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PEDRO PINOTE
* O REINO DA FLORESTA QUE SECOU
[ DIREITOS AUTORAIS 75.012 ]

“SÉRIE HISTÓRIAS MÁGICAS”
SEGUNDO TOMO

RAYOM RA

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CAPÍTULO I CONVERSA FRANCA As aulas haviam reiniciado. A rua, durante o dia, ficava mais tranquila por que a meninada não se reunia como em férias. Assim, nas manhãs, somente por acaso um e outro se encontravam. Mas não demoravam e logo se despediam, por que os deveres escolares os chamavam, ou suas próprias mães. Às tardes, as mesmas coisas, pois estudando em turnos diferentes somente se reuniam em maior número lá pelo começo da noite, em frente à casa de Dino, debaixo do poste de luz. Nesta primeira semana eles achavam muitas distrações no ambiente escolar, em meio ainda a uma atmosfera de reencontro, e quase se esqueciam das peripécias aprontadas nas férias. Assim, quaisquer tropeços, escorregões ou casuais trombadas, acontecidos nos intervalos das aulas, nos recreios, nas saídas ou chegadas à escola, transformavam-se em especiais motivos de risos e deboches. Um simples desafio de habilidade pessoal ou exibição de força acabava virando atração. Isto, sem dúvida, os fazia esquecer os dias de férias, pelo menos momentaneamente. Desta maneira, suas reuniões à noite acabavam sendo, de certo modo, repetições do que acontecia durante o dia, pois o contágio daquelas brincadeiras voltava com eles e só falavam da escola. Mas veio o sábado; com ele a necessidade de algo fazer para não ficarem ociosos. Uma coisa difícil de explicar os atraiu para os lados da casa velha, a todos os oito, e ao contemplarem o palco vazio e os bancos de madeira sob o sol, sobreveio-lhes estranha vontade de ali sentarem-se. E mais: desejavam sentir novamente a emoção da espera, de ouvir a agradável e harmoniosa voz de Leal -o contador de histórias. Um olhou para o outro e cada olhar foi uma condenação: tinham abandonado os três amigos que tão longe os haviam levado. Naquela semana sequer haviam falado deles, feito um único comentário! Seria possível uma reconciliação? De repente, Esmeralda aparece pelo pátio, saindo da casa, notando-os ali, parados, com caras de quem olha para o nada e pensa estar vendo alguma coisa. Vem-lhes ao encontro sorrindo, fazendo brilhar os olhos verdes. Os meninos notaram, pela primeira vez, que ela de perto era muito mais bonita. Ainda mais com aqueles cabelos loiros enfeitados de pequenas tranças por sobre a cabeça. Antes a tinham somente visto a certa distância, no palco, junto ao tio, a representar com bonecos. Mas apesar desta admiração, pretenderam ir saindo de mansinho, envergonhados de terem sido surpreendidos, justamente ali. - Bom dia, desejam alguma coisa? Que voz bonita, que dentes brancos, que pele lisa e clara! - Bem..., é que, nós. Não, nada não! - respondeu Edu, bastante corado.

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- Não? - Não! - reafirmou Jorge. - Não querem entrar e falar com meu tio? Ele está lá dentro com meu pai, lendo jornal. - Pra que incomodar, né? - reafirmou Tião, coçando a cabeça. - É... Deixe pra outra vez - reconfirmou Dino. - Não incomoda nada, ele gosta de crianças. Pronto, ela precisava dizer aquilo! O entusiasmo imediatamente esfriou e ficaram mais ainda sem graça vamos, entrem! - insistiu com carinho. Eles se entreolharam com jeito de quem é novo num lugar e não sabe como proceder ou onde enfiar as mãos. Mas não tendo como escapar do convite, foram entrando, um a um, parecendo passar pelo interior de um corredor polonês. - Esperem um momento, eu vou chamar titio - disse ela saindo. Eles respiraram meio aliviados. Magriça aproveitou e foi logo se sentando num dos bancos, dizendo: - Quem diria que a gente ia se sentir assim, neste lugar que já foi nosso! - É mesmo, até parece que estamos com medo do seu Leal - completou Dino. - Já pensaram se ao invés do seu Leal fosse aquele camarada da polícia que morasse aqui? - imaginou inconvenientemente Tião. - Qual? - perguntou Magriça como se realmente não lembrasse. - Aquele que dona Cinira mandou chamar pra prender a gente! - relembrou o negrinho dando especial entonação às palavras. - Ih, Tião! Não venha de novo inventar histórias, ainda mais de coisas que nunca aconteceram. Veja se cala esta boca! - repreendeu-o Zecão. Tião riu. Leal surgiu detrás do palco, saudando-os: - Ora, que prazer, bom dia amigos! - Mediante a saudação e cativante sorriso, os meninos responderam quase ao mesmo tempo - vejo que não me esqueceram. Vieram me visitar ou solicitar algo? - Bem..., nós... - gaguejou Jorge. - Visitar! - socorreu-o Tião. - Que ótimo, não querem entrar? - Não, não senhor, obrigado! - respondeu Magriça excitado, lembrando ainda da caveira. - Então vamos nos sentar aqui mesmo e prosar um pouco, o sol está gostoso. Sentaram-se. Os meninos se apertaram num só banco, tomando-o por inteiro. Leal sentou-se dois bancos adiante. Sob o sol, seus cabelos brilhavam muito e os meninos notaram isto. - Então, gostaram das aventuras do Pedro Pinote? - Eu gostei mais do Cabelos de Ouro - respondeu Japonês. Leal riu gostosamente. - Seu Leal, o senhor já foi palhaço? - perguntou de supetão Dino, levando por isso uma cotovelada de Zecão, soltando um ai...! Leal não se surpreendeu com a pergunta e foi respondendo com habitual tranquilidade e sorriso franco: - Palhaço de viver fazendo sempre espetáculos eu realmente nunca fui, porém em algumas ocasiões, em emergências, foi preciso que me fizesse palhaço. Conforme já lhes disse, o que eu fazia, sem dúvida, eram representações de peças com bonecos ou atores. Mas no fundo, prestando um pouco de atenção

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em tudo, a gente acaba vendo que tanto palhaços, atores ou bonecos, acabam fazendo as mesmas coisas. Os meninos não perceberam muito bem o que Leal dizia e começaram a se remexer no banco. - E o senhor era engraçado? - perguntou desta vez, Japonês, tomando-se de coragem. - Bem, as crianças e os adultos riam muito com as coisas que eu fazia, por isto eu creio que era engraçado. - O senhor andava naquele carro velho que se desmancha todo? - foi a vez de Tião. - Andava, ele fazia tchuc-tchuc, tchuc-tchuc, soltando fumaça por todos os lados, espirrando água ou se explodindo. Os meninos já riam e se descontraíam completamente. - Andava em cima de elefantes? - a pergunta agora era de Jorge. - Andei somente uma vez. A moça que deveria fazer o número ficou doente, então nós tivemos de improvisar um passageiro, e este acabou sendo eu. - O elefante era brabo? - voltou a perguntar Japonês, bastante curioso. - Não, não, era mansinho. Ele comia amendoins, balas ou qualquer outra coisa de que gostasse de nossas mãos. Era muito amigo. - Tinha leão, gorila, urso e onça? - quis saber Tião, falando rapidamente, quase atropelando as palavras. - Ei, calma lá! - respondeu rindo - os circos em que trabalhei não eram assim tão ricos que pudessem ter tantos animais ao mesmo tempo. Em certos espetáculos tínhamos um ou outro bicho, mas não tantos! Afinal, somente companhias ricas e estrangeiras podem ter um zoológico assim, de uma só vez. Para fazer graça, na ausência de bichos, de vez em quando a gente se fantasiava deles e fingia que eram verdadeiros. - O senhor viu um leão comer alguém? - perguntou Dino. - Comer, não, mas causar danos, sim. O povo sempre desobedece às ordens e chega muito perto das jaulas e aí as coisas acontecem. - E quando eles fogem, não atacam as pessoas? - a pergunta veio de Antonio Carlos. - Durante o tempo em que viajei com circos, jamais um animal fugido da jaula atacou uma pessoa. Eles eram muito bem alimentados e somente atacariam se estivessem famintos ou fossem provocados. Mas eram logo recapturados, sem muitos problemas. - O seu circo pegou fogo alguma vez? - Magriça quis saber. - Fogo? - repetiu Leal. - É, de morrer gente, de sair todo mundo gritando, como passa no cinema e na televisão - Magriça confirmava a sua estranha curiosidade. - Meu filho, estas coisas horríveis raramente acontecem. Perigo de incêndio há em qualquer lugar. Em circos, todos ficam muito atentos e mal um princípio de fogo começa, eles correm para apagá-lo. - Faz tempo que não aparece um circo por aqui. Estou com saudade. - O lamento foi de Dino. - Temos um teatro, não está com saudade também?

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- Estou, puxa se estou! Foi a melhor coisa que Leal escutou ali. Pareceu tornar-se então como um deles, um menino. E perguntou quase entusiasmado: - E os outros, estão também com saudade? - Estamos! - Tamos! - Estou sim! - Cabelos de Ouro e seus amigos devem estar alegres com isso. - E pode? - surpreendeu-se Tião. - Mas claro que sim! Será que vocês não sabiam que eles já os conhecem e começam a morar em seus pensamentos? - Essa não! - duvidou Jorge. - Essa sim - reafirmou Leal - eles viviam em seus próprios mundos, amando a tudo e a todos. Mas ao conhecê-los de perto passaram a amá-los especialmente. E como vocês também os amam, esta união está ficando cada dia mais forte. - Mas..., mas..., eles nunca conversaram com a gente - Edu estava confuso. - Conversaram, sim senhor, e vocês os escutaram. - Como? - perguntou Jorge. - No lado de lá, sempre que pensavam neles. No lado de cá, de vez em quando. - Chi, seu Leal, o senhor está deixando a gente encucado. Será que o senhor podia trocar tudo isto em miúdos? - sugeriu Tião, coçando a cabeça. - Ainda não, queridos, mas pensem a respeito disto e continuem a prestar atenção nas aventuras destes três personagens. E que tal fazermos uma nova apresentação amanhã à tarde, se não chover, naturalmente? - Boa! - aplaudiu Zecão, logo se envergonhando. - Viva! - Eu topo! - Então ficamos combinados. Espalhem a notícia. Às três da tarde iremos narrar outra aventura de Pedro Pinote ou Cabelos de Ouro e seus amigos.

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CAPÍTULO II UMA VOLTA E MEIA Não chovera pela madrugada embora o dia acordasse com o céu nublado. Perto das onze o sol surgiu meio espremido pelas nuvens escuras, mas indeciso, desaparecera. Mais adiante surgiu de novo; a princípio ainda preguiçoso, porém logo se decidindo a permanecer. A partir daí, o otimismo da criançada se transformou, pois torciam para que não chovesse. O Teatro Jornada do Amanhã voltava a ficar lotado. Muitos rostos desconhecidos figuravam agora na platéia. Leal notou isso com satisfação tão logo surgiu no palco. Sem outras referências, além do tradicional: "senhoras e senhores muito boa tarde, tenho o prazer de apresentar...", foi iniciando a narrativa do novo episódio: -------------------------------------------------------------------------------------------------------------“Curado daquela tristeza que o levara a adoecer, Pedro Pinote voltava a viver como sempre. Seus pais aceitaram Teovaldo e Petisco, julgando com isso que estariam contribuindo com sua cura. O menino não quis fazer a menor referência sobre o que lhe sucedera; guardava segredo a respeito de seus novos amigos, do disco de ouro e das aventuras fantásticas que experimentara. Um problema surgira: como manter escondido o disco de ouro com estojo e cinto? Não poderia andar com eles por aí; arriscar-se a esquecê-los no banheiro, após o banho, ou no quarto ao trocar de roupas. Poderiam também vê-los acidentalmente de mil maneiras, ou senti-los num abraço. Que fazer, então? - Compre um cofre, Pinote, guarde-os lá. Feche o cofre com cadeado e traga a chave no pescoço - sugeriu Teovaldo. - É mesmo, Teovaldo, eu não tinha pensado nisto. É uma excelente idéia! - Currupáco! O menino pediu aos pais o cofre. Eles estranharam tal pedido e quiseram saber tudo direitinho. Ele se embaraçou: disse-lhes desejar guardar coisas que não queria que fossem vistas. - Que coisas, Pedro? - Coisas minhas, já disse. Não quero que ninguém as veja ou pegue! - Nem seu pai ou sua mãe? - Ih, mãe, não complique. São coisas minhas e de mais ninguém, só interessam a mim. Será que não tenho o direito de guardar o que é meu? Sua mãe não se convenceu, nem o pai. Mas resolveram consentir; afinal poderia ser somente um capricho de menino.

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- Ah, finalmente vou retirá-los debaixo do colchão! – disse com alívio a Teovaldo no quarto onde dormia com seus amigos. O cofre era pequeno, daria para deixá-lo sobre a mesa; era bom e forte. Tinha um dispositivo de segredo, mas nada de cadeado. Pedro não ficou satisfeito e o levou a um ferreiro. Mandou que soldasse duas hastes: uma na portinhola e outra na lateral. Desta forma poderia colocar um cadeado e assegurar-se de que ninguém o abriria, mesmo que descobrissem o segredo. O trabalho foi feito e Pedro ficou satisfeito. A partir dai passou a andar com a chave dependurada no pescoço, mas resolvera ainda guardar o cofre debaixo da cama. Passada quase uma semana Pedro estava inquieto. Não lhe faltara trabalho naqueles dias. Por causa de sua doença fora obrigado a estudar muito, a colocar as matérias em dia e a fazer dois trabalhos de pesquisa: um de história e outro de ciências. Com todas estas ocupações, não pudera mesmo pensar direito sobre aquela viagem mágica que fizera com seus amigos. Às noites, antes de dormir, sentava-se à beira do leito para trocar algumas palavras com Teovaldo e falar a Petisco. Porém, logo o cansaço o dominava e se jogava de cabeça no travesseiro, pegando no sono. Finalmente chegou o sábado. Pelas oito da manhã ele pulou da cama satisfeito, cheio de vigor, esfregando as mãos, indo para os lados de Teovaldo. - É hoje, Teovaldo, vamos viajar de novo! Já estava começando a ficar nervoso de tanto estudar, a semana não queria acabar nunca! - Currupáco! - exclamou o papagaio meio desanimado. - Que foi? Não está satisfeito com a idéia? - Currupáco! - continuou a exclamar. - Vamos, ânimo! Será que prefere ficar aqui, neste quarto, enquanto Petisco e eu conhecemos coisas novas e fascinantes? - Não sei... , não sei - o desânimo era agora evidente. - Não sabe o quê? - Não sei se vou. Estou muito bem aqui com as penas de minhas asas e de meu rabo. Daquela vez quase perdi tudo, currupáco! - Não exagere, Teovaldo, foram só uns sustinhos à toa. Não deram nem pra meter medo, ou será que deram? - Medo, medo, não. Mas um pouco de receio deram sim. Se a gente vai se meter com coisas que não nos dizem respeito, podemos acabar muito mal. - Coisas que não nos dizem respeito? Ora, seu papagaio acomodado. Como é que não nos dizem respeito? Então não se lembra do que nos disse Servo-38? - Lembro, sim, daquele baixinho prosa, lembro-me muito bem! - Então será que não valeram à pena os riscos porque passamos para sabermos que os minerais têm vida, alma e energia? Que as almas e os corpos de uns avançam e se enchem de beleza enquanto de outros se atrasam? E tudo o que vimos com nossos próprios olhos? Estas coisas não lhe ensinaram nada? - Bem, ensinar, ensinaram, mas... - Mas o quê? - Não me convenceram, currupáco!

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- Ora, assim é demais. Pedro saiu resmungando e foi ao banheiro. Após o café, procurou Petisco falando-lhe ao ouvido. O cãozinho latiu satisfeito, abanando o rabo, e ficou em expectativa. Pedro entrou novamente dizendo a sua mãe que sairia a passear com Petisco, talvez demorasse, e que não se preocupasse. Ela, atarefada na arrumação da casa, nem ligou muito ao que lhe foi dito, fazendo breve aceno de cabeça. Tendo Pedro colocado o cinto saíram ambos, ele e o cão, atravessando a rua, tomando o rumo da mata que muito bem conheciam. Quando começavam a embrenhar-se ouviram atrás um ruído, voltando-se. - Ei, vocês não podem sair assim sem me avisar! – protestou irritado Teovaldo, vindo pousar no ombro do menino. - Ué, você não disse que não queria ir? - Eu não disse isso, não senhor, eu disse que não sabia! - E agora, você já sabe? - Sei! - Então? - Então, o quê? - Vem ou não vem? - Que pergunta! - Arre! Eu acho que ele disse sim, não foi, Petisco? O cãozinho somente latiu. Os três se aprofundaram pela mata. Em certo local pararam debaixo de uma árvore, certificando-se de que não havia ninguém pelos arredores. - E pra onde você pretende ir, Pinote? – perguntou o papagaio. - Bem, eu estive fazendo um trabalho esta semana na escola, sobre a flora, e achei que gostaria de conhecer um pouco mais sobre o reino vegetal do lado de lá. Que acham? - Pra mim está bem – disse Teovaldo. Petisco latiu novamente. Pedro ficou satisfeito e voltou-se para o nascente; puxou a camisa xadrez para fora das calças, abriu o fecho do estojo e retirou o disco de ouro. Teovaldo como já estivesse sobre seu ombro direito assim permaneceu. Pedro arcou-se trazendo Petisco para debaixo de seu braço, apertando-o suavemente contra o corpo e colou o disco sobre o plexo, ao lado esquerdo do umbigo, pronunciando: - Senhor do Espaço eu quero viajar, me leve no tempo pra outro lugar; me leve pro Reino da Floresta! O disco de ouro rebrilhou como um sol de muitas cores. Em três segundos eles desapareciam de sob a árvore e da vista de todas as coisas. E neste redemoinho em que mergulharam, Pedro pôde ainda ver num relance que seu relógio marcava exatamente nove horas! - Pronto, chegamos! - Ué, que lugar feio! – reclamou Teovaldo. - Não tem planta viva alguma! – observou Petisco, que deste lado podia falar.

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- É mesmo, só vejo galhos e troncos secos. Até parece que um incêndio aconteceu por aqui! – admirou-se o menino, que deste lado chamava-se Cabelos de Ouro. Realmente, a visão que os três tinham não era nada animadora: uma floresta inteira a perder de vista, transformada em milhares e milhares de esqueletos. Não havia uma plantinha sequer que fosse verde, nem uma minúscula folha, nem um capinzinho: estava tudo seco! Cabelos de Ouro colocou Petisco no chão e resolveu caminhar um pouco. Mas o panorama em nada mudava; a desolação era total. - Não vejo nada vivo, Cabelos de Ouro – afirmou Teovaldo. - Nem eu! – confirmou Petisco. - Eu também não, amigos. Creio que deveríamos sair daqui e procurar outro lugar. Neste momento Petisco começou a latir, se metendo por entre uns galhos e desaparecendo. - Petisco, volte aqui! – o menino chamou-o, preocupado. - Lá adiante, Cabelos de Ouro, ele está farejando algo. Acho que descobriu alguma coisa! O menino saiu atrás do cão, se enfiando também por debaixo de galhos secos. Teovaldo se encolhia sobre o seu ombro, meio desequilibrado, batia as asas e reclamava: - Cuidado, cuidado, currupáco! Cabelos de Ouro finalmente alcançou Petisco e se arcou para examinar o que havia detrás de um tronco. - Oh, um anão! – exclamou surpreso, ajoelhando-se diante dele. - Outro? – reclamou Teovaldo se lembrando de Servo-38. - Mas este é diferente – explicou Petisco. De fato era um anão, mas diferente daquele que haviam encontrado noutra jornada, no Reino das Pedras. Este se vestia como uma pessoa comum, embora com pessoais detalhes. Usava calças justas azuis, de pernas enfiadas nas botas marrons, até a altura das canelas e com camisa amarela de mangas inexistentes, esfiapadas aos ombros. Tinha na cabeça um gorro vermelho com um comprido rabicho que se dobrava para baixo terminado numa pequena bola. Estava ali, sentado, junto daquele tronco seco, com braços envolvendo as pernas encolhidas e rosto enfiado entre os joelhos. - Ei, amigo, como se chama? – perguntou o menino educadamente. O anão nem se mexeu, ficando como estava. - Quem é você? – insistiu do mesmo jeito. - Sou um gnomo, rapaz, não está vendo? – finalmente respondeu com voz abafada e rosto ainda escondido. - Um gnomo? – repetiu interrogativamente Teovaldo. - Um gnomo? – Cabelos de Ouro também se surpreendeu. - É..., um gnomo, sim, que coisa! Vão embora, deixem-me em paz! – respondeu zangado.

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- Mas por que está assim? – insistiu Teovaldo. - Porque sim! - Mas o que houve? – voltou a insistir Cabelos de Ouro. - Que houve? Então vocês não estão vendo, ora essa! – continuou ainda zangado, levantando a cabeça pela primeira vez. Os três puderam então observarlhe a fisionomia. Seus olhos, a barba inteira e sobrancelhas eram negros. A testa era vincada e as orelhas muito grandes para o seu tamanho. - Você diz..., da floresta? – Petisco perguntou desta vez - É..., da floresta, de tudo isto que virou em nada! – respondeu ainda com zanga. Ele se levantou diante de Cabelos de Ouro e sua altura seria de um metro. - Como isto aconteceu? – insistiu Cabelos de Ouro. - Aconteceu, acontecendo. Foi secando, secando e pronto! – respondeu rispidamente, batendo as mãos contra as coxas. - E quando tudo isso ficou seco? – Teovaldo perguntou. - Quando eu não sei. Somente sei que aqui não se trabalha mais! - E tinha gente que trabalhava aqui? - Claro que tinha, menino bobo! Não lhe disse que sou um gnomo? Os gnomos são responsáveis pela conservação da forma e vida de todas as plantas! - São?? - Claro que somos! Trabalhamos dia e noite, aqui, ali e acolá; não somos preguiçosos, não! E esta floresta era linda, cheia de árvores frondosas e frutíferas, com trepadeiras esparramadas, flores coloridas por todos os lados. Os pássaros cantavam, os animais corriam e pulavam, os córregos murmuravam. As ondinas bailavam, os silfos se embalavam sobre a aura perfumada das árvores. Tudo era beleza, tudo! - Oh! - Currupáco! - Au, au! Silêncio, porém logo Teovaldo voltou a perguntar: - Que são ondinas e silfos? - São vidas que habitam as águas e o ar, ora essa. E nós agora não temos mais nada pra fazer e ficamos por aí – mostrou com braço direito estendido e mão aberta, fazendo movimento adiante, de um lado a outro. - Mas por que você não se muda para outra floresta? – perguntou Teovaldo. - Ora por que. Porque não posso, gnomos precisam ficar até o fim! - Dim-dom, dim-dom, dim-dom! Ding-ding-dom, dim-dom! Ding-ding-dom, dimdom! Dim-dom, dim-dom! Uma espécie de canto muito bem entoado penetrou agudamente os seus ouvidos. - Ei, que é isso? – espantou-se Cabelos de Ouro, se levantando e procurando. - É alguém cantando! – afirmou Teovaldo. - Dim-dom, dim-dom, dim-dom! Ding-ding-dom, dim-dom! Ding-ding-dom, dimdom! Dim-dom, dim-dom! O canto se repetia agora mais próximo. - Ele está vindo, Cabelos de Ouro! – gritou nervosamente Petisco.

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- Mas de onde? O canto parece surgir de todos os lados ao mesmo tempo! De repente: “craac!”, o estalido de um galho, e eles puderam perceber uma direção. - Ali, Cabelos de Ouro, um vulto negro, currupáco! – gritou assustado Teovaldo, batendo as asas. - Cuidado, ele está vindo, au, au! - Dim-dom, dim-dom, dim-dom! Ding-ding-dom, dim-dom! Ding-ding-dom, dimdom! Dim-dom, dim-dom! Eles agora o viam de perto, parado à sua frente. - É um velho todo de preto! – gritou Teovaldo. - E como uma bengala na mão! - surpreendeu-se Petisco. - Não é bengala, Petisco, é um cajado – corrigiu-o Cabelos de Ouro. O velho sorria-lhes estranhamente. Estranha também era sua veste negra: uma túnica larga, brilhosa, toda pregueada, e um capuz. As mangas da túnica eram meio justas até o início dos antebraços, alargando-se dai para diante. Calçava sandálias trançadas, também negras. O cajado no qual se apoiava era sinuoso como uma cobra, tendo encravadas na coroa sete pedras verdes que a contornavam. Ele era bastante alto, de olhos verdes como as pedras. Embora fosse muito velho e de cabelos brancos, sorria como um jovem. Quando começou a falar, surpreendeu a todos com sua voz musicada: Eu venho saudar-vos, oh vós que chegais, Aqui neste reino sem vida e sem luz, Eu venho cantando pra vós que aqui estais, De negro vestido, cajado e capuz. Do reino não sois porque assim logo vejo, Nem a mim conheceis vejo isto também, E se posso adivinho: existe um desejo, O meu nome saber por que sou um alguém. - Chi..., ele fala em verso. Cada um que me aparece! - reclamou Teovaldo. - Sim senhor..., eu quero dizer, nós queremos saber quem é - respondeu o menino. Sou o mago do tempo aqui neste reinado, Que o verde não tem porque vida esgotou, Vivo há milênios no lado encantado, Sou velho, sou jovem, me chamam Armou. - Mas como o senhor pode viver tanto tempo aqui, onde não existe nada? O gnomo nos disse que ele não pode mais trabalhar porque tudo morreu!

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Estou lá, estou cá, daqui nada me afeta, E do ar me alimento e mais d'água e do vento, A agir, eis, porém, a vontade me alerta, Pois os outros precisam colher seu sustento. Algo terrível um alguém construiu, Com mal na cabeça, no corpo, na mão, E com malquerença ao calor consumiu, Da vida, da terra, das seivas, do chão. As plantas secaram, secou toda a terra, A água que tinha em vapor se desfez, A vida que em corpos se guarda e se encerra, Das aves, dos bichos, se foi de uma vez. Voaram, andaram, correram depressa, Abrigos, refúgios e coisas buscaram, Deixando-me a mim; solitário e sem pressa, E gnomos, coitados, que à terra encantaram. - Ué, como é que o senhor sendo tão poderoso nada fez para impedir isto? interferiu Teovaldo. - É..., por quê? - ajudou-o Petisco. Poder que carrego no tempo resumo, E nele registro o que vejo e alcanço, As eras eu vejo pra's almas dou rumo, E agora e sou sempre, e em passado me lanço. Na estrada do tempo é que eu posso rolar, Atuar cá nos reinos não posso fazer, É minha tarefa aos espaços olhar, E de coisas diversas só posso dizer. Porém quero agir, a minh’alma se inquieta, Por isso procuro o herói que me ajude, Que parta, que busque e se lance na meta, Que faça e resolva o que aquilo eu não pude. - Já vi tudo, vai sobrar pra nós. Já estava demorando! - reclamou Teovaldo. - E como alguém pode ajudar? O que poderá fazer? - perguntou Cabelos de Ouro. Possua este herói muita força e coragem, Tenh' alma bondosa e vontade tenaz, Disposto ele busque onde tantos não fogem Que saiba partir dando voltas pra trás.

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Por isso viajante que ao ver-te chegando, Com aura dourada disposto a rasgar, Da vida mistérios, eu vim caminhando, Alegre, cantante, para em ti confiar. - Em mim confiar? - Não falei? Eu sabia, currupáco! O mago prosseguiu, falando de novo para todos: E quão vosso é o direito de assim recusar-vos, De nada fazer nada sois obrigados, E de vós não direi nada posso acusar-vos, Se assim ficarão tal floresta e reinado. Cabelos de Ouro começou então a pensar. Que pena, bem que tudo podia estar como antes. Mas nada. Tudo aqui é morte, até parece um cemitério! Ele baixou a cabeça e encontrou o rosto sisudo do gnomo que o olhava com expressão interrogativa. Voltou-se de novo para Armou e encontrou-lhe o mesmo sorriso. O mago aguardava como o próprio tempo. - Bem que eu gostaria de ajudar, mas o que poderia fazer senhor Armou? Pouco posso dizer-vos que ides fazer, Nem vos posso prever do que hão de passar, Que é certo, porém, mil perigos haver, E coisas terríveis caminhos fechar. - Seja o que for estou agora disposto a fazer. Levarei meus valentes amigos Teovaldo e Petisco! – Cabelos de Ouro finalmente se decidia. - Currupáco... – fez Teovaldo, completamente desanimado. - Au! Au! – fez Petisco mais ativo. - Além do mais, continuou o menino, levo comigo o disco de ouro que haverá de nos transportar à salvo. O disco que pode a lugares levar-vos, E de volta trazer-vos à salvo também, Aviso, entretanto, não vai transportar-vos, Pois neste lugar tal efeito não tem. - Não tem? - Estamos fritos, currupáco! - Como então? Que lugar é este, onde fica? Lugar que vos falo pertence ao passado, Na mente, no tempo tereis de viajar, Por isso que o disco de brilho dourado, Não pode ao presente fazer-vos voltar.

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Que para a jornada vos seja possível, Bem antes da porta vós tendes d’estar, E aquela que roda uma roda no incrível, Menino, resposta, tu tens de lhe dar! Cabelos de Ouro coçou a cabeça em dúvida. Mas como tinha dado a sua palavra, confirmou-a: - Está bem, eu tentarei, eu e meus companheiros! A vós um alerta é preciso fazer-vos, Pensai, refleti, e guardado há de estar, Resposta agradando e puderdes meter-vos, Depois de repente quiserdes escapar. Meu nome gritando onde esteja hei de ouvir, Perigo enfrentando ou com medo, talvez, Farei num relance a vós todos sumir Mas uma somente e somente uma vez! Porém a missão sendo aqui interrompida, A ninguém permitido será lá voltar, Esperança aos reinos pra sempre é perdida, Jamais novamente se pode tentar. - Chi... Cabelos de Ouro, no que fomos nos meter! – reclamou Teovaldo. - Se sairmos de lá antes do tempo tudo estará perdido! – lamentou Petisco. - Que missão difícil, amigos. Ainda nem a começamos e tudo parece já estar contra nós. O disco de ouro não nos servirá; teremos de responder perguntas para atravessar a porta do tempo; e agora esta última. É um grande desafio, mas vou aceitar. Alguém quer desistir? Silêncio. Ele então se voltou para Armou: - Estamos prontos, senhor Armou. Pode levar-nos até a porta que nos conduzirá ao passado! Armou sorriu com mais beleza e levantou os braços, segurando numa das mãos o seu cajado. Em seguida recomeçou: - Dim-dom, dim-dom, dim-dom! Ding-ding-dom, dim-dom! Ding-ding-dom, dimdom! Dim-dom, dim-dom! Oh! Seres do anel, da memória e momento, Navegai pelo éter, no intemporal, Aqui vos invoco daqui me apresento, Carregai estes três para aquém do portal!

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E sacudiu o cajado por sobre eles. As pedras verdes lançaram então súbitas faíscas que se transformaram em luminosa, fosforescente e flutuante areia verde que os cobriu da cabeça aos pés. Vuuupt! Sumiram dali, ressurgindo noutro lugar. - Outra floresta! – observou surpreso o menino. - Esta é verde – confirmou Petisco. - Ui, que calafrio! – reclamou Teovaldo. - Também sinto um mal estar e creio já estar sabendo por quê. - Por que, Cabelos de Ouro? – perguntou o cão - Reparem melhor nas árvores e nas flores, e me digam o que veem. - É mesmo..., estão em pé, mas não parecem vivas! – exclamou Petisco. - Dão a impressão que não têm almas – observou Teovaldo. - Exatamente, amigos. Não há energia nelas, estão morrendo. Pelo que sabemos das almas das coisas, as formas das plantas deveriam conter uma nuvem, uma luz ou qualquer coisa assim. Pelo menos foi o que nos falou Servo-38 a respeito das almas, lembram-se? - E aqui a gente não vê nada disso – reafirmou Petisco. - Mas como é que pode? – perguntou Teovaldo. - Bem, eu creio que o senhor Armou nos enviou para uma faixa do passado quando este reino ainda não secou, mas também não se transformou ainda numa floresta cemitério. Pelo jeito não está faltando muito para isto. Vamos andar um pouco, afinal temos de encontrar a tal porta. E começaram a andar. A floresta estava gélida. Um silêncio de assustar era o que encontravam em todas as direções e caminhos que tomavam. Não viam nem ouviam pássaros ou animais. As flores que ainda existiam pendiam dos caules ou estavam caídas pelo chão. Em certos trechos pisaram sobre milhares de folhas. Depois cruzaram os leitos quase secos de dois riachos, vendo somente filetes de água. Era tudo muito desolador! De repente ouviram algo: uma espécie de choro. Petisco saiu em disparada, latindo, e desapareceu detrás de arbustos. Cabelos de Ouro veio em seguida, chamando-o, e o encontrou um pouco adiante a farejar junto ao tronco de uma árvore. - Oh! É o mesmo gnomo que encontramos na outra floresta! – exclamou surpreso. - Essa não! Como ele veio parar aqui? – perguntou Teovaldo. - Está sentado na mesma posição de antes! – admirou-se Petisco. O gnomo soluçava sem se incomodar com a presença dos três. - Ei, amigo, somos nós! – falou Cabelos de Ouro em tom alegre, acocorandose e apoiando as mãos no chão, olhando-o mais de perto. O gnomo, entretanto, não deu a menor importância; continuava com a cabeça enfiada entre os joelhos, como da outra vez. O menino voltou a tentar: - Estamos aqui para ajudar, não se lembra? O senhor Armou confia em nós. Não chore, vamos achar a porta e mergulhar no tempo!

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Entretanto, o gnomo desta feita não queria mesmo saber de falar e continuou a soluçar. E soluçava com tamanho sentimento que Teovaldo e Petisco já começavam a ficar tocados. - Currupáco, currupáco! - Hum, hum! - Creio que não adianta mesmo, disse o menino coçando a cabeça e desistindo, além do mais ele não nos conhece aqui porque voltamos no tempo. Vamos seguir, amigos! Seguiram. Quando muito tinham andado não vendo nenhuma novidade, pararam para descansar. - Uff..., como é longe esta porta – disse o menino sentando-se num pedaço de grama quase seca. - Que coisa difícil, está tudo complicado, que droga! – reclamou Teovaldo. - Será que viemos parar no lugar certo? - perguntou Petisco. - Acho que sim, o senhor Armou não nos mandaria para outro lugar. - Não sei, não sei...! – duvidou o papagaio. Após o descanso prosseguiram. De novo caminharam até não agüentar mais. Como a noite começasse a chegar eles se aconchegaram debaixo de uma árvore, sobre um colchão de folhas, e dormiram profundamente. Ao acordar o dia raiava triste como tudo ali - e viram que estavam cobertos de outras folhas que haviam caído durante a noite. - Precisamos continuar – disse Cabelos de Ouro se levantando. - Mas para onde? – perguntou Teovaldo. - Não farejo nada que seja diferente do que já vimos – disse Petisco. - Não importa, temos de procurar. Vamos em frente. Retomaram a caminhada. Entravam aqui, saíam ali; desviavam-se de um galho, rodeavam um tronco de árvore, tomavam um estreito caminho, depois outro, e nada! Não viam qualquer sinal de vida; nem uma simples e despreocupada borboleta, um inseto vagabundo ou preguiçosa lagarta! - Ai, que vontade de desistir! – reclamou Teovaldo. - Huuum! – ganiu Petisco com desânimo. - Não falem assim, já se esqueceram do que o senhor Armou nos disse? Ele confia em nós! - Mas sequer achamos a porta, quanto mais o lugar! – reclamou de novo o papagaio. - Não faz mal, vamos continuar – reafirmou o menino. Adiante foram surgir numa clareira rodeada por altos arbustos. Para além da clareira, uma estreita trilha se mostrava como a única alternativa para prosseguirem. Cabelos de Ouro adiantou-se e entrou por ali, Petisco vinha logo atrás. O menino lutava para se desvencilhar dos galhos que o atrapalhavam. No seu ombro Teovaldo reclamava; levantava um pé, depois outro, se encolhia todo ou abria as asas para se equilibrar.

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Em certo trecho a trilha alargou-se, adiante mais ainda, até que terminou num tapete de grama. Na extremidade oposta deste tapete verde, havia duas grossas e velhas árvores como se fossem duas grandes colunas. Entre elas a trilha de novo se estreitava, permitindo a passagem de uma só pessoa a cada vez. Cabelos de Ouro se aproximou e quando ia passar entre as árvores, foi advertido: - Menino de cabelos dourados, aonde vai com tanta pressa? Ele olhou para todos os lados, mas não conseguiu ver quem lhe falava. Petisco latiu nervosamente. - Quem é? - Sou eu – respondeu a mesma voz. - Eu quem? - Aonde vai, menino, com seus companheiros? – continuou a voz, ignorando sua pergunta. - Estamos procurando a porta do tempo – respondeu simplesmente. - A porta do tempo, ora quem diria, um simples menino! - E um papagaio chamado Teovaldo! – intrometeu-se Teovaldo. - E um cão valente chamado Petisco! – falou também o cãozinho. - Três tipos diferentes! E acham que podem passar pela porta do tempo, assim, somente querendo? - Bem..., quero dizer..., sim senhor! – respondeu o menino. - Senhora! - Senhora? Então eles viram de quem se tratava. Ela veio escorregando e parou ao alto, bem diante deles, entre ambas as árvores. Suspendeu a enorme cabeça e lançou sua língua muito vermelha para fora, olhando-os atentamente. - Uma serpente, Au! Au! - Cruz credo, currupáco! - Uma serpente? – indagou espantado Cabelos de Ouro. - Sim, uma serpente, ela confirmou, e aqui estou para impedi-los... - Impedir-nos? – interrompeu-a Cabelos de Ouro. - Ou abrir-lhes a porta! - A porta? Então a porta é aqui? - Sim, no meio destas árvores, mas ninguém passará sem antes desvendar um enigma. - Qual enigma? - Um enigma, não importa qual. Mas para onde pretendem ir? - Para o passado, quero dizer, mais ainda – respondeu Cabelos de Ouro. - Para o passado? Que temeridade, jovem audaz! Não sabe por acaso que se rebuscarmos ao passado podemos nos perder nos caminhos que já foram? - O senhor Armou nos disse que se precisássemos de ajuda era só gritar o seu nome! - É isso mesmo, ele disse! – confirmou Teovaldo já meio irritado com aquela conversa. - Não é disso que estou falando, gente, estou falando da cabeça! - Cabeça?

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- É..., da cabeça, sim! O passado faz girar a cabeça e o que passou volta a passar. O bem retorna como bem, mas o mal retorna como mal; então dá uma confusão deste tamanho! A gente acaba não sabendo direito quem somos ou o que fizemos. - Ai, ai, vamos entrar bem mais uma vez! – resmungou Teovaldo. - Mas isso pode acontecer conosco? - Claro que sim, com todo mundo. Mas por que está pensando nisto se ainda nem desvendou o enigma? - Então pergunte logo e deixe de conversa fiada! – enervou-se Teovaldo. - Psiu..., quieto, Teovaldo, ela só está nos alertando. - Ora, o que ela devia fazer era primeiro perguntar, depois alertar, currupáco. - Está bem, então eu vou perguntar uma única vez. Preste bastante atenção, menino, por que eu não vou repetir. Somente você poderá responder: O que é que corpo não tem, Cabeça ou membros também; Está dentro de tudo, E fora de tudo ele existe; Não tem boca e nem olhos, Mas tudo ele engole e assiste; Está aqui, esteve ali, está acolá, E onde quer que estejamos, Igualzinho ele será. Não é Deus! - Está difícil mesmo! – comentou Teovaldo. - Eu também não sei – falou Petisco. Cabelos de Ouro trouxe a mão ao queixo e começou a pensar. Olhou para o chão, para o alto; repetiu algumas palavras do enigma e de repente gritou: - O tempo!! - O tempo! Bravos menino! - disse a serpente. Petisco latiu comemorando. - Boa Cabelos de Ouro, viva! – comemorou também Teovaldo, logo resmungando - ué, nem sei por que estou tão alegre se só vamos enfrentar perigos! - Agora, menino, você e seus amigos poderão passar, mas antes você precisará me dizer que lugar é esse do passado que deseja ingressar. - Queremos ir para onde alguém fez uma coisa que secou esta floresta inteira. - Ah, já sei! – disse a serpente. Ela então escorregou para um galho seco que ficava mais ao alto, apontado para diante do caminho, entre as duas árvores. Uma vez apoiada neste galho, formou um grande anel com seu grosso e comprido corpo, quase tocando o chão. Trouxe a ponta da cauda para dentro da boca, retirou-a da boca e falou: - Preste muita atenção, menino, eu não vou repetir. Você irá segurar a minha cabeça e puxá-la para baixo, dando uma volta e meia no meu corpo para a esquerda. Daí entrarão pelo meu anel e você pensará com firmeza onde deseja

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chegar, dando depois três passos à frente. Lembre-se bem, uma volta e meia para a esquerda, e o passado retornará. Adeus e boa sorte! Cabelos de Ouro assentiu e se aproximou da serpente. Ela novamente mordia a extremidade da cauda. O menino ficou na ponta dos pés e puxou-lhe a cabeça conforme ela havia ensinado, girando seu verde e grosso corpo para a esquerda, completando uma volta. Em seguida, sem retirar a mão, puxou-a de novo e ela continuou a deslizar, ficando a meio caminho, de cabeça para baixo. Ele então se curvou tomando Petisco nos braços, tendo já Teovaldo no ombro, e atravessou o anel pensando firmemente no lugar ou situação que buscava, dando os três passos. Pluuff! Sumiu quase tudo em redor. Ele virou-se olhando para trás, notando que o lugar de onde tinham vindo houvera desaparecido completamente. O que existia agora era outro panorama, embora de uma floresta! Como tivesse de andar, ele recolocou Petisco no chão e foram saindo cautelosamente. Observaram logo que a vegetação, embora de mesma qualidade, estava novamente com outro aspecto. Ninguém falava. Petisco à frente ia farejando tudo e de repente percebeu algo: - Ali, Cabelos de Ouro, naquela árvore imensa, tem alguma coisa se mexendo nela! Eles correram para lá e notaram que uma nuvem penetrava a árvore até a copa. A nuvem mostrava-se agitada e de luz fraca. - Que alma esquisita de árvore. Até parece que está sofrendo – observou o papagaio - Tem razão, Teovaldo, e acho que está mesmo. Está passando por uma agonia, veja como algo a puxa, mas ela procura prender-se no corpo da árvore! - Que luta! O que será isto? – perguntou Petisco. - Ainda não tenho a menor idéia; mas pelo que vejo, ela é a primeira alma vegetal que encontramos nesta floresta. Nenhuma outra planta possuía alma. - Lá adiante, Cabelos de Ouro, tem outra. Ela também está lutando assim! – gritou Teovaldo. - Ali, vejam, outra, está se desprendendo. Pronto, sumiu! – apontou Cabelos de Ouro, mais do que admirado. Eles se apressaram em direção da árvore notando como ela imediatamente começava se transformar, perdendo de pouco em pouco a vida que possuía. Cabelos de Ouro pôs as mãos no tronco. - Está frio, parece morto! – falou admirado. Súbito Petisco latiu. Alguma coisa se moveu detrás de um arbusto: era um vulto, e foram em sua direção. Nada encontraram, mas Petisco farejou e saiu correndo. Cabelos de Ouro o seguiu. Adiante perceberam novos movimentos. Aproximaram-se mais e encontraram algo. - Uma escada, e vai para o fundo! Aquele vulto que não conseguimos alcançar deve ter descido por ela, vamos! – disse o menino. Cabelos de Ouro segurou Petisco e começou a descer. À medida que desciam viam que a escada com degraus escavados na rocha era toda iluminada por archotes presos às paredes. A escada era imensa! - Uff! Que calor aqui embaixo!

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- Estou ficando sufocado – reclamou Petisco. Quando os degraus terminaram, viram que estavam no começo de um túnel. Prosseguiram pelo túnel também iluminado por archotes, notando o seu final alguns metros adiante. Apressaram-se e finalmente atingiram a saída. Porém nova surpresa os aguardava: - Veja, Cabelos de Ouro, veja! – excitou-se Teovaldo. - Uma cidade!! – admirou-se o menino.

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CAPÍTULO III FUGA DESENFREADA Era realmente uma cidade, mas muito estranha. Daquele patamar onde se encontravam, bem no meio de uma pedreira cercada por morros de terra preta, podiam distinguir parte dela. As casas de arquitetura jamais vista, pareciam como o fogo de tochas que houvesse endurecido. Os telhados tinham formatos pontiagudos lembrando chamas congeladas, e as paredes possuíam sulcos de cima abaixo. Eram todas arredondadas e de um vermelho muito vivo. Dali podiam ver centenas de archotes e o menino calculou existir ao todo milhares de casas. Não havia qualquer movimento pelas ruas ou nas redondezas das casas; parecia estar tudo deserto. - Que cidade feia! – resmungou Teovaldo. - Sem graça nenhuma e ainda iluminada por tochas – comentou também Petisco. - Têm razão, amigos; é uma cidade realmente muito esquisita. - Que fazemos, Cabelos de Ouro? – perguntou Petisco. - Vamos descer e investigar! Pularam do patamar e desceram por um caminho cheio de curvas. Ao término, viram-se diante do alto muro que protegia a cidade, parando junto aos dois portões de ferro que se colavam. - Um dos portões está entreaberto, vamos entrar – apontou Cabelos de Ouro. - Lá vem confusão, currupáco! - Deixe de se lamentar, Teovaldo, se até aqui chegamos não fica bem recuarmos – insistiu o menino. Entraram, porém, tão logo deram os primeiros passos alguém gritou: - Pare! Você está cercado! Centenas de seres que estavam escondidos detrás do muro surgiram com lanças nas mãos. Os três heróis se assustaram, espantando-se com o tipo físico deles. Eram absolutamente da mesma cor das casas, isto é, vermelhos. Pareciam do mesmo material. Seus membros possuíam pequenas faíscas endurecidas que se lançavam para cima. As mãos e pés tinham formatos em pontas, mostrando somente um grande dedo. As cabeças e rostos pareciam com o desenho de tochas; os olhos e bocas eram ovais e puxados para cima. Buracos substituíam os narizes e as orelhas, também puxadas para cima, colavam-se às suas cabeças. Possuíam alta estatura; eram magros e andavam com relativo desembaraço. Neste momento cercavam os três visitantes, apontando-lhes as lanças. - Esperem, viemos em paz! – falou-lhes o menino. - Cuidado, é ele mesmo, o espião do sol, vejam os seus cabelos! – gritou um deles.

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- Espião do sol? - Currupáco! - Sim, é você mesmo e não tente nos enganar, os seus cabelos mostram isso! Um vozerio espalhou-se entre eles. - Ouçam, é um engano! Eu não sou espião do sol, os meus cabelos são assim mesmo! - Chega! Vamos levá-los ao grande imperador. Ele saberá o que fazer com vocês! – ordenou o que comandava. Imediatamente formaram fileiras pelos flancos. O soldado que estava atrás encostou a ponta da lança nas costas do menino. O comandante colocou-se à frente e as alas passaram a marchar. Cabelos de Ouro segurou Petisco e seguiu com eles. Na medida em que iam passando pelas casas o comandante ia anunciando: - Tudo sob controle, o espião é nosso prisioneiro! Os moradores então saíam e gritavam comemorando: - O espião é nosso prisioneiro! O espião é nosso prisioneiro! E foram andando sob a iluminação de archotes. Dobravam por uma esquina, seguiam em frente, entravam noutra rua e continuavam no mesmo passo, em mesma marcha. Por todos os lugares o comandante gritava e anunciava que o espião era prisioneiro. Logo apontaram numa rua mais larga que terminava numa casa gigantesca de construção igual a todas as outras. A enorme casa ligava-se a uma montanha mais atrás. Cabelos de Ouro teve a impressão que de dentro da casa se podia ingressar no interior da montanha. Ao se aproximarem da escadaria os soldados pararam e o comandante gritou-lhes: - Entremos no palácio do grande imperador! De imediato um destacamento de seis homens trouxe os prisioneiros para a escadaria, mantendo-os no meio, enquanto um sétimo soldado acompanhava o comandante. Subiram até a soleira da altíssima porta. O destacamento parou e o comandante deu dois passos, alcançando a grande argola, batendo-a três vezes contra a porta. A porta abriu-se e todos entraram num salão imenso, alto e largo, completamente vazio. - Ufa, que calor! – reclamou Teovaldo. - Sniff, sniff! – fez Petisco sem nada conseguir farejar. Atravessaram o salão. Havia realmente muito calor ali dentro e Cabelos de Ouro já sentia muitas gotas de suor a escorrer-lhe pelo corpo. Ao final, subiram mais três compridíssimos e largos degraus, que iam de um lado a outro das paredes, e se viram diante de nova porta, porém menor do que a anterior. Desta vez o próprio comandante a empurrou e Cabelos de Ouro, temeroso, parou na soleira. - Oh! É uma bola de fogo gigantesca!! – gritou o menino. - Essa não! – exclamou Teovaldo. - Ela se move!! – observou Petisco.

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Neste salão, que era também imenso, a bola de fogo ardia intensamente. Ocupava metade do espaço e tinha muitos metros de altura. O calor era terrível. Cabelos de Ouro e seus amigos jamais poderiam entrar. - Vamos! – ordenou o comandante. - Não podemos, vamos nos queimar! – protestou o menino. - Mas como um espião do sol pode ter medo do fogo? – admirou-se o comandante. - Eu não sou espião do sol, já disse, eu sou do lado de lá! - Viu como está mentindo? Do lado de lá só existe o sol, então você veio mesmo do sol! Neste exato instante a bola de fogo começou a estalar, movendo-se mais intensamente de um lado a outro. O comandante vendo aquilo se precipitou para dentro e se arremessou ao chão, de braços estendidos e assim permaneceu. Os guardas fizeram o mesmo. Teovaldo aproveitou-se e cochichou ao ouvido do menino. - Cabelos de Ouro, nós podemos correr por este degrau até aquela parede. Lá tem uma entrada, quem sabe dá pra fugirmos daqui! - É uma boa idéia, mas antes precisamos saber o que é isto. - Droga de curiosidade. Por causa dela vamos acabar virando assado no espeto! – reclamou o papagaio. A bola de fogo continuava a estalar e uma forma saiu de dentro dela, logo acompanhada de sete outras. A primeira era alta. As sete eram menores e se afastaram um pouco. - Fale comandante!– ordenou a mais alta. O comandante ainda estirado começou: - Grande imperador, capturamos três invasores. Um deles é o espião do sol que tanto temíamos um dia viria nos espionar. - O espião do sol? Estamos com sorte! À medida que falava ele rapidamente ia tomando aspecto de um corpo de homem inflamado, o mesmo acontecendo com as sete bolas menores. Ele adiantou-se dois passos e os sete fizeram o mesmo. - O espião do sol! – falou novamente. - O espião do sol!! – repetiram os sete em coro. Ele olhou melhor para os três e os convidou: - Entrem, quero-os aqui mais perto de mim. - Não podemos, imperador. O calor é forte demais, não agüentaríamos! - Ora, como um espião do sol não resiste ao nosso calor? - Mas eu não sou... - Cale-se! – gritou. Ele então se virou para a bola de fogo, levantando os braços, sendo imitado em tudo pelos pequenos seres. - Então nosso fogo é mais poderoso, somos os mais poderosos! - Somos os mais poderosos! – repetiram os sete. Ele voltou-se para Cabelos de Ouro.

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- O sol o mandou aqui para talvez fazer um acordo conosco. Já nos teme, não é? - Não senhor, imperador, eu estou aqui para saber por que o reino da floresta está secando. - Ah! Ah! Ah! – gargalhou, e os sete também gargalharam – se já está secando é porque eu mandei secar. - Mandou secar? - Sua cabeça de pavio aceso! – enraiveceu-se Teovaldo. - Sim, mandei, e mandarei secar outra floresta, depois outra, e mais outra, Ah! Ah!Ah! - E eu pensei que só na Terra é que tinha cientista louco! – comentou Petisco. - Mas como, imperador, para quê? - Como? Para quê? Ora, então o sol não lhe contou? - Não é isso, é que..., bem, não contou não! - Se não contou é porque não sabe, mas eu vou mostrar-lhe. Olhe para aquele lado! - ele fez um movimento com o braço e a bola de fogo decresceu num pedaço, deixando à mostra alguma coisa. - Oh! São seres transparentes que estão entrando na bola de fogo! – admirouse o menino. - Exatamente, e saindo do outro lado, veja! – mostrou com a mão. Espantados, Cabelos de Ouro e seus companheiros viam centenas daqueles incríveis seres entrando e saindo da bola de fogo. Seus corpos eram como plástico finíssimo e transparente, ou como bolha de sabão. Tinham cabeça, tronco e membros, mas não tinham fisionomia; nos rostos viam-se somente buracos de olhos, de nariz e boca. Logo todos sumiram. - O que eles fazem? - Ao saírem daqui vão entrar na terra, nas pedras, árvores ou qualquer outra coisa existente. Nada os impede. Neste momento estão indo para o solo daquela floresta para continuar a roubar sua energia. Depois retornam e se descarregam aqui na minha “gema de fogo”, voltando para buscar mais lá na floresta. Nem as pedras se agüentarão, nem os rios permanecerão nos seus leitos quando o solo começar a perder sua energia vital! - Mas como eles conseguem fazer isto? - Fazendo. Com meu poder modifiquei a maneira deles trabalhar. Agora, ao invés deles levarem a energia daqui do fundo para cima, eles a roubam da superfície e a trazem para mim, Ah! Ah! Ah! Os sete riram também. Ele, satisfeito, continuou: - Com isso tudo morre, porém nós vamos ficando cada vez mais fortes, até que buuum...! Subiremos para tomar o sol como prisioneiro! - O senhor não deveria fazer isto, imperador. Está prejudicando todos os reinos, toda a vida existente! – repreendeu-o o menino. - Faço, sim, ora essa! E chega de conversa! Agora venham, vou levá-los para dentro da minha “gema de fogo,” lá ficarão presos! - Estamos fritos, Cabelos de Ouro, precisamos sair daqui – cochichou novamente Teovaldo ao seu ouvido. O comandante se levantou e ordenou aos

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guardas que os trouxessem. Cabelos de Ouro então gritou, jogando Petisco ao chão: - Agora, Petisco, corra! E se atirou sobre um dos guardas, derrubando-o. Teovaldo equilibrou-se no ar e saiu voando sobre Petisco. Cabelos de Ouro vinha em seguida, correndo como podia. - Peguem-nos, peguem-nos! – gritava o comandante perseguindo-os. Os três conseguiram chegar ao final daquele comprido degrau e se enfiaram pelo buraco existente na parede. - É um túnel, vamos! – falou o menino. O túnel conduzia para baixo. Eles foram descendo e tropeçando por que a claridade era pouca. Adiante a claridade aumentava e puderam enxergar melhor. Escutavam os passos de seus perseguidores cada vez mais próximos. De repente, pararam ao início de ampla galeria iluminada por uma luz que oscilava. A luz provinha de várias frestas das paredes. O calor era bastante forte e Cabelos de Ouro estava completamente banhado de suor, o mesmo se dando com Petisco. O calor também incomodava a Teovaldo, talvez mais do que a eles, devido as suas penas. - E agora, aonde vamos, currupáco! - Petisco, não está farejando algo? - Nada ainda, Cabelos de Ouro. - Então vamos entrar por aquele caminho. Ao que parece existem cavernas por aqui. Com sorte talvez os enganemos. – disse o menino apontando para adiante. Entraram, mas logo escutaram os ruídos dos passos dos soldados e se apressaram. O caminho era estreito, as rochas estavam quentes. Não demorou chegaram noutra galeria iluminada por tochas. A galeria era circular e tinha outras entradas pelas paredes. Cabelos de Ouro escolheu uma e ingressaram. Ao darem os primeiros passos, Teovaldo gritou: - Uau! Vejam! As tochas estão andando! - Não são tochas, são seres com as cabeças em chamas! – falou o menino. Os seres vieram cercá-los. Seus corpos eram idênticos aos dos soldados que os perseguiam, com a diferença de que estavam incandescentes e com cabeças inflamadas. - O imperador mandou! O imperador mandou! – diziam em coro, ao mesmo tempo em que iam formando um círculo em torno dos três. Súbito, uma faixa de fogo os uniu pelas cabeças, formando um único anel. Logo o anel desceu pelos seus corpos até o chão se transformando num tubo ardente, deixando os três amigos totalmente cercados e em grande perigo de serem assados vivos!

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CAPÍTULO IV DJAYAN, UM AMIGO O calor estava insuportável e o tubo ardente formado pelos seres se fechava cada vez mais. Chamas avermelhadas se lançavam para dentro e logo os alcançariam. - Estamos perdidos, não temos saída! – falou nervosamente Petisco. - Grite, Cabelos de Ouro, grite – pediu Teovaldo. - Gritar o quê? - Para Armou, ele é o único que pode nos tirar daqui! - Mas e depois, e depois? - perguntou angustiado. - O depois fica pra depois, currupáco. - Grite, Cabelos de Ouro, já não agüento mais! – pediu também Petisco. - Não posso, será o fim do reino da floresta! Teovaldo então desesperado levantou voo e desapareceu sobre o tubo. - Teovaldo escapou! – gritou Petisco. - Tomara que sim. O tubo vinha se fechando, eles já não tinham mais como se agüentar. Cabelos de Ouro trazia o braço à frente protegendo os olhos, e Petisco protegia os seus com as patinhas. De repente, uma pedra foi lançada na cabeça de um daqueles seres, rolando para dentro do tubo, parando aos pés do menino. Viera de Teovaldo, que lá de cima a deixara cair, em seguida batendo as asas novamente desaparecendo. Cabelos de Ouro viu que o círculo de fogo diminuíra quando a pedra batera na cabeça daquele ser e teve uma idéia. Procurou e achou uma pedra grande que a segurou com ambas as mãos. Nisto, Teovaldo voltou com outra pedra nas patas. Cabelos de Ouro gritou-lhe: - Jogue no mesmo, Teovaldo, no mesmo! Teovaldo fez como solicitado e o menino, por sua vez, lançou sua pedra no mesmo ser. "Plict", "Ploft," fizeram ambas, atingindo a cabeça dele, fazendo-o cair. Imediatamente formou-se uma abertura onde ele estivera e Cabelos de Ouro agarrou Petisco, pulando pela abertura, escapando daquele inferno de chamas. - Por aqui, venha! - chamou Teovaldo, mostrando um grande túnel. Cabelos de Ouro correu mais do que pode, entrando pelo túnel. Os seres, entretanto, não lhes deram tréguas e vieram em suas perseguições. Os soldados vinham logo atrás, já transformados também em seres de chamas. - Depressa, Cabelos de Ouro, depressa! - gritava Teovaldo voando sobre sua cabeça. Cabelos de Ouro fazia o que podia, evitando tropeçar, porque a claridade era insuficiente. De repente: "chááp!", um dardo de fogo atingiu a parede, próximo a ele; "chááp!", "chááp!", outro e mais outro. - Eles estão atirando, uai, currupáco! Teovaldo foi atingido por um deles, cambaleando no seu voo, caindo ao chão. Cabelos de Ouro largou Petisco e segurou Teovaldo.

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- Como está, Teovaldo? - Ai, ai, os miseráveis queimaram o meu rabo, mas acho que foi só de raspão. - Vamos, Cabelos de Ouro, não podemos perder tempo! - alertou Petisco, impaciente, vendo a aproximação dos seres. Cabelos de Ouro recomeçou a escapada com Teovaldo junto à cintura. Petisco partiu na frente, correndo em zigues-zagues. Os dardos continuavam a ser lançados perigosamente. Logo os fugitivos chegaram ao final daquele túnel e dobraram para a direita. Havia uma rampa e começaram a descê-la. O som de algo que conheciam fez com que o menino e o cão parassem a fim de escutar, porém os seus perseguidores chegaram ao topo da rampa lançando novos dardos. Cabelos de Ouro e Petisco partiram novamente. Chegando ao final da rampa ouviram uma voz: - Ei, entrem por aqui, depressa! Do lado esquerdo da rampa, um menino de cabelos negros e longos, muito claro, vestindo somente um saiote também branco e tendo uma tiara de prata sobre a testa, acenava-lhes. Cabelos de Ouro nem pode entender direito o que era aquela aparição por que um dardo atingiu-lhe a perna, acima do tornozelo, fazendo-o dar um pulo atrás. - Uiii! Que dor!!! - gritou e gemeu, abaixando-se e pondo a mão no local atingido. - Depressa, venha, senão será tarde demais - chamou-o de novo o estranho. "Chááp!", outro dardo raspou-lhe o ombro; "chááp!", outro fez Petisco saltar para o lado e latir. Cabelos de Ouro esforçou-se, pondo-se de pé. Petisco já pulava para junto do estranho e aguardava ansioso. - Rápido, Cabelos de Ouro, eles vão nos alcançar! - gritou Teovaldo, que apesar de tudo permanecia ainda seguro em sua mão. Cabelos de Ouro levantou-se e saiu mancando, entrando pelo túnel indicado. O estranho ia à frente, seguido de Petisco; Cabelos de Ouro vinha mais atrás. Poucos metros haviam vencido e novamente os seres de fogo se puseram nos seus calcanhares. "Chááp!", "chááp!", novos dardos foram lançados, passando muito próximos de suas cabeças. - Falta pouco agora, é logo depois daquela curva1 - apontou o estranho, olhando para Cabelos de Ouro que vinha mancando e se atrasava. O som que haviam escutado tornava-se agora mais audível, e chegando à curva Cabelos de Ouro gritou: - Água, estamos salvos! - Ainda não - alertou o estranho - precisamos antes cruzar aquela cortina! Os seres chegaram à curva, mas temerosos por causa da umidade no chão não prosseguiram. Entretanto, passaram a disparar com melhor pontaria e mais intensamente. Os fugitivos se abaixavam e pulavam, conseguindo finalmente alcançar a cortina d'água, cruzando-a, pondo-se definitivamente a salvo.

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Cabelos de Ouro e Petisco, exaustos, jogaram-se pelo chão, mal conseguindo respirar. Teovaldo pulou para uma pedra e ali permanecia, ao passo que o estranho que os salvara os observava de pé. Passados poucos minutos, ambos recuperaram o controle da respiração vendo que se encontravam numa imensa e alta gruta. A água formava a cortina que tinham atravessado tomando um lado inteiro da gruta, prosseguindo por uma fenda no chão. Vinha do teto, lá de cima, de onde descia uma claridade através de um buraco. O ambiente era fresco e úmido e eles aproveitaram para beber e lavar-se. - Graças a você, amigo, estamos salvos - falou Cabelos de Ouro, cujas palavras receberam aprovação de seus companheiros. - Não foi nada, pessoal, afinal os twichz não são flor que se cheire. A propósito, chamo-me Djayan. - Sou Cabelos de Ouro. - Teovaldo, seu criado. - Sou Petisco. - Como nos encontrou, Djayan? - perguntou Cabelos de Ouro - Isso não vem ao caso agora, o importante é que consegui trazê-los. Como estão todos? - Eu já estou bem - respondeu prontamente Teovaldo. - Eu também – falou Petisco. - Meu tornozelo ainda dói muito. Deixe-me ver como está – falou Cabelos de Ouro levantando uma perna das calças. Ao baixar a meia notou haver um ferimento. Estava vermelho e sem pele, como forte queimadura. Ele recolocou a meia, gemendo, e verificou que a perna das calças, acima do tornozelo atingido, estava também queimada. Ficou de pé e ensaiou alguns passos. - Dói, mas creio que dará para caminhar. - Então vamos, lá adiante tomaremos outro caminho; não é muito longe. – apontou Djayan. Assim fizeram. Djayan ia à frente. O forte ruído produzido pela água os agradava. A água descia por um lado inteiro do caminho e os três heróis tinham a sensação de estar dentro de uma cachoeira. Mais adiante, Djayan parou dizendo: - Aqui entramos! Eles olharam para todas as direções e nada viram, exceto o corredor adiante e a cortina d água caindo neste lado. - Onde? – perguntou Teovaldo e Petisco somente farejou. - Nada vejo Djayan – afirmou Cabelos de Ouro. Ele sorriu e indicou com a mão: - Entramos bem aqui, pelo interior da água. Existe uma abertura na parede que nos conduzirá a um túnel. Vamos! - Segure-me, Cabelos de Ouro, currupáco. Djayan penetrou pela água dando um único pulo, desaparecendo. Eles, indecisos, aguardavam. - Venham, não temam! – gritou-lhes do outro lado. - Vamos Petisco? – perguntou o menino, tendo já Teovaldo entre as mãos. - Vamos! – respondeu o cão. E pularam.

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- Ótimo, estamos todos aqui. Vamos seguir adiante – disse Djayan aos três um tanto molhados, indicando o caminho. O túnel era curto. Logo atingiram um patamar. Havia certa claridade; assim podiam caminhar com desembaraço. Tudo ali era úmido, mas eles se sentiam bem. Djayan apontou para o túnel da esquerda e prosseguiram. Logo pararam. Os três viram então algo que os surpreendeu: um portal perfeitamente quadrado, de pedra clara e transparente, onde existia uma energia que vibrava. De cada lado do portal um homem montava guarda. Possuíam cor branca como Djayan, porém um deles tinha os cabelos louros e o outro negros. O louro usava uma tiara dourada na testa, um medalhão da mesma cor no peito mostrando um sol, e braçadeiras de igual cor nos pulsos. O de cabelos negros usava a tiara prateada, igual à de Djayan, um medalhão da mesma cor no peito, mostrando uma lua crescente, e braçadeiras nos pulsos, também prateadas. Os trajes eram saiotes iguais. Portavam tridentes com idêntica cor dos metais que usavam, apoiando-os junto a um dos pés. Eram cravejados de pedras em várias cores. Ante a aproximação dos três visitantes eles cruzaram os tridentes ao alto, bem no meio do portal, e as pedras faiscaram deixando os visitantes imediatamente paralisados. Djayan falou-lhes: - São amigos, deixem-nos passar! Eles descruzaram os tridentes e os três voltaram a se locomover. - Ui, fiquei preso! – reclamou Teovaldo - Eu também – disse Petisco. - Foi por causa dos tridentes, mas agora estamos livres – disse Cabelos de Ouro. - Venham, acompanhem-me – convidou Djayan. Entraram numa espécie de caixa retangular, transparente, clara e levemente rosada. Ela transmitia, além da cor, outra luz, possivelmente pela energia que nela vibrava. Produzia um som muito agradável. Ao seu final, entraram por um largo túnel. Uma névoa branca espalhava-se por todo o espaço. Raios de luz branca provindos das paredes, do chão e teto, cruzavam-se: era tudo fantástico! - Que lindo, Djayan, nunca vi nada igual! – admirou-se o menino. - Que fumaça é essa, será gás? – perguntou Petisco. - Isto não é fumaça, é vapor d'água! – respondeu Djayan. - Para que serve? – insistiu o menino. - Saberão depois. Vamos prosseguir. Tão logo deram os primeiros passos alguma coisa começou a suceder-lhes. - Estou me sentindo leve, parece até que vou voar! – falou alegremente Cabelos de Ouro. - Eu também! – falou Petisco. - E eu! E nem estou batendo as asas! Djayan ria, continuando a caminhar. Mais adiante, aquela névoa branca terminou e outra azul veio espalhar-se. Repetia-se tudo o que acontecera com a névoa branca. Os raios azuis cruzavam-se da mesma maneira pelas paredes, teto

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e chão. Veio depois uma névoa rosa, uma violeta, uma verde, uma laranja e finalmente uma dourada, acontecendo efeitos iguais em todas elas. Ao término daquele túnel eles estavam tão mais leves que pareciam não possuir corpos. Adiante, nova passagem os aguardava, antecedida por uma cortina maravilhosa que não era nem água ou vapor. Parecia, talvez, gelatina, a mais fina que pudesse existir, com luz correndo pelo seu interior nas exatas cores que tinham visto há pouco. A cortina movia-se e vibrava, produzia um som que era envolvente e macio. Djayan voltou a falar-lhes: - Agora temos de parar em frente a esta cortina e pularmos de uma só vez, gritando o nome do lugar aonde queremos chegar. Aonde vou levá-los chama-se: O Vale Guardado do Quarto Reinado na Terra de Djan. - Que nome grande e complicado! – reclamou Teovaldo. - Nem tanto, vamos repetir para não errar – comandou Cabelos de Ouro. Repetiram uma, duas, três vezes. Ao final, sabiam-no de cor sem cometer enganos. Djayan fez sinal para Cabelos de Ouro e ele tomou Petisco nos braços, tendo já Teovaldo no seu ombro. Ficaram então em posição e repetiram juntos a um só tempo: O Vale Guardado do Quarto Reinado na Terra de Djan..., e pularam para dentro da cortina!

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CAPÍTULO V O VALE GUARDADO DO QUARTO REINADO NA TERRA DE DJAN - Oh! Isto não pode existir! – falou Cabelos de Ouro, quase boquiaberto. - Currupáco! - Au! Au! Os quatro foram surgir próximo à margem de uma incrível bacia onde sete cachoeiras se derramavam. Tudo ali era grandioso! As sete cachoeiras possuíam, cada qual, águas de um matiz diferente. As águas brilhavam e resplandeciam, cantavam e se misturavam. Produziam ao encontro de todas, combinações multicoloridas. Respingos voavam; pequenas ondas se formavam refletindo, vibrando e transmitindo suavidade. Criaturas cheias de alegria espalhavam-se por toda a bacia. Umas mergulhavam do ar, outras das pedras junto às margens ou mesmo das próprias margens que eram verdes e entremeadas de flores e pequenas plantas. Muitas daquelas criaturas vinham caindo junto com as águas lá do alto, do início das cachoeiras; algumas planavam no meio da queda, paravam no ar ou desciam com menor velocidade. Possuíam véus finíssimos que as cobriam em certos instantes, ou as descobriam. Os cabelos pareciam não molhar-se, esvoaçavam sobre seus ombros e tinham a mesma cor dos véus. Havia pássaros, animais e grande número de outros seres encantados. Um sol brilhava sob um céu muito azul. Tudo transpirava uma atmosfera de paz e harmonia. - Quem são aquelas moças que dançam e cantam nas águas? – perguntou Cabelos de Ouro em certo instante. Djayan logo respondeu: - São as ondinas, também chamadas de yaras ou nereidas. Você não as conhecia? - Não! – respondeu simplesmente. - Só ouvimos falar - intrometeu-se Teovaldo do ombro de Cabelos de Ouro - o gnomo da floresta nos disse que lá existia antes as ondinas. - E mais os silfos – completou Petisco, já no chão. - Os silfos? Vejam lá no alto, sobre a floresta. Os raios e as formações de luz são eles. - Que bonitos, são pequenos! – admirou-se Cabelos de Ouro. - Ei, Cabelos de Ouro, sua roupa, veja só! – espantou-se Petisco. - Está vestido igual à Djayan! – surpreendeu-se Teovaldo. - Ué, onde está toda a minha roupa, estou só de saiote? - E por que nós não? – interrogou-o Teovaldo, falando também por Petisco. Djayan rindo começou a explicar-lhes: - As aves e os animais daqui não usam saiotes ou outras vestes, só os encantados. Reparem, as ondinas têm véus e eu tenho saiote. - Então você é um encantado? – perguntou Cabelos de Ouro.

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- Sim, das profundezas do reino das sete águas. Lá vive um rei, o rei de todos e eu sou um de seus súditos. Aqui também há uma rainha e as ondinas são suas súditas. - E onde está a rainha? – Cabelos de Ouro voltou a perguntar com interesse. - Nas águas, nas correntezas, nas cachoeiras, nas ondinas. Está em todas as partes, em todos estes lugares. - Chiii..., que complicação! – reclamou Teovaldo. - Voltando às vestes. Por que acabei vestido assim se não sou um encantado? - Suas roupas não eram apropriadas para o local, por isso a magia do Vale o vestiu assim. - A magia do Vale? - Sim, a magia de tudo. Não vê como tudo aqui é mágico e perfeito? Todos os de fora que raramente entram aqui precisam adaptar-se às sete correntes da perfeição deste Vale, como vocês fizeram. Nestes momentos em que aqui permanecem transformam-se também em encantados como nós. - E por que este lugar é chamado de Quarto Reinado na Terra de Djan? – perguntou ainda o visitante. Djayan calmamente continuou a responder: - Existem vários reinos que se desenvolvem durante os vários reinados. Este é somente o Quarto Reinado na Terra de Djan, o grande Ser que tudo sabe e tudo possui. - E por que você nos trouxe aqui, Djayan? - Para ajudá-los a fim de que em troca vocês nos ajudem. Sabemos que pretendem auxiliar ao Reino da Floresta que secou. Mas para isto precisam combater o mal entranhado nas chamas dos twichz. Entretanto, precisarão descer mais para o interior da Terra a fim de encontrar o Senhor da Chama. Só ele, Cabelos de Ouro, e somente ele poderá ensiná-lo como vencer os twichz, com a ajuda de seus companheiros, naturalmente. - Descer mais..., não podemos, é muito quente! - Não dá, não dá não, currupáco! - Eis porque desejamos ajudá-los. Se você não os vencer, Cabelos de Ouro, nós também deste Vale e de toda a Terra de Djan, correremos igual perigo! - Mas por que vocês não se unem e não os enfrentam? - Não podemos, nossa natureza é outra. Somos plásticos, passivos, sem o poder de combater. Somos o bem, a pureza; não lutamos contra o mal. Somente alguém humano como você e puro de coração, poderá enfrentar esta ameaça. Se eles vencerem partirão também para o seu mundo colocando em perigo todas as outras coisas existentes. - Mas não há ninguém aqui deste lado que os enfrente? - Você é humano e por isso tem certas vantagens. Somente os humanos possuem a magia da palavra que pode tanto construir como destruir em todos os mundos. - Cada vez nos enrascamos mais! – voltou a reclamar Teovaldo. - E como vocês pretendem nos ajudar a descer ainda mais, sem que nos queimemos? - Já olhou o ferimento de seu pé? Cabelos de Ouro baixou os olhos e admirou-se:

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- Sumiu, não tem mais nada! - Nossas águas o curaram. Esta é uma das maneiras que temos de protegêlos contra o calor e o fogo. Então aceita? - Aceito. - Aceito – repetiu Petisco - Eu também! – confirmou bravamente Teovaldo. - Estão dispostos a partir imediatamente? - Estamos! – respondeu Cabelos de Ouro. Mediante aquela decisão, Djayan voltou-se para as águas, iniciando uma invocação: - “Ondinas, nereidas, yaras, irmãs das sete águas! Filhas de um grande e sábio rei e de mãe toda generosa. Vocês que trazem sob seus véus o segredo das sete profundezas, das sete emanações e das sete purezas dos reinos das sete águas. Venham e tragam a sua magia de encantadas!” No mesmo instante um verdadeiro exército daquelas belas criaturas saiu das águas e começou a rodear Cabelos de Ouro e seus dois amigos. Com sua dança e canto os iam cobrindo com véus em sete cores, um sobre o outro. Ao término eles se sentiram vestidos, mas os véus tinham desaparecido em seus corpos e nada parecia ter existido. - Pronto, estão vestidos com os sete véus mágicos. Agora poderão partir e penetrar os labirintos das profundezas do reino das chamas sem serem afetados. Porém, tratem de tudo realizar rapidamente por que os véus somente suportarão sete tempos. Cada tempo que se conclua fará derreter um véu e vocês sentirão isto. Cuidado! - E como vamos sair daqui? - Agora será fácil. Bastará mencionar o nome do lugar onde desejam estar e pular juntos para frente, como fizemos há pouco. - E qual é este lugar? - Ninguém consegue estar diante do Senhor da Chama por um simples desejo. Vocês terão de percorrer labirintos, pular sobre abismos e escapar das chamas que guardam aquele reino. Assim, para iniciar a descida precisarão começar do Salão das Sete Cavidades Ardentes. - O que tiver de ser que seja, vamos de uma vez! – decidiu-se Cabelos de Ouro tomando Petisco nos braços. Teovaldo permanecia em seu ombro. E repetiram em coro: -... O Salão das Sete Cavidades Ardentes!

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CAPÍTULO VI O SENHOR DA CHAMA Vuuupt! Os três foram aterrissar num lugar estranho. - Mais cavernas, mais labirintos! – reclamou Teovaldo. - Não está calor aqui, Cabelos de Ouro! – surpreendeu-se Petisco. - Possivelmente estará, porém não sentimos por causa dos véus. - É realmente um lugar com sete entradas, mas uma sobre a outra – observou Teovaldo. - Exatamente. E isto nos obriga a tomar a primeira delas aqui embaixo. - É, as outras são mais altas, só o Teovaldo alcançaria – entendeu Petisco. - Eu não; eu vou com vocês aqui por baixo mesmo, currupáco! - Então vamos! – comandou o menino. Entraram. Era um túnel escuro e Cabelos de Ouro caminhava cautelosamente. Súbito uma claridade intensa surgiu diante deles e uma parede de vivas chamas veio fechar-lhes o caminho. As chamas cantavam e dançavam. - Como vamos prosseguir? – perguntou Petisco temeroso. - É impossível, currupáco! Cabelos de Ouro tentou chegar mais perto, porém as chamas se alvoroçaram e ele recuou. - Vamos voltar! – sugeriu Petisco. Entretanto eis que nova parede de vivas chamas vem surgir atrás dos três, impedindo-os de qualquer tentativa de fuga. - Vamos atravessar, precisamos seguir em frente. Estamos cobertos pelos véus, nada nos acontecerá – falou o menino sem qualquer dúvida, pulando para o interior da parede em chamas. - Conseguimos! – festejou Teovaldo. Porém tão logo chegaram ao outro lado, uma nova e idêntica parede veio colocar-se diante deles. - Outra, essa não! – irritou-se Petisco. - Vamos seguir. Temos de vencê-la também! Assim fizeram penetrando através da nova parede em chamas. Mas logo em seguida encontraram outra; depois outra e mais outra. Mas a todas iam ultrapassando até que o túnel terminou e nada mais veio surgir. Então se viram diante de uma rampa ascendente, feita em semicírculo, ao lado de uma cratera a perder de vista para o alto. Subiram a rampa. Ao término, encontraram uma cavidade na rocha e novamente entraram. Era um novo túnel escuro, e Cabelos de Ouro foi tateando. De repente, surge-lhes à frente um verdadeiro exército de seres em chamas, em duas alas, deixando um corredor no meio percorrido por comprida língua de fogo. Neste mesmo instante, os três heróis sentiram que algo se derretia em seus corpos e evaporava. - Que foi isto? – perguntou Petisco. - Foi-se o primeiro véu, teremos ainda seis. - Que fazemos, Cabelos de Ouro? – Petisco novamente ficava nervoso. - Vamos atravessar. Se as paredes não nos impediram estes seres também não nos impedirão.

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Possuído desta coragem o menino saiu correndo pelo interior do fogo carregando os companheiros. Os seres inflamados tentavam impedi-los de todas as maneiras. Tomavam várias formas para assustá-los e se lançavam diante de Cabelos de Ouro. Mas nada conseguiam; os três heróis foram surgir no interior de gigantesca gruta onde existiam muitos caminhos, sob um teto sustentado por diversos pilares. Lá no fundo viram três aberturas de túneis. Cabelos de Ouro resolveu que entraria numa delas e correu pelo interior da gruta. No entanto, quando alcançava a metade do caminho viram sair intenso fogo das três entradas, muito mais intenso do que todos os que até agora tinha visto ou enfrentado. O terrível fogo se lançava das aberturas para adiante e em direção ao teto. Cabelos de Ouro parou sem saber se prosseguia. Enquanto se decidia, uma avalanche de pedras veio caindo do teto, bloqueando as bocas dos três túneis. Eram pedras enormes. Umas caíam e rolavam para o meio da gruta. Cabelos de Ouro, temeroso, correu para o lado e descobriu uma larga fenda no chão, que se estendia para muito além, constituindo-se num verdadeiro abismo. Era profundo e ele acompanhou a sua borda, tentando descobrir qualquer coisa que lhes servisse. A avalanche continuava forte e o fogo que a provocava também. - Estamos sem saída. O perigo agora são as pedras! – falou Teovaldo. - Ali adiante tem uma rampa, vamos descer por ela! – apontou Cabelos de Ouro. A estreita rampa levava para o fundo do abismo e ele começou a descê-la. A certa altura uma nova ameaça veio encontrá-los: o abismo era tomado pelo fogo! Labaredas subiam não permitindo enxergar nada do fundo. - Não consigo enxergar um palmo, se falsear o pé poderemos cair! - Cruz credo, isto pode ser o nosso fim, currupáco. - Vou tentar seguir tateando a parede. E prosseguiu com todo o cuidado, penetrando o fogo. O tempo ia passando. Cabelos de Ouro lutava contra aquelas terríveis labaredas até que chegou ao fundo. - Chegamos! – falou satisfeito. - No fundo do inferno! – completou Teovaldo. - Seguirei tateando, ainda não consigo enxergar nada. Assim ele continuou até que sua mão se perdeu num vazio. Tinha chegado à abertura de um novo túnel. Prosseguiu e as chamas ficaram para trás. - Aqui estaremos a salvo por enquanto – afirmou Teovaldo. O menino continuou, porém três metros adiante parou. - Uma ponte sobre um abismo, que estranho! – apontou. O local era uma pequena gruta iluminada por uma faixa de luz que oscilava, vinda de uma fenda da parede. - É feita de rocha; começa larga e termina estreita – observou Petisco. - Vou atravessá-la, não tenho escolha novamente – decidiu-se Cabelos de Ouro, já andando. - O abismo é fundo, não consigo ver o final – reclamou Teovaldo. - Não olhe para baixo, Cabelos de Ouro, você pode ficar tonto! – solicitou o cãozinho. - Não olharei, afinal a claridade aqui não é grande coisa.

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Ao atingir o meio da ponte uma horrível boca que cuspia fogo os assustou. Logo tomou a forma de uma grande cabeça de dragão e se colocou exatamente na outra extremidade da ponte! - Outra ameaça! – falou Cabelos de Ouro decepcionado. Mal isto se deu voltaram a sentir outro véu se derreter. - Derreteu mais um! – alertou Petisco. - Agora restam cinco! – falou Cabelos de Ouro. A cabeça de dragão passou a lançar fogo na direção dos três. A boca se abria vomitando labaredas e as ventas pareciam dois lança-chamas. As línguas ardentes os envolviam, mas apesar de tudo Cabelos de Ouro resolveu continuar sem se intimidar. A cabeça vendo isto começou a dirigir suas labaredas para o chão, no final da ponte, tornando aquele trecho incandescente. Logo um pedaço da rocha tremeu e ameaçou desprender-se. - Veja, Cabelos de Ouro, a cabeça de dragão está começando a destruir a ponte! – falou preocupado Teovaldo. - Preciso me apressar antes que isto aconteça, mas posso cair no abismo! O resultado da ação do fogo causou o deslocamento do bloco da pedra que realmente caiu no abismo feito enorme brasa, ficando um vão no final da ponte. A cabeça começou então a lançar mais chamas sobre o trecho seguinte, fazendo-o imediatamente incandescer. - Se a cabeça destruir o outro pedaço não conseguiremos atingir a margem, depressa Cabelos de Ouro! – Petisco incentivou. - Vou correr e tentar pular. - Cuidado, é distante, podemos cair, currupáco! Porém, decidido, Cabelos de Ouro correu valentemente em direção ao perigo. Nada conseguia enxergar do lado oposto, mesmo assim investiu contra a cabeça de dragão. - O chão está partindo, cuidado! – gritou Petisco assustado. O bloco que virava em brasa caiu no abismo, porém o menino já havia impulsionado o corpo, conseguindo pular. - Viva, conseguimos, currupáco! – festejou Teovaldo. - Esta foi por pouco, ufa! – exclamou Cabelos de Ouro. Entretanto a cabeça de dragão não se deu por vencida e voltou a atacá-los, lançando suas labaredas na parede ao lado. - Cuidado, ela está provocando uma avalanche! – gritou Petisco. - Vamos sair daqui! Cabelos de Ouro virou-se e se lançou em disparada por um caminho junto a uma parede de rocha. Procurava escapar das quedas de pedras. Mas a cabeça de dragão tomou-lhe a dianteira e provocou novos desabamentos. - Cuidado! Cuidado! Currupáco! – torcia-se todo Teovaldo no ombro do menino. - Au! Au! – latia Petisco, temeroso.

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Cabelos de Ouro pulava e se desviava como podia. Às vezes era alvejado por uma ou outra pedra que lhe causava alguma dor. Também Teovaldo e Petisco sofriam com pedaços de pedras. Cabelos de Ouro conseguiu alcançar uma curva e viu mais adiante o abismo formar um “T”. Ele contornou aquela curva e notou que agora corria paralelo a um rio de lavas! - Vejam, falou parando meio resfolegado, somos acompanhados agora por um rio de lavas, o abismo ficou para trás, naquela curva! - É mesmo, reconheceu Teovaldo, e as lavas chegam até aqui em cima! Como o menino parasse por um instante, a cabeça de dragão se aproveitou disto e lançou fortes línguas de fogo aos seus pés. O fogo incandesceu onde ele pisava e partiu o chão, separando um bloco de pedra, fazendo-o perder o equilíbrio. - Cuidado, Cabelos de Ouro, cuidado! – alertou Petisco. - Cuidado! Cuidado! Cuidado! – gritou Teovaldo. - Vamos cair no rio de lavas, uaii...! E caíram. Na queda Cabelos de Ouro largou Petisco. Teovaldo, no entanto, conseguiu se equilibrar no ar, batendo as asas. - É o fim dos dois – lamentou o papagaio. Mas Teovaldo se enganara. Cabelos de Ouro e Petisco, ao invés de serem devorados pelas lavas, batiam os pés e mãos acompanhando a correnteza, nadando como se estivessem num rio de águas comuns. - Ai, caramba, eles estão nadando! – exclamou surpreso e igualmente satisfeito, indo pousar na cabeça de Cabelos de Ouro. - Os véus nos protegeram de novo - falou o menino enquanto procurava nadar. Mal ele disse isto, outro véu se derreteu – restam agora quatro! – lembrou. A correnteza puxava muito e eles nadavam como podiam. As lavas borbulhavam, estalavam e lançavam respingos para todos os lados. Súbito, após a curva daquele rio incomum, o menino observou que a correnteza começava a ficar mais fraca. Notou também que as lavas os lançavam para próximo da margem e gritou para que Petisco ficasse atento porque iria tentar sair do rio. Num certo instante, Cabelos de Ouro gritou e nadaram mais fortemente para a direção de umas pedras, conseguindo segurar-se nas suas pontas. Logo pularam para a margem pisando o solo firme, e descansaram. Cabelos de Ouro prosseguiu em seguida, novamente segurando Petisco e tendo Teovaldo no ombro. Agora não mais caminhavam à margem do rio, mas noutra direção, sobre um largo patamar. Adiante viram a entrada de uma gruta gigantesca, jamais antes vista, que recebia um foco de fortíssima luz. Mas de repente levaram um grande susto e Cabelos de Ouro pulou espantado, enquanto Teovaldo voava de seu ombro. Repararam então que um pequeno vulcão de um

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fogo absolutamente vermelho explodira próximo de onde estavam, jorrando sobre suas cabeças. Nada mais aconteceu ali e o pequeno vulcão assim permaneceu. Cabelos de Ouro resolveu caminhar com mais cuidado, mas outro vulcão idêntico deu-lhes novo susto. Novamente se desviaram e outro vulcão explodiu. Porém, convencidos de que mais vulcões explodiriam não se assustavam. Por vários metros estes fenômenos realmente iam se repetindo, mas de repente, como num passe de mágica, todos se apagaram e nenhum outro explodiu. Cabelos de Ouro chegou à entrada da gigantesca gruta, ali parando. A luz que vinha lá de dentro os tocava, sendo de fato fortíssima. - É muita luz – reclamou Teovaldo. - Quase não enxergo nada – reclamou também Petisco. Cabelos de Ouro protegia os olhos com uma das mãos, Petisco escondia os seus com as patinhas, enquanto Teovaldo cobria a cabeça com uma das asas. Quando Cabelos de Ouro tentou prosseguir, duas grandes portas em chamas fecharam a entrada, impedindo-o de entrar. - Preciso atravessá-la, vou mergulhar dentro delas! – disse o menino resolutamente. Assim ele fez, mas desta vez foi arremessado de volta, caindo sentado no chão. Teovaldo permaneceu no ar batendo asas e Petisco esparramou-se de barriga para cima. - Uau, elas agora são sólidas, embora macias - admirou-se Cabelos de Ouro – vou tentar novamente! Decidido, tomou novamente Petisco nos braços, já com Teovaldo em seu ombro, e pulou de encontro às portas. Porém, como da outra vez, bateu e voltou. - É impossível! – gritou Teovaldo. - Que fazer, não vejo nenhuma alternativa! - Veja, Cabelos de Ouro, numa das portas surgiu uma enorme argola! alertou Petisco. - É mesmo. Vou lá bater, talvez seja esta a solução! – falou o menino, se encaminhando para lá e batendo a argola por três vezes contra uma das portas. Um som esquisito ecoou lá dentro e a porta rangeu abrindo uma fresta. - Que desejas? – uma poderosa voz como forte trovão foi ouvida. - Quero ver o Senhor da Chama! – respondeu o menino. Ambas as portas imediatamente se abriram, escancarando-se completamente. A claridade voltou a jorrar e Cabelos de Ouro protegeu novamente os olhos. Teovaldo, como antes, escondeu a cabeça debaixo de uma das asas e Petisco ganiu correndo para trás do menino. Cabelos de Ouro começou a andar lentamente seguido do cãozinho, chegando defronte às portas que se abriram completamente. No momento em que entravam sentiram outro véu derreter-se. - Restam agora três – cochichou o menino. A claridade era demasiada e Cabelos de Ouro, impedido de prosseguir, gritou: - Senhor da Chama, onde está? Não consigo vê-lo!

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Viiiiiiiip...! Viiiiiiip...! Viiiiiiip...! Cantavam as chamas dentro daquela gigantesca gruta. Cabelos de Ouro não agüentando fechou os olhos e de novo gritou: - Senhor da Chama, por favor, preciso falar-lhe, mas não consigo vê-lo, tem luz demais! Viiiiiiip...! Viiiiiiip...! Viiiiiiip...! Continuavam as chamas a cantar, porém de repente a claridade começou a diminuir. E foi diminuindo até que puderam abrir os olhos normalmente. - Que gruta maravilhosa! – exclamou o menino maravilhado. - Nunca vi outra igual! – admirou-se Teovaldo. - Que linda! - admirou-se também Petisco. A gigantesca gruta era realmente maravilhosa e fantástica. Era muitas vezes maior do que a maior de todas que até agora haviam conhecido. As paredes tinham todas as cores; havia milhões de pequenas chamas dentro delas, dentro das pedras. As pedras, como cristais, possuíam muitas tonalidades e refletiam, cantavam ou assobiavam! O teto, o chão, o ar, todos os lugares impregnavam-se de uma vibrante vida. E essa vida se estendia para o interior da gruta, por tudo! Pelo meio da gruta havia fogueiras de pedras que lançavam chispas de luz como finas labaredas. Do interior das paredes iam surgindo figuras coloridas nos formatos de quadrados, triângulos, losangos, estrelas de quatro, cinco, seis ou mais pontas e outras com diferentes desenhos. As figuras deslizavam um tempo pelas paredes e depois se lançavam para fora, produzindo sons diversos. Mas tão súbito como surgiam, desapareciam. Novas figuras apareciam da parede, de diversas direções, deslizando retamente, em círculos ou em outros movimentos. Nada ali permanecia parado, todas as coisas se mexiam. Tudo era vida, cor, vibração! Tendo admirado aquelas coisas maravilhosas, Cabelos de Ouro deu quatro passos. A cada passo que dava um som diferente acontecia, saindo de todos os lados. Sem saber direito se aqueles sons os estariam reprovando ou não resolveu parar e chamar novamente: - Senhor da Chama, onde esta? - Aqui! Responderam as chamas nas paredes. - Aqui! - Aqui! - Aqui! Responderam o chão, o teto e todos juntos. Petisco latiu assustado e Teovaldo encolheu-se todo. - Apareça, por favor, quero vê-lo! As chamas de todos os lugares começaram a crescer e diminuir no mesmo instante. Logo uma parede de fogo surgiu-lhes à frente. - Aqui estou! – falou a parede. - Senhor da Chama? – o menino perguntou surpreso.

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- Surpreende-te? - respondeu a parede - Talvez assim te pareça melhor! E se transformou de parede para um exército de seres inflamados que deixavam entre eles um corredor de ardentes chamas. - Ou talvez assim...! - continuou a se transformar agora em cabeça de dragão, exatamente aquela que tanto os perseguira. Cabelos de Ouro deu um passo para trás, espantado. - Ou, possivelmente, estarei melhor assim...! – e se transformou nas duas grandes portas que tinham se colocado diante deles à entrada da gruta. - Porém, creio que assim estarei melhor, mais vibrante! E tornou a desaparecer, fazendo voltar aquelas belíssimas formas de luz e cor por toda a gigantesca gruta. - Estás diante de mim, sempre estiveste! - Mas por que, por quê? – Cabelos de Ouro sentia-se atordoado. - Porque sou o Senhor da Chama, aquele que não tem uma só aparência. Tomo mil formas, mil variações e ainda assim sou eu mesmo, o Senhor da Chama. Enfrentastes muitos perigos com teus amigos, mas diante de todos tivesteis coragem e firmeza, por isso chegasteis. Agora fala que desejas? - Os twichz estão ameaçando todos os reinos. Secaram o reino de uma grande floresta e ameaçam secar outras e outras. Como vencê-los? - Os twichz nasceram de minhas chamas, mas ao tomarem formas definitivas nos rumos do progresso de meu elemento, o fogo, se alvoroçaram tornando-se ambiciosos. Não quiseram mais prestar obediência, e formaram uma família rebelde. São pretensiosos, querem chegar à crosta da Terra para dominar o sol, o grande Hélios, o pai único de nossas verdadeiras vidas. Seu chefe intitula-se o imperador. Com suas ambições se transformaram realmente em grande ameaça para todos os reinos, podendo devorá-los se não forem impedidos a tempo. - Mas por que o senhor não os impede? - Porque uma guerra entre nós teria conseqüências ruins. É preciso vencê-los de outra maneira e tu podes, humano de coração puro e cabelos como o fogo de Hélios! - Mas eles parecem tão poderosos... - Tens coragem suficiente, tu e teus companheiros, provasteis isso vindo até aqui. Queres tentar? - Sim, senhor, agora pretendo ir até o fim! - Então me ouve. Deverás fazer o seguinte... Cabelos de Ouro ouviu atentamente as palavras do Senhor da Chama. Ao final voltou a perguntar: - E como chegar lá? - Vá até a margem do rio de lavas, e de lá partirás! - Obrigado!

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CAPÍTULO VII DE VOLTA ÀOS TWICHZ Os três partiram rapidamente buscando o rio. Ainda nem o tinham enxergado direito, novo véu se derreteu. - Agora são só dois! – disse o menino com preocupação. - Temos de nos apressar, currupáco. - Senão seremos torrados! – completou Petisco. Ao se aproximarem da margem do rio de lavas, havia ali um barco flamejante em forma de flecha e dois seres inflamados os aguardando. - Entrem – ordenou um deles. Eles entraram e os dois barqueiros tomaram posições: um ia à frente e o outro atrás, ambos sentados. Seguraram os remos, que eram como dois raios, e começaram a levar o barco rio acima com incrível agilidade. A correnteza de lavas puxava forte, porém o barco deslizava como se nada existisse. Em determinado trecho, eles encostaram à margem direita e o condutor da frente falou apontando: - Entrem por aquele túnel que logo estarão na cidade dos twichz. Cabelos de Ouro desceu com os dois amigos e os barqueiros desapareceram rio acima. Logo ele entrou pelo túnel carregando Teovaldo no ombro e Petisco numa das mãos, colado ao corpo. Havia escuridão e ele tateava pela parede. Após percorrer por certo tempo notou uma claridade lá adiante; ao final viu novamente aquela mesma cidade, desta vez do outro lado e mais do alto. - É a mesma cidade feia, currupáco. - A mesma, sem modificações, exceto pelos moradores que agora andam pelas ruas – confirmou o menino colocando Petisco no chão. Súbito um som muito agudo espalhou-se pelo ar. Um rebuliço imediatamente começou entre os moradores da cidade. Eles todos passaram a correr em direção da casa do imperador, lotando a grande praça que havia diante dela. Soldados formaram fileiras pelos lados da grande escadaria, deixando ao centro largo corredor. Logo o comandante apareceu ao alto da escadaria, anunciando: - Sua majestade o imperador! Todos se ajoelharam baixando as cabeças. O imperador então surgiu pela imensa porta, acompanhado daqueles sete seres em chamas e se aproximou para ser visto por todos. Levantou os braços e falou: - Podem levantar as cabeças e ficar em pé. Hoje é o dia da união e do alimento. Repitam comigo: “Juramos sempre fidelidade, fé e obediência ao nosso grande e único imperador que nos alimenta com seu eterno fogo. Juramos sempre a ele obedecer sem nada pedir em troca por que ele nos dá generosamente de seu fogo. Com sua sabedoria nos levará a conquistarmos nosso maior inimigo, o

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sol. Então seremos donos do mundo e nada nos faltará. Que o imperador viva para sempre!”. Eles repetiram e quando o vozerio calou-se o imperador estendeu os braços sobre a multidão, lançando labaredas que percorriam incríveis distâncias. As labaredas ao tocar cada um deles os deixava incandescentes, como ferro em brasa. Então eles pulavam e se agitavam em imensa alegria. Quando toda aquela multidão estava incandescente, incluindo o comandante e os soldados, eles gritaram numa única voz: - Viva o imperador! Viva o imperador! Viva o imperador! Na medida em que gritavam, faíscas iam saindo de seus corpos, fazendo-os agitar-se cada vez mais. E continuavam com aquele coro. - Que coisa horrível! – reclamou Teovaldo. - É de arrepiar! – falou Petisco. - Eles são fanáticos e perigosos. É hora de tentarmos acabar com isto. Vamos descer e deixar que nos agarrem! E iniciaram a descida indo Petisco à frente. Chegando às ruas da cidade aproximaram-se da casa grande e subiram pela extremidade do primeiro degrau. A multidão continuava a gritar em coro. De repente um dos soldados os viu e gritou: - Os fugitivos! - Peguem-nos! – gritou o imperador. Os soldados correram e os cercaram. Cabelos de Ouro segurou Petisco nos braços e ficou imóvel. - Derreteu outro – cochichou Teovaldo. - Falta somente um, não podemos falhar ou seremos cozidos! – disse Cabelos de Ouro também cochichando. - Tragam o espião do sol e seus amigos, tragam-nos! – gritava o imperador. Eles os trouxeram e o imperador falou satisfeito para a multidão: - Eis o espião do sol. Foi mandado para roubar os nossos segredos. Nosso inimigo deseja nos destruir, mas somos mais espertos. Vamos levá-los para a gema de fogo e mantê-los presos, depois resolveremos o que fazer com eles! A multidão gritou e aplaudiu. - Um momento, imperador! Quero dar-lhe uma oportunidade e a todos os seus comandados para que se arrependam. Vocês jamais conseguirão chegar ao sol, jamais! - Cale-se, espião, você não sabe o que diz. Iremos alcançar a crosta do planeta, pular e chegar ao sol! - É impossível, ele fica muito distante da Terra, ninguém consegue chegar lá, desistam! Voltem para o comando do Senhor da Chama, ele os aceitará, voltem! - Eu sou o Senhor da Chama, o mais poderoso, o mais sábio e aquele que irá tirar o trono do sol. Eu sou o imperador do mundo e serei o seu rei. Agora basta! Guardas tragam-nos! - Esperem, não façam isto, vocês serão destruídos, ele está errado!

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Mas os guardas o seguraram e o fizeram subir os degraus. Cabelos de Ouro então se lembrando das palavras ensinadas pelo Senhor da Chama, gritou já próximo do imperador: - “Oh! Hélios, fogo dos céus! Venha com seu raio que inverte, e ao mal faça retornar!”. - Não! Não! Não! – gritou o imperador. Imediatamente raios e trovões faiscaram e explodiram. Uma gritaria espalhouse por toda aquela multidão e uma correria começou. O imperador foi o primeiro a ser atingido e seu fogo aumentou repentinamente, ficando totalmente vermelho. O vermelho logo se modificou em violeta e ele desapareceu como se jamais tivesse existido. A multidão inteira começou a sofrer o mesmo efeito e desaparecia. Em seguida a cidade inteira se incendiou e começou a desmoronar. - Vamos correr, Petisco, ou seremos soterrados! – gritou Cabelos de Ouro soltando-o no chão, saindo em disparada, desviando-se das fogueiras que eram os seres que iam desaparecendo e de suas casas que desmoronavam. A montanha no fundo da casa do imperador começou a soltar blocos de pedra, que vinham rolando e soterrando tudo. - Depressa, Cabelos de Ouro, depressa, ou seremos esmagados! – gritava Teovaldo. Mas estava difícil se desvencilhar de tudo, e eis que em meio à fuga Cabelos de Ouro reclamou: - Oh, não! Lá se foi o último véu! - Currupáco! - Ufa, que calor! Agora poderemos nos queimar! – falou Petisco correndo ao lado do amigo. Atingiram as imediações dos portões que estavam fechados. Cabelos de Ouro tentou subir por um deles, porém mal o segurou teve de tirar as mãos. - Ui, está quente! Não poderei pular! - Cuidado! Cuidado! – gritou Petisco. Uma enorme pedra caída da montanha veio rolando para onde se encontravam. Cabelos de Ouro e Petisco pularam para o lado e Teovaldo voou alto. A pedra foi chocar-se contra o muro, produzindo um imenso buraco. - Vamos Petisco, é agora ou nunca! Entraram pelo buraco. Petisco saiu adiante. Cabelos de Ouro veio correndo como podia, enquanto Teovaldo voava pouco acima da cabeça do menino. Alcançando à base da pedreira, próximo de onde haviam chegado ao início desta aventura, subiram pelo mesmo caminho, ouvindo muito próximo o ruído de mais pedras que rolavam. - Depressa! Depressa! Elas nos estão alcançando! – gritava Teovaldo em seu voo. De repente, o chão tremeu e rachou. Eles perderam o equilíbrio e caíram. A cidade inteira, ou o que restava dela, foi engolida pela terra, formando-se imensa cratera em seu lugar. A pedreira continuava a desmoronar e gigantescos blocos

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de pedra agora voavam por sobre a cratera como se fossem expulsos de um vulcão. - Precisamos alcançar o túnel! – apontou Cabelos de Ouro, se levantando. O chão ainda tremia. A pedreira diante deles também estalava e abria fendas. Finalmente alcançaram a boca do túnel, entrando. Cabelos de Ouro suava demais, mal conseguia respirar, o mesmo se dando com Petisco. Dentro do túnel a situação também não era segura: tudo tremia e pedras se soltavam do teto e paredes. Avançando alguns metros os três pararam assustados, olhando para trás. A boca do túnel e o trecho que tinham percorrido desmoronavam produzindo enorme estrondo, levantando uma nuvem de poeira. - Está caindo tudo - falou Petisco recomeçando a correr. - Ui, o chão está tremendo mais! - disse Cabelos de Ouro bastante assustado. Novo trecho desmoronou dois metros atrás deles. Apavorados se lançaram para frente. As pedras continuavam a se soltar; eles correram mais depressa e finalmente atingiram a escada. - Acho que não agüentarei subir - disse Cabelos de Ouro parando a fim de tomar fôlego. - Estou também quase caindo - falou Petisco. Mas logo mudaram de idéia ao novamente olhar para trás, vendo o túnel inteiro começando a desabar, empurrando sobre eles aquela enorme nuvem de poeira. - Cóff, cóff, vamos embora! - falou o menino tossindo. - Currupáco! Currupáco! - Teovaldo somente reclamava, levantando nervosamente um pé e depois outro, novamente sobre o ombro do amigo. Petisco partiu à frente; Cabelos de Ouro veio em seguida. No primeiro patamar pararam para retomar o fôlego. Os desabamentos haviam cessado, mas o chão ainda tremia e a nuvem de poeira tornava-se cada vez mais forte. - Para frente! Para frente! - incentivava Teovaldo. Entretanto, cansados como estavam, somente conseguiram prosseguir lentamente. A nuvem de poeira os envolvia completamente; eles mal enxergavam. Seus olhos ardiam. Cabelos de Ouro tentou de novo subir, porém tossiu, escorregou e caiu. Teovaldo pulou de seu ombro gritando: - Cuidado! Cuidado! O menino se levantou com dificuldade. Teovaldo voltou ao seu ombro e Petisco aguardava dois degraus acima. E novo perigo veio ameaçar-lhes: um tremor mais forte rachou a escada bem no meio, de cima abaixo. A rachadura continuou a abrir-se formando larga fenda. O menino e o cão pularam para um dos lados da parede, apoiando-se nela, pisando no que restara dos degraus. Uma onda de calor subiu da fenda e eles amedrontados temeram afundar. Faltavam agora uns sete metros. A claridade vinda da superfície já era percebida apesar da poeira. Cabelos de Ouro se

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arrastava apoiando-se na parede, Petisco seguia dois degraus adiante, igualmente esgotado, com a língua de fora. - Não desistam, falta pouco! - falava Teovaldo seguidamente. De onde tinham alcançado já conseguiam enxergar a ponta do galho de uma árvore. A claridade aumentava, mas suas forças quase acabavam. Quando faltavam dois metros para saírem daquele buraco, um tremor definitivo puxou a escada sob os seus pés, como se puxa um tapete. Porém, ambos, num último esforço, se lançaram para cima, pularam e conseguiram alcançar a superfície. Mas não estavam ainda a salvos. A terra tremia muito e abria fendas ao redor; ondulava como bandeira ao vento. Cabelos de Ouro e Petisco deitados, completamente empoeirados e sem forças, não conseguiam se mexer. - Mais um pouco, um pouquinho só, currupáco! - implorava Teovaldo voando acima dos dois. Tudo inútil, ambos haviam desfalecido. Súbito, uma imensa cratera se abriu levando para o fundo: árvores, arbustos, grama e tudo o que existia num trecho do outro lado. Teovaldo batia asas e gritava; tentava puxar o menino pelos cabelos e Petisco pelas orelhas. Cabelos de Ouro só gemia e Petisco gania. Para desespero do papagaio, a cratera alargou-se mais e passou debaixo do corpo de Cabelos de Ouro. Um braço e uma perna dele ficaram soltos no ar, sem apoio, e o resto de seu corpo ficou no chão, num cái-não-cái dentro da cratera.

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EPÍLOGO Assim ficou Cabelos de Ouro, dependurado e desfalecido. Petisco, por sorte, caíra um metro adiante fora de perigo, pelo menos por enquanto. Teovaldo andava nervosamente, bicava a cabeça de Cabelos de Ouro tentando acordá-lo e resmungava. O tempo passou. Petiscou acordou antes, e para ajudar a despertar o menino, lambia-lhe o rosto. - Onde estou... Ui, que buraco! – finalmente acordou assustado, rolando para o lado. - Foi por pouco, por muito pouco! - reclamava Teovaldo ainda no chão, mais aliviado. Cabelos de Ouro levantou-se com todo o cuidado e olhou para o fundo daquela cratera, nada conseguindo ver além de sombras, e comentou: - Isto foi o fim dos twichz e dos sonhos loucos de seu imperador. O sol ainda é o rei e sempre será! - Quem tudo quer tudo perde! - falou Teovaldo - É isto mesmo. Andemos um pouco para vermos como estão as coisas por aqui - disse o menino sacudindo a poeira da roupa e passando as mãos nos belos cabelos e rosto, tirando outro tanto da poeira. Mas para a decepção deles, nada ali havia mudado. Eles se entristeceram, resolvendo que gritariam para Armou. Porém, no exato instante em que o menino ia gritar, surgiu-lhes no ar a serpente, enrolada num liso galho, de cabeça para baixo como a tinham deixado. - Um momento menino apressado, não se vá ainda não! - Por quê? - É, por quê? - interrogou-a, igualmente, Teovaldo. - Será que não sabe que sua tarefa não terminou? Não viu como a floresta ainda está abandonada? - Sim, isto me deixou triste por que pensei que com o fim dos twichz, tudo voltaria a ser como antes. - Mas não voltou, não senhor. Está faltando algo e se você partir agora nada terá conserto. E tudo o que foi feito não terá ajudado a floresta! - Que algo mais é esse a se fazer? - Uma coisa pequena, porém muito, muito importante. - E o que é? - Um apelo para a Semente Mãe. - Semente Mãe? - É menino, a Semente Mãe desta floresta que secou. Será que você não sabe que toda a floresta possui uma Semente Mãe? Se assim não fosse como é que as plantas iriam nascer? - Mas onde fica a Semente Mãe? - Fica para lá. - Para onde?

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- Para lá, menino perguntador, lá para cima onde as nuvens descem e se transformam em alma de todas as coisas! - Mas como? - Se transformando, ora essa! Ela é a Semente Mãe e as almas são suas filhas, e tudo é uma alma só, será que não entende? Cabelos de Ouro não entendeu muito bem; não insistindo naquilo, mas quis saber: - E qual apelo eu devo fazer? - Um apelo qualquer, em voz alta, que venha do fundo de seu coração. Você deve pedir que a alma da floresta volte à vida. - E as pedras que perderam a alma, e os animais e pássaros que partiram e os rios e córregos que secaram? - Menino preocupado, deixe isto para lá. Se a floresta novamente vingar tudo voltará como antes! Cabelos de Ouro parou a pensar. Coçou o queixo, passou a mão nos cabelos e olhou para as copas secas das árvores. Como uma idéia o socorresse, começou: - “Semente Mãe, que é a alma de todas as coisas deste reino, o mal já se foi, mas falta a sua presença. Será que você podia de novo vir morar nesta floresta? Nós ficaríamos muito felizes se isto acontecesse. Obrigado!”. - Pronto menino do coração puro, agora é só esperar. - Mas isto demora, leva muito tempo! – reclamou o menino. - Que importa o tempo? Ele está aqui, esteve ali, está acolá. O tempo não passa, menino, são as coisas que passam! - Então não veremos o resultado do apelo? – insistiu Cabelos de Ouro. - Se o seu coração é puro sua palavra recria. Então o que é palavra é vida! - Que bicho complicado, currupáco! - Não entendi nada, também! – reclamou da mesma forma, Petisco. - Está tudo muito certo, dona serpente, mas não podemos esperar para ver as coisas passarem. Precisamos voltar para o nosso mundo. Como fazemos, gritamos para o senhor Armou? - Não, menino, você precisa fechar a porta que deixou aberta. Do contrário, todas as vezes que viajar para um lugar do passado voltará a esse lugar. Chegue para junto de mim e vire meu corpo para a direita, uma volta e meia..., para a direita! Ele fez conforme a serpente havia explicado e a cabeça dela voltou a ficar para cima. Cabelos de Ouro abaixou-se tomando Petisco nos braços, mas quando ia entrar no anel formado pelo corpo da serpente, ela o interrompeu: - Um momento, menino, se entrar agora ainda estará no passado, lembra-se? Foi Armou quem o trouxe antes do portal. Mas se quiser voltar ao presente de onde aceitou a missão, gire o meu corpo mais sete graus para a direita, somente mais sete! - Como é que eu vou saber onde são sete graus? - Preste atenção por que não volto a repetir: pense em sete graus e gire minha cabeça. Quando sua mão tremer, ali será. Cuidado, menino, se passar de

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sete irá para outro futuro. Ao transpor o meu anel pense no lugar onde encontrou Armou e ande três passos! Cabelos de Ouro colocou a mão sobre a cabeça da serpente, pensou em sete graus e veio puxando-a para a direita com todo o cuidado......, bem devagarzinho. Afinal, sete graus é tão pouquinho! De repente sua mão tremeu como uma vara de pescar quando um peixe é fisgado. Ele, satisfeito, largou-a. - Pronto, disse sorrindo, agora vamos. Adeus dona serpente! - Adeus fogaréu infernal, adeus twichz, currupáco! – despediu-se também Teovaldo. - Adeus tudo o que é ruim! – completou Petisco. E entraram pela porta do tempo. Cabelos de Ouro pensou naquele lugar de onde haviam deixado o mago do tempo e andou os três passos ensinados pela serpente. Vuuupt! Uma névoa os envolveu e zás, surgiram noutro cenário. - Estamos de volta! – comemorou o menino, pondo Petisco no chão. - Veja, Cabelos de Ouro! As coisas estão mudadas neste lugar1 – alertou Teovaldo. - É mesmo, no lugar de cada vegetal que secou já nasce outro verde! - A Semente Mãe ouviu o meu apelo. A alma da floresta voltou! - Cabelos de Ouro, ali há gnomos! – mostrou Petisco olhando para o local. - É..., estão trabalhando felizes, que bom! Resolveram caminhar para ver outras coisas e notaram que o leito de um riacho começava a encher. - Ouçam, um pássaro está cantando – observou Teovaldo. - Viva! – gritava e pulava o menino. Petisco corria e dava cambalhotas. Teovaldo voava e rodopiava no ar. Cansados de comemorar, Cabelos de Ouro falou-lhes: - Devemos ir para casa, já tivemos aventuras demais desta vez. Meu relógio parou em nove horas. Não sei quanto tempo se passou desde que aqui chegamos. Meus pais certamente estarão pensando que me perdi no mundo. Vamos! Ele retirou o disco de ouro do estojo preso ao cinto e tomou Petisco num dos braços. Teovaldo veio pousar em seu ombro. Virou-se para o nascente colocando o disco sobre o plexo e recitou: - Senhor do Espaço, eu quero viajar, me leve no tempo pra outro lugar, me leve pro lado de lá! E pensou no lugar de onde tinham saído ao início de tudo. - Pronto, chegamos! Sem querer, olhou para o relógio em seu pulso. Eram nove horas e sete minutos. - Nove e sete? Será que passamos somente sete minutos do lado de lá? - Currupáco! - Hum! Hum! – ganiu Petisco.

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Eis que de repente uma nuvem azul se formou diante deles e duas figuras surgiram inteiras no ar. - Chi..., será mais confusão? – perguntou-se Teovaldo. É o fim da jornada - quanto fosteis leais! E graças aos três todo mal acabou, Deixar eu não posso que agora aqui estais, A vós todos dizer que tão grato eu sou! O mundo daqui do lugar onde estamos, Que hoje não sabe e haverá de saber, Que todos os reinos que a todos amamos, Aos três muito devem e inda hão de dever! Que eu trago comigo pequena lembrança, E quero ela dar, pois que vem deste Armou, E qual jóia é pequena, mas muito ela alcança, E que vinda de mim, e se vem nela estou! Eis aqui ampulheta: é de ouro e com grãos, Que neste momento vos quero entregar, E quando a tiveres segura nas mãos, Somente a este mago podeis vós chamar! Qual um raio, centelha, um segundo no espaço, No lugar estarei no exato momento, Pra servir-vos virei isto é certo vos faço Tal e qual sei, vos servem, esse ar, esse vento! E a estendeu a Pedro. A ampulheta brilhava e rebrilhava; seus grãos de ouro desciam um a um, produzindo sons agradáveis. - É maravilhosa, senhor Armou! - Também lhes trago algo, amigos, tomem! - disse Djayan, o outro que viera, entregando a Pedro um pequeno peixe de prata, do tamanho de um polegar trouxe-o do fundo das sete águas, das urnas dos tesouros. É de vocês. Se algum dia estiverem em perigo, sobre as águas ou dentro delas, soprem a boca deste peixe e imediatamente receberão ajuda. - É outro presente também maravilhoso, Djayan. Muito lhe agradecemos e ao senhor Armou. - Nada nos tem a agradecer, adeus! – despediu-se Djayan, acenando. - Adeus! – despediu-se também Armou, sorrindo. - Adeus! - responderam o menino e o papagaio. Petisco somente ganiu. A nuvem desapareceu levando com ela os dois amigos. - Bem, andemos agora – disse Pedro Pinote. - Como vai a cabeça, menino? – perguntou a serpente, surgindo-lhe adiante, ainda enroscada como um grande anel.

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- Oh! A senhora dona serpente? - Como vai a cabeça? – repetiu a pergunta. - A cabeça? - Sim, os pensamentos! - Confusos. Parece que somente sete minutos se passaram desde que partimos daqui. Mas na realidade foi muito mais tempo! - É isto, menino, é isto! O passado confunde. Ele é o tempo e não sabemos se fomos ou se não fomos, mas quantas coisas trazemos! Então dá uma confusão deste tamanho, e não sabemos se de fato fizemos! - E isto é mal? - É mal quando se faz o mal. Mas você, menino, nada tem a temer por que seu coração é como os seus cabelos. Não temam também os seus dois amigos. Não há perigo para eles porque suas mentes verdadeiras ainda brotarão. Adeus, menino, adeus a todos e não pense sobre o tempo, viva o momento! E sumiu também. Cabelos de Ouro dirigiu-se então aos companheiros: - Creio que agora ninguém mais nos visitará. Estes sete minutos em que nos ausentamos valeram por metade de uma vida. É o tempo, é o tempo! – encerrou rindo. - Currupáco! - Au, au! RAYOM RA

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