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8 Empédocles e Anaxagoras: Respostas a Parménides Dante We GRAHAM fo ha divvida de que 0 poema de Parménides seja um divisor de Aguas ils histéria dos primérdios da filosafia grega. Nenhum pensador série pode ignorar a obara desse filésofo, que parece propor problemas insuperdveis para a cosmologia ¢ a investigagdo cientifiea, A primeira geragao depois de Parménides inclui pensadores que pretendem dar seqiiéncia & tradigio jénica de especulacio. Come, porém, confrontar Parménides? Que efeito tém os argumentos desse fildsofo sobre a obra dos pdsteros? Os primeiros assim chamados neojénias' sio Empédocles ¢ Anaxagoras.’ Apesar de algumas sa- lientes diferencas entre si, ambos tém muito em comum em sua abordagem: Sao contemporaneos préximos? ¢, como veremos, abordam a especulagéo cientffica de maneiras semelhantes. Examinemos, pois, em primeiro lugar os sistemas de Empédocles ¢ Anaxdgoras e, a seguir, discutamos suas respastas a Parménides, ‘Otorme provém de Barnes [14] cap. 15, que sublinha a continuidade entre seu projet e 0 des primeiros fildscfos jénios. O terme prontamente permite a classificagGo de filsofos da halla @ da Sicilia, como Filolau e Empidocles, juntamente a filésofos janios como Anextigoras, © Esses dois filésofos aparentemente estavamn em atividade uma geracde antes de Filslau, Arquelay, Diégenes de Apolénia e Leucipo, duas geragées antes de Demécrito. 1 leitura mais direta de Aristételas, Met. 13 984al 1, reza: “Anoxégoros precede Empédocles, mas a ele sucede em obras”. No entento, “sucede” pode af designar nde apenas 4 publicagéo cronologicamente posterior das obras de Anaxagoras, mas também a publicagéio de obras infarioras ov concaitualmente mois modernas. Quem publica syas obras antes 6 matiria d sonirorérita, 6 04 semelhangas parecem indicar Wio-romente ie vin “| on (375). Ch. tb. a detalhada 220. Panisxnios na Fitosoria Gueca Empgpoc es & ANAXAGORAS Depois de nos admoestar a buscar um cquilibrio em nossa ava- liagio da evidéncia senséria (DK 31 B3), Empédocles identifica os constituintes basicos do universo desenvolve uma cosmologia baseada nesses constituintes. Ha quatro “raizes” (rizdsmata}: agua, terra, fogo © ar (B6), que se combinam em proporgées de nimeros naturais para formar campostos, Exemplo: ossos consistem de duas partes de terra, quatro partes de fogo e duas partes de agua (B96); sangue, de iguais porgdes das quatro ralzes (B98). As raizes existem por canta prdpria, mas hem sempre nos sao aparentes em virtude de estarem por vezes misturadas umas As outras. Com efeito, as quatro raises si0 materials imutdveis que se tornariam conhecidos na antigitidade como os quatro elementos. Em um simile notavel, Empdédacles compara a natureza aos pintores: Como quando os pintores adornam oferendas, homens bem treinados pela cazdo em suas habilidades, que, quando tomam com suas maos substincias quimicas coloridas, combinando-as harmanicamente, de unas mais, menos de outras, do forma, a partir delas, a todas as coisas, criando drvores, homens, mulheres, feras, péssaros, peixes mutridos por dgua ¢ deuses de longa vida poderosos em honras (B23.1-8), Assim como um pintor pode, cam poucas cores, representar diversas formas das mais diferences coisas, igualmente a natureza, com poucos ele- mentos, pode criar todas as substancias naturais, Em uma discussio acerca dessas realidades, Empédocles introdua duas forgas personificadas, 0 Amor ¢ a Contenda, aquele unindo os elementos e esta separando-os (B17.19ss,), Empédocles descreve 0 Amor e a Contenda como espacialmente distendidos, mas invis{veis, Ha alguma controvérsia a respeito de como agem, mas evidentemente o Amor une elementos distintes ¢ a ce ser necessdria uma forga paras saxconas: Resposras APannénipes 221 Empipocte mas pata combinar terra a gua, ar ou fogo. O Amor ¢ a Contenda interagem para moldar © mundo, © Amor combina elementos em um arranjo harmonioso, unindo todas as coisas em uma mistura petfeita- mente homogénea cm uma Esfera (Sphairos) césmica. Eventualmente, porém, a Contenda adentra a Esfera, estilhaga sua unidade e precipita 4 dlissociagéa dos elementos, Dias partes sepatadas da Esfera surge um cosmos em que as diferentes massas de agua, terra, fogo ¢ ar aparecem ¢-a5 plantas e os animais se desenvolvem, Hi, nesse ponto, uma con- trovérsia a respeito do que ocorre, Em uma caracterizagaa, a Contenda continua a separar os elementos até que dgua, terra, fogo ¢ ar estcjam completamente dissociados um do outro € estratificados em camadas concéntricas, nao permitindo a existéncia de compostas ¢ seres vivos; nesse ponto, o Amor comega ase expandir a partir da centro a ae edsmica © novamente forma compostos, af inclufdos os seres vivos.' O fragmento B35 parece sugetit essa concepgao: quando a Cancenda alcanga o funda mais interior do vértice e 8 Amor surge no meio do cireulo, codas essas coisas convergem para se cornar uma 86, ’ do stibito, antes voluntariamente se unindo, ofiundas esta daqui, aquela dali, ‘Ao se miscurar, Fazem jorrar uma mirfade de ragas de ferass no entanto, muitas coisas sem mescla se mantém separadas das combinadas, aajelas que @ Comtenda mantém em suspenso, pois mio se afssta por completo ede modo irteprochavel rumo aos limices ilrimos do circulo, antes alguns membros permanecem fixos, outros hao sido destacados Contuda, conforme os deixa para tds, rreprochavel e bem-intencionado do Amor produz com- o impulso. imortal preensto (B35. 3-13). 179, O'Brien (459) 116-117, 222 PaimOnptos na Firosorts Gueca © Amor, ao ocupar o campo de batalha ¢ fazer com que a Contenda bata em retirada rumo & periferia do cosmos, faz com que a composigdo s¢ dé, Em uma caracterizagao alternativa, jamais ocorre uma separagio comple ta das elementos, apenas uma luta continua entre a Contenda co Amor com a eventual vitéria do Amor ¢ a formagao da Esfera em um processo ciclico infinite? Segundo a primeira concepgao, hd duas criagées separadas de plantas € animais, uma durante o estégio em que a Contenda esta desenvolven- do-se, a outra durante © estégio em que o Amor estd desenvolvendo- se, Durante o desenvolvimento da Contenda, “formas todas naturadas” emergem da terra conforme se dé a separagio dos elementos, Essas fore mas séo gradualmente diferenciadas, dando origem, ao menos em alguns. casos, a criaturas vivas vidveis. Posteriormente, essa criagdo perece, quan= do a Contenda separé-las ao nivel elementar. Quando, porém, o Amor comega a se afirmar, primeiramente forma membros separados a partir dos elementos. Esses membros depois se juntam em combinagées aleae térias para formar monstros, como “a progénie de bois de face humana” e “a progénie de homens de face bovina”. Incapazes de sobreviver, esses monstros perecem. Quando, porém, os membros se juntam em combi- nages vidveis, as bestas resultantes sobrevivem e se reproduzem. Em sua caracterizagao da geragdo dos membros, Empédocles nos oferece uma espécie de precursar das modernas teorias bioldgicas. Muito embora nfo enuncie uma teoria evolutiva gradual, sua teoria pressupde um prinei- pio de selecao natural para explicar as espdcies ora existentes. Aristételes $ Aqueles que rejeltam a separagéo completa dos elementos incluem Bollack [356] vol, 1; Hélscher [360]; Sclmsen [361]; Long [362]; Schofield em KRS 288 n, 1, 299 305; Osborne [364]. Aqueles que defendem a separaséo completa ineluem O'Brien [359] © [369]; Barnes [14] 308-11; Wright [958]; Grohom [363], Inwood (357). Se ha uma separagdo completa dos elamantos, dave haver dois periodos no criacoo. dos animais e dos plantas, um anterior e um posterior & separagto; se nao hd uma separarda completa, um periodo basta, Muito do debate loca 0 atengéa sobre coma ‘08 diversos astigins da cringtio ide ter locolizades no ciclo edsmico, Para a concepptio dai ca Euetnoctes uAnaxAconAs: Rusrossas a Pamabsunns 224 (Phys, 11.8) critica Empédocles por atribuir ao acaso um papel tao mands na produgao de tipos nacurais, mas nesse ponto Empédocles esta mais proximo da ciéncia moderna do que Aristételes. Muitos detalhes do cielo cdsmico de Empédocles permanecem obscuros, mas é evidente que seu tema principal é alternaneia incessante entre 05 Pro- cewos de unio ¢ divisio, que de muitos produzem ume de um, muitos: E ewsas coisas jamais deixam de continuamente se alteras, ora todas convergindo em um por obra do Amor, ora sendo divididas por obra da inimizade da Contenda. Assim, na medida em que se acostumam de muitas ase rornar um ce, gerado o um, muitas eclodem, vem a sere nao thes € faculeado tempo irtestritos e, na medida em que jamais deixam de continuamente se alterar, concede-se-Ihes imobilidade em um cielo (B17.6-13). Empédocles reconhece a simetria dos processos contrérios de unifieagao ediviséo ao equilibrar versos antitéticos, Reconhece a continuidade do pro- cesso ao reiterar sua desctigio. Em seu ciclo, um ¢ muitos tém, ambos, seu lugar. E.ha um tipe de imutab) ilidade manifesto nas tepetlinls do ac como verso 13 explicita, Assim, Empédocles postula tum ¢ muitos, mavimento € coma caracteristicas de sua cancepgio dinamica do mundo, Empédocles introduz 0 que parecem ser farores s0= exilada de sua mora- Fepouso, Em sua psicologia, brenaturais, Os seres humanos tém uma alma imortal, divem razdo de seus pecados. Vagando de lugar em lugar habita eee corpos até fazer 0 que € certo, de modo a que se possa subtrair ao ciclo de renascimencos, Essa doutrina religiosa, talver influenciada por ensinamen= tos pitagéricos,’ distingue a filosofia de Empédocles da filosofia dos demais neojdnios. B maréria de debate se suas concepgoes psicolégico-religiosas € sua filosofia natural podem ser conciliadas, Em seu estilo, assim camo em cl. Hollman, neste volume, errata °F Kiley 105), p 119122. Rom