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Violação, virilidade e literatura

A violação, fenómeno antigo nas comunidades humanas e entre muitos


animais, continua a assolar-nos no dia-a-dia. Uma rápida consulta às
notícias disponíveis na internet, ou nas televisões, nos demonstra isso
rapidamente. Mais ainda: que se trata de um fenómeno global.
Um fenómeno antigo que permanece deve estar profundamente
radicado na nossa psicologia e na nossa biologia. O que está psicologica
e biologicamente vincado acede à nossa linguagem e fica registado na
história das palavras que usamos. Isto me conduz a começar a minha
reflexão por uma breve pesquisa filológica, procurando esclarecer a
origem e o percurso do significado da palavra violar.

*
Violar, em latim, significava ‘abusar pela força’, ‘maltratar ou injuriar
com violência’. Era um significado já próximo do contemporâneo, porém
com a diferença fundamental de não se reportar exclusivamente a um
acto sexual forçado (hoje, muitas vezes, falamos em violação pensando
em violação sexual). No latim, violar estava relacionado com violento, ou
seja: aquele que ‘exerce desmesuradamente a força’, por isso também
‘feroz’, mas sobretudo o que usa força demais, com ímpeto excessivo
(Roquete & Fonseca, [1889?], p. 308). Em países onde, pelo menos
oficialmente, o uso desmesurado e arbitrário da força é um atentado à
dignidade da pessoa humana, criam-se leis prevendo castigos para a
violência da violação. Daí que a gente cometa crimes quando viola a
própria lei, os direitos, a propriedade, a correspondência. A qualificação
como crime visa evitar o abuso da força e pela força, a imposição pelo
excesso de força, o forçar. O traço distintivo do civilizado e do educado
é, precisamente, que ele só em casos extremos força os acontecimentos
– embora os tente conduzir, orientar numa determinada direcção.
Ambas as palavras (violar, violento) derivam de outra cujas desinências
podem resultar nas formas vis (vis-a-vis: em francês ‘frente a’), vim, vi
ou vires (plural). Vis que dizer ‘força’, em particular se tratando de ‘força
contra alguém’. Daí que tenha depois indicado ‘violência’. No plural
(vires, ‘as forças’), refere-se geralmente a forças físicas e, por aí, pode-se
reduzir às partes sexuais masculinas, pelo que se torna familiar do
conceito de virilia, mesmo de virilidade.
Por indicar ‘força’ e por causa da desinência vires, vis acabou se
confundindo com vir (lia-se uir), palavra que para os romanos e latinos
significava ‘homem, varão’. O homem passou, a partir de então, a ser
aquele que tem a força. A masculinidade assinalava-se pela força (não
só muscular). A virtude passou portanto a designar a virilidade, ou seja,
a força do homem – ao contrário do que hoje sucede. Por isso dizemos
virtual (o que pode ser mas ainda não é) e, sobretudo, desvirtuar – não
no sentido actual de desfigurar, corromper, tirar valor, mas no de
retirar força (masculina, está pressuposto).
Outras derivações vieram, como é natural na dinâmica das línguas. Por
exemplo inviolável, ou seja, que não conseguimos violentar nem
desvirtuar, que não é passível de se forçar. No campo do Direito surgiu
a palavra reivindicar (e vindicar, infinitamente menos usada).
Reivindicar significava originalmente reclamar na Justiça o direito à
força, à razão do vigor ou à propriedade de algo. A propriedade era
vista, assim, como algo que se tem força para ter e que por isso é nosso.
De vindicar vieram para o português e o espanhol palavras como vingar
e vingança (reclamar pela força, impor de modo próprio uma sanção ou
compensação).

*
Por este breve percurso filológico ficamos a perceber porque a violação
toma o sentido de estupro, ou simplesmente de impor relações sexuais
forçadas, contra a vontade do(a) parceiro(a). Mais precisamente porque,
ao usarem a palavra violação, as pessoas pensam automaticamente em
violação da mulher pelo homem. A linguagem, estando intrinsecamente
articulada com a nossa natureza, evolui com ela e por isso também a
maioria das violações são, realmente, feitas por homens contra
mulheres. Mas houve homens violados por mulheres (e a maioria tem
vergonha de o confessar, porque isso ofenderia a imagem de virilidade),
homens violados por outros homens, mulheres por outras mulheres,
crianças por adultos e adultas.
A força e o acto de forçar estão desde sempre ligados ao homem e não à
mulher. Entendemos em geral que as mulheres que forçam são
excepções. Isso deve-se, também, à evolução da espécie, ao nosso
condicionamento biológico e ambiental, às respostas que fomos dando
ao meio para sobrevivermos. As fêmeas, nos primeiros bandos
humanos, ficavam nos abrigos, criando os filhos, colhendo frutas
próximas, apanhando lenha por perto. Os homens saíam para mais
longe e realizavam os actos de força: caçar, guerrear, matar invasores,
invadir, roubar, conquistar. A sua especialização no bando era a da
força; a da mulher era a da recolha. Aproximando mais a biologia e a
evolução, o homem procria largando ou injectando sémen, a mulher
recolhendo-o; o macho pode fecundar várias fêmeas em lugares muito
diferentes, a fêmea em geral está preocupada com a conquista de um
macho que proteja o seu ambiente e não abandone a defesa das crias. O
lar, para ela, era o prolongamento do ventre. Para o homem, uma
propriedade a manter pela força.
A violação, no sentido comum de o homem forçar a mulher a ter sexo
com ele, foi também um direito de conquista. A conquista de um
território dava aos conquistadores, por alguns dias, a possibilidade de
roubarem tudo e de violarem sem serem punidos – desde que
roubassem bens conquistados e violassem mulheres submetidas.
Por tudo isso também, os homens tinham direito de vida e morte sobre
as esposas. Porque podiam forçá-las o faziam, tinham a força para
dominar e lhes garantir a sobrevivência; com isso ganhavam o ‘direito’
de matar. Em muitos países, a legislação dava cobertura legal a esse
poder. Isso ocorreu mesmo em países ditos civilizados ainda no século
XIX. Países em que, por seu turno, a poesia transfigurava a mulher no
bem mais precioso, divinizando-a e transformando-a em nossa ‘dona’. É
esse o veio básico sobre o qual constrói Luís de Camões muitos dos
seus poemas de amor e as «Endechas a Bárbara escrava»: “porque nela
vivo / já não quer que viva”, pelo amor transformando o senhor em
servo e a serva em dona ou senhor. Camões tinha, de resto, muito onde
se inspirar: os trovadores provençais franceses, os grandes poetas
italianos Petrarca e Dante, etc. Os poetas gostam de ver as coisas ao
contrário do habitual – e isso faz-nos bem.
A violação e a violência do homem sobre a mulher eram, no entanto,
reais e tidos por naturais nessas sociedades. O que se sancionava era a
ausência de virtude, de afirmação do poderio do macho. Por exemplo:
um homem que não batesse na mulher quando ela ‘abusava’ (ou seja:
quando os outros homens achavam que ela cometia abuso), ou que não
a matasse quando ela o traía, não era digno de respeito por parte dos
outros. Um fenómeno menos antigo do que pensam alguns: em grande
medida é essa a base da trama de Os dois irmãos, do romancista cabo-
verdiano Germano Almeida. A narrativa baseia-se num caso real, a que
o autor acede no âmbito da sua profissão de jurista. Essa regra social,
costumeira, que desprestigia o homem que não vinga a traição nem o
abuso, entra em choque com uma legislação nova, moderna, defensora
do direito ao desejo por parte da mulher também. Alguma mulheres
corajosas exercem esse direito mesmo quando sabem que o
consuetudinário as condenará – por exemplo em países islâmicos onde
a legislação reflecte o costume. Outras mulheres gostavam de homens
que lhes batessem, que as transformassem em propriedade sua –
porque essa era a definição instintiva do macho, o forte, o que domina
e, portanto, está bem preparado para guardar e prover a casa (claro que
havia nisso um desvio, um curto-circuito, mas a base está na evolução,
na história da raça humana tal como a resumi).
O cristianismo trazia no seu ventre a semente necessária para
ultrapassarmos essa fase violenta da concepção das relações homem-
mulher e macho-fêmea. Progrediu, no que ao Mediterrâneo diz respeito,
em sociedades onde os direitos das mulheres eram cada vez mais
reconhecidos, mesmo antes de qualquer conversão. Por exemplo na
Roma republicana e, sobretudo, imperial, algumas mulheres eram
livres, possuíam herança própria, autonomia de decisão. Outras eram
polígamas, escolhendo os seus homens em função do prazer que
pretendiam – ainda que estivessem casadas com o próprio imperador.
As chamadas invasões bárbaras (germânicas, eslavas – eslavo significa
escravo – e outras), trazendo geralmente para o Centro e o Oeste da
Europa povos do Leste e do Norte europeus, entre outras consequências
repuseram os ‘direitos’ dos homens sobre as mulheres e,
principalmente, o direito da força a vários títulos. Ou seja: a razão do
conquistador, do predador, do mais forte. A conotação da mulher com a
propriedade e a sua inactividade económica tornavam-na de novo
subordinada ao marido, assim como as filhas e os filhos. Por uma
espécie de instinto de posse um homem, ainda hoje em alguns países,
estupra as próprias filhas: antes de elas passarem para outro passam
pelo pai, pelo progenitor, pela sua posse (claro que temos aqui outro
curto-circuito, mas é o gozo da posse, o direito do conquistador que se
exerce ainda).
Uma parte destes problemas não se colocava em comunidades
tradicionais bantu. Não deixava de se manifestar um sentido de posse,
estipulado com preço, até porque o casamento tratava também da
transferência de uma força de trabalho para das lavras do pai para as
lavras do marido (uma força de trabalho que os pais perdiam e que
jusficava o alambamento ou alembamento). Não ganhávamos somente
uma esposa, mas uma propriedade que geríamos enquanto não
prevaricássemos. A infidelidade podia ter igualmente um preço – o que,
em muitos casos, evitava outras formas de violência. Apesar do
sentimento de posse, a mulher tinha maior margem de manobra do que
nas sociedades europeias da mesma época, tornando-se um elemento
produtivo, gerador de riqueza também. Figuras históricas de excepção,
até hoje uma referência para nós como Nzinga Mbandi, Lueji, ou Kimpa
Vita, sublinham essa margem de manobra com um cunho pessoal e
peculiar – o que Pepetela retratou bem no livro Lueji: o nascimento de
um império (Pepetela, 1989), que tem de magistral a comparação
narrativa com a bailarina contemporânea em Luanda. As narrativas
orais que falam dos castigos que o destino reservava às jovens que,
muito belas e convencidas, recusavam pretensiosa e insistentemente
casar, mostram-nos também que elas tinham margem de manobra para
o fazer – ao menos em certos momentos da história dos nossos povos.
Quando passamos para espaços urbanos organizados sob o ponto de
vista colonial, mercantil e marcado por normas fixadas através da
escrita e sancionadas pela Igreja, geram-se formas novas de
comportamento. Elas misturam o historial relatado pela filologia de
violar com os costumes da terra anteriores e paralelos à colonização.
Dessa nova mistura surgem figuras extraordinárias de grandes
comerciantes, mulheres com fortuna e com negócio próprios, coligados
ou não aos dos maridos (quando os havia). A nossa literatura retrata a
formação de uma dessas mulheres na novela Nga mutúri, do famoso
advogado Alfredo Troni. A história de D.ª Ana Joaquina (em
determinado momento a maior fortuna de Angola), como a de outras
grandes figuras femininas da colónia no século XIX, comprovam
largamente o que digo. Em parte, o romance O segredo da morta, escrito
pelo proto-nacionalista António de Assis Júnior (Júnior, O segredo da
morta, 1929; Júnior, O segredo da morta, 1935), foca também o mesmo
fenómeno centrado, no caso, na zona do Dondo, das margens do
Quanza (como no seu tempo se escrevia). A mesma região e época de
que magistralmente nos dá conta o grande romance de Arnaldo Santos
A casa velha das margens.
Mas também nas novas cidades havia intersecções com os costumes
anteriores e os trazidos pelo colonizador que repunham o direito de
violação. Algumas dessas intersecções recuperam os direitos do homem
sobre a mulher por via do sistema escravocrata. É ilustrativo, a esse
título, o conto «Damba Maria» de Óscar Ribas, o primeiro do livro Ecos
da minha terra (Ribas, 1989, pp. 15-29). O conto, de origem popular, faz
eco da grandeza antiga de cidades como o Dondo e a Catumbela, sem
esconder o poderio do sistema escravocrata. A acção decorre junto à
Catumbela e ainda hoje temos lá a Damba Maria, indicativo de outro
espaço urbano e de uma estação ferroviária (a do km 27).
Como provavelmente a maioria dos leitores o desconhece, vale a pena
resumir-lhe a intriga. Um colono comprou uma escrava muito jovem e
vivia amancebado com ela desde então. Um hábito da terra, lembra
Óscar Ribas. A escrava-amante-mulher sentia pelo seu dono uma total
devoção. Quando um proprietário negro (na altura escrevia-se “preto”)
passa pela casa do colono, com quem mantinha negócios, e não o
encontra (“havia ido à Catumbela”), pede à escrava um copo de água
para matar a sede. A escrava traz a bilha e diz-lhe para estender o
chapéu, como fazia geralmente com os da sua cor, os pobres e os
escravos. Aí percebemos a pobreza do meio apesar da opulência de que
fala Ribas no início do conto: “o copo é do branco e só ele pode beber
por ele”. O proprietário negro fica furioso (proprietário de xitacas,
escravos e concubinas, faziam-lhe uma afronta daquelas?). A escrava,
cheia de medo, diz-lhe aflita que vai então buscar um copo de água –
mas agora ele recusa. Como não podia castigá-la, porque não detinha a
sua propriedade, levou o rancor para casa e não descansou enquanto
não convenceu o negociante branco a vendê-la. Foi difícil mas, como
acima do afecto valia o dinheiro e, afinal, ela não era sua mulher mas
sua propriedade, sua escrava, o branco vendeu-a. Fez o negócio (sem
saber do episódio da água) e ela teve de aceitar (“como cachorra fui
comprada, / como cadela fui vendida”). O novo dono acabou matando-a
para vingar a humilhação e, em sua homenagem, quando o comboio
parava no km. 27 a estória era brevemente recordada aos passageiros.
A violência se exerce várias vezes, nesse enredo, sobre a escrava:
quando vendida pelo tio, quando estuprada pelo dono e transformada
em amante, quando comprada pelo novo dono e, finalmente,
assassinada. Violada no seu corpo, sem direito a existência própria,
como normalmente acontecia com as escravas (a quem não eram
reconhecidos direitos), o seu caso lembra-nos que, nas novas cidades
coloniais, ao mesmo tempo em que surgiam mulheres independentes e
ricas, senhoras de si e de vários outros, havia mulheres coisificadas,
mulheres que eram mera propriedade dos seus donos (ou das suas
donas).

*
Tudo isto deve ser levado em conta quando nos defrontamos com casos
de violação, por vezes protagonizados por pessoas social e
economicamente frustradas. O que de forma alguma os justifica perante
a consciência cristã e a consciência cívica. O violador, quando
apanhado, alega geralmente que a vítima ‘embarcou’ na estória, ou que
o assediou, ou que o provocou com sugestões eróticas. A tentativa de
desculpa acontece em todo o lado, como por exemplo em Angola e na
Índia. É uma desculpa, sim, para tentar atenuar a responsabilidade
pelo crime. Mas o raciocínio é o mesmo dos predadores antigos. Por
mais que alguém nos tente, nos assedie, nos excite, só violamos essa
pessoa porque achamos que temos o direito de exercer sobre ela a
nossa força para satisfação do nosso desejo. Como se a vítima perdesse
o direito à propriedade de si quando o predador se excita com ela.
Sou um estudioso da literatura com algumas incursões pela psicologia.
Não tenho, portanto, soluções para acabar com tal fenómeno. Penso que
precisamos compreendê-lo profundamente, sem nos limitarmos à
sanção, ao castigo. Claro que a prisão do predador é fundamental para,
também, evitar a repetição do crime e o sentimento de impunidade. Mas
confesso que não sei como se pode evitar violações. Uma vez que elas
ainda ocorrem, é provável que ninguém saiba.
Quando não sabemos, imaginamos. Temos isso em comum com os
poetas. Por acaso recordo-me de uma parisiense que se tinha
apaixonado, instintivamente, por um macho dominador. Em desespero
de causa, numa sociedade onde o feminismo triunfava no campo
cultural, ela reagiu e obrigou o seu macho a sofrer tudo o que ele a
tinha feito sofrer, incluindo sexualmente. Não sei se isso cura um
violador e talvez não cure mas aumente a sua humilhação. Gera,
portanto, a tendência para compensar a humilhação com novo acto de
violência. Possivelmente a literatura pode-nos trazer um contributo
importante para o que me parece um passo incontornável: levar o
predador a compreender a gravidade do seu acto por si próprio, a tomar
consciência de tudo o que o seu acto implica. Aprendi com um indiano
que, ao compreendermos o que fazemos, automaticamente nos
emendamos. É para essa auto-compreensão que aponto, uma vez que
não conheço outras soluções. Um psicólogo ou psicóloga, um padre ou
madre, até mesmo um sociólogo ajudariam. Uma equipa
multidisciplinar. Mas um pouco de boa literatura creio que é decisivo.

Francisco Soares.
Jardins do Éden, 10-08-2013.