas em Ω, Ω com a medida de Lebesgue, com norma

||u||L∞ (Ω) = → supess |u(x)|, para p = +∞.


x∈Ω

1
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
2 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

No caso p = 2, L2 (Ω) é um espaço de Hilbert. Denotaremos por (· , ·) e | · |, o produto


interno e a norma, respectivamente, deste espaço. Assim,
Z
(u, v) = u(x) v(x) dx, u, v ∈ L2 (Ω)

e |u|2 = (u, u). Denotaremos por Lploc (Ω), 1 ≤ p < +∞, o espaço das (classes de) funções
u : Ω → K tais que |u|p é integrável no sentido de Lebesgue sobre cada compacto K de
Ω. Seja (uν ) uma sucesão em Lploc (Ω) e u ∈ Lploc (Ω). Diremos que

uν → u em Lploc (Ω)

se para cada compacto K de Ω tem-se,


Z  p1
p
pK (uν − u) = |uν (x) − u(x)| dx → 0.
K

Mostra-se que Lploc (Ω) é um espaço de Fréchet, isto é, um espaço localmente convexo
completo que é metrizável. Notemos que Lploc (Ω) ,→ L1loc (Ω) onde ,→ denota que a iden-
tidade é uma injeção contı́nua. No que segue neste texto, ,→ estará sempre denotando
que a identidade é uma injeção contı́nua.
Seja u : Ω → K contı́nua. O suporte de u, o qual será denotado por supp(u), é definido
como o fecho em Ω do conjunto {x ∈ Ω; u(x) 6= 0}. Se este conjunto for um compacto do
Rn então dizemos que u possui suporte compacto. Denotaremos por C0∞ (Ω) o conjunto das
funções ϕ : Ω → K que são infinitamente diferenciáveis em Ω e que têm suporte compacto,
sendo que este suporte depende de ϕ. Dotaremos o espaço C0∞ (Ω) da topologia limite
indutivo L e denotaremos por D(Ω) o espaço topológico (C0∞ (Ω), L). Desta forma, se
(ϕν ) é uma sucessão de funções pertencentes a D(Ω) e ϕ ∈ D(Ω) então prova-se que

ϕν → ϕ em D(Ω) (1.1)

se e somente se existe um subconjunto compacto K de Ω tal que

(i) supp(ϕν ) ⊂ K, ∀ ν e supp(ϕ) ⊂ K;

(ii) ∀ α ∈ Nn , Dα ϕν → Dα ϕ uniformemente sobre K.

O espaço D(Ω) é denominado o espaço das funções testes em Ω. Mostraremos, a seguir


que esta classe de funções é bastante significativa. Para isto consideremos o seguinte:
3

Lema 1.1 Seja θ : R → R definida por:


exp(−x−2 ),
(
x>0
θ(x) =
0, x≤0
Então θ é uma função C ∞ (R).

Demonstração: Se x 6= 0 nada temos a provar. Quando x → 0 e x < 0 então todas


as derivadas são nulas. Agora, quando x → 0 e x > 0 as derivadas constituem uma
combinação linear finita de termos da forma x−n exp(−x−2 ), n inteiro positivo maior ou
igual a zero. Uma simples aplicação da Regra de L’Hospital mostra-nos que esses termos
tendem para zero quando x → 0+ . 2

Podemos usar o lema acima para construir exemplos de funções testes.

Exemplo 1.2 Consideremos a função:


exp(1/(x2 − 1)), se |x| < 1
(
θ(x) =
0, se |x| ≥ 1

Uma simples aplicação do lema precedente mostra-nos que θ ∈ C0∞ (R). Nesse caso,
supp(θ) = [−1, 1].
Mais geralmente, podemos definir:
exp(1/(||x||2 − 1)), se
(
||x|| < 1
ρ(x) =
0, se ||x|| ≥ 1
n
onde ||x||2 = |xi |2 , x = (x1 , . . . , xn ) ∈ Rn .
P
i=1

Então ρ ∈ C0∞ (Rn ) com supp(ρ) = {x ∈ Rn ; ||x|| ≤ 1} = B1 (0).

Exemplo 1.3 Seja ρ : Rn → R definida como acima. Definamos:


Z −1
C= ρ(x) dx
Rn

e consideremos a sequência de funções

ρν (x) = C ν n ρ(νx)

ou seja,
C ν n exp(1/(||νx||2 − 1)), se
(
||x|| < 1/ν
ρν (x) =
0, se ||x|| ≥ 1/ν
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
4 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Notemos que para cada ν, ρν ∈ C0∞ (Rn ) e supp(ρν ) = B1/ν (0). Daı́ vem que
Z Z
ρν (x) dx = C ν n exp(1/(||νx||2 − 1)) dx.
Rn B1/ν (0)

Considerando-se a mudança de variáveis ξ = νx resulta que


Z Z
ρν (x) dx = C ν n exp(1/(||νx||2 − 1)) dx
Rn B1/ν (0)
Z
1
= C ν n exp(1/(||ξ||2 − 1)) dξ
B1 (0) νn
Z −1 Z
= ρ(x) dx ρ(ξ) dξ = 1
Rn Rn

ou seja, Z
ρν (x) dx = 1, ∀ ν ∈ N.
Rn

Então, as funções ρν , à medida que ν cresce, têm suportes cada vez menores, mas
preservam o volume contido sob o gráfico. Quando ν → +∞ essas funções estão concen-
tradas na origem.

Denominamos sucessão regularizante à toda sucessão (ρν )ν∈N de funções tais que
Z
ρν ∈ C0∞ (Rn ), supp(ρν ) ⊂ B1/ν (0), ρν (x) dx = 1 e ρν ≥ 0.
Rn

Seja u ∈ Lp (Ω). Definimos o suporte de u, o qual denotamos ainda por supp(u), como
o conjunto obtido pela interseção de todos os subconjuntos fechados em Ω fora dos quais
u se anula quase sempre. Notemos que se u ∈ C(Ω) ∩ Lp (Ω) então as noções de suporte
definidas para funções contı́nuas em Ω e para funções de Lp (Ω) coincidem.
Sejam f ∈ L1 (Rn ) e g ∈ Lp (Rn ) com 1 ≤ p ≤ +∞. Definimos a convolução de f por
g por Z
(f ∗ g)(x) = f (x − y) g(y) dy.
Rn

Então, (f ∗ g) ∈ Lp (Rn ) e além disso, ||f ∗ g||Lp ≤ ||f ||L1 ||g||Lp . Contudo, sendo
f ∈ C0 (Rn ) e g ∈ L1loc (Rn ) temos (f ∗ g) ∈ C(Rn ). Mais além, se f ∈ C0k (Rn )
(k natural) e g ∈ L1loc (Rn ) então (f ∗ g) ∈ C k (Rn ) e vale a fórmula de derivação

Dk (f ∗ g) = (Dk f ) ∗ g.
5

Pode-se provar sem dificuldades que se f e g são funções para as quais a convolução
está bem definida então

supp(f ∗ g) ⊂ supp(f ) + supp(g).

Segue daı́ que se f e g tiverem suportes compactos também o terá f ∗ g.

Proposição 1.4 Sejam K um compacto não vazio e F um subconjunto fechado do Rn ,


tais que K ∩ F = ∅. Então existe ψ ∈ C0∞ (Rn ) tal que ψ = 1 em K, ψ = 0 em F e
0 ≤ ψ(x) ≤ 1, ∀ x ∈ Rn .

1
Demonstração: Seja ε = d(K, F ) > 0 e consideremos os seguintes conjuntos:
4
K0 = {x ∈ Rn , d(x, K) ≤ ε}
F0 = {x ∈ Rn , d(x, K) ≥ 2 ε}
K1 = {x ∈ Rn , d(x, K) ≤ 2 ε}
K2 = {x ∈ Rn , d(x, K) ≤ 3 ε}

Temos que K0 é compacto, F0 é fechado e K0 ∩ F0 = ∅. Logo, a função


d(x, F0 )
v(x) = , x ∈ Rn
d(x, F0 ) + d(x, K0 )
é contı́nua, com as seguintes propriedades:

(i) 0 ≤ v(x) ≤ 1

(ii) v(x) = 1 se x ∈ K0 e v(x) = 0 se x ∈ F0

Além disso, se x ∈ Rn é tal que v(x) 6= 0 então x ∈


/ F0 (já que v(x) = 0 se e só se
x ∈ F0 ). Portanto,
{x ∈ Rn , v(x) 6= 0} ⊂ Rn \F0

e, por conseguinte,
{x ∈ Rn , v(x) 6= 0} ⊂ Rn \F0

i.é.
supp(v) ⊂ K1 .
Z
Seja θ ∈ C0∞ (Rn ) tal que θ(x) ≥ 0, supp(θ) = Bε (0) e θ(x) dx = 1.
Rn
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
6 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Definamos:
ψ = θ ∗ v.

Então ψ ∈ C0∞ (Rn ) já que θ e v possuem suportes compactos. Temos também que ψ
satisfaz a seguinte propriedade:

supp(ψ) ⊂ supp(θ) + supp(v) = Bε (0) + supp(v) ⊂ Bε (0) + K1 ⊂ K2 ⊂ Rn \F.

Segue daı́ que se x ∈ F então x ∈


/ supp(ψ) e por conseguinte ψ(x) = 0. Então,

ψ = 0 em F.

Além disso, se x ∈ K e ||y|| ≤ ε, então (x − y) ∈ K0 já que x + (−y) ∈ K + Bε (0) = K0 .

Logo, v(x − y) = 1 e
Z Z
ψ(x) = (θ ∗ v)(x) = θ(y)v(x − y) dy = θ(y) dy = 1.
||y||≤ε ||y||≤ε

Consequentemente,
ψ = 1 em K.
Z
Finalmente, como ψ(x) = θ(y)v(x − y) dy e pelo fato de 0 ≤ v(ξ) ≤ 1 tem-se
||y||≤ε

Z Z
0 ≤ ψ(x) = θ(y)v(x − y) dy ≤ θ(y) dy = 1
||y||≤ε ||y||≤ε

i.é, 0 ≤ ψ(x) ≤ 1. Isto encerra a prova 2

No que segue (ρν ) representará uma sucessão regularizante.

Proposição 1.5 Seja f ∈ C(Rn ). Então, ρν ∗f → f uniformemente sobre todo compacto


do Rn .

Demonstração: Sejam ε > 0 e K um compacto do Rn . Provaremos que ρν ∗ f → f


uniformemente sobre K. Com efeito, devemos exibir ν0 ∈ N (que só dependa de ε e de
K) tal que para todo ν ≥ ν0 tenhamos |(ρν ∗ f )(x) − f (x)| < ε, seja qual for x ∈ K.
7

Tomemos x ∈ K qualquer. Temos,


Z

|(ρν ∗ f )(x) − f (x)| =
ρν (x − y)f (y) dy − f (x)
n
ZR Z

= ρν (x − y)f (y) dy − f (x)ρν (y) dy
n Rn
ZR

= [f (x − y) − f (x)] ρν (y) dy
n
ZR
≤ |f (x − y) − f (x)| ρν (y) dy.
B1/ν (0)

Observemos que a idéia, agora, é usar a continuidade uniforme da função f em K


de modo a majorarmos a integral por ε para um “ν ” suficientemente grande. Contudo,
apesar de x pertencer a K, não temos a garantia que x − y pertença a K para y ∈ B1/ν (0).
Definamos, então
K1 = K − B1 (0).

Assim, K1 é um compacto e à medida que y varia na bola B1/ν (0) ⊂ B1 (0) tem-se
x − y pertencente ao compacto K1 . Então, face a continuidade uniforme da f , para o
ε > 0 dado, existe δ(ε) > 0 tal que ∀ z1 , z2 ∈ K1 com ||z1 − z2 || < δ ⇒ |f (z1 ) − f (z2 )| < ε.
Em particular, para os pontos x e x − y temos

Se ||x − (x − y)|| = ||y|| < δ ⇒ |f (x − y) − f (x)| < ε.

Ora, como y ∈ B1/ν (0) então ||y|| < 1/ν. Consideremos, então, ν0 ∈ N com ν0 > 1/δ.
Logo, para todo ν ≥ ν0 temos 1/ν ≤ 1/ν0 o que implica ||y|| < 1/ν < δ. Portanto,

|f (x − y) − f (x)| < ε

e, consequentemente,
Z Z
|(ρν ∗ f )(x) − f (x)| ≤ |f (x − y) − f (x)| ρν (y) dy < ε ρν (y) dy = ε
B1/ν (0) B1/ν (0)

para todo ν ≥ ν0 seja qual for x ∈ K. Isto encerra a prova. 2

Proposição 1.6 Seja f ∈ L1loc (Ω) tal que


Z
f (x)ϕ(x) dx = 0, ∀ ϕ ∈ C0 (Ω).

Então f = 0 em quase toda parte.


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
8 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Demonstração: Primeiramente provaremos a veracidade da proposição para funções


pertencentes a L1 (Ω) com Ω limitado. Seja então f ∈ L1 (Ω), onde Ω é um subconjunto
R
aberto e limitado do Rn tal que Ω f (x)ϕ(x) = 0, ∀ ϕ ∈ C0 (Ω). Sabe-se da teoria de
integração que C0 (Ω) é denso em L1 (Ω). Então, dado ε > 0 ∃ f1 ∈ C0 (Ω) tal que

||f − f1 ||L1 (Ω) < ε.

Logo, para todo u ∈ C0 (Ω) temos


Z Z

f1 (x)u(x) dx = (f1 (x) − f (x) + f (x))u(x) dx


ZΩ Z

≤ |f1 (x) − f (x)| |u(x)| dx + f (x)u(x) dx
Ω Ω
≤ ||u||L∞ (Ω) ||f1 − f ||L1 (Ω) ≤ ε||u||L∞ (Ω) .
R
Note-se que na expressão integral acima Ω f u = 0, por hipótese. Assim,
Z

f1 (x)u(x) dx ≤ ε ||u||L∞ (Ω) , ∀ u ∈ C0 (Ω). (1.2)

Definamos:

K1 = {x ∈ Ω, f1 (x) ≥ ε} e K2 = {x ∈ Ω, f1 (x) ≤ −ε}.

Como K1 e K2 são compactos disjuntos temos a existência de funções (cf. Proposição


1.4)
u0,1 : Ω → R e u0,2 : Ω → R
contı́nuas e de suporte compacto em Ω e tais que

u0,1 (x) = 1, ∀ x ∈ K1 ; u0,1 (x) = 0, ∀ x ∈ K2 e 0 ≤ u0,1 ≤ 1 em Ω


u0,2 (x) = 1, ∀ x ∈ K2 ; u0,2 (x) = 0, ∀ x ∈ K1 e 0 ≤ u0,2 ≤ 1 em Ω

Pondo-se u0 = u0,1 − u0,2 , obtemos

u0 = 1 em K1 e u0 = −1 em K2 .

Além disso, u0 é claramente contı́nua. Então, se K = K1 ∪ K2 resulta que


Z Z Z
||f1 ||L1 (Ω) = |f1 (x)| dx = |f1 (x)| dx + |f1 (x)| dx
Ω K Ω\K
Z Z
= u0 (x)f1 (x) dx + |f1 (x)| dx
K Ω\K
Z
≤ u0 (x)f1 (x) dx + ε med(Ω\K)
K
9

posto que |f1 (x)| < ε em Ω\K. Por outro lado, como Ω = K ∪ (Ω\K), temos que
Z Z Z

u0 (x)f1 (x) dx ≤ u0 (x)f1 (x) dx + u0 (x)f 1 (x) dx .

K Ω Ω\K

Logo,
Z Z

||f1 ||L1 (Ω) ≤ u0 (x)f1 (x) dx +
u0 (x)f1 (x) dx + ε med(Ω\K)
Ω Ω\K

e de (1.2) segue que


Z

||f1 ||L1 (Ω) ≤ ε ||u0 ||L∞ (Ω) +
u0 (x)f1 (x) dx + ε med(Ω\K)
ZΩ\K
≤ ε ||u0 ||L∞ (Ω) + ε |u0 (x)| dx + ε med(Ω\K)
Ω\K
≤ ε + 2ε med(Ω\K) ≤ ε + 2ε med(Ω)

pois |f1 (x)| ≤ ε em Ω\K e |u0 (x)| ≤ 1 em Ω.


Desta forma,

||f ||L1 (Ω) ≤ ||f − f1 + f1 ||L1 (Ω) ≤ ||f − f1 ||L1 (Ω) + ||f1 ||L1 (Ω)
≤ ε + ε + 2ε med(Ω) = 2ε(1 + med(Ω)).

Pela arbitrariedade de ε > 0 conclui-se que f = 0 q.s. em Ω.


Consideremos, agora, o caso geral. Sejam f ∈ L1loc (Ω) e Ω ⊂ Rn , aberto qualquer.
Para cada ν ∈ N, definamos:

Ων = {x ∈ Ω | d(x, Rn \Ω) > 1/ν e ||x|| < ν}.

Observemos que Ων é aberto. De fato, seja x0 ∈ Ων . Então, d(x0 , Rn \Ω) = d0 > 1/ν
e ||x0 || < ν. Definamos:

0 < r < min{ν − ||x0 ||, d0 − 1/ν}.

Logo,
Br (x0 ) ⊂ Ων . (1.3)

Com efeito, se x1 ∈ Br (x0 ) temos que ||x1 − x0 || < r e portanto,

||x1 || < r + ||x0 || < ν.


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
10 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Além disso, d(x1 , y) ≥ d(x0 , y) − d(x1 , x0 ), ∀ y ∈ Rn \Ω e portanto,

d(x1 , Rn \Ω) ≥ d0 − r > 1/ν.

Concluı́mos, então, que x1 ∈ Ων e por conseguinte temos provado (1.3). Isto prova
que Ων é aberto. Temos também que Ων é limitado para todo ν ∈ N, pois Ων ⊂ Bν (0).
Mais além, temos também que

[
Ω= Ων . (1.4)
ν∈N

De fato, tome x ∈ Ω. Então, como {x} é compacto e Rn \Ω é fechado segue que


d(x, Rn \Ω) > 0. Consideremos, então, ν0 ∈ N suficientemente grande tal que 0 < 1/ν0 <
d(x, Rn \Ω) e também que ||x|| < ν0 . Então, x ∈ Ων0 e portanto x ∈
S
Ων . Reciproca-
S ν∈N
mente, como Ων ⊂ Ω, ∀ ν segue que Ων ⊂ Ω. Isto prova (1.4).
ν∈N
Finalmente, sendo o fecho de Ων um compacto contido em Ω então, como
f ∈ L1loc (Ω), podemos aplicar o raciocı́nio anterior para Ων e f |Ων de modo a concluir
que f = 0 q.s. em Ω. 2

Na demonstração da proposição acima usamos o fato da função f ser real. Porém o


resultado permanece válido para funções complexas pois, nesse caso, f = f1 + i f2 , onde
R R
f1 e f2 são reais e assim Ω f u dx = 0 implica que Ω fj u dx = 0, j = 1, 2. Usando a
proposição acima concluı́mos que fi = 0 q.s. em Ω, i = 1, 2. Portanto f = 0 q.s. em Ω.

Lema 1.7 (Du Bois Raymond) Sejam u ∈ L1loc (Ω) tal que
Z
u(x)ϕ(x) dx = 0, ∀ ϕ ∈ C0∞ (Ω)

então u = 0 quase sempre em Ω.

Demonstração: Sejam u ∈ L1loc (Ω) e ψ ∈ C0 (Ω) e consideremos (ρν ) uma sucessão


regularizante. De acordo com a Proposição 1.5 temos que

ψ̃ν = ψ̃ ∗ ρν → ψ̃ (onde ψ̃ é a extensão de ψ nula fora de Ω) (1.5)

uniformemente sobre todo compacto de Rn . Além disso, denotando-se por K o supp(ψ),


temos para ν ≥ ν0 que:

supp(ψ̃ν ) ⊂ supp(ψ) + supp(ρν ) ⊂ K + B1\ν (0) ⊂ Ω. (1.6)


11

Com efeito, seja x ∈ K + B1\ν (0). Então x = z + y para algum z ∈ K e y ∈ B1\ν (0).
Como K é um compacto contido em Ω, ∃ r > 0 tal que Br (z) ⊂ Ω. Consideremos, então,
ν0 > 1/r. Temos, para todo ν ≥ ν0 que

||x − z|| = ||y|| ≤ 1/ν < r, i.é, x ∈ Br (z) ⊂ Ω

o que prova 1.6. Pondo-se:


K1 = K + B1\ν0 (0)
então,
supp(ψ̃ν ) ⊂ K + B1\ν (0) ⊂ K1 e supp(ψ) = K ⊂ K1 . (1.7)

Logo para todo ν ≥ ν0 resulta que


Z Z
u ψ̃ν dx → u ψ dx (1.8)
Ω Ω
pois
Z Z
|u(ψ̃ν − ψ)| dx = |u| |ψ̃ν − ψ| dx
Ω K1
 Z
≤ max |ψ̃ν (x) − ψ(x)| |u| dx
x∈K1 K1

onde a última expressão tende para zero em virtude de (1.5). Ora, de (1.7) temos que a
sucessão ψ̃ν pertence a C0∞ (Ω). Logo, por hipótese vem que
Z
u ψ̃ν dx = 0

e de (1.8) resulta que Z


u ψ dx = 0, ∀ ψ ∈ C0 (Ω).

Segue da Proposição 1.6 que u = 0 q.s. em Ω. Isto encerra a prova. 2

Proposição 1.8 O espaço C0 (Ω) é denso em Lp (Ω) para 1 ≤ p < +∞.

Demonstração: Conforme já sabemos da teoria de integração C0 (Ω) é denso em L1 (Ω).


Suponhamos então que 1 < p < +∞. Para demonstrarmos que C0 (Ω) é denso em Lp (Ω) é
R
suficiente comprovar se h ∈ Lp0 (Ω) e verifica Ω hu = 0 para todo u ∈ C0 (Ω) então h = 0.
Com efeito, temos que h ∈ L1loc (Ω) pois sendo K um compacto do Rn contido em Ω temos
Z
||h||L1 (K) = |hχK | dx ≤ ||h||Lp0 med(K)1/p < +∞.

Desta forma, podemos aplicar a Proposição 1.6 para concluir que h = 0 q.s. em Ω. 2
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
12 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Proposição 1.9 Seja f ∈ Lp (Rn ) com 1 ≤ p < +∞. Então:

ρν ∗ f → f em Lp (Rn ).

Demonstração: Inicialmente observemos que para cada ν ∈ N, ρν ∗ f ∈ C ∞ (Rn ).


Consideremos, então, ε > 0 e f ∈ Lp (Rn ). De acordo com a Proposição 1.8 existe
f1 ∈ C0 (Rn ) tal que
||f − f1 ||Lp (Rn ) < ε/4. (1.9)

Por outro lado, de acordo com a Proposição 1.5 temos que

ρ ν ∗ f1 → f1

uniformemente sobre todo compacto do Rn . Mas, para cada ν

supp(ρν ∗ f1 ) ⊂ supp(ρν ) + supp(f1 ) ⊂ B1 (0) + supp(f1 ) ⊂ K

onde K é um compacto fixo do Rn . Assim, em particular,

ρ ν ∗ f1 → f1

uniformemente em K, o que implica que

⇐= ||ρν ∗ f1 − f1 ||Lp (Rn ) → 0 quando ν → +∞ (1.10)


ε
pois dado  1/p > 0 ∃ ν0 ∈ N tal que para ν ≥ ν0 temos
2 med(K)
Z Z
||ρν ∗ f1 − f1 ||pLp (Rn ) = |(ρν ∗ f1 )(x) − f1 (x)| dx =p
|(ρν ∗ f1 )(x) − f1 (x)|p dx
Rn Z K
ε
< χ dx = ε/2.
2 med(K) Rn K
Logo,

||ρν ∗ f − f ||Lp (Rn ) ≤ ||ρν ∗ f − ρν ∗ f1 ||Lp (Rn ) + ||ρν ∗ f1 − f1 ||Lp (Rn ) + ||f1 − f ||Lp (Rn )
= ||ρν ∗ (f − f1 )||Lp (Rn ) + ||ρν ∗ f1 − f1 ||Lp (Rn ) + ||f1 − f ||Lp (Rn )
≤ ||ρν ||L1 (Rn ) ||f − f1 ||Lp (Rn ) + ||ρν ∗ f1 − f1 ||Lp (Rn ) + ||f1 − f ||Lp (Rn )
≤ 2||f − f1 ||Lp (Rn ) + ||ρν ∗ f1 − f1 ||Lp (Rn ) . (1.11)

Assim, de (1.9), (1.10) e (1.11) resulta para ν suficientemente grande que

||ρν ∗ f − f ||Lp (Rn ) < ε/2 + ε/2 = ε

o que prova o desejado. 2


13

Proposição 1.10 C0∞ (Ω) é denso em Lp (Ω) para 1 ≤ p < +∞.

Demonstração: Sejam ε > 0 e f ∈ Lp (Ω). Devemos exibir ψ ∈ C0∞ (Ω) tal que:
||ψ − f ||Lp (Ω) < ε. De fato, como C0 (Ω) é denso em Lp (Ω), para o ε > 0 dado, existe
f1 ∈ C0 (Ω) tal que ||f − f1 ||Lp (Ω) < 2ε .
Consideremos então a função f˜1 definida por:

(
f1 (x), se x ∈ Ω
f˜1 (x) =
0, se x ∈ Rn \Ω .

Dessa forma f˜1 ∈ C0 (Rn ) e portanto f˜1 ∈ Lp (Rn ). Logo, pela proposição anterior,
||ρn ∗ f˜1 − f˜1 ||Lp (Rn ) → 0 quando n → ∞.
Afirmamos que, para n suficientemente grande, temos que supp(ρn ∗ f˜1 ) ⊂ Ω. Com
efeito, como supp(ρn ∗ f˜1 ) ⊂ B 1 (0)+supp(f1 ) é suficiente mostrar que B 1 (0)+supp(f1 ) ⊂
n n

Ω. Assim, se x ∈ B 1 (0) + supp(f1 ), então x = y + z para algum y ∈ B 1 (0) e z ∈ supp(f1 ).


n n
1
Como z ∈ supp(f1 ) ⊂ Ω, existe r > 0 tal que Br (z) ⊂ Ω. Logo, para n > r
temos,

1
||x − z|| = ||y|| 6 < r =⇒ x ∈ Br (z) ⊂ Ω.
n

Portanto, para n suficientemente grande, temos que supp(ρn ∗ f˜1 ) ⊂ Ω.



˜
Ponhamos, então, un = (ρn ∗ f1 ) . Como supp(f1 ) ⊂ Ω é um compacto do Rn , temos


que B 1 (0) + supp(f1 ) ⊂ Ω é também um compacto do Rn . Logo, para n suficientemente
n

grande, segue que supp(un ) = supp(ρn ∗ f˜1 ) é um compacto contido em Ω, e assim un ∈


C0∞ (Ω).
Para concluir a demonstração, mostraremos que ||un − f1 ||Lp (Ω) → 0. Com efeito,

||ρn ∗ f˜1 − f˜1 ||Lp (Rn ) = || (ρn ∗ f˜1 ) − f1 ||Lp (Ω) → 0,

quando n → ∞.
Assim, para n suficientemente grande,

ε ε
||un − f ||Lp (Ω) 6 ||un − f1 ||Lp (Ω) + ||f1 − f ||Lp (Ω) < + = ε.
2 2

2
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
14 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

1.2 Distribuições sobre Ω


Define-se como distribuição sobre Ω, onde Ω é um subconjunto aberto do Rn à toda forma
linear T sobre D(Ω) que é contı́nua no sentido da convergência sobre D(Ω), dada em (1).
Isto significa que para toda sucessão (ϕν )ν∈N de D(Ω), convergente para zero no sentido
dado em (1), então a sucessão (hT, ϕν i)ν∈N converge para zero em K (K = R ou K = C).
Denotaremos por D0 (Ω) o espaço vetorial de todas as distribuições. Seja (Tν ) uma
sucessão em D0 (Ω) e T ∈ D0 (Ω). Diremos que Tν → T em D0 (Ω) se

hTν , ϕi → hT, ϕi, ∀ ϕ ∈ D(Ω). (1.12)

Muniremos o espaço D0 (Ω) com a topologia fraco estrela dada justamente pela con-
vergência em (1.12).
Temos os seguintes exemplos de distribuições:

Exemplo 1.11 Seja u ∈ L1loc (Ω). Então Tu definida por


Z
hTu , ϕi = u(x)ϕ(x) dx, ϕ ∈ D(Ω)

é uma distribuição sobre Ω. Com efeito, seja (ϕν ) ⊂ D(Ω) tal que ϕν → 0 em D(Ω).
Segue daı́ que existe K compacto de Ω tal que

supp(ϕν ) ⊂ K e D α ϕν → 0 (1.13)

Mas,
Z
|hTu , ϕν i| ≤ |u(x)ϕν (x)| dx

 Z
≤ max |ϕν (x)| |u(x)| dx.
x∈K K

De (1.13) resulta que a expressão acima tende para zero quando ν → +∞. Isto prova
que (hT, ϕν i)ν∈N converge para zero em K.

Segue do exemplo acima que a aplicação

T : L1loc (Ω) → D0 (Ω)


u 7→ Tu (1.14)
15

onde Z
hTu , ϕi = u(x)ϕ(x) dx, ϕ ∈ D(Ω),

está bem definida além de ser claramente linear. Mais além, a aplicação em (1.14) é
injetiva. Com efeito, se u e v são funções de L1loc (Ω) tais que Tu = Tv , então, pelo Lema
de Du Bois Raymond (cf. 1.7) segue que u = v quase sempre em Ω. Por esta razão,
identifica-se u com a distribuição Tu por ela definida e diz-se “a distribuição u ” ao invés
da distribuição Tu .
Consideremos, agora, uν , u ∈ L1loc (Ω) tal que

uν → u em L1loc (Ω). (1.15)

Então, usando a identificação dada por (1.14) temos para toda ϕ ∈ D(Ω) que,
Z  Z
|huν − u, ϕi| ≤ |uν (x) − u(x)| |ϕ(x)| dx ≤ max |ϕ(x)| |uν (x) − u(x)|
Ω x∈K K

onde K = supp(ϕ). Contudo, de (1.15) temos que a expressão à direita da desigualdade


acima tende para zero. Temos provado então que

uν → u em L1loc (Ω) ⇒ uν → u em D0 (Ω). (1.16)

A implicação dada em (1.16) nos mostra que a aplicação dada em (1.14) é contı́nua.
Assim, do exposto acima podemos escrever,

L1loc (Ω) ,→ D0 (Ω)

onde ,→ designa a imersão contı́nua de um espaço no outro. É oportuno observar que


existem distribuições não definidas por funções localmente integráveis, ou seja, a aplicação
dada em (1.14) não é sobrejetora, conforme exemplo a seguir.

Exemplo 1.12 Seja x0 ∈ Ω. Então δx0 definido por

hδx0 , ϕi = ϕ(x0 ), ϕ ∈ D(Ω),

é uma distribuição sobre Ω denominada delta de Dirac. Quando x0 = 0, escreve-se δ0 .

Provaremos, a seguir, que a distribuição δx0 não é definida por uma função localmente
integrável, isto é, não existe uma função u ∈ L1loc (Ω) tal que
Z
u(x)ϕ(x) dx = ϕ(x0 ), ∀ ϕ ∈ D(Ω). (1.17)

INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
16 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

De fato, se existisse uma tal aplicação u, então, considerando-se a aplicação ψ ∈ D(Ω)


definida por
ψ(x) = ξ(x)||x − x0 ||2 , ξ ∈ D(Ω)

de (1.17) vem que


Z
u(x)ξ(x)||x − x0 ||2 dx = ξ(x0 )||x0 − x0 ||2 = 0, ∀ ξ ∈ D(Ω).

Pelo Lema de Du Bois Raymond (cf. 1.7) tem-se ||x − x0 ||2 u(x) = 0 q.s. em Ω,
mostrando que u(x) = 0 q.s. em Ω. De (1.17) resulta que ϕ(x0 ) = 0, ∀ ϕ ∈ D(Ω) o que
é um absurdo.
Veremos a seguir, que existem sucessões de funções localmente somáveis que convergem
para uma distribuição T em D0 (Ω), mas o limite T não pode ser definido por uma função
localmente integrável. De fato, consideremos a sucessão regularizante (ρν )ν∈N definida no
exemplo 1.3. Evidentemente ρν ∈ L1loc (Rn ). Provaremos que:

lim hρν , ϕi = ϕ(0), ∀ ϕ ∈ D(Rn ). (1.18)


ν→+∞

Z
Com efeito, temos que ρν (x) dx = 1, e daı́
Rn
Z Z Z


ρν (x)ϕ(x) dx − ϕ(0) = ρν (x)ϕ(x) dx − ρν (x)ϕ(0) dx
Rn n Rn
ZR Z
≤ ρν (x) |ϕ(x) − ϕ(0)| dx = ρν (x) |ϕ(x) − ϕ(0)| dx.
Rn ||x||≤1/ν

Por outro lado, pela continuidade uniforme de ϕ dado ε > 0 ∃ δ > 0 tal que se ||x|| < δ
1
então |ϕ(x) − ϕ(0)| < ε. Considerando-se ν0 ∈ N tal que ν0 ≥ , então, para todo ν ≥ ν0
δ
tem-se B1/ν (0) ⊂ Bδ (0) e consequentemente |ϕ(x) − ϕ(0)| < ε sempre que ||x|| ≤ 1/ν
(note que x ∈ B1/ν (0) ⊂ B1/ν0 (0)). Logo,
Z Z


ρ ν (x)ϕ(x) dx − ϕ(0) ≤
ρν (x) |ϕ(x) − ϕ(0)| dx ≤ ε
Rn ||x||≤1/ν

para todo ν ≥ ν0 o que prova (1.18). Em outras palavras:

lim hρν , ϕi = hδ0 , ϕi, ∀ ϕ ∈ D(Rn )


ν→+∞

o que prova que ρν → δ0 em D0 (Rn ).


Veremos, a seguir, outros exemplos de distribuições cujas verificações deixamos ao
encargo do leitor.
17

Exemplo 1.13 Seja λ um caminho retificável de classe C 1 cuja imagem está contida em
Ω. Então, Z
hδλ , ϕi = ϕ(x) ds, ∀ ϕ ∈ D(Ω),
λ
define uma distribuição sobre Ω.

Exemplo 1.14 Seja v(x) = 1/x, x 6= 0. Então,


Z
ϕ
hVP(1/x), ϕi = lim dx
ε→0 |x|>ε x

define uma distribuição sobre R denominada Valor Principal de 1/x.

Considere uma distribuição T sobre Ω e α ∈ Nn . A derivada de ordem α de T é definida


por:
hDα T, ϕi = (−1)|α| hT, Dα ϕi, ∀ ϕ ∈ D(Ω). (1.19)

Provaremos a seguir que Dα T ∈ D0 (Ω). Com efeito, seja (ϕν ) ⊂ D(Ω) tal que ϕν → 0 em
D(Ω). Então, existe K compacto do Rn tal que

supp(ϕν ) ⊂ K e Dα ϕν → 0 uniformemente em K, ∀ α ∈ Nn .

Segue daı́ que Dβ ϕν → 0 em D(Ω) pois supp(Dβ ϕν ) ⊂ supp(ϕν ) ⊂ K e Dβ ϕν → 0


uniformemente em K. Além disso, sendo T ∈ D0 (Ω) temos que

hT, Dα ϕν i → 0 em K.

Desta forma,
|hDα T, ϕν i| = |hT, Dα ϕν i| → 0

o que prova o desejado.


Assim, uma distribuição T ∈ D0 (Ω) possui derivadas de todas as ordens no sentido
das distribuições. Observemos, também, que a aplicação

Dα : D0 (Ω) → D0 (Ω)
T 7→ Dα T (1.20)

é linear e contı́nua no sentido da convergência definida em D0 (Ω). Com efeito, a linearidade


é óbvia; provemos a continuidade. Suponhamos que Tν → T em D0 (Ω). Então,

hTν , ϕi → hT, ϕi, para toda ϕ ∈ D(Ω).


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
18 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Logo, para toda ψ ∈ D(Ω) segue da convergência acima que

ν→+∞
hDα Tν , ψi = (−1)|α| hTν , Dα ψi −→ (−1)|α| hT, Dα ψi = hDα T, ψi

ou seja, Dα Tν → Dα T em D0 (Ω) o que prova a continuidade da aplicação dada em


(1.20). Veremos a seguir, algumas propriedades interessantes da derivação no sentido das
distribuições. Consideremos α ∈ Nn tal que |α| = 2 e T ∈ D0 (Ω). Temos, ∀ ϕ ∈ D(Ω)
    
∂2T ∂T∂2ϕ ∂ϕ
∂xi ∂xj
=−
,ϕ , = T, ∂xj ∂xi
∂xj ∂xi
     
∂2ϕ ∂T ∂ϕ ∂2T
= T, ∂xi ∂xj = − ∂xi , ∂xj = ∂xj ∂xi , ϕ

resultando que
∂ 2T ∂ 2T
= · (1.21)
∂xi ∂xj ∂xj ∂xi

Seguindo-se o mesmo raciocı́nio, demonstra-se que para todo α, β ∈ Nn obtém-se

Dα+β T = Dα (Dβ T ) = Dβ (Dα T ) = Dβ+α T (1.22)

para toda distribuição T .


Se u ∈ C k (Rn ) então, para cada |α| ≤ k, a derivada Dα u no sentido das distribuições
é igual a derivada no sentido clássico, i.é,

Dα Tu = TDα u (1.23)

para todo |α| ≤ k. De fato, integrando-se por partes


Z Z
α |α|
hTDα u , ϕi = D u(x)ϕ(x) dx = (−1) u(x)Dα ϕ(x) dx
Rn Rn
= (−1)|α| hTu , Dα ϕi = hDα Tu , ϕi,

para toda ϕ ∈ D(Rn ).


Seja u ∈ L1loc (Rn ) e k ∈ N. Suponhamos que para cada |α| ≤ k, Dα u é localmente
integrável no Rn . Então para toda ϕ ∈ D(Rn ), tem-se

Dα (ϕ ∗ u) = ϕ ∗ Dα u. (1.24)
19

Com efeito, temos para toda ψ ∈ D(Rn ) que,


Z
α |α| α |α|
hD (ϕ ∗ u), ψi = (−1) hϕ ∗ u, D ψi = (−1) (ϕ ∗ u)(x)Dα ψ(x) dx
R n
Z Z
= (−1)|α| ϕ(ξ)u(x − ξ) dξ Dα ψ(x) dx
n n
ZR ZR
|α|
= (−1) u(x − ξ) Dα ψ(x) dx ϕ(ξ) dξ
n n
Z Z R R
= Dα u(x − ξ) ψ(x) dx ϕ(ξ) dξ
n n
ZR ZR
= ϕ(ξ)Dα u(x − ξ) dξ ψ(x) dx
n n
ZR R
= (ϕ ∗ Dα u)(x)ψ(x) dx = hϕ ∗ Dα u, ψi.
Rn

Outro resultado que vale a pena mencionar é que a derivada de uma função localmente
integrável em Ω, não é, em geral uma função localmente integrável em Ω, como mostra
o exemplo que vem a seguir. Tal fato motivará a definição de uma classe significativa
de espaços de Banach de funções, conhecidos sob a denominação de espaços de Sobolev,
tendo estas notas como um dos objetivos fazer um estudo introdutório destes espaços.

Exemplo 1.15 Seja u a função de Heaviside definida em R do seguinte modo:


(
1 se x > 0
u(x) =
0 se x < 0

Ela é localmente integrável em R, mas a sua derivada u0 no sentido das distribuições


não é localmente integrável. Com efeito, tem-se
Z ∞
0 0
hu , ϕi = −hu, ϕ i = − ϕ0 (x) dx = ϕ(0) = hδ0 , ϕi
0

para toda função ϕ ∈ D(R).

Seja T ∈ D0 (Ω) e ρ ∈ C ∞ (Ω). Definiremos o produto ρT do seguinte modo:

hρT, ϕi = hT, ρϕi, ∀ ϕ ∈ D(Ω). (1.25)

Provaremos, a seguir, que ρT realmente define uma distribuição. Com efeito, seja
(ϕν ) ⊂ D(Ω) tal que ϕν → 0 em D(Ω). Mostremos que:

hρT, ϕν i → 0. (1.26)
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
20 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Para isto, basta provarmos, de acordo com (1.25) que

hT, ρϕν i → 0. (1.27)

De fato, notemos inicialmente que se ρ ∈ C ∞ (Ω) e ϕ ∈ C0∞ (Ω) então (ρϕ) ∈ C0∞ (Ω).
Com efeito, é claro que ρϕ ∈ C ∞ (Ω). Além disso, como supp(ϕ) é um subconjunto
compacto do Rn então pelo fato de

supp(ρϕ) ⊂ supp(ρ) ∩ supp(ϕ) ⊂ supp(ϕ),

segue que o supp(ρϕ) também é um subconjunto compacto do Rn . Isto prova que as


dualidades acima estão bem definidas. Provemos então a convergência em (1.27). Como
ϕν → 0 em D(Ω) então existe K, compacto do Rn , tal que

supp ϕν ⊂ K

e
Dα ϕν → 0 uniformemente em K, ∀ α ∈ Nn .

Notemos que:

supp[Dα (ρϕν )] ⊂ supp(ρϕν ) ⊂ supp(ϕν ) ⊂ K.

Pela fórmula de Leibniz para funções resulta que

Dα (ρϕν ) → 0 uniformemente em K.

Logo, ρϕν → 0 em D(Ω) e por conseguinte hT, ρϕν i → 0, o que prova (1.27).
Se α ∈ Nn , ρ ∈ C ∞ (Ω) e T ∈ D0 (Ω) vale a fórmula de Leibniz
X α!
Dα (ρT ) = Dβ ρ Dα−β T. (1.28)
β≤α
β!(α − β)!

Verificaremos esta fórmula no caso α = ei = (0, . . . , 1, . . . , 0). Para toda


ϕ ∈ D(Ω) tem-se,
       
∂ ∂ϕ ∂ϕ ∂ ∂ρ
(ρT ), ϕ = − ρT, = − T, ρ = T, − (ρϕ) + ϕ
∂xi ∂xi ∂xi ∂xi ∂xi
       
∂ ∂ρ ∂T ∂ρ
= T, − (ρϕ) + T, ϕ = , ρϕ + T, ϕ
∂xi ∂xi ∂xi ∂xi
     
∂T ∂ρ ∂T ∂ρ
= ρ ,ϕ + T, ϕ = ρ + T, ϕ
∂xi ∂xi ∂xi ∂xi
ou seja,
∂ ∂T ∂ρ
(ρT ) = ρ + T. (1.29)
∂xi ∂xi ∂xi
Deixaremos ao encargo do leitor a prova de (1.28). (Obs.: use indução sobre |α|).
21

1.3 Suporte de Distribuições


Começaremos esta seção recordando os conceitos de cobertura localmente finita e de
partição localmente finita da unidade. Seja Ω um subconjunto aberto do Rn . Uma cober-
tura {Ωi }i∈I de Ω é dita localmente finita se para cada x ∈ Ω existe uma vizinhança Vx
de x que intersepta apenas um número finito de Ωi ’s.
Dizemos que uma cobertura {Wλ }λ∈Λ é mais fina que uma cobertura {Ωi }i∈I , ambas
coberturas de Ω, se para cada λ ∈ Λ existe um i ∈ I tal que Wλ ⊂ Ωi . Enunciaremos, a
seguir, alguns resultados clássicos sobre os espaços métricos separáveis.

Lema 1.16 Se {Ωi }i∈I é uma cobertura aberta de um aberto Ω do Rn , então existe uma
cobertura aberta {Wλ }λ∈Λ de Ω, localmente finita e formada por conjuntos relativamente
compactos, tal que {Wλ }λ∈Λ é mais fina que {Ωi }i∈I .

Demonstração: Ver apêndice. 2

Lema 1.17 Seja Ω um subconjunto aberto do Rn e {σi }i∈A uma cobertura aberta de Ω.
Então, existe uma famı́lia de {αi }i∈A de funções infinitamente diferenciáveis em Ω tais
que:

(i) supp(αi ) ⊂ σi .

(ii) 0 ≤ αi ≤ 1, para todo i ∈ A.


P
(iii) αi = 1 em Ω.
i∈A

Demonstração: Ver apêndice. 2

As funções αi acima constituem o que denominamos de partição C ∞ da unidade sub-


ordinada à cobertura {σi }i∈A .
Sejam Ω0 e Ω subconjuntos abertos do Rn tais que Ω0 ⊂ Ω. Para cada função ϕ ∈
D(Ω0 ) consideremos (
ϕ(x) se x ∈ Ω0
ϕ̃(x) =
0 se x ∈ Ω\Ω0
Tem-se ϕ̃ ∈ D(Ω) e ainda mais

Dα ϕ̃ = (Dα ϕ)∼ , ∀ α ∈ Nn . (1.30)


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
22 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Segue de (1.30), que se

ϕν → 0 em D(Ω0 ) então ϕ̃ν → 0 em D(Ω). (1.31)

Como uma consequência de (1.31) se T ∈ D0 (Ω) então T |Ω0 definida em D(Ω0 ) por

hT |Ω0 , ϕi = hT, ϕ̃i, ∀ ϕ ∈ D(Ω0 ) (1.32)

é uma distribuição sobre Ω0 denominada a restrição de T a Ω0 . Com efeito, seja


(ϕν ) ⊂ D(Ω0 ) tal que ϕν → 0 em D(Ω0 ). Então de (1.31) vem que ϕ̃ν → 0 em D(Ω) e,
consequentemente,
hT |Ω0 , ϕν i = hT, ϕ̃ν i → 0

o que prova que T |Ω0 ∈ D0 (Ω0 ). Agora, de (1.30) temos também que

Dα (T |Ω0 ) = (Dα T )|Ω0 , ∀ α ∈ Nn . (1.33)

Com efeito, dada ϕ ∈ D(Ω0 ) temos

Dα (T |Ω0 ), ϕ = (−1)|α| T |Ω0 , Dα ϕ = (−1)|α| T, (Dα ϕ)∼





= (−1)|α| T, Dα ϕ̃ = Dα T, ϕ̃ = (Dα T )|Ω0 , ϕ





o que prova (1.33).


Dizemos que uma distribuição T ∈ D0 (Ω) se anula em um aberto Ω0 ⊂ Ω se:

hT |Ω0 , ϕi = 0, ∀ ϕ ∈ D(Ω0 ) (1.34)

ou dito de outro modo se,


hT, ϕ̃i = 0, ∀ ϕ ∈ D(Ω0 )

ou ainda, se
hT, ϕi = 0, ∀ ϕ ∈ D(Ω) tal que supp(ϕ) ⊂ Ω0 .

Convém observar que se uma distribuição Tf provém de uma função f ∈ L1loc (Ω) então
se anular em um aberto de Ω0 como distribuição coincide com a noção de se anular em
Ω0 como (classe de equivalência de) função. De fato, Tf se anula em Ω0 se e somente
se Ω f (x)ϕ(x) dx = 0, ∀ ϕ ∈ C0∞ (Ω) tal que supp(ϕ) ⊂ Ω0 . Pelo Lema de Du Bois
R

Raymond (cf. 1.7) esta última asserção acontece se e somente se f (x) = 0 por quase toda
parte de Ω0 .
23

Proposição 1.18 Seja T ∈ D0 (Ω). A reunião de todos os abertos onde T se anula é um


aberto UT onde T se anula.

Demonstração: Sejam {Ωi }i∈I a coleção de abertos onde T se anula e consideremos


[
UT = Ωi .
i∈I

É claro que UT é aberto posto que é a união arbitrária de abertos. De acordo com o
Lema 1 existe um recobrimento {Wλ }λ∈Λ aberto, localmente finito de UT , o qual é mais
fino do que {Ωi }i∈I . Afirmamos que T se anula em Wλ para todo λ ∈ Λ. Com efeito,
seja ϕ ∈ C0∞ (Ω) tal que supp(ϕ) ⊂ Wλ . Ora, como Wλ ⊂ Ωi para algum i ∈ I, segue que
supp(ϕ) ⊂ Ωi e como T se anula em Ωi resulta que hT, ϕi = 0, o que prova o desejado.
Por outro lado, seja ϕ ∈ C0∞ (UT ). De acordo com o Lema 1.17 existe uma famı́lia de
funções infinitamente diferenciáveis em UT , {ψλ }λ∈Λ que constitui uma partição C ∞ da
unidade subordinada à cobertura {Wλ }λ∈Λ , ou seja,

supp(ψλ ) ⊂ Wλ (1.35)

0 ≤ ψλ ≤ 1 (1.36)

X
ψλ = 1 em UT . (1.37)
λ∈Λ

Pondo-se para cada λ ∈ Λ:


ϕλ = ϕ ψλ

vem que
ϕλ ∈ C0∞ (Wλ ). (1.38)

Além disso de (1.37) resulta que

X X
ϕ(x) = (ϕψλ )(x) = ϕλ (x), ∀ x ∈ UT . (1.39)
λ∈Λ λ∈Λ

Desde que o supp(ϕ) é um compacto contido em UT segue que o mesmo intersecciona


apenas um número finito de Wλ ’s. Com efeito, como a famı́lia é localmente finita então
cada vizinhança Vx , x ∈ UT intersecciona apenas um número finito de Wλ ’s. Agora,
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
24 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

pela compacidade do supp(ϕ) existe um número finito de vizinhanças Wλ ’s que cobrem


o supp(ϕ). Em particular, como cada uma dessas vizinhanças intersecciona apenas um
número finito de vizinhanças Wλ ’s o resultado segue. Portanto o somatório em (1.39)
contém apenas um número finito de λ’s. De fato, sejam Wλ1 , . . . , Wλi , . . . , Wλn as vizin-
hanças que interseccionam o supp(ϕ). Então,

supp(ϕ) ∩ Wλ 6= ∅, ∀ λ ∈ {λ1 , . . . , λn }

supp(ϕ) ∩ Wλ = ∅, ∀λ ∈
/ {λ1 , . . . , λn }.

Consequentemente, como supp(ϕλ ) ⊂ Wλ resulta que

supp(ϕ) ∩ supp(ϕλ ) = ∅, ∀λ ∈
/ {λ1 , . . . , λn }. (1.40)

Assim, se x ∈ UT tal que ϕ(x) 6= 0 então x ∈ supp(ϕ). Logo de (39) inferimos que

x∈
/ supp(ϕλ ), ∀λ ∈
/ {λ1 , . . . , λn }

o que implica
ϕλ (x) = 0, ∀λ ∈
/ {λ1 , . . . , λn }.

Portanto,
n
X n
X
ϕ(x) = (ϕψλi )(x) = ϕλi (x), ∀x ∈ UT tal que ϕ(x) 6= 0. (1.41)
i=1 i=1

Agora, se x ∈ UT é tal que ϕ(x) = 0 então ϕλ (x) = (ϕψλ )(x) = 0, ∀ λ e da mesma forma
é válida ainda a representação em (1.41). De qualquer forma é válida a fórmula (1.41)
seja qual for o x ∈ UT . Assim,
 n
X  n
X
hT, ϕi = T, ϕλi = hT, ϕλi i
i=1 i=1

e pelo fato de T se anular em Wλi então hT, ϕλi i = 0 para todo i = 1, . . . , n e por
conseguinte hT, ϕi = 0 o que encerra a prova. 2

A Proposição (1.18) nos mostra que existe um aberto máximo UT onde T se anula.
Isto nos motiva a definir:

Definição 1.19 O suporte de uma distribuição T ∈ D0 (Ω) é o complementar com relação


a Ω do maior aberto para o qual a distribuição se anula, ou seja,

supp(T ) = Ω\UT .
25

Seja f ∈ C(Ω) e denotemos por supp(Tf ) o suporte da distribuição Tf associada a f ,


ou seja, da distribuição definida por:
Z
hTf , ϕi = f (x)ϕ(x) dx, ∀ ϕ ∈ D(Ω). (1.42)

Provaremos que:
x ∈ UTf ⇒ f (x) = 0. (1.43)

De fato, suponhamos, por contradição, que ∃ x0 ∈ UTf tal que f (x0 ) 6= 0. Sem perda da
generalidade suponhamos que f (x0 ) > 0. Sendo f contı́nua, existirá uma vizinhança Vx0
de x0 , que podemos supor estritamente contida em UTf , tal que
f (x) > 0, ∀ x ∈ Vx0 . Consideremos, agora, K um subconjunto compacto contido em
Vx0 e seja ϕ0 ∈ D(Ω) tal que supp(ϕ0 ) ⊂ UTf , ϕ0 = 1 em K, ϕ0 = 0 em Ω\Vx0 e
0 ≤ ϕ0 ≤ 1, cuja existência vem garantida pela Proposição 1 da seção 1. Daı́ vem que
Z
hTf , ϕ0 i = f (x)ϕ0 (x) dx > 0.

Mas isto é um absurdo pois hTf , ϕi = 0, ∀ ϕ ∈ D(Ω) com supp(ϕ) ⊂ UTf . Isto prova
a afirmação em (1.43).

Exemplo 1.20 Se f ∈ C(Ω) e Tf é a distribuição correspondente então,

supp(Tf ) = supp(f ). (1.44)

De fato, seja UTf o maior aberto para o qual Tf se anula e consideremos x ∈ UTf . De
(1.43) vem que f (x) = 0. Então,

UTf ⊂ {x ∈ Ω | f (x) = 0}

e, por conseguinte,
{x ∈ Ω | f (x) 6= 0} ⊂ Ω\UTf .

De onde, tomando-se o fecho em Ω resulta que

supp(f ) ⊂ supp(Tf ). (1.45)

Reciprocamente, pondo-se

Ω0 = Ω\{x ∈ Ω | f (x) 6= 0}
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
26 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

então Ω0 é um aberto contido em Ω. Provaremos, a seguir, que Tf se anula em Ω0 . Com


efeito, seja ϕ ∈ D(Ω) tal que supp(ϕ) ⊂ Ω0 . Temos,

Z Z
hTf , ϕi = f (x)ϕ(x) dx = f (x)ϕ(x) dx. (1.46)
Ω Ω0


/ {x ∈ Ω | f (x) 6= 0} . Consequentemente,
Contudo, se x ∈ Ω0 então x ∈ Ω e x ∈
f (x) = 0 e de (45) resulta que hTf , ϕi = 0, ou seja, Tf se anula em Ω0 . Sendo Ω0 um
conjunto aberto contido em Ω e pelo fato de UTf ser o maior aberto para o qual Tf se
anula resulta que Ω0 ⊂ UTf . Segue daı́ que

Ω\UTf ⊂ {x ∈ Ω | f (x) 6= 0}

i.é,
supp(Tf ) ⊂ supp(f ). (1.47)

De (1.45) e (1.47) concluı́mos o desejado em (1.44).

Proposição 1.21 Seja T ∈ D0 (Ω). Um ponto x ∈ Ω pertence ao supp(T ) se e somente


se para toda vizinhaça V de x existe ϕ ∈ D(Ω) com supp(ϕ) ⊂ V e hT, ϕi =
6 0.

Demonstração: Seja T ∈ D0 (Ω) e {Vα }α a coleção de todos os abertos de Ω que T se


S
anula. Ponhamos UT = Vα . Então supp(T ) = Ω\UT . Suponhamos inicialmente que
α
x ∈ supp(T ) e por absurdo, que ∃ V0 vizinhança de x, que sem perda da generalidade
podemos supor aberta, tal que ∀ ϕ ∈ D(Ω) com supp(ϕ) ⊂ V0 tenhamos hT, ϕi = 0. Ora,
S
como x ∈ supp(T ), x ∈/ Vα . Logo, x não pertence a nenhum dos abertos para o qual
α
T se anula. Mas isto é uma contradição pois x ∈ V0 e T se anula em V0 .
Reciprocamente suponhamos que para toda vizinhança V de x existe ϕ ∈ D(Ω) com
supp(ϕ) ⊂ V e hT, ϕi 6= 0 e por absurdo, suponhamos que x ∈/ supp(T ). Logo, x ∈ UT =
S
Vα , união de todos os abertos tais que T se anula. Assim, x ∈ Vα para algum α e
α
portanto para essa vizinhança temos que hT, ϕi = 0, ∀ ϕ ∈ D(Ω) com supp(ϕ) ⊂ Vα ,
mas isso contradiz a hipótese! 2

Exemplo 1.22 Seja δ0 a distribuição delta de Dirac, dada no 1.12, i.é,

hδ0 , ϕi = ϕ(0), ∀ ϕ ∈ D(Ω).


27

Temos:
supp(δ0 ) = {0}. (1.48)

De fato, provaremos inicialmente que 0 ∈ supp(δ0 ). Para isso seja V uma vizinhança
da origem. De acordo com a Proposição 1.21 devemos exibir uma função ϕ ∈ D(Ω) tal
que supp(ϕ) ⊂ V e além disso, ϕ(0) 6= 0. Com efeito, sendo V uma vizinhança da origem
∃ ε > 0 tal que a bola aberta Bε (0) ⊂ V . Basta, portanto, considerarmos ϕ ∈ D(Ω) tal
que    
1 2ε
ϕ = 1 em x ∈ Ω; ||x|| ≤ ε e ϕ = 0 em x ∈ Ω; ≤ ||x|| ≤ ε .
3 3
Evidentemente, supp(ϕ) ⊂ V e claramente ϕ(0) 6= 0. Logo:

{0} ⊂ supp(δ0 ). (1.49)

Reciprocamente, provaremos que δ0 se anula no aberto Ω\{0}. De fato, seja ϕ ∈ D(Ω),


com supp(ϕ) ⊂ Ω\{0}. Então, {0} ⊂ Ω\ supp(ϕ) e portanto 0 ∈
/ supp(ϕ). Logo, ϕ(0) =
0, ou seja, hδ0 , ϕi = 0. Temos provado então que δ0 se anula no aberto Ω\{0}. Logo:

Ω\{0} ⊂ Uδ0

onde Uδ0 é o maior aberto para o qual δ0 se anula. Consequentemente,

supp(δ0 ) = Ω\Uδ0 ⊂ {0}. (1.50)

As inclusões dadas em (1.49) e (1.50) provam o desejado em (1.48).

Proposição 1.23 Sejam S e T distibuições em Ω, α ∈ C ∞ (Ω) e 0 6= λ ∈ R. Então:

(i) supp(S + T ) ⊂ supp(S) ∪ supp(T ).

(ii) supp(λT ) = supp(T ).

(iii) supp(αT ) ⊂ supp(α) ∩ supp(T ).

Demonstração:
(i) Basta provarmos que:

(Ω\ supp(T )) ∩ (Ω\ supp(S)) ⊂ Ω\ supp(T + S) (1.51)

ou equivalentemente que:
UT ∩ US ⊂ UT +S (1.52)
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
28 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

onde UT , US e UT +S são, respectivamente, os maiores abertos para os quais T , S e T + S


se anulam. Com efeito, seja ϕ ∈ D(Ω) tal que supp(ϕ) ⊂ UT ∩ US . Então, pelo fato de
supp(ϕ) ⊂ UT e supp(ϕ) ⊂ US vem que:

hT + S, ϕi = hT, ϕi + hS, ϕi = 0.

Assim, T + S se anula no aberto UT ∩ US . Como UT +S é o maior aberto para o


qual T + S se anula resulta que UT ∩ US ⊂ UT +S o que prova (51) e consequentemente a
primeira das afirmações.
(ii) Notemos inicialmente que:

hλT, ϕi = hT, λϕi, ϕ ∈ D(Ω) (1.53)

é uma distribuição para λ 6= 0. Isto decorre do fato de supp(ϕ) = supp(λϕ). Sejam UT e


UλT , respectivamente, os maiores abertos para os quais T e λT se anulam. Seja ϕ ∈ D(Ω)
tal que supp(ϕ) ⊂ UT . Temos que (λϕ) ∈ D(Ω) e supp(λϕ) ⊂ UT . Donde,

hλT, ϕi = hT, λϕi = 0.

Logo λT se anula no aberto UT . Portanto,

UT ⊂ UλT . (1.54)

Reciprocamente, seja ϕ ∈ D(Ω) tal que supp(ϕ) ⊂ UλT . Temos,


1 1
hT, ϕi = hT, λϕi = hλT, ϕi = 0.
λ λ

Desta forma, T se anula em UλT e consequentemente

UλT ⊂ UT . (1.55)

As relações em (1.54) e (1.55) provam a segunda das afirmações.


(iii) Provaremos a relação equivalente:

(Ω\ supp(α)) ∪ (Ω\ supp(T )) ⊂ (Ω\ supp(αT )). (1.56)

De fato, no que segue usaremos a Proposição 1.21:


Se x ∈ (Ω\ supp(α)) então existe Vx vizinhança de x tal que α(y) = 0, ∀ y ∈ V .
29

Se ϕ ∈ D(Ω) é tal que supp(ϕ) ⊂ Vx então αϕ é identicamente nula. Portanto:

hαT, ϕi = hT, αϕi = 0

o que implica que x ∈ (Ω\ supp(αT )).


Se x ∈ (Ω\ supp(T )), então existe Wx vizinhança de x tal que se ϕ ∈ D(Ω) e
supp(ϕ) ⊂ Wx implica hT, ϕi = 0. Mas, como supp(αϕ) ⊂ supp(ϕ) vem que

hαT, ϕi = hT, αϕi = 0,

∀ ϕ ∈ D(Ω) e supp(ϕ) ⊂ Wx . Deste modo, x ∈ (Ω\ supp(αT )), e isto prova a última
afirmação. 2

1.4 Um Repasso à Transformada de Fourier

A Transformada de Fourier juntamente com o produto de convoluções fornece-nos um


poderoso e útil instrumento no estudo das equações diferenciais parciais. Primeiramente
definiremos a transformada de Fourier para funções de L1 (Rn ) e estenderemos este conceito
para a classe das distribuições.

Definição 1.24 Seja f ∈ L1 (Rn ). A transformada de Fourier de f , denotada por fˆ, é


uma função definida sobre o Rn pela fórmula:

Z
ˆ
f (ξ) = e−2πihx,ξi f (x) dx, i= −1
Rn

n
xi ξi é o produto interno usual em Rn .
P
onde hx, ξi =
i=1

Como f ∈ L1 (Rn ), é imediato ver que fˆ(ξ) dada acima está bem definida para todo
ξ ∈ Rn . Com efeito, temos
Z Z
ˆ −2πihx,ξi

|f (ξ)| ≤
e f (x) dx ≤ |f (x)| dx = ||f ||L1 (Rn )
Rn Rn

o que prova a afirmação.

Proposição 1.25 A função fˆ é uniformemente contı́nua.


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
30 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Demonstração: Seja ε > 0. Como f ∈ L1 (Rn ) então


Z Z
lim |f (x)| dx = |f (x)| dx.
ν→∞ ||x||≤ν Rn

Portanto, existe ν0 ∈ N tal que ∀ ν ≥ ν0 tem-se


Z
|f (x)| dx < ε/4.
Rn \Bν (0)

Consideremos, então, R > ν0 . Tem-se, em virtude da desigualdade acima que


Z
|f (x)| dx < ε/4. (1.57)
Rn \BR (0)

Seja η > 0 escolhido de modo que


Z
4πRη |f (x)| dx < ε. (1.58)
BR (0)

Agora, seja h ∈ Rn tal que ||h|| < η. Então, para todo y ∈ Rn tem-se
Z Z
ˆ ˆ −2πihx,y+hi −2πihx,yi

|f (y + h) − f (y)| = e f (x) dx − e f (x) dx
n Rn
ZR
−2πihx,y+hi −2πihx,yi

= e −e f (x) dx
n
ZR
−2πihx,yi −2πihx,hi

= e e − 1 f (x) dx
n
ZR
≤ |e−2πihx,hi − 1| |f (x)| dx.
Rn

Mas,

|e−2πihx,hi − 1| = | cos(2πhx, hi) − i sen(2πhx, hi) − 1|


= | cos2 (πhx, hi) − sen2 (πhx, hi) − i2 sen(πhx, hi)cos(πhx, hi) − 1|
= | − 2 sen2 (πhx, hi) − i2 sen(πhx, hi) cos(πhx, hi)|
p
= 2 sen4 πhx, hi + sen2 πhx, hi cos2 πhx, hi
= 2| sen(πhx, hi)|.

Logo,
Z
|fˆ((y + h) − fˆ(y)| ≤ 2| sen(πhx, hi)| |f (x)| dx
Rn
Z Z
≤ 2 |f (x)| dx + 2π |hx, hi| |f (x)| dx (1.59)
Rn \BR (0) BR (0)
31

e de (1.57), (1.58) e (1.59) concluı́mos que

|fˆ(y + h) − fˆ(y)| < ε/2 + ε/2 = ε

o que prova o desejado. 2

Proposição 1.26 Seja f ∈ L1 (Rn ) e h ∈ Rn . Então:

−2πihh,ξi ˆ
(i) (τd
h f )(ξ) = e f (ξ)

(ii) τh (fˆ)(ξ) = (e2πihh,·i


\f (·))(ξ)

(iii) Se λ > 0 e g(x) = f (x/λ) para x ∈ Rn

então,
ĝ(ξ) = λn fˆ(λξ)

(iv) Se f, g ∈ L1 (Rn ) então,


∗ g = fˆ ĝ.
f[

Demonstração:
(i)
Z
(τd
h f )(ξ) = e−2πihx,ξi (τh f )(x) dx
n
ZR Z
−2πihx,ξi
= e f (x − h) dx = e−2πihy+h,ξi f (y) dy
Rn Rn
= e −2πihh,ξi
fˆ(ξ)

(ii)
Z
ˆ ˆ
τh (f )(ξ) = f (ξ − h) = e−2πihx,ξ−hi f (x) dx
Rn
Z
= e−2πihx,ξi e2πihx,hi f (x) dx
Rn

= \ f (·)(ξ)
e2πihh,·i

((iii)
Z
ĝ(ξ) = e−2πihx,ξi g(x) dx
Rn
Z Z
−2πihx,ξi
= e f (x/λ) dx = λ n
e−2πihλy,ξi f (y) dy
Rn Rn
n ˆ
= λ f (λξ)
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
32 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

(iv) Como ||f ∗ g||L1 ≤ ||f ||L1 ||g||L1 ∀ f, g ∈ L1 , então f ∗ g ∈ L1 (Rn ) e portanto a
transformada de Fourier de f ∗ g está bem definida. Segue daı́ e por Fubini que
Z
(f ∗ g)(ξ) =
[ e−2πihx,ξi (f ∗ g)(x) dx
n
ZR Z 
−2πihx,ξi
= e f (x − y)g(y) dy dx
Rn Rn
Z Z 
−2πihx,ξi
= g(y) e f (x − y) dx dy
Rn Rn
Z Z 
−2πihy,ξi −2πihx−y,ξi
= e g(y) e f (x − y) dx dy
Rn Rn
Z Z
−2πihy,ξi
= e g(y) dy e−2πihz,ξi f (z) dz
Rn Rn
= fˆ(ξ)ĝ(ξ).

Na próxima seção veremos outras propriedades da Transformada de Fourier, que en-


volvem o operador derivação Dα . Concluiremos esta seção computando a transformada
de Fourier de uma função standard.

Exemplo 1.27 Provaremos que:

2
−π||x||2 (ξ) = e−π||ξ||

e\ (1.60)

2
ou seja, a função x 7→ e−π||x|| é a transformada de Fourier dela própria. Verifique que
2
e−π||·|| ∈ L1 (Rn ). Notemos que para x = (x1 , . . . , xn ) temos

n
−π||x||2 2
Y
e = e−πxj .
i=1

Consequentemente, basta provarmos a fórmula em (1.60) para o caso n = 1, já que o


2
caso geral se reduzirá a este. Com efeito, pondo-se ϕ(x) = e−πx , então
Z Z
−πx2 −2πixξ −πξ 2 2
ϕ̂(ξ) = e dx = e e−π(x+iξ) dx.
R R

Portanto, é suficiente mostrarmos que a integral à direita da igualdade acima é igual a


1. Para ξ = 0 essa integral é denominada integral de Gauss e o cálculo abaixo mostra-nos
33

que ela é de fato igual a 1. De fato,


Z 2 Z  Z 
−πx2 −πx2 −πy 2
e dx = e dx e dy
R R R
 Z ∞  Z ∞ 
−πx2 −πy 2
= 2 e dx 2 e dy
0 0
Z ∞Z ∞
2 2
= 4 e−π(x +y ) dxdy
0 0
Z π/2 Z s
2
= 4 lim e−πr r dr dθ
s→∞ 0 0
 
1 −πs2

= 2π lim −e + 1 = 1.
s→∞ 2π

2
Por outro lado, como a função complexa z 7→ e−πz é analı́tica, temos face ao Teorema de
Cauchy que a integral ao redor do retângulo com vértices −a, a,
a + iξ e −a + iξ é zero (vide figura a seguir). Agora, as integrais sobre os dois lados
verticais tendem para zero quando a → +∞. De fato, pondo-se α(y) = a + iy, 0 ≤ y ≤ ξ
como sendo uma parametrização do segmento de (a, 0) até (a + iξ, 0) temos:
a+iξ
Z Z ξ
−πz 2 0


e dz =
ϕ(α(y))α (y) dy
a 0
ξ
Z Z ξ
−π(a+iy) 2 −π(a2 −y 2 ) −2πiay
= i e dy = i e e dy
0 0
Z ξ Z ξ
−πa2 πy 2 −2πaiy −πa2 2
≤ |i|e e |e |dy ≤ e eπξ dy
0 0
πξ 2 −πa2 −πa2
= e ξe = C(ξ)e .

Resulta daı́ que para cada ξ ∈ R fixo, tem-se:


Z a+iξ
2
lim e−πz dz = 0 (1.61)
a→∞ a

posto que
2
lim e−πa = 0.
a→∞

De maneira análoga tem-se também


Z −a
2
lim e−πz dz = 0. (1.62)
a→∞ −a+iξ
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
34 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Contudo, como Z Z Z Z Z
0= = + + +
Γ Γ1 Γ2 Γ3 Γ4

resulta de (1.61) e (1.62) que Z Z


− =
Γ1 Γ3
i.é, Z a+iξ Z a
−πz 2 2
lim e dz = lim e−πx dx
a→∞ −a+iξ a→∞ −a
ou seja, Z
2
e−π(x+iξ) dx = 1
R
o que prova o desejado.

1.5 O espaço de Schwartz


O espaço de Schwartz é um subespaço de L1 (Rn ) que é invariante sob a transformada
de Fourier. Ele consiste de funções C ∞ , que juntamente com todas as suas derivadas,
decrescem rapidamente no infinito, i.é, decrescem para zero no infinito mais rapidamente
que qualquer potência de ||x||k . Mais precisamente:

Definição 1.28 : O Espaço de Schwartz ou espaço das funções rapidamente decrescentes,


que denotamos por S, é o subespaço vetorial formado pelas funções ϕ ∈ C ∞ (Rn ) tais que:

lim ||x||k Dα ϕ(x) = 0 (1.63)


||x||→∞

quaisquer que sejam k ∈ N e α ∈ Nn .

O exemplo clássico de função de decrescimento rápido no infinito vem dado pela função
2
e−||x|| .
Como um outro exemplo de função de decrescimento rápido no infinito temos as
funções testes, ou seja, C0∞ (Rn ) ⊂ S. Com efeito, seja ϕ ∈ C0∞ (Rn ); então existe um
compacto K ⊂ Rn tal que supp(ϕ) ⊂ K. Consideremos, então, ρ > 0 tal que K ⊂ Bρ (0).
Logo, dados ε > 0, k ∈ N e α ∈ Nn tem-se para todo x ∈ Rn tal que ||x|| > ρ que

||x||k |Dα ϕ(x)| = 0 < ε

isto é, ϕ ∈ S.
Em particular, observamos ainda que se ϕ ∈ S então Dα ϕ ∈ S para todo α ∈ Nn .
35

Proposição 1.29 Uma função ϕ ∈ C ∞ (Rn ) pertence a S se e somente se ||x||k Dα ϕ(x)


é limitada em Rn quaisquer que sejam k ∈ N e α ∈ Nn .

Demonstração: Suponhamos inicialmente que ϕ ∈ S e consideremos k ∈ N e α ∈ Nn


quaisquer. Logo, de acordo com (1.63) dado ε = 1 existe ρ > 0 tal que ∀ x ∈ Rn com
||x|| > ρ tem-se ||x||k |Dα ϕ(x)| < 1. Pondo-se N = max {||x||k |Dα ϕ(x)|} e M =
x∈Bρ (0)
max{N, 1} tem-se ||x||k |Dα ϕ(x)| ≤ M , ∀ x ∈ Rn .
Reciprocamente suponhamos que ||x||k Dα ϕ(x) é limitada em Rn quaisquer que sejam
k ∈ N e α ∈ Nn . Provaremos que ||x||k Dα ϕ(x) → 0 quando ||x|| → ∞. Com efeito,
como ||x||k |Dα ϕ(x)| é limitada ∀ k ∈ N e ∀ α ∈ Nn então ||x||k+1 |Dα ϕ(x)| também o é e
portanto existe ck+1,α > 0 tal que

−ck+1,α ≤ ||x||k+1 Dα ϕ(x) ≤ ck+1,α

então:
−ck+1,α ck+1,α
≤ ||x||k Dα ϕ(x) ≤ , x 6= 0
||x|| ||x||
o que prova que lim ||x||k Dα ϕ(x) = 0 como querı́amos demonstrar. 2
||x||→∞

Notemos que dados α ∈ Nn e x ∈ Rn tem-se

|xα | ≤ ||x|||α| , onde xα = xα1 1 . . . xαnn . (1.64)

De fato, sendo α = (α1 , . . . , αn ) ∈ Nn tem-se


α /2 αn /2
|xα | = xα1 1 . . . xαnn = x21 1 . . . x2n

X n α1 /2 X n αn /2
2 2
≤ xi ... xi
i=1 i=1
n
X (α1 +···+αn )/2
= x2i = ||x|||α|
i=1

o que prova (1.64). Segue daı́ que se ϕ ∈ S e α, β ∈ Nn então,

|xα Dβ ϕ(x)| ≤ ||x|||α| |Dβ ϕ(x)|

e consequentemente de (1.63) vem que

lim (xα Dβ ϕ(x)) = 0. (1.65)


||x||→∞
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
36 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Por outro lado, dados k ∈ N, β ∈ Nn e ϕ ∈ C ∞ (Rn ) temos, para todo x ∈ Rn com


|xi | ≥ 1 que
n
X k/2 n Y
X n k/2
k β
||x|| |D ϕ(x)| = x2i β
|D ϕ(x)| ≤ x2j |Dβ ϕ(x)|
i=1 i=1 j=1
 Yn k/2
2
= n xi |Dβ ϕ(x)| = nk/2 (x21 . . . x2n )k/2 |Dβ ϕ(x)|
i=1
k/2
= n |x | |Dβ ϕ(x)|
α

onde α = (k, . . . , k). Supondo-se que (1.65) ocorra, então desta última desigualdade
obtemos
lim ||x||k |Dβ ϕ(x)| = 0,
||x||→∞

e consequentemente:

ϕ ∈ S ⇔ lim (xα Dβ ϕ(x)) = 0, ∀ α, β ∈ Nn .


||x||→∞

Observação 1.30 Segue da fórmula de Leibniz que o produto de funções de S ainda


pertence a S.

Proposição 1.31 Se ϕ ∈ S; então xq ϕ ∈ S para qualquer q ∈ Nn .

Demonstração: Sejam k ∈ N e p ∈ Nn . Então, face à fórmula de Leibniz:


X p
k p q k
||x|| D (x ϕ(x)) = ||x|| Dα (xq )Dp−α (ϕ(x)). (1.66)
α≤p
α

Note-se que alguns termos do somatório poderão ser nulos, dependendo, é claro, de p
e q. Por outro lado, temos
∂ |α|
Dα (xq ) = (xq ) = [q1 . . . (q1 −α1 +1)] . . . [qn . . . (qn −αn +1)+1]xq11 −α1 xq22 −α2 . . . xqnn −αn .
∂xα11 . . . ∂xαnn
(1.67)
Assim, segue de (1.67) que o segundo membro de (1.66) pode ser majorado por
X
Cα ||x||k |xq−α Dp−α ϕ(x)|. (1.68)
α≤p
q−α≥0

Como ϕ ∈ S, cada termo de (1.68) tende para zero quando ||x|| → +∞ e consequente-
mente
||x||k Dp (xq ϕ(x)) → 0 quando ||x|| → +∞
37

o que prova que xq ϕ ∈ S. 2

Do exposto acima temos os seguintes resultados:

Corolário 1.32 Se ϕ ∈ S e P (x) e P (D) são polinômios acima considerados então:

P (x)P (D)(ϕ(x)) e P (D)[P (x)ϕ(x)]

pertencem a S.

Corolário 1.33 Considerando que P (x) representa um polinômio com coeficientes cons-
aα xα , e que P (D) representa um polinômio diferencial com
P
tantes, isto é, P (x) =
|α|≤n
bβ Dβ , temos que as seguintes afirmações
P
coeficientes constantes, ou seja, P (D) =
|β|≤m
são equivalentes:

(a) ϕ ∈ S.

(b) P (D)[P (x)ϕ(x)] é limitado em Rn , ∀ P (x) e ∀ P (D).

(c) P (x)P (D)(ϕ(x)) é limitado em Rn , ∀ P (x) e ∀ P (D).

Introduziremos em S uma topologia localmente convexa dando a seguinte famı́lia


enumerável de seminormas:

pm,k (ϕ) = sup maxn (1 + ||x||2 )k |Dα ϕ(x)| (1.69)


|α|≤m x∈R

onde m e k são inteiros não negativos. A existência do supremo em (1.69) é garantida pelo
fato de que a condição em (1.63) implica que a função (1 + ||x||2 )k |Dα ϕ(x)| é limitada
em Rn . Observemos que, na verdade, poderı́amos definir tais seminormas para qualquer
polinômio P (x). A escolha do polinômio particular (1 + ||x||2 )k foi feita apenas por
questões técnicas.
Decorre da definição da topologia de S que uma sucesão (ϕν ) de elementos de S con-
verge para zero se e somente se pm,k (ϕν ) → 0, ∀ m, k ≥ 0. Isto equivale a dizer que
quaisquer que sejam k ∈ N e α ∈ Nn tem-se que (1 + ||x||2 )k |Dα ϕν (x)| → 0 uniforme-
mente em Rn quando ν → +∞. Em verdade pode-se constatar facilmente que as seguintes
condições são equivalentes:

(a) ϕν → 0 em S.
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
38 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

(b) Dados P (x) e P (D), então P (x)P (D)(ϕν (x)) → 0 uniformemente em Rn .

(c) Dados P (x) e P (D), então P (D)[P (x)ϕν (x)] → 0 uniformemente em Rn .

Com a topologia dada em (1.69) temos que S é um e.v.t. localmente convexo e metrizável
posto que a famı́lia de seminormas que define a topologia de S é enumerável. Mais além,
prova-se que S é completo. Desta forma S é um espaço de Fréchet.

Proposição 1.34 S ⊂ L1 (Rn ) e a inclusão é contı́nua.

Demonstração: Seja ϕ ∈ S. Então, ∀ k ∈ N tem-se:

maxn |ϕ(x)(1 + ||x||2 )k | < +∞. (1.70)


x∈R

Agora, para k > n/2, é sabido que (1 + ||x||2 )−k ∈ L1 (Rn ). Isto pode ser facilmente
constatado através de uma mudança de variáveis; use por exemplo coordenadas polares.
Então de (1.70) vem que

Z Z
|ϕ(x)| dx = |ϕ(x)| (1 + ||x||2 )k (1 + ||x||2 )−k dx
Rn Rn
 Z
≤ 2 k
sup |ϕ(x) (1 + ||x|| ) | (1 + ||x||2 )−k dx < +∞. (1.71)
x∈Rn Rn

Desta forma, ϕ ∈ L1 (Rn ). Além disso, pondo-se


Z
Ck = (1 + ||x||2 )−k dx
Rn

resulta de (1.71) que


 
2 k
||ϕ||L1 (Rn ) ≤ Ck sup |ϕ(x) (1 + ||x|| ) | .
x∈Rn

Resulta daı́ que se (ϕν ) ⊂ S e ϕν → 0 em S então ||ϕν ||L1 (Rn ) → 0 o que prova a
continuidade da inclusão. 2

Observação 1.35 A prova acima pode ser modificada para mostrar que para todo p tal
que 1 ≤ p ≤ +∞,
S ,→ Lp (Rn ). (1.72)
39

Em particular, para 1 ≤ p < +∞, resulta que S é denso em Lp (Rn ) em virtude da


densidade de D(Rn ) em Lp (Rn ) (cf. Proposição 1.10) e do fato que

D(Rn ) ⊂ S.

Temos também o seguinte resultado:

Proposição 1.36 C0∞ (Rn ) é denso em S.

Demonstração: Seja ϕ ∈ S e consideremos ψ ∈ C0∞ (Rn ) tal que ψ(x) = 1 se


||x|| ≤ 1, ψ(x) = 0 se ||x|| ≥ 2 e 0 ≤ ψ(x) ≤ 1, ∀ x ∈ Rn , cuja existência é garan-
tida de acordo com a Proposição (1.29). Para cada ν ∈ N definamos:
 
x
ψν (x) = ψ . (1.73)
ν

Agora, de posse da sequência em (1.73) definimos:

ϕν (x) = (ψν ϕ)(x). (1.74)

Então, ϕν ∈ C0∞ (Rn ) pois (ψν ϕ) ∈ C ∞ (Rn ) e além disso,

supp(ψν ϕ) ⊂ supp(ψν ) ∩ supp(ϕ) ⊂ supp(ψν ).

Resulta ainda da desigualdade acima que

supp(ϕν ) ⊂ B2ν (0). (1.75)

Provaremos, a seguir, que a sequência dada em (??) converge para a função ϕ em S.


Com efeito, em verdade provaremos que:

max sup (1 + ||x||2 )k |Dα (ψν ϕ)(x) − Dα (ϕ)(x)| → 0 quando ν → +∞ (1.76)


|α|≤m x∈Rn

∀ m, k ∈ N. Consideremos, então, m, k ∈ N e α ∈ Nn tal que |α| ≤ m. Temos pela


fórmula de Leibniz:
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
40 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

(1 + ||x||2 )k |Dα (ψν ϕ)(x) − Dα (ϕ)(x)| =


 
X α!
= (1 + ||x||2 )k (Dα ϕ(x))(ψν )(x) + (Dβ (ψν )(x))(Dα−β ϕ(x)) − Dα ϕ(x)


0<β≤α
β!(α − β)!

2 k

α α
 X α! β α−β

= (1 + ||x|| ) D ϕ(x))(ψν )(x) − D ϕ(x) + (D (ψν )(x))(D ϕ(x))


0<β≤α
β!(α − β)!
X α!
≤ (1 + ||x||2 )k |(Dα ϕ(x))ψν (x) − Dα ϕ(x)| + (1 + ||x||2 )k |(Dβ ψν (x))(Dα−β ϕ(x))|
0<β≤α
β!(α − β)!
 
2 k α
X α! 2 k 1
β x α−β

= (1 + ||x|| ) |D ϕ(x)| |ψν (x) − 1)| + (1 + ||x|| ) |β| D ψ (D ϕ(x))
0<β≤α
β!(α − β)! ν ν
 
2 k α m
X
2 k α−β 1 β x
≤ (1 + ||x|| ) |D ϕ(x)| |ψν (x) − 1)| + 2 (1 + ||x|| ) |D ϕ(x)| |β| D ψ .
0<β≤α
ν ν

Segue daı́ que

sup (1 + ||x||2 )k |Dα (ψν ϕ)(x) − Dα ϕ(x)| ≤


x∈Rn
 
2 k α m
X α−β
2 k
1 β x
≤ sup (1 + ||x|| ) |D ϕ(x)| |ψν (x) − 1)| + sup 2 (1 + ||x|| ) D ϕ(x) |β| D ψ
x∈Rn x∈Rn
0<β≤α
ν ν
(1.77)
.

Entretanto,

sup (1 + ||x||2 )k |Dα ϕ(x)| |ψν (x) − 1| = sup (1 + ||x||2 )k |Dα ϕ(x)| |ψν (x) − 1| (1.78)
x∈Rn ||x||≥ν

em virtude do fato que ψν (x) = 1 para ||x|| ≤ ν, para todo ν ∈ N.


Seja, então, ε > 0 dado. Como ϕ ∈ S existe ν0,1 ∈ N tal que ∀ x ∈ Rn com ||x|| > ν0,1
tem-se
(1 + ||x||2 )k |Dα ϕ(x)| < ε/4, ∀ α ∈ Nn tal que |α| ≤ m.

Então, de (1.78) resulta que, para ν > ν0,1 teremos

sup (1 + ||x||2 )k |Dα ϕ(x)| |ψν (x) − 1)|


x∈Rn

= sup (1 + ||x||2 )k |Dα ϕ(x)| |ψν (x) − 1)| (1.79)


||x||>ν

≤ sup (1 + ||x||2 )k |Dα ϕ(x)| < ε/4, ∀ α ∈ Nn tal que |α| ≤ m.


||x||>ν
41

Por outro lado, notemos que


 
m
X
2 k α−β
β 1 x
sup 2 (1 + ||x|| ) |D ϕ(x)| |β|
D ψ
x∈Rn
0<β≤α
ν ν
 
X 1
D ψ x
m 2 k α−β
β
=2 sup (1 + ||x|| ) |D ϕ(x)| (1.80)
0<β≤α
ν |β| x∈Rn ν
 
1 m X 2 k α−β
β x
≤ 2 sup (1 + ||x|| ) |D ϕ(x)| D ψ

.
ν 0<β≤α
x∈Rn ν

Como ϕ ∈ S, o somatório acima, em virtude de ser finito, pode ser majorado por uma
constante C(m, k) > 0 independente de α ∈ Nn tal que |α| ≤ m. Portanto, de (1.80)
podemos escrever:
 
m
X
2 k α−β 1 D ψ x ≤ 1 C 2m .
β
sup 2 (1 + ||x|| ) |D ϕ(x)| |β|
x∈Rn
0<β≤α
ν ν ν

1
Assim, para o ε > 0 dado ∃ ν0,2 ∈ N tal que ∀ ν ≥ ν0,2 tem-se C 2m < ε/2 e desta
ν
forma,  
X 1 x
sup 2m (1 + ||x||2 )k |Dα−β ϕ(x)| |β| Dβ ψ < ε/2. (1.81)
x∈Rn
0<β≤α
ν ν

Logo, de (1.77), (1.79) e (1.81), ∀ ν ≥ ν0 = max{ν0,1 , ν0,2 } concluı́mos que

sup (1 + ||x||2 )k |Dα (ψν ϕ)(x) − Dα ϕ(x)| ≤ ε/2 + ε/2 = ε


x∈Rn

o que conclui a prova. 2

A utilidade do espaço de Schwartz S tem origem no seu comportamento similar com


respeito a transformada de Fourier, conforme veremos a seguir na Proposição 1.39.

Proposição 1.37 Seja ϕ ∈ S. Então ϕ̂ ∈ C ∞ (Rn ).

Demonstração: Temos:
Z
ϕ̂(ξ) = e−2πihx,ξi ϕ(x) dx.
Rn

O nosso intuito é derivar sob o sinal de integração a expressão integral acima. Notemos
inicialmente que para todo j = 1, 2, . . . , n:

e−2πihx,ξi ϕ(x) = −2πi xj e−2πihx,ξi ϕ(x).

∂ξj
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
42 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Mas,

∂ −2πihx,ξi = − 2πi xj e−2πihx,ξi ϕ(x) = 2π|xj | |ϕ(x)|.


∂ξj e ϕ(x) (1.82)

Agora, como xj ϕ(x) ∈ S (cf. Proposição refpro2sec15) e pelo fato de S ⊂ L1 (Rn ) (cf.
Proposição 1.34) resulta de (1.82) face o teorema da convergência dominada de Lebesgue
que,

e−2πihx,ξi ϕ(x) = −2πi xj e−2πihx,ξi ϕ(x) ∈ L1 (Rn )

∂ξj
além disso, Z
∂ ϕ̂(ξ)
= −2πi xj e−2πihx,ξi ϕ(x) dx
∂ξj Rn

ou seja,
∂ ϕ̂(ξ) 
= −2πi x\
j ϕ(x) (ξ). (1.83)
∂ξj
De um modo geral dado α ∈ Nn , α = (α1 , . . . , αn ) temos

−2πihx,ξi ∂ |α| −2πihx,ξi


Dξα
 
e ϕ(x) = α1 α2 e ϕ(x)
∂ξ1 ∂ξ2 . . . ∂ξnαn
= (−2πi)α1 xα1 1 (−2πi)α2 xα2 2 . . . (−2πi)αn xαnn e−2πihx,ξi ϕ(x)
= (−2πi)|α| xα e−2πihx,ξi ϕ(x).

Contudo,
α −2πihx,ξi
ϕ(x) ≤ (2π)|α| |xα ϕ(x)|.

Dξ e

De modo análogo, concluı́mos, pelo teorema de Lebesgue que

Dξα e−2πihx,ξi ϕ(x) = (−2πi)|α| xα e−2πihx,ξi ϕ(x) ∈ L1 (Rn )




e, além disso,
Dξα (ϕ̂(ξ)) = (−2πi)|α| x\

α ϕ(x) (ξ). (1.84)

Como (xα ϕ) ∈ S ⊂ L1 (Rn ) então, resulta da Proposição (1.25) que x\
α ϕ(x) é uni-

formemente contı́nua. Resulta de (1.84) que Dξα (ϕ̂) é contı́nua para todo α ∈ Nn . Portanto
ϕ̂ ∈ C ∞ (Rn ) o que prova a proposição. 2

Proposição 1.38 Seja ϕ ∈ S. Então,


 α
(i) Ddα
x ϕ (ξ) = (2πiξ) ϕ̂(ξ), ∀ α ∈ Nn .
43

(−2πi)|α| \
Dxβ (x

(ii) ξ β Dξα (ϕ̂(ξ)) = |β|
α ϕ(x)) (ξ), ∀ α, β ∈ Nn .
(2πi)
(iii) lim ϕ̂(ξ) = 0.
||ξ||→∞

Demonstração: (i) Provaremos inicialmente que,


d
∂ϕ
2πiξj ϕ̂(ξ) = (ξ), onde|α| = 1. (1.85)
∂xj

Com efeito, temos:


c Z Z
∂ϕ −2πihx,ξi ∂ϕ(x) ∂ϕ(x)
(ξ) = e dx = lim e−2πihx,ξi dx. (1.86)
∂xj Rn ∂xj R→+∞ B (0)
R
∂xj

Da fórmula de Gauss resulta que


Z Z Z
−2πihx,ξi ∂ϕ(x) −2πihx,ξi
e dx = 2πiξj e ϕ(x) dx + e−2πihx,ξi ϕ(x) νj (x) dR .
BR (0) ∂xj BR (0) ||x||=R

Contudo, ∀ x ∈ ∂BR (0),


 
x 1 1
νj (x) = hν(x), ej i = , ej = hx, ej i = xj .
||x|| ||x|| R

Donde,
Z Z
−2πihx,ξi
1 −2πihx,ξi

e ϕ(x) νj (x) dR =
e ϕ(x) xj dR ≤

||x||=R R ||x||=R
Z Z
1 1
≤ |xj | |ϕ(x)| dR = |xj | (1 + ||x||2 )−k (1 + ||x||2 )k |ϕ(x)| dR .
R ||x||=R R ||x||=R

Como ϕ ∈ S ∃ Mk > 0 tal que

(1 + ||x||2 )k |ϕ(x)| ≤ Mk , ∀ x ∈ Rn .

Logo,
Mk Rn
Z Z Z
−2πihx,ξi
Mk 2 −k
e ϕ(x) νj (x) dR ≤
|xj | (1+||x|| ) dR = |yj | dS1

||x||=R R ||x||=R (1 + R2 )k ||y||=1
(1.87)
onde k é um natural genérico. Mas esta última integral tende para zero quando R → ∞,
desde que k seja escolhido suficientemente grande. Combinando (1.87) e (1.87) obtemos
Z Z
−2πihx,ξi ∂ϕ(x)
lim e dx = lim 2πiξj e−2πihx,ξi ϕ(x) dx = 2πiξj ϕ̂(ξ)
R→+∞ B (0)
R
∂xj R→+∞ B (0)
R
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
44 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

o que prova (1.85).


De um modo geral se α = (α1 , . . . , αn ) ∈ Nn então,

α1
(2πiξ2 )α2 . . . (2πiξn )αn ϕ̂(ξ) = (2πiξ)α ϕ̂(ξ)

D α
x ϕ (ξ) = (2πiξ1 )
[

o que prova o item (i).


(ii) Sejam α, β ∈ Nn . De (i) e do fato que xα ϕ ∈ S vem que:

\
Dxβ (x α ϕ(x)) (ξ) = (2πiξ)β (x\

α ϕ(x))(ξ). (1.88)

Agora de (1.84) obtemos,


1
Dα (ϕ̂(ξ)).

α ϕ(x) (ξ) =
x\ (1.89)
(−2πi)|α| ξ

Desta forma, de (1.88) e (1.89) resulta que

(−2πi)|α| β\
ξ β Dξα (ϕ̂(ξ)) =

D (x α ϕ(x)) (ξ)
x
(2πi)|β|

o que conclui o item (ii).


(iii) De (i) temos:
d 
∂ 2ϕ
(ξ) = (2πiξj )2 ϕ̂(ξ). (1.90)
∂x2j
Por outro lado, se k ∈ N é tal que k > n/2, temos:
  2

∂d Z
2 k ∂ ϕ
(1 + ||x|| ) 2 (1 + ||x||2 )−k dx

(ξ) ≤

∂xj 2
∂xj

Rn
 2 Z
2 k ∂ ϕ
(1 + ||x||2 )−k dx < +∞

≤ sup (1 + ||x|| ) 2
x∈R n ∂xj Rn

ou seja,
d 
∂ 2ϕ
é limitada. (1.91)
∂x2j

Logo, de (1.90) resulta que

(2πiξj )2 ϕ̂(ξ) é limitada. (1.92)

Segue daı́ que


lim ϕ̂(ξ) = 0. (1.93)
||ξ||→∞
45

Com efeito, de (1.92) temos a existência de uma constante C > 0 tal que

− C ≤ ||ξ||2 ϕ̂(ξ) ≤ C, ∀ ξ ∈ Rn . (1.94)

Contudo de (1.94) vem que


C C
− ≤ ϕ̂(ξ) ≤
||ξ||2 ||ξ||2
o que prova (1.93) e conclui a proposição. 2

Proposição 1.39 Seja ϕ ∈ S. Então ϕ̂ ∈ S e a aplicação ϕ ∈ S 7→ ϕ̂ ∈ S é linear e


contı́nua.

Demonstração: Seja ϕ ∈ S. Como S ⊂ L1 (Rn ) a transformada de Fourier está definida.


De acordo com a Proposição (1.37) temos que ϕ̂ ∈ C ∞ (Rn ). Mais além, para todo
α, β ∈ Nn temos, de acordo com a Proposição (1.38) (ii) que:

(−2πi)|α| β\
ξ β Dξα (ϕ̂(ξ)) =

D (x α ϕ(x)) (ξ). (1.95)
x
(2πi)|β|

Contudo, pelo fato de Dxβ (xα ϕ(x)) ∈ S, uma vez que (xα ϕ(x)) ∈ S, resulta da
Proposição (1.38) (iii) que

lim \
Dxβ (x

α ϕ(x)) (ξ) = 0. (1.96)
||ξ||→∞

Assim, de (1.95) e (1.96) concluı́mos que

lim ξ β Dξα (ϕ̂(ξ)) = 0


||ξ||→∞

o que prova que ϕ̂ ∈ S. Assim, a aplicação ϕ ∈ S 7→ S está bem definida além de ser
claramente linear. Provaremos a seguir, a continuidade da mesma. De fato, novamente
de (1.95) podemos escrever que: ∀ k > n/2,
Z
(1 + ||x||2 )k Dxβ (xα ϕ(x)) (1 + ||x||2 )−k dx
β α
ξ Dξ (ϕ̂(ξ)) ≤ C
Rn Z
(1 + ||x||2 )−k dx.

2 k β α

≤ sup (1 + ||x|| ) Dx (x ϕ(x))
x∈Rn Rn

Portanto,

sup ξ β Dξα (ϕ̂(ξ)) ≤ C 0 sup (1 + ||x||2 )k Dxβ (xα ϕ(x))



ξ∈Rn x∈Rn
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
46 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

o que mostra que se ϕν → 0 em S então ϕ̂ν → 0 em S, provando a continuidade da


transformada de Fourier como um operador linear de S. 2 A seguir,

provaremos que a transformada de Fourier ϕ ∈ S 7→ ϕ̂ ∈ S é uma aplicação inversı́vel.


Primeiramente provaremos a:

Proposição 1.40 (Relação Fraca de Parseval) Sejam f, g ∈ S. Então:


Z Z
ˆ
f (ξ)g(ξ) dξ = f (x)ĝ(x) dx. (1.97)
Rn Rn

Demonstração: Com efeito, pelo teorema de Fubini obtemos


Z Z Z
ˆ
f (ξ)g(ξ) dξ = g(ξ) e−2πihx,ξi f (x) dx dξ
Rn n n
ZR ZR
= f (x) e−2πihx,ξi g(ξ) dξ dx
n n
ZR R

= f (x)ĝ(x) dx.
Rn

Proposição 1.41 (Fórmula de inversão de Fourier) Seja g ∈ S. Então,


Z
g(x) = e2πihx,ξi ĝ(ξ) dξ. (1.98)
Rn

Demonstração: Seja ϕ ∈ S arbitrária e consideremos λ > 0. Definamos:

f (x) = ϕ(x/λ).

Então f ∈ S e conforme (iii) daProposição (1.26), temos:

fˆ(ξ) = λn ϕ̂(λξ).

Aplicando a relação fraca de Parseval dada em (1.97) a f e g obtemos:


Z Z
n
g(ξ) λ ϕ̂(λξ) dξ = ĝ(x) ϕ(x/λ) dx.
Rn Rn

Fazendo-se uma mudança de variável no lado esquerdo da igualdade acima vem que
Z Z
g(ξ/λ)ϕ̂(ξ) dξ = ĝ(x) ϕ(x/λ) dx.
Rn Rn
47

Contudo,

lim g(ξ/λ)ϕ̂(ξ) = g(0)ϕ̂(ξ) e lim ĝ(x)ϕ(x/λ) = ĝ(x)ϕ(0).


λ→∞ λ→∞

Agora, como ϕ̂, ĝ ∈ S ⊂ L1 (Rn ) e f e g são limitadas, podemos aplicar o teorema da


convergência dominada de Lebesgue para obter
Z Z
g(0) ϕ̂(ξ) dξ = ϕ(0) ĝ(x) dx.
Rn Rn

2
Considerando-se, em particular, ϕ(x) = e−π||x|| , cuja transformada de Fourier é ϕ̂(ξ) =
2
e−π||ξ|| (cf 1.27) resulta da igualdade acima que
Z Z
−π||ξ||2
g(0) e dξ = ĝ(x) dx.
Rn Rn

Mas, Z
2
e−π||ξ|| dξ = 1.
Rn

Donde, Z
g(0) = ĝ(η) dη
Rn
o que prova a relação (1.98) no ponto x = 0. Para qualquer outro x basta aplicar este
resultado a g substituindo-a por τ−x g e usando-se a relação (i) da Proposição 1.26. Isto
encerra a prova. 2

Proposição 1.42 A transformada de Fourier é um isomorfismo topológico de S em S.

Demonstração: Consideremos a aplicação:


Z
F(f )(ξ) = e2πihx,ξi f (x) dx; f ∈ S. (1.99)
Rn

Notemos que:
F(f )(ξ) = F(f )(−ξ)

onde Ff é a transformada de Fourier fˆ de f . Repetindo-se os mesmos argumentos usados


anteriormente, com as devidas adequações prova-se que F : S → S é uma aplicação
contı́nua. Então, as aplicações:

F: S → S e F: S → S
ϕ 7→ ϕ̂ e ϕ 7→ ϕ̆
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
48 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

onde ϕ̆ está definida como em (1.99) são contı́nuas e pela Proposição (1.41) temos

F ◦ F = F ◦ F = IdS . (1.100)

Resulta de (1.100) que F é uma bijeção. Com efeito, F é sobrejetiva pois dado
ϕ ∈ S ∃ ϕ ∈ S tal que F Fϕ = ϕ, F é injetiva já que Fϕ = 0 implica que ϕ = F Fϕ = 0.
Logo, F é um isomorfismo vetorial topológico. Mais além resulta de (1.100) que F = F −1 .
Isto prova o resultado. 2

Proposição 1.43 (Relação Forte de Parseval). Sejam f, g ∈ S. Então,


Z Z
f ḡ = fˆ ĝ.
¯
Rn Rn

Demonstração: Como ḡ ∈ S, temos, pelo fato de F : S → S; ϕ 7→ ϕ̂ ser bijetiva, a


existência de uma função h ∈ S tal que ĥ = ḡ. Então por (1.97),
Z Z Z
f ḡ = f ĥ = fˆ h. (1.101)
Rn Rn Rn

Agora, pela fórmula de inversão de Fourier, (cf. Proposição 1.41)


Z Z
h(x) = e2πihx,ξi
ḡ(ξ) dξ = ¯
e−2πihx,ξi g(ξ) dξ = ĝ(x). (1.102)
Rn Rn

Deata forma, de (1.101) e (1.102) segue o resultado desejado. 2

Corolário 1.44 Seja f ∈ S. Então:

||f ||L2 (Rn ) = ||fˆ||L2 (Rn ) .

Demonstração: Imediata. Basta aplicar a proposição precedente com f = g. 2

Esse corolário leva-nos à primeira extensão da transformada de Fourier a uma classe


mais ampla de funções.

Teorema 1.45 (Plancherel) Existe uma única bijeção isométrica

P : L2 (Rn ) → L2 (Rn )

tal que
P(f ) = fˆ, para toda f ∈ S.
49

Demonstração: Sendo F : S → S linear e contı́nua e S denso em L2 (Rn )(cf. 1.35)


podemos estender F, por continuidade, a uma única aplicação linear e contı́nua

P : L2 (Rn ) → L2 (Rn )

tal que P(f ) = fˆ, para toda f ∈ S. Em verdade, P é definido como segue: dado
f ∈ L2 (Rn ), então como S é denso em L2 (Rn ) existe (fk ) ⊂ S tal que fk → f em L2 (Rn ).
Pomos então:
Pf = lim fˆk .
k→∞

Segue do Corolário 1 que:

||Pf || = lim ||fˆk || = lim ||fk || = ||f ||


k→∞ k→∞

o que prova que P é uma isometria, e portanto injetiva. Resta-nos provar que P é
sobrejetiva. Com efeito, seja h ∈ L2 (Rn ). Pela densidade de S em L2 (Rn ) existe (ϕk ) ⊂ S
tal que
ϕk → h em L2 (Rn ). (1.103)

Ora, para cada k ∈ N, ∃! ψk ∈ S tal que ψ̂k = ϕk . Sendo ϕk convergente é de Cauchy


em L2 (Rn ) o mesmo acontecendo para ψ̂k . Contudo, como

||ψ̂k − ψ̂l || = ||ψk − ψl ||

resulta que (ψk )k é uma sequência de Cauchy em L2 (Rn ). Logo, ∃ g ∈ L2 (Rn ) tal que

ψk → g em L2 (Rn ).

Donde,
Pψk = ψ̂k → Pg em L2 (Rn )

ou seja,
ϕk → Pg em L2 (Rn ). (1.104)

De (1.103) e (1.104) pela unicidade do limite resulta que Pg = h o que prova a


sobrejetividade da aplicação e encerra o teorema. 2
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
50 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

1.6 Distribuições Temperadas


Definição 1.46 Um funcional linear T definido e contı́nuo sobre S é denominado uma
distribuição temperada (ou lentamente crescente). A totalidade das distribuições temper-
adas, ou seja, o espaço vetorial dos funcionais lineares e contı́nuos sobre S é denotado
por S 0 . Desta forma, S 0 é um e.v.t. localmente convexo para o qual estamos considerando
a topologia dual forte.

Pela Proposição 1.36 temos que C0∞ (Rn ) é denso em S. Resulta daı́ que S 0 é identifi-
cado com um subespaço de D0 (Rn ).

Exemplo 1.47 Qualquer função f ∈ Lp (Rn ), 1 ≤ p ≤ +∞ define uma distribuição


temperada. Com efeito, basta considerarmos o seguinte funcional definido em S por:
Z
hTf , ϕi = f (x)ϕ(x) dx, ∀ ϕ ∈ S. (1.105)
Rn

1 1
Se 1 < p < +∞ seja p0 tal que + 0 = 1. Então, para k > n/2p0 , (1 + ||x||2 )−k ∈
p p
Lp0 (Rn ). Logo, por Hölder
Z
|hTf , ϕi| ≤ (1 + ||x||2 )k |ϕ(x)| |f (x)| (1 + ||x||2 )−k dx
n
R 
≤ sup |(1 + ||x|| ) ϕ(x)| ||f ||Lp (Rn ) ||(1 + ||x||2 )−k ||Lp0 (Rn ) .
2 k
x∈Rn

Segue da desigualdade acima que se (ϕν ) ⊂ S e ϕν → 0 em S então

hTf , ϕν i → 0

o que prova que Tf ∈ S 0 . Além disso, a aplicação f ∈ Lp (Rn ) 7→ Tf ∈ S 0 é contı́nua


(estamos munindo S 0 da topologia fraco *).
Se p = 1, então, de (106) obtemos

|hTf , ϕi| ≤ ||ϕ||L∞ (Rn ) ||f ||L1 (Rn )

e se p = ∞ e k > n/2,
 
|hTf , ϕi| ≤ sup |(1 + ||x|| ) ϕ(x)| ||f ||L∞ (Rn ) ||(1 + ||x||2 )−k ||L1 (Rn )
2 k
x∈Rn

e de maneira análoga temos o mesmo resultado. Do exposto resulta que

Lp (Rn ) ,→ S 0 . (1.106)
51

Exemplo 1.48 Se f é uma função mensurável e limitada sobre o Rn então a aplicação


Z
hTf , ϕi = f (x)ϕ(x) dx, ∀ ϕ ∈ S
Rn

é temperada. Com efeito, como no exemplo anterior se k > n/2, temos


 Z
2 k
|hTf , ϕi| ≤ C sup |(1 + ||x|| ) ϕ(x)| (1 + ||x||2 )−k
x∈Rn Rn

o que prova o desejado.

Definição 1.49 Definiremos, agora, por transposição, a transformada de Fourier de uma


distribuição temperada. Seja T ∈ S 0 . Definimos a transformada de Fourier Tb de T por:

hTb, ϕi = hT, ϕ̂i, ∀ ϕ ∈ S. (1.107)

Como a aplicação ϕ ∈ S 7→ ϕ̂ ∈ S é contı́nua segue que Tb ∈ S 0 . Mais além, como,

F: S → S
ϕ 7→ ϕ̂

é um isomorfismo vetorial topológico, resulta que sua transposta,

F ∗ : S0 → S0
T 7→ F ∗ (T ) = Tb

é uma aplicação linear injetiva e contı́nua, como não é difı́cil verificar.

Definição 1.50 De maneira análoga à Definição 1.49 definimos a transformada de Fourier


inversa, ou seja, dado T ∈ S 0 , definimos a transformada de Fourier inversa T̆ de T por:

hT̆ , ϕi = hT, ϕ̆i, ∀ϕ ∈ (1.108)

onde ϕ̆ é transformada de Fourier inversa de ϕ.

Analogamente, pelo fato da aplicação ϕ ∈ S 7→ ϕ̆ ∈ S ser contı́nua, resulta que T̆ ∈ S 0 .


Mais além, temos também que sua transposta

F : S0 → S0

T 7→ F (T ) = T̆
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
52 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

é linear, injetiva e contı́nua. Notemos que para T, S ∈ S 0 e ∀ ϕ, ψ ∈ S,



ˆ = hT, ϕi
hF (F ∗ (T )), ϕi = hF ∗ (T ), ϕ̆i = hT, ϕ̆i

e
∗ ∗ ˘
hF ∗ (F (S)), ψi = hF (S), ψ̂i = hS, ψ̂i = hS, ψi

ou seja,
˘ ˆ
T̂ = T e T̆ = T.

As relações acima mostram que a aplicação F ∗ : S 0 → S 0 ; T 7→ F ∗ (T ) = Tb é a


∗ ∗
inversa da aplicação F : S 0 → S 0 ; T 7→ F (T ) = T̆ . Temos provado então que F ∗ é um
isomorfismo vetorial topológico.
Convém notar que pelo fato de S ⊂ L1 (Rn ) ⊂ S 0 então, a priori, parece existir duas
definições da transformada de Fourier sobre S; uma proveniente do L1 (Rn ) e a outra de
S 0 . Contudo, se ϕ ∈ S, então, para todo ψ ∈ S, temos de (1.105), (1.106) e pela relação
fraca de Parseval,
Z Z
hT
cϕ , ψi = hTϕ , ψ̂i = ϕψ̂ = ϕ̂ψ = hTϕ̂ , ψi.
Rn Rn

Portanto T
cϕ = Tϕ̂ , o que mostra que ambas as definições da transformada de Fourier
coincidem sobre S.

Exemplo 1.51 Provaremos que:


δ̂0 = 1. (1.109)

Com efeito, em primeiro lugar, como supp(δ0 ) = {0}, então δ0 é uma distribuição de
0
suporte compacto, ou ainda, mostra-se que, δ0 ∈ C ∞ (Rn ) ⊂ S 0 . Agora, para todo
ϕ ∈ S, temos, Z
hδ̂0 , ϕi = hδ0 , ϕ̂i = ϕ̂(0) = ϕ(x) dx = h1, ϕi.
Rn

Exemplo 1.52 Analogamente, temos,

δ̆0 = 1.

Segue dos exemplos anteriores que

1̆ = δ0 e 1̂ = δ0 .
53

Proposição 1.53 Seja T ∈ S 0 e consideremos α ∈ Nn . Então,

(i) Dα Tb = (−2πi)|α| (xd


αT )

(ii) (D
[ α T ) = (2πi)|α| ξ α T
b.

Demonstração:
(i) Seja ϕ ∈ S. Então, pela Proposição 6 da seção 05 resulta que

α T ), ϕi = hxα T, ϕ̂i = hT, xα ϕ̂i


h(xd
1 1
= hT, ( D
[ α ϕ)i = hTb, Dα ϕi
(2πi)|α| (2πi)|α|

o que prova o item (i).


(ii) Análoga ao item (i). 2

Concluiremos esta seção discutindo outra questão de consistência. Como S ⊂ L2 (R2 ) ⊂


S 0 , existem duas definições de transformada de Fourier sobre o L2 (Rn ); uma proveniente
de S 0 e outra do operador P definido pelo Teorema de Plancherel, ver 1.28. Mostremos
que são iguais. Consideraremos em S 0 a topologia fraco estrela. Provaremos inicialmente
que:
Tν → T em S 0 então Tbν → Tb em S 0 . (1.110)

Com efeito, para toda φ ∈ S temos,

hTbν , φi = hTν , φ̂i → hT, φ̂i = hTb, φi

o que prova (1.110). Seja, agora, f ∈ L2 (Rn ). Pela densidade de S em L2 (Rn ) ∃ (fk ) ⊂ S
tal que fk → f em L2 (Rn ). Mas,

S ,→ L2 (Rn ) ,→ S 0 .

Logo, fk → f em S 0 e por (1.110) resulta que fˆk → fˆ em S 0 . Por outro lado, como
P(fk ) → P(f ) em L2 (Rn ) temos que P(fk ) → P(f ) em S 0 . Contudo, como fk ∈ S, então,
como já vimos anteriormente, P(fk ) = fˆk e pela unicidade do limite da topologia fraco
estrela segue que P(f ) = fˆ o que prova o desejado.
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
54 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV
Capı́tulo 2

PROPRIEDADES ELEMENTARES
DOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Serão estudadas neste capı́tulo propriedades elementares da geometria dos espaços de


Sobolev e alguns resultados simples de dualidade.

2.1 Geometria dos Espaços de Sobolev


Seja Ω um aberto do Rn , 1 ≤ p < +∞ e m ∈ N. Se u ∈ Lp (Ω) é sabido que u
possui derivadas de todas as ordens no sentido das distribuições, mas não é verdade, em
geral, que Dα u seja uma distribuição definida por uma função de Lp (Ω). Quando Dα u
é definida por uma função de Lp (Ω), define-se um novo espaço denominado espaço de
Sobolev. Representa-se por W m,p (Ω) o espaço vetorial de todas as funções u pertencentes
a Lp (Ω), tais que para todo |α| ≤ m, Dα u pertence à Lp (Ω), sendo Dα u a derivada no
sentido das distribuições. Para cada u ∈ W m,p (Ω) definimos a norma de u pondo:
X Z
p
||u||m,p = |Dα u|p dx.
|α|≤m Ω

Não é difı́cil verificar que a função || · ||m,p é uma norma em W m,p (Ω) (a dificuldade
está na desigualdade triangular, onde lançamos mão da desigualdade de Hölder). O espaço

normado W m,p (Ω), || · ||m,p é denominado espaço de Sobolev.

Observação 2.1 Representa-se W m,2 (Ω) = H m (Ω) devido a estrutura hilbertiana de tais
espaços, cf. proposição abaixo.

Proposição 2.2 O espaço de Sobolev W m,p (Ω) é um espaço de Banach.

55
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
56 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Demonstração: Seja huν i uma sucessão de Cauchy em W m,p (Ω). Provaremos que uν
converge para uma função u ∈ W m,p (Ω). Com efeito, temos:
X Z
p
||uν − uµ ||m,p = |Dα uν − Dα uµ |p dx → 0, ν, µ → +∞.
|α|≤m Ω

Ora, sendo ||Dα u||Lp (Ω) ≤ ||u||m,p para todo u ∈ W m,p (Ω) e |α| ≤ m, segue que (Dα uν )
é uma sequência de Cauchy do espaço de Banach Lp (Ω). Logo, para cada |α| ≤ m
∃ uα ∈ Lp (Ω) tal que:
Dα uν → uα em Lp (Ω).

Em particular, quando α = (0, 0, . . . , 0) temos

uν → u em Lp (Ω).

Para provarmos a proposição é suficiente mostrarmos que Dα u = uα . Com efeito, das


convergências anteriores obtemos

D α uν → uα em D0 (Ω)
Dα uν → Dα u em D0 (Ω)

e face a unicidade do limite em D0 (Ω) concluı́mos o desejado. 2

Corolário 2.3 Os espaços H m (Ω) são espaços de Hilbert.

Neste caso particular a estrutura de produto interno vem dada por


X
(u, v)H m (Ω) = (Dα u, Dα v)L2 (Ω) .
|α|≤m

2.2 O Espaço W0m,p(Ω)


É sabido que C0∞ (Ω) é denso em Lp (Ω), mas não é verdade que C0∞ (Ω) é denso em
W m,p (Ω) para m ≥ 1, como veremos posteriormente. Motivado por esta razão define-se o
espaço Wom,p (Ω) como sendo o fecho de C0∞ (Ω) em W m,p (Ω), i.é,
W m,p (Ω)
C0∞ (Ω) = W0m,p (Ω).

Proposição 2.4 Seja u ∈ W0m,p (Ω) e ũ a extensão de u zero fora de Ω. Tem-se:


57

(a) ũ ∈ W m,p (Rn ).

(b) Dα ũ = (D
g α u) para todo |α| ≤ m.

(c) ||u||W m,p (Ω) = ||ũ||W m,p (Rn ) .

Demonstração: Dada uma função ϕ ∈ C0∞ (Ω), tem-se ϕ̃ ∈ C0∞ (Rn ) ⊂ W m,p (Rn ) e as
condições (a), (b) e (c) são claramente satisfeitas. Resulta daı́ que a aplicação

σ : D(Ω) → W m,p (Rn )


ϕ 7→ ϕ̃

é uma isometria linear de espaços normados e pode ser estendida por densidade a uma
isometria linear σ̃ : W0m,p (Ω) → W m,p (Rn ) definida do seguinte modo:
Se u ∈ W0m,p (Ω) então, face a densidade de C0∞ (Ω) em W0m,p (Ω), ∃ (ϕν ) ⊂ C0∞ (Ω) tal
que ϕν → u em W m,p (Ω). Definimos, então:

σ̃u = lim σ(ϕν ) = lim ϕ̃ν em W m,p (Rn ).


ν→∞ ν→∞

Provaremos que σ̃u = ũ. Com efeito, como ϕν → u em W m,p (Ω) e pelo fato de σ̃ ser
contı́nua segue que σ̃(ϕν ) → σ̃(u) em W m,p (Rn ), ou seja, ϕ̃ν → σ̃(u) em W m,p (Rn ). Segue
daı́ que ϕ̃ν → σ̃(u) em Lp (Rn ). Além disso, pelo fato de ϕν → u em W m,p (Ω) temos
também que ϕν → u em Lp (Ω) e consequentemente ϕ̃ν → ũ em Lp (Rn ). Pela unicidade
do limite em Lp (Rn ) obtemos σ̃(u) = ũ; donde se conclui que ũ ∈ W m,p (Rn ) o que prova
o item (a).
Para provarmos o item (b) notemos que pelo fato de ϕ̃ν → σ̃(u) = ũ em W m,p (Rn )
então Dα ϕ̃ν → Dα ũ em Lp (Rn ) ∀ |α| ≤ m. i.é, (D
^ α ϕ ) → D α ũ em Lp (Rn ). Por outro
ν

lado como ϕν → u em W m,p (Ω) então Dα ϕν → Dα u em Lp (Ω) e consequentemente


(D
^ α ϕ ) → (D α u) em Lp (Rn ), ∀ |α| ≤ m. De novo pela unicidade do limite em Lp (Rn )
ν
g
vem que (Dg α u) = D α ũ, o que prova o item (b).

Finalmente, das convergências ϕν → u em W m,p (Rn ) e da igualdade ||ϕν ||W m,p (Ω) =
||ϕ̃ν ||W m,p (Rn ) , obtemos ||u||W m,p (Ω) = ||ũ||W m,p (Rn ) , já que:

|||u||W m,p (Ω) − ||ũ||W m,p (Rn ) |


= | ||u||W m,p (Ω) − ||ϕν ||W m,p (Ω) + ||ϕν ||W m,p (Ω) − ||ũ||W m,p (Rn ) |
≤ | ||u||W m,p (Ω) − ||ϕν ||W m,p (Ω) | + | ||ϕ̃ν ||W m,p (Rn ) − ||ũ||W m,p (Rn ) |.

Isto prova o item (c) e encerra a demonstração da proposição. 2


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
58 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Exemplo 2.5 Consideremos as funções abaixo:



x + 1, se x ∈] − 1, 0[
u(x) = e v(x) = 1 − x se x ∈] − 1, 1[.
−x + 1, se x ∈ [0, 1[

Calculando-se suas derivadas primeiras no sentido das distribuições obtemos, no primeiro


caso, ∀ ϕ ∈ D(−1, 1):
Z 1 Z 0 Z 1 

d 0 0 0
u, ϕ = − u(x)ϕ (x) dx = − (x + 1)ϕ (x) dx + (−x + 1)ϕ (x) dx
dx −1 −1 0
 Z 0 Z 1 
0 1
= − (x + 1)ϕ(x) −1 − ϕ(x) dx + (−x + 1)ϕ(x) 0 +
ϕ(x) dx
−1 0
Z 0 Z 1
= −ϕ(0) + ϕ(x) dx + ϕ(0) − ϕ(x) dx = hw, ϕi
−1 0

onde w é a função definida por:



1, se x ∈] − 1, 0[
w(x) =
−1, se x ∈]0, 1[
e no segundo caso

d
Z 1 Z 1 Z 1
0 0
1)ϕ(x)|1−1

v, ϕ = − v(x)ϕ (x) dx = (x − 1)ϕ (x) dx = (x − − ϕ(x) dx
dx −1 −1 −1
Z 1
= −2ϕ(−1) − ϕ(x) dx = h−1, ϕi (pois ϕ(−1) = 0).
−1

Desta forma, u ∈ W01,2 (−1, 1) (conforme veremos posteriormente) e portanto


ũ ∈ W 1,2 (R), v ∈ W 1,2 (−1, 1) mas no entanto ṽ ∈
/ W 1,2 (R) pois dado ϕ ∈ D(R) temos:
Z 1

d
ṽ, ϕ = 2ϕ(−1) − ϕ(x) dx = h2δ−1 − 1, ϕi
dx −1

onde δ−1 é o delta de Dirac no ponto −1.

De acordo com o exemplo acima e com a Proposição 2.4, se Ω é um subconjunto aberto


do Rn , pode acontecer que W0m,p (Ω) seja diferente de W m,p (Ω).

Proposição 2.6 Se W0m,p (Ω) = W m,p (Ω), o complementar de Ω no Rn possui medida de


Lebesgue nula.

Demonstração: Sejam U uma vizinhança limitada tal que U ∩Ω 6= ∅ e θ ∈ D(Rn ) tal que
θ = 1 em U ∩ Ω. Considerando u(x) = 1, ∀ x ∈ Ω, então v = θu ∈ W m,p (Ω) = W0m,p (Ω).
Logo, ṽ ∈ W m,p (Rn ) e Di ṽ = (D
g i v) (1, 2, . . . , n). Contudo,

Di v em Ω
(Di v) =
g
0 em Rn \Ω
59

e como Di v = 0 em (Ω ∩ U ) então (D
gi v) = 0 em U e consequentemente Di ṽ = 0 em

U . Segue daı́ que ṽ = C (const.) q.s. em U . Pelo fato de ṽ(x) = 1 em Ω ∩ U segue que
C = 1 e consequentemente ṽ = 1 q.s. em U . Logo, o conjunto A = {x ∈ U | ṽ(x) 6= 1}
é de medida nula e como ṽ = 0 em (Rn \Ω) ∩ U ⊂ A vem que (Rn \Ω) ∩ U também tem
medida nula. Por outro lado, notemos que
 +∞
[  +∞
[
n n
(Rn \Ω) ∩ B(0, ν)

R \Ω = (R \Ω) ∩ B(0, ν) =
ν=1 ν=1

o que implica que


+∞
X
n
med (Rn \Ω) ∩ B(0, ν)

med (R \Ω) ≤
ν=1
n
donde se conclui que med (R \Ω) = 0. 2

Teorema 2.7 D(Rn ) é denso no W m,p (Rn ).

Demonstração: A idéia da demonstração é aproximar os elementos de W m,p (Rn ) por


elementos do mesmo espaço mas com suporte compacto. A etapa seguinte é aproximar
os elementos de W m,p (Rn ) com suporte compacto por funções testes em Rn .

1¯a Etapa: Truncamento


Seja u ∈ W m,p (Rn ) e consideremos ϕ ∈ D(Rn ) tal que 0 ≤ ϕ(x) ≤ 1 ∀ x ∈ Rn e além
disso, (
1 em B(0, 1)
ϕ(x) =
0 em Rn \B(0, 2)
x
Definamos, agora, para todo ν ∈ N, ν 6= 0, a sucessão de funções ϕν (x) = ϕ .
ν
Assim, (ϕν ) é uma sequência de funções testes tal que:

(a) ϕν = 1 sobre B(0, ν), supp(ϕν ) ⊂ B(0, 2ν) e 0 ≤ ϕν ≤ 1,


1 x
(b) Para todo β ∈ Nn temos Dβ ϕν (x) = D β
ϕ .
ν |β| ν
Afirmamos que a sequência (ϕν u) → u em W m,p (Rn ). Com efeito, seja α ∈ Nn tal que
|α| ≤ m. Da fórmula de Leibniz podemos escrever que:
X α!
Dα (ϕν u) = (Dα−β u)(Dβ ϕν )
β≤α
β!(α − β)!
β6=0
α
X α!
= (D u)(ϕν ) + (Dα−β u)(Dβ ϕν ).
β≤α
β!(α − β)!
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
60 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Provaremos inicialmente que (Dα u)(ϕν ) → Dα u em Lp (Rn ). De fato, do item (a)


acima concluı́mos que (Dα u(x))(ϕν (x)) → (Dα u(x)) q.s. em Rn . Além disso, como

|Dα u(x)ϕν (x) − Dα u(x)|p = |Dα u(x)(ϕν (x) − 1)|p ≤ |Dα u(x)|p

resulta do teorema da convergência dominada de Lebesgue que

(Dα u)(ϕν ) → Dα u em Lp (Rn ).


β6P
=0 α!
A seguir, provaremos que (Dα−β u)(Dβ ϕν ) → 0 em Lp (Rn ), concluindo-
β≤α β!(α − β)!
se assim, a afirmação feita no inı́cio da demonstração. Com efeito, do item (b) acima
obtemos,
Z Z
α−β β p 1
|(D u(x))(D ϕν (x))| dx ≤ cβ |(Dα−β u(x))|p dx → 0
Rn ν |β|p Rn
ou seja,
(Dα−β u)(Dβ ϕν ) → 0 em Lp (Rn ), ∀ β ≤ α, β 6= 0.

Consequentemente:
β6=0
X α!
(Dα−β u)(Dβ ϕν ) → 0 em Lp (Rn )
β≤α
(α − β)!

o que prova a afirmação. Além disso, a sucessão (ϕν u) possui suporte compacto contido
na bola B(0, 2ν) o que encerra a 1a¯ parte da demonstração.

2¯a Etapa: Regularização


Suponha, agora, que u ∈ W m,p (Rn ) seja tal que o seu suporte seja compacto. Se (ρν )
é uma sucessão regularizante no Rn segue que (ρν ∗ u) é uma sucessão de funções testes
no Rn . Além disso, par todo |α| ≤ m, tem-se

Dα (ρν ∗ u) = ρν ∗ Dα u

como também é verdade que ρν ∗ v → v em Lp (Rn ) para toda v ∈ Lp (Rn ) (conforme


Proposição 1.9). Desta forma, temos que

Dα (ρν ∗ u) = ρν ∗ Dα u → Dα u em Lp (Rn ),

ficando provado que


ρν ∗ u → u em W m,p (Rn ).
2

Nota: Segue do teorema anterior que W0m,p (Rn ) = W m,p (Rn ).


61

Proposição 2.8 Se u ∈ W m,p (Ω) e possui suporte compacto contido em Ω então


u ∈ W0m,p (Ω).

Demonstração: Provaremos que existe uma sucessão (uν ) de funções testes em Ω tal
m,p
que uν → u em W (Ω). Com efeito, sendo o supp(u) um subconjunto compacto em Ω e
Rn \Ω um subconjunto fechado, segue que r = d(supp(u), Rn \Ω) > 0. Seja ρ ∈ D(Rn ) tal
que ρ = 1 em supp(u) e tal que supp(ρ) ⊂ Ω. Para toda ϕ ∈ D(Rn ), tem-se (ρϕ)|Ω é uma
função teste em Ω já que supp(ρϕ) ⊂ supp(ρ) ∩ supp(ϕ) ⊂ supp(ρ). Logo, se |α| ≤ m
tem-se
Z Z
α |α| α |α| α |α|
hD ũ, ϕi = (−1) hũ, D ϕi = (−1) ũ D ϕ dx = (−1) u Dα ϕ dx
Rn supp(u)
Z
= (−1)|α| u Dα (ϕρ) dx = (−1)|α| hu, Dα ((ϕρ)|Ω )i = hDα u, (ϕρ)|Ω i
supp(u)

e como supp(Dα u) ⊂ supp(u) ainda podemos escrever a igualdade acima como


Z
Dα u(ϕρ) dx
supp(u)

e pelo fato de ρ(x) = 1 em supp(u) vem que


Z Z Z
α α α u)ϕ dx
D u(ϕρ) dx = D u ϕ dx = (D
g
supp(u) supp(u) Rn

ou seja, hDα ũ, ϕi = h(D


g α u), ϕi o que implica que D α ũ = (D
g α u) provando que ũ ∈

W m,p (Rn ).
Tem-se também supp(ũ) = supp(u), que é um compacto do Rn e portanto sendo ρν
uma sucessão regularizante (ρν ∗ ũ) é uma sucessão de funções testes no Rn que converge
para ũ em W m,p (Rn ), já que:

Dα (ρν ∗ ũ) = ρν ∗ (Dα ũ) → Dα ũ em Lp (Rn ).

Por outro lado afirmamos que dada v ∈ W m,p (Rn ) então (Dα v)|Ω = Dα (v|Ω ). Com
efeito, ∀ ψ ∈ D(Ω):
Z Z Z
α α α |α|
h(D v)|Ω , ψi = (D v)ψ dx = (D v)ψ̃ dx = (−1) v Dα ψ̃ dx
Ω Rn Rn
Z
|α| ] α ψ) dx
= (−1) v(D
R n
Z
|α|
= (−1) v(Dα ψ) dx = (−1)|α| hv|Ω , (Dα ψ)i

= hDα (v|Ω ), ψi.
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
62 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Pondo-se uν = (ρν ∗ ũ)|Ω então pelo que foi visto acima,

Dα (uν ) = Dα [(ρν ∗ ũ)|Ω ] = [Dα (ρν ∗ ũ)]|Ω

e
(Dα ũ)|Ω = Dα (ũ|Ω ) = Dα u.

Como Dα (ρν ∗ ũ) → Dα ũ em Lp (Rn ) então [Dα (ρν ∗ ũ)]|Ω → (Dα ũ)|Ω em Lp (Ω) e por
conseguinte Dα (uν ) → Dα u em Lp (Ω), ou seja, uν → u em W m,p (Ω). Para finalizar a
demonstração da proposição resta-nos provar que o supp(uν ) é um subconjunto compacto
2
de Ω. De fato, para ν > temos
r
1  r
supp(ρν ∗ ũ) ⊂ supp(u) + B 0, ⊂ x ∈ Rn /d(x, supp(u)) ≤ ⊂ Ω.
ν 2
1 1
Com efeito, se x ∈ supp(u) + B 0, então x = η + ζ, η ∈ supp(u) e ζ ∈ B 0, .
ν ν
Logo,
1 r
d(x, supp(u)) = inf{d(x, y); y ∈ supp(u)} ≤ d(η, x) = ||η − x|| = ||ζ|| < <
ν 2
o que prova a segunda inclusão acima, já que as outras são conhecidas.
2
Logo, para ν > o supp(ρν ∗ ũ) = supp[(ρν ∗ ũ)|Ω ] é um compacto contido em Ω. Este
r
argumento mostra que (uν )ν≥2/r é uma sucessão de funções testes em Ω que converge para
u em W m,p (Ω), isto é, u ∈ W0m,p (Ω). 2

2.3 O Espaço W −m,q (Ω)


1 1
Suponha 1 ≤ p < +∞ e q > 1 tal que + = 1. Representa-se por W −m,q (Ω) o dual
p q
topológico de W0m,p (Ω). O dual topológico de H0m (Ω) representa-se por H −m (Ω).
Seja T ∈ W −m,q (Ω) e (ϕν ) uma sucessão de funções testes tal que ϕν → 0 em D(Ω).
Resulta que ϕν → 0 em W0m,p (Ω). Com efeito, sabemos que existe um compacto K
contido em Ω tal que supp(ϕν ) ⊂ K, ∀ ν. Além disso, (Dα ϕν ) → 0 uniformemente em
K. Logo,
X Z X Z
||ϕν ||pW m,p (Ω) = α p
|D ϕν (x)| dx = |Dα ϕν (x)|p dx
|α|≤m Ω |α|≤m K
X
≤ med(K) max |Dα ϕν (x)|p → 0.
x∈K
|α|≤m
63

Logo, hT, ϕν iW −m,q ,W m,p → 0 em K (K = R ou C) o que nos permite concluir que a


0

restrição de T a D(Ω) é uma distribuição. Consideremos, agora, a aplicação linear

σ : W −m,q (Ω) → D0 (Ω)


T 7→ σ(T ) = T |D(Ω) .

Afirmamos que σ é uma aplicação injetiva pois se T |D(Ω) = S|D(Ω) então dada u ∈ W0m,p (Ω)
existe (ψν ) ⊂ D(Ω) tal que ψν → u em W0m,p (Ω) e pelo fato de hT, ψν i = hS, ψν i tem-se que
hT, ui = hS, ui o que implica que T = S. Portanto σ é injetiva o que nos permite identificar
W −m,q (Ω) a um subespaço vetorial de D0 (Ω). Este fato explica o porque de trabalharmos
com o dual de W0m,p (Ω) e não com o dual de W m,p (Ω), ou seja, usamos fortemente o fato
de D(Ω) ser denso em W0m,p (Ω). Além disso, a imersão de W −m,q (Ω) ,→ D0 (Ω) é contı́nua.
Com efeito, seja (Tν ) ⊂ W −m,q (Ω) tal que Tν → 0 em W −m,q (Ω), i.é, a sequência numérica

|hTν , ui|
||Tν ||W −m,q (Ω) = sup , u 6= 0
u∈W0m,p (Ω) ||u||

tende para zero. Segue daı́ que hTν , uiW −m,q ,W m,p → 0 para todo u ∈ W0m,p (Ω). Em
0

particular temos hTν , ϕiD0 (Ω),D(Ω) → 0 para toda ϕ ∈ D(Ω) o que prova a continuidade da
imersão.

Exemplo 2.9 No que segueZ consideraremos Ω um subconjunto aberto e limitado do Rn .


∂v
Seja v ∈ W 1,q (Ω) e tal que dx = 1.
Ω ∂x1
Basta considerarmos, por exemplo, v(x) = (med(Ω))−1 x1 . Definamos, então, para todo
u ∈ W 1,p (Ω): Z Z
∂u ∂v
hT, ui = v dx, hS, ui = − u dx.
Ω ∂x1 Ω ∂x1
Notemos que T, S ∈ (W 1,p (Ω))0 . De fato,
Z
∂u ∂u
|hT, ui| ≤ |v| dx ≤ ||v||Lq (Ω)
∂x1 p ≤ ||v||Lq (Ω) ||u||W 1,p (Ω)

Ω ∂x1 L (Ω)
Z
∂v ∂v ∂v
|hS, ui| ≤ ∂x1 |u| dx ≤ ∂x1 q ||u||Lp (Ω) ≤ ∂x1 q ||u||W 1,p (Ω) ,

Ω L (Ω) L (Ω)

o que prova o desejado.

Além disso, T 6= S pois se considerarmos, em particular, u(x) = 1 em Ω então,

hT, ui = 0 e hS, ui = −1.


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
64 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Contudo, dada ϕ ∈ D(Ω) temos


Z Z
∂ϕ ∂v
hT, ϕi = v dx = − ϕ dx = hS, ϕi, i.é., T = S em D0 (Ω),
Ω ∂x1 Ω ∂x1

o que mostra que a aplicação σ : (W 1,p (Ω))0 → D0 (Ω) não é injetiva.


Quando diz-se que uma distribuição T pertence a W −m,q (Ω), isto significa que T está
definida em D(Ω) e pode ser estendida como um funcional linear e contı́nuo ao espaço
W0m,p (Ω) e esta extensão continua a ser representada por T . O resultado que segue
caracteriza as distribuições de W −m,q (Ω). Antes, porém, provaremos um resultado que
nos será útil posteriormente.

Lema 2.10 Seja k um inteiro positivo e E = (Lp (Ω))k normado por:


k
X
||w||pE = ||wν ||pLp (Ω)
ν=1

para todo w = (w1 , w2 , . . . , wk ) ∈ E. Um funcional linear f definido em E é contı́nuo se


e somente se existem f1 , f2 , . . . , fk ∈ Lq (Ω), dual de Lp (Ω) tal que
k Z
X
hf, wiE 0 ,E = fν (x)wν (x) dx
ν=1 Ω

para todo w ∈ E.

Demonstração: Seja f ∈ E 0 e consideremos fj : Lp (Ω) → K definido para todo


u ∈ Lp (Ω) como:

hfj , ui = hf, (0, . . . , u, . . . , 0)iE 0 ,E onde o elemento u aparece na j-ésima posição.

fj é contı́nuo em Lp (Ω) posto que

|hfj , ui| = |hf, (0, . . . , u, . . . , 0)i| ≤ ||f ||E 0 ||(0, . . . , u, . . . , 0)||E = ||f ||E 0 ||u||Lp (Ω) .

Assim, para cada j = 1, 2, . . . , k, fj ∈ (Lp (Ω))0 = Lq (Ω). Além disso:

hf, wiE 0 ,E = hf, (w1 , 0, . . . , 0)i + hf, (0, w2 , 0, . . . , 0)i + · · · + hf, (0, 0, . . . , 0, wk )i
Xk X k Z
= hfν , wν i = fν (x)wν (x) dx.
ν=1 ν=1 Ω
65

k
Z
P
Reciprocamente, seja hf, wi = fν (x)wν (x) dx. Então, por Hölder e
ν=1 Ω
∀w ∈ E
k Z
X k
X
|hf, wi| ≤ |fν (x)| |wν (x)| dx ≤ ||fν ||Lq (Ω) ||wν ||Lp (Ω)
ν=1 Ω ν=1
Xk  
≤ ||fν ||Lq (Ω) ||w||E ≤ k max ||fν ||Lq (Ω) ||w||E .
1≤ν≤k
ν=1
2

Teorema 2.11 Seja T uma distribuição sobre Ω. Então T ∈ W −m,q (Ω) se e somente se
existem funções gα ∈ Lq (Ω), |α| ≤ m, tais que
X
T = Dα gα .
|α|≤m

Demonstração: Suponha T definida pelo somatório acima. Então, para toda ϕ ∈ D(Ω)
temos,

X X X
D α gα , ϕ = hDα gα , ϕi = (−1)|α| hgα , Dα ϕi

hT, ϕi =
|α|≤m |α|≤m |α|≤m
X Z
= (−1)|α| gα Dα ϕ dx.
|α|≤m Ω

Logo:
X Z X
|hT, ϕi| ≤ |gα | |Dα ϕ| dx ≤ ||gα ||Lq (Ω) ||Dα ϕ||Lp (Ω)
|α|≤m Ω |α|≤m
 X  1q  X  p1
≤ ||gα |qLq (Ω) ||D α
ϕ||pLp (Ω)
|α|≤m |α|≤m
 X  1q
= ||gα ||qLq (Ω) ||ϕ||W m,p (Ω) .
|α|≤m

Sendo D(Ω) denso em W0m,p (Ω), a última desigualdade diz ser possı́vel estender T , por
continuidade, ao espaço W0m,p (Ω) e portanto, T ∈ W −m,q (Ω).
Reciprocamente, seja T ∈ W −m,q (Ω) e k o número de ı́ndices α ∈ Nn tais que |α| ≤ m.
Os elementos u de E = (Lp (Ω))k que são k-uplas serão representados por (uα )|α|≤m ,
uα ∈ Lp (Ω). Notemos que a aplicação

σ : W0m,p (Ω) → E
u 7→ σ(u) = (Dα u)|α|≤m
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
66 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

é uma isometria linear. Com efeito, a linearidade é óbvia. Agora, dada u ∈ W0m,p (Ω)
temos
 X Z  p1  X  p1
||u||W m,p (Ω) = α
|D u| dx p
= ||D α
u||pLp (Ω) = ||σ(u)||E
|α|≤m Ω |α|≤m

o que prova ser σ uma isometria. Segue daı́ que E0 = σ(W0m,p (Ω)) é um subespaço fechado
de E. Seja f0 o funcional linear definido em E0 por

hf0 , (Dα u)|α|≤m i = hT, ui; ∀ u ∈ W0m,p (Ω)

isto é, f0 = T ◦ σ −1 , é um funcional linear contı́nuo (conforme ilustra o esquema abaixo):

σ
W0m,p (Ω) −→ E0

T ↓ . f0 = T ◦ σ −1

K
Pelo Teorema de Hahn-Banach, f0 possui uma extensão linear e contı́nua ao espaço E,
que representaremos por f . Pelo Lema 2.10 existem (gα0 )|α|≤m , gα0 ∈ Lq (Ω) tais que
X Z
hf, (wα )|α|≤m i = gα0 (x)wα (x) dx
|α|≤m Ω

para todo (wα ) ∈ E. Logo, ∀ u ∈ W0m,p (Ω), temos,


|α|≤m

X Z
α
hT, ui = hf0 , (D u)|α|≤m i = gα0 (x)Dα u(x) dx.
|α|≤m Ω

Em particular, para toda ϕ ∈ D(Ω) obtemos:


X Z
X α
gα0 (x)Dα ϕ(x) dx = D (−1)|α| gα0 , ϕ .

hT, ϕi =
|α|≤m Ω |α|≤m

Tomando-se gα = (−1)|α| gα0 a última igualdade nos diz que T = D α gα . 2


P
|α|≤m

Exemplo 2.12 Consideremos a aplicação


(
1, se x ∈ [0, 1[
u(x) =
0, se x ∈ ] − 1, 0[
67

Evidentemente u ∈ L2 (−1, 1). Contudo, ∀ ϕ ∈ D(−1, 1):


Z 1
0 0
hu , ϕi = −hu, ϕ i = − ϕ0 (x) dx = −ϕ(1) + ϕ(0) = ϕ(0) = hδ0 , ϕi
0

o que implica que δ0 ∈ W −1,2 (−1, 1) = H −1 (−1, 1) já que δ0 = u0 .

Observação 2.13 O mesmo argumento usado na demonstração do Teorema 2.11, mostra


que se T ∈ (W m,p (Ω))0 , existem funções gα ∈ Lq (Ω), dual de Lp (Ω), |α| ≤ m, tais que
X Z
hT, ui = gα (x)Dα u(x) dx
|α|≤m Ω

para toda u ∈ W m,p (Ω).

2.4 Reflexividade nos Espaços de Sobolev


Para provarmos que os espaços W m,p (Ω) são reflexivos, 1 < p < +∞, lembremos de dois
fatos: o primeiro é que os Lp (Ω), 1 < p < +∞ são reflexivos e o segundo é o teorema
de Eberlein-Smullian que afirma que um espaço de Banach E é reflexivo se e somente se
toda sucessão limitada de vetores de E possui uma subsucessão fracamente convergente.

Teorema 2.14 Se 1 < p < +∞ então W m,p (Ω) é um espaço de Banach reflexivo.

Demonstração: Seja (uν ) uma sucessão limitada de vetores de W m,p (Ω). Então, (Dα uν )
é limitada em Lp (Ω) ∀ |α| ≤ m. Em particular, (uν ) é limitada em Lp (Ω) o que implica
que existe uma subsequência (u0ν ) de (uν ) tal que u0ν → u(0,...,0) = u fraco em Lp (Ω).
∂u0ν 
Também e, em particular, é limitada em Lp (Ω) o que implica que existe uma
∂x1
∂u00ν
subsucessão (u00ν ) de (u0ν ) tal que → u(1,...,0) fraco em Lp (Ω). Por sucessivas aplicações
∂x1
deste argumento encontra-se uma subsucessão (vν ) de (uν ) e uma função uα ∈ Lp (Ω) tal
que Dα vν → uα fraco em Lp (Ω) para todo |α| ≤ m. Em particular, vν → u(0,...,0) = u fraco
em Lp (Ω) já que (vν ) ⊂ (u0ν ). Segue daı́ que Dα vν → Dα u em D0 (Ω). Temos também que
Dα vν → uα em D0 (Ω) o que nos leva a concluir, face a unicidade do limite em D0 (Ω), que
Dα u = uα ∀ |α| ≤ m e consequentemente que u ∈ W m,p (Ω).
Para finalizar a demonstração necessitamos provar que (vν ) converge fraco para u em
W (Ω). Com efeito, seja T ∈ (WZm,p (Ω))0 . De acordo com a última observação existem
m,p
X
gα ∈ Lq (Ω) tais que hT, wi = gα (x)Dα w(x) dx ∀ w ∈ W m,p (Ω). Logo:
|α|≤m Ω
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
68 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

X Z X Z
α
hT, vν i = gα (x)D vν (x) dx → gα (x)Dα u(x) dx = hT, ui
|α|≤m Ω |α|≤m Ω

uma vez que Dα vν → uα = Dα u fraco em Lp (Ω). Assim fica provado que vν → u fraco
em W m,p (Ω) o que encerra a demonstração. 2

2.5 Aproximações por Funções Regulares


Nesta seção apresentaremos um resultado forte de densidade, devido a Friedrichs e algu-
mas de suas consequências. Antes, porém, necessitamos de um resultado que enunciaremos
sob a forma de:

Lema 2.15 Sejam ρ ∈ L1 (Rn ) e v ∈ W 1,p (Rn ), 1 ≤ p ≤ +∞. Então:


∂ ∂v
ρ ∗ v ∈ W 1,p (Rn ) e (ρ ∗ v) = ρ ∗ ; i = 1, 2, . . . , n.
∂xi ∂xi

Demonstração: Inicialmente, notemos que em função de ρ ∈ L1 (Rn ) e v ∈ W 1,p (Rn )


ficam bem definidas as convoluções
∂v
ρ∗v e ρ∗ , i = 1, 2, . . . , n
∂xi
∂v
com ρ ∗ v, ρ ∗ ∈ Lp (Rn ). Suponhamos que ρ tenha suporte compacto e consideremos
∂xi
ψ ∈ D(Rn ). Então, para todo i ∈ {1, 2, . . . , n} temos, por Fubini, que:
Z


∂ψ ∂ψ
(ρ ∗ v), ψ = − ρ ∗ v, =− (ρ ∗ v)(x) (x) dx
∂xi ∂xi Rn ∂xi
Z Z  Z Z
∂ψ ∂ψ
=− ρ(x − y)v(y) dy (x) dx = − ρ(x − y)v(y) (x) dydx
Rn Rn ∂xi Rn Rn ∂xi
Z Z  Z Z 
∂ψ ∂ψ
=− ρ(x − y) (x) dx v(y) dy = − ρ̃(y − x) (x) dx v(y) dy
Rn Rn ∂xi Rn Rn ∂xi
Z
∂ψ 
=− ρ̃ ∗ (y)v(y) dy
Rn ∂xi
onde ρ̃(x) = ρ(−x). Assim,
Z

∂ ∂ψ 
(ρ ∗ v), ψ = − ρ̃ ∗ (y)v(y) dy. (2.1)
∂xi Rn ∂xi
Por outro lado, como ρ̃ ∈ L1 (Rn ) e ψ ∈ D(Rn ) resulta que
∂ ∂ψ
ρ̃ ∗ ψ ∈ C ∞ (Rn ) e (ρ̃ ∗ ψ) = ρ̃ ∗ · (2.2)
∂xi ∂xi
69

Mais além, temos que

supp(ρ̃ ∗ ψ) ⊂ supp(ρ̃) + supp(ψ)

onde supp(ρ̃) e supp(ψ) são compactos do Rn . Consequentemente, temos -também que


supp(ρ̃ ∗ ψ) é um compacto do Rn . Donde,

ρ̃ ∗ ψ ∈ C0∞ (Rn ). (2.3)

De (2.1), (2.2) e (2.3) e do fato que v ∈ W 1,p (Rn ) obtemos, por Fubini
Z Z

∂ ∂ψ ∂
(ρ ∗ v), ψ = − ρ̃ ∗ )(y)v(y) dy = − (ρ̃ ∗ ψ)(y)v(y) dy
∂xi Rn ∂xi Rn ∂xi
Z Z Z 
∂v ∂v
= (ρ̃ ∗ ψ)(y) (y) dy = ρ̃(x − y)ψ(x) dx (y) dy
Rn ∂xi Rn Rn ∂xi
Z Z  Z Z 
∂v ∂v
= ρ̃(x − y) (y) dy ψ(x) dx = ρ(x − y) (y) dy ψ(x) dx
Rn Rn ∂xi Rn Rn ∂xi
Z
∂v 
∂v
= ρ∗ (x)ψ(x) dx = ρ ,ψ
Rn ∂xi ∂xi
ou seja,

∂ ∂v
, ψ , ∀ ψ ∈ D(Rn ) e ∀ i = 1, 2, . . . , n.

(ρ ∗ v), ψ = ρ ∗ (2.4)
∂xi ∂xi
Resulta de (2.4) que
∂ ∂v
(ρ ∗ v) = ρ ∗ ∈ Lp (Rn ), ∀ i = 1, 2, . . . , n (2.5)
∂xi ∂xi
e portanto:
ρ ∗ v ∈ W 1,p (Rn ). (2.6)

Suponhamos, agora, que ρ não tenha suporte compacto. Como C00 (Rn ) é denso em
L1 (Rn ), existe uma sequência (ρν )ν∈N ⊂ C00 (Rn ) tal que:

ρν → ρ em L1 (Rn ). (2.7)

Pelo primeiro caso, temos que


∂ ∂v
ρν ∗ v ∈ W 1,p (Rn ) e (ρν ∗ v) = ρv ∗ ∈ Lp (Rn ), ∀ i = 1, 2, . . . , n. (2.8)
∂xi ∂xi
Mas:
Z
||ρν ∗ v − ρ ∗ v||pLp (Rn ) = |(ρν ∗ v)(x) − (ρ ∗ v)(x)|p dx
n
ZR
= |[(ρν − ρ) ∗ v](x)|p dx ≤ ||ρν − ρ||pL1 (Rn ) ||v||pLp (Rn )
Rn
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
70 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

i.é,
||ρν ∗ v − ρ ∗ v||Lp (Rn ) ≤ ||ρν − ρ||L1 (Rn ) ||v||Lp (Rn ) . (2.9)

De modo análogo:

ρν ∗ ∂v − ρ ∗ ∂v
∂v
≤ ||ρν − ρ||L1 (Rn ) ∂xi p n .
(2.10)
∂xi ∂xi Lp (Rn ) L (R )

De (2.7), (2.8), (2.9) e (2.10) obtemos:


∂ ∂v
(ρ ∗ v) = ρ ∗ ∈ Lp (Rn ), ∀ i = 1, 2, . . . , n
∂xi ∂xi
o que nos leva a concluir que
ρ ∗ v ∈ W 1,p (Rn )

conforme querı́amos demonstrar. 2

Teorema 2.16 (Friedrichs) . Sejam Ω ⊂ Rn aberto genérico e u ∈ W 1,p (Ω) com


1 ≤ p < +∞. Então, existe uma sequência (uν ) de C0∞ (Rn ) tal que:

uν |Ω → u em Lp (Ω)
∇uν |ω → ∇u|ω em [Lp (ω)]n , ∀ ω ⊂⊂ Ω.

(Observamos que a notação ω ⊂⊂ Ω significa que ω é um aberto tal que ω̄ ⊂ Ω e ω̄ é


compacto).

Demonstração: Seja u ∈ W 1,p (Ω). Definamos:


(
u(x) se x ∈ Ω
ũ(x) =
0 se x ∈ Rn \Ω

Observemos que ũ ∈ Lp (Rn ) mas não temos a garantia que ũ ∈ W 1,p (Rn ). Considere-
mos, então, (ρν )ν∈N uma sequência regularizante, isto é,
Z
n
ρν ≥ 0 sobre o R , ρν ∈ C0∞ (Rn ), supp(ρν ) ⊂ B 1 (0) e ρν (x)dx = 1, ∀ ν.
ν
Rn

Ponhamos:
vν (x) = (ρν ∗ ũ)(x), x ∈ Rn e ν ∈ N. (2.11)

Sabemos que:
vν → ũ em Lp (Rn ). (2.12)
71

Provaremos que:

∇vν |ω → ∇u|ω em [Lp (ω)]n para todo ω ⊂⊂ Ω. (2.13)

Com efeito, fixemos ω ⊂⊂ Ω e consideremos α ∈ C0∞ (Ω) tal que α = 1 em uma


vizinhança ω 0 de ω, tal que ω ⊂⊂ ω 0 ⊂⊂ Ω. Notemos que:

αu ∈ W 1,p (Ω)

e além disso que:


supp(αu) é um compacto de Ω.

Donde:
αu ∈ W01,p (Ω). (2.14)

Resulta de (2.14) que:


(
(αu)(x), x ∈ Ω
(f
αu) =
0, x ∈ Rn \Ω

pertence a W 1,p (Rn ) e, mais ainda,


 
∂  ^

(f
αu) = (αu) , ∀ i = 1, 2, . . . , n. (2.15)
∂xi ∂xi

Afirmamos que:

Para ν suficientemente grande ρν ∗ (f


αu) = ρν ∗ ũ sobre ω. (2.16)

De fato, notemos que:

ρν ∗ (f
αu) = ρν ∗ ũ sobre ω ⇔ ρν ∗ (f
αu) − ρν ∗ ũ = 0
sobre ω ⇔ ρν ∗ [(f
αu) − ũ] = 0 (2.17)
αu) − ũ]) ⊂ Rn \ω.
sobre ω ⇔ supp(ρν ∗ [(f

Temos,

supp(ρν ∗ [(f
αu) − ũ]) ⊂ supp(ρν ) + supp[(f
αu) − ũ] = supp(ρν ) + supp[(α̃ − 1)ũ]. (2.18)

Contudo,

supp(ρν ) ⊂ B 1 (0) e supp[(α̃ − 1)ũ] ⊂ supp(α̃ − 1) ∩ supp(ũ) ⊂ supp(α̃ − 1). (2.19)


ν
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
72 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Como,
se x ∈ ω 0


 0

(α̃ − 1)(x) = α(x) − 1 se x ∈ Ω\ω 0


−1 se x ∈ Rn \Ω

então,
supp(α̃ − 1) ⊂ Rn \ω 0 . (2.20)

De (2.18), (2.19) e (2.20) concluı́mos que:

αu) − ũ]) ⊂ supp(ρν ) + supp[(α̃ − 1)ũ] ⊂ B 1 (0) + supp(α̃ − 1) ⊂ B 1 (0) + Rn \ω 0


supp(ρν ∗ [(f
ν ν

ou seja,
αu) − ũ]) ⊂ B 1 (0) + Rn \ω 0 ,
supp(ρν ∗ [(f ∀ ν ∈ N. (2.21)
ν

Consideremos:

δ = d(ω̄, Rn \ω 0 ) = d(ω, Rn \ω 0 ) = inf{|x − y|; x ∈ ω e y ∈ Rn \ω 0 } > 0.

Afirmamos que:
2
B 1 (0) + Rn \ω 0 ⊂ Rn \ω, ∀ν ≥ · (2.22)
ν δ
2
Suponhamos, por contradição, que existe ν ∗ ≥ tal que B 1∗ (0) + Rn \ω 0 não está
δ ν

contido em Rn \ω.
Resulta daı́ que existirão z ∈ B 1∗ (0) e y ∈ Rn \ω 0 tais que z + y ∈
/ Rn \ω, ou seja,
ν

z + y ∈ ω.

Então existirá x ∈ ω tal que x = z + y, o que implica que


1 δ
|x − y| = |z| < ≤ <δ
ν∗ 2
o que é uma contradição pois x ∈ ω, y ∈ Rn \ω 0 e, portanto,

δ ≤ |x − y|

o que prova a afirmação em (22). Daı́ e de (21) chegamos a

αu) − ũ]) ⊂ Rn \ω para ν suficientemente grande.


supp(ρν ∗ [(f (2.23)
73

De (2.17) e (2.23) temos provado o desejado em (2.16). Resulta do Lema 2.15 e do


exposto acima que existe ν0 ∈ N tal que

αu) ∈ W 1,p (Rn ),


ρν ∗ (f ∀ ν ≥ ν0

como também que


 
∂  ∂ ∂u^∂α
ρν ∗ (f
αu) = ρν u ∗ αu) = ρν ∗ α
(f + u , ∀ ν ≥ ν0 , ∀ i = 1, 2, . . . , n.
∂xi ∂xi ∂xi ∂xi

Consequentemente:
 
∂ ∂u^∂α
em Lp (Rn ), ∀ i = 1, 2, . . . , n.

ρν ∗ (f
αu) → α + u
∂xi ∂xi ∂xi

Em particular,
∂ ∂u
em Lp (ω),

ρν ∗ (f
αu) → ∀ i = 1, 2, . . . , n
∂xi ∂xi
e graças a (2.16) temos,

∂ ∂u
em Lp (ω),

ρν ∗ ũ → ∀ i = 1, 2, . . . , n
∂xi ∂xi
e de (2.11) podemos reescrever,

∂vν ∂u
→ em Lp (ω), ∀ i = 1, 2, . . . , n
∂xi ∂xi
o que prova (2.13).
Seja ξ ∈ D(Rn ) tal que 0 ≤ ξ ≤ 1 em Rn , ξ(x) = 1 se ||x|| ≤ 1 e ξ(x) = 0 se ||x|| ≥ 2.
Definimos para cada ν ∈ N∗ :
x
ξν (x) = ξ
ν
como também,
uν (x) = ξν (x)vν (x)1 , x ∈ Rn , ν ∈ N. (2.24)

Observemos que:
uν ∈ D(Rn ), ∀ ν ∈ N.

Provaremos que:
uν |Ω → u em Lp (Ω). (2.25)
1
é o truncamento usual
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
74 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

De fato,

||uν − ũ||Lp (Rn ) ≤ ||ξν vν − ξν ũ||Lp (Rn ) + ||ξν ũ − ũ||Lp (Rn )


≤ sup |ξ(x)| ||vν − ũ||Lp (Rn ) + ||ξν ũ − ũ||Lp (Rn ) . (2.26)
x∈Rn

Mas em virtude do Teorema da Convergência Dominada,

ξν ũ → ũ em Lp (Rn ). (2.27)

Logo, de (2.12), (2.26) e (2.27) segue o desejado em (2.25). Resta-nos provar que:

∇uν |ω → ∇u|ω em [Lp (ω)]n . (2.28)

Com efeito, temos,


∂uν ∂ξν ∂vν
= vν + ξν , ∀ i = 1, 2, . . . , n.
∂xi ∂xi ∂xi

Donde,

∂uν ∂u ∂ξν ∂u ∂v ν

∂xi − ≤ vν
+ − ξν
(2.29)
∂xi Lp (ω) ∂xi p
L (ω)
∂xi ∂xi Lp (ω)
 
∂ξν ∂u ∂v ν ∂u ∂u

∂xi vν p + ξν ∂xi − ∂xi p

∂xi ξν − ∂xi p .
+
L (ω) L (ω) L (ω)

Em virtude do Teorema da Convergência Dominada,



∂u ∂u

∂xi ξν − → 0. (2.30)
∂xi Lp (ω)

Temos  
∂u ∂v ν ∂u ∂v ν
ξν − ≤ sup |ξ(x)| −
∂xi ∂xi Lp (ω) x∈Rn ∂xi ∂xi p
L (ω)

o que implica, em virtude de (2.13) que


 
ξν ∂u − ∂vν

→ 0. (2.31)
∂xi ∂xi Lp (ω)

Finalmente, notemos que


∂ξν p ∂ξν p ∂ξ p
Z Z
p 1 p
∂xi vν p = ∂xi |vν | dx = ν p ∂xi |vν | dx

L (ω) ω ω
p Z
1 ∂ξ C
|vν |p dx ≤ p ||ρν ||pL1 (Rn ) ||ũ||pLp (Rn )

≤ p sup
ν x∈Rn ∂xi n R ν
75

o que nos leva a


∂ξν p

∂xi vν p → 0. (2.32)

L (ω)

De (2.29), (2.30), (2.31) e (2.32) concluı́mos que:


∂uν ∂u
→ em Lp (ω), ∀ i = 1, . . . , n
∂xi ∂xi
o que prova (2.28) e encerra a demonstração. 2

Proposição 2.17 (Caracterização de W 1,p (Ω)) Sejam Ω ⊂ Rn um aberto genérico e


consideremos u ∈ Lp (Ω) com 1 < p ≤ +∞. As seguintes propriedades são equivalentes:

(i) u ∈ W 1,p (Ω)

(ii) Existe uma constante C > 0 tal que:


Z
∂ϕ
∀ ϕ ∈ C0∞ (Ω),

u dx ≤ C kϕkLp0 (Ω) ; ∀ i = 1, . . . , n.

Ω ∂xi

(iii) Existe uma constante C > 0 tal que para todo aberto ω ⊂⊂ Ω e todo h ∈ Rn com
|h| < dist(ω̄, Rn \Ω) tem-se:

kτh u − ukLp (ω) ≤ C|h|.

Além disso, se pode tomar C = 2k∇uk[Lp (Ω)]n em (ii) e (iii).

Demonstração: (i) ⇒ (ii)


Sejam u ∈ W 1,p (Ω) e ϕ ∈ C0∞ (Ω). Então, para cada ∀ i = 1, . . . , n:
Z Z
∂ϕ
∂ϕ
∂u ∂u
u dx = u, =− ,ϕ = − ϕ dx
Ω ∂xi ∂xi ∂xi Ω ∂xi

e portanto, por Hölder,


Z Z
∂ϕ ∂u ∂u
u dx ≤ |ϕ| dx ≤
∂xi p ||ϕ||Lp0 (Ω) .


Ω ∂xi Ω ∂xi

L (Ω)

(ii) ⇒ (i)
Seja u ∈ Lp (Ω). Definamos:

Tu : C0∞ (Ω) → R
Z
∂ϕ
ϕ 7→ hTu , ϕi = u dx. (2.33)
Ω ∂xi
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
76 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Por hipótese, ∃ C > 0 tal que


Z
∂ϕ
|hTu , ϕi| = u dx ≤ C ||ϕ||Lp0 (Ω) , ∀ i = 1, . . . , n.
Ω ∂xi

Logo, podemos estender (2.33) a uma única aplicação

Teu : Lp0 (Ω) → R (2.34)

linear e contı́nua tal que


Z
∂ϕ
hTeu , ϕi = u dx, ∀ ϕ ∈ C0∞ (Ω). (2.35)
Ω ∂xi

Por outro lado, de (2.34) e do teorema da Representação de Riesz segue que existe
g ∈ Lp (Ω) tal que Z
hTeu , vi = gv dx, ∀ v ∈ Lp0 (Ω). (2.36)

De (2.35) e (2.36) temos, em particular, que


Z Z
∂ϕ
u dx = gϕ dx, ∀ ϕ ∈ C0∞ (Ω)
Ω ∂xi Ω

ou seja,

∂u
− , ϕ = hg, ϕi, ∀ ϕ ∈ C0∞ (Ω).
∂xi
Consequentemente:
u ∈ W 1,p (Ω)

(ii) ⇒ (iii)
Temos dois casos a considerar:
(a) 1 < p < +∞.
Sejam u ∈ Lp (Ω) verificando o item (ii) e ω ⊂⊂ Ω. Então pela já provada equivalência
(i) ⇔ (ii) temos que u ∈ W 1,p (Ω). Consideremos x ∈ ω, ϕ ∈ C0∞ (Rn ) e h ∈ Rn tal que
0 < |h| < dist(ω̄, Rn \Ω) = d. Observemos que com |h| nestas condições temos x+th ∈ Ω;
∀ t ∈ [0, 1]. Com efeito, inicialmente notemos que

Bd (x) ⊂ Ω (2.37)

pois, caso contrário, existiria y0 ∈ Bd (x) e y0 ∈


/ Ω. Ora, por um lado temos,

||y0 − x|| < d (2.38)


77

e por outro lado, do fato que d = dist(ω̄, Rn \Ω) resulta que

d ≤ ||y0 − x|| (2.39)

pois x ∈ ω e y0 ∈
/ Ω. Mas de (2.38) e (2.39) temos um absurdo, o que prova a afirmação
em (2.37).
Consideremos, agora, z ∈ Bt|h| (x), t ∈ [0, 1]. Então,

||z − x|| < t|h| ≤ |h| < d

o que implica que z ∈ Bd (x) e de (2.37) vem então que z ∈ Ω, i.é,

Bt|h| (x) ⊂ Ω

o que prova que x + th ∈ Ω, ∀ t ∈ [0, 1]. Do exposto podemos definir:

λ : [0, 1] → Ω
t 7→ λ(t) = x + th (2.40)

v : [0, 1] → R
t 7→ v(t) = (ϕ ◦ λ)(t) = ϕ(x + th). (2.41)

Temos,
n
X ∂ϕ
v 0 (t) = ϕ0 (λ(t)) · λ0 (t) = (x + th) hi = ∇ϕ(x + th) · h. (2.42)
i=1
∂x i

Mas,
Z 1
τh ϕ(x) − ϕ(x) = ϕ(x + h) − ϕ(x) = v(1) − v(0) = v 0 (t) dt
0

e de (2.42) resulta então que


Z 1 n Z 1
X ∂ϕ
τh ϕ(x) − ϕ(x) = h∇ϕ(x + th), hi dt = (x + th) hi dt
0 i=1 0 ∂xi

donde
n Z 1

X ∂ϕ
|τh ϕ(x) − ϕ(x)| ≤ ∂xi (x + th) | hi |dt

i=1 0
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
78 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

o que pela desigualdade de Hölder implica que


" n Z 1 #p
X ∂ϕ
|τh ϕ(x) − ϕ(x)|p ≤ | hi | ∂xi (x + th) dt

i=1 0
" n  Z 1 p  p1 Z 1 p0 #p
X ∂ϕ
≤ | hi | ∂xi (x + th) dt
1dt
i=1 0 0
n Z 1 p
p
X
p
∂ϕ
≤ 2 | hi | ∂xi (x + th) dt

i=1 0
n
X 1 ∂ϕ
Z p
p p

≤ 2 |h|
∂xi (x + th) dt.

i=1 0

Integrando em ω e utilizando o teorema de Fubini obtemos


Z n Z 1Z p
p p p
X ∂ϕ
|τh ϕ(x) − ϕ(x)| dx ≤ 2 |h| ∂xi (x + th) dxdt
(2.43)
ω i=1 0 ω

Fixando |h| < d então, em verdade e conforme visto anteriormente,

x + th ∈ Ω, ∀ t ∈ [0, 1] e ∀ x ∈ ω̄.

Portanto,
ω̄ + th ⊂ Ω; ∀ t ∈ [0, 1].

Como ω̄ + th é um compacto contido em Ω temos que,

dist(ω̄ + th, Rn \Ω) > 0

e desta forma existe ω 0 ⊂⊂ Ω tal que

ω̄ + th ⊂ ω 0 , ∀ t ∈ [0, 1]. (2.44)

Logo, de (2.43) e (2.44) resulta que


Z n Z p 1 Z
p p p
∂ϕ
X
|τh ϕ(x) − ϕ(x)| dx ≤ 2 |h|
∂xi (y) dydt

ω i=1 0 ω+th
n Z 1Z p
p p
X ∂ϕ
≤ 2 |h| (y) dydt
0 ∂xi

i=1 0 ω

i.é,
n
∂ϕ p
X
kτh ϕ − ϕkpLp (ω) p
≤ 2 |h|p
∂xi p = 2p |h|p k∇ϕkp[Lp (ω0 )]n .
i=1 L (ω 0 )
79

Donde,
kτh ϕ − ϕkLp (ω) ≤ 2|h| k∇ϕk[Lp (ω0 )]n , ∀ ϕ ∈ C0∞ (Rn ). (2.45)

Por outro lado, como u ∈ W 1,p (Ω) segue do Teorema 2.16 que existe (ϕν ) ⊂ C0∞ (Rn )
tal que
ϕν |Ω → u em Lp (Ω) (2.46)

e
∇ϕν |ω0 → ∇u|ω0 em [Lp (ω 0 )]n . (2.47)

Resulta de (2.45) em particular para cada ν ∈ N que:

kτh ϕν − ϕν kLp (ω) ≤ 2|h| k∇ϕν k[Lp (ω0 )]n (2.48)

Provaremos a seguir que:

τh ϕν → τh u em Lp (ω). (2.49)

Com efeito, temos,


Z Z
kτh ϕν − τh ukpLp (ω) = p
|ϕν (x + h) − u(x + h)| dx = |ϕν (y) − u(y)|p dy
Zω ω+h

≤ |ϕν (y) − u(y)|p dy = kϕν |Ω − ukLp (Ω) , ∀ ν ∈ N.


De (2.46) e da desigualdade acima fica provado (2.49). Consequentemente, das con-


vergências (2.46), (2.47) e (2.49) resulta que

kτh u − ukLp (ω) ≤ 2|h| k∇uk[Lp (ω0 )]p . (2.50)

Agora, como
k∇uk[Lp (ω0 )]n ≤ k∇uk[Lp (Ω)]n

obtemos de (2.50) a desigualdade

kτh u − ukLp (ω) ≤ 2|h| k∇uk[Lp (Ω)]n . (2.51)

(b) p = +∞
Consideremos 1 < r < +∞. Notemos que para todo subconjunto B aberto e limitado
de Ω temos:
∂u
u, ∈ Lr (B); i = 1, 2, . . . , n.
∂xi
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
80 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Resulta daı́ e de (2.50) que

kτh u − ukLr (ω) ≤ 2|h| k∇uk[Lr (ω0 )]n , (2.52)

onde ω e ω 0 são abertos e limitados dados como no caso (a).


Tomando-se o limite quando r → ∞ em (2.52) vem que

kτh u − ukL∞ (ω) ≤ 2|h| k∇uk[L∞ (Ω)]n .

(iii) ⇒ (ii)
Seja ϕ ∈ C0∞ (Ω) e consideremos um aberto ω de Ω tal que

supp(ϕ) ⊂ ω ⊂⊂ Ω. (2.53)

Seja h ∈ Rn com 0 < |h| < dist(ω, Rn \Ω). Em virtude de (2.53) podemos escrever
Z Z
(τh u − u)ϕ dx = (τh u − u)ϕ dx.
Ω ω

Da igualdade acima, por Hölder e por hipótese resulta que


Z

(τh u − u)ϕ dx ≤ kτh u − ukLp (ω) kϕkLp0 (ω) ≤ C |h| kϕkLp0 (ω) . (2.54)

Por outro lado, temos,


Z Z
(τh u − u)ϕ dx = (u(x + h) − u(x))ϕ(x) dx
Ω ZΩ Z
= u(x + h)ϕ(x) dx − u(x)ϕ(x) dx
ZΩ ZΩ
= u(x + h)ϕ(x) dx − u(x)ϕ(x) dx
Zω ΩZ

= u(y)ϕ(y − h) dy − u(y)ϕ(y) dy. (2.55)


ω+h Ω

Contudo, notemos que se y ∈


/ ω + h então y − h ∈
/ ω e por conseguinte ϕ(y − h) = 0.
Logo, Z Z
u(y)ϕ(y − h) dy = u(y)ϕ(y − h) dy (2.56)
ω+h Ω

e de (2.55) e (2.56) obtemos


Z Z
(τh u − u)ϕ dx = u(y)(ϕ(y − h) − ϕ(y)) dy. (2.57)
Ω Ω
81

De (2.54) e (2.57) vem então que


Z  
u(y) ϕ(y − h) − ϕ(y) dy ≤ C kϕk p0 .

L (Ω)

Ω |h|

Tomando-se, em particular, h = tei resulta que


Z  

u(y) ϕ(y − te i ) − ϕ(y)
≤ C kϕk p0 .
dy L (Ω) (2.58)

Ω |t|

Mas,
 
ϕ(y − tei ) − ϕ(y) ∂ϕ
u(y) → u(y) (y), quando t → 0 q.s. em Ω. (2.59)
|t| ∂xi

Agora, fixados z, y ∈ Ω genéricos temos, em virtude do teorema do Valor Médio a


existência de ξ ∈ [z, y], tal que

|ϕ(z) − ϕ(y)| = |ϕ0 (ξ)| |z − y| ≤ M |z − y|

onde M = max |ϕ0 (x)|. Resulta da desigualdade acima e, em particular, que


x∈ω̄

|ϕ(y − tei ) − ϕ(y)|


≤M
|t|
o que implica que
|ϕ(y − tei ) − ϕ(y)|
|u(y)| ≤ M |u(y)|; q.s. em Ω. (2.60)
|t|

Logo, de (2.58), (2.59) e (2.60) temos, em virtude do Teorema da Convergência Do-


minada que Z
u(y) ∂ϕ (y) dy ≤ C kϕk p0

L (Ω)

Ω ∂xi
o que encerra a prova. 2

Observação 2.18 As implicações

(i) ⇒ (ii) ⇔ (iii)

permanecem válidas para o caso p = 1.

Proposição 2.19 (Derivação de um Produto) . Seja Ω ⊂ Rn aberto e consideremos


u, v ∈ W 1,p (Ω) ∩ L∞ (Ω) com 1 ≤ p ≤ +∞. Então, uv ∈ W 1,p (Ω) ∩ L∞ (Ω) e
∂ ∂u ∂v
(uv) = v+u , ∀ i = 1, . . . , n.
∂xi ∂xi ∂xi
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
82 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Demonstração:
(i) 1 ≤ p < +∞
Sejam u, v ∈ W 1,p (Ω) ∩ L∞ (Ω). Então:

uv ∈ Lp (Ω) (2.61)

pois
|(uv)(x)|p = |u(x)|p |v(x)|p ≤ C |v(x)|p , ∀ x ∈ Ω.

Pelo Teorema de Friedrichs existem (ϕν ), (ψν ) ∈ C0∞ (Rn ) tais que

ϕν → u e ψν → v em Lp (Ω) (2.62)

∇ϕν → ∇u e ∇ψν → ∇v em [Lp (ω)]n , ∀ ω ⊂⊂ Ω. (2.63)

Seja ϕ ∈ C0∞ (Ω) e ω ⊂⊂ Ω tal que supp(ϕ) ⊂ ω. Temos:


Z   Z Z
∂ϕν ∂ψν ∂(ϕν ψν ) ∂ϕ
ψν + ϕν ϕ dx = ϕ dx = − (ϕν ψν ) dx.
Ω ∂xi ∂xi Ω ∂xi Ω ∂xi

Donde, Z   Z
∂ϕν ∂ψν ∂ϕ
ψν + ϕν ϕ, dx = − (ϕν ψν ) dx. (2.64)
ω ∂xi ∂xi Ω ∂xi
Por outro lado, das convergências em (2.62) podemos escrever que

ϕν ψν → uv em Lp (Ω)

e, portanto, Z Z
∂ϕ ∂ϕ
− (ϕν ψν ) dx → − (uv) dx. (2.65)
Ω ∂xi Ω ∂xi
Por outro lado, das convergências em (2.63) resulta que

∂ϕν ∂u ∂ψν ∂v
→ e → em Lp (ω).
∂xi ∂xi ∂xi ∂xi

Resulta das convergências acima e do fato que


∂u ∂v
v, u ∈ Lp (Ω)
∂xi ∂xi
que,
∂ϕν ∂ψν ∂u ∂v
ψν + ϕν → v+u em Lp (ω). (2.66)
∂xi ∂xi ∂xi ∂xi
83

De (2.66) obtemos:
Z   Z  
∂ϕν ∂ψν ∂u ∂v
ψν + ϕν ϕ dx → v+u ϕ dx
ω ∂xi ∂xi ω ∂xi ∂xi
e em virtude de (2.64) a convergência acima pode ser reescrita como
Z Z  
∂ϕ ∂u ∂v
− (ϕν ψν ) dx → v+u ϕ dx. (2.67)
Ω ∂xi Ω ∂xi ∂xi

De (2.65) e (2.67) concluı́mos, face a unicidade do limite que


Z Z  
∂ϕ ∂u ∂v
− (uv) dx = v+u ϕ dx, ∀ ϕ ∈ C0∞ (Ω).
Ω ∂xi Ω ∂xi ∂xi

Daı́ resulta que    


∂(uv) ∂u ∂v
,ϕ = v+u ,ϕ
∂xi ∂xi ∂xi
o que implica que
∂(uv) ∂u ∂v
= v+u em D0 (Ω). (2.68)
∂xi ∂xi ∂xi
∂u ∂v ∂(uv)
Como v+u ∈ Lp (Ω) então de (2.68) vem que ∈ Lp (Ω), ou seja,
∂xi ∂xi ∂xi
uv ∈ W 1,p (Ω). Isto encerra o item (i).

(ii) p = +∞.

Sejam u, v ∈ W 1,+∞ (Ω) ∩ L∞ (Ω) = W 1,+∞ (Ω). Então,


∂u ∂v
u, v, , ∈ L∞ (Ω); ∀ i = 1, . . . , n
∂xi ∂xi
o que nos leva a
∂u ∂v
v+u ∈ L∞ (Ω). (2.69)
∂xi ∂xi
Afirmamos que:
∂(uv) ∂u ∂v
= v+u · (2.70)
∂xi ∂xi ∂xi
De fato, seja ϕ ∈ D(Ω) e consideremos ω ⊂⊂ Ω tal que supp(ϕ) ⊂ ω. Seja também
1 ≤ p < ∞. Então,
∂u ∂v
u, v, , ∈ Lp (ω); ∀ i = 1, . . . , n.
∂xi ∂xi
Pelo caso (i):
∂(uv) ∂u ∂v
uv ∈ W 1,p (ω) e = v+u em Lp (ω).
∂xi ∂xi ∂xi
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
84 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Daı́ vem que


  Z   Z  
∂u ∂v ∂u ∂v ∂u ∂v
v+u ,ϕ = v+u ϕ dx = v+u ϕ dx
∂xi ∂xi Ω ∂xi ∂xi ω ∂xi ∂xi
Z Z  
∂(uv) ∂(uv) ∂(uv)
= ϕ dx = ϕ dx = ,ϕ
ω ∂xi Ω ∂xi ∂xi

o que prova o desejado em (2.70) e encerra a prova. 2

Proposição 2.20 (Derivação de uma Composição) Seja Ω ⊂ Rn aberto e consider-


emos G ∈ C 1 (R) tal que G(0) = 0 e além disso |G0 (s)| ≤ M ; ∀ s ∈ R. Se u ∈ W 1,p (Ω),
1 ≤ p ≤ ∞, então:

∂(G ◦ u) ∂u
G ◦ u ∈ W 1,p (Ω) e = (G0 ◦ u) , i ∈ {1, . . . , n}.
∂xi ∂xi

Demonstração: Temos:
Z s
G(s) = G0 (ξ) dξ, ∀ s ∈ R pois G(0) = 0.
0

Então,
|G(s)| ≤ M |s|, ∀s ∈ R

e daı́ vem que:


|G ◦ u(x)| ≤ M |u(x)|, ∀ x ∈ Ω

o que implica que


G ◦ u ∈ Lp (Ω). (2.71)

Também,
0
(G ◦ u)(x) ∂u
≤M
∂u
(x) ∂xi , ∀ x ∈ Ω
(x)

∂xi
e portanto
∂u
(G0 ◦ u) ∈ Lp (Ω). (2.72)
∂xi
Afirmamos que:
Z Z
∂ϕ ∂u
(G ◦ u) dx = − (G0 ◦ u) ϕ dx, ∀ ϕ ∈ C0∞ (Ω). (2.73)
Ω ∂xi Ω ∂xi

Temos dois casos a considerar:


(i) 1 ≤ p < +∞
85

Pelo teorema de Friedrichs ∃ (uν ) ⊂ C ∞ (Rn ) tal que

uν → u em Lp (Ω) (2.74)

∇uν → ∇u em [Lp (ω)]n , ∀ ω ⊂⊂ Ω. (2.75)

Temos, para cada ν ∈ N:


∂(G ◦ uν )
Z Z Z
∂ϕ ∂uν
(G ◦ uν ) dx = − ϕ dx = − (G0 ◦ uν ) ϕ dx. (2.76)
Ω ∂xi Ω ∂xi Ω ∂xi
Sendo ω ⊂⊂ Ω tal que supp(ϕ) ⊂ ω, segue de (2.76) que
Z Z
∂ϕ ∂uν
(G ◦ uν ) dx = − (G0 ◦ uν ) ϕ dx. (2.77)
Ω ∂xi ω ∂xi

Como G0 é limitada então G é Lipschitziana com constante M > 0 e daı́ vem que

|(G ◦ uν )(x) − (G ◦ u)(x)| ≤ M |uν (x) − u(x)|. (2.78)

Da desigualdade em (2.78) e da convergência em (2.74) obtemos

G ◦ uν → G ◦ u em Lp (Ω). (2.79)

Por outro lado,



(G ◦ uν )(x) ∂uν (x) − (G0 ◦ u)(x) ∂u (x)
0
∂xi ∂xi

0 ∂uν 0 ∂u 0 ∂u 0 ∂u
≤ (G ◦ uν )(x)
(x) − (G ◦ uν )(x) (x) + (G ◦ uν )(x)
(x) − (G ◦ u)(x) (x)
∂xi ∂xi ∂xi ∂xi

∂uν ∂u ∂u
≤ |(G0 ◦ uν )(x)| (x) + |(G0 ◦ uν )(x) − (G0 ◦ u)(x)|

(x) − (x)
∂xi ∂xi ∂xi

∂uν ∂u ∂u
(x) + |(G0 ◦ uν )(x) − (G0 ◦ u)(x)|

≤ M (x) − (x) .
∂xi ∂xi ∂xi

Donde,
Z p
0
(G ◦ uν )(x) ∂u ν 0 ∂u
(x) − (G ◦ u)(x) (x) dx
ω
∂xi ∂xi
Z p Z p 
∂uν ∂u ∂u
dx + |(G0 ◦ uν )(x) − (G0 ◦ u)(x)|p

≤ C(p)
∂xi (x) − (x) ∂xi dx
(x)
ω ∂xi Ω
(2.80)
.

Contudo, de (2.75) temos que:


Z p
∂uν ∂u

∂xi (x) − (x) dx → 0. (2.81)
ω ∂x i

INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
86 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Como de (2.74) obtemos


p
0 0
∂u p

|(G ◦ uν )(x) − (G ◦ u)(x)| (x) → 0 q.s. em Ω
∂xi
e, além disso,
p p
∂u ∂u
|(G0 ◦ uν )(x) − (G0 ◦ u)(x)|p

(x) ≤ 2p M p ∂xi q.s. em Ω
(x)
∂xi
resulta, em virtude do Teorema da Convergência Dominada que
Z p
0 0 p ∂u

|(G ◦ uν )(x) − (G ◦ u)(x)| (x) dx → 0. (2.82)
Ω ∂xi

Assim, de (2.80), (2.81) e (2.82) concluı́mos que:


∂uν ∂u
G0 ◦ uν → (G0 ◦ u) em Lp (w). (2.83)
∂xi ∂xi
Consequentemente de (2.77), (2.79) e (2.83) resulta que
Z Z
∂ϕ ∂u
(G ◦ u) dx = − (G0 ◦ u) ϕ dx (2.84)
Ω ∂xi ω ∂xi
ou seja,    
∂ 0 ∂u
(G ◦ u), ϕ = (G ◦ u) ,ϕ , ∀ ϕ ∈ C0∞ (Ω)
∂xi ∂xi
i.é,
∂ ∂u
(G ◦ u) = (G0 ◦ u) ∈ Lp (Ω) (2.85)
∂xi ∂xi
o que prova juntamente com (2.71) que

G ◦ u ∈ W 1,p (Ω). (2.86)

(ii) p = +∞

Seja ϕ ∈ D(Ω) e considere ω ⊂⊂ Ω tal que supp(ϕ) ⊂ ω. Então como ω̄ é compacto


e u ∈ W 1,∞ (Ω) temos que u ∈ W 1,p (ω) para todo 1 ≤ p < +∞ e portanto a relação dada
em (2.85) é válida, i.é,
∂(G ◦ u) ∂u
= (G0 ◦ u) ∈ Lp (ω), para todo 1 ≤ p < +∞.
∂xi ∂xi

Logo:
∂(G ◦ u)
Z Z
∂u
ϕ dx = (G0 ◦ u) ϕ dx, ∀ ϕ ∈ C0∞ (Ω)
ω ∂xi ω ∂xi
87

ou melhor,
∂(G ◦ u)
Z Z
∂u
ϕ dx = (G0 ◦ u) ϕ dx, ∀ ϕ ∈ C0∞ (Ω).
Ω ∂xi Ω ∂xi
Desta última expressão concluı́mos que
∂(G ◦ u) ∂u
= (G0 ◦ u) em D0 (Ω).
∂xi ∂xi
Agora, como,
|G ◦ u(x)| ≤ M |u(x)|

e
0
(G ◦ u) ∂u ∂u
≤M
∂xi ∂xi
∂(G ◦ u)
então (G ◦ u), ∈ L∞ (Ω) e portanto G ◦ u ∈ W 1,∞ (Ω) o que encerra a prova. 2
∂xi

Proposição 2.21 (Fórmula de Mudança de Variáveis) . Sejam Ω e Ω0 dois abertos


de Rn e consideremos H : Ω0 → Ω uma aplicação bijetiva, x = H(y), tal que:

H ∈ [C 1 (Ω0 )]n , H −1 ∈ [C 1 (Ω)]n , Jac H ∈ [L∞ (Ω0 )]n×n , Jac H −1 ∈ [L∞ (Ω)]n×n .

Se u ∈ W 1,p (Ω), então u ◦ H ∈ W 1,p (Ω0 ) e além disso:


n
∂ X ∂u ∂Hi
(u ◦ H)(y) = (H(y)) (y), j = 1, 2, . . . , n.
∂yj i=1
∂x i ∂y j

Demonstração: (i) 1 ≤ p < +∞


Pelo teorema de Friedrichs ∃ (uν ) ⊂ C0∞ (Rn ) tal que:

uν → u em Lp (Ω) (2.87)

∇uν → ∇u em [Lp (ω)]n , ∀ ω ⊂⊂ Ω. (2.88)

Seja ψ ∈ D(Ω0 ) e consideremos ω 0 ⊂⊂ Ω tal que supp(ψ) ⊂ ω 0 . Notemos que, para


cada ν ∈ N, uν ◦ H ∈ C 1 (Ω0 ). Pelo teorema de Gauss, vem que
∂(uν ◦ H)
Z Z
∂ψ
(uν ◦ H)(y) (y) dy = − (y)ψ(y) dy
ω0 ∂yj ω0 ∂yj
n Z
X ∂uν ∂Hi
= − (H(y)) (y)ψ(y) dy, ∀ j = 1, 2, . . . , n.
ω 0 ∂xi ∂y j
i=1
(2.89)
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
88 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Afirmamos que:
uν ◦ H → u ◦ H em Lp (Ω0 ). (2.90)

Primeiramente mostraremos que:

(uν ◦ H) é de Cauchy em Lp (Ω0 ). (2.91)

Com efeito, temos


Z Z
p
|(uν ◦ H)(y) − (uµ ◦ H)(y)| dy = |(uν ◦ H)(y) − (uµ ◦ H)(y)|p dy
Ω0 −1
H (Ω)
Z
= |uν (x) − uµ (x)|p |Jac H −1 (x)| dx
Ω Z
−1
≤ kJac H k[L∞ (Ω)]n×n |uν (x) − uµ (x)|p dx.

(2.92)

De (2.87) vem que a última desigualdade em (2.92) converge para zero quando
ν, µ → +∞ o que prova a afirmação em (2.91). Resulta daı́ a existência de χ ∈ Lp (Ω0 )
tal que
uν ◦ H → χ em Lp (Ω0 ). (2.93)

Temos ainda a existência de uma subsequência de (uν ) que ainda denotaremos pelo
mesmo nome tal que
uν (x) → u(x) q.s. em Ω. (2.94)

Definamos:
D = {x ∈ Ω; (uν (x)) não converge para u(x)}.

Logo, med(D) = 0. Como H −1 ∈ [C 1 (Ω)]n então D0 = H −1 (D) tem medida nula. Daı́
e de (2.94) resulta que
uν (H(y)) → u(H(y)) em Ω0 \D0 (2.95)
ou seja,
uν (H(y)) → u(H(y)) para q.t. y ∈ Ω0 . (2.96)

Por outro lado, de (2.93) podemos extrair uma subsequência de (uν ) tal que:

uν (H(y)) → χ(y) q.s. em Ω0 (2.97)

e daı́ vem que existe E 0 ⊂ Ω0 com med(E) = 0 e tal que

uν (H(y)) → χ(y) em Ω0 \E 0 . (2.98)


89

Se y ∈ (Ω0 \D0 ) ∩ (Ω0 \E 0 ) = Ω0 \(D0 ∩ E 0 ) temos de (2.90) e (2.93) que

uν (H(y)) → u(H(y)) e uν (H(y)) → χ(y)

e, portanto,
u(H(y)) = χ(y), ∀ y ∈ Ω0 \(D0 ∩ E 0 ).

Como (D0 ∩ E 0 ) tem medida nula segue que u ◦ H = χ q.s. em Ω0 e de (2.93) resulta
o desejado em (2.90). Provaremos a seguir que:
   
∂uν ∂Hi ∂u ∂Hi
◦H → ◦H em Lp (ω 0 ). (2.99)
∂xi ∂yj ∂xi ∂yj

Seja ω = H(ω 0 ). Logo, ω ⊂⊂ Ω. Temos:


Z p
∂uν ∂Hi ∂uµ ∂Hi
(H(y)) (y) − (H(y)) (y) dy
ω 0 ∂xi ∂yj ∂xi ∂yj

∂Hi p
Z p
∂uν ∂u µ

∂yj ∞ 0
(H(y)) − (H(y)) dy
L (Ω ) H −1 (ω) ∂xi ∂xi

p Z p
∂Hi ∂uν ∂uµ −1
= ∂xi (x) − ∂xi (x) |Jac H (x)| dx

∂yj ∞ 0
L (Ω ) ω
p Z p
∂Hi −1
∂uν ∂uµ
≤ kJac H k[L∞ (Ω)]n×n (x) − (x) dx. (2.100)
∂yj ∞ 0
L (Ω ) ∂xi ω ∂xi

Agora de (2.88) resulta que a última expressão em (2.100) converge para zero, o que
implica que   
∂uν ∂Hi
◦H é de Cauchy em Lp (ω 0 ). (2.101)
∂xi ∂yj ν∈N

Procedendo de maneira análoga ao que fizemos anteriormente vem que


   
∂uν ∂Hi ∂u ∂Hi
◦H → ◦H em Lp (ω 0 ). (2.102)
∂xi ∂yj ∂xi ∂yj

De (2.89), (2.90) e (2.102) obtemos:


Z n Z
∂ψ X ∂u ∂Hi
(u ◦ H) (y) dy = − (H(y)) (y) ψ(y) dy
ω0 ∂yj i=1 ω0 ∂xi ∂yj

ou seja,
Z n Z
∂ψ X ∂u ∂Hi
(u ◦ H) (y) dy = − (H(y)) (y) ψ(y) dy
Ω0 ∂yj i=1 Ω0 ∂xi ∂yj
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
90 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

para todo ψ ∈ C0∞ (Ω0 ) e para todo j = 1, 2, . . . , n. Logo:


n  
∂ X ∂u ∂Hi
(u ◦ H) = ◦H ∈ Lp (Ω0 )
∂yj i=1
∂xi ∂yj

o que nos leva a


u ◦ H ∈ W 1,p (Ω0 ).

(ii) p = +∞

Seja ψ ∈ D(Ω0 ) e ω 0 ⊂⊂ Ω0 tal que supp(ψ) ⊂ ω 0 e consideremos ω = H(ω 0 ). Então


ω ⊂⊂ Ω. Sendo ω relativamente compacto segue que se u ∈ W 1,∞ (Ω) então u ∈ W 1,p (ω),
∀ p ≥ 1. Pelo item (i) resulta que
n
∂ X ∂u ∂Hi
u◦H ∈W 1,p
(ω) e (u ◦ H)(y) = (H(y)) (y) em Lp (ω 0 )
∂yj i=1
∂xi ∂yj

ou ainda,
Z n Z
∂ψ X ∂u ∂Hi
u(H(y)) (y) dy = − (H(y)) (y) ψ(y) dy
ω0 ∂yj i=1 ω0 ∂xi ∂yj
o que implica que,
Z n Z
∂ψ X ∂u ∂Hi
u(H(y)) (y) dy = − (H(y)) (y) ψ(y) dy. (2.103)
Ω0 ∂yj i=1 Ω0 ∂xi ∂yj

Agora, como,
u ◦ H ∈ L∞ (Ω0 )

e n  
X ∂u ∂Hi
◦H ∈ L∞ (Ω0 ),
i=1
∂xi ∂yj
de (2.103) resulta que
n  
∂ X ∂u ∂Hi
(u ◦ H) = ◦H ∈ L∞ (Ω0 )
∂yj i=1
∂xi ∂yj

o que implica que


u ◦ H ∈ W 1,∞ (Ω0 ).

e encerra a prova. 2
Capı́tulo 3

IMERSÕES DE ESPAÇOS DE
SOBOLEV

Os resultados de imersão dos espaços de Sobolev são de extrema importância no estudo


das equações diferenciais parciais. Estes resultados, cujas demonstrações serão o objetivo
deste capı́tulo, nos dizem que quando m é suficientemente grande as funções de W m,p (Rn )
podem ser identificadas com funções que têm derivadas genuı́nas, e quando m é pequeno,
o espaço W m,p (Rn ) pode ser imerso continuamente em certo espaço Lq (Rn ). O primeiro
resultado nos diz que as soluções das equações diferenciais que são regulares nos espaços de
Sobolev, ou seja, que estão em W m,p (Rn ) com m suficientemente grande, vão ter derivadas
genuı́nas, isto é, vão ser soluções clássicas da equação diferencial parcial considerada. O
segundo resultado nos permite obter estimativas a priori das soluções aproximadas das
equações diferenciais parciais, a partir das quais obteremos um limite u das soluções
aproximadas. Este limite u será o candidato natural para ser uma solução da equação
diferencial parcial considerada.

3.1 Desigualdades Notáveis

Se n ≥ 2, ν = 1, 2, . . . , n representa-se por pν a projeção de Rn em Rn−1 dada por


pν (x) = (x1 , x2 , . . . , xν−1 , xν+1 . . . . , xn ) para todo x = (x1 , x2 , . . . , xn ) ∈ Rn .
Representando-se os pontos do Rn+1 por (x, t) onde x ∈ Rn e t ∈ R temos que as
projeções do Rn+1 em Rn são dadas por:

91
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
92 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

σν (x, t) = (pν (x), t); ν = 1, 2, . . . , n.


σn+1 (x, t) = x.

Lema 3.1 Se n ≥ 2 e u1 , u2 , . . . , un ∈ Ln−1 (Rn−1 ), então:


n
(uν ◦ pν ) ∈ L1 (Rn )
Q
(a) u=
ν=1

n
Q
(b) ||u||L1 (Rn ) ≤ ||uν ||Ln−1 (Rn−1 ) .
ν=1

Demonstração: A demonstração será feita usando indução em n.


Observemos inicialmente que para cada ν = 1, . . . , n a composição (uν ◦pν ) tem sentido,
uma vez que
pν u
Rn −→ Rn−1 −→
ν
K.

Em particular, quando n = 2, temos:

(uν ◦ pν )(x1 , x2 ) = uν (pν (x1 , x2 )), ν = 1, 2

donde resulta que


2
Y 2
Y
u(x1 , x2 ) = (uν ◦ pν )(x1 , x2 ) = uν (pν (x1 , x2 ))
ν=1 ν=1
= u1 (p1 (x1 , x2 )) u2 (p2 (x1 , x2 )) = u1 (x2 ) u2 (x1 ), ∀ (x1 , x2 ) ∈ R2 .

Como u1 , u2 ∈ L1 (R1 ) então, face ao Teorema de Tonelli u ∈ L1 (R2 ) e pelo Teorema de


Fubini vem que
Z Z Z Z  Z 
u(x1 , x2 ) dx = u1 (x2 )u2 (x1 ) dx1 dx2 = u1 (x2 ) dx2 u2 (x1 ) dx1
R2 R R R R

ou seja:
||u||L1 (R2 ) = ||u1 ||L1 (R) ||u2 ||L1 (R)

o que prova as asserções (a) e (b) para o caso n = 2. Suponha então que (a) e (b) sejam
verdadeiras para n ≥ 2 e provemos para (n + 1).
93

Com efeito, sejam w1 , w2 , . . . , wn , wn+1 ∈ Ln (Rn ). Provaremos que:

n+1
Y n+1
Y
w= wν ◦ σν ∈ L1 (Rn+1 ) e ||w||L1 (Rn+1 ) ≤ ||wν ||Ln (Rn ) .
ν=1 ν=1

De fato, temos ∀ (x, t) ∈ Rn+1 ; x ∈ Rn e t ∈ R:


n
Y  n
Y 
w(x, t) = (wν (σν (x, t)) wn+1 (σn+1 (x, t)) = (wν (pν (x), t)) wn+1 (x).
ν=1 ν=1

Agora, para cada t ∈ R e ν = 1, . . . , n,fixados, consideremos a aplicação:

uν,t : Rn−1 →R
n
y 7→ |wν (y, t)| n−1 .

Ora, pelo fato de wν pertencer a Ln (Rn ) resulta imediatamente do teorema de Fubini que
a integral iterada Z
|wν (y, t)|n dy < +∞
Rn−1

e, portanto,
uν,t ∈ Ln−1 (Rn−1 ).

Pondo-se ∀ x ∈ Rn :
n n
Y Y n
ut (x) = uν,t (pν (x)) = |wν (pν (x), t)| n−1
ν=1 ν=1

então, de acordo com a hipótese indutiva ut ∈ L1 (Rn ) e, além disso,


n
Y
||ut ||L1 (Rn ) ≤ ||uν,t ||Ln−1 (Rn−1 ) . (3.1)
ν=1

Observando-se que
 
n−1 n−1 n
w(x, t) = ut (x) n wn+1 (x), ut (x) n ∈ L n−1 (Rn );
n−1 1
wn+1 ∈ Ln (Rn ) e n
+ n
= 1;

então, de acordo com Hölder, temos que, para t ∈ R fixado w(x, t) ∈ L1 (Rn ) e, além disso,
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
94 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

de acordo com (3.1),


Z Z
n−1
|w(y, t)| dx = ut (x) n |wn+1 | dy
Rn Rn
Z  n−1
n
Z  n1
n−1 n
n
 n−1
≤ ut (x) n dx |wn+1 (x)| dx
Rn Rn
Z  n−1
n
≤ |ut (x)| dx ||wn+1 ||Ln (Rn )
Rn
n−1
= kut kL1n(Rn ) ||wn+1 ||Ln (Rn )
Y n 
n−1
≤ kuν,t kLn−1 (Rn−1 ) ||wn+1 ||Ln (Rn ) .
n
(3.2)
ν=1

Pondo-se:
n−1
θν (t) = kuν,t kLn−1
n
(Rn−1 )

então,
Z Z
n n n−1
θν (t) = ||uν,t ||n−1
Ln−1 (Rn−1 ) = |wν (y, t)| n−1 dy = |wν (y, t)|n dy.
Rn−1 Rn−1

Segue do teorema de Fubini que


Z Z Z
n
θν (t) dt = |wν (y, t)|n dy dt < +∞
R R Rn−1

uma vez que wν ∈ Ln (Rn ), ou seja,

θν ∈ Ln (R) e ||θν ||Ln (R) = ||wν ||Ln (Rn ) . (3.3)

1 1 1
Como θν ∈ Ln (R), ν = 1, 2, . . . , n e pelo fato de + + · · · + = 1 (n parcelas)
 n  n n n
θν ∈ L1 (R) e, além disso,
Q
vem por Hölder que
ν=1

n
Z Y n
Y 
θν (t) dt ≤ ||θν ||Ln (R) . (3.4)
R ν=1 ν=1

Logo, de (3.2) e (3.4) obtemos


Z Z n
Y 
|w(x, t)| dxdt ≤ ||θν ||Ln (R) ||wn+1 ||Ln (Rn )
R Rn ν=1

que por (3.3) é igual a


n+1
Y
||wν ||Ln (Rn ) .
ν=1
95

Desta forma, por Tonelli, w ∈ L1 (Rn+1 ) e por Fubini


Z n+1
Y
|w(x, t)| dxdt ≤ ||wν ||Ln (Rn ) .
Rn+1 ν=1

(n − 1)p n(p − 1)
Lema 3.2 Dado 1 ≤ p < n, considere c0 = e s = · Então
n−p n−p
∀ ϕ ∈ C0∞ (Rn ), existem u1 , u2 , . . . , un pertencentes a Ln−1 (Rn−1 ), que dependem de ϕ,
tais que
Z
(a) kuν kn−1
Ln−1 (Rn−1 ) ≤ c0 |ϕ(x)|s |Dν ϕ(x)| dx; ν = 1, 2, . . . , n.
Rn
p
(b) |ϕ(x)| n−p ≤ |uν (pν (x))| ; para x ∈ Rn .

Demonstração:
p
u1 (x2 , x3 , . . . , xn ) = sup |ϕ(x1 , x2 , . . . , xn )| n−p
x1 ∈R
p
u2 (x1 , x3 , . . . , xn ) = sup |ϕ(x1 , x2 , . . . , xn )| n−p
x2 ∈R
..
.
p
un (x1 , x2 , . . . , xn−1 ) = sup |ϕ(x1 , x2 , . . . , xn )| n−p
xn ∈R

são as desejadas.
Sem perda da generalidade, conforme veremos no decorrer da demonstração, basta
considerarmos ν = 1, i.é, basta provarmos para u1 já que para as outras o raciocı́nio é
análogo. De fato; pondo-se x1 = t e (x2 , x3 , . . . , xn ) = y então:
p
u1 (y) = sup |ϕ(t, y)| n−p .
t∈R

Como ϕ ∈ C0∞ (Rn ) existe R > 0 tal que supp(ϕ) ⊂ BR (0). Desta forma, ∃ M > 0
tal que |ϕ(t, y)| ≤ M ; ∀ (t, y) ∈ BR (0) e |ϕ(t, y)| = 0; ∀ (t, y) ∈
/ BR (0). Segue daı́ que
∃ M1 > 0 tal que
p
|ϕ(t, y)| n−p ≤ M1 ; ∀ (t, y) ∈ Rn

e portanto, para cada y ∈ Rn−1 ,


p
u1 (y) = sup |ϕ(t, y)| n−p < +∞.
t∈R
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
96 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Além disso,
Z Z  n−1
p
n−1
u1 (y) dy = sup |ϕ(t, y)| n−p dy
Rn−1 Rn−1 t∈R
Z  n−1
p
= sup |ϕ(t, y)| n−p dy < +∞.
BR (0)∩Rn−1 t∈R

Assim, u1 ∈ Ln−1 (Rn−1 ). Mais ainda, se x ∈ Rn então x = (t, y) para algum y ∈ Rn−1 e
t ∈ R. Logo:
p p
|ϕ(x)| n−p ≤ sup |ϕ(ξ, y)| n−p = u1 (y) = u1 (p1 (x))
ξ∈R

o que prova o item (b).


Provaremos, agora, que u1 também satisfaz a condição (a). Com efeito, primeiramente
observamos que:
c0 = s + 1.

Agora, pondo-se D1 = então ∀ x ∈ Rn tal que ϕ(x) 6= 0, tem-se
∂x1
 c0 c0  c0 −2
D1 |ϕ|c0 = D1 ϕϕ̄ 2 = ϕϕ̄ 2 (D1 ϕϕ̄ + ϕD1 ϕ̄)
2
c0 c0 −2 c0
= |ϕ| (ϕD1 ϕ + ϕD1 ϕ) = |ϕ|c0 −2 2Re(ϕD1 ϕ)
2 2
≤ c0 |ϕ|c0 −2 |ϕ| |D1 ϕ̄| = c0 |ϕ|c0 −1 |D1 ϕ| = c0 |ϕ|s |D1 ϕ|.

Contudo, pelo fato de ϕ ser uma função teste o conjunto

C = {x ∈ supp(ϕ); ϕ(x) = 0}

tem medida nula. Desta forma, a função |ϕ|c0 é derivável excetuando-se possivelmente
os pontos de C, ou seja quase sempre. Assim, fora desses pontos, i.é, em (Rn \C), vale a
desigualdade:
D1 |ϕ|c0 ≤ c0 |ϕ|s |D1 ϕ|

e, portanto,
Z t Z t
c0 c0
|ϕ(t, y)| = lim D1 |ϕ(ξ, y)| dξ = D1 |ϕ(ξ, y)|c0 dξ
b→−∞ b −∞
Z
≤ c0 |ϕ(ξ, y)|s |D1 ϕ(ξ, y)| dξ
R

ou seja,  n−1 Z
p
|ϕ(t, y)| n−p ≤ c0 |ϕ(ξ, y)|s |D1 ϕ(ξ, y)| dξ.
R
97

Donde,
 Z 1
 n−1
p
s
|ϕ(t, y)| n−p ≤ c0 |ϕ(ξ, y)| |D1 ϕ(ξ, y)| dξ
R

o que implica, Z
n−1
|u1 (y)| ≤ c0 |ϕ(ξ, y)|s |D1 ϕ(ξ, y)| dξ.
R

Portanto,
Z Z Z
n−1
|u1 (y)| dy ≤ c0 |ϕ(ξ, y)|s |D1 ϕ(ξ, y)| dξ
Rn−1 Rn−1 R

o que prova o item (a) e encerra a demonstração. 2

Proposição 3.3 (Desigualdade de Sobolev). Seja p um número real tal que 1 ≤ p < n.
Então, para toda ϕ ∈ C0∞ (Rn ) tem-se:
n
1 (n − 1)p X
||ϕ||Lq (Rn ) ≤ ||Dν ϕ||Lp (Rn )
n n − p ν=1

onde q é dado por


1 1 1
= − ·
q p n

Demonstração: Suponhamos inicialmente que p = 1 e seja ϕ ∈ C0∞ (Rn ). Neste caso,

1 1 n−1
=1− = ·
q n n

Logo:
Z  nq Z n−1
n
||ϕ||nLq (Rn ) = |ϕ(x)| dx q
= |ϕ(x)| n−1 dx . (3.5)
Rn Rn

Pelo Lema 3.2 e sendo s = 0 e c0 = 1, existem u1 , u2 , . . . , un ∈ Ln−1 (Rn−1 ) tais que


Z
n−1
kuν kLn−1 (Rn−1 ) ≤ |Dν ϕ(x)| dx; ν = 1, 2, . . . , n. (3.6)
Rn

1
|ϕ(x)| n−1 ≤ |uν (pν (x))|; para x ∈ Rn , ν = 1, 2, . . . , n. (3.7)

Segue de (3.7), multiplicando termo a termo, que


n
n Y
|ϕ(x)| n−1 ≤ |uν (pν (x))|; para x ∈ Rn
ν=1
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
98 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

n
uν ◦ pν ∈ L1 (Rn ) e além disso,
Q
e pelo Lema 3.1 tem-se
ν=1

Z Z n n
n Y Y
|ϕ(x)| n−1 dx ≤ |uν (pν (x))| dx ≤ ||uν ||Ln−1 (Rn−1 ) .
Rn Rn ν=1 ν=1

Logo: Z n−1
n
||ϕ||nLq (Rn ) = |ϕ(x)| n−1 dx
Rn
Z n
Y n−1 n
Y
≤ |uν (pν (x))| dx ≤ ||uν ||Ln−1
n−1 (Rn−1 )
Rn ν=1 ν=1

e de acordo com (3.5) e (3.6) vem que


n
Y n Z
Y
||ϕ||nLq (Rn ) ≤ ||uν ||Ln−1
n−1 (Rn−1 ) ≤ |Dν ϕ(x)| dx.
ν=1 ν=1 Rn

Donde:  n1
n
Y
||ϕ||Lq (Rn ) ≤ ||Dν ϕ||L1 (Rn ) . (3.8)
ν=1

Usando o fato que


Yn  n1 n
1X
ai ≤ ai , ai > 0
ν=1
n i=1

resulta então de (3.8) que


n
1X
||ϕ||Lq (Rn ) ≤ ||Dν ϕ||L1 (Rn )
n i=1

que é a desigualdade que desejávamos obter para p = 1.


Passemos, agora, ao caso geral. Consideremos, então 1 < p < n. Temos:
1 n−p np
= ⇔ q=
q np n−p
Z n−1 Z n−1
np
(n−1)q q
||ϕ||Lq (Rn ) = |ϕ| dx = |ϕ| n−p . (3.9)
Rn Rn

De acordo com o Lema 3.2, existem u1 , u2 , . . . , un ∈ Ln−1 (Rn−1 ) tais que


Z
n−1
kuν kLn−1 (Rn−1 ) ≤ c0 |ϕ(x)|s |Dν ϕ(x)| dx; ν = 1, 2, . . . , n. (3.10)
Rn
p
|ϕ(x)| n−p ≤ |uν (pν (x))|; para x ∈ Rn , ν = 1, 2, . . . , n. (3.11)
99

Segue de (3.11) que:


n
np Y
|ϕ(x)| n−p ≤ |uν (pν (x))|
ν=1

e de acordo com o Lema 3.1, obtemos,


Z Z Yn n
np Y
|ϕ(x)| n−p dx ≤ |uν (pν (x))| dx ≤ ||uν ||Ln−1 (Rn−1 ) .
Rn Rn ν=1 ν=1

Logo, da desigualdade acima podemos escrever:


Z n−1 Yn
np
|ϕ(x)| n−p dx ≤ ||uν ||n−1
Ln−1 (Rn−1 )
Rn ν=1

e de (3.9) e (3.10) temos que


Z n−1 n Z
np Y
(n−1)q n
kϕkLq (Rn ) = |ϕ(x)| n−p dx ≤ c0 |ϕ(x)|s |Dν ϕ(x)| dx. (3.12)
Rn ν=1 Rn

1 1
Por outro lado, se p0 é tal que + 0 = 1 então por Hölder obtemos
p p
Z Z  10  Z  p1
p
s sp0 p
|ϕ(x) |Dν ϕ(x)| dx ≤ |ϕ(x)| dx |Dν ϕ(x)| dx .
Rn Rn Rn

n(p − 1) p
Mas, sendo p 6= 1 e lembrando que s = e p0 = temos:
n−p p−1
n(p − 1) p np
sp0 = = = q.
n−p p−1 n−p

Logo:
Z Z  10  Z  p1
p
s q p
|ϕ(x)| |Dν ϕ(x)| dx ≤ |ϕ(x)| dx |Dν ϕ(x)| dx
Rn Rn Rn
q
0
= kϕkLp q (Rn ) ||Dν ϕ||Lp (Rn ) . (3.13)

Temos então de (3.12) e (3.13):


qn n
Y
(n−1)q p0
kϕkLq (Rn ) ≤ cn0 kϕk Lq (Rn ) ||Dν ϕ||Lp (Rn )
ν=1

ou seja,
n
(n−1)q− nq
p0
Y
kϕkLq (Rn ) ≤ cn0 ||Dν ϕ||Lp (Rn ) , se ϕ 6= 0. (3.14)
ν=1
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
100 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Contudo,
nq nq 1 nq
(n − 1)q − 0
= nq − q − 0 = nq 1 − 0 − q = −q
p p p p
n np  np n
= − = (n − p) = n
p n−p n−p n−p

e de (3.14) vem que


n
Y  n1 n
1 X
||ϕ||Lq (Rn ) ≤ c0 ||Dν ϕ||Lp (Rn ) ≤ c0 ||Dν ϕ||Lp (Rn ) , se ϕ 6= 0.
ν=1
n ν=1

Quando ϕ = 0 a desigualdade segue trivialmente. 2

Observação 3.4 Convém notar que na demonstração da desigualdade de Sobolev não


precisávamos supor ϕ ∈ C0∞ (Rn ) uma vez que ϕ ∈ C01 (Rn ) era suficiente para prová-la, já
que tı́nhamos envolvidas na prova as derivadas parciais primeiras de ϕ.

Proposição 3.5 Para toda ϕ ∈ C01 (Rn ) n > 1 e ρ > 1 tem-se:


n
ρ−1 1X
kϕk ρn ≤ kϕk (ρ−1)n + ||Dν ϕ||Ln (Rn ) .
L n−1 (Rn ) ρ L n−1 (Rn ) n ν=1

Demonstração: De acordo com a observação acima e com a desigualdade em (3.8) temos


para toda ϕ ∈ C01 (Rn ) que:
n
Y  n1
kϕkL n−1
n
(Rn )
≤ ||Dν ϕ||L1 (Rn ) . (3.15)
ν=1

Consideremos, então, ϕ ∈ C01 (Rn ), ρ > 1 e ψ : R → R definida por:

ψ(s) = |s|ρ−1 s.

Afirmamos que (ψ ◦ ϕ) ∈ C01 (Rn ). Com efeito, temos ∀ x ∈ Rn :

ψ(ϕ(x)) = |ϕ(x)|ρ−1 ϕ(x).

Contudo, como
sρ ;
(
se s ≥ 0
ψ(s) =
(−1)ρ−1 sρ ; se s < 0
101

então,
ρ sρ−1 ;
(
se s ≥ 0
0
ψ (s) =
(−1)ρ−1 ρ sρ−1 = ρ(−s)ρ−1 ; se s < 0
ou seja,
ψ 0 (s) = ρ |s|ρ−1 .

Logo:
Dν (ψ ◦ ϕ) = ψ 0 (ϕ(x)) (Dν ϕ)(x) = ρ |ϕ(x)|ρ−1 (Dν ϕ)(x). (3.16)

Como a função à direita da última igualdade acima é contı́nua, para todo


ν = 1, . . . , n segue que ψ ◦ ϕ ∈ C 1 (Rn ). Além disso, pelo fato do supp(ψ ◦ ϕ) ⊂ supp(ϕ)
temos então que supp(ψ ◦ ϕ) é compacto, o que prova a afirmação.
Portanto, ψ ◦ ϕ satisfaz a desigualdade em (3.15), ou seja,
n
Y  n1 n
Y 1
kψ ◦ ϕkL n−1
n
(Rn )
≤ ||Dν (ψ ◦ ϕ)||L1 (Rn ) = ||Dν (ψ ◦ ϕ)||Ln1 (Rn )
ν=1 ν=1

e de (3.16) podemos escrever


n
Y ρ−1 1
kψ ◦ ϕkL n−1
n
(Rn )
≤ρ |ϕ| (Dν ϕ) n1 n .
L (R )
(3.17)
ν=1

Notemos que Dν ϕ ∈ Lp (Rn ) para todo p ≥ 1, assim como |ϕ|ρ−1 ∈ Lp0 (Rn ) onde
1 1
+ 0 = 1. Logo, de acordo com a desigualdade de Hölder:
p p
Z
ρ−1
|ϕ| (Dν ϕ) 1 n =
L (R )
| |ϕ(x)|ρ−1 (Dν ϕ(x)| dx
Rn
Z  10  Z  p1
p
(ρ−1)p0 p
≤ |ϕ(x)| dx |Dν ϕ(x)| dx
Rn Rn
(ρ−1)
= kϕkL(ρ−1)p0 (Rn ) ||Dν ϕ||Lp (Rn ) .

n
Em particular, se p = n e portanto p0 = resulta que
n−1
(ρ−1)
ρ−1)
|ϕ| (Dν ϕ) L1 (Rn ) ≤ kϕk (ρ−1)n ||Dν ϕ||Lp (Rn )
L n−1 (Rn )

e de (3.17) obtemos
n 
Y  n1
(ρ−1)
kψ ◦ ϕkL n−1
n
(Rn )
≤ρ kϕk (ρ−1)n ||Dν ϕ||Lp (Rn ) . (3.18)
L n−1 (Rn )
ν=1
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
102 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Por outro lado, vemos ainda que


Z  n−1
n
n
kψ ◦ ϕkL n−1
n
(Rn )
= |ψ(ϕ(x))| n−1 dx
Rn
Z  n−1
n
n
= |ϕ(x)|ρ−1 ϕ(x) n−1 dx
Rn
Z  n−1
n
ρn
= |ϕ(x)| n−1 dx = kϕkρ ρn . (3.19)
Rn L n−1 (Rn )

Assim, de (3.18) e (3.19) chegamos a,


n 
Y  n1
ρ (ρ−1)
kϕk ρn ≤ρ kϕk (ρ−1)n ||Dν ϕ||Ln (Rn ) .
L n−1 (Rn ) L n−1 (Rn )
ν=1

ou equivalentemente,
n
Y 1
ρ (ρ−1)
kϕk ρn ≤ ρ kϕk (ρ−1)n kDν ϕkLnn (Rn )
L n−1 (Rn ) L n−1 (Rn ) ν=1

ou ainda usando-se o fato que a média geométrica é menor ou igual que a média
aritmética, temos
n
ρ ρ (ρ−1)
X
kϕk ρn ≤ kϕk (ρ−1)n kDν ϕkLn (Rn ) .
L n−1 (Rn ) n L n−1 (Rn ) ν=1

Donde,

(ρ−1) n
X  ρ1
ρ ρ  ρ1
kϕk ρn ≤ kϕk (ρ−1)n kDν ϕkLn (Rn ) .
L n−1 (Rn ) n
L n−1 (Rn ) ν=1

ap b q 1 1
Finalmente, pela desigualdade de Young, mais precisamente ab ≤ + , + = 1,
p q p q
ρ
a, b ≥ 0, com p = e q = ρ resulta que
ρ−1
n
ρ−1 1 ρX
kϕk ρn ≤ kϕk (ρ−1)n + ||Dν ϕ||Ln (Rn )
L n−1 (Rn ) ρ L n−1 (Rn ) ρ n ν=1
n
ρ−1 1X
= kϕk (ρ−1)n + ||Dν ϕ||Ln (Rn )
ρ L n−1 (Rn ) n ν=1

o que prova o desejado. 2


103

Proposição 3.6 (Desigualdade de Interpolação)


Seja Ω ⊂ Rn e consideremos 1 ≤ p ≤ q ≤ +∞. Se u ∈ Lp (Ω) ∩ Lq (Ω) então u ∈ Lr (Ω);
∀ r ∈ [p, q] e tem-se a desigualdade de interpolação:

||u||Lr (Ω) ≤ ||u||θLp (Ω) ||u||L1−θ


q (Ω) ,

1 1 1
onde = θ + (1 − θ) e 0 ≤ θ ≤ 1.
r p q

Demonstração: Sejam p, q ∈ R tais que 1 ≤ p ≤ q ≤ +∞ e considere r ∈ [p, q].


Se p = q então a proposição é trivial. Consideremos, então, 1 ≤ p < q ≤ +∞. Se
r = p ou r = q basta considerarmos θ = 1 ou θ = 0, respectivamente e o resultado
segue diretamente. Logo, basta considerarmos o caso em que 1 ≤ p < r < q ≤ +∞, que
subdividiremos em dois outros casos:
1o¯ caso: 1 ≤ p < r < q < +∞.
1 1 1
Como p < r < q então ∈ , e pela convexidade desse intervalo existe θ ∈]0, 1[
r q p
1 1 1
tal que = θ + (1 − θ) · Provaremos que u ∈ Lr (Ω). Com efeito, observemos que:
r p q
|u|r = |u|θr+(1−θ)r = |u|θr |u|(1−θ)r .

Contudo,
 θrp q
|u|θr = |u|p ∈ L1 (Ω) e |u|(1−θ)r = |u|q ∈ L1 (Ω).
 (1−θ)r

Logo:
p q
|u|θr ∈ L θr (Ω) e |u|(1−θ)r ∈ L (1−θ)r (Ω)
 

e uma vez que


 
1 1 θr (1 − θ)r θ (1 − θ) 1
+ = + =r + =r =1
p/θr q/(1 − θ)r p q p q r
temos por Hölder que
|u|r = |u|θr |u|(1−θ)r ∈ L1 (Ω)
e, além disso,
Z Z  θrp  Z  (1−θ)r
q
p  q
|u|r dx ≤ |u|θr θr dx |u|(1−θ)r (1−θ)r dx
Ω Ω Ω
Z  θrp  Z  (1−θ)r
q
p q
= |u| dx |u| dx
Ω Ω
(1−θ)r
= kukθr
Lp (Ω) kukLq (Ω) .
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
104 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Logo:
Z  r1
(1−θ)
r
|u| dx ≤ kukθLp (Ω) kukLq (Ω) .

2o¯ caso: 1 ≤ p < r e q = +∞.


1  1
Neste caso, ∈ 0, e de novo pela convexidade do intervalo em questão existe
r p
1 1
θ ∈ ]0, 1[ tal que = θ + (1 − θ)0, i.é, p = rθ.
r p
Temos:
|u|r = |u|θr+(1−θ)r = |u|θr |u|(1−θ)r = |u|p |u|(1−θ)r
e pelo fato de u pertencer a L∞ (Ω) obtemos

|u(x)| ≤ ||u||L∞ (Ω) = inf{c > 0; |u(x)| ≤ C, q.s. em Ω}.

Logo:
(1−θ)r
|u|r ≤ ||u||L∞ (Ω) |u|p .

Como a função à direita da desigualdade acima é integrável (uma vez que


u ∈ Lp (Ω)) e como |u|r é mensurável vem que u ∈ Lr (Ω). Além disso,
Z  r1 Z 1/r
r (1−θ) p
|u| dx ≤ ||u||L∞ (Ω) |u| dx
Ω Ω

ou seja,
p
(1−θ) (1−θ)
||u||Lr (Ω) ≤ ||u||L∞ (Ω) ||u||Lr p (Ω) = ||u||L∞ (Ω) ||u||θLp (Ω)
o que prova o segundo caso e encerra a demonstração. 2

Corolário 3.7 Sejam Ω um subconjunto aberto do Rn e 1 ≤ p ≤ q ≤ +∞. Então:

Lp (Ω) ∩ Lq (Ω) ,→ Lr (Ω); ∀ r ∈ [p, q].

Demonstração: A inclusão é consequência imediata da Proposição 3.6. Provemos então


que a imersão é contı́nua. Com efeito, de acordo com a desigualdade de interpolação ,
temos
||u||Lr (Ω) ≤ ||u||θLp (Ω) ||u||1−θ
Lq (Ω)
; ∀ u ∈ Lp (Ω) ∩ Lq (Ω).
Segue daı́ de acordo com a desigualdade de Young que

||u||Lr (Ω) ≤ θ||u||Lp (Ω) + (1 − θ)||u||Lq (Ω) ≤ ||u||Lp (Ω) + ||u||Lq (Ω) = ||u||Lp (Ω)∩Lq (Ω) .

2
105

Corolário 3.8 Sejam X um espaço vetorial normado, 1 ≤ p ≤ q ≤ +∞. Se X ,→ Lp (Ω)


e X ,→ Lq (Ω) então X ,→ Lr (Ω); ∀ r ∈ [p, q].

Demonstração: Evidentemente X ⊂ Lp (Ω) ∩ Lq (Ω) e, além disso,

||u||Lp (Ω)∩Lq (Ω) = ||u||Lp (Ω) + ||u||Lq (Ω) ≤ c1 ||u||X + c2 ||u||X ≤ c3 ||u||X ; ∀ u ∈ X.

Logo, X ,→ Lp (Ω) ∩ Lq (Ω). Como pelo Corolário 3.7, Lp (Ω) ∩ Lq (Ω) ,→ Lr (Ω), segue
pela transitividade que X ,→ Lr (Ω), ∀ r ∈ [p, q]. 2

3.2 Teoremas de Imersão


Nesta seção apresentaremos alguns teoremas de imersão devido à Sobolev. Todavia, antes
disso, introduziremos algumas definições e resultados que necessitaremos posteriormente.

Definição 3.9 Seja k ∈ N. Denotaremos por Cbk (Rn ) o espaço vetorial constituı́do de
todas as funções u : Rn → K, de classe C k (Rn ), limitadas e com derivadas parciais até
ordem k também limitadas. Em outras palavras:

Cbk (Rn ) = {u : Rn → K; u ∈ C k (Rn ) e Dα u é limitada, ∀ α ∈ Nn , |α| ≤ k}.

Verifica-se facilmente que a aplicação de Cbk (Rn ) em R:

u 7→ max sup |Dα u(x)|


|α|≤k x∈Rn

define uma norma em Cbk (Rn ) e além disso, Cbk (Rn ) munido da norma:

||u||C k (Rn ) = max sup |Dα u(x)|


b |α|≤k x∈Rn

é um espaço de Banach.

Definição 3.10 Sejam k ∈ N e 0 < λ ≤ 1. Representaremos por C k,λ (Rn ) o subespaço


vetorial de todas as funções u ∈ Cbk (Rn ) para as quais existe uma constante L > 0 (que
depende de u) tal que:

|Dα u(x) − Dα u(y)| ≤ L||x − y||λ ; ∀ x, y ∈ Rn e ∀ α ∈ Nn , |α| ≤ k. 1


1
Dα u satisfaz a condição de Hölder com expoente λ.
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
106 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Mostremos ainda que


|Dα u(x) − Dα u(y)|
 
k,λ n k n
C (R ) = u ∈ Cb (R ); max sup < +∞ .
|α|≤k x,y∈Rn ||x − y||λ
x6=y

Com efeito, se u ∈ C k,λ (Rn ) temos por definição que


|Dα u(x) − Dα u(y)|
≤ L; ∀ x, y ∈ Rn com x 6= y e ∀ α ∈ Nn , |α| ≤ k
||x − y||λ
e, portanto,
|Dα u(x) − Dα u(y)|
max sup < +∞. (3.20)
|α|≤k x,y∈Rn ||x − y||λ
x6=y

Reciprocamente se u ∈ Cbk (Rn ) e satisfaz (3.20) então


|Dα u(x) − Dα u(y)| |Dα u(x) − Dα u(y)|
sup ≤ max sup < +∞.
x,y∈Rn ||x − y||λ |α|≤k x,y∈Rn ||x − y||λ
x6=y x6=y

∀ α ∈ Nn , |α| ≤ k. Consequentemente,
|Dα u(x) − Dα u(y)|
≤ L; ∀ x, y ∈ Rn com x 6= y e ∀ α ∈ Nn , |α| ≤ k
||x − y||λ
donde concluı́mos que:

|Dα u(x) − Dα u(y)| ≤ L||x − y||λ ; ∀ x, y ∈ Rn e ∀ α ∈ Nn , |α| ≤ k (3.21)

já que se x = y desigualdade acima é trivial.


Logo, de (3.20) e (3.21) e da Definição 3.10 temos o desejado.
Assim como no caso de Cbk (Rn ) verifica-se também que a aplicação de C k,λ (Rn ) em R
|Dα u(x) − Dα u(y)|
u 7→ ||u||C k (Rn ) + max sup
b |α|≤k x,y∈Rn ||x − y||λ
x6=y

define uma norma em C k,λ (Rn ) e o espaço C k,λ (Rn ) munido da norma
|Dα u(x) − Dα u(y)|
||u||C k,λ (Rn ) = ||u||C k (Rn ) + max sup
b |α|≤k x,y∈Rn ||x − y||λ
x6=y

é um espaço de Banach.
Do exposto, vemos diretamente que

||u||C k (Rn ) ≤ ||u||C k,λ (Rn ) , ∀ u ∈ C k,λ (Rn ) (3.22)


b

ou seja,
C k,λ (Rn ) ,→ Cbk (Rn ).
107

Proposição 3.11 C k,λ (Rn ) ,→ C k,σ (Rn ); ∀ 0 < σ < λ ≤ 1.

Demonstração: Seja u ∈ C k,λ (Rn ). Temos dois casos a considerar:


(i) ||x − y|| ≤ 1, x 6= y.
1 1
Neste caso, ||x − y||σ ≥ ||x − y||λ , donde, σ
≤ e, portanto,
||x − y|| ||x − y||λ
|Dα u(x) − Dα u(y)| |Dα u(x) − Dα u(y)| |Dα u(x) − Dα u(y)|
≤ ≤ max sup
||x − y||σ ||x − y||λ |α|≤k x,y∈Rn ||x − y||λ
x6=y
|D u(x) − Dα u(y)|
α
≤ ||u||C k (Rn ) + max sup = ||u||C k,λ (Rn ) .
b |α|≤k x,y∈Rn ||x − y||λ
x6=y

(ii) ||x − y|| > 1, x 6= y.


1
Agora, 1 < ||x − y||σ o que implica que < 1. Logo:
||x − y||σ
|Dα u(x) − Dα u(y)|
≤ |Dα u(x) − Dα u(y)| ≤ |Dα u(x)| + |Dα u(y)| ≤
||x − y||σ
≤ max sup |Dα u(x)| + max sup |Dα u(x)| ≤ 2||u||C k (Rn )
|α|≤k x∈Rn |α|≤k x∈Rn b

e de (3.22) obtemos,
|Dα u(x) − Dα u(y)|
≤ 2||u||C k,λ (Rn ) .
||x − y||σ
Desta forma, de (i) e (ii) resulta que
|Dα u(x) − Dα u(y)|
≤ 2||u||C k,λ (Rn ) , ∀ x, y ∈ Rn , x 6= y
||x − y||σ
e, consequentemente,
|Dα u(x) − Dα u(y)|
max sup ≤ 2||u||C k,λ (Rn ) .
|α|≤k x,y∈Rn ||x − y||σ
x6=y

Segue daı́ que u ∈ C k,σ (Rn ) e, além disso,

||u||C k,σ (Rn ) ≤ 3||u||C k,λ (Rn ) .

No que segue desta seção p representará um número real na condição


1 ≤ p < +∞. Além disso, faremos a hipótese adicional de que n é um número natu-
ral tal que n ≥ 2. O caso n = 1 será estudado posteriormente.
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
108 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Teorema 3.12 (Imersão de Sobolev) Seja m ∈ N, tal que mp < n. Então W m,p (Rn ) ,→
Lq (Rn ) onde q é dado por
1 1 m
= − · (3.23)
q p n

Demonstração: Se m = 0 nada se tem a provar. Seja então m = 1 e consideremos


1,p
u∈W (R ). De acordo com o Teorema 2.7, temos que D(Rn ) é denso em W 1,p (Rn ).
n

Logo, existe (ϕµ ) ⊂ D(Rn ) tal que ϕµ → u em W 1,p (Rn ). Resulta daı́ que

ϕµ → u em Lp (Rn ) e Dν ϕµ → Dν u em Lp (Rn ) quando µ → +∞ ν = 1, 2, . . . , n. (3.24)

Como 1 ≤ p < n, pela desigualdade de Sobolev (Proposição 3.3) obtemos:


n
1 (n − 1)p X
||ϕµ − ϕσ ||Lq (Rn ) ≤ ||Dν ϕµ − Dν ϕσ ||Lp (Rn ) (3.25)
n n − p ν=1

onde:
1 1 1
= − ·
q p n
Sendo (Dν ϕµ ) uma sequência de Cauchy em Lp (Rn ), posto que é convergente segue
que (ϕµ ) é de Cauchy em Lq (Rn ) e portanto existe v ∈ Lq (Rn ) tal que

ϕµ → v em Lq (Rn ). (3.26)

Passando as convergências (3.24) e (3.26) ao espaço D0 (Rn ) obtemos que v = u e (ϕν )


também converge para u em Lq (Rn ). Isto prova que

W 1,p (Rn ) ⊂ Lq (Rn ).

Provaremos, a seguir, que a imersão entre os espaços acima é contı́nua. Com efeito,
novamente da desigualdade de Sobolev (cf. em (3.25) obtemos:
n
1 (n − 1)p X
||ϕµ ||Lq (Rn ) ≤ ||Dν ϕµ ||Lp (Rn )
n n − p ν=1

e na situação limite resulta que


n
1 (n − 1)p X
||u||Lq (Rn ) ≤ ||Dν u||Lp (Rn ) . (3.27)
n n − p ν=1

Todavia, pelo fato de


||Dν u||Lp (Rn ) ≤ ||u||W 1,p (Rn )
109

resulta de (3.27) que

1 (n − 1)p (n − 1)p
||u||Lq (Rn ) ≤ n ||u||W 1,p (Rn ) = ||u||W 1,p (Rn )
n n−p n−p
o que prova o teorema no caso m = 1.
Suponhamos, agora, que o teorema seja válido para m, ou seja,
1 1 m
se mp < n então W m,p (Rn ) ,→ Lq (Rn ) onde = − · (3.28)
q p n

Provaremos a validade do mesmo para (m + 1), ou seja, se (m + 1)p < n então



W m+1,p
(Rn ) ,→ Lq (Rn ), onde q ∗ é dado por

1 1 m+1

= − ·
q p n

De fato:  
1 1 m 1 1 m 1

= − − = − − · (3.29)
q p n n p n n
1 1 m
Pondo-se = − afirmamos que 1 ≤ q < n. Com efeito, temos:
q p n

1 1 m n − mp
= − =
q p n pn

e como por hipótese mp + p < n então n − mp > p e da identidade acima obtemos


1 p 1
> =
q pn n

1
ou seja, q < n. Por outro lado, como p ≥ 1 então ≤ 1 e, portanto,
p

1 1 m
= − ≤1
q p n

donde se conclui que q ≥ 1, o que prova a afirmação.


Estamos, pois, dentro das hipóteses em que m = 1, já que do exposto acima e de
(3.29) resulta que:
1 1 1
1 ≤ q < n; ∗
= − ·
q q n
Logo:

W 1,q (Rn ) ,→ Lq (Rn ). (3.30)
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
110 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Consideremos, então, u ∈ W m+1,p (Rn ). Então:

u, D1 u, . . . , Dn u ∈ W m,p (Rn ) (3.31)

e por (3.28) também pertencem a Lq (Rn ), donde se conclui que u ∈ W 1,q (Rn ). Por (3.30)

segue então que u ∈ Lq (Rn ), o que prova a inclusão

W m+1,p (Rn ) ⊂ Lq (Rn ).

Mostraremos, a seguir, que a imersão é contı́nua. De fato,


 n
X  1q
q q
||u||Lq∗ (Rn ) ≤ c1 ||u||W 1,q (Rn ) = c1 ||u||Lq (Rn ) + ||Dν u||Lq (Rn ) . (3.32)
ν=1

Contudo, por (3.28),(3.31) e pelo fato de W m+1,p (Rn ) ,→ W m,p (Rn ) temos

||u||qLq (Rn ) ≤ c2 ||u||qW m,p (Rn ) = c2 ||u||qW m+1,p (Rn )


 q/p
X
||Dν u||qLq (Rn ) ≤ c2 ||Dν u||qW m,p (Rn ) = c2  ||Dα (Dν u)||pLp (Rn ) 
|α|≤m
 q/p
X
≤ c2  ||(Dα u)||pLp (Rn )  = c2 ||u||qW m+1,p (Rn ) . (3.33)
|α|≤m+1


Das desigualdades de (3.32) e (3.33) segue que a imersão de W m+1,p (Rn ) em Lq (Rn )
é contı́nua, como querı́amos demonstrar. 2

np
Corolário 3.13 Se mp < n e p ≤ q ≤ então W m,p (Rn ) ,→ Lq (Rn ).
n − mp

np
Demonstração: Ponhamos q0 = · Ora, temos mp < n por hipótese. Além
n − mp
disso:
1 n − mp 1 m
= = − ·
q0 np p n
Segue do Teorema 3.12 que

W m,p (Rn ) ,→ Lq0 (Rn ). (3.34)

Consideremos, então, u ∈ W m,p (Rn ). Logo, u ∈ Lp (Rn ) e por (3.34) temos também que
u ∈ Lq0 (Rn ), ou seja, u ∈ Lp (Rn ) ∩ Lq0 (Rn ). Agora, de acordo com o Corolário 3.7 temos:

Lp (Rn ) ∩ Lq0 (Rn ) ,→ Lq (Rn ); ∀ q ∈ [p, q0 ] (3.35)


111

o que prova a inclusão

W m,p (Rn ) ⊂ Lq (Rn ); ∀ q ∈ [p, q0 ].

Provaremos, a seguir, que tal inclusão é contı́nua. Com efeito, temos de acordo com
(3.35),

||u||Lq (Rn ) ≤ c1 ||u||Lp (Rn )∩Lq0 (Rn ) = c1 ||u||Lp (Rn ) + ||u||Lq0 (Rn )

≤ c1 ||u||W m,p (Rn ) + ||u||Lq0 (Rn )

e de acordo com (3.34) resulta que



||u||Lq (Rn ) ≤ c1 ||u||W m,p (Rn ) + c2 ||u||W m,p (Rn ) ≤ c||u||W m,p (Rn ) .

Corolário 3.14 Seja k ∈ N tal que kp < n. Então:

W m+k,p (Rn ) ,→ W m,qk (Rn ); ∀m ∈ N

onde qk é dado por:


1 1 k
= − ·
qk p n

k 1 1 k
Demonstração: Como kp < n então < o que implica que − > 0. De acordo
n p p n
com o Teorema 3.12, temos:
W k,p (Rn ) ,→ Lqk (Rn ). (3.36)

Consideremos, então, u ∈ W m+k,p (Rn ). Então (Dα u) ∈ W k,p (Rn ), ∀ α ∈ Nn , |α| ≤ m e


por (3.36) vem que (Dα u) ∈ Lqk (Rn ), ∀ α ∈ Nn , |α| ≤ m, ou seja, u ∈ W m,qk (Rn ). Temos
provada a inclusão W m+k,p (Rn ) ⊂ W m,qk (Rn ). Provaremos, a seguir, a continuidade da
mesma. Com efeito,
 X  q1
k
||u||W m,qk (Rn ) = ||D α
u||qLkq (Rn ) . (3.37)
|α|≤m

Contudo, por (3.36) temos que,

||Dα u||qLkqk (Rn ) ≤ c1 ||Dα u||qWk k,p (Rn ) ; ∀ |α| ≤ m.


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
112 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Entretanto,
X X
||Dα u||pW k,p (Rn ) = ||Dβ Dα u||pLp (Rn ) ≤ ||Dγ u||pLp (Rn ) = ||u||pW m+k,p (Rn )
|β|≤k |γ|≤k+m

e, portanto,
||Dα u||qLkqk (Rn ) ≤ c1 ||u||qWk m+k,p (Rn ) ; ∀ |α| ≤ m. (3.38)

Assim, de (3.37) e (3.38) resulta que


 X  q1   q1
k k
||u||W m,qk (Rn ) = ||D α
u||qLkqk (Rn ) ≤ cq2k ||u||qWk m+k,p (Rn )
|α|≤m

= c2 ||u||W m+k,p (Rn ) .

Teorema 3.15 Seja m ∈ N tal que mp = n. Então:

W m,p (Rn ) ,→ Lq (Rn ), ∀ q ∈ [p, +∞[ .

Demonstração: A demonstração será feita usando indução em m. Provaremos inicial-


mente para o caso m = 1. Neste caso, p = n e devemos mostrar que:

W 1,n (Rn ) ,→ Lq (Rn ), ∀ q ∈ [n, +∞[ .

Com efeito, seja u ∈ W 1,n (Rn ). Então, pela densidade de D(Rn ) em W 1,n (Rn ) existe
uma sequência (ϕµ ) ⊂ D(Rn ) tal que ϕµ → u em W 1,n (Rn ) quando µ → +∞.
Segue daı́ que

ϕµ → u em Ln (Rn ) e Dν (ϕµ ) → Dν u em Ln (Rn ) ; ν = 1, 2, . . . , n quando µ → +∞.


(3.39)
Por outro lado, de acordo com a Proposição 3.5, temos para todo ϕ ∈ C01 (Rn ) e ∀ ρ > 1
que
n
ρ−1 1X
kϕk ρn ≤ kϕk (ρ−1)n + ||Dν ϕ||Ln (Rn ) . (3.40)
L n−1 (Rn ) ρ L n−1 (Rn ) n ν=1

Em particular, tomando-se (ϕµ − ϕσ ) no lugar de ϕ e considerando-se ρ = n na


expressão em (3.40), obtemos:
n
n−1 1X
kϕµ − ϕσ k n2 ≤ ||ϕµ − ϕσ ||Ln (Rn ) + ||Dν (ϕµ − ϕσ )||Ln (Rn )
L n−1 (Rn ) n n ν=1
113

n2
e das convergências em (3.39) resulta que (ϕµ ) é uma sequência de Cauchy em L n−1 (Rn ).
n2
Logo, existe v ∈ L n−1 (Rn ) tal que:
n2
ϕµ → v em L n−1 (Rn ) quando µ → +∞. (3.41)

Passando-se às convergências em (3.39) e (3.41) para D0 (Rn ) concluı́mos, face a unici-
dade do limite que u = v e portanto temos provado que
n2
W 1,n (Rn ) ⊂ L n−1 (Rn ).

Além disso, temos também que,


n2
ϕµ → u em L n−1 (Rn ) quando µ → +∞. (3.42)

Provaremos, a seguir, que a inclusão acima é contı́nua. De fato, fazendo-se ϕ = ϕµ


e ρ = n em (3.40) temos, na situação limite, graças as convergências dadas em (3.39) e
(3.42) que
n
n−1 1X
kuk n2 ≤ ||u||Ln (Rn ) + ||Dν u||Ln (Rn )
L n−1 (Rn ) n n ν=1
 Xn 
≤ c1 ||u||Ln (Rn ) + ||Dν u||Ln (Rn )
ν=1
 n
X  n1
n n
≤ c2 ||u||Ln (Rn ) + ||Dν u||Ln (Rn )
ν=1
= c2 ||u||W 1,n (Rn )

ou seja,
kuk n2 ≤ c2 ||u||W 1,n (Rn ) . (3.43)
L n−1 (Rn )

Temos então
n2
W 1,n (Rn ) ,→ L n−1 (Rn )

e pelo fato de
W 1,n (Rn ) ,→ Ln (Rn )

resulta, de acordo com o Corolário 3.82, que:

1,n n q n
 n2 
W (R ) ,→ L (R ); ∀ q ∈ n, . (3.44)
n−1
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
114 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Agora, retornando-se a (3.40) com (ϕµ − ϕσ ) no lugar de ϕ e ρ = n + 1, obtemos:


n
n 1X
kϕµ − ϕσ k (n+1)n ≤ kϕµ − ϕσ k n2 + ||Dν (ϕµ − ϕσ )||Ln (Rn ) .
L n−1 (Rn ) n+1 L n−1 (Rn ) n ν=1

Contudo, de (3.44) temos,

kϕµ − ϕσ k n2 ≤ c||ϕµ − ϕσ ||W 1,n (Rn )


L n−1 (Rn )

e, desta forma,
n
n 1X
kϕµ − ϕσ k (n+1)n ≤c ||ϕµ − ϕσ ||W 1,n (Rn ) + ||Dν (ϕµ − ϕσ )||Ln (Rn ) → 0
L n−1 (Rn ) n+1 n ν=1

quando µ, σ → +∞.
(n+1)n (n+1)n
Logo, (ϕµ ) é de Cauchy em L n−1 (Rn ) e por conseguinte existe w ∈ L n−1 (Rn ) tal
que
(n+1)n
ϕµ → w em L n−1 (Rn ). (3.45)

Passando as convergências em (3.39) e em (3.45) para D0 (Rn ) concluı́mos que


u = w. Logo,
(n+1)n
W 1,n (Rn ) ⊂ L n−1 (Rn ).

Provaremos, a seguir, que tal inclusão é contı́nua. De fato, fazendo-se ϕ = ϕµ e


ρ = n + 1 em (3.40) e considerando-se o limite quando µ → +∞, obtemos, graças as
convergências em (3.39), (3.42) e (3.45) que
n
n 1X
kuk (n+1)n ≤ kuk n2 + ||Dν u||Ln (Rn )
L n−1 (Rn ) n+1 L n−1 (Rn ) n ν=1
n
n 1X
≤ c1 ||u||W 1,n (Rn ) + ||Dν u||Ln (Rn )
n+1 n ν=1
n 1
≤ c1 ||u||W 1,n (Rn ) + n ||u||W 1,n (Rn )
n+1 n
≤ c2 ||u||W 1,n (Rn ) .

Logo:
(n+1)n
W 1,n (Rn ) ,→ L n−1 (Rn ) (3.46)

e de novo pelo fato de


W 1,n (Rn ) ,→ Ln (Rn )
115

vem que
 (n + 1)n 
W 1,n (Rn ) ,→ Lq (Rn ); ∀ q ∈ n, . (3.47)
(n − 1)
Desta forma, considerando que dado q ∈ [n, +∞[ existe k ∈ N tal que n ≤ q ≤
(n + k)n
, repetimos os mesmos argumentos anteriores para ρ = n, ρ = n+1, . . . , ρ = n+k
(n − 1)
e concluı́mos que
 (n + k)n 
W 1,n (Rn ) ,→ Lq (Rn ); ∀ q ∈ n, .
(n − 1)
Consequentemente:

W 1,n (Rn ) ,→ Lq (Rn ); ∀ q ∈ [n, +∞)

o que prova o teorema no caso em que m = 1.


Suponhamos, agora, que o teorema seja válido para m, ou seja,
n
se mp = n então W m,p (Rn ) ,→ Lq (Rn );

∀q ∈ , +∞ . (3.48)
m

Provaremos para (m + 1), i.é, devemos provar que:


n
Se (m + 1)p = n então W (m+1),p (Rn ) ,→ Lq (Rn );
 
∀q ∈ , +∞ .
(m + 1)

De fato, notemos inicialmente que


m+1 1 m 1 1 1 1 1
(m + 1)p = n ⇔ = ⇔ + = ⇔ = − ·
n p n n p n/m p n

Além disso, como n ≥ 2 e m ≥ 1 temos,


1 1 1
= − > 0 ⇔ p < n.
n/m p n

Estamos, pois, dentro das hipóteses do Corolário 3.14 e, portanto,


n n
W (m+1), m+1 (Rn ) ,→ W m, m (Rn ). (3.49)

Da hipótese de indução temos:


n n
W m, m (Rn ) ,→ Lq (Rn );

∀q ∈ , +∞ . (3.50)
m

De (3.49) e (3.50) resulta que


n n
W (m+1), m+1 (Rn ) ,→ Lq (Rn );

∀q ∈ , +∞ . (3.51)
m
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
116 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

 n 
Contudo, necessitamos provar que a imersão se dá para todo q ∈ , +∞ .
(m + 1)
Logo, resta-nos provar que:
n n n
W (m+1), m+1 (Rn ) ,→ Lq (Rn );

∀q ∈ , . (3.52)
m+1 m
n
Com efeito, da imersão em (3.51) em particular para q = e do fato que
m
n n
W (m+1), m+1 (Rn ) ,→ L m+1 (Rn )

resulta a afirmação em (3.52) de acordo com o Corolário 3.8.


Finalmente, de (3.51) e (3.52) concluı́mos que
n
W (m+1),p (Rn ) ,→ Lq (Rn );
 
∀q ∈ , +∞
(m + 1)
conforme querı́amos demonstrar. 2

n
Lema 3.16 Seja λ0 = m − com 0 < λ0 ≤ 1, Ur um paralelepı́pedo do Rn de lados
p
paralelos aos eixos coordenados e cada lado de comprimento r e x0 ∈ Ur . Então, ∀ ϕ ∈
D(Rn ) tem-se:
Z  n 

ϕ(x0 ) − 1 1 λ X ∂ϕ
ϕ(z) dz ≤ r
r n Ur λ i=1
∂xi q n
L (R )

onde:
1 1 m−1
(i) λ = λ0 e = − , se λ0 < 1.
q p n
n
(ii) 0 < λ < 1, q = se λ0 = 1.
1−λ

Demonstração: Sejam ϕ ∈ D(Rn ) e z ∈ Ur . Definamos:

u : [0, 1] → K
t 7→ u(t) = ϕ((1 − t)x0 + tz)

ou seja, u é a restrição de ϕ ao segmento [x0 , z] ⊂ Ur , ou seja, u = ϕ ◦ γ, onde


γ : [0, 1] → Ur ; γ(t) = (1 − t)x0 + tz. Temos:
Z 1 Z 1
0
ϕ(z) − ϕ(x0 ) = u(1) − u(0) = u (t) dt = ϕ0 (γ(t))γ 0 (t) dt
0 0
Z 1 n
X ∂ϕ
= ((1 − t)x0 + tz)(zi − x0i ) dt (3.53)
0 i=1
∂x i
117

onde z = (z1 , . . . , zn ) e x0 = (x01 , . . . , x0n ).


Z
Por outro lado, notando-se que dz = med(Ur ) = rn então:
Ur
Z
1
ϕ(x0 ) = n ϕ(x0 ) dz. (3.54)
r Ur

Assim, de 3.53 e 3.54 podemos escrever:


Z Z
1 1

rn ϕ(z) dz − ϕ(x0 ) ≤ n
|ϕ(z) − ϕ(x0 )| dz
Ur r Ur
Z Z 1 Xn

1 ∂ϕ
≤ n ((1 − t)x0 + tz)(zi − z0i )dt dz

r Ur 0 i=1 ∂xi


e por Fubini e pela desigualdade triangular resulta que a última expressão acima ainda é
menor que
Z 1 Z n
1 X ∂ϕ
((1 − t)x 0 + tz) |(zi − x0i )| dzdt.
rn 0 Ur i=1
∂xi

Sendo o paralelepı́pedo Ur de lados paralelos aos eixos coordenados, temos |(zi −x0i )| ≤ r;
∀ i = 1, . . . , n. Logo:
Z Z 1Z X n
1 1 ∂ϕ

rn ϕ(z) dz − ϕ(x 0 ) ≤
rn−1

∂xi ((1 − t)x 0 + tz) dzdt.
(3.55)
Ur 0 Ur i=1

Consideremos, na expressão à direita da desigualdade acima, a seguinte mudança de


variáveis

h : Ur → Rn
z 7→ h(z) = (1 − t)x0 + tz = y

cujo jacobiano é igual a tn . Assim,


Z Z  
∂ϕ ∂ϕ
(y) dy = ∂xi ◦ h (z) |Jac h| dz.

h(Ur ) ∂xi

Ur

Mais precisamente:
Z Z
∂ϕ n
∂ϕ
∂xi (y) dy = t ∂xi ((1 − t)x0 + tz) dz.

(1−t)x0 +tUr Ur

Logo, da igualdade acima resulta que


Z Z
∂ϕ −n
∂ϕ
((1 − t)x0 + tz) dz = t (y) dy
Ur ∂xi (1−t)x0 +tUr ∂xi

Z
−n
∂ϕ
= t ∂xi (y) χ(1−t)x0 +tUr (y) dy
(3.56)
R n
 β1  Z  10
∂ϕ β
Z
β
−n
≤ t (y) dy χ(1−t)x0 +tUr
(y) dy ,
Rn ∂xi

Rn
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
118 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

1 1
onde β e β 0 são reais maiores ou iguais a um e tais que
+ 0 = 1.
β β
Contudo, para cada t ∈ [0, 1] fixado, notemos que (1 − t)x0 + tUr representa um
paralelepı́pedo cujos lados têm comprimento (tr). Assim:
Z
χ(1−t)x0 +tUr (y) dy = med[(1 − t)x0 + tUr ] = (tr)n
Rn

e de (3.56) chegamos a
 β1
∂ϕ β
Z Z
∂ϕ −n
1
∂xi ((1 − t)x0 + tz) dz ≤ t
(y) dy
(tr)n β0
Rn ∂xi

Ur
 β1
∂ϕ β
  Z
−n+ βn0 n
0
= t rβ (y) dy . (3.57)
Rn ∂xi

Entretanto, como,  
n 1 n
−n + 0 = −n 1 − 0 = −
β β β
então temos de (3.57) que
Z
∂ϕ n ∂ϕ
dz ≤ t− nβ r β0

((1 − t)x 0 + tz) ∂xi β n .
(3.58)
Ur ∂xi

L (R )

Retornando-se a (3.55) obtemos de (3.58) que:


Z X n  Z 1 
1 1−n+ βn0
∂ϕ −n

rn ϕ(z) dz − ϕ(x0 ) ≤ r

∂xi β n t dt
β

Ur i=1 L (R ) 0
X n  Z 1 
1− n
∂ϕ − n
= r β
∂xi β n t β dt . (3.59)
i=1 L (R ) 0

Caso (i):
1 1 m−1 n
Sejam λ = λ0 ; = − e λ0 = m − < 1.
q p n p
Temos dois subcasos a considerar:
(i.1) m = 1.
n
Neste caso, q = p e λ0 = 1 −< 1.
p
n n
Escolhamos β = p. Logo 1 − = 1 − = λ0 . Assim, de (3.59) obtemos:
p β
Z Xn  Z 1 
1 λ0
∂ϕ −n

rn ϕ(z) dz − ϕ(x0 ) ≤ r

∂xi p n t dt .
p

Ur i=1 L (R ) 0
119

n n
Note-se que > 1 ⇔ − < −1. Logo:
p p
n 1 1
1
t− p +1 tλ0
Z
−n 1
t p dt = n = = .
0 −p + 1 0 λ0 0 λ0

Assim,
 n
r λ0 X
Z 
1 ∂ϕ

rn ϕ(z) dz − ϕ(x0 ) ≤ .
Ur λ0 i=1 ∂xi Lp (Rn )

(i.2) m ≥ 2
n np
Temos λ0 = m − < 1; q = ·
p n − (m − 1)p
Escolhamos β = q. Logo:

n n − (n − 1)p n n n
− = (−n) = − + (m − 1) ⇒ 1 − = − + m = λ0 .
β np p β p

n n n
Note-se que − + m = λ0 < 1 ⇒ − = − + m − 1 < 0. Assim,
p β p
n 1 1
1
t− β +1 tλ0
Z
−n 1
tβ dt = n = = .
0 −β + 1 0 λ0 0 λ0

e, portanto,
 n
r λ0 X
Z 
1 ∂ϕ

rn ϕ(z) dz − ϕ(x0 ) ≤ .
Ur λ0 i=1 ∂xi Lq (Rn )

Nota: Convém observar que se considerássemos λ = 1 no caso (i) então:

mp − n 1
= 1 ⇔ mp − n = p ⇔ n − (m − 1)p = 0 ⇔ =0
p q

∂ϕ 
e portanto q = +∞. Perderı́amos pois em generalidade uma vez que L∞ supp


∂xi
 ∂ϕ 
Lq supp e o resultado obtido seria para um conjunto menor.
∂xi
Caso (ii)
n
Temos 0 < λ < 1, q = ; λ0 = 1.
1−λ
n n 1−λ
Escolhamos β = q = · Então, − = (−n) = −1 + λ o que implica que
1−λ β n
n
1 − = λ. Notemos que:
β
n
− = −1 + λ < 0.
β
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
120 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Logo, n 1 1
1
t− β +1 tλ
Z
−n 1
tβ dt = n = = .
0 −β + 1 0 λ 0 λ

Consequentemente,
 n
rλ X
Z 
1 ∂ϕ

rn ϕ(z) dz − ϕ(x0 ) ≤ .
Ur λ i=1 ∂xi Lq (Rn )

Nota: Convém observar que se tivéssemos suposto λ0 < 1 no caso (ii) então, pelo
fato de 0 < λ < λ0 < 1 terı́amos
n p − mp + n
−λ > −λ0 ⇔ 1 − λ > 1 − λ0 ⇔ 1 − λ > 1 − m − ⇔ 1−λ>
p p
1−λ p − mp + n 1 n − p(m − 1) 1 1 (m − 1)
⇔ > ⇔ > ⇔ > −
n np q np q p n
1 1
⇔ >
q q0
1 1 1 (m − 1)
onde > = − · Perderı́amos, novamente em generalidade já que
q q0 p n
 ∂ϕ   ∂ϕ 
Lq0 supp ⊂ Lq supp e o resultado obtido seria para um conjunto menor.
∂xi ∂xi
2

Corolário 3.17 Sob as hipóteses do lema precedente tem-se


Z
ϕ(x0 ) − 1

ϕ(z) dz ≤ c rλ ||ϕ|| m,p n
W (R )
r n Ur

onde c > 0 é uma constante independente de ϕ, r e x0 e

(i) λ = λ0 se λ0 < 1.

(ii) 0 < λ < 1 se λ0 = 1.

Demonstração: Caso (i).


Seja λ0 < 1. De acordo com o lema anterior,
 n
r λ0 X
Z 
1 ∂ϕ

rn ϕ(z) dz − ϕ(x0 ) ≤ (3.60)
Ur λ0 i=1 ∂xi Lq (Rn )

onde,
1 1 m−1 n
= − e λ0 = m − .
q p n p
121

Como λ0 < 1 por hipótese, então:


n n
m− <1 ⇔ m−1< ⇔ (m − 1)p < n.
p p

Estamos, pois, dentro das hipóteses do teorema de imersão de Sobole, Teorema 3.12.
Logo:
W (m−1),p (Rn ) ,→ Lq (Rn ).

Em particular,
 1/p
  p
∂ϕ ∂ϕ X α ∂ϕ
∂xi q n ≤ c1 ∂xi m−1,p n = c1
 D 
L (R ) W (R )
∂xi Lp (Rn )
|α|≤m−1

≤ c2 ||ϕ||W m,p (Rn ) .

Desta forma, obtemos de (3.60) que


crλ0
Z
1

rn ϕ(z) dz − ϕ(x 0 ≤
) ||ϕ||W m,p (Rn ) .
Ur λ0

Caso (ii)
Seja λ0 = 1. De acordo com o lema anterior temos:
 n
rλ X
Z 
1 ∂ϕ

rn ϕ(z) dz − ϕ(x0 ) ≤
(3.61)
Ur λ i=1 ∂xi Lq (Rn )
n
para 0 < λ < 1, q = · Mas:
1−λ
n n
λ0 = m − = 1 ⇔ m − 1 = ⇔ (m − 1)p = n.
p p

Estamos, assim, dentro das hipóteses do Teorema 3.15. Consequentemente:

W (m−1),p (Rn ) ,→ Ls (Rn ); ∀ s ∈ [p, +∞[ . (3.62)

Notemos que:
n
m=1+ > 1 o que implica que m ≥ 2 posto que m é um natural.
p

Resulta daı́ que

2 − m ≤ 0 < λ ⇔ m − 2 > −λ ⇔ m − 1 > 1 − λ ⇔ (m − 1)p > p(1 − λ)


n
⇔ n > p(1 − λ) ⇔ > p ⇔ q > p ⇔ q ∈ [p, +∞[
1−λ
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
122 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

e de (3.62) resulta, em particular, que

W (m−1),p (Rn ) ,→ Lq (Rn )

e portanto existe c1 > 0 tal que



∂ϕ ∂ϕ
∂xi q n ≤ c1 ∂xi (m−1),p n ≤ c2 ||ϕ||W m,p (Rn ) .

L (R ) W (R )

Logo de (3.61) chegamos a



Z
1

rn ϕ(z) dz − ϕ(x 0 ) ≤ c ||ϕ||W m,p (Rn ) .
Ur
λ
2

n
Teorema 3.18 Seja m ∈ N tal que mp > n e k ∈ N tal que k < m − ≤ k + 1. Então:
p
W m,p (Rn ) ,→ C k,λ (Rn )

onde
n n
(i) 0<λ≤m−k− se m − k − < 1.
p p
n
(ii) 0 < λ < 1 se m − k − = 1.
p
n
Demonstração: Seja λ0 = m − k − e consideremos x, y ∈ Rn , x 6= y e Ur pa-
p
ralelepı́pedo nas condições do Lema 3.16 com r = ||x − y|| contendo os pontos x, y.
De acordo com a hipótese, temos que 0 < λ0 ≤ 1, tendo sentido pois falarmos em
k,λ
C (Rn ) para todo 0 < λ ≤ λ0 . Assim, de acordo com o Corolário 3 temos ∀ ψ ∈ D(Rn ):
Z
ψ(x0 ) − 1

ψ(z) dz ≤ c rλ ||ψ|| m−k,p n ; ∀ x0 ∈ Ur (3.63)
W (R )
r n Ur

onde c > 0 é uma constante independente de ψ, r, x0 e


(a) λ = λ0 se λ0 < 1.
(b) 0 < λ < 1 se λ0 = 1.
Sejam ϕ ∈ D(Rn ) e α ∈ Nn , |α| ≤ k. Então de (3.63) em particular para ψ = Dα ϕ
obtemos
Z Z
1 1
|Dα ϕ(x) − Dα ϕ(y)| ≤ Dα ϕ(x) − n Dα ϕ(z) dz + n Dα ϕ(z) dz − Dα ϕ(y)
r Ur r Ur
≤ 2c||x − y||λ ||Dα ϕ||W m−k,p (Rn ) ≤ c1 ||x − y||λ ||ϕ||W m,p (Rn )
123

ou seja,
|Dα ϕ(x) − Dα ϕ(y)| ≤ c1 ||x − y||λ ||ϕ||W m,p (Rn ) ; ∀ x, y ∈ Rn . (3.64)

Consideremos, agora, u ∈ W m,p (Rn ). Então existe (ϕν ) ⊂ D(Rn ) tal que

ϕν → u em W m,p (Rn ) (3.65)

da qual podemos extrair uma subsequência que ainda denotaremos pela mesma notação
tal que
Dα ϕν → Dα u q.s. em Rn |α| ≤ k. (3.66)

Seja K um compacto de Rn , d = diam(K). Então, para cada α ∈ Nn , |α| ≤ m existe


x0 ∈ K tal que
|Dα ϕ(x0 )| = min |Dα ϕ(x)|. (3.67)
x∈K

Mas, Z
α p
|D ϕ(x0 )| med(K) ≤ |Dα ϕ(x)|p dx ≤ ||ϕ||pW m,p (Rn )
K
o que implica
−1/p
|Dα ϕ(x0 )| ≤ med(K) ||ϕ||W m,p (Rn ) . (3.68)

Logo, para todo x ∈ K de (3.64) e (3.68) resulta que

|Dα ϕ(x)| ≤ |Dα ϕ(x) − Dα ϕ(x0 )| + |Dα ϕ(x0 )|


≤ c1 dλ + (med(K))−1/p ||ϕ||W m,p (Rn ) .

| {z }
c(K)

De (3.69) vem então que

|Dα ϕν (x) − Dα ϕµ (x)| ≤ c(K)||ϕν − ϕµ ||W m,p (Rn ) ; ∀ x ∈ K. (3.69)

Logo, (Dα ϕν (y)) é de Cauchy uniforme sobre K e desta forma,

Dα ϕν (y) → vα (y) quando ν → +∞ (3.70)

uniformemente sobre compactos de Rn , donde se conclui que vα ∈ C(Rn ),


∀ |α| ≤ k. Das relações em (3.66) e (3.70) temos que vα (y) = Dα u(y), ∀ y ∈ (Rn \C)
(onde C é o conjunto de medida nula para o qual a convergência em (3.66) não ocorre)
e ∀ |α| ≤ k. Desta forma, podemos identificar cada Dα u com uma função contı́nua vα e
após tal identificação temos Dα u ∈ C(Rn ), ∀ |α| ≤ k, ou equivalentemente u ∈ C k (Rn ).
Provaremos, a seguir, que a desigualdade em (3.64) com u no lugar de ϕ se dá para
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
124 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

todo x, y ∈ Rn . De fato: Sejam x, y ∈ Rn . Se x, y não pertencem ao conjunto C,


nada temos a provar. Agora, se x, y ∈ C, como (Rn \C) é denso em Rn então existirão
(xν ), (yν ) ⊂ (Rn \C) e tais que:

xν → x e yν → y.

Então de (3.64) em particular para (xν ) e (yν ) temos:

|Dα u(xν ) − Dα u(yν )| ≤ c1 ||xν − yν ||λ ||u||W m,p (Rn ) , ∀ |α| ≤ k

e pela continuidade das aplicações (Dα u) temos, na situação limite

|Dα u(x) − Dα u(y)| ≤ c1 ||x − y||λ ||u||W m,p (Rn ) . (3.71)

Desta forma, da relação em (3.71) chegamos a

|Dα u(x) − Dα u(y)|


max sup ≤ c1 ||u||W m,p (Rn ) . (3.72)
|α|≤k x,y∈Rn ||x − y||λ
x6=y

Resta-nos provar que u ∈ Cbk (Rn ), ou seja, que (Dα u) é limitada para todo α ∈ Nn ,
|α| ≤ k. De fato:
Seja x ∈ Rn e Ur paralelepı́pedo nas condições do Corolário 3 e r = 1. Então ∀ ψ ∈
D(Rn ), temos,
Z Z Z

|ψ(x)| ≤ ψ(x) −
ψ(z) dz + ψ(z) dz ≤ c1 ||ψ||W m−k,p (Rn ) +
ψ(z) dz .
Ur Ur Ur

Todavia,
Z Z  10  Z  p1
p
p

ψ(z) dz ≤ dz |ψ(z)| dz ≤ ||ψ||Lp (Rn ) .
Ur Ur Ur

Logo,
|ψ(x)| ≤ c1 ||ψ||W m−k,p (Rn ) + ||ψ||Lp (Rn ) ≤ c2 ||ψ||W m−k,p (Rn ) .

Em particular, para as (ϕν ) de (3.65) vem que

|Dα ϕν (x)| ≤ c2 ||Dα ϕν ||W m−k,p (Rn ) ≤ C||ϕν ||W m,p (Rn )

e na situação limite, temos

|Dα u(x)| ≤ C||u||W m,p (Rn ) ; ∀ |α| ≤ k


125

o que prova que u ∈ Cbk (Rn ). Além disso, desta última relação obtemos

||u||C k (Rn ) = max sup |Dα u(x)| ≤ C||u||W m,p (Rn )


b |α|≤k x∈Rn

e juntamente com (3.72), somando-se membro a membro concluı́mos que u ∈ C k,λ e

||u||C k,λ (Rn ) ≤ M ||u||W m,p (Rn )

ou seja,
W m,p (Rn ) ,→ C k,λ (Rn )

onde:
(a) λ = λ0 se λ0 < 1.
(b) 0 < λ < 1 se λ0 = 1.
Resta-nos ainda provar uma parte do item (i), ou seja, se λ0 < 1 e 0 < λ < λ0
então a imersão também se verifica. Com efeito, esta afirmativa decorre imediatamente
da Proposição 3.11, que nos diz que

C k,λ0 (Rn ) ,→ C k,λ (Rn ) ; ∀ 0 < λ < λ0 ≤ 1

o que encerra a demonstração do teorema. 2

Passaremos a estudar, a partir de agora o caso em que n = 1. Consideremos, então, o


seguinte:

Teorema 3.19 Seja m ≥ 1. Então:


1
(i) W m,p (R) ,→ C m−1,λ (R); 0<λ≤1− , 1 < p < +∞
p
(ii) W m,1 (R) ,→ Cbm−1 (R)

(iii) W m,+∞ (R) ,→ C m−1,1 (R)

Demonstração: Sejam x, y ∈ R, y > x e ϕ ∈ D(R). Temos:


Z y
ϕ(y) − ϕ(x) = ϕ0 (z) dz.
x

Logo: Z y Z
0
|ϕ(y) − ϕ(x)| ≤ |ϕ (z)| dz = |ϕ0 (z)| χ]x,y[ (z) dz. (3.73)
x R
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
126 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Consideremos, agora, x ∈ R e I um intervalo finito da reta com x ∈ I e med(I) = r >


0. Então:
Z Z
ϕ(x) − 1 ϕ(z) dz = 1 (ϕ(x) − ϕ(z)) dz

r I r
ZI Z
1 1
≤ |ϕ(x) − ϕ(z)| dz = |ϕ(x) − ϕ(z)| χI dz.
r I r R

Logo, Z Z

ϕ(x) − 1 1
ϕ(z) dz ≤ |ϕ(x) − ϕ(z)| χI dz. (3.74)
r I r R
Caso (i) 1 < p < +∞
De (3.73) e da desigualdade de Hölder podemos escrever que
Z  p1  Z  10
p 1
0
|ϕ(y) − ϕ(x)| ≤ p
|ϕ (z)| dz χ]x,y[ (z) dz = |x − y| p0 ||ϕ0 ||Lp (R)
R R

1 1
onde + 0 = 1. Logo,
p p
1
|ϕ(y) − ϕ(x)| ≤ |x − y| p0 ||ϕ0 ||Lp (R) ; ∀ x, y ∈ R; y > x. (3.75)

Seja x ∈ R e consideremos I intervalo contendo o ponto x e tal que med(I) = 1.


Então, Z Z

|ϕ(x)| ≤ ϕ(x) − ϕ(z) dz + ϕ(z) dz
I I
e de (3.74) resulta que
Z Z

|ϕ(x)| ≤ |ϕ(x) − ϕ(z)| χI dz + ϕ(z) dz .

I I

Aplicando-se Hölder na última integral à direita da desigualdade concluı́mos,


Z Z  10  Z  p1
p
p
|ϕ(x)| ≤ |ϕ(x) − ϕ(z)| χI dz + dz |ϕ(z)| dz
R I I

ou seja,
Z Z  p1
p
|ϕ(x)| ≤ |ϕ(x) − ϕ(z)| χI dz + |ϕ(z)| dz (3.76)
R I

Contudo, de (3.75), temos que,


Z Z
1
|ϕ(x) − ϕ(z)| χI dz ≤ |x − z| p0 ||ϕ0 ||Lp (R) χI dz
R R Z
≤ ||ϕ ||Lp (R) χI dz = ||ϕ0 ||Lp (R)
0
R
127

1
uma vez que |x − z| p0 ≤ 1 e x, z ∈ I. Logo, retornando-se a (3.76) concluı́mos que

|ϕ(x)| ≤ ||ϕ||Lp (R) + ||ϕ0 ||Lp (R) . (3.77)

Consideremos, então, u ∈ W m,p (R). Logo, existe (ϕν ) ⊂ D(R) tal que

ϕν → u em W m,p (R) (3.78)

Dj ϕν → Dj u q.s. em R. (3.79)

Segue de (3.75) em particular para as (Dj ϕν ) que:


1 1
|Dj ϕν (y) − Dj ϕν (x)| ≤ |x − y| p0 ||Dj+1 ϕν ||Lp (R) ≤ |x − y|1− p ||ϕν ||W m,p (R)

0 ≤ j ≤ m − 1. Raciocinando-se de maneira análoga ao Teorema 3.18 concluı́mos que u


pode ser identificada a uma função de classe C m−1 (R) e, além disso,
1
|Dj u(x) − Dj u(y)| ≤ |x − y|1− p ||u||W m,p (R) ; ∀ x, y ∈ R. (3.80)

Provaremos, a seguir, que (Dj u) é limitada para todo j = 0, 1, . . . , m − 1.


Com efeito, da relação em (3.77) em particular para as (Dj ϕν ) obtemos

|Dj ϕν (x)| ≤ ||Dj ϕν ||Lp (R) + ||Dj+1 ϕν ||Lp (R) ; j = 0, 1, . . . , m − 1.

Na situação limite (após identificação) resulta que

|Dj u(x)| ≤ ||Dj u||Lp (R) + ||Dj+1 u||Lp (R) ≤ 2||u||W m,p (R) ; j = 0, 1, . . . , m − 1.

Assim, u ∈ Cbm−1 (R) e, além disso,

||u||C m−1 (R) = max sup |Dj u(x)| ≤ 2||u||W m,p (R) . (3.81)
b 0≤j≤m−1 x∈R

Retornando-se à (3.80), temos também que

|Dj u(x) − Dj u(y)|


max sup 1 ≤ 2||u||W m,p (R) . (3.82)
0≤j≤m−1 x,y∈R
||x − y||1− p
x6=y

1
Logo, das relações em (3.81) e (3.82) resulta que u ∈ C m−1,1− p (R) e,

kuk 1
m−1,1− p ≤ 3||u||W m,p (R)
C (R)
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
128 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

ou seja,
1
W m,p (R) ,→ C m−1,1− p (R).

Para finalizar a demonstração deste item resta-nos provar que:


1
W m,p (R) ,→ C m−1,λ (R); 0<λ≤1− ·
p

Com efeito, tal resultado segue diretamente da Proposição 3.11, que nos diz que:
1 1
C m−1,1− p (R) ,→ C m−1,λ (R); para todo 0 < λ ≤ 1 − ≤1
p

e pela transitividade temos o desejado.


Caso (ii) p = 1
De (3.73) vem que:
Z Z
0
|ϕ(y) − ϕ(x)| ≤ |ϕ (z)| χ]x,y[ (z) dz ≤ |ϕ0 (z)| dz = ||ϕ0 ||L1 (R) , ∀ x, y ∈ R. (3.83)
R R

Seja x ∈ R e I um intervalo tal que x ∈ I e med(I) = 1. Então de (3.74) obtemos:


Z Z

ϕ(x) − ϕ(z) dz ≤ |ϕ(x) − ϕ(z)| χI dz

I R

e de (3.83) podemos escrever


Z
ϕ(x) − ϕ(z) dz ≤ ||ϕ0 || 1 med(I) = ||ϕ0 ||L1 (R) .

L (R)
(3.84)
I

Logo, de (3.84) resulta que


Z Z
|ϕ(x)| ≤ ϕ(x) − ϕ(z) dz + |ϕ(z)| dz ≤ ||ϕ||L1 (R) + ||ϕ0 ||L1 (R) .

(3.85)
I I

Seja (ϕν ) nas condições de (3.78) e (3.79). Então de (3.85) com (Dj ϕν ) no lugar de ϕ
obtemos, na situação limite

|Dj u(x)| ≤ ||Dj u||L1 (R) + ||Dj+1 u||L1 (R) ≤ 2||u||W m,1 (R) (3.86)

quase sempre em R para todo j = 0, 1, . . . , m − 1.


Em particular,

|Dj ϕν (x) − Dj ϕµ (x)| ≤ 2||ϕν − ϕµ ||W m,1 (R) → 0 quando ν, µ → +∞


129

quase sempre em R para todo j = 0, 1, . . . , m − 1.


Desta forma, (Dj ϕν (x)) é uma sequência de Cauchy uniforme e portanto converge para
uma função vj (x), contı́nua, tal que vj (x) = Dj u(x) quase sempre em R, isto, para todo
j = 1, 2, . . . , m − 1. Assim, Dj u depois de uma modificação eventual em um conjunto de
medida nula converte-se numa função contı́nua. Disto e de (3.86) segue que u ∈ Cbm−1 (R)
e, além disso,
kukC m−1 (R) = max sup |Dj u(x)| ≤ 2||u||W m,1 (R)
b 0≤j≤m−1 x∈R

ou seja,
W m,1 (R) ,→ Cbm−1 (R)

o que prova o item (ii).


Caso (iii) p = +∞
Dado u ∈ W m,+∞ (R) então uj ∈ W 1,+∞ (R) para todo j = 0, 1, . . . , m − 1. Por outro
lado, sabemos que se v ∈ W 1,+∞ (R) então v possui um representante contı́nuo. Além
disso, para tal representante vale a relação:

Z y
v(x) − v(y) = v 0 (t) dt. (3.87)
x

Identificando-se (uj ) ao seu representante contı́nuo, tem-se imediatamente que (uj ) ∈


C 0 (R)2 , ∀ j = 0, 1, . . . , m − 1, i.é, u ∈ Cbm−1 (R). Portanto, segue da relação (3.87) que
Z y
j j
u (x) − u (y) = uj+1 (t) dt; j = 0, 1, . . . , m − 1, ∀ x, y ∈ R.
x

Donde:
Z y Z
j j j+1
|u (x) − u (y)| = |u (t)| dt ≤ |uj+1 (t)| χ]x,y[ (t) dt ≤ ||uj+1 ||L∞ (R) |x − y| (3.88)
x R

e, consequentemente,

|uj (x) − uj (y)|


≤ ||uj+1 ||L∞ (R) ≤ ||u||W m,∞ (R) , ∀ j = 0, 1, . . . , m − 1; ∀ x, y ∈ R, x 6= y.
|x − y|
(3.89)
2
Evidentemente temos que uj é limitada. Com efeito, seja vj o representante contı́nuo de uj . Se x é
ponto de coincidência das duas funções nada temos a provar. Agora se x é ponto onde elas diferem q.s.
então ∃ (xn ) tal que uj (xn ) é limitada e xn → x. Portanto vj (xn ) → vj (x) o que prova a limitação de uj .
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
130 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Logo:
|uj (x) − uj (y)|
max sup ≤ ||u||W m,∞ (R)
0≤j≤m−1 x,y∈R |x − y|
x6=y

donde se conclui que u ∈ C m−1 (R). Resta-nos provar que a imersão é contı́nua. Com
efeito, seja x ∈ R e I um intervalo contendo x e tal que med(I) = 1. Então para todo
j = 0, 1, . . . , m − 1 tem-se:
Z Z
j
j j
j

|u (x)| ≤ u (x) − u (z) dz + u (z) dz

I
Z ZI

≤ [uj (x) − uj (z)] dz + |uj (z)| dz

ZI Z I
≤ |uj (x) − uj (z)| dz + |uj (z)| dz
I Z I

≤ ||uj+1 ||L∞ (R) |x − z| dz + ||uj ||L∞ (R) med(I)


(3.88) I
j+1
≤ ||u ||L∞ (R) + ||uj ||L∞ (R) ≤ c1 ||u||W m,∞ (R) .

Desta forma,

|uj (x)| ≤ c1 ||u||W m,∞ (R) ; ∀ j = 0, 1, . . . , m − 1; ∀ x ∈ R. (3.90)

Portanto de (3.89) e (3.90) obtemos

|uj (x) − uj (y)|


||u||C m−1 (R) = max sup |uj (x)| + max sup
0≤j≤m−1 x∈R 0≤j≤m−1 x,y∈R |x − y|
x6=y
m−1
X
≤ c1 ||u||W m,∞ (R) + ||uj+1 ||L∞ (R) ≤ c||u||W m,∞ (R)
j=0

o que prova a continuidade da imersão.


2
Capı́tulo 4

PROPRIEDADES DO
PROLONGAMENTO

4.1 Prolongamento: Caso Ω = Rn+.

Muitos problemas da Fı́sica, Mecânica e Engenharia, são descritos por equações dife-
renciais parciais que se verificam em domı́nios limitados. Para estes tipos de problemas
precisamos ter resultados de imersão para W m,p (Ω), Ω limitado. Estes serão obtidos
com a introdução de um operador de prolongamento contı́nuo que permite prolongar
funções de W m,p (Ω) a W m,p (Rn ). Neste último espaço usamos os resultados de imersão
da seção anterior, depois restringimos as funções a Ω, e assim obtemos os resultados
desejados. Na resolução de equações diferenciais parciais não lineares que se verificam
em domı́nios limitados precisamos ter resultados de compacidade, ou seja, resultados que
nos permitam passar de convergências fracas num espaço de Sobolev em convergências
fortes em outro espaço de Sobolev de ordem menor; estes são conseguidos pelo teorema
de Rellich-Kondrachov que será apresentado na úlima seção deste capı́tulo.
Estamos interessados nos resultados de prolongamento para

Ω = Rn+ = {(x1 , . . . , xn ) ∈ Rn ; xn > 0}

e para Ω limitado “bem regular”. O conceito de “bem regular” será definido posterior-
mente, ainda neste parágrafo. Daremos em detalhes os resultados de prolongamento para
Ω = Rn+ e depois por cartas locais obteremos os resultados de prolongamento para Ω
limitado bem regular.

Definição 4.1 Representa-se por D(Ω) o conjunto formado pelas restrições a Ω de todas

131
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
132 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

as funções testes em Rn , i.é:

D(Ω) = ϕΩ ; ϕ ∈ D(Rn ) .


No que segue se x = (x1 , . . . , xn−1 , xn ) ∈ Rn e x0 = (x1 , . . . , xn−1 ) ∈ Rn−1 representaremos


x por (x0 , xn ).

Proposição 4.2 D(Rn+ ) é denso em W m,p (Rn+ ).

Demonstração: A demonstração consiste de duas etapas:


1a¯ Etapa: Truncamento
Esta etapa consiste em aproximar uma função de W m,p (Rn+ ) por funções do mesmo
espaço com suporte limitado. Seja então u ∈ W m,p (Rn+ ); então por truncamento tal
como se fez no Teorema 2.7, podemos aproximar u em W m,p (Rn+ ) por funções de suporte
limitado. Com efeito, seja θ ∈ D(Rn ) tal que θ = 1 na bola B1 (0) e θ = 0 fora da
x
bola B2 (0). Consideremos θk (x) = θ , k um número natural, e definamos uk (x) =
k
θk (x) u(x), x ∈ Rn+ . Então, repetindo os mesmos argumentos do Teorema 2.7, obtemos
que
uk → u em W m,p (Rn+ ).

Convém observar que

supp(uk ) ⊂ {x ∈ Rn ; xn > 0, ||x|| ≤ 2k} = Bk

onde Bk é um conjunto fechado em Rn+ mas que não é fechado em Rn .


2a¯ Etapa
Nesta etapa aproximaremos funções de W m,p (Rn+ ) com suporte limitado por restrições
de funções de W m,p (Rn ) ao Rn+ . De fato, seja u ∈ W m,p (Rn+ ) com suporte limitado. Nosso

objetivo é demonstrar a existência de funções wν ∈ W m,p (Rn ) tais que wν n → u em
R+
W m,p (Rn+ ).
Com efeito, seja K0 um compacto de Rn−1 e M > 0 tal que supp(u) ⊂ K0 × [0, M ] e
consideremos Ων , ν ∈ N, o aberto de Rn :
 
n 1
Ων = x ∈ R ; xn > − ·
ν

Para cada ν ∈ N consideremos ψν ∈ D(Rn ) tal que ψν = 1 em K0 × [0, M ] e além


disso supp(ψν ) ⊂ Ω2ν .
133

Consideremos as funções:

1
uν (x0 , xn ) = u x0 , xn + , ∀ x = (x0 , xn ) ∈ Ων
ν
vν (x) = ψν (x)uν (x), ∀ x = (x0 , xn ) ∈ Ων
wν (x) = ṽν (x)

onde ṽν denota o prolongamento de vν pondo-se zero fora de Ων . Temos as seguintes


propriedades:
1
i) Dα uν (x) = (Dα u) x0 , xn + quase sempre em Ων , para todo |α| ≤ m.
ν
1
De fato, seja ϕ ∈ D(Ων ) e consideremos ξ(x) = ϕ x0 , xn − para x ∈ Rn+ , então ξ ∈
ν
D(Rn+ ). Com efeito, notemos que ξ = ϕ ◦ φ onde φ : Rn+ → Ων é a translação definida por
1 1
φ(x) = x0 , xn − cuja inversa é φ−1 : Ων → Rn+ definida por φ−1 (x) = x0 , xn + . Não
ν ν
é difı́cil provar que supp(ξ) = φ−1 (supp(ϕ)) o que mostra que o supp(ξ) é um compacto
contido em Rn+ já que φ−1 é contı́nua e o supp(ϕ) é um compacto contido em Ων . Além
disso:
Z
α |α| α |α|
hD uν , ϕi = (−1) huν , D νi = (−1) uν (x)(Dα ϕ)(x) dx
ZΩν
1 α
= (−1)|α| u x0 , xn +
(D ϕ)(x0 , xn ) dx0 dxn
ν
ZΩν
1 0
= (−1)|α| u(x0 , yn )(Dα ϕ) x0 , yn − dx dyn
(yn =xn + ν1 ) Rn
+
ν
Z
|α|
= (−1) u(x0 , yn )(Dα ξ)(x0 , yn ) dx0 dyn
Rn
+
Z
= Dα u(x0 , yn )ξ(x0 , yn ) dx0 dyn
Rn
+
Z
1 1
= Dα u(x0 , xn + )ξ(x0 , xn + ) dx0 dxn
ν ν
ZΩν
1
(Dα u) x0 , xn + ϕ(x) dx

=
ν
ZΩν
= (Dα u ◦ φ−1 )ϕ(x) dx
Ων
= hD u ◦ φ−1 , ϕi
α

o que prova a afirmação feita em (i).



(ii) uν Rn → u em W m,p (Rn+ )
+
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
134 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Devemos mostrar que


X Z
lim |(Dα uν )(x) − (Dα u)(x)|p dx = 0.
ν→+∞ Rn
|α|≤m +

Com efeito, da parte (i) decorre que

1
Dα uν Rn = (Dα uν ) Rn = (Dα u) x0 , xn + ; ∀ (x0 , xn ) ∈ Ων

+ + ν
e portanto é suficiente provarmos que
X Z p
α 0 1  α

lim (D u) x , xn + − (D u)(x) dx = 0.
ν→+∞ Rn
ν
|α|≤m+

Pondo-se Dα u = w temos,
Z p Z p
0 1  0 1 
w x , xn + − w(x) dx ≤
w̃ x , xn + − w̃(x) dx.
n
R+
ν Rn
ν

1 1
= 00 , − então (τkν w̃)(x) = w̃(x − kν ) = w̃ (x0 , xn ) +

Sendo kν = 0, 0, . . . , 0, −
ν ν
1 1
00 , = w̃ x0 , xn + . Logo:
 
ν ν
Z p
0 1 
dx = kτkν w̃ − w̃kp p n → 0

w̃ x , xn + − w̃(x) L (R )
Rn
ν

já que a translação y 7→ τy v de Rn em Lp (Rn ) é contı́nua ∀ v ∈ Lp (Rn ). Isto prova a


afirmação feita em (ii).

(iii) wν ∈ W m,p (Rn ) e lim wν Rn = u em W m,p (Rn+ )
ν→+∞ +

De fato, temos:
1
(a) supp(uν ) = supp(τkν ũ) = 0, 0, . . . , 0, − + supp(u)
ν
1
⊂ 0, 0, . . . , 0, −
+ K0 × [0, M ]
ν
 1 1
= K0 × − , M −
ν ν

1 1
supp(ψν ) ⊂ Ω2ν = (x0 , xn ); xn > −
  
(b) = Rn−1 × − , +∞
2ν 2ν
Portanto, de (a) e (b) decorre que
 1 1
supp(vν ) ⊂ supp(uν ) ∩ supp(ψν ) ⊂ K0 × − ,M − ⊂ Ων
2ν ν
135

o que prova que supp(vν ) é um compacto de Ων . Resulta daı́ que vν ∈ W0m,p (Ων ) conforme
Proposição 2.8. Consequentemente podemos estender vν à todo o Rn e além disso, wν =
ṽν ∈ W m,p (Rn ) conforme Proposição 2.4.
Mostremos ainda que:

wν Rn = vν Rn = uν Rn
+ + +

De fato, sendo a primeira igualdade trivial, resta-nos provar a segunda. Inicialmente note
que Rn+ ⊂ Ων , ∀ν., e como
 1 1
vν : Ων → K ; supp(vν ) ⊂ K0 × − ,M − ⊂ Ων
2ν ν

considerando vν Rn , segue
+


(vν Rn )(x) 6= 0 ⇒ x ∈ Rn+ e x ∈ supp(vν )
+

1 1
⇒ x ∈ Rn+ ∩ K0 ×

,M − −
2ν ν
 1  
⇒ x ∈ K0 × 0, M − ⊂ K0 × 0, M
ν
De modo análogo, segue que
 
uν : Ων → K ; supp(uν ) ⊂ K0 × 0, M
 
Assim, se x ∈ Rn+ \K0 × 0, M , temos que

vν Rn (x) = uν Rn (x) = 0.
+ +

 
Se x ∈ K0 × 0, M , temos pela definição de ψν e de uν , que

vν Rn (x) = ψν Rn (x).uν Rn (x) = uν Rn (x)
+ + + +

donde concluı́mos o desejado.


Finalmente sejam u ∈ W m,p (Rn+ ) e ε > 0 dado. Da primeira etapa resulta a existência
de u1 ∈ W m,p (Rn+ ) tal que u1 tem suporte limitado e além disso,
ε
||u − u1 ||W m,p (Rn ) < ·
+ 3

Da segunda etapa, obtém-se a existência de u2 ∈ W m,p (Rn ) tal que,


ε
u2 Rn − u1 m,p n < ·

+ W (R+ ) 3
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
136 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Sendo D(Rn ) denso em W m,p (Rn ), existe ϕ ∈ D(Rn ) tal que,


ε
||ϕ − u2 ||W m,p (Rn ) < ·
3

Considerando ζ = ϕ Rn temos ζ ∈ D(Rn+ ) e
+

||u − ζ||W m,p (Rn ) ≤ ||u − u1 ||W m,p (Rn ) + ||u2 − u1 ||W m,p (Rn ) + ||u2 − ζ||W m,p (Rn )
+ + + +
ε ε ε ε ε
≤ + + ||ϕ − u2 ||W m,p (Rn ) < + + = ε.
3 3 3 3 3
2

Definição 4.3 Um operador P : W m,p (Ω) → W m,p (Rn ) é denominado um operador de


(m − p)-prolongamento relativo a Ω se P é linear e contı́nuo e P u = u quase sempre
em Ω, para todo u ∈ W m,p (Ω). Quando existir um tal operador P , diz-se que o aberto Ω
possui a propriedade do (m − p)-prolongamento.

Proposição 4.4 O semi-espaço Rn+ possui a propriedade do (m − p)-prolongamento para


todo m ≥ 1 e p ≥ 1.

Demonstração: Seja ϕ ∈ (.Rn+ ) e definamos a seguinte fun”cão:


 0
 ϕ(x , xn ),
 xn ≥ 0
m
(P ϕ)(x0 , xn ) = X

 cν ϕ(x0 , −νxn ), xn < 0
ν=1

onde cν são constantes a determiniar.


Seja α = (α0 , k) ∈ Nn onde α0 ∈ Nn−1 , k ∈ N e |α| ≤ m. temos três casos a considerar:
(i) α = (α0 , 0)

Afirmamos que Dα (P ϕ) = P (Dα ϕ), ∀ (x0 , xn ); xn 6= 0. Com efeito, temos:


 α 0
 (D ϕ)(x , xn ),
 xn > 0
m
Dα (P ϕ)(x0 , xn ) = X

 cν Dα [ϕ(x0 , −νxn )], xn < 0
ν=1

Entretanto, ϕ(x0 , −νxn ) = (ϕ◦φν )(x0 , xn ) onde φν : Rn− → Rn+ é definida por φν (x0 , xn ) =
∂ ∂ϕ 0
(x0 , −νxn ). Como (ϕ ◦ φν )(x0 , xn ) = (x , −νxn ) ∀ i = 1, 2, . . . , n − 1 obtemos:
∂xi ∂xi
m
X m
X
0
α
cν D [ϕ(x , −νxn )] = cν (Dα ϕ)(x0 , −νxn )
ν=1 ν=1
137

o que prova o desejado.


(ii) α = (0, k)

∂k ∂
Neste caso Dα (P ϕ) = k
(P ϕ). Pondo-se Dn = temos ∀(x0 , xn ); xn 6= 0:
∂xn ∂xn
0
 k
 (Dn ϕ)(x , xn ),
 xn > 0
m
Dα (P ϕ)(x0 , xn ) = Dnk (P ϕ)(x0 , xn ) = X

 cν Dnk [ϕ(x0 , −νxn )], xn < 0.
ν=1

∂ ∂ϕ 0
Notemos que se xn < 0, (ϕ ◦ φν )(x0 , xn ) = (−ν) (x , −νxn ) o que implica que
∂xn ∂xn
m
X m
X
cν Dnk [ϕ(x0 , −νxn )] = cν (−ν)k (Dnk ϕ)(x0 , −νxn )
ν=1 ν=1

e, portanto,
0
 k
 (Dn ϕ)(x , xn ),
 xn > 0
m
Dα (P ϕ)(x0 , xn ) = Dnk (P ϕ)(x0 , xn ) = X

 cν (−ν)k (Dnk ϕ)(x0 , −νxn ), xn < 0.
ν=1

De um modo geral seja α = (α0 , k) ∈ Nn onde α0 ∈ Nn−1 , k ∈ N e |α0 | + k ≤ m. Neste


0 0
caso, se xn < 0, Dα (P (ϕ) = Dnk Dα (P ϕ) = Dnk P (Dα ϕ). Assim,

Dα (P ϕ)(x0 , xn )

 (Dα ϕ)(x0 , xn ), xn > 0
m m
= 0
cν (−ν)k (Dnk Dα ϕ)(x0 , −νxn ) = cν (−ν)k (Dα ϕ)(x0 , −νxn ),
P P
 xn < 0
ν=1 ν=1

Notemos que a função Dα (P ϕ) é contı́nua em Rn exceto eventualmente nos pontos


(x0 , 0), x0 ∈ Rn−1 , ou seja, Dα (P ϕ) é contı́nua quase sempre em Rn posto que o con-
junto {(x0 , 0), x0 ∈ Rn−1 } tem medida nula em Rn . Desta forma, para garantirmos a
continuidade de (P ϕ) assim como de suas derivadas até a ordem m − 1, já que queremos
que (P ϕ) pertença a W m,p (Rn ), faremos algumas imposições sobre as constantes cν . Tal
preocupação se baseia no fato de que se uma função dá um “salto”, mesmo que finito,
sua derivada no sentido das distribuições não pertencerá a Lp (Rn ) posto que obtemos um
delta de Dirac.
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
138 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Seja então (x0 , xµn ) → (x0 , 0) quando µ → +∞, com xµn > 0. Temos:

Dα (P ϕ)(x0 , xµn ) = (Dα ϕ)(x0 , xµn ) → (Dα ϕ)(x0 , 0).

Consideremos, agora, (x0 , xµn ) → (x0 , 0) quando µ → +∞, com xµn < 0. Temos:

m
X m
X
Dα (P ϕ)(x0 , xµn ) = cν (−ν)k (Dα ϕ)(x0 , −νxµn ) → cν (−ν)k (Dα ϕ)(x0 , 0).
ν=1 ν=1

Gostarı́amos que:

m
X
cν (−ν)k (Dα ϕ)(x0 , 0) = Dα (P ϕ)(x0 , 0) = (Dα ϕ)(x0 , 0)
ν=1

o que nos leva a escolher as constantes cν de modo que:

m
X
cν (−ν)k = 1, ∀ k = 0, 1, . . . , m − 1.
ν=1

A existência de tais constantes fica assegurada pela existência de solução do seguinte


sistema:
     
1 1 ... 1 c1 1
 (−1) (−2) ... (−m)   c2  1
 ..  =  .. 
     
 .. .. .. .. 
 . . . .   .  .
(−1)m−1 (−2)m−1 . . . (−m)m−1 cm 1

pois o determinante da matriz acima é diferente de zero (convém observar que o determi-
nante acima é o determinante de Vandermonde).
Sendo assim, seja α = (α0 , k) ∈ Nn onde α0 ∈ Nn−1 , k ∈ N e |α| ≤ m. Então:
(i) Se k 6= m temos que Dα (P ϕ) é contı́nua e com suporte compacto no Rn .
(ii) Se k = m (e portanto α0 = 0) temos que Dα (P ϕ) é contı́nua q.s. e com suporte
compacto no Rn .
Provaremos, a seguir que Dα (P ϕ) ∈ Lp (Rn ). Com efeito, inicialmente provaremos que:


T ∂u = Tu , ∀ u ∈ C 1 (Rn+ ) ∩ C 1 (Rn− ) ∩ C00 (Rn ) (4.1)
∂xn ∂xn

onde a primeira derivada é clássica e a segunda distribucional.


139

De fato, para ϕ ∈ D(Rn ) temos,

  Z Z Z
∂u ∂u ∂u
T ∂u ,ϕ = ϕ dx = ϕ dx + ϕ dx
∂xn
Rn ∂xn Rn +
∂xn Rn−
∂xn
Z Z +∞ Z Z 0
∂u 0 ∂u
= ϕ dxn dx + ϕ dxn dx0
n−1 ∂x n n−1 −∞ ∂x n
Z
R
0 R
Z +∞ 
0 0 ∂ϕ
= − ϕ(x , 0)u(x , 0) − u dxn dx0
Rn−1 0 ∂xn
Z  Z 0 
0 0 ∂ϕ
+ ϕ(x , 0)u(x , 0) − u dxn dx0
Rn−1 −∞ ∂x n
Z Z +∞ Z Z 0
∂ϕ 0 ∂ϕ
= − u dxn dx − u dxn dx0
n−1 0 ∂x n Rn−1 −∞ ∂x n
ZR
∂ϕ ∂ϕ ∂
dxn dx0 = − Tu ,



= − u = Tu , ϕ
Rn ∂xn ∂xn ∂xn


o que prova a afirmação feita em (4.1). Resulta daı́ e do fato que Tu = T ∂u distribu-
∂xn ∂xn
cionalmente que a derivada clássica e a distribucional coincidem.
Desta forma, ∀ α = (α0 , k), k 6= m as derivadas clássicas Dα (P ϕ) são contı́nuas
e portanto Dα−1 (P ϕ) ∈ C01 (Rn ) (note-se que Dα (P ϕ) tem suporte compacto), o que
implica que as derivadas clássicas coincidem com as derivadas no sentido das distribuições.
∂m
Logo, Dα (P ϕ) ∈ Lp (Rn ). Agora, se α = (0, k) isto é, Dα (P ϕ) = (P ϕ), então
∂xmn
∂m ∂ m−1
(P ϕ) é contı́nua q.s. e (P ϕ) ∈ C00 (Rn ). Assim, de acordo com (4.1) temos
∂xm
n ∂xm−1
n
∂m
que (P ϕ) ∈ Lp (Rn ) no sentido das distribuições.
∂xmn
Mostraremos, agora, que o operador P que é claramente linear é também contı́nuo.
Com efeito, temos,

Z Z Z
α p α p
|D (P ϕ)| dx = |D (P ϕ)| dx + |Dα (P ϕ)|p dx
Rn Rn
+ Rn

Z Z
= |Dα ϕ|p dx + |Dα (P ϕ)|p dx (4.2)
Rn
+ Rn

p
Z Xm Z
= |Dα ϕ|p dx + cν (−ν)k (Dα ϕ)(x0 , −νxn ) dx


Rn
+ Rn
− ν=1

p
Z Z 0 Z Xm
= |Dα ϕ|p dx + cν (−ν)k (Dα ϕ)(x0 , −νxn ) dx0 dxn .


Rn
+ −∞ Rn−1 ν=1
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
140 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Fazendo-se uma mudança de variável na última integral, a saber, zn = −νxn , obtemos


p
Z 0 Z X m
cν (−ν) (D ϕ)(x , −νxn ) dx0 dxn
k α 0


−∞ Rn−1 ν=1
p

Z +∞ Z m
X 1
= cν (−ν) (D ϕ)(x , zn ) dx0 dzn .
k α 0
(4.3)

ν

0 Rn−1 ν=1

Usando também o fato que


p
X m Xm
p p p
ui (x) ≤ m max(|ui (x)| ) ≤ m |ui (x)|p


ν=1 ν=1

resulta de (4.3) que


m p
Z +∞ Z
0 1
X
k α 0
c (−ν) (D ϕ)(x , zn dx
) dzn

ν
ν

0 Rn−1 ν=1
Z +∞ Z X m
≤ m p
cpν |(−ν)|kp−1 |(Dα ϕ)(x0 , zn )|p dx0 dzn (4.4)
0 Rn−1 ν=1
Z +∞ Z
≤ c1 |(Dα ϕ)(x0 , zn )|p dx0 dzn ; ∀ |α| ≤ m.
0 Rn−1

Logo de (4.2) e (4.4) obtemos


Z Z Z Z
α p α p α p
|D (P ϕ)| dx ≤ |D ϕ| dx + c1 |D ϕ| dx ≤ c2 |Dα ϕ|p dx.
Rn Rn
+ Rn
+ Rn
+

Donde,
||P ϕ||W m,p (Rn ) ≤ c||ϕ||W m,p (Rn ) ; ∀ ϕ ∈ D(Rn+ ).
+

Como D(Rn+ ) é denso em W m,p (Rn+ ) podemos estender P continuamente à


W m,p (Rn+ ) ou seja, existe um único operador Pe : W m,p (Rn+ ) → W m,p (Rn ) linear e contı́nuo
tal que Pe|D(Rn ) = P . Resta-nos provar que (Peu)(x) = u(x) para quase todo x ∈ Rn+ .
+

Com efeito, seja u ∈ W m,p (Rn+ ). Pela densidade de D(Rn+ ) em W m,p (Rn+ ) existe
(ϕν ) ⊂ D(Rn+ ) tal que ϕν → u em W m,p (Rn+ ) quando ν → +∞. Por outro lado, como
Pe : W m,p (Rn+ ) → W m,p (Rn ) é contı́nuo, segue que Peϕν → Peu em W m,p (Rn ) e pelo fato
de Peϕν | n = ϕν , temos que ϕν → Peu| n em W m,p (Rn+ ). Pela unicidade do limite vem
R+ R+

que Peu|Rn = u em W m,p (Rn+ ) e sendo assim, (Peu)(x) = u(x) para quase todo x ∈ Rn+ . 2
+
141

4.2 Prolongamento: Caso Ω limitado bem regular


Diremos que o aberto Ω é bem regular se sua fronteira Γ é uma variedade de classe C ∞
de dimensão n − 1, Ω estando localmente do mesmo lado de Γ. Não são bem regulares
os seguintes abertos:

onde r > 0 e

Ω1 = {(x, y) ∈ R2 ; x2 + y 2 < r2 }\{(0, 0)}


Ω2 = {(x, y) ∈ R2 ; x2 + y 2 < r2 }\{(x, y) ∈ R2 ; 0 ≤ x < r e y = 0}.

No primeiro exemplo Ω é o disco aberto menos o centro (0, 0) e no segundo exemplo


Ω é o disco aberto menos o raio. Claramente Rn+ é um aberto bem regular.
Seja Ω bem regular, Q o retângulo aberto:

Q = {y ∈ Rn ; 0 < yi < 1, i = 1, 2, . . . , n − 1, −1 < yn < 1}

Q+ e Q− os quadrados abertos:

Q+ = Q ∩ {yn > 0}, Q− = Q ∩ {yn < 0}

e Σ a hiperfı́cie:
Σ = Q ∩ {yn = 0}.

Consideremos x um ponto de Γ. Então existem uma vizinhança aberta limitada Ux


em Rn de x e uma aplicação ϕx : Ux → Q tal que:

(1) ϕx é uma bijeção de Ux sobre Q;

(2) ϕx e ϕ−1
x possuem derivadas parciais contı́nuas de todas as ordens;

(3) ϕx (Ux ∩ Ω) = Q+ , ϕx (Ux ∩ Rn \Ω) = Q− , ϕx (Ux ∩ Γ) = Σ.

As duas primeiras condições acima expressam que a aplicação ϕx : Ux → Q é um difeomor-


fismo de classe C ∞ . Além disso, temos também a seguinte condição de compatibilidade:

(4) Sejam (U1 , ϕ1 ) e (U2 , ϕ2 ) satisfazendo as condições (1) a (3) e tais que U1 ∩ U2 6= ∅.
Então existe um homeomorfismo diferenciável J12 de ϕ1 (U1 ∩ U2 ) sobre ϕ2 (U1 ∩ U2 ),
com jacobiano positivo, tal que ϕ2 (x) = J12 (ϕ1 (x)), ∀ x ∈ U1 ∩ U2 .
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
142 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Graficamente terı́amos:

As condições acima são uma conseqüência direta da definição de bem regular para Ω.

Seja Ω bem regular; diremos que a famı́lia (Ui , ϕi ) i∈Ξ é um “sistema de cartas locais”
S
para sua fronteira Γ se Γ ⊂ Ui ; para todo i ∈ Ξ, o par (Ui , ϕi ) satisfaz as condições
i∈Ξ
(1) a (3) acima e, além disso, se Ui ∩ Uj 6= ∅ então os pares (Ui , ϕi ) e (Uj , ϕj ) satisfazem
a condição de compatibilidade dada em (4).
No que segue consideraremos Ω um conjunto aberto limitado bem regular. Nosso
próximo objetivo será mostrar que Ω possui a propriedade do (m−p) prolongamento. Isto
será feito usando o método de cartas locais. Antes, porém, faremos algumas considerações
e provaremos alguns resultados que serão cruciais para demonstrarmos o desejado.
Notemos que sendo Ω um conjunto limitado, sua fronteira Γ é um compacto de Rn e,

por conseguinte, existirá um sistema finito de cartas locais (Ui , ϕi ) 1≤i≤k para a fron-
teira Γ de Ω. De posse destas cartas locais, construı́mos uma partição C ∞ da unidade
k
S
subordinada à cobertura aberta (Ui ) ∪ Ω do aberto Ui ∪ Ω que contém Ω. Denotaremos
i=1
por θ0 , θ1 , . . . , θk as funções desta partição. Sendo assim, temos:

θi ∈ C0∞ (Rn ), ∀ i = 0, 1, . . . , k

supp(θ0 ) ⊂ Ω, supp(θi ) ⊂ Ui , ∀ i = 1, . . . , k

0 ≤ θi ≤ 1, ∀ i = 0, 1, . . . , k (4.5)

k
X
θi (x) = 1, ∀ x ∈ Ω.
i=0

Seja u uma função definida em Ω. Representaremos por S(u) a aderência no Rn do


conjunto {x ∈ Ω; u(x) 6= 0}. Observemos que:

supp(u) ⊂ S(u). (4.6)

Com efeito, lembremos que supp(u) = Ω\O onde O é o maior aberto contido em Ω
para o qual u se anula quase sempre. Assim, para provarmos (4.6) basta provarmos que:

(Rn \S(u)) ∩ Ω ⊂ O. (4.7)


143

Seja, então, x ∈ (Rn \S(u)) ∩ Ω. Então x ∈ Ω e x ∈


/ {x ∈ Ω; u(x) 6= 0}. Logo, existe
r > 0 tal que:
Br (x) ∩ {x ∈ Ω; u(x) 6= 0} = ∅

o que implica que u(y) = 0, ∀ y ∈ Br (x). Em particular, (Br (x) ∩ Ω) é um aberto para
o qual u se anula o que nos leva a concluir que (Br (x) ∩ Ω) ⊂ O e por conseguinte que
x ∈ O, o que prova (4.7).
k
Consideremos u ∈ W m,p (Ω). Então u = uθ0 +
P
uθi . De posse do sistema cartas
i=1
locais acima definido, ponhamos, para cada i = 1, . . . , k:

wi : Ω → K
x 7→ u(x)θi (x).

Evidentemente wi ∈ W m,p (Ω) pois:


X X
kDα (uθi )kpLp (Ω) ≤ C kDα ukpLp (Ω) .
|α|≤m |α|≤m

Notemos que:

S(wi ) = S(uθi ) ⊂ S(u) ∩ S(θi ) ⊂ S(u) ∩ supp(θi ) ⊂ Ω ∩ Ui (4.8)

o que prova ser S(wi ) um compacto do Rn contido em Ui . Logo, d(S(wi ), Rn \Ui ) > 0, e
consequentemente S(wi ) não intercepta ∂Ui , onde ∂Ui = fronteira de Ui . Por muito mais
forte razão (cf. (4.6)) supp(wi ) também não intercepta ∂Ui .
Definamos, agora, para cada i = 1, . . . , k a seguinte aplicação:

vi : Q+ → K
y 7→ wi (ϕ−1
i (y)).

Afirmamos que:
S(vi ) = ϕi (S(wi )). (4.9)

De fato, seja y ∈ S(vi ). Então existe (yν ) ⊂ Q+ tal que yν → y e vi (yν ) 6= 0. Contudo,
existe x ∈ Ui tal que y = ϕi (x). Afirmamos que x ∈ S(wi ). Com efeito, temos:

xν = ϕ−1 −1
i (yν ) → ϕi (y) = x, xν ∈ Ui ∩ Ω

e além disso, wi (xν ) = wi (ϕ−1


i (yν )) = vi (yν ) 6= 0. Logo, y ∈ ϕ(S(wi )).
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
144 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Reciprocamente, seja y ∈ ϕi (S(wi )). Então, y = ϕi (x), para algum x ∈ S(wi ). Logo,
existe uma sequência (xν ) ⊂ Ui tal que xν → x com wi (xν ) 6= 0. Assim,

yν = ϕi (xν ) → ϕi (x) = y, yν ∈ Q+

e além disso, vi (yν ) = wi (ϕ−1


i (yν )) = wi (xν ) 6= 0. Portanto, y ∈ S(vi ) o que prova (4.9).

Ora, sendo ϕi : Ui → Q uma função contı́nua e S(wi ) um compacto contido em Ui (cf.


(4.8)) segue de (4.9) que S(vi ) é um compacto contido em Q. Logo, d(S(vi ), Rn \Q) > 0
o que mostra que S(vi ) não intercepta ∂Q, onde ∂Q é a fronteira de Q.

Lema 4.5 Seja u ∈ W m,p (Ω) e vi e wi nas condições anteriores. Então; vi ∈ W m,p (Q+ ) ;
e existe C(Ui , ϕi , θi ) > 0 tal que:

||vi ||W m,p (Q+ ) ≤ C(Ui , ϕi , θi ) ||wi ||W m,p (U + )


i

onde Ui+ = Ui ∩ Ω. Além disso, ṽi ∈ W m,p (Rn+ ) onde ṽi é a extensão em Rn+ pondo-se
zero fora de Q+ .

Demonstração: A afirmação: vi ∈ W m,p (Q+ ), pode ser verificada considerando-se um


aberto Ui0 limitado, contido em Ui e contendo S(wi ) de modo que ϕi ∈ [L∞ (Ui0 )]n×n bem
como todas as suas derivadas. Desta forma, segue da fórmula de mudança de variáveis
(cf. Proposição (2.21)) que a função vi0 = vi |ϕi (Ui0 ∩Ω) pertence a W m,p (ϕi (Ui0 ∩ Ω)) donde
podemos concluir que vi = ṽi0 ∈ W m,p (Q+ ).
Sendo assim, basta verificarmos a desigualdade. Para isso, definamos

A(x) = | det(Jϕi (x))|, x ∈ Ui ,



onde Jϕi (x) é a matriz jacobiana do difeomorfismo ϕi : Ui → Q. Evidentemente A(x) >
0, uma vez que ϕ0 (x) é um isomorfismo, ∀ x ∈ Ui . Temos:


Z Z Z
p p
|vi (y)| dy = |vi (ϕi (x))| A(x) dx = |wi (x)|p A(x) dx
+ + +
Q U U
Z i i Z
p
= |wi (x)| A(x) dx ≤ max A(x) |wi (x)|p dx. (4.10)
supp(wi ) x∈supp(θi ) Ui+

Por outro lado, pondo-se:

x = ϕ−1
i (y) = (β1 (y), . . . , βn (y))
145

temos
n
∂vi ∂ X ∂wi ∂βk
(y) = (wi ◦ ϕ−1
i )(y) = (ϕ−1
i (y)) (y).
∂yj ∂yj k=1
∂y k ∂y j

Da mesma forma
Z p Z X n p p
∂vi p
∂wi −1 ∂βk
(y) dy ≤ n
(ϕi (y)) (y) dy
Q+ ∂yj Q+ k=1 ∂yk ∂yj

n Z
p ∂βk p

p
X ∂wi
=n (x)
(ϕi (x)) A(x) dx
+ ∂yk ∂y
j
k=1 U i
p  X n Z
∂wi p
 
p
∂βk
≤n max A(x) max max (ϕi (x)) (x) dx. (4.11)
x∈supp(θi ) k x∈supp(θi ) ∂yj U + ∂yk

k=1 i

Analogamente
n
∂ 2 vi

  
∂ ∂vi X ∂ ∂wi −1 ∂βk
(y) = (y) = (ϕi (y)) (y)
∂yr ∂yj ∂yr ∂yj k=1
∂y r ∂y k ∂y j
n 
∂ 2 βk
  
X ∂ ∂wi −1 ∂βk ∂wi −1
= (ϕi (y)) (y) + (ϕi (y)) (y) . (4.12)
k=1
∂y r ∂y j ∂y j ∂y k ∂y r ∂yj

Contudo,
n
∂ 2 wi
  X
∂ ∂wi −1 ∂βq
(ϕi (y)) = (ϕ−1
i (y)) (y)
∂yr ∂yj q=1
∂yq ∂yk ∂yr

e de (4.12) vem que


n n n
∂ 2 vi ∂ 2 wi ∂ 2 βk
X 
X ∂βq ∂βk X ∂wi −1
(y) = (ϕ−1
i (y)) (y) (y)x + (ϕi (y)) (y).
∂yr ∂yj k=1 q=1
∂yq ∂yk ∂yr ∂yj k=1
∂y k ∂y r ∂yj

Por um procedimento análogo à parte acima, obtemos:


p
∂ 2 wi p ∂wi p
2
X

X
Z
∂ vi
(y) dy ≤ C(Ui , ϕi , θi )
+ C(Ui , ϕi , θi ) .
+ ∂yr ∂yj
∂xq ∂xk p ∂xk p
Q q,k L (Ui+ ) k L (Ui+ )

Repetindo os mesmos argumentos obtemos desigualdades do mesmo tipo para as outras


derivadas parciais de vi . Resta-nos provar que ṽi ∈ W m,p (Rn+ ). De fato:
Seja ρ ∈ C0∞ (Rn ) tal que supp(ρ) ⊂ Q e ρ = 1 em S(vi ) e consideremos ϕ ∈ D(Rn+ ).
Então:
supp(ϕρ) ⊂ supp(ϕ) ∩ supp(ρ) ⊂ Q ∩ Rn+ = Q+ .
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
146 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Contudo, é bom observar que (D α v ) ∈ Lp (Rn ) uma vez que D α v ∈ Lp (Q+ ). Assim,
] i + i

se provarmos que (D ] α vi ) = D ṽi segue o desejado. Com efeito, ∀ ϕ ∈ D(Rn+ ), temos


α

Z
α |α| α |α|
hD ṽi , ϕi = (−1) hṽi , D ϕi = (−1) ṽi Dα ϕ dx
Rn
+
Z Z
|α| α |α|
= (−1) vi D ϕ dx = (−1) vi Dα (ϕρ) dx
Q+ Q+
|α| α α
= (−1) hvi , D (ϕρ)|Q+ i = hD vi , ϕρi
Z Z
α
= D vi ϕρ dx = Dα vi ϕ dx
+ Q+
ZQ
= (D
] α v ) ϕ dx = h(D
] α v ), ϕi.
i i
Rn
+

Portanto, Dα ṽi = (D
] α v ) o que implica que ṽ ∈ W m,p (Rn ) como querı́amos demon-
i i +
strar. 2

Lema 4.6 Seja W o espaço das funções g ∈ W m,p (Q+ ) tais que todas elas se anulam em
uma vizinhança fixa O de ∂Q+ \Σ. Definamos:

hi (x) = g(ϕi (x)); x ∈ Ui+ .

Então, hi ∈ W m,p (Ui+ ) e existe uma constante C(O, ϕi ) > 0, independente de g ∈ W


tal que:
||hi ||W m,p (Ui+ ) ≤ C(O, ϕi ) ||g||W m,p (Q+ ) .

Além disso, h̃i ∈ W m,p (Ω), onde h̃i é a extensão de hi nula em Ω\Ui+ .

Demonstração: Seja B(y) = | det Jϕ−1 i (y)|. Então, B(y) > 0, ∀ y ∈ Q posto que
−1 0

(ϕi ) (y) é um isomorfismo. Analogamente ao que fizemos no item anterior temos,
Z Z Z
p −1 p
|hi (x)| dx = |hi (ϕi (y))| B(y) dy = |g(y)|p B(y) dy
+
Ui Q+ supp(g)
 Z
≤ sup B(y) |g(y)|p dy.
y∈Q+ \O Q+

Se procedermos como no lema anterior, obtemos uma constante C(O, ϕi ) > 0, inde-
pendente de g ∈ W tal que

||hi ||W m,p (U + ) ≤ C(O, ϕi ) ||g||W m,p (Q+ ) .


i
147

Para provarmos que h̃i ∈ W m,p (Ω) basta considerarmos, conforme no lema anterior,
uma aplicação ρ ∈ C0∞ (Rn ) tal que ρ = 1 em uma vizinhança do S(hi ). Assim, se
ϕ ∈ D(Ω) obtemos de maneira análoga:

hDα h̃i , ϕi = h(D


] α h ), ϕi
i

o que prova o desejado. 2

Observação 4.7 Se em lugar de Q+ considerarmos Q e fixarmos uma vizinhança O de


∂Q obtemos, de forma análoga o seguinte resultado:

Corolário 4.8 Nas condições anteriores hi ∈ W m,p (Ui ) e existe uma constante
C(O, ϕi ) > 0, independente de g ∈ W tal que:

||hi ||W m,p (Ui ) ≤ C(O, ϕi ) ||g||W m,p (Q) .

Teorema 4.9 Seja Ω aberto limitado bem regular. Então D(Ω) é denso em W m,p (Ω).

Demonstração: Seja u ∈ W m,p (Ω). Então, por cartas locais podemos escrever:
k
X
u = uθ0 + uθi .
i=1

Ponhamos, como antes

wi = uθi e vi = wi ◦ ϕ−1
i .

Como supp(θ0 ) ⊂ Ω, então,

supp(w0 ) = supp(uθ0 ) ⊂ supp(u) ∩ supp(θ0 ) ⊂ supp(θ0 ) ⊂ Ω

e consequentemente temos que w0 ∈ W0m,p (Ω).


Consideremos para i = 1, 2, . . . , k:
em Q+
(
vi
ṽi =
0 em Rn+ \Q+ .

De acordo com o Lema 4.5, ṽi ∈ W m,p (Rn+ ). Logo, existem (ψi,ν ) ⊂ D(Rn+ ) e (ηi,ν ) ⊂
D(Rn ) tal que ηi,ν |Rn = ψi,ν :
+

ψi,ν → ṽi em W m,p (Rn+ ) quando ν → +∞. (4.13)


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
148 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Consideremos, agora, ρ ∈ C0∞ (Rn ) tal que supp(ρ) ⊂ Q e ρ = 1 em uma vizinhança


do S(vi ). Logo,

ρψi,ν → ρṽi em W m,p (Rn+ ) quando ν → +∞. (4.14)

Com efeito, temos de acordo com a fórmula de Leibniz que


p
X α
|Dα (ρψi,ν − ρṽi )|p = Dβ ρDα−β (ψi,ν − ṽi )


β≤α
β
X α  
≤ C(p) |Dβ ρ|p |Dα−β (ψi,ν − ṽi )|p .
β≤α
β

Logo, para todo α ∈ Nn ; |α| ≤ m, e de acordo com a convergência em (4.13) obtemos


Z XZ
α p m
|D (ρψi,ν − ρṽi )| dx ≤ 2 C(p) |Dβ ρ|p |Dα−β (ψi,ν − ṽi )|p dx
Rn
+ β≤α Rn
+
 XZ
γ p
≤ C(p, m) max sup |D ρ(x)| |Dα−β (ψi,ν − ṽi )|p dx → 0
|γ|≤m x∈Rn Rn
β≤α +

quando ν → +∞, o que prova a afirmação em (4.14). Resulta imediatamente de (4.14)


que:
(ρψi,ν )|Q+ → (ṽi )|Q+ em W m,p (Q+ ). (4.15)

Contudo, para todo ν ∈ N temos,

supp(ρψi,ν ) ⊂ supp(ρ) ⊂ Q

o que implica que, para cada ν ∈ N, o supp(ρψν ) é um compacto contido em Q. Além


disso, como supp(ρψi,ν ) ⊂ supp(ρ) então, qualquer que seja ν, temos a existência de uma
vizinhança V de ∂Q tal que supp(ρ) ∩ V = ∅ e, portanto,

supp(ρψi,ν ) ∩ V = ∅

∀ ν ∈ N. Pondo-se:
gi,ν (y) = vi (y) − (ρψi,ν )(y); y ∈ Q+

temos ainda que ∀ ν ∈ N:

supp(gi,ν ) ⊂ supp(vi ) ∪ supp(ρψi,ν ) ⊂ S(vi ) ∪ supp(ρ) ⊂ Q

o que implica que supp(gi,ν ) é, para todo ν, um subconjunto compacto contido em Q e,
pelos mesmos argumentos expostos anteriormente, temos a existência de uma vizinhança
149

O de ∂Q tal que, ∀ ν ∈ N, todas as (gi,ν ) se anulam nesta vizinhança. Pondo-se para cada
ν:
ξi,ν (x) = (ρηi,ν )(ϕi (x)), x ∈ Ui

temos de acordo com o Lema 4.6 que, para todo x ∈ Ui+ :

hi,ν (x) = gi,ν (ϕi (x)) = vi (ϕi (x)) − (ρψiν )(ϕi (x)) = wi (x) − ξi,ν (x)

é para cada ν, uma função pertencente a W m,p (Ui+ ). Além disso, ∃ C(ϕi , O) > 0 tal que

||hi,ν ||W m,p (U + ) ≤ C(O, ϕi ) ||gi,ν ||W m,p (Q+ )


i

ou, equivalentemente, que

||wi − ξi,ν ||W m,p (U + ) ≤ C(O, ϕi ) ||vi − ρψi,ν ||W m,p (Q+ ) .
i

Segue da desigualdade acima e da convergência em (4.15) que

ξi,ν |U + → wi em W m,p (Ui+ ). (4.16)


i

m,p
i − ξi,ν ) ∈ W
Contudo, temos ainda do Lema 4.6 que (w^ i − ξi,ν ) repre-
(Ω), onde (w^
senta a extensão de (wi − ξi,ν ) nula em Ω\Ui+ . Assim, pelo fato de:

||(w^
i − ξi,ν )||W m,p (Ω) = ||wi − ξi,ν ||W m,p (U + )
i

resulta da convergência em (4.16) que

em W m,p (Ω)

ξ^
i,ν |U + → wi (4.17)
i

onde a extensão acima é em relação a Ω.


Convém observar que pelo fato de

supp(ξi,ν ) = ϕ−1
i [supp(ρηi,ν )]

e uma vez que supp(ρηi,ν ) é um compacto do Rn contido em Q então o supp(ξi,ν ) é


um compacto do Rn contido em Ui e portanto ξi,ν pode ser estendida zero fora de Ui .
Consequentemente ξ˜i,ν ∈ D(Rn ), isto para todo i = 1, 2, . . . , k.
Por outro lado, como w0 ∈ W0m,p (Ω) então, ∃ (ξ0,ν ) ⊂ D(Ω) tal que:

ξ0,ν → w0 em W m,p (Ω). (4.18)


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
150 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Denotando-se por ξ˜0,ν a extensão de ξ0,ν nula fora de Ω temos ξ˜0,ν ∈ D(Rn ) e pondo-se:

ξν = ξ˜0,ν + ξ˜1,ν + · · · + ξ˜k,ν


k
então, evidentemente ξν ∈ D(Rn ) e do fato que u = uθ0 +
P
uθi e além disso face as
i=1

convergências em (4.17), (4.18) e do fato que ξ˜i,ν |Ω = ξ^



i,ν |U + resulta que
i

ku − ξν kW m,p (Ω)

≤ w0 − ξ˜0,ν |Ω + w1 − ξ˜1,ν |Ω + · · · + wk − ξ˜k,ν |Ω →0

W m,p (Ω) W m,p (Ω) W m,p (Ω)

quando ν → +∞ o que encerra a prova do teorema. 2

Teorema 4.10 Seja Ω um subconjunto aberto limitado bem regular do Rn . Então Ω tem
a propriedade do (m − p) prolongamento com relação à todo m ≥ 1 e p ≥ 1.

Demonstração: Seja ϕ ∈ D(Ω). Então existe ψ ∈ C0∞ (Rn ) tal que ψ|Ω = ϕ.
Para cada i = 1, 2, . . . , k, definamos:

ξi (y) = (ψθi )(ϕ−1


i (y)), y ∈ Q,

onde θi e ϕi são dados como no começo desta seção.


Como,
supp(ψθi ) ⊂ supp(θi ) ⊂ Ui

resulta que o supp(ψθi ) é um compacto contido em Ui .


Agora, pelo fato de
ϕi [supp(ψθi )] = supp(ξi )

e ϕi é por sua vez um difeomorfismo vem que o supp(ξi ) é um compacto contido em Q.


Desta forma, denotando-se por ξ˜i a extensão de ξi pondo-se zero fora de Q concluı́mos
que ξ˜i ∈ C0∞ (Rn ) e consequentemente:

ξ˜i |Rn ∈ D(Rn+ ).


+

Por outro lado, sabemos (cf. Proposição 4.4) que o Rn+ possui a propriedade do
(m − p)-prolongamento. Mais precisamente, existe um operador linear e contı́nuo:

P : W m,p (Rn+ ) → W m,p (Rn ) (4.19)


151

tal que (P v)|Rn = v, ∀ v ∈ W m,p (Rn+ ).


+

Em particular, para cada i = 1, 2, . . . , k, temos



P ξ˜i |Rn = ξ˜i e P ξ˜i |Rn ≤ C||ξ˜i ||W m,p (Rn )

(4.20)

+ + W m,p (Rn ) +

onde C > 0 é uma constante que independe de i.


Definamos, para cada i = 1, 2, . . . , k:

Pi (ϕθi )(x) = P ξ˜i |Rn (ϕi )(x),



x ∈ Ui (4.21)
+

e
P0 (ϕθ0 )(x) = (ϕθ0 )(x), x ∈ Ω. (4.22)

Considerando-se o operador dado em (4.19) como sendo aquele obtido na Proposição


4.4 e obervando-se que ξ˜i possui suporte compacto contido em Q, afirmamos que P ξ˜i | n

R+
também possui suporte compacto contido em Q. Com efeito, da Proposição 4.4, tı́nhamos


 ξ˜i Rn (x0 , xn ) se xn ≥ 0
 +

P ξ˜i Rn (x , xn ) = X
 0
m
+ 
 cν ξ˜i |Rn (x0 , −νxn ) se xn < 0
 +
ν=1

Ponhamos:
K = supp(ξ˜i ).
+
Denotando-se por K + a restrição à Q e por K − o conjunto obtido por reflexão de
K + em relação ao Rn−1 temos para xn < 0:
X m  [m
cν ξ˜i |Rn (x , −νxn ) ⊂
0 ˜ n (x0 , −νxn ) ⊂ K − .

supp supp ξ|R
+ +
ν=1 ν=1

Donde,
supp P (ξ˜i |Rn ) ⊂ K + ∪ K − ⊂ Q

+

o que prova a afirmação. Resulta daı́ e do fato que

S(Pi (ϕθi )) = ϕ−1 ˜i | n )) ,


 
i S(P (ξ R +

que S(Pi (ϕθi )) é um conjunto compacto do Rn contido em Ui .


Agora, como P ξ˜i |Rn ∈ W m,p (Q) vem de (4.21) que Pi (ϕθi ) ∈ W m,p (Ui ) e do exposto

+

acima podemos estender Pi (ϕθi ) pondo-se zero fora de Ui , à uma aplicação Pei (ϕθi ) ∈
W m,p (Rn ). Temos que:
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
152 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV


Pi (ϕθi ) = kPi (ϕθi )kW m,p (Ui ) ≤ C(O, ϕi ) P ξ˜i |Rn
e
wm,p (Rn ) + W m,p (Q)

= C(O, ϕi ) P ξ˜i |Rn ≤ C 0 (O, ϕi ) kξ˜i kW m,p (Rn )

+ W m,p (Rn ) +

0
= C (O, ϕi ) kξi kW m,p (Q+ )

e do Lema 4.5 a última expressão ainda é menor que

C(O, Ui , ϕi , θi ) ||ϕθi ||W m,p (U + )


i

ou seja,
Pi (ϕθi ) ≤ C(O, Ui , ϕi , θi ) kϕθi kW m,p (U + ) . (4.23)
e
W m,p (Rn ) i

Pondo-se Pe0 (ϕθ0 ) a extensão de P0 (ϕθ0 ) nula fora de Ω definimos:

P ∗ ϕ = Pe0 (ϕθ0 ) + Pe1 (ϕθ1 ) + · · · + Pek (ϕθk ), ϕ ∈ D(Ω). (4.24)

Evidentemente P ∗ ϕ ∈ W m,p (Rn ). Além disso de (4.23) obtemos



kP ∗ ϕkW m,p (Rn ) ≤ Pe0 (ϕθ0 ) + Pe1 (ϕθ1 ) + · · · + Pek (ϕθk )

m,p n W (R ) m,p n W (R ) W m,p (Rn )
≤ kϕθ0 kW m,p (Ω) + C1 kϕθ1 kW m,p (U + ) + · · · + C1 kϕθk kW m,p (U + )
1
 k
≤ C2 kϕθ0 kW m,p (Ω) + kϕθ1 kW m,p (Ω) + · · · + kϕθk kW m,p (Ω) . (4.25)

Contudo, para cada i = 1, 2, . . . , k e ∀ |α| ≤ m, temos


X α X
α
|D (ϕθi )| ≤ |(Dα−β ϕ)(Dβ θi )| ≤ C3 |Dα−β ϕ| |Dβ θi |.
β≤α
β β≤α

Logo,
Z XZ XZ
α p α−β p β p
|D (ϕθi )| dx ≤ C4 |D ϕ| |D θi | dx ≤ C5 (θi ) |Dα−β ϕ|p dx (4.26)
Ω β≤α Ω β≤α Ω

e de (4.25) e (4.26) resulta que,

||P ∗ ϕ||W m,p (Rn ) ≤ C6 ||ϕ||W m,p (Ω) + ||ϕ||W m,p (Ω) + · · · + ||ϕ||W m,p (Ω)


ou seja,
||P ∗ ϕ||W m,p (Rn ) ≤ C ||ϕ||W m,p (Ω) .
153

Desta forma fica definida uma aplicação linear e contı́nua

P ∗ : D(Ω) → W m,p (Rn )


ϕ 7→ P ∗ ϕ

que por densidade podemos estender a uma aplicação linear e contı́nua:

Pe∗ : W m,p (Ω) → W m,p (Rn ). (4.27)

Resta-nos provar que:

(Pe∗ u)|Ω = u q.s. em Ω, ∀ u ∈ W m,p (Ω). (4.28)

Logo, ∃(ην ) ⊂ D(Ω) tal que

ην → u em W m,p (Ω) (4.29)

o que implica que


Pe∗ ην → Pe∗ u em W m,p (Rn ). (4.30)

Contudo, de (4.24) resulta que

Pe∗ ην = P ∗ ην = Pe0 (ην θ0 ) + Pe1 (ην θ1 ) + · · · + Pek (ην θk ).


k
S
Seja x ∈ Ω. Como Ω, U1 , . . . , Uk é uma cobertura de Ω resulta que x ∈ Ω ∪ Uj .
j=1
Sendo assim,
k
X
Pe∗ ην (x) = Pe0 (ην θ0 )(x) + Pej (ην θj )(x)
j=1

e de (4.20), (4.21) e (4.22) podemos escrever


k
X k
X
Pe∗ ην (x) = (ην θ0 )(x) +
 
(ην θj )(x) = ην θ0 (x) + θj (x) = ην (x)
j=1 j=1

para todo x ∈ Ω, i.é,


Pe∗ ην |Ω = ην . (4.31)

De (4.30) temos que

Pe∗ ην |Ω → Pe∗ u|Ω em W m,p (Ω). (4.32)

De (4.29) e (4.31) e da unicidade do limite em W m,p (Ω) concluı́mos que

Pe∗ u|Ω = u em W m,p (Ω)

o que prova o desejado em (4.28) e conclui a demonstração.


2
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
154 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

4.3 Resultados de Imersões e Compacidade para Caso


W m,p(Ω).

Temos o seguinte resultado de imersão:

Teorema 4.11 : Seja Ω um aberto limitado bem regular do Rn ou do Rn+ . Para n ≥ 2


temos:
1 1 m
(a) Se mp < n então W m,p (Ω) ,→ Lq (Ω) onde = − ·
q p n
(b) Se mp = n então W m,p (Ω) ,→ Lq (Ω) ∀ q ∈ [p, +∞[ .
n
(c) Se mp > n e k ∈ N tal que k < m − ≤ k + 1 então W m,p (Ω) ,→ C k,λ (Ω)
p
onde:
n n
(c.i) 0<λ<m−k− se m − k − < 1.
p p
n
(c.ii) 0 < λ < 1 se m − k − = 1.
p

Demonstração: Provaremos apenas o item (a) já que os demais têm um procedimento
análogo. Seja u ∈ W m,p (Ω) e P : W m,p (Ω) → W m,p (Rn ) operador de prolongamento.
Então P u ∈ W m,p (Rn ) e pelos resultados de imersão obtidos no Capı́tulo 3 resulta que:

||u||Lq (Ω) = ||P u||Lq (Ω) ≤ ||P u||Lq (Rn ) ≤ C1 ||P u||W m,p (Rn ) ≤ C2 ||u||W m,p (Ω)

o que prova o desejado. 2

Teorema 4.12 Seja I aberto limitado de R. Então:


1
(a) W m,p (I) ,→ C m−1,λ (I); 0 < λ ≤ 1 − ; 1 < p < +∞
p
(b) W m,1 (I) ,→ Cbm−1 (I)

(c) W m,+∞ (I) ,→ C m−1,1 (I)

Demonstração: Decorre do Teorema 3.19 usando-se um raciocı́nio análogo ao empre-


gado no Teorema anterior. 2
155

O próximo passo é demonstrar um teorema de compacidade devido a Rellich-Kondrachov.


Contudo, no decorrer da prova, necessitaremos do teorema de Fréchet-Kolmogorov cuja
prova pode ser encontrada em Brézis (Análise Funcional). Tal resultado é o seguinte:

Lema 4.13 (Fréchet-Kolmogorov): Sejam Ω ⊂ Rn um conjunto aberto e consideremos


F um subconjunto limitado de Lp (Ω) com 1 ≤ p < +∞. Suponhamos que:

∀ ε > 0, ∃ ω ⊂⊂ Ω tal que ||f ||Lp (Ω\ω) < ε; ∀ f ∈ F (4.33)

e,

∀ ε > 0, ∀ ω ⊂⊂ Ω , ∃ δ > 0, δ < dist(ω, Rn \Ω) tal que (4.34)


||τh f − f ||Lp (Ω\ω) < ε , ∀ h ∈ Rn com |h| < δ e ∀ f ∈ F.

Então F é relativamente compacto em Lp (Ω).

Teorema 4.14 (Rellich-Kondrachov): Seja Ω um subconjunto aberto limitado e bem re-


gular do Rn , n ≥ 2. Então as seguintes imersões são compactas:
c np
(i) W 1,p (Ω) ,→ Lq (Ω); 1≤q< se p < n.
n−p
c
(ii) W 1,p (Ω) ,→ Lq (Ω); 1 ≤ q < +∞ se p = n.
c
(iii) W 1,p (Ω) ,→ C 0 (Ω); se p > n.

Demonstração: (i) Seja F um conjunto limitado em W 1,p (Ω). De acordo com o


teorema de imersão de Sobolev (cf. Teorema 4.11) temos:

∗ 1 1 1
W 1,p (Ω) ,→ Lq (Ω) onde = − ·
q∗ p n
Contudo, pelo fato de Ω ser limitado, temos:

Lq (Ω) ,→ Lq (Ω), ∀ q ∈ [1, q ∗ ].

Logo:
W 1,p (Ω) ,→ Lq (Ω), ∀ q ∈ [1, q ∗ ]. (4.35)

Desta forma, como F é limitado em W 1,p (Ω) resulta da imersão acima que F é limitado
em Lq (Ω), ∀ q ∈ [1, q ∗ ]. Provaremos a seguir que F é relativamente compacto em Lq (Ω),
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
156 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

∀ q ∈ [1, q ∗ [ usando o critério dado no Lema 1. Mostraremos inicialmente o item (i) do


lema. Com efeito, sejam ε > 0, 1 ≤ q < q ∗ e u ∈ F. Ora pelo fato de 0 < q < q ∗ vem
que q = λ · 0 + (1 − λ)q ∗ onde 0 < λ < 1. Pondo-se:
1 1
ρ= e ρ0 =
1−λ λ
resulta que:
1 1 ∗ 1 1
q= · 0 + ·q e + = 1.
ρ0 ρ ρ0 ρ
Sendo ω ⊂⊂ Ω então da relação acima e por Hölder obtemos:

Z Z  ρ1  Z  10
ρ ρ
ρ0
|u|q dx ≤ |u|q dx 1 dx
Ω\ω Ω\ω Ω\ω
Z  qq∗
 1 q∗
= med(Ω\ω) ρ0 |u| dx
Ω\ω

i.é,

Z  1q
q
1
|u| dx ≤ med(Ω\ω) ρ0 q ||u||Lq∗ (Ω) . (4.36)
Ω\ω

Por outro lado seja (Kν )ν∈N uma sucessão de compactos de Ω tais que:
+∞
[
Kν ⊂ Kν+1 e Ω= Kν .
ν=1

Em virtude das propriedades acima obtemos:

med(Ω) = lim med(Kν ).


ν→+∞

Logo, para o ε > 0 dado ∃ ν0 ∈ N tal que:


 ρ0 q
1
med(Ω\Kν ) = med(Ω) − med(Kν ) < ε , ∀ ν ≥ ν0 (4.37)
C
onde C > 0 é tal que:
||u||Lq∗ (Ω) ≤ C, ∀ u ∈ F.

Assim, elegendo-se por exemplo:



ω = K ν0
157

de (4.36) e (4.37)(5) segue que:

||u||Lq (Ω\ω) < ε, ∀u ∈ F

o que prova (4.33).


Provaremos agora (4.34). Para isto, sejam ε > 0, u ∈ F,
1 ≤ q < q ∗ , ω ⊂⊂ Ω e consideremos h ∈ Rn com |h| < dist(ω, Rn \Ω). Observemos
que com |h| nestas condições temos que (x + h) ∈ Ω seja qual for o x ∈ ω. Resulta daı́,
de (3) e da desigualdade de interpolação (cf. Proposição 3.6) que:

||τh u − u||Lq (ω) ≤ ||τh u − u||θL1 (ω) ||τh u − u||L1−θ


q ∗ (ω) (4.38)

1 1 1  1 
onde 0 < θ < 1 e é tal que = θ · 1 + (1 − θ) ∗ (note-se que ∈ ∗ , 1 ). Contudo, de
q q q q
acordo com o item (iii) da Proposição 2.17 tem-se:

||τh u − u||L1 (ω) ≤ |h| ||∇u||[L1 (Ω)]n . (4.39)

Agora, como:
Z Z
∗ ∗
q∗ ∗
kτh ukqLq∗ (ω) = |u(x + h)| dx = |u(y)|q dy ≤ kukqLq∗ (Ω) (4.40)
ω ω+h

então de (4.38), (4.39) e (4.40) obtemos:


θ 1−θ
kτh u − ukLq (ω) ≤ |h| k∇ukL1 (Ω) 2 kukLq∗ (Ω) . (4.41)

Notemos que:
n 1 n
∂u 2 2
Z X Z X
∂u
||∇u||L1 (Ω) =
∂xi dx ≤ C1 ∂xi dx ≤ C1 ||u||W 1,1 (Ω) .

Ω i=1 Ω i=1

Da desigualdade acima e do fato que W 1,p (Ω) ,→ W 1,1 (Ω) resulta que:

||∇u||L1 (Ω) ≤ C2 ||u||W 1,p (Ω) (4.42)

e de (4.41) e (4.45) obtemos


θ 1−θ
||τh u − u||Lq (ω) ≤ |h|θ C2 ||u||W 1,p (Ω) 2 ||u||Lq∗ (Ω) .

Como u ∈ F e F é limitado em W 1,p (Ω), da desigualdade acima e de (4.35) obtemos


a existência de uma constante C > 0 tal que:

||τh u − u||Lq (ω) ≤ C |h|θ ; ∀ u ∈ F. (4.43)


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
158 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Para uma escolha suficientemente pequena de |h| conclui-se de (4.46) que:

||τh u − u||Lq (ω) < ε

o que prova o item (i).


(ii) Seja F um subconjunto limitado de W 1,p (Ω). De acordo com o Teorema 4.11
temos:
W 1,p (Ω) ,→ Lq (Ω); ∀ q ∈ [p, +∞).

Entretanto, pelo fato de Ω ser limitado resulta que:

Lq (Ω) ,→ Lr (Ω); ∀ r ∈ [1, q]; ∀ q ∈ [1, +∞)

o que implica que:


W 1,p (Ω) ,→ Lq (Ω), ∀ q ∈ [1, +∞).

Como F é limitado em W 1,p (Ω) resulta da imersão acima que F é limitado em Lq (Ω),
∀ q ∈ [1, +∞). Agora, para provarmos que F é relativamente compacto para todo q ∈
[1, +∞) basta escolher q ∗ ∈ [1, +∞) de modo que 1 ≤ q < q ∗ e proceder como no caso (i).
n
(iii) Seja F um conjunto limitado em W 1,p (Ω). Como p > n então 0 < 1 − < 1 e de
p
acordo com o Teorema 4.11:
W 1,p (Ω) ,→ C 0,λ (Ω)
n
onde 0 < λ < 1 − · Logo, F é limitado em C 0,λ (Ω) ou seja ∃ C > 0 tal que:
p

|u(x) − u(y)|
sup |u(x)| + sup ≤ C, ∀ u ∈ F. (4.44)
x∈Ω x,y∈Ω ||x − y||λ
x6=y

Provaremos, a seguir, que F é relativamente compacto em C 0 (Ω). Com efeito, face ao


teorema de Arzelá-Ascoli, basta provarmos que F é equicontı́nuo, uma vez que é limitado
ε  λ1
em C 0 (Ω). Consideremos, então, ε > 0 dado. Logo, existe δ = > 0 tal que para
C
todo x, y ∈ Ω com ||x − y|| < δ tem-se de (4.47) que:
ε
|u(x) − u(y)| ≤ C ||x − y||λ ≤ C · δ λ = C · =ε
C
isto seja qual for o u pertencente a F, o que prova a equicontinuidade de F e encerra a
demonstração do teorema.
2
159

Corolário 4.15 Seja Ω um subconjunto aberto limitado bem regular do Rn , n ≥ 2. Então


as seguintes imersões são compactas:
c np
(i) W m+1,p (Ω) ,→ W m,q (Ω); 1≤q< se p < n.
n−p
c
(ii) W m+1,p (Ω) ,→ W m,q (Ω); 1 ≤ q < +∞ se p = n.
c
(iii) W m+1,p (Ω) ,→ C m (Ω); se p > n.

Demonstração: (i) Seja (uν ) uma sequência limitada de W m+1,p (Ω). Provaremos que
existe uma subsequência desta que converge forte em W m,q (Ω). Com efeito, como (uν )
é uma sequência limitada de W m+1,p (Ω) então (Dα uν ) é limitada em W 1,p (Ω) para todo
α ∈ Nn com |α| ≤ m. De acordo com o Teorema 4.14 (i) temos que (Dα uν ) possui uma
subsequência que ainda denotaremos pelo mesmo sı́mbolo, tal que:
np
Dα uν → Dα u em Lq (Ω); 1≤q< , α ∈ Nn com |α| ≤ m
n−p
já que p < n por hipótese. Logo:
np
uν → u em W m,q (Ω); 1≤q<
n−p
o que prova o desejado.
(ii) Prova análoga ao item (i).
(iii) Seja (uν ) uma sequência limitada de W m+1,p (Ω). Então (Dα uν ) é limitada em
W 1,p (Ω) para todo α ∈ Nn com |α| ≤ m. De acordo com o Teorema 4.15 (iii) temos que
(Dα uν ) possui uma subsequência, que ainda denotaremos pelo mesmo sı́mbolo tal que:

Dα uν → Dα u em C 0 (Ω), ∀ α ∈ Nn com |α| ≤ m.

Assim:
uν → u em C m (Ω)

o que encerra a prova. 2

Corolário 4.16 Seja Ω um aberto limitado bem regular do Rn , n ≥ 2. A seguinte


imersão é compacta:
c
W m+1,p (Ω) ,→ W m,p (Ω); 1 ≤ p < +∞.
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
160 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Demonstração: Seja p ∈ [1, +∞). Procederemos por indução em m.


Se m = 0 afirmamos que a imersão é verdadeira, i.é, provaremos que:
c
W 1,p (Ω) ,→ Lp (Ω).

De fato, temos três casos a considerar:

(i) p < n
Neste caso (n − p) > 0 e daı́ vem que:
np
−p2 < 0 ⇔ pn − p2 < pn ⇔ p(n − p) < pn ⇔ p < ·
n−p
Logo:
np
1 ≤ p < q∗ =
n−p
c
e de acordo com o Teorema 4.14(i) resulta que W 1,p (Ω) ,→ Lp (Ω).

(ii) p = n
c
Novamente pelo Teorema 4.14 (ii) temos diretamente que W 1,p (Ω) ,→ Lp (Ω).
(iii) p > n
c
Finalmente, pelo item (iii) do mesmo Teorema temos que W 1,p (Ω) ,→ C 0 (Ω) e pelo
c c
fato de C 0 (Ω) ,→ Lp (Ω) vem que W 1,p (Ω) ,→ Lp (Ω) o que prova a veracidade do teorema
no caso m = 0. Suporemos verdadeiro que:
c
W m+1,p (Ω) ,→ W m,p (Ω)

e provaremos que:
c
W m+2,p (Ω) ,→ W m+1,p (Ω).

Com efeito, seja (uν ) uma sequência limitada em W m+2,p (Ω). Então, pelo fato que
W m+2,p (Ω) ,→ W m+1,p (Ω) resulta que (uν ) é limitada em W m+1,p (Ω) e desta forma existirá
uma subsequência desta, que ainda denotaremos pelo mesmo sı́mbolo tal que

uν → u em W m,p (Ω).
 
∂uν
Também, é limitada em W m+1,p (Ω) para todo i = 1, 2, . . . , n. Pela hipótese
 ∂x
 i
∂uν
indutiva tem uma subsequência, que continuamos denotando pelo mesmo sı́mbolo
∂xi
tal que:
∂uν ∂u
→ em W m,p (Ω).
∂xi ∂xi
161

Logo:
uν → u em W m+1,p (Ω)

o que conclui a prova. 2

Corolário 4.17 Seja Ω um aberto limitado em Rn sem nenhuma restrição em sua fron-
teira. Então a seguinte imersão é compacta:
c
W0m+1,p (Ω) ,→ W0m,p (Ω).

Demonstração: Seja O uma bola aberta do Rn contendo Ω. Consideremos a dia-


gramação:
ext. Id. rest.
W0m+1,p (Ω) −→ W m+1,p (O) −→ W m,p (O) −→ W0m,p (Ω)

u 7→ ũ 7→ ũ 7→ u

onde ũ é a extensão de u a O pondo-se zero fora de Ω, ext. é a aplicação extensão,


rest. é a aplicação restrição e Id. é a identidade. Notemos que extensão é uma isometria,
a restrição é uma aplicação contı́nua e de acordo com o Corolário (4.16) a identidade é
uma aplicação compacta, já que a bola é um aberto limitado bem regular. Resulta daı́
que a composição de tais aplicações é compacta e por conseguinte W0m+1,p (Ω) está imerso
compactamente em W m,p (Ω). 2

Teorema 4.18 Seja Ω um aberto limitado bem regular do Rn , n ≥ 2. Então as seguintes


imersões são compactas:
c np
(i) W m,p (Ω) ,→ Lq (Ω); 1≤q< se mp < n.
n − mp
c
(ii) W m,p (Ω) ,→ Lq (Ω); 1 ≤ q < +∞ se mp = n.
c n
(iii) W m,p (Ω) ,→ C k (Ω); se mp > n, onde k < m − ≤ k + 1, k ∈ N.
p

Demonstração: (i) Observemos inicialmente que para m = 1 o teorema é satisfeito de


acordo com o Teorema 4.14(i) desta seção. Consideremos, então, m ≥ 2. Pondo-se:
np
q ∗∗ =
n − mp
temos:
1 1 m 1 (m − 1) 1
∗∗
= − = − − ·
q p n p n n
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
162 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Pondo-se:
1 1 (m − 1) n − (m − 1)p

= − = (4.45)
q p n np
então:
1 1 1 n − q∗
= − = ·
q ∗∗ q∗ n nq ∗
Do fato que mp < n, por hipótese, resulta que:
np np
(m−1)p < n−p ⇔ −(m−1)p > −n+p ⇔ n−(m−1)p > p ⇔ < =n
n − (m − 1)p p
ou seja, de (4.45):
q ∗ < n.

Logo, de acordo com o Teorema 4.14(i) obtemos:


∗ c nq ∗
W 1,q (Ω), ,→ Lq (Ω); 1≤q< = q ∗∗ se mp < n. (4.46)
n − q∗

Por outro lado, de (4.45) e em virtude do Teorema de imersão de Sobolev 4.11(a) desta
seção) obtemos:

W m−1,p (Ω) ,→ Lq (Ω)

o que implica que



W m,p (Ω) ,→ W 1,q (Ω). (4.47)

Assim, de (4.46) e (4.47) resulta que:


c nq ∗
W m,p (Ω) ,→ Lq (Ω); 1≤q< = q ∗∗
n − q∗
o que prova o item (i).
(ii) Procederemos por indução em m.
c
Para m = 1 a asserção é válida conforme Teorema 4.14(ii). Suponhamos que W m,p (Ω), ,→
Lq (Ω); 1 ≤ q < +∞ se mp = n. Provaremos que:
c
W m+1,p (Ω) ,→ Lq (Ω); 1 ≤ q < +∞ se (m + 1)p = n.

De fato, como (m + 1)p = n por hipótese, então:


m+1 1 1 1 m
= ⇔ = −
n p n p n
e portanto, pelo teorema de imersão de Sobolev (cf. Teorema 4.11(a)) temos:

W m,p (Ω) ,→ Ln (Ω) (note-se que mp < n pois (m + 1)p = n)


163

e por conseguinte:
W m+1,p (Ω) ,→ W 1,n (Ω). (4.48)

Contudo, pela hipótese indutiva, temos:


c
W 1,n (Ω) ,→ Lq (Ω), 1 ≤ q < +∞. (4.49)

Consequentemente de (4.48) e (4.49) resulta que:


c
W m+1,p (Ω) ,→ Lq (Ω), 1 ≤ q < +∞

o que prova o item (ii).


(iii) Temos:
n n
k <m− ≤ k + 1 ⇔ 0 < m − k − ≤ 1.
p p
n
Pondo-se λ0 = m − k − então do Teorema 4.11(c) vem que:
p

W m,p (Ω) ,→ C k,λ (Ω); 0 < λ ≤ λ0 se λ0 < 1


W m,p (Ω) ,→ C k,λ (Ω); 0 < λ < 1 se λ0 = 1 (4.50)

Provaremos, a seguir, que a imersão de C k,λ (Ω) em C k (Ω) é compacta. De fato, se F


é subconjunto limitado de C k,λ (Ω), ∃ C > 0 tal que:
|Dα u(x) − Dα u(y)|
max sup |Dα u(x)| + max sup ≤ C, ∀ u ∈ F.
|α|≤k x∈Ω |α|≤k x,y∈Ω ||x − y||λ
x6=y

Resulta daı́ que:

|Dα u(x) − Dα u(y)| ≤ C ||x − y||λ , ∀ x, y ∈ Ω, ∀ u ∈ F e ∀ |α| ≤ k.

Resulta da desigualdade acima que F é equicontı́nuo em C k (Ω). Como F é limitado


em C k (Ω) uma vez que C k,λ (Ω) ,→ C k (Ω) resulta, face ao teorema de Arzelá-Ascoli que
F é relativamente compacto em C k (Ω) o que prova que:
c
C k,λ (Ω) ,→ C k (Ω). (4.51)

c
Segue de (4.50) e (4.51) que W m,p (Ω) ,→ C k (Ω) conforme querı́amos demonstrar. 2
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
164 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Teorema 4.19 Seja I um aberto limitado de R. As seguintes imersões são compactas:


c
(i) W 1,p (I) ,→ C(I), 1 < p ≤ +∞.
c
(ii) W 1,1 (I) ,→ Lq (I), 1 ≤ q < +∞.

Demonstração: (i) Seja F um conjunto limitado de W 1,p (I). De acordo com o


Teorema 4.12 itens (a) e (c) temos:
1
W 1,p (I) ,→ C 0,λ (I) e W 1,+∞ (I) ,→ C 0,1 (I), 0<λ≤1− ·
p

Logo, F é limitado em C 0,λ (I)


e assim como é limitado em C 0,1 (I).
e Assim, existem
constantes C1 e C2 positivas tais que:
|u(x) − u(y)| |u(x) − u(y)|
sup |u(x)| + sup λ
≤ C1 e sup |u(x)| + sup ≤ C2 ∀ u ∈ F
x∈I x,y∈Ω ||x − y|| x∈I x,y∈Ω ||x − y||
x6=y x6=y

Logo, F é limitado em C(I) assim como é equicontı́nuo em C(I). Portanto segue do


teorema de Arzelá-Ascoli que F é relativamente compacto em C(I),
e o que prova o item
(i).

(ii) Seja F um conjunto limitado de W 1,1 (I). De acordo com o Teorema 2(b) temos:

W 1,1 (I) ,→ Cb0 (I).

Sendo I limitado então Cb0 (I) ,→ Lq (I). Desta forma, F é limitado em Lq (I) para
todo 1 ≤ q < +∞. Provaremos que F é relativamente compacto em Lq (I). Com efeito,
utilizaremos o lema de Fréchet-Kolmogorov mencionado no inı́cio desta seção. Provaremos
o primeiro dos itens:
(4.33) Seja ε > 0 dado e consideremos ω ⊂⊂ I. Então ∀ u ∈ F temos:
Z  
||u||Lq (I\ω) = |u| dx ≤ sup |u(x)| med(I\ω) ≤ ||u||qC 0 (I) med(I\ω).
q q
I\ω b
x∈I

Logo:
 1
||u||Lq (I\ω) ≤ med(I\ω) q ||u||Cb0 (I) .

Contudo, para o ε > 0 dado existe (cf. demonstração do teorema de Rellich-Kondrachov


(i)) ω ⊂⊂ I tal que:
 1 ε
med(I\ω) q <
C
165

onde C é uma constante positiva tal que:

||u|||Cb0 (I) ≤ C, ∀u ∈ F

o que prova o primeiro dos itens. Provaremos a seguir o segundo item.


(4.34) Sejam ε > 0, u ∈ F, ω ⊂⊂ I e |h| < dist(ω, R\I). De acordo com o item (iii)
da Proposição 2.17, tem-se:

||τh u − u||L1 (ω) ≤ |h| ||u0 ||L1 (I) ≤ |h| ||u||W 1,1 (I) ≤ C |h|. (4.52)

Mas se 1 ≤ q < +∞ obtemos:


Z Z
q
|u(x + h) − u(x)| dx = |u(x + h) − u(x)|q−1 |u(x + h) − u(x)| dx
ω ω
 q−1 Z
≤ 2 sup |u(x)| |u(x + h) − u(x)| dx (4.53)
x∈Ie ω
 q−1
= 2||u||C 0 (I)
e ||τh u − u||L1 (ω) .
b

Logo, de (4.52) e (4.53) resulta que:


Z  1q
q−1 1 1
q
|u(x + h) − u(x)| dx ≤ 2 q C q |h| q < ε
ω

para uma escolha suficientemente pequena de |h|. Isto conclui a prova. 2

4.4 Exercı́cios
1) Sejam u, v funções definidas no Rn tais que u ∗ v está bem definida.

(i) Mostre que supp(u ∗ v) ⊂ supp(u) + supp(v).

(ii) Dê um exemplo de uma função u com suporte compacto tal que u ∗ v não possua
suporte compacto.

2) Mostre que se u ∈ C 0 (R), (n = 1) e u é periódica com perı́odo ω, então ρν ∗ u ∈


C ∞ (R) (onde ρν é uma sucessão regularizante) é periódica com perı́odo ω e ρν ∗ u → u
uniformemente em R.

1

3) Seja o funcional Vp x
: D(Ω) → K, definido por
    Z
1 ϕ(x)
Vp , ϕ = lim dx.
x ε→0 ||x||≥ε x
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
166 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

1
∈ D0 (R).

Mostre que Vp x

4) Seja Ω um subconjunto aberto de Rn e considere Γ uma curva fechada regular


contida em Ω. Definamos:
Z
hδΓ , ϕi = ϕ(x)dγ; ∀ϕ ∈ D(Ω).
Γ

a) Prove que δΓ é uma distribuição sobre Ω.

b) No caso particular em que Γ é a fronteira ∂B1 (0) de B1 (0) (bola unitária centrada
no zero) e Ω é tal que B1 (0) ⊂ Ω, prove que a distribuição δΓ não é localmente integrável.

sugestão: Raciocine por contradição. Defina uma função regular que se anula sobre
Γ e use o lema de Du Bois Raymond para chegar a um absurdo.

c) Sejam B1 (0) e B2 (0) as bolas abertas de Rn com centro zero e raios hum e dois,
respectivamente. Considere a função:
(
1, x ∈ B1 (0)
u(x) =
0, x ∈ B2 (0)\B1 (0).

/ H 1 (B2 (0)).
Mostre que u ∈

Sugestão: Use o ı́tem (b).

d) Mostre que a distribuição δ∂B1 (0) νj , onde νj é a j-ésima componente da normal


exterior à fronteira da bola B1 (0) pertence a H −1 (Ω).

5) Seja ρν uma sucessão regularizante. Mostre que ρν → δ0 em D0 (Rn ).

6) Considere o funcional Pf x12 : D(R) 7→ R, definido por


  Z 
1 ϕ(x) ϕ(0)
Pf 2 , ϕ = lim 2
dx − 2 .
x ε→0 ||x||≥ε x ε

Mostre que Pf x12 ∈ D0 (R).

7) Mostre que não existe u ∈ L1 (R) tal que u ∗ v = v para todo v ∈ L1 (R).
sugestão: Calcule u ∗ v em x = 0 e considere as funções vν (x) = νχB(0,1/ν) .

8) Seja T ∈ D0 (Rn ) e ϕ ∈ C ∞ (Rn ) tal que ϕ = 0 no suporte de T . Tem-se ϕT = 0?


167

sugestão: Trabalhe com n = 1, T = δ00 e ϕ(x) = x.

9) Seja ϕ ∈ C0∞ (Ω) e T ∈ D0 (Ω). Um dos enunciados seguintes implica o outro?


(i) hT, ϕi = 0.
(ii) ϕ T = 0 em D0 (Ω).
sugestão: Trabalhe com Ω = R, T = δ00 e ϕ = 1 numa vizinhança da origem.

10) Considere as funções de R em R:


( (
x se x ≥ 0 1 se x ≥ 0
u(x) = , v(x) =
0 se x < 0 0 se x < 0.
d d
Mostre que T
dx u
= Tv e T
dx v
= δ0 .

11) Seja u(x) = log |x|, x ∈ R, x 6= 0.


(i) Mostre que u ∈ L1loc (R).
sugestão: Use o fato que |x|ε | log |x|| → 0, |x| → 0 (0 < ε < 1).
(ii) Mostre que
d 1
log |x| = Vp .
dx x

(k)
12) Mostre que não existe u ∈ L1loc (R) tal que Tu = δ0 (k ∈ N).

13) Seja {ρν } uma sucessão regularizante em Rn e T ∈ D0 (Rn ). Mostre que

ρν ∗ T → T em D0 (Rn ).

14) Considere a sequência de funções de R em R


1

 0 se |x| ≥

uν (x) = ν
 ν 2 se |x| < 1 .

ν
(i) Mostre que uν → 0 q.s. em R e que uν não converge em D0 (R).
(ii) Construa uma sucessão de funções reais {vν } tal que vν → δ0 em D0 (R) e vν → 0
q.s. em R.

15) Sejam ϕ, ψ ∈ S(Rn ) tais que ϕ ∗ ψ = 0. Podemos concluir que ϕ = 0 ou ψ = 0? e


se ϕ = ψ?
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
168 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

sugestão: Considere ϕ, ψ ∈ C0∞ (Rn ) tais que supp(ϕ) ∩ supp(ψ) = ∅.

16) As vezes define-se a transformada de Fourier através da expressão equivalente:


Z
−n/2
F(ξ) = (2π) eihξ,xi f (x) dx,
Rn

onde ξ = (ξ1 , · · · , ξn ) e x = (x1 , · · · , xn ). Sejam ϕ, ψ ∈ S(Rn ). Mostre as seguintes


igualdades: Z Z
(i) (Fϕ)(x)ψ(x) dx = ϕ(x)(Fψ)(x) dx.
Rn Rn
Z Z Z
(ii) (Fϕ)(x)(Fψ)(x) dx = ϕ(x)ψ(x) dx = (F −1 ϕ)(x)(F −1 ψ)(x) dx.
Rn Rn Rn

(iii) F(ϕ ∗ ψ) = (2π)n/2 (Fϕ)(Fψ).

(iv) (2π)n/2 F(ϕψ) = (Fϕ) ∗ (Fψ).

17) A luz da definição acima, sendo T ∈ S 0 (Rn ), mostre as seguintes igualdades:

(i) F(Dα T ) = i|α| xα (FT ), para todo α ∈ Nn .

(ii) Dα (FT ) = F −i|α| xα T , para todo α ∈ Nn .




(iii) Fδ0 = (2π)−n/2 T1 , onde T1 é a distribuição definida pela função constante

igual a um.

(iv) FT1 = (2π)n/2 δ0 .

18) Seja k ∈ R, k > 0 e u ∈ S 0 (R) tal que

d4 u
4
+ ku ∈ L2 (R).
dx
dj u
Mostre que dxj
∈ L2 (R), para 0 ≤ j ≤ 4.

19) Seja u(x) = ex cos ex , x ∈ R.


(i) Mostre que não existe um polinômio p(x) em R tal que

|u(x)| ≤ |p(x)|, para todo x ∈ R.

(ii) Mostre que u ∈ S 0 (R).


169

sen(ex )ϕ0 (x) dx =


R R
Observação: Note que − R R
ex cos(ex )ϕ(x) dx, para toda ϕ ∈
S(R).

20) Seja u ∈ W m,p (Ω) ∩ W s,q (Ω) tal que supp(u) é um compacto de Ω. Mostre que
existe uma sucessão (ϕν ) de funções testes em Ω tal que ϕν → u em W m,p (Ω) e ϕν → u
em W s,q (Ω).

Nota: Observe que se uma função u pertencente a W m,p (Ω) possui suporte compacto
em Ω, então sua extensão u pondo-se zero fora de Ω pertence a W m,p (Rn ).

21) Seja Ω ⊂ Rn , aberto e E = H01 (Ω) ∩ Lp (Ω), com 1 ≤ p < +∞, munido da norma
||u||E = ||u||H 1 (Ω) + ||u||Lp (Ω) .
0

(i) Mostre que E é um espaço de Banach.

(ii) Mostre que C0∞ (Ω) é denso em E.


0
Nota: Observe que se T ∈ E 0 então T = T1 + T2 com T1 ∈ H −1 (Ω), T2 ∈ Lp (Ω),
1 1
p
+ p0
= 1.

22) Sejam p, q ∈ R com 1 ≤ p < q < ∞. Mostre que

Lp (Rn ) ∩ Lq (Rn ) ,→ Lr (Rn ); ∀r ∈ [p, q]

onde
||u||Lp ∩Lq = ||u||Lp + ||u||Lq .

23) Seja Ω um subconjunto aberto de Rn , n ≥ 2 e


 
p ∂u p
E = u ∈ L (Ω); ∈ L (Ω)
∂x1
munido da norma " #1/p
p
∂u
||u||E = ||u||pLp (Ω) +

.
∂x1 Lp (Ω)

Prove que:

(i) E é Banach.
E
(ii) Sendo E0 = C0∞ (Ω) , caracterize o dual E00 de E0 .
0 ∂g1
Sugestão: Mostre que T ∈ E00 ⇔ ∃g1 , g2 ∈ Lp (Ω) tais que T = g1 − ∂x1
.
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
170 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

(iii) Prove que E é reflexivo para 1 < p < ∞.

Sugestão: Use o teorema de Eberlein-Smullian.

24) Mostre que W n,1 ,→ Cb0 (Rn ).

Sugestão: Observe que


ϕ(x) = ϕ(x1 , · · · , xn )
Z xn Z x1
∂ nϕ
= ··· (t1 , · · · , tn ) dt1 · · · dtn , ∀ϕ ∈ D(Rn ).
−∞ −∞ ∂x1 · · · ∂xn

25) Seja 1 ≤ p < ∞ e mp < n. Prove que não é possı́vel determinar q ∗ ∈ R com
np
1 ≤ q ∗ < ∞, q ∗ 6= n−mp
que verifique
X
||ϕ||Lq∗ (Rn ) ≤ C ||Dα ϕ||Lp (Rn ) ; ∀ϕ ∈ C0∞ (Rn )
|α|=m

onde C é uma constante independente de ϕ.


np
Sugestão: Raciocine por contradição, ou seja, suponha que exista q ∗ 6= n−mp
que
satisfaz a desigualdade acima. Substitua ϕ por ψ(x) = ϕ(λx); λ > 0 e chegue a um
absurdo.

26) Seja Ω um aberto arbitrário de Rn e 1 ≤ p < +∞.


(i) Mostre que
 1/p
X Z
||u||m,p =  |Dα u|p dx
|α|≤m Ω

é uma norma em W m,p (Ω).


(ii) Mostre que
X Z 1/p
α p
|||u|||m,p = |D u| dx
|α|≤m Ω

m,p
é uma norma em W (Ω).
(iii) Mostre que as normas ||u||m,p e |||u|||m,p são equivalentes em W m,p (Ω).
(iv)
n Z
!1/p
∂u p

X
[u] = ∂xi dx

i=1 Ω

é uma norma em W m,p (Ω) ?


171

27) Seja C m (Ω) equipado com a norma


 1/p
X Z
||ϕ||m,p =  |Dα ϕ|p dx ,
|α|≤m Ω

e consideremos H m,p (Ω) o completado deste espaço segundo a norma || · ||m,p . Podemos
dizer que H m,p (Ω) = W m,p (Ω) ?
sugestão: Ver: Morrey C. B., Multiple integrals in the Calculus of Variations,
Springer, New York, 1966.

28) Seja mp > n com 2 ≤ p < +∞. Mostre que

W0m,p (Rn \{x0 }) W m,p (Rn ),

onde x0 é um ponto arbitrário de Rn .


Observação: Se mp > n então W m,p (Rn ) ,→ Cb0 (Rn ). Por Cb0 (Rn ) estamos denotando
o espaço das funções Rn 7→ R contı́nuas e limitadas com a norma

||u||Cb0 (Rn ) = sup |u(x)|.


x∈Rn
0
Neste caso, δx0 ∈ W −m,p (Rn ).

29) Seja Ω a bola aberta de Rn de centro em zero e raio r = 1/2 e u a função definida
por  α
1 1
u(x) = log , 0<α<1− x ∈ Ω.
|x| n,
/ L∞ (Ω).
Mostre que u ∈ W 1,n (Ω), mas u ∈

30) Mostre que se n = m − 1 então W m,1 (Rn ) ,→ C 0,1 (Rn ).


Sugestão: Observe que W n,1 (Rn ) ,→ Cb0 (Rn ).

0
31) Determine m, p e n de forma que a distribuição δx0 ∈ W −m,p (Rn ), (1 ≤ p <
+∞, x0 ∈ Rn )
Sugestão: Observe que W m,p ,→ Cb0 (Rn ) se mp > n.

32) Considere Ω = B2 (0) e u a função


(
1 se x ∈ B1 (0)
u(x) =
0 se x ∈ B2 (0)\B1 (0).
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
172 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

(i) Mostre que T = ∂u


∂x1
∈ H −1 (Ω).
∂v
(ii) Determine v ∈ L2 (Ω), v 6= u, tal que T = ∂x1
.

∂2
Pn
33) Mostre que ∆ = i=1 ∂xi é uma isometria linear de H01 (Ω) sobre H −1 (Ω), onde
n
Ω é um aberto limitado de R e
n Z
∂u 2

X
||u||H01 (Ω) = ∂xi dx.

i=1 Ω

34) Seja 1 ≤ p < +∞, mp > n. Mostre que se u ∈ W m,p (Rn ) então u(x) → 0 quando
||x|| → +∞.
Nota: Neste caso, W m,p (Rn ) ,→ Cb0 (Rn ).

∂u ∂u
35) Seja Ω um aberto de Rn e u, ∂x 1
funções contı́nuas de Ω em R, onde ∂x1
é a
derivada no sentido das distribuições. Mostre que a derivada parcial clássica D1 u de u
∂u
com relação a x1 coincide com ∂x1
.

36) Mostre que


W m,∞ (R) ,→ C m−1,1 (R), m ≥ 1.

37) Seja P o operador linear definido em D(Rn+ ) por

ϕ(x0 , xn )
(
se xn > 0
(P ϕ)(x) =
ϕ(x0 , −xn ) se xn < 0.

P determina um operador de prolongamento contı́nuo de W m,p (Rn+ ) em W m,p (Rn )


para m ≥ 2 ?

38) D(Rn+ ) é denso em em H 1 (Rn+ ) ?

39) Sejam u1 , u2 , u3 ∈ H 1 (R3 ). Prove que u = u1 u2 u3 ∈ L2 (R3 ) e, além disso,

||u||L2 (R3 ) ≤ C||∇u1 ||L2 (R3 ) ||∇u2 ||L2 (R3 ) ||∇u3 ||L2 (R3 ) ,

onde C é uma constante positiva.

40) Seja Ω ⊂ Rn um aberto limitado bem regular e consideremos 2m > n.


(i) Mostre que L1 (Ω) ,→ H −m (Ω).
173

(ii) Mostre que L1 (Ω) é denso em H −m (Ω).

41) Verifique se Ω ⊂ Rn é um aberto limitado bem regular, então H02 (Ω) ,→ L6 (Ω),
para todo 1 ≤ n ≤ 6.

42) a) Mostre que


Z Z  Z 
1 ∂ϕ ∂ϕ
2
|ϕ| dx ≤ dx
∂x2 dx ,
∀ϕ ∈ C0∞ (R2 ).
R2 4 R2
∂x1
R2

b) Usnado o item (a), mostre que


Z Z  Z 
2 1 2 2
|u| dx ≤ |u| dx |∇u| dx , ∀u ∈ H 1 (R 2).
R2 2 R2 R2

sugestão: Observe que


Z x1 ∞
−∂
Z

ϕ(x1 , x2 ) = ϕ(s, x2 ) ds, ϕ(x1 , x2 ) = ϕ(s, x2 ) ds.
−∞ ∂x1 x1 ∂x1

43) Seja Ω um aberto limitado bem regular de Rn . Mostre que se u ∈ H01 (Ω) e
∆u ∈ L2 (Ω) então u ∈ H 2 (Ω).

44) Seja P o operador linear de D(Rn+ ) em D(Rn ) definido por

P (ϕ|Rn+ ) = ϕ, ϕ ∈ D(Rn ).

Com P podemos determinar um operador de prolongamento contı́nuo de W m,p (Rn+ )


em W m,p (Rn )?

45) Seja Ω ⊂ Rn um aberto limitado bem regular.


c
(a) Mostre que H01 (Ω) ∩ H 2 (Ω) → ,→L2 (Ω).
c
(b) Prove que H01 (Ω) ∩ H 2 (Ω) → ,→H01 (Ω).

46) Prove que a imersão de H 1 (Rn ) em L2 (Rn ) não é compacta.

47) Seja {uν } uma sequência em H 1 (Rn ) tal que supp(uν ) ⊂ K, para todo ν ∈ N,
onde K é um compacto fixo de Rn . Mostre que se {uν } é limitada em H 1 (Rn ) então existe
uma subsequência de {uν } fortemente convergente em L2 (Rn ).
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
174 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

48) Seja Ω =]a, b[, a = x0 < x1 < · · · , xm = b uma partição de Ω e Ik =]xk , xk+1 [,
0 ≤ k ≤ m−1. Seja f : Ω → R uma função tal que f |Ik ∈ H 1 (Ik ) para cada 0 ≤ k ≤ m−1.
Mostre que f ∈ H 1 (Ω) se e somente se f ∈ C 0 (Ω).

49) Use o Teorema de Rellich-Kondrachov para provar que a seguinte imersão é com-
pacta:
W m+1,p (Ω) ,→ W m,p (Ω); 1 ≤ p < +∞.

50) Seja Ω um aberto limitado. Prove que existe uma constante (que depende de Ω e
de p) tal que

||u||Lp (Ω) ≤ C ||∇u||Lp (Ω) ; ∀u ∈ W01,p (Ω), 1 ≤ p < ∞.

51) Seja Ω um conjunto aberto e limitado de Rn tal que Ω = ∪ni=1 Ωk onde {Ωk }1≤k≤m
são subconjuntos abertos e disjuntos de Ω com fronteiras diferenciáveis por partes (por-
tanto o Teorema de Grenn é válido em cada um deles). Se u ∈ C 0 (Ω) e u|Ωk ∈ H 1 (Ωk ),
1 ≤ k ≤ m, mostre que u ∈ H 1 (Ω).

52) Seja Ω um aberto conexo de Rn e u ∈ W 1,∞ (Ω). Mostre que:


(i)
|u(x) − u(y)| ≤ ||∇u||L∞ (Ω) distΩ (x, y), para q. t. x, y ∈ Ω,

onde distΩ (x, y) é a distância geodésica de x a y em Ω, isto é, é o ı́nfimo dos comprimentos
das poligonais unindo x a y, e contı́nuas em Ω.
(ii) u admite um representante contı́nuo que verifica (i) para todo x, y ∈ Ω.

53) Seja Ω um aberto conexo de Rn , 1 ≤ p ≤ +∞ e u ∈ W 1,p (Ω) com ∇u = 0. Mostre


que u é constante.
Sugestão: Usar o resultado

||τh u − u||Lp (ω) ≤ ||∇u||Lp (ω) ||h||,

onde ω é um subconjunto compacto de Ω, ||h|| < dist(ω, Ω\ω) (veja a Proposição 1 do


parágrafo 1.5)

54) Seja Ω um aberto conexo de Rn , 1 ≤ p ≤ ∞ e u ∈ W m+1,p (Ω) tal qur Dα u = 0,


para todo |α| = m + 1. Mostre que u = p|Ω q.s. em Ω onde p é um polinômio de grau m.
175

Sugestão: Demosntre por indução com relação a m. Utilize o exercı́cio anterior.

55) Sejam E e F dois espaços de Banach contidos num espaço localmente convexo W .
Seja O um subconjunto de W denso em E e em F . Mostre que O é denso em E ∩ F .
Sugestão: Seja T ∈ (E ∩ F )0 então T = R + S com R ∈ E 0 e S ∈ F 0 . Seja R̃ a
extensão contı́nua de R a todo espaço F . Tem-se R̃ + S = 0 em F .
Como aplicação do exercı́cio 55 segue que C0∞ (Ω) é denso em H01 (Ω) ∩ Lp (Ω), 1 ≤ p <
∞.

56) Seja Ω um aberto limitado bem regular de Rn , A = −∆ e (ων )ν∈N os vetores


próprios de A com ων ∈ H01 (Ω) e (λν )ν∈N os respectivos valores próprios. Mostre que
(ων )ν∈N é um conjunto total em Lp (Ω), 1 ≤ p < ∞, ou seja, o conjunto das combinações
lineares finitas dos (ων )ν∈N é denso em Lp (Ω).
Sugestão: Observe que D(Ak ) está contido em H 2k (Ω), e que em D(Ak ) as normas
||Ak u||L2 (Ω) e ||u||H 2k (Ω) são equivalentes, k = 1, 2, · · · Além disso, (ων )ν∈N é total em
D(Ak ), k = 1, 2, · · ·

np
57) Seja Ω um aberto limitado de Rn , 1 ≤ p < n, p∗ = n−p
. Mostre que a imersão de
p∗
W 1,p (Ω) em L (Ω) não é compacta.
Sugestão: Para demostrar este fato desenvolva os seguintes pontos:
(i) Considere Ω convexo contendo a origem. Tem-se

λΩ = {λx; x ∈ Ω} ⊂ Ω, se 0 ≤ λ < 1.

Seja u ∈ W01,p (Ω) tal que ||u||Lp∗ (Ω) = 1. Defina para k ≥ 1:

1
 n−p
 k p u(kx) se x ∈ Ω

uk (x) = k
1
0 se x ∈ Ω\ Ω.

k
Mostre que
n n
X ∂uk X ∂u

∂xi =
∂xi e que ||uk ||Lp∗ (Ω) = ||u||Lp∗ (Ω) , ∀k ≥ 1.
i=1 Lp (Ω) i=1 Lp (Ω)


Então, notando que uk → 0 q.s. em Ω, prove que a imersão de W 1,p (Ω) em Lp (Ω)
não é compacta. (Ver Kesavan [9], Topics .., p. 109, Ex. 2.19).
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
176 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

(ii) Considere agora, Ω contendo a origem e seja B uma bola com centro na origem e
contida em Ω. Aplique a construção (i) em B. Segue então que as extensões ũk pondo-se

zero fora de B não convergem forte em Lp (Ω).
(iii) O caso geral segue por translação de Ω à origem.
Capı́tulo 5

OS ESPAÇOS H s

Iniciaremos este capı́tulo com uma outra caracterização dos espaços H m (Rn ),
m ∈ N, que servirá de motivação para a definição dos espaços H s (Ω) quando s é real
positivo e Ω é um aberto limitado com fronteira Γ bem regular. A seguir, de posse dos
espaços H s (Rn ) definiremos, via cartas locais, os espaços H s (Γ).

5.1 Os Espaços H s(Rn)


No Capı́tulo 2 definimos os espaços W m,p (Ω) onde Ω ⊂ Rn era um aberto genérico. Em
particular quando p = 2 e Ω = Rn ; temos

H m (Rn ) = {u ∈ L2 (Rn ); Dα u ∈ L2 (Rn ); ∀ α ∈ Nn ; |α| ≤ m} (5.1)

onde as derivadas são distribucionais, munido do produto interno


X Z X
((u, v))H m (Rn ) = Dα u Dα v dx = (Dα u, Dα v)L2 (Rn ) . (5.2)
|α|≤m Rn |α|≤m

Consideremos o seguinte espaço


 m2
{u ∈ S 0 (Rn ); 1 + ||x||2 û ∈ L2 (Rn )} (5.3)

onde û designa a transformada de Fourier da u; munido do produto interno


Z  
2 m
 m
2 2
m
2 2
(((u, v))) = 1 + ||x|| û(x)v̂(x) dx = 1 + ||x|| û, 1 + ||x|| v̂ . (5.4)
Rn L2 (Rn )

O nosso intuito é provar que os espaços (5.1) e (5.3) são iguais. Antes, porém pre-
cisamos de um resultado preliminar que enunciaremos sob a forma de:

177
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
178 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Lema 5.1 Existem constantes c1 > 0 e c2 > 0 que dependem de m tais que:
X m X
c1 x2α ≤ 1 + ||x||2 ≤ c2 x2α ; ∀ x ∈ Rn
|α|≤m |α|≤m

onde α ∈ Nn e m ∈ N.

Demonstração: Sejam x = (x1 , . . . , xn ) ∈ Rn e α = (α1 , . . . , αn ) ∈ Nn com |α| ≤ m.


Temos:
n
X  α21 n
X  α2n
α1 /2 2 α1 /2
|xα |R = |xα1 1 . . . xαnn | = x2i x2i

x1 . . . xn ≤ ...
i=1 i=1
n
X  α1 +···+α
2
n

= x2i = ||x|||α| .
i=1
m
Logo, |xα | ≤ ||x|||α| e por conseguinte x2α ≤ ||x||2|α| ≤ 1 + ||x||2 . Segue desta
última desigualdade que
X m
x2α ≤ cm 1 + ||x||2
|α|≤m

ou seja, existe c1 > 0 tal que


X m
c1 x2α ≤ 1 + ||x||2 .
|α|≤m

Por outro lado, afirmamos que:


X m!
(x1 + x2 + · · · + xn )m = xα (5.5)
α!
|α|=m

onde α! = α1 ! . . . αn ! . Provaremos (5.5) por indução em n. De fato, para n = 1 a


igualdade se verifica trivialmente. Vejamos n = 2. Temos,
m
X m!
(x1 + x2 ) =m
xα1 1 xm−α
2
1
.
α1 =0
α 1 !(m − α 1 )!

Pondo-se α = (α1 , α2 ) de modo que α1 + α2 = m resulta que


X m! X m!
(x1 + x2 )m = xα1 1 xα2 2 = xα
α +α =m
α 1 ! α 2 ! α!
1 2 |α|=m

o que prova (5.5) para n = 2. Suponhamos, então, que (5.5) seja verdadeiro para n e
provemos para (n + 1). De fato, pelo caso n = 2 vem que
X m!
(x1 + · · · + xn + xn+1 )m = (x1 + · · · + xn )α1 xαn+1
2

α +α =m
α 1 ! α 2 !
1 2
179

e pela hipótese indutiva resulta que a expressão acima é igual a


 X 
X m! α 1 ! β1
x1 . . . xn xαn+1
βn 2

α +α =m
α 1 ! α 2 ! β!
1 2 |β|=α1

ou ainda,
X X m! X m!
xβ1 1 . . . xβnn · xαn+1
2
= xγ
α1 +α2 =m β1 +···+βn =α1
β1 ! . . . βn ! α2 ! γ!
|γ|=m

o que prova (5.5). Resulta daı́ em particular que

(1 + ||x||2 )m = (x21 + · · · + x2n + 1)m


X m!
= x2α
1
1
. . . x2α
n .
n
(5.6)
α +···+α +α =m
α 1 ! . . . αn !αn+1 !
1 n n+1

Pondo-se β1 = (α1 , . . . , αn ) ∈ Nn e β2 = αn+1 podemos escrever de (5.6) que


X m! 2β1 X m! 2β1
(1 + ||x||2 )m = x ≤ x
β1 !β2 ! β1 !
|β1 |+β2 =m |β1 |+β2 =m
X m! 2β1 X m!
= x ≤ x2β1 .
β1 ! β1 !
|β1 |=m−β2 |β1 |≤m

Portanto, existe c2 > 0 tal que


X m! X
(1 + ||x||2 )m ≤ x2β1 ≤ c2 x2β1
β1 !
|β1 |≤m |β1 |≤m

conforme querı́amos demonstrar.


2

Proposição 5.2 Para todo m ∈ N temos:


m
H m (Rn ) = u ∈ S 0 (Rn ); 1 + ||x||2 2 û ∈ L2 (Rn ) .
 

Além disso, as normas || · ||m e ||| · ||| provenientes dos produtos internos dados em (5.2)
e (5.4) são equivalentes.

Demonstração: Identificando-se o L2 (Rn ) com o seu dual termos a cadeia:

H m (Rn ) ,→ L2 (Rn ) ,→ S 0 (Rn ).


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
180 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Seja u ∈ H m (Rn ). Então, em virtude da cadeia acima u ∈ S 0 (Rn ). Além disso,


Dα u ∈ L2 (Rn ), ∀ α ∈ Nn ; |α| ≤ m. Segue daı́ face ao Teorema de Plancherel que
D
d α u ∈ L2 (Rn ). Mas,

D
d α u = (ix)α û (5.7)

e daı́ e do Lema 5.1 vem que


Z X Z
2 m 2
(1 + ||x|| ) |û(x)| dx ≤ c2 x2α |û(x)|2 dx
Rn |α|≤m Rn
X Z X Z
α 2 α u(x)|2 dx
= c2 |x û(x)| dx = c2 |D\
|α|≤m Rn |α|≤m Rn

que por Plancherel é igual a


X Z
c2 |Dα u(x)|2 dx < +∞.
|α|≤m Rn

Assim,
H m (Rn ) ⊂ {u ∈ S 0 (Rn ); (1 + ||x||2 )m/2 û ∈ L2 (Rn )} (5.8)

e, além disso,

|||u||| ≤ c2 ||u||m ; ∀ u ∈ H m (Rn ). (5.9)

Reciprocamente suponhamos que u ∈ S 0 (Rn ) e que (1 + ||x||2 )û ∈ L2 (Rn ). Logo, pelo
fato de Z Z
2
|û(x)| dx ≤ (1 + ||x||2 )m |û(x)|2 dx < +∞
Rn Rn

vem que û ∈ L (R ) e portanto u ∈ L2 (Rn ). Resta-nos provar que Dα u ∈ L2 (Rn )


2 n

∀ α ∈ Nn , |α| ≤ m. Com efeito de (5.7) obtemos,


X Z X
|D\α u(x)|2 dx = x2α |û(x)|2 dx
|α|≤m Rn |α|≤m

que pelo Lema 5.1 é menor ou igual a


Z
1
(1 + ||x||2 )m |û(x)| dx < +∞.
c1 Rn

Portanto, D
d α u ∈ L2 (Rn ) e por Plancherel resulta que D α u ∈ L2 (Rn ) ∀ α ∈ Nn ;

|α| ≤ m. Conseqüentemente:

{u ∈ S 0 (Rn ); (1 + ||x||2 )m/2 û ∈ L2 (Rn )} ⊂ H m (Rn ) (5.10)


181

como também,
 1/2
1
||u||m ≤ |||u|||. (5.11)
c1

De (5.8), (5.9), (5.10) e (5.11) fica provado o desejado. 2

Motivados pela Proposição 5.2 definimos para s ∈ R, s ≥ 0:

H s (Rn ) = {u ∈ S 0 (Rn ); (1 + ||x||2 )s/2 û ∈ L2 (Rn )} (5.12)

munido do produto interno


Z
(u, v)H s (Rn ) = (1 + ||x||2 )s û(x)v̂(x) dx. (5.13)
Rn

Segue diretamente da definição acima que

H s (Rn ) ,→ L2 (Rn ) (5.14)

pois se u ∈ H s (Rn ):
Z Z
||u||2L2 (Rn ) = ||û||2L2 (Rn ) = 2
|û(x)| dx ≤ (1 + ||x||2 )s |û(x)|2 dx = ||u||2H s (Rn ) .
Rn Rn

Proposição 5.3 Para todo s ≥ 0, H s (Rn ) é um espaço de Hilbert.

Demonstração: Seja (uν )ν∈N uma sucessão de Cauchy em H s (Rn ). Então,


Z
||uν − uµ ||2H s (Rn ) = (1 + ||x||2 )s |ûν (x) − ûµ (x)|2 dx → 0; µ, ν → +∞. (5.15)
Rn

Entretanto, pelo fato de


Z Z
2
|ûν (x) − ûµ (x)| dx ≤ (1 + ||x||2 )s |ûν (x) − ûµ (x)|2 dx
Rn Rn

e como por Plancherel


||uν − uµ ||2L2 (Rn ) = ||ûν − ûµ ||2L2 (Rn )

resulta de (5.15) que (uν ) é de Cauchy em L2 (Rn ). Sendo este um espaço de Hilbert vem
que existe u ∈ L2 (Rn ) tal que

uν → u em L2 (Rn ) quando ν → +∞. (5.16)


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
182 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Por outro lado, notemos que:


Z
2
||uν − uµ ||H s (Rn ) = (1 + ||x||2 )s |ûν (x) − ûµ (x)|2 dx
Rn
Z
= |(1 + ||x||2 )s/2 (ûν (x) − ûν (x))|2 dx
n
ZR
= |(1 + ||x||2 )s/2 ûν (x) − (1 + ||x||2 )s/2 ûµ (x)|2 dx. (5.17)
Rn

De (5.15) e (5.17) resulta que,

(1 + ||x||2 )s/2 ûν é de Cauchy em L2 (Rn )




e por conseguinte existe v ∈ L2 (Rn ) tal que

(1 + ||x||2 )s/2 ûν → v em L2 (Rn ) quando ν → +∞. (5.18)

A seguir, provaremos que:


(1 + ||x||2 )s/2 û = v. (5.19)

Com efeito, de (5.16) e em virtude da continuidade da Transformada de Fourier vem


que
ûν → û em L2 (Rn ). (5.20)

Consideremos ϕ ∈ S(Rn ). Observamos que se T ∈ S 0 (Rn ) e α é uma função tal que


αϕ ∈ S, então,
hαT, ϕiS 0 ,S = hT, αϕiS 0 ,S .

Logo, identificando-se o L2 (Rn ) com o seu dual,

h(1 + ||x||2 )s/2 ûν , ϕi = hûν , (1 + ||x||2 )s/2 ϕi = ûν , (1 + ||x||2 )s/2 ϕ

L2 (Rn )

e de (5.20) resulta que

ûν , (1 + ||x||2 )s/2 ϕ → û, (1 + ||x||2 )s/2 ϕ L2 (Rn ) quando ν → +∞.


 
L2 (Rn )

Logo,

h(1+||x||2 )s/2 ûν , ϕi → hû, (1+||x||2 )s/2 ϕi = h(1+||x||2 )s/2 û, ϕi quando ν → +∞. (5.21)

Da convergência em (5.18) resulta que

(1 + ||x||2 )s/2 ûν * v fraco em S 0 (Rn ) (5.22)


183

e conseqüentemente de (5.21) e (5.22) resulta pela unicidade do limite que

v = (1 + ||x||2 )s/2 û

o que prova (5.19). Assim, (1 + ||x||2 )s/2 û ∈ L2 (Rn ) e portanto u ∈ H s (Rn ). Agora de
(5.18) vem que

(1 + ||x||2 )s/2 ûν → (1 + ||x||2 )s/2 û em L2 (Rn ) quando ν → +∞. (5.23)

Finalmente, como,
Z
||uν − u||2H s (Rn ) = (1 + ||x||2 )s |ûν (x) − û(x)|2 dx
n
ZR
= |(1 + ||x||2 )s/2 ûν (x) − (1 + ||x||2 )s/2 û(x)|2 dx
Rn

resulta de (5.23) que


uν → u em H s (Rn )

o que encerra a prova. 2

Proposição 5.4 S(Rn ) tem uma imersão contı́nua e densa em H s (Rn ), s ≥ 0.

Demonstração: Seja u ∈ S(Rn ). Então û ∈ S(Rn ). Mas, dado m ∈ N podemos


escrever
Z Z
||u||2H s (Rn ) = 2 s
(1 + ||x|| ) |û(x)| dx = 2
(1 + ||x||2 )m (1 + ||x||2 )−(m−s) |û(x)|2 dx.
Rn Rn

Escolhamos m suficientemente grande de modo que


Z
(1 + ||x||2 )−(m−s) dx < +∞.
Rn

Logo,
 Z
||u||2H s (Rn ) ≤ 2 m
sup (1 + ||x|| ) |û(x)| 2
(1 + ||x||2 )−(m−s) dx < +∞ (5.24)
x∈Rn Rn

o que prova que


S(Rn ) ⊂ H s (Rn ).

Provaremos, a seguir, a continuidade da imersão. Com efeito, seja (uν ) ⊂ S(Rn ) tal que
uν → 0 em S(Rn ). Então, face a continuidade da transformada de Fourier ûν → 0 em
S(Rn ). Mas de (5.24):

||uν ||2H s (Rn ) ≤ c p0,m (û2ν ) → 0 quando ν → +∞


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
184 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

onde p0,m (û2ν ) = sup (1 + ||x||2 )m |û(x)|2 é uma das seminormas que definem a topologia
x∈Rn
de S(R ). Isto prova a continuidade da imersão. Resta-nos provar a densidade de S(Rn )
n

em H s (Rn ). Com efeito, seja u ∈ H s (Rn ). Então (1 + ||x||2 )s/2 û ∈ L2 (Rn ). Como D(Rn )
é denso em L2 (Rn ) existe (ϕν ) ⊂ D(Rn ) tal que

ϕν → (1 + ||x||2 )s/2 û em L2 (Rn ) quando ν → +∞. (5.25)

Exibiremos (ψν ) ⊂ S(Rn ) tal que ψν → u em H s (Rn ). De fato, de (5.25) resulta que
Z
2 s 2
||ϕν − (1 + ||x|| ) û||L2 (Rn ) = |ϕν (x) − (1 + ||x||2 )s/2 û(x)|2 dx
Rn
Z 2

2 s ϕν (x)
= (1 + ||x|| ) 2 s/2
− û(x) dx → 0, (5.26)
Rn (1 + ||x|| )

quando ν → +∞. Notamos que a convergência em (5.26) motiva-nos a definir:


 ν
ϕν (x)
ψν (x) =
(1 + ||x||2 )s/2

onde ν designa a Transformada de Fourier inversa. Logo, (ψν ) ⊂ S(Rn ) e como


ϕν
ψ̂ν =
(1 + ||x||2 )s/2

resulta de (5.26) que


Z
||ψν − u||2H s (Rn ) = (1 + ||x||2 )s |ψ̂ν (x) − û(x)|2 dx → 0 quando ν → +∞
Rn

conforme querı́amos demonstrar. 2

Corolário 5.5 D(Rn ) tem uma imersão contı́nua e densa em H s (Rn ).

Demonstração: Sabemos que D(Rn ) ,→ S(Rn ) com uma imersão contı́nua e densa
(cf. Proposição 1.36). Pela proposição anterior S(Rn ) ,→ H s (Rn ) com imersão contı́ua e
densa. Logo, por transitividade temos o desejado. 2

Veremos, a seguir, uma propriedade local dos espaços H s (Rn ) através do seguinte
resultado:

Proposição 5.6 Para todo s ∈ R, s ≥ 0 e toda ϕ ∈ D(Rn ) a aplicação de H s (Rn ) →


H s (Rn ) tal que u 7→ ϕu é linear e contı́nua.
185

Demonstração: Sejam u ∈ H s (Rn ) e ϕ ∈ D(Rn ). Provaremos que a aplicação acima


está bem definida. De fato, é claro que ϕu ∈ S 0 (Rn ) pois ϕ ∈ D(Rn ) e u ∈ H s (Rn ) ⊂
L2 (Rn ). Temos:
Z
||ϕu||2H s (Rn ) = (1 + ||x||2 )s |c
ϕu(x)|2 dx
n
ZR
= (1 + ||x||2 )s |(ϕ̂ ∗ û)(x)|2 dx
Rn
Z Z 2
2 s

= (1 + ||x|| ) ϕ̂(y)û(x − y)dy dx
Rn Rn
Z Z 2
2 s
≤ (1 + ||x|| ) |ϕ̂(y)| |û(x − y)| dy dx
Rn Rn
Z Z 2
2 s 1/2 1/2
= (1 + ||x|| ) |ϕ̂(y)| |ϕ̂(y)| |û(x − y)| dy dx
Rn Rn

que por Hölder é ainda menor ou igual a


Z Z  Z 
2 s 2
(1 + ||x|| ) |ϕ̂(y)| dy |ϕ̂(y)| |û(x − y)| dy dx.
Rn Rn Rn

Z
Portanto, pondo-se c1 = |ϕ̂(y)| dy obtemos, por Fubini,
Rn
Z Z
||ϕu||2H s (Rn ) ≤ c1 (1 + ||x||2 )s |ϕ̂(y)| |û(x − y)|2 dxdy. (5.27)
Rn Rn

Por outro lado se x, y ∈ Rn , temos,

||x||2 = ||x − y + y||2 ≤ 2||x − y||2 + 2||y||2

o que implica que,

1 + ||x||2 ≤ 1 + 2||x − y||2 + 2||y||2 ≤ 2(1 + ||x − y||2 )(1 + ||y||2 )

e consequentemente,

(1 + ||x||2 )s ≤ 2s (1 + ||y||2 )s (1 + ||x − y||2 )s . (5.28)

Logo, de (5.27) e (5.28) resulta que


Z Z
2
||ϕu||H s (Rn ) ≤ c2 (1 + ||y||2 )s |ϕ̂(y)|(1 + ||x − y||2 )s |û(x − y)|2 dxdy
n n
ZR R Z 
2 s 2 s 2
= c2 (1 + ||y|| ) |ϕ̂(y)| (1 + ||x − y|| ) |û(x − y)| dx dy
Rn Rn
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
186 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

ou seja,
||ϕu||H s (Rn ) ≤ c(ϕ) ||u||H s (Rn )
o que prova que a aplicação está bem definida e simultaneamente é contı́nua posto que é
claramente linear. Isto conclui a prova. 2

Proposição 5.7 Sejam s ∈ R, s ≥ 0 e α ∈ Nn tal que |α| ≤ s. A aplicação

Dα : H s (Rn ) → H s−|α|
u 7→ Dα u

é linear e contı́nua.

Demonstração: Com efeito, evidentemente Dα u ∈ S 0 (Rn ). Temos, para |α| ≤ s:


Z
α 2
||D u||H s−|α| (Rn ) = (1 + ||x||2 )s−|α| |D\α u(x)|2 dx
n
ZR
= (1 + ||x||2 )s−|α| |x2α | |û(x)|2 dx
n
ZR
≤ (1 + ||x||2 )s−|α| ||x||2|α| |û(x)|2 dx
n
ZR
≤ (1 + ||x||2 )s−|α| (1 + ||x||2 )|α| |û(x)|2 dx
Rn
i.é,
||Dα u||H s−|α| (Rn ) ≤ ||u||H s (Rn ) .
A desigualdade acima prova-nos que a aplicação u ∈ H s (Rn ) 7→ Dα u ∈ H s−|α| (Rn ) está
bem definida e sendo claramente linear resulta que também é contı́nua conforme querı́amos
demonstrar. 2

Corolário 5.8 Sejam ϕ ∈ D(Rn ), s ≥ 0 e α ∈ Nn tal que |α| ≤ s. Então a aplicação


H s (Rn ) → H s−|α| (Rn ) tal que u 7→ ϕ Dα u é linear e contı́nua.

Demonstração: De acordo com as proposições 5.6 e 5.7 as aplicações abaixo:


H s (Rn ) → H s−|α| (Rn ) → H s−|α| (Rn )
u 7→ Dα u 7→ ϕ Dα u
são lineares e contı́nuas, o que prova o desejado. 2

Para todo s ∈ R, s ≥ 0, denotaremos o dual topológico de H s (Rn ), pondo:


0
H −s (Rn ) = H s (Rn ) . (5.29)

A proposição seguinte justifica a notação acima:


187

Proposição 5.9 As seguintes afirmações são verdadeiras:

(i) H −s (Rn ) = f ∈ S 0 (Rn ); (1 + ||x||2 )−s/2 fˆ ∈ L2 (Rn ) ;




 1/2
2 −s
|fˆ(x)| dx ; ∀ f ∈ H −s (Rn ).
R 2
(ii) ||f ||H −s (Rn ) = Rn
(1 + ||x|| )

Demonstração: Seja f ∈ H −s (Rn ). Identificando-se o L2 (Rn ) com o seu dual temos a


cadeia de imersões contı́nuas e densas

S(Rn ) ,→ H s (Rn ) ,→ L2 (Rn ) ,→ H −s (Rn ) ,→ S 0 (Rn )

o que prova que f ∈ S 0 (Rn ). Provaremos a seguir que:

(1 + ||x||2 )−s/2 fˆ ∈ L2 (Rn ). (5.30)

Com efeito, pelo Teorema de Riesz existe um único u0 ∈ H s (Rn ) tal que:

hf, viH −s ,H s = (v, u0 )H s (Rn ) ; ∀ v ∈ H s (Rn ). (5.31)

Além disso,
||f ||H −s (Rn ) = ||u0 ||H s (Rn ) . (5.32)

Logo, para todo ϕ ∈ S(Rn ), temos de (5.31) que


Z
ˆ
hf , ϕi = hf, ϕ̂i = (ϕ̂, u0 )H s (Rn ) = ˆ û0 (x) dx.
(1 + ||x||2 )s ϕ̂(x) (5.33)
Rn

Contudo, pelo fato de


Z
ϕ̌(−x) = e−2πihx,yi ϕ(y) dy = ϕ̂(x)
Rn

ˆ
segue que ϕ(−x) = ϕ̂(x). Logo, de (5.33) obtemos
Z
ˆ
hf , ϕi = (1 + ||x||2 )s ϕ(−x)û0 (x) dx
Rn
Z
= (1 + ||x||2 )s ϕ(x) û0 (−x) dx
Rn
= hû0 (−x), (1 + ||x||2 )s ϕi = h(1 + ||x||2 )s û0 (−x), ϕi.

Desta forma,
fˆ = (1 + ||x||2 )s û0 (−x)
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
188 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

o que implica que

(1 + ||x||2 )−s/2 fˆ = (1 + ||x||2 )s/2 û0 (−x) ∈ L2 (Rn ) (5.34)

já que u0 ∈ H s (Rn ). Isto prova (5.30), como também que

H −s (Rn ) ⊂ f ∈ S 0 (Rn ); (1 + ||x||2 )−s/2 fˆ ∈ L2 (Rn ) .



(5.35)

Além disso, de (5.34) obtemos:


Z
2
||u0 ||H s (Rn ) = (1 + ||x||2 )s |û0 (x)|2 dx
n
ZR Z
= 2 s 2
(1 + ||x|| ) |û0 (−x)| dx = (1 + ||x||2 )−s |fˆ(x)|2 dx
Rn Rn

e de (5.32) resulta que


Z 1/2
||f ||H −s (Rn ) = ||u0 ||H s (Rn ) = (1 + ||x|| ) |fˆ(x)|2 dx
2 s
(5.36)
Rn

o que prova o item (ii).


A proposição ficará totalmente demonstrada desde que provemos a inclusão contrária a
que foi provada em (5.35). Com efeito, seja f ∈ S 0 (Rn ) tal que (1 + ||x||2 )−s/2 fˆ ∈ L2 (Rn ).
Consideremos ϕ ∈ S(Rn ) e definamos:

ϕ∗ (x) = ϕ̂(−x); ψ = (1 + ||x||2 )s/2 ϕ∗ .

Logo,
(1 + ||x||2 )−s/2 ψ = ϕ∗

e além disso,
ˆ
[(1 + ||x||2 )−s/2 ψ]b = ϕ̂∗ (x) = ϕ̂(−x) = ϕ(x). (5.37)

Portanto, de (5.37) vem que

hf, ϕi = f, [(1 + ||x||2 )−s/2 ψ]b = fˆ, (1 + ||x||2 )−s/2 ψ




e consequentemente
hf, ϕi = (1 + ||x||2 )−s/2 fˆ, ψ .

Da igualdade acima resulta que

|hf, ϕi| ≤ ||(1 + ||x||2 )−s/2 fˆ||L2 (Rn ) ||ψ||L2 (Rn ) . (5.38)
189

Provaremos que f é um funcional lienar e contı́nuo em H s (Rn ). De fato, primeiramente


observemos que:
Z Z

||ψ||2L2 (Rn ) = 2 s
(1 + ||x|| ) |ϕ (x)| dx =2
(1 + ||x||2 )s |ϕ̂(−x)|2 dx
Rn
Z Rn

= (1 + ||x||2 )s |ϕ̂(x)|2 dx = ||ϕ||2H s (Rn ) . (5.39)


Rn

Assim, de (5.38) e (5.39) obtemos:

|hf, ϕi| ≤ c ||ϕ||H s (Rn ) ; ∀ ϕ ∈ S(Rn ). (5.40)

Por densidade (cf. Proposição 5.4) estendemos (5.40) à todo espaço H s (Rn ) o que
prova que f ∈ H −s (Rn ) e encerra a demonstração. 2

5.2 Os Espaços H s(Ω)

Antes de definirmos os espaços H s (Ω) faremos algumas considerações iniciais que nos
serão úteis no desenrolar desta seção.
Seja E um espaço vetorial sobre um corpo K (C ou R) e M um subespaço de E.
Dizemos que dois elementos x, y ∈ E são congruentes módulo M e escrevemos x ≡ y
mód. M se x − y ∈ M . Pela definição de subespaço, a congruência é uma relação de
equivalência sobre E. Denotaremos por E/M o conjunto quociente de E módulo a relação
de equivalência definida por M . Desta forma,

E/M = {x + M ; x ∈ E}

e
ẋ = x + M = {y ∈ E; y − x ∈ M }

onde ẋ é a classe de equivalência de um elemento de x ∈ E.


Podemos definir uma estrutura de espaço vetorial (sobre o mesmo corpo) sobre E/M
pondo:
˙ ˙
ẋ + ẏ = (x + y) e λẋ = (λx)

com x, y ∈ E e λ escalar. Em particular, M é uma classe de equivalência, ou seja, M = 0̇.


O conjunto quociente E/M equipado com a estrutura de espaço vetorial acima definido
é denominado espaço vetorial quociente ou simplesmente quociente de E mód. M .
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
190 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Agora, seja (E, || · ||) um espaço vetorial normado e M um subespaço fechado de E.


Definiremos uma norma no espaço quociente E/M definindo:

||ẋ||E/M = inf ||x|| = inf{||y||; y ∈ x + M } (5.41)


x∈ẋ

a qual é denominada norma quociente. Provaremos que a expressão em (5.41) real-


mente define uma norma em E/M . De fato:
(i) ||ẋ|| = 0 ⇔ ẋ = 0̇
Se ẋ = 0̇ então x + M = M e, portanto,

||ẋ||E/M = ||0̇||E/M = inf{||y||; y ∈ M }.

Mas 0 ∈ M e portanto 0 ∈ {||y||; y ∈ M }. Logo, ||ẋ||E/M = 0 pois caso contrário se


||ẋ|| > 0 existiria um elemento do conjunto {||y||; y ∈ M }, a saber, ||0||, menor que o
ı́nfimo. Reciprocamente suponhamos que ||ẋ||E/M = 0. Então,

inf{||y||; y ∈ x + M } = 0. (5.42)

Provaremos que ẋ = 0̇, ou seja, x + M = M . Com efeito, de (5.42) temos a existência


de uma seqüência (yn ) ⊂ x + M tal que

||yn || → 0 quando n → +∞.

Resulta da convergência acima que yn → 0 em E e pelo fato de M ser fechado vem


que 0 ∈ x + M , ou seja, −x ∈ M . Como M é subespaço x ∈ M . Logo, x + M = M o que
prova (i).

(ii) ||λẋ||E/M = |λ| ||ẋ||E/M .


De fato, temos:

||λẋ||E/M = inf{||λy||; y ∈ x + M } = inf{|λ| ||y||; y ∈ x + M }


= |λ| inf{||y||; y ∈ x + M } = |λ| ||ẋ||E/M

(iii) ||ẋ + ẏ||E/M ≤ ||ẋ||E/M + ||ẏ||E/M .


Com efeito, seja ε > 0. Então existem x1 ∈ ẋ = x + M e y1 ∈ ẏ = y + M tais que

||x1 || ≤ ||ẋ||E/M + ε e ||y1 || ≤ ||ẏ||E/M + ε.


191

Portanto,
||x1 + y1 || ≤ ||x1 || + ||y1 || ≤ ||ẋ||E/M + ||ẏ||E/M + 2ε. (5.43)

Por outro lado,


_
˙
||ẋ + ẏ|| = ||x + y|| = inf{||z||; z ∈ (x + y) + M }.

Contudo,
(x1 + x2 ) ∈ (x + y) + M

e por conseguinte
||ẋ + ẏ||E/M ≤ ||x1 + x2 ||.

Logo, de (5.43) vem que

||ẋ + ẏ||E/M ≤ ||ẋ||E/M + ||ẏ||E/M + 2ε

e pela arbitrariedade de ε > 0 tem-se o desejado.

Proposição 5.10 Seja E um espaço de Banach e M um subespaço fechado de E. Então,


o espaço vetorial quociente E/M munido com a norma quociente dada em (5.41) é com-
pleto, i.é, é um espaço de Banach.

Demonstração: Seja (ẋn )n∈N uma sequência de Cauchy em E/M . Então dado
ε > 0, ∃ nε ∈ N tal que ∀ m, n ≥ nε tem-se

||ẋm − ẋn ||E/M < ε.

1
Ponhamos ε = , k ∈ N∗ . Então, para cada k ∈ N∗ ∃ nk ∈ N tal que nk ≤ nk+1 e
2k+1
∀ m ≥ nk tem-se
1
||ẋm − ẋnk ||E/M < ·
2k+1
Em particular,
1
||ẋnk+1 − ẋnk || < ; ∀ k ∈ N∗ . (5.44)
2k+1
Contudo,
||ẋnk+1 − ẋnk || = inf{||ynk ||; ynk ∈ (xnk+1 − xnk ) + M }.

Logo, para cada k ∈ N, ∃ ynk ∈ (xnk+1 − xnk ) + M tal que



1 _˙ 1 1 1
||ynk || < k+1 + xnk+1 − xnk < k+1 + k+1 = k · (5.45)
2
E/M 2 2 2
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
192 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Entretanto, ynk = xnk+1 − xnk + mk com mk ∈ M . Para cada k ∈ N∗ definamos:

m0k = mk + m0k−1 onde m00 = 0.

Definimos:
ξnk = xnk + m0k−1 .

Notemos que (ξnk ) ⊂ ẋnk pois m0k−1 ∈ M . Além disso de (45) resulta que

||ξnk+1 − ξnk || = ||(xmk+1 + m0k ) − (xnk + m0k−1 )||


1
= ||xnk+1 − xnk + m0k − m0k−1 || = ||xnk+1 − xnk + mk || = ||ynk || <
2k
i.é,
1
||ξnk+1 − ξnk || < ; ∀ k ∈ N∗ . (5.46)
2k
Resulta de (5.46) que (ξnk ) é de Cauchy pois se ` > k temos

||ξn` − ξnk || ≤ ||ξnk − ξn`−1 || + · · · + ||ξnk+1 − ξnk ||


  `−k 
1 1 1 1 1
< `−1 + · · · + k = k−1 1 − < k−1 ·
2 2 2 2 2

Logo, (ξnk ) converge para algum elemento x ∈ E uma vez que E é completo por
hipótese. Denotando-se por ẋ a classe de equivalência de x mód. M obtemos,

||ẋnk − ẋ||E/M = inf{||ynk − y||; ynk ∈ ẋk e y ∈ ẋ} ≤ ||ξnk − x||

e pelo fato de ξnk → x quando k → +∞ resulta que (ẋnk ) converge para ẋ em E/M . Seja
ε > 0 dado. Então, existe N ∈ N tal que
ε
||ẋn − ẋm || < , se n, m > N.
2

Desta forma, se escolhermos n > N e nk > N teremos


ε ε
||ẋn − ẋ|| ≤ ||ẋn − ẋnk || + ||ẋnk − ẋ|| < + =ε
2 2
ou seja, a seqüência (ẋn ) converge para ẋ o que comleta a prova. 2

Seja E um espaço vetorial e M um subespaço de E. A aplicação linear:

π : E → E/M
x 7→ π(x) = ẋ = x + M (5.47)
193

que é claramente sobrejetiva é denominada “sobrejeção canônica”.


Se f : E → F , onde F é também um espaço vetorial, é uma aplicação linear tal que
f (x) = 0, ∀ x ∈ M ou melhor M ⊂ ker(f ) então podemos definir a seguinte função:

f¯: E/M → F
ẋ 7→ f¯(ẋ) = f (x) (5.48)

onde x ∈ E é um representante de ẋ. Se y é um outro representante de ẋ então x − y ∈ M


e como M ⊂ ker(f ) segue que f (x − y) = 0 e portanto f (x) = f (y) o que prova que f¯
está bem definida. É claro que f¯ é linear e que a definição de f¯ é equivalente a relação
f = f¯ ◦ π. Para fixar idéias, consideremos a diagramação abaixo:
f =f¯◦π
E −→ F

% f¯

π
y

E/M

Se escolhermos, em particular, M = ker(f ), então f¯ é injetiva.


De fato, suponhamos que f¯(ẋ) = 0. Então f (y) = 0, ∀ y ∈ ẋ = x + M , o que implica
que y ∈ ker(f ) = M , ∀ y ∈ x + M . Em particular, x = x + 0 ∈ M e portanto x + M = M ,
ou seja, ẋ = 0̇.
Agora, seja E um espaço vetorial normado e M um subespaço fechado de E. A
sobrejeção canônica π : E → E/M é contı́nua, pois de (5.41) temos

||π(x)||E/M = ||ẋ|| ≤ ||x|| ∀ x ∈ E.

Se f : E → F é uma função linear e contı́nua de E em outro espaço vetorial normado F


tal que f (x) = 0 para todo x pertencente ao subespaço fechado M de E então a aplicação
f¯: E/M → F definida por f = f¯ ◦ π é também contı́nua. De fato, temos:

||f (x)||F ≤ c1 ||x||E ; ∀ x ∈ E e algum c1 > 0.

Portanto,
||f¯(ẋ)||F = ||f (x)||F ≤ c1 ||x||E ; ∀ x ∈ ẋ.
1 ¯
Logo, ||f (ẋ)||F é cota inferior do conjunto {||x||E ; x ∈ ẋ} e assim,
c1
||f¯(ẋ)||F ≤ c1 ||ẋ||E/M
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
194 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

o que prova a continuidade de f¯.


Seja Ω um aberto limitado do Rn com fronteira Γ bem regular, ou o semi-espaço Rn+ .
Consideremos a aplicação:

rΩ : L2 (Rn ) → L2 (Ω)
u 7→ rΩ u = u|Ω (5.49)

que leva u na sua restrição rΩ u a Ω. Segue que rΩ é uma aplicação linear e contı́nua pois

||u|Ω ||L2 (Ω) ≤ ||u||L2 (Rn ) .

Além disso, para todo α ∈ Nn , tem-se,

Dα (rΩ u) = rΩ (Dα u)

no sentido das distribuições. Decorre daı́ que para todo m ∈ N a aplicação

rΩ : H m (Rn ) → H m (Ω)
u 7→ rΩ u = u|Ω

é contı́nua. Afirmamos que:

H m (Ω) = {rΩ u; u ∈ H m (Rn )}. (5.50)

De fato, lembremos que H m (Ω) possui a propriedade do m-prolongamento, ou seja,


existe uma aplicação linear e contı́nua

P : H m (Ω) → H m (Rn )
v 7→ P v

tal que P v = v quase sempre em Ω. Seja v ∈ H m (Ω). Então ∃ u = P v ∈ H m (Rn ) tal que
rΩ u = v, ou seja,
H m (Ω) ⊂ {rΩ u; u ∈ H m (Rn )}.

Reciprocamente, se v ∈ {rΩ u, u ∈ H m (Rn )} então v = rΩ u onde u ∈ H m (Rn ). Logo,


v ∈ H m (Ω) o que prova
{rΩ u; u ∈ H m (Rn )} ⊂ H m (Ω)

e, consequentemente, (5.50).
195

Do que vimos acima nos motiva a definir para Ω ⊂ Rn aberto limitado bem regular
(ou o Rn+ ) e s ≥ 0:
H s (Ω) = {v|Ω ; v ∈ H s (Rn )}. (5.51)

Notemos que H s (Ω) ⊂ L2 (Ω) pois se u ∈ H s (Ω) então u = v|Ω para algum v ∈
H s (Rn ) ⊂ L2 (Rn ) e portanto v|Ω ∈ L2 (Ω). Desta forma, fica bem definida a aplicação:

rΩ : H s (Rn ) → H s (Ω)
v 7→ rΩ v = v|Ω (5.52)

que é claramente linear e sobrejetiva o que implica que H s (Ω) é um subespaço de L2 (Ω),
pois rΩ (H s (Rn )) = H s (Ω). Afirmamos que:

ker(rΩ ) é um subespaço fechado de H s (Rn ). (5.53)

Com efeito, seja (vν )ν∈N ⊂ ker(rΩ ) e tal que

vν → v em H s (Rn ). (5.54)

Provaremos que v ∈ ker(rΩ ). De fato, temos


Z Z
2 2 s 2
||vν − v||H s (Rn ) = (1 + ||x|| ) |v̂ν (x) − v̂(x)| dx ≥ \
|vν (x) − v(x)|2 dx
Rn Rn

que por Plancherel é igual a Z


|vν (x) − v(x)|2 dx.
Rn

Logo, Z
||vν − v||2H s (Rn ) ≥ |vν (x) − v(x)|2 dx

e como vν ∈ ker(rΩ ) então rΩ vν = vν |Ω = 0; ∀ ν ∈ N e portanto,


Z
2
||vν − v||H s (Rn ) ≥ |v(x)|2 = ||v||2L2 (Ω) (5.55)

e de (5.54) e (5.55) resulta que


||v||L2 (Ω) = 0

i.é., rΩ v = v|Ω = 0 o que prova (5.53).


O nosso objetivo, agora, é o de definir uma topologia em H s (Ω) e no caso particular em
que s ∈ N esta topologia coincide com a usual. Para toda u ∈ H s (Ω) existe, por definição,
v ∈ H s (Rn ) tal que v|Ω = u. Seria natural pernsarmos em definir uma “aplicação” de
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
196 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

H s (Ω) → R tal que u 7→ ||v||H s (Rn ) . Contudo, tal “aplicação” não representa uma norma
já que se u = 0 em H s (Ω) então rΩ v = v|Ω = 0 em H s (Ω), ou seja, v = 0 q.s. em Ω. Mas
isto não implica que v = 0 q.s. em Rn . Para contornar tal problema consideraremos o
espaço quociente H s (Rn )/ ker(rΩ ) onde

H s (Rn ) ker(rΩ ) = v + ker(rΩ ); v ∈ H s (Rn ) = {[v]; v ∈ H s (Rn )}.


 
(5.56)

Como o ker(rΩ ) é um subespaço fechado de H s (Rn ) então conforme visto anteriormente


a aplicação

|| · || : H s (Rn )/ ker(rΩ ) → R+
[v] 7→ || [v] || (5.57)

onde,

||[v]|| = inf{||ω||H s (Rn ) ; ω ∈ [v]} = inf{||ω||H s (Rn ) ; ω ∈ v + ker(rΩ )} (5.58)

é uma norma. Além disso, H s (Rn )/ ker(rΩ ) munido desta norma é um espaço de Banach.
Por outro lado, para cada v ∈ H s (Rn ) temos

{ω ∈ H s (Rn ); ω ∈ v + ker(rΩ )} = {ω ∈ H s (Rn ); rΩ ω = rΩ v} (5.59)

pois ∀ ω ∈ H s (Rn ) podemos escrever,

ω ∈ v + ker(rΩ ) ⇔ ω − v ∈ ker(rΩ ) ⇔ rΩ (ω − w) = 0 ⇔ rΩ ω = rΩ v.

Resulta da igualdade em (5.59) que para todo v ∈ H s (Rn ):



||[v]|| = inf{||ω||H s (Rn ) ; ω ∈ [v] = inf ||ω||H s (Rn ) ; rΩ ω = rΩ v . (5.60)

Temos o seguinte diagrama:

r
H s (Rn ) Ω
−→ H s (Ω)


π
y % r̄Ω

H s (Rn )/ ker(rΩ )
Sendo rΩ sobrejetiva temos que a aplicação

r̄Ω : H s (Rn )/ ker(rΩ ) → H s (Ω)


[v] 7→ r̄Ω ([v]) = rΩ v
197

é sobrejetiva. Com efeito, seja u ∈ H s (Ω). Então pela sobrejetividade de rΩ existe


v ∈ H s (Rn ) tal que rΩ v = u. Mas π(v) = [v] e portanto,

r̄Ω (π(v)) = r̄Ω ([v]) = rΩ v = u

o que prova a sobrejetividade de r̄Ω . Além disso, conforme vimos anteriormente, a


aplicação r̄Ω é também injetiva. Portanto r̄Ω é uma bijeção.
Estamos prontos para definir uma norma em H s (Ω). Assim dada u ∈ H s (Ω) existe,
face a sobrejetividade de rΩ dada em (5.52), v ∈ H s (Rn ) tal que rΩ v = u. Mais além,
todas as ω ∈ H s (Rn ) tais que rΩ ω = u pertencem a [v]. Disto e de (5.60) podemos definir:

||u||H s (Ω) = ||rΩ v||H s (Ω) = ||[v]||H s (Rn )/ ker(rΩ ) = inf{||ω||H s (Rn ) ; rΩ ω = u}. (5.61)

Convém observar que a aplicação restrição dada em (5.52) é contı́nua quando munimos
o H s (Ω) da topologia dada em (5.61). Com efeito dada u ∈ H s (Ω) ∃ v ∈ H s (Rn ) tal que
rΩ v = u. Logo,
||u||H s (Ω) = ||[v]||H s (Rn )/ ker(rΩ ) ≤ ||v||H s (Rn )
ou seja,
||rΩ v||H s (Ω) ≤ ||v||H s (Rn ) .

Segue daı́, conforme mencionado anteriormente, que a aplicação r̄Ω é contı́nua quando
munimos H s (Ω) da topologia dada em (5.61). Em verdade segue de (5.61) que r̄Ω é um
isomorfismo isométrico.
Seja m ∈ N. Provaremos, a seguir, que as normas:
 X 1/2
α

||u||H m (Ω) = ||D u||L2 (Ω) e |||u|||m = inf ||ω||H m (Rn ) ; rΩ ω = u
|α|≤m

são equivalentes em H m (Ω). De fato, seja u ∈ H m (Ω). Então existe v ∈ H m (Rn ) tal que
rΩ v = u. Logo:
||u||H m (Ω) = ||rΩ v||H m (Ω) ≤ ||v||H m (Rn ) .

Portanto, ||u||H m (Ω) é uma cota inferior do conjunto {||ω||H m (Rn ) ; rΩ ω = u} e conse-
quentemente,
||u||H m (Ω) ≤ |||u|||m .

Por outro lado, como u ∈ H m (Ω) então P u ∈ H m (Rn ) e rΩ (P u) = u. Assim, face a


continuidade do prolongamento obtemos

|||u|||m ≤ ||P u||H m (Rn ) ≤ c · ||u||H m (Ω) ,


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
198 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

o que prova a equivalência das normas.

Proposição 5.11 Para todo s ≥ 0, H s (Ω) munido da norma:

||u||H s (Ω) = inf{||ω||H s (Rn ) ; rΩ ω = u}

é um espaço de Hilbert.

Demonstração: Inicialmente provaremos que H s (Ω) é um espaço de Banach. A seguir,


mostraremos que a norma de H s (Ω) satisfaz a lei do paralelogramo. Com efeito, seja
(uν ) ⊂ H s (Ω) de Cauchy. Logo,
µ,ν→+∞
||uν − uµ ||H s (Ω) = ||[vν ] − [vµ ]||H s (Rn )/ ker(rΩ ) = ||[vν − vµ ]||H s (Rn )/ ker(rΩ ) −→ 0.

Então ([vν ])ν∈N é de Cauchy em H s (Rn )/ ker(rΩ ) quando ν → +∞. Entretanto, pelo
fato da aplicação

r̄Ω : H s (Rn ) ker(rΩ ) → H s (Ω)




[v] 7→ v

ser contı́nua temos que

r̄Ω [vν ] → r̄Ω v em H s (Ω) quando ν → +∞

ou seja,
uν = rΩ vν → rΩ v em H s (Ω) quando ν → +∞.

Denotando-se u = rΩ v temos que u ∈ H s (Ω) e além disso que uν → u em H s (Ω) o que


prova que H s (Ω) é um espaço de Banach. Provaremos, a seguir, que a norma de H s (Ω)
satisfaz a lei do paralelogramo, i.é,

||u + v||2H s (Ω) + ||u − v||2H s (Ω) = 2 ||u||2H s (Ω) + ||v||2H s (Ω) ; ∀ u, v ∈ H s (Ω).


Com efeito, dados u, v ∈ H s (Ω) sejam u1 ∈ [u] e v1 ∈ [v]. Então,

(u1 ± v1 ) ∈ [u] ± [v] = [u ± v]

e, portanto,

||u + v||2H s (Ω) + ||u − v||2H s (Ω) ≤ ||u1 + v1 ||2H s (Rn ) + ||u1 − v1 ||2H s (Rn )
= 2 ||u1 ||2H s (Rn ) + ||v1 ||2H s (Rn )

(5.62)
199

onde a igualdade vem do fato que H s (Rn ) é um espaço de Hilbert. De (5.62) vem então
que

||u + v||2H s (Ω) + ||u − v||2H s (Ω) ≤ 2 ||u||2H s (Ω) + ||v||2H s (Ω) ; ∀ u, v ∈ H s (Ω).

(5.63)

Fazendo 2ω1 = u + v e 2ω2 − u − v então u = ω1 + ω2 , v = ω1 − ω2 e da desigualdade


em (5.63) resulta que

||u||2H s (Ω) + ||v||2H s (Ω) = ||ω1 + ω2 ||2H s (Ω) + ||ω1 − ω2 ||2H s (Ω) (5.64)
 1
≤ 2 ||ω1 ||2H s (Ω) + ||ω2 ||2H s (Ω) = ||u + v||2H s (Ω) + ||u − v||2H s (Ω)

2

De (5.63) e (5.63) obtemos a lei do paralelogramo conforme querı́amos demonstrar. 2

Proposição 5.12 Para todo s ≥ 0, D(Ω) é denso em H s (Ω).

Demonstração: Seja u ∈ H s (Ω). Logo, existe v ∈ H s (Rn ) tal que rΩ v = u. De acordo


com o Corolário 5.5 existe (ϕν ) ⊂ D(Rn ) tal que ϕν → v em H s (Rn ). Pela continuidade
da aplicação rΩ : H s (Rn ) → H s (Ω) obtemos rΩ ϕν → rΩ v em H s (Ω), i.é, ϕν |Ω → u em
H s (Ω), conforme querı́amos demonstrar. 2

Para cada s ≥ 0, definimos:


H s (Ω)
H0s (Ω) = D(Ω) (5.65)

e
0
H −s (Ω) = H0s (Ω) , dual forte de H0s (Ω). (5.66)

Proposição 5.13 Se 0 ≤ s1 ≤ s2 então H s2 (Ω) ,→ H s1 (Ω), onde ,→ designa a imersão


contı́nua de um espaço no outro.

Demonstração: Seja u ∈ H s2 (Ω). Então ∃ v ∈ H s2 (Rn ) tal que rΩ v = u. Ora, como


H s2 (Rn ) ,→ H s1 (Rn ) resulta que v ∈ H s1 (Rn ) e, por conseguinte, u ∈ H s1 (Ω). Logo,

H s2 (Ω) ⊂ H s1 (Ω).

Resta-nos provar que a imersão é contı́nua. Com efeito, pelo fato de

{ω ∈ H s2 (Rn ); rΩ ω = u} ⊂ {ω ∈ H s1 (Rn ); rΩ ω = u}
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
200 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

resulta que
 
||u||H s1 (Ω) = inf ||ω||H s1 (Rn ) ; rΩ ω = u ≤ inf ||ω||H s2 (Rn ) ; rΩ ω = u = ||u||H s2 (Ω)

o que encerra a prova. 2

De acordo com o Teorema 4.11 se mp > n temos:

W m,p (Ω) ,→ Cb0 (Ω).

Em particular, se p = 2 resulta que

H m (Ω) ,→ Cb0 (Ω).

Provaremos, a seguir que para os espaços H s (Ω) vale um resultado análogo.

n
Proposição 5.14 Se s > então H s (Ω) ,→ Cb0 (Ω).
2

Demonstração: Seja u ∈ H s (Ω). Logo, ∃ v ∈ H s (Rn ) tal que v|Ω = u. Temos:


Z
2
||v̂||L2 (Rn ) = (1 + ||x||2 )−s (1 + ||x||2 )s |v̂(x)|2 dx
n
ZR
≤ (1 + ||x||2 )s |v̂(x)|2 dx < +∞
Rn
n
o que implica que v̂ ∈ L2 (Rn ). Por outro lado, como s > então 2s ≥ n + 1 e portanto,
2
Z Z Z
1 1 1
dx ≤ dx ≤ dx < +∞.
Rn (1 + ||x||2 )s Rn ||x||2s Rn ||x||n+1

Agora, por Hölder obtemos,


Z
||v̂||L1 (Rn ) = (1 + ||x||2 )−s/2 (1 + ||x||2 )s/2 |v̂(x)| dx
Rn
Z 1/2  Z 1/2
2 −s 2 s 2
≤ (1 + ||x|| ) dx (1 + ||x|| ) |v̂(x)| dx .
Rn Rn

Resulta daı́ que,

v̂ ∈ L2 (Rn ) ∩ L1 (Rn ) e ||v̂||L1 (Rn ) ≤ c||v||H s (Rn ) onde c > 0. (5.67)

Provaremos, a seguir, que v ∈ C 0 (Rn ). Com efeito, pelo fato de v = (v̂)∨ resulta que
Resulta daı́ que, Z
e2πi(<x,z>−<y,z>) v̂(z) dz.

v(x) − v(y) = (5.68)
Rn
201

Consideremos, então, (xν ) ⊂ Rn e tal que Resulta daı́ que,

xν → x em Rn . (5.69)

De (5.68) para cada ν ∈ N, temos, Resulta daı́ que,


Z
e2πi(<xν ,z>−<x,z>) v̂(z) dz.

v(xν ) − v(x) = (5.70)
Rn

Pondo-se:
gν (z) = e2πi<xν ,z> v̂(z)
então, de (5.69) vem que Resulta daı́ que,

gν (z) → g(z) = e2πi<x,z> v̂(z) q.s. em Rn . (5.71)

Além disso, Resulta daı́ que,

|gν (z)| = |e2πi<xν ,z> v̂(z)| ≤ |v̂(z)|; ∀ z ∈ Rn . (5.72)

Conseqüentemente, de (5.67), (5.71) e (5.72) temos face ao Teorema da Convergência


Dominada de Lebesgue que a expressão em (5.70) converge para 0, o que prova a con-
tinuidade de v. Provaremos, a seguir, que v é limitada. Com efeito, ∀ x ∈ Rn de (5.67)
obtemos Resulta daı́ que,
Z Z
2πi<x,z>

|v(x)| = e v̂(z) dz ≤ |v̂(z)| dz ≤ ||v||H s (Rn ) (5.73)
Rn Rn

o que prova a limitação de v. Portanto, v ∈ Cb0 (Rn ) e conseqüentemente u identifica-se


com uma função contı́nua e limitada em Ω, a saber v|Ω . Neste sentido, dizemos que
u ∈ Cb0 (Ω) e, assim,
H s (Ω) ⊂ Cb0 (Ω).

Resta-nos provar a continuidade da imersão. De fato, notemos inicialmente que se


ω ∈ H s (Rn ) é tal que ω|Ω = u então podemos fazer para ω todas as considerações feitas
para v. Logo, ω ∈ Cb0 (Ω) e além disso, ω = v em Ω. De fato, é claro que ω = v em Ω pois
v|Ω = ω|Ω = u. Agora, se x ∈ Γ então ∃ (xν ) ⊂ Ω tal que xν → x. Logo:

v(xν ) → v(x) e ω(xν ) → ω(x)

e pelo fato de v(xν ) = ω(xν ) = u(xν ) resulta que v(x) = ω(x); para todo x ∈ Γ. Portanto
v = ω em Ω e, consequentemente, Resulta daı́ que,

||u||C 0 (Ω) = sup |v(x)|; ∀ v ∈ H s (Rn ) tal que v|Ω = u. (5.74)


b
x∈Ω
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
202 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Resulta de (5.73) e (5.74) que Resulta daı́ que,

||u||C 0 (Ω) = sup |v(x)| ≤ sup |v(x)| ≤ c1 ||v||H s (Rn ) ; ∀ v ∈ H s (Rn ) (5.75)
b x∈Rn
x∈Ω

tal que v|Ω = u. Resulta daı́ que c1 ||v||H s (Rn ) é cota inferior do conjunto {||v||H s (Rn ) ; v|Ω =
u} e, por conseguinte,
||u||C 0 (Ω) ≤ c1 ||u||H s (Ω)
b

conforme querı́amos demonstrar. 2

5.3 Os Espaços H s(Γ)


Seja Ω um subconjunto aberto e limitado do Rn com fronteira Γ bem regular e consid-
eremos {(U1 , ϕ1 ), . . . , (Uk , ϕk )} um sistema de cartas locais para Γ. A cobertura aberta
Ω, U1 , . . . , Uk de Ω determina uma partição C ∞ da unidade subordinada à mesma (ver
Apêndice). Mais precisamente existem θ0 , θ1 , . . . , θk ∈ C0∞ (Rn ) tais que

supp(θ0 ) ⊂ Ω; supp(θi ) ⊂ Ui ; i = 1, . . . , k (5.76)


k
X
θi (x) = 1; ∀x ∈ Ω (5.77)
i=0

0 ≤ θi ≤ 1 ; i = 0, 1, . . . , k (5.78)

Seja u uma função definida sobre Γ (por exemplo integrável). Temos, em virtude de
(5.77):
k
X
u(x) = (θi u)(x) para q.t. x ∈ Γ. (5.79)
i=1

Definimos, para cada i ∈ {1, . . . , k}:

ui (y) = (θi u)(ϕ−1


i (y)); y ∈ Σ = (0, 1)n−1 . (5.80)

Notemos que:

S(uθi ) = {x ∈ Γ; (uθi )(x) 6= 0} ⊂ supp(θi ) ∩ Γ ⊂ Ui ∩ Γ

o que mostra que S(uθi ) é um compacto do Rn contido em Ui ∩ Γ. Segue daı́ que o


conjunto:
S(ui ) = {x ∈ Σ; ui (x) 6= 0}
203

é um compacto de Rn−1 contido no aberto Σ = (0, 1)n−1 pois

ϕi (S(uθi )) = S(ui )

ϕi é contı́nua e S(uθi ), conforme vimos, é um compacto. Além disso, como,

supp(ui ) ⊂ S(ui ) ⊂ Σ

podemos estender ui a uma função ũi pondo-se zero fora de Σ. Mais precisamente:
(uθi )(ϕ−1
(
i (y)) se y ∈ Σ
ũi (y) = (5.81)
0 se y ∈ Rn−1 \Σ
Observamos que em virtude da construção acima a aplicação ũi herdará as mesmas car-
acterı́sticas de ui . Neste caso como u é integrável então ũi também o será e,
Z Z
ũi (y) dy = u(x)θi (x)Ji (x) dΓ
Rn−1 Ui ∩Γ

onde Ji (x) é uma aplicação infinitamente diferenciável sobre Γi = Ui ∩ Γ. Reciprocamente


se ũi for para todo i = 1, . . . , k, uma função integrável em Rn−1 então em virtude de
(5.79) u também o será, e,
Z k Z
X k Z
X
u(x) dΓ = (uθi )(x) dΓ = ũi (y)J(y) dy.
Γ i=1 Γ i=1 Rn−1

Denotando-se por dΓ a medida superficial sobre Γ induzida pela medida de Lebesgue,


designaremos por Lp (Γ), 1 ≤ p ≤ +∞ o espaço das funções Lp somáveis sobre Γ para a
medida superficial dΓ. Muniremos o espaço Lp (Γ) da norma
Z 1/p
p
||v||Lp (Γ) = |v(x)| dΓ (5.82)
Γ

se 1 ≤ p < +∞ ou,
||v||L∞ (Γ) = → supess |v(x)| (5.83)
x∈Γ

se p = +∞. De maneira equivalente e usando a partição da unidade {θi }θ≤i≤k introduzida


anteriormente temos,
−1
Lp (Γ) = v : Γ → K; vθ^ p n−1

i ◦ ϕi = ṽi ∈ L (R ), i = 1, . . . , k}. (5.84)

Além disso, a norma


k
X 1/p
p
v ∈ L (Γ) 7→ ||v||Lp (Γ) = ||ṽi ||pLp (Rn−1 ) (5.85)
i=1
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
204 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

é equivalente a dada em (5.82).


Seja m ∈ N. Representaremos por C m (Γ) espaço vetorial das funções u : Γ → K de
classe C m e por D(Γ) o espaço vetorial das funções infinitamente diferenciáveis sobre Γ.
Da mesma forma, temos,

−1
C m (Γ) = m n−1

v : Γ → K; vθ^
i ◦ ϕi = ũi ∈ C (R ), i = 1, . . . , k (5.86)
−1 m n−1

D(Γ) = v : Γ → K; vθ^
i ◦ ϕi ∈ C (R ); ∀ m ∈ N e i = 1, . . . , k (5.87)

Consideremos a aplicação:

φi : D(Γ) → D(Rn−1 )
−1
u 7→ φi (u) = ũi = (uθ^
i ) ◦ ϕi . (5.88)

Sendo v ∈ D(Rn−1 ) vem que


Z


φi (u), v D0 (Rn−1 ),D(Rn−1 )
= ũi (y)v(y) dy
n−1
ZR
= u(x)θi (x)v(ϕi (x))Ji (x) dΓ (5.89)
Ui ∩Γ

onde Ji (x) é uma função infinitamente diferenciável sobre Ui ∩ Γ.


Definindo-se: (
θi (x)v(ϕi (x))Ji (x) x ∈ Ui ∩ Γ
ψi (v) =
0 x ∈ Γ\Ui ∩ Γ
então, de (5.89) podemos escrever
Z


φi (u), v D0 (Rn−1 ),D(Rn−1 ) = u(x)ψi (v)(x) dx
Γ

ou ainda do fato que ψi (v) ∈ D(Γ), tem-se





φi (u), v D0 (Rn−1 ),D(Rn−1 ) = u, ψi (v) D0 (Γ),D(Γ) . (5.90)

Da relação em (5.90) e do fato que D(Γ) é denso em D0 (Γ) resulta que a aplicação definida
em (5.88) se prolonga, por continuidade a uma aplicação que ainda indicaremos por φi de
D0 (Γ) em D0 (Rn−1 ).
Definimos para todo s ∈ R:

H s (Γ) = {u | φi (u) ∈ H s (Rn−1 ), i = 1, · · · , k} (5.91)


205

dotado da norma
k
X 1/2
||u||H s (Γ) = ||φi (u)||2H s (Rn−1 ) (5.92)
j=1

que evidentemente depende do sistema {Uj , ϕj , θj }. Não é difı́cil constatar que H s (Γ) é
um espaço de Hilbert em virtude de H s (Rn−1 ) o ser. Temos o seguinte resultado:

Proposição 5.15 D(Γ) é denso em H s (Γ).

Demonstração: Seja u ∈ H s (Γ). Temos que φi (u) ∈ H s (Rn−1 ) e supp(φi (u)) ⊂ Σ.


Como D(Rn−1 ) é denso em H s (Rn−1 ) podemos aproximar φi (u) por uma sucessão de
funções (ψi,m )m∈N ⊂ D(Rn−1 ) com suporte compacto contido em Σ = (0, 1)n−1 . Defi-
namos: (
ψi,m (ϕi (x)); x ∈ Ui ∩ Γ
ξi,m (x) =
0; x ∈ Γ\Ui ∩ Γ

Então, (ξi,m ) ⊂ D(Γ). Além disso,

ξi,m → uθi em H s (Γ). (5.93)

Com efeito de (5.92) basta provarmos que:

φj (ξi,m ) → φj (uθi ) em H s (Rn−1 ) para cada j ∈ {1, . . . , k}. (5.94)

Como ϕi e ϕj coincidem sobre Ui ∩ Uj obtemos,

φj (ξi,m )(y) = (θj ξi,m )(ϕ−1 −1 −1 −1


j (y)) = θj (ϕj (y))ξi,m (ϕi (y)) = θj (ϕj (y))ψi,m (y) (5.95)

φj (uθi ) = (θj uθi )(ϕ−1 −1 −1 −1


j (y)) = θj (ϕj (y))(uθi )(ϕj (y)) = θj (ϕj )) · φi (u). (5.96)

De (5.95) e (5.96) e do fato que

ψi,m → φi (u) em H s (Rn−1 )

resulta que

◦ ϕ−1
φj (ξi,m ) = (θj^ ^−1 s
j )ψi,m → (θj ◦ ϕj )φi (u) = φj (uθi ) em H (R
n−1
)

o que prova (5.94) e consequentemente (5.93). 2 Não é difı́cil

constatar que a definição dos espaços H s (Γ) independe da escolha do sistema de cartas
locais {Uj , ϕj } e da partição da unidade {θj } subordinada. Agora, sendo {Ui , ϕi , θi } e
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
206 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

{Ui∗ , ϕ∗i , θi∗ } dois sistemas para Ω, provaremos que H s (Γ) e H s (Γ)∗ são “isomorfos” como
espaços de Hilbert. De acordo com a Proposição 5.15 basta verificar se a norma dada por
(5.92) e a análoga relativa a H s (Γ)∗ são equivalenes sobre D(Γ). De fato se u ∈ D(Γ)
existem c1 , c2 > 0 que verificam

c1 ||u||H s (Γ)∗ ≤ ||u||H s (Γ) ≤ c2 ||u||H s (Γ)∗

cuja constatação decorre diretamente das propriedades dos difeomorfismos ϕj e ϕ∗j .


Capı́tulo 6

TEORIA DE TRAÇO

6.1 Traço de uma Função de H 1(Ω)

Seja Ω um aberto limitado do Rn com fronteira Γ. Em Ω consideremos os seguintes


problemas:
− ∆u = f em Ω
n
∂2
 
X
(D) ∆=

i=1
∂x2i
u| = h sobre Γ
Γ

− ∆u = f

em Ω

(N) ∂u
=h (ν = normal unitária exterior)
∂ν sobre Γ
Γ

que são, respectivamente, os problemas de Dirichlet e Neuman. Aqui, f e h são funções


dadas definidas em Ω e Γ, respectivamente. Se desejamos resolver o problema (D) na
linguagem dos espaços de Sobolev, devemos precisar em que sentido a restrição de u a Γ
é igual a h. Analogamente, no problema (N), devemos precisar em que sentido a restrição
∂u
a Γ é igual a h.
∂ν
Examinemos o problema (D). Notamos que se u ∈ L2 (Ω), podemos modificar u arbi-
trariamente sobre uma variedade de dimensão (n − 1) contida em Ω e a função u continua
sendo a mesma (i.é, está na mesma classe). Assim, u restrita a Γ não faz sentido se
u ∈ L2 (Ω). Se u ∈ H 1 (Ω), nem sempre u pode ser identificada com uma função contı́nua
em Ω. Isto pode ser visto, por exemplo, com a função u, dada por
 k
1 1
u(x1 , x2 ) = log p 2 ; (x1 , x2 ) 6= (0, 0), 0 < k <
x1 + x22 2

207
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
208 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

definida em
Ω = (x1 , x2 ); x21 + x22 < 1


que pertence a H 1 (Ω) e no entanto tem uma singularidade na origem. Pelo teorema de
imersão de Sobolev, podemos identificar u ∈ H m (Ω) com uma função contı́nua em Ω se
n
m > · Decorre daı́ que esta identificação poderá ser feita se u tiver certa regularidade,
2
por exemplo, se u ∈ H 2 (Ω) e se n = 2 ou n = 3. Observamos que quando h 6= 0 nem
sempre acontece que u ∈ H 2 (Ω). Assim, definir a restrição de u a Γ, via identificação com
uma função contı́nua em Ω, não é bom quando trabalhamos no contexto dos espaços de
Sobolev. Análogas considerações podem ser feitas para o problema de Neuman.
Mostraremos que quando u ∈ H 1 (Ω), podemos definir a “restrição” de u a Γ, a qual
será denominada traço de ordem zero sobre Γ e denotada por γ0 u, e quando u ∈ H 2 (Ω),
∂u
podemos definir a restrição de a Γ, a qual será denominada traço de ordem um sobre
∂ν
Γ e denotada por γ1 u. A forma em que são definidas estas restrições será o objetivo deste
capı́tulo.
Começaremos estudando o caso quando Ω = Rn+ e depois, por cartas locais estudare-
mos o caso quando Ω for um aberto limitado bem regular do Rn .

6.1.1 Caso Ω = Rn+

Seja ϕ ∈ D(Rn+ ). Definamos, para cada t ≥ 0 fixado:

ϕ(t) : Rn−1 → K
x0 7→ ϕ(t)(x0 ) = ϕ(x0 , t)

Afirmamos que para cada t ≥ 0, ϕ(t) ∈ D(Rn−1 ). Com efeito, como ϕ ∈ D(Rn+ ),
existe ψ ∈ C0∞ (Rn ) tal que u = ψ|Rn . Ora, é imediato que ϕ(t) ∈ C ∞ (Rn−1 ). Resta-nos
+

provar que o supp(ϕ(t)) é um subconjunto compacto de Rn−1 . De fato, sejam K compacto


de Rn−1 e T > 0 tais que
supp(ψ) ⊂ K × [−T, T ].

Mas,
Rn−1
supp(ϕ(t)) = {x0 ∈ Rn−1 ; ϕ(t)(x0 ) 6= 0} .

Assim, se x0o ∈ {x0 ∈ Rn−1 ; ϕ(t)(x0 ) 6= 0} então ϕ(x00 , t) = ψ(x0o , t) 6= 0 o que implica
que
(x00 , t) ∈ supp(ψ) ⊂ K × [−T, T ]
209

e conseqüentemente x00 ∈ K. Logo,

{x0 ∈ Rn−1 ; ϕ(t)(x0 ) 6= 0} ⊂ K

e portanto
supp(ϕ(t)) ⊂ K
o que prova que o supp(ϕ(t)) é um subconjunto compacto de Rn−1 . Desta forma fica bem
definida a seguinte aplicação:

γ : D(Rn+ ) → D(Rn−1 )
ϕ 7→ γ ϕ = ϕ(0) (6.1)

onde ϕ(0) = ϕ|Rn−1 . Temos o seguinte resultado:

Proposição 6.1 Para toda ϕ ∈ D(Rn+ ); temos:

||γϕ||H 1/2 (Rn−1 ) ≤ ||ϕ||H 1 (Rn ) .


+

Demonstração: No que segue F1 : L2 (Rn−1 ) → L2 (Rn−1 )1 representará a transformada


de Fourier em L2 (Rn−1 ). Seja ϕ ∈ D(Rn+ ) e definamos:

ω(t) = F1 [ϕ(t)] (6.2)


Z
(n−1) 0 0
ω(x0 , t) = ω(t)(x0 ) = F1 [ϕ(t)](x0 ) = (2π)− 2 e−ihx ,y i ϕ(y 0 , t)dy 0 (6.3)
Rn−1
para x0 ∈ Rn−1 e t ≥ 0.
Faremos, a seguir, algumas estimativas para provar o desejado. De (6.2) vem que:
Z
2 2
||γϕ||H 1/2 (Rn−1 ) = ||ϕ(0)||H 1/2 (Rn−1 ) = (1 + ||x||2 )1/2 |F1 [ϕ(0)](x0 )|2 dx0
Z Rn−1 Z
0 2 1/2 0 2 0
= (1 + ||x || ) |ω(0)(x )| dx = (1 + ||x0 |2 )1/2 |ω(x0 , 0)|2 dx0 .
Rn−1 Rn−1

Daı́, Z
||γϕ||2H 1/2 (Rn−1 ) = (1 + ||x0 ||2 )1/2 |ω(x0 , 0)|2 dx0 . (6.4)
Rn−1

Tem-se também, graças a Fubini


Z Z +∞ Z
0 0
2
||ϕ||L2 (Rn ) = 2
|ϕ(x , t)| dx dt = |ϕ(x0 , t)|2 dx0 dt
+
Rn
+ 0 Rn−1
Z +∞ Z Z +∞
0 2 0
= |ϕ(t)(x )| dx dt = ||ϕ(t)||2L2 (Rn−1 ) dt
0 Rn−1 0
(n−1)
1
Neste contexto estamos definindo F1 [u(x)] = (2π)− e−ihx,yi u(y)dy.
R
2
Rn−1
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
210 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

que por Plancherel e por (6.2) é igual a


Z +∞ Z +∞
2
||F1 [ϕ(t)]||L2 (Rn−1 ) dt = ||ω(t)||2L2 (Rn−1 ) dt
0
Z0 +∞ Z Z +∞ Z
0 2 0
= |ω(t)(x )| dx dt = |ω(x0 , t)|2 dx0 dt
0 Rn−1 0 Rn−1

Donde, Z +∞ Z
||ϕ||2L2 (Rn ) = |ω(x0 , t)|2 dx0 dt. (6.5)
+
0 Rn−1


Ponhamos, para cada j = 1, 2, . . . , n − 1; Dj = · Sendo ϕ ∈ D(Rn+ ), então as
∂xj
derivadas no sentido das distribuições e clássicas coincidem. Pondo-se ej = (e0j , 0) resulta
que

ϕ[(x0 , t) + h(e0j , 0)] − ϕ(x0 , t) ϕ(x0 + he0j , t) − ϕ(x0 , t)


Dj ϕ(x0 , t) = lim = lim
h→0 h h→0 h
ϕ(t)(x0 + he0j ) − ϕ(t)(x0 )
= lim = Dj ϕ(t)(x0 ),
h→0 h
i.é,
Dj ϕ(x0 , t) = Dj (ϕ(t))(x0 ); j = 1, 2, . . . , n − 1. (6.6)

Agora, de (6.2) vem que

F1 [Dj ϕ(t)](x0 ) = (ixj )F1 [ϕ(t)](x0 ) = (ixj )ω(x0 , t); x0 ∈ Rn−1 ; t ≥ 0. (6.7)

De (6.6) resulta que


Z +∞ Z
||Dj ϕ||2L2 (Rn ) = |Dj ϕ(x0 , t)|2 dx0 dt
+
Rn−1
Z0 +∞ Z Z +∞
0 2 0
= |Dj ϕ(t)(x )| dx dt = ||Dj ϕ(t)||2L2 (Rn−1 ) dt
0 Rn−1 0

que por Plancharel e por (6.7) é igual a


Z +∞ Z +∞ Z
2
||F1 [Dj ϕ(t)]||L2 (Rn−1 ) dt = |F1 [Dj ϕ(t)](x0 )|2 dx0 dt
0 n−1
Z0 +∞ ZR
= |ixj F1 [ϕ(t)](x0 )|2 dx0 dt
0 Rn−1
Z +∞ Z
= (xj )2 |F1 [ϕ(t)](x0 )|2 dx0 dt
n−1
Z0 +∞ ZR
= (xj )2 |ω(x0 , t)|2 dx0 dt.
0 Rn−1
211

Portanto,
Z +∞ Z
||Dj ϕ||2L2 (Rn ) = (xj )2 |ω(x0 , t)|2 dx0 dt; j = 1, 2, . . . , n − 1. (6.8)
+
0 Rn−1


Ponhamos, Dn = e fixado x0 ∈ Rn−1 definamos:
∂t
Z
(n−1)
− 2 0 0 ∂ϕ
G(t) = (2π) e−ihx ,y i (y 0 , t)dy 0 ; t ≥ 0.
Rn−1 ∂t

∂ψ
Como ϕ ∈ D(Rn+ ) então ϕ = ψ|Rn ; ψ ∈ C0∞ (Rn ). Contudo, temos que ∈ C0∞ (Rn )
+ ∂t
∂ψ 
e supp ⊂ supp(ψ). Sejam K compacto de Rn−1 e T > 0 tais que
∂t
supp(ψ) ⊂ K × [−T, T ].

Então, ∃ M > 0 tal que



∂ϕ 0
∂t (y , t) ≤ M ;
∀ (y 0 , t) ∈ K × [0, T ].

Além disso, se y 0 ∈
/ K então (y 0 , t) ∈
/ K × [0, T ]; ∀ t ≥ 0. Conseqüentemente
∂ϕ 0
(y , t) = 0. Logo,
∂t
Z Z

(n−1) ∂ϕ 0 0 −
(n−1) ∂ϕ 0 0
|G(t)| ≤ (2π) 2 (y , t) dy = (2π) 2 (y , t) dy
Rn−1 ∂t K ∂t

(n−1)
= (2π)− 2 M · med(K) < +∞

uniformemente em relação a t. Desta forma, podemos derivar ω(x0 , t) com respeito a


variável t e obter
 
∂ 0 ∂ϕ ∂ϕ ∂ϕ 0
ω(x , t) = F1 (t) (x0 ); onde (t)(y 0 ) = (y , t). (6.9)
∂t ∂t ∂t ∂t
Em verdade, podemos derivar continuamente sob o sinal de integração e obter para as
derivadas uma forma análoga a obtida em (6.9). Assim,
Z +∞ Z
2
∂ϕ 0 0
||Dn ϕ||L2 (Rn ) = ∂t (x , t) dx dt

+ n−1
0 R
2
∂ϕ 2
Z +∞ Z Z +∞
∂ϕ 0
0
= (t)(x ) dx dt = ∂t (t) 2 n−1 dt

Rn−1 ∂t

0 0 L (R )

que por Plancherel é igual a


Z +∞   2 Z +∞ Z   2
∂ϕ ∂ϕ
(t) (x ) dx0 dt.
0

F1 (t) dt = F 1
0
∂t
L2 (Rn−1 ) 0 Rn−1
∂t
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
212 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Segue de (6.9) que


+∞ ∂ω 0 2 0
Z Z
||Dn ϕ||2L2 (Rn ) = (x , t) dx dt. (6.10)
Rn−1 ∂t
+
0

Das relações (6.5) , (6.8) e (6.10) acima resulta que


n
X
||ϕ||2H 1 (Rn ) = ||ϕ||2L2 (Rn ) + ||Dj ϕ||2L2 (Rn )
+ + +
j=1
Z +∞ Z n−1 Z
X +∞ Z
0 0
= 2
|ω(x , t)| dx dt + (xj )2 |ω(x0 , t)|2 dx0 dt
0 Rn−1 j=1 0 Rn−1

+∞
Z 2 Z +∞ Z
∂ω 0 0
(1 + ||x0 ||2 )|ω(x0 , t)|2 dx0 dt

+ ∂t (x , t) dx dt =

0 0 Rn−1

∂ω 0 2 0
Z +∞ Z
+ (x , t) dx dt
Rn−1 ∂t

0

ou seja,
Z +∞ Z
||ϕ||2H 1 (Rn ) = (1 + ||x0 ||2 )|ω(x0 , t)|2 dx0 dt
+
0 Rn+1
∂ω 0 2 0
Z +∞ Z
+ ∂t (x , t) dx dt.
(6.11)
0 Rn−1

Por outro lado, para cada x0 ∈ Rn+1 fixado em Rn−1 , consideremos

ξ(t) = ω(x0 , t); t≥0 (6.12)

onde ω é dada em (6.3) . Afirmamos que ξ ∈ D[0, +∞). Com efeito, temos,
Z
(n−1) 0 0
− 2
ξ(t) = (2π) e−ihx ,y i ϕ(y 0 , t)dy 0 .
Rn−1

Pelos argumentos expostos anteriormente temos que ξ ∈ C ∞ ([0, +∞)). Provaremos,


então, que supp(ξ) é compacto. Com efeito, como ϕ ∈ D(Rn+ ), então ϕ = ψ|Rn , para
+

algum ψ ∈ C0∞ (Rn ). Então, existem K, compacto de Rn−1 e T > 0 tais que supp(ψ) ⊂
K × [−T, T ]. Então, em particular,

supp(ψ|Rn ) ⊂ K × [0, T ].
+

Notemos que se t0 ∈ {t ∈ [0, +∞); ξ(t) 6= 0} então existirá y00 ∈ Rn−1 , tal que
ϕ(y00 , t0 ) 6= 0, pois, caso contrário, se ϕ(y 0 , t0 ) = 0; ∀ y ∈ Rn−1 então:
Z
0 0
ξ(t0 ) = e−ihx ,y i ϕ(y 0 , t)dy 0 = 0
Rn−1
213

o que é uma contradição! Logo ϕ(y 0 , t0 ) 6= 0 para algum y00 ∈ Rn−1 e consequentemente

(y00 , t0 ) ∈ {(y 0 , t) ∈ Rn−1 × [0, +∞); ϕ(y 0 , t) 6= 0}

ou seja,
(y00 , t0 ) ∈ supp ψ|Rn ⊂ K × [0, T ]

+

o que nos leva a concluir que t0 ∈ [0, T ]. Logo,

{t ∈ [0, +∞); ξ(t) 6= 0} ⊂ [0, T ]

e, portanto,
supp(ξ) ⊂ [0, T ]

o que prova o desejado. Assim,


ξ ∈ D[0, +∞). (6.13)

Consideremos, agora, a função auxiliar:

s2 ; s ≥ 0
(
ψ(s) = |s|s =
−s2 ; s < 0

cuja derivada clássica é dada por


(
2s; s ≥ 0
ψ 0 (s) =
−2s; s < 0

ou seja, ψ 0 (s) = 2|s|. Então pela Regra da Cadeia, temos:

(ψ ◦ ξ)0 (t) = ψ 0 (ξ(t))ξ 0 (t) = 2|ξ(t)| ξ 0 (t).

Agora de (6.13) resulta que a aplicação à direita da igualdade acima é contı́nua com
suporte compacto. Logo (ψ ◦ ξ) ∈ C01 [0, +∞), e,
Z +∞ Z +∞
0
(ψ ◦ ξ) (t) dt = 2|ξ(t)| ξ 0 (t) dt
0 0

isto é, Z +∞
−ψ(ξ(0)) = 2|ξ(t)| ξ 0 (t) dt
0

ou melhor, Z +∞
|ξ(0)|ξ(0) = − 2|ξ(t)| ξ 0 (t) dt.
0
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
214 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Resulta daı́ que


Z +∞
|ξ(0)| ≤ 2
2|ξ(t)| |ξ 0 (t)| dt
0

que por Hölder é menor ou igual a


Z +∞ 1/2  Z +∞ 1/2
2 0 2
2 |ξ(t)| dt |ξ (t)| dt .
0 0

Donde: 1/2  Z 1/2


Z +∞ +∞
2 2 0 2
|ξ(0)| ≤ 2 |ξ(t)| dt |ξ (t)| dt . (6.14)
0 0

De (6.12) , (6.14) e do fato que a derivada clássica ξ 0 de ξ coincide com a derivada no


sentido das distribuições, vem que
1/2  Z
∂ω 0 2
Z +∞ +∞
1/2
0 2 0 2
|ω(x , 0)| ≤ 2 |ω(x , t)| dt ∂t (x , t) dt
.
0 0

Multiplicando-se por (1 + ||x0 ||2 )1/2 a relação acima obtemos,


1/2  Z
∂ω 0 2
Z +∞ +∞
1/2
0 2 1/2 0 2 0 2 0 2
(1 + ||x || ) |ω(x , 0)| ≤ 2 (1 + ||x || )|ω(x , t)| dt ∂t (x , t) dt
.
0 0

Usando o fato que 2ab ≤ a2 + b2 e integrando-se sobre o Rn−1 resulta que


Z Z +∞ Z
0 2 1/2 0 0
(1 + ||x || ) |ω(x , 0)| dx 2
≤ (1 + ||x0 ||2 )|ω(x0 , t)|2 dx0 dt
Rn−1 0 Rn−1
∂ω 0 2 0
Z +∞ Z
+ ∂t (x , t) dx dt

0 R n−1

e de (6.4) e (6.11) temos provado o desejado. 2

De acordo com a Proposição 6.1 e pelo fato que D(Rn+ ) é denso em H 1 (Rn+ ) podemos
estender a aplicação γ dada em (6.1) a uma única aplicação linear e contı́nua:

γ0 : H 1 (Rn+ ) → H 1/2 (Rn−1 )


u 7→ γ0 u (6.15)

tal que
γ0 ϕ = ϕ|Rn−1 = ϕ(0); ∀ ϕ ∈ D(Rn+ ). (6.16)

A aplicação dada em (6.15) é denominada aplicação traço.


215

Lembremos que
∂u
H 1 (Rn+ ) = {u ∈ L2 (Rn+ ); ∈ L2 (Rn+ ); i = 1, . . . , n}
∂xi
munido da topologia
n
∂u 2

X
||u||2H 1 (Rn ) = ||u||2L2 (Rn ) +
∂xi 2
+ +
i=1 L (Rn
+)

que o faz um espaço de Hilbert. Graças ao Teorema de Fubini

L2 (Rn+ ) = L2 (0, +∞; L2 (Rn−1 )).

Resulta daı́ que podemos reescrever o H 1 (Rn+ ) como

∂u
H 1 (Rn+ ) = {u ∈ L2 (0, +∞; H 1 (Rn−1 )); ∈ L2 (0, +∞; L2 (Rn−1 )} (6.17)
∂xn
munido da topologia equivalente

∂u 2

||u||22 = ||u||2L2 (0,+∞;H 1 (Rn−1 )) +
. (6.18)
∂xn 2 L (0,+∞;L2 (Rn−1 ))

Do exposto acima, se u ∈ H 1 (Rn+ ) então de (6.17) vem que

u ∈ C 0 ([0, +∞); L2 (Rn−1 )) (6.19)

tendo sentido falarmos em u(0) = u|Rn−1 . Provaremos a seguir a seguinte:

Proposição 6.2 Se u ∈ H 1 (Rn+ ) então,

γ0 u = u(0)

onde γ0 é a aplicação aludida em (6.15).

Demonstração: Com efeito, seja u ∈ H 1 (Rn+ ). Como D(Rn+ ) é denso em H 1 (Rn+ ), existe
(ϕν ) ⊂ D(Rn+ ) tal que
ϕν → u em H 1 (Rn+ ). (6.20)
∂ ∂
Segue de (6.18) e denotando-se por que
∂xn ∂t

ϕν → u em L2 (0, +∞; H 1 (Rn−1 )) (6.21)


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
216 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

ϕ0ν → u0 em L2 (0, +∞; L2 (Rn−1 )) (6.22)

Consideremos θ ∈ C01 [0, +∞), θ(0) = 1 e v ∈ L2 (Rn−1 ).


Então,
(vθ) ∈ L2 (0, +∞; L2 (Rn−1 )

e de (6.21) resulta que


Z +∞ Z +∞
0 ν→+∞
(ϕν (t), v)L2 (Rn−1 ) θ (t)dt −→ (u(t), v)L2 (Rn−1 ) θ0 (t)dt.
0 0

Integrando-se por partes obtemos


Z +∞ Z +∞
0 ν→+∞
− (ϕν (0), v) − (ϕν (t), v)θ(t)dt −→ −(u(0), v) − (u0 (t), v)θ(t)dt. (6.23)
0 0

Como de (6.22) temos que


Z +∞ Z +∞
0 ν→+∞
(ϕν (t), v)θ(t)dt −→ (u0 (t), v)θ(t)dt
0 0

então de (6.23) inferimos que


ν→+∞
(ϕν (0), v) −→ (u(0), v); ∀ v ∈ L2 (Rn−1 ). (6.24)

Por outro lado de (6.20) e pela continuidade da aplicação traço dada em (6.15) obtemos

γ0 ϕν → γo u em H 1/2 (Rn−1 ) ,→ L2 (Rn−1 ).

Consequentemente,

(γ0 (ϕν ), v) → (γ0 u, v); ∀ v ∈ L2 (Rn−1 ). (6.25)

Agora, como (ϕν ) ⊂ D(Rn+ ) então por (6.16) temos que

γ0 (ϕν ) = ϕν |Rn−1 = ϕν (0)

e de (6.24) e (6.25) pela unicidade do limite resulta que

(u(0), v) = (γ0 u, v); ∀ v ∈ L2 (Rn−1 )

ou seja, u(0) = γ0 u , o que encerra a prova.


2
217

Proposição 6.3 A aplicação γ0 : H 1 (Rn+ ) → H 1/2 (Rn−1 ) dada em (6.15) é sobrejetiva.

Demonstração: No que segue F : L2 (Rn−1 ) → L2 (Rn−1 ) e F −1 : L2 (Rn ) → L2 (Rn−1 )


representam, a transformada de Fourier e a sua inversa. Consideremos, inicialmente
ϕ ∈ S(Rn−1 ). Então Fϕ ∈ S(Rn−1 ). Além disso, para cada t > 0 fixado, temos
0 2 )1/2 t
(Fϕ)e−(1+||x || ∈ S(Rn−1 ).
0 2 )1/2 t
Também, se t = 0 temos que e−(1+||x || = 1 e portanto para t = 0
0 2 )1/2 t
(Fϕ)e−(1+||x || = Fϕ ∈ S(Rn−1 ).

Definamos, para t ≥ 0 e x0 ∈ Rn−1 , a seguinte função:


0 2 )1/2 t
v(x0 , t) = v(t)(x0 ) = (Fϕ)(x0 )e−(1+||x || (6.26)

e definamos para x0 ∈ Rn−1 e t ≥ 0:

u(x0 , t) = [F −1 (v(t))](x0 ). (6.27)

Em particular, para t = 0 resulta que

u(x0 , 0) = [F −1 (v(0))](x0 ) = [F −1 [Fϕ]](x0 ) = ϕ(x0 ).

Assim,
u|Rn−1 = ϕ. (6.28)

Mostraremos, a seguir, que u ∈ H 1 (Rn+ ). De fato, notemos inicialmente que


Z +∞ −2(1+||x0 ||2 )1/2 t +∞

0 2 1/2 e 1
e−2(1+||x || ) t dt = −2(1+||x0 ||2 )1/2 = · (6.29)
0 e 0 2(1 + ||x0 ||2 )1/2
Portanto, de (6.29) e por Fubini
Z
1 1
2
||ϕ||H 1/2 (Rn−1 ) = (1 + ||x0 ||2 )1/2 |Fϕ(x0 )|2 dx0
2 2 Rn−1
(1 + ||x0 ||2 )
Z
= 0 2 1/2
|Fϕ(x0 )|2 dx0
n−1 2(1 + ||x || )
ZR
1
= (1 + ||x0 ||2 )|Fϕ(x0 )|2 0 ||2 )1/2
dx0
R n−1 2(1 + ||x
Z  Z +∞ 
0 2 0 2 −2(1+||x0 ||2 )1/2 t
= (1 + ||x || )|Fϕ(x )| e dt dx0
Rn−1 0
Z +∞ Z
0 2 1/2
= (1 + ||x0 ||2 )|Fϕ(x0 )|2 e−2(1+||x || ) t dx0 dt
n−1
Z0 +∞ ZR
0 2 1/2 2

= (1 + ||x0 ||2 ) Fϕ(x0 ) e−(1+||x || ) t dx0 dt

0 Rn−1
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
218 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Segue de (6.26) que


Z +∞ Z
1
||ϕ||2H 1/2 (Rn−1 ) = (1 + ||x0 ||2 )|v(x0 , t)|2 dx0 dt. (6.30)
2 0 Rn−1

De novo por (6.26) temos


∂v 0 ∂  0 2 1/2 
(x , t) = (Fϕ)(x0 ) e−(1+||x || ) t
∂t ∂t
0 2 1/2
= (Fϕ)(x0 ) − (1 + ||x0 ||2 )1/2 · e−(1+||x || ) t .


Ainda por (6.26) resulta que


∂v 0
(x , t) = −(1 + ||x0 ||2 )1/2 · v(x0 , t). (6.31)
∂t
De (6.30) e (6.31) obtemos
Z +∞ Z
1
||ϕ||2H 1/2 (Rn−1 ) = (1 + ||x0 ||2 )|v(x0 , t)|2 dx0 dt
2 0 Rn−1
∂v 0 2 0
Z +∞ Z
= ∂t (x , t) dx dt

0 Rn−1

ou seja,
+∞ ∂v 0 2 0
Z Z
1
||ϕ||2H 1/2 (Rn−1 ) = (x , t) dx dt (6.32)
2 0 Rn−1 ∂t

Agora, de (6.27) temos


Z
(n−1) 0 0 0 0
0 −1 0 −
u(x , t) = F [v(t)](x ) = (2π) 2 ei(x1 y1 +···+xn−1 yn−1 ) v(t)(y 0 )dy 0
Rn−1

donde, para j = 1, 2, . . . , n − 1, resulta que


Z
∂u 0 (n−1)
− 2 0 0
(x , t) = (2π) (iyj0 ) eihx ,y i v(t)(y 0 )dy 0
∂xj n−1
ZR
(n−1) 0 0
= (2π)− 2 eihx ,y i [(iyj0 )v(t)(y 0 )]dy 0
n−1
ZR
(n−1) 0 0
= (2π)− 2 eihx ,y i ωj (t)(y 0 )dy 0 = F −1 [ωj (t)](x0 )
Rn−1

onde ωj (t)(y 0 ) = (iyj0 )v(t)(y 0 ). Logo:


∂u 0
(x , xn ) = F −1 [ωj (t)](x0 ); j = 1, 2, . . . , n − 1. (6.33)
∂xj

Também,
Z  
∂u 0 (n−1)
ihx0 ,y 0 i ∂v −1 ∂v
(x , t) = (2π)− 2 e 0 0
(t)(y )dy = F (t) (x0 )
∂t Rn−1 ∂t ∂t
219

ou seja,  
∂u 0 −1 ∂v
(x , t) = F (t) (x0 ). (6.34)
∂t ∂t
Feitas as considerações acima, estamos aptos a mostrar que u ∈ H 1 (Rn+ ). Com efeito,
por Plancherel
Z +∞ Z Z +∞
−1 0 0
||u||2L2 (Rn ) = |F
[v(t)](x )| dx dt = ||F −1 v(t)||2L2 (Rn−1 ) dt
2
+ n−1
Z0 +∞ R Z +∞ Z 0

= ||v(t)||2L2 (Rn−1 ) dt = |v(t)(x0 )|2 dx0 dt. (6.35)


0 0 Rn−1

Seja j = 1, 2, . . . , n − 1. Temos de (6.33) por Plancherel que


Z +∞ Z
2
||Dj u||L2 (Rn ) = |F −1 (ωj (t))(x0 )|2 dx0 dt
+ n−1
Z0 +∞ R
= ||F −1 [ωj (t)]||2L2 (Rn−1 ) dt
Z0 +∞
= ||ωj (t)||2L2 (Rn−1 ) dt
Z0 +∞ Z
= |ixj |2 |v(t)(x0 )|2 dx0 dt. (6.36)
0 Rn−1

De (6.34) ainda por Plancherel, resulta que


Z +∞ Z   2
−1 ∂v 0
(t) (x ) dx0 dt
2

||Dn u||L2 (Rn ) = F
+
0 Rn−1
∂t
Z +∞   2
−1 ∂v
= F 2 n−1 dt
(t)

0 ∂t L (R )
Z +∞ 2
∂v
= (t)
∂t 2 n−1 dt
0 L (R )
∂v 0 2 0
Z +∞ Z
= (x , t) dx dt. (6.37)
Rn−1 ∂t

0

Das estimativas em (6.35), (6.36) e (6.37) chegamos a


n−1
X
||u||2H 1 (Rn ) = ||u||2L2 (Rn ) + ||Dj u||2L2 (Rn ) + ||Dn u||2L2 (Rn )
+ + + +
j=1
+∞ +∞ ∂v 0 2 0
Z Z Z Z
0 2 0 2 0
= (1 + ||x || )|v(t)(x )| dx dt + (x , t) dx dt
Rn−1 ∂t

0 Rn−1 0

isto é,
+∞ +∞ ∂v 0 2 0
Z Z Z Z
0 2 0 0
||u||2H 1 (Rn ) = (1 + ||x || )|v(t)(x )| dx dt + 2 (x , t) dx dt.
Rn−1 ∂t
+
0 Rn−1 0
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
220 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Desta forma, de (6.30), (6.32) e (6.33) concluı́mos que u ∈ H 1 (Rn+ ) e:

1 1
||u||2H 1 (Rn ) = ||ϕ||2H 1/2 (Rn−1 ) + ||ϕ||2H 1/2 (Rn−1 )
+ 2 2
ou, equivalentemente,
||u||H 1 (Rn ) = ||ϕ||H 1/2 (Rn−1 ) .
+

Resulta da Proposição 6.2 e de (6.28) que

γ0 u = ϕ.

Do exposto acima temos provado que

Dada ϕ ∈ S(Rn−1 ), existe u ∈ H 1 (Rn+ ) tal que γ0 u = ϕ e ||u||H 1 (Rn+ ) = ||ϕ||H 1/2 (Rn−1 ) .
(6.38)
Consideremos, agora, ψ ∈ H 1/2 (Rn−1 ). Pela densidade de S(Rn−1 ) em H 1/2 (Rn−1 )
sabemos que ∃ (ϕν ) ⊂ S(Rn−1 ) tal que

ϕν → ψ em H 1/2 (Rn−1 ). (6.39)

Contudo, de (6.38), para cada ν ∈ N, ∃ uν ∈ H 1 (Rn−1 ) tal que

γ0 uν = ϕν e ||uν ||H 1 (Rn ) = ||ϕν ||H 1/2 (Rn−1 ) . (6.40)


+

Logo; se ν, µ ∈ N; temos

||uν − uµ ||H 1 (Rn ) = ||ϕν − ϕµ ||H 1/2 (Rn−1 ) . (6.41)


+

Agora, de (6.39) vem que (ϕν )ν∈N é de Cauchy em H 1/2 (Rn−1 ). Resulta daı́ e de (6.41)
que (uν )ν∈N é de Cauchy em H 1 (Rn+ ) e portanto existe u ∈ H 1 (Rn+ ) tal que

uν → u em H 1 (Rn+ ). (6.42)

Segue de (6.42) pela continuidade da aplicação traço γ0 que

γ0 uν → γ0 u em H 1/2 (Rn−1 ).

Mas de (6.40) podemos reescrever a convergência acima como

ϕν → γ0 u em H 1/2 (Rn−1 ) (6.43)


221

e de (6.39) e (6.43) pela unicidade do limite concluı́mos que

γ0 u = ψ

o que prova a sobrejetividade da aplicação traço. 2

O nosso objetivo, agora, é provar que a aplicação traço

γ0 : H 1 (Rn+ ) → H 1/2 (Rn−1 )

verifica a condição
ker(γ0 ) = H01 (Rn+ ).

Antes, porém, necessitamos de alguns resultados preliminares.

Lema 6.4 Se u ∈ H 1 (Rn+ ), k ∈ N∗ e γ0 u = 0 então:


  Z 2/k
0 2
|u(x , xn )| ≤ 2
|Dn u(x0 , t)|2 dt
k 0

2
para q.t. x0 ∈ Rn − 1 e 0 ≤ xn ≤ ·
k

Demonstração: Seja u ∈ H 1 (Rn+ ) e k ∈ N∗ . Então, por (6.17) vem que

∂u
u ∈ L2 (0, +∞, H 1 (Rn+ )) e ∈ L2 (0, +∞; L2 (Rn−1 )).
∂xn

Portanto,
u ∈ C 0 ([0, T ]; L2 (Rn−1 )); ∀ T > 0.

Em particular:
Z xn
0 0 ∂u 0 2
u(x , xn ) − u(x , 0) = (x , ξ) dξ; para todo 0 ≤ xn ≤ · (6.44)
0 ∂xn k

Como γ0 u = 0, por hipótese, resulta da Proposição 6.2 que

u(x0 , 0) = u(0)(x0 ) = 0

e, por conseguinte, de (6.44) obtemos


Z xn
0 2
u(x , xn ) = Dn u(x0 , ξ)dξ; para todo 0 ≤ xn ≤ ·
0 k
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
222 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Resulta daı́ que 2


Z xn
0 2 0
|u(x , xn )| ≤ |Dn u(x , ξ)dξ
0

que por Hölder é menor ou igual a


 Z xn  Z xn  Z xn
0
1 dξ 2
|Dn u(x , ξ)| dξ = xn |Dn u(x0 , ξ)|2 dξ
0 0 0
  Z 2/k
2
≤ |Dn u(x0 , ξ)|2 dξ
k 0

o que prova o desejado. 2

Lema 6.5 Seja θ ∈ C ∞ (R) tal que 0 ≤ θ(t) ≤ 1 para todo t ∈ R, θ(t) = 0 se t ≤ 1 e
θ(t) = 1 se t ≥ 2. Para k = 1, 2, . . . , definamos:

θk (t) = θ(kt); t ∈ R.

Então:
(i) Se u ∈ L2 (Rn+ ) a sequência:

uk (x0 , xn ) = θk (xn )u(x0 , xn ); (x0 , xn ) ∈ Rn+

converge para u em L2 (Rn+ ).


(ii) Se u ∈ H 1 (Rn+ ) e γ0 u = 0 então a sequência:

vk (x0 , xn ) = θk0 (xn )u(x0 , xn )

converge para zero em L2 (Rn+ ).

Demonstração: (i) Seja u ∈ L2 (Rn+ ). Afirmamos que:

uk (x) → u(x) q.s. em Rn+ . (6.45)

De fato, sejam ε > 0 e x = (x0 , xn ) ∈ Rn+ . Temos:

|uk (x) − u(x)| = |θk (xn )u(x) − u(x)| = |θk (xn ) − 1| |u(x)|.

Contudo, para k suficientemente grande, digamos k ≥ k0 , temos que

θk (xn ) = θ(xn k) = 1
223

e consequentemente,
|θk (xn ) − 1| |u(x)| = 0 < ε

o que prova (6.45).


Por outro lado, pelo fato de 0 ≤ θ(xn ) < 1; ∀ xn > 0 resulta que

|uk (x) − u(x)|2 = |θk (xn ) − 1|2 |u(x)| ≤ |u(x)|2 . (6.46)

Logo, de (6.45), (6.46) e pelo Teorema da Convergência Dominada de Lebesgue resulta


que
uk → u em L2 (Rn+ )

o que prova (i).


(ii) Seja u ∈ H 1 (Rn+ ) tal que γ0 u = 0. Por Fubini vem que
Z Z +∞ Z
2
|vk (x)| dx = |θ0 (xn )u(x0 , xn )|2 dx0 dxn
Rn
+ 0 Rn−1
Z +∞ Z
= |θk0 (xn )|2 |u(x0 , xn )|2 dx0 dxn .
0 Rn−1

Por outro lado, do fato que θk0 (xn ) = k · θ0 (xn ) e observando-se que para
2
xn ≥ , θ0 (xn ) = 0, obtemos
k
Z Z 2/k Z
0
2
|vk (x)| dx = k 2
|θ (xn )|2
|u(x0 , xn )|2 dx0 dxn .
Rn
+ 0 Rn−1

Agora, seja M > 0 tal que |θ0 (xn )|2 ≤ M . Então, de acordo com o Lema 6.4, resulta
que a expressão à direita da igualdade acima é ainda menor que
  Z 2/k Z Z 2/k
2
M· · k 2
|Dn u(x0 , t)|2 dtdx0 dxn
k 0 Rn−1 0
Z 2/k Z
= (4M ) |Dn u(x0 , t)|2 dx0 dxn .
0 Rn−1

Como a integral à direita da igualdade acima converge para zero quando k → +∞


resulta que vk → 0 em L2 (Rn+ ) o que prova o lema. 2

Proposição 6.6 Seja γ0 : H 1 (Rn+ ) → H 1/2 (Rn−1 ) a aplicação traço dada em (15). Então,
ker(γ0 ) = H01 (Rn+ ).
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
224 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Demonstração: (1o¯ ) H01 (Rn+ ) ⊂ ker(Rn+ ).


Seja u ∈ H01 (Rn+ ). Então, por definição, existe (ϕν ) ⊂ D(Rn+ ) tal que

ϕν → u em H 1 (Rn+ ).

Considere ϕ̃ν a extensão de ϕν pondo-se zero fora de Rn+ . Evidentemente


ϕ̃ν |Rn ∈ D(Rn+ ), supp(ϕ̃ν ) ⊂ Rn+ e ϕ̃ν |Rn−1 = 0. Ainda, pelo fato de
+

ϕ̃ν → u em H 1 (Rn+ )

resulta que
γo ϕ̃ν → γ0 u em H 1/2 (Rn−1 ).

Entretanto, como γ0 ϕ̃ν = ϕ̃ν |Rn−1 = 0 segue que γ0 u = 0 o que prova a inclusão.
(2o¯ ) ker(γ0 ) ⊂ H01 (Rn+ ).
Seja u ∈ ker(γ0 ). Então, u ∈ H 1 (Rn+ ) e além disso γ0 u = 0. Consideremos, conforme
o Lema 6.5, θ ∈ C ∞ (R); 0 ≤ θ(t) ≤ 1, θ(t) = 0 se t ≤ 1 e θ(t) = 1 se t ≥ 2.
Definamos:
θk (t) = θ(k · t); k = 1, 2, . . .

e
uk (x0 , xn ) = θk (xn )u(x0 , xn ); (x0 , xn ) ∈ Rn+ .

Se j = 1, 2, . . . , n − 1 então,

Dj uk (x0 , xn ) = θ(xn )Dj u(x0 , xn ).

Como (Dj u) ∈ L2 (Rn+ ) para todo j = 1, . . . , n − 1 segue do Lema 6.5 item (i) que:

Dj uk → Dj u em L2 (Rn+ ). (6.47)

Agora, se j = n temos

Dn uk (x0 , xn ) = θk0 (xn ) u(x0 , xn ) + θk (xn )Dn u(x0 , xn ).

Decorre do Lema 6.5 ((i) e (ii)) que a segunda parcela à direita da igualdade acima
converge para Dn u em L2 (Rn+ ), enquanto que a primeira parcela converge para zero. Logo,

Dn uk → Dn u em L2 (Rn+ ). (6.48)
225

De (6.47) e (6.48) e do fato que uk → u em L2 (Rn+ ) concluı́mos então que

uk → u em H 1 (Rn+ ). (6.49)

Finalmente, seja ϕ ∈ D(Rn ) tal que ϕ(x) = 1 se ||x|| ≤ 1, ϕ(x) = 0 se ||x|| ≥ 2, e


x
0 ≤ ϕ(x) ≤ 1. Para todo ν = 1, 2, . . . seja ϕν (x) = ϕ e definamos:
ν
uk,ν (x) = ϕν (x)uk (x).

Afirmamos que uk,ν tem suporte compacto contido em Rn+ . Com efeito, sabemos que
supp(ϕν uk ) é limitado. Provaremos que:
  
n−1 1
supp(uk,ν ) ⊂ supp(ϕν uk ) ∩ R × +∞ . (6.50)
k

Com efeito, temos que


supp(uk,ν ) = {Rn+ Ok,ν

onde Ok,ν é o maior aberto do Rn+ tal que uk,ν = 0 quase sempre e

supp(ϕν u) = {Rn+ Oν

onde Oν é o maior aberto de Rn+ para o qual uϕν = 0 q.s. em Rn+ .


Notemos que provar (6.50) é o mesmo que provar que:

{Rn+ Ok,ν ⊂ {Rn+ Oν ∩ {Rn+ (Rn−1 ×]0, 1/k [ ). (6.51)

Contudo, para provar (6.51), basta provar que:


 
n−1
 1
{Rn+ Ok,ν ⊂ {Rn+ Oν ∪ R × 0, (6.52)
k

ou ainda é suficiente provar que:


 1
Oν ∪ Rn−1 × 0, ⊂ Ok,ν . (6.53)
k

Provaremos a relação acima.


Seja A o conjunto de medida nula para o qual uϕν é diferente de zero em Oν e seja
(x0 , xn ) ∈ Oν ∪ Rn−1 ×]0, 1/k [ \A. Então,

(x0 , xn ) ∈ Oν ou (x0 , xn ) ∈ Rn−1 ×]0, 1/k [ e (x0 , xn ) ∈


/ A.
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
226 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Logo,
(uϕν )(x0 , xn ) = 0 ou θk (xn ) = 0.

De qualquer forma,

uk,ν (x0 , xn ) = 0 em Oν ∪ Rn−1 ×]0, 1/k [ \A

e portanto, face a arbitrariedade de (x0 , xn )

uk,ν = 0 q.s. em Oν ∪ Rn−1 ×]0, 1/k [ .

Como Oν,k é o maior aberto nestas condições temos

Oν ∪ Rn−1 ×]0, 1/k [ ⊂ Ok,ν

o que prova (6.53) e consequentemente (6.50). Observemos que pelo fato do supp(uϕν )
ser limitado em Rn+ , existe K1 , compacto de Rn−1 e M > 0 tal que

supp(uϕν ) ⊂ K1 × [0, M ].

De (6.50) obtemos

supp(uk,ν ) ⊂ K1 × [0, M ] ∩ {Rn−1 × [1/k, +∞[ } = K1 × [1/k, M ] = K ⊂ Rn+ ,

o que prova que a sequência uk,ν tem suporte compacto em Rn+ . Logo,

uk,ν ∈ H01 (Rn+ ).

Sendo uk,ν convergente para uk em H 1 (Rn+ ) (é o processo de truncamento usual) con-
cluı́mos que
uk ∈ H01 (Rn+ )
e em virtude de (6.49) resulta que

u ∈ H01 (Rn+ )

o que encerra a prova. 2

Sejam ϕ ∈ D(Rn+ ) e ψ ∈ D(Rn−1 ) e consideremos as aplicações:

σ1 : H 1 (Rn+ ) → H 1 (Rn+ ) σ2 : H 1/2 (Rn−1 ) → H 1/2 (Rn−1 )


e
u 7→ σ1 (u) = ϕu v 7→ σ2 (v) = ψv
que são lineares e contı́nuas. A primeira delas não é difı́cil provar e a segunda resulta da
Proposição 5.6. Decorre daı́ a seguinte:
227

Proposição 6.7 Dados u ∈ H 1 (Rn+ ) e ϕ ∈ D(Rn+ ) temos:

γ0 (ϕu) = (γ0 ϕ)(γ0 u).

Demonstração: Sejam u ∈ H 1 (Rn+ ) e ϕ ∈ D(Rn+ ). Então ∃ (ϕν ) ⊂ D(Rn+ ) tal que

ϕν → u em H 1 (Rn+ ). (6.54)

Desta forma,
σ1 (ϕν ) → σ1 (u) em H 1 (Rn+ )

ou seja,
ϕϕν → ϕu em H 1 (Rn+ )

e portanto
γ0 (ϕϕν ) → γ0 (ϕu) em H 1/2 (Rn−1 ). (6.55)

Por outro lado, pelo fato de (ϕν ) ⊂ D(Rn+ ) temos que

γ0 ϕν = ϕν |Rn−1 ∈ D(Rn−1 ) ⊂ H 1/2 (Rn−1 )

e por conseguinte observando-se que γ0 ϕ ∈ D(Rn−1 ) vem que

σ2 (γ0 ϕν ) = (γ0 ϕ)(γ0 ϕν ). (6.56)

Além disso, de (6.54) obtemos

γ0 ϕν → γ0 u em H 1/2 (Rn−1 )

e consequentemente
σ2 (γ0 ϕν ) → σ2 (γ0 u) em H 1/2 (Rn−1 )

ou seja,
(γ0 ϕ)(γ0 ϕν ) → (γ0 ϕ)(γ0 u) em H 1/2 (Rn−1 ). (6.57)

Ademais,
(γ0 ϕ)(γ0 ϕν ) = ϕ|Rn−1 ϕν |Rn−1 = (ϕϕν )|Rn−1 = γ0 (ϕϕν ). (6.58)

Assim, de (6.55), (6.57) e (6.58) concluı́mos que

γ0 (ϕu) = (γ0 ϕ)(γ0 u)

o que prova o desejado. 2


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
228 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

6.1.2 Caso Ω Aberto Limitado com Fronteira Γ Bem Regular

Consideremos, agora, Ω ⊂ Rn um subconjunto aberto limitado bem regular.


Seja,
{(U1 , ϕ1 ), . . . , (Uk , ϕk )}

sistema de cartas locais. A cobertura Ω, U1 , . . . , Uk de Ω determina uma partição C ∞ da


unidade. Mais precisamente, existem θ0 , θ1 , . . . , θk 1 ∈ C0∞ (Rn ) tais que

supp(θ0 ) ⊂ Ω; supp(θi ) ⊂ Ui ; i = 1, . . . , k
k
X
θi (x) = 1; ∀x ∈ Ω
i=0

0 ≤ θi ≤ 1 ; i = 0, 1, . . . , k

Seja u ∈ D(Ω). Então u = ψ|Ω para alguma ψ ∈ C0∞ (Rn ). Para cada i = 1, . . . , k
consideremos
ωi (y) = (ψθi ) ◦ ϕ−1
i ; y ∈ Q.

Para “fixação das idéias”, consideremos a diagramação trocando-se u por ψ. Notemos

que:
supp(ψθi ) ⊂ supp(θi ) ⊂ Ui .

Logo, supp(ψθi ) é um subconjunto compacto do Rn contido em Ui . Mas,

ϕi (supp(ψθi )) = supp(ωi ). (6.59)

De fato, seja y ∈ ϕi (supp(ψθi )). Então y = ϕi (x) para algum x ∈ supp(ψθi ). Logo,
existe uma seqüência (xν ) ⊂ Ui tal que xν → x com (ψθi )(xν ) 6= 0. Logo, yν = ϕi (xν ) →
ϕi (x) = y; (yν ) ⊂ Q além disso

ωi (yν ) = [ψθi ϕ−1


i ](ϕi (xν )) = (ψθi )(xν ) 6= 0.

Portanto y ∈ supp(ωi ) e, consequentemente,

ϕi (supp(ψθi )) ⊂ supp(ωi ). (6.60)


1
Ver Apêndice.
229

Reciprocamente, suponhamos que y ∈ supp(ωi ). Então existe (yν ) ⊂ Q tal que yν → y


e ωi (yν ) 6= 0. Contudo, existe x ∈ Ui tal que y = ϕi (x). Afirmamos que x ∈ supp(ψθi ).
Com efeito, temos xν = ϕ−1 −1
i → ϕi (y) = x; (xν ) ⊂ Ui e além disso

(ψθi )(xν ) = (ψθi )(ϕ−1


i (yν )) = ωi (yν ) 6= 0.

Assim, y ∈ ϕi (supp(ψθi )) o que prova que

supp(ωi ) ⊂ ϕi (supp(ψθi )). (6.61)

As inclusões (6.60) e (6.61)) provam a igualdade em (6.59). Segue daı́ que o supp(ωi )
é um subconjunto compacto do Rn contido em Q. Portanto, a aplicação ωi = (ψθi ) ◦ ϕ−1
i
pode ser estendida zero fora de Q e além disso sendo ω̃i tal extensão, ω̃i ∈ C0∞ (Rn ).
Conseqüentemente, pondo-se:

vi = ω̃i (6.62)
Rn
+

temos que vi ∈ D(Rn+ ). Em verdade,

(uθi )(ϕ−1 n−1


×]0, 1[= Q+
(
i (y)); y ∈]0, 1[
vi (y) =
0; y ∈ Rn+ \Q+

Agora, pondo-se:

ui = vi (6.63)
Rn−1
temos que

(uθi )(ϕ−1 n−1


(
i (y)); y ∈]0, 1[ =Σ
ui (y) = (6.64)
0; y ∈ Rn−1 \Σ

Ora, como para todo i = 1, . . . , k, ui ∈ C0∞ (Rn−1 ) vem que u|Γ ∈ D(Γ). Assim, de
maneira análoga ao que fizemos anteriormente para o caso Rn+ , temos definida a aplicação:

γ : D(Ω) → D(Γ)
u 7→ u|Γ (6.65)

Induzindo-se em D(Ω) em em D(Γ) as topologias de H 1 (Ω) e H 1/2 (Γ), respectivamente,


provaremos que a aplicação dada em (6.65), que é claramente linear, é também contı́nua.
É o que faremos a seguir.
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
230 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Proposição 6.8 Seja Ω ⊂ Rn aberto limitado com fronteira Γ bem regular. Então, existe
uma constante positiva c tal que:

||γu||H 1/2 (Γ) ≤ c||u||H 1 (Ω)

para toda u ∈ D(Ω).

Demonstração:
Seja u ∈ D(Ω). Então u = ψ|Ω ; ψ ∈ C0∞ (Rn ). Para cada i = 1, . . . , k, ponhamos
como antes:
ωi (y) = (ψθi ) ◦ ϕ−1

i (y); y ∈ Q

ω̃i extensão de ωi pondo-se zero fora de Q


vi = ω̃i | n ∈ D(Rn+ )
R+

ui = vi | n−1 ∈ D(Rn−1 )
R

Provaremos, a seguir, que para todo i = 1, . . . , k, ∃ ci (θi , ϕi , Ui ) tal que

||ui ||H 1/2 (Rn−1 ) ≤ ci ||u||H 1 (Ω) . (6.66)

Com efeito, de acordo com a Proposição 6.1 e pelo fato de vi ∈ D(Rn+ ) temos,


vi | n−1 1/2 n−1 ≤ ||vi || 1 n . (6.67)
R H (R ) H (R ) +

Resulta de (6.67) que


||ui ||H 1/2 (Rn−1 ) = vi |Rn−1 H 1/2 (Rn−1 ) ≤ ||vi ||H 1 (Rn )
+

= ||vi ||H 1 (Q+ ) = ||(θi u) ◦ ϕ−1


i ||H 1 (Q+ ) . (6.68)

Contudo,
Z
||(θi u) ◦ ϕ−1 2
i ||H 1 (Q+ ) = |(θi u(ϕ−1 2
i (y)))| dy
Q+
n
XZ
2
∂ −1

+ (θi u(ϕi (y))) dy. (6.69)
+ ∂yj

j=1 Q
231

Também,

Z Z
|(θi u(ϕ−1
i (y)))|
2
dy = |(θi u)(x)|2 | det(ϕ0i (x))| dx
Q+ Ui+
 Z
0
≤ max | det(ϕi (x))| |θi u(x)|2 dx
x∈supp(θi ) supp(θi )∩Ω
Z
= c1 (θi , ϕi ) |θi (x)|2 |u(x)|2 dx
supp(θi )∩Ω
 Z
2
≤ c1 (θi , ϕi ) max |θi (x)| |u(x)|2 dx
x∈supp(θi ) Ui+
Z
≤ c2 (θi , ϕi , Ui ) |u(x)|2 dx

ou seja,

Z
|(θi u(ϕ−1 2 2
i (y)))| dy ≤ c2 (θi , ϕi , Ui )||u||L2 (Ω) . (6.70)
Q+

Finalmente, considerando-se:

ϕ−1
i (y) = (β1 (y), . . . , βn (y))
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
232 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

resulta que
Z X 2
Z 2 n
∂  −1
 ∂ −1 ∂β m

(θ u(ϕ (y))) dy = (θ u)(ϕ (y)) (y) dy

∂yj i i

i i
∂x ∂y

Q + Q + m j
m=1
n 2
∂βm 2
Z X
∂ −1
≤ k1 ∂xm (θi u)(ϕi (y)) ∂yj (y) dy

+
Q m=1
n 2
∂βm 2

XZ ∂
−1
= k1 (θi u)(ϕi (y)) (y) dy
+ ∂xm ∂y
j
m=1 Q
n Z 2 2
X ∂ ∂βm
(ϕi (x)) | det(ϕ0i (x))| dx

= k1 (θi u)(x)
+ ∂xm ∂yj

m=1 Ui
  2  
∂βm 0
≤ k1 max max (ϕi (x)) max | det(ϕi (x))|
m x∈supp(θi ) ∂yj x∈supp(θi )
n Z 2
X ∂
·
∂xm (θ i u)(x) dx

m=1 supp(θ i )∩Ω
n Z 2
j
X ∂θi ∂u
= k2 (θi , ϕi , Ui ) ∂xm (x)u(x) + θi (x) ∂xm (x) dx

m=1 supp(θi )∩Ω
n Z  2 2 
j
X ∂θi ∂u
≤ 2k2 (θi , ϕi , Ui ) (x) |u(x)|2 + |θi (x)|2 (x)
∂xm dx

∂xm
m=1 supp(θ i )∩Ω
X n Z 2
j
∂θi 2
= 2k2 (θi , ϕi , Ui ) ∂xm (x) |u(x)| dx

m=1 supp(θi )∩Ω
n Z 2 
2 ∂u
X
+ |θi (x)| (x) dx
m=1 supp(θi )∩Ω
∂xm
  2  Z
j
∂θi
≤ 2k2 (θi , ϕi , Ui ) n max (x) |u(x)|2 dx
x∈supp(θi ) ∂xm supp(θi )∩Ω
 X n Z 2 
2
∂u
+ max |θi (x)| ∂xm dx
(x)
x∈supp(θi ) supp(θ )∩Ω
m=1 i
Z n Z 2 
j 2
X ∂u
≤ k3 (θi , ϕi , Ui ) |u(x)| dx + ∂xm (x) dx

supp(θi )∩Ω m=1 supp(θ i )∩Ω

isto é,
Z 2
∂ −1 dy ≤ k3j (θi , ϕi , Ui ) · ||u||2 1 ; j = 1, . . . , n.

(θi u(ϕ i (y))) H (Ω)
(6.71)
+ ∂yj

Q

De (6.69), (6.70) e (6.71) concluı́mos que:

||(uθi ) ◦ ϕ−1 2 2 2
i ||H 1 (Q+ ) ≤ c2 (θi , ϕi , Ui ) ||u||L2 (Ω) + c3 (θi , ϕi , Ui ) ||u||H 1 (Ω)

≤ c4 (θi , ϕi , Ui ) ||u||2H 1 (Ω) .


233

Do exposto acima temos provado (6.66) o que mostra que

u|Γ ∈ H 1/2 (Γ).

Além disso,
k k
X 
2 X
u| 1/2 =
Γ H (Γ)
||ui ||2H 1/2 (Rn−1 ) ≤ ci ||u||2H 1 (Ω)
2

i=1 i=1

e, portanto,
k
X 1/2
2
u| 1/2 ≤ ci ||u||H 1 (Ω)
Γ H (Γ)
i=1
ou seja, existe c > 0 tal que

||γu||H 1/2 (Γ) ≤ c||u||H 1 (Ω)

conforme querı́amos demonstrar. 2 Sendo D(Ω) denso em H 1 (Ω)

podemos estender a aplicação dada em (6.65) a uma única aplicação linear e contı́nua

γ0 : H 1 (Ω) → H 1/2 (Γ) (6.72)

tal que
γ0 u = u|Γ ; ∀ u ∈ D(Ω)

denominada aplicação traço de u sobre Γ.

Lema 6.9 Seja v ∈ H01 (Rn+ ) e S(v) ⊂ Q+ ∪ Σ. Então v ∈ H01 (Q+ ) e além disso

uj = v0 ϕj ∈ H01 (Uj+ ) para todo j ∈ {1, 2, . . . , k}.

Demonstração: Seja v ∈ H01 (Rn+ ). Então, existe uma sequência (ψν )ν∈N ⊂ C0∞ (Rn+ ) tal
que
ψν → v em H 1 (Rn+ ). (6.73)

Consideremos ρ ∈ C0∞ (Rn ) tal que supp(ρ) ⊂ Q e ρ = 1 em uma vizinhança do S(v).


Afirmamos que:

ρψν → ρv em H 1 (Rn+ ) quando ν → +∞. (6.74)

Com efeito, provaremos inicialmente que:

ρψν → ρv em L2 (Rn+ ). (6.75)


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
234 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

De fato, evidentemente ρv ∈ L2 (Rn+ ). Temos,


Z
2
||ρψν − ρv||L2 (Rn ) = |ρ(x)|2 |ψν (x) − v(x)|2 dx
+
Rn
+
Z
≤ M02 |ψν (x) − v(x)|2 dx (6.76)
Rn
+

onde
M0 = sup |ρ(x)|.
x∈Rn

Como o lado direito da desigualdade em (6.76) tende para zero quando ν → +∞ em


virtude de (6.73), fica provado (6.75).
Provaremos, a seguir, que:
∂ ∂
(ρψν ) → (∂v) em L2 (Rn+ ). (6.77)
∂xi ∂xi

É fácil ver que


∂ρ ∂v
v+ρ ∈ L2 (Rn+ ).
∂xi ∂xi
Além disso, temos
     
∂ ∂ρ ∂v ∂ψν ∂ρ ∂ρ ∂v

∂xi (ρψν ) − v + ρ = ρ + ψν − v + ρ
∂xi ∂xi L2 (Rn ) ∂xi ∂xi ∂xi ∂xi L2 (Rn )
+
  +
∂ψν ∂v (ψν − v) ∂ρ


∂xi − ρ + .
∂xi L2 (Rn ) ∂xi L2 (Rn )
+ +


∂ρ
Pondo-se Mi = sup (x) ; i = 1, 2, . . . , n e M = max Mi vem que
x∈Rn ∂xi
 
∂ ∂ρ ∂v ∂ψν ∂v

∂xi (ρψν ) − v + ρ ≤ M 0
− + M ||ψν − v||L2 (Rn ) .
∂xi ∂xi L2 (Rn ) ∂xi ∂xi L2 (Rn ) +
+ +

Mas de (6.73) a expressão à direita da desigualdade acima converge para zero quando
ν → +∞, o que prova que
∂ ∂ρ ∂v
(ρψν ) → v+ρ em L2 (Rn+ ) (6.78)
∂xi ∂xi ∂xi
e, consequentemente,
∂ ∂ρ ∂v
(ρψν ) → v+ρ em D0 (Rn+ ). (6.79)
∂xi ∂xi ∂xi
235

Por outro lado, de (6.75) e face a continuidade do operador derivação em D0 (Rn+ ) vem
que
∂ ∂
(ρψν ) → (ρv) em D0 (Rn+ ). (6.80)
∂xi ∂xi
De (6.79) e (6.80) concluı́mos então que
∂ ∂ρ ∂v
(ρv) = v+ρ
∂xi ∂xi ∂xi
igualdade se dando em L2 (Rn+ ). Resulta daı́ e de (6.78) a afirmação feita em (6.74). Segue
daı́ que

(ρψν ) Q+ → (ρv) Q+ em H 1 (Q+ ). (6.81)

Contudo,
supp(ρψν ) ⊂ supp(ρ) ∩ supp(ψν ) ⊂ Q ∩ Rn+ = Q+

o que prova que a seqüência ρν = (ψν ρ) Q+ ∈ D(Q+ ). Notemos também que pelo fato de
ρ = 1 em S(v) resulta que
ρv = v q.s. em Q+

e de (6.81) inferimos que


ρν → v em H 1 (Q+ ). (6.82)

Resulta de (6.82) e do fato (ρν ) ⊂ D(Q+ ) que v ∈ H01 (Q+ ). Resta-nos provar que a
aplicação uj = v0 ϕj ∈ H01 (Uj+ ). Com efeito, ponhamos para cada j fixo:

ξν (x) = ρν (ϕj (x)); x ∈ Uj+ .

Pelo fato de ϕ−1


j (supp(ρν )) = supp(ξν ) segue que supp(ξν ) é um compacto do R
n

contido em Uj+ , uma vez que o supp(ρν ) é um compacto contido em Q+ e ϕ−1


j é contı́nua.
Desta forma, ξν ∈ D(Uj ). Agora, pondo-se:

gν (y) = (v − ρν )(y); y ∈ Q+ (6.83)

então

supp(gν ) ⊂ supp(ρν ) ∪ supp(v) ⊂ supp(ρ) ∪ supp(v) ⊂ supp(ρ) ∪ S(v) ⊂ Q

e daı́ vem que o supp(gν ) é, para todo ν, um subconjunto compacto contido em Q. Além
disso, existe uma vizinhança fixa O de ∂Q tal que ∀ ν ∈ N todas as gν ’s se anulam nesta
vizinhança. De acordo com o Lema 4.6, para cada ν ∈ N, a aplicação

hν (x) = gν (ϕj (x)) = v(ϕj (x)) − ρν (ϕj (x)) = uj (x) − ξν (x) (6.84)
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
236 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

pertence a H 1 (Ui+ ). Além disso, existe c(ϕj , O) tal que

||hν ||H 1 (U + ) ≤ c(ϕj , O) ||gν ||H 1 (Q+ )


j

ou equivalentemente de (6.83) e (6.84) temos que

||uj − ξν ||H 1 (U + ) ≤ c(O, ϕj ) ||v − ρν ||H 1 (Q+ ) .


i

Mas de (6.82) o lado direito da desigualdade acima converge para zero quando
ν → +∞, donde,
ξν → uj em H 1 (Uj+ )

e como ξν ∈ D(Uj+ ) resulta que uj ∈ H01 (Uj+ ) conforme querı́amos demonstrar. 2

Resulta da proposição acima que definindo-se:

uj (x) ; x ∈ Uj+
(
ũj (x) =
0; x ∈ Ω\Uj+

temos que ũj ∈ H01 (Ω).

Lema 6.10 Seja v ∈ H 1 (Rn+ ) tal que S(v) ⊂ Q+ ∪ Σ. Então definindo-se uj = v ◦ ϕj e

(v ◦ ϕj )(x) ; x ∈ Uj+
(
ũj (x) =
0; x ∈ Ω\Uj+

temos ũj ∈ H 1 (Ω) e além disso


(
(γ0 v)(ϕj (x)) ; q.t. x ∈ Uj ∩ Γ
(γ0 ũj )(x) =
0; q.t. x ∈ Γ e x ∈
/ Uj

Demonstração: Seja v ∈ H 1 (Rn+ ). Então ∃ (ϕν ) ⊂ D(Rn+ ) tal que:

ϕν → v em H 1 (Rn+ ). (6.85)

Ora, para cada ν ∈ N, ϕν = ψν |Rn , onde ψν ∈ D(Rn ). Consideremos, então,


+

θ ∈ D(Rn ) tal que supp(θ) ⊂ Q e θ = 1 em S(v). Então, conforme demonstração do lema


precedente, temos
θψν → θv = v em H 1 (Q+ ). (6.86)
237

Agora, pelo fato de


supp(θψν ) ⊂ Q

concluı́mos que
(θψν ) ⊂ D(Q).

Definindo-se, para cada ν ∈ N:

ξν (x) = [(θψν ) ◦ ϕj ](x); x ∈ Uj

então, novamente conforme na demonstração do lema precedente temos que ξν ∈ D(Uj ),


uj = v0 ϕj ∈ H 1 (Uj+ ) e além disso,

ξν → v0 ϕj em H 1 (Uj+ ).

1
0 ϕj ∈ H (Ω); donde,
Do Lema 4.6 sabemos que ũj = vg

ξ˜ν → ũj em H 1 (Ω)

e, portanto,
γ0 ξ˜ν → γ0 ũj em H 1/2 (Γ).

Consequentemente,

ξ˜ν (x) → (γ0 ũj )(x); para q.t. x ∈ Γ.

Logo:
(θψν )(ϕj (x)) → (γ0 ũj )(x) para q.t. x ∈ Uj ∩ Γ



e (6.87)

(γ0 ũj )(x) = 0; para q.t. x ∈ Γ\(Uj ∩ Γ)

Por outro lado, do fato que

θψν → v em H 1 (Rn+ )

resulta que
γ0 (θψν ) → γ0 (v) em H 1/2 (Rn−1 )

e, portanto,
(θψν )(y) → [γ0 (v)](y) q.s. em Rn−1 .
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
238 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Assim,
(θψν )(y) → [γ0 (v)](y) para q.t. y ∈ Σ



e (6.88)

[γ0 (v)](y) = 0; para q.t. y ∈ Rn−1 \Σ

Como ϕj : Uj → Q é um difeomorfismo de classe C ∞ resulta de (6.88) que



(θψν )(ϕj (x)) → [γ0 (v)](ϕj (x)) para q.t. x ∈ Uj ∩ Γ



e (6.89)

[γ0 (v)](ϕj (x)) = 0 para q.t. x ∈ Γ\(Uj ∩ Γ)

Finalmente de (6.87) e (6.89) concluı́mos que


(
(γ0 v)(ϕj (x)) ; q.t. x ∈ Uj ∩ Γ
(γ0 ũj )(x) =
0; q.t. x ∈ Γ e x ∈
/ Uj

o que prova o desejado. 2

Proposição 6.11 Seja Ω aberto limitado bem regular e ω ∈ H 1 (Ω) ∩ C 0 (Ω). Então
γ0 ω = ω|Γ , ou seja, (γ0 ω)(x) = ω(x); ∀ x ∈ Γ.

Demonstração: Seja,
{(U1 , ϕ1 ), . . . , (Uk , ϕk )}

sistema de cartas locais e consideremos

θ0 , θ1 , . . . , θk ∈ C0∞ (Rn )

uma partição C ∞ da unidade subordinada a cobertura Ω, U1 , . . . , Uk de Ω. Logo,

supp(θ0 ) ⊂ Ω; supp(θi ) ⊂ Ui ; i = 1, . . . , k
Xk
θi (x) = 1; ∀x ∈ Ω
i=0
0 ≤ θi ≤ 1; i = 0, 1, . . . , k

Ponhamos:
vi (y) = [(θi ω) ◦ ϕ−1
i ](y); y ∈ Q+ ∪ Σ.

Conforme o Lema 4.5 e pela continuidade de ω vem que


+
vi ∈ H 1 (Q+ ) ∩ C 0 (Q ),
239

Mais além, pondo-se


em Q+ ∪ Σ
(
vi
ṽi =
0 em Rn+ \(Q+ ∪ Σ)
então ṽi ∈ H 1 (Rn+ ) ∩ C 0 (Rn+ )
Da Proposição 6.2 resulta então que

γ0 (ṽi ) = ṽi Rn−1 ; i = 1, . . . , k. (6.90)

Definamos, agora:
ui = vi ◦ ϕi em Ui ∩ Ω

e (
(ṽi ◦ ϕi )(x); x ∈ Ui ∩ Ω
ũj (x) = (6.91)
0; x ∈ Ω\(Ui ∩ Ω)

Assim, de acordo com o Lema 6.10 e pela continuidade de vi temos que ũi ∈ H 1 (Ω) ∩
C 0 (Ω); além disso, de (6.96) obtemos
( (
γ0 ṽi (ϕx (x)); x ∈ Ui ∩ Γ ṽi (ϕi (x)); x ∈ Ui ∩ Γ
(γ0 ũi )(x) = =
0; x∈Γex∈ / Ui 0; x∈Γex∈ / Ui

ou melhor, (
(θi ω)(x); x ∈ Ui ∩ Γ
(γ0 ũi )(x) =
0; x∈Γex∈
/ Ui

Como supp(θi ) ⊂ Ui então (θi ω)(x) = 0 ∀ x ∈ Γ e x ∈


/ Ui o que nos permite escreve
que:
γ0 ũi = θi ω em Γ

e, portanto,
k
X k
X
γ0 ũi = θi ω = ω em Γ.
i=1 i=1

Pela linearidade da aplicação traço γ0 obtemos


k
X 
γ0 ũi =ω em Γ. (6.92)
i=1

Agora do fato que

vi ◦ ϕi = [(θi ω) ◦ ϕ−1
(
i ] ◦ ϕi = θi ω em Ui ∩ Ω
ũj =
0 e Ω\(Ui ∩ Ω)
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
240 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

e como (θi ω) = 0 em Ω\(Ui ∩ Ω), vem que

ũi = θi ω em Ω. (6.93)
 k

P
Logo, de (6.92) e (6.93) concluı́mos que γ0 θi ω = ω; i.é, γ0 ω = ω, o que demon-
i=1
stra a proposição. 2

De maneira análoga ao Lema 6.10 prova-se também o seguinte resultado:

Lema 6.12 Seja u ∈ H 1 (Ω) tal que S(u) ⊂ Uj+ ∪ Γj ; onde Γj = Γ ∩ Uj . Então definindo-
se:
(u0 ϕ−1 +
(
j )(y); y ∈ Q
vj (y) =
0; y ∈ Rn+ \Q+
temos que vj ∈ H 1 (Rn+ ) e, além disso,

(γ0 u)(ϕ−1
(
j (y)) q.s. em Σ
(γ0 vj )(y) =
0 q.s. em Rn−1 \Σ

Proposição 6.13 Sejam u ∈ H 1 (Ω) e θ ∈ D(Ω). Então θu ∈ H 1 (Ω) e além disso:

γ0 (θu) = γ0 (θ) · γ0 (u).

Demonstração: Evidentemente θu ∈ H 1 (Ω) pois θu ∈ L2 (Ω) e além disso, se ϕ ∈ D(Ω)


tem-se
Z Z Z

∂ ∂ϕ ∂ ∂θ
(θu)ϕ = − θu dx = − u (θϕ) dx + u ϕ dx
∂xi Ω ∂xi Ω ∂xi Ω ∂xi
Z   Z  
∂u ∂θ
∂u ∂θ
= θ ϕ dx + u ϕ dx = ,θ + u ,ϕ
Ω ∂xi Ω ∂xi ∂xi ∂xi
∂ ∂u ∂θ
o que implica que (θu) = θ+u ∈ L2 (Ω).
∂xi ∂xi ∂xi
Provaremos, a seguir que:

γ0 (θu) = γ0 (θ) · γ0 (u).

Com efeito, como u ∈ H 1 (Ω) existe (ϕν ) ⊂ D(Ω) tal que

ϕµ → u em H 1 (Ω). (6.94)
241

Logo,
θϕν → θu em H 1 (Ω)

e, portanto,
γ0 (θϕν ) → γ0 (θu) em H 1/2 (Γ)

ou ainda,
θ|Γ ϕν |Γ → γ0 (θu) em H 1/2 (Γ) ,→ L2 (Γ). (6.95)

Por outro lado, de (6.94) resulta que

γ0 (ϕν ) → γ0 u em H 1/2 (Γ) ,→ L2 (Γ). (6.96)

Afirmamos que:
θ|Γ (γ0 ϕν ) → θ|Γ (γ0 u) em L2 (Γ). (6.97)

De fato:
k
X
2
−1 −1

||θ|Γ γ0 ϕν − θ|Γ γ0 u||2L2 (Γ) = ^ ^
θi (θ|Γ γ0 ϕν ) ◦ ϕi − θi (θ|Γ γ0 u) ◦ ϕi 2

i=1 L (Rn−1 )

Xk Z
= |(θi θ|Γ γ0 ϕν )(ϕ−1 −1 2
i (x)) − (θi θ|Γ γ0 u)(ϕi (x))| dx
i=1 Σ
Xk Z
= |θ(ϕ−1 2 −1 −1 2
i (x))| |(θi γ0 ϕν )(ϕi (x)) − (θi γ0 u)(ϕi (x))| dx
i=1 Σ
Z
≤ M |(θi γ0 ϕν )(ϕ−1 −1 2
i (x)) − (θi γ0 u)(ϕi (x))| dx
Σ
= M ||γ0 ϕν − γ0 u||2L2 (Γ) (6.98)

onde M = maxx∈Rn |θ(x)|. Assim, de (97) e (99) temos provado o desejado em (98), que
ainda pode ser reescrito como

θ|Γ ϕν |Γ → γ0 (θ) · γ0 (u) em L2 (Γ). (6.99)

De (6.95) e (6.99) concluı́mos então que

γ0 (θu) = γ0 (θ) · γ0 (u).

2
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
242 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Teorema 6.14 Seja Ω um subconjunto aberto limitado do Rn com fronteira Γ bem regu-
lar. A aplicação traço γ0 : H 1 (Ω) → H 1/2 (Γ) é sobrejetiva e além disso

ker(γ0 ) = H01 (Ω).

Demonstração:
(a) Sobrejetividade
Consideremos ω ∈ H 1/2 (Γ). Provaremos que existe u ∈ H 1 (Ω) tal que

γ0 u = ω.

De fato, por definição, para todo j ∈ {1, 2, . . . , k} temos que

(θj ω) ◦ ϕ−1 0 0 n−1


(
j (y , 0); y ∈ Σ = (0, 1)
ωj (y) =
0; y 0 ∈ Rn−1 \Σ

é uma função de H 1/2 (Rn−1 ) com suporte contido em Σ. Pela sobrejetividade da aplicação
traço γ0 : H 1 (Rn+ ) → H 1/2 (Rn−1 ) existe, para cada j = 1, . . . , k, vj ∈ H 1 (Rn+ ) tal que

γ0 vj = ωj . (6.100)

Consideremos ρj ∈ C0∞ (Rn ); tal que

supp(ρj ) ⊂ Q e ρj (x0 , 0) = 1; ∀ x0 ∈ S(ωj ).

De acordo com a Proposição 5 e de (101) temos


 
γ0 ρj |Rn vj = γ0 ρ|Rn (γ0 vj ) = ρj |Rn−1 · ωj = ωj . (6.101)
+ +

Além disso,
S(ρj vj ) ⊂ supp(ρj ) ∩ S(vj ) ⊂ Q ∩ Rn+ = Q+ ∪ Σ.

Definamos, então:
(ρj vj )(ϕj (x)); x ∈ Uj ∩ Ω = Uj+
(
uj (x) =
0; x ∈ Ω\Uj+

Segue do Lema 6.10 que uj ∈ H 1 (Ω) e, além disso,


(
(γ0 (ρj vj ))(ϕj (x)); q.t. x ∈ Uj ∩ Γ
(γ0 uj )(x) =
0; x∈Γex∈ / Uj
243

Contudo, de (6.101) podemos escrever que

γ0 (ρj vj )(ϕj (x)) = ωj (ϕj (x)) = [θj ω0 ϕ−1


j ](ϕj (x)) = (θj ω)(x)

para q.t. x ∈ Γ ∩ Uj e, portanto,


(
(θj ω)(x); q.t. x ∈ Γ ∩ Uj
(γ0 uj )(x) =
0; q.t. x ∈ Γ e x ∈
/ Uj

Como o supp(θj ) ⊂ Uj então (θj ω)(x) = 0; ∀ x ∈ Γ e x ∈


/ Uj o que nos permite
escrever que
γ0 uj = θj ω q.s. em Γ.

Consequentemente,
k
X k
X
γ0 uj = θj ω = ω q.s. em Γ. (6.102)
j=1 j=1

Definindo-se:
k
X
u= uj
j=1

resulta da igualdade em (6.102) e da linearidade da aplicação traço, que

γ0 u = ω q.s. em Γ

o que prova a sobrejetividade.


Provaremos, a seguir, que:
(b) H01 (Ω) = ker(γ0 )

Seja u ∈ H01 (Ω). Por definição, existe (ϕν ) ⊂ D(Ω) tal que

ϕν → u em H 1 (Ω).

Ponhamos: (
ϕν (x); x ∈ Ω
ϕ̃ν (x) =
0; Rn \Ω

É claro que ϕ̃ν |Ω ∈ D(Ω) além do que o supp(ϕ̃ν ) ⊂ Ω. Também,

ϕ̃ν |Ω → u em H 1 (Ω).
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
244 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Resulta da convergência acima que

γ0 (ϕ̃ν ) → γ0 u em H 1/2 (Γ)

e pelo fato de γ0 (ϕ̃ν ) = ϕ̃ν |Γ = 0 vem que γ0 u = 0, ou seja, u ∈ ker(γ0 ), o que prova que:

H01 (Ω) ⊂ ker(γ0 ). (6.103)

Reciprocamente, seja u ∈ ker(γ0 ), isto é,

u ∈ H 1 (Ω) e γ0 u = 0.

Temos,
k
X
u = uθ0 + uθj em Ω.
j=1

Ora, (uθ0 ) ∈ H 1 (Ω) e supp(uθ0 ) ⊂ supp(θ0 ) ⊂ Ω. Resulta daı́ que

uθ0 ∈ H01 (Ω). (6.104)

Resta-nos mostrar que:

uθj ∈ H01 (Ω); ∀ j = 1, . . . , k. (6.105)

Com efeito, é claro que (uθj ) ∈ H 1 (Ω) pois u ∈ H 1 (Ω) e θj ∈ C0∞ (Rn ). Definamos:

(uθj )(ϕ−1 +
(
j (y)); y ∈ Q
vj (y) =
0; y ∈ Rn+ \Q+

Notemos que:
S(vj ) = ϕj (S(uθj )) ⊂ ϕi (Ui ∩ Ω) = Q+ ∪ Σ. (6.106)

Assim, como S(uθj ) ⊂ S(u) ∩ supp(θj ) ∈ Uj ∩ Ω, então de acordo com o Lema 6.12,
vj ∈ H 1 (Rn+ ) e, além disso

γ0 (uθj )(ϕ−1
(
j (y)); q.t. y ∈ Σ
(γ0 vj )(y) = (6.107)
0; q.t. y ∈ Rn−1 \Σ.

Entretanto, da Proposição 6.13 obtemos

γ0 (uθj ) = (γ0 u)(γ0 θj ) = 0; ∀ j = 1, . . . , k


245

uma vez que u ∈ ker(γ0 ). Resulta daı́ e de (6.107) que:

(γ0 vj )(y) = 0 q.s. em Σ

o que implica que

(γ0 vj )(y) = 0 q.s. em Rn−1 ; ∀ j = 1, . . . , k. (6.108)

Resulta de (6.108) e do fato que o ker da aplicação traço

γ0 : H 1 (Rn+ ) → H 1/2 (Rn−1 )

é o H01 (Rn+ ) que


vj ∈ H01 (Rn+ ); ∀ j = 1, . . . , k.

Além disso, por (6.106) s(vj ) ⊂ Q+ ∪ Σ. Logo, pelo Lema 6.9 temos que vj ◦ ϕj ∈
H01 (Uj+ ) e, portanto,

(uθj )(x); x ∈ Uj+


(
j ◦ ϕj (x) =
v^ ∈ H01 (Ω)
0; x∈ Ω\Uj+

Como uθj = 0 em Ω\Uj+ vem que

vj ◦ ϕj = uθj em Ω.

Portanto, uθj ∈ H01 (Ω); ∀ j = 1, . . . , k. Daı́ segue que u ∈ H01 (Ω), conforme
querı́amos demonstrar. 2

6.2 Traço de Ordem m de uma Função de H m(Ω)


Completado o estudo do traço γ0 de uma função, a etapa seguinte é a do estudo do
traço de suas derivadas, o que será feito a seguir. Antes, porém, necessitamos de alguns
resultados preliminares que passamos a enunciar:

Lema 6.15 Seja m ∈ N. Existem constantes c1 , c2 > 0 que dependem de m tais que:
X X
c1 x2α ≤ (1 + ||x||2 )m ≤ c2 x2α
|α|≤m |α|≤m

∀ x ∈ Rn e ∀ α ∈ Nn com |α| ≤ m.
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
246 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Demonstração: Sejam x = (x1 , . . . , xn ) ∈ Rn e α = (α1 , . . . , αn ) ∈ Nn com |α| ≤ m.


Então,
n
X  α21 n
X  α2n
 α21 αn
α
|x |R = |xα1 1 · · · xαnn | = x21 ··· x2n ≤ x2i ··· x2i
i=1 i=1
n
X  α1 +···+α
2
n

= x2i = ||x|||α| .
i=1

Logo, |xα | ≤ ||x|||α| e por conseguinte x2α ≤ ||x||2|α| ≤ (1 + ||x||2 )|α| . Segue desta
última desigualdade que
X X
x2α ≤ (1 + ||x||2 )|α| ≤ cm (1 + ||x||2 )m ,
|α|≤m |α|≤m

ou seja, existe c1 > 0 tal que


X
c1 x2α ≤ (1 + ||x||2 )m .
|α|≤m

Por outro lado; afirmamos que:


X m!
(x1 + x2 + · · · + xn )m = xα (6.109)
α!
|α|≤m

onde α! = α1 ! . . . αn !. Provaremos (6.109) por indução em n. De fato, para n = 1 a


igualdade verifica-se trivialmente. Vejamos n = 2. Temos,
m
X m!
(x1 + x2 ) = m
xα1 1 xm−α
2
1
.
α1 =0
α 1 !(m − α 1 )!

Pondo-se α = (α1 , α2 ) temos que α1 + α2 = m e, consequentemente,


X m! X m!
(x1 + x2 )m = xα1 1 xα2 2 = xα
α1 +α2
α ! α2 !
=m 1
α!
|α|≤m

o que prova (6.109) para n = 2. Suponhamos, então que (6.109) seja verdadeiro para n e
provemos para (n + 1). De fato, pelo caso n = 2 vem que
X m!
(x1 + · · · + xn + xn+1 )m = (x1 + · · · + xn )α1 · xαn+1
2

α1 +α2
α
=m 1
! α 2 !

e pela hipótese indutiva resulta que a expressão acima é igual a


 X 
X m! α1 ! β1
x1 . . . xn xαn+1
βn 2

α +α =m 1
α ! α2 ! β!
1 2 |β|=α1
247

ou ainda,
X X m! X m!
xβ1 1 . . . xβnn · xαn+1
2
= xγ
α1 +α2 =m β1 +···+βn =α1
β1 ! . . . βn ! α2 ! γ!
|γ|=m

o que prova (6.109). Resulta daı́ em particular que


X m!
(1 + ||x||2 )m = (x21 + · · · + x2n + 1)m = x2α
1
1
. . . x2α
n .
n

α1 +···+αn +αn+1
α
=m 1
! . . . α !α
n n+1 !

Pondo-se β1 = (α1 , . . . , αn ) ∈ Nn e β2 = αn+1 podemos escrever


X m! 2β1 X m! 2β1
(1 + ||x||2 )m = x ≤ x
β1 !β2 ! β1 !
|β1 |+β2 =m |β1 |+β2 =m
X m! 2β1 X m!
= x ≤ x2β1 .
β1 ! β1 !
|β1 |=m−β2 |β1 |≤m

Portanto, existe c2 > 0 tal que


X m! X
(1 + ||x||2 )m ≤ x2β1 ≤ c2 x2β1
β1 !
|β1 |≤m |β1 |≤m

conforme querı́amos demonstrar. 2

Lema 6.16 Sejam s ≥ 0 e α ∈ Nn tais que |α| ≤ s. A aplicação:

Dα : H s (Rn ) → H s−|α| (Rn ); u 7→ Dα u

é linear e contı́nua.

Demonstração: Com efeito, temos


Z
α 2
||D u||H s−|α| (Rn ) = (1 + ||x||2 )s−|α| |D\α u(x)|2 dx
n
ZR
= (1 + ||x||2 )s−|α| |(ix)α û(x)|2 dx
n
ZR
= (1 + ||x||2 )s−|α| |xα |2 |û(x)|2 dx
n
ZR
≤ (1 + ||x||2 )s−|α| ||x||2|α| |û(x)|2 dx
n
ZR
≤ (1 + ||x||2 )s−|α| (1 + ||x||2 )|α| |û(x)|2 dx
Rn
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
248 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

ou seja,
||Dα u||H s−|α| (Rn ) ≤ ||u||H s (Rn ) ; ∀ u ∈ H s (Rn ) (6.110)

o que prova que a aplicação

Dα : H s (Rn ) → H s−|α| (Rn ); u 7→ Dα u

está bem definida. Sendo esta claramente linear, resulta de (6.110) que é também contı́nua,
o que prova o lema. 2

Iniciaremos, agora, o estudo da aplicação traço de ordem m. Iniciaremos por:


1o¯ Caso: Ω = Rn+

Seja m ∈ N. Consideremos para cada j = 0, 1, . . . , m − 1 a seguinte aplicação:

n
γj : D(R+ ) → D(Rn−1 )
u 7→ γj u (6.111)

onde,
∂j u 0
(γj u)(x0 ) = (x , 0); x0 ∈ Rn−1 .
∂xjn
Evidentemente a aplicação acima está bem definida assim como é linear. Provaremos,
a seguir, que quando induzimos em D(Rn+ ) e em D(Rn−1 ) as topologias de H m (Rn+ ) e
H m−j−1/2 (Rn−1 ), respectivamente, a aplicação dada em (6.111) é contı́nua. A partir daı́
podemos estendê-la, por densidade, a uma aplicação linear e contı́nua que continuaremos
denotando pelo mesmo nome. Mais além, provaremos que tal aplicação é sobrejetiva
mostrando que admite uma inversa à direita.

Proposição 6.17 Seja m ∈ N∗ . Então, para cada j ∈ {0, 1, . . . , m − 1} existe cj > 0 tal
que:
||γj u||H m−j−1/2 (Rn−1 ) ≤ cj ||u||H m (Rn ) ; ∀ u ∈ D(Rn+ ).
+

Demonstração: Sejam u ∈ D(Rn+ ) e j ∈ {0, 1, . . . , m}. Para todo multi-ı́ndice


0 n−1 0 n
α ∈N seja α = (α , j) = (α1 , α2 , . . . , αn−1 , j) ∈ N . No que segue, consideraremos
F1 : L2 (Rn−1 ) → L2 (Rn−1 ) a transformada de Fourier no L2 (Rn−1 ).
Considerando-se (Dα u)(0)(x0 ) = (Dα u)(x0 , 0), temos, ∀ y 0 ∈ Rn−1 :
0 0
F1 [Dα u(0)](y 0 ) = F1 [Dxα0 Dnj u(0)](y 0 ) = (iy 0 )α F1 [Dnj u(0)](y 0 )
249

ou seja,
0
F1 [γ0 (Dα u)](y 0 ) = (iy 0 )α F1 [(γj u)](y 0 ). (6.112)

Logo,
Z
1
||γj u||2H m−j−1/2 (Rn−1 ) = (1 + ||y 0 ||2 )m−j− 2 |F1 [γj u](y 0 )|2 dy 0 (6.113)
n−1
ZR
1
= (1 + ||y 0 ||2 ) 2 (1 + ||y 0 ||2 )m−j−1 |F1 [γj u](y 0 )|2 dy 0 .
Rn−1

Contudo, de acordo com o Lema 6.15, existe c1 > 0 (que depende de j) tal que
0
X
(1 + ||y 0 ||2 )m−j−1 ≤ c1 (y 0 )2α ; ∀ y 0 ∈ Rn−1 . (6.114)
|α0 |≤m−j−1

De (6.113) e (6.114) obtemos


Z
0
X
||γj u||2 m−j− 21 n−1 ≤ c1 (1 + ||y 0 ||2 )1/2 (y 0 )2α |F1 [γj u](y 0 )|2 dy 0
H (R ) Rn−1
|α0 |≤m−j−1
Z
0
X
≤ c1 (1 + ||y 0 ||2 )1/2 |y 0α F1 [γj u](y 0 )|2 dy 0
|α0 |≤m−j−1 Rn−1

e por (6.112) a expressão acima é igual


X Z
c1 (1 + ||y 0 ||2 )1/2 |F1 [γ0 (Dα u)](y 0 )|2 dy 0 .
|α0 |≤m−j−1 Rn−1

Desta forma, chegamos a seguinte desigualdade:


X
||γj u||2H m−j−1/2 (Rn−1 ) ≤ c1 ||γ0 (Dα u)||2H 1/2 (Rn−1 ) . (6.115)
|α0 |≤m−j−1

Agora, pela linearidade e continuidade da aplicação traço

γ0 : H 1 (Rn+ ) → H 1/2 (Rn−1 )

a expressão à direita da desigualdade em (6.115) pode ser majorada por


X
c1 ||Dα u||2H 1 (Rn ) . (6.116)
+
|α0 |≤m−j−1

Observemos que: |α0 | ≤ m − j − 1 ⇔ |α| = |α0 | + j ≤ m − 1. Entretanto como

||Dα u||2H 1 (Rn ≤ ||u||2H m (Rn ) ; ∀ |α| ≤ m − 1


+ +
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
250 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

a expressão em (6.116) pode ser ainda majorada por

c02 ||u||2H m (Rn ) . (6.117)


+

Logo de (6.115), (6.116) e (6.117), existe cj > 0 tal que

||γj u||H m−j−1/2 (Rn−1 ) ≤ cj ||u||H m (Rn )


+

conforme querı́amos demonstrar. 2

Do que vimos e face a densidade de D(Rn+ ) em H m (Rn+ ) podemos estender a aplicação


γj dada em (6.111) a uma única aplicação, que ainda denotaremos pelo mesmo nome:

γj : H m (Rn+ ) → H m−j−1/2 (Rn−1 ) (6.118)

linear e contı́nua e tal que


∂ j u

γj u = ; ∀ u ∈ D(Rn+ ) e ∀ j = 0, 1, . . . , m − 1. (6.119)
∂xjn Rn−1
A partir das γj ’s fica definida uma aplicação linear e contı́nua
m−1
Y
m
γ: H (Rn+ ) → H m−j−1/2 (Rn−1 )
j=0
u 7→ γu = (γ0 u, γ1 u, . . . , γm−1 u) (6.120)
m−1
H m−j−1/2 (Rn−1 ) da topologia natural
Q
quando munimos o espaço
j=0

||ω||m−1 = ||ω0 ||H m−1/2 (Rn−1 ) + ||ω1 ||H m−3/2 (Rn−1 )


(H m−j−1/2 (Rn−1 ))
Q
j=0

+ · · · + ||ωm−1 ||H 1/2 (Rn−1 )


m−1
H m−j−1/2 (Rn−1 ).
Q
onde ω = (ω0 , ω1 , . . . , ωm−1 ) ∈
j=0

A aplicação γ dada em (6.120) denomina-se aplicação traço de ordem m. O próximo


passo é provar que o núcleo de γ é o H0m (Rn+ ). Antes, porém, necessitamos de alguns
resultados que enunciaremos sob a forma de lemas.

Lema 6.18 Seja k ∈ Nn . Se u ∈ H m (Rn+ ) e γ0 u = γ1 u = · · · = γm−1 u = 0, então:


 2m−1 Z 2/k
0 2
2
|u(x , xn )| ≤ |Dnm u(x0 , t)|2 dt
k 0

2
para q.t. x0 ∈ Rn−1 e 0 ≤ xn ≤ ·
k
251

Demonstração: Será feita usando indução em m. O caso m = 1 já foi provado anteri-
ormente quando demonstramos que o ker da aplicação traço γ0 : H 1 (Rn+ ) → H 1/2 (Rn−1 )
era o H01 (Rn+ ). Suponhamos o lema verdadeiro para m ≥ 1 e seja u ∈ H m+1 (Rn+ ) tal que

γ0 u = γ1 u = · · · = γm−1 u = γm u = 0.

Afirmamos que:

γi (Dn u) = γi+1 u = 0 para i = 0, 1, . . . , m − 1. (6.121)

De fato, para toda ϕ ∈ D(Rn+ ) temos


∂i ∂ i+1 ϕ 0
 
0 ∂ϕ 0
γi (Dn ϕ)(x ) = i
(x , 0) = i+1
(x , 0) = γi+1 (ϕ)(x0 ). (6.122)
∂xn ∂xn ∂xn

Agora, se u ∈ H m+1 (Rn+ ) ∃ (ϕν ) ⊂ D(Rn+ ) tal que

ϕν → u em H m+1 (Rn+ ) (6.123)

o que implica que


∂ϕν ∂u
→ em H m (Rn+ ).
∂xn ∂xn
Pela continuidade da aplicação traço dada em (6.118) resulta que
   
∂ϕν ∂u
γi → γi em H m−i−1/2 (Rn−1 ); i = 0, 1, . . . , m − 1. (6.124)
∂xn ∂xn

Mas de (6.123) vem que


1
γi+1 (ϕν ) → γi+1 (u) em H (m+1)−(i+1)− 2 (Rn−1 ) (6.125)
1
= H m−i− 2 (Rn−1 ); i = 0, 1, . . . , m − 1. (6.126)

De (6.122) e em particular para as ϕν ’s podemos escrever


 
∂ϕν
γi = γi+1 (ϕν ); i = 0, 1, . . . , m − 1; ∀ ν ∈ N. (6.127)
∂xn

Resulta de (6.124), (6.125) e (6.127) face a unicidade do limite que


 
∂u
γi = γi+1 (u); i = 0, 1, . . . , m − 1.
∂xn

Entretanto, como γi+1 (u) = 0 para todo i = 0, 1, . . . , m − 1 vem que

γi (Dn u) = 0; i = 0, 1, . . . , m − 1
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
252 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

o que prova a afirmação em (6.121).


Logo, do fato que (Dn u) ∈ H m (Ω) e da hipótese indutiva obtemos
 2m−1 Z 2/k
0 2
|(Dn u)(x , t)| ≤ 2
|Dnm+1 u(x0 , s)|2 dx (6.128)
k 0

2
para q.t. x0 ∈ Rn−1 e 0 ≤ t ≤ · Resulta também do caso m = 1 que para q.t.
k
0 n−1 2
x ∈R e 0 ≤ xn ≤ temos
k
  Z 2/k
0 2
2
|u(x , xn )| ≤ |Dn u(x0 , s)|2 ds dt,
k 0

que por (6.128) é menor ou igual a


2m Z 2/k Z 2/k
2
|Dnm+1 u(x0 , s)|2 dsdt.
k 0 0

Portanto,  2m+1 Z 2/k


0 2
|u(x , xn )| ≤ 2
|Dnm+1 u(x0 , s)|2 ds
k 0
2
para q.t. x0 ∈ Rn−1 e 0 ≤ x ≤ , conforme querı́amos demonstrar. 2
k

Lema 6.19 Seja θ ∈ C ∞ (R) tal que 0 ≤ θ(t) ≤ 1 para todo t ∈ R; θ(t) = 0 se t ≤ 1 e
θ(t) = 1 se t ≥ 2. Para k ∈ N∗ consideremos a seqüência θk (t) = θ(kt); para todo t ∈ R.
(i) Se u ∈ L2 (Rn+ ) seja uk (x) = θk (xn )u(x) para x ∈ Rn+ . Resulta que (uk ) converge
para u em L2 (Rn+ ).
(ii) Se u ∈ H m (Rn+ ) e γ0 u = γ1 u = · · · = γn−1 u = 0 então a sucessão (vk )k dada por

(m)
vk (x) = θk (xn )u(x); x ∈ Rn+

converge para zero.

Demonstração:
(i) Seja u ∈ L2 (Rn+ ) e consideremos para cada k ∈ N∗ :

uk (x) = θk (xn )u(x); x = (x0 , xn ).

Para fixar idéias consideremos os gráficos acima:


253

Notemos inicialmente que:

uk (x) → u(x) q.s. em Rn+ . (6.129)

Com efeito, sejam ε > 0 dado e x = (x0 , xn ) ∈ Rn+ . Temos:

|uk (x) − u(x)| = |θk (xn )u(x) − u(x)| = |θk (xn ) − 1| |u(x)|.

Contudo, para k suficientemente grande, digamos k ≥ k0 temos

θk (xn ) = θ(xn , k) = 1
2
(basta escolher k0 > 2/xn ⇒ xn > ; ∀ k ≥ k0 ⇒ θk (xn ) = 1) o que implica que
k
|θk (xn ) − 1| |u(x0 , xn )| = 0 < ε; ∀ k ≥ k0

e prova o desejado em (6.129). Agora, pelo fato de 0 ≤ θk (xn ) ≤ 1; ∀ xn > 0 resulta que

|uk (x) − u(x)|2 = |θk (xn )u(x) − u(x)|2 = |θk (xn ) − 1|2 |u(x)|2 ≤ |u(x)|2 . (6.130)

Portanto, de (6.129), (6.130) e face ao Teorema da Convergência Dominda de Lebesgue


resulta que
uk → u em L2 (Rn+ )
o que prova o item (i).
(ii) Seja u ∈ H m (Rn+ ) e suponhamos que:

γ0 u = γ1 u = · · · = γm−1 = 0.

Ponhamos:
(m)
vk (x) = θk (xn )u(x); x ∈ Rn+ .

Temos, por Fubini, que


Z Z +∞ Z
(m)
2
|vk (x)| dx = |θk (xn )u(x0 , xn )|2 dx0 dxn
Rn
+ 0 Rn−1
Z +∞ Z
(m)
= |θk (xn )|2 |u(x0 , xn )|2 dx0 dxn
0 Rn−1

2
Por outro lado, do fato que θkm (xn ) = k m θm (xn ) e observando-se que para xn ≥
k
tem-se θm (xn ) = 0; obtemos
Z Z 2/k Z
2
|vk (x)| dx = k 2m m
|θ (xn )| 2
|u(x0 , xn )|2 dx0 dxn . (6.131)
Rn
+ 0 Rn−1
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
254 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Agora, seja M > 0 tal que |θm (xn )|2 ≤ M . Então, de acordo com o Lema 6.18 resulta
que a expressão à direita de (6.131) é menor ou igual a
 2m−1 Z 2/k Z Z 2/k
2
M k 2m
|Dnm u(x0 , t)|2 dx0 dt
k 0 R n−1 0
Z 2/k Z
= 22m M |Dnm u(x0 , t)|2 dx0 dt.
0 Rn−1

Logo,
Z Z 2/k Z
2
|vk (x)| dx ≤ (2 2m
)·M |Dnm u(x0 , t)|2 dx0 dt.
Rn
+ 0 Rn−1

Como a integral à direita da desigualdade acima converge para zero quando k → +∞


resulta que vk → 0 em L2 (Rn+ ) conforme querı́amos demonstrar. 2

Lema 6.20 Seja m ∈ N∗ . Então, para cada i = 0, 1, . . . , m − 1

Dα (γi u) = γi (Dα u)

para toda u ∈ H m (Rn+ ) e ∀ α = (α0 , αn ) ∈ Nn tal que |α| + i ≤ m − 1 e αn = 0.

Demonstração: Inicialmente observemos que a relação acima é válida para uma função
ϕ ∈ D(Rn+ ). Com efeito, seja α = (α0 , αn ) ∈ Nn ; αn = 0. Temos,
0 0 0
Dα (γi ϕ)(x0 ) = Dxα0 (Dni ϕ)(x0 , 0) = Dni (Dxα0 , ϕ)(x0 , 0) = γi (Dxα0 ϕ)(x0 , 0)
= γi (Dα ϕ)(x0 ).

Consideremos, então, u ∈ H m (Rn+ ) e seja (ϕν ) ⊂ D(Rn+ ) tal que

ϕν → u em H m (Rn+ ). (6.132)

Logo; para cada i = 0, 1, . . . , m − 1

γi (ϕν ) → γi (u) em H m−i−1/2 (Rn−1 ). (6.133)

1
Como por hipótese |α| ≤ m − i − 1 ≤ m − i − , temos, de (6.133) e conforme o Lema
2
6.16 que:
Dα (γi ϕν ) → Dα (γi u) em H m−i−1/2−|α| (Rn−1 ). (6.134)

Agora de (6.132) tem-se também que

Dα (ϕν ) → Dα (u) em H m−|α| (Rn+ )


255

e por conseguinte

γi (Dα ϕν ) → γi (Dα u) em H m−|α|−i−1/2 (Rn−1 ). (6.135)

Assim, de (6.132), eq25sec62 e eq26sec62 pela unicidade do limite concluı́mos o dese-


jado, o que encerra a prova. 2

m−1
Proposição 6.21 Seja γ : H m (Ω) → H m−j−1/2 (Rn−1 ) a aplicação traço de ordem m
Q
j=0
definida em (6.120). Então,
ker(γ) = H0m (Rn+ ).

Demonstração: Seja u ∈ H0m (Rn+ ). Então, por definição, ∃ (ϕν ) ⊂ D(Rn+ ) tal que

ϕν → u em H m (Rn+ ).

Consideremos ϕ̃ν a extensão de ϕν pondo-se zero fora de Rn+ . Evidentemente ϕ̃ν |Rn ∈
+
j

∂ ϕ̃n

D(Rn+ ); supp(ϕ̃ν ) ⊂ Rn+ e j = 0. Ainda,
∂x n n−1
R

ϕ̃ν → u em H m (Rn+ )

o que implica que


m−1
Y
γ ϕ̃ν → γu em H m−j−1/2 (Rn−1 ).
j=0

∂ m−1 ϕ̃n u
 
Contudo, como γ ϕ̃ν = ϕ̃ν |Rn−1 , . . . , n−1 = 0 segue que γu = 0 o que
∂xn−1
n R
prova que u ∈ ker(γ) e consequentemente temos provado que

H0m (Rn+ ) ⊂ ker(γ). (6.136)

Reciprocamente seja u ∈ ker(γ). Então u ∈ H m (Rn+ ) e além disso, temos também que
γu = 0, i.é,
γ0 u = γ1 u = · · · = γm−1 u = 0.

Consideremos, como no Lema 6.19, θ ∈ C ∞ (R) tal que 0 ≤ θ(t) ≤ 1, θ(t) = 0 se t ≤ 1


e θ(t) = 1 se t ≥ 2. Definamos:

θk (t) = θ(kt); k ∈ N∗ , t ∈ R
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
256 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

e
uk (x0 , xn ) = θk (xn )u(x0 , xn ); x0 ∈ Rn−1 ; xn > 0, k ∈ N∗ .

Dado α ∈ Nn com |α| ≤ m, então α = (α0 , j) para algum α0 ∈ Nn−1 e j ∈ N tais que
|α0 | + j ≤ m. No caso em que j = 0 temos α = (α0 , 0) e, portanto,
0
(Dα uk )(x0 , xn ) = θ(xn )(Dα u)(x0 , xn ).

0
Contudo, como (Dα u) ∈ L2 (Rn+ ) segue do Lema 6.19 item (i) que
0 0
Dα uk → Dα u em L2 (Rn+ ). (6.137)

No caso em que 0 < j ≤ m temos α = (α0 , j) e por Leibniz resulta que


X α
α
(D uk )(x) = Dβ θk (xn )Dα−β u(x).
β≤α
β

Notemos que se o multi-ı́ndice β = (β1 , β2 , . . . , βm−1 , p) é tal que βi 6= 0 para algum


i ∈ {1, . . . , m−1} então necessariamente Dβ θk (xn ) = 0. Logo, só nos interessarão os multi-
ı́ndice β = (β1 , . . . , βm−1 , p) tais que β1 = · · · = βm−1 = 0 ou seja, do tipo β = (0, p). Daı́,
α − β = (α0 , j) − (0, p) = (α0 , j − p) e assim
j  
α
X j p 0
(D uk )(x) = θk (xn )(Dnj−p Dα u)(x). (6.138)
p=0
p

Por outro lado, afirmamos que se α = (α0 , j) é tal que |α| ≤ m então
0 0
γj (Dα u) = γ0 (Dnj Dα u); ∀ u ∈ H m (Rn+ ), |α0 | + j ≤ m − 1. (6.139)

Com efeito, inicialmente observemos que se ϕ ∈ D(Rn+ ) então


0 0 0
γj (Dα ϕ)(x0 ) = (Dnj Dα ϕ)(x0 , 0) = γ0 (Dnj Dα ϕ)(x0 ). (6.140)

Agora se u ∈ H m (Rn+ ); ∀ (ϕν ) ⊂ D(Rn+ ) tal que

ϕν → u em H m (Rn+ ).

Então,
0 0 0
Dα ϕν → Dα u em H m−|α | (Rn+ )
0 0 0
Dnj Dα ϕν → Dnj Dα u em H m−(|α |+j)
257

e portanto
0 0 0
γj (Dα ϕν ) → γj (Dα u) em H m−|α |−j−1/2 (Rn−1 ) (6.141)
0 0 0
γ0 (Dnj Dα ϕν ) → γ0 (Dnj Dα u) em H m−|α |−j−1/2 (Rn−1 ) (6.142)

De (6.140), (6.141) e (6.142) pela unicidade do limite concluı́mos que

0 0
γj (Dα u) = γ0 (Dnj Dα u)

o que prova a afirmação em (6.139). Analogamente temos também

0 0
γi (Dnj−p Dα u) = γ0 (Dni Dnj−p Dα u); i + j − p + |α0 | ≤ m − 1. (6.143)

Notemos que a expressão à direita da igualdade em (6.138) pode ser reescrita como
j  
α
X
α0 j p 0
(D uk )(x) = θk (xn )D u(x) + θk (xn )(Dnj−p Dα u)(x). (6.144)
p=1
p

Se i = 0, 1, . . . , p − 1 então 0 ≤ i ≤ p − 1 o que implica que i + j − p ≤ j − 1 e portanto


i + j − p + |α0 | ≤ j − 1 + |α0 | = |α| − 1 ≤ m − 1. Logo, de (6.139), (6.143) e do Lema 6.20,
resulta que

0 0 0
γi (Dnj−p Dα u) = γ0 (Dni Dnj−p Dα u) = γ0 (Dni+j−p Dα u)
0 0
= γi+j−p (Dα u) = Dα (γi+j−p u) = 0 (6.145)

para p = 1, 2, . . . , j e i = 0, 1, . . . , p − 1.
Usando o resultado obtido em (6.145) e o Lema 6.19 item (ii) decorre que a segunda
parcela à direita da igualdade da expressão em (6.144) converge para zero em L2 (Rn+ ) en-
0
quanto que a primeira parcela converge para Dα u conforme provado em (6.137). Resulta
daı́ que
Dα uk → Dα u em L2 (Rn+ ); ∀ α ∈ Nn ; |α| ≤ m

o que implica que


uk → u em H m (Rn+ ). (6.146)

Seja ψ ∈ C0∞ (Rn ) tal que ψ(x) = 1 se ||x|| ≤ 1 e ψ(x) = 0 se ||x|| ≥ 2. Para todo
ν = 1, 2, . . . definamos:  
x
uk,ν (x) = ψ uk (x); x ∈ Rn+ .
ν
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
258 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Conforme provado anteriormente sabemos que (uk,ν ) tem suporte compacto contido
em Rn+ . Segue daı́ e da convergência em (6.146) que:

(uk,ν ) ⊂ H0m (Rn+ ).

Agora, como para cada ν ∈ N

ν→+∞
uk,ν −→ uk em H m (Rn+ ) (6.147)

(este é o processo de truncamento usual) concluı́mos de (6.146) e (6.147) que u ∈ H0m (Rn+ ).
Isto encerra a prova. 2

Lema 6.22 Seja m ∈ N. Temos:

∂j u

m n
H (R+ ) = 2 m n−1
u ∈ L (0, +∞, H (Rx0 ); . . . , j ∈ L2 (0, +∞, H m−j (Rxn−1
0 ),
∂xn
∂ mu

2 2 n−1
. . . , m ∈ L (0, +∞; L (R ) (6.148)
∂xn
e
m j 2
X ∂ u
||u||2H m (Rn ) =
∂xj 2 ; x0 = (x1 , . . . , xn−1 ). (6.149)
+
k=0 n L (0,+∞;H m−j (Rn−1 )

∂j u
Demonstração: Inicialmente observemos que se u ∈ L2 (0, +∞; H m (Rxn−1
0 )) então
∂xjn
está definida no sentido de
D0 (]0, +∞[ , H m (Rn−1
x0 ))

e portanto as expressões

∂j u
∈ L2 (0, +∞; H m−j (Rxn−1
0 ))
∂xjn
têm sentido.
Se u ∈ L2 (0, +∞; H m (Rn−1
x0 )), então pelo fato da aplicação

u ∈ H m (Rxn−1
0 ) 7→ Dxα0 u ∈ L2 (Rn−1
x0 )

ser linear e contı́nua para todo |α| ≤ m, temos

Dxα0 u ∈ L2 (0, +∞; L2 (Rxn−1


0 )); ∀ |α| ≤ m (6.150)
259

e como pelo Teorema de Fubini

L2 (0, +∞; L2 (Rxn−1


0 )) = L2 (Rn+ )

obtemos
Dxα0 u ∈ L2 (Rn+ ); ∀ |α| ≤ m. (6.151)

Reciprocamente, se u satisfaz (6.151) então se verifica (6.150). Assim, para q.t. xn ;


u( · , xn ) ∈ H m (Rn−1
x0 ) e
Z +∞ X Z
||u( · , xn )||2H m (Rn−1 ) dxn = |(Dxα0 u)|2 dx0 < +∞
0 x0 Rn
|α|≤m +

de modo que u ∈ L2 (0, +∞; H m (Rn−1


x0 )) (já que u é mensurável e toma valores em
H m (Rn−1
x0 )).

Desta forma, o fato de u ∈ L2 (0, +∞; H m (Rn−1


x0 )) é equivalente a (6.151).

Consequentemente:

∂j u 2 m−j n−1
j
α ∂ u 2 n
j ∈ L (0, +∞; H (R x0 )); ∀ j ⇔ Dx 0
j ∈ L (R+ ); ∀ |α| ≤ m − j; ∀ j
∂xn ∂xn
⇔ D u ∈ L2 (Rn+ ); ∀ |α| ≤ m
α

o que prova o lema. 2

Resulta do lema acima que para todo m ∈ N∗ :

∂j u 0 m−j−1
j ∈ C ([0, +∞); H (Rn−1 ); j = 0, 1, . . . , m − 1 (6.152)
∂xn
tendo sentido falarmos em
 j 
∂ j u

∂ u
(0) = ; j = 0, 1, . . . , m − 1. (6.153)
∂xjn ∂xjn Rn−1

De maneira análoga ao que provamos anteriormente é também verdade que


 j 
∂ u ∂j u
γj u = γ0 = (0) (6.154)
∂xjn ∂xjn
∀ u ∈ H m (Rn+ ) e j = 0, 1, . . . , m − 1.
Convém observar que de (6.152) temos provado que

u ∈ C m−1 ([0, +∞); L2 (Rn−1 )). (6.155)


INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
260 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

O próximo passo é mostrar que a aplicação traço de ordem m


m−1
Y
m
γ: H (Rn+ ) → H m−j−1/2 (Rn−1 ) (6.156)
j=0

admite uma inversa à direita linear e contı́nua. Comecemos pelo seguinte:

Lema 6.23 Para toda u ∈ S(Rn ) e j = 0, 1, . . . , m − 1 vale a seguinte relação:


Z
0 −1/2
F1 (γj u)(x ) = (2π) (it)j (Fu)(x0 , t)dt; x0 ∈ Rn−1 (6.157)
R

onde F : L2 (Rn ) → L2 (Rn ) é a transformada de Fourier em L2 (Rn ).

Demonstração: Seja u ∈ S(Rn ). Denotaremos por Fe e Fe1 as transformadas de


Fourier inversas de F e F1 , respectivamente. Sendo F(Fu)
e = u, obtemos para todo
x = (x0 , xn ) ∈ Rn :
Z
0 −n/2
u(x , xn ) = (2π) eihx,yi (Fu)(y) dy
Z Z Rn
−n/2 0 0
= (2π) eihx ,y i eixn yn (Fu)(y 0 , yn )dy 0 dyn
n−1
ZR R Z
−n/2 ihx0 ,y 0 i
= (2π) e eixn ,yn (Fu)(y 0 , yn )dyn dy 0 .
Rn−1 R

De (6.154) em particular para (γj u)(x0 ) = (Dnj u)(x0 , 0) temos


Z Z
0 0 −n/2 ihx0 ,y 0 i
j
(γj u)(x ) = (Dn u)(x , 0) = (2π) e F(Dnj u)(y 0 , yn )dyn dy 0 . (6.158)
Rn−1 R

Lembrando-se que F(Dα u)(y) = (iy)α (Fu)(y) então sendo α = (0, j) resulta que
0
F(Dα u)(y) = F(Dnj u)(y) = (ij y 0 ynj )(Fu)(y) = (iyn )j (Fu)(y). (6.159)

Substituindo-se (6.159) em (6.158) obtemos


Z  Z 
0 − n−1 ihx0 ,y 0 i −1/2
(γj u)(x ) = (2π) 2 e (2π) (iyn ) (Fu)(y , yn )dyn dy 0 .
j 0
(6.160)
Rn−1 R

Denotando-se: Z
0 −1/2
ω(y ) = (2π) (iyn )j (Fu)(y 0 , yn )dyn
R
resulta de (6.160) que
Z
0 − n−1 0 0
(γj u)(x ) = (2π) 2 eihx ,y i ω(y 0 )dy 0 = (Fe1 ω)(x0 )
Rn−1
261

e, por conseguinte
F1 (γj u) = ω

conforme querı́amos demonstrar. 2

Proposição 6.24 Existe uma aplicação linear e contı́nua:


m−1
Y
Λ: H m−j−1/2 (Rn−1 ) → H m (Rn+ )
j=0

m−1
H m−j−1/2 (Rn−1 ) onde γ é a aplicação traço de ordem m
Q
tal que γ(Λω) = ω; ∀ ω ∈
j=0
dada em (6.120).

Demonstração: Em verdade, mostraremos que existe uma aplicação linear e contı́nua:

Λ : (D(Rn−1 ))m → H m (Rn+ ) (6.161)

tal que:
γ(Λω) = ω; ∀ ω ∈ (D(Rn−1 ))m . (6.162)
m−1
Provado isto, usaremos a densidade de (D(Rn−1 ))m em H m−j−1/2 (Rn−1 ) para es-
Q
j=0
tender Λ a este último espaço, sendo, obviamente, tal extensão linear, contı́nua e uma
inversa à direita de γ.
Com efeito, dado ω = (ω0 , ω1 , . . . , ωm−1 ) ∈ (D(Rn−1 ))m e para cada
j = 0, 1, . . . , m − 1 consideremos
Z
aj = t2j (1 + t2 )−(m+j) dt (6.163)
R

e 1
1 (1 + |x0 |2 )m− 2 j
vj (x) = x (F1 ωj )(x0 ); (x0 , xn ) ∈ Rn . (6.164)
(2π)−1/2 aj ij (1 + |x|2 )m+j n
z
Fazendo-se uma mudança de variáveis, a saber, t = ; onde α ∈ R∗ , obtemos
α
Z
1
aj = (α2 )m− 2 z 2j (α2 + z 2 )−(m+j) dz. (6.165)
R

Temos de (6.164)
1
(1 + |x0 |2 )m− 2
Z Z 
− 21 0 1
(2π) j
(ixn ) vj (x , xn ) dxn = 2 )m+j
· xn dxn · (F1 ωj )(x0 ).
2j
(6.166)
R a j R (1 + |x|
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
262 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Pondo-se α2 = 1 + |x0 |2 então α2 + x2n = 1 + |x0 |2 + x2n = 1 + ||x||2 e portanto a última


expressão acima pode ser reescrita como
Z 
1 2 m− 12 2 −(m+j)
(α ) 2j 2
(xn ) (α + xn ) dxn (F1 ωj )(x0 ). (6.167)
aj R

Logo, de (6.165), (6.166) e (6.167) resulta que


Z
− 21
(2π) (ixn )j vj (x0 , xn ) dxn = (F1 ωj )(x0 ). (6.168)
R

Por outro lado, de (6.164) temos

2π (1 + |x0 |2 )2m−1 x2j 0 2 2 m


n |F1 (ωj )(x )| (1 + |x| )
(1 + |x|2 )m |vj (x0 , xn )|2 =
a2j (1 + |x|2 )2(m+j)
2π (1 + |x0 |2 )2m−1 x2j 0 2
n |F1 (ωj )(x )|
=
a2j (1 + |x|2 )m+2j
2π (1 + |x0 |2 )2m−1 (1 + |x0 |2 )−j x2j 0 2
n |F1 (ωj )(x )|
=
a2j (1 + |x|2 )m+2j (1 + |x0 |2 )−j
2π (1 + |x0 |2 )2m−1−j x2j 0 2
n |F1 (ωj )(x )|

a2j (1 + |x|2 )m+j
1
0 2 m− 2 2j
2π 0 2 m−j− 21 0 2 (1 + |x | ) xn
= 2
(1 + |x | ) |F 1 (ωj )(x )| ·
aj (1 + |x|2 )m+j

Integrando-se a desigualdade acima vem que


Z
(1 + |x|2 )m |vj (x0 , xn )|2 dxn
R
1
(1 + |x0 |2 )m− 2 x2j
Z
2π 1
≤ 2 (1 + |x0 |2 )m−j− 2 |F1 (ωj )(x0 )|2 n
dxn . (6.169)
aj R (1 + |x|2 )m+j

Contudo, de (6.165) e (6.167) temos


1
(1 + |x0 |2 )m− 2 x2j
Z Z
1
n
dxn = (α2 )m− 2 (xn )2j (α2 + x2n )−(m+j) dxn = aj (6.170)
R (1 + |x|2 )m+j R

e de (6.169) e (6.170) chegamos a


Z
2π 1
(1 + |x|2 )m |vj (x0 , xn )|2 dxn ≤ (1 + |x0 |2 )m−j− 2 |F1 (ωj )(x0 )|2
R aj

e daı́ resulta que


Z Z
0 2π 1
2 m 2
(1 + ||x|| ) |vj (x , xn )| dx ≤ (1 + |x0 |2 )m−j− 2 |F1 (ωj )(x0 )|2 dx0 (6.171)
Rn aj Rn−1
263

ou seja, existe c1 > 0 tal que


Z
(1 + ||x||2 )m |vj (x0 , xn )|2 dx ≤ c1 ||ωj ||2 m−j− 21 (6.172)
Rn H (Rn−1 )

para todo j = 0, 1, . . . , m − 1.
Sejam chj (h = 1, 2, . . . , m; j = 0, 1, . . . , m − 1) números reais tais que
m
(
X 1 se j = k
chk hj+1 = δjk = (6.173)
h=1 0 se j 6= k

k = 0, 1, . . . , (m − 1). A existência de tais números que verificam (6.173) provém do fato


que o sistema abaixo, na sua forma matricial
     
c10 c20 ... cm0 11 12 ... 1m 1 0 ... 0
 c11 c21 ... cm1   1 22 2m 
 2 ...  0 1 . . . 0
 
 =  ..

 .. .. ..   .. .. .. .
.. .
 . . ... .   . . .  . . .
c1(m−1) c2(m−1) ... cm(m−1) m1 m2 . . . m m
0 0 ... 1

possui solução pois o determinante associado a matriz dos coeficientes é o determinante


de Vandermond que é não nulo.
Definamos u : Rn → R pondo:
m−1 m  
0 xn
XX
0
u(x) = u(x , xn ) = chk vk x , (6.174)
k=0 h=1
h
e

Λω = Fu
e n.
R
(6.175)
+

Por outro lado, de (6.164) temos que


 2
(1 + |x0 |2 )2m−1 x2j

vj x0 , xn = 2π · n
|F1 ωj (x0 )|2

2 2(m+j) 2j
h aj x h

0 2
1 + |x | + h2
n

2π (h2 )2(m+j) (1 + |x0 |2 )2m−1 x2j


= · · n |F1 ωj (x0 )|2 . (6.176)
aj (h2 + h2 |x0 |2 + x2n )2(m+j) h2j

Agora, como 1 ≤ h ≤ m resulta que para todo j = 0, 1, . . . , m − 1:


1
(h2 )2(m+j) ≤ m4(m+j) e ≤ 1. (6.177)
h2j

Também; do fato que 1 + |x0 |2 + x2n ≤ h2 + h2 |x0 |2 + x2n obtemos

m4(m+j) m4(m+j)
≤ · (6.178)
(h2 + h2 |x0 |2 + x2n )2(m+j) (1 + |x0 |2 + x2n )2(m+j)
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
264 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Desta forma, de (6.176), (6.177) e (6.178) concluı́mos que


0 xn
 2
vj x , ≤ c1 |vj (x0 , xn )|2 ; ∀ j = 0, 1, . . . , m − 1 ∀ h = 1, . . . , m. (6.179)

h

Agora, de (6.172) e (6.179) obtemos


Z xn  2
(1 + |x|2 )m vj x0 , dx ≤ c1 ||ωj ||2H m−j−1/2 (Rn−1 ) . (6.180)

Rn h

Decorre de (6.180) que Fu,


e onde u está definida em (6.174) é tal que

e ∈ H m (Rn ).
Fu (6.181)

Com efeito, de (6.174) vem que


Z m−1 m Z
0 xn
2 m 2
XX
2 m
 2
(1 + |x| ) |u(x)| dx ≤ chk (1 + |x| ) vk x , dx (6.182)

Rn k=0 h=1 Rn h

e de (6.180) esta última expressão é menor ou igual a


m−1
XX m
c1 chk ||ωk ||2H m−j−1/2 (Rn−1 ) (6.183)
k=0 h=1

o que prova que Z


(1 + |x|2 )m |u(x)|2 dx < +∞. (6.184)
Rn

Contudo, pelo fato de


Z Z
2 2 m 2
||Fu||H m (Rn ) =
e (1 + |x| ) |F[Fu](x)| dx =
e (1 + |x|2 )m |u(x)|2 dx
Rn Rn

segue de (6.184) o desejado em (6.181). Resulta daı́ que

e n ∈ H m (Rn+ ).
Λω = Fu| (6.185)
R +

Além disso, de (6.182) e (6.183) temos também


m−1
XX m
||Λω||2H m (Rn ) ≤ c1 chk ||ωk ||2H m−j−1/2 (Rn−1 )
+
k=0 h=1
m−1
X
≤ c2 ||ωk ||2H m−j−1/2 (Rn−1 )
k=0

ou seja,
||Λω||H m (Rn ) ≤ c||ω||m−1 . (6.186)
H m−j−1/2 (Rn−1 )
Q
+
j=0
265

Concluı́mos, em face de (6.175) e (6.186) que Λ é uma aplicação linear e contı́nua de


m−1
D(Rn−1 ), com a topologia de
Q m−j−1/2 n−1
H (R ), em H m (Rn+ ).
j=0
Resta-nos provar que:
γ(Λω) = ω; ∀ ω ∈ D(Rn−1 ) (6.187)

ou equivalentemente que:

(γ1 (Λω), . . . , γm−1 (Λω)) = (ω1 , . . . , ωm )

ou ainda, que:
F1 (γj (Λω)) = F1 ωj , para j = 0, 1, . . . , m − 1. (6.188)

Com efeito, do Lema 6.23, de (6.174) e (6.175) resulta que


Z Z
0 −1/2 0 −1/2
[F1 (γj (Λω))](x ) = (2π) j
(it) [F(Λω)] (x , t) dt = (2π) (it)j u(x0 , t) dt
R R
m−1 m Z
XX t
= (2π)−1/2 chk (it)j vk x0 , dt
k=0 h=1 R h
m−1
XX m Z
−1/2
= (2π) chk (ihxn )j vk (x0 , xn )h dxn
k=0 h=1 R
m−1
XX m Z
−1/2
= (2π) chk h j+1
(ixn )j vk (x0 , xn ) dxn
R
Zk=0 h=1
= (2π)−1/2 (ixn )j vj (x0 , xn ) dxn (6.189)
R

onde esta última igualdade decorre de (6.173) (convém notar que j está fixado e δjk = 0
se k 6= j). De (6.168) e (6.189) concluı́mos o desejado em (6.188), o que encerra a prova.
Do exposto, temos o seguinte resultado central: 2

Teorema 6.25 A aplicação linear:

m−1
1
Y
ϕ∈ D(Rn+ ) 7→ (γ0 ϕ, γ1 ϕ, . . . , γm−1 ϕ) ∈ H m−j− 2 (Rn−1 )
j=0

prolonga-se por continuidade a uma aplicação linear e contı́nua γ de H m (Rn+ ) sobre


m−1
Q m−j− 1 n−1
H 2 (R ), cujo núcleo é o espaço H0m (Rn+ ). Tem-se ainda que γ possui uma
j=0
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
266 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

inversa à direita, linear e contı́nua, isto é, existe uma aplicação linear e contı́nua Λ de
m−1
Q m−j− 1 n−1
H 2 (R ) em H m (Rn+ ) tal que:
j=0

m−1
1
Y
γ(Λω) = ω; ∀ω ∈ H m−j− 2 (Rn−1 )
j=0

O nosso objetivo, a partir de agora é o de determinar um “traço” para a derivada


normal. Antes, porém, recordemos alguns conceitos básicos de Geometria Diferencial.
Para melhor compreensão consideraremos Ω ⊂ R3 um subconjunto aberto limitado que
tenha uma superfı́cie regular Γ como fronteira. Então, para cada p ∈ Γ existem Vp
vizinhança do R3 , W aberto do R2 e um difeomorfismo de classe C ∞ :

X : W → Vp ∩ Γ
(u, v) 7→ X(u, v) = (x(u, v), y(u, v), z(u, v))

que parametriza Γ localmente. Suponhamos que γ seja orientável e consideremos

ν : Γ → R3
(u, v) 7→ ν(u, v) = (ν1 (u, v), ν2 (u, v), ν3 (u, v))

um campo contı́nuo de vetores normais, orientados para o exterior de Γ.


Seja s > 0, arbitrário, a determinar posteriormente e consideremos a aplicação

F : W × R → R3
t
F (u, v, t) = X(u, v) − ν(u, v). (6.190)
s

Notemos que, em particular,

F (u, v, 0) = X(u, v); ∀ (u, v) ∈ W. (6.191)

Além disso, temos


t ∂ν1 t ∂ν1
 ∂x ∂x
− 1s ν1 (u, v)

∂u
(u, v) − s ∂u
(u, v) ∂v
(u, v) − s ∂v
(u, v)
 
F 0 (u, v, t) = 
 ∂y t ∂ν2 ∂y t ∂ν2 1

 ∂u (u, v) − (u, v) (u, v) − (u, v) − ν 2 (u, v)
s ∂u ∂v s ∂v s 
 
∂z t ∂ν3 ∂z t ∂ν3 1
∂u
(u, v) − s ∂u
(u, v) ∂v
(u, v) − s ∂v
(u, v) − s ν3 (u, v)

Em particular,
267

 ∂x ∂x
− 1s ν1 (u, v)

∂u
(u, v) ∂v
(u, v)
 
0
 ∂y ∂y

F (u, v, 0) = 
 ∂u (u, v) ∂v
(u, v) − 1s
ν2 (u, v) ; (u, v) ∈ W (6.192)
 
∂z ∂z
∂u
(u, v) ∂v
(u, v) − 1s ν3 (u, v)
Pondo-se:    
∂x ∂y ∂z ∂x ∂y ∂z
Xu = , , e Xv = , ,
∂u ∂u ∂u ∂v ∂v ∂v
então, conforme sabemos

{Xu , Xv } é uma base do Tp Γ.

Agora, como
1 1
− ν = − (ν1 , ν2 , ν3 )
s s
é normal a Γ resulta que os vetores
1
Xu , Xv e ν
2
são linearmente independentes o que prova que:

det(F 0 (u, v, 0)) 6= 0; ∀ (u, v) ∈ W. (6.193)

Resulta de (6.193) em face ao Teorema da Função Inversa que a aplicação F dada em


(6.190) é um difeomorfismo local de uma vizinhança M de q = X −1 (p) em uma vizinhança
N de p (vide figura a seguir).
Consideremos, então uma bola B contendo o ponto q, inteiramente contida em M e
seja U = F (B). Então p ∈ U e além disso F |B é um difeomorfismo sobre U . Agora,
através de homotetias e translações podemos considerar a bola B como sendo unitária e
centrada no ponto zero.
Mais precisamente, existe um difeomorfismo C ∞ :

ψ : B1 (0) → B = Bs (q)
ψ(u, v, t) = [Tq ◦ Hs ](u, v, t)

onde
Ta (~x) = a + ~x e Hλ (~x) = λ · ~x.
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
268 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Logo,

ψ(u, v, t) = [Tq ◦ Hs ](u, v, t) = Tq (Hs (u, v, t)) = Tq (su, sv, st)


= q + s(u, v, t) = (q1 + su, q2 + sv, q3 + st)

Donde,
 
s 0 0
 
0
 
ψ (u, v, t) = 0 s 0

; ∀(u, v, t) ∈ B1 (0). (6.194)
 
0 0 s

Desta forma, podemos reparametrizar Γ localmente em p através de uma aplicação

ϕ = F ◦ ψ : B1 (0) → Γ ∩ U (6.195)

sendo este procedimento válido para todo p ∈ Γ (vide figura anterior).


Observe que a bola B1 (0) pode ser encarada como um “quadrado”, bastando para
isso usarmos a norma do máximo. Fica provado então que Ω é um aberto limitado bem
regular 1 . Além disso,

ϕ0 (u, v, 0) = F 0 (ψ(u, v, 0))ψ 0 (u, v, 0); ∀ (u, v) ∈ Σ (6.196)

onde Σ é a bola unitária em R2 , ou seja; pondo-se:

ϕ = (ϕ1 , ϕ2 , ϕ3 )

então de (6.192), (6.194) e (6.196) resulta que


 ∂ϕ1 ∂ϕ1 ∂ϕ1   ∂x
s ∂u s ∂x

∂u ∂v ∂t ∂v
−ν1
   
 ∂ϕ ∂ϕ2

∂ϕ2 
 ∂y ∂y

s ∂u s ∂v −ν2 
= 
 2 
 ∂u ∂v ∂t 
   
∂ϕ3 ∂ϕ3 ∂ϕ3 ∂z ∂z
∂u ∂v ∂t
s ∂u s ∂v −ν3

o que implica que:

∂ϕ1 ∂ϕ2 ∂ϕ3


= −ν1 ; = −ν2 e = −ν3 . (6.197)
∂t ∂t ∂t
1 t
Note-se que se t > 0 então F (u, v, t) = X(u, v) + s ν(u, v) está de um lado de Γ e se
t < 0 F (u, v, t) está do outro.
269

De um modo geral se Ω é um subconjunto aberto limitado e conexo do Rn que tem


uma superfı́cie regular2 Γ como fronteira então Ω é um aberto limitado bem regular. Além
disso, para cada p ∈ Γ existem uma vizinhança U de p e um difeomorfismo

ϕ : B1 (0) → U
y 7→ ϕ(y) = (ϕ1 (y), . . . , ϕn (y))

tal que

ϕ−1 (U ∩ Ω) = B1+ (0) (semi-bola positiva)


ϕ−1 (U ∩ { Ω) = B1− (0) (semi-bola negativa)
ϕ(U ∩ Γ) = Σ (bola unitária do Rn−1 )

Além disso, em virtude de (6.197) temos também que

∂ϕ1 ∂ϕ2 ∂ϕn


= −ν1 ; = −ν2 ; . . . ; = −νn . (6.198)
∂yn ∂yn ∂yn

Consideremos, então Ω ⊂ Rn um aberto limitado e conexo que tenha uma superfı́cie


regular Γ orientável como fronteira e seja

{Ui , ϕi }1≤i≤k

um sistema de cartas locais para Γ, nas condições acima. Seja:

{θi }0≤i≤k

partição da unidade subordinada à cobertura Ω, U1 , . . . , Uk de Ω. Então,

θi ∈ C0∞ (Rn ); ∀ i = 0, 1, . . . , k
supp(θ0 ) ⊂ Ω e supp(θi ) ⊂ Ui ; ∀ i = 1, . . . , k
Xk
θi (x) = 1; ∀x ∈ Ω
i=1

Seja ξ ∈ D(Ω) e ν = (ν1 , . . . , νn ) normal exterior a Γ. Considere a figura abaixo onde


estamos considerando u = ξ.

2
orientável.
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
270 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Temos:

(ξθi )(ϕ−1 0 −1 0 −1 0
i (y , 0)) = h∇(ξθi )(ϕi (y , 0)), ν(ϕi (y , 0))i (6.199)
∂ν
n
X ∂
= (ξθi )(ϕ−1 0 −1 0
i (y , 0)) · νk (ϕi (y , 0)). (6.200)
k=1
∂x k

Por outro lado,


n
∂  −1
 0 X ∂ −1 0
∂ϕ−1
j,k
ξθi ◦ ϕi (y , 0) = (ξθi )(ϕi (y , 0)) · (y 0 , 0) (6.201)
∂yn k=1
∂x k ∂y n

onde estamos denotando


ϕ−1 −1 −1 −1

i = ϕi,1 , ϕi,2 , . . . , ϕi,n .

Agora de (6.198) resulta que


∂ϕ−1
i,k
(y 0 , 0) = −νk (ϕ−1 0
i (y , 0)) (6.202)
∂yn
e de (6.199), (6.201) e (6.202) concluı́mos que
∂ ∂ 
(ξθi )(ϕ−1 0
ξθi ◦ ϕ−1
 0
i (y , 0)) = − i (y , 0); ∀ (y 0 , 0) ∈ Σ, ∀ i = 1, 2, . . . , k. (6.203)
∂ν ∂yn

De (6.203) vem então que

∂` −1 0 ` ∂
` 
ξθi ◦ ϕ−1
 0
`
(ξθ i )(ϕ i (y , 0)) = (−1) ` i (y , 0); ∀ (y 0 , 0) ∈ Σ,
∂ν ∂yn
∀ j = 1, 2, . . . , k; ` ∈ N. (6.204)

Consideremos, agora, para cada j ∈ {0, 1, . . . , m − 1} a seguinte aplicação

γj : D(Ω) → D(Γ)
∂ j ξ

ξ →
7 γj ξ = j . (6.205)
∂ν Γ

Notemos inicialmente que a aplicação acima está bem definida. Com efeito, como
ξ ∈ D(Ω), então
n
∂ξ X ∂ξ
= · νr ∈ D(Γ)
∂ν r=1
∂x r

pois
n 
∂ξ^ −1 X ∂ξ ^
  
θi ◦ ϕi = νr θi ◦ ϕ−1
i ∈ D(R
n−1
).
∂ν r=1
∂x r
271

Também:
∂j ξ
∈ D(Γ); ∀j
∂ν j
pelo mesmo motivo.
Provaremos, a seguir que, para cada j,existe cj > 0 tal que:

||γj ξ||H m−j−1/2 (Γ) ≤ cj ||ξ||H m (Ω) . (6.206)

Com efeito, definamos:


 j
∂ ξ

θ ) ◦ ϕ−1i (y); y ∈ Q

ωi (y) = j i

∂ν
ω̃ extensão de ω pondo-se zero fora de Q
i i

v = ω̃ ∈ D(Rn )
i i Rn
+
+
n−1
i Rn−1 ∈ D(R
u = v )
i

Faremos a prova para o caso em que j = 1. Para j 6= 1 o raciocı́nio é análogo. Temos:


∂ ∂ξ ∂θi
(ξθi ) = · θi + ξ ·
∂ν ∂ν ∂ν
Donde,
∂ξ ∂ ∂θi
· θi = (ξθi ) − ξ
∂ν ∂ν ∂ν
e por conseguinte,

∂ ^−1 ∂θ^
i
ωi (y) = (ξθi )(ϕi (y)) − ξ (ϕ−1 (y)); y ∈ Rn .
∂ν ∂ν i
Em particular de (6.203) vem que
 2 2 
∂ ^ ^
∂θ
i
||ui ||2H m−3/2 (Rn−1 ) ≤ c1 (ξθi ) ◦ ϕ−1 + ξ ◦ ϕ−1 .

i i
∂ν m−3/2 ∂ν m−3/2
H (Rn−1 ) H (Rn−1 )
(6.207)
Contudo, de (6.203) e da Proposição 6.17, existe c1 > 0 tal que
2 2
∂ ^ ∂ ^
−1 −1 −1 2
(ξθi ) ◦ ϕi = (ξθ ◦ ϕi ) ≤ c1 ||ξθ^
i ◦ ϕi ||H m (Rn ) .

∂ν m−3/2 n−1 ∂yn i m−3/2 n−1 +
H (R ) H (R )
(6.208)
Ainda da Proposição 6.17, existe c0 > 0 tal que
2 2
∂θ ^ i
^
∂θ
i

ξ ◦ ϕ−1 ≤ c ξ ◦ ϕ−1
. (6.209)

i 0 i
∂ν ∂ν

m−3/2 n−1 m
H (R ) H (Rn
+)
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
272 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

De (6.207), (6.208) e (6.209) obtemos

2
^−1 2
 
^
∂θ
i
||ui ||2H m−3/2 (Rn−1 ) ≤ c2 ξθi ◦ ϕi + ξ ◦ ϕ−1 . (6.210)

i

H m (Rn )
∂ν m
+ H (Rn
+)

Mas,

^−1 2 ^−1 2
2
X
−1
α ^
ξθi ◦ ϕ = ξθi ◦ ϕi + D (ξθi ◦ ϕi 2 (6.211)

i
H m (Rn
+) L2 (Rn
+) |α|≤m L (Rn
+)

e
2  2
^
∂θ
i

^
∂θ
i
X  ∂θi
−1 −1 −1
α

ξ ◦ ϕi = ξ ◦ ϕi + D ξ ◦ ϕ i (6.212)
∂ν m ∂ν ∂ν 2 n
L (R )
H (Rn
+) L2 (Rn
+)
|α|≤m +

Provaremos que as expressões em (6.211) e (6.212) podem ser majoradas por uma
constante vezes a norma de ||u||2H m (Ω) . Faremos para (6.211) e de maneira análoga o
mesmo segue para (6.212).
Temos:
Z
−1 2 −1 2
^
||ξθi ◦ ϕi ||L2 (Rn ) = ||ξθi ◦ ϕi ||L2 (Q+ ) = |ξθi ◦ ϕ−1 2
i (y)| dy
+ +
Q
Z Z
0
= 2
|ξθi (x)| | det(ϕi (x))| dx ≤ k1 |ξ(x)|2 dx. (6.213)
Ui+ Ω

Agora:
Z
−1 2 −1 2
α
||D (ξθ^ α
i ◦ ϕi ||L2 (Rn ) = ||D (ξθi ◦ ϕi )||L2 (Q+ ) = |Dα (ξθi ◦ ϕ−1 2
i )(y)| dy. (6.214)
+
Q+

Pondo-se:

ϕ−1
i (y) = (β1 (y), . . . , βn (y)) = (x1 , . . . , xn )

resulta que
n
∂ X ∂(ξθi ) ∂β`
(ξθi ◦ ϕ−1
i )(y) = (ϕ−1
i (y)) (y) (6.215)
∂yr `=1
∂y ` ∂y r
273

e daı́ vem que


2 n Z 2
∂β` 2
Z
∂ −1
X ∂(ξθi ) −1
(ξθi ◦ ϕi )(y) dy ≤ k2 (ϕi (y)) ∂yr (y) dy

Q+ ∂yr ∂y`
+

`=1 Q
n Z
∂(ξθi ) 2 ∂β`
2
X
(ϕi (x)) | det(ϕ0i (x))| dx

= k2 (x)

`=1 Ui
+
∂y` ∂yr
n Z
∂(ξθi ) 2

X
≤ k3 ∂y` (x) dx

+
`=1 Ui
Z n Z 2 
2
X ∂ξ
≤ k4 |ξ(x)| dx + ∂y` dx .
(x) (6.216)
Ω `=1 Ω

Analogamente, de (6.215) temos:


n 
∂ 2 (ξθi ◦ ϕ−1 ∂ ∂(ξθi ◦ ϕ−1
   
i ) i ) ∂ ∂(ξθi ) −1 ∂β`
X
(y) = (y) = (ϕi (y)) ·
∂ys ∂yr ∂ys ∂yr `=1
∂y s ∂y ` ∂yr
n
∂ 2 β`

X ∂ ∂(ξθi )   
∂β` ∂(ξθi ) −1
= (ϕ−1
i (y)) (y) + (ϕ i (y)) · (y) .
`=1
∂y s ∂y ` ∂y r ∂y ` ∂y s ∂yr

Contudo,
n
∂ 2 (ξθi ) −1
  X
∂ ∂(ξθi ) −1 ∂βq
(ϕi (y)) = (ϕi (y)) · (y)
∂ys ∂y` q=1
∂y q ∂y ` ∂y s

Logo:
n Xn
∂ 2 (ξθi ◦ ϕ−1 ∂ 2 (ξθi ) −1

i ) ∂βq ∂β` (y)
X
(y) = (ϕi (y)) · (y) ·
∂ys ∂yr `=1 q=1
∂yq ∂y` ∂yr ∂yr
n
X ∂(ξθi ) ∂ 2 β`
+ (ϕ−1
i (y)) · (y).
`=1
∂y` ∂ys ∂yr

Por um procedimento análogo à parte acima, obtemos


2 2
∂2 ∂(ξθi ) 2
Z XZ 2 XZ

−1
∂ (ξθ i )
(ξθi ◦ ϕi )(y) ≤ k5

∂yq ∂y` (x) dx +

∂y` (x) dx

+ ∂ys ∂yr +
Ui+

Q `,q Ui `
XZ 2 2 2 
∂ ξ XZ ∂ξ
Z
2
≤ k6 ∂yq ∂y` (x) dx +
(x) dx + |ξ(x)| dx
(6.217)
Ω ∂y`

`,q Ω ` Ω

Repetindo os mesmos argumentos usados em (105) e (106) obtemos desigualdades do


mesmo tipo para as outras derivadas parciais de (ξθi ◦ϕ−1
i ) dado em (103) e daı́ concluı́mos
que
||Dα (ξθi ◦ ϕ−1 2 0 2
i )||L2 (Rn ) ≤ k2 ||ξ||H m (Ω) . (6.218)
+
INTRODUÇÃO À TEORIA DAS DISTRIBUIÇÕES
274 E AOS ESPAÇOS DE SOBOLEV

Retornando-se a (6.211) de (6.213) e (6.218) inferimos que:

−1 2 2
||ξθ^
i ◦ ϕi ||H m (Rn ) ≤ c1,i ||ξ||H m (Ω) (6.219)
+

e repetindo-se um procedimento análogo obtemos o mesmo para a expressão dada em


(6.212), isto é,
2
^
∂θ
i

−1
ξ ◦ ϕ ≤ c2,i ||ξ||2H m (Ω) . (6.220)

i
∂ν

m
H (Rn
+)

Assim, de (6.210), (6.219) e (6.220) obtemos

||ui ||2H m−3/2 (Rn−1 ) ≤ ci ||ξ||2H m (Ω) ; i = 1, . . . , k

e, portanto,
k Xk 
∂ξ X
2
∂ν m 3 =
||ui || m− 32 ≤ ci ||ξ||2H m (Ω) .
H (Γ)
Γ H − (Γ) i=1
2 i=1

Logo existe c > 0 tal que



∂ξ
∂ν m 3 ≤ c||ξ||H m (Ω) ; ∀ ξ ∈ D(Ω). (6.221)

Γ H − (Γ) 2

Repetindo-se os argumentos acima, em verdade prova-se que


j
∂ ξ

∂ν j m ≤ c||ξ||H m (Ω) ; ∀ ξ ∈ D(Ω); j = 0, 1, . . . , m − 1.
Γ H −j− 1 (Γ)2

Do exposto, resulta que a aplicação dada em (6.205) pode ser estendida, por con-
tinuidade, a uma única aplicação linear e contı́nua
1
γj : H m (Ω) → H m−j− 2 (Γ) (6.222)

tal que
∂ j ξ

γj ξ = j ; ∀ ξ ∈ D(Γ). (6.223)
∂ν Γ
A partir daı́ fica definida uma aplicação linear e contı́nua
m−1
1
Y
m
γ : H (Ω) → H m−j− 2 (Γ)
j=0
u 7→ γu = (γ0 u, γ1 u, . . . , γm−1 u) (6.224)
275

m−1 1
H m−j− 2 (Γ) da topologia dada por
Q
quando munimos o espaço
j=0

m−1
X
||ω||m−1 1 = ||ωj ||H m−j− 12 (Γ)
H m−j− 2 (Γ)
Q
j=0 j=0

tal que
∂ m−1 ξ
 
∂ξ
γξ = ξ|Γ , , . . . , m−1 ; ∀ ξ ∈ D(Ω). (6.225)
∂ν Γ ∂ν Γ

O primeiro passo é provar que a aplicação dada em (6.224) admite uma inversa à
direita linear e contı́nua. Faremos a prova no caso particular da aplicação traço de ordem
1 e m = 1, ou seja provaremos que a aplicação traço

γ0 : H 1 (Ω) → H 1/2 (Γ)

admite uma inversa à direita linear e contı́nua

Λ : H 1/2 (Γ) → H 1 (Ω).

Com efeito, sejam ξ ∈ H 1/2 (Γ), {Ui , ϕi }1≤i≤k sistema de cartas locais e {θi }0≤i≤k
partição da unidade subordinada à cobertura Ω, U0 , . . . , Uk de Ω. Então,

−1 1/2
ωi = ξθ^
i ◦ ϕi ∈ H (Rn−1 ); ∀ i = 1, . . . , k.

Sabemos, (cf. Teorema 6.25), que a aplicação traço

γ0∗ : H 1 (Rn+ ) → H 1/2 (Rn−1 )

admite uma inversa à direita

Λ∗ : H 1/2 (Rn−1 ) → H 1 (Rn+ )

linear e contı́nua. Logo:


γ0∗ (Λ∗ ωi ) = ωi ; ∀ i = 1, . . . , k.

Consideremos, para cada i ∈ {1, . . . , k}, ρi ∈ C0∞ (Rn ) tal que ρi = 1 em S(ωi ).
Temos,
γ0∗ (ρi (Λ∗ ωi )) = (γ0∗ (ρi ))(γ0∗ (Λ∗ ωi )) = ωi .

Além disso, pelo que já