You are on page 1of 8

Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel

Av. Tito Muffato, 2317 – Bairro Santa Cruz


858806-080 – Cascavel – PR
Fone: (45) 3036-3636 - Fax: (45) 3036-3638
http://www.univel.br

ACADEMICOS Cátia Mendonça; Julivam Henrique; Maira C. Chimello; Marli


V. T. Rozzini e Renato Padilha

PROFESSORA Kátia Salomão

DISCIPLINA Filosofia - 4° bimestre

CURSO E TURMA Direito – 3° C

ROTEIRO DE APRESENTAÇÃO
CARL SCHMITT

CARL SCHMITT – DADOS BIOGRÁFICOS

Nascido em 11/07/1888 e falecido em 07/04/1985 – Plettenberg – Oeste da


Alemanha.
De família católica e sem muitos recursos financeiRos.
Formou-se em Direito no ano de 1910, na cidade de Estrasburgo. Lecionou
em Bonn em 1933 – localizada a 751 km de distância.
Em Berlim começou a projeção política onde influenciou nos rumos da
República de Weimar, esta parlamentarista e após sua queda, associou-se ao
Partido Nazista (1933 e 1936), sendo reconhecido como um dos mais eminentes
teóricos do direito da sua geração.
Com o final da guerra foi preso e levado ao Tribunal de Nuremberg, porém
escapou das acusações. Então retirou-se da vida pública e universitária, porém
continuou a escrever até o fim da vida. No entanto, diferente de Heidegger ou Leni
Riefenthal, Schmitt que também nunca se retratou sobre sua filiação ao Partido
Nazista, é apontado até hoje como o “jurista de Hitler”, por defender o Estado de
Exceção e a Teoria da Decisão.
As obras mais destacadas foram:
A ditadura – 1921;
Teologia política – 1922;
O conceito do político – 1927;
Ainda em 1950, nos tempos da guerra dedica-se ao direito internacional
escrevendo o livro “O monos da terra”. Porém é na decisão e na exceção que
residem as melhores obras do extrato do pensamento jurídico schmittiano.
“De forma geral, pode chamar-se ditadura a toda exceção de uma situação
considerada como justa... uma exceção da democracia; uma exceção dos direitos de
liberdade garantidos pela Constituição,... uma exceção da separação dos poderes
ou bem... uma exceção do desenvolvimento orgânico das coisas.” (SCHMITT, Carl.
La ditadura. Madrid: Revista de Occidente, 1968 p. 194-195).
Partindo desse entendimento, ele acaba por induzir a uma interpretação
equivocada, cujo teor por vezes permitiu “cobrir cidades com gases venenosos para
o restabelecimento da segurança e ordem”, quando assim necessitasse agir o
Führer do Reich. Estaria fundado no art. 19 da Constituição Alemã de 1919 que
garante ao presidente do Reich que adote as medidas mais severas para interpor a
ordem, inclusive com o uso das Forças Armadas, suprimindo quaisquer direitos ou
garantias para que se instaurasse o poder supremo do Estado.

O decisionismo jurídico e a exceção

Carl Schmitt postula o fenômeno jurídico de modo intimamente ligado às


manifestações do poder.
O direito não é compreendido como uma processualidade formal e
automática, isto é, como se fosse uma decorrência lógica de competências
previamente estabelecidas, como se fosse uma cadeia infinita de produção de
normas jurídicas. Pelo contrário, o direito é compreendido como decisão
independente das normas, como ato que instaura uma condição que não haveria de
outro modo.
O cumprir automático das regas seria típico de uma visão liberal,
juspositivista, de inspirações próximas a Kelsen. No entanto, para Schmitt, não é
nessas circunstâncias que se compreende a verdade do direito.
Há uma cadeia de normas e competências formalmente dadas, que os
juristas operam num nível quase mecânico, mas o direito se revela muito mais na
exceção, no descumprimento da regra, porque nessas circunstâncias se revela o
poder.
Uma das mais célebres frases de Carl Schmitt é a que dá início à sua obra
Teologia Política: “soberano é quem decide sobre o estado de exceção”. Através
dessa frase, analisa-se o direito sob a perspectiva do poder, onde aquele que
cumpre a regra não revela a verdade do direito, apenas demonstra o seu caráter
burocrático. O poder nu, soberano, é aquele que passa por cima das normas e
instaura a decisão original. Daí diz-se ser o soberano o que decide sobre a exceção.
Para Schmitt, é justamente a exceção que instaura a ordem, a partir de uma
desorientação original. A decisão não é o último momento de uma cadeia normativa,
como pensa o juspositivismo; é o primeiro, pois é a base da ordem.
Schmitt provocou, desta forma, uma mudança na compreensão do direito:
ultrapassou-se uma barreira formal, meramente normativa, para se chegar a um
núcleo decisional, que concentra o poder enquanto ato originário de seguir a regra
ou de rompê-la, criando a exceção. A partir de então, o direito passa a ser tomado
como um fenômeno distinto daquele previsto pelo juspositivismo. A compreensão do
direito não está limitada às normas jurídicas, ela se situa no eixo de gravidade do
poder.

“Uma filosofia da vida concreta não pode se retrair diante da exceção e do


caso extremo, porém deve interessar-se por isso em grande medida. A ela deve ser
mais importante a exceção do que a regra [...] a exceção é mais interessante que o
caso normal. O que é normal nada prova, a exceção comprova tudo: ela não
somente confirma a regra, mas esta vive da exceção. [...] quando se quer estudar
corretamente o caso geral, somente se precisa observar uma real exceção. [...] Não
se podendo explicá-las, também não se pode explicar o geral. Comumente, não se
nota a dificuldade por não se pensar no geral com paixão, porém com uma
superficialidade cômoda. A exceção, ao contrário, pensa o geral com paixão
enérgica”. (in Teologia Política).
Em busca de um novo pensamento político

A Teologia política é um método de apreensão do direito discutido por


Schmitt, do qual política, decisão e especialmente poder é o que move o eixo
gravitacional do fenômeno jurídico.
Para a maioria dos juristas os limites do direito são os limites do próprio
Estado, como em Kelsen em que direito e Estado se confundem. Para Schmitt, o
Estado deve ser compreendido em dois níveis de fenômeno: de umlado o direito e a
norma e de outro a soberania e a política, sendo que o poder está acima da norma
jurídica e o Estado é maior do que as normas jurídicas.
É importante o papel assumido pela exceção já que é por meio dela que
haverá o elo entre o poder soberano e o direito e este não será uma unidade como é
em Kelsen, ou seja; o direito é situacional; é o produto criado e garantido pelo
soberano por uma situação da qual a última decisão deve ser a do soberano de
forma monopolizada. Assim se daria a soberania do Estado, o qual para constituir o
direito basta ter poder político, ainda que não haja razão.
Para o filósofo, a verdade do direito não residiria na norma jurídica e na
processualidade automática da criação e da aplicação das normas aos casos
concretos mas estaria no poder político soberano que decide a norma, excluindo
aquele em quem o direito investiu de competências formais.
Neste sentido, a constituição alemã em vigor à época, diante da relação
direito/estado, não se concretizava em termos de soberania mas se mantinha
apenas em função do era exposto em exceção a ela. A efetividade constitucional se
daria uma vez que fosse inserido poder era portanto um dispositivo mais ligado ao
Estado do que ao direito constitucional.
Tal entendimento pressupunha uma soberania vinculada ao Estado e o
representante nazista protegeria o direito conduzindo a união do povo ao Estado e
se insurgindo contra os próprios órgãos do Estado.
Segundo a interpretação de Schmitt o verdadeiro sentido democrático da
constituição de Weimar residia no fato de que o povo poderia agir diretamente e a
autoridade do presidente do Reich unida à vontade política da totalidade do povo
alemão o tornava guardião e defensor da unidade e da totalidade constitucionais.
Para o filósofo, a idéia de freios e contrapesos da constituição vigente era
criticada justamente por tornar o líder político um ator com papel marcado
previamente delimitado pelas normas jurídicas. Portanto, o ideal seria que o
soberano, detento do poder último, estivesse acima das regras e decidisse sobre
sua própria exceção e com esta postura é que a ordem seria garantida. Era preciso
que uma existência coletiva assumisse forma própria por meio de um componente
pessoal – a autoridade do soberano.
Muitos críticos entendem que são estas idéias que sustentaram o nazismo, ou
seja; deveria existir um soberano que se destacava da massa informe dos
operadores e cumpridores das normas jurídicas e o Führer cumpriria esse papel.
Carl Schmitt apontava que a Constituição de Weimar era fraca por não
resolver o impasse entre capitalismo e socialismo, já que buscava conciliar a vida
burguesa cujos interesses eram de liberdade e de proteção de capital de um lado e
havia o imperativo socialista de proteção ao trabalhador, de outro. Hittler,
representaria o rompimento dessa fraqueza política.
Schmitt, perante a crise da república de Weimar, deu origem a diferentes
correntes interpretativas de sua teoria: uns afirmavam que ele sempre foi nazista,
outros que ele era contrário à Constituição e queria um sistema presidencial mas
não tinha aderido, ainda, ao nazismo e há aqueles que seguem a interpretação do
próprio Schmitt afirmando que ele propôs o regime presidencial para tentar salvar a
República.
Assim, sua tese gira em torno do político soberano com amplos poderes de
controle da Constituição e decidindo sobre ela faria sua própria política visando uma
unidade de pensamento do povo, e isto para Schmitt era uma garantia de política
forte.

O conceito do político

Carl Schmitt tem um conceito que escapa às convenções comuns sobre


política. O que para os outros que classificam a política entre “aliados e o eixo”,
“mocinho e bandido”, para ele é a figura explícita da despolitização.
O conceito dele para política tem algo muito peculiar que é a caracterização
do amigo-inimigo, baseada apenas no diferente, ou seja, basta ser estranho àquele
sistema e automaticamente configuraria-se como inimigo. E vai mais longe nessa
caracterização: o amigo-inimigo não é necessariamente algo ofensivo, pelo
contrário, pode até ser composto por um relacionamento de vantagem econômica ou
bélica, como foi o caso da interação com a Itália durante a 2ª Guerra Mundial; o que
ele frisa com veemência é que não se deve considerar aspectos humanos da
amizade, afinal, um Estado politizado não pode ser “amigo” de um outro, levando em
consideração que ambos são formalmente soberanos, e ao primeiro conflito de
interesses, segundo o alemão, apareceria o conceito puro de amigo-inimigo, política.
Outra crítica apontada por Carl Schmitt é a exacerbação da ética no trato com
os conflitos de interesses, onde se evita o máximo o enfrentamento, diz apenas que
são oponentes ideológicos, e em nome da ética, ficam por isso mesmo. Tal
pensamento deriva um pouco da lógica germânica no trato entre eles próprios. Essa
“eticização” da política, segundo ele, é o que define a despolitização, é o liberalismo
invocando a individualização – e também até mesmo o isolamento.
Os “tentáculos” do liberalismo giram em volta de pólos, a exemplo da Guerra
Fria, tentando distrair as mentes mais confabulantes para um dos lados, ao consumir
inteligência, produção científica e industrial em rumo de uma conquista do mundo.
Porém, a Guerra Fria se torna morna, quando olhamos pelo prisma de Carl Schmitt,
ao dizer em outras palavras que o conceito puro do enfrentamento se encontra
vazio, cheio de normas internacionais a regularem atos dos Estados soberanos.
Tudo é extremamente juspositivado, e aí se dá o conceito que ele funde à ideia de
amigo-inimigo para justificar o sistema de Exceção, o Estado que, para o inimigo,
segue um sistema não previsto em nenhum outro sistema jurídico anterior, sem
critérios de justiça pré-estabelecidos. É a desconstrução de um pensamento que se
vinha tomando como verdade desde o surgimento da classe burguesa. É com
exceção que se trata que não segue o que foi regrado. Portanto, um Estado
alienígena “A”, que se baseia segundo seus próprios regramentos e difere de
interesses de um Estado “B”, que pensa a política segundo Carl Schmitt, seria
tratado com exceção.

Teologia Política
A posição de Schimitt, antiliberal, revela tanto seus interesses políticos como
também, seu método filosófico. Para Carl Schimitt, os conceitos jurídicos e políticos
modernos são uma transplantação de conceitos teológicos, num processo de
secularização.
Todos os conceitos concisos do Estado moderno são conceitos teológicos
secularizados. Porque ele foi transferido da teologia para a teoria do estado, à
medida que o Deus onipotente tornou-se legislador onipotente.
Carl Schimitt, investe ao afirmar que, como fundamento da compreensão do
direito, do poder e da soberania, atenta contra o pressuposto profundo da tradição
moderna, luminista e laicizada, Schimitt aproxima o fenômeno jurídico da própria
organização da Igreja Católica, baseado na submissão ao Papa. Entre o Fuhrer e o
Papa a semelhança. A decisão é criada ex machina, o soberano é secularização de
Deus e a suspensão das normas equivale a criação da ordem a partir do nada.
Para Shimitt o conceito de decisão parte dos mesmos pressupostos que o
normativismo, à anterioridade e primado do dever norma pertence a vontade,
instauradora da ordem, é a vontade como fundamento do direito. Enquanto a
oposição literal entre ser e dever ser – isto é, em um lugar da forca e do arbítrio do
Estado reinam a justiça, razão verdade, em Schimitt vontade significa simplesmente
“origem de um dever ser”.

Decisionismo e Existencialismo.
Embora essas duas espécies tem muita distinção, há alguns laços entre elas.
Foi Heidegger quem convidou Carl Schimitt a se integrar no movimento
nazista. A filosofia hermenêutica alarga os horizontes da norma jurídica, fundando-a
na situação existencial, mas, o decisionismo também afasta a normatividade como
definição ou limite do poder. O decisionismo de Schimitt revela sua melhor aptidão
em comparação com a hermenêutica de Gadamer, pois, desde a a década de 1980,
os marxistas passaram a estudar e a reavaliar a compreensão do pensamento de
Schimitt. A critica da filosofia hermenêutica é mais horizontal que vertical ao
fenômeno jurídico, isto é, ela insiste no fato de que o direito não é norma, está
mergulhado no todo existencial, e assim procede uma largueza de horizontes para a
compreensão dos juristas. Já na teologia do direito, se revela de modo gritante: o
próprio pai é o direito para seus filhos, o próprio pastor é o direito de seu rebanho e
a Igreja é a depositária dos destinos de seus fieis.
A teoria shimittiana se baseia no movimento e na transformação. Schimitt
abre seu pensamento para a revolução reacionária, na medida em que a descoberta
do poder é a descoberta do arbítrio que sempre esteve por detrás da legalidade.
Porém, a revolução schimittiana não precisa se limitar ao simples reacionarismo, na
medida em que é a proposta de saída dos domínios da legalidade para a afirmação
de um vinculo social praticamente existencial, e pode apontar para a superação de
uma determinada ordem do poder.