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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA
PSICANALÍTICA

COMENTÁRIOS SOBRE OS CONCEITOS KANTIANOS DE MAL RADICAL E


DE ESCLARECIMENTO
Ariana Moura Gomes

Trabalho apresentado como requisito para


a conclusão da disciplina Psicanálise
Filosofia, do Programa de Pós-graduação
em Teoria Psicanalítica.
Prof.: Amandio Gomes

Rio de Janeiro
2017

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RESUMO

O presente trabalho tem por objetivo apresentar os conceitos de Mal radical e de


Esclarecimento, como propostos por Kant, e realizar, a partir dos mesmos, algumas
articulações e comentários. O primeiro dos conceitos citados, o de Mal radical, aparece
mencionado no livro de Kant A religião nos limites da simples razão (1793), no qual o
autor se dedica a examinar determinados pressupostos da experiência religiosa e a
questionar determinados eixos temáticos caros à esta, como a autonomia do julgamento
moral e o livre arbítrio, entre outros. Dentre eles, temos o debate acerca da existência de
um mal irredutível e intrínseco ao homem, mal este que o leva a cometer atos de maldade
para além dos desígnios de sua razão, o qual é denominado, justamente, de Mal radical.

Acerca do segundo conceito mencionado, o de Esclarecimento, podemos


compreendê-lo como fundamental no edifício teórico kantiano, perpassando mais de uma
de suas obras e mesmo, poderíamos supor, dando direcionamento a ela. O termo
Esclarecimento pode ser considerado oriundo da versão alemã do que fora nomeado
Iluminismo pela tradição francesa, e, segundo a leitura de Foucault, traz incutido em si a
marca do empreendimento filosófico das Críticas kantianas. Debateremos de que forma
o Esclarecimento emerge como conceito central de uma convocação de natureza política,
e em que medida sua realização visa o combate ao Mal radical, dentro de um determinado
limite de impossibilidade.

LIBERDADE TRANSCENDENTAL

À guisa de introdução, é necessário mencionar a centralidade que ocupa, na teoria


kantiana, a noção de liberdade transcendental. Segundo Franklin Leopoldo e Silva,
professor da USP, em fala proferida em um curso organizado por esta mesma
universidade (Silva, 2011), muitos teóricos consideram que a modernidade se inicia com
Kant, e não com Descartes, como aparece nos manuais, uma vez que ele formula de forma
tão explícita o projeto do Iluminismo. No centro deste projeto, cujo lema poderia ser
expresso na convocação sapere aude, está uma concepção de homem como dotado de um
senso moral inato e cujo dever seria prosseguir tal imperativo moral rumo à sua liberdade.

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Como encontramos em seu artigo O que é o Esclarecimento (1783), está nas mãos
do próprio homem a saída de sua minoridade, a qual pode ser definida como a
incapacidade de se servir de seu próprio entendimento sem a tutela de outro (Kant, 1783).
A superação de sua minoridade se daria pelo ato, pela determinação a utilizar a faculdade
da razão. O alcance da maioridade estaria, portanto, na dependência de um ato de coragem
para assumir tal tarefa.

Com isso, podemos vislumbrar o que será debatido por Kant no que ele nomeia
de Mal radical. Pois, apesar de estar presente em cada homem a consciência moral
necessária para aceder ao Imperativo Categórico, bem como ser a disposição ao Bem a
disposição original do homem, existirá, sempre, intrinsecamente à experiência moral, a
tendência a que seus atos se desviem desta disposição moral Boa.

Algumas considerações devem ser feitas acerca dos motivos para que se dê tal
desvio em relação à ação moralmente Boa. Em primeiro lugar, devemos nos remeter à
Crítica da Razão Prática para compreender as condições de possibilidade para que um
ato seja moralmente Bom, condições estas que podem ser subsumidas ao seguimento do
que Kant chama Imperativo Categórico.

Em suma, Kant propõe nesta obra estabelecer uma Lei universal da ação moral, e,
para tanto, conclui que devem dela estar excluídos quaisquer traços da ordem dos afetos
ou da subjetividade, ordem esta que nomeou como o âmbito do patológico. O
mandamento moral, em nome de sua universalidade, deve independer tanto do sujeito que
o siga como do objeto sobre o qual recaia, de forma a ser aplicado independentemente de
circunstâncias. Seguindo estas considerações, elabora, então, a fórmula da Lei da ação
moral como o que nomeia Imperativo Categórico, que segue: “Age de tal modo que a
máxima de tua vontade possa valer sempre como princípio de uma legislação universal”
(Kant, 2011, p. 44).

O Imperativo Categórico de Kant pode ser compreendido a partir de uma série de


princípios. Em primeiro lugar, a Lei da ação moral deve ser completamente desvinculada
do pathos. A vontade moral não vem de experiências patológicas – ela é a priori-, e não
se altera por nada no campo do patológico – é incondicional. Em segundo lugar, a partir
desta apatia, ela retira sua validade unicamente de seu enunciado formal, e não de
qualquer questionamento sobre o conteúdo da ação que será motivada pelo enunciado –
ela é autônoma. Em terceiro lugar, ela é universal, por que todos os homens têm a vontade

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moral em si como a priori, e porque o ordenamento do imperativo categórico deve ser
igualmente válido para todos. Por fim, ela pressupõe a liberdade, uma vez que uma
vontade livre é aquela que pode determinar-se apenas pela razão

Observando atentamente estes princípios que compõem o Imperativo Categórico,


podemos abordar, a partir deles, o que parece estar em jogo na questão do Mal radical.
Retomando o grande tema da liberdade, devemos ter em mente que, em termos kantianos,
a liberdade residiria na submissão perfeita e voluntária à Lei do Imperativo Categórico.
O pensamento é o campo da liberdade, o recurso que torna o homem capaz de
autodeterminar suas ações segundo o que compreenda ser ético.

Essa determinação deve ocorrer seguindo estritamente e unicamente os ditames


da razão, ainda que em detrimento dos interesses particulares de si ou de seu próximo, ou
seja, em detrimento de todo o campo do patológico. Fosse ela determinada pelo
patológico, seria a natureza quem ditaria as regras da ação. Essa vontade livre e autônoma
em relação ao patológico é o que distingue, portanto, para Kant, o que é propriamente
humano.

Os homens, como um todo, teriam por princípio não somente a racionalidade, mas
também o que Kant chama de imputabilidade, que seria a faculdade de determinar o
arbítrio de forma incondicionada. Assim sendo, todos os homens contêm em si, de forma
inata, a faculdade da razão, de forma a terem todos a possibilidade de conceberem estas
formas e fazerem com que seus atos guiem-se aos moldes do Imperativo Categórico,
sendo então seus atos moralmente Bons.

“todas estas disposições no homem são não só


(negativamente) boas (não são contrárias à lei moral), mas são
igualmente disposições para o bem (fomentam o seu seguimento).
São originárias, porque pertencem à possibilidade da natureza
humana” (Kant, 2008 (1793), p. 33).

Quando Kant questiona-se sobre o Mal radical seus questionamentos direcionam-


se justamente ao problema de que, se é propriamente humano o uso da razão no sentido
da imputabilidade, se todos os humanos contêm em si, por princípio, a disposição para o

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Bem, porque a todo momento vemos seus atos não seguirem esta tendência, redundando
em mal?

Não chegamos a responder esta questão, mas apenas podemos apontar sua
reflexão de que o mal, assim como o bem, é fruto de uma ação calcada em uma máxima.
As máximas, por sua vez, tem origem na própria faculdade da razão, e não na natureza.
São inatas pois existem como potencialidade e todos os homens, não sendo, portanto,
causadas por fator externo algum. Desta forma, haveria uma máxima a qual estaria na
origem do ato mal, e haveria, na origem deste ato, algo que Kant localiza como uma
escolha insondável, por uma máxima ou outra.

No entanto, podemos encontrar ainda, na mesma obra, algumas críticas de Kant


que parecem fazer associar o mal à falta de autonomia do pensamento. Compreendemos,
anteriormente, que a liberdade consiste, para Kant, na submissão à Lei maior do
Imperativo Categórico, sendo este imperativo a expressão máxima da forma que deve ter
um ato qualquer para que este seja tido como moralmente Bom. A liberdade está na
imputabilidade da razão, em sua faculdade de ser autônoma, independente das
circunstâncias materiais, dos interesses particulares ou de tutelas externas.

Nos aproximamos, então, de alguns impasses no caminho da razão: o homem não


conhece perfeitamente o Imperativo Categórico, e, consequentemente, não consegue
segui-lo perfeitamente; o pensamento pode ser tutelado, ainda que ele seja por excelência
o campo da liberdade; meramente reproduzir o prosseguimento da Lei com a expectativa
de obter quaisquer vantagens, digamos, patológicas, não é agir de forma moralmente Boa.
Serão estes impasses alguns dos principais motores para a reflexão que Kant realizará,
então, em A religião nos limites da simples razão.

AUTONOMIA E TUTELA

Em A religião nos limites da simples razão, Kant inicia suas reflexões acerca da
perspectiva que as pessoas costumam ter sobre a história. Diz ele, é curioso como a
maioria das pessoas, seguindo o pensamento religioso, parece inclinada a dizer que teria
havido, em um passado remoto, um estado de harmonia perdido, de forma que a história
estaria rumando em direção à sua decadência. Por outro lado, haveriam alguns, filósofos

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em sua maioria, e, dentre eles, o próprio Kant, que advogaria que a história nos encaminha
rumo à um estado melhor de coisas, confiando, para isso, no acréscimo de razão que a
humanidade estaria colocando em marcha com o advento da ciência.

Esta introdução, com características quase anedóticas, parece expressar bastante


da significação que Kant dotava ao termo Esclarecimento. Falávamos da definição
fornecida em O que é o Esclarecimento, acerca da saída da minoridade por meio do uso
da razão. Foucault busca, em uma interessante conferência, intitulada O que é a Crítica,
fazer alguns apontamentos a este respeito.

Em suma, uma das grandes conclusões de Foucault seria a de que Kant teria
embutido, em seu conceito de Esclarecimento, o empreendimento de sua própria Crítica.
Se a Crítica consistia em questionar as condições de possibilidade e os limites do
conhecimento, era este conhecimento acerca do conhecimento que nos forneceria uma
resposta acerca das potencialidades de sua aplicação como ordenadora da vida prática dos
homens – em especial, a razão como ordenadora da vida política dos homens.

Vemos, em A religião nos limites da simples razão, que o principal foco de críticas
por parte de Kant seriam as instituições religiosas. Foucault contextualiza que houvera,
nos séculos precedentes ao de Kant, o desenvolvimento por parte da tradição eclesiástica
o que podemos chamar da arte do “governo dos homens”. Diz Foucault, “E eu proporia
então, como uma primeira definição da crítica, esta caracterização geral: a arte de não ser
de tal forma governado” (Foucault, 1990 (1978), p. 4). O autor fornece, então, alguns
pontos de ancoragem históricos para a compreensão da proposta kantiana:

1. O governo dos homens tem origem eclesiástica. Não querer ser governado
tinha o sentido de retornar às Escrituras, ter acesso direto a elas, e mesmo
questionar se era ela verdadeira.
2. O direito natural. Na esfera política, não querer ser governado implicou a
construção de leis universais e imprescindíveis que todos, inclusive
governantes, devem se submeter. São os limites da função de governar.
3. O problema da verdade em face do argumento de autoridade.

A Crítica seria o empreendimento kantiano de contraposição ao obscurantismo


perpetuado pelo mero prosseguimento do argumento de autoridade da Igreja, em

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detrimento da Lei maior da verdade da razão, qual seja, o Imperativo Categórico. No
estado de fatos que encontrava naquele momento, o pensamento estaria sendo tutelado
por estas instituições, de forma a perder sua potencialidade de campo próprio da
liberdade.

Este estado de coisas levaria, ainda, a uma inversão repudiada por Kant: o de
reproduzir o que seria um ato moralmente bom (mesmo que ainda sob a égide da tutela)
como meio para a obtenção de alguma recompensa – em termos religiosos, a graça divina.
Kant chamou esta espécie de paródia de meios de graça, e advertiu:

“Inclusive onde já penetrou a convicção de que aqui tudo


depende do bem moral, que unicamente brota do fazer, o homem,
procura ainda, no entanto, para si uma senda oculta a fim de se
esquivar àquela condição penosa, a saber, que, se ele observar
apenas o modo (a formalidade), Deus aceitará isso em vez do próprio
acto; o que decerto se deveria denominar uma graça hiperbólica, se
não fosse antes uma graça sonhada na confiança preguiçosa, ou até
uma confiança fingida. E assim o homem, em todos os modos
públicos de fé, inventou certos usos como meios de graça” (Kant,
2008 (1793), p. 221).

Esta performativização da moralidade, esses meios para a obtenção da graça


almejada, não constituem de fato o ato moralmente Bom. Estes seriam expressão de uma
forma fetichista.

“Todo o empreendimento em matérias de religião, se não se


tomar de modo simplesmente moral e, todavia, se se apreender como
um meio que em si suscita a complacência de Deus, por conseguinte,
satisfaz através d‘Ele todos os nossos desejos, é uma fé feiticista”
(Kant, 2008 (1793), p. 220).

O fetichismo aqui aparece como oposto ao esclarecimento. Esclarecer-se consiste


em sair da tutela, e não seguir a lei trazida por instituições. O fetichismo consiste, aqui,
numa adoração aos meios de obtenção da graça, como expressão de uma indolência em
tudo oposta à coragem convocada em prol do esclarecimento.

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A submissão à autoridade da Igreja, na opinião de Kant, portanto, propagava este
tipo de inversão da lógica acerca da moralidade e esta espécie de farsa indolente,
materializada no puro procedimentalismo do fetichismo. A convocação ao esclarecimento
tinha o horizonte político de superação desta autoridade eclesiástica, responsável por
fazer, de forma autoritária, a manutenção da minoridade, fornecendo aos homens leis
heterônomas às quais estes não teriam meios de questionar (Foucault, 1990 (1978), p. 5).

Essa incapacidade de questionar pode ser definida, portanto, como uma correlação
entre, de uma lado, um excesso de autoridade, e, de outro, uma falta de coragem. O artigo
O que é o Esclarecimento não trata, assim, de uma mera descrição histórica. Trata-se,
para Foucault, de uma

“(...) um pouco ridícula, sem dúvida, convocação, um apelo


à coragem. É uma publicação de jornal, em um contexto em que os
filósofos passaram a recorrer às publicações jornalísticas para
dirigirem-se ao público em um caráter de apelo, de convocação –
um caráter panfletário” (Foucault, 1990 (1978), p. 5).

Podemos compreender, de certa forma, o ponto de vista segundo o qual as


proposições kantianas conduziram a um ordenamento social a partir da razão redundarem
no desenvolvimento de uma ciência do governo dos homens e do Estado, por meio do
Direito. É possível, sem dúvida, fazer esta leitura. Mas podemos aventar, ainda que
temerariamente, que tal fixação no Direito como meio de esclarecimento não acaba por
criar um novo patamar de heteronomia, contrário ao cerne do que parece ser a proposta
kantiana, qual seja, a da autonomia da razão.

Esta desconfiança teria chegado à seu ápice no pós-guerra, quando se questionou


até que ponto o crescente desenvolvimento das técnicas de governabilidade, inspirado,
em parte, na filosofia moral kantiana, não seria responsável pelos extremos produzidos
na guerra. Foucault afirma ser este problema, do que é o Esclarecimento e quais as suas
consequências, o principal problema da filosofia moderna (Foucault, 1990 (1978), p. 11).
É possível questionarmos a que ponto não continua, ainda, relevante na
contemporaneidade.

A liberdade é advinda da descoberta sobre os limites do conhecimento, quando


podemos enfim ter acesso à autonomia. Com isso, teríamos a liberdade de não

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simplesmente obedecer aos comandos externos, advindos de instituições eclesiásticas,
como era o foco principal de sua crítica em A religião nos limites da simples razão.
Passaríamos a obedecer de forma autônoma, pois obedeceríamos, em última instância, ao
Imperativo Categórico, lei autônoma da razão por excelência. Assim, se é por um ato de
coragem de acederíamos à maioridade, podemos conceber que a verdadeira coragem de
saber consistiria em reconhecer os limites do conhecimento (Foucault, 1990 (1978), p. 7)

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BIBLIOGRAFIA

Foucault, M. (Abril/Junho de 1990 (1978)). Qu'est-ce que la critique? Critique et


Aufklärung. Bulletin de la société française de philosophie, vol. 82, nº2, pp. 35 -
63.

Kant, I. (1783). O que é o Esclarecimento.

Kant, I. (2008 (1793)). A religião nos limites da simples razão. Covilhã: Lusosofia -
Universidade da Beira Interior.

Kant, I. (2011). Crítica da Razão Prática. São Paulo: Martin Claret.

Lacan, J. ((1963) 1998). Kant com Sade. Em J. Lacan, Escritos. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar.

Silva, F. L. (2011). Fonte: Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=-9r0OKGryF4

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