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MAINGUENEAU, Dominique. A noção de discurso. In: _____.

Discurso e Análise do
Discurso. 1 ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2015. p. 23-33.

RESUMO

Maingueneau inicia explicando a diferença entre a forma como a palavra discurso é


empregada. Segundo o autor, “discurso” pode ser visto como substantivo não contável, quando
engloba uma gama de sentidos mais ampla como na frase “o discurso estrutura nossas crenças”.
Também pode ser classificado como substantivo contável quando se refere à acontecimentos de fala
ou conjuntos textuais. Assim, discurso pode se referir a objetos empíricos e ainda como algo
transcendente a todo ato de comunicação particular.

Para os Linguistas

Segundo Maingueneau, os linguistas que opõem o sistema linguístico ao seu contexto,


definem discurso como “o uso da língua” de maneira que a comunicação alcance êxito. O autor faz
três distinções: entre discurso e texto, a qual não aborda nesse capítulo; entre discurso e frase,
quando o discurso é considerado como uma unidade linguística transfrástica, constituída de um
encadeamento de frases, onde os pesquisadores se interessam pela maneira pela qual um enunciado
é interpretado apoiando-se em enunciados anteriores e posteriores; entre discurso e língua, onde há
a oposição da língua concebida como sistema e seu uso em contexto.

Fora da Linguística

O autor traz uma série de ideias-força para explicar o significado de discurso:

O Discurso é uma organização além da frase: Ele mobiliza estruturas de outra ordem,
diferentes das da frase. Os discursos quando são unidades transfrásticas se submetem a regras de
organização em dois níveis: as regras que governam os gêneros de discurso e as regras transversais
aos gêneros.

O Discurso é uma forma de ação: Falar é uma forma de agir sobre o outro, e nas apenas uma
representação particular do mundo. Toda enunciação constitui um ato que visa modificar uma
situação, isso inscreve o discurso no âmbito das atividades e torna possível relacioná-lo com as
atividades não verbais.

O Discurso é Interativo: A atividade verbal envolve dois ou mais parceiros, sendo que um
enuncia em função do outro, percebendo e avaliando imediatamente o efeito de suas palavras nele.
Toda interatividade é constitutiva, há sempre a presença de mais de uma instância de enunciação,
por meio da qual alguém constrói seu próprio discurso.

O Discurso é contextualizado: Não se pode atribuir um sentido a um enunciado que esteja


fora de seu contexto. As palavras são incompletas, precisam ser indexadas a uma situação de troca
linguística em um contexto particular para que seu sentido possa ser considerado completo.

O Discurso é assumido por um sujeito: O discurso está relacionado a um EU, um mundo


próprio sobre o qual o discurso é construído, fornecendo as referências necessárias para a
construção do sentido e indicando a atitude que esse EU adota em relação ao que diz e a seu
destinatário.

O Discurso é regido por normas: Cada ato de linguagem implica em normas particulares, os
gêneros de discurso são o conjunto dessas normas. Nenhum ato de enunciação pode ocorrer sem
justificar de uma forma ou de outra seu direito de se apresentar tal como se apresenta.

O Discurso é assumido no bojo de um interdiscurso: Para interpretar um enunciado é


necessário relacioná-lo a todos os tipos de outros enunciados sobre os quais ele se apoia de
múltiplas maneiras, essas associações podem ser conscientes ou inconscientes. Conforme
explicitado por Pêcheux, o sujeito está submetido a um descerramento radical, ele não pode ser a
origem do sentido.

O Discurso contrói socialmente o sentido: O sentido é continuamente construído e


reconstruído no interior de práticas sociais determinadas. São os indivíduos, inseridos em diferentes
configurações sociais, que constroem os sentidos. Para analisar um discurso não se pode analisar
somente a parte gramatical e estilística, mas sim relacionar esse enunciado a um dispositivo de
comunicação, às normas de uma atividade, aos grupos que dele extraem sua legitimidade e diversos
outros fatores que constroem o sentido completo de um enunciado.
Teoria do Discurso e Análise do Discurso

Maingueneau destaca a reflexão de Focault em A arqueologia do saber, onde o autor ressalta


que não mais se deve tratar os discursos como conjunto de signos, mas como práticas que formam
sistematicamente os objetos de que falam. Focault ressalta ainda que os discursos são feitos de
signos, no entanto fazem mais do que usá-los apenas para designar coisas.
Maingueneau apresenta o discurso como um espaço incerto entre dois maciços, a saber, a
linguagem e o mundo, e nesse ponto desfazem os laços entre as palavras e as coisas. Ainda ressalta
que a situação dos especialistas em discurso não é confortável do ponto de vista que precisam fazer
esforços constantes para não reduzir o discursivo ao linguístico ou, inversamente, para não deixá-lo
ser absorvido pelas realidades sociais ou psicológicas.
O texto é finalizado com uma diferenciação entre analistas de conteúdo e analistas do
discurso. Sendo que aqueles utilizam abordagens discursivas permeadas de outros métodos
qualitativos, em quadros definidos para as disciplinas as quais pertencem, enquanto esses se
interessam pela maneira pela qual, em uma sociedade determinada, a ordem social se constrói por
meio da comunicação.