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UFMG – Ciclo Básico de Ciências Humanas

Introdução à Filosofia – Ética


Questões de estudo para a Prova Final
Profa. Lilian Godoy

1) Retomando a introdução, comente a diferença entre actus hominis e actus humanus e a


relação entre a norma ética e outros diferentes tipos de normas.

A distinção entre actus humanus (ato humano) e actus hominis (ato do homem) foi
inicialmente proposto pela Escolástica e ainda permanece importante dentro da filosofia
moral. Pois, ela evidencia que nem todo ato que realizamos é um ato humano, mas apenas
aquelas ações realizadas através do conhecimento racional e vontade livre podem ser
verdadeiramente humanas. Isso equivale a dizer que um ato do homem é aquele que ocorre
independentemente da vontade humana, por exemplo, deixar um objeto cair e se quebrar. Por
esse motivo, um actus humanus tem uma dimensão moral, enquanto o actus hominis não
acarreta implicações morais.

A convivência humana exigiu a criação de normas dos mais diferentes tipos. Existem normas
sociais, religiosas, éticas, jurídicas e, até mesmo, normas técnicas. Pode-se dizer que, com
exceção dessas últimas, todas as demais são tipos de normas sociais. Mas nem toda regra
social é religiosa, ética ou jurídica. Existem regras que são meramente sociais, por exemplo, as
regras de etiqueta. Existe ainda uma coincidência entre algumas normas religiosas e éticas,
mas nem toda norma ética tem caráter religioso. Algo semelhante se aplica à relação entre
normas jurídicas e éticas. Embora haja alguma semelhança entre elas, há também diferenças
notáveis. A regra jurídica pressupõe uma sanção no caso de seu descumprimento. Isso
significa que ela é cogente, isto é, obrigatória, pois, o cumprimento de uma norma jurídica é
imposta pelo Estado. E mesmo que o desrespeito a uma norma moral implique também em
algum tipo de punição no âmbito da própria sociedade, não acarreta penas como prisão ou
pagamento de multas impostas pelo Estado. No máximo, o descumprimento de uma norma
moral pode resultar na má reputação do agente que o causa - por ação ou omissão - no âmbito
de sua comunidade, mas o Estado não impõe sua observância. Por isso, costuma-se dizer que
as normas jurídicas são heterônomas (impostas externamente) e as normas éticas (ou morais)
são autônomas (atribuídas pelo próprio agente a si mesmo).

2) Como poderíamos caracterizar, em suas linhas principais, a ética socrático-platônica?


A principal característica da ética socrática, com sua doutrina da virtude-ciência é,
precisamente, o intelectualismo moral de Sócrates, a partir do qual ele estabelece a relação
intrínseca entre a verdadeira sabedoria (sophrosyne) e a virtude (arete). De tal modo, que,
segundo Sócrates, a arete se constitui como o conhecimento do bem.

Quanto à visão especificamente platônica, segundo Vaz, “A ideia diretriz do


pensamento ético de Platão, na qual se entrecruzam a significação ética e a significação
metafísica, é a ideia de ordem (taxis). É ela que permite a unificação, sob a égide da teoria das
Ideias, da Ética, da Política e da Cosmologia, assegurando a justa medida da arete ao
indivíduo e à cidade (...). A ideia da ordem exprime essencialmente uma proporção (analogia)
que une elementos e seres diversos no mais belo dos laços e será, portanto, uma relação
analógica que Platão irá estabelecer entre as partes da alma e suas virtudes, entre a alma e a
cidade e entre a alma e o mundo.” (Vaz. p. 98)

Assim, Platão compreende a ordem como aquilo que mantém a comunidade ou como
ideia diretiva que rege a realidade total e é identificada à noção de bem.

Portanto, as categorias do saber ético dos gregos – a sabedoria, a virtude, a lei e a


justiça – que Sócrates reinterpreta à sua maneira com as noções - propriamente socráticas –
de “alma e virtude como ciência – se reencontrarão na ética platônica dentro da vasta
perspectiva de uma metafísica da ordem.” (Idem.) Ou, mais exatamente, na ideia de bem.

Isso ratifica a afirmação de que em torno da categoria de Bem será organizado o


conjunto de valores fundamentais do saber ético dos gregos e, pode-se ressaltar, sobretudo, a
ética socrático-platônica.

3) Quais os traços mais relevantes da concepção ética de Aristóteles?

Segundo Aristóteles, todas coisas visam um fim próprio, sendo o fim do homem a
felicidade, à qual é necessária a virtude e a esta, necessária a razão. Dado que a razão é a
essência característica do homem, ele realiza a sua natureza vivendo racionalmente e de modo
consciente. Assim também, ele conquista a felicidade e a virtude. Em outras palavras, ele
alcança a felicidade mediante a virtude, que é precisamente uma atividade conforme à razão,
isto é, uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. A característica fundamental da
moral aristotélica é, portanto, o racionalismo, visto ser a virtude ação consciente segundo a
razão, que exige o conhecimento absoluto, metafísico, da natureza e do universo. Natureza
segundo a qual e na qual o homem deve operar.
Aristóteles divide as virtudes em dois grandes grupos: as virtudes éticas ou morais e as
virtudes dianoéticas ou intelectuais.

Ao contrário das virtudes intelectuais ou teoréticas, as virtudes éticas ou morais não


resultam da mera atividade racional, mas implicam, por natureza, um elemento sentimental,
afetivo, passional, que deve ser governado pela razão, todavia, não pode ser completamente
resolvido na razão. A razão aristotélica governa, domina as paixões, mas não as aniquila e
destrói, como queria o ascetismo platônico. A virtude ética não é, pois, razão pura, mas uma
aplicação da razão; não é unicamente ciência, mas uma ação com ciência.

A mais célebre doutrina aristotélica a respeito da virtude a define como um justo meio
entre dois extremos, isto é, entre duas paixões opostas. Naturalmente, este justo meio, na ação
de um homem, não é abstrato e sempre igual para todos; mas concreto, relativo a cada qual, e
variável conforme as circunstâncias, às diversas paixões predominantes dos vários indivíduos.

4) Como podemos distinguir as formulações éticas estóica e epicúrea?

A ética estóica, elaborada por Zenão de Cítio, foi inspirada em preceitos socráticos,
defendendo uma completa austeridade física e moral, baseada na resistência do homem ante
os sofrimentos e males o mundo.

Já a ética elaborada por Epicuro, opunha-se à concepção estóica por seu caráter
hedonista, ao postular que o ser humano deveria buscar o prazer da vida como meio de
realizar a conduta virtuosa. Segundo a concepção ética epicúrea, o prazer estava associado ao
bem e a dor ao mal. Porém, nessa perspectiva, o supremo prazer era de natureza intelectual e
seria alcançado, apenas, através do domínio das paixões.

5) Cite e explique o princípio sobre o qual se fundamenta a ética de Kant.

O princípio sobre o qual Kant fundamenta sua ética é o imperativo categórico, que ele
estabelece como a “forma da lei moral para uma vontade imperfeita”. A fórmula geral do
imperativo categórico diz: age somente de acordo com aquela máxima pela qual possas ao
mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal.

Dessa fórmula geral, Kant extrai ainda outras três formulações do imperativo visando
expressar a exigência de universalidade do dever. Para assegurar tal universalidade, Kant
fornece um princípo que não se atém à materialidade da ação e nem às suas prováveis
consequências, mas, apenas, à forma e ao princípio do qual ela mesma deriva
independentmente de seu resultado.
Tal imperativo constitui o imperativo da moralidade e é tomado, por Kant, como um
fato da razão que revela como sua essência a liberdade da vontade. Liberdade que é aqui
compreendida como autonomia.

6) Cite e explique o princípio que identifica e dá sustentação à ética utilitarista.

A doutrina utilitarista pode ser resumida pela frase: Agir sempre de forma a produzir a
maior quantidade de bem-estar (Princípio do bem-estar máximo).

Isso a caracteriza, portanto, como um tipo de uma moral eudemonista. Mas, opondo-se
ao egoísmo, ela defende a ideia de que o agente precisa considerar o bem-estar de todos e não
apenas o seu próprio.

Assim, o seu principal fundamento é, de fato, o princípio da utilidade, o qual é exposto


por Bentham, no primeiro capítulo de seu livro Introduction to the Principles of Morals and
Legislation (Introdução aos princípios da moral e legislação), do seguinte modo:

“Por princípio da utilidade, entende-se o princípio segundo o qual toda ação, qualquer
que seja, deve ser aprovada ou rejeitada em função de sua tendência de aumentar ou reduzir o
bem-estar das partes afetadas pela ação. (...) Designamos por utilidade a tendência de alguma
coisa em alcançar o bem-estar, o bem, o belo, a felicidade, as vantagens, etc.” (Op. Cit., cap. 1,
seções II, III)

Destarte, o utilitarismo clássico defendia o “princípio da maior felicidade” – ou


princípio da utilidade e sustentava que o objetivo último das instituições políticas deveria ser
a geração da maior quantidade de felicidade ao maior número de pessoas possíveis. Logo, a
função precípua do Estado seria oferecer um ambiente de segurança onde os indivíduos
pudessem buscar seus próprios interesses, de maneira independente.

7) Quais os princípios da Ética do Discurso de Habermas? Qual a relação entre eles?

A Ética do Discurso de Habermas estabelece dois princípios distintos. O princípio de


universalização (ou U) e o princípio do Discurso (ou D).

O princípio de universalização (ou U) que, desde a perspectiva kantiana, explicita o


significado da validade prescritiva de uma norma, no contexto da ética do Discurso, realça o
fato de que uma proposição normativa só pode ser considerada ‘verdadeira’, ou melhor,
correta se puder ser reconhecida como válida não apenas por um indivíduo isoladamente, mas
por todos os concernidos.
Portanto, uma norma problematizada só pode ser reconhecida pelos participantes de
uma argumentação, mediante a aceitação de U. Ou seja:

“se as conseqüências e efeitos colaterais, que previsivelmente resultarem de uma obediência


geral da regra controversa para a satisfação dos interesses de cada indivíduo, puderem ser
aceitos sem coação por todos.” 1

Após demonstrar que U pode ser fundamentado através de uma derivação pragmático-
transcendental das pressuposições argumentativas, Habermas afirma que a própria ética do
Discurso pode ser identificada a outro princípio, que ele designa como o princípio do Discurso
(ou D), estabelecendo que:

“só podem reivindicar validez as normas que encontrem (ou possam encontrar) o
assentimento de todos os concernidos enquanto participantes de um Discurso prático” 2.

Habermas enfatiza que o único princípio moral é, de fato, o princípio de


universalização, que atua também como regra de argumentação. Mas, tal princípio faz parte
da lógica do Discurso e - por estar referido a normas e visar o reconhecimento de todos - mais
exatamente, à lógica do Discurso moral prático, que é estabelecida pelo princípio do
Discurso.

8) Aponte o conceito de virtude defendido pela teoria ética de MacIntyre e seus

três momentos definidores.

MacIntyre situa seu conceito de virtude no interior das tradições morais de

pesquisa racional vinculadas a comunidades históricas particulares, a partir de

uma recuperação da ética aristotélica das virtudes. Seu propósito é oferecer

elementos teóricos que permitam sistematizar um conceito de virtude no contexto

contemporâneo, recuperando o modelo teleológico aristotélico, de modo a

fornecer uma concepção da virtude que respeite a historicidade inerente ao agir

humano e sua necessária dimensão comunitária.

1
. Habermas. “Notas Programáticas para a formulação da Ética do Discurso”. p. 116.
2
. Ibidem.
Segundo Helder de Carvalho, esse conceito de virtude, central para a teoria

ética de MacIntyre, comporta três momentos definidores, interligados entre si,

constituindo sua história. No primeiro, tal conceito está associado às práticas,

percebidas como um conjunto de atividades sistemáticas, socialmente

reconhecidas, no interior das quais se propõem critérios de excelência e bens

internos a serem alcançados. O papel das virtudes nesse contexto é garantir a

excelência na realização dos bens internos às práticas: o telos último de cada

uma delas, que são historicamente estabelecidos.

No segundo momento do conceito - por haver uma multiplicidade de

práticas, muitas vezes são propostos bens que não convergem necessariamente,

mas entram em conflito - torna-se necessário, então, uma concepção do bem

humano, como uma unidade que leve em conta a vida humana como um todo, de

tal forma que se obtenha um critério de hierarquização dos bens vinculados às

práticas. Essa concepção do bem humano, como tal, fornece o telos para o agir

individual e coletivo no interior das comunidades, ordenando as diferentes

práticas e oferecendo o eixo para a narrativa histórica pessoal, que confere

unidade à vida de cada um de nós. Dessa perspectiva da unidade da vida humana

tomada no seu todo, se pode estabelecer um papel para as virtudes como sendo

aquelas disposições de caráter necessárias para essa busca do bem humano

tornar-se realizável, no enfrentamento das dificuldades, contradições, problemas

e desvios que se apresentam na vida histórica dos seres humanos.

No terceiro e último passo do conceito, porém, essa narrativa histórica

fornecida por uma concepção do bem humano como tal, conferindo unidade a

nossas vidas, não se faz de modo isolado, mas no interior de uma tradição social
e intelectual à qual pertencemos. Nossas narrativas se entrecruzam às dos outros

indivíduos que integram nossa vida, por meio das necessidades e exigências

comunitárias ou sociais. Assim, o papel das virtudes será possibilitar que essa

busca individual pela realização do bem último do ser humano não se desvie,

garantindo a sustentação da tradição que partilhamos e fazendo com que essa

busca não perca sua dimensão histórica.

9) Quais as semelhanças e diferenças entre o contratualismo moderno e o de Rawls?


Entre o contratualismo moderno e o de Rawls existem algumas semelhanças e algumas

diferenças.
Falando inicialmente sobre as diferenças, pode-se afirmar que o contratualismo
moderno surge a partir da pergunta pela origem do Estado, sendo, portanto, uma teoria para
defender a soberania política e explicar e legitimar o surgimento das instituições estatais. A
origem do Estado é, então, identificada a uma espécie de contrato social, isto é, a um acordo

– histórico ou hipotético - no qual os indivíduos concordariam em abdicar de seus

direitos à “liberdade total” - que, segundo a maioria dos contratualistas, seria a

característica principal do “estado de natureza” - em favor de uma instituição

superior que seria responsável por ordenar e julgar os atos de sua convivência

coletiva.

Em contrapartida, o contratualismo de Rawls não tem por objetivo propor a criação

de certo tipo de Estado, mas promover um consenso inicial a respeito dos princípios da

justiça para a estrutura básica da sociedade, que, por sua vez, vão regular todos os

acordos subseqüentes, a fim de que sejam justos e eqüitativos. (TJ, p. 12).

Por esse motivo, Rawls parte da suposição de um contrato social hipotético

e a-histórico, graças ao qual as pessoas se reuniriam numa situação inicial – que

ele chama de “posição original” – para definir uma série de princípios que seriam
responsáveis por fundar as regras do “justo”, ou seja, os “princípios da justiça”,

no interior das instituições, que se constituem como as mediadoras entre as

pessoas no convívio social.

Para apontar, ao menos, uma semelhança, pode-se dizer que os dois tipos

de contratualismo se caracterizam pela escolha da teoria do contrato como o

ponto de partida para formularem as suas concepções.

10) Qual o princípio que Hans Jonas elabora para fundar sua ética e qual a sua relevância para
o contexto atual?

O princípio que Hans Jonas elabora para fundar sua ética é precisamente o princípio
responsabilidade, título de sua obra principal, cuja primeira formulação é a seguinte:

“Age de tal modo que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma
vida autenticamente humana na Terra.” (PR p. 40)

Com tal princípio Jonas pretende formular uma “ética para a civilização tecnológica”,
face à qual ele, desde o início, se posiciona criticamente, aceitando os aspectos positivos
introduzidos por essa civilização, mas também alertando para os aspectos negativos que
podem até comprometer a continuidade da vida, inclusive a humana, no planeta.

Desse modo, o que Jonas pretende com sua formulação ética é fornecer um princípio de
ação para a geração humana atual, de modo que ela possa agir responsavelmente, levando em
conta que os efeitos de suas ações - graças à tecnologia - ampliados espaço-temporalmente,
podem afetar não apenas as condições da vida presente, mas toda a vida futura. Sua reflexão
oferece, portanto, elementos para se pensar questões atuais cruciais como as questões
ambientais, o uso indiscriminado das biotecnologias e o de armas de destruição em massa.