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16/03/2019 Nélida Piñon, a mulher que melhor fala a língua portuguesa - Jornal de Beltrão

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Jorge Baleeiro de Lacerda • jorgebaleeiroeelacerda@jornaldebeltrao.com.br

Nélida Piñon, a mulher que melhor fala a


língua portuguesa
20/10/2012 08:30

Nélida Piñon, escritora e  conferencista.

Há muitos anos acompanho a trajetória da escritora Nélida Piñon, brasileira com


profundas raízes galegas  e lusitanas,  pela proximidade da Galícia  com Portugal, com
o rio Minho .Nélida é uma apaixonada pela palavra, seja ela  escrita ou falada. Só a
passa para o prelo depois de polida, lapidada. Ela sabe que o único animal do planeta
que usa o verbo é o homem. Por isso, a cada palavra proferida busca dar encanto. Faz
do dizer não uma algaravia, mas uma arte, daí sua preocupação com a entonação, a

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clareza  na locução, a construção frasal  atenta à eufonia, ao ritmo, ao eco, à tessitura


da fala, ao burilar do logos.

Falar, para Nélida, não é amo nar o verbo, mas dar-lhe colorido, explorar-lhe a
polifonia, saber escolher o vocabulário. Nélida fala como se estivesse escrevendo  para
seu bem-amado  ou falando com Deus. Sente-se que ama o que fala, que tem
orgasmo loquendi  durante  a  emanação de sua fala. Tiremos as palavras de sua boca
e as joguemos num livro e nada  acharemos para mudar.

Com Nélida aprendi a gostar da língua galega, talvez mais velha que o português, seu
irmão mais próximo ao lado do espanhol e do mirandês.

Outro dia, pelo you tube, assisti a uma palestra de Nélida na Espanha. Fiquei surpreso:
imaginava que falasse o espanhol com sotaque perfeito, sem que lhe fosse percebida a
nacionalidade brasileira. Qual nada, ela in ltra em seu castelhano, sons, tons e subtons
cariocas e, aqui e acolá, derrapa na tonada espanhola, deixando que lhe notemos a 
brasilidade. Não sei se ela, ainda, saberia o galego de seus pais e avós e de R.Otero
Pedrayo, de que estou lendo as obras selectas.  A palavra lhe sai uente em espanhol,
mas sobremodo  bela  em português.                    .

Dilma, a nossa chefe maior, deveria convidar a Nélida para uma semana no Alvorada,
em que pudesse aprender com ela a arte de falar com graça, beleza  e profundidade. 
Se assimilasse bem as aulas, seria imbatível e deixaria seu Guru  de Garanhuns com
inveja.

Nélida nasceu para a literatura, formou-se na arte de contar, sherazade tupiniquim


que é, como no-lo mostram seus romances. Fabular é uma necessidade na vida de
Nélida. Busca em cada tema uma razão de contar. Sobre tudo, fala com paixão, com
ânsia de síntese e com angústia de análise, buscando  a beleza literária, a fantasia e a
poesia da vida. Deve ter aprendido muito com sua amiga Clarice Lispector!

Nélida  teria  vivido muito bem no  Renascimento, como no século III ou IV já que
tanto lhe apraz o monaquismo, a vida contemplativa, o cantochão.

Nélida é, hoje, no Brasil, a mulher que melhor fala a língua portuguesa porque lhe dá
lirismo, acrescenta-lhe beleza, amplia-lhe o telurismo pelo sabor vernáculo, pela
riqueza de dados, pelo cinzelar de cada frase.

Sua passagem pela presidência da Academia Brasileira de Letras foi lhe um grande
ensejo para exercitar a arte do discurso. Coincidiu que era o Centenário de fundação da
Academia, que a levou a falar tantíssimas vezes numa casa de grandes oradores,
mormente no passado: Coelho Neto, Joaquim Nabuco, Ruy Barbosa, Dom Silvério
Gomes Pimenta, Pedro Calmon, Austregésilo de Athayde, Afonso Arinos, Josué
Montello  e Alceu Amoroso Lima.

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Nélida tem dito  que  aprendeu a discursar na Academia e tornou-se uma mestra nesta
arte.

Suas entrevistas são textos prontos da mais pura literatura, no que lembra Rachel de
Queiroz (que, ao contrário de Nélida, não gostava de escrever. Jamais encontrarão em
algum baú da Fazenda Não me Deixes, no Quixadá , uma página inédita de Rachel.)
Nélida deve ter incontáveis páginas nos seus baús, nos arcanos de seu apartamento
com vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas, perto do amigo Carlos Heitor Cony.

Nélida lançou, há pouco, um livro de memórias: “Livro das Horas’’, pela Editora Record.
Quem como eu lê  os livros  de Nélida há 40 anos  desde “Guia-mapa de Gabriel
Arcanjo”, apenas  a revisita e a revê mais sábia.

Nélida fala da vida, da velhice sem chamá-la hipocritamente de a melhor idade. Hora,
sim, de balanço nal, de con teor... a vida vale a pena ser vida apesar de tantos
dissabores na caminhada. Falemos da morte sem nos entregarmos a ela passivamente,
morrendo ainda em vida. Dá-nos uma lição de entusiasmo. Adverte-nos sobre o
momento grave da velhice que abate a tantos. A cada dia há que observar se os sonhos
perdem espaço em nossas vidas.

De uns dez anos para cá, depois dos 50, sinto a força do destino, o pavor da minha
nitude, a esclerose da idade que invade o sonho, como o mal de Alzheimer destrói
suas vitimas. Não é fácil lutar contra a ferrugem do tempo, a  pátina do anos  que se
acumula e nos tira o ânimo para novos desa os.

Quando sinto preguiça para aprontar as malas (agora uma só) para mais uma andança
pelos Brasis, percebo que já me assalta o fantasma do “dejá vus”, a  mesmice, mas não
posso me entregar e  capitular.

Nélida não tem a muleta da fé, desconhece o conforto ccional da religião. Seus pais
galegos não lhe infundiram  a prática religiosa. Diz ela: “Vou morrer e nada sei”.  Se
acreditasse em Deus, diria: Vou morrer e serei santa. Voltarei adorada nos altares
porque amei o Verbo, a palavra, o logos, patrimônio maior do homem que pensa e fala.

Ler seu “Livro das Horas” é exercitar nossa humanidade, de que ela é um exemplo
precioso, sabedora da inoperância do homem diante da certeza da morte, do fantasma
da nitude, de que todos padecemos. Quando leio Nélida sinto-me sempre um lósofo
amador, sedento de momentos de re exão sobre meu destino de mortal e padecente
da irreversibilidade da morte. Nélida honra e eleva o Brasil, Terra dos Papagaios,
quando fala e escreve..

Ú
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