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456 __r6n1e0s cowcerrunss direito e prejudicando terceiros, sendo, por isso, amilavel 0 negécio (...). Trata-se dos vicios sociais, como a simulacao e a fraude, que contaminam a vontade manifestada contra as exigéncias da ordem legal.” No Ambito do Direito Civil, a lei objetiva preservar a autonomia da vontade, tentando minimizar a ocorréncia do erro na manifestagdo dessa vontade. No Di- reito Administrativo, a intengao é diversa. Maria Sylvia Zanella di Pietro revela o papel da lei nesse ramo do Direito Puiblico: “Precisamente por nao poder dispor dos interesses piblicos cuja guar- da Ihes é atribuida por lei, os poderes atribuidos & administracdo tém o card- ter de poder-dever; so poderes que ela nao pode deixar de exercer, sob pena de responder pela omissio. Assim, a autoridade nao pode renunciar ao exer- cicio das competéncias que the so outorgadas por lei; nao pode deixar de punir quando constate a pratica de ilfcito administrativo; ndo pode deixar de exercer poder de policia para manter o exercicio dos direitos individuais em consonancia com o bem-estar coletivo; nao pode deixar de exercer os poderes decorrentes da hierarquia; nao pode fazer liberalidade com o dinheiro piiblico. Cada vez que ela se omite no exercicio de seus poderes, é o interes- se piiblico que est sendo prejudicado.”? Em virtude de o principio da supremacia do interesse puiblico reger a dog. matica do Direito Administrativo, o poder conferido pelo Direito Administracao Pablica é, literalmente, um poder-dever. Ou seja, a agao administrativa nao é au- ténoma, nao é a Administracao que estabelece o que seré realizado, mas a lei. O bem juridico da liberdade é de tamanha importdncia para a Ciéncia Juri- dica, que, nos textos legais, é protegido desde a edicao da Carta Magna (17 de junho de 1215) e, especificamente, por meio do Habeas Corpus Amendment Act (26 de maio de 1679). Na época contemporanea, a “liberdade de ir e vir” conti- nua a ser um dos direitos essenciais protegidos pelo Direito Positivo. Dizemos isso porque o art. 32, comum as quatro Convengées de Genebra,? impede, em seu inci- so II, a violacdo ilegal da liberdade de ir e vir. Estabelece o art. 3°: “Para esse efeito, so e permanecem proibidos, sempre e em toda par- te, em relac&o As pessoas acima mencionadas: a) os atentados & vida e & integridade fisica, em particular o homicidio sob todas as formas, as mutilagées, os tratamentos cruéis, torturas e suplf- cios; b) as tomadas de reféns; Diniz, Cédigo civil anotado, 3. ed., 1997, p. 109, Di Pietro, Direito administrative, 1997, p. 64. 3. Documento pertencente a dogmética juridica do Direito Internacional Humanitario, Para maiores informagées, consulte Swinarsii, Direito internacional humanitdrio, 1990. pero susenonne:contuvonros am rece, nioronenenenen 437 ©) as ofensas & dignidade das pessoas, especialmente os tratamentos humilhantes e degradantes; d) as condenagées proferidas e as execugées efetuadas sem julgamento prévio por um tribunal regularmente constituido, que ofereca todas as ga- rantias judicias reconhecidas como indispensdveis pelos povos civilizados.” 0 inciso a protbe a violagao do direito a vida e A integridade fisica; 0 inciso b protege a liberdade de ir e vir; o inciso c profbe as ofensas & dignidade da pessoa humana e a integridade psiquica; e o inciso d visa proibir as execugdes extra- judiciais e proteger 0 “devido processo legal” (garantia essencial do cidadao no Estado de Direito). Conclusées Conforme jd analisado, é da propria natureza do Estado de Direito escolher a lei como garante e protetora da liberdade individual. A garantia e a protegao da liberdade serdo realizadas de diversas formas, dependendo da especificidade de cada ramo do Direito, No Direito Administrativo, a lei guia a acao do Estado e zela pela supremacia do interesse piiblico; os atos vinculados so a regra; 0s atos dis- criciondrios, a excecdo. Jé no Direito Civil, regido pelo prine{pio da autonomia da vontade, a livre escolha é a regra sendo que a lei visa garantir sua real concre- tizagio. Veja-se 0 Cédigo Civil Brasileiro e os “defeitos dos atos juridicos” que vi- sardo impedir que a livre manifestacdo da vontade seja maculada. Tao essencial é a questo da liberdade para o direito, que até numa situagao de guerra a “liber- dade de ir e vir” foi eleita como um dos quatro direitos essenciais a serem preser- vados (art. 3° comum as quatro Convengées de Genebra, 1949, do Direito Inter- nacional Humanitério) Nesse sentido, é atual e valida a concepgao kantiana que lastreia a idéia de Direito, na medida em que suas palavras parecem espelhar com todas as letras a importdncia da intervengao do Direito na construgéo do espago do convivio co- mum: trata-se da instdncia que garante as condigées segundo as quais 0 arbitrio de um nfo interfira no dos outros, segundo uma lei universal de liberdade. 29 Direito e Etica: Etica e Comportamento Humano 29.1 A dimensao do saber ético saber que se intitula ética tem por objeto de estudo a aco moral e suas tramas. Esse saber ético no possui natureza puramente normativa, como afirmam alguns autores, nao se dedicando exclusivamente & compreensio do dever-ser éti- co. Hé, porém, que se dizer que em suas pretensdes de estudo se encontram en- globadas as normas morais. Ou seja, a deontologia, o estudo das regras morais, & parte das preocupagées do saber ético. Isso significa dizer que se pode estudar, além do problema da ago e suas ques- tes correlatas, por meio de um método cientifico (indugio, deduct, dialética, in- tuicdo), pelo saber ético, o conjunto de preceitos relativos ao comportamento hu- ‘mano (individual e social). A preceptistica moral, ou seja, o conjunto de regras de- finidas como normas morais (ndo matards, nao julgards, no fards ao outro 0 que nao desejar‘eis ati fosse feito, nao roubards, dards a cada um o seu...), é, no fundo, a abstragio das experiéncias morais hauridas pela pratica vivencial sécio-humana. De fato, o termo ética, em sua etimologia, revela que éthos estd ligado a es- sas idéias primordiais. E, da andlise, revela-se que éthos (grego, singular) é 0 ha- bito ou comportamento pessoal, decorrente da natureza ou das convengGes so- ciais ou da educacao;! éthe (grego, plural) é 0 conjunto de hébitos ou comporta- 1. “Conceituar ética jé leva & conclusdo de que ela nao se confunde com a moral, pese embora aparence identidade etimol6gica de significado. Ethos, em grego e mos, em latim, querem dizer