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Doenças e o Genoma: Doenças C A P Í T U L O

Genéticas, Neoplásicas e do
Desenvolvimento
Ashley G. Riverbark e William B. Coleman

INTRODUÇÃO
Ao longo dos séculos, médicos e cientistas têm estudado as tipo de lesão (p. ex., determinada forma de câncer) irão
doenças humanas por meio da descrição de lesões anormais influenciar o comportamento clínico dessa lesão e sua resposta
(patologia) e seus efeitos adversos nos pacientes (fisiopatologia), à terapia. Portanto, um grande esforço tem sido feito para
procurando identificar os fatores de risco (suscetibilidade) caracterizar as bases genéticas de várias doenças humanas
e as causas (agentes etiológicos) e buscando uma maior (patologia molecular), levando a uma melhor compreensão das
compreensão de como surgem as doenças (patogênese). contribuições das alterações genômicas para o desenvolvimento
Com o progresso nessas direções, algumas doenças humanas e a progressão de doenças. A patologia molecular representa
atualmente são bem compreendidas na perspectiva dos a aplicação dos princípios da biologia molecular básica à
fatores de risco e causais, tendo sido desenvolvidas estratégias investigação dos processos de doenças humanas. Nossas
de prevenção e/ou tratamento. Para muitas outras doenças percepções, sempre crescentes, sobre as bases moleculares
humanas, a investigação dos elementos fundamentais da da doença fornecem oportunidades para o desenvolvimento
patogênese molecular e celular representa um esforço contínuo. de abordagens novas e inovadoras para o diagnóstico, a
No entanto, nas últimas décadas, o campo da patologia evoluiu classificação e a avaliação prognóstica das doenças humanas
no reconhecimento de que as doenças podem se manifestar, e para a expansão de tratamentos direcionados a alvos ou vias
em muitos casos, como um reflexo direto de mudanças nos moleculares específicas. Neste capítulo, fornecemos uma visão
padrões da expressão gênica e, muitas vezes, envolvendo geral do papel das alterações genômicas nas doenças genéticas,
alterações no próprio genoma. Há também o reconhecimento neoplásicas e do desenvolvimento, com ênfase especial no papel
de que os padrões de expressão gênica em determinado das mutações e epimutações na patogênese dessas doenças.

O GENOMA HUMANO mas não se sabia se esse DNA carregava a informação genética
ou se servia meramente como um arcabouço para alguma classe
o Dna é a Fonte de informação de proteínas desconhecidas que carregavam a informação gené-
tica. Entretanto, a demonstração de que as características ge-
Genética néticas podiam ser transmitidas pelo DNA formou a base para
Entre os blocos construtores essenciais das células vivas que fo- numerosas investigações centradas na elucidação da natureza
ram identificados e caracterizados por químicos e pelos primei- do código genético. Nos últimos 65 anos, numerosos investiga-
ros bioquímicos estão os ácidos nucleicos – polímeros de cadeia dores participaram da revolução científica que conduziu à bio-
longa compostos de nucleotídeos. Os ácidos nucleicos foram logia molecular moderna. Apresentaram significado especial a
denominados com base parcialmente em suas propriedades elucidação da estrutura do DNA, a determinação das relações
químicas e parcialmente na observação de que eles represen- estrutura-função entre o DNA e o RNA e a aquisição de percep-
tam um constituinte importante do núcleo celular. A percep- ções básicas dos processos de replicação do DNA, transcrição
ção fundamental de que os ácidos nucleicos formam as bases do RNA e síntese proteica.
químicas para a transmissão das características genéticas não
ocorreu até cerca de 65 anos atrás. Antes desse período, havia
considerável discordância entre os cientistas se a informação o Dogma Central da Biologia molecular
genética estava contida e era transmitida por proteínas ou áci- A biologia molecular desenvolveu-se em um amplo campo de
dos nucleicos. Constatou-se que os cromossomos continham o busca científica e, ao mesmo tempo, representou um compo-
ácido desoxirribonucleico (DNA) como constituinte principal, nente básico da maioria das outras ciências de pesquisas básicas.
2   Capítulo 1

Esse fato aconteceu pela rápida expansão de nossos conheci- Numerosos mecanismos de reparo do DNA são expressos em
mentos sobre numerosos aspectos básicos da biologia mole- células eucarióticas para garantir a integridade da estrutura
cular e pelo desenvolvimento de uma compreensão das intera- primária do DNA (a sequência do DNA). Esses mecanismos
ções fundamentais entre os diversos processos principais que funcionam em conjunto com os processos de replicação (para
abrangem o campo maior de investigação. Uma teoria, referi- proteção contra erros de replicação) e transcrição (para pro-
da como dogma central, descreve as inter-relações entre esses teção de regiões expressas no genoma). As principais vias de
processos principais. O dogma central define o paradigma da reparo do DNA para danos na sequência primária do DNA in-
biologia molecular de que a informação genética se perpetua cluem o reparo de pareamentos errados, o reparo de excisão de
como sequências de ácidos nucleicos e que os genes funcionam nucleotídeos e os mecanismos diretos de reversão química. As
por sua expressão na forma de moléculas de proteínas. Molé- células eucarióticas também apresentam vias de reparo do DNA
culas individuais de DNA funcionam como moldes para fitas que podem corrigir quebras na fita e outros danos no nível cro-
complementares de DNA durante o processo de replicação mossômico. A regulação da transcrição da expressão gênica é
ou moléculas complementares de RNA durante o processo de realizada por interações equilibradas de fatores de transcrição
transcrição. Por sua vez, as moléculas de RNA funcionam como de ativação específica e inibidores de repressão da expressão gê-
moldes para a ordenação de aminoácidos por ribossomos du- nica. Além disso, o controle de transcrição da expressão gênica
rante a síntese proteica ou tradução. Essa simples representa- é muito influenciado pelos fatores epigenéticos, incluindo a me-
ção de interações e inter-relações complexas entre DNA, RNA tilação da sequência do DNA e o remodelamento da cromatina
e proteínas (Figura 1-1A) foi proposta e normalmente aceita secundário à modificação de proteínas histonas. A regulação
logo após a descoberta da estrutura do DNA. No entanto, esse pós-transcrição da expressão gênica é influenciada por micro­
paradigma ainda se sustenta mais de 50 anos depois e continua RNAs (miRNAs) que direcionam a degradação de RNAs men-
a representar um princípio norteador para os biólogos mole- sageiros (mRNAs) específicos. As proteínas codificadas por ge-
culares envolvidos em todas as áreas de pesquisa de biologia nes estruturais muitas vezes são modificadas na pós-tradução
básica, biomedicina e genética. por glicosilação, fosforilação, acetilação, metilação ou clivagem
Com os avanços de nossa compreensão dos fundamentos enzimática, resultando em um polipeptídeo com funções novas
moleculares da célula eucariótica, o conceito de dogma central ou modificadas. Esse novo conceito de dogma central descreve
permanece em grande parte o mesmo. Porém, agora reconhe- com maior precisão o número e a complexidade das funções
cemos a importância da manutenção da integridade genômica celulares que incidem no genoma e sua expressão (Figura 1-1B).
por meio de mecanismos de reparo do DNA, múltiplos meca-
nismos e níveis de regulação da expressão gênica (nos níveis de
transcrição e pós-transcrição) e modificação da funcionalida- Estrutura e Organização do Genoma
de das proteínas pela modificação pós-tradução (Figura 1-1B). Humano
Natureza Química do DNA
Replicação
O DNA é uma molécula polimérica composta de subunidades
Transcrição Tradução repetidas de nucleotídeos. A ordem das subunidades de nucle-
DNA RNA Proteína otídeos contidas na sequência linear ou na estrutura primária
desses polímeros representa toda a informação genética de uma
A
célula. Cada nucleotídeo é composto de (1) um grupo fosfato,
Reparo de DNA (2) um açúcar pentose (5 carbonos) e (3) um nitrogênio cíclico
Modificação
Replicação Metilação de DNA microRNA que contém um composto chamado de base. No DNA, o radical
pós-tradução
açúcar é o 2-desoxirribose. O DNA eucariótico é composto de
Transcrição Tradução quatro bases diferentes: adenina, guanina, timina e citosina (Fi-
DNA RNA Proteína
gura 1-2A). Essas bases são classificadas de acordo com suas es-
Modificação de histonas
truturas químicas em dois grupos: adenina e guanina são estru-
turas em anel duplo denominadas purinas, e timina e citosina
B Dano ao DNA são estruturas em anel simples denominadas pirimidinas (Fi-
gura 1-2A). Na composição geral do DNA, a concentração de
Figura 1-1 O dogma central. (A) O dogma central da biologia
timina é sempre igual à de adenina, e a concentração de citosina
molecular como originalmente descrito por Crick. Este esquema ilustra
o fluxo de informação genética do DNA para o RNA e, a seguir, para a é sempre igual à de guanina. Assim, a concentração total de
proteína, ilustrando também como o DNA funciona como seu próprio pirimidinas é sempre igual à concentração total de purinas. A
molde na replicação. (B) O novo dogma central reflete avanços em nos- relação constante entre purinas e pirimidinas no DNA, e, mais
sa compreensão dos processos moleculares que ocorrem em células especificamente, a mesma concentração de adenina/timina e
normais. Esses processos incluem a regulação epigenética da expressão guanosina/citosina, é conhecida como regra de Chargaff. As
gênica por metilação do DNA e modificação de histonas, a regulação observações de Chargaff relacionadas à composição de purina/
pós-transcrição da expressão gênica por microRNAs e a modificação da
funcionalidade proteica por modificação pós-tradução (que pode in-
pirimidina do DNA foram validadas quando foi reconhecido
cluir glicosilação, ubiquitinação, fosforilação ou outros processos). Esse que adenina/timina (A:T) e guanosina/citosina (G:C) são espe-
novo dogma central também enfatiza a importância dos processos de cificamente ligações de hidrogênio na estrutura do DNA. Os
reparo do DNA na manutenção da integridade do genoma. pares de adenina-timina são ligados na estrutura do DNA por
Doenças e o Genoma: Doenças Genéticas, Neoplásicas e do Desenvolvimento    3

NH2 O NH2 O

N CH3
N
N N N N

N N N N N N
NH2 O O
HOCH2 O HOCH2 O HOCH2 O HOCH2 O

OH OH OH OH
A 2′-desoxiadenosina 2′-desoxiguanosina 2′-desoxicitosina 2′-desoxitimosina

Adenosina Citosina Guanosina Timosina

FIGURA 1-2  Blocos de construção do DNA. (A) Estrutura química dos desoxirribonucleosídeos da purina (2‘-desoxiadenosina e 2‘-desoxigua-
nosina) e da pirimidina (2‘-desoxicitosina e 2‘-desoxitimosina). (B) Estrutura química de subunidades de repetição de nucleotídeos no DNA. As áreas
sombreadas destacam uma ligação 3‘,5‘-fosfodiéster.

ligações duplas de hidrogênio, e os pares de guanosina-citosina de hidrogênio. A especificidade das interações moleculares, no
são ligados por ligações triplas de hidrogênio. A extensa liga- interior da molécula de DNA, permite a previsão da sequência
ção de hidrogênio entre as fitas de DNA na estrutura de dupla- de nucleotídeos em uma fita de polinucleotídeo, se a sequência
-hélice da molécula confere grande estabilidade em condições de nucleotídeos da fita complementar for conhecida. Embora
fisiológicas. As unidades de nucleotídeos monoméricos são as próprias ligações de hidrogênio sejam relativamente fracas,
ligadas entre si na estrutura polimérica do DNA por ligações o número dessas ligações no interior de uma molécula de DNA
3ʹ,5ʹ-fosfodiéster (Figura 1-2B). Os DNAs naturais apresentam resulta em uma molécula muito estável que não se separa de
ampla variação de tamanho, dependendo de sua fonte. Os pesos modo espontâneo em condições fisiológicas. Há muitas possi-
moleculares relativos variam de 1,6 × 106 dáltons para DNA de bilidades de ligações de hidrogênio entre pares de bases hetero-
bacteriófago a 1 × 1011 dáltons para um cromossomo humano. cíclicas. As mais importantes são os pares de bases com ligações
de hidrogênio A:T e G:C que foram propostos por Watson e
Estrutura do DNA Crick em seu DNA com estrutura de dupla-hélice. Entretanto,
A estrutura do DNA é uma dupla-hélice, composta de duas fitas outras formas de pareamento de bases foram descritas. Além
de polinucleotídeos que são enroladas entre si em uma espiral. disso, interações hidrofóbicas entre as bases empilhadas na
Cada fita de polinucleotídeo é fixada à outra por ligações fosfo- dupla-hélice conferem uma estabilidade adicional à molécula
diéster ligando metades das desoxirriboses adjacentes (Figura de DNA. Existem três formas reconhecidas de hélices de DNA:
1-2B). As duas fitas são fixas entre si por várias interações não A, B e Z. A conformação B é a forma dominante em condições
covalentes, incluindo interações lipofílicas entre bases adjacen- fisiológicas. No DNA B, os pares de bases têm uma distância de
tes e ligações de hidrogênio entre as bases de fitas opostas. Os 0,34 nm entre eles, com 10 pares de bases por volta da dupla-
esqueletos de açúcar-fosfato de duas fitas complementares são -hélice voltada para a direita, e um diâmetro de cerca de 2 nm.
antiparalelos – isto é, eles possuem polaridade química opos- Como o DNA B, a conformação A também é uma hélice volta-
ta. Movendo-se ao longo da dupla-hélice de DNA em uma di- da para a direita. Entretanto, o DNA A apresenta um diâmetro
reção, as pontes de fosfodiéster em uma fita são orientadas de maior (2,6 nm), com 11 bases por volta da hélice, e as bases
5ʹ-3ʹ, enquanto são orientadas de 3ʹ-5ʹ na fita complementar. são empilhadas com menor distância entre elas (0,25 nm). Um
Essa configuração resulta em pares de bases sendo empilhados exame criterioso dos modelos de preenchimento do espaço das
entre as duas cadeias perpendiculares ao eixo da molécula. Os conformações A e B do DNA revela a presença de um sulco
pares de bases são sempre específicos: adenina é sempre parea­ maior e um sulco menor. Esses sulcos (em particular, o sulco
da com timina, e guanina é sempre pareada com citosina. Essa menor) contêm moléculas de água que interagem favoravel-
especificidade resulta das capacidades das ligações de hidro- mente com os grupos amino e os cetogrupos das bases. Nesses
gênio das próprias bases. Adenina e timina formam duas liga- sulcos, as proteínas de ligação do DNA podem interagir com
ções de hidrogênio, e guanina e citosina formam três ligações sequências específicas do DNA, sem destruir o pareamento de
4   Capítulo 1

base da molécula. Em contrapartida às conformações A e B do um grande número de moléculas de proteínas, que estão envol-
DNA, o DNA Z é uma hélice voltada para a esquerda. Ele pos- vidas na manutenção da estrutura do cromossomo e na regula-
sui um sulco menor, mas não possui um sulco maior, e o sulco ção da expressão gênica. O DNA genômico contém sequências
menor é profundo o suficiente para atingir o eixo da hélice do tanto codificadoras quanto não codificadoras. Sequências não
DNA. A ocorrência natural e o potencial significado fisiológi- codificadoras contêm informação que não leva à síntese de uma
co do DNA Z nas células vivas têm sido objeto de muita es- molécula de RNA ativo ou proteínas. Isso não significa que o
peculação, mas têm obtido reconhecimento atualmente. Foram DNA não codificador não apresente qualquer função no geno-
descritas estruturas adicionais de DNA não B, e algumas delas ma. Ao contrário, foi sugerido que sequências de DNA não co-
podem contribuir para a base genética de doenças humanas. dificadoras atuam no empacotamento do DNA, na estrutura do
cromossomo, na organização da cromatina no interior do nú-
Sequências do Genoma Humano cleo e/ou na regulação da expressão gênica. Uma fração das se-
O genoma diploide de uma típica célula humana contém cerca quências não codificadoras representa sequências intervenien-
de 3 × 109 pares de bases de DNA, que são subdivididos em 23 tes que separam as regiões codificadoras dos genes estruturais.
pares de cromossomos (22 autossômicos e os cromossomos se- Entretanto, a maior parte do DNA não codificador é classificada
xuais X e Y). Por muitos anos foi sugerido que o conhecimento em várias famílias de DNA repetitivas cujas funções exatas não
do sequenciamento completo do genoma humano permitiria a foram inteiramente elucidadas. As sequências de DNA codifi-
investigação das causas genéticas e de suas contribuições para cadoras originam todos os RNAs transcritos da célula, incluin-
as doenças humanas. Entretanto, as técnicas iniciais de biologia do os mRNAs que codificam as proteínas. A organização dos
molecular e as abordagens para clonagem e sequenciamento genes estruturais transcritos consiste em regiões codificadoras
do DNA eram lentas e muito trabalhosas. Não obstante, em que são interrompidas por regiões de DNA não codificadoras
meados da década de 1970, surgiram métodos práticos para intervenientes. Assim, os transcritos primários de RNA contêm
sequenciamento do DNA e começaram a surgir numerosos sequências tanto codificadoras quanto não codificadoras, e as
relatos de sequências do DNA correspondendo a segmentos sequências não codificadoras devem ser removidas do transcrito
do genoma humano. Em meados da década de 1980, foi pro- de RNA primário durante o processamento para produzir uma
posto um projeto para o sequenciamento completo do genoma molécula de mRNA funcional adequada para tradução.
humano, que se iniciou nos últimos anos daquela década. O
desenvolvimento de métodos automatizados para o sequencia-
mento do DNA tornou possível as ambiciosas metas do Pro- Função do DNA
jeto Genoma Humano. Subsequentemente, surgiram mapas O DNA apresenta duas funções essências em relação à home-
genéticos e físicos detalhados do genoma humano, sequências ostase celular: (1) armazenamento de informação genética e (2)
expressas foram identificadas e caracterizadas, e foram cons- transmissão da informação genética. A molécula de DNA fun-
truídos os mapas de genes do genoma humano. Os esforços de ciona como um modelo para realizar cada uma dessas funções
vários consórcios utilizando diferentes abordagens para o se- gerais. Durante a divisão celular, o DNA funciona como um
quenciamento em larga escala do DNA humano e a montagem modelo para a replicação fiel da informação genética, que é, em
de sequências contig culminaram em 2001 com a publicação de última análise, passada para as células-filhas; do mesmo modo,
um projeto para o sequenciamento do genoma humano. Mui- a molécula de DNA serve como modelo para a restauração da
tos anos mais tarde, foi lançada uma sequência mais completa sequência normal de DNA durante os processos de reparo do
do genoma humano. Atualmente, acredita-se que o genoma DNA. Durante operações celulares normais, o DNA serve como
humano contenha cerca de 21.000 genes diferentes codificado- modelo para a transcrição do RNA. As moléculas transcritas de
res de proteínas. A análise das sequências do genoma humano RNA podem funcionar diretamente (como no caso dos RNAs
revelou considerável variabilidade entre indivíduos, incluindo ribossomais [rRNAs] e RNAs transportadores [tRNAs]), po-
em excesso de 1,1 a 1,4 milhão de polimorfismos de nucleo- dem funcionar após processamento (como no caso dos miR-
tídeo único (SNPs, de single-nucleotide polymorphisms) dis- NAs), ou podem funcionar como modelo para a síntese de pro-
tribuídos através do genoma. O refinamento da sequência do teínas celulares (como no caso dos mRNAs).
genoma humano, a identificação e a caracterização dos genes
contidos e a descrição das características do genoma (SNPs e Replicação de DNA
outras variações) continuam em ritmo acelerado (www.geno-
A descoberta da estrutura em fita dupla do DNA levou rapida-
me.gov). São imensas as implicações para o conhecimento do
mente à sugestão de que a replicação do DNA seria realizada
genoma humano, no contexto da compreensão do impacto dos
de uma maneira semiconservativa. Na replicação semiconser-
fatores genéticos nas doenças humanas.
vativa do DNA, cada fita da hélice de DNA serve de modelo
para a síntese da fita complementar. O resultado é a formação
Organização do Genoma Humano de duas cópias completas da molécula de DNA, cada uma con-
O DNA genômico humano é acondicionado em unidades estru- sistindo em uma fita da molécula de DNA parental e outra fita
turais distintas, que variam em tamanho e composição genética. recentemente sintetizada. A utilização de fitas de DNA como
A unidade estrutural do DNA é o cromossomo, que é um grande modelos para a síntese de fitas complementares de DNA garan-
segmento contínuo de DNA. Um cromossomo representa uma te a reprodução fiel do material genético para transmissão às
única molécula de DNA, geneticamente específica, à qual se liga células-filhas.
Doenças e o Genoma: Doenças Genéticas, Neoplásicas e do Desenvolvimento    5

Transcrição de RNA apurínicos ou apirimidínicos, após reações de despurinação ou


A informação necessária para a síntese de todos os componen- despirimidinação, conversões de nucleotídeos envolvendo re-
tes proteicos de uma célula, bem como de várias espécies de ações de desaminação, ou, em casos raros, podem resultar da
moléculas de RNA funcional, está contida na sequência linear presença de uma forma tautomérica de um nucleotídeo indivi-
de nucleotídeos do DNA. A transcrição é o processo pelo qual dual no DNA em duplicação. Reações de desaminação resultam
moléculas de RNA são sintetizadas com uma sequência com- na conversão da citosina em uracil, adenina em hipoxantina,
plementar à unidade de transcrição do DNA. Desse modo, o e guanina em xantina. Entretanto, a reação mais comum de
mRNA que codifica uma proteína específica é complementar à desaminação de nucleotídeos envolve citosinas metiladas, que
sequência de DNA daquele gene específico. Do mesmo modo, podem substituir a citosina na sequência linear de uma molé­
rRNAs, tRNAs e vários outros tipos de RNA são transcritos. Os cula de DNA, na forma de 5-metilcitosina. Os resíduos de
pontos corretos e de final da transcrição de um gene específico 5-metilcitosina estão sempre localizados ao lado de resíduos
são determinados pela sequência promotora acima da sequên- de guanina na mesma cadeia, um motivo denominado dinu-
cia codificadora do gene e por sinais de término abaixo dela. cleotídeo CpG. A desaminação da 5-metilcitosina resulta na
Vários outros elementos reguladores estão presentes no geno- formação de timina. Essa reação de desaminação específica é
ma humano associados às sequências transcritas. Alguns desses responsável por uma porcentagem de mutações espontâneas
elementos são potencializadores (enhancers) da transcrição, en- em doenças humanas. A interação do DNA com agentes físi-
quanto outros são responsáveis pela regulação negativa (repres- cos, como radiação ionizante, pode levar a quebras de uma
são) da expressão gênica em resposta a sinais fisiológicos espe- ou ambas as fitas como resultado do rompimento das ligações
cíficos. Em contrapartida à replicação do DNA, em que ambas fosfodiéster em uma ou ambas as fitas de polinucleotídeos da
as fitas da molécula servem como molde para a síntese de fitas molécula de DNA. Luz ultravioleta (UV) pode produzir dife-
complementares de DNA, na transcrição do RNA, apenas uma rentes formas de fotoprodutos, incluindo dímeros de pirimidina
fita do DNA serve como molde. Essa fita é denominada fita sen- entre bases de pirimidina adjacentes, na mesma fita de DNA.
se. A transcrição da fita sense produz, em última análise, uma Outras formas menores de dano no DNA, provocadas por luz
molécula de mRNA que codifica a sequência de aminoácidos UV, incluem quebras da fita e ligações cruzadas. Modificações
adequada para uma proteína específica. das bases dos nucleotídeos podem resultar da exposição do DNA
a vários agentes químicos, incluindo compostos N-nitrosos e hi-
Recombinação Genética drocarbonetos aromáticos policíclicos. Dano no DNA também
pode ser causado por substâncias químicas que se intercalam na
A recombinação genética representa um mecanismo para a ge- molécula de DNA e/ou fazem ligações cruzadas entre as fitas de
ração de diversidade genética pela troca de material genético DNA. Agentes alquilantes bifuncionais podem provocar ligações
entre duas sequências homólogas de nucleotídeos. Tal troca de cruzadas tanto intrafita quanto interfita na molécula de DNA.
material genético com frequência resulta em alterações da es-
trutura primária (sequência de nucleotídeos) de um gene e em
alteração da estrutura primária (sequência de aminoácidos) da Tipos de Mutação de DNA
proteína codificada. Em organismos com reprodução sexuada, Mutação é simplesmente definida como qualquer alteração
a recombinação é iniciada pela formação de uma junção en- permanente na molécula de DNA. As várias formas de dano,
tre sequências de nucleotídeos semelhantes transportadas no espontâneo e induzido, no DNA originam uma pletora de ti-
mesmo cromossomo a partir de dois pais diferentes. A junção pos diferentes de alterações moleculares na molécula de DNA,
é capaz de se mover ao longo da hélice de DNA pela migração levando a mutações estáveis. Esses vários tipos de mutações
dos ramos, resultando em uma troca das fitas de DNA (troca de incluem tanto alterações grosseiras do cromossomo quanto al-
cromátides-irmãs). terações mais sutis a sequências gênicas específicas em cromos-
somos de outro modo normais.
Dano do DNA e Mutagênese
Alterações Cromossômicas
Visão Geral dos Agentes Danificadores do DNA Alterações cromossômicas grosseiras incluem grandes deleções,
O DNA contido em cada uma das células do corpo humano é adições (refletindo amplificação de sequência de DNA), translo-
agredido diariamente por vários agentes endógenos e exógenos cações (recíprocas e não recíprocas) e outras formas de rearranjo
danificadores do DNA, e parte desse dano leva à mutação. O cromossômico. Todas essas formas de anormalidade cromossô-
dano no DNA pode resultar de alteração espontânea da molé- mica podem ser diferenciadas por análises-padrão do cariótipo
cula de DNA ou da interação de numerosos agentes químicos de cromossomos com bandas G e bandas R. Entretanto, as me-
e físicos com a molécula de DNA estrutural. Lesões espontâ- todologias de análise de cromossomos empregadas atualmente
neas podem ocorrer durante processos celulares normais, tais em geral dependem da hibridização fluorescente in situ (FISH,
como replicação do DNA, reparo do DNA ou rearranjo gênico, de fluorescence in situ hybridization) e de técnicas derivadas. A
ou por meio de alteração química da própria molécula de DNA técnica de FISH pode ser utilizada para questões relacionadas
como resultado de hidrólise, oxidação ou metilação. Na maio- a um único locus ou região gênica (para marcar para amplifi-
ria dos casos, as lesões no DNA criam combinações errôneas cação ou deleção) ou pode ser aplicada mais amplamente como
de nucleotídeos, que levam a mutações pontuais. Combinações um meio de análise do cariótipo. A cariotipagem espectral (SKY,
errôneas de nucleotídeos podem resultar da formação de sítios de spectral karyotyping) é um método em que sondas de FISH
6   Capítulo 1

marcam cromossomos individuais com uma coloração distinta, purina). Mutações pontuais de transversão incluem a troca de A
permitindo uma numeração rápida e direta dos cromossomos e por T, A por C, G por C, G por T, T por A, T por G, C por A e
a identificação dos rearranjos estruturais. C por G. as mutações nonsense diferem das mutações missense
A principal consequência da deleção cromossômica é a perda pelo fato de envolverem substituições de bases dos nucleotídeos
de genes específicos que estão localizados na região cromossô- que modificam um códon triplo, que normalmente codifica um
mica deletada, resultando em alterações no número de cópias aminoácido em um códon de parada da tradução. Isso resulta
dos genes afetados. Por exemplo, a deleção de certas classes de na interrupção prematura da tradução e na produção de uma
genes, incluindo genes supressores de tumores ou genes codifi- proteína truncada. Em alguns casos, a proteína truncada que re-
cadores de proteínas envolvidas no reparo do DNA, leva à pre- sulta de uma mutação missense não apresenta funcionalidade e
disposição das células afetadas à transformação neoplásica. Do é rapidamente degradada. Em outros casos, a proteína truncada
mesmo modo, a amplificação de regiões cromossômicas resulta pode reter alguma função ou pode ganhar nova funcionalidade
em um aumento no número de genes copiados, o que pode levar (como liberação dos mecanismos reguladores normais).
à mesma circunstância se a região afetada contiver genes para Pequenas deleções e inserções em geral originam mutações
proto-oncogenes dominantes ou outros mediadores positivos de de mudança de fase, pois a deleção ou a inserção de um único
progressão e proliferação do ciclo celular. O resultado direto da nucleotídeo (por exemplo) altera o quadro de leitura do gene no
translocação cromossômica é o movimento de algum segmento lado 3ʹ do sítio afetado. Isso resulta na síntese de um polipep-
de DNA de sua localização natural para uma nova localização tídeo que não se assemelha ao produto normal do gene. Além
no genoma, o que pode resultar na expressão alterada dos genes disso, pequenas inserções ou deleções podem resultar no térmi-
que estão contidos na região translocada. Se os pontos de que- no prematuro da tradução em função da presença de um códon
bra cromossômicos utilizados em uma translocação estiverem de parada na nova fase de leitura do gene que sofreu mutação.
localizados no interior de genes estruturais, então novos genes Deleções ou inserções que ocorrem envolvendo múltiplos de
híbridos podem ser gerados. Do mesmo modo, algum rearran- três nucleotídeos não resultarão em mutação de mudança de
jo cromossômico provoca a perda de genes estruturais devido fase, mas irão alterar o polipeptídeo resultante produzido pelo
à presença de um ponto de quebra no interior do próprio gene.
gene, o qual irá apresentar a perda de aminoácidos específicos
ou a presença de aminoácidos adicionais em sua estrutura pri-
Alterações das Sequências de Nucleotídeos
mária. Esses tipos de alteração também podem levar a uma per-
As formas mais comuns de mutação envolvem alterações de um da de função da proteína.
único nucleotídeo, pequenas deleções ou pequenas inserções
em sequências gênicas específicas. Ao contrário das alterações
cromossômicas, essas alterações moleculares no genoma po- Mutações Somáticas versus Mutações na
dem ser detectadas apenas pelo sequenciamento do DNA ou Linhagem Germinativa
por outras análises moleculares sensíveis que empregam pri- Todo o DNA celular está sujeito à mutação por mecanismos
mers de reação em cadeia da polimerase (PCR, de polymerase espontâneos ou em resposta a agentes mutagênicos. Quando
chain reaction) específicos de sequência. eventos mutacionais ou de dano ao DNA afetam o DNA de uma
Alterações de um único nucleotídeo que envolvam uma célula somática, as mutações resultantes são denominadas muta-
mudança na sequência codificadora normal do gene são deno- ções somáticas. As células somáticas representam as células que
minadas mutações pontuais. A consequência da maioria das compõem todos os tecidos no organismo, além da linhagem ger-
mutações pontuais é uma alteração na sequência de aminoá- minativa. As mutações somáticas foram associadas a diversos ti-
cidos da proteína modificada. Entretanto, algumas mutações pos de doenças, em particular aquelas que são caracterizadas por
pontuais são silenciosas e não afetam a estrutura do produto do proliferação clonal de células alteradas (como no caso do câncer).
gene. Mutações silenciosas (também conhecidas como mutações Algumas mutações somáticas ocorrem durante o desenvolvimen-
sinônimas) são possíveis porque a maioria dos aminoácidos é to, resultando em tipos específicos de anomalias do desenvolvi-
codificada por mais de um códon triplo. Elas representam um mento localizadas. As mutações somáticas não são herdáveis. Em
mecanismo para a introdução de variabilidade genética, mas não contrapartida, eventos mutacionais e dano ao DNA que afetem o
apresentam consequências funcionais. As mutações pontuais DNA das células da linhagem germinativa produzem mutações
restantes caem em duas classes: (1) mutações missense e (2) mu- que são denominadas mutações na linhagem germinativa. Essa
tações nonsense. As mutações missense envolvem substituições distinção é biológica e clinicamente significativa. As células da
de bases de nucleotídeos que alteram a tradução do códon triplo linhagem germinativa são responsáveis pela origem dos oócitos
afetado, mas frequentemente com uma alteração não conser- (na mulher) e espermatócitos (no homem). Portanto, a transmis-
vadora de aminoácidos. Elas costumam ser classificadas como são de uma mutação na linhagem germinativa introduz uma al-
transições com base na natureza do nucleotídeo trocado na se- teração na sequência de nucleotídeos no ovo fertilizado. Se esse
quência do DNA. Uma transição é a substituição de um nucleo- ovo produzir um organismo viável, a mutação será encontrada
tídeo por outro nucleotídeo do mesmo tipo químico (i.e., purina em cada célula do organismo. Mutações nas células germinativas
por purina ou pirimidina por pirimidina). Mutações pontuais são responsáveis por várias doenças genéticas, que podem se ma-
de transição incluem a troca de A por G, G por A, C por T e T nifestar como doenças sistêmicas ou específicas de um órgão (ór-
por C. Em contrapartida, uma transversão é a substituição de gão único ou multiórgãos). Além disso, a mutação na linhagem
um nucleotídeo de um tipo químico por um nucleotídeo de ou- germinativa é encontrada na linhagem germinativa do indivíduo
tro tipo químico (i.e., purina por pirimidina ou pirimidina por afetado, ou seja, sua prole também herdará a mutação.
Doenças e o Genoma: Doenças Genéticas, Neoplásicas e do Desenvolvimento    7

O EPIGENOMA HUMANO um mecanismo epigenético que contribui para a instabilidade


genética e para o silenciamento de genes específicos.
Conrad Waddington cunhou o termo epigenética em 1942 e o
definiu como “... as interações causais entre genes e seus produ- Ilhas CpG
tos, que fazem o fenótipo se expressar...”. Atualmente a epigené-
tica refere-se a alterações herdáveis nos padrões de expressão A metilação ocorre quase que exclusivamente em citosinas, no
gênica que se devem a mecanismos diferentes de alterações na interior de dinucleotídeos CpG, que são encontrados no geno-
sequência de nucleotídeos do DNA genômico. As alterações ma em cerca de 20% da sequência prevista. A maioria (> 70%)
epigenéticas diferem das alterações genéticas pelo fato de se- dos dinucleotídeos CpG é metilada. Entretanto, regiões de alta
rem mais frequentes, reversíveis e ocorrerem em regiões defini- densidade de CpG, chamadas de ilhas CpG, ocorrem nas regi-
das de genes específicos. A epigenética explica como o mesmo ões promotoras de vários genes, próximas a seu ponto de início
genótipo pode produzir diferentes fenótipos, como no caso de de transcrição e/ou em sequências adjacentes à região promo-
gêmeos monozigóticos. A informação epigenética é armazena- tora (como o éxon 1). Foi sugerido que até 50% de todos os ge-
da como modificações químicas nas (1) proteínas histonas que nes humanos podem conter uma ilha CpG promotora (Figura
acondicionam o genoma e nas (2) citosinas na sequência do 1-3). Essas ilhas CpG são convencionalmente definidas como
DNA. Essas alterações regulam a acessibilidade do DNA e in- ≥ 200 pares de bases com ≥ 50% G + C e ≥ 0,6 CpG observa-
fluenciam diretamente como o genoma é expresso ao longo das do/CpG esperado, embora uma definição mais rigorosa (≥ 200
diferentes etapas do desenvolvimento, nos diferentes tecidos e pares de bases com ≥ 60% G + C e ≥ 0,7 CpG observado/CpG
tipos celulares e nas diversas etapas de doenças. Muitas modi- esperado) tenha sido proposta. Alguns estudos sugeriram que
ficações epigenômicas afetam o DNA, o RNA e as proteínas, grandes ilhas CpG não são necessárias para a sensibilidade de
mas a metilação do DNA, as modificações de histonas, os fato- genes promotores ao silenciamento dependente de metilação.
res remodeladores da cromatina e os RNAs não codificadores Ao contrário, outras regiões de alta densidade de CpG podem
estão entre os mecanismos epigenéticos mais bem estudados. se comportar como ilhas CpG classicamente definidas. A maio-
Vários processos epigenômicos funcionam juntos para estabe- ria das ilhas CpG do promotor não é metilada em tecidos nor-
lecer e preservar os estados da cromatina aberto ou fechado, em mais, mas se torna metilada em várias condições patológicas.
um nível global ou sítio-específico, que determinam, em última Padrões distintos de metilação do DNA são encontrados nos
análise, se um gene é ativo ou inativo. genomas de células em diferentes condições fisiológicas e no
desenvolvimento. Durante a maioria dos estágios de desenvol-
vimento, o DNA é fortemente metilado. Entretanto, promotores
Metilação do DNA e outras regiões reguladoras de genes de manutenção (house-
A metilação do DNA é encarada como a marca registrada das -keeping genes) são em grande parte não metilados na maioria
modificações epigenéticas. Essa modificação química nas ba- dos tipos celulares, e genes com expressão específica por tecido
ses de citosinas fornece informação genética hereditária, que são não metilados apenas nos tipos celulares em que esses genes
é transmitida durante a replicação do DNA. A metilação do são transcricionalmente ativos.
DNA é encontrada em vários bacteriófagos, bactérias (sem
cromatina), fungos, plantas e mamíferos. Entretanto, ela não Enzimas DNA-Metiltransferase
é encontrada em organismos-modelo como Caenorhabditis Existem três enzimas DNA-metiltransferase (DNMT) ativas, as
elegans (vermes) e Saccharomyces cerevisiae (levedura da cer- quais catalisam a adição de grupos metil à citosina no interior
veja). A maioria desses organismos parece sobreviver quando de um dinucleotídeo CpG, incluindo a metiltransferase de ma-
a metilação de seu DNA genômico é drasticamente reduzida; nutenção DNMT1 e as metiltransferases de novo DNMT3a e
contudo, quando a metilação do DNA é completamente per- DNMT3b (Figura 1-4A). O DNA complementar (cDNA) da
dida em camundongos, ocorre a mortalidade embrionária du- DNMT1 humana foi clonado em 1992 e mapeado para o cro-
rante o desenvolvimento dos órgãos. A metilação do DNA é mossomo 19p13.2. O funcionamento da DNMT1 é coordenado

ESR1

MYB

CST6

Figura 1-3  Genes contendo ilhas CpG. As distribuições dos dinucleotídeos CpG proximais ao sítio de início da transcrição no promotor e
éxon 1 (seta preta) do receptor de estrogênio 1 (ESR1, de estrogen receptor 1), do oncogene viral da mieloblastose (MYB, de myeloblastosis) e da cistati-
na (CST6) são representadas esquematicamente (linhas verticais indicam a posição relativa de dinucleotídeos CpG individuais). Ilhas são encontradas
em todos os genes representativos. A ilha CpG é encontrada no éxon 1 do ESR1. Em MYB e CST6, a ilha CpG está localizada no promotor proximal e
éxon 1, abrangendo o sítio de início da transcrição.
8   Capítulo 1

NH2 NH2 CpG e os níveis de expressão gênica, e foram propostos múl-


CH3 tiplos mecanismos moleculares para a regulação da expressão
N DNA-metiltransferase N gênica mediada por metilação do DNA (Figura 1-5). Entre-
DNMT1 tanto, a relação entre metilação de CpG e estado de expressão
O
N DNMT3b
O
N gênica vale apenas para a metilação de CpG afetando os genes
DNMT3a
HOCH2 O HOCH2 O promotores e suas sequências proximais (tais como íntron 1), e
não a metilação que ocorre em porções transcritas da sequência
gênica. A metilação do DNA pode ocorrer em alguns fatores de
transcrição conhecidos ligados a sítios, que incluem um CpG
em sua sequência de reconhecimento, impedindo desse modo o
OH OH
maquinário de transcrição de se ligar ao sítio e inibindo a trans-
A 2′-desoxicitosina 5-metil-2′-desoxicitosina
crição gênica (Figura 1-5B). Adicionalmente, proteínas de liga-
ção de metil-CpG são recrutadas para alguns sítios de metilação
DNMT3b
DNMT3a
do DNA e podem formar um bloqueio impedindo que o com-
plexo de transcrição transcreva ao longo do promotor de um
Molde de DNA gene (Figura 1-5C). Proteínas de ligação de metil-CpG (MBD,
não metilado
de methyl-CpG-binding) foram identificadas ligadas a um úni-
DNMT1 co sítio de CpG ou a múltiplos sítios de CpG para reprimir a
Molde de DNA transcrição. Proteínas MBD incluem MBD1, MBD2, MBD3,
B hemimetilado MBD4, MeCP1 e MeCP2. Em alguns casos, essas proteínas se
ligam a sequências do promotor impedindo a capacidade do
FIGURA 1-4 Metilação do DNA. (A) Representação química da
estrutura da adição de um grupo metil por DNMTs, produzindo uma
5-metilcitosina. (B) Esquema da metilação do DNA (círculos amarelos)
em um gene promotor típico por metiltransferases de novo (DNMT3b e
DNMT3a) e uma metiltransferase (DNMT1) envolvida na replicação do
DNA. A Ilha CpG

com os processos de replicação do DNA em vários tipos de cé-


lulas. A DNMT1 não possui a capacidade de metilar de maneira
eficiente o DNA não metilado (metilação de novo) e preferen- B
cialmente metila o DNA hemimetilado (Figura 1-4B). Durante
a replicação, os sítios de CpG hemimetilados são produzidos
refletindo uma ausência de metilação na fita-filha recentemen-
te sintetizada quando o DNA parental foi metilado. A DNMT1
metila os sítios de CpG na fita-filha opostos dos CpGs metilados
na fita parental (Figura 1-4B). Em 1999, os genes para DNMT3a C
e DNMT3b foram descobertos e mapeados para os cromosso-
mos 2p23 e 20q22.3, respectivamente. A DNMT3a liga-se, de
modo relativamente não específico e preferencialmente a subs- X
tratos de DNA não metilados, em comparação a substratos de D
DNA hemimetilados (Figura 1-4B). A DNMT3a pode metilar
apenas os sítios de CpG em uma fita de DNA, deixando a fita FIGURA 1-5 Regulação epigenética dependente de metilação
complementar não metilada. A DNMT3b apresenta capacidade da expressão gênica. A distribuição de dinucleotídeos CpG proximal
ao sítio de início da transcrição (indicada pela seta curva) é representa-
de metilação de novo e é a fonte aceita de nova metilação nas
da esquematicamente (linhas verticais indicam a posição relativa dos
células de mamíferos (Figura 1-4B). A metilação de novo, pela dinucleotídeos CpG individuais) por genes teóricos com densidade de
ação da DNMT3b, estabelece uma metilação do DNA nas se- CpG no promotor variável. Os círculos amarelos correspondem a dinu-
quências-alvo que carece de metilação CpG. A DNMT3b, junto cleotídeos CpG metilados. Genes com ilhas CpG estão sujeitos a even-
com a DNMT1, trabalha para estabelecer e manter os padrões tos de metilação regionais e isolados. (A) A ausência de metilação de
de metilação do DNA em todo o genoma, em especial em se- ilhas CpG leva à ativação da transcrição pelo maquinário de transcrição
quências densamente metiladas ou repetitivas. Os mecanismos (representado como círculos verde, azul e roxo associados) e expressão
gênica subsequente. (B) Os eventos de metilação regionais e isolados
que governam a maioria desses processos ainda não são bem
nos sítios de ligação dos fatores de transcrição levam à inativação da
compreendidos. transcrição e subsequente ausência de expressão gênica. (C) A meti-
lação regional pode afetar a transcrição pelo recrutamento de proteí-
Regulação da Transcrição Mediada por Metilação nas de ligação de DNA metilado (círculos cor-de-rosa). (D) Do mesmo
modo, a metilação focal no interior de uma ilha CpG maior pode atrair
do DNA proteínas de ligação de DNA metilado (círculo cor-de-laranja), que po-
Há uma forte correlação inversa entre o estado de metilação das dem inibir a transcrição ao bloquear a progressão do maquinário de
ilhas CpG do promotor e/ou das regiões de alta densidade de transcrição para o sítio de início da transcrição.
Doenças e o Genoma: Doenças Genéticas, Neoplásicas e do Desenvolvimento    9

maquinário de transcrição de reconhecer e se ligar à sequên- Proteínas Histonas e Modificações


cia promotora (Figura 1-5C). Em outros casos, os complexos de
transcrição se formam, mas são impedidos de se movimentar
de Histonas
ao longo da sequência gênica para uma região distinta do pro- O DNA genômico de eucariotos é acondicionado em cromati-
motor pelas proteínas MBD (Figura 1-5D). na, no interior do núcleo da célula, por sua interação com pro-
teínas histonas. A partícula central do nucleossomo é a unidade
básica de cromatina e consiste em 147 pares de bases de DNA
Imprinting Genômico
enrolados em torno de um octâmero de 4 histonas centrais, que
Características determinadas pelos pais em geral são o resulta- incluem H3, H4, H2A e H2B. As propriedades das histonas
do de imprinting genético, que é definido como a modificação podem ser alteradas por mais de 100 modificações diferentes
epigenética restrita de domínios cromossômicos específicos pós-tradução de suas caudas N-terminais, que são ricas nos
associados à origem parental do alelo (i.e., alelos maternos ou aminoácidos básicos arginina e lisina. Embora muitas dessas
paternos estão presentes, mas não são igualmente expressos). modificações sejam pouco conhecidas, em anos recentes hou-
Pequenos subconjuntos de genes são modificados epigene- ve considerável progresso no entendimento da acetilação e da
ticamente desse modo. Esses genes são denominados genes metilação da lisina. Muitos registros na literatura apoiam um
imprinted e são caracterizados por marcas de metilação do importante papel para essas caudas de histona na regulação da
DNA diferenciais em elementos de sequências especializados organização da cromatina e na transcrição gênica.
chamados de regiões de controle de imprinting (ICRs, de im-
printing control regions). Esses padrões de metilação ocorrem
em uma ou outra das linhagens germinativas parentais, em que O Código de Histonas
indivíduos masculinos e femininos apresentam estados de me- As caudas N-terminais dos aminoácidos de várias proteínas
tilação opostos (metilados ou não metilados) nas ICRs de suas histonas estão sujeitas a várias modificações diferentes que re-
respectivas linhagens germinativas. Esse processo depende de fletem a adição de marcas de metilação, acetilação, fosforilação
reprogramação epigenética, apagando o padrão de metilação e ubiquitinação a resíduos de aminoácidos individuais (Figura
preexistente e estabelecendo um novo padrão de metilação de 1-6), todas tendo sido associadas à variação na atividade gênica.
acordo com o sexo do indivíduo. Uma vez estabelecidos, esses A totalidade dessas modificações levou à hipótese de que um
padrões de linhagens germinativas são então passados para a código de histonas regula a estrutura de cromatina e o acon-
próxima geração para regular o estado de expressão de genes dicionamento do DNA, contribuindo diretamente para a regu-
imprinted, que são essenciais para o desenvolvimento embrio- lação da expressão gênica. Esse código exerce seu controle na
nário adequado. O primeiro gene imprinted (IGF2) foi identi- regulação gênica por combinações de modificações de histonas
ficado em 1991 e, atualmente, mais de 100 genes imprinted já que determinam o recrutamento de proteínas específicas que
foram identificados. Genes associados a doenças importantes produzem respostas biológicas. Compreender como as modi-
que são sujeitos a imprinting genético incluem IGF2 (alelo ficações de histonas regulam a expressão gênica e a transcrição
paterno expresso), WT1 (alelo materno expresso), INS (alelo será fundamental na elucidação do controle da transcrição do
paterno expresso), SNRPN (alelo paterno expresso) e IGF2R desenvolvimento e da função celular e de como a interrupção
(alelo materno expresso). desses processos pode levar à doença.

P A A A A A P
M Ub
M

S1 K5 K9 K13 K15 K36 K99 H2A K119 T120

M Ub
Ub
A A P A A A P P
M M

K5 K12 K14 K15 K20 K27 K28 K32 K36 H2B K120

A A M M A
A
P P P A A A P
M M M M M M M
K56
R2 T3 K4 R8 K9 S10 S11 K14 R17 K18 K23 K27 K28 K36 H3
M

K79
M
A
A A A A A P
M M

S1 R3 K5 K8 K12 K16 K18 K20 H4

FIGURA 1-6 O código de histonas. Esse esquema representa as principais modificações de histonas incluindo fosforilação (P), acetilação (A),
metilação (M) e ubiquitinação (Ub) das 4 histonas centrais (H2A, H2B, H3, H4) em células normais. A maioria das modificações conhecidas de histonas
ocorre nas caudas N-terminais de histonas (mostradas à esquerda dos grandes círculos coloridos) com poucas exceções.
10   Capítulo 1

Metilação de Histonas Ser1, na histidina 18 (His18) e na His75; na histona H2B na


A metilação de histonas ocorre nos resíduos dos aminoácidos Ser32 e na Ser36, e na histona H2A na Ser1 e na Ser119. Um dos
tanto lisina (Lys) quanto arginina (Arg) (Figura 1-6). Enquanto sítios de fosforilação mais extensamente estudados é a H3Ser10,
os resíduos de arginina podem receber dois grupos metil, na que é o alvo das quinases MSK1/2 e RSK2. A fosforilação das
configuração cis ou trans, os resíduos de lisina podem ser mono, histonas não é tão bem estudada quanto a metilação ou a ace-
di ou trimetilados. Sítios de metilação altamente conservados tilação, pois vias de sinalização distintas precisam ser ativadas
são encontrados na histona H3, na lisina 4 (Lys4), na Lys9, na para se observar esses eventos.
Lys27, na Lys36 e na Lys79, bem como na histona H4, na Lys20.
A metilação de histonas apresenta diferentes efeitos na transcri- Regulação Pós-Transcricional da
ção gênica, dependendo de que resíduo de aminoácido é mo-
dificado. A metilação da H3 na Lys4 (H3K4) e da H3 na Lys36 Expressão Gênica
(H3K36) está associada à transcrição gênica ativa. Entretanto, RNAs não codificadores fornecem outro nível de controle epi-
a metilação da H3 na Lys9 (H3K9), da H3 na Lys27 (H3K27) genético, uma vez que eles podem estabelecer outras marcas
ou da H4 na Lys20 (H4K20) em geral é associada à transcrição epigenéticas e controlam a expressão gênica. Os miRNAs são
inativa. As lisinas metiltransferases apresentam enorme espe- pequenos RNAs não codificadores (19 a 25 nucleotídeos de com-
cificidade e geralmente modificam uma única lisina em uma primento) que regulam a expressão gênica pós-transcrição por
histona individual. A marca de ativação gênica mais bem es- meio de sequências específicas que têm como alvo os mRNAs,
tudada é a H3K4, que pode ser metilada pelo complexo MLL produzindo repressão da tradução ou degradação do mRNA-
de metiltransferases consistindo em MLL1 a MLL5. Quando -alvo. Os miRNAs são expressos de modo tecido-específico e
presente, essa marca está localizada na terminação 5ʹ de genes foram associados à regulação de vários processos biológicos,
ativos e é encontrada associada ao maquinário de transcrição incluindo proliferação celular, apoptose e desenvolvimento.
(RNA-polimerase II). A metilação de H3K9 pode ser produzida Muitas espécies de miRNA são codificadas por genes que estão
por várias metiltransferases, incluindo SUV39H, G9a, SETDB1, contidos no interior de sequências intrônicas de genes estru-
GLP e RIZ1. A metilação de H3K9 produz a heterocromatina turais que codificam proteínas. O miRNA funcional (maduro)
silenciosa, o que envolve o recrutamento de HP1 para o pro- é liberado das sequências intrônicas do gene estrutural pelo
motor de genes reprimidos para estabilizar adicionalmente a processo de processamento do RNA, secundário aos eventos
repressão gênica. de splicing específicos. Desse modo, a regulação da expressão
dessa classe de gene miRNA é coordenada com a regulação
(positiva e negativa) do gene estrutural, que contém a sequên-
Acetilação de Histonas cia pré-miRNA. Processamento adicional dos pré-miRNAs é
A acetilação de histonas ocorre em resíduos do aminoácido lisi- necessário para a geração de um miRNA funcional, que pode
na (Figura 1-6). Os sítios de acetilação são encontrados na his- ter como alvo uma sequência específica de mRNA. Esses even-
tona H3, na Lys9, na Lys14, na Lys18, na Lys23 e na Lys27, bem tos de processamento em geral refletem a clivagem da nuclease
como na histona H4, na Lys5, na Lys8 e na Lys16. Essas marcas por várias enzimas, incluindo Dicer e Drosha. Estudos recentes
de acetilação estão associadas à ativação da transcrição. As ace- identificaram os miRNAs como reguladores da expressão de
tiltransferases são divididas em três famílias principais, GNAT, DNMT e alvos de metilação aberrante de DNA em vários tipos
MYST e CBP/p300. As enzimas que compõem essas famílias de tecidos. Essas observações sugerem que interações diretas e
podem modificar mais de uma lisina; por exemplo, CBP/p300 ligações cruzadas entre o maquinário da metilação de DNA e os
modifica H3K14, H3K18, H4K5 e H4K8. A repressão da ativi- miRNAs ocorrem na regulação da expressão gênica.
dade de transcrição ocorre com a remoção das marcas de ace-
tilação das histonas H3 e H4 pelas enzimas desacetilase de his-
tona (HDAC, de histone deacetylase), e os inibidores de HDAC
(HDACis, de HDAC inhibitors) podem inibir esse processo. O
DOENÇAS GENÉTICAS
efeito da acetilação em termos de abertura ou fechamento da Principais Formas de Doenças
cromatina levando à ativação/inativação de genes reflete a neu-
tralização da interação de cargas entre o esqueleto de DNA e as
Genéticas
caudas de histonas. As doenças genéticas podem ser classificadas em três grupos
principais: (1) distúrbios cromossômicos, (2) distúrbios mono-
gênicos e (3) distúrbios poligênicos. Os distúrbios cromossômi-
Fosforilação de Histonas cos são o resultado da perda, do ganho ou do rearranjo anormal
A fosforilação de histonas ocorre nos resíduos dos aminoácidos de um ou mais cromossomos, resultando em deficiências do
serina, treonina, histidina e tirosina (Figura 1-6). Ela está asso- material genético ou em material genético excessivo. Os distúr-
ciada a vários processos celulares, incluindo regulação da trans- bios monogênicos são o resultado de um único gene mutante e
crição, apoptose, progressão do ciclo celular, reparo do DNA, apresentam padrões típicos de herança mendeliana (autossômi-
regulação dos genes de desenvolvimento e condensação da cro- co dominante, autossômico recessivo e ligado ao X). Os distúr-
matina. Os sítios de fosforilação são encontrados na histona H3, bios poligênicos ou multifatoriais resultam de múltiplos fatores
na treonina 3 (Thr3), na Thr10, na Thr11 e na Thr45, na serina genéticos e/ou epigenéticos que não se encaixam nos padrões
10 (Ser10), na Ser28 e na tirosina 41 (Tyr41); na histona H4 na típicos de herança mendeliana.
Doenças e o Genoma: Doenças Genéticas, Neoplásicas e do Desenvolvimento    11

Distúrbios de um Único Gene ou no óvulo antes da fertilização. Desse modo, o filho afetado
carrega o gene mutante em sua linhagem germinativa e pode
Distúrbios de único gene envolvem a mutação de um gene que
passar a mutação para sua prole. Os irmãos de indivíduos com
é responsável pelo fenótipo observado no indivíduo afetado.
mutações fundadoras não são afetados e não apresentam um
Esses distúrbios em geral acompanham um dos três padrões
risco maior de desenvolvimento da doença.
de herança: (1) autossômico dominante, (2) autossômico re-
A expressão da doença refletida nas características clínicas
cessivo ou (3) ligado ao X. A frequência de distúrbios mono-
entre indivíduos afetados por distúrbios autossômicos domi-
gênicos entre a população geral é de cerca de 10 em 1.000 nas-
nantes pode variar em função da penetrância reduzida e da
cidos vivos.
expressividade variável. Do mesmo modo, a idade do início
da doença pode variar, indo da primeira infância à fase adulta
Distúrbios Autossômicos Dominantes tardia. Alguns indivíduos que herdam um gene mutante serão
Distúrbios autossômicos dominantes são aqueles em que a pre- fenotipicamente normais (sem evidência da doença). Isso refle-
sença de uma única cópia de um gene mutante (alelo) resulta em te uma penetrância incompleta da doença associada à mutação.
doença. Desse modo, tanto indivíduos homozigotos quanto he- A penetrância é uma medida de quão frequentemente os pa-
terozigotos expressam o fenótipo da doença, homens e mulhe- cientes com um alelo mutante expressam a doença associada
res são igualmente afetados, e qualquer indivíduo afetado pode à mutação. Dessa forma, uma mutação que apresente 100% de
transmitir a condição para seus descendentes. Na maioria dos penetrância irá produzir doença em todo indivíduo portador
casos, os indivíduos afetados por um desses distúrbios apresen- da mutação. Em contrapartida, uma mutação que apresente
tam pelo menos um dos pais que também é afetado. O padrão 50% de penetrância irá produzir doença em apenas 50% dos
autossômico dominante de herança é caracterizado pela trans- portadores da mutação. A expressividade variável refere-se à
missão vertical da doença de uma geração para outra, expres- observação de que, em um grupo de indivíduos com uma do-
são igual entre homens e mulheres, ausência de filhos afetados ença associada à mutação, a manifestação da doença pode ser
a partir de pais não afetados, chance de 50% de filhos afetados a diferente (diferenças na gravidade, no fenótipo da doença).
partir de pais afetados, e a maioria dos indivíduos afetados Os mecanismos responsáveis pela penetrância reduzida e pela
apresenta um dos pais afetado (Figura 1-7A). Indivíduos com expressividade variável não são bem conhecidos. Entretanto,
distúrbio autossômico dominante, mas sem um dos pais afeta- acredita-se que os efeitos de outros genes ou fatores ambien-
do, em geral apresentam uma mutação fundadora no gene da tais possam influenciar a expressão das mutações causadoras
doença. Mutações fundadoras não são encontradas nas linha- de doenças. Diferenças na idade de início da doença refletem
gens germinativas dos pais, mas ocorrem no espermatozoide a observação de que algumas doenças associadas a mutações
se desenvolvem no início da vida e outras se desenvolvem em
adultos ou mais tarde na vida. Esse fenômeno provavelmente
está relacionado ao contexto fisiológico e de desenvolvimento
em que os genes causadores de doença se expressam.
Distúrbios autossômicos dominantes afetam vários sis-
temas, incluindo o sistema nervoso (doença de Huntington,
neurofibromatose, distrofia miotônica, esclerose tuberosa), o
A sistema urinário (doença do rim policístico), o sistema gastrin-
testinal (polipose colônica familiar), o sistema hematopoiético
(doença de von Willebrand) e o sistema esquelético (síndrome
de Marfan, osteogênese imperfeita, acondroplasia e outras).
Além disso, alguns distúrbios autossômicos dominantes repre-
sentam doenças metabólicas (tais como hipercolesterolemia fa-
miliar). Essa lista de exemplos procura ser representativa, mas
não completa.

B Distúrbios Autossômicos Recessivos


Distúrbios autossômicos recessivos são aqueles em que duas
FIGURA 1-7 Padrões de herança associados a distúrbios mono-
gênicos autossômicos dominantes e autossômicos recessivos. (A) cópias do gene mutante são necessárias para a expressão do fe-
Heredograma representando o padrão de herança autossômico domi- nótipo da doença. Desse modo, indivíduos heterozigotos são
nante de uma doença genética. Este é o padrão associado a doenças indistinguíveis de indivíduos portadores de duas cópias nor-
como doença de Huntington, neurofibromatose, distrofia miotônica, mais do gene associado à doença. Entretanto, deve ser obser-
hipercolesterolemia familiar e várias outras. Círculo, mulher; quadrado, vado que, em alguns indivíduos heterozigotos, há alterações
homem; aberto, não afetado; sólido, afetado. (B) Heredograma apre- sutis em vários parâmetros bioquímicos, que não são facilmen-
sentando o padrão de herança autossômico recessivo de uma doença
genética. Este é o padrão associado a doenças como fibrose cística, do-
te detectáveis, pois não provocam sintomas discerníveis. Esses
ença de Tay-Sachs, anemia falciforme e vários distúrbios metabólicos. indivíduos heterozigotos (que carregam um gene normal e um
Círculo, mulher; quadrado, homem; aberto, não afetado; sólido, afeta- gene mutante) são denominados portadores. A prole de dois
do; parcialmente preenchido, portador. portadores do mesmo gene mutante terá uma chance de 25%
12   Capítulo 1

de desenvolver a doença (devido à herança homozigótica do Distúrbios Mitocondriais


gene mutante) e uma chance de 50% de se tornar portadora A mitocôndria humana (e de outros mamíferos) contém sua
(devido à herança heterozigótica do gene mutante). Em con- própria molécula de DNA de cerca de 17 kb, que apresenta
traste com os distúrbios autossômicos dominantes, os distúr- vários genes que codificam proteínas associadas à função mi-
bios autossômicos recessivos apresentam uma expressão mais tocondrial e especificamente ao metabolismo energético (co-
uniforme do defeito, a penetrância completa é comum, e o iní- dificando algumas das proteínas dos complexos enzimáticos
cio da doença em geral ocorre precocemente na vida. Dessa da cadeia transportadora de elétrons e a enzima ATP-sintase
maneira, o padrão de herança autossômico recessivo é carac- mitocondrial). Cada mitocôndria pode conter várias cópias
terizado por penetrância horizontal, indivíduos homozigóticos do cromossomo mitocondrial, e cada célula contém um gran-
afetados apresentando pais heterozigóticos não afetados, e pais de número (talvez centenas) de mitocôndrias. Mutações em
heterozigóticos (mãe e pai) com uma chance de 25% de ter um genes codificados pelo DNA mitocondrial estão associadas a
filho afetado (Figura 1-7B). várias doenças. Entretanto, a expressão de um estado doen-
Os distúrbios autossômicos recessivos incluem a maioria te necessita do acúmulo de números suficientes de cópias do
dos erros inatos do metabolismo. Distúrbios metabólicos autos- DNA mitocondrial mutante (por deriva aleatória e segregação
sômicos recessivos incluem fibrose cística, fenilcetonúria, ga-
citoplasmática) para resultar em disfunção mitocondrial no
lactosemia, homocistinúria, várias doenças de armazenamento
nível celular. A herança de distúrbios associados à mitocôn-
em lisossomos, deficiência de α1-antitripsina (várias formas),
dria é estritamente materna. Portanto, mulheres transmitem
doença de Wilson, hemocromatose e doenças de armazena-
características determinadas pelas mitocôndrias a todos os
mento de glicogênio. Outros distúrbios autossômicos recessivos
seus filhos. Em casos raros, mães afetadas terão uma criança
afetam sistemas específicos, incluindo o sistema hematopoiéti-
não afetada. Esse fenômeno provavelmente reflete segregação
co (anemia falciforme, talassemias), o sistema endócrino (hi-
citoplasmática de mitocôndrias mutantes no tecido formador
perplasia suprarrenal congênita), o sistema esquelético (alcap-
de gametas.
tonúria) e o sistema nervoso (atrofias musculares neurogênicas,
Distúrbios mitocondriais incluem epilepsia mioclônica e
atrofia muscular espinal, ataxia de Friedreich). Essa lista de
doença de fibras vermelhas rotas, neuropatia óptica hereditária
exemplos procura ser representativa, mas não completa.
de Leber, fraqueza muscular neurogênica/ataxia/retinite pig-
mentosa, síndrome de Kearns-Sayre, síndrome hereditária ma-
Distúrbios Ligados ao X terna de Leigh, oftalmoplegia progressiva e várias outras doen-
Genes responsáveis por distúrbios ligados ao X são transpor- ças. Essa lista de exemplos procura ser representativa, mas não
tados pelo cromossomo X. O risco de desenvolvimento desses completa. É notável que muitas dessas doenças mitocondriais
distúrbios e sua gravidade variam entre homens e mulheres em se manifestem como defeitos musculares, refletindo o grande
função do fato de os homens apresentarem um cromossomo X consumo energético dos tecidos musculares e o fato de que a
e as mulheres dois. Desse modo, as mulheres podem ser hete- maioria dessas doenças mitocondriais se caracteriza por com-
rozigóticas ou homozigóticas para um gene mutante ligado ao prometimento do metabolismo energético.
X, e a característica associada pode se expressar de modo do-
minante ou recessivo. Em contrapartida, os homens expressam
o gene mutante ligado ao X sempre que ele for herdado. Não há Doenças Poligênicas
transmissão de homem para homem de distúrbios ligados ao X, Doenças poligênicas ou multifatoriais resultam de múlti-
e todas as filhas de homens afetados herdam o gene mutante da plos fatores genéticos e/ou epigenéticos (mutações ou even-
doença. Distúrbios recessivos ligados ao X afetam principalmen- tos de silenciamento gênico) e não se encaixam nos padrões
te homens. No caso de distúrbios dominantes ligados ao X, todas mendelianos tradicionais de herança. Desse modo, elas re-
as filhas de homens afetados também são afetadas. A inativação presentam patologias em que um único gene ou evento mu-
do X resulta na expressão de genes ligados ao X de apenas um tacional não irá diagnosticar definitivamente ou ser capaz de
cromossomo X. Assim, a expressão de um distúrbio ligado ao X prever o risco. Distúrbios poligênicos incluem doenças crô-
em uma mulher dependerá da presença do gene mutante, bem nicas da fase adulta, malformações congênitas e síndromes
como de sua localização em um cromossomo X ativo. dismórficas. Em alguns casos, amplas classes de doenças re-
A herança recessiva ligada ao X é responsável por um pe- fletem patogênese molecular poligênica; por exemplo, câncer
queno número de condições clínicas bem definidas. Alguns (em quase todos os casos) é um distúrbio de genes múltiplos.
desses distúrbios ligados ao X afetam sistemas de órgãos especí- Outros exemplos de doenças poligênicas incluem hipertensão,
ficos, incluindo o sistema musculoesquelético (distrofia muscu- doença cardíaca isquêmica, doença de Alzheimer e diabetes
lar de Duchenne), o sangue (hemofilia A, hemofilia B, doença melito. Em todos esses casos, a manifestação da doença está
granulomatosa crônica, deficiência de glicose-6-fosfato-desi- associada a interações de vários genes alterados e fatores am-
drogenase), o sistema imune (agamaglobulinemia) ou o sistema bientais. Dada a complexidade dessas doenças (e famílias de
nervoso (síndrome do X frágil). Além disso, alguns distúrbios doenças), não há uma compreensão das complexidades ge-
metabólicos são doenças ligadas ao X, incluindo a síndrome de néticas da maioria das doenças poligênicas, e a elucidação da
Lesch-Nyhan e o diabetes insípido. Essa lista de exemplos pro- patogênese molecular de distúrbios multifatoriais permanece
cura ser representativa, mas não completa. pouco conhecida.
Doenças e o Genoma: Doenças Genéticas, Neoplásicas e do Desenvolvimento    13

Distúrbios Citogenéticos refletindo talvez o fato de que o desequilíbrio de cromossomos


sexuais (excesso ou perda) é mais bem tolerado do que desequi-
Distúrbios citogenéticos são doenças que estão associadas a
líbrios envolvendo os autossomos. A síndrome de Klinefelter e
alterações cromossômicas. Em alguns casos, essas doenças são
a síndrome de Turner representam dois distúrbios citogenéticos
caracterizadas por anomalias do cariótipo envolvendo núme-
comuns envolvendo cromossomos sexuais.
ros anormais de cromossomos (perdas ou ganhos), enquanto,
A síndrome de Klinefelter é caracterizada pela presença
em outros, elas estão associadas ao rearranjo anormal de um ou
de dois ou mais cromossomos X e um ou mais cromossomos
mais cromossomos. Independente da manifestação molecular
Y. Todos os indivíduos afetados são homens, e a condição
da anomalia cromossômica, todos esses distúrbios resultam em
manifesta-se como hipogonadismo. A maioria (> 80%) dos
deficiências de material genético ou em material genético ex-
indivíduos com essa síndrome está associada a um cariótipo
cessivo. O complemento cromossômico normal de uma mulher
47XXY. Anomalias associadas a esse distúrbio estão relaciona-
é 46XX (referindo-se a 22 pares de autossomos e os cromosso-
das à presença de um cromossomo X extra, e a origem desse
mos sexuais XX), e o complemento cromossômico normal de
cromossomo (materna versus paterna) não afeta a natureza do
um homem é 46XY (referindo-se a 22 pares de autossomos e
distúrbio. Essa condição ocorre em 1 em 500 homens nascidos
os cromossomos sexuais XY). A monossomia envolvendo um
vivos. A síndrome de Klinefelter raramente é diagnosticada an-
autossomo normalmente é fatal na fase embrionária, refletindo
tes da puberdade. Indivíduos afetados podem apresentar um
a perda de muitas informações genéticas para a viabilidade do
QI abaixo do normal, mas deficiên­cia intelectual é rara. Esper-
feto em desenvolvimento. Entretanto, algumas anomalias nu-
matogênese reduzida e infertilidade masculina são comuns en-
méricas, envolvendo a trissomia de autossomos, permitem um
tre homens com essa síndrome.
nascimento vivo. No entanto, com raras exceções (síndrome de
A síndrome de Turner é caracterizada pela monossomia do
Down), essas trissomias autossômicas levam a recém-nascidos
cromossomo X. Todos os indivíduos afetados são mulheres, e a
gravemente incapacitados, que morrem em uma idade precoce.
condição manifesta-se como hipogonadismo. A maioria (> 55%)
Em contraste, vários distúrbios cromossômicos afetando o nú-
dos indivíduos com essa síndrome está associada a um carióti-
mero de cromossomos sexuais foram caracterizados.
po 45X. Outros com síndrome de Turner apresentam anomalias
estruturais do cromossomo X. Essa condição ocorre em 1 em
Distúrbios Citogenéticos Envolvendo Autossomos 2.000 mulheres nascidas vivas. A apresentação das anomalias na
A síndrome de Down é o distúrbio cromossômico autossômico síndrome de Turner pode estar associada ao grau de mosaicismo
mais comum e é caracterizada pela trissomia do cromossomo 21. no indivíduo, mas os pacientes mais gravemente afetados apre-
Esse distúrbio ocorre com uma incidência de 1 em 700 nascidos sentam os sintomas na primeira infância. Indivíduos com essa
vivos nos Estados Unidos e é uma causa importante de deficiên­ síndrome comumente apresentam doença cardíaca congênita e
cia intelectual. Esses indivíduos apresentam uma contagem cro- não desenvolvem características sexuais secundárias.
mossômica de 47 (refletindo 44 autossomos e 2 cromossomos
sexuais, mais a cópia extra do cromossomo 21). Essa cópia extra
em indivíduos com síndrome de Down se origina de uma não
Mecanismos Epigenéticos em Doenças
disjunção na meiose. Os pais de crianças com síndrome de Down Familiares
possuem cariótipo e fenótipo normais. Embora a causa efetiva As modificações epigenéticas do DNA e das histonas desem-
da não disjunção meiótica que resulta na trissomia do 21 não penham papéis críticos na patogênese molecular de doenças
seja conhecida, há muito tempo tem sido sugerido que a idade familiares complexas. Os fatores epigenéticos apresentam plas-
materna desempenha um papel importante nessa doença – a ticidade e reagem a sinais dos meios interno e externo. Por
maioria dos bebês com síndrome de Down nasce de mães mais definição, a epigenética refere-se à regulação hereditária das
velhas. A frequência dessa síndrome entre mães com menos de 20 funções genômicas, que podem ser potencialmente reversíveis,
anos é de 1 em 1.550 nascidos vivos, comparada à frequência de 1 o que inclui a metilação do DNA (metilação das citosinas) e a
em 25 nascidos vivos para mulheres acima de 45 anos. Indivíduos modificação de histonas (tais como a acetilação, a metilação ou
com síndrome de Down são afetados por deficiên­cia intelectual a fosforilação das histonas). A regulação epigenética normal ou
de gravidade variável. Além disso, esses indivíduos podem apre- errônea representa mecanismos moleculares unificadores cen-
sentar doença cardíaca congênita, possuem risco de desenvolver trais de características e doenças complexas, não mendelianas.
leucemias agudas, e a maioria apresenta comprometimento do Portanto, genes com regulação epigenética normal (ou errônea)
sistema imune, o que os coloca em risco de infecções graves. Pro- que não carregam mutações ou polimorfismos predisponentes
blemas cardíacos congênitos são responsáveis pela maioria das podem apresentar consequências prejudiciais se não expressos
mortes em portadores da síndrome de Down na primeira infân- na quantidade correta, no momento certo do ciclo celular ou na
cia e no início da infância. Portadores mais velhos dessa síndrome localização correta no interior da célula. Evidências crescentes
desenvolvem sintomas neurodegenerativos e alterações neuropa- indicam que as células podem operar normalmente apenas se a
tológicas características da doença de Alzheimer. sequência de DNA e os componentes epigenéticos do genoma
celular funcionarem adequadamente. O papel da epigenética foi
Distúrbios Citogenéticos Envolvendo investigado em várias síndromes pediátricas raras, como sín-
Cromossomos Sexuais drome de Prader-Willi, síndrome de Angelman, síndrome de
As doenças genéticas associadas a cromossomos sexuais altera- Beckwith-Wiedemann e síndrome de Rett, bem como doença
dos são mais comuns do que aquelas que envolvem autossomos, de Alzheimer, doença de Parkinson e síndrome do X frágil.
14   Capítulo 1

A doença de Alzheimer é o distúrbio neurodegenerativo de- representam defeitos estruturais que estão presentes no nasci-
pendente de idade mais comum e está ligada à história familiar. mento, embora algumas só se apresentem mais tarde no desen-
As vias patológicas dessa doença incluem o processamento aber- volvimento. Por exemplo, anomalias cardíacas e renais podem
rante da proteína precursora amiloide (APP, de amyloid precursor não se apresentar por vários anos após o nascimento.
protein), o precursor Aβ e a hiperfosforilação de Tau. O gene APP
é constitutivamente metilado em condições normais e se torna Formas Principais de Doenças do
hipometilado com a idade. A doença de Alzheimer foi mais re-
centemente associada a perfis modificados de acetilação de histo-
Desenvolvimento
nas, bem como a níveis elevados da histona H3 fosforilada. Por- As doenças do desenvolvimento refletem principalmente erros
tanto, parece provável que mecanismos epigenéticos sejam um na morfogênese. Essas doenças incluem (1) malformações, (2)
marcador da doença e disparem cascatas de sinalização ligadas a disrupções e (3) deformações. Além disso, anomalias secundá-
vários mecanismos patológicos na doença de Alzheimer. rias podem resultar de manifestações primárias de doenças do
A doença de Parkinson afeta 1 a 2% da população com idade desenvolvimento. Algumas delas são anomalias de sequência e
acima de 65 anos e 4% com idade superior a 85 anos. Uma his- outras são consideradas síndromes de malformação.
tória familiar dessa doença ocorre em cerca de 20% dos casos, Malformações são a manifestação de anomalias intrínsecas
e estudos de famílias com doença de Parkinson identificaram de processos de desenvolvimento. Portanto, elas representam
15 loci (PARK1-15) ligados à doença. Há alguma evidência de erros primários de morfogênese. As malformações normal-
que 5 desses genes (α-sinucleína, parkin, PTEN, DJ-1 e quinase mente são o resultado de múltiplos fatores em vez de um defeito
2 rica em repetições de leucina) provocam doença de Parkinson em um único gene ou anomalia cromossômica isolada. Em al-
típica, e mutações no ATP13A2 provocam uma forma autos- guns casos, elas estão restritas a um único órgão de um sistema
sômica recessiva dessa doença (doença de Kufor-Rakeb). Dois (como o coração), e, em outros, vários sistemas de órgãos po-
desses genes (α-sinucleína e quinase 2 rica em repetições de leu- dem estar envolvidos. Além disso, as malformações variam em
cina) provocam formas autossômicas da doença de Parkinson, gravidade. Algumas são cosméticas e outras provocam conse-
em que parkin, PTEN, DJ-1 e ATP13A2 são herdados de modo quências funcionais que podem ser toleradas, enquanto outras
autossômico recessivo. Vários estudos demonstraram que a são fatais. Exemplos de malformações menos graves incluem a
α-sinucleína apresenta regulação errônea na doença de Parkin- polidactilia (a presença de dedos extras) e a sindactilia (fusão
son em função de padrões aberrantes de metilação do DNA. de vários dedos). Malformações de consequência funcional in-
Entretanto, nenhuma diferença na porcentagem de metilação cluem a fenda labial, que requer correção cirúrgica, mas que
do DNA entre pacientes com doença de Parkinson e indivíduos pode ser tolerada. Malformações mais graves incluem aquelas
normais foi observada para qualquer outro dos genes associa- que afetam a formação adequada do cérebro e do sistema ner-
dos à doença. A α-sinucleína interage com histonas e inibe a voso, que em geral resultam em natimorto.
acetilação de histonas, e foi demonstrado que os HDACis apre- As disrupções resultam de processos destrutivos secundá-
sentam um papel neuroprotetor contra a toxicidade associada à rios, agindo sobre um tecido ou uma região corporal que apre-
regulação aberrante da α-sinucleína. sentava previamente desenvolvimento normal. Portanto, elas
A síndrome do X frágil é um distúrbio ligado ao X e a forma surgem de distúrbios extrínsecos da morfogênese. Foi sugerido
hereditária mais comum de retardo mental. Essa síndrome afeta que muitos agentes ambientais seriam responsáveis por essas
cerca de 1 em 4.000 homens e 1 em 6.000 mulheres, e cerca de disrupções. Dada a natureza dessa forma de anomalia congê-
1 em 100 a 250 mulheres na população geral é portadora de X nita, as disrupções não são hereditárias. As bandas amnióticas
frágil. O X frágil é causado por uma expansão da repetição do representam um exemplo de uma disrupção. Essas bandas se
trinucleotídeo CGG na região 5ʹ não traduzida do gene do sí- referem à ruptura do âmnio que resulta na formação de uma
tio frágil sensível ao folato (FMR1). O FMR1 está envolvido na banda que envolve, comprime ou se prende a partes do feto em
regulação da tradução nas sinapses e no transporte do mRNA. desenvolvimento.
Normalmente, estão presentes 6 a 52 cópias da repetição do tri- As deformações são semelhantes às disrupções pelo fato de
nucleotídeo CGG. Entretanto, pacientes com a síndrome do X representarem o resultado de um distúrbio extrínseco do de-
frágil em geral apresentam > 200 repetições. Indivíduos afeta- senvolvimento, e não um erro intrínseco da morfogênese. Elas
dos apresentam hipermetilação do DNA da região de repetição são muito comuns, afetando cerca de 2% dos nascidos vivos. A
levando ao silenciamento do FMR1. Inibidores de DNMT fo- patogênese das deformações envolve a compressão localizada
ram bem-sucedidos na reativação da transcrição de FMR1. ou generalizada do feto em desenvolvimento por forças biome-
cânicas anormais. A compressão do feto leva a várias anomalias
estruturais. A causa mais comum de deformação é a restrição
DOENÇAS DO DESENVOLVIMENTO uterina, que pode resultar de um desequilíbrio entre o cres-
As doenças do desenvolvimento representam uma ampla cate- cimento do feto e o útero no final da gestação. Vários fatores
goria de doenças que são provocadas por alterações genéticas maternos podem contribuir para esse fenômeno, incluindo pri-
e epigenéticas no genoma. Muitas delas também são conside- miparidade, útero de tamanho pequeno, malformação uterina
radas como doenças da infância ou doenças pediátricas. Isso ou presença de leiomiomas. Do mesmo modo, vários fatores
ocorre principalmente porque as anomalias do desenvolvi- fetais podem contribuir para a deformação, incluindo presença
mento se manifestam no feto em desenvolvimento, no neonato de fetos múltiplos, apresentação anormal do feto ou ausência de
ou no início da infância. Essas anomalias congênitas em geral líquido amniótico suficiente.
Doenças e o Genoma: Doenças Genéticas, Neoplásicas e do Desenvolvimento    15

Alterações Gênicas e Doenças do distúrbio transmitido pela mãe que leva à predisposição a tu-
mores embrionários, como o tumor de Wilms. O locus dessa
Desenvolvimento síndrome é encontrado na localização cromossômica 11p15.5 e
Acredita-se que os genes que regulam diretamente a morfogê- abrange cerca de 1 Mb, incluindo vários genes imprinted (IGF2,
nese sejam alvo de teratogênicos. Portanto, a exposição da mãe H19, KCNQ1 e ICR2). Hipometilação aberrante afeta ICR2 e
(e do feto em desenvolvimento) a tais agentes pode afetar pro- KCNQ1. Entretanto, o mecanismo molecular da regulação epi-
cessos de desenvolvimento específicos. Do mesmo modo, os genética não é completamente compreendido.
genes que regulam os padrões de expressão gênica no desen-
volvimento fetal também podem ser alvo da ação de teratogê-
nicos. Por exemplo, a família Hox de reguladores da transcrição DOENÇAS NEOPLÁSICAS
controla a expressão de vários genes que governam o desenvol-
vimento. Agentes que alterem o funcionamento dos genes Hox
Classificação de Doenças Neoplásicas
produzem malformações em modelos experimentais. Um des- A palavra neoplasia é derivada do grego, significando “condição
ses agentes que têm como alvo os genes Hox é o ácido retinoico. de novo crescimento”. O termo tumor com frequência é utilizado
Lactentes que nasceram de mães que foram expostas ao ácido para se referir a uma neoplasia. Tumor significa literalmente “um
retinoico (como um tratamento para a acne grave) tendem a inchaço”. No início dos anos de 1950, R.A. Willis forneceu uma
apresentar embriopatias (caracterizadas por defeitos cardíacos descrição de neoplasia que ainda utilizamos nos dias de hoje: “...
e do sistema nervoso central, bem como anomalias craniofa- Uma neoplasia é uma massa de tecido anormal cujo crescimento
ciais). Em modelos animais, os disruptores de Hox provocam é excessivo e descontrolado em relação àquele dos tecidos nor-
anomalias fetais que são semelhantes àquelas encontradas nas mais e persiste da mesma maneira após a interrupção dos estí-
embriopatias por ácido retinoico. mulos que provocaram a alteração...”. Mais recentemente, outros
pesquisadores descreveram os tumores como resultado de um
processo patológico em que uma única célula adquire a capaci-
Anomalias Cromossômicas e Doenças dade de proliferar de modo anormal (crescimento clonal), resul-
do Desenvolvimento tando em acúmulo de células da progênie, e definem o câncer
A síndrome de Angelman é um exemplo de uma doença do como tumores que adquiriram a capacidade de invadir os tecidos
desenvolvimento cuja patogênese molecular costuma envolver normais circundantes. Essa definição ressalta um dos fatores de
uma anomalia cromossômica. O gene da síndrome de Angel- distinção mais importantes na classificação geral de neoplasias
man (UBE3A) está localizado no cromossomo 15 (em 15q12). – a distinção entre tumores benignos e malignos. A divisão de
Na maioria dos casos, uma grande deleção englobando 15q12 doenças neoplásicas em benignas e malignas é extremamente
(e o locus UBE3A) resulta em uma deficiência para o produto importante, tanto para a compreensão da biologia dessas neo-
do gene UBE3A e na consequente síndrome de Angelman. Em plasias quanto para o reconhecimento das alterações clínicas po-
alguns casos, a perda da expressão/função de UBE3A é atribuída tenciais para tratamento. No nível mais básico, as neoplasias são
à dissomia uniparental ou mutação inativadora do gene. Crian- classificadas como benignas ou malignas. As neoplasias benig-
ças com essa síndrome apresentam retardos de desenvolvimen- nas não apresentam características invasivas e são consideradas
to que em geral são evidentes com 6 a 12 meses de idade. Em como tumores que apresentam baixa probabilidade de invasão e
crianças afetadas, a compreensão da linguagem e as habilidades dispersão. Em contraste, as neoplasias malignas apresentam com-
não verbais desenvolvem-se, mas a linguagem falada é rudimen- portamentos invasivos e/ou alto risco de dispersão metastática.
tar. Crianças com síndrome de Angelman também apresentam Uma subclassificação adicional das neoplasias malignas traça
dificuldades de movimento/equilíbrio, movimentos de agitação uma distinção entre (1) cânceres da infância versus cânceres que
das mãos, comportamento hiperativo e curto período de aten- afetam principalmente adultos, (2) tumores sólidos versus neo-
ção, bem como outras características físicas e déficits funcionais plasias hematopoiéticas e (3) cânceres hereditários versus neopla-
(incluindo questões ligadas ao sono e à alimentação). sias esporádicas. Tanto neoplasias benignas quanto malignas são
compostas por células neoplásicas que formam o parênquima e
por estroma não neoplásico que é composto de tecido conectivo,
Mecanismos Epigenéticos e Doenças vasos sanguíneos e outras células que dão suporte ao parênquima
do Desenvolvimento do tumor. O estroma do tumor apresenta uma função crítica no
Estímulos ambientais que ocorram no início do desenvolvi- apoio do crescimento das neoplasias fornecendo irrigação san-
mento podem produzir modificações epigenéticas que são her- guínea para nutrientes e oxigênio. Em quase todos os casos, as
dadas, com consequências potenciais de longo prazo. Modifi- células do parênquima determinam o comportamento biológico
cações epigenéticas apresentam uma memória das exposições (e o curso clínico) da neoplasia. Além disso, o tipo de célula do
ambientais, tais como exposição a substâncias químicas ou não parênquima da neoplasia determina como a lesão é nomeada.
químicas (nutrição), que podem influenciar o desenvolvimento
inicial. Estudos como gêmeos monozigóticos revelaram altera-
ções epigenéticas em várias doenças do desenvolvimento tais
Predisposição Genética de Doença
como distúrbio bipolar, síndrome de Silver-Russell, síndrome Neoplásica
de Beckwith-Wiedemann e diabetes melito neonatal transitó- O câncer não é uma doença, mas uma miríade de doenças com
rio. Por exemplo, a síndrome de Beckwith-Wiedemann é um tantas manifestações diferentes quanto tecidos ou tipos celulares
16   Capítulo 1

no corpo humano. Todos esses estados de enfermidade têm em autossômico dominante e é altamente penetrante (90% com
comum certas propriedades biológicas das células que com- 70 anos), mas muitas neoplasias se desenvolvem mais cedo na
põem os tumores, incluindo crescimento celular descontrola- vida. Sabe-se atualmente que a síndrome de Li-Fraumeni está
do (clonal), dificuldade de diferenciação celular, invasividade e associada a mutações na linhagem germinativa no gene supres-
potencial metastático. Atualmente, sabe-se que o câncer, na sua sor de tumores p53.
forma mais simples, é uma doença genética. Mais precisamente, Sabe-se que cerca de 5 a 10% dos cânceres de mama estão
ele é uma doença de expressão gênica anormal. Os mecanismos ligados à predisposição genética. Esses cânceres normalmente
moleculares que governam a proliferação celular descontrolada estão associados a uma forte história familiar de desenvolvimen-
na doença neoplásica envolvem perda, mutação ou desregulação to de câncer de mama. Muitas pesquisas levaram à descoberta
de genes que positivamente ou negativamente controlam a de vários genes de suscetibilidade ao câncer de mama, incluindo
proliferação, a migração e a diferenciação celulares. A carcino- BRCA1, BRCA2 e p53, que podem ser responsáveis pela maioria
gênese é um processo em múltiplas etapas pelas quais o cân- dos cânceres de mama hereditários. Em alguns casos, famílias
cer se desenvolve em resposta a alterações na expressão gênica com maior suscetibilidade de câncer de mama também apre-
conduzidas por alterações cromossômicas, mutações gênicas e sentam taxas elevadas de câncer ovariano. As pacientes que são
alterações epigenéticas do DNA. A ideia de que a carcinogênese afetadas por síndrome de câncer familiar mamário e ovariano
é um processo em etapas múltiplas é apoiada por observações podem apresentar mutação de BRCA1 na linhagem germinativa.
morfológicas das transições entre crescimento celular pré-ma- O melanoma familiar está associado (1) à história familiar de
ligno (benigno) e tumores malignos. No câncer colorretal (e em melanoma, (2) à presença de grande número de nevos comuns
alguns outros tipos de câncer), a transição de uma lesão benigna ou atípicos, (3) a uma história de melanoma primário ou outros
para uma neoplasia maligna pode ser facilmente documentada e cânceres de pele (não melanoma), (4) à imunossupressão, (5) à
ocorre em etapas discerníveis, incluindo adenoma benigno, car- suscetibilidade à queimadura solar e/ou (6) a uma história de
cinoma in situ, carcinoma invasivo e finalmente metástase local bolhas por queimadura solar. Dada a ligação entre o excesso de
e distante. Além disso, demonstrou-se que alterações genéticas exposição à luz do sol e o desenvolvimento de cânceres de pele
específicas se correlacionam com cada uma dessas etapas histo- (incluindo o melanoma), não é surpreendente que a suscetibili-
patológicas bem definidas do desenvolvimento e da progressão dade à queimadura solar (sensibilidade à luz do sol) represente
do tumor. Entretanto, é importante reconhecer que é o acúmulo um aumento do risco de melanoma. Essa suscetibilidade é parti-
de alterações genéticas múltiplas em células afetadas (e padrões cularmente pronunciada em indivíduos com pele clara, caracte-
de expressão gênica anormais associados), e não necessariamen- rizados por sardas, olhos azuis, ruivos e uma pele que se queima
te a ordem em que essas alterações se acumulam, que determina rapidamente em resposta à luz do sol e/ou apresenta dificuldade
a formação e a progressão do câncer. em se bronzear. Foram identificados dois genes de suscetibili-
dade ao melanoma altamente penetrantes: CDKN2A (que co-
difica o inibidor 2A da quinase dependente de ciclina) e CDK4
Síndromes de Câncer Familiar
(que codifica a quinase 4 dependente de ciclina). O CDKN2A
Várias síndromes de câncer familiar e hereditário foram reco- é encontrado no cromossomo 9p21, e o CDK4 é encontrado
nhecidas e caracterizadas. Cânceres familiares foram descritos no 12q13. Mutações de inativação da linhagem germinativa
para a maioria dos principais sistemas, incluindo cólon, mama, do gene CDKN2A são a causa mais comum de suscetibilidade
ovário e pele. Esses cânceres estão associados à predisposição hereditária ao melanoma, enquanto mutações do CDK4 ocor-
genética para desenvolver a doença. Os cânceres hereditários rem muito mais raramente. No entanto, mutações nas linhagens
normalmente são caracterizados por (1) idade precoce de iní- germinativas de CDKN2A são raras e muitas são responsáveis
cio ou diagnóstico, (2) neoplasias aparecendo em parentes de por uma pequena proporção de suscetibilidade ao melanoma
primeiro grau do caso-índice e, (3) em muitos casos, tumores na população geral. O gene CDKN2A codifica duas importantes
múltiplos ou bilaterais. Por exemplo, evidências epidemiológi- proteínas reguladoras do ciclo celular: p161NK4A e p14ARF. Em-
cas apontaram com consistência a história familiar como um bora outros loci de suscetibilidade ao melanoma tenham sido
indicador forte e independente de risco de câncer de mama. mapeados por análise linkage de todo o genoma, os genes que
Portanto, mulheres com um familiar de primeiro grau (mãe ou contribuem para a predisposição ao melanoma familiar perma-
irmã) que tenha sido diagnosticado com câncer de mama apre- necem desconhecidos para uma grande proporção dos casos
sentam um risco elevado de desenvolvimento da doença. Essa reconhecidos associados a parentesco. Pesquisa em andamen-
mesma relação é observada em outros cânceres hereditários. to está focada na identificação de genes de suscetibilidade ao
melanoma de baixa penetrância que conferem um risco mais
Mutações Hereditárias em Genes de baixo de melanoma com variações mais frequentes. Por exem-
Suscetibilidade ao Câncer plo, demonstrou-se que variantes específicas dos genes MC1R e
A síndrome de Li-Fraumeni foi caracterizada inicialmente en- OCA2 conferem um aumento do risco de melanoma.
tre vários familiares com incidência excessiva de câncer. Pacien- Como o protótipo do gene supressor de tumor, o mecanis-
tes com essa síndrome desenvolvem vários tipos de neoplasias, mo de inativação e a perda de função associados ao gene Rb1
incluindo câncer de mama, sarcoma de partes moles e osteos- são ilustrativos de toda a classe de genes supressores de tumor.
sarcomas, tumores cerebrais e várias formas de leucemia, en- A inativação de ambos os alelos do gene Rb1 é necessária para o
tre outras. A suscetibilidade ao câncer entre indivíduos com a desenvolvimento do retinoblastoma, uma neoplasia ocular que
síndrome de Li-Fraumeni acompanha um padrão de herança em geral ocorre em uma idade muito jovem. Duas mutações
Doenças e o Genoma: Doenças Genéticas, Neoplásicas e do Desenvolvimento    17

são necessárias para o desenvolvimento do retinoblastoma e es- Instabilidade Cromossômica e Suscetibilidade ao


sas mutações são inativadoras. Assim, a perda de ambas as có- Câncer
pias funcionais do gene Rb1 é necessária para a transformação
A observação de que a maioria das células cancerígenas contém
neoplásica e a formação do câncer. O gene Rb1 foi encontrado
anomalias genéticas perceptíveis (aberrações cromossômicas e/
associado a várias neoplasias humanas, em geral por um meca-
ou anomalias na sequência de DNA) sugere que todas as células
nismo genético que envolve mutações ou deleções.
de transformação neoplásica sofreram dano genético e podem
Foram descritos ou sugeridos cânceres familiares afetando vá- ter apresentado alguma forma de instabilidade genômica duran-
rios outros tecidos e órgãos. Foi registrado e sugerido que o câncer te seu desenvolvimento. Células cancerígenas de pacientes com
familiar do pâncreas segue um padrão de herança autossômico HNPCC apresentam instabilidade genômica progressiva, que se
dominante. Foi sugerido que uma forma familiar de câncer gás- manifesta como alterações em sequências de microssatélites.
trico represente cerca de 10% de todos os cânceres gástricos e está
associada ao gene CDH1 no cromossomo 16q22.1. Uma varredu-
ra em todo o genoma de 66 famílias com alto risco de câncer de Mutações Gênicas e Outras Alterações
próstata produziu evidências de associação da doença ao cromos- Moleculares em Doenças Neoplásicas
somo 1q24-25. Subsequentemente, o locus de suscetibilidade no
cromossomo 1q24-25 foi associado ao gene HPC1. Não Familiares
Cânceres Não Familiares
Câncer Associado a Falhas nos Mecanismos Pesquisas revelaram que diferentes formas de câncer compar-
de Reparo do DNA tilham mecanismos moleculares comuns governando a proli-
O câncer colorretal é uma doença mundialmente muito comum, feração descontrolada de células, envolvendo perda, mutação
em particular em populações dos países ocidentais. Uma fração ou desregulação de genes que positivamente e negativamente
substancial desses cânceres apresenta um componente genético, regulam a proliferação, a migração e a diferenciação celulares
e várias síndromes de câncer colorretal familiar são reconheci- (em geral classificados como proto-oncogenes e genes supres-
das, incluindo a polipose adenomatosa familiar (FAP, de familial sores de tumor). A maioria dos cânceres humanos é classificada
adenomatous polyposis) e o câncer de cólon não polipoide he- como tumores sólidos (agrupados como carcinomas ou sarco-
reditário (HNPCC, de hereditary nonpolyposis colon cancer). Os mas). Os principais tipos de tumores sólidos incluem pulmonar,
genes associados a cada uma dessas condições foram identifica- colorretal, hepático, cutâneo, prostático, mamário, ovariano,
dos e caracterizados. Entre essas síndromes de câncer colorretal cerebral e cervical uterino. As exceções a essa classificação in-
familiar, o HNPCC foi associado a reparo defeituoso do DNA. O cluem neoplasias malignas de origem hematopoiética, incluin-
HNPCC é caracterizado pela ocorrência de carcinoma colorre- do linfoma, mieloma e leucemias.
tal predominantemente do lado direito, com um início precoce
e um aumento do risco de desenvolvimento de alguns tipos de Mutações Gênicas em Doenças Neoplásicas
cânceres extracolônicos, incluindo o câncer de endométrio, es- Não Familiares
tômago, trato urinário e mama. Tumores associados ao HNPCC Foi demonstrado que vários proto-oncogenes celulares são
apresentam uma forma característica de instabilidade genômi- ativados por mutação pontual. Entretanto, a família c-ras de
ca, que representa um mecanismo único para uma tendência de proto-oncogenes representa o subconjunto mais importante de
todo o genoma à instabilidade em sequências de repetição curtas proto-oncogenes que são ativados por esse mecanismo. Essa fa-
(microssatélites), que foi originalmente denominada fenótipo de mília inclui os homólogos celulares dos oncogenes retrovirais
erro de replicação. O defeito molecular responsável pela instabi- de Harvey-ras (H-ras) e Kirsten-ras (K-ras). A forma ativada
lidade de microssatélite no HNPCC envolve os genes que codifi- de c-ras (oncogênica) apresenta propriedades marcadamente
cam proteínas necessárias ao reparo normal de erros. diferentes daquela do proto-oncogene c-ras normal. A forma
Foram descritas duas síndromes de cânceres familiares ativada induz com consistência e eficiência a transformação
adicionais que apresentam características clínicas semelhantes neoplásica em células de cultura, enquanto o proto-oncogene
àquelas do HNPCC ou da FAP. A síndrome de Muir-Torre é normal não o faz. A diferença molecular crítica entre as duas
definida pelo desenvolvimento de pelo menos uma neoplasia de formas de c-ras foi encontrada na sequência de ácidos nucleicos
glândula sebácea e no mínimo um câncer interno, que frequen- – a forma ativada de c-ras apresenta uma mutação pontual no
temente é um carcinoma colorretal. Essa síndrome compartilha códon 12 do éxon 1, que resulta na substituição de um aminoá-
várias características com as síndromes de Lynch I e Lynch II do cido glicina por valina. Sabe-se atualmente que até 30% de todas
HNPCC, incluindo a ocorrência de instabilidade de microssaté- as neoplasias humanas apresentam mutações c-ras, e mutações
lite em um subconjunto de cânceres. Essa observação sugere o em c-H-ras, c-K-ras e N-ras refletem alterações específicas afe-
possível envolvimento de mecanismos de reparo de erro anor- tando apenas o códon 12 (a maioria das mutações), o códon
mais na gênese de um subconjunto de tumores da síndrome de 13 ou o códon 61. Demonstrou-se que uma mutação adicional
Muir-Torre. A síndrome de Turcot é definida pela ocorrência de em um íntron do c-H-ras regula a produção de produto gênico
um tumor cerebral primário e múltiplos adenomas colorretais. estruturalmente normal, resultando em aumento da atividade
Foi sugerido que a base molecular para essa síndrome envolva transformadora. Um tema comum de mutações c-ras é que uma
mutação do gene APC ou mutação de um gene de reparo de única mutação pontual é capaz de alterar drasticamente a ativi-
erro em tumores apresentando instabilidade de microssatélite. dade biológica de um produto proteico normal em outra com
18   Capítulo 1

propriedades transformadoras eficazes. As mutações c-ras são do gene, rearranjos e translocações e deleções em larga escala.
encontradas em um grande número de tipos de tumores hu- A proteína supressora de tumor p53 parece desempenhar pa-
manos, incluindo tumores da tireoide, do trato gastrintestinal, péis significativos na progressão do ciclo celular e na função
do útero, do pulmão, síndromes mielodisplásicas e leucemias. de verificação do ciclo celular em resposta ao dano no DNA. O
gene p53 costuma sofrer mutação em cânceres humanos, e es-
Mecanismos Anormais de Reparo do DNA em ses mesmos cânceres com frequência apresentam anomalias do
Doenças Neoplásicas Não Familiares número de cromossomos. Portanto, foi sugerido que a perda da
Vários distúrbios genéticos raros envolvendo vias de reparo função normal de p53 pode contribuir significativamente para a
do DNA disfuncionais estão associados a risco elevado de de- instabilidade cromossômica em algumas formas de câncer.
senvolvimento de câncer. Esses distúrbios incluem xeroderma
pigmentoso, ataxia telangectásica e anemia de Fanconi. Os indi- Epigenética do Câncer
víduos afetados por essas condições podem desenvolver várias Nas células cancerígenas, as alterações epigenéticas ocorrem em
neoplasias quando expostos a agentes específicos de dano ao um contexto maior de alterações extensas na estrutura da cro-
DNA. Pacientes com xeroderma pigmentoso apresentam hiper- matina relacionadas a padrões alterados de modificação de his-
sensibilidade à luz UV e incidência aumentada de vários tipos tonas e ganhos e perdas de metilação nos dinucleotídeos CpG
de câncer de pele, incluindo carcinoma basocelular, carcinoma nas sequências de DNA. O mecanismo de regulação epigenética
espinocelular e melanoma maligno. Pacientes com ataxia telan- mais bem estudado e compreendido é a metilação do DNA, que
gectásica apresentam hipersensibilidade à radiação ionizante e pode silenciar genes supressores de tumores (e outros media-
a agentes químicos e podem desenvolver linfoma de células B e dores negativos de crescimento neoplásico) por transcrição,
leucemias linfocíticas crônicas, e as mulheres afetadas apresen- resultando em vantagens seletivas de crescimento para células
tam um risco maior de desenvolvimento de câncer de mama. neoplásicas emergentes. A transformação neoplásica associada
Pacientes com anemia de Fanconi apresentam sensibilidade a a alterações na metilação do DNA incluem tanto a perda global
agentes que promovam ligações cruzadas no DNA e são pre- de metilação (hipometilação) quanto o ganho gene-específico
dispostos a doenças malignas do sistema hematopoiético, em de metilação (hipermetilação). A hipometilação ocorre princi-
particular a leucemia mieloide aguda. palmente nas regiões de repetição de DNA, e a hipermetilação
A síndrome de Bloom é um raro distúrbio genético que ocorre nas regiões promotoras dos genes supressores de tumor.
envolve vias de reparo do DNA disfuncionais. Pacientes com
essa síndrome apresentam maior incidência de vários tipos de
câncer, incluindo leucemia, câncer de pele e câncer de mama. Hipometilação de DNA no Câncer
Esses pacientes apresentam instabilidade cromossômica que se No início da década de 1980, foram descobertos os eventos glo-
manifesta com níveis extremamente elevados de trocas entre bais de hipometilação de DNA no câncer humano. A hipometi-
cromátides-irmãs. O defeito molecular na síndrome de Bloom lação de genomas de células cancerígenas está associada à perda
parece envolver falhas na regulação de enzimas de reparo do de metilação nas regiões desprovidas de CpG onde se esperaria
DNA. O produto gênico suspeito nessa síndrome é uma enzima que a maioria dos dinucleotídeos CpG fosse metilada. Essa per-
com atividade helicase. da de metilação nessas regiões do genoma possivelmente está
associada a expressões aberrantes ou inadequadas de alguns ge-
Alterações Cromossômicas em Doenças nes que poderiam contribuir para a transformação neoplásica,
Neoplásicas Não Familiares a tumorigênese ou a progressão do câncer. Além disso, a ampla
desmetilação do genoma pode contribuir para a instabilidade
A maioria dos cânceres humanos (incluindo tumores sólidos,
cromossômica, desestabilizando regiões pericentrômicas de
leucemias e linfomas) contém anormalidades cromossômicas
alguns cromossomos.
consistindo em alterações numéricas (aneuploidias) e/ou aber-
rações estruturais. Esses dois tipos gerais de dano cromossômi-
co podem refletir dois mecanismos distintos de instabilidade Hipermetilação de DNA no Câncer
cromossômica: (1) instabilidade do número de cromossomos e Ganhos na metilação do DNA em células cancerígenas em
(2) instabilidade na estrutura cromossômica. Em algumas for- geral refletem hipermetilação de ilhas CpG em regiões pro-
mas de câncer, as instabilidades cromossômicas predominam motoras do gene, que pode levar ao silenciamento gênico. A
sobre instabilidades na sequência de nucleotídeos, sugerindo identificação de hipermetilação do promotor de ilhas CpG dos
que esses mecanismos de instabilidade genética possam não se genes supressores de tumor nas células cancerígenas ocorreu
sobrepor significativamente. Em geral é aceito que muitas (se em meados da década de 1990. O silenciamento do gene de-
não a maioria) das alterações da estrutura cromossômica que pendente de metilação é um mecanismo normal de regulação
ocorrem em células cancerígenas conferem alguma vantagem da expressão gênica. Entretanto, o silenciamento epigenético do
seletiva ao tumor em desenvolvimento. Assim, o acúmulo gene dependente de metilação nas células cancerígenas repre-
de um número crítico de aberrações cromossômicas ou o senta um mecanismo independente de mutação para a inativa-
desenvolvimento de anomalias cromossômicas específicas pode ção dos genes supressores de tumor. Foi identificado um núme-
representar etapas essenciais no processo de transformação ne- ro significativo de genes associados ao câncer que estão sujeitos
oplásica. Três formas gerais de alterações cromossômicas estru- ao silenciamento dependente de metilação, e vários desses ge-
turais são observadas nas células cancerígenas: amplificações nes contribuem como marcas características do câncer.
Doenças e o Genoma: Doenças Genéticas, Neoplásicas e do Desenvolvimento    19

Modificações de Histonas no Câncer SUV4-20H, responsável pela metilação de H4K20, é desliga-


A atividade aberrante da lisina-metiltransferase em histonas da em camundongos, estes podem desenvolver câncer. Esse
está associada a vários estados patológicos, incluindo diversas resultado indica que as HMTs para metilação de H4K20 po-
doenças genéticas e câncer. Curiosamente, os resíduos de lisina dem funcionar como genes supressores de tumor. Além disso, a
podem ser monometilados, dimetilados ou trimetilados, e cada H3K4 metiltransferase MLL é translocada em neoplasias hema-
uma dessas modificações é realizada por uma histona-metil- tológicas. Em um estudo recente, a HMT associada a H3K79,
transferase (HMT) que é responsável por uma marca específica hDOT1L, interage com uma parceira de fusão MLL envolvida
de metilação, a qual é dispersa por todo o genoma. A regulação na leucemia mieloide aguda, e a fusão direta dessas duas prote-
aberrante das HMTs resulta na perda ou na superexpressão da ínas resulta na transformação leucêmica, indicando que o erro
marca de metilação pela qual a enzima é responsável, levando do alvo de hDOT1L pode levar à leucemia. Além das HMTs
à expressão anormal do gene e, em última análise, à tumori- aberrantes, há várias linhas de evidências de que acetiltransfe-
gênese. Além disso, o metabolismo de conversão de S-adeno- rases (HATs) estão envolvidas na carcinogênese. As moléculas
silmetionina (SAM) em S-adenosil-homocisteína (SAH) pelas H4K16 HATs, MOZ, MOF e MORF são recrutadas para se­quên­
HMTs pode ser influenciado pela dieta, e a regulação aberrante cias de repetição nas células cancerígenas, e leucemias e mio­mas
desse processo pode contribuir para carcinogênese. A via Rb uterinos são portadores de translocações que geram proteínas
consiste em uma interação cooperativa de HDACs e HMTs, e de fusão tais como proteína ligadora de CREB (CBP)-MOZ e
sofre mutação na maioria (90%) dos tumores sólidos huma- MORF-CBP que são associadas à perda global de acetilação de
nos, uma observação que pode explicar por que Rb1 é o alvo H4K16.
preferido de mutações no câncer. A metilação da histona H3
na lisina 9 (H3K9) por HMT, G9a ou SETDB1 é crítica para a
Interação entre Genética e Epigenética
repressão gênica e a formação de heterocromatina na divisão
celular de leveduras e mamíferos. Em contraste, a metilação da no Câncer
histona H3 na lisina 4 (H3K4) pela metiltransferase SET7/9 está O sequenciamento completo do genoma revelou uma alta fre-
ligada à ativação transcricional. A HMT responsável pela meti- quência de mutações específicas do câncer em genes conheci-
lação da histona H3 na lisina 27 (H3K27) é a EZH2, que parece dos por direcionar e participar de processos epigenéticos que
estar envolvida na progressão do câncer de próstata. Existem ocorrem em múltiplos tipos de câncer. Esses genes incluem en-
duas HMTs que fazem metilação de H3K36 em seres humanos, zimas que são necessárias para a metilação do DNA (DNMTs),
NSD1 e HYPB, e ambas foram associadas a distúrbios genéti- a metilação de lisina de histona (EZH2, MLL) e a remodela-
cos. A NSD1 é essencial para o desenvolvimento embrionário gem da cromatina (SMARCB1). Portanto, eventos epigenéti-
em camundongos, e mutações genéticas foram associadas ao cos aberrantes podem ser a base das anomalias genéticas. As
gigantismo cerebral, denominado síndrome de Sotos [171,173]. consequências fenotípicas das mutações não são bem conheci-
A HYPB foi identificada como uma proteína de interação com das. Além disso, a herança de algumas alterações ou mutações
a huntingtina e associada ao desenvolvimento da doença de genéticas pode aumentar a probabilidade de a metilação do
Huntington. DNA ter como alvo genes-chave tais como MLH1 e possivel-
Um estudo recente mostrou que a metilação de H4K20 é mente contribuir aos cânceres familiares e ao início precoce da
perdida em células cancerígenas. Além disso, quando a enzima doença.