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Capa, Edição, Diagramação e Produção: Kálamos Editora

Gerência Executiva: Kevin Fernandes

Revisão: Debora Larissa Rempel

Belo Horizonte: Kálamos Editora, 2018

1.Teologia 2.Evangelho 3.Eclesiologia 4. Literatura Brasileira 5.


Livros Eletrônicos

Reservados todos os direitos autorais desta produção.

Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida por fotocópia, microfilme, processo
fotomecânico ou eletrônico sem a permissão expressa da Editora e do autor.

Todas as citações bíblicas foram extraídas da ACF 2007 (Almeida Corrigida e Fiel)
publicada pela S.B.T.B. (Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil)

www.kalamoseditora.com kalamoseditora@gmail.com

Publicado no Brasil

2018
A DISTRAÇÃO
DO PECADO

Um estudo sobre a igreja, com base


na Carta de Judas

Jorge F. Isah

Sumário

AGRADECIMENTOS

PRÓLOGO

INTRODUÇÃO

Preâmbulo
Autoria, data e destinatários

Conteúdo e Propósito

PARTE UM

SAUDAÇÃO

Servir Como o Senhor

A Santidade Outorgada

O Amor Que Preserva

PARTE DOIS

DEFESA DA FÉ

Exortação Necessária

Fé Regenerada

A Fé dos Incrédulos Contra a Verdadeira Fé

PARTE TRÊS

LOBOS ENTRE OVELHAS

A Guerra Dentro Da Igreja

Mais do que uma predestinação vislumbrada

PARTE QUATRO

A SEMENTE DA DISTRAÇÃO

A Centralidade da Igreja: Cristo

Incredulidade do Crente
A Distração do Pecado

Abandonando o Serviço

PARTE CINCO

A POMPA DO TRAIDOR

O Nexo da Impiedade

A Realidade do Pecado

A Disputa pelo Corpo

A Arma dos Ignorantes

PARTE SEIS

TRÊS MESTRES FALSOS

Inércia Espiritual

No Caminho de Caim

A Recompensa de Balaão

A Incoerência de Coré

PARTE SETE

A INFECÇÃO DO CORPO

O Labirinto do Eterno Cativeiro

Na Roda dos Escarnecedores

O Silêncio Mórbido das Sepulturas Tangíveis

Proselitismo das Trevas


PARTE OITO

A JUSTIÇA INQUIETANTE

A Parousia de Enoque

Princípio Geral da Revelação

“Argumentum ad Divinum Enrustidus”

O Suicídio Espiritual

PARTE NOVE

A MARCA DA MALDADE

Dr. Jekyll e Mr. Hyde

Novos e Velhos Fariseus

Tempos Difíceis

PARTE DEZ

NÃO À AUTOFILIA

Servos Inúteis

A Obra de Deus na Santificação

O Funeral do Homem Natural

Autofilia

Soldados na Guerra Virtuosa

PARTE ONZE

PRESERVADOS EM CRISTO
Feitos à Imagem do Filho

A Restauração Prometida

Graça Comum: o vento que não sopra

Dele, e por Ele, e para Ele


Aos meus pais,

Waldemar e Terezinha,

aos quais tudo devo, conforme a providência

santa e amorosa de Deus


AGRADECIMENTOS

Não seria justo deixar de agradecer a algumas pessoas que foram de suma
importância para a conclusão deste livro:

Ao Tiago Knox, tutor do site “Internautas Cristãos”, e amigo de longa


data, a quem sou grato pelo constante estímulo, sempre me impulsionando ao
aperfeiçoamento da escrita, seja com críticas oportunas ou desafios
necessários para o amadurecimento e a divulgação dos meus textos.

Ao João Weronka, tutor do site “NAPEC – Apologética Cristã”, a quem


tenho o prazer da amizade, que mui generosamente tem publicado e
distribuído vários dos meus textos.

A Debora Larissa Reimpel, a quem sou grato pela dedicação,


profissionalismo e gentileza (não nesta ordem, necessariamente) em revisar e
contribuir para a melhoria do texto através de sugestões pontuais e
necessárias.

Ao Raul Loyola Roman, cujo interesse em meus textos tem-no levado a


traduzi-los e publicá-los em espanhol.

Ao Ranieri Menezes, cujas dicas preciosas e pacientes me ajudaram a


compor a parte gráfica do livro.

A eles, o meu muito obrigado! Sou-lhes devedor.

Cristo os abençoe!
PRÓLOGO

O embrião para a realização deste livro foram as aulas ministradas na


Escola Dominical do Tabernáculo Batista Bíblico, e, durante quase um ano,
analisamos cada um dos versos da carta de Judas, sobre os quais nos
debruçamos e meditamos com o objetivo de nos dobrarmos à verdade de suas
poucas páginas. No princípio, inadvertidamente, cogitei uma análise em
quatro ou seis aulas, no máximo, mas a riqueza e a profundidade do texto
levaram-nos a dispender oito vezes mais o prazo inicialmente estimado.

Em uma série de estudos, fomos impulsionados a compreender a


gravidade do momento vivido pela igreja de Cristo à época do epistológrafo,
crise pela qual a igreja passa, na atualidade, em proporções talvez maiores, já
que grande parte dos inimigos de Cristo encontram-se dentro dela, como o
joio aguardando para ser arrancado. Os exemplos bíblicos servem-nos como
alerta, exortação e repreensão, para rechaçarmos os constantes ataques
inimigos, não nos entregando às suas artimanhas açuladas, preservando a sã
doutrina, o temor e reverência a Deus, apegando-nos à verdade, repelindo a
incitação desonesta à rebeldia, à contemporização com o pecado e ao cultivo
do mal.

Portanto não espere um livro onde você se perderá em meio as dúvidas;


não escrevi nada novo, mas repeti o que a igreja tem defendido por séculos;
não espere afagos e adulações, porque Judas, como emissário de Cristo,
exortou a igreja com asserção, como prova do verdadeiro amor, límpido e
vigoroso, não dando lugar à lisonja interesseira; levando incautos a confundir
o bem com o mal, o certo e o errado, descristianizando mentes e corações
para depois abandoná-los na miséria absoluta, levando-os ao servilismo e
penúria da alma, aprisionada nas correntes diabólicas. Pelo contrário, este
livro é cristocêntrico, não trata de um Deus genérico, impessoal e distante do
homem, mas do Deus encarnado, pessoal, cuja honra e glória satisfaz mais ao
Pai e ao Espírito, as demais pessoas da Trindade, do que o louvor dispensado
a elas mesmas.

Não espere, também, um discurso liberal, heterodoxo, antropocêntrico, no


qual o homem é a “estrela”, enquanto Cristo é um mero coadjuvante, um
nome a agregar distração. Se nada for aproveitado nesta obra, oro para que ao
menos o leitor compreenda a excelência de Cristo, sua sublime majestade,
completa divindade, completa humanidade, esplendor e glória, num grau de
superioridade mais que elevada, somente possível para quem, como ele,
compartilha a deidade

em unidade com o Pai e o Espírito Santo; isto é chamado de


Cristocentrismo[1]. Se nada mais ficar, que fique isso; do contrário, este livro
não terá significado, nem propósito.

Não espere nada bombástico, original, em uma busca doentia pelo


ineditismo, o qual leva muitos autores e livros para além do limite permitido
pela sã doutrina, cruzando perigosamente a linha divisória entre o santo e o
profano, entre o bíblico e o pagão, entre o louvável e o desprezível. Não tive
a menor pretensão de ser inovador, mas de apenas ordenar as ideias e tudo
apreendido em minha caminhada com os santos, a fim de, através de Judas,
alertar a igreja quanto às várias investidas dos inimigos no intento de solapar,
de tornar ineficiente a igreja, fazendo-a um apêndice mais higiênico da
podridão mundana; controlando-a com suas acusações, inverdades e coerção,
num esquema de manipulação visando a fazê-la um arremedo de si mesma e
de secularizá-la a todo custo e sob todos os aspectos da (des)ordenação da
civilização moderna. Em um século controlado pela ideologia e pelo combate
à verdade; onde o anticristianismo é a faceta mais perversa e injusta da
capitulação do bem.

Tentei escrever de forma simples, sem rebuscar ou empreender um


trabalho hermético, sem qualquer pretensão de construir uma obra acadêmica,
mas de disponibilizar a qualquer um o texto com vistas a edificar e exortar a
igreja, muitas vezes perdida entre o secularismo institucionalizado e um
apego a uma tradição mais formal que espiritual, mais moralista que moral,
mais centrada nas concepções humanas do que na verdade, na essência da fé,
o próprio Deus. Busquei passar uma imagem clara daquilo que me propus a
fazer, mesmo que, em alguns momentos, não tenha a convicção de tê-lo
alcançado, no que espero contar com a compreensão do leitor. De maneira
geral, foi um misto de gozo e angústia intentar o exercício de trazer à luz o
que existia apenas em esboços e linhas mal delineadas.

Entretanto, devo ressaltar que nem todo o material, constante nestas


páginas, é exclusivo das lições apresentadas no T.B.B.; há uma boa parte de
trechos escritos “a posteriori”, alguns pensamentos “a priori”, e reflexões
complementares acrescentadas ao corpo inicial, à medida que a obra tomava
forma, como consequência necessária da sua redação; proveniente, em caráter
único, das minhas considerações sobre os diversos temas propostos, não
existindo qualquer comprometimento da liderança e membros do T.B.B. nas
conclusões e no produto final apresentado, sendo, portanto, de minha inteira
responsabilidade o que se vos apresenta.

Contudo, não poderia deixar de agradecer a cada um dos contribuintes e


corresponsáveis diretos no arremate desta obra, não necessariamente no que
se encontra expresso, mas através das participações frequentes nas aulas, em
conversas ocasionais e indicações de textos e obras. Seria injusto se, em
especial, não creditasse ao pastor Luiz Carlos Tibúrcio, irmão e amigo, o
estímulo necessário para desenvolver este plano, ao convencer-me, sete anos
atrás, a aceitar a incumbência de tornar-me professor. Com ele, também,
tenho aprendido muito, ainda que algumas coisas me sejam incompreensíveis
no momento, por conta de minhas próprias deficiências, ressaltando a sua
paciência insistente em não abandonar-me; e, ainda, ao amor e auxílio
fraternal da igreja, sem os quais não se alcança qualquer conhecimento
espiritual, nem experiencial, da autêntica vida cristã, somente possíveis no
corpo local, pela união promovida por Cristo, de fazer para si um povo e de
levá-lo à comunhão íntima com seu Santo Espírito. Como sempre digo, não
há divergências, nem algum problema, que não seja dissolvido pelo amor do
Senhor, o qual nos une e nos mantém unidos.

É com grande alegria que entrego estas páginas ao leitor. Durante mais
um ano, após o término letivo, estive envolvido com este projeto de agrupar,
acrescentar e burilar os esboços servidos de aulas; algo por completo
inusitado para mim, havendo um determinado momento no qual considerei
quase impossível concluí-lo, dada a insatisfação com uma ou outra parte do
texto, mas que, pelo favor divino, foi possível chegar a termo, e um desejo,
por fim, realizado. Vê-lo, agora finalizado, é a demonstração da graça e
bondade divina para comigo.

Oro, do fundo do meu coração, para o Senhor utilizar este instrumento na


edificação da sua santa igreja, e para a sua honra, porque “nele vivemos, e
nos movemos, e existimos”[2]; e a Cristo seja dado todo o louvor e glória,
eternamente!
"Se obedecemos a Deus desobedecemos a nós mesmos; e é no
desobedecer a nós mesmos que está a dificuldade de obedecer a Deus."

(Herman Melville, Moby Dick)


INTRODUÇÃO
Preâmbulo

Esta carta não recebe, entre a maioria dos cristãos, a devida atenção e o
reconhecimento a que faz jus e que deveríamos consagrar. Muitos a leem
superficial e rapidamente; talvez pela ideia de que, sendo o seu tamanho
limitado (apenas 25 versos), não contenha algo de importante e profundo, ou
uma doutrina bem elaborada, como se observa nas cartas paulinas. Nestas,
temos uma riqueza doutrinária exposta de maneira ampla e detalhada,
levando-nos a investigar seu conteúdo com muito mais disposição e
empenho, escrutinando-as meticulosamente, saboreando sua sabedoria e
profundidade em cada verso. Em contrapartida, quase negligenciamos as
poucas linhas de Judas, quando não as tratamos com falta de apreço em
nossos estudos, meditações e pregações, intensificando ainda mais, no
cristão, o desleixo. Abre-se, assim, uma lacuna nas Escrituras na qual
silenciamos a voz de Deus, impedindo-o de falar-nos através desse escrito.

Talvez o motivo seja o fato de ela ter sido uma das últimas cartas a
integrar-se ao Cânon Sagrado, sendo alvo de alguma disputa nos primórdios
do Cristianismo. Talvez, ainda, porque Judas se utilizou de fontes apócrifas
no texto, o que não significa, necessariamente, inverdade, porque em nada
contradiz e diverge da unidade sobrenatural da Escritura Sagrada. Pode ainda
ser que a máxima “tamanho não é documento” seja desprezada ao deparar-se
com ela e muitos considerem a carta sem relevância para os dias atuais, fato a
demonstrar, no mínimo, um desconhecimento monstruoso do quanto Deus
pode revelar aos seus filhos em escassas linhas, que, no entanto, exalam o
perfume bom e fundamental do Evangelho de Cristo.

Certo é o fato de que nada disso retirar o seu caráter divinamente


inspirado, a sua conformidade e a unidade com os demais livros canônicos;
antes, ela torna-se um documento precioso e indispensável da história Cristã
e da revelação especial, ao abordar pontos importantíssimos e caros à fé,
alguns deles negligenciados em nossos dias, figurando como objeto de
desprezo dos obstinados e tolos, os impostores da fé.

À medida que se lê, medita, e analisa-a com diligência, deparamo-nos


com a riqueza daquilo revelado por Deus ao seu povo, por intermédio de
Judas.

Escrita de forma objetiva e direta, ainda assim podemos compará-la a um


verdadeiro tratado apologético, se não procedermos de forma negligente e
inconveniente em relação à sua mensagem; uma mensagem cuja intensidade e
profundeza encontra-se na exortação e alerta à igreja sobre a necessidade de
desvelo e vigilância para com a sã doutrina. Reputar-lhe o seu devido valor é
essencial para o saudável exercício da verdade, e “a batalhar pela fé que uma
vez foi dada aos santos”[3].

Nela não há nada que divirja ou contradiga algo dito e descrito na Palavra
de Deus, tornando-a legítima, verdadeira e confiável integrante do Cânon
sagrado. Principalmente em seu aspecto firmemente exortativo e apologético,
na defesa da fé e no combate aos falsos mestres e doutrinas, a carta revela o
perigo real dos servos de Satanás que, ardilosamente, se infiltravam na igreja
a fim de compeli-la a sujeitar-se aos desejos do seu “mestre”: perverter a
graça e causar divisões entre os irmãos. Então, Judas, conclama e desafia-os a
batalhar pela fé, servindo ao único Senhor e Mestre, Jesus Cristo;
resguardando e protegendo-se, como “ekklésía”, dos ataques heréticos
promovidos pelos apóstatas que rejeitavam o Filho em princípios e na prática.
Autoria, data e destinatários

O autor, que dá nome à carta, provavelmente é o irmão de Tiago, o primeiro


bispo de Jerusalém, cuja citação, sem uma especificação detida, indica
certamente ser “Tiago, irmão do Senhor”. Somente este Tiago poderia ser
citado sem a necessidade de acréscimos à sua identidade, visto possuir uma
relevância ímpar na Igreja Primitiva. Desta forma, Judas configura-se como o
meio-irmão do Senhor Jesus, filho de José e Maria (Mt 13.55; Mc 6.3) que,
até antes da sua ressurreição, como os demais irmãos, não acreditava em
Jesus como o Cristo, o unigênito Filho de Deus.

Pode-se afirmar que, pelo fato de Judas ter negado a Cristo, enquanto este
realizava o seu ministério terreno, achou por bem não se colocar como o seu
meio-irmão; em atitude humilde, não reivindicou o parentesco com o Senhor.
Porém, alguns apontarão o contrário, pois, ao revelar-se irmão de Tiago,
indiretamente reclama para si o parentesco com o Senhor, inferência com a
qual não concordo, visto ser-lhe mais prático, caso quisesse realmente
reivindicá-lo, fazê-lo sem que houvesse qualquer dolo ou culpa. Entretanto,
notadamente temos a sua preferência ou predileção por ser reconhecido como
“servo de Jesus Cristo”, de novo revelando a sua reverência e submissão ao
Senhor.

Apesar de ser um nome comum entre os judeus, cuja raiz vem do


Hebraico “Yada”, variante de Judá, significando “dar graças, louvor, elogio,
glória a Deus”, este Judas distingue-se de muitos outros citados no Novo
Testamento, como o Tadeu ou Lebeu (Mt 10.3), o qual era apóstolo, um dos
doze, confirmado, implicitamente, por sua própria citação no verso 17, ao
lembrar das palavras preditas pelos apóstolos, não se incluindo entre eles. Se
fosse o apóstolo, não haveria por que não o dizer; e, não o fazendo, exclui-se
essa possibilidade, de ser aquele chamado por Cristo para ser “pescador de
homens”.
Outra curiosidade é o fato de ser a carta mais apologética do Novo
Testamento, combatendo a apostasia; e a levar o nome, também, daquele que
resumiu, em si mesmo, todos os elementos possíveis de tornar-se no maior de
todos os apóstatas, o traidor, Judas Iscariotes. É claro que não é possível
qualquer referência séria à figura de Iscariotes como o autor dessa carta. Seria
algo impossível palavras cheias de vida saírem da pena de um herege, de um
falso profeta, ladrão, traidor e infiel.

A epístola foi escrita para judeus e gentios convertidos ao Cristianismo,


não havendo referência a uma igreja ou região específica, sendo o seu âmbito
universal. Outrossim, foi escrita com o intuito de edificar e instruir toda a
Igreja, ontem e sempre, na prudência, no zelo e na defesa da sã doutrina, no
cuidado mútuo entre os irmãos, na busca incessante da santidade e da pureza
eclesial, da qual todos os eleitos são participantes, membros ativos e efetivos
pela escolha divina de tornar-nos unidos e inseparáveis do seu amor e graça,
pelo qual Cristo padeceu, resgatando-nos e limpando-nos, apresentando-nos
santos diante do seu trono eterno.

Especula-se o fato de Judas tê-la escrito aos crentes da Ásia Menor ou da


Palestina, mas as circunstâncias daqueles a quem a endereçou são
desconhecidas, assim como sua data precisa. Por seu caráter apologético e
semelhante à 2ª Carta de Pedro, especialmente o capítulo terceiro, pondera-se
que ela seja posterior à morte do apóstolo e anterior à destruição de
Jerusalém; baseando-se o autor parcialmente naquela epístola para escrevê-la,
ainda que o estilo e a forma não sejam semelhantes. Portanto, infere-se a sua
redação entre os anos 66 a 69 da era cristã.
Conteúdo e Propósito

Ao final da era apostólica[4], a igreja estava sob forte ataque do inimigo, o


qual a combatia de dentro e não mais de fora (como ocorrera por intermédio
das perseguições pelo Judaísmo e pelo Império Romano, ineficazes para a
retração e erradicação do Cristianismo); conforme o Senhor apontou, na
Parábola do Trigo e do Joio[5], haveria de acontecer: homens ímpios
norteados por sua incredulidade, tentavam solapar a igreja em seus
fundamentos, levando caos, depravação, contendas e trevas, no intuito de
estabelecer o domínio da carne sobre o espírito, e, assim, desacreditar e
blasfemar o nome de Cristo.

Judas descreveu, em linhas gerais, o comportamento e o plano maligno a


desenrolar-se, conclamando os verdadeiros crentes à luta, à batalha pela fé
verdadeira e bíblica. Exortou-os a manterem-se firmes naquele que é a
Rocha, Cristo, e não permitirem que se estabelecesse o reino do mal, da
impiedade, da lascívia, das disputas no Corpo, alertando para o juízo a
sobrevir sobre todos aqueles que ofendiam vergonhosamente o nome santo
do Senhor.

Urgia a necessidade de cada irmão zelar e lutar pela preservação dos


ensinos de Cristo e dos apóstolos, os quais estavam sendo questionados pelos
falsos mestres, incansáveis em causar tumulto em meio ao povo de Deus,
numa tentativa desesperada de solapar a verdade substituindo-a pela mentira
e práticas nitidamente afrontosas à sua majestade. Parecendo piedosos e
sábios, como convém a todo impostor dissimulado, eles se infiltravam
sorrateiramente na assembleia dos santos, alcançando, com o tempo, alguma
proeminência na igreja, e, utilizando-se da paz e do amor fraternal,
instalavam a dúvida, a guerra e uma disputa para prevalecerem como
liderança espúria e danosa.
Sempre houve exortação contra eles, seja da parte dos profetas, de Cristo,
dos apóstolos, e não é sem razão que são identificados por uma série de
analogias correspondentes à obra que realizavam; reconhecidamente eram
inimigos da verdade e servos da mentira, sendo-lhes a alma descrita como
maligna e em labor fervoroso ao seu senhor, o diabo: “animais irracionais”,
“nuvens sem água”, “árvores murchas”, “estrelas errantes”... Desses, tanto
mais hoje como outrora, devemos nos resguardar, apontá-los, afastá-los do
convívio, como João, o chamado apóstolo do amor, sentenciou
providencialmente:

“Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não


tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai
como ao Filho.
Se alguém vem ter convosco, e não traz esta doutrina, não o recebais em
casa, nem tampouco o saudeis.
Porque quem o saúda tem parte nas suas más obras” (2 Jo 1.9-11)

Por isso, não há como fugir à leitura sempre cuidadosa e meticulosa desta
mensagem, cujo conhecimento é indispensável a todo cristão, especialmente
em nossos dias, quando o mal parece interminável, e o desejo de realizá-lo,
uma compulsão, um fetiche moderno. Orientar-nos a enfrentar e derrubar as
ameaças impostas pelas hostes inimigas, que laboram incessantemente para a
destruição do Corpo, pelo qual Cristo morreu, é o cerne, o fundamento dessa
carta.
PARTE UM

SAUDAÇÃO

"Judas, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago,


aos chamados,

santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo:

Misericórdia, e paz,

e amor vos sejam multiplicados".


Servir Como o Senhor

Neste ponto, Judas se autodenomina “servo de Jesus Cristo”, o que, em si


mesmo, garante-lhe duas particularidades: a de humildade e a de honra.
Todos os que se designam “servos” reconhecem a sua condição de
subserviência, de subordinação, de carentes da graça, misericórdia e bondade
divinas. Ao fazê-lo, assumem encontrar-se em um estado de necessidade, de
dependência constante ao seu Senhor, e de pertencê-lo, com o fim de ser-lhe
útil, de desempenhar corretamente as funções por ele determinadas. Ainda
que o próprio Senhor tenha dito que somos servos inúteis e não fazemos mais
do que nos é ordenado fazer[6], estamos em constante e eterna serventia a
Cristo, o qual é quem nos capacita a devotar-lhe os nossos préstimos, tanto no
chamado como na regeneração, quanto no aperfeiçoamento, para que o seu
nome seja exaltado, glorificado e bendito entre todos e por todos os lugares.

Há, ainda, outra condição, a de honra por ser servo. Interessante o fato de
no mundo (e não é uma visão apenas atual, mas uma visão que vem desde o
Éden) o homem acreditar-se independente e autônomo de Deus. Mesmo não
assumindo essa condição, no fundo, ele sempre tentou e sempre estará
empenhado em alcançar um estado de “dono do seu nariz”, acabando por
reforçar ainda mais a imaturidade e estupidez por onde caminhou e insistiu
em trilhar. Ledo engano; pois a verdadeira liberdade está em servir, em
cultuar[7] devidamente, e em gratidão, ao Deus misericordioso; cuja
lembrança nos é apontada:

"Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, deles se


assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre eles;
Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser
grande, será vosso serviçal;
E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos" (Mc
10.42-44).
“Coisa louca”, dirá alguém. “Bobagem”, proferirá outro. Segundo o
padrão mundano, guiado pelo individualismo e a vaidade, ambos estarão
corretos, e um sem número de outras pessoas os acompanharão em suas
sentenças, acreditando ser possível uma autonomia e independência de Deus.
Ora, se para darmos um simples respiro é necessária sua providência, quanto
mais para os assuntos complexos e intricados que vão de encontro à nossa
natureza caída e dominada pelo pecado. Sendo o próprio pecado o motivo
pelo qual clamamos e cremos erroneamente em um estado de independência
do Criador, no qual podemos nos guiar apenas pelo vórtice da nossa
(in)consciência.

Realmente estranho ao mundo é o ato de servir, de se sujeitar a Deus, à


igreja, aos irmãos e ao próximo; culminando com uma certa oposição no seio
da própria igreja, onde o caráter individualista e egoísta vem-se disseminando
sem qualquer constrangimento dos seus advogados, nos últimos tempos. É
comum vermos crentes dizendo-se servos de Cristo, mas parece-me que eles
não entendem corretamente o significado do que dizem, ou o pronunciam
apenas formalmente, como se fosse da “boca para fora”, sem ter o conceito e
entendimento arraigado em seu coração. De maneira geral, temos pessoas se
autodenominando “servos” sem jamais terem servido, sem jamais desejarem
servir, numa flagrante contradição entre o dito e o não realizado, entre o que
se diz ser, mas não é. Por isso, e mais especialmente pelo desconhecimento,
muitos dissociam o termo “servo”[8] do seu sinônimo “escravo” (algo que
ninguém deseja aplicar a si mesmo), como se o servir não chegasse ao ponto
de deixar de ser ou fazer aquilo que não lhe seja dado ser e fazer. Escravo é
aquele homem sem vontade, sem desejo próprio, vivendo especificamente
para atender ao seu senhor. É quem dedica cem por cento do seu tempo,
entregando cem por cento dos seus esforços; cem por cento da sua
disposição; cem por cento de si mesmo; dispondo-se integralmente e com
todos os recursos utilizáveis para satisfazer ao seu senhor. Não há lugar para
nenhum tipo de vontade contrária à do seu dono[9]. No caso do crente, é viver
em um estado de absoluta dependência e sujeição a Cristo, reconhecendo a
sua autoridade, mas muito mais: ele é digno de exercê-la por tudo o que é; em
contrapartida, não a reconhecer torna-nos ingratos e desrespeitosos, homens
sem qualquer afeto, verdadeiros coletores de todas as ofertas e favores, mas
negando desgraçadamente o doador.
Também não se pode esquecer que é algo a se ansiar, a se querer, um
desejo intenso de fazer-se prestimoso, pelo amor e sabedoria em reconhecer a
dádiva de se tornar seu serviçal, em vez de deixar-se guiar pelo próprio
julgamento corrupto e pecaminoso, levando a uma escravidão desonrosa
naquilo capaz de destruir.

Infelizmente vive-se em uma esfera longínqua da realidade cristã, de


modo que resta tão somente envergonhar-se por permanecer assim, em um
estado de autoengano: ao considerar-se aquilo que não se é, diante dos
próprios olhos, e o fato de ser aquilo que Deus não quer, diante de seus olhos.

Uma avaliação sincera de nossa vida pode nos expor a uma verdade
ignorada e inaceitável, a de estarmos muito distantes do padrão assumido por
Judas. Ele apresenta-nos uma dependência eterna, constante, necessária de
Cristo, refletida na humildade de considerar-se como tal, servo, sendo essa
humildade algo que desejamos manter afastado, pois queremos é reafirmar-
nos, em todos os sentidos, seja como um bom marido, bom profissional, bom
aluno... Não que isso seja errado, por favor, não confundam; acontece que
desejamos o reconhecimento de ser bom quando não nos movemos na
direção da bondade, não nos esforçamos em ser realmente aquilo que
queremos ouvir; e, novamente, o rótulo precede as atitudes, ao menos em
nossa mente diminuta e coração enganoso... Como seria ser um bom pai?
Como seria ser um bom profissional? Não é quem serve? Por exemplo, um
balconista, cujo atendimento é precário, tratando mal aos clientes, agindo de
maneira desleixada e indiferente, como se fizesse um grande favor em
cumprir com a sua obrigação; poderia ser considerado bom? Ele quer ser
achado como tal, e se sente como tal, mas não se empenha em sê-lo, pelo
contrário, o seu esforço está em evidenciar a sua inaptidão, o compromisso
com o inadequado, levando-o, a efeito, ao fracasso. As pessoas muitas vezes
querem um título sem fazerem jus a ele, sem merecê-lo, porque falta-lhes a
humildade para servir e o entendimento necessário para mudar.

Ao começar a sua carta intitulando-se “servo de Cristo”, Judas não parece


se preocupar com a humilhação, nem se sentiu constrangido, tampouco
demonstrou aborrecimento com a possibilidade de ser taxado como
retrógrado ou estúpido, insignificante ou de ser tratado com desdém. Qual de
nós se atreveria a escrever uma missiva ou e-mail, assim? Ou apresentar-se a
alguém como, por exemplo, “Sou Jorge, servo de Cristo”? Ou ainda melhor,
“Sou escravo de Cristo”? Alguém entre nós imaginaria isso possível? Não é
melhor mantermo-nos distante dessa expressão, para evitarmos dissabores e
inquietações, mantendo a nossa independência, afastados do embaraço de
podermos ser confundidos como loucos, retrógrados, estultos? E o medo do
rótulo afasta-nos ainda mais da prática, tornando-se substancialmente pior. A
vida cristã não é simplesmente teoria, mas aplicação, prática, ação. Assim
como Cristo dedicou o seu ministério ao ensino, ao transmitir a verdade,
também se concentrou em demonstrá-la através da sua vida. Não há
dissociação entre aquilo pregado pelo Senhor e aquilo por ele realizado.
Havia uma unidade e harmonia entre o discurso e as atitudes. Ao negarmos a
prática, sequer defendemos o ensino, e somos reputados como péssimos
alunos, meninos rebeldes, de quem o Mestre se envergonha.

Entretanto Judas não caiu na esparrela de se preocupar com uma suposta


vergonha ou ofensa em se fazer servo, sentindo-se honrado com a sua
condição. Ao mesmo tempo, considerou-se dependente e humilde em relação
a Cristo, necessitando desesperadamente dele; e a sua condição é a de fazer a
vontade do Mestre, abandonando o velho homem para ser aquilo que Cristo
requeria dele, realizando a sua vontade, com o ânimo e o espírito enlevados,
não por um suposto rebaixamento, mas pela glória da prestativa escravidão a
Deus.

A sua honra está exatamente em ser esse servo, não como alguém pego à
força, conduzido com violência e obrigado contra a vontade; não como
alguém conduzido a ferros ou iludido por algum interesse vão, mas
convencido de nada melhor ser-lhe possível, e mais necessário, do que viver
na submissão voluntária ao Senhor. A liberdade em Cristo representa
precisamente isto: fazer a sua vontade, mas também querer, desejar, ansiar,
por gratidão, fazê-la[10]. Esta vontade não se realiza pela coação, mas
persuadida pelo amor; o amor com o qual Cristo buscou, resgatou, libertou o
pecador cativo, trazendo-o até si, e tornando-o seu servo; mas muito mais
ainda, unindo-o eternamente a Deus, fazendo-o um consigo mesmo. É por
esse amor, e nada mais, que Judas foi feito servo de Jesus; e o faz querer
continuar a sê-lo. Ele não está sendo obrigado a servi-lo, mas a agir assim em
reconhecimento; porque é infinitamente melhor entregar a sua vida, viver na
dependência e fazer-se útil, empregando todos os esforços em prol do
Evangelho, como um escravo subitamente sábio reconhece o seu papel, em
quem se tornou, e no que deixou de ser: um desgraçado, e miserável, e pobre,
e cego, e nu[11].

Servir é um conceito nitidamente cristão, e presente apenas no


Cristianismo. Alguém pode interpelar com a alegação de haver “serviçais”
em todas as religiões, aparentando uma fragilidade no meu argumento,
contudo, digo, servem a quem ou a quê? Pode-se dizer que exista, fora do
Cristianismo, um servir verdadeiro e submisso a Deus, não pelo que ele pode
nos dar, mas pelo que é e já nos deu? Pode haver um servir que faça-nos
negar a nós mesmos em favor da vontade soberana de Deus? Pode-se
encontrar fiéis que sacrifiquem a sua vida em favor de outros? Não como um
esforço pessoal em primeiro lugar, mas como uma retribuição pelo mérito
divino de nos resgatar, limpar, transformar e restaurar, de transportar-nos da
inimizade para a amizade consigo, e nos fazer filhos adotivos em Cristo. É
possível? Penso que não.

Isoladamente pode-se encontrar manifestações de bondade em outras


religiões e mesmo fora delas, mas não como um preceito doutrinário, e com o
viés correto entre a doutrina e o seu exercício. A verdade é que, por mais que
outras religiões e filosofias se apropriem desse princípio cristão, elas o fazem
de maneira defeituosa ou indevida (pois, para nós, o servir significa não a
honra e o reconhecimento pessoal, mas a glória de Deus); elas tropeçam no
egoísmo, no orgulho e na ignorância, ou em alguma outra motivação,
segredada no íntimo ou declaradamente pecaminosa.

Alguém pode questionar: “Quer dizer que o cristão é perfeito? E só há


perfeição no Cristianismo?”. Não, e sim.

Primeiro, o cristão não é perfeito; há nele uma dupla convivência, uma


disputa entre a carne e o espírito, na qual o processo de santificação está em
aprimoramento. Inevitavelmente ele derrapará, entregando-se à
concupiscência, e, até mesmo, cairá em pecado. A questão é que o cristão
possui algo distinto e com efeitos práticos quase nulos no não-cristão: o
arrependimento! Não se pode confundir, e é preciso distinguir, entre o cristão
nominal e aquele regenerado, nascido de novo. O cristão nominal pensa em
conformidade com o senso comum e sua natureza caída[12], buscando, em si
mesmo, uma autoexpiação, uma autocomiseração, onde o arrependimento é o
salvo-conduto para a elevação da alma. Em si mesmo, acredita reter as forças
necessárias para fazer do remorso um homem muito melhor diante dos
próprios olhos, do mundo e de Deus; de forma que o arrependimento (um
arremedo dele) é de si para si, exclusivamente por seus méritos, com o fim
único de se autojustificar diante do próprio altar. Em uma só tacada ele se faz
adorador e objeto de culto, sem a necessidade de sacrifícios reais, pois estão
acomodados à sua personalidade, sendo ela, a do idólatra, que prevalecerá;
um culto impostor a um falso deus, criado pelo orgulho, pela rebeldia, pela
adulteração da verdade e realidade.

Há um engano terrível nesta ideia e disposição; de fato, nada pode ser


encontrado no Cristianismo a corroborá-la. O arrependimento, muito mais
importante do que uma amostra de superioridade espiritual (considerá-lo
assim apenas demonstra o quão baixo o sentido de “arrependido” encontra-
se), é a oportunidade de voltar-nos humilhados para Deus, em contrição
profunda, cientes de não sermos menos miseráveis que o mais miserável dos
homens. Afinal, não há nada em nós a suscitar um reconhecimento, por
menor que seja, já que todo o reconhecimento é do perdoador, Deus. Todo o
mérito é dele; toda a honra é dele; todo louvor é a ele; e é por ele, somente
por ele, que somos capacitados a achegar-nos em contrição, pedindo por sua
misericórdia e graça, postura sem a qual nunca estaríamos, de fato, pesarosos
e tristes com o pecado e a nossa condição desastrosa.

Em segundo lugar, o Cristianismo é perfeito, pois somente nele a graça e


a misericórdia e a bondade divina são manifestadas, no esplendor insuperável
da entrega do Filho, santo, puro e imaculado, por homens pecadores,
desonrados e imperfeitos. Em nenhuma outra religião Deus se fez homem,
viveu como um simples mortal (ainda que em sua simplicidade houvesse o
esplendor e a majestade divina), foi acusado, condenado, crucificado e morto
por aqueles que amou eternamente, antes de o mundo ser mundo e de as
coisas serem o que são.

Por isso, outro ponto, a não ser esquecido nem descuidado, é que servir a
Cristo traz consigo a mesma humildade e honra de sofrer com ele, pois o
sofrimento é marca distinta do cristão. Àquela época havia, como ainda há,
perseguições e mortes para os discípulos do Senhor; de forma que Paulo diz
ser ele a levar na carne as marcas de Cristo[13], o qual, sendo justo, foi
acusado e condenado e morto[14]. Ao se abrir mão do sofrimento, ou evitá-lo,
não estamos em sintonia com o evangelho e suas proposições sábias a dizer-
nos:

"Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer
nele, como também padecer por ele" (Fp 1.29).

Por fim, Judas também se faz conhecer como o irmão de Tiago,


provavelmente porque, sendo um nome comum, poderia ser confundido ou
relacionado a outros tantos “Judas” e, para evitar o equívoco, de ser
confundido com um estranho à Igreja, descreveu o seu parentesco com o
irmão mais famoso e proeminente, de quem já falamos.
A Santidade Outorgada

A carta é endereçada aos "santificados em Deus Pai", falando


especificamente para crentes, para cristãos, aqueles que foram separados por
e para Deus; não se destina a um público indistinto e geral, ainda que lhes
possa ser proveitosa em aspectos formais do conhecimento e da prática de
vida. Pode-lhes auxiliar nas relações humanas, como um freio para a
iniquidade, estendendo-lhes perspectivas convencionais do conhecimento
sobre Deus, a Igreja e o mal. Entretanto pouco ou nada lhe valerá em relação
ao relacionamento sincero e verdadeiro com Deus e o seu povo se não houver
a intermediação de Cristo, que com sua morte uniu pecadores definitivamente
ao Criador, de maneira efetiva e insofismável. Quando muito, o ímpio terá
uma vida melhor e mais sábia neste mundo, mas, em contrapartida,
acumulará para si razões suficientes para ser condenado, pois mesmo em sua
aparente piedade não houve frutos a indicar a ação direta do Espírito em
santificá-lo. Pautado na Escritura, que nos alerta de forma veemente e
implacável: sem santidade ninguém verá a Deus[15]. Contudo, para não
atropelar a ordem dos assuntos abordados por Judas, deixaremos para meditar
sobre este ponto específico mais à frente.

Então, temos que a epístola se destinava, como indica todo o escopo


bíblico, a falar à igreja e, ao contrário do senso comum, cujo pensamento
toma a Escritura como um livro para todos os homens e de onde pode-se
apreender verdades relativas e individuais (no sentido de que cada um pode
construir a sua verdade independente do que o texto fala e explicita), os
destinatários são os membros do Corpo de Cristo, os que foram santificados
por Deus Pai, ou seja, os que foram trazidos de suas naturezas pecaminosas e
caídas para viverem uma vida santa, nas pegadas do Mestre. Não há nenhuma
alusão à autossantificação ou à mera possibilidade de sê-la, pois claramente o
autor fala dos que foram santificados por Deus Pai, revelando que esta é uma
obra exclusivamente divina, a qual Deus realiza tão somente aos que chamou;
sem que haja a possibilidade, também, do autochamado, como comumente a
maioria das pessoas acredita possível.

Deus é quem chama e quem santifica a quem quer. É claro que isso nada
tem a ver com a ordem dada à igreja para chamar a todos os homens, sem
distinção, de entre todas as nações e povos, ao Evangelho. São coisas
distintas. Há o chamado universal para que todos ouçam as boas novas[16], e
esta é a missão da igreja, mas quanto aos que atenderão ao chamado geral,
eles serão alguns, muitos, uma multidão, mas não serão todos os homens,
pois essa é a evocação particular e específica de Deus, o cuidado de, no
universo de pessoas reprováveis e odiosas, chamar e capacitar o eleito[17] a
responder positiva e infalivelmente ao convite. Há um convite, mas não é um
convite recusável (considerando-se que, diferente de uma festa de casamento,
por exemplo, na qual podemos comparecer ou declinar, o chamado do
Espírito é irrevogável), de modo que o eleito responde com efetivo gozo e
decisão resoluta.

Existe uma ideia popular, e muito em voga em nossos dias, de a Bíblia ser
um livro que atinge todas as pessoas de uma mesma forma, mas isso não é
verdade. Vemos pessoas que têm conhecimento das Escrituras, alguns são
mestres, acadêmicos, eruditos, têm o hábito de lê-las, de estudá-las, mas
acabam por apropriar-se do que lhes é interessante e descartam o que não é;
relativizando muitas coisas, descrendo em outras, suspeitando, na maioria das
vezes, porque não as têm como a palavra divina inerrante. Em suas mentes é
impossível conceber Deus escrevendo a homens e mulheres (como prova do
seu interesse e cuidado); afinal, por que o faria sendo Deus? Ou é
inconcebível escrevê-las porque, em última instância, ele não existe, e o que
se tem como Escrituras são apenas palavras e linguajar pensado e escrito por
homens. Fica evidente que não são cristãos verdadeiros, assim como muitos
ocupantes dos bancos de igrejas também não o são, pois, o Evangelho não
produz, em si mesmos, a vida necessária para erguê-los das catacumbas
espirituais.

É fundamental perceber-se o estado de incredulidade, a forma de se


apegarem tão fervorosamente à dúvida, ao ceticismo, como se elas
resultassem em um tipo superior de pensamento, no qual a crença, ou a fé,
significa algum tipo de barbarismo ou primitivismo mental. Contudo, esses
mesmos detratores da fé, insensíveis ao postulado dos seus corações,
alegando não a ter, e apegando-se a uma suposta incredulidade superlativa,
esquecem-se de que a descrença, no final das contas, também é uma crença;
em outras palavras, não se foge da fé negando-a, pois essa negação é um ato
de fé, ainda que, digamos, muito mequetrefe; faltando apenas ao cético
apresentar-se à verdade, reconhecendo-a, e dizer: “Sim, senhora!”[18].

Ao terem a Bíblia como um livro a revelar aspectos morais ou de


costumes, mas nada além disto, é-lhes inconcebível reconhecer a
sobrenaturalidade do texto, já que suas mentes se encontram em um nível tal
de escravidão e letargia, os quais obliteram a visão, e a própria
incompreensão não passa de um reflexo tardio das trevas a dominá-la. Desse
modo, incorrem no grave equívoco e, posso dizer, pecado, de não o
considerar infalível, inerrante e divinamente inspirado, pontos basilares da fé
cristã. Este é o fundamento dos cristãos, crendo eles que a Escritura é a
fidedigna palavra de Deus, o próprio Senhor falando especialmente com o
seu povo; do contrário, qualquer forma de Cristianismo à margem da
revelação especial é o estereótipo do modelo iniciado no Éden, onde a
palavra de Deus foi subvertida, e a serpente, ao dizer que Deus não disse o
que disse, implantou a dúvida e confusão no fraco coração de Eva, primeiro,
e de Adão, em seguida.

Muitas distorções apresentam-se na forma simples de construir-se ideias


alheias à revelação especial, como, por exemplo, a de todos os homens serem
filhos de Deus. A partir disso, constrói-se um castelo de areia onde conceitos
enganosos são formulados no intuito de tornar possível a reconciliação e a
salvação pelos méritos humanos, quando a realidade é diametralmente
oposta, mas inalcançável para a alma natural, não regenerada. Mais à frente,
explicarei melhor esse princípio, e veremos ser vedada a condição de se
autorreconciliar, de se exercer um livre-arbítrio, no qual o homem é
arbitrário apenas em manter a sua condição de pecador, de inimigo de Deus,
perpetuando-se na transgressão.

Logo, não há como entendermos esta carta como sendo destinada a todo o
mundo, mas especificamente para a igreja do Senhor, pois Judas dirige-se aos
“chamados, santificados em Deus Pai”; ou seja, apenas os invocados, os
atraídos por ele são os destinatários desta epístola. E há um propósito de
Deus no chamado: formar para si um povo escolhido antes da fundação do
mundo, antes de tudo ser o que é. Paulo remete-nos também a este chamado:

“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles


que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”
(Rm 8.28)

Ora, não há aqui qualquer possibilidade para o não-chamado, pois a obra


a realizar é divina e não humana; então, como poderia o homem chamar a si
mesmo? Quereria ele ser chamado? Ou entenderia o porquê de sê-lo?

Alguns podem objetar o fato de a Bíblia ordenar, em várias passagens, a


necessidade de o homem ir a Deus, a qual não é de todo equivocada, pois ele
vai e tem de ir. O homem tem de ir a Deus, e isto é um fato; a questão é que
isto somente se torna possível se ele for chamado e capacitado a ouvir a voz
do Espírito e a obedecê-lo. Sem a capacitação divina, ninguém pode sequer
ouvir o chamado, quanto mais responder a ele positivamente.

Se existe alguma dúvida em relação “aos chamados”, acredito não haver


nenhuma em relação aos “santificados”, os quais somente o são por Deus.
Mais uma vez, deparamo-nos com a obra exclusivamente divina, tanto no
chamado como na santificação. O mesmo erro pode ser formulado nesse
ponto, onde muitos dirão: “Não diz a Escritura: Sede santos, como é santo o
vosso pai que está no céu?”. Sim, é verdade, há uma ordem do Senhor para
sermos santos, mas pergunto: quem, por si mesmo, pode sê-lo? Qualquer um,
olhando para si próprio, para o seu íntimo, analisando seus pensamentos, seus
atos, pode, em sã consciência, reconhecer em si a santidade, ou mesmo
acreditar possível alcançá-la por seus meios? Informo-lhe, caso acredite nessa
capacidade como algo intrínseco, ser completamente impossível, pois o
homem, em sua natureza, insiste na desobediência, cultivando, quando muito,
um conhecimento pífio do ser divino, e, na maioria das vezes, o seu
entendimento será embaralhado, uma profusão de conceitos e enunciados
distintivos do seu caráter sobrenatural.

Se a igreja é formada pelos chamados por Deus, também será formada


pelos santificados por Deus. Não há outra hipótese nem probabilidade. Como
pecadores, controlados por nossa natureza iníqua, somos presas fáceis de nós
mesmos, na ilusão de haver poder ou força suficiente para demover-nos, para
libertar-nos de algo mais vigoroso que nós. Somente a ação do Espírito
Santo, transformando mente e espírito, capacitando-nos a resistir e lutar
contra a velha natureza, pode levar-nos à santidade. Trata-se de um processo
iniciado na conversão, no reconhecimento da fraqueza, impossibilidade e
incapacidade humanas e da necessidade urgente da realização, por Deus, da
sua obra, levando-nos aos pés da cruz, a reconhecer Cristo como Senhor e
Salvador, a colocarmo-nos em completa dependência do seu poder, sem a
qual não podemos ser separados para Deus, e separados do mundo.

Algumas pessoas argumentarão: “mas se Deus é quem chama e santifica,


e não posso resistir ao chamado e à santificação, então somos robôs ou
marionetes, sem vontade e capacidade de escolhas”. A estes, entregues a um
reducionismo absurdo, digo: Você não é um robô nem marionete
simplesmente pelo fato de Deus não impor a sua obra a “fórceps” ou pela
força, por ser maior e mais forte; você é convencido pelo Espírito a aceitá-lo
como suprema e infinitamente melhor do que qualquer outra coisa. Por isso, é
necessária a ação do Espírito Santo, sendo ele o renovador, transformador,
reparador da nossa mente, de maneira a termos os olhos abertos, a sabedoria
ativada, para reconhecermos o estado de degradação, de pecaminosidade em
que estamos, como inimigos de Deus, e de ver claramente o quanto nos ama,
ao ponto de entregar-se a si mesmo na cruz, não apenas para salvar-nos, mas,
também, reconciliar-nos consigo. O bem maior não é a salvação do Inferno,
nem ser absolvido, não passando de consequência de algo muito mais
superior, a quebra da inimizade e separação de Deus, e o eterno e constante
viver em comunhão com o seu Espírito. De forma que eu quero esse amor,
essa comunhão com Deus, não mais, por ser impossível, não menos, por não
ser desejável; reconhecendo, no momento do chamado, o meu pecado, a
minha ofensa, a minha rebeldia, e querendo abandonar tudo isto, ou seja,
abandonar aquele velho homem, abandonar o que fui, para me tornar em um
novo homem, um seguidor de Cristo, naquilo que ele quer e desejou na
eternidade para mim.

Então responderei ao chamado porque quero responder a ele também, não


porque me é forçoso, mas por ser um deleite. O mesmo acontece com a
santificação, pois se é Deus quem me santifica, em contrapartida também
quero ser santo, e tenho de sê-lo, pelo poder divino, pela ação divina, pelo
mover divino, mas jamais sem que o desejo de sê-lo esteja profunda e
ansiosamente entranhado em meu ser. Existe o poder, a força de Deus
convencendo-me a atender ao seu chamado e a ser santo e existe a minha
disposição, a partir da transformação operada pelo Espírito em mim, de
tornar-me em uma nova criatura, antes caída e servindo ao pecado, porém,
levantada pelo poder de Deus, capaz de compreender, entender e responder
positivamente ao convite e à ordem divina para ser santo. Logo, temos Deus
agindo, mas também o homem respondendo, não de uma maneira
estapafúrdia, desconectada da realidade e da verdade, mas retribuindo,
agradecido, o favor impagável e imerecido.

Ora, Paulo disse-nos:

“Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a


sua boa vontade” (Fp 2.13)

E aí está o milagre de não o rejeitar, o que fazíamos diuturnamente antes


de sermos resgatados por Cristo, e, após sê-lo, tornou-se inevitável
compreendermos a necessidade, a urgência de a sua vontade prevalecer sobre
a nossa, não no sentido de ela ser anulada, mas de ela ser adequada à vontade
suprema, perfeita, santa, e sob a qual nos colocamos a serviço. Se antes havia
desalinho, agora subsiste a harmonia de propósitos, os quais são tanto de
Deus como nossos. Não somos servos desgostosos, trabalhando a contragosto
(ainda que eventualmente isso aconteça, por força do pecado em nós,
tentando, como um defunto, levantar-se da tumba; e sendo vitorioso vez ou
outra), mas o fazemos por uma obrigação imprescindível, pela
impossibilidade de deixar de agir ou viver alheios e à margem da vontade de
Deus.

Olhando para trás, vendo o que éramos e, agora, o que somos, não há
como retroceder, como abandonar o caminho no qual estamos postos; voltar
seria como dar-nos, a nós mesmos, o atestado de ingratidão, de
irresponsabilidade, estupidez, incapazes não somente de discernir, mas de
julgar racionalmente. Guardadas as devidas proporções, seria o mesmo que
um homem acometido de insuficiência cardíaca, necessitando de um
transplante de coração, após recebê-lo e ter um novo sopro de vida, decidir
voltar atrás e querer restituído o velho e condenado coração. Você iria querê-
lo? Acho que não. Assim acontece com a regeneração, somos capacitados e
habilitados a compreender a diferença do passado para o presente, de maneira
a jamais querer aquele novamente. É como o soldado em tempo de paz: a
menos que seja psicopata ou louco, jamais desejará voltar aos campos de
batalha. Assim sendo, o homem natural não tem diante dos seus olhos a
opção, a possibilidade de escolha, mas uma via apenas e, se o Espírito não
operar nele, permanecerá nesse estado eternamente.

Como os crentes estão em um processo de aprendizagem, caminham um


pouco, tropeçam e caem, como uma criança aprendendo a andar, que
dá um ou dois passinhos meio trôpegos e cai; dá mais um ou dois passinhos
trôpegos e segura-se à parede, um objeto, ou alguém a sustentá-la (e esse
alguém pode ser chamado de Senhor, a assisti-la), até que, de tanto tentar, de
tanto experimentar e ser testada na arte de caminhar, ela andará com passos
firmes, sem tropeçar, sem cair. Isso não exclui um eventual tropeço e queda,
pois mesmo os adultos estão sujeitos a ela; mas se a criança não tentar, não
começar com passos titubeantes, jamais conseguirá manter-se firme sobre os
próprios pés.

Da mesma forma, é a vida cristã; se não houver a tentativa, em primeiro


lugar, para se ser um servo, também não o será. De nada adianta proclamar
aos quatro cantos: “Eu sou escravo de Cristo!”, pois as palavras sem a
prática, sem o exercício da servidão, não passam de um mero discurso
retórico e vazio, como Tiago diz em sua carta (Tg 2.14-18). Não há a garantia
do acerto na primeira vez, nem mesmo na segunda, mas é a execução, a
atitude de colocar em ação aquilo para o qual se é chamado, ser santo, que
resultará, dia após dia, no alcançar-se a medida da estatura completa de Cristo
(Ef 4.13); clamando incessantemente a ele para capacitar, instruir e guardá-lo;
então, essa semelhança tornar-se-á vívida e real, sendo algo almejado pelo
crente como inerente à sua vontade, mas em conformidade com a vontade
divina. Há uma acomodação, o restabelecimento da ordem e da conformidade
entre aquilo almejado pelo novo homem e a vontade de Deus.

Se não fui por demais confuso, definiria da seguinte forma: Deus opera
em nós toda a sua deliberação, inexoravelmente, abrindo olhos, mente,
coração e alma para compreendermos a sua boa e perfeita vontade,
transformando-nos e persuadindo-nos, de maneira irresistível, ao ponto de
não podermos rejeitá-la. A sua bondade e amor são tamanhos que qualquer
possibilidade de rejeição em servi-lo significaria a incompreensão e, por
conseguinte, uma mente fechada, presa, guiada e dominada pelo pecado; uma
mente envolta em trevas onde a luz ainda não transpareceu. Essa é uma visão
geral daquilo a ser realizado infalivelmente pelo Senhor em nós, contudo
pequenos percalços acontecem no caminho. Somos forçados a parar algumas
vezes, a perder algum tempo, até mesmo recuar um ou dois passos na estrada,
a fim de retomarmos a trajetória devida e correta, mas nada impedirá a
conclusão da boa obra de Deus iniciada e a estabelecer-se em nós (Fp 1.6).
O Amor Que Preserva

É ressaltado ainda, os destinatários serem aqueles "conservados por Jesus


Cristo"; mas conservados em quê e do quê?

As ideias de conservação e santificação estão muito próximas; podemos


entendê-las como correlatas, como parte de um sistema, intrinsecamente
ligadas e interrelacionadas. No Cristianismo é impossível dissociá-las, pois
detém uma reciprocidade, como elementos de uma relação mútua. Sendo a
santidade um estado, a sua manutenção deve-se à conservação resultante das
dádivas do Senhor no momento do nosso resgate, ao sermos transportados do
reino das trevas para o Reino da glória de Cristo. De uma maneira muito
forte, Judas diz, em sua introdução, como somos sustentados por e em Deus;
de como ele nos edifica, cuida, transforma e preserva, revelando toda a
necessária dependência pela qual somos gratos, pois sem ela não viveríamos.

Ora, os que são chamados e santificados não decaem da sua condição de


eleitos e santos. Eles o são não por seus próprios méritos ou esforços, por
qualquer obra humana, mas por Cristo, o qual é quem os conserva ou
preserva em seu estado eterno de santidade. Todos estamos sob o seu cuidado
e proteção, e foi a ele que o Pai nos entregou; ele que é o nosso guardião e
assegurou-nos que:

"Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira


nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha
vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me
enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o
ressuscite no último dia" (Jo 6.37-39).

Torna-se premente, mais uma vez, o autor revelar à igreja a sua condição
de sujeição e dependência extrema e necessária a Cristo, em uma ratificação
da humildade à qual os servos também são chamados. Somos aqueles que,
dados pelo Pai ao Filho, fomos “blindados”, selados, para uma vida eterna em
comunhão e serviço a Deus.

Importante notar que o Senhor nos conserva em qualquer situação, seja


nos momentos bons ou ruins, seja na abastança ou penúria, no conforto ou
aflição, nas honrarias e perseguições, na vida e na morte. Ele, o Rei Eterno,
nos guarda e retém para si, mantendo-nos inexoravelmente ligados a ele, sem
que haja esmorecimento, abandono ou abdicação de cuidado para com as
suas ovelhas.

Veja bem, no momento em que Judas escrevia a sua carta, a igreja já


passava por perseguições, tanto pelo judaísmo como pelo governo romano, e
a aflição, sofrimento, prisões e mortes pairavam como nuvens negras e
assombrosas onde havia um único servo de Cristo. Nesse período, não houve
arrefecimento nas investidas cruéis e injustas por parte dos inimigos de Deus,
pelo contrário, quanto mais cristãos eram presos e mortos, mais a sanha
diabólica pelo sangue inocente aumentava. Assim como fizeram com o
Senhor, zombando, escarnecendo, injuriando, flagelando-o e, por final,
assassinando-o, faziam com aqueles homens, mulheres e crianças que se
negavam a rejeitar o seu Salvador, preferindo a morte e, assim, indo
encontrar-se mais rapidamente com ele.

Se atentarmos para a possibilidade real de salvarem seus bens, profissões,


negócios e vidas, bastando para isso uma simples negação da sua fé,
repudiando o senhorio de Cristo, prostrando-se e adorando a César e os
deuses romanos diante das autoridades e tribunais da época, perguntamos:
por que não o fizeram? Não se submeteram à recusa, que os livraria das
punições? Mas, ao não admitirem fazê-lo, entendemos como o Senhor
conservou-os, mantendo-lhes a fé e a esperança, mesmo diante de uma
proposta aparentemente vantajosa e, aos olhos mundanos, impossível de ser
desprezada: seria loucura recusá-la e perderem tudo o que tinham, inclusive a
vida. O medo que Roma fazia sobrevir a eles, impondo-lhes ameaças de
sofrimento, humilhação e morte caso não aceitassem seus termos, não foi
suficiente para acuá-los, para demovê-los de sua fé de modo a negarem e
abandonarem o seu libertador. Aqueles irmãos martirizados preferiram
continuar firmes na Rocha, pois nela não estava somente a verdade, mas a
esperança e a vida. Portanto, lembravam-se, nos momentos mais cruéis e
angustiantes, das palavras de Paulo:

“E em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade,
é indício de perdição, mas para vós de salvação, e isto de Deus. Porque a
vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como
também padecer por ele, tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto
e agora ouvis estar em mim” (Fp 1.28-30).

Ao contrário da falsa afirmação da teologia moderna, apregoando uma


“vitória” social, financeira e ostensiva neste mundo (na verdade, a maioria
das pessoas se curva ao discurso fácil e enganador, desprezando não só os
alertas insistentes da Escritura, mas também a história da igreja; e, porque
não, a vida do próprio Cristo, que se humilhou a ponto de se fazer maldição
por nós), a Bíblia assegura-nos haver apenas uma única certeza para o cristão:
a de padecer por Cristo. Antes, contudo, é preciso crer nele, mas não uma
crença simplesmente intelectual ou mesmo sentimental, e sim algo
sobrenatural, possível apenas pelo derramar do Espírito Santo, o qual nos
convence do pecado e da necessidade desesperadora do Salvador[19]. E como
não há salvação em nenhum outro nome além de Cristo (At 4.12), a única
saída e caminho é entregarmo-nos à sua vontade, santa, eterna e perfeita, a
fim de recebermos a graça e a honra de sofrer e suportar as adversidades por
ele.

Ah, mas alguém dirá: “Como há honra no sofrimento?”

Ao qual responderei: Porque esse sofrimento vem repleto de alegria e


gozo e esperança, sem as quais não passaria de uma mera aflição, algo
possível a qualquer um, mas sem o componente diferencial e presente na vida
de todo o crente: o júbilo. O exemplo de Estevão talvez seja o mais
emblemático nas Escrituras, de que a alma humana, pela comunhão com o
Espírito de Deus, pode ver e ir muito além da dor e da angústia (At 8.54-60).

Não é incomum ouvir ou ler o testemunho de irmãos que, mesmo


suportando as perseguições, doenças, e até mesmo a morte, não sucumbem a
elas. Não fazem como a esposa de Jó que, ao encarar o estado deplorável em
que se tornara a vida do seu marido, disse-lhe:
“Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre” (Jo 2.9)

Hoje, neste exato momento, centenas e milhares de cristãos estão sob a


mira dos dardos inflamados e venenosos do inimigo, acossados pelo mal. Seu
“pecado”, aos olhos do mundo, é não negar o Senhor de suas vidas e
manterem-se firmes no propósito de honrá-lo e glorificá-lo, seja na vida, seja
na morte. Há um verdadeiro massacre de cristãos nos países muçulmanos,
nos países comunistas, onde a única fé permitida é a de adorar um ídolo, seja
um falso Deus ou o Estado. Nesses países, não há lugar para Cristo, e
qualquer um que professe o seu nome é imediatamente reconhecido como
criminoso e rebelde, podendo ter por certa a sua condenação. Crianças cristãs
são arrematadas em leilões como escravas sexuais; jovens seguem igualmente
o mesmo destino. Os homens, em sua grande maioria, são presos e
executados; seus bens são expropriados; suas famílias desfeitas; suas vidas
arruinadas em um redemoinho de impiedade. Tudo isso vaticinado com o
selo de “justiça”, podendo ser religiosa ou social; um eufemismo moderno
para a tirania e a barbárie, sob os auspícios condescendentes de um Ocidente
moribundo e em ruína, que odeia a Deus e quer ver o Cristianismo erradicado
da face da terra[20].

Ora, o Senhor alertou-nos também a respeito das investidas do inimigo


para “tirar-nos” a fé, e muitos, naquele momento, tinham as suas palavras
fixadas no coração:

“E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei
antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo... Portanto,
qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de
meu Pai, que está nos céus. Mas qualquer que me negar diante dos homens,
eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10.28; 32-
33).

Neste momento, em várias partes do mundo, irmãos continuam sendo


perseguidos, injuriados, expropriados, presos e mortos, sendo seu único crime
o fato de professarem o amor e a servidão ao Senhor Jesus. Seja nos países
islâmicos ou comunistas, cristãos são vistos como inimigos, como agentes
perigosos, sem que nenhum deles tenha levantado sequer a voz para ofender
seus algozes. Em um mundo cada vez mais distante de Deus, a depravação
total do homem[21] (uma doutrina bíblica sistematicamente atacada pelo
humanismo secular e religioso) evidencia-se em cada decisão e atitude de
complacência e tolerância para com os malevolentes e violentos. Soma-se a
isso uma irritante e inconcebível transigência com o mal, a injustiça, e ações
traiçoeiras, onde os verdadeiros homens de paz são acusados de criarem
conflitos, resultado de uma inversão desmedida de valores e uma desconexão
intransigente da realidade. A insensibilidade do mundo é algo compreensível
(Jo 16.33), ainda que reprovável e insustentável em todos os aspectos. No
entanto, o fato de parte da igreja cristã não sofrer nem se comover com o
flagelamento de milhares de irmãos torna a situação no mínimo estranha,
incompreensível, a ponto de constituir desprezo, omissão pecaminosa, diante
do flagelamento do povo de Deus pelas mãos de homens, governos e grupos
anticristãos, diante dos quais impera um silêncio trágico e constrangedor.

Muito desse processo é minimizado pelo discurso ideológico, no qual um


grupo relevante, mesmo não sendo majoritário, prefere aliar-se aos nossos
inimigos a defender a igreja perseguida mundo afora. Chega-se ao ponto da
zombaria, do absurdo de se aceitar uma narrativa onde uma suposta justiça
encontra-se atrelada a uma causa, um objetivo político e social, muito maior e
defensável do que o martírio sem ruídos de crentes na história atual. Para esse
grupo, impera a ignorância, ou a dissimulação, ou o delito flagrante, ao
preferir assimilar e propagar o discurso ideológico marxista ou libertário de
uma suposta luta pelo bem geral, a despeito de ela se especializar na tirania e
despotismo particulares com os nossos irmãos, sem que haja qualquer
acusação a não ser a de ser... cristão.

Muitos chegam ao cúmulo de imputar aos cristãos a acusação de


revolucionários, de opositores a determinado regime ou governo, quando o
cristão, via de regra, deseja apenas falar de Cristo e sua palavra, cultuando-o
livremente. Em sua maioria, não reivindicam nada do Estado, nem comida,
quando estão com fome; nem casas, quando estão desabrigados; nem
trabalhos, quando estão desempregados; nem a liberdade, quando presos;
nem qualquer outro direito, quando muitos lhes são privados; nem a vida,
quando as portas da morte se lhes abrem; a única coisa capaz de dissuadi-los
à resistência é não proclamar o evangelho e vivê-lo. Porém, algo tão simples
e inofensivo é tratado como a maior de todas as rebeliões, como se os cristãos
quisessem, com isso, tomar o poder institucional, ao não se sujeitarem ao
laicismo estatal (o qual constitui uma proposta de neutralidade religiosa e
social, mas que se empenha na mais ferrenha oposição ao Cristianismo, com
vistas a destruí-lo e, se não tanto, debilitá-lo à inanição). Desse modo,
perseguem, tolhem e tencionam impedi-los de professarem a sua fé, sob o
pretexto de serem uma ameaça à ordem pública.

O medo é o de não poderem dobrá-los por completo e assim não obterem


o culto ao Estado, a servidão total, pois ao fazer-se “senhor”, o governo
instaura-se como a única voz, autoridade. Sendo assim, não quer a atenção
dos cidadãos dividida entre um senhor e outro, entre um princípio e outro,
entre um desejo e outro, entre uma liberdade e outra, entre uma finalidade e
outra, mas a dedicação integral do cidadão à sua causa, pouco importando se,
para isso, o indivíduo tem de ser anulado, tendo a sua alma cooptada pela
ideologia, pela incompreensão exterior forçosa ao interior.

Inexplicavelmente, essa mentalidade relativa nas questões gerais e


absolutista em relação aos cristãos, como sendo o entrave para a paz e a
harmonia social, impulsiona outro inimigo do Cristianismo, o Islã, cuja
aliança estranha se formaliza entre eles, no combate comum ao inimigo
comum. As armas são as mesmas: perseguições, expropriações, torturas,
mortes. Mesmo sendo dois “bicudos” (e bicudos não se beijam), eles sabem
que a guerra entre eles para determinar quem é o mais cruel e bárbaro em
seus fundamentos e ações só acontecerá após a ruína, a capitulação do
Cristianismo. Enquanto o inimigo comum não for abatido, unirão suas forças
para uma cruzada diabólica visando a sua erradicação. É repugnante perceber,
então, o alinhamento de discursos entre cristãos progressistas com essas
forças, uma espécie de tríplice aliança entre combatentes da fé verdadeira,
sendo dois exteriores à igreja, o marxismo estatal e o Islã, e uma com sua
artilharia voltada para dentro da igreja, os chamados crentes multiculturalistas
e esquerdistas. Aqueles almejam a destruição imediata da igreja, por todos os
meios de força disponíveis, enquanto esse tem a incumbência de fragilizar,
minando-a, de dentro, para torná-la, em curto espaço de tempo, um
ajuntamento inócuo, impedindo-a de ser luz no mundo, levando-a a
prostração, de modo que se torne uma futura aliada da ideologia marxista. Se
isso acontecer, não haverá mais volta, estará completamente subjugada pelo
mal, e quão profundas serão suas trevas e condenação atraídas sobre si.
Líderes e grupos com influência internacional omitem-se
vergonhosamente, calando-se diante de uma agressão gratuita e covarde por
parte de estados marxistas e islâmicos. Isso é uma vergonha, uma ofensa a
Cristo e ao seu povo, por aqueles que se dizem discípulos, mas não trazem
em si o caráter, amor e a santidade do Mestre ao qual proclamam servir,
demonstrando apenas silêncio e impassibilidade. Contudo, graças a Deus pelo
testemunho dos irmãos perseguidos em todos os tempos e no decorrer de toda
a história, pois são aqueles sustentados e conservados pelo Senhor, os que
naquele dia glorioso serão colocados à sua direita (Mt 25.33-40) e ouvirão da
sua boca:

“Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está
preparado desde a fundação do mundo” (v.34).

Tenhamos, pois, confirmada em nosso coração, qualquer que seja a


situação a envolver-nos, mesmo tomados muitas vezes pelo pessimismo e a
angustia, a promessa gloriosa de que o Cristo, o próprio Senhor, é quem se
encarrega e encarregará de levar-nos incólumes à eternidade, sem manchas e
graciosamente preservados no seu amor, pela exclusividade do seu ser, e em
nada mais. Logo, qualquer tentativa de colocar no homem uma fração de
mérito infinitesimal, como se por algum esforço (mesmo insignificante)
pudéssemos colaborar nessa grandiosa obra de conservação, configura-se
uma ofensa e tentativa de se tirar a glória da única pessoa que a detém:
Cristo! Deve-se entender que essa obra é exclusiva e completamente dele,
não havendo espaço para qualquer reivindicação humana.

Alguns poderão inquirir: “Mas, por que então Deus nos exorta a manter-
nos firmes para não perdermos a coroa?” (Ap. 3.11; ver Ap. 17.14).

A resposta é simples: Deus usará de instrumentação e meios humanos


para não abusarmos da graça. Como eleitos, devemos buscar a santidade e
permanência na fé, mas sabendo que sem o favor de Cristo, ou seja, sem
estarmos conservados nele, nada disso é possível. Antes, devemos nos
humilhar e clamar a ele força e temperança a fim de evitarmos cair nas muitas
ciladas armadas pelo inimigo de nossas almas. Se o que fazemos é bom e
colabora para a nossa conservação, não devemos pensar mais acerca de nós
do que nos convém (Rm 12.3), considerando que a razão para não nos
perdermos está centralizada no Senhor, e por ele somos sustentados.
No verso 2 da epístola de Judas, há a oração de que Deus multiplique aos
seus a misericórdia, paz e amor, novamente, marcas visíveis e constantes
naqueles filiados ao Pai por intermédio do Filho e algo a ser almejado:
devemos aspirar e clamar com as mais santas ambições que, assim como ele,
sejamos misericordiosos, pacificadores e amorosos.

E, se somos conservados por Deus, esta realidade é exprimida ou


proveniente do amor e da verdade de Cristo. Então, nada melhor do que uma
análise relacionando amor à verdade, pois, no Cristianismo, um depende
necessariamente do outro. Há uma relação intrínseca entre eles, sem a qual
uma exposição bíblica não passará de um mero discurso ou artimanha
retórica, cujo objetivo não é revelar um e outro, mas camuflá-los,
escondendo-os, para não serem compreendidos, de modo que não sejam, na
prática cristã, testemunhados.

Portanto é importante definir os termos:

Amor - 1. Sentimento que induz a obter ou a conservar a pessoa ou a


coisa pela qual se sente afeição ou atração.

2. Paixão atrativa entre duas pessoas.

3. Afeição forte por outra pessoa.

4. O próprio ser que se ama. (Usado também no plural)

Verdade - 1. Conformidade da ideia com o objeto, do dito com o feito, do


discurso com a realidade.

2. Qualidade do que é verdadeiro; realidade; exatidão; coisa certa e


verdadeira.

3. Por ext. Sinceridade, boa-fé.

4. Princípio certo; axioma.[22]

Agora, pense um pouco: é possível haver amor sem verdade?

A maioria certamente dirá que não. É impossível conciliar o amor em


meio à mentira, a hipocrisia, ao engano, à dissimulação e falsa piedade. Do
ponto de vista intelectual ou racional a resposta é bem mais fácil de obter;
mas, e na prática? Será que vivemos a verdade quando dizemos andar em
amor?

Hoje em dia é muito comum se ouvir dizer: “Irmão, deixa de ser crítico, o
importante é o amor!”. Ou: “Devemos amar os nossos irmãos ainda que
estejam no erro!”. Ou ainda, “Deus amou o mundo, por que não podemos
amá-lo também?”. E: “julgar é pecado!”. São frases aparentemente espirituais
e piedosas, mas que denotam pouco ou nenhum entendimento quanto à
gravidade do que acomete a igreja atual. A forma descuidada de se levar a
vida cristã, como um estilo de vida igual a qualquer outro, podendo coexistir
e interagir tranquilamente com as forças ansiosas por destruí-lo, simbolizam-
se nas frases prontas e autoritativas dos opinadores de plantão, aqueles
capazes de relativizar tudo menos a própria opinião.

Como consequência, ouve-se uma série de justificativas para a


contemporização com o pecado, por intermédio de uma placidez demoníaca,
a fazê-los aceitar algo que é ultrajante ao homem, tornando-o escravo,
tirando-lhe a liberdade, pois não há como fugir dos grilhões a mantê-lo inerte
e acuado, especialmente porque é-lhe proposto, pelo seu feitor, acreditar não
haver correntes, nem escravidão ou imobilidade, enquanto permanece-se
estático delirando com algo intangível, o que implica em uma afronta ao
Deus santo e perfeito. Seguindo este pensamento, existe uma lista de
expressões tão fúteis quanto incoerentes, quanto mentirosas, culminando no
sentido de que se é possível caminhar em amor com alguém que transita no
erro sem apontar-lhe o erro, ou pior, fazendo “vista grossa” ao engano, como
se ele não existisse ou fosse irrelevante, de forma que o arrependimento não
seja uma necessidade, mas uma opção. Afinal, como os lábios de muitos
proclamam, onde o pecado é proficiente, abunda a graça (a velha heresia
antinominiana[23]).

O amor, por si só, é inclusivo. Posso amar uma pessoa ainda que ela não
me ame e posso ser amado por alguém sem que eu o ame. Porém, a verdade é
exclusiva, porque não se juntará ao erro ou engano, mas o revelará, a expor-
lhe o falso caminho. Por isso, Satanás se empenhou em destruir a verdade no
coração do homem. Desde o Éden, o seu trabalho incessante é com o objetivo
de desqualificar, relativizar e descontextualizar a verdade, a ponto de ela ser
desfigurada, descaracterizada e, por fim, anulada como um princípio
espiritual, racional e moral, sendo removida e substituída pela carnalidade, a
irracionalidade e pela má-fé ardilosamente tramada. Logo o mundo não quer
saber de absoluto, nem de verdade, pois, onde ela estiver, a fraude ficará
evidenciada, será denunciada e desmascarada, enquanto a mentira se torna a
opção mais servil, favorável e multifacetária aos intentos do seu autor.

Biblicamente o que é o amor?... Segundo Paulo:

“O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem. Amai-


vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em
honra uns aos outros” (Rm 12.9-10) ... "O amor... não folga com a injustiça,
mas folga com a verdade” (1Co 13.6).

Segundo Cristo:

“Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por
mim.(...) Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me
ama (...)” (Jo 14.6, 21).

Segundo João:

“O amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o


mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nele" (2 Jo 1.6).

Antes de definir o amor como os dicionários fazem, a Bíblia revela-o na


manifestação dos atos divinos. Mais do que explicar, ela o demonstra. Mais
do que classificá-lo, ela o exprimiu, não somente por palavras, mas por
atitudes. Em vez de ser um simples postulado, ela o comprova factualmente,
sendo a prova maior que Deus entregou o seu Filho Amado por amor dos
eleitos. Da mesma forma, a vida cristã não se resume a um emaranhado de
teorias desconectadas da realidade, estando voltada para a prática muito mais
do que para as especulações. Não que a teoria ou doutrina sejam irrelevantes,
não é isto. Sem uma base doutrinária sólida e biblicamente fundamentada, a
vida cristã se revestirá de múltiplos subjetivismos e qualquer um fará o que
lhe der “na telha”, segundo aquilo que julgar melhor. Mas esse julgamento
em nada terá a ver com a verdade, logo, não é objetivo, nem santo, nem justo,
pois não procede de Deus. A verdade não admite metades, nem tons cinzas,
nem possibilidades, nem pode ser amoldada ou ter a sua ordem transigida.
Como disse várias vezes, em outros escritos, conversas e discussões, não há
muros onde subir e no qual se encontre a verdade. Ela é única,
monopolizadora, polarizadora, opondo-se e suprimindo toda a mentira.

Cristo é a verdade, “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”


(Jo 8.32) de todo engano, do pecado, que é a mentira impossível de alguém
poder, de alguma forma, opor-se a Deus impunemente, de que a
desobediência não será castigada, de que pouco importa a maneira como
Deus é servido, desde que a pessoa o faça piedosamente, ainda que essa
piedade signifique um erro em si mesma, quando ela se disfarça de devoção,
cujos fins, porém, ainda que aparentemente bíblicos, não são justificados nem
se enquadram nos padrões determinados pelo próprio Deus.

Há uma expressão, “pia fraude”, que indica exatamente uma mentira ou


engano para um fim piedoso. Portanto, o padrão de obediência a Deus não
está na piedade, mas na verdade que levará à piedade. Qualquer forma de
amor será vazia se não estiver firmada na verdade. Posso dizer que amo uma
pessoa vendo-a caminhar seguramente para o inferno, sem admoestá-la
quanto ao caminho que a levará para a condenação? Posso dizer que a amo e
ainda assim não me sentir incomodado por seus pecados, nem sua atitude
contrária à vontade divina? Isso sempre indicará que não estou na verdade,
nem ela em mim, pois, se estivesse, não me conformaria com a hipótese de
alguém afrontar deliberadamente a santidade divina com a sua dissolução. Se
não me importo com o pecado alheio, não no sentido de ser um guardião ou
vigia do próximo, como uma espécie de zelador da moral) é bem provável
que também não me importe com o pecado, nem com o Deus que abomina o
pecado e o pecador, e, quiçá, não me abalam nem mesmo os meus próprios
pecados. Então, o pseudoamor não passará de um artifício para justificar a
omissão e o conluio com o pecado alheio (o que significa pecar em conjunto
com o outro pecador), sendo que o crente condescendente não passará de um
traidor, um escândalo para tudo o que é categoricamente santo. O amor
implicará no desejo de ver as pessoas andarem na verdade, amando-as,
arrependendo-se dos próprios pecados, odiando-os com o que há de mais
puro em seu íntimo, assim como Cristo (Hb 1.9), reconciliando-se e tendo
comunhão íntima com o Espírito de Deus.

Tentar justificar qualquer atitude ou postura com base naquilo que não é
bíblico é uma tentativa de sustentá-lo através do engano. A mente humana é
prodigiosa em se autovalidar e o que muitos de nós têm feito é exatamente
isso, dar chancela a algo que não procede da vontade de Deus, mas
unicamente tem por significado nos justificar diante de nós mesmos e, de
certa forma, diante da Igreja e de Deus. Usar o argumento de que tal
procedimento não está proibido expressamente na Escritura não quer dizer
que ele seja autorizado. Nós ainda não nos acostumamos completamente com
a subserviência, o sujeitar-se ao nosso Senhor, e queremos propagar uma
liberdade que não temos. Onde está escrito que o escravo tem alguma
liberdade? Cristo nos comprou com o seu sangue para nos libertar do pecado
e da maldição do inferno, para habitarmos o seu Reino de glória e para que
tivéssemos uma íntima comunhão com ele. No entanto, em momento algum
ouve-se ou lê que temos liberdade para fazer isso ou aquilo à revelia da
Escritura. Iremos respeitar seus ensinamentos, a menos que não a
consideremos nossa regra de fé e vida; a menos que a desprezemos, não a
julgando como a fidedigna palavra de Deus; a menos que falemos da boca
para fora, porque não recebemos o amor da verdade para a salvação (2Ts
2.10); a menos que o nosso coração esteja tão arraigado às coisas do mundo
que a melhor das atitudes é a negligência e a desobediência. Seria isso uma
prova de amor ou de desamor? Não seria o mesmo que buscar justiça na
injustiça? Cristo em Belial? Fidelidade na infidelidade? Deus entre os ídolos?
(2Co 6.14-16). Ou, para ser mais claro ainda, verdade na mentira? Contudo,
conforme Tiago 1.16-18, fomos gerados pela palavra da verdade, para não
errarmos; porque “toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto,
descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de
variação” (v. 17).

Entretanto, julgamos que Deus é mutável, e se é, não se importará em que


alteremos um pouquinho aqui e acolá o que nos revelou expressamente, ou
mesmo aquilo que está implícito, mas que pode ser entendido como a sua
manifesta vontade. Algo definitivamente reprovável é quando se quer adaptar
a Escritura, o padrão máximo e perfeito da vontade divina, ao padrão mínimo
e sedicioso da vontade humana. Em nome das possíveis brechas que
acreditam haver na Bíblia (outra corrupção de suas mentes), querem
preencher as supostas lacunas com o que de mais desonesto e mesquinho
podem gerar.

E gritam a plenos pulmões: “Amor! Amor! Amor!”[24], como um mantra,


uma senha a revelar-lhes o tesouro oculto, enquanto o verdadeiro amor será
manifestado na obediência a quem se ama, na forma em que o serve, em
como se sujeitará e o honrará. Palavras como edificar, crescer, santificar e
glorificar, só significarão alguma coisa se estiverem em acordo com a
obediência, não uma mera convicção mental de ser a coisa certa a se fazer,
mas a atitude de, regaçando as mangas, fazê-lo. Sem a obediência, ou seja,
um profundo desejo de se render por completo a Cristo, não importa quantas
vezes se repita a palavra “amor”, serão apenas expressões “ao léu” que, de
fato, nada representam, não têm sentido, nem penetraram as profundezas da
alma.

Sem o menor pudor, de uma forma maligna, tem-se abandonado qualquer


disposição de obediência à Palavra, denunciando o desprezo, envolvendo
muitos em uma falácia espiritual que se camufla como amorosa, piedosa, e se
afirma mentirosamente verdadeira, quando há muito se tem especializado no
mais sórdido padrão de desobediência, ao passo que a verdade[25] tornou-se
um mero e irrelevante detalhe, onde dizem os modernos antiortodoxos, a
única coisa valiosa é o amor; mas não seria essa uma forma dos homens
deterem a verdade pela injustiça? (Rm 1.18).

Infelizmente, vivemos em um mundo de sensações, numa busca


desesperada pela exaltação dos sentidos e dos prazeres, esquecendo-nos de
que não há infalibilidade neles, e, como todo o nosso ser, estão sujeitos e
contaminados pelo pecado. Há uma ideia erroneamente difundida de que tão
somente os sentidos seriam a verdade, e qualquer coisa, por mais estúpida e
bizarra, acabaria revestida da áurea de sabedoria e santidade, quando não
passam, em sua maioria, de demonstrações, movimentos espasmódicos,
daquilo que somos: homens e mulheres caídos e separados de Deus. Há de se
ter muito cuidado, prudência, para não se fazer do sensacionalismo uma
doutrina e, mais do que isso, uma prática testada e comprovada de que a
experimentação sensorial é a consciência única do próprio Espírito de Deus
na vida dos cristãos. Isto é misticismo, paganismo; da mesma forma que
arrepios, soluços e lágrimas não provam o amor, porém, o sacrifício, este sim,
prova-o. (E quem se sacrificou mais para demonstrá-lo do que Cristo?)

O salmista escreveu:

“A tua palavra é a verdade desde o princípio, e cada um dos teus juízos


dura para sempre... A tua palavra é muito pura, portanto, o teu servo a ama”
(Sl 119.160, 140).

O amor, como Paulo diz, é o maior de todos os dons. Usá-lo como escudo
para a desobediência, além de desamor e hipocrisia, é pecado. O amor
verdadeiro não é inimigo da verdade, nem a verdade inimiga do amor. Eles se
complementam; são manifestados na obediência a quem se ama, na forma em
que o serve, em como se sujeitará e o honrará. Palavras como edificar,
crescer, santificar e glorificar são indissociáveis, não andam separadas. Quem
espera ou acredita na desagregação entre o amor e a verdade é o crédulo no
impossível: crer que o Evangelho é uma farsa!

Porém, aquele que está na verdade não teme nem precisa temer o amor,
porque o amor perfeito lança fora todo o temor (1Jo 4.18); “de sorte que o
cumprimento da lei é o amor” (Rm 13.10).
PARTE DOIS

DEFESA DA FÉ

"Amados,

procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da

salvação comum, tive por necessidade escrever-vos,

e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos".
Exortação Necessária

Agora entramos propriamente no motivo principal da epístola, na qual


Judas, chamando-nos de amados, disse que procurou escrevê-la com toda a
diligência, no sentido de que foi compelido, sob as ordens superiores de
Cristo, a redigir essa carta, como uma necessidade da qual não poderia
esquivar-se nem prescindir, acrescentando que o faria com aplicação, com o
zelo que as coisas urgentes merecem.

Mas, qual é a sua urgência?

Antes de responder à questão, há um significado especial na expressão


“amados”, pois, como disse anteriormente, o amor é confundido muitas vezes
com aceitação e concordância, ou algum tipo de inclusão, na qual a pessoa
sente-se amada por participar de um círculo ou grupo, de estar inserida em
algo, seja um clube, uma confraria, uma igreja, uma mesa de jogos, qualquer
ambiente onde se integre; neste sentido, amar seria reconhecer na outra
pessoa as virtudes ou vícios que as tornam familiares, pertencentes a uma
mesma classe de pessoas com desejos, ambições ou práticas comuns, nas
quais se agradam. Pode-se amar aquela pessoa, mas, no geral, esse amor será
uma representação de si mesmo, ao ver-se no outro, implicando em um tipo
de autoamor durável enquanto as similaridades, os pontos em comum,
permanecerem harmônicos, podendo mesmo chegar ao ódio e a aversão
completa, caso os pontos de interseção diminuam e as discrepâncias
aumentem. Amar uma pessoa seria também chancelar seu caráter, suas
decisões, atitudes e imperfeições, como algo inerente à sua índole, assim
como o são as suas virtudes. Contudo, isso está equivocado, uma vez que o
amor não pressupõe necessariamente a corroboração da pessoa, no sentido de
se amar validando o comportamento ou atitudes.

Quando alguém diz: “Quem me ama, ama assim como sou!”, parece estar
proferindo uma máxima acomodada ao senso comum e que, via de regra,
tenta glamurizar os erros e enganos, fazendo-os parecer dignos e enlevados,
de tal modo que, como parte da essência humana, devem ser vistos em pé de
igualdade com tudo aquilo desejável e correto. De fato, colocando o amor
numa perspectiva divina, vemos que Deus, ao olhar para nós, não viu senão
pecado e depravação, inimizade e afronta, porém, mesmo assim, nos amou,
amou à perfeição. Por isso, como prova desse amor, resgatou-nos pelo sangue
de Cristo, para que um dia sejamos como ele, perfeito, virtuoso, imaculado.
Deus nos amou na eternidade, vendo, ao mesmo tempo, o que fomos, somos
e seremos; vendo o seu trabalho produzir homens e mulheres santos,
abandonando-se a si mesmos para assumirem o bem de que não dispunham,
como uma dádiva oferecida e conquistada na perfeição do amor divino e
recebida em gratidão.

A pós-modernidade[26] assegura uma moral variável, adaptável e


transigível garantida pelo foro íntimo, onde nada é absoluto, onde “verdades”
contradizentes e opostas transitam livremente no mesmo ambiente, sem o
juízo moral, sem a lógica, sem regras definidas além da falaciosa e incoerente
afirmativa pós-moderna: a de não haver verdade! Nesse conjunto sofístico,
tudo pode ser verdade, tudo pode ser mentira, tudo pode ser certo e tudo pode
ser errado; tudo pode ser tudo e pode ser nada ao mesmo tempo. O simples
fato de se afirmar qualquer uma destas proposições, em si mesmo, torna-a um
engodo, autocontestável em suas primícias, cuja aparente sabedoria encerra,
em seu cerne, a asserção de se saber falsa, camuflada por rebuscamento,
afetação e uma técnica deformada, onde o seu encanto está exatamente na sua
incompreensibilidade, na sua incoerência, e na ardilosa capacidade de iludir.

Esse equívoco também está presente em boa parte da igreja


contemporânea, absorvido sutilmente pelos movimentos liberais,
antinomistas e ecumênicos[27]. Sobrepuseram essa moral aos fundamentos
bíblicos e eclesiásticos a ponto de o amar estar alijado da exortação,
repreensão ou correção, tornando-se uma prática farisaica, anticristã,
opressora e ditatorial quando não for completamente transigente, inclusive
com os pecados e equívocos. Ninguém tem nada a ver com a vida do outro,
então, recusa-se qualquer tentativa, por menor que seja, de levá-lo à
consciência e ao convencimento do pecado, ao arrependimento, à restauração
e a retomar os princípios verdadeiramente bíblicos, cujos ensinamentos
prevaleceram por séculos em toda a igreja (apesar de os hereges,
esporadicamente, mas não menos insistentemente, obstarem a sã doutrina).
Desta forma, o zelo e o amor com o Corpo de Cristo foram obliterados
violentamente nos últimos séculos pelos inimigos da fé, utilizando-se da falsa
piedade e amor para lançarem os incautos em um lamaçal de dúvidas onde a
única certeza será a complacência divina ante a criatura obstinadamente
rebelde e confusa, independente e autossuficiente em si mesma, sem
necessitar do conselho, exortação e auxílio na cura da sua alma enfermiça.

Aos olhos do cristão pós-moderno ou liberal, a leitura da carta de Judas,


(cujo amor verdadeiro levou-o a admoestar, conclamar, alertar e corrigir a
igreja contra os falsos ensinamentos, os falsos mestres, a apostasia e o
engodo), torna-se por demais estranha e somente será justificada em um
ambiente primitivo, como à época em que foi escrita. Esse cristão enxergará
nela uma forma de se discutir a questão naqueles tempos, mas nunca hoje,
visto haver uma lacuna de milênios entre as duas culturas. Novamente a
“modernidade” apelará para uma compreensão primária do homem, na
concepção de Judas, e de que, se tivesse vivido em nossos dias, certamente
não escreveria a sua carta como a escreveu, nos moldes em que a escreveu.
No entanto, o erro está em considerar a alma do homem primitivo inferior ou
desigual em relação ao homem moderno, como se os desejos, pecados e a
inimizade com Deus fossem uma prerrogativa exclusiva daquele tempo e não
estivessem ainda mais arraigadas na consciência e no íntimo da humanidade
em nossos dias. Se analisarmos detidamente as práticas antiquadas com as
atuais, constataremos uma piora significativa na atividade do homem
moderno, não apenas na inferioridade e crueldade mais evidentes, mas
também em maquinar, bárbara e insanamente, os pecados mais hediondos
como se fossem algo natural e do qual a humanidade não pode se esquivar.

Práticas defendidas no ambiente secular, mas que ganharam a aprovação


também no ambiente eclesiástico, como o aborto, a pedofilia, o
homossexualismo, o adultério, divórcio, entre outras, ganham a cada dia a
aprovação de um número maior de pessoas seduzidas pelo discurso liberal,
esquerdista e vergonhoso, assumindo ares de naturalidade[28]. Em suma, o
discurso disseminado de repressão ao “intrometido”, apregoando que
“ninguém tem nada a ver com a minha vida, e devo satisfação apenas a
Deus”, é o completo desejo autônomo do homem de se ver livre de qualquer
obstáculo a fim de consumar o seu pecado. No final, nem mesmo se deve
satisfação a Deus pelos atos praticados, pois não estará ele disposto a perdoar
tudo e todos, indistintamente?

Essa noção traz embutida em seu bojo muito mais do que uma
divergência temporal ou cultural, mas a negação de que a Bíblia seja um livro
inerrante e infalível, quanto mais uma obra de autoria sobrenatural e de
inspiração divina, resumindo-se, o seu relato a um simples conselho moral e
pessoal dentro de um esquema ou modelo eclesiástico ultrapassado,
antiquado e até mesmo desnecessário, em nossos dias, o qual pode ser
reconhecido e aceito ou não, sem significar danos maiores ao rebelde.
Portanto, com a intenção de inocentar o homem, o pós-moderno ou liberal
condena a Bíblia como falsa, ao menos no que ela tem de mais importante:
ser a fidedigna palavra de Deus.

Apelando para uma interpretação “científica” dos textos, estando suas


mentes cativas a premissas materialistas, céticas e humanistas, esses
estudiosos leem as Sagradas Escrituras com as lentes diminutas da
incredulidade e do racionalismo. Alegam serem racionais quando apenas
estão racionalizando com base na aplicação de uma metodologia capaz de
corroborar suas premissas e usam um método que produza e valide os
resultados previamente desejados.

Além de verem Deus fora da realidade, como se o mundo fosse uma


bolha e ele a observasse, arvoram-se ao direito de julgá-lo, em sua soberba e
arrogância, como se a realidade da Escritura não fosse muito maior do que
eles, sendo ela a julgá-los e condená-los, e não o contrário. Nisto, esquecem-
se de que é o Senhor de todas as coisas, do tempo e da história, o Deus ativo,
providente, interventor e que, em sua onipresença, está em todo o lugar,
ativamente sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder[29] (Hb 1.3).
Simplesmente negam-se a reconhecer a realidade e a verdade, tentando
assumir o lugar divino, sendo meras criaturas, estupidamente tolas na busca
de significado em si mesmas, nos seus feitos ou em seus pares, aos seus
próprios olhos.

A pós-modernidade e o liberalismo travestem-se de piedosos, amorosos e


fraternais, para escoarem todo o egoísmo, a arrogância, a presunção e a
rebeldia, a fim de levarem tolos e néscios para uma viagem sem volta ao
inferno, que, por sinal, muitos deles dizem ser alegórico, ficcional, apenas
uma expressão da moralidade ultrapassada e tirânica da tradição judaico-
cristã. Por conseguinte, não ouviriam o conselho e a correção de Judas, tendo
em vista os seus escritos serem apenas pessoais, um ponto de vista entre
tantos, nada havendo neles de sobrenatural e divino. Para eles, divino é
apenas o que se encontra no coração do homem, bem como sua sinceridade
em manifestá-lo, não importando muito o seu teor, mesmo procedendo-se de
modo enganosa e ruidosamente maligno. Jamais reconheceriam no autor o
amor, o zelo e o desejo de que a igreja permanecesse no caminho
estabelecido por Cristo e os apóstolos, desprezando a máxima de que Deus,
como o Pai bondoso e misericordioso, “corrige o que ama, e açoita a qualquer
que recebe por filho” (Hb 12.6), levando-me à conclusão de que os opositores
desta verdade são filhos bastardos, não amados pelo Senhor, mas alvos
diretos da sua ira.

Por isso, o verso três da epístola de Judas inicia-se com a expressão


“amados”, algo que aquece o coração e nos dá confiança de ouvi-lo e atentar
para a sua exortação e conselho, pois, como “servo de Jesus Cristo”, tem em
si o amor, a sabedoria e o Espírito do Mestre.

É quase inimaginável, no contexto contemporâneo de pensamento[30],


algo semelhante aos ensinos de Judas ser reconhecido como bíblico e
necessário à saúde espiritual dos cristãos. No “vale tudo” evangélico é “cada
um por si e deus por todos”, não havendo lugar para auxílio, sustentação,
conforto e piedade focados na verdade, na realidade, e não nos “achismos” ou
“duplas-realidades”[31], onde quanto menores os princípios e fundamentos,
mais a alma definha-se e afasta-se de Deus, enquanto o estulto defensor
considera-se firme, afundando na areia movediça da sua própria deificação.
Pois eles não seguem a Cristo, nem aos seus mandamentos, mas apenas a si
próprios e ao evangelho caquético gerado em seus corações, no qual não
existe amor, seja a outros como a si, já que o amor não subsiste fora da
verdade, e a verdade, sendo absoluta, suprime qualquer forma de desamor,
pois nela há apenas o amor verdadeiro e santo, o qual é Jesus Cristo e o seu
evangelho.

Outro grave problema nessa questão é a dissociação ou descontinuidade


entre Cristo e suas palavras. Muitos apegam-se à figura de Jesus, mas não do
Jesus bíblico e somente conhecível nas Escrituras (o conjunto de 66 livros
testamentários), mas de um Cristo genérico, inidentificável, surreal e místico,
a ponto de escolherem, sem qualquer critério crível, os textos sagrados
adaptáveis aos seus conceitos, excluindo-se arbitrariamente o que não lhes
convém. Nega-se, portanto, toda a verdade em detrimento de alguma verdade
(não passando de uma inverdade) para validar um ideal anticristão,
antibíblico, e que não passa de um arremedo religioso a acomodar a alma no
pecado e na farsa. Há uma disposição irracional e centrada nas sensações, nos
sentimentos absurdos a moldarem convicções, frutos da confiança em si
próprio. Este, certamente, é o maior de todos os erros, pois o cristão
verdadeiro não confia em si, sabe sê-lo enganoso e põe a sua fé em Cristo e
no seu evangelho, não em outro evangelho, ao qual Paulo chama de anátema,
mesmo se o seu enviado se fizesse em anjo de luz.

Assusta-me quando ouço “cristãos” afirmando não acreditarem na Bíblia,


mas apenas nas palavras de Jesus. Coço a cabeça e pergunto:

- Mas como saber se as palavras de Jesus, escritas, e nas quais você


acredita, foram ditas por ele mesmo, se você não crê na veracidade integral
da Escritura?

Eles fazem cara de espanto, pensam um pouco, e dizem:

- Porque tenho fé de que elas foram realmente ditas por ele.

- Ah, então o seu problema é fé, uma fé pequena que o faz crer apenas em
algumas frases, contidas no mesmo livro que você descrê, mas que,
maravilhosa e sobrenaturalmente, estão em perfeita harmonia com tudo o que
nele está escrito

Tento demonstrar que não faz sentido, não há lógica em não se crer no
todo, mas acreditar em uma de suas partes, porque se o todo é falso ou não é
completamente verdadeiro, como acreditar em partes pinçadas do todo e
torna-las verdadeiras? Ou o todo é completamente confiável, ou nenhuma
parte dele é; pois, nem mesmo a fé no Jesus que dizem crer é verdadeira,
posto estar em flagrante contradição com o livro que o revela. Entretanto, se
apegam a uma fé titubeante e irracional, que lhes formata a alma e os leva a
crer apenas e tão somente naquilo em que o seu julgamento pessoal advoga
como verdadeiro, tornando-se juiz de algo infinitamente superior e
incompreensível, em sua sobrenaturalidade, muito além do que a mente
poderia estabelecer por si mesma.

Então, pergunto:

- Baseado em qual autoridade você pode julgar o que é verdadeiro ou não


na Bíblia?

Alguns apontam os teólogos críticos, os teólogos liberais, ou,


simplesmente, o seu próprio entendimento da questão.

Inquiro-o, novamente:

- Quem o investiu dessa autoridade?

Normalmente alegam serem eles acadêmicos, pesquisadores e estudiosos


idôneos e isentos, remetendo aos seus diplomas, títulos e honrarias, e um
sem-número de outros apelos à figura de credibilidade. Desprezam a
coerência e unidade bíblicas, os testemunhos dos apóstolos, dos pais
primitivos, de historiadores, e da própria Igreja. Acham que tudo isso não
passa de uma conspiração para criar um mito religioso de que a Bíblia seria a
palavra fiel de Deus, mas não sendo nada além de um livro escrito por
homens incultos e primitivos, que se expressavam de maneira rudimentar,
refletindo o seu contexto cultural. Na verdade, acreditam naquilo que não
podem crer racionalmente, mas que somente é possível crer sem razão ou
fundamento, consequência de uma mente incoerente, desconectada da
realidade espiritual; a expressão emanada do ser caído e sob os efeitos
noéticos[32] do pecado. No fim das contas, acabam por levarem-se muito a
sério; como já disse, fazem-se juízes de Deus e tratam de cavar um buraco
cada vez mais profundo em direção ao abismo interior e à escravidão
exterior.
Fé Regenerada

O autor escreve com diligência acerca da salvação comum, mas o que viria a
ser a salvação comum? Uma salvação reles, ordinária, partilhada e disponível
a todos? Ou estaria a falar de algo específico, exclusivo?

Há de se notar que a carta foi escrita para a Igreja e não tem como
objetivo comunicar-se com os de fora, ainda que a Bíblia o faça de maneira
extemporânea, mas sabendo sê-la redigida para os cristãos, os eleitos.
Alguém pode dizer ser um erro limitar a extensão da Palavra, mas é o próprio
Deus quem o faz, no sentido mais intenso e amplo daquilo entregue, dirigido
ao Corpo de Cristo, e, por sê-lo, excluem-se automaticamente aqueles não
pertencentes ao Corpo, operando sem que a vontade destes seja manifesta. Há
uma confusão entre o agir divino e humano, como se aquele dependesse deste
e a vontade de Deus estivesse sujeita à nossa; porém, com certeza o iníquo
não deseja pertencer ao Corpo, e a sua volição, aprisionada pelo pecado,
mantém-no atrelado à sua natureza de forma inescapável, em contínuo estado
de oposição ao Criador, mas em conformidade com a vontade do Criador,
que não o quer partícipe da Igreja, colocando as coisas em seu devido lugar:
se Deus não quer, não há quem queira; se ele não agir, não há quem o faça
em seu lugar; portanto, o homem somente abandonará a sua condição de
inimigo se Deus achegar-se a ele, demovendo-o da sua aversão,
restabelecendo a ordem na alma, tirando-lhe a venda a fim de ver a verdade,
somente possível na luz; do contrário, haverá apenas trevas, trevas e mais
trevas, onde o homem não pode ver nada, nem mesmo reconhecer a si
próprio.

Logo o autor não pode falar de algo comum a todos, e sim algo que não é
compartilhado pela maioria das pessoas. Seu foco é dirigido aos “amados”,
escrevendo-lhes porque, como Igreja, todos nós somos participantes da
mesma salvação especial, não como uma possibilidade, mas como uma
realidade inexpugnável, uma certeza infalível, pelo mérito exclusivo de
Cristo ao sacrificar-se na cruz, resgatando-nos da perdição e reconciliando-
nos com Deus. Podemos concluir que ele trata da salvação comum a si
mesmo e que também é compartilhada pelos eleitos, aqueles por quem o
Senhor morreu, comprando-os pelo seu próprio sangue (At 20.28),
ressaltando o caráter exclusivista e direcionado não a uma assistência
indefinida, vaga, mas a um corpo identificado pelas marcas produzidas pelo
Espírito, capaz de transformar a mente natural em espiritual: a mente de
Cristo (1Co 2.16).

Há um quê de lembrança nesse verso, como se Judas estivesse dizendo à


igreja:

“Olha, alguns de vocês se esqueceram do que são, do motivo pelo qual se


reúnem e de qual é o objetivo das suas vidas. Vocês são salvos e
compartilham comigo da mesma salvação dada aos santos e não podem
esquecer-se de que, por isso, Cristo encarnou-se; o Deus vivo e eterno fez-se
homem, vivendo como um comum (ainda que este “comum” seja
infinitamente superior a todos os séculos de vida da humanidade inteira),
para que fosse injustiçado e condenado à morte, pagando em definitivo todos
os nossos pecados, sem o qual não teríamos uma comunhão com o seu
Espírito, e nada nos restaria além de sermos entregues à própria sorte, uma
sorte desafortunada, trágica e miserável. É triste ter de relembrá-los disto,
mas alegra-me poder fazê-lo, renovando-lhes as forças para continuarem a
luta neste mundo, sabendo que as suas coroas estão reservadas para o dia
glorioso do Senhor”.

Pode-se alegar o caráter especulativo da minha interpretação, mas,


pergunto: por que o autor teria de ressaltar algo que estava vivo na mente e
coração dos irmãos? É óbvio o caráter futurista da exortação, ou seja, estava
destinada também aos cristãos que haveriam de nascer, para aqueles que
ainda não conheciam a fé, mas a teriam. É um argumento válido; mas diante
da urgência do autor, penso que ele está imbuído da missão de admoestar a
Igreja naquele momento crítico, em que ela sofria ataques constantes de fora,
mas sofria também ataques vindos do seu próprio seio, dos agentes inimigos
postados ali pelo diabo. Algo havia se perdido nesse ínterim e, certamente,
ele estava a reavivar na alma daqueles irmãos esquecidos o que se perdera de
alguma maneira pela negligência, pelo sofrimento, pelas perseguições...
Apontando para a falsa piedade que tomava o lugar da devoção e da contrição
ensinadas por Jesus e os apóstolos. Também está a encorajar ainda mais
aqueles que, como soldados valorosos e diligentes, permaneceram firmes na
fé e não se afastaram de suas prerrogativas, pelo contrário, eram os guardiões
da sã doutrina diante da ofensiva covarde do inimigo, com o fim de subverter
o Evangelho. Como se dissesse:

“A vocês que permaneceram firmes e não arredaram o pé da fé dada aos


santos, digo-lhes para continuarem assim, intrépidos e fiéis defensores do
Evangelho, rejeitando toda heresia, todos os falsos mestres, ensinando aos
mais fracos o caminho da verdade”.

Referindo-se ao resgate, ao fato de Deus haver nos tomado para si,


salvando-nos de nós mesmos, de nossa natureza caída e de nossas
concupiscências, o autor faz lembrar à Igreja o porquê de ela estar reunida em
torno de Cristo, de forma que todos os que foram chamados e santificados
participam da mesma salvação, do mesmo objetivo de servi-lo, honrá-lo e
glorificá-lo... Sendo também chamados para compartilhar a mesma santidade
do Senhor.

Em segundo lugar, Judas “exorta”[33] cada um de nós ao dever de reter,


batalhar, lutar e contender pela fé contra as armadilhas, ciladas e investidas
de Satanás e seu bando, num esforço corajoso e diligente para derrotá-los.
Note-se que a fé não é dada em conta-gotas, nem pode ser adquirida em
progressão, nem é fruto de um construto individual, mas ela é dada
gratuitamente, uma cessão generosa de Deus para os seus filhos, para que
saibam o seu verdadeiro fim e objetivo, o de guerrear pela sã doutrina e por
uma vida santa, em semelhança ao legado de Cristo deixado para os seus
coerdeiros. Assim, a promessa é a de nunca fracassarem, se souberem como
defender firmemente aquilo que lhes foi dado uma vez, uma única vez, e do
qual são guardiões e proclamadores: a fé cristã!

Quero atentar para dois aspectos da fé dada aos santos e apontadas na


carta. O primeiro, é de que Judas pode estar se referindo à fé salvadora,
aquela fé que faz o eleito crer na obra de Cristo consumada na cruz, e pela
qual reconhece a sua pecaminosidade, bem como a necessidade de sujeição e
reconciliação com Deus, sem a qual não há redenção. Esta fé lhe é dada uma
única vez, para sempre, não como muitos afirmam equivocadamente: na
possibilidade de perdê-la e alcançá-la de maneira intermitente, dependendo
da disposição humana de estar com fé ou abandoná-la; isso a transformaria
em mérito do homem, no sentido de que a obra divina de salvação
necessitaria, impreterivelmente, da chancela humana, da sua asserção, sem a
qual todo o sacrifício do Senhor seria nulo e ineficaz. “Dada uma vez aos
santos” não deixa dúvidas da sua absoluta eficácia em manter o salvo em uma
permanente condição e estado de salvação. Ela é um dom divino, como Paulo
diz em Efésios 2.8-9:

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é
dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie”.

Aspectos da santificação humana presentes em um homem resgatado do


pecado, mas ainda assim pecando, não cabem ser analisados neste momento.
Contudo, um estudo do leitor sobre o assunto poderá ajudá-lo a entender a
diferença entre uma salvação eterna, posta pelo amor eternamente divino (e
jamais condicionada à vontade do homem), e uma vida de aparentes altos e
baixos do cristão. Digo “aparente” porque, no plano divino, tudo na vida do
crente colabora para o seu bem, mesmo uma queda, até mesmo muitos
pecados, pois a promessa infalível do Senhor resultará no homem redimido
semelhante ao homem eterno, Cristo[34]. Tais altos e baixos em nada
prejudicarão a sua salvação, concedida e sob os efeitos santos, e perfeitos, e
graciosos de Deus, e não do homem imperfeito.

O segundo ponto em relação à fé, nesta carta, remete-nos ao corpo de


doutrinas e ensinamentos recebidos pela Igreja, através da revelação
especial[35]. Não que a doutrina fosse mudando com o decorrer dos tempos;
porém, como nos foi apresentada em desenvolvimento contínuo, durante os
séculos, conceitos antes não muito evidentes, e até mesmo imperceptíveis,
foram solidificando-se, apresentados em detalhamento, ganhando cada vez
mais consistência. Nesse sentido, as heresias tiveram um papel importante,
pois, por meio delas, certos aspectos difíceis na Escritura ganharam nitidez,
foram explicados, delineados, em harmonia com o testemunho majoritário
dos santos desde os primórdios até hoje. O papel da Igreja foi o de
pormenorizar as doutrinas presentes no Cânon de maneira sistemática,
estruturando-as a fim de que o ensino e o estudo se tornassem organizados e
mais eficientes. Claramente, esta foi uma necessidade dos cristãos, dada a
profundidade e requinte do texto sagrado; o que não impediu muitos de nós
de passarem à margem ou desapercebidos da vasta rede de instruções
apresentadas pelas Escrituras, dificultando as suas aplicações práticas.

Entretanto, todo esse esforço patrocinado pelo Espírito, utilizando-se da


instrumentalização humana, serviu para aproximar-nos da luz, e, desta forma,
as trevas foram obliteradas, reveladas, tais como são, servindo de auxílio,
artefato, para o combate às falsas doutrinas. Algumas delas, travestidas de
sabedoria e piedade, arregimentaram muitos para as suas fileiras, e poderiam
ter um papel ainda mais destrutivo se não houvesse Deus providenciado
revelá-las, garantindo a sanidade da Igreja, preservando-a. Outras, de tão
estúpidas e mal elaboradas, intriga-me como, ainda hoje, conseguem adeptos
e defensores e alcançam influência nefasta e diabólica no seio de
comunidades erguidas como castelos de areia.

Seria impossível conceber arma melhor e mais letal para combater as


heresias, nesse contexto, do que a própria Escritura. A sã doutrina é o
conhecimento dirigido por Deus da sua palavra para a instrução e
santificação. Homens santos debruçaram-se sobre ela, retirando o antídoto
necessário para manter saudável a Igreja. A resposta para o mal e seus
agentes encontra-se no Evangelho, como o Senhor deixou-nos manifesto ao
enfrentar o diabo no deserto (Lc 4.1-13), rechaçando-o, ao vencer as
tentações, e pondo-o a correr. As mesmas tentações são lançadas sobre cada
um dos crentes, dia após dia, afligindo-os e tirando-lhes a paz, especialmente
quando se cai, ocasionando o pecado, diferentemente de Cristo, que, como
Deus encarnado, manteve firme a sua humanidade, estabelecida na santidade
que o manteve separado do pecado, e afugentou o maligno igual a um rato
miserável (Tg 4.7).

Certa vez, o pastor da minha igreja contou-nos o depoimento de uma


atriz, que afirmou considerar o seu dom, de interpretar, um ato de fé, porque,
segundo ela, não se sabia de onde ele provinha; você simplesmente o tinha.
Não é interessante, independentemente de professar ou não uma crença, que a
atriz usasse a razão da fé para comparar, remetendo-a a uma outra razão, do
ser, da vida, da sua profissão?

O pastor considerou-a (e também a considero) uma boa explicação para


os dons que muitos têm e não sabem como surgiram. Ressalto apenas que o
dom sem aplicação não passa de um tesouro que nunca foi encontrado ou
uma oportunidade negligenciada. Qualquer dom, e não precisa ser artístico,
deve ser exercido e aprimorado como uma forma de reverência e
agradecimento ao seu doador, Deus. Em especial, trata-se de uma boa
explicação para nós, crentes, pois nos sentimos muitas vezes quase obrigados
a colocar a fé em alguém, ou fazer esse alguém crer, na base da força, na
marra. O profeta já alertava:

“Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o
Senhor dos Exércitos.” (Zc 4.6)

Complementando, o pastor disse que nenhum de nós tem esse poder e,


como Judas escreveu, a fé é uma dádiva, algo que somente Deus pode dar aos
santos, e não pode ser compartilhada, como algo a ser incutido, em alguém,
por mim. A única forma de compartilhamos a fé é vivendo aquilo que
acreditamos e que a Bíblia nos revela como a vontade divina, porém nada
disso acontece sem o Espírito manifestar-se, reestruturando a mente, fazendo-
a amar a verdade e entregar-se a ela. É necessário que o raciocínio
pecaminoso se renda à razão, à santidade, para a fé estabelecer-se como
verdade factual e indissociável da vida cristã.

Mesmo sendo muitas vezes bombardeados pelo ambiente em que


vivemos, o mundo caído, pelo diabo, ou por nossas fraquezas, ao final
teremos sempre a certeza de a nossa fé ser real, palpável, pela sua veracidade
e eficácia, pela transformação, o novo nascimento, operada pelo Espírito a
capacitar-nos à fé. Como algo maravilhoso e uma bênção ao crente, ela nos é
dada somente uma vez. Isso nada tem a ver com o estereótipo, quase uma
superstição, de que a fé pode ser conquistada e também perdida e até
readquirida, em um front de vitória e derrota onde a primeira “fé”[36] não
quer dizer muito, e a segunda significa bastante e tudo pode-se arruinar em
uma fração de segundos, de uma hora para outra, podendo-se lançar tudo por
terra, sem haver uma reviravolta possível e iminente, nos minutos finais.

Esse tipo de fé não gera a certeza, nem faz o homem reconhecer a sua
dependência do Senhor, mas acaba por colocar em suas mãos o destino de
sua vida, no sentido mais grandiosamente espiritual (como uma pretensão,
não uma realidade). Desse modo, seres imperfeitos e volúveis têm uma
direção insegura e uma sina garantida: terminar entrando fatalmente no portal
do Inferno, se depender, mesmo que em algum aspecto, da sua disposição ao
bem, ao santo, à amizade sincera com Deus. Nota-se essa impossibilidade na
vontade humana de buscar a reconciliação com Deus e de manter-se intacto
na condição de pureza, necessária para a salvação. Assim como o etíope não
pode mudar a sua pele, nem o leopardo tirar as suas manchas, o homem não
pode ir a Deus se, primeiro, ele não for até o homem. Este só pode ir a Deus
pelo poder de Deus (Jr 13.23).

O autor está apenas confirmando e reiterando o escrito no verso 1,


demostrando uma unidade de pensamento e propósito em sua carta, pois lá
está escrito:

“Aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus


Cristo”.

A fé dada aos santos tem o selo de garantia da Trindade, sendo que a não
citação ao Espírito pode ser inferida pelo simples fato de que a santificação é
sua obra. Mediante a fé, mesmo com nossas fraquezas, inconstâncias e
dúvidas, temos a segurança de não ser possível perder a salvação, uma vez
que nos é dada.

Alguém pode alegar o fato de muitas pessoas dizerem-se crentes,


abandonarem a fé e voltarem ao mundo, como justificativa para a fé estar
atrelada à volição do homem. Acontece de haver na igreja ovelhas e bodes,
crentes verdadeiros e nominais, joio e trigo, e, assim, Pedro os descreveu ao
abandonarem a sua fé, citando um antigo provérbio:

“O cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro


de lama” (2Pe 2.22).

Ora, o cão e a porca não são ovelhas, eles têm uma natureza, e
mantiveram-na, voltando para as suas origens, em conformidade com aquilo
que não podiam deixar de ser e fazer, a fonte das suas satisfações, da
necessidade imprescindível de suas existências e natureza intransigível: o cão
ao vômito e a porca à lama.
Uma pessoa que se diz crente, mesmo durante muitos anos, e então
abandona a fé, “desviando-se”, age tal qual o cão e a porca voltando ao que
sempre foi e nunca pode deixar de ser; porque é, e não pode ser aquilo que
não é, sem Deus mudar-lhe a natureza. De outra forma, continuará o mesmo,
a despeito dos lacinhos, penduricalhos e enfeites colocados pelo seu
“senhor”.

Por algum tempo, a porca pode até se manter limpa, mas bastará uma
poça de lama, ou um charco, para ela se refestelar no limo e se deliciar na sua
sujeira.
A Fé dos Incrédulos Contra a Verdadeira Fé

Em contrapartida, há um número crescente e cada vez mais poderoso e


influente, (na perspectiva do apoio financeiro e midiático massivo), de
pessoas e entidades empenhadas no combate à fé. De maneira genérica,
querem um mundo sem religião, extirpando qualquer traço de sacralidade e
sobrenaturalidade. O foco principal, quase sempre, é o Cristianismo e a sua
alegada, e nunca provada, hostilidade. Não basta serem ateus e blasfemarem
contra Deus, para eles existe uma cruzada não santa, quase messiânica, de um
mundo melhor, mais amoroso, mais pacífico, isento de espiritualidade.
Alguns dos gurus desse ideal “angélico” nos são apresentados em todo o seu
ódio, virulência e ataques infundados à fé cristã: Dawkins, Rosset, Freud,
Nietzsche, Darwin, e Karl Marx. As origens modernas do ateísmo estão
especialmente fincadas no darwinismo e no marxismo, como explicação
“cientifica e racional” para o ideal de um mundo sem Deus.

Há uma legião de celebridades menos votadas e igualmente adeptas do


pensamento antirreligioso a reproduzirem um discurso “descolado”,
aparentemente intelectual, mas centralizado no mais paupérrimo
conhecimento, ou melhor, na quase total ignorância, ao menos acerca dos
aspectos fundamentais da religiosidade, moral, ética e as relações sociais.
Não poucos deles se aventuram a críticas violentas e injustas baseadas em
uma leitura e interpretação equivocadas e superficiais dos textos bíblicos[37],
se é que são lidos. Na maioria das vezes, o erro é primário: toma-se um
trecho ou versículo fora do contexto para sustentar uma ideia que nunca
esteve no texto, justificando tão somente o estereótipo enraizado em suas
mentes de que aquilo seria verdadeiro e precisaria se confirmar a qualquer
custo, mesmo que seja ao preço da honestidade intelectual. Não é raro ver
livros e artigos apontando as contradições bíblicas, como uma maneira de se
provar a sua não sobrenaturalidade.
Qualquer estudioso honesto perceberá, no primeiro momento, que a
suposta contradição não tem nada de contradição; tão somente é a
desconexão da mentalidade ateia da verdade, necessitando-se de várias
mentiras para tentar encobri-la. Uma tarefa não muito difícil, bastando unir,
em uma mesma proposta, a grosseria mental, o subterfúgio, o escárnio, o ódio
e a acusação ardilosa, suficientes para enlaçar e convencer mentes pouco
rigorosas e flébeis, alimentadas com o próprio veneno, a buscarem uma
ordem superior na desordem interior, negando a sublimidade divina pela
efemeridade desconexa da alma enfermiça.

Sempre entendi que um darwinista baseia todas as suas convicções e


conceitos não na ciência, muito menos na comprovação científica ou
empirismo, mas na falsa premissa da não existência de Deus, a qual é, quer
queiram ou não, uma crença, um tipo de fé, já que o ceticismo é também uma
convicção baseada em um axioma equivocado, resultando em uma conclusão
traiçoeira, mesmo dentro de uma lógica correta.

A movê-los, não o conhecimento científico, nem as descobertas que


“poderiam” apontar para a não existência de Deus; pelo contrário, eles
direcionam e acomodam a ciência dentro do seu escopo filosófico, o qual se
evidencia metodologicamente corrompido pela forma como o manipulam,
burlam, e gerenciam as informações a fim de se ratificar a premissa da não
existência de Deus[38]. É evidente o reducionismo de todo o pensamento
ateísta apenas ao crivo da ciência, como se o homem fosse dotado apenas de
inteligência, e não houvesse outros elementos formadores do seu ser.
Inteligência nem sempre está diretamente relacionada com razão, e
conhecimento nem sempre se relaciona com compreensão. Ou seja, é
necessário muito mais esforço para que eles possam, honestamente, negar a
Deus, mas pela impossibilidade, resignam-se apenas ao que consideram
razoável.

A ciência torna-se apenas o veículo para a corroboração da crença na


descrença, uma refém entre sequestradores; o meio pelo qual eles dão vazão
aos seus pressupostos através da falsa ideia de que estão à procura da razão e
da verdade. É quando a ciência se torna um meio de propagação doutrinária,
desconsiderando que, a despeito de o seu apelo pseudorracional querer
excluir a fé, na verdade, eles estão arraigados na fé. É o discurso panfletário
idealizando-se antipanfletário, como se fosse possível condenar o
proselitismo religioso utilizando-se do proselitismo não religioso para
difundir o materialismo, uma nova religião tão ou mais radical como
nenhuma outra foi. No frigir dos ovos, eles são pegos na mesma armadilha
que imaginam denunciar, provando que o homem é essencialmente um ser
transcendente, que vai muito além do simples conhecimento. A necessidade
de se ultrapassar os próprios limites, no caso dos ateístas, transforma-se na
corrida atrás do próprio rabo. Um rabo imaginário, que para eles é real.

No fundo, o cético faz da ciência, e de si mesmo, a sua “deusa”; esse é o


elemento forjador da cosmovisão materialista, trocar o Deus verdadeiro por
um ídolo. Então, ao rejeitarem o Criador, simplesmente o substituem por suas
criaturas (sim, a ciência não é criação humana, mas parte da criação divina,
assim como o homem).

Paulo nos alerta a tomarmos cuidado com esse tipo de pessoa, cujo
discurso é a insanidade em estado bruto e cujo raciocínio é um disparate
esmerilhado pela confusão, ininteligível:

“Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos... Pois mudaram a verdade de


Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador,
que é bendito eternamente. Amém” (Rm 1.22, 25).

Na verdade, este trecho da Escritura explica muito bem o que acontece


atualmente: o homem se entregando à pregação, ao discurso em favor do
autonomismo, exclui o teocentrismo para, em seu lugar, erguer altares
antropocêntricos.

Em suas argumentações e sofismas, os crédulos ateus utilizam-se do fato


de a ciência não ser neutra para contaminá-la com sua filosofia naturalista e
assim dizer que agem em neutralidade. Parecendo racionais são levianos e
forçam até a exaustão o rótulo de inconsistentes, místicos e preconceituosos
para com os demais crédulos (sendo que os cristãos são os seus alvos
preferidos), quando suas concepções estão viciadas na origem, nos princípios
que as originaram, sem um fundamento sério, sem um exame criterioso,
quase sempre tendo como ponto de partida argumentos com base na rejeição
natural a tudo que se refere a Deus e ao seu governo, sem o menor pudor de
advogarem uma metodologia dirigida ao fim objetivado, e na satisfação do
espírito litigante e antirreligioso.

Verdadeiramente, os materialistas/naturalistas não estão a serviço da


ciência, mas servem-se dela para atingir seus propósitos; usam-na como
“ambiente” para disseminar e estabelecer seus dogmas. Em sua maioria são
tão fundamentalistas como os fundamentalistas que atacam e execram, pois
não estão dispostos ao diálogo, mas à doutrinação mais agressiva que se
possa estabelecer e exercitar. Esta começa pelo pressuposto de desqualificar e
rejeitar qualquer premissa que não seja igual a “Deus não existe” (não que
haja algum benefício em dialogar com eles, pois se encontram de tal maneira
presos em seu círculo vicioso que a menor hipótese de liberdade intelectual
lhes parece pior do que o ferrolho a prender-lhes pés e mãos).

Afinal, quem é mais crédulo? O crente ou o ateu?

Interessante notar como o “novo ateísmo”[39] proclama-se o último reduto


da liberdade do homem de todas as formas de opressão religiosa, utilizando-
se do direcionamento explícito ao materialismo filosófico, como única e
última opção de independência. Ou seja, prega-se uma "libertação", mas essa
libertação somente existirá se o liberto tornar-se um ateu. Não é deveras
paradoxal?

Apelando para o espectro da liberdade, querem subjugá-la, aprisioná-la


nas grades, dentro dos limites de um sistema, mesmo que o desejo alheio seja
o de se manter fora desse recinto? Quer dizer que, para ser livre, o homem
somente o será se a liberdade o levar ao âmago do ateísmo? E até onde será
possível ir em defesa dessa “liberdade”? Como reagirão diante daqueles que
se recusarem a aceitá-la? Será que os neoateístas não estarão revivendo tudo
aquilo que dizem combater, mas que é bem possível repetir em nome da sua
fé? Ao final, o que teremos serão homens enjaulados, sem sequer uma réstia
de luz.

Esse método se assemelha, ou melhor, é idêntico ao discurso marxista.


Ao livrar o homem do capitalismo e da opressão do indivíduo (ainda que
visto como classe, grupo ou associação), fatalmente a única opção passaria a
ser o comunismo. O homem é livre para escolher o comunismo, e tão
somente ele; e, chegando lá, estará invariavelmente aprisionado ao sistema,
sem nenhuma chance de volta ou outra opção de escolha. A menos que se
autoimploda por ineficiência ou fragilidade, como a história é pródiga em
revelar, por sua própria inexequibilidade, o homem nunca será liberto, mas
um prisioneiro, em um claustro sem sequer possuir janelas com grades, mas
muros e paredes impermeáveis à luminosidade. Quando muito, poderá
respirar através das frestas, recebendo uma ração suficiente para não morrer
em definitivo. Em nada é diferente da liberdade que bois e porcos têm no
“corredor da morte”, quando em direção ao matadouro. Não há escolha nem
salvação. Essa é a liberdade do ateísmo e do marxismo.... Mais uma mentira
escandalosa, em que o homem está preso pela suposta liberdade de querer se
manter livre de uma prisão.

Toda essa trama se parece, em muito, com o relato do Éden. Adão e Eva
eram livres, podiam fazer o que quisessem, onde quisessem, sem infringir
nenhuma lei ou norma. A exceção era não comer da árvore do bem e do mal.
Surge então a serpente, com sua lábia, com seus argumentos falaciosos,
distorcendo a verdade e colocando diante do casal uma realidade somente
possível em suas mentes ingênuas, mas cobiçosas. Estava instalado no mundo
o espírito revolucionário, aquele mesmo que defende a quebra da ordem em
nome do caos, da autoridade legal em nome da tirania postiça, da liberdade
em escravidão, e transforma a verdade em entulhos, lixões de mentiras.

O que não lhes fazia falta, nem lhes era necessário, a partir do discurso
enganoso da alimária – ardiloso, mas irracional –, desejaram ter e ser muito
além do que tinham e eram, quando podiam ter tudo e eram a obra-prima da
Criação. A sedução pelo objeto proibido, aquele fruto que assumira uma
aparência aprazível e desejável, sendo que até então não lhes aguçara a
cobiça, somente foi possível pelo palavrório astuto, capaz de persuadi-los,
entregando-os à desobediência, à ambição irreal, a uma fantasia. Assim, Adão
e Eva se viram aprisionados em sua própria vontade. Havia um único desejo
na serpente, fazer com que eles fossem enredados em seu discurso e
convencidos a pecarem, rebelando-se contra a única ordem divina que os
manteria sob os auspícios da graça. No fim das contas, o casal entregou a sua
resolução à vontade da serpente, tornando-a cativa ao desejo alheio, como se
fosse o seu próprio anseio. A liberdade anelada, ser igual a Deus, se tornou a
prisão mais penosa de se perder o prêmio ilusório e receber o castigo
genuíno. Ao invés de subir aos céus, desceram aos umbrais da miséria
humana.
É o que advoga, por exemplo, Richard Dawkins[40], ao propor o mesmo
tipo de libertação delirante: aprisionar o homem na sua vontade irresistível de
fugir da realidade e abraçar uma disposição insana que, dados os contornos
beligerantes e raivosos, constitui-se em uma iminente tragédia, primeiramente
individual, para depois se abrigar entre os seus pares, cauterizados pelo
sentido de revolução, e manter-se enclausurada pelo entorpecimento.

Tal qual as seitas, que têm como uma das características marcantes a
salvação e verdade apenas para quem está nelas, o materialismo/ateísmo
apela para o fim da intransigência religiosa, cujo antídoto é a... intransigência
antirreligiosa. Então, se abrirão as portas da liberdade para aqueles
iluminados entregues ao espírito “messiânico” de salvar o mundo, as pessoas
e a civilização do sobrenatural. Pois é o seu caráter extraordinário que impede
o homem de trilhar os seus próprios caminhos, de traçar os seus destinos, de
se ver livre de toda uma tradição e cultura centrada na divindade, no seu
governo e dependência. Urge voltar à simplicidade, mas ela se resume ao
retorno à vulgaridade, ao ordinário, como se uma flor murcha atolada no
esterco pudesse exalar o aroma de frescor e vivacidade perdidos, não o cheiro
sufocante de corrupção. Estando-se sob as ordens de Cristo, não se pode ser
livre. É preciso destituí-lo, tirar-lhe o cetro, arrancá-lo do trono, depô-lo a
todo custo.

No entanto, a qual liberdade apelam? À liberdade de se sujeitarem à


vontade de terem a vontade cativa a outro senhor? Dirão que o próprio
indivíduo está a defini-la, a cotejá-la e, por fim, abraçá-la, como a chave a
abrir o cadeado que lhe soltará as correntes. Porém, mesmo havendo cadeado
e correntes presas a ele, tão somente possui uma chave inútil sem fechadura
que lhe sirva.

Não é somente isso. A questão vai muito além de uma simples


argumentação, um jogo de ideias, mas traz em seu âmago o aflorar de todo
tipo de perversidade e destruição possíveis à civilização judaico-cristã, a
formadora do Ocidente ou da civilização tal qual a conhecíamos (visto que
ela está se perdendo, ao menos, nos últimos dois séculos). Através de técnicas
aparentes de evolução científica, enquanto se retrocede e se volta aos
períodos mais bárbaros e pagãos da história do mundo, o ser do homem é
reduzido a uma combinação binária, onde todas as virtudes e vícios são
colocados em um único compartimento e rotulados por algo aparentemente
moral e enlevado: o bem comum. Relembremos, porém, que todos os
aspectos da humanidade foram contaminados e corrompidos pelo pecado.
Sendo assim, a ideia de bem comum tem se tornado algo relativo e sujeito ao
escrutínio ideológico, justificando até mesmo o massacre de pessoas em
nome de um “bem comum”, menos para aquele malfadado grupo de pessoas,
assim como a constante inversão de valores, a ponto de o foco central da
discussão ser deslocado, dependendo do viés ideológico, para locais
periféricos e pouco importantes. Nesse sentido, aquele grupo afetado não teve
direito a nenhum benefício ou licitude, porque sobre eles pairava algo
considerado ainda maior, tornando as suas vidas irrelevantes e suas mortes
necessárias.

Se a moral e ética estão diretamente ligados à preservação da vida


humana, incluindo-se, nesse caso, o sentido de justiça, qualquer tentativa de
relativizá-los e não entendê-los como provenientes de Deus, significará a
perda do próprio sentido de humanidade e justiça, estando todos entregues ao
espírito mais diabolicamente destrutivo, o qual é a perda da própria
humanidade. Afastando-nos do Criador e sua Lei, afastamo-nos da verdade e
tornamo-nos presas fáceis para a maior de todas as mentiras e delírios: o
homem é senhor de si mesmo, e ao tomar para si algo que não lhe pertence,
usurpando-o do verdadeiro detentor, alimenta a fantasia de alçar os céus e
dominá-lo.

No redil das disputas em que a mente se torna o campo a ser conquistado,


as áreas mais viciosas e usadas à exaustão para moldar o pensamento e a
mentalidade moderna não são a filosofia, a política ou a teologia, mas a
psicologia e, em especial, a pedagogia. Se já não é suficiente transformar o
adulto em um animal, capaz de dedicar-se, com empenho, aos instintos mais
degradantes e vis da alma, ensina-se, desde a mais tenra idade, a capitular a
mente ainda não formada e em transição da criança, tornando-a, no futuro,
uma bomba-relógio prestes a explodir ou um artefato “bovinista” a alimentar
os seus prazeres até a morte, não importando se a sua ou de outrem.

Quando a cultura atual destina boa parte do seu tempo, esforço e dinheiro
em insuflar o homem na satisfação dos prazeres mais tolos, em nome de uma
excitação, euforia, ou o que comumente se chama de “adrenalina” (por sinal,
tudo hoje praticamente se resume a isso: alguns momentos de êxtase e
insanidade), pode-se perceber uma volta ao homem primitivo, ao qual, por
questão de sobrevivência, era necessário passar por perigos e ameaças, nunca
por prazer. Com raras exceções, eles sempre as evitavam, ainda que
soubessem reais e possíveis de ocorrerem em sua vida ou a qualquer
momento.

Hoje o perigo é uma diversão. Colocar a vida em risco desnecessário se


tornou mais uma forma de banalização da existência e o atestado de como o
individualismo, aliado à ideia de autonomia, tornou o homem estúpido e
autodestrutivo, por um pouco de comoção e pânico infundado. Os parques de
diversões e temáticos demonstram que o homem moderno apenas trocou o
Coliseu, os duelos medievais, circos e caçadas por algo mais, digamos,
controlado, mas não menos mórbido. Podemos incluir os rachas e cavalos de
pau entre carros e motos, sexo compulsivo e degradante, drogas, bebidas,
entre outros, como a supérflua submissão do ser ao preenchimento de um
vazio calamitoso pelo prazer paliativo, cuja fonte verdadeira e única, capaz
de ocupar plenamente e satisfazer essa necessidade, é apenas Deus. Como
essas formas de substituição apenas atenuam momentaneamente a ausência
divina por meio de um ídolo, as exigências da alma levam cada vez mais o
homem a um grau de risco e perigo ainda maiores, culminando em um estado
de dependência, de servidão, praticamente sem volta. Preso ao seu cativeiro
interior, ele espera a libertação naquilo que o aprisiona e subjuga.

Em linhas gerais, o padrão atual é o mesmo iniciado no Éden e repetido


exaustivamente no decorrer da história: a agitação dos ânimos, para fora da
vontade de Deus, resulta em perturbação da alma e na desordem funcional,
onde a “imago dei” é substituída pela corrupção humana, iniciada no coração
e concretizada em suas ações maléficas, fruto da vontade entregue à
consciência ou natureza perdida.

A busca pela emoção, pelo arroubo irracional, tem permeado a vida,


inclusive de crentes, e é estimulada desde a mais tenra idade. Crianças não
querem tocar piano, ouvir e ler os clássicos, jogar xadrez, brincar de
laboratório e oficina mecânica ou fazer coisas do gênero; ao mesmo tempo
que lhes aguçava a criatividade, colocava-os em contato direto com a
realidade a se pronunciar em alguns anos. Antes de prepararem os seus filhos
para a maturidade, os pais ou tutores acabam por descer ao nível mental e
emocional dos pimpolhos, como uma forma de autoproteção, visto que eles
próprios são infantis e dados às reações intempestivas, marcadas pela paixão
ardorosa de não se comprometerem com a construção do caráter dos filhos,
além de pouco preocupados em levá-los à consciência de si, do próximo e do
mundo. É mais fácil torná-los “Rambos infantis”[41] ou maricas, ambos
entregues à displicência e lassidão pela falta de responsabilidade, por temor
ou por inaptidão em manejá-la corretamente.

A sexualização das crianças é apenas um passo a mais na descida do


homem ao abismo de sua alma tenebrosa, a mesma que transformou, do
ponto de vista comercial e midiático, a beleza em um amontoado de carne a
ser engolida e exposta como um presunto na vitrine. Não há diferença,
podendo-se escolher a mais gorda ou magra, tudo se resumindo a uma
questão de gosto ou apetite.

Alguém pode argumentar que sempre houve a exploração sexual, seja de


mulheres, homens ou crianças. E é verdade. Na história, em várias ou quase
todas as civilizações, a depravação humana levou alguns não somente a
desejar, mas a vivê-la intensamente e por todos os meios. Porém, a maioria
das pessoas não se entregou a ela, antes a reprovaram, e, em muitos casos,
combateram-na. A diferença entre os tempos está no fato de, hoje, existir um
movimento incitando as pessoas às práticas mais degradantes, não somente o
apoio, a validação mental, mas o treinamento para a sua aplicação e
massificação, como uma necessária integração da nova sociedade em
construção, com o fim evidente de se libertar da “opressão tradicional”,
representada pelos valores defendidos pelo judaísmo-cristianismo. Somente
assim, criando-se uma nova “humanidade”, segundos os moldes ideológicos e
antinaturais, se alcançará o direito à plena capacidade de se dispor de si e dos
outros, como alguns querem, fazendo valer o velho lema adâmico de que
tudo é válido para a satisfação da vontade, e, ao satisfazê-la, se é livre.
Poucos, contudo, percebem que o eu não é apenas a vontade, nem ela o
completo eu, mas uma limitação na qual o restrito assume ares de plenitude,
sem que a alma se satisfaça, entregue a um permanente estado de frustração.

Nem todos reconhecem isso; então, a maioria se entrega a um constante


“salto no escuro”, que pode ser tanto uma religião, um partido político,
associação, profissão, hobby, ou qualquer outra das muitas formas de fetiche
a sustentar a alma em um estado de miséria existencial. É mais uma das
muitas formas de distração do pecado, ao fazer-se importante e necessário
para desviar os holofotes para si e receber uma glória usurpada por meio da
capacidade de levar o homem à abstração, ao não reconhecimento de si, da
sua real condição, do próximo, e, acima de tudo, de Deus.

A manipulação começa quando se estabelece, em primeiro lugar, a


condição de vítima, de injustiçado, de oprimido, de segregado, de explorado,
e outros jargões incutidos insistentemente pela mídia, escolas, livros,
universidades, sindicatos, ONGs, e “tutti quanti” o liberalismo e o marxismo
conseguirem ocupar, monopolizando o discurso com o seu linguajar
distópico.

Uma sociedade onde os erros e pecados do passado são vislumbrados, no


presente, como virtudes, tem muito a dizer do caráter individual dos seus
cidadãos, ao sentenciarem por ignomínia a moral e enaltecerem a perversão
como honrosa; o mal se tornando em bem, e o bem em mal, explicando a
incapacidade da maioria de entender a realidade, ao enveredar por uma busca
quixotesca de negar a todo custo a verdade. E, se ela não existe, como se faz
primordial para vindicar a panfletagem ideológica, o bem, o mal, o certo, o
errado, o lícito e o ilícito serão apenas faces de uma mesma moeda,
dependendo de quem as olha e para qual lado são lançadas. Tudo passa a ser
permitido, em um ápice de egoísmo, narcisismo e megalomania
emporcalhada pela independência: a tão sonhada autonomia que iludiu o
homem, desde os primórdios, a cogitar-se livre de Deus.

Deus é o obstáculo a impedir o homem de colocar em prática toda a sua


maldade interior. Negá-lo é condição essencial para a alma enferma se
“libertar”, aprisionando a consciência, o espírito, que reivindicarão a alma
como companheira de cela, muito antes de ela se dar conta de que a aparente
autossuficiência era outra armadilha para uma reclusão ainda mais dolorosa,
mais limitadora, e o círculo se fecha... de onde se começou não se sai.

As ciências humanas tentam, a todo custo, fazer o homem acreditar em


um sonho autonômico, quando está a perscrutar o pior dos seus pesadelos.
Nenhum homem é livre de Deus, nem pode sê-lo, mas a inimizade é tamanha
(uma obsessão a corroer a alma), que mesmo se Deus aparecesse, frente a
frente, ele não o reconheceria, como não reconheceu a Cristo, porque
significaria a ruína do seu desejo, do seu prazer, da autoidolatria[42]
construída como um castelo de cartas, a soçobrar diante do vento mais tênue.

Portanto, faz-se necessário criar um novo modelo social, no qual o


homem seja o centro, e o iluminismo se encarregou de fazê-lo, o liberalismo
tratou de vesti-lo e adorná-lo, enquanto o marxismo desnudou-o,
aprisionando-o em nome do coletivo, na sua própria nudez. Se antes havia o
apelo do indivíduo, agora existe o apelo da massa, inidentificável, anônima, a
rosnar como bestas diante do osso.

O modelo desejado para a sociedade é o marxismo, mesmo em suas


variantes; o mesmo implementado na extinta URSS, por Lenin e Stalin; na
China, por Mao; em Cuba, por Fidel e Che Guevara; no Camboja, por Pol
Pot; e em tantos outros lugares, é o mesmo ideal maquinado pelo ateísmo
moderno: para aniquilar a ideia de Deus é preciso exterminar o homem como
imagem divina, ao não permitir que ele reflita, raciocine, mas tenha seus
pensamentos reduzidos a um padrão de indiferença, onde todos estarão
confinados ao modelo unificado de comportamento e expressão: a submissão
cega ao instinto assassino.

Milhões de pessoas sentiram na pele a ideologia de Karl Marx, o controle


do Estado sobre a sociedade e o indivíduo, a impossibilidade de se “escapar”
com vida desse sistema a não ser rendendo-se incondicionalmente, sendo
controlado por completo pelas forças de “libertação”, fazendo do homem
uma simples máquina a serviço da vontade burocrática e doentia dos tiranos.
Isso é fruto de um irracionalismo voluntário, da falta de discernimento
analítico, o aniquilamento do senso crítico, da razão, tornando homens em
manadas de idiotas, bestas servis, verdugos obstinados, mentirosos
contumazes e covardes, na ilusão de, ao agirem assim, estarem militando um
grau de independência somente reconhecível em seus cérebros obtusados pela
insanidade, esquizofrenia e a perda completa do sentido de realidade e
verdade, levando-os a uma moral relativa, posta em suas mentes sob controle,
no qual o instinto próprio de sobrevivência se perdeu em meio ao discurso
coletivista e politicamente correto de autonomia, quando, nem mesmo os
escravos sujeitavam-se à prisão, fugindo sempre que pudessem.

Reclamam, debocham dos cristãos, ovelhas do Senhor; sem perceberem,


aplicam-se em si mesmos o veneno que julgam aplicarmos em nós, posto
servimos de bom grado, alegres e ordeiros ao Deus todo sábio, perfeito, santo
e bom, enquanto eles se sujeitam às mentes mais perversas, doentias e
asquerosas que existem. Cauterizados, a ponto de desejarem e acostumarem-
se tanto com o mal que, quando alguém lhes faz o bem, revoltam-se
indignados, creditando nesse bem o mal, enquanto se deleitam na aflição da
própria carne e alma.

O Estado não serve, precisa ser servido em sua voracidade perversa; o


Estado não admite Deus, mas quer se fazer um; o Estado não pretende ter
cidadãos, mas escravos; não aceita nada menos do que o seu ideal maníaco de
onipotência e onipresença por intermédio das massas. Da mesma forma, o
“gene egoísta” é a nova desculpa para que o Estado controle, domine e
subjugue o homem. E a desculpa é sempre a mesma escandalosa mentira:
assim é melhor!... Assim se constrói uma sociedade justa!... Assim o homem
vê, enfim, a sua liberdade!... Mas, para quem?

Não muito distante desses, a loucura do neoateísmo simplesmente revive


conceitos experimentados e fracassados à exaustão, como se fossem
novidade, e torna-se essencialmente aquilo que diz combater. Será que os
novos ateus pretendem reescrever a História ou ficarão apenas na idade
média, em especial no período negro da inquisição? Se o falso cristianismo
existe e é injusto, há, contudo, o verdadeiro cristianismo, o qual é justo. Mas
o que dizer do marxismo? Que nada mais é do que o materialismo levado às
últimas consequências? O naturalismo em sua expressão mais virulenta e
odiosa? Em qual lugar, onde foram instalados, houve justiça? Ele apenas
promoveu e ainda promove a injustiça em sua sanha compulsiva, em sua
máxima descrença de Deus e dos valores cristãos. Ateísmo e marxismo são
irmãos siameses a serviço do mesmo senhor: o diabo! Que não é muito
original, mas vem pregando a mesma peça, desde o princípio, sem deixar de
ser eficiente. Parece que o homem não aprende com os seus próprios erros e
insiste em cometê-los repetidamente para provar a sua própria incapacidade
de compreender e aprimorar-se. Ele acaba por entregar a sua consciência e
honra, abdicando da graça divina, por um prato de lentilhas, tal qual fez Esaú
vendendo a sua primogenitura para Jacó (Gn 25.24-34).

E como tal, não prescinde a fé, mas vive por ela... equivocadamente,
diga-se de passagem, posta num ídolo de barro. No caso de Esaú, o desejo
saciado, mas a alma afligida; no caso do homem moderno, o desejo é a
repetição constante dos apetites insaciáveis, da compulsão desmedida, da
desordem interior, que ao negar a fonte de água viva, Cristo, em seu
desespero, cava poços profundos em terreno árido, sem que o seu coração se
satisfaça, mas se mantenha sedento.

O objetivo das ideologias, sejam darwinistas, marxistas ou outra


qualquer, não é provar a verdade ou a realidade das coisas (embora tentem
fazê-lo dissimuladamente, em contraste aos pós-modernistas), muito menos
trazer alívio para a alma, conhecimento de fato ou um estilo de vida melhor,
saudável e honesto em si mesmo, mas apresentar um sofisma a fim de manter
o homem distanciado da verdade, confirmando-se, assim, cada vez mais a
hostilidade a Deus. Na verdade, hostilidade chega a ser um eufemismo, dado
o ódio frívolo e injustificado do homem natural ao Criador. Se o amor é a
consequência natural do conhecimento, e o conhecimento não pode ser obtido
pela simples rejeição, pela negação, como consequência de uma série de
formulações precipitadas, fruto do caráter empantufado, o afastamento da
pessoa ou objeto a se conhecer, torna-se evidente que o ódio, como desejo, é
fruto do não-conhecimento, o conhecimento imperfeito, ou a ignorância em
relação à pessoa ou objeto.

Com isto, não estou dizendo que todo ódio, raiva ou ira tem como
pressuposto o desconhecimento, mas que, mesmo para se odiar é preciso
haver um tipo de intimidade, se não for no trato, ao menos quanto aos atos e
informações necessárias a fim de se formar um juízo correto, e não se
entregar as conjecturas, a presumir de alguém aquilo que esse alguém não é.
O ódio, como um simples desejo (e me parece ser esse o ponto central dos
ateus e antirreligiosos), é o reflexo direto da imperfeição humana, incapaz de
amar, de entregar-se ao conhecimento verdadeiro, para abandonar-se ao
embuste, a uma imagem especulada, um delírio sofístico, onde uma ideia
subsiste apenas pelo desejo e não pelo conhecimento, que é o verdadeiro
desejo de travar intimidade, averiguando, distinguindo, honesta e
diligentemente, o âmbito de tudo o que envolve essa relação.

É impossível ao homem justificar o seu ódio a Deus a partir do ser divino,


pois este lhe é estranho, incógnito, visto que Deus se deu a conhecer a quem
quis, e somente através do seu Filho Jesus[43]. Por isso, toda a campanha
impetrada pelos homens tem como base a própria ignorância como
justificativa (não como argumento, mas como fato), pois o conhecimento de
Deus somente pode levar ao desejo lícito, e ao fato concreto, de amá-lo assim
como ele ama. Deus ama a quem conhece na intimidade, que parte, ou
provém, dele para os seus amados; e é um amor tão absolutamente divino que
se torna impossível não o amar. Não um amor idílico, irreal, mas factual e
vivo. E aos que não o amam, pois não o conhecem, resta-lhes apenas o desejo
cobiçoso de rejeitar o Deus verdadeiro e em seu lugar erguer um ídolo. Em
linhas gerais, a idolatria é a impossibilidade de se conhecer a Deus e
estabelecer com ele uma relação pessoal, essencial, cuja característica é
requerida pelas qualidades divinas, e não os nossos supostos predicados.
Como Agostinho de Hipona definiu precisamente, o mal é a ausência do bem,
e sendo Deus todo o bem, é a ausência de Deus; e se há em nós algo de bom,
esse bem procede de Deus. Portanto, o amor ao Deus absoluto somente pode
existir se o homem negar o falso amor (como um simples desejo) e entregar-
se ao verdadeiro amor, aquele revelado na encarnação, vida, morte e
ressurreição do Filho. Ele é o único capaz de atrair e desnudar o amor
trinitário. Se ele não o fizer, ninguém pode fazê-lo. Mas ele o faz, revelando-
se àqueles que são amados de Deus; por isso, não se recusou a descer da sua
glória, rebaixando-se em amor e por amor dos seus escolhidos.

É esse o amor real, não um mero sentimento ou desejo, mas a efetiva,


nítida e real concepção do amor verdadeiro. Se o homem não o experimenta
nem o conhece, resta-lhe apenas o desgosto; então o ataque é despropositado,
insolente, desmensurado. O que me leva a pensar em outro ponto: por que a
intransigência e obstinação inimiga à Deus, persiste e acentua-se em muitos,
de forma que, mesmo passados anos, o ódio persistente não arrefece, nem se
dispersa?

É preciso, primeiro, falar novamente da Queda. Foi ali, no Éden, que o


homem deixou-se entregar ao seu desejo, um desejo perverso de ser como
Deus, rebelando-se, transgredindo a sua lei. Nesse momento, Adão e Eva
abandonaram a perfeição criada por Deus para entregarem-se à imperfeição,
negando a verdade e realidade pelo desejo, que mesmo sendo irreal, levou-os
à dura realidade de inimizade e separação de Deus, ou seja, a morte espiritual,
mas também física. O homem estava condenado por seu próprio capricho,
pelo desejo intangível de ser o que não era, não se contentando com o que
era, e transformando-se em arremedo de si mesmo. Ao cobiçar o que lhe era
proibido, a satisfação do desejo trouxe-lhe apenas vergonha, medo e morte, o
que pode ser notado na sequência de desculpas esfarrapadas que o casal deu a
Deus como tentativa de justificar o pecado, a desobediência, e o desejo
injusto. O homem deixou de ser o que era, para se tornar o que não era,
fazendo-se a antítese do que fora; trocando a amizade pela inimizade, o favor
pelo dano, a certeza pela insegurança, a ordem pelo caos, a vida pela morte.

O homem não pode, por seus próprios meios, voltar ao que era, à
perfeição do momento em que as mãos do Oleiro o delineou. O homem só
poderia ser ainda mais aquilo que o desejo, como uma maldição, estabelecera
por castigo, punição, para o pecado. Cada vez mais, à medida em que as
gerações se sucediam, especializava-se no apuro da perversão, da
malignidade, do desprezo e oposição odiosa a Deus. O homem, por si
mesmo, estava condenado a uma vida de destruição, tragédias, e o destino de
caminhar até as profundezas da corrupção. Não havia esperança, nem
conforto, nem alívio nele, somente o alastramento da dor, das feridas,
produzindo maldade sobre maldade, aflição e angústia em uma existência
permeada pela incapacidade de voltar a si, ao que fora um dia; ao ponto de
essa volta sequer ser cogitada; não mais se lembrava do favor, da graça, da
benignidade, e da responsabilidade com a qual Deus cuidava do homem. Ele
se viu cada vez mais abandonado em si mesmo, e por si mesmo, sendo um
fardo, uma desgraça sem reparação.

O homem não podia viver para si ou por si; então, quanto mais distante
daquele homem criado à imagem divina, tanto maior o desejo de aniquilar o
Imago Dei em si, quanto mais autossuficiente e independente se considerava,
tanto mais abandonava o conselho divino em favor da sua falsa sabedoria,
quanto mais distante da ordem dada e mais próximo da desordem almejada,
tanto mais ingrato e tolo, quanto mais fora de si, do homem criado à
semelhança de Deus, mais odiosa e repulsiva parecia-lhe voltar ao homem
perfeito. A verdade concreta do homem insuficiente sem Deus trouxe à tona,
pelo desejo mítico, a realidade de que o mal fizera morada no homem e de
que a sua alma estava completamente entregue a um desejo perverso de
autonomia, o pesadelo da autojustificação sem que houvesse a menor chance
de reparação. Fatalmente condenado, o homem estrebuchava em seus últimos
estertores de vida. O desejo, como uma mentira na qual se fiou, afastava-o da
verdade que não produziu, mas que lhe cairia sobre a cabeça, como uma
sentença definitiva de morte. O castigo eterno não presumido, aproximava-se
à galope, a despeito da obstinada rebeldia de negá-lo, assim como negou a si
no passado, e o fazia novamente agora.

Foi Thomas Mann quem disse a seguinte frase: “Para quem está fora de si
nada parece mais detestável do que retornar a si mesmo”[44]. Ainda que ele
não esteja se referindo à questão ora apontada, ao menos de maneira
explícita, pode muito bem nos servir de analogia, quando confrontamos o
homem perfeito, Jesus Cristo, o segundo Adão, com o próprio Adão e a raça
humana. O homem sem a manifestação do poder do Espírito em sua vida é
apenas um teimoso, envolvido em sua própria teimosia de odiar e ter aversão
ao Homem perfeito que também é o Deus perfeito (e por ter a absoluta
perfeição). Assim, o homem natural e caído satisfaz-se no desejo alcançado
da imperfeição.

Ao não desejar o que deveria, ele nega, pelo próprio desejo, a autonomia
que diz ter, revelando o escravo que é, servo do pecado, sujeito a ele como o
mais submisso dos criados. Por isso, o cético se atreve a empreender a sua
cruzada “anti-Deus”, onde não existe apenas a inimizade contra o Criador,
mas a ferocidade arrogante de não reconhecer a própria destruição. Como
uma nuvem opaca a envolver seus olhos, diz odiar o que é incapaz de crer,
para entregar-se ao desejo de não crer, ou conhecer, e odiar como a afirmação
da própria ignorância. E se esse homem está a navegar em um mar de muitas
possibilidades, põe a sua segurança em um barco sem velas, motor, quilha ou
timão; está à deriva, e ainda se considerará o senhor do seu destino. Se a
graça de Cristo não o encontrar e o socorrer, não lhe restará outra coisa a
desejar além de mais ódio, contra todos, contra tudo, até mesmo contra si (o
ódio implícito que o faz entregar-se ao desejo explícito de rejeitar e negar a
realidade divina). No final, o ódio lhe bastará para fugir da obrigação de
encontrar-se naquele que é tudo, e pelo qual vivemos, nos movemos e
existimos. O desejo jaz nesse homem, obrigando-o a renunciar a qualquer
possibilidade de se tornar em o homem santo e perfeito, e a não cuidar de si.
E os subterfúgios que utilizará apenas o farão não reconhecer o crime, mas
não o impede de ser condenado como criminoso.
A campanha impetrada não tem contornos sutis, ainda que possa surgir
dissimuladamente sob o rótulo de “autoridade”, “academicismo” ou
“erudição”.

Torna-se evidente, porém, que o seu combate à religião nada mais é do


que uma disputa contra o Criador (que, em seus delírios, acreditam possível),
um ataque direto ao Deus pessoal, Senhor de todas as coisas, soberano e
todo-poderoso. Assim, erigem um outro “deus” na forma do racionalismo, da
ciência, dos ETs ou qualquer outra coisa que indique a superioridade humana
diante de um mundo inexplicável e sem sentido, caso Deus estivesse
realmente morto, como eles querem e apregoam. Na sua essência, estão
excessivamente obcecados pela finitude, aparência e o formalismo, em
detrimento ao infinito, espiritual e sobrenatural, cujas marcas fazem-se
presentes não apenas no atual século, mas nos passados e vindouros.

Contra a mentira e a impostura, o crente é chamado a batalhar pela fé, não


pela morte e erradicação dos ateus, céticos ou relativistas e marxistas, mas
para mostrar a superioridade do Cristianismo, não como um “balaio de gatos”
ou um guarda-chuvas onde qualquer um, minimamente conhecedor ou
mesmo ignorante das Escrituras, possa abrigar-se em comodidade, em nome
de um pluralismo que faz apenas desconsertar, confundir e diluir quanto à
verdade, fazendo da fé algo impessoal, descartável, passiva, estagnada. Não!
[45] O Cristianismo bíblico não é, e nunca foi, um lugar aprazível, idílico, no
sentido de ser aceito sem resistência espiritual e, muitas vezes, também física.

Como Jesus disse:

“Tenho-vos dito estas coisas para que vos não escandalizeis. Expulsar-
vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar
cuidará fazer um serviço a Deus. E isto vos farão, porque não conheceram
ao Pai nem a mim... Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no
mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16.1-3,
33).

Pois, onde está o nosso inimigo? Se não o vemos, seja por estar
camuflado ou fingindo-se amigo? Contra quem lutaremos se não podemos
identificá-lo, reconhecendo, ao contrário, que todos são nossos amigos? Se
Cristo veio para revelar as trevas e destruí-las com a sua luz, por que dizemos
ver, ao nosso redor, uma bruma na qual não distinguimos um palmo à frente
do nariz? Se não somos perseguidos, nem escorraçados, ou presos e
condenados por nossa fé, é sinal de que somos aceitos pelo mundo, ou o
mundo está fazendo-se de tolerante e amigo para impedir-nos de combater o
bom combate e guardar a fé? (2Tm 4.7).

À frente analisarei mais detidamente essa questão.


PARTE TRÊS

LOBOS ENTRE OVELHAS

"Porque se introduziram alguns, que já antes estavam

escritos para este mesmo juízo, homens ímpios,

que convertem em dissolução a

graça de Deus, e negam a Deus,

único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo"


A Guerra Dentro Da Igreja

O autor revela-nos então o motivo do seu chamado a batalhar pela fé,


porque introduziram-se no seio da igreja homens ímpios, profanadores e
detratores dos ensinamentos de Cristo. Satanás tem muitas formas de afligir
os crentes, de perturbá-los a fim de demovê-los da fé. Felizmente, como o
autor disse outrora, estamos guardados e protegidos por Cristo, o que,
contudo, não impede o inimigo de atentar contra nós. E uma das maneiras
mais sutis e perspicazes com as quais ele se investe contra os santos é a de
introduzir entre as ovelhas do Senhor seus agentes, os lobos e bodes cruéis,
que buscarão a todo custo dispersar e transtornar o rebanho, sem piedade e
sem poupá-lo (At 20.29).

Atentemos para o alerta de Cristo quanto à vigilância e prudência, ao


designar-nos como seus mensageiros no mundo:

"Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede
prudentes como as serpentes e simples como as pombas" (Mt 10.16).

Havia uma preocupação com os seus servos e o modo como reagiriam


quando postos diante das iminentes vicissitudes em decorrência de uma vida
cristã fiel e empregada na propagação do Reino, ou quando confrontados pela
incredulidade, perversidade e doentia oposição dos inimigos. O que
aconteceria ao serem injustamente acusados, injuriados, perseguidos,
açoitados, encarcerados e mortos por causa do evangelho e ao professarem o
nome do Santo?

Naquele momento, em que a Palavra era primeiramente pregada e


alcançava as trevas dissipando-as com a sua luz ofuscante, o cuidado era de
que, primeiro, os discípulos não fossem pegos de surpresa e soubessem o que
haveria de lhes acontecer. No caso de Judas, o alerta referia-se ao cuidado e
zelo para com aqueles que adentravam a igreja com o nítido desejo (ainda
que dissimulado, velado), de destruí-la; pois, se antes a guerra era no mundo,
com aqueles que odiavam e queriam destruir a igreja com suas perseguições,
prisões, execuções, mentiras e infâmias, agora o combate ganhava um novo
espaço. Precisamente, ocorria dentro da igreja, não mais por aqueles que
odiavam o Corpo de Cristo, mas por aqueles que se fingiam, e diziam, ser um
dos seus integrantes, afirmando amá-lo, mas querendo transtornar-lhe os
sentidos, num regresso ao mundo perdido, à consciência perdida e distante de
Deus. Não queriam outra coisa a não ser extinguir a chama do Espírito, fazer
os cristãos voltarem ao que eram, às práticas abomináveis do paganismo,
subvertendo a ordem interior em direção ao caos moral, ético, abdicando dos
direitos recebidos por Cristo e sua pregação, negando os deveres igualmente
recebidos. Se, por um lado, havia uma excessiva espiritualização deflagrada
pelo gnosticismo e um afrouxamento do caráter, por outro lado, exigia-se o
cumprimento legal de práticas antigas e abolidas pelo Senhor, o farisaísmo,
como sombras dissipadas pela luz. Em meio a esse redemoinho de ideias e
propósitos, encontramos a igreja no centro das ações, sendo alvejada por
todos os lados.

Se antes os atos maléficos eram facilmente identificáveis através dos


algozes e a face do inimigo podia ser vista com nitidez, em sua provocação e
crueldade explícitas, nesse momento, as heresias e apostasias eram sutilmente
plantadas, com ares de piedade e até mesmo de serviço a Deus. No entanto,
os inimigos de Cristo negavam a eficácia da Palavra[46], porque nunca
poderiam chegar ao conhecimento da verdade, posto viverem em corrupção
de entendimento, reprovados quanto à fé, e no intuito de desestabilizar o
rebanho, dispersam-no, para destruí-lo mais rapidamente (2Tm 3.5,7,8).

O inimigo, que anteriormente não se camuflava, mas fazia questão de


mostrar os seus verdadeiros intentos, agora estava disfarçado de ovelha,
introduzira-se entre os santos, dissimulando os seus infames
empreendimentos com o fim de afastá-los do único capaz de protegê-los, o
Bom Pastor (Jo 10). Se antes a batalha era no campo do inimigo, agora ela se
dava dentro da igreja. Se antes era exterior, agora era interior. Por isso o autor
falou de homens ímpios que converteram em dissolução a graça de Deus,
negando-o. Ora, subentende-se que aquele que anula a graça divina nega a
Deus, pois não é possível reverenciá-lo negando a sua eficácia. De outra
forma, se tomarmos a expressão “Graça” por evangelho, não é possível ao
homem que despreza, transtorna e corrompe a palavra de Deus tornar-se um
adorador ou súdito. Se existe desprezo à doutrina revelada especialmente, não
há de se reconhecer o seu autor. O que muitos desavisados fazem é validar
uma suposta fé verbalizada, a fim de camuflar a rebeldia e desprezo aos
mandamentos e preceitos divinos.

Como também nos foi dito pelo Senhor:

“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de
mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de
homens” (Mt 15.8-9).

E ainda, outra vez:

“Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos” (Jo 14.15).

Então, como posso negar as leis e não negar o seu autor? Como se pode
afirmar o amor a Deus, rejeitando a sua palavra, e pretender cumpri-la? É
possível descumprir os preceitos e honrar o seu criador?... Subsiste uma
tentativa sutil de legitimar a mentira e a impostura, dizendo-se honrar aquele
que as proíbe e odeia.

Talvez, por isso, haja cada vez mais uma difusão da ideia de o crente não
precisar da sã doutrina, de ela ser coisa de homens, bastando um espírito
amoroso para se estar ligado a Deus (sendo o amor aqui o salvo-conduto para
o desleixo, a indolência, a inépcia, o engano, a dissolução, o pecado, a
heresia). Como nunca, tem-se intensificado o espírito na igreja de que os
sentimentos e emoções são o norte pelo qual o crente deve se guiar, numa
inversão de princípios absurda, na qual sinceridade e verdade se tornaram
sinônimas. Quase nenhuma doutrina deve ser defendida e, quando muito,
cabe a cada um saber em qual aspecto ela lhe é interessante ou não, deve ser
descartada ou não, sempre moldada ao apelo ou desejo pessoal; em uma
equação proporcional na qual, diminuindo o fervor e o estudo da Bíblia,
aumenta-se o número de crentes fracos, inseguros, supersticiosos, moldados
segundo os seus desejos e se tornando presas fáceis para as astúcias malignas.
Quando a igreja despreza uma ordem direta do Senhor de que o evangelho
deve ser proclamado e ensinado, fazendo-se discípulos (Mt 28.18-20), a
proximidade com o mundo será mais intensa e menos distinguível.

Por outro lado, há aqueles que, alcançando a liderança, sutilmente


corrompem o evangelho, substituindo a exposição da palavra, o louvor
verdadeiro, a reverência e temor necessários pela efusiva apelação a métodos
estranhos e danosos, numa overdose de frases, músicas e ensinos com o
nítido objetivo de afagar o ego, relativizar a realidade, dissuadir a consciência
da verdade, mantendo o homem em estado de resignação, na quase satisfação
(se fosse possível) quanto à sua condição pecaminosa e inimizade com Deus.
Esta, em linhas gerais, é a grande capacidade da heresia de se reformular e se
aproximar da verdade, fazendo com que as diferenças pareçam insignificantes
– no fundo, tornam-se a mesma coisa, aos olhos ansiosos pela sedução –,
acompanhada de um compêndio de justificativas insanas e perigosas,
tornando-as ainda mais diabólicas. Se antes havia a doutrina bíblica, agora
não existe mais, e o que não era doutrina bíblica transforma-se na própria
maldade pelas bocas de seus defensores; acreditando ser possível redefinir as
palavras do Senhor:

“Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz
frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar
frutos bons” (Mt 7.17-18).

Nesta linha de raciocínio, seriam capazes de pular da Torre Eiffel em pelo


e sair voando como pássaros. Porém, se apenas os morcegos, aves e insetos
têm o dom natural de voar, é crível uma árvore má dar bons frutos? Pelo
contrário, ela será cortada e lançada no fogo (Mt 7.19); porque é impossível,
sem conversão, que o homem natural dê “frutos de justiça, que são por Jesus
Cristo, para glória e louvor de Deus” (Fp 1.11).

Não contente em ter o inferno, querem dividi-lo com o máximo de


pessoas disponíveis e, num “jogo de cartas marcadas”, onde o blefe, a
imitação, é a tônica das suas ações, promovem as obras da carne, em evidente
intenção de iludir para enganar, as quais são:

“Adultério, fornicação, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria,


inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas,
homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das
quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas
não herdarão o reino de Deus” (Gl 5.19-21).

Esquecem-se, porém, de que, “tudo o que o homem semear, isso também


ceifará” (Gl 6.7). Creem plantar para outros a condenação, mas acabam por
plantá-la a si mesmos, havendo uma difusão da cegueira tal que, tateando em
trevas, estão certos de não exporem a própria escuridão.

Assim, com o objetivo de combater a verdade, incitam, pregam e vivem a


mentira, enquanto a verdade é desprezada, tornando-a antiquada e irrelevante.
Infelizmente, esses falsos mestres penetram nas igrejas como crentes
estabelecidos, autoridades, que, via de regra, são reconhecidas pelos seus
feitos e ganham a atenção especial da comunidade cristã, de modo que seus
ensinos espalham-se como erva daninha, alastrando os seus sistemas de
heresias, através de uma rede de deslumbrados, estultos ou crédulos,
empenhados em propagandear os objetivos importunos, nocivos e
artificiosos, traindo a boa-fé e ingenuidade irrefletida da igreja, que tem como
aliada inestimável a ignorância das Escrituras.

Sutilmente a heresia contamina-as, pouco a pouco, tornando-a popular


exatamente por ser “quase” a verdade e se amoldar perfidamente à natureza
caída do homem (um misto de arrogância e autossuficiência capaz de
implodir definitivamente a “imago dei” existente). O homem, por sua vez, é
incapaz de vê-la, e mesmo os que a veem, por sua perspicácia, acabam por
considerá-la inofensiva ou uma verdade recriada, uma espécie de
“Frankenstein teológico”[47].

Para eles, existe a verdade sem Deus ou Deus sem a verdade; mas a
verdade sem Deus não existe, nem Deus sem a verdade, porque a primeira
não passa de abstração, a loucura máxima a que o homem pode atingir,
enquanto a segunda é a blasfêmia em sua forma mais virulenta, a treva mais
densa na qual o homem pode penetrar; porque a verdade, para ser real e não
uma fantasia leviana, tem de provir de Deus, o qual é a única verdade (Jo
14.6).

Para eles, a verdade não precisa ser defendida nem proclamada, mas
escondida a sete chaves como um tesouro secreto do qual não se sabe o
esconderijo nem se tem o mapa. Outros alegam o fato de ela ser dependente
do veículo que a professa, ou seja, ela não existe em si mesma, mas a partir
da concepção e interpretação das pessoas, podendo um mesmo fato ser
verdadeiro para mim e falso para alguém ao meu lado. Porém, por que devo
aceitar essa concepção, rendendo-me ao argumento do seu promotor, se, em
favor de si mesma, ela não pode alegar nenhuma autenticidade, nenhuma
razoabilidade? De que seja verdadeira? Se não existe a verdade e tudo pode
ser moldado à minha intuição, como posso garantir que sou o que sou?
Mesmo sendo um demente, considerando-me um cão ou uma palmeira, a
despeito da minha incapacidade de reconhecer-me, ainda continuarei sendo o
mesmo homem, vivendo o delírio de ser um animal irracional ou vegetal.
Nada, a despeito dos meus esforços, me fará tornar-me qualquer um deles e
aos olhos de todos continuarei pertencendo à espécie humana. Não há
convenções que alterem isso, a menos que estejam desfocadas da realidade,
contaminadas pelo próprio vício de não desejarem ser o que são.

Torna-se compreensível a insistência moderna na relativização de tudo,


pois, assim, pode-se viver com mais intensidade aquilo que se é e tenta-se
negar: uma alma em profundo estado de agonia, de aniquilamento.

Há uma aglutinação de forças empenhadas em mistificar, alegorizar,


relativizando ou colocando certas passagens na categoria de ficção ou
fantasia, para justificarem a própria rebeldia. Para isso, muitas vezes apelam
para a polidez, para a razão, ludibriando o interlocutor e escondendo a sua
intransigência, irracionalidade e descaramento, numa perseguição insistente
com a finalidade de destruir a fé, trazendo para o seu círculo mais e mais
filhos do diabo. Mas, graças a Deus por nos dar a sua revelação, a Bíblia, a
qual é:

“Divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para


corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e
perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2Tm 3.16-17).

Para eles, a igreja não precisa da verdade. Como Paulo diz, eles não
suportarão a sã doutrina:

“Mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores


conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da
verdade, voltando às fábulas” (2Tm 4.3-4).
Para que crer na verdade? Se pelo humanismo é possível acomodar o
homem no redil das incertezas, incitá-lo ao pecado, à apostasia e ao
nominalismo religioso?

Para eles o que importa é a aparência, a reputação, o sucesso e a covardia


de jamais admitir a cumplicidade com o mal, tolerando-o utilitariamente a
fim de obter seus interesses pessoais, além de permitirem que todo tipo de
heresia substitua os princípios fundamentais da fé. Afastam-se, assim, da
revelação divina (não são precisas todas as heresias; uma ou duas, são o
bastante, e o trabalho sujo estará feito) e da sua santidade prática. Pois o
discurso, por mais eloquente e belo que seja, jamais surtirá os efeitos
verdadeiros da sua pregação, não somente quanto ao ensino equivocado,
vicioso, mas também quanto à sua realização e efeitos, não levando os
perdidos e desgarrados a Deus, nem o glorificando.

Para eles é fundamental abandonar a objetividade da Palavra e uma vida


santa e substituí-las pela subjetividade, o egoísmo, o individualismo, o
sentimentalismo e o hedonismo como filosofias de vida, onde a dissolução e
a falsa liberdade os manterá em prisão, indo “de mal para pior, enganando e
sendo enganados” (2Tm 3.13).

Por quê? E qual a finalidade?

Muitos falsos mestres não se esquivam de reescrever a palavra de Deus


ao bel prazer, sempre com objetivos escusos: enriquecimento, poder, fama,
ou a propagação de um “truque”. Sendo assim, ao diluírem a palavra de Deus
a fim de torná-la aceitável aos descrentes, esses líderes buscam a aprovação
dos homens negando a autoridade bíblica e tornando-a o mais agradável
possível ao mundo. Com isso, rejeita-se toda a verdade colocando-a no rol
dos mitos: Cristo, o Espírito Santo, a expiação vicária, a salvação,
regeneração, santidade, e todo o conjunto de doutrinas cristãs (inclusive a
Eclesiologia), pois a negação de qualquer um deles implicará na recusa
inevitável do próprio Deus.

Em nome da verdade, todo crente deve lutar contra a heresia e a fraude


perpetradas por Satanás e seus discípulos (não digo que todos os erros são
intencionais, por dolo; muitos são apenas culpados de aceitá-los e difundi-
los); porque sempre teremos a segurança pela fé. Como ovelhas, ouvimos a
voz do Bom Pastor, somos conhecidos dele e seguimo-lo, o qual nos dá a
vida eterna, de modo que nunca haveremos de perecer e ninguém nos
arrebatará de suas mãos (Jo 10.27-28). Esta é a mais indubitável e sublime
verdade, da qual muitos duvidam, o que os leva a não querer ouvi-la, recusar-
se a crer nela, com a simples alegação de que é um dogma. Entretanto, pense
um pouco: se são estabelecidos antidogmas para negarem e anularem outros
dogmas, o fato de haver um dogma, por si só, não o coloca na condição de
falso, inventado ou distorcido. Para avaliar sua legitimidade, deve-se
considerar se tem fundamento na palavra, se foi protegido pela Igreja no
decorrer dos séculos e se está em harmonia com o Cânon.

Se não reconhecermos como autoridade a Escritura Sagrada, sendo ela


proveniente do Deus bíblico, qualquer tentativa de negação ou
enfraquecimento do fundamento fará ruir todo o edifício. Em outras palavras,
se Cristo não for o alicerce dessa casa, ela desabará por completo, não
sobrando nada além de escombros, poeira e entulhos nos quais os hereges
dizem-se firmados e estabelecidos.

Somente Cristo pode nos libertar das ruinas, através do Evangelho. Sem
ele, tudo é permitido, mas nada possível; sem ele, a condenação é certamente
a mais pura verdade, a despeito de todas as negativas, suposições, dúvidas e
imposições, em nome da exaltação humana e do rebaixamento divino, de um
liberalismo intoxicado pelo ódio à verdade em detrimento dos princípios da
ortodoxia e ortopraxia cristãs.

A heresia é uma conversão; um trajeto natural e tortuoso, o caminho


inverso pelo qual a igreja trilhará ao se afastar da verdade, ao opor-se ao
Evangelho, desprezando Cristo, o qual revelou-lhe a própria desobediência:

“O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem


mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal, porque da abundância do
seu coração fala a boca. E porque me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis
o que eu digo?” (Lc 6.45-46).

Crer no evangelho, mas não o proclamar; crer em Cristo como Senhor e


Salvador, mas não o obedecer; ver a igreja como uma extensão do mundo,
colocando ambos em pé de igualdade; não se preocupar em dar bons frutos,
nem com a conversão dos ímpios. Se seus pensamentos e ações são norteados
por essas ideias e atitudes, cuidado! Abandone-as de imediato, rejeitando as
mensagens tolas, psicológicas, de autoajuda, despropositadas,
sentimentaloides. Renuncie à ideologia diabólica que o quer preso às
armadilhas deste mundo, proclamando um reino superior quando se está nas
profundezas abissais do inferno, mantendo-se perdido em si mesmo como um
cão cego e epilético a perseguir o próprio rabo. Entregue-se à suave palavra
de Deus e não faça pouco caso da sua consolação. Arrependa-se e ponha fim
aos seus pecados e às suas iniquidades, praticando a justiça (Dn 4.27).

Ouça o alerta: onde os princípios bíblicos encontram-se corrompidos e


demolidos, não sobra mais o que destruir.

Por fim, o autor aponta para algo que provavelmente já acontecia em sua
época, a descrença na divindade de Cristo. Ao afirmar que negam a Deus,
único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo, fica evidente que essa era uma
dúvida posta sem escrúpulos, de maneira atrevida, a fim de solapar as
características distintivas da igreja, pelos inimigos em seu seio.

Então, ele afirma a divindade do Filho, o domínio e o senhorio do Filho,


para que os irmãos, abalados pelas dúvidas e em algum aspecto seduzidos
pela heterodoxia, soubessem que ali estava algo fundamental, a pedra sólida
da fé cristã, a pedra de esquina citada nas Escrituras de que Cristo é Deus,
criador de todas as coisas e mantenedor de todas elas, Senhor de tudo e todos.
Não havia porque duvidar, nem vacilar ou transigir com a maledicência dos
impostores e sabotadores, rebeldes travestidos de servos, por isso, o chamado
à defesa da fé verdadeira, cujo princípio essencial é Cristo, a Segunda Pessoa
da Trindade Santa; logo, o Filho é Deus.

Não entraremos nas várias heresias que tentam justificar a não divindade
de Cristo; esse não é o ponto abordado por Judas. De forma direta e objetiva,
ele alerta a igreja a não cair na perversão de negar a união do Filho com o Pai
e o Espírito em essência, natureza e propósito, na qual a honra e glória
destinadas ao Pai, também são do Filho, como do Espírito, pois os três são
um (Jo 5.7)[48]. Não são três manifestações ou estados de uma única pessoa,
mas três pessoas eternas, inseparáveis, porém distintas, sendo um único Deus.
E a verdade é que, ao tencionarem “criar” um outro Cristo, não se
aperceberam de que, acreditando terem algo, não tinham nada, pois ou Cristo
é o Filho de Deus, sendo o próprio Deus, ou tudo o que imaginam dele, como
um simples homem, mestre ou espírito elevado, se dissipa no ar como éter.

Tendo apenas uma imagem do que a fé pequena, imperfeita e humana


consegue vislumbrar, sem a sublimidade e o selo do Espírito, o qual negam,
esses homens concebem o que desconhecem firmados em nada além de si
mesmos e seus pensamentos. Fazem as deduções possíveis de mentes
limitadas e conhecimento incompleto, as quais relutam obstinadas em
reconhecer a verdade, por ser ela grandiosa e muitíssimo maior do que
apreendem[49]. Contudo, a ideia da “supremacia” da razão é capaz de levar o
homem ao pensamento mais reducionista e falível, ao primarismo de sujeitar
à sua autoridade aquilo que, na verdade, é a autoridade sobre ele. Se for
moldada aos particulares e restritos limites das suas almas, tal autoridade
implicaria na inexistência da própria humanidade, da vida. Por outro lado, a
mente, se submissa e cativa à Cristo, resultará na postura humilde de que não
é ela o princípio e o fim de todas as coisas e de que não existe um tipo de fé
inabalável no homem. Essa postura, mesmo a uma distância infinita, faz com
que esses homens cheguem à conclusão de tudo se resumir ao tempo, e de
que, havendo tempo, todas as coisas serão explicadas em seus mínimos
detalhes.

Para aqueles que negam a Palavra de Deus, não existem os efeitos


noéticos do pecado. Tudo se resolverá, bastando ao homem a persistência
logévola, ou evolução, de modo que ele acredita tenazmente na capacidade
intelectual de levar tudo a cabo, na certeza de ter o conhecimento, o universo,
e os mistérios a um toque dos dedos, como o balançar de uma varinha de
condão. Ao se levarem muito a sério, não têm consciência da tênue linha na
qual se equilibram e de qual queda iminente se avizinha: esta será uma queda
sem volta, de onde não mais sairão, com tempo suficiente para aprenderem,
de si mesmos, o que são, e como desprezaram e negaram aquele que é, e
sempre foi, e será (Hb 13.8).

O problema está na incapacidade de se compreender a dimensão infinita e


eterna de Cristo, e, por conseguinte, da Trindade. Como as bases do
liberalismo e do racionalismo sempre foram os limites da razão humana, e
sendo ela limitada, imperfeita, além de estar sob a égide do pecado, torna-se
muito fácil expurgar a verdade da Bíblia, bastando para isso falseá-la com
ares de intelectualidade e academicismo; contudo, não disse o Senhor?
“Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas
coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai,
porque assim te aprouve” (Mt 11.25-26)

Independente da forma ou maneira como a mentira e a heresia


arianista[50] penetrou naqueles tempos, subsistindo ainda hoje, para a
desgraça e perdição de quem nela põe a sua fé, devemos rejeitá-la
prontamente, como algo maligno e do qual devemos nos afastar, evitando a
sua propagação e defesa entre os irmãos, pois esse foi o erro da igreja no
passado: acolher, e conviver, passivamente os hereges. O próprio Ário,
depois de sucessivamente condenado por suas blasfêmias, acabou sendo
reabilitado por Constantino, a despeito da recusa com veemência de
Atanásio, bispo de Alexandria, o qual se recusou a aceitá-lo na igreja, sem
que se arrependesse. Entretanto, parte da igreja acabou sendo tolerante com
ele e seus seguidores, havendo uma expansão da sua heresia, presente, na
atualidade, em muitas igrejas ditas cristãs, como, por exemplo, os
Testemunhas de Jeová, e outros grupos unitaristas (um movimento crescente
entre os pentecostais também).

Que nos sirva de lição a contemporização com o mal e a indigência


espiritual, para não nos entregarmos à indolência, mas sermos vigilantes,
verdadeiros soldados do exército do Senhor!
Mais do que uma predestinação vislumbrada

Outro fato relevante e que pode passar desapercebido diante do objetivo


principal da exortação de Judas é que, após relatar que se introduziram
alguns, ele escreve “que já antes estavam escritos para este mesmo juízo,
homens ímpios”.

Mas, por que escreveu isto? Com qual objetivo? Este trecho não parece
deslocar-se do restante do verso, como algo a acrescentar pouco ou nada?

É inevitável observar que, para Deus, é impossível algo acontecer sem o


seu consentimento, sem a sua vontade estar manifesta. Ele não pode ser pego
de surpresa ou desprevenidamente por qualquer evento, sem saber, sem
antevê-lo e preordená-lo. Não estou a defender a ideia de o Criador apenas
vislumbrar, ver ao longe todos os fatos e processos históricos para, somente
então, decretá-los ou predestiná-los, como é a visão da maioria dos cristãos.
Deus não é assim, contra-atacando ou reagindo a uma ação prévia. Antes, ele
é a causa primeira e última de todas as coisas, aquele pelo qual tudo se realiza
ou, então, nada viria a se conceber. Ele não é um espectador, assistindo ao
desenrolar cronológico com passividade, deixando que os personagens da
história (toda a criação) agissem e interagissem como bem entendessem[51].
Não; porque dois dos seus atributos são a soberania e o todo-poder de ser o
agente da história, o seu construtor, motivado exclusivamente pela sua
vontade, além dos demais atributos, os quais se comunicam de forma
inseparável em seu ser: a união de toda a sabedoria, toda a santidade, todo o
amor e tudo o mais a constituir o caráter divino.

Deus não vislumbra os acontecimentos como se algo houvesse lhe


escapado ao controle, realizando-se à sua revelia, onde os fatos estariam à
margem da sua vontade e poder, envolvendo-o caoticamente, como um
bombeiro sem água diante de um incêndio. Sim, para muitos, Deus é um
bombeiro a apagar os incêndios surgidos à sua revelia, como consequência
natural da omissão ou incapacidade de guiar, de prover todas as coisas. Ao
mesmo tempo que se apela para a sua completa soberania, defende-se
também o fato de Deus “abrir mão” de alguns atributos a fim de favorecer a
autonomia da vontade humana, o que é costumeiramente confundido com o
famigerado e pouco compreendido “livre-arbítrio”. Do ponto de vista do
senso comum, o livre-arbítrio é sinônimo de escolha ou volição, quando do
ponto de vista metafísico ele antecederia essas etapas, caso existisse. Não há,
ao meu ver, como equiparar o livre-arbítrio e a volição, pois enquanto aquele
significa neutralidade ou um caráter isento de influências, esta somente surge
a partir de um conjunto de elementos norteadores.

Talvez, na raça humana, caso alguém tenha tido o livre-arbítrio, esse


alguém seria Adão. Entretanto, mesmo ele não esteve debaixo da isenção ou
neutralidade da vontade, posto estar sob o foco de duas coações ou
influências: a divina, que lhe deu a lei ou norma de não comer do fruto da
árvore do bem e do mal; e, por fim, a da serpente, que com a sua astúcia
convenceu-o à desobediência. Sem as influências, sejam interiores ou
exteriores, teríamos uma pessoa sob a égide do livre-arbítrio, que, no entanto,
não poderia fazer qualquer tipo de escolha, exatamente por estar sob o estado
de neutralidade, de indiferença a incapacitar-lhe qualquer decisão. Isso me
leva a crer que nem mesmo Adão deteve o livre-arbítrio, posto que a sua
vontade estava sempre sob algum tipo de influxo ou estímulo, a divina, a
diabólica ou a natureza pecaminosa.

Após a Queda, tudo se complicou ainda mais, pois estamos, desde o


nascedouro, sob o domínio constante do pecado, de maneira que tanto o
intelecto, como os sentidos e o caráter do homem encontram-se contaminados
e corrompidos. O que muitos defendem é o fato de esse homem, imperfeito e
tolo, estar na direção da história, de tal maneira que ele pode resistir, transigir
e anular a vontade divina. Haverá um malabarismo semântico e filosófico
para respaldar essa ideia estranha às Escrituras: a de o governo divino estar
debaixo da autoridade humana, a ponto de, enquanto o homem é o
incendiário, Deus não passar de um bombeiro ou salva-vidas. Não cabe, neste
ponto, uma discussão ou exposição mais minuciosa sobre o assunto, porém
muitos dos desvios da igreja e a perda da sua identidade com Cristo se devem
ao ensimesmamento do homem, que tem de alcançar o status de
independência até mesmo de Deus.

Esta visão faz o Senhor parecer inepto, omisso ou desinteressado,


negligente ou incapaz de cuidar de toda a sua obra, quando nos mínimos e
mais insignificantes detalhes tudo está sujeito à sua ordem, à sua vontade
soberana, e nem a menor partícula do universo surge, se desenvolve e age por
algum princípio de autonomia. Antes, sustenta-se pelo poder daquele que
tudo criou e pelo qual tudo subsiste (Hb 1.3). Como está escrito:

“E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma: temei
antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo. Não se
vendem dois passarinhos por um ceitil? E nenhum deles cairá em terra sem a
vontade de vosso Pai.” (Mt 10.28-29)

Ora, se nem um passarinho, por menor que seja, cai sem se manifestar de
forma objetiva e direta a vontade divina, podemos dizer o mesmo daqueles
homens iníquos a invadirem a igreja primitiva, intentando destruí-la? Estaria
o Senhor agindo descuidada e levianamente? A ponto de ver frustrado o seu
plano? Quanto a isso, o autor nega com vigor e veemência, pois eles haviam
sido antes escritos para esse fim.

Mas qual seria esse fim?

Judas usa a expressão “juízo”, designando uma sentença, uma


condenação, punição. Aqueles homens, antes determinados ou escolhidos
para adentrarem a igreja e praticarem suas impiedades, também foram feitos
réus antes mesmo de nascerem, antes de praticarem o mal inevitavelmente
desejado. Na mente divina, há um nítido objetivo para estarem ali, ou um
leque de objetivos a fim de cumprirem um propósito específico. Poderia citar,
por exemplo, a finalidade de purificar, amadurecer e fortalecer a igreja contra
combates ainda piores a serem enfrentados no futuro. O certo é haver Deus
escolhido aqueles homens maus para fazerem uma determinada obra na
igreja, com um fim definido, e, por terem-no realizado, seriam
irremediavelmente condenados.

O verso ressalta a soberania divina e o seu caráter cuidadoso para com a


igreja, mesmo trazendo sobre ela lutas e sofrimentos, algo que não podemos
aquilatar em detalhes por causa da nossa pequenez e incapacidade de alcançar
perfeitamente a mente de Deus (como pode a mente limitada, imperfeita e
pecaminosa do homem compreender totalmente a mente infinita, perfeita e
santa do Senhor?). Podemos, contudo, aceitá-la como verdadeira, visto ser
um dos pontos mais relatados nas Escrituras, revelando-nos um Senhor
definido, necessário e de deliberada resolução; o Deus a mover todas as
coisas para um fim, as quais não acontecem pela aleatoriedade ou
casualidade, mas pela sua determinação ou conselho. Em outras palavras, o
autor está a falar-nos de uma doutrina estigmatizada e demonizada pela maior
parte da igreja na atualidade, a doutrina da predestinação. Deus predestinou a
igreja a passar por essas provações, assim como predestinou aqueles homens
iníquos para afligirem-na.

Considero por bem ressaltar, mais uma vez, este ponto: a ação divina não
é passiva. Não é como se Deus visse que o homem se salvaria, se santificaria,
se esforçaria em entrar no Reino, o aceitaria e, então, somente então, Deus o
predestinaria e elegeria. Que eleição é essa onde o eleito é quem se
autopredestina? Onde o escolhido se escolhe e impõe a sua escolha por seus
próprios méritos para aquele que o predestinou? O que vem primeiro: a
predestinação ou o esforço do eleito em satisfazê-la e, por fim, vir a ser
predestinado? Seria o mesmo que dizer: alguém se afogou antes de entrar na
água.

A predestinação, por mais que se queira distorcer o seu sentido, tem


somente uma definição:

Predestinar - (latim praedestino, -are)[52]

1. Eleger desde a eternidade (ex.: afirmou que Deus predestina os


justos).

2. Destinar para grandes coisas ou para determinado fim. = eleger

3. Destinar com antecedência

Predestinar é a atitude de destinar com antecedência, decidindo


previamente, e não o ato de antever o que irá acontecer e então determinar
que aconteça. Fica a pergunta: quem garantiu que o evento aconteceria?
Deus? O homem? O acaso? Forças impessoais? Ou a cooperação mútua
dessas forças?

Seguindo essa lógica, se Deus viu o que iria acontecer como algo certo,
uma vez que o previu, por que o determinaria, já que o fato é, em si mesmo,
exequível e não dependeu da sua vontade ou decisão para ser observado?
Nesse caso, Deus seria apenas um oráculo, o qual somente vislumbraria o
acontecido, sem nenhum controle sobre ele. Pelo contrário, o fato previsto
seria soberanamente livre, impedindo Deus de agir para mudá-lo, ainda que
não fosse de seu agrado. Isso não levaria à conclusão de que esse “Deus”
antes de ser pessoal é um “Deus” impessoal? E a predestinação, assim como
a eleição, não passaria de uma piada sem graça, um chiste, que tornaria esse
“Deus” uma mera testemunha a endossar forçosamente até mesmo o que lhe
contrariaria? De forma que a sua soberania seria duvidosa, e tudo, desde a
Criação, teria de ter outra explicação. Tudo, na verdade, não poderia vir da
vontade desse “Deus”, mas de outra força, pois o que ele faz é consentir que
cada evento ocorra como vislumbrado; assim, a sua vontade seria adequada a
cada evento, de tal forma que eles permaneceriam imutáveis. A vontade dele
se subordinaria à inexorável realização do ato antevisto, o que levaria à
quebra de outro atributo divino: a imutabilidade, já que os fatos, em si,
seriam imutáveis e Deus condicionaria ou flexibilizaria o seu governo
segundo a realidade soberana da vontade humana. Esta seria a mesma
vontade que dirigiria a história e levaria Deus apenas a validá-la, a endossá-
la, como uma posse indevida de algo que não lhe pertencesse intrinsicamente,
algo que pareceria seu e refletiria uma autoridade derivada.

Por todos os lados, o que temos aqui não é o Deus bíblico, mas alguém
impotente, escravo da visão; um “Deus” transitivo quando a revelação nos
apresenta o Deus intransitivo, completo e perfeito em si mesmo. Sem contar
o elemento “tempo”, no qual ele estaria preso ou condicionado.[53]

Porém, alguém pode questionar: Por que Judas tocaria nesse ponto
doutrinário sendo que o objetivo da sua carta é exortar a igreja a cuidar-se, a
defender-se do ataque dos inimigos e falsos mestres?

Sendo a predestinação uma doutrina rejeitada pelo que podemos chamar


de “igreja moderna ou humanista” (ainda que seus postulados sejam
bíblicos), quis chamar um pouco mais de atenção ao fato do autor citá-la,
mesmo brevemente[54], já que não há, nas Escrituras Sagradas, nada
irrelevante, despropositado ou supérfluo, que seja escrito e não deva ser
examinado com a devida atenção. Trata-se do resumo da vontade divina
expressa e entregue aos homens para o conhecimento e a oportunidade de sair
da ignorância e trevas interiores e assemelhar-se ao homem perfeito, Cristo, o
fim ao qual Deus destinará todo o seu povo.

Como já foi dito, não há uma asserção, neste verso, de um trecho


deslocado ou desprendido do cerne da ideia, mas uma unidade e
complementação a todo o conjunto da epístola, tornando-a harmoniosa em
seu conteúdo, sem que haja discrepância ou excesso. Logo, por que Judas nos
fala daqueles homens ímpios, predestinados para o juízo, em meio ao alerta à
igreja? Porque ele não quer deixar dúvidas quanto ao cuidado de Deus para
com o seu povo, algo que sempre fez e continuará fazendo pelos séculos, nem
quanto ao fato de o seu zelo para com a igreja ser consequência do extremado
amor, diligente e fiel em preservá-la e sustenta-la. Nem mesmo as
tribulações, sofrimentos e angústia perpetrados pelos inimigos serão entrave
para a sua consagrada direção. A Igreja não está alheia ao seu desvelo, nem
desfocada em seu propósito, no qual nada é ocasional ou fortuito. Nenhum
evento pelo qual o corpo de Cristo será acometido é desconhecido da sua
vontade, pelo contrário, todos fazem parte da sua vontade. Por ela existem e
por ela sobrevêm ou morrem.

A igreja não será abandonada, aconteça o que acontecer! Deus não a


despreza nem rejeita, antes a edifica, fortalece, sustenta, santifica, para que
seja semelhante ao seu Filho Amado, permanecendo na fé e capacitada a
realizar a obra que lhe foi destinada, obra exclusiva, somente realizável por
ela, capaz de produzir os frutos necessários para a glória do Senhor.

Judas não é um “abelhudo” a se intrometer indevidamente nas coisas de


Deus; porém, para a sua glória e confiança da igreja, ressalta que as
investidas dos lobos entre as ovelhas não são algo que Deus trabalhará
contingentemente, como em um estado de emergência, assim como um
bombeiro tenta apagar um incêndio[55], mas são e serão trabalhadas
previdentemente, no sentido de ter se estabelecido pela sua autoridade, pela
sua sabedoria e poder, segundo a sua vontade ativa e eficaz, para que os seus
perfeitos e santos propósitos tornem-se realidade e ingressem na história.

A vontade de Deus não é permissiva, como insistem alguns, supondo que


Deus “permite” quase como se não pudesse impedir o ocorrido, como se o
fato fosse maior do que ele. Ainda que as ações sejam realizadas pelos
homens, em conformidade com as suas vontades[56], seja para o bem ou mal,
seja ligada a Deus ou ao diabo, nenhuma delas aconteceria se, antes da
fundação do mundo, o Senhor não as deliberasse segundo o seu plano ou
decreto eterno[57] de fazê-las surgir do nada, levando-as à existência. Por isso,
Deus lançou mesmo aqueles homens malditos (assim como muitos dos seus
pares encontrados atualmente, no seio da igreja) na Igreja para provarem-na,
ao passo que nos preservou da morte advinda dos lábios, pensamentos e
atitudes dos infiéis. Eles queriam a ruína da igreja, transformando-a em outra
coisa, muito distante do que sempre foi, mas o Senhor capacitou-os a resistir,
assim como Elias e sete mil homens não se curvaram a Baal, nem seus lábios
o beijaram, durante o reinado de Acabe e Jezabel (1Rs 19.18). Também ele
mantém, em todas as épocas, seus homens, mulheres e crianças fiéis a Cristo,
independente do avanço ou não da iniquidade e de os homens cruéis
proliferarem no mundo, como prova do seu amor e esmero infinitos para com
o seu povo, sempre!
PARTE QUATRO

A SEMENTE DA DISTRAÇÃO

"Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que,

havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito,

destruiu depois os que não creram; e aos anjos que não guardaram o seu
principado,

mas deixaram a sua própria habitação,

reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande


dia;
assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que,

havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne,

foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno."


A Centralidade da Igreja: Cristo

O que o autor relata nestes versos? Qual o ponto principal ao qual chama a
atenção? Ele nos lembra de fatos que aconteceram no passado e dos quais não
devemos esquecer. Quais? Você, caro leitor, pode citar dois dos mais
importantes, entre tantos? Darei um minuto para pensar...

Antes de dar a sua resposta, gostaria de fazer uma ressalva: Judas diz, no
verso 5, que a igreja deve se lembrar de algo e, com isso, ele não está dizendo
que proferirá novidade, como muitos parecem querer em nossas igrejas
ultimamente. As pessoas estão em constante busca pelo inesperado, pelo
desconhecido, sem o qual a vida parece não ter sentido; em que o curso
natural ou regular das coisas tem de ser quebrado, interrompido, a favor de
algo muitas vezes letal e destrutivo. Essa visão “meio hedonista” (e suicida,
em si mesma) de ligar novidade ao prazer, faz com as pessoas não tenham
gozo nem alegria em ouvir o evangelho se ele não tiver algo a motivá-las, a
mudar o curso regular da fé cristã (utilizando-se de parafernálias a alterar o
seu sentido real tornando-a algo insólito, artificial e antagônico), de modo a
deixa-las em um “clímax” ou surpreendê-las. Na verdade, não o ouvem
porque ele não é pregado, em boa parte dos púlpitos, e o que fica é apenas a
sensação de bem-estar, de conforto momentâneo diante de mais um
entretenimento exibido com o objetivo de distrair e manter a assistência
acomodada ao pecado, à inimizade com Deus, à rebeldia, conservando
intocado o estado de guerra entre o Bem e o Mal, e, assim, se acomodando
devidamente às fileiras malignas.

É o que acontece nos cultos onde a assistência, em sua maioria, está


sempre esperando o desconhecido, o exótico ou incomum, seja no louvor, na
prática ou em qualquer outro momento, para sentir-se bem; numa espécie de
sessão psicológica pública, na qual a assistência está disposta a encarar
qualquer evento a fim de soltar-se, extravasar-se, um desabafar dos sentidos,
algo exigido até mesmo dos mais introspectivos. É a chamada “catarse
coletiva”, onde o frequentador da igreja busca, em algum sentido, libertação
dos problemas, de si mesmo, da vida. Tudo isso contraria o Cristianismo
bíblico, o qual defende exatamente o oposto, de que somente haverá
liberdade para o homem se ele se entregar por completo a Cristo, entender-se
a si como pecador, carente e necessitado da graça; desejar, então, servi-lo e
adorá-lo segundo a sua vontade, abdicando daquilo que sempre buscou: a
independência de Deus.

Em boa parte das celebrações cristãs temos o estímulo à busca do próprio


“eu”, de lançar para fora as emoções contidas e omitidas, um tipo de
liberação interior dos sentimentos bloqueadas. Isso é psicologia barata, de
botequim, ainda que, porventura, funcione e arraste multidões; mas não é o
evangelho, nem o culto a Deus. Enquanto se provoca uma resposta
comportamental, as pessoas continuam as mesmas, sem conversão, sem
redenção, sem esperança além da autossatisfação. Muito menos se alcança a
verdadeira reflexão e o verdadeiro autoconhecimento, necessário para a
compreensão exata da realidade pessoal e divina, transcendendo a simples
liberação de energia e emoções. Ao contrário da afirmação de que o homem é
o que é, da impossibilidade de escapar da sua própria natureza, a qual deve
ser aceita e reconhecida, o culto cristão sempre se voltou para a
transformação, seja do homem carnal em espiritual, seja do pecador em santo,
do condenado em absolvido, do escravo em liberto, do leviano em
responsável. Entretanto, nada disso acontece se não houver morte, e não falo
tão somente do sacrifício de Cristo, mas da morte definitiva do “eu”, o
mesmo que tentam ressuscitar a todo custo, e que deve ser sepultado
irremediavelmente para que a vida surja, em definitivo.

Não se trata de uma liberdade na qual o homem deve esquecer-se de si


mesmo por um instante, enquanto grita, chora, esperneia, ri, se sacode como
um epilético, sendo um mero fôlego instantâneo, como o do náufrago, em
meio a ondas altas e violentas, um pouco antes de se afogar em definitivo.
Entretanto, a verdadeira liberdade está em obedecer e servir a Cristo,
entregando-se a ele como escravo, e sendo tratado como filho amado, querido
e abençoado, e não como um macaco de auditório ou circo.

Por isso, há uma necessidade desse tipo de igreja, de estar sempre


agradando a assistência, em constante “movimento”, substituindo o real pelo
irreal, o certo pelo errado, o verdadeiro pelo falso, seja na absorção de
modalidades seculares (teatro, danças, shows, variedades, etc.), nos
modismos próprios da época ou no apego as tradições pagãs e anticristãs.
Desse modo, está lançada a semente da distração, onde se aglutinam práticas
e atividades com o intuito de dispersar ao invés de unir, levando cada um a
acreditar na possibilidade de um “cristianismo self-service”, onde a forma de
adoração, culto e relacionamento com Deus é estabelecida não por ele, mas
pelo homem. É como se, investido de uma autoridade súbita, ele passasse a
decidir as particularidades do culto a Deus, superior ao próprio Deus,
utilizando-se do conceito falacioso dele se agradar com tudo e todos,
bastando originar-se do coração ou da sinceridade, o suficiente para satisfazê-
lo[58].

Um grande número de tragédias e equívocos é oriundo da sinceridade,


como as guerras e governos que levaram milhares, senão milhões, à morte e
sofrimento, por exemplo. Porém, se fossem realmente sinceros, entenderiam
que todo o arsenal de “relevâncias” lançado na igreja tem por objetivo exaltar
o homem e glorificá-lo, quando dizem fazê-lo a Deus. Entre outras coisas,
são mentirosos e pérfidos, mais especialmente ao arremessarem sobre o
incrédulo a ideia antibíblica de que tudo é possível e válido como forma de
comprazer ao Senhor, não importando se há a sua aprovação explícita, e se a
vontade do crente se contrapõe, em essência, à vontade divina, manifestada
em sua palavra. Ainda que implicitamente (embora haja os que não se
envergonham de proferi-lo), parecem dizer: “Olha, do mesmo jeito que você
se diverte lá fora, pode divertir-se aqui também; não precisa mudar nada; viva
como sempre viveu! Mas venha, porque Deus te ama, do jeito que você é!”.
Ou, ainda, as pessoas são transferidas para um tipo de espetáculo em que as
ações levem à comoção geral, por meio de práticas extintas ao final da era
apostólica: o falar em línguas, as campanhas de milagres, expulsão e
entrevistas com demônios, unções, etc.[59]

Muitos líderes se especializaram no entretenimento, sabem pouco ou nada


da Escritura, e em vez de utilizar o exíguo tempo que dispensam à pregação
com a exposição do evangelho, gastam-no com piadas, causos,
dramatizações, proselitismo ideológico e político, autopromoção e outras
tantas coisas alheias à Bíblia, acabando por torná-la dispensável e
ultrapassada, quando não completamente desconhecida. Há uma busca
incessante das forças inimigas em diluir e, se possível, descaracterizar
completamente o evangelho, fazendo qualquer coisa, por mais bizarra e
grotesca, com o fim de adorná-lo, camuflá-lo, apresentando um produto falso
e diluído, que insistem em auto intitulá-lo como “a palavra de Deus”, estando
tão distantes dela, em seu conteúdo e verdade, que a própria alegação de sê-la
é uma afronta e uma blasfêmia inominável.

Alguns chegam ao cúmulo de apresentarem novas revelações,


contraditórias e inimigas da verdade, como se fosse o Senhor falando hoje, e
desmentindo o dito no passado, pela boca dos verdadeiros profetas. Se
atentarmos para o fato de a maioria das heresias provirem de “novas”
revelações ou profecias, como se Deus pudesse contradizer-se sem passar por
mentiroso e enganador, haveria um cuidado da igreja com tudo aquilo que se
apresenta utilizável e aplicável em nossos dias nos cultos e celebrações com a
chancela eclesial. Tal postura descuidada é abarcada pela amplitude do leque
de possibilidades contido em termos como “contextualização”, “relevância”,
“cultura” ou “adaptação” que viabilizam e legitimam qualquer coisa ou
modernidade na igreja, com a intenção abjeta de angariarem para si uma
legião de néscios, ignorantes, e propagadores do mal, originada pela
desobediência e inovação das normas estabelecidas por Deus, a ajudinha ou
“forcinha” dada pelo homem ao projeto divino, como se fosse coautor,
cogestor da sublime providência, numa pretenciosa ingerência, afirmando a
necessidade de o Senhor ser auxiliado, em sua sabedoria e perfeição, pela
estultice e imperfeição humanas.

Ao apresentarem-se como “novos” profetas (alguns se autointitulam


apóstolos modernos), esses homens, dissimuladamente, intentam colocar no
Senhor a alcunha de mentiroso, néscio ou senil, porque um Deus mutante e
adaptável em nenhuma hipótese é o Deus bíblico, o criador dos céus e terra,
de toda a vida, da história e dos eventos que a compõem, a ponto de que, se
um único fato ou incidente acontecesse alheio à sua vontade, ele não seria
Deus; seria qualquer outra coisa menos Deus. A Bíblia não revela um Deus
inconstante, indeciso e passivo; ao contrário, ela dá provas cabais do Deus
imutável, constante, planejador de tudo quanto existe e ativo em realizá-lo.

A exortação do autor de que não trará um fato novo, mas algo que seria
repetido, posto já lhes ter sido dito várias vezes, e do qual deveriam saber,
jamais esquecer, mostra que o Evangelho, mais do que uma busca desmedida
pelo inusitado, é o firmar-se naquilo estabelecido e ensinado, reiterado, e do
qual o cristão não se deve jamais afastar ou negligenciar, sob pena de faltar
com a verdade. Ao aumentarem as linhas inimigas, na luta insana do ímpio
contra Deus, revelam o quanto as novidades estão dissociadas do velho, puro
e bom evangelho de Cristo.

Alerto os defensores de uma igreja sempre em movimento, no sentido de


ela se adaptar ou acompanhar aos novos tempos, moldando-se à cultura,
costumes, leis, ideologias, cientificismo, ou qualquer outra vertente a anular a
sua autoridade, autoridade investida pelo próprio Deus, de que a igreja deve
se movimentar sempre na direção do evangelho, tendo-o como norte, foco,
fundamento, e deixar de flertar com o inimigo, pois ao fazê-lo estará negando
a sua essência, a sua própria natureza, num nítido caso de suicídio ou
autodestruição. A seu favor alegarão produzirem frutos, tais como a
socialização dos marginais, a educação de crianças, a profissionalização de
jovens, a integração de “excluídos” e o sustento básico dos pobres; contudo,
nada disto é o fundamento do evangelho, não podendo sobrepô-lo nem o
substituir; se amamos e caminhamos na verdade, se tememos, amamos e
ansiamos glorificar a Deus.

Veja bem, o auxílio ao próximo não é algo a ser negligenciado pela


igreja, pelo contrário, faz parte da sua missão amar e cuidar do semelhante,
não porque é a coisa mais importante a se fazer, pois não é; a primeira, e a
origem de todas as outras coisas, é o amor a Deus, seguido pelo amor ao
próximo. Não se pode fazer o segundo sem o primeiro. Muitos grupos
religiosos e não religiosos empenham-se no cuidado e sustento aos menos
favorecidos, sem o menor interesse de servir a Deus, de honrá-lo, obedecê-lo
e glorificá-lo, significando não se tratar de uma vara que produz frutos, mas
infrutífera e pronta a ser cortada e lançada no fogo.

A questão é de mérito, de modo que apelam para o próprio esforço, num


empenho tolo de se auto justificarem diante do Senhor, quando ninguém pode
fazê-lo, quando ninguém pode alegar de si mesmo: sou santo, sou bom, e
mereço o seu reconhecimento![60]. Ah, tolo! Está apenas piorando a sua
condição de réu, aumentando a sua pena ao mentir diante do supremo Juiz,
tentando justificar-se quando a única defesa possível seria clamar por
misericórdia, por perdão, pelos favores conquistados por Cristo, não por algo
ou tudo que diz ter feito e não fez; diz ser merecedor, mas não é; em sua
ignorância (lembre-se de que ela não pode ser usada como desculpa ou salvo-
conduto), apenas cava cada vez mais fundo o seu acesso ao inferno. E ao
acreditar na redenção de si para si mesmo, rejeita a única remissão possível e
factível; despreza os méritos verdadeiros de quem os tem; nega a verdade
bíblica de que a salvação procede apenas de Deus (Jn 2.9); fazendo-se, em
seu íntimo, maior do que ele, ainda que diga mil vezes o contrário, pois seu
coração o engana, suas atitudes o traem, sua incredulidade o condena. Assim
como o Senhor falou acerca dos falsos profetas, aos que diziam terem feito
isso e aquilo, e mais um pouco, em seu nome, será dito, naquele dia:

“Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a


iniquidade.” (Mt 7.23)

Porque não há outro fundamento a não ser Cristo; nem pedra, rocha,
castelo ou fortaleza que não seja Cristo; nem verdade, nem caridade, nem
intentos ou ações piedosas alheias a ele; pois ele é a pedra de esquina, a pedra
rejeitada pelos edificadores (Mt 21.42), e nenhum evangelho que se diga
autêntico pode dispensá-lo; por mais distinto e apreciável que seja, não
passará de embuste, engodo, fraude, como muitos, durante a história,
empenharam-se em defender e propagar na forma de heresias, certificando-se
de gastar, até as últimas forças, o arsenal de contrassensos e blasfêmias,
ideias divergentes daquelas entregues pelos profetas, apóstolos e Cristo,
visando enfraquecer e destruir a Igreja. Sendo o corpo do Senhor, não uma
mera instituição ou organização humana, ainda que muitas pertençam a ele, a
igreja foi encarregada de zelar pela sã doutrina, conduzida pelo Espírito a
ratificar a verdade e negar a mentira, a manter intacto aquilo que nos foi
entregue por Deus, como fonte de sabedoria, santidade e instrução para toda a
boa obra (2Tm 3.16-17).

A caridade é como a cereja do bolo; o bolo não existe por causa dela; o
confeiteiro pode adorná-lo com qualquer outra fruta, morango, framboesa,
maçã, abacaxi, mas a cereja existe por causa do bolo. Assim a caridade (nada
a ver com ações sociais movidas pelo Estado ou organizações paracristãs[61])
existe pelo evangelho, e não o contrário. Qualquer evangelho que se
autodenomine “social” ou receba outra alcunha, seja anátema! Como Paulo,
disse:

“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro
evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já
vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar
outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema... Porque se
estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1.8-
10).

Resta-nos, portanto, não abandonar o ensino uma vez dado pelas mãos de
Cristo e dos apóstolos; ao fazê-lo, incorreremos no mais alto grau de traição,
tal qual os que, ouvindo a verdade, recusam-se a escutá-la, antes produzem
transtornos e equívocos motivados pela negação, intentando plantar em seu
lugar um artifício diabólico e nefasto, com o fim de levar muitos à destruição,
à permanência em um estado de rejeição a Cristo e consequente agravamento
da sua condição condenatória. À medida em que o tempo passa, cada vez
mais se é contaminado pela distração produzida pelo pecado.

Qualquer um a afirmar, em sã consciência, que o importante é Cristo e


não a sua palavra (num antagonismo para lá de bizarro), alcançou o estado de
indigência intelectual e espiritual, ao abraçar uma figura ambígua e irreal[62],
como se os traços na personalidade do Senhor não fossem claramente notados
na sua Palavra; como se o seu ministério fosse despropositado e inenarrável,
e sua obra sem objetivos definidos e duvidosos. Se cada um pode interpretar
a seu modo a pessoa de Cristo, sem atentar ao que falou e ensinou
(diretamente; ou indiretamente pela boca dos profetas e apóstolos), temos um
caso de esquizofrenia entre o autor da palavra, o objeto de ensino e a
interpretação da mensagem.

Se o autor é reconhecido como a fonte do ensino, sendo que este é


evidente e público, de maneira que se manteve intacto mesmo depois de dois
mil anos, a doença está naquele a interpretá-lo com suas próprias lentes e não
com as lentes do Espírito; não distingue entre o real e o imaginário, entre o
verdadeiro e o falso, entre a vida e a morte, entre Deus e o diabo. Afirmar que
este é o estado natural do homem, o qual, como muitas religiões apregoam,
passaria por uma “transição” espiritual dentro de um processo evolutivo, num
arroubo de superioridade inalcançável pelo homem caído, em vez de
amenizá-lo, condena-o definitivamente, fazendo-o réu de si mesmo e o
promotor a dar provas de seus crimes. Logo, dentro do contexto da igreja, a
exceção, acréscimo ou atenuação da sã doutrina resultará na
descaracterização da Bíblia, e a criação de um outro evangelho, espúrio e
maligno em sua imitação da verdade e dissimulação dos efeitos reais e
eternos.

“Quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto”, aponta para
um evangelho simples, mas exaustivo, sem malabarismos ou pirotecnia
linguística e estilística, resultando em aperfeiçoamento, fortalecimento e na
confirmação de que somos verdadeiramente filhos de Deus[63]. A introdução
de novas doutrinas, ou práticas alheias ao estabelecido, implicará em soberba
daqueles que resistem a Deus, o qual os julgará sem misericórdia.

Judas tem em mente lembrar aos irmãos algo ensinado e que, por
arrogância, incúria ou açodamento, perdeu-se, em parte ou no todo, e faz-se
necessário recordar, chamando-os novamente à verdade, ao evangelho, do
qual muitos se afastaram, ao darem crédito a malícia e astúcia, abandonando
a revelação para entregarem-se ao arremedo difundido por Satanás e seus
servos de que a verdade é relativa e pode ser apropriada por cada mente e
coração, segundo melhor lhe parece.

Ele não dirá nada de novo, nada bombástico, nada inusitado, apenas o
bom e velho evangelho de Cristo, pelo qual estamos presos, sendo libertados
da indiferença produzida pelo pecado, para uma glória imorredoura e eterna,
conscientes de que somente pela graça fomos alcançados, resgatados e
despertos para a nossa condição de iníquos e merecedores de condenação,
mas também para a realidade de santos, lavados no sangue de Cristo e
reconciliados com Deus, inocentados pelos méritos do Salvador, e, por ele,
aprazíveis e agradáveis ao Pai.
Incredulidade do Crente

Entretanto, voltemos à pergunta inicial: quais são os dois pontos mais


importantes nos três versos citados?... Você descobriu?

Penso haver pontos iguais, ou até mais importantes, dada a riqueza e


profundidade das Escrituras, do que os apresentados por Judas. Contudo, eles
parecem mais necessários; não somente naquele momento, mas como algo a
jamais ser esquecido e desinteressado pela igreja, em todos os tempos, a fim
de ela se manter espiritualmente forte e santa. Mais uma vez, ressalto que não
havia novidade ou excentricismo nas linhas do autor, apenas o primordial
para o caminhar firme dos santos nos passos de Cristo. Ele estava se
certificando de que ela apreendesse, em definitivo, e de maneira corretiva,
dois fundamentos aparentemente abandonados, o que a levava a não refletir,
na prática, as orientações essenciais e auxiliadoras do evangelho, não
acolhendo o socorro e a esperança indispensáveis, no momento em que sofria
por meio das tribulações e pelo mal que ameaçava enraizar-se em seu seio:

Primeiro, a incredulidade.

Ele recorda que Deus libertou Israel do jugo egípcio, por meio de sinais
maravilhosos como as dez pragas (Ex 7.10-12,38); abriu as águas do Mar
Vermelho a fim de salvá-los e condenar o exército de Faraó (Ex 14.13-22);
deu-lhes a nuvem durante o dia e a coluna de fogo à noite guiando-os no
deserto inóspito e traiçoeiro (Ex 13.21-22); alimentava-os com o maná caído
dos céus todos os dias, sem que eles tivessem qualquer trabalho a não ser
recolhê-lo (Ex 16.4-5), além de tantas outras coisas pelas quais os israelitas
deveriam ser agradecidos e reconhecidos, alegrando-se no cuidado e favores
recebidos do Senhor; a prova do seu amor e graça. Entretanto, em vez de
glorificá-lo e reverenciá-lo pelo amor com que os agraciava, eles
murmuraram e se rebelaram inúmeras vezes, querendo, inclusive, retornar à
escravidão, voltar ao Egito (Nm 14.4), de onde os seus corações pareciam não
ter saído, nem aquelas terras abandonado suas almas miseráveis; levando o
Senhor a sentenciar que nenhum deles, após mais um ato de descrença e
rebeldia em Jericó, veria a terra prometida; todos os que tivessem mais de
vinte anos. Porém, a promessa seria estendida aos filhos deles e a Calebe e
Josué, os únicos entre os adultos a verem-na (Nm 14.26-37; 26.64-65).

Não há como negar o estado de idolatria do povo, o qual, ansioso por


satisfazer os desejos da carne, estava disposto à sujeição e subserviência a um
governo pagão e inimigo, a uma cultura flagrantemente oposta ao senhorio
divino, onde Israel parecia mais adaptada, mais integrada, num típico caso de
submissão psicológica da alma, do agredido ao agressor, a famosa e cada vez
mais frequente, nos tempos modernos, “Síndrome de Estocolmo”[64]. Nesse
aspecto, nota-se o quão desejoso da escravidão está o homem; crendo-se livre
em suas escolhas, entrega-se facilmente aos desejos mais pérfidos em nome
do prazer, de uma mísera regalia, abrindo mão mesmo da verdadeira
liberdade. Pois sim, o homem somente encontra-se livre em Cristo, a
liberdade que o faz soltar-se das amarras do pecado, da morte, para uma vida
santa e verdadeira naquele que se fez servo, por amor, mas é também Senhor,
pelo mesmo amor. Israel, ou boa parte dele, não compreendeu o que estava
em jogo, entregando-se de corpo e alma a um desejo iníquo, onde a sua
vontade estava dominada, gerida, pela ingratidão, e a decisão de satisfazer-se
na flagrante desobediência e afronta a Deus. Não tendo o conhecimento de
Deus, se entregaram ao desejo abjeto de trocar a devida glória a ele em troca
do antepasto egípcio (Rm 1.28). Rejeitando a liberdade recebida, não somente
física, mas espiritual também, ansiavam pela satisfação de um desejo, os
grilhões que os manteriam debaixo da vontade pagã e irremediável servidão a
um senhor ilegítimo. Em outras palavras, o desejo de comerem as delícias
inimigas estava recluso na volta à escravidão; o desejo israelita preso na
vontade egípcia, tal qual a primogenitura de Esaú foi trocada por um prato de
lentilhas (Gn 25.29-34). No fundo, é sempre a mesma coisa, troca-se as
dádivas, os favores, o serviço a Deus, por um ídolo, um impostor a tomar o
coração do homem e sujeita-lo até o ápice da destruição e morte.

Cristo, ao contrário, nos mostrou a necessidade premente de o homem


nutrir-se do verdadeiro alimento, aquele que vem dos céus e do qual ninguém
pode prescindir se quiser manter-se saudável física e espiritualmente (Jo
4.34), ou seja, fazer a vontade de Deus. Ao negar a dieta celestial, eterna,
perfeita e santa, em troca de uma refeição, ainda que suculenta, mas fugaz e
pesarosa (sob os efeitos da idolatria e subserviência), das mãos dos egípcios,
fica evidente o imediatismo, o desejo urgente de satisfazer a carne,
sujeitando-se à sua vontade e entregando-se à esfera de escravidão e
corrupção. Alguém pode dizer que estou a espiritualizar excessivamente uma
questão simples de materialidade, e que faz parte da existência humana.
Ressalto, contudo, que uma coisa é a necessidade natural de o homem comer,
algo imprescindível para a sobrevivência, outra coisa é ele se entregar a ela
como o próprio fundamento da existência. Ora, o homem vive por Deus e
para Deus, não havendo vida, no sentido estrito e fundamental da palavra,
sem ele. Sobreviver não é viver; para mim, é um estado de continuidade ou
de conservação para a morte. Quando esta irremediavelmente acometer o
sobrevivente, então ele não mais sobreviverá. Ainda que a sobrevida se
confunda com a vida, dentro dos parâmetros confusos definidos pelo homem,
do ponto de vista bíblico, a vida não pode jamais ser diluída na sobrevida,
quando esta encontra-se no limiar da morte, e aquela está a uma distância
segura, protegida e inalcançável.

Cristo nos dá a vida além da morte física, nos garantindo a ressurreição


para a existência plena e eterna em comunhão com o seu Espírito, onde a
morte será definitivamente erradicada. Em contrapartida, quando o espírito se
sujeita à vontade colocando valores subalternos como princípios elevados,
esse espírito já está morto e somente pode produzir uma vontade mortífera,
uma extensão de si mesmo a consolidar o estado irremediável de escravidão.
Neste sentido, o espírito projeta no corpo o desejo inerente de servidão a um
impostor, tornando-o um títere, uma projeção do aniquilamento interior; de
forma que o corpo estará sujeito à alma, e esta condicionada ao corpo, num
círculo vicioso onde a condição de aprisionamento parte de uma para a outra,
e vice-versa. Em linhas gerais, o cativeiro está estabelecido; o desejo
pecaminoso são as algemas a prender o homem por inteiro. Ele ainda tenta se
iludir, criando um sofisma de que está no controle da vontade e de que a
prisão não é mais do que o seu ânimo mais íntimo, acreditando estar sob o
poder da sua autonomia, e de que os homens livres, soltos das amarras do
pecado pelo sangue de Cristo, são os verdadeiros prisioneiros. Enquanto ele
se acostuma a arrastar suas correntes em um exíguo espaço, o suficiente para
ferir a si e aos outros até a morte, olha o caminhar distante do crente, em
direção ao Senhor da sua vida, e grita fanfarrão: “Sou livre, independente,
dono do meu nariz!”, brandindo o metal preso aos braços, odiando a
liberdade que não tem, e fazendo de si mesmo um autorrecluso na escuridão
do cárcere imperioso do pecado. Negar a liberdade que não se tem, negar o
forçoso cativeiro, revela a impossibilidade de aquilatar, com eficiência e
sinceridade e em verdade, a liberdade daquele que se entregou
voluntariamente a Cristo, por ele é sustentado e mantido livre, e perscruta dia
a dia o amor pelo qual os liames, as amarras, do pecado o mantinham
enclausurado. Em contrapartida, a idolatria apenas sustém o homem na jaula
do pecado, de onde não pode sair nem se libertar, se o amor e a graça de
Cristo não estiverem sobre ele, e ele não for o alvo dos méritos daquele que é
o único capaz de redimir o pecador.

Acontece ser a idolatria uma consequência natural da incredulidade, onde


esta fomenta aquela ao desviar o espírito do homem do único bem, Deus, na
direção contrária, onde estão os ídolos. Ao distorcer o foco central da
existência humana, a comunhão e o relacionamento com o Deus vivo e
eterno, substituindo-o por formas diversas e corrompidas de culto e adoração
a um impostor, ou impostores, temos os parâmetros ajustados com o Éden e a
Queda, onde a disposição e a inclinação do homem para a farsa, o embuste,
são representados por sua escolha, rejeitando unir-se ao santo e perfeito, e
achegando-se obstinado ao corruptor, o destruidor da sua alma, em um
relacionamento caótico e repugnante consigo mesmo e o mal a habitá-lo.

A convergência de toda a sua doença é a aversão à verdade, o desprezo à


realidade, e o cisma radical do espírito afligido com o Consolador; a alma em
chamas, consumida pelo ódio inflamado contra Deus, o princípio de todo o
movimento antivida, efêmero, mortal, no qual o homem é o gerador da sua
própria destruição, ao esperar na construção do falso conciliar-se com o
legítimo, estabelecendo a negação do divino e, por conseguinte, de si mesmo,
onde a alma não existe à margem do Criador, mas sustenta-se na sua justiça,
na correspondência direta aos delitos consumados.

A descrença produz a idolatria, a manifestação do ódio contra Deus,


acompanhada, porém, de uma tentativa de encontrar, de alguma maneira, o
seu favor, através de uma simpatia, de afetividade, com os ídolos, os
estereótipos. Nessas circunstâncias, o homem ignorando o conhecimento
legítimo de Deus, entrega-se às concepções fundadas na hipocrisia da própria
consciência, na habitual demonstração de uma religiosidade[65] (como
virtude) ausente, quimérica.

Ignorando a beleza, santidade e perfeição do eterno, onde o homem pode,


somente nele, ser agraciado com os seus atributos (aqueles comunicáveis por
Deus), os idólatras curvaram-se à degradação do temporal, no qual a própria
condição humana de arruinar-se faz o seu esconderijo, imune à bondade e
graça, sobrevivendo por suas maquinações ardilosas e diabruras. É a roda
movendo-se sem sair do lugar, onde o homem anseia o belo, o eterno, o
perfeito (mesmo sem conhecê-lo, mas por um anseio natural da alma)
desprezando a essência enquanto satisfaz-se na forma, sem se dar conta de
que nenhuma forma permanece, por mais bela que seja, posto que a essência
é eterna, indo muito além daquilo visto pelos olhos mortais[66].

Paulo também nos chama a atenção quanto a atitude incrédula de Israel:

“Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está
escrito: O povo assentou-se a comer e a beber, e levantou-se para folgar. E
não nos forniquemos, como alguns deles fornicaram; e caíram num dia vinte
e três mil. E não tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram, e
pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como também alguns deles
murmuraram, e pereceram pelo destruidor” (1Co 10.7-10).

E o que vem a ser um incrédulo? Será apenas aquele que não acredita,
não tem fé? Ou será aquele que, mesmo crendo em Deus como Criador e
Todo-poderoso (teísta), não quer se submeter à sua autoridade e recusa-se a
ser governado pela sua palavra? Como alguém pode se dizer crente ou filho
de Deus se despreza seus preceitos e anda segundo a vontade da própria
carne? Esse, ainda que frequente a igreja, participe dos seus trabalhos, e
cumpra as regras exteriores a fim de ser visto como um cristão, buscando
uma glória pessoal, mas interiormente rejeitando o evangelho, é mais do que
um hipócrita, ele é um incrédulo, presunçoso em sua superioridade de que
não precisa submeter-se a Deus, descumprindo a sua vontade.

Em Romanos, Paulo nos diz que os homens:

“Tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus... antes em seus


discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu” (Rm
1.21).

O que temos aqui, e já foi dito, é que o homem rejeita a ideia do Deus
Vivo e Verdadeiro e por isso cria para si outro deus ou deuses, de forma que
o seu estado natural é de desobediência, de rebelião, de pecado. Sua mente e
coração foram obscurecidos, levando-o a cogitar e afirmar insanamente que
não há Deus ou que há muitos deuses, ou ainda que há outro deus; e assim o
conhecimento inato e inerente ao homem é anulado, com o objetivo de não o
glorificar. Não sem razão, a Bíblia chama o homem que vive à margem e à
parte de Deus de ímpio. A palavra “ímpio” origina-se do latim “impius”,
significando que esse homem é herege, incrédulo, que não respeita nem teme
o poder e a autoridade divinos. Certamente o termo pode ser usado por
qualquer religião para designar aquele que não a segue, que não se submete a
determinada fé ou a professa. Mas como o nosso interesse é o bíblico, ela nos
remete àquela pessoa que rejeita, despreza e peca contra o Deus santo, o Deus
bíblico. Todo aquele que tem o seu prazer em si mesmo não busca a Deus,
nem a sua justiça e o seu reino, é um ímpio ou incrédulo, como o salmista
diz:

“Pela altivez do seu rosto o ímpio não busca a Deus; todas as suas
cogitações são que não há Deus” (Sl 10.4).

O ímpio é o ateu prático, aquele a exercitar a sua incredulidade, ainda que


ele creia na existência de um ser supremo e até mesmo o cultue acreditando
fazê-lo em nome de Deus. Para o ímpio, incrédulo ou ateu prático, não há o
Deus bíblico, há múltiplos e diferentes deuses, porém cada um, em si mesmo,
é o reflexo do próprio homem, o que, em suma, configura-se uma
autoidolatria, o adorar-se e ser autoridade sobre si próprio.

A Escritura nos revela uma galeria de ímpios: os que cobiçam, mentem,


roubam e matam, aqueles que maquinam o mal, por exemplo (Pv 6.14). No
entanto, nenhum crime é pior do que o de rejeitar a Deus, desobedecê-lo,
negando a sua palavra. Na verdade, todos os outros crimes, pensados e
praticados, originam-se destes, os quais são o reflexo do afastamento e
negação do homem, da sua recusa em reconhecer que há somente o Deus
bíblico e de que ele é o Senhor ao qual todos devem glorificar e honrar. O
pecado é o causador do afastamento do homem e o apartar-se dele é mantido
pelo mesmo pecado, numa espécie de autoalimentação reversa, onde a
natureza caída se alimenta do próprio pecado, enfraquecendo-se até a morte.
Como um veneno, aplicado em pequenas doses, ele não mata imediatamente,
definhando o indivíduo sem que ele perceba, até o instante em que, sem o
antídoto (Cristo), chega-se ao fim derradeiro. Há um círculo vicioso em que
um compele ao outro e o outro mantém aquele.

O homem está divorciado de Deus por causa do pecado, da sua


transgressão, e é ele que o conserva no mesmo estado, sem mudança. Por si
mesmo é-lhe impossível achegar-se ao Senhor; é necessário que Deus se
apiede, tenha misericórdia, e, então, somente então, ele se aproxima do
homem, trazendo-o à sua comunhão. Novamente, com isso, não estou
dizendo que não somos responsáveis pelo nosso afastamento, pelo
distanciamento, por nos manter desligados dele. Em nossa natureza caída,
queremos, ansiamos e buscamos manter a distância e andar vagueando à
procura de outro deus, um impostor que satisfaça o desejo inerente da alma
(ainda que em uma fração infinitesimal), pois, ao contrário de Deus, não é
possível ao homem se satisfazer em si mesmo ou em outras formas de
distração: ele precisa de Deus e, como todo pecador é idólatra, não
encontrando o verdadeiro, tenciona contentar-se com uma cópia, o falso, o
adulterado, ainda incapaz de satisfazê-lo, mas suficiente para iludi-lo com
uma promessa jamais cumprida de que está a agraciá-lo. Acontece que esse
deus jamais será hábil ou apto em produzir o gozo e a paz tanto ansiada.
Somente Cristo pode gerar, na alma confusa, atormentada e agonizante, a paz
verdadeira que o mundo, e nenhum “deus”, pode dar (Jo 14.27).

Há um ditado que diz: nem tudo que reluz é ouro! Existem muitos metais
que reluzem: prata, cobre, aço, etc., mas suas características são distintivas do
ouro, o qual é particular em seus atributos, nos elementos que o constituem.
Guardadas as devidas proporções, pois se trata de uma analogia e nenhuma
analogia pode descrever fielmente a natureza divina, única, perfeita e
incomparável, Deus não pode ser distintivo e múltiplo na variedade de deuses
e cultos, na forma como os seus adoradores pressupõem. Ele não pode, ao
mesmo tempo, ser um e outro, e ainda outro, assim como o ouro não pode ser
nem prata nem cobre, ainda que eles estejam na categoria dos metais e
compartilhem algumas características. Por isso, a mente humana sempre
optou em criar vários deuses, a fim de que a sua inconstância e incoerência a
satisfaçam em todos os detalhes, em suas superficialidades, sem tocar nos
fundamentos, na essência caracterizada pela santidade e perfeição intrínsecas
a Deus. Ela acaba por se satisfazer na exceção, naquilo que corrompe o
sentido de humanidade, tornando esta antinatural, aberração, além de exibir a
pecaminosidade e imperfeição do ídolo, o artifício de sustentar uma empatia
entre a vontade e os anseios mais íntimos dos incrédulos, dos quais não pode
se desvencilhar, e a natureza em desalinho com a verdade.

Raramente a humanidade revela algo verdadeiro de Deus (ainda que o


Imago Dei não tenha sido completamente apagado pela Queda), tornando-o
cada vez mais desconhecido do homem e este cada vez mais ignorante de
Deus. E, no que restou, haverá muito pouco dos atributos divinos, senão
nada; o que subsiste é o culto, a adoração ao homem pelo homem (ainda que
mascarada, sublimada); um deus feito à sua imagem e semelhança, com todos
os desvios, com a marca da impiedade, da transgressão, tal qual Satanás
almejou no céu junto com os seus anjos; tal qual Adão alcançou no Éden e
conservamos até aquele grandioso momento em que Deus nos resgata da
lama e do vômito para nos limpar, restaurando a amizade perdida e fazendo-
nos parte integrante do seu povo.

Toda religião que não professa a adoração ao Deus bíblico, ao único


Deus, aquele que se autorrevela, sendo este o único meio pelo qual o homem
pode conhecê-lo, não é religião. Ela não tem qualquer poder de religar o
homem ao ser supremo. Pelo contrário, ela é a antirreligião, a abominação, a
afronta ao Senhor, e somente pode carimbar o destino do homem para a
viagem derradeira de horror e dor na eternidade.

Encontramos outro importante elemento, o do ser Supremo. Não “seres


supremos”, o que é impossível, posto haver apenas um. O próprio Senhor nos
diz, repetindo o verso de Deuteronômio 6.4:

“O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso


Deus é o único Senhor” (Mc 12.29).

E complementou a sua oração proferindo:

“E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus


verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).
Cristo não abre precedentes para que qualquer forma de adoração seja
possível ou aceitável, nem para a possibilidade de todas as crenças serem
abarcadas em um único significado e propósito. Não há como não rejeitar
toda e qualquer adoração e culto que não seja dispensada ao Deus bíblico,
segundo a sua própria vontade. Todo deus fora da Escritura é falso (pelo
princípio de “deus” não ser Deus) e uma imagem distorcida daquilo que o
próprio homem traz em si mesmo. Esse “deus” nada mais é do que o reflexo
do homem; é ele olhando para si e, ao mesmo tempo, objetando usurpar o
trono celeste e assumi-lo. Em seu delírio, presume que o ser finito, limitado e
temporal possa ocupar o posto do ser infinito, perfeito, pleno e eterno. Se
Deus é suficiente em si mesmo, autoexistente, livre e independente em si
mesmo, não havendo a chance de existir dois iguais, já que, se um Deus
existe desde a eternidade, não há lugar para outro, o que pensa estar fazendo
o homem em sua incredulidade? Se não há como existirem dois seres
perfeitos, eternos e suficientes no universo, como pode o homem almejar tal
condição, sendo ele mesmo o oposto daquele que pensa combater?

Deus é um, único; ele é real! Dizer que há muitos deuses é dizer que não
há Deus nenhum. Dizer que existe um outro deus que supostamente se deu a
conhecer sobrenaturalmente, também é não crer nele; é negá-lo. Dizer que
todos os caminhos levam a Deus, é dizer que o errado é o certo, e o certo,
errado, de modo que, na prática, o homem não tem aonde ir e a verdade não
está nele, mas naquilo que pensamos dele. Mais uma vez, o homem quer
fazer-se autoridade, inclusive sobre Deus, e a ideia do ecumenismo[67] e do
universalismo[68] nada mais é do que o estratagema maligno de acomodar
todos os homens e seus pecados numa única cumbuca e assim levar a
humanidade à destruição. Mais do que isso, é pretender que Deus seja
igualmente tolo, como tolo é aquele que se aventura em uma crença genérica
e difusa, na qual o Senhor não passa de um deus lamuriante, a buscar ser
aceito de qualquer maneira pelo homem. Onde o Deus pessoal nada mais é do
que um observador estático e estanque, preso em uma redoma imposta pela
suposta autonomia do homem, na qual esse deus é apenas um provedor da
vida, não o seu mantenedor, e sem direito a dar pitacos ou gerir a sua
Criação. Debaixo do guarda-chuvas chamado “deus”, pelo mundo, estão
seguros da tempestade até mesmo aqueles que o negam veementes, como
prova do seu amor leniente, e, quanto mais rebelde, mais esse deus se esforça
em protegê-lo, em ampará-lo, sem que haja qualquer reciprocidade, sem que
essa relação ultrapasse a forma unilateral, provavelmente a estender-se por
toda a eternidade.

Transferimos a ele a nossa doença, a nossa psicopatia, inclusive a ponto


de não haver mais como distingui-lo de nós; como se fôssemos quem lhe dá a
vida, quem o sustenta e alimenta, e não o contrário; significando que todos os
deuses ou, mesmo o não ter nenhum deus, não passam de projeção humana,
revelando o que o homem é e suas limitações.

Com isso, estou a dizer que todas as crenças e religiões, todos os deuses e
não deuses, todas as formas humanas de cultuar, partem do conhecimento que
o homem tem de si mesmo ou da expectativa de quem ele seja para formatar
um ídolo. Parte-se sempre do homem para deus, da autorrevelação humana
para se definir o ser divino, o que é um gravíssimo erro, visto ele ser
conhecido somente pelo que revelou de si, e não por nossas suposições. Não
sendo nada mais do que capricho não buscar defini-lo, conhecê-lo, nos
aspectos em que nos é possível fazê-lo à luz da Escritura, qualquer
entendimento ou interpretação, fora do escopo revelacional das Escrituras,
será apenas e tão somente a autocontemplação humana: o reflexo no espelho
da alma.

Tais pessoas podem ter certeza de que estão adorando um deus


desconhecido, no qual não há uma personalidade definida, verdadeira e real.
Ou, quando muito, adora-se um deus tão identificado com o homem, em sua
corrupção e doença, que se acaba na confusão, no redemoinho de dúvidas, de
não se saber quem ou o que sustenta e é sustentado, subsiste ou sucumbe,
cultua ou é cultuado, preserva ou é preservado, gera a vida ou definha.

Resta-nos perguntar: quem é Deus? Sabendo que apenas o espírito


regenerado, em união com o Espírito regenerador, poderá ter a resposta
correta (Dt 4.35-39; 1 Sm 2.2 e Is 44.6-8).
A Distração do Pecado

Portanto, a incredulidade, como descrita, ocorrida em meio a Israel, levou-o,


como povo de Deus, a ser castigado e perecer, ao não reconhecer a honraria
na qual eram favorecidos, quando Deus agiu livrando-os da escravidão,
dando-lhes uma terra que mana leite e mel, salvando-os dos perigos, dos
inimigos, cuidando deles como um pai mais que zeloso cuida dos seus filhos.
Não é interessante como os sinais, por maiores, espetaculares e profícuos,
mostram-se incapazes de produzir a fé genuína? Não é o que Judas parece
dizer?

Por mais estranho que pareça, no evangelicalismo moderno, são os sinais,


ou, melhor, a necessidade deles, que levam o homem a crer, a ter fé. O
pragmatismo[69] tem-se difundido tanto em nosso meio que tudo o que não se
pode ver, tocar, apropriar-se e exibir não funciona, logo deve ser descartado.
Vivemos a época em que o material dita o espiritual, de tal forma que a vida
neste mundo tem de ser uma prévia do sucesso a ser alcançado na eternidade.
O imediato vira infinito; o temporal, eterno; o carnal, espiritual; assim como a
dúvida se torna certeza, a certeza de haver apenas dúvidas; a tolice,
sabedoria; o não-bíblico ganha contornos bíblicos, a qualquer preço e por
qualquer motivo, a fim de justificar os dogmas humanos a permear o discurso
religioso e falsamente chamado de cristão. Há de se questionar: isso é o
Evangelho, ou não passa de uma distorção do Evangelho, o antievangelho? A
mensagem cristã travestida, corrompida, distorcida e rotulada pela mente
humanista e seus valores decaídos como o pragmatismo, a pós-modernidade,
o utilitarismo[70]?

Basta um rápido “passeio” pelas igrejas para ficar evidente o culto


utilitarista, cuja motivação está fincada, estabelecida, nas ações, na eficácia
delas, no sentido prático em que a fé resultará em benefícios objetivos, em
ações visíveis pelas quais se conhecerá a verdade. Em outras palavras, a
verdade é conhecida somente se for útil naquele momento ao indivíduo; a
verdade somente pode ser conhecida pela experiência, sem a qual não há o
menor sentido (Empirismo), sendo que, quanto mais pessoas se beneficiarem,
mais desejável é.

A coisa funciona mais ou menos assim: o indivíduo vai à igreja para


buscar duas coisas: a primeira, que Deus satisfaça os seus desejos; a segunda,
que seja rápido em satisfazê-los. O seu valor supremo resume-se na
capacidade de Deus suprir e proporcionar prazer ao homem e de evitar que
ele sofra, sempre tendo como ponto de partida a fé do homem, aquela em que
o vitorioso a exibirá como um troféu, uma medalha pendurada no pescoço, a
refletir os seus feitos. Nada a ver com a fé que nos foi entregue por Deus (Ef
2.8) e que foi uma vez dada aos santos (Jd 3).

Mas o que vem a ser fé?

Segundo o Dicionário Priberam: (latim fides, -ei) s. f. 1. Adesão absoluta


do espírito àquilo que se considera verdadeiro. 2. Fidelidade 3. Prova. 4.
Crença.

Segundo o Dicionário Michaelis: sf (lat fide) 1. Crença, crédito;


convicção da existência de algum fato ou da veracidade de alguma
asserção. 2. Crença nas doutrinas da religião cristã. 3. A primeira das três
virtudes teologais. 4. Fidelidade a compromissos e promessas; confiança.

E segundo a Bíblia?

“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das


coisas que não se veem” (Hb 11.1).

As três definições não parecem harmônicas entre si? Paulo não está, de
certa forma, corroborando a definição semântica que os linguistas atribuem à
palavra fé? De que ela tem um valor pragmático-utilitarista, implicando na
legitimidade dos cultos e da vida cristã praticados atualmente pelos
evangélicos? Será...? O mesmo Paulo diz:

“Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem;
porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas”
(2Co 4.18).

E agora, o que lhe parece? Ele prossegue:

“Porque andamos por fé, e não por vista” (2Co 5.7).

A questão está em muitos usarem “e a prova das coisas que se não veem”
como a necessidade de a fé produzir resultados visíveis e materiais, de tal
forma que se eles não aparecem, não há fé. Contudo, o que Paulo está a dizer
é: a fé é a prova das coisas que não se veem, porque andamos pela fé, não por
vista. A fé é a prova, o testemunho da vida cristã, e a vida cristã é a prova da
nossa fé:

Porque “todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas;


mas vendo-as de longe, e crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram
estrangeiros e peregrinos na terra... em esperança fomos salvos. Ora a
esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como também
o esperará? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o
esperamos” (Hb 11.13; Rm 8.24-25).

Pois bem, o ponto é: tenho fé para ver, ou tenho fé para não ver? Se não
vir, não tenho fé, ou mesmo não vendo, mantenho intacta a minha fé? Há
uma “velha onda” que diz: posso tudo naquele que me fortalece, distorcendo
a mensagem bíblica a fim de atender aos interesses escusos do coração. Com
isso, querem dizer que, se tenho fé suficiente, posso tudo. No entanto, há de
se definir o que venha a ser fé suficiente; e muitos dirão que ela será
suficiente dependendo daquilo que se quer e se alcança, ou seja, o tamanho
do objeto, e consegui-lo é que definirá o tamanho da fé. Vejamos o verso em
que se baseiam:

“Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Fp 4.13).

Parece uma carta-branca dada por Deus para se ter o que quiser, bastando
escrever o que mais for aprazível, agradável? Porém, o que nos fala Paulo um
pouco antes?

“Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e


em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto
a ter abundância, como a padecer necessidade... todavia fizestes bem em
tomar parte na minha aflição” (Fp 4.12, 14).

Alguém se candidata a subir no púlpito e defender que posso todas as


coisas em Cristo, mesmo que seja na fome e a padecer necessidade? Ou a
estar abatido? Ou a participar da aflição alheia? Se fosse possível fazer todas
as coisas, elas não estariam restritas apenas ao que se considera benéfico
dentro do padrão humano?

Riqueza, posses, poder... a solução de todos os problemas mediáticos não


é o único item abarcado por “todas as coisas”, mas também o sofrimento, a
tristeza, a dor, a injustiça, a pobreza, e tantos outros males. Paulo afirma
claramente que Deus o sustentará em todas as situações, e de que ele viverá a
fé cristã mesmo nas vicissitudes e reveses da vida. Mais do que isso, ele
chega a se gloriar em suas fraquezas, porque o poder de Deus se aperfeiçoa
nela, a fim de que habite nele o poder de Cristo (2Co 12.9). O que para
muitos é sinal de fracasso, para Paulo é êxito, e assim deve ser para nós
também. Devemos banir de nossas mentes o falso ensino de que a fé está
atrelada ao sucesso, à riqueza, à cura, à prosperidade, como afirmam os
positivistas. Com isso, não quero dizer que pessoas de sucesso, ricas,
saudáveis e prósperas não têm fé; mas de que o padrão bíblico de fé está
muito além daquilo que temos, tocamos ou somos. Ele está no próprio Deus,
o qual nos capacita a ter a fé verdadeira; não uma crença tola; não uma
certeza no que é tangível apenas; não em reverter materialmente, numa
contrapartida, o que cremos. Isso faz de Deus um negociante, e da fé uma
mercadoria; no entanto, muito pelo contrário, a fé sempre será uma relação de
confiança em Deus por intermédio de Cristo e, principalmente, uma relação
de dependência, de submissão, de reverência, de temor a ele; de
reconhecimento da nossa frágil condição, de nossa miserabilidade e
pecaminosidade diante dele, o Deus santo e perfeito; da necessidade da sua
graça e misericórdia, sem a qual sequer viveríamos, mas seríamos
consumidos (Lm 3.22).

Portanto, não estou falando da fé como um conjunto de crenças, nem


tratando do assentimento intelectual puramente, como uma ideia ou conceito
decorrente do estudo ou cultura. Tampouco se trata da possibilidade do
conhecimento divino a partir de evidências ou experiências emocionais e
místicas, muito menos como a causa de resultados, ainda que proveitosos. A
fé bíblica é a única capaz de fazer com que o homem reconheça o testemunho
de Deus através das Escrituras, como o “autotestamento” divino, na certeza
de que somente podem ser vistas e entendidas por aqueles a quem Deus abriu
os olhos para verem, e os ouvidos para ouvirem, e a dar-lhes entendimento
para que creiam, se convertam e sejam salvos (Jo 12.40). A fé é autenticada
pelo próprio Deus, revelada pelo seu Espírito, que a concedeu para que
pudéssemos conhecer o que nos é entregue gratuitamente por ele (1Co 2.10-
13).

Logo, Cristo é o autor e consumador da nossa fé (Hb 12.2). Sendo assim,


se a tenho é porque me foi ofertada, como um presente necessário e infalível
em seu princípio de levar-me à esperança e a certeza além da vista dos olhos,
além do toque das mãos, além dos arrepios da pele ou das lágrimas a
escorrerem pelo rosto. A fé pode nos trazer emoções, pois somos seres
emocionais, mas jamais a emoção, seja ela qual for, significará a fé, apenas se
manifestará em decorrência dela, sujeita a ela, uma consequência natural de
que estamos tão cheios de fé que nem mesmo o nosso corpo pode se
controlar. Não quero, contudo, dizer que a fé é incontrolável e todos sentirão
uma explosão interior, de dentro para fora, mas afirmar o fato de não serem
as sensações o mesmo que a fé, pois não são; ela precede os sentidos, e se
eles se manifestam, nem sempre significará uma relação com ela, podendo
ser apenas uma incitação ou devaneio carnal.

Alguém pode dizer: Precisamos dos sinais para crer, assim como Cristo
deu sinais para que o povo cresse. Sim. Em parte, é verdade, pois o Senhor
fez muitos sinais para que acreditassem ser ele o Cristo:

“Porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de
Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31).

Sem que houvesse sinais, o Evangelho não seria escrito. Sem o


Evangelho, como crer? Sem a palavra, seria possível conhecer a Deus e ter
vida? Há de se entender que a nossa dispensação é outra. Não mais Deus fala
diretamente com o povo através dos profetas, nem os milagres são
necessários para que creiamos. O Espírito é o orientador a instruir, ensinar e
convencer-nos a partir do que está escrito: a Bíblia, porque “nós temos a
mente de Cristo” (1Co 2.16). Nada mais é preciso, ainda que Deus esteja
agindo, curando, santificando, salvando, segundo a sua providência, como
sempre agiu na história, governando o universo. Precisamos da Palavra, do
Espírito e da mente de Cristo, mais nada, e muito pouco de nós mesmos, para
que a nossa fé seja autêntica; do contrário, não passará de uma muleta,
incapaz de fazer-nos andar naturalmente, segundo a vontade divina.

Após a ressurreição, Cristo apareceu aos apóstolos, menos um, Tomé.


Diante do relato dos demais, os quais viram-no, ele, cético, proferiu:

“Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo
no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira
nenhuma o crerei” (Jo 20.25).

Pouco tempo depois, o Senhor encontrou os seus, e Tomé estava entre


eles. Cristo lhe disse:

“Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na
no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. E Tomé, respondeu e disse-
lhe: Senhor meu, e Deus meu! Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé,
creste; bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20.27-29).

Este relato não está na Bíblia à toa, sem um propósito, mas para que
creiamos, mesmo sem os sinais, mesmo sem os milagres estrepitosos; porque
a nossa própria vida já é um milagre, ainda mais se significar a eternidade ao
lado do nosso Senhor[71]. Mas nada disso acontecerá se não formos
resgatados das trevas pelo seu poder.

Cristo fez inúmeros milagres, tais como ninguém mais fez e viu, mesmo
assim eles foram insuficientes para salvar uma multidão de incrédulos.
Mesmo vendo-os, seus corações permaneceram duros, inflexíveis, diante de
tão gloriosa salvação. Por quê? Primeiro, os milagres não salvam. Segundo,
os milagres não nos fazem crer em Cristo. Terceiro, os milagres tornam-nos
inescusáveis diante de Deus, condenando a nossa incredulidade. Quarto, em
muitos casos, o homem busca neles a sua glória, não a de Deus. Como Paulo
escreveu:

“Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; mas nós


pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura
para os gregos” (1Co 1.22-23).

De nada adiantam os milagres e o conhecimento sem fé, tal como


aconteceu com Israel após o cativeiro, tanto antes, no Egito, como depois, no
deserto, onde Deus mostrou-lhes o seu poder e glória. Contudo, mais do que
isso, ele lhes mostrou o seu cuidado, amor, o seu caráter único, algo que a
maioria deles não foi capaz de ver, obscurecidos e cegados por si mesmos,
por seus desejos, por suas vontades, dominados pelo pecado e pela aversão a
Deus. De nada adianta pregar a Cristo crucificado sem fé, pois ele continuará
indignando os que pedem milagres e os veem, mas não foram regenerados,
não puderam conhecer a verdade, permanecendo insensatos e extravagantes
os que buscam conhecimento sem serem transformados pelo Espírito. No
entanto, aos que foram, bastará a pregação do Evangelho para, crendo,
mesmo não vendo, amarem o Senhor, “alcançando o fim da vossa fé, a
salvação das vossas almas” (1Pe 1.9).

Não esqueço jamais de dizer que a fé não é produzida pelo homem nem
por sua vontade, mas por Deus, conforme Efésios 2.8. Não havendo fé, não
existe o conhecimento de Deus e da sua vontade, restando apenas e tão
somente uma rejeição natural ao Senhor originada na incredulidade, pela
ausência da verdadeira e sobrenatural fé. Ao homem sem fé, a consequência é
a destruição, assim como muitos, no Êxodo, foram aniquilados.... Sobre isso,
falaremos um pouco mais à frente.

Por fim, Judas fala da salvação de um povo, salvação esta da escravidão


egípcia. Não podemos confundi-la com a salvação da alma, ainda que, como
tipologia, se possa estabelecer um paralelo com Deus salvando uma nação da
condenação eterna, sem problemas. É notório, para entender o trecho,
reconhecermos o cuidado e providência de Deus para com os eleitos, a fim de
serem resgatados da incredulidade, para terem fé, e serem salvos
eternamente, a fim de formarem um só povo, aquele separado por Deus, na
eternidade, para si.
Abandonando o Serviço

Assim, do mesmo modo, o autor nos lembra a respeito da queda dos anjos
que, vivendo na glória de Deus, se rebelaram, abandonando o seu principado
(entendido como sendo uma vocação ou ministério), desprezando a bondade
divina, em flagrante recusa do bem em favor do mal a habitar o espírito deles.

Por terem eles deixado a sua própria habitação, no sentido de que


abandonaram os seus dons, postos e cargos nos quais foram instituídos por
Deus, como soldados que desertaram do exército do seu país, a expulsão dos
céus é algo inevitável. Não há como, diante do Deus santo e bom, dedicar-se
à perfídia, à dissolução, à traição e ao abandono do seu serviço sem
consequências drásticas. E, se aos anjos não foi perdoado o amotinamento, os
quais são superiores a nós, o que estará reservado aos homens revoltosos?
Receberão, como diz Pedro, o galardão da injustiça (2Pe 2:13)? Ou seja, o
castigo por tamanha desobediência, insanidade e desdém? Portanto, o
segundo ponto mais importante não pode ser outro senão... a justiça divina.

Antes, gostaria de refletir um pouco sobre a questão da igreja


contemporânea e a justiça da qual o corpo de Cristo é o seu guardião, neste
mundo. Ainda que sujeita às imperfeições, ao pecado e ao erro, podemos
concluir, categoricamente, que a igreja é aquela a demandar, a exigir e a
encaminhar-se na direção da justiça, como um alvo a se atingir, um ideal a se
perseguir e um princípio a se exercitar, porque a igreja tem sede e fome de
justiça, posto ser bem-aventurada no Senhor (Mt 5.6).

Todo cristão deve ter a convicção de que, em qualquer época e lugar do


mundo, onde o Evangelho não se fizer presente, como a regra primeira e
última de normatização das relações humanas (não apenas como um devaneio
para a alma e poetas), ali encontraremos o que se pode chamar de idade e
reino das trevas, sem a menor chance de sermos injustos, exagerados ou
precipitados. Porém, o que vem acontecendo e se disseminando entre nós é
exatamente o contrário, a possibilidade de se criar um paraíso terreno sem a
necessidade de se aplicar a Lei e o Evangelho, antes promovendo a rejeição
de ambos[72]. Como se o homem, em si mesmo, pudesse deter algo de bom, e
seus valores e objetivos fossem mais justos e santos do que os valores
divinos, os quais provém da única fonte capaz de gerá-los, Deus, visto ser ele,
em essência, santo e justo.

Estranha-me cristãos saírem, decidida e prontamente, em defesa de


ideologias e métodos nitidamente antibíblicos, como se Deus pudesse, de
uma hora para outra, renegar a si mesmo em favor do homem e sua estultícia.
Bem, alguém poderia, num arroubo delirante, dizer que a encarnação do
Verbo foi uma espécie de negação da divindade, mas eu direi a esse insano
que não há como Deus negar-se a si mesmo, pois o perfeito jamais pode ser
imperfeito ou deixar de ser perfeito (falo não de uma perfeição circunstancial
ou derivada, mas da perfeição absoluta somente aplicável a Deus na essência
do seu ser). Cristo encarnou-se exatamente por causa da sua perfeição, a fim
de executar o plano perfeito, imutável e eterno traçado pela Trindade Santa,
no qual se fez voluntário, dando a si mesmo por amor e justiça aos
escolhidos. Porém esse não é o motivo específico deste livro, e a discussão
pode se direcionar a outro lugar e momento, mas ainda assim faz-se
necessária a ressalva.

A questão está, de muitas formas e maneiras, em se tentar justificar o fato


de a igreja estar em profunda aliança com o mundo (mesmo que não seja
consumada, mas um flerte, isso em nada ameniza a situação), abandonando,
como o fez em outras épocas, a aliança com Deus. Por que será?

Alegar o estado temporário de imperfeição dos santos como justificativa


não me parece prudente, nem mesmo chega a ser uma resposta. O
ensimesmamento do homem parece-me muito mais próximo de uma resposta
bíblica, a qual nos garante que não há um justo, nem um sequer, e que não há
quem busque a Deus (Rm 3.10,12). É claro que não ignoro o convívio do
joio e o trigo, mas por que o trigo se empenha em seguir o caminho
infrutífero do joio? Faltam parâmetros que delineiem a vida cristã? Ou seja, o
“manual de regra de vida”, o qual a maioria diz seguir, foi relegado a um
plano inferior em relação à vontade humana, posicionada contrariamente e
alinhada a algum tipo de aceitação pelo mundo, que pretende, conhecendo-se
os seus reais intentos, destruir qualquer traço de fé cristã da face da terra. É
como se cada um pudesse absorver o que quisesse e descartasse o que
também quisesse com a mesma naturalidade com que se escolhe a cor de uma
camisa ou o sabor de um sorvete, apelando apenas para o critério pessoal,
algo subjetivo e de foro íntimo, contaminado pelo pecado.

Há de se entender que a palavra lida, ouvida e proclamada, não é nossa,


mas de Deus. E como tal, tem de ser observada, entendida e aplicada em sua
integralidade, não como desejamos que ela seja, mas como ela é de verdade.
O maior problema que se tem é o de se distinguir entre um trecho e outro da
Escritura, a chamada contextualização (palavra a encher-me de arrepios,
especialmente quando usada para fazer crer que o dito não é realmente o dito,
e pode nem ter sido dito), e dizer ser esse pertinente e aquele não, para os
tempos atuais. Assim, rejeitamos a Bíblia em sua unidade e plenitude, como a
palavra para todos os homens em todos os tempos e lugares. Promove-se o
seu fatiamento, a fim de se escolher aquilo a vir de encontro aos interesses
pessoais, e descartar-se o que não se encaixa neles, a partir de uma exegese
falha e uma interpretação distorcida e tendenciosa.

Já disse que não é possível se ter uma fração do Evangelho; ou se tem o


todo ou não se tem nada! Mas parece que muitos estão dispostos a conviver
com uma ínfima parte dele, a ponto de se acreditar que a tem em
completude e unidade, quando nem mesmo o que se tem pode ser chamado
de engano, posto ser uma fraude retumbante em posição de inimizade com a
verdade. Talvez este seja o maior de todos os equívocos: acreditar deter algo
que não se tem. Portanto, até mesmo não ter nada pode ser mais benéfico,
pois há a possibilidade de se ainda conhecer o todo, ao passo em que a ilusão
de tê-lo afasta o homem de, efetivamente, obtê-lo. Contentar-se e se
autojustificar com uma parte impede o compreender e desfrutar da verdade
intacta transmitida por Deus de maneira definitiva em seus limites
invariáveis. Como está escrito:

“Olhai, pois, que façais como vos mandou o Senhor vosso Deus; não vos
desviareis, nem para a direita nem para a esquerda” (Dt 5.32).

Não há ziguezagues, desvios ou atalhos, nem mesmo paradas, mas um


caminhar regular e linear à glória.
O grande problema é a igreja manter o seu olhar focado no mundo com
olhos cobiçosos, invejosos de ter o que ele tem; de desfrutar do que ele
usufrui; de colaborar em erguer a cerca que separará definitivamente o
homem de Deus, mantendo-o do lado de fora do Reino, ainda que ele possa
vislumbrá-lo a distância, minimamente, e assim certificar-se de estar
(in)seguro na periferia. Ali, a marginalidade espiritual se estrutura no caos e
na imoralidade, na ilusão de ser o que não se é, tal como acariciar e embalar
uma bomba-relógio programada para explodir em alguns segundos.

Paulo nos diz:

“Não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela
renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa,
agradável, e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.1).

Ora, o que vem a ser a boa, agradável e perfeita vontade de Deus, senão o
Evangelho em sua totalidade? Não basta ouvi-lo. Não basta lê-lo. Nem o
racionalizar. Decorá-lo. Ou espiritualizá-lo. Qualquer forma de reduzi-lo em
sua abrangência apenas nos afastará da sua mensagem e dos efeitos capaz de
produzir. Antes é necessário obedecer a ele, assim como o Senhor Jesus
obedeceu ao Pai, demonstrando o seu amor por ele. Ilude-se quem acredita
que qualquer tipo de amor é suficiente e significativo em si mesmo. Que
qualquer ardor, emocionalismo ou contemplação seja suficiente para agradar
ao Todo-Poderoso. Nada disto. O exemplo está naquilo que Cristo espera dos
seus discípulos, como prova do amor deles por ele:

“Se me amais, guardai os meus mandamentos... e aquele que tem os meus


mandamentos e os guarda esse é o que me ama” (Jo 14.15, 21);

Porque:

“Quem não me ama não guarda as minhas palavras” (Jo 14.24).

Isto é dito para a igreja, o povo de Deus, porque o mundo não pode
conhecer o Espírito de verdade, nem pode recebê-lo, “porque não o vê, nem
o conhece” (Jo 14.17).

Muitos justificam a impiedade e injustiça do mundo em sua anormal


naturalidade de ser ultrajante e insensato, visto não terem a palavra nem o
Espírito da palavra para orientá-los, pois é-lhes impossível recebê-los e não
os têm em si mesmos. Mas será isso? Ou não estaremos apenas dando os
motivos para tanto uma como outra coisa se propagarem desenfreadamente,
numa justificativa para a falta de temor dos cristãos? Não estaremos a regar e
adubar o mal por considerá-lo inevitável e fora de controle? Não estaremos a
nos condenar pelo descuido, por um espírito de acomodação e cinismo?
Espírito pelo qual nos autodesculpamos por causa da nossa covardia e falta
de discernimento? Desde quando o fato de se ser pecador é justificativa para
se pecar? Seria o mesmo que um réu justificar o seu crime diante do juiz com
o argumento, ou a falta dele, de ser criminoso. O criminoso não é
autojustificado por sua condição de culpado, antes ela o denuncia e o
condena. Com isso, participamos do sofrimento, da injustiça e da opressão
que governos e a sociedade exercem sobre outros irmãos e até mesmo outros
ímpios, o que nos torna, em algum grau, cúmplices do mal.

Alguém pode dizer: devemos sofrer por amor ao próximo. Devemos amá-
lo como Cristo ama o pecador. É verdade; porém Cristo não ama a todos os
pecadores indiscriminadamente. Cristo não ama aquele que morrerá
obstinado em seu pecado. Cristo não ama aquele que escarnece e se exibe
acima da vontade de Deus, como se fosse maior do que Deus, levando uma
vida distante da verdade até a sepultura. Cristo não ama os que jamais se
arrependerão dos seus pecados. Muito menos os que se deliciam
continuamente em praticá-los. Cristo, ao contrário, abomina-os e os lançará
no tormento eterno, sem apelação. Cristo veio ao mundo para resgatar o seu
povo, morreu por ele e por ele ressuscitou. Alegar um amor divino indistinto
é apelar para a desordem de Deus que criou o mundo com propósitos claros e
definidos, assim como os vasos da ira foram preparados para a perdição (Rm
9.22) e “até o ímpio para o dia do mal” (Pv 16.4).

A visão de muitos, de um deus que criou vasos para a perdição e amou-os


tanto que os lançará no inferno, onde serão atormentados eternamente, é
simplesmente antibíblica e, posso dizer, tem o objetivo de nos tornar amigos
de inimigos declarados, de tal forma que contemporizamos com o mal ao
invés de aborrecê-lo, muitas vezes aliando-nos e entregando-nos de corpo e
alma a ele. Querem criar um deus ambíguo, esquizofrênico, senil, frouxo, e
que nada tem a ver com o Deus bíblico.
Mas, à parte dessa questão, uma outra está a intrigar-me: pode um cristão
apelar para o amor indiscriminado e incondicional ao pecador, mesmo que
isso represente a perseguição e injustiça a outro semelhante (seja irmão ou
não)? Quer dizer que devo ser misericordioso para com aquele que não tem
misericórdia e assim ele desfrute livremente do seu pecado, exercendo-o sem
limites? Chegando a utilizá-lo como uma forma de punir o justo?

Veja bem, o ponto a se refletir é: é necessário ser misericordioso com


quem não tem misericórdia, com aquele que persegue, com aquele que causa
dano, com aquele que se exibe ostensivamente na promoção e incitação ao
pecado? É inadmissível que isso sirva de justificativa para a ofensa, a
improbidade e o despudor. Seria esse o padrão de justiça bíblica, levando-nos
a amar o ímpio e permitir que ele permaneça um injusto? Qual deve ser a
atitude diante de um ato de injustiça? Defender quem a promoveu? Ou acusá-
lo e condená-lo segundo o reto padrão divino? Absolvê-lo pelo padrão
humano? Quando se age assim, condena-se o justo e despreza-se a justiça,
favorecendo o mal em detrimento do bem. Mas, sobretudo, permite-se agir
injustamente com ambos, ao consentir um exercício livre da impiedade de
um, privando o outro da liberdade de ser justo.

Um adendo:

A Bíblia diz que devemos amar aos nossos inimigos (Mt 5.44); da mesma
forma que nos ordena a abençoar os que nos perseguem (Rm 12.14). Mas isto
se refere especificamente a cada um de nós, como indivíduo, e não como
coletivo. É um chamado individual para cada um agir assim quando o objeto
de injustiça for a si mesmo, não o outro; ou seja, eu, Jorge, se sou perseguido,
caluniado, odiado, devo amar quem me persegue, calunia e odeia, porém isso
não quer dizer que devo proceder da mesma forma em relação a alguém que
perseguido, caluniado e odiado, não detém dos meios para se defender. Antes
devo denunciar o crime e o criminoso e sair em defesa do inocente. Sou
chamado a me entregar à morte por Cristo, mas não posso nem devo aceitar e
permitir que o outro seja morto, pois, agindo assim, estará evidenciado não o
amor, mas o desamor ao próximo. O amor pode permitir que eu sofra a
injustiça, mas jamais permitir que eu compactue com ela. São coisas distintas.
Devo sofrer o dano, mas jamais omitir-me diante daquele lesado pela ação
criminosa de um terceiro. Interessante é, normalmente, não aceitarmos o
dano, mas querer impô-lo aos outros; somos rápidos em nos defender e
negligentes quando se trata da defesa alheia. Devo entender que a minha ação
em impedir o mal está compreendida na providência divina de utilizar a
instrumentalização humana no sentido de fazer justiça.

Alguém pode argumentar: mas, nessa disputa, você está tomando partido
entre duas pessoas, as quais deve amar, sendo ambas o seu “próximo”. Nesse
caso, você não está sendo injusto? Penso que não. A atitude de injustiça
inicia-se com o criminoso, quem quebrou a lei e os princípios do evangelho,
agindo em desacordo com a palavra de Deus. Ao defender a vítima
posiciono-me em favor daquele que não desejou a desobediência, antes foi
atacado por ela. A própria lei secular garante ao cidadão o direito de, não
havendo autoridade constituída, sair em defesa da parte lesada e coibir a
agressão, impedindo o criminoso de alcançar o seu intento.

Outro ponto a se destacar é o fato de o amor ao ímpio não me impedir, em


momento algum, de corrigi-lo. Isto deveria ser visto, corretamente, como
prova de amor não somente ao criminoso, mas sobretudo ao inocente, para
que ele não seja punido duas vezes: por quem cometeu o crime e por minha
negligência ou omissão, ao não ser reparado no que perdeu.

Fim do adendo.

Ao se defender a “superioridade do homossexualismo”, por exemplo,


defendem-na até que ponto? E se for legitimado, por força de lei, e ferir os
princípios de liberdade de outro indivíduo, esse padrão de “justiça e
moralidade” pode ser considerado bíblico e justo? Não é possível esse
“direito” ampliar-se e estender-se aos assassinos, pedófilos, ladrões,
estupradores, corruptos, fraudadores e blasfemadores? Ou se deve, ao
contrário, empenhar esforços para que eles reconheçam seus pecados (e,
conforme o caso, sofram a punição legal por eles) como uma maneira de
denunciar o padrão imoral e antibíblico no qual vivem e aprimoram-se?[73].
Sendo exemplo para que outros não enveredem no erro e no crime? Não é
assim que Deus demonstra o seu amor por nós, nos revelando,
primeiramente, nossa impiedade? Levando-nos ao arrependimento? Por que
temer que a lei seja esse instrumento de reparação ao injustiçado, a fim de se
corrigir um dano, mas também o aio que levará o pecador a Cristo? Não é
retirar a força do Evangelho? Diminuí-lo e agir claramente em desamor? E
não é certo, ao agir assim, que uma pessoa conivente será acusada no tribunal
de Cristo, por cooperar com o mal e se inserir no modelo ao qual o apóstolo
se refere?

“Os quais, conhecendo o juízo de Deus (que são dignos de morte os que
tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que
as fazem” (Rm 1.32).

Viver no mundo não nos torna parte dele; temos de ser separados de suas
práticas e mesmo daqueles que a praticam sem pudor. Ao silenciarmo-nos,
assentimos, ainda que exteriormente, com a prática do mal. É o suficiente
para o ímpio ver reconhecida a sua legitimidade e permanecer na
transgressão. O nosso silêncio é a resposta que eles não precisam ouvir para
declararem moral o que Deus estabeleceu como imoral; pois, como o profeta
adverte:

“Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas
luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo! Ai dos que
são sábios a seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos!” (Is
5.20-21)

É necessário que a nossa aversão, nojo e repulsa sejam evidenciados, não


como uma mera postura a delimitar um espaço físico ou social, mas para o
próprio bem daqueles que teimam em viver à margem da moral e ética cristãs
e pelo bem daqueles que desejam sinceramente viver nelas e por elas. Agir
assim parece ser pedir demais, num mundo em que o pecado é
ostensivamente exposto como apenas outro padrão social; como se
estivéssemos sem rumo, o ponteiro da bússola girando freneticamente em
todas as direções. Esse padrão encontra-se presente em todos os segmentos,
refletindo o caos que conduzirá as pessoas em suas relações cada vez mais
destrutivas e insanas.

Quando um ministro de Estado disse não haver problemas no fato de os


filhos de um ex-presidente, que nada têm a ver com o corpo diplomático
brasileiro, deterem credenciais diplomáticas e a sociedade fingiu não ver, ao
passo que os cristãos fingem-se de cegos e muitos dentre nós ainda defendem
esse falso argumento (que em si não é argumento, pois não há
argumentação), paira no ar o cheiro pestilento e invasivo de podridão, de
destruição, de iniquidade, que deixa tudo à sua volta exalando um mau cheiro
intenso, doentio e agonizante. E ao se fazer vista grossa para atitudes
aparentemente sem importância, apenas nos fará incapazes de perceber a
condição de autorruína em que o indivíduo ou indivíduos encontram-se,
apáticos em seu próprio aniquilamento. É essa indisposição à verdade que
torna relevante a mentira, que nem mesmo está preocupada em dissimular-se,
mas em se exibir cínica e provocante em sua obscenidade, como uma ferida
purulenta que ninguém deseja curar.

Isso é extremamente danoso para o mundo o qual, contudo, não se


apercebe, em sua própria cegueira, do abismo, da queda livre em que se
encontra. Mas quando percebemos a igreja, ou boa parte dela, se envolver
cada vez mais com a patifaria e o descaramento, capaz de fazer enrubescer os
piores e mais cruéis bucaneiros e corsários do passado, torna-se fácil notar o
afastamento do homem na direção oposta à dos valores bíblicos e o modo
como foram postos de lado. Deus tem sido esquecido e a sua palavra
repudiada em favor das falsas “boas-novas” do príncipe deste mundo. A
consequência disso é a igreja acabar por se encher de “apelos” humanistas e
relativistas e de incredulidade (como se tudo isso fosse uma virtude e não
uma desgraça), a ponto de o Evangelho estar morto para ela, enquanto ela,
moribunda, aguarda a morte inapelavelmente justa e anunciada pelo próprio
Evangelho; deixando-se abandonar em si mesma, exatamente por lutar contra
aquilo que deveria ser a sua essência, o que a manteria viva, ativa:

“Apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem


coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5.27).

A mesma justiça à qual a igreja nominal estará sujeita se mostrou no


castigo recebido pelos israelitas, fruto da sua ingratidão e revolta contra
Deus. Muitos foram imediatamente destruídos, como Coré e sua tribo, os
quais, achando-se parte do povo de Deus, não pertenciam a ele, e, por sua
arrogante descrença sucumbiram. Eles se insurgiram contra Moisés, a ponto
de este os chamar para conversar e eles se recusarem a atendê-lo. Não só isso:
Coré ajuntou toda a congregação de Israel e foram contra Moisés e Arão (Nm
16.12-14;19).

Encontramos nessa narrativa princípios evidentes de autoridade, contra os


quais os incrédulos se insurgiram. Moisés, o profeta, o homem pelo qual o
Senhor libertou Israel, liderando-o por sua ordem e vontade, foi rejeitado pelo
povo, que assim rejeitou a Deus. Ora, quem instituiu-o como líder em Israel?
O próprio Deus! Ao não o aceitarem como escolhido e legítimo líder, a
rebelião de Coré e seus comparsas não foi simplesmente contra Moisés e seu
irmão, mas contra a autoridade divina; culminando, em seguida, na imediata
punição: a terra se abriu e os tragou; toda a tribo de Coré, seus bens e tudo o
que possuíam desceram ao abismo, a terra os cobriu e morreram diante da
congregação de Israel (Nm 16.31-33).

Talvez a ordem dos fatos não seja precisamente essa, pois, ao rejeitarem a
Deus, também o fizeram em relação à sua vontade e daqueles colocados
como líderes do povo.

Muitos esquecem-se de que Deus é justo e santo, apelando apenas para o


atributo do amor como uma “boia salva-vidas” ou um salvo-conduto para
manterem-se no pecado e na impiedade. Como o apóstolo exorta:

“Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem
semear, isso também ceifará. Porque o que semeia na sua carne, da carne
ceifará a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida
eterna” (Gl 6.7-8).

A teimosia em rejeitar a palavra de Deus trará ao homem o mesmo fim ao


qual os anjos rebeldes estão destinados: Deus reservou-lhes a escuridão e
prisões eternas, que necessariamente não quer dizer que estejam presos,
impossibilitados de agirem, mas que, em sua desobediência, não há neles luz,
mas apenas trevas, e que estão eternamente presos e amarrados em sua
soberba e tolice, ainda a lutar obstinadamente contra Deus e os seus filhos.
Será que ainda esperam ganhar esta guerra? Seriam tolos o suficiente? Ou
não conhecem que a palavra de Deus revela a sua derrota inexorável? (Hb
2.14). Se sabem ou não, o certo é que insistem em sua rebeldia, lutando
incessantes a fim de destruir o reino de Deus. Por isso foi-lhes reservado o
Inferno, lugar criado para Satanás e seus anjos, mas também para os homens
ímpios e irreconciliáveis. E ainda nos é afirmado que o dia do Juízo os
aguarda e que eles estão reservados para esse dia, o dia em que a justiça e a
ira de Deus estarão eternamente sobre todos eles, anjos e homens caídos.

Porém, qual é, pois, a causa ou motivo para a justa condenação e o fato de


serem lançados na escuridão e em prisões eternas?

Um único e suficiente motivo apresentado de várias formas, muitas


visíveis, outras nem tanto, e algumas ocultas na intimidade: o pecado!

Primeiro, a definição de pecado: “é tudo o que é contrário ao caráter de


Deus. Como a glória de Deus é a revelação do seu caráter, o pecado é uma
insuficiência do homem em relação à glória ou ao caráter de Deus (Rm
3.23)”[74].

Considero esta uma ótima definição do pecado, pois ela estabelece que
ele é algo completamente exterior a Deus, cuja natureza não se opõe
meramente ao pecado, como duas forças em disputa, mas o anula
completamente. A santidade divina como antídoto é capaz de eliminá-lo, sem
restar nada, de modo que sua deficiência é anulada por Deus em sua
perfeição. O pecado poderia ser entendido como uma reação radical a Deus, à
sua santidade, autoridade, essência e natureza, bondade e perfeição, justiça e
graça, numa tentativa pífia de tomar o seu lugar, substituindo-o por elementos
antagônicos, díspares e viciados, como se a falsificação pudesse, em algum
momento, revestir-se da autenticidade do Autor Supremo, do legítimo Senhor
de todas as coisas, a abalar-lhe o Reino e Trono, os quais são inatingíveis e
inexpugnáveis, por serem o lugar eterno do Deus eterno. A natureza divina
destrói e neutraliza qualquer investida do mal e do pecado, por serem estes a
adulteração e a falsificação do bem, incapazes de assumirem o caráter próprio
do original. Onde há ordem, é impossível a desordem. Onde há o bem, é
impossível o mal. Onde há santidade, não há pecado. Onde há justiça, não há
injustiça. Onde há vida, não há morte. Na origem, não existe incerteza. Na
unidade, não há dispersão. No eterno, não há o efêmero. Por isso o pecado é a
resistência ou a obstinação do homem em reconhecer a devida glória do
Altíssimo.

É possível que alguém avente a hipótese de eu estar me entregando ao


dualismo, o que não é o caso. A Bíblia afirma que todas as coisas foram
criadas por Deus, estabelecidas eternamente em seu Decreto, de tal forma que
nada, absolutamente nada, surgiu à sua revelia; pois toda a criação, seja
espiritual ou material, veio a existir do nada; não havia substância pré-
existente a qual Deus tivesse utilizado para formar o universo. O que equivale
a dizer que tanto o mal como o pecado não são autocriados ou originários de
outra “força”, mas vieram à existência pela vontade decretiva de Deus, ainda
que se manifestem pela sua ausência. Onde o necessário bem não está agindo,
entrega o homem à sua própria natureza, o padrão natural de inimizade contra
Deus, e o campo infértil para a proliferação do mal. Como Paulo resumiu
apropriadamente:

“Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia,


para desonrarem seus corpos entre si; Pois estes mudaram a verdade de
Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador”
(Rm 1.24-25)

Portanto, tudo, em seus mínimos e irrelevantes detalhes, está sujeito ao


Criador, sem que pudesse existir alheio à sua deliberação; e aqui, como já
disse, inclui-se o pecado, o mal, a Queda, etc.; sem nos esquecermos de que
eles são antíteses ao ser divino.

Infelizmente, nesta era pós-moderna, em que a sociedade é guiada pelo


conceito relativista-materialista-cético (a descrença em relação à verdade,
mas nunca em relação ao falso e adulterado), o homem é visto como um
amontoado de genes e células e suas atitudes estão diretamente ligadas à
combinação dos genes, hormônios e a interação deles com o meio natural e
social em que se vive. Segundo esse padrão, o homem é resultado de agentes
biológicos/hereditários, químicos e ambientais, explicando-se, assim, os seus
atos, os quais são consequência direta desses fatores. Tal pensamento visa
tirar do homem o senso moral e suprimir a Deus, o criador da Lei Moral, pela
qual o homem se revela iníquo e culpado pelos seus pecados. Desta forma,
está-se livre para praticar a dissolução e impiedade em completo estado de
descaramento e cinismo, o “salvo-conduto” que o tornará inconsequente e
irracional, tolo e imaturo, além de um fugitivo recorrente, na busca incessante
de ocultar de si mesmo qualquer acusação ou denúncia de que suas ações são
irresponsáveis, aspirando alcançar a supremacia suicida do desejo
inconsequente, onde não há culpa nem a ideia de violação da santidade.
Antes, trata-se de um ato construído pela ilusão de que não se é merecedor de
punição, posto não haver nenhuma transgressão, sendo que as ações
provenientes do corpo e da alma encontram respostas apenas no desejo, em si
mesmo, como se ele fosse maior do que o próprio ser, do próprio homem,
dissociado da sabedoria, da ordem, retidão e justiça e do verdadeiro
significado de existência.

O ceticismo aboliu a ideia do pecado como ato condenável e


condenatório, não podendo ser julgado pela moral cristã, visto ser ao homem
impossível lutar contra as “forças” bio-químico-sociais, às quais está
exposto. Como os animais, o homem é refém do seu instinto, não podendo
resistir-lhe; qualquer moral pré-estabelecida é um ataque direto à
independência e autoridade do homem sobre si mesmo, não podendo ser
considerada, e, se possível, é transferida a outra esfera social pelas vias
ideológicas. Este conceito é o que considero de a “cara de pau” do pecador;
porque, diferentemente dos animais, o homem possui uma alma imortal, a
qual é capaz de conter e deter os seus impulsos pecaminosos (um reflexo do
Imago dei). É claro que esta não é uma definição, mas uma dedução, e se
aplica apenas àqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, mas o
objetivo principal é o de diferenciar o homem e sua mente do animal e seu
instinto. Muitos podem dizer que o animal é por vezes mais racional que o
homem em sua irracionalidade. Pode ser, talvez. Mas o fato é que a Bíblia
indica os atos imorais humanos como pecados, por isso a necessidade da Lei
Moral, a qual distingue nossos atos (e, por conseguinte, nós) das demais
criaturas, impondo restrições ao mal, à depravação que existe em cada um, de
forma a não permitir que nossas ações sejam excessivamente humanas (no
sentido do homem pós-Queda), completamente identificadas com a natureza
pecaminosa, mas reserve e resguarde características divinas, não perdidas
totalmente, porém contaminadas pelo pecado. Neste sentido, a Lei Moral
revela-nos a iniquidade e o transtorno moral ao qual estamos submetidos e
cativos, no entanto, também aponta para a necessidade de freá-los, de contê-
los, sem a qual o mundo se tornaria altamente destrutivo e inabitável.

O lado verdadeiro da realidade humana é que ele somente poderá se


conter e deter os seus impulsos pecaminosos pelo poder e pela graça de Deus,
ao transformar o coração de pedra em coração de carne (Ez 36.26). Em outras
palavras, Deus operará a conversão e o novo nascimento no homem caído (Jo
3.3), e, pelo poder de Cristo, o homem se torna justificado, redimido,
absolvido dos seus pecados e feito santo.

Se o homem tivesse se mantido puro e em santidade no Éden, como Deus


o criou, à sua imagem e semelhança, não haveria o pecado, nem condenação.
Não entro no mérito de como isso se daria, porque o “se” aqui tem a ideia de
hipótese não realizável, uma conjectura, visto Deus agir no homem e na
história conforme sua vontade decretada na eternidade.

O mundo moderno vê o pecado e o mal como resultados naturais do que


somos, algo irresistível e que somente poderá ser contido pelo senso coletivo
de justiça e igualdade, os quais farão renascer a bondade e fraternidade
individual. O meio para se obtê-los passará sempre por algum tipo de
nivelamento comportamental, imposto à força e coercitivamente na pessoa
indesejada; forças tão poderosas e dominadoras que anularão a
individualidade em favor de um senso coletivo maior e almejável. É quando
se apresenta o caráter ideológico de reconstrução e reengenharia social, numa
tentativa de se construir um novo homem, passivo e completamente submisso
aos ditames da nova sociedade, sob os auspícios do poder estatal. Para isso, é
necessário o controle da mente, então a psicologia, a pedagogia e a sociologia
se encarregarão de propagar e exigir um comportamento anti-humano e
conectado a um “bem maior” a anular o sujeito em favor do objeto. Uma
verdadeira antítese na qual o princípio do pecado é negado pela autonomia
individual, mas essa autonomia tem de ser controlada pelo impulso coletivo
de domínio para um fim comum. No final, se houver falhas, elas não serão
imputadas à sociedade, que pode ser acusada formalmente, mas jamais na
prática, e o indivíduo é quem carregará a culpa e a punição. Ou seja, criou-se
um círculo vicioso e um verdadeiro “samba do crioulo doido” no qual o
homem não tem, dentro desse escopo, a menor chance de escapar da
destruição, da antinaturalidade forçada, o que o torna uma marionete, um
joguete nas mãos de uma elite controladora e sob a égide ideológica
dominante, que despreza e nega qualquer relação entre a humanidade e o
Deus bíblico. Ela é o poder e a força e o deus!

Exemplos não faltam. Um criminoso, aos olhos dos intelectuais


modernos, em sua maioria, comete os crimes forçosamente por sua condição
social ou econômica, pela injustiça ou desigualdade, de forma que a sua
motivação não é intrínseca ao furto, roubo ou assassinato, mas exterior a ele,
a ponto de o consumismo ou a sociedade consumista ser a causadora do mal
gerado na alma. Logo, os crimes devem ser atenuados em suas consequências
porque a culpa não é completamente do criminoso (em muitos casos nem
deveria ser, pois ele não tem escolhas, é o que dizem) mas majoritariamente
da sociedade. Com isso, cria-se uma generalização absurda, a de que os
pobres são potencialmente criminosos e de que os ricos não o são, nem
podem ser. A realidade, entretanto, nega-lhes as falácias, ao mostrar que os
crimes acontecem em todas as esferas e não estão restritos a apenas um ou
outro grupo social.

O desejo de negação da verdade e a criação de um experimento social


fictício encontra-se presente também no que chamam de “ideologia de
gênero”. A psicologia moderna tenta, de todo jeito, garantir ao indivíduo o
direito legítimo de não se ver como é, mas de o homem poder ser o que
quiser, sendo que a sociedade não pode, em hipótese alguma, negar o que ele
se tornou. No caso de doenças como a anorexia, por exemplo, quando uma
pessoa com 32 quilos se vê, ao olhar-se no espelho, com 220 quilos, os
psicólogos insistem em convencê-la de que a imagem vista não é a real e de
que ela não é efetivamente “gorducha”. Há um claro chamado à realidade e
uma oposição ao que o enfermo vê como sendo antinatural, uma discrepância
obsessiva, provocada por angústia ou sofrimento mental. Em relação a um
homem que não se vê como homem, mas como uma mulher, por outro lado,
os mesmos “cientistas” convencem-no de que ele é uma mulher, ou pode sê-
la, e de que a sociedade está equivocada em vê-lo como não sendo. Ela tem
de participar, compreender e aceitar a sua doença como algo natural, vendo
nele o que não é nem nunca será, por mais que se esforce em torná-lo
genuíno. Dois pesos e duas medidas, onde a ciência deixou há muito de ser
praticada para exercer uma militância ideológica esquizofrênica de imposição
de conceitos artificiais e utópicos e insanos.

No entanto, as Escrituras nos revelam que o mal e o pecado são


consequências daquilo que nos tornamos ao nos rebelarmos contra Deus, ao
rejeitar sua autoridade, supondo-nos capazes de ser como ele, apelando para
uma independência impossível e ilusória, uma vez que o próprio ato de
respirar independe da nossa vontade. Ao opor-se a Deus, deliberadamente o
homem aliou-se ao mal, teve corrompida a sua natureza, fazendo-se
antinatural, uma abominação, afastando-se da essência humana verdadeira
que é dar graças e louvor ao doador de todas as coisas. À ingratidão humana
soma-se o próprio desprezo a si mesmo; querendo exaltar-se, o homem
rebaixa-se para muito além do conhecimento próprio e para muito aquém da
mínima retribuição, em tenaz rebelião contra aquele de quem não pode
prescindir; não reconhecendo de quem é dependente e de quem recebe o
favor.

Cristo veio restaurar o que se havia perdido, veio restaurar em nós a


imagem de Deus que havia sido maculada e deteriorada no Éden. Por ele ser
o homem perfeito, puro, santo e sem pecado, ao morrer na cruz do Calvário,
substituiu-nos, pagando o preço da nossa desobediência, das nossas
iniquidades. Assim, fomos regenerados, santificados, purificados e
transformados novamente à imagem e semelhança de Deus.

Não há como apelar para a relatividade do pecado; por ele estamos


mortos para Deus; por ele virá a condenação eterna; por ele Cristo morreu na
cruz... e, por ele, muitos serão justificados e salvos. Consequências reais e
tangíveis de um único ato de amor, da entrega voluntária, do sofrimento e
morte caridosos, que levou o Filho de Deus a encarnar-se, entregando a si
mesmo por aqueles que antes o odiavam, mas que reconheceram, mesmo sem
toda a compreensão, o sacrifício substitutivo, a absolvição completa de toda a
ofensa realizada contra Deus. Isso se chama graça! E faz do homem
novamente homem, ou muito próximo daquele criado do barro[75].

O mesmo não é possível em relação aos anjos caídos; para eles não existe
a regeneração, tal qual é ao homem. Como e por quê, somente Deus o sabe
segundo a sua santa vontade. Ao se rebelarem nos céus, Satanás e seus
asseclas assinaram definitivamente a sua sentença condenatória, sem defesa,
sem recursos, sem perdão. Afinal, o perdão compreende o arrependimento,
que os anjos caídos são incapazes de ter, já que o Espírito Santo, o doar deste
dom, não age neles, sendo-lhes reservada a escuridão. Algo peculiar é que, na
escuridão, não se consegue ver; por ela, tropeçamos, caímos, e, até mesmo,
pode-se morrer, dependendo de onde se está e para onde se cai. Ela é um
lugar de trevas, onde não há sequer uma réstia de luz e, no caso dos anjos
caídos, eles se tornaram para sempre escravos da escuridão. Uma escuridão
não criada, mas buscada, ansiada, pela natureza amotinada, estando todos que
se rebelam, por completo, sujeitos a ela. Essas trevas são tão densas, a
envolvê-los implacavelmente que, inebriados pela vaidade, lutam como
néscios contra Deus e seu Reino, gastando o seu tempo em aumentar, sobre si
mesmos, a ira divina, ao insistirem e persistirem no labor funesto de
combater a verdade, a vida, a razão, a santidade, a obediência e sujeição ao
Senhor. Com isso, amontoam sobre si, cada vez mais, o juízo de Deus, o
castigo como retribuição mais que merecida por sua arrogância, vaidade e
soberba, ao se colocarem ostensivamente contra o Altíssimo, levando consigo
uma multidão de estultos igualmente desobedientes, envoltos na mesma
escuridão, dando cabo ao plano doentio de se autodestruírem, enganando-se a
si mesmos, levando às últimas consequências as atitudes mais torpes como
desagravo à soberania divina.

Satanás e seus anjos foram os primeiros derrotados, julgados e


condenados (Hb 2.14), servindo-nos, agora, de exemplo, a fim de despertar e
suscitar temor ao coração impenitente, ao homem em contumaz perturbação
da alma e que ainda não compreendeu o alcance da sua insubordinação.

Ela aponta para a “escuridão e prisões eternas”, onde a insensatez tramada


e posta em ação pelos rebeldes receberá o justo pagamento por sua ousadia
negativa e obsessão doentia. Não podemos entender “prisões eternas”
literalmente, como se Satanás e seus anjos pudessem ser enjaulados ou
amarrados com correntes. Na verdade, o inferno foi criado para eles e nele
habitarão por toda eternidade, recebendo a justa punição por seu motim.
Contudo, entendo que a expressão significa o próprio estado de rebelião, de
escuridão, em que seus espíritos se encontram, e de onde não podem jamais
sair, pois ela foi-lhes reservada por Deus, da mesma forma que o Lago de
Fogo lhes foi destinado.

Assim como eles, o homem insubmisso, desafiador e impenitente (o qual


tem o privilégio concedido por Deus de arrepender-se), sofrerá o castigo
merecido quando “daquele grande dia”, sem a chance de escapar ou desviar-
se das algemas a atá-lo em sua vontade desordenada, sendo lançado no lugar
onde “o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga” (Mc 9.44).

Finalizando a exemplificação sobre a justiça divina, que se refere a um


fato insistentemente replicado nas Escrituras, um alerta à cautela e prudência,
para não se repetir conosco o juízo ao qual os habitantes de Sodoma e
Gomorra atraíram com suas perversões e pecados, bem como as cidades
circunvizinhas[76], reitero: Deus fez chover enxofre e fogo dos céus,
destruindo-as (Gn 19.24-25). O sacrilégio delas era algo notório na região, e
Deus colocou-as por exemplo, para que todos soubessem as consequências de
uma vida dissoluta. Talvez, por isso, esse seja um fato relatado sucessivas
vezes na Escritura, como um alerta de que o homem irreconciliável e rebelde
sofrerá a pena eterna do juízo divino.

Tal qual os habitantes daquelas cidades, qualquer um que se atreva a


desconsiderar a advertência de viver uma existência santa, preferindo
entregar-se à fornicação[77] (palavra que nos remete não apenas à prostituição
carnal, mas também à idolatria como uma forma de prostituição espiritual, ao
entregar a sua alma para um impostor, alguém que não é o legítimo doador e
senhor dela, Cristo) e aos desejos da carne, encontrará o mesmo caminho.
Não a destruição através de um fogo do céu (o que não está de todo
descartado, já que o juízo pode sobrevir de várias maneiras neste mundo),
mas pela separação eterna, inexorável, de Deus, significando a mais
destrutiva e dolorosa forma de morte.

A menção a “ido após outra carne” (Judas 7) refere-se àquele homem


que não somente segue os desejos ilegítimos e afrontosos contra Deus, mas
persiste no pecado, como uma provocação, a despeito de todas as
advertências; cometendo-o como um desafio, um insulto; incitando-se a si
mesmo contra Deus, em atitude deliberadamente contenciosa, tornando-se
ainda mais detestável aos seus olhos.

No íntimo da sua alma e coração, ele se recusa, como um revel, a


qualquer obediência, desdenhando da autoridade divina e fazendo-se senhor
de si mesmo. Seria, mais ou menos, como um soldado desertor que abandona
o seu exército em meio a uma guerra. Naquele momento, ele nega a
autoridade dos seus comandantes e a possível punição é-lhe indiferente, seja
porque considera-se esperto o suficiente para escapar e não ser pego, seja por
achar que as leis e o juiz não o enquadrarão ou o alcançarão. Em qualquer
uma das situações ele é um teimoso, obstinado, em seu desejo de autonomia,
possível somente no caso de não haver nenhuma autoridade. Porém, ele sabe
que existe e tenta enganá-la, esquivar-se da sua responsabilidade, buscando
em seu ato uma isenção, a anulação do seu dever, do compromisso. Ao
contrário deste mundo, onde há chance de se safar da punição, das limitações
e frouxidão da justiça humana, em relação a Deus isso é impossível, mas,
muito mais do que isso, é intolerável ao Senhor santo e justo permitir uma
mínima injustiça em sua magistratura, em seu governo. Esta é a advertência
do apóstolo:

“Indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e


obedientes à iniquidade; tribulação e angústia sobre toda a alma do homem
que faz o mal... Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também
perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” (Rm
2.8-9,12)

Certamente nenhuma imagem que se relacione ao castigo eterno, por mais


impressionante que seja, exprimiria a realidade do que aguarda as criaturas
que perseveram na vergonhosa e infame inimizade com Deus, desafiando-o.
PARTE CINCO

A POMPA DO TRAIDOR

“E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam


a sua carne, e rejeitam a dominação, e difamam as dignidades.

Mas o Arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo,

e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de


maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda. Estes, porém,

dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem,

como animais irracionais se corrompem.”


O Nexo da Impiedade

Após o parêntese, nos versos 5 a 7, em que a igreja é lembrada da


incredulidade de muitos e da justiça divina sobre eles, com o nítido objetivo
de ressaltar o estado vil e sórdido no qual os falsos mestres encontravam-se,
em sua condição de ceticismo e consequente alvos da justiça divina, de certa
forma, chamando-os ao arrependimento, e, também, convocando irmãos,
seduzidos por suas astúcias, a mudarem a intenção dos seus corações,
contristando-os e voltando à verdade, ainda somos admoestados a não “dar
guarita”, não se entregar aos seus apelos insanos. Isso significa não ceder ou
ser engodado pelas falácias e artimanhas desses “velhacos”, antes rejeitando a
elas e ao seu ensino espúrio, pois quem os recebesse, estaria trilhando um
caminho diametralmente oposto ao da fé genuína, da graça, e do
conhecimento de Cristo, equivalendo a rejeitá-lo tal qual um idólatra, pagão,
tornando-se em um traidor no mesmo nível de apostasia dos falsos mestres,
igualando-se na filiação espúria àqueles que têm por pai as trevas.

Em tão poucos versos, soa estrepitoso o alerta de que o perigo é iminente


e a atitude de condescendência, por mais insignificante e aparentemente
inócua, representará um grande risco, pois um pouco de fermento pode,
rapidamente, fazer com que toda a massa seja levedada (1Co 1.6). Como um
abismo chama outro abismo, um erro necessitará de outro equívoco, e mais
outro, para subsistir, para justificar-se, para estabelecer-se, culminando na
corrupção de toda a sã doutrina e em sua explicita negação. Além de os seus
defensores, ainda que alguém se considere “um mero simpatizante”, estarem
sob o castigo, a ira divina, aqueles que não temeram a ameaça e deixaram-se
conduzir por caminhos tortuosos, adentram a mais densa escuridão da alma e
a separação inexorável de Deus. É possível que se voltem para a luz, mas
como o apóstolo nos diz, poderiam aqueles iluminados uma vez serem
novamente iluminados? A resposta é não! Como ele mesmo esclarece:
“Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e
provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo,
E provaram a boa palavra de Deus, e os poderes do século futuro,
E recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim,
quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério”
(Hb 6.4-6)

No verso 8, ele retorna à exortação, voltando-se diretamente ao grupo de


falsos profetas, indicando que eles se encontravam no mesmo estado de
entorpecimento com o qual os incrédulos, os sodomitas e os anjos caídos se
deparavam.

A expressão “adormecidos” remete-nos à inconsciência, ao


desconhecimento da realidade e à irresponsabilidade. Mas em relação a quê?

Certamente, não estou a dizer que os seus atos eram inconscientes, no


sentido de não saberem o que faziam, mas faziam-no porque sabiam sê-los
afrontosos a Deus e vergonhosos à igreja. Não pelo fato de agirem
inconscientemente, mas por terem uma consciência corrompida, arruinada e
má, seus pensamentos e vontade dirigiram-se para o pecado obstinado,
resistindo aos desígnios divinos, desprezando a igreja e os seus ensinamentos.
O que desejavam, em seu íntimo, era destruir os irmãos, levando-os ao
engano, tornando-os arredios à autoridade divina e eclesial, uma leva de
insubmissos, orgulhosos e maldizentes. Eles não eram inocentes ou pobres
coitados que não sabiam o que faziam; não, não eram! Como homens e
mulheres infames, degradados moral e espiritualmente, caídos na fossa mais
profunda e malcheirosa, entregues aos seus ventres, à sua carnalidade, ao
pecado desenfreado e a todo o tipo de males que se possa imaginar, o que
faria até mesmo o ímpio envergonhar-se de sua conduta, faltava-lhes o nexo
da santidade. A imoralidade e perversão eram o único “cântico” a entoar em
seus ouvidos contaminados, a única melodia fúnebre distinguível,
embotando-lhes a alma, tal qual o viciado estupidifica-se nas drogas,
envenenando-se, destruindo-se, mas não sem levar consigo a dor e o
sofrimento aos mais íntimos, sejam parentes ou amigos, e, por vezes,
desconhecidos, até em forma de roubos e assassinatos.

Tiago nos adverte, em sua carta, que cada um é tentado por sua própria
concupiscência, que trabalha na mente e, estando concebida, dá à luz o
pecado, o qual, consumado, gera a morte (Tg 1.14-15).

De igual forma, Judas nos fala do mesmo processo em que as mentes


adormecidas contaminavam a sua carne e, sedadas, entorpecidas,
entregavam-se às práticas mais abomináveis diante de Deus. Por estarem
envoltos na estupidez, por serem cegos espirituais, por ouvirem apenas a voz
da própria natureza (e os cochichos imorais do maligno), buscavam pecar
sempre mais livremente, não se sujeitando a qualquer jugo ou autoridade, a
não ser ao pecado que os tinha presos em rédeas curtas. Os seus destinos
caminhariam no sentido de alcançar o mesmo resultado daqueles citados
anteriormente: a perdição completa, a condenação irrevogável, o fim de
sofrimento e abandono, debaixo da justiça e ira divinas.

A reprimenda quanto ao cuidado com os falsos mestres perpassa toda a


Bíblia, demonstrando o trabalho incessante e tenaz do inimigo em desvirtuar
a verdade, levando o incauto à destruição. Um dos exemplos mais claros foi-
nos dado pelos fariseus e escribas, homens de grande conhecimento
escriturístico, mas que, seduzidos pelo orgulho e pela soberba, levaram a si
mesmos, e boa parte do povo, à rejeição da palavra de Deus.

Sendo assim, farei uma pequena análise do texto de João 10.22 a 42,
averiguando uma forma muito comum de incredulidade, nos tempos do
ministério de Cristo, em Israel, o qual complementarei na seção IX, deste
livro, citando outras duas formas de ceticismo confundidas com a fé genuína.
Vamos, primeiro, ao trecho já citado, transcrito por completo para facilitar a
minha argumentação:

“E em Jerusalém havia a festa da dedicação, e era inverno. E Jesus


andava passeando no templo, no alpendre de Salomão. Rodearam-no, pois,
os judeus, e disseram-lhe: Até quando terás a nossa alma suspensa? Se tu és
o Cristo, dize-nos abertamente. Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e
não o credes. As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de
mim. Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo
tenho dito. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me
seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as
arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e
ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um. Os
judeus pegaram então outra vez em pedras para o apedrejar. Respondeu-lhes
Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por
qual destas obras me apedrejais? Os judeus responderam, dizendo-lhe: Não
te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu
homem, te fazes Deus a ti mesmo. Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito na
vossa lei: Eu disse: Sois deuses? Pois, se chamou-os deuses àqueles a quem
a palavra de Deus foi dirigida, e a Escritura não pode ser anulada, àquele a
quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque
disse: Sou Filho de Deus?
Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis. Mas, se as faço, e não
credes em mim, crede nas obras; para que conheçais e acrediteis que o Pai
está em mim e eu nele. Procuravam, pois, prendê-lo outra vez, mas ele
escapou-se de suas mãos, e retirou-se outra vez para além do Jordão, para o
lugar onde João tinha primeiramente batizado; e ali ficou. E muitos iam ter
com ele, e diziam: Na verdade João não fez sinal algum, mas tudo quanto
João disse deste era verdade. E muitos ali creram nele.”

Esta segunda seção do capítulo dez é a ratificação, o complemento de


tudo apresentado na primeira seção, versos de 1 a 21. Mais uma vez, estamos
diante da incredulidade dos judeus, os quais resistiam tenazes em negar a
Cristo, como Messias e Deus, acercando-se dele, inquirindo-o, irreverentes e
céticos (v. 24). A resposta do Senhor é direta, mostrando-lhes quão cegos
estão diante de todos os prodígios que realizou, os quais testemunhavam a
sua filiação com o Pai, não um mero homem de ideias e atitudes exorbitantes
e insanas, mas o Filho de Deus, o Verbo encarnado, Senhor de tudo e de
todos.

A descrença dos seus inquiridores era fruto da arrogância a revelar a ruína


de todo o sistema religioso judaico, e, por conseguinte, de seus espíritos
acalentados pelo pecado e engano, no qual os seus olhos eram mantidos
cerrados para a verdade, para a insondável revelação, tão distante de seus
corações, expondo-lhes o profundo estado de perdição, de ignorância das
coisas divinas. Na célere condenação em que trilhavam, imaginavam-se às
portas do paraíso celestial, mas estavam diante de algo não compreensível no
estado de incredulidade em que se encontravam. Diante disso, apontou-lhes o
Senhor as suas reais condições:
“Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo
tenho dito” (v. 26).

Não obstante, para o homem natural, a verdade jamais penetrará em seus


ouvidos moucos e corações impenitentes, por mais que se lhe repita, desenhe
e insista em fazê-lo perceber o abismo a separá-lo de uma vida agradável a
Deus. A menos que o Espírito Santo aja regenerando, dando-lhes o novo
nascimento, transformando o natural em espiritual, chamando-os à realidade
(agora possível de ser vislumbrada, admirada e reconhecida), estarão
aprisionados no pecado... As vendas são-lhes tiradas, tornando concebível o
que antes era intolerável, permeado pela confusão, pela desordem da alma, de
modo a se tornarem um fruto direto da graça e misericórdia de Deus[78].

Prova disso é o fato de Jesus, por diversas vezes, afirmar-lhes, com


contundência, a sua divindade (Jo 5.36), assim como, também, a condenação
iminente à qual estariam expostos, se não houvesse transformação (Jo 5.37-
43). A consequência do ceticismo seria o juízo, este confirmando a
incredulidade de pessoas que permaneceram duras, inflexíveis, recalcitrantes,
na atitude de rejeição ao Filho, e, ao recusá-lo, negavam o próprio Deus[79].

Outro ponto é que, caso quisesse, Cristo poderia abrir-lhes os ouvidos,


curar-lhes os corações e mentes, tornando-os ovelhas do seu aprisco. Mas por
que não o fez?

Porque não eram do seu rebanho:

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me


seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as
arrebatará da minha mão” (v.27-28).

Quão maravilhosa é a salvação! Como ela é plenamente de Deus, para


que nenhuma carne se glorie e apenas ele seja exaltado! Como o Senhor é
poderoso em misericórdia e graça para salvar e sustentar, preservando-as em
santidade, a redenção de suas ovelhas. Ele as conhece. O Senhor não
conhecerá as suas ovelhas, como se o tempo fosse a mola mestra na qual se
dará a aplicação do seu amor eterno por elas, mas ele sempre as conheceu,
muito antes de tudo vir a ser criado, de o seu plano infalível ser posto em
prática. De modo perpétuo, não somente conheceu, mas também deu-lhes a
vida eterna:

“Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste,
porque são teus” (Jo 17.9).

Não é uma possibilidade, mas uma certeza, inexorável, não podendo ser
alterada, anulada, ou extinta por qualquer força ou vontade, posto não haver
força ou vontade superiores ou condicionadoras de Deus. Cristo não nos deu
a possibilidade de sermos salvos, de virmos a ser salvos, num determinado
momento em que quiséssemos, caso quiséssemos, ou de continuarmos
perdidos, caso quiséssemos, porque sempre o queremos. Não há nada em nós
capaz de mudar isso, o fato de haver em nossas entranhas o mais ardoroso
desejo de mantermo-nos, para sempre, acorrentados ao desígnio de afastados
de Deus, conservar sobre o pescoço o cepo da condenação.

Não! Cristo nos salva e nos mantêm salvos; não por algum mérito
humano, mas por sua única e exclusiva virtude, a qual resumiu:

“Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira


nenhuma o lançarei fora” (Jo 6.37).

A obra é toda e por completo dele; nem uma mísera e infinitesimal


virtude é alcançada pelo homem ou pode por ele ser advogada; não há nada
nele, entretanto há tudo em Cristo. Por isso, o Senhor lançava-lhes em rosto a
condenação de suas almas, a perdição eterna, a qual é definitiva também, não
havendo possibilidade de se reverter, como alegam alguns insanos, seja pela
purificação de muitos após a morte, algo impossível e antibíblico, seja pela
absolvição de todos, neste mundo:

“Aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o
juízo” (Hb 9.27).

Ao assegurar a condição do eleito, não pelo esforço de muitos, mas de um


apenas, através da graça, Cristo revelou a unidade entre o Pai e o Filho, de
como são um (v.30), ambos garantindo a salvação. A segurança não poderia
estar em outras mãos que não sejam as do Deus Pai, Deus Filho e Deus
Espírito Santo; ninguém, nem nada, nos arrebatará delas; ninguém pode
substituir a salvação ou torná-la menos eficaz.
Não é de se estranhar que, diante de tudo dito pelo Senhor à assistência
judaica, os seus corações se endureceram ainda mais, não lhes sendo
suficiente acusá-lo de blasfêmia, mas, como filhos do diabo, alimentavam o
desejo infame de matá-lo (v.31-33). Tomaram de pedras para atirarem-nas,
como fizeram outra vez (Jo 8.59). E por que chegaram a essa atitude?

Os judeus, erroneamente, acreditavam que Jesus blasfemava contra Deus,


ao fazer-se como Deus, garantindo, portanto, em cumprimento a Levítico
24.16, a punição de morte por apedrejamento. Ora, não foram eles mesmos a
perguntar-lhe se era o Cristo ou não? Agora, após ouvirem a resposta
afirmativa de que era, não se furtaram a empreender o plano acalentado de
executá-lo[80].

Muitos dizem não haver Jesus jamais se proclamado Deus; fico a me


perguntar se eles simplesmente não leram ou ignoraram as várias passagens
bíblicas onde sua deidade é não somente confirmada, mas revelada, seja por
sua proclamação, seja por seus feitos. No mínimo, podemos chamar os
detratores de mentirosos e néscios grosseiros, mas eles se enquadrariam
melhor na condição de usurpadores, de difamadores, de fraudadores da
verdade, tão inimigos de Deus quanto o próprio Satanás.

Iludem-se crendo ser ele simplesmente um iluminado, um mestre, um


guru (algo que soa respeitoso nos lábios, mas trai a condição perversa, de
gozo demoníaco, dos seus corações), dentre tantos outros assim reputados. À
luz das Escrituras é fragrante e patente a sua condição de Deus Filho,
possuindo todos os atributos do ser divino, não por imputação, como alguns
tolos asseveram, mas em essência, por sua natureza, comunicada eternamente
com o Pai e o Espírito. Não há como o homem com alma e espírito
quebrantados fugir à realidade da sua condição divina: a onisciência,
onipresença e onipotência; ele é justo (1Pe 3.18), santo (Hb 7.26), sem
pecado (Hb 4.15)... Somente ele é capaz de dar-nos a salvação (Jn 2.9; At
4.12; Rm 1.16; 2Tm 2.10), entre outros atributos menos questionáveis por
parte dos incrédulos, mas igualmente compartilhados pelas três pessoas da
Trindade.

Há, ainda, de se entender a condição encarnada do Senhor, cumprindo-se


a profecia de Isaías 53, onde o Cristo é descrito como o “Servo Sofredor”, o
qual veio realizar, fiel e em plenitude, a vontade do Pai (Jo 6.38), culminando
com o seu sacrifício na cruz do Calvário e, três dias depois, a sua gloriosa
ressurreição.

Em resposta à acusação falsa de blasfemo, o Senhor devolveu-lhes, em


rosto, o próprio ceticismo com o qual o acusavam, citando a lei:

“‘Sois deuses’? (Sl 82.6); Pois, se a lei chamou deuses àqueles a quem a
palavra de Deus foi dirigida, e a Escritura não pode ser anulada, aquele a
quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque
disse: Sou Filho de Deus?” (v.34-35).

Uma pequena explicação sobre o significado do Salmo 82.6: ele nos


remete não ao fato de a Escritura nos equiparar a deuses, no sentido de
termos poderes ou funções divinas, sendo que essa interpretação resultaria em
um grande equívoco. Não somos deuses, nem o seremos. A alusão é feita ao
próprio Deus como o juiz supremo, cuja soberania está sobre tudo e todos, e
que estabeleceu, designou, juízes, magistrados, no meio do povo de Israel, a
fim de julgar com justiça os conflitos entre os homens (Dt 1.16-17). São,
como Paulo afirmou, seus ministros para fazerem o bem e, se fizerem o bem,
não poderão ser injustos. Ao contrário deles, Cristo admoesta os seus
inquiridores quanto à sentença que desejam cumprir, ao acusá-lo, advertindo-
os de que agem injustamente, pois aparentam cumprir a lei ao querer matá-lo
com pedras, porém, descumprem-na ao julgá-lo sem equidade, pelo ódio
injustificado, e o desejo maligno de condenar o inocente. Agindo assim,
pecam contra o próprio Deus. Ora, se eles estavam sujeitos às decisões dos
magistrados, chamados deuses, como poderiam acusar de blasfemo o Filho
de Deus? Ao fazê-lo, incorrem em outra transgressão, pois não apenas negam
a sua filiação, mas tencionam assassiná-lo.

Como na parábola do homem e da vinha (Mt 21.33-46), na qual o


herdeiro (uma tipificação do Cristo) foi morto pelos arrendadores (os
incrédulos e inimigos de Deus), os fariseus e os sacerdotes estavam dispostos
a cometerem a mesma barbaridade. Ao levarem-na a cabo, desprezavam a
autoridade suprema daquele a estabelecer os “deuses”, sendo o Unigênito do
Pai, sendo um com ele, por toda a eternidade.

Nesse ínterim, Cristo, de acusado, tornou-se juiz daqueles homens, ao


apontar-lhes incisivamente os seus pecados; porque, como disse:
“Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas palavras, já tem
quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último
dia” (Jo 12.48).

A lei advogada pelos judeus, com o fim de acusá-lo, era a mesma a


condená-los, a voltar-se contra eles; ao alegarem buscar a justiça, agiam
segundo os seus corações impenitentes, distorcendo a verdade com o
propósito de alcançar os seus perversos e ímpios intentos, rejeitando o Santo,
Perfeito e Justo Deus.

Os judeus eram testemunhas oculares das obras que Cristo realizou e por
intermédio delas deveriam reconhecer que o Pai está no Filho, e o Filho no
Pai, numa prova cabal da unidade divina, da divindade e sobrenaturalidade do
ser de Cristo (v.38-39), e de que ninguém, a não ser ele, poderia realizar as
obras de Deus. No entanto, em sua rebelião exasperante, procuravam matá-lo
a todo custo. A obstinação dos seus corações em agir iniquamente
confirmava a sentença de Marcos 4.12:

“Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não


entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados”.

Em João 12.40, Jesus citou Isaías 6.10, revelando a impossibilidade


humana de alcançar a Deus, face a sua corrupção natural:

“Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração, a fim de que não


vejam com os olhos, e compreendam no coração, e se convertam, e eu os
cure. Isaías disse isto quando viu a sua glória e falou dele (de Cristo)” –
grifo meu.

A soberania de Deus sujeita a si todas as coisas, segundo o seu santo e


perfeito decreto, pelo qual, através da providência, tudo veio a ser, a existir,
do nada. É possível algo escapar-lhe ou realizar-se alheio à sua vontade? Não
lhe é tudo que há nos céus, na terra, nas esferas físicas e espirituais,
submisso? Sujeito ao seu conselho e propósito?

Os judeus, como muitos hoje em dia (não somente judeus, mas a massa
humana quase unânime), estavam cegos, surdos e em profundas trevas.
Inflexíveis em seus pecados, insistentes em sua rebeldia, trazendo sobre si a
ira vindoura e a condenação eterna ao inferno, não descansaram enquanto não
mataram o Justo.

Porém, aqueles aos quais o Filho revelou o Pai, entregues pelo Pai ao
Filho[81], esses creram no Filho (v. 42), receberam a salvação e participarão
da glória eterna, dada pelo Senhor, assim como recebida do Pai. Se há
alguém, o único, a revelar a face divina aos homens, este é Cristo, pois:

“Ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o


quiser revelar” (Mt 11.27)

Como Pedro disse:

“Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os


vossos pecados, e para que venham assim os tempos do refrigério pela
presença do Senhor” (At 3.19)

Porque é chegado o Reino dos Céus (Mt 3.2), e quem tem olhos para ver,
veja e creia, ao contrário daqueles acometidos pelo ceticismo, cujas almas
navegam as águas turvas e bravias da oposição e descrença a Deus[82].
A Realidade do Pecado

Notável é o episódio de incredulidade do Faraó, nos tempos de Moisés,


quando Israel estava tomada pela escravidão e cativa dos egípcios.
Posteriormente, o próprio Israel se viu envolto na incredulidade, a qual fez
perecer muitas almas no deserto. Contudo, vou me ater à narração sobre
Faraó, e deixar a incredulidade do povo de Deus para outra oportunidade, se
assim o Senhor quiser.

Primeiro, devo fazer uma ressalva: durante muito tempo, entendi a


atuação divina quase como a de um manipulador, alguém que controlava as
suas criaturas ao seu bel-prazer, sem que essas mesmas criaturas pudessem
fazer nada a não ser obedecê-lo, mesmo em sua rebelião. Hoje, contudo,
depois de meditar bastante sobre a questão, não é possível entender o homem
como uma marionete nas mãos de Deus, o que pode me trazer a desaprovação
de muitos, e a incompreensão de outros, diante da minha posição anterior, de
um ferrenho apologista do determinismo bíblico[83], agora feito em um
vacilante compatibilista[84], ou outra alcunha que, porventura, queiram me
impingir.

Apesar de ter o seu coração endurecido por Deus, Faraó também queria
endurecê-lo ou, ao menos, viu no endurecimento uma acolhida para a sua
atitude pecaminosa, como se ele deitasse em uma cama de pregos e se
refestelasse. Não há, na verdade, uma colaboração do homem com Deus, não
no sentido de o homem fazê-lo independente da vontade divina, de alterar o
decreto eterno[85] ou acrescentar dados ou circunstâncias não abarcadas no
plano divino; porém, não há como não reconhecer o fato de o homem querer,
desejar, ansiar e laborar, com intensidade para a causa do pecado, da
inimizade com o Criador.

Ainda não entendo bem como a coisa funciona, nem sei se entenderei,
mas, de alguma maneira inexplicável (ao menos, no momento), Deus
endureceu ativamente o coração de Faraó que, contudo, ansiou endurecer-se
também. Observem que se tratava-se da sua vontade, não do livre-arbítrio;
não façam confusão, por favor. O endurecimento do seu coração foi uma
ação humana, ordenado pela vontade divina, na qual o homem teve manifesta
a liberdade da sua vontade, de fazer e produzir aquilo que desejava, ao qual
estava inclinado por sua natureza. Não utilizo, em momento algum, o termo
liberdade no sentido de independência ou autonomismo de Deus, mas trato-o
como uma ação livre dentro de uma vontade cativa, sujeita à sua coação, ao
impulsioná-la para produzir aquilo que a vontade aprisionada tenciona e
almeja, satisfazer à carnalidade, sem qualquer alternativa a não ser fazê-lo.

Ao pecar, como consequência do endurecimento divino, ele alegrou-se e


sentiu o prazer que todo pecado traz ao pecador, ainda que momentâneo, sem
nenhum arrependimento ou retração da sua transgressão. Por experiência
própria ao pecar, sinto-me alegre, ainda que por ínfimos segundos, vindo
logo o arrependimento e a certeza de tê-lo cometido primeira e
essencialmente contra Deus. Logo, não há como não me alegrar, nem pecar,
se minha vontade, naquele momento, não estivesse sob a volição, a
determinação do pecado a subjugá-la, direcionando-a para o fim proposto de
transgredir contra o bem supremo, Deus. Isso não tem nada a ver com o
compatibilismo, do qual podem me acusar, e o determinismo, do qual me
considerarão traidor, pouco me importando o rótulo, mas com a realidade
pela qual sou responsável quando peco, usufruindo da graça quando não
peco, mas sabendo que, seja no pecado ou na resistência ao pecado, não há
casualidade, contingência ou aleatoriedade em relação a Deus. De maneira
maravilhosa, sei que todos os meus atos foram decretados na eternidade e que
o seu cumprimento se dá segundo a providência divina, mesmo sabendo que
o mal não desejado é o que faço, assim como o bem ansiado nem sempre se
realiza. Porém, nada disso acontece sem a certeza de estar Deus, segundo o
seu santo e perfeito propósito, fazendo com que todas as coisas colaborem
para o meu bem, segundo o seu santo e perfeito propósito (Rm 8.28).

Afastando-me das explicações e voltando ao Faraó, não há como não


reconhecer a realidade do pecado como algo desejado e desejável na sua vida
e de qualquer pecador. Trata-se de uma realidade inexplicável, por mais que
se gastem palavras, na qual Deus planeja e executa, enquanto a vontade
humana não é violentada ou constrangida, mas acomodada em sua própria
realização.

É o norte apontado pelo trecho de Êxodo 7.3-5, onde o Senhor diz:

“Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó, e multiplicarei na terra do


Egito os meus sinais e as minhas maravilhas. Faraó, pois, não vos ouvirá; e
eu porei minha mão sobre o Egito, e tirarei meus exércitos, meu povo, os
filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes juízos. Então os egípcios
saberão que eu sou o Senhor, quando estender a minha mão sobre o Egito, e
tirar os filhos de Israel do meio deles”.

Ouvi muitas declarações sobre estes versículos. Algumas, patéticas.


Outras, nem tanto. Mas, de certa forma, há sempre uma disposição em não
imputar a Deus o endurecimento do coração de Faraó; como se isso fosse
uma afronta ou algo impossível. Não é, contudo, o que os versos revelam,
nem o que a Bíblia afirma. Farei uma crítica rápida a dois conceitos, entre os
mais aceitos pelos cristãos, que se apresentam inofensivos, mas são altamente
danosos para o conhecimento divino, sugerindo um “deus” não apenas alheio
às Escrituras, mas que se opõe flagrantemente a ela, e com o qual não
podemos concordar, pelo fato de não ser ele o Deus revelado, providente,
interveniente e soberano, pelo qual o mundo e a história são guiados,
conservados e o servem.

CONCEITO UM

Há os que não afirmam o endurecimento, mas o pré-conhecimento divino


de que Faraó se endureceria, num ato livre, de uma liberdade alheia e
autônoma a Deus. Ora, o pré-conhecimento é conhecer de antemão, ser
íntimo, mas a ideia defendida por esse conceito é de antevisão, de um olhar
no futuro, em uma fração de tempo, e o vislumbre de algo a acontecer. Neste
caso, Deus seria um vidente, um oráculo, a esfregar a sua bola de cristal e
predizer um ato ou fato sem qualquer envolvimento ou ingerência, em um
tipo de isenção a denunciar a sua omissão, no mínimo, e a sua incapacidade e
debilidade, no máximo.
Não há como, nesse caso, imputar a Deus algum tipo de mentira ou
engano, ou a falsa declaração revelada, porque suas palavras são textuais,
imperativas:

“Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó”.

O agente não é o monarca egípcio, mas Deus. O verbo é transitivo direto,


demonstrando uma ação objetiva e deliberada do sujeito, Deus. O coração de
Faraó sofre a ação de endurecimento, não havendo nada referente a auto
endurecimento; Faraó é passivo diante da preordenação divina, sem escolhas,
nem opções, diante do agir de Deus.

Com isso, alguém pode dizer: “Se Faraó não podia resistir à vontade
suprema, logo não pode lhe ser imputado nenhum pecado, pois não havia
como ele sair da ‘arapuca’ montada por Deus. Então, no dizer do próprio
Senhor, foi ele quem ‘forçou’ Faraó ao pecado, levando-o ao endurecimento
e a rejeitar as ofertas de Moisés”.

Parece um labirinto, onde se está perdido e as chances de encontrar a


saída diminuem pouco a pouco. Não há como desprezar a complexidade da
situação, a qual muitos, de maneira reducionista, tentam explicar, olhando-a
tão de perto que têm o foco comprometido, distorcido, não enxergando com a
devida clareza, incapazes de alcançar a realidade pela imagem sem nitidez.
Muitos teólogos avançam por esse caminho sem perceberem que estão a
correr em um terreno irregular e sem reconhecerem os sucessivos tombos
durante o trajeto. Alguns calvinistas (como eu, no passado), tratavam Deus
como um déspota, um tirano, que não somente fazia a sua vontade, mas a
impunha forçosamente sobre suas criaturas. Nesse caso, alegar ser dele a
autoria divina do mal e do pecado, era a arma dos detratores do determinismo
ou calvinismo extremado.

Por outro lado, qualquer entendimento que não resguarde a soberania


divina, sua imutabilidade, seu decreto, sua providência, enfim, sua natureza e
ação ativa na Criação, será como afastar-se de Deus e dos eventos, mantendo-
se a uma distância impossível de ver com transparência e nitidez. Assim, o
argumento pecará pela insuficiência, pelo esvaziamento tal de Deus,
sobrando apenas um arremedo, ininteligível, ou um estereótipo de quem ele
verdadeiramente é. A maioria se coloca tão confortavelmente nesse quadro,
ao preservar por todos os meios a autonomia humana, em um grau de
independência incompatível com a Bíblia e a ideia de um Deus pessoal e
Todo-poderoso, que a verdade não parece assombrá-los, nem tirá-los da
comodidade sem embaraços com os seus pares.

Em ambos os casos, acontece a distorção, a imagem divina sendo


inadequadamente explicada a partir de homens cuja visão é refrativa. Muitas
coisas não podem ser explicadas, por maior esforço empreendido na solução,
bastando, ao crente, render-se à verdade revelada. Em muitas situações, é
melhor não tentar explicar, mas aceitar pura e inexoravelmente a verdade, a
qual é possível ser apreendida, contudo, nem sempre elucidada. Sei que faz
parte da natureza humana detalhar a realidade e analisá-la, entretanto, nem
sempre será possível. Há coisas diante das quais devemos apenas nos curvar
humildemente, admitindo-as, pelo seu próprio grau de superioridade em
relação à nossa inferioridade ou ignorância.

A revelação nos assegura duas verdades: Deus é soberano e nada


acontece alheio à sua vontade, antes ela se manifesta em tudo, em todos,
sempre. A outra é a de ser o homem responsável por seus atos, não podendo,
jamais, ser inocentado por um delito cometido. Duas verdades aparentemente
antagônicas, o chamado paradoxo ou antinomia, que, na verdade, não passa
de outra construção humana, no campo da lógica, para tentar explicar eventos
inexplicáveis, sobrenaturais. Alguns apontarão para a deficiência do
paradoxo, e o fato de Deus não ser um Deus de paradoxos, mas um Deus
lógico; no entanto, em que medida o homem pode aquilatar a lógica divina?
A partir da sua própria lógica? Se o homem é um miserável, e pobre, e nu,
incapaz de respirar por si mesmo, de abrir os olhos por si mesmo, como pode
advogar uma lógica divina a partir da lógica humana?

Outro ainda dirá: “Deus não mente!”. No que está coberto de razão.
Retrucarei, contudo, onde há mentira? Quer dizer que, ao não
compreendermos suficientemente a verdade, não encontrando uma solução
adequada, por nossa exclusiva incapacidade, Deus então está a mentir? A
Escritura está a mentir? Ou, é preferível, nesse caso, se criar uma resposta
falaciosa e em flagrante oposição ao que foi revelado, a fim de se pôr termo à
questão? Mesmo que a resposta esteja a anos-luz da verdade? E se esteja a
construir um outro “Deus”? A partir de uma solução que satisfaça apenas à
insignificância e o orgulho humanos?

Quando se chega à conclusão de que Deus é o autor do mal e do pecado,


em um arroubo extremo de defender a sua soberania, enquanto um outro
afirma que Deus não tem nada a ver com determinado evento, temos dois
polos antagônicos e díspares a revelar um mesmo problema: a
(in)competência do homem na razão e elucidação dos enigmas e mistérios
feitos ocultos por Deus e uma tentativa infrutífera de desvendá-los.

Não estou a dizer que Deus nos ocultou o que revelou, mas nem tudo
revelado foi-nos explicado; como homens de fé, deveríamos apenas
reconhecer os enigmas como verdadeiros, posto provirem da boca divina, não
sendo mais nada necessário para acolhê-los. Este é um grande problema:
diante de um dilema insolúvel, ao invés de aceitá-lo, gasta-se energia e tempo
com explicações que não o justificam, criando um degrau ou degraus frágeis,
facilmente quebráveis, em uma escada instável, pronta a ruir, que não
sustenta a si mesma nem à ideia que tenta amparar[86].

Ao tentar uma explicação fora da explicação de Deus, o homem acaba por


tomar sobre si a áurea de intérprete divino, de autoridade, sobre algo dado por
fé, e a ser aceito pela fé, não podendo ser rejeitado pela fé; mas, em algum
momento, sentiu-se, por uma falha cognitiva, a necessidade de racionalizar
algo que está além da possibilidade humana de compreender todos os
desígnios divinos e explicá-los. Acaba-se por provar o alto grau de estultice
da mente, capaz de nos afastar mais e mais da verdade, na medida em que
damos importância exagerada às ilações, aos raciocínios supostamente
válidos, quando legítima é apenas a palavra de Deus, entregue por ele
mesmo, para orientação, guia e conhecimento da verdade, e não a dissecação
de uma mensagem morta, por um legista semimorto. Compreenda essa
analogia levando em consideração que o homem regenerado, ainda que vivo
para Deus, guarda alguns aspectos do velho homem, sob os efeitos noéticos
do pecado e da Queda, aos quais ainda não está completamente imune, e, por
isso, deve ser prudente ao analisar formas tão superiores, muito além da sua
capacidade de compreensão, quanto mais de “autópsia”.

Não me estenderei mais sobre o tema, no momento, desejando debruçar-


me sobre ele em um futuro próximo, e em outro lugar, se assim o Senhor o
quiser. Deixo, entretanto, como advertência geral, a todos os sabichões de
plantão: cuidado! Pois eu mesmo me vejo, olhando para trás, um homem
soberbo e presunçoso, capaz de proferir barbaridades contra o Altíssimo, em
nome dele mesmo, mas falando apenas por mim. Graças a ele, temos o
perdão, e nossa ignorância não é levada em conta[87]. Contudo, tem-se de
parar e refletir nas complexidades e consequências, não apenas para nós, em
nossa relação com o Senhor, mas com os outros, expostos à nossa loucura e
vaidade.

Voltando à análise inicial, ocorreu de haver uma defesa intransigente ao


famigerado livre-arbítrio, como a solução para o dilema da incredulidade do
Faraó. Mesmo diante de todos os portentosos feitos de Deus, pelas mãos de
Moisés, o seu endurecimento (o cético é um insensível, por natureza) tem de
ser pela vontade livre de Faraó, não se admitindo outra resposta. Mas como
aconteceria, nos termos em que Deus nos apresenta o fato? Estaria ele
escondendo algo? Ou estar-se-ia a ler além do escrito e não revelado?

Pesquei essa pérola da ilogicidade e irracionalidade bíblicas, em um


estudo sobre o assunto: “Deus nos vê ontem, hoje e amanhã; logo, ele sabe
que caminhos tomará. Contudo, ele se autolimita para que nós exerçamos
integralmente nosso livre-arbítrio. Nós nos predestinamos, quando aceitamos
ou recusamos seu convite”[88] (grifos meus).

Não se tem muito o que comentar, a não ser o fato do autor exprimir-se
com uma sucessão de conceitos equivocados e antibíblicos, com noções
alheias à fé cristã, baseando-se, mais uma vez, na crença da superioridade da
razão, que se mostra, especificamente nesse caso, em uma prova de
irracionalidade, e, mais do que isso, de uma espiritualidade capenga e
vacilante, reflexo da incredulidade, a mesma a destronar e aniquilar Faraó do
Egito.

Não são apenas contraditórias e incoerentes as considerações desse


teólogo, antes é a rejeição à verdade, envergando uma indumentária cristã,
mas despindo-se da essência e realidade intrínsecas a ela, de forma a
permanecer nu quando se imagina vestido. O simples conceito de
“autolimitação divina” é suficiente para arrolar como blasfemo todo o dito,
fazendo ruir, igual a um castelo de areia, a sua pretensão à onisciência, em
nível tal que se julga capacitado a escrutinar a mente divina. É interessante
notar que, no Éden, enquanto Adão e Eva contentaram-se em obedecer à
ordem divina, cujo motivo não lhes foi explicado, nada lhes foi dito, nem
houve qualquer contestação do casal, nada lhes aconteceu. Porém, ao
enveredarem-se pelas trilhas tortuosas da imaginação, ao crerem na
capacidade de por si mesmos decifrarem os motivos divinos para impor-lhes
uma ordem (usando a mesma razão falível e capenga que dá a muitos a
certeza de serem esquadrinhadores da mente do Criador), a coisa desandou; e
não é preciso repetir as consequências advindas.

Sem contar o absurdo da afirmação: “Nós nos predestinamos, quando


aceitamos ou recusamos seu convite”, implicando em uma
autopredestinação, na qual, como o teólogo diz, “nós nos predestinamos”,
significando pontualmente que toda a obra de eleição, salvação e regeneração
se dá a partir da escolha humana e em seus próprios méritos, negando a ação
divina, rejeitando a palavra revelada e interpretando miserável e
criminosamente o texto bíblico; o que mais me chamou a atenção, e de certa
forma, o mais engraçado, para não dizer trágico, é o referido teólogo estar a
explicar exatamente o trecho de Êxodos 7.3-5; no qual, em algum momento,
ele encontra referências apontando para a autolimitação divina. Para o livre-
arbítrio humano. Para um convite divino. Para a aceitação ou recusa do
homem como prevalente à vontade soberanamente divina. Deus, por acaso,
disse: “Como vi que Faraó endurecerá o seu coração, vou endurecê-lo (sic),
e assim multiplicarei os meus sinais e as minhas maravilhas sobre a terra do
Egito”?

Afinal, os sinais e as maravilhas são de Deus ou das obras humanas que


ele vê, não como algo distante e provável pelas vistas, mas conhecido e
realizado por sua vontade? E, como crer que o Deus bíblico pode, diante do
que vê, escolher seus caminhos? Quem afinal manda no pedaço? A criatura
ou o Criador? Deus não é dono do seu nariz? Ou as atitudes humanas
implicarão na decisão divina? Uma decisão subserviente e limitada à própria
restrição humana? À própria imperfeição?

Sendo o homem tolo, e todos o são em relação a Deus e suas realizações,


é possível imaginá-lo detentor dos atributos de sabedoria, prudência e
moralidade correta, suficientes para reconhecer a verdade enquanto está
dominado, controlado, por sua natureza caída e pecaminosa? Ao homem
natural[89], aquele não alcançado pela graça, não lhe é permitido, pois é-lhe
impossível a escolha de aproximar-se do Criador quando o seu coração milita
insistente e loucamente a favor da transgressão, movido pelo sentimento de
ódio a Deus, em direção contrária à sua vontade santa e perfeita.

Ora, todos os seres estão condicionados à sua natureza. Uma cobra não
voa, ainda que possa pular de um galho de árvore ao de outra árvore,
imitando um voo; um peixe não voa, ainda que possa elevar-se acima das
águas, imitando um voo; uma toupeira não voa, e nem pode imitar um voo;
então, o homem caído, contaminado pelo pecado até o reduto mais
desconhecido da alma, cuja existência, por meio de seus pensamentos,
atitudes e decisões, opõe-se deliberadamente contra Deus, poderia decidir a
favor da verdade? A favor de tudo aquilo a causar-lhe repulsa? Como poderia
o Senhor valer-se das decisões desse homem para traçar o seu plano? Seria o
mesmo que dar funções a um chimpanzé epilético de projetar um edifício e
entregar os seus rabiscos desconexos a um engenheiro para dar cabo da obra.
O engenheiro, no mínimo, se rirá dos planos do símio.

Da mesma forma, imagino Deus rindo-se da pretensão humana de


imaginá-lo guiado pela demência e insensatez do homem. O Cosmos já teria
se autoimplodido, se não fosse por sua intervenção direta e ativa, que não
somente sustenta tudo e todos, mas também chama os eleitos à verdade,
capacitando-os a reconhecerem-na, amarem-na e devotarem-se a viver por
ela. Ninguém se aproxima de Cristo, confessando-o como Senhor e Salvador,
desejando tê-lo a guiar os seus passos, se não tiver a sua natureza
transformada de natural para espiritual; seria o mesmo que dar asas aos
peixes e toupeiras, alterando-lhes o design do corpo, a fim de alcançarem os
ares. É assim que Deus faz com o homem, mudando-lhe o coração de pedra
em carne, habilitando-o a reconhecer a verdade e vivê-la. De outra maneira,
seria impossível pelo próprio esforço humano alcançá-lo. Não há capacidade
nem elementos que pudessem movê-lo do seu impulso pecaminoso. Essa obra
é exclusiva de Deus, por meio do Espírito, regenerando e transformando a
mente do homem na mente de Cristo.

Do contrário, em última instância, se manifestaria a fragilidade,


vulnerabilidade, inconsistência e servilismo de Deus, que manteria, sabe-se lá
por quê (e o amor não é a resposta, cara-pálida!), sua vontade completamente
subjugada à vontade do homem.

Esse homem, no fim das contas, é que se faz poderoso, pela debilidade
divina, numa nítida inversão de papéis. O resumo da tragédia é: Deus deixou
de ser Deus... Contudo, onde lemos que isso aconteceu? É possível Deus não
ser Deus? Negar a si mesmo? Ainda que queira? E, por que quereria? Para
que fôssemos livres? Mas, livres de quê ou quem? De Deus? Pode alguém ser
livre de Deus? Se pode, esse alguém é maior do que Deus. E, então, Deus
finalmente deixará de ser o que é, para ser o que não é, o que nunca foi e
nunca será! Parece, no entanto, que há um labor, um estado de persistência
humana, seja por ignorância ou violento rancor, de reputá-lo com algo que
não é, existindo apenas na mente senil e falseante do homem em querer
desnudá-lo e explicá-lo a partir de si mesmo, e não da própria revelação
divina.

Todas essas possibilidades são nada mais, nada menos do que o apogeu
da estúpida e vergonhosa dissimulação, na qual dizem amá-lo e reverenciá-lo,
quando o transformam em intruso, em um impostor, em seu próprio Reino.
Porém, não sendo a realidade, não passando de uma ilusão, visando guardar o
homem em si e para si, em um distanciamento perigoso da verdade,
subjugado ao autoengano, às diretrizes traçadas pelo coração libertino, a
afirmação: “eu sou de Deus”, ou “eu amo a Cristo”, nada mais é do que
honrá-lo com os lábios, enquanto o coração está tão distante que o objeto do
seu amor é um sofisma, a idealização ou projeção de si mesmo.

Nada disso é real, seja o seu “Deus” ou os seus sentimentos, mas apenas
uma acomodação do delírio aos anseios do homem natural, sendo este a causa
da farsa, que alimenta e sustenta a perturbação da alma, em um círculo
vicioso e interminável; se Deus não o interromper por derradeiro.

No final, para concluir seus delírios, o teólogo afirmou: “Não devemos


endurecer o coração para Deus. O convite bíblico é outro: você, que hoje
está ouvindo a voz de Deus, não endureça o seu coração (Hb 3.8)”.

Não que ele esteja errado em dizê-lo. A Bíblia nos exorta a não endurecer
o coração! O verso 7, de Hebreus 3, diz:

“Se ouvirdes hoje a sua voz, não endureçais os vossos corações, como na
provação, no dia da tentação no deserto”.

É preciso, primeiro, ouvir a voz de Deus. Então, pergunto, quem está apto
a ouvi-la? O incrédulo ou o crente? O homem natural ou o espiritual? O eleito
ou o réprobo? O santo ou o ímpio? Como ficam passagens que dizem acerca
de Deus cegar o homem? De forma que, vendo, não vejam, ouvindo, não
ouçam, para não terem o entendimento?[90]

Como compreender a afirmação do Senhor sobre Tiro e Sidom, de que,


caso vissem os milagres realizados em Betsaida e Corazim, se converteriam,
e, portanto, a palavra não lhes foi pregada a fim de não se arrependerem? (Lc
10.13-15). Cristo não realizou qualquer milagre nessas regiões, e assim o
povo não “pôde” se converter. Cristo não fez milagres, mesmo sabendo que,
caso os fizesse, veriam, se converteriam; ao passo que preferiu pregar e
operar milagres em outros lugares, sabendo que neles não haveria
conversões.

Se Cristo viu, como uma antevisão, a conversão de Betsaida e Corazim,


caso o evangelho fosse pregado e milagres realizados, por que não respeitou
o livre-arbítrio dos seus moradores, salvando-os? Já que lhe era possível
antever a reação daqueles homens e mulheres diante da pregação do
evangelho, e se lhes era por desejo intrínseco aceitá-lo como Senhor e
Salvador, por que ele se recusou a operar milagres e leva-los à conversão,
“limitando-se” em seu desejo e vontade a fim de que prevalecesse o livre-
arbítrio daquelas cidades?

Não é essa a ideia de muitos a respeito da predestinação e eleição? De ser


a visão, no futuro, do homem futuro, o ocasionador ou causador da eleição e
predestinação, por parte de Deus? Nos casos de Betsaida e Corazim não lhes
bastou a antevisão; outro fator implicou em suas condenações, e está muito
distante de ser a “vontade livre” dos seus habitantes.

Pois bem, isso não pode ser somente presciência. Parece que sim, mas
não é; pois Cristo “viu” que em Tiro e Sidom se converteriam almas caso
operasse nelas os milagres, mas não os fez, a despeito da presciência, não
respeitando em nada o suposto livre-arbítrio daqueles homens. A questão está
afeita ao poder de Deus, de condenar tanto uma como outra cidade, não
segundo eventuais respostas positivas do homem, mas exclusivamente por
sua vontade decretiva e eletiva de lançar a sua graça e misericórdia sobre
aqueles que amou eternamente, e somente sobre eles. Naquelas, por não
operar ali os milagres que os levariam à conversão, mesmo considerando que
eles teriam olhos para ver, elegeu-as à condenação; e, nestas, por operar
milagres e cegar-lhes os olhos, a fim de não verem e não se converterem. Os
réprobos irão ao inferno porque Deus estabeleceu que eles iriam; da mesma
forma, os eleitos não irão porque Deus determinou que não fossem[91].

Novamente, a ideia favorecida, o livre-arbítrio, está acorrentada aos


desígnios divinos, não sendo, portanto, livre em nenhum aspecto.

CONCEITO DOIS

Muitos calvinistas, comumente, respondem à questão da seguinte forma:


pela graça comum, Deus restringiu o homem de tal forma que ele não agirá
segundo a sua natureza, não dando vazão completa à sua pecaminosidade. No
caso do Faraó, especificamente, aconteceu de Deus “retirar” a sua restrição,
expondo-o, por inteiro, à sua condição miserável, a ponto de endurecer o
próprio coração, em um furor obstinado e doentio de combater a Deus. Desta
forma, Faraó se viu livre para agir como queria, na máxima capacidade de
iniquidade possível em sua natureza. É como se a maldade estivesse ativada à
potência máxima, sem nenhum redutor ou freio, o seu coração trabalhando
enlouquecido, a todo vapor, na ânsia por uma vitória impossível, levando-o a
uma sequência de atitudes inconsequentes e desastrosas, culminando em
malefícios para si e seu povo.

Não vejo muita diferença no conceito de Deus determinar o fato e retirar


aquilo que ele mesmo restringiu, para a realização de determinado evento;
isto se chama Providência, mas adquiriu, atualmente, a alcunha de “Graça
Comum”[92]. De qualquer maneira, o fato ocorrerá segundo o plano de Deus,
segundo a sua vontade, e qualquer outra nomenclatura utilizada para explicar
algo cujo significado já existe, mesmo com o intuito de complementá-la, não
passará de uma má utilização do termo, sua inadequação ou, em muitos
casos, a descaracterização da revelação pela multiplicidade de significados a
esvaziar-lhe o sentido, dissipando-o em sua veracidade. No final, o
importante é manter-se a simplicidade, sem se desviar da verdade, uma vez
que a sobreposição de noções resultará na deturpação da sua finalidade.

Exemplificando, seria o mesmo que um construtor colocar um telhado


sobreposto a outro telhado, e fazê-lo novamente, num gasto desnecessário,
inútil, e que comprometerá toda a estrutura da casa, o seu fundamento,
podendo levá-la a ruir. Assim acontece com a idealização de novos termos,
substituindo outros já existentes, que acabam por desfigurar o termo original,
tirando-lhe a eficácia, desbotando-o. É, em linhas gerais, o problema da
utilização da expressão “Graça Comum”, um subterfúgio e um esquema mais
danoso que benéfico ao conhecimento divino, subsistindo paralelamente ao
conceito milenar da Providência, mas com um componente ilusório, o de
revelar o amor de Deus por todos os homens, indistintamente, ainda que nem
todos sejam alvos da sua verdadeira Graça e a maioria se contentará em
sofrer, no inferno, a punição por sua rebeldia, na forma da ira suprema e
eterna do Criador sobre as suas cabeças.

Em qualquer situação, seja na natureza de Faraó, seja na restrição a Faraó,


seja na não restrição a Faraó, Deus está agindo ativa e positivamente para que
o monarca realize, efetiva e infalivelmente, aquilo estabelecido por ele
próprio, na eternidade.

A ideia de anular ou diminuir a restrição a Faraó apenas favorece o


pensamento do agente livre, mas que, entretanto, está preso e acorrentado ao
final planejado por Deus. Em linhas gerais, dizer que Faraó agiu segundo a
sua natureza, de que teve suspensa a barreira que o impedia de pecar, em
nada ajuda na questão. Ela é apenas um malabarismo, com a tola premissa de
que o Senhor precisaria ser isentado de endurecer-lhe o coração, quando ele
mesmo afirma, por mais de dez vezes, tê-lo endurecido, a fim de, através
dele, o seu nome ser glorificado e tudo antes determinado se cumprir, em
seus mínimos detalhes e de forma inevitável.

Ao não mais restringir o mal na vida de Faraó (se é que havia restrição,
segundo o critério da graça comum), Deus impeliu-o a agir segundo a sua
vontade. Então, o próprio ato de restringir não seria uma forma de Deus
demonstrar a sua soberania e vontade expressas na vida de suas criaturas?
Afinal, o Senhor não restringiu a liberdade de Faraó? Implicando em dizer
que os pecados cometidos por Faraó foram controlados pelo Soberano, de
uma forma ou de outra, seja na restrição, seja na não restrição, para o
monarca egípcio realizar exatamente todo o plano estabelecido por Deus; não
havendo chances de não o fazer, e, ao fazê-lo, cumprindo o fixado e
estabelecido no decreto eterno.

No caso de Faraó, a não restrição foi específica para ele resistir em seu
desejo obstinado de não libertar o povo de Israel. Não se pode esquecer de
que havia um desejo sincero no monarca egípcio: ele não era uma marionete
ou robô nas mãos divinas, mas a sua vontade estava em harmonia com a sua
natureza réproba, de fazer o mal acima de tudo, e, especialmente, de afrontar
ao Soberano com a sua desobediência belicosa e deliberada; as vezes
travestida pela dissimulação; evidente nas decisões sumárias de operar contra
a sua própria palavra, desdizendo-se, não levando-a a termo, não cumprindo
o compromisso assumido diante de Moisés e Arão, mas também diante de
Deus.

A não restrição não teve nenhum outro efeito, apenas o de dirigir e


“forçar” Faraó[93] a resistir cada vez mais aos sinais do poderia divino. Do
ponto de vista prático, a não restrição nada mais é do que Deus conduzindo
Faraó a se rebelar, pecar e realizar exatamente o plano traçado, em
obediência, mesmo na insurreição. Faraó, em sua natureza depravada, tinha
latente, em seu íntimo, o desejo de chegar aonde chegou; de mobilizar a si e
ao seu reino, no cumprimento do intentado pelo seu coração; de alcançar, por
todos os meios, o seu plano de afronta a Deus, declarando uma guerra insana
contra o Todo-Poderoso, onde a libertação de Israel era apenas o mote, o
estopim, a dar vazão aos seus caprichos e recalcitrante disposição ofensiva.

Pouco importa dizer se Deus levou-o a pecar e praticar o mal ou o fez ao


retirar a sua mão e “liberá-lo” a resistir, pecar e praticar o mal. O resultado é
sempre o mesmo: Deus no controle de todas as coisas, mesmo do pecado e do
mal[94]. Deus no controle de todas as coisas, quer sejam pensamentos ou
ações. Deus no controle de todas as coisas, quer seja no endurecimento do
coração ou não; quer seja em mantê-lo como pedra ou transformá-lo em
carne. A síntese é Deus ordenando tudo no universo, por sua soberania, e o
homem obedecendo-o, inapelável e inexoravelmente. Como está escrito:

“Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser
impedido” (Jó 42.2).

CONCLUSÃO

Não há pecado algum em o homem buscar conhecer e entender a vontade


divina e a sua realização histórica. Faz parte do amadurecimento cristão, se
não estiver reduzida ao campo da curiosidade ou orgulho intelectual,
tornando-se, nesse caso, um pecado grave. Deus não pode ser dissecado ou
autopsiado por nenhum homem; suas verdades devem ser aceitas, mesmo que
ele se mantenha indecifrável, mesmo que perdurem os dilemas impossíveis, e
vá muito além da nossa compreensão e razão[95].

Por outro lado, somos levados a criar soluções onde elas não se
apresentam e a buscar socorro em disciplinas e matérias onde as dificuldades
não se equacionam nem diminuem. Várias ciências podem nos ajudar a
descrever melhor aquilo que Deus revelou, como a filosofia, a física, a
linguística e a retórica, por exemplo. No entanto, elas são incapazes de
solucionar aquilo que Deus revelou como sentença, porém, manteve ocultos a
explicação ou o sentido[96]. Por maior que seja o desafio, por mais méritos
que tenha o estudioso, por mais visível e lógico que se apresente o desfecho,
o que não foi revelado permanecerá como mistério e qualquer conclusão não
passará de investigação incerta e arriscada, de tentativa frustrada de entendê-
lo, mas não incapaz de transtorná-lo e gerar sérios e danosos problemas.
Como o próprio Senhor nos diz:

“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os


vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os
céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos
do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os
vossos pensamentos.” (Is 55.8-9)

Por essas e outras, muitos fatos, na Escritura, são interpretados por meio
de contorcionismos mentais e malabarismos retóricos; uma maneira de turvar
a água límpida através de subjetivismos, de empolação, de redundâncias e
empáfia, quando a Bíblia é objetiva ao afirmar, reafirmar e confirmar, ser
Deus imutável (Tg 1.17), perfeito (Dt 18.13), santo (1Pe 1.16), soberano (Cl
1.16-17) e Senhor de todas as coisas e sobre todos (Sl 10.16).

Quer o homem aceite, ou não.


A Disputa pelo Corpo

Entramos, agora, em um ponto altamente discutido, sobre o qual paira uma


série de dúvidas, e consequente alvo de disputas nos primórdios da igreja.

A primeira refere-se ao fato de esse incidente ser considerado apócrifo e,


portanto, a carta de Judas não deveria ser levada a sério, nem teria autoridade
divina, estando dissociada e infiltrada, como um corpo estranho, ao Cânon
Sagrado. Tolice, pois o documento em nada fere a sã doutrina, não a
confunde, minimiza ou contradiz, não havendo inconsistência, mas estando
em concorde sintonia com toda a palavra revelada pelos profetas, por Cristo e
pelos apóstolos. Como o autor nos diz, ele não veio trazer algo inédito, mas
“lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto” (v.5), daquilo ensinado
exaustivamente pelos santos de Deus, em todos os tempos.

Uma característica das heresias, dos falsos profetas e seus livros apócrifos
é a proclamação de algo exclusivo, insólito e moderno, completamente
divergente dos ensinamentos antigos, sem que haja qualquer conexão ou
unidade de princípios, esquivando-se da simplicidade e fidelidade das
doutrinas dos demais livros, ainda que realizem um esforço árduo em fazer a
heresia parecer-se com a verdade, através de mecanismos de associação ou
dissociação, manipulação do texto sagrado, reedição da história,
individualismo ou unilateralismo doutrinário e outros subterfúgios sutis,
porém diabólicos.

Outra questão abordada é o porquê de Satanás disputar o corpo de


Moisés. Muitos diriam ser algo sem sentido, figurativo e especulativo, visto o
relato basear-se em um livro apócrifo, o de Enoque. Contudo, não me parece
algo irrazoável, antes o contrário. Senão, vejamos:

1) Sabemos que Moisés foi enterrado pelo Senhor, não havendo


evidências de onde pudesse estar a sua sepultura. O Senhor queria, apenas ele
e mais ninguém, que nenhum outro soubesse onde estava depositado os restos
mortais do profeta. Por isso, pediu-lhe para subir sozinho ao monte, de forma
a não haver testemunhas.

É possível Moisés ter sido arrebatado para céu, assim como Enoque e
Elias; porém a Escritura não assevera essa hipótese, apressando-se em
afirmar o destino do seu corpo, cuja morte se deu na terra de Moabe, onde foi
sepultado, em um vale, em frente de Bete-Peor (Dt 34.5-6). Estas
coordenadas, apresentadas pelo próprio Deus, em sua palavra, são evidências
do fim que levou o corpo de Moisés, não restando dúvidas.

Alguém pode contestar a informação, alegando: Quem o enterrou?


Primeiro, não há provas de ter sido enterrado, visto não ser encontrada a sua
sepultura. Segundo, o Senhor pode agir de várias maneiras, como, por
exemplo, arrebatar a Elias. Então, por que não poderia tê-lo colocado em uma
sepultura ele mesmo? Poderia também tê-lo queimado ou utilizado outra
maneira de dar-lhe um fim. Fato é não ter sido revelado as condições e o
método pelos quais se deu o seu sepultamento e parto do princípio de que
tenha ocorrido, para fins de continuidade do texto.

Ninguém sabe, entretanto, o lugar da sua sepultura, nem os antigos nem


as gerações futuras, apesar de ser plausível imaginarmos os seus concidadãos
empreenderem varreduras na área, a fim de localizar o seu lugar de repouso, e
muitos outros, posteriormente, empenharam-se nas buscas, sem obter
qualquer êxito.

2) Satanás, conhecendo a idolatria do povo de Israel, “disputava” o


corpo de Moisés para dar-lhe um funeral adequado e público, de maneira que
a localização da sua cova seria facilmente identificada, levando multidões de
fiéis a dirigirem-se ao local para venerarem o seu ídolo.

É corrente o expediente do inimigo de propiciar, em todos os séculos,


artifícios com corpos (tumbas e múmias de santos são motivos para
peregrinações, romarias e visitações), imagens (representação de corpos com
o fim de se cultuar um santo), ou mesmo relíquias, como objetos utilizados
pelos santos e que são também alvos, matérias de culto, de veneração e,
supostamente, causadores diretos de milagres. Em todos esses casos, Satanás
realiza a sua obra principal: desviar o homem do verdadeiro Deus e
escravizá-lo por meio de sua astúcia, satisfazendo a insensatez e rebeldia
humanas. Utilizando a distração do pecado para afastá-lo da verdade, leva-o
cada vez mais para longe da verdade e aproxima-o cada vez mais da idolatria,
cujo princípio é o da falsificação do real, ao se ter, por objeto de culto, de
adoração, um ídolo, o qual nada mais é do que uma fantasmagoria, uma cópia
deficiente e malograda, a deformação alcançável pelo homem por sua própria
limitação de vislumbrar o sublime, o sobrenatural. Por conseguinte, ele se
contenta com a caricatura, o arremedo, a projeção das suas próprias
deficiências, do seu pecado e limitações em algo ainda mais absurdo, contra a
razão da fé cristã, mas a ganhar ares de encantamento, de fulgor, quando não
passa da síntese de nossas misérias e loucura.

Se Cristo veio nos libertar do jugo do pecado e da inimizade com Deus,


essas atividades religiosas, aprendidas do paganismo, transportam o suposto
cristão para um tipo de prisão especial, na qual ele pode até vislumbrar a
liberdade (como por uma janela), mas jamais a experimentará. Em meio a
uma profusão de ídolos, é-lhe incapaz distinguir o Deus verdadeiro, cuja
natureza e personalidade imiscui-se na corrupção geral do culto prestado ao
não Deus, como se fosse Deus; fruto do amor excessivo do homem a si
mesmo, à sua natureza, contaminando-o com a forma mais virulenta e letal de
adulteração, ao imaginar e conceber algo fictício como se fosse real. Como
essa pseudorrealidade precisa ser tangível, constrói para si imagens,
esculturas e lhes dá “vida” por meio da inconsciência e rejeição ao verdadeiro
Deus.

3) Logo, o anjo Miguel contendeu-se com o diabo.

Creio que essa disputa se deu pelo fato de o próprio diabo não saber a
localização da sepultura de Moisés. Pode ser que ele soubesse, mas Deus o
impediu de utilizá-la para os seus propósitos. São conjecturas, mas,
certamente, o fato de Judas relatá-lo em sua carta demonstra o caráter
verídico e factual do incidente.

Algo ainda mais importante do que a disputa, foi o não dito de Miguel a
Satanás. É sugestiva a exaltação do texto a algo não proferido pelo anjo,
revelando uma forma de conduta prudente e sábia, a qual não devemos
negligenciar, para não incorrer em pecado. É possível observar, nas redes
sociais, em artigos, vídeos, e em outros meios de comunicação, quão
imprudentes e temerários se tornaram os lábios do cristão. Não é difícil
encontrar teólogos, pastores e leigos projetando, em seus interlocutores,
diretos e indiretos, acusações e ofensas nada apropriadas para alguém
reconhecido publicamente como “servo de Cristo”. Se o anjo, do alto da sua
batalha contra o inimigo não se atreveu a fazê-lo, com qual direito se arvora
em detrator um crente?[97]

Certamente, provocado pelas ofensas e disparates proferidos pelo diabo, o


anjo “não ousou pronunciar juízo de maldição”, e há de se ressaltar ser isso
deveras significativo para a igreja, ainda mais hoje, quando todos parecem
prontos, equipados, para atacar com unhas e dentes os detratores. Esta é a
acepção da palavra “Satanás”, significando “o acusador”; aquele sempre
pronto a levantar falso testemunho ou a incriminar, tal qual fez com o justo
Jó, tencionando com nitidez a destruição, esmagar o rival sem piedade,
humilhá-lo, e levá-lo a blasfemar contra Deus. Acontece estarem muitos,
dentre os que não se consideram como tal, na condição de representantes do
maligno, de servi-lo dócil e generosamente em sua raiva e ódio
condenatórios, quando dizem fazê-lo em nome de Deus. Entretanto, não
reconhecem a gravidade de suas ações, cujas atitudes os remetem diretamente
às práticas diabólicas, a um tipo de “ministério” infernal.

Proferir juízo é algo muito delicado. A palavra juízo, no sentido bíblico,


significa uma capacidade ou faculdade de decidir corretamente entre o que é
certo e o errado. O Senhor nos ordena a não julgar segundo as aparências,
mas segundo a reta justiça (Jo 7.24); logo, o julgamento não é impeditivo
para o cristão, pois o próprio Jesus nos diz como deve se realizar, de que
forma deve ser conduzido e baseado em quais fundamentos não se torna um
pecado, mas uma necessidade revestida do caráter santo: apontar, ou
conduzir, para a justiça!

Então, o que há de errado em se proferir um juízo? A capacidade de


julgar é algo que todos deveriam ter, no sentido de distinguir o certo do
errado, o bom do mal, o justo do injusto, o moral do imoral, e assim por
diante. É uma faculdade legítima e não há pecado quando realizada
corretamente. O vício está na própria confusão das categorias, onde o certo se
torna errado, o errado, certo, o bem se torna mal e o mal, bem, como apontou
o profeta (Is. 5.10). A questão à qual os crentes devem ser cautelosos, diz
respeito quanto ao proferir uma sentença. E o que vem a ser isso?

Por exemplo, nos são mostrados dois trechos nas Escrituras: o primeiro
está em Lucas 21, no qual os ricos lançavam suas ofertas na arca do tesouro,
enquanto uma pobre viúva deitava duas moedas no gazofilácio, as únicas de
que dispunha. Alguém, vendo aquela cena, poderia julgar pela aparência: os
ricos sinalizariam ser mais zelosos e fiéis ao darem mais dinheiro, sendo que
entregavam uma parte do muito que tinham.

Em contrapartida, ao verem a viúva recolher à caixa duas simples moedas


(talvez de ínfimo valor), era possível julgá-la de maneira contrária,
criticando-a pelo pouco dado, sinal de não ser zelosa, mas mesquinha, e de
ter pouca fé. Aqui há muitas aparências. Várias maneiras de se chegar a uma
conclusão a partir de um conhecimento insuficiente, precário, capaz de
obliterar o entendimento, levando-se a inferir uma sentença equivocada pela
incapacidade de se ver com clareza e profundidade, não indo muito além da
superfície. Desconhecendo-se, por completo, as várias camadas ocultas pelo
exterior (muitas vezes disfarces, camuflagens), as quais não podemos
averiguar com exatidão. Neste caso, somente Deus pode proferir a sentença;
pois somente ele tem acesso irrestrito ao coração, e somente ele é capaz de
saber as suas reais intenções; pois ele sonda tudo e todos, conhecendo-nos
como somos, algo improvável para nós mesmos, capazes de acertar no geral,
mas de enganarmo-nos em vários aspectos particulares e relevantes,
ignorando as verdadeiras intenções do próximo e os inalcançáveis propósitos
de Deus. Então, foi à conclusão precisa, somente possível pelo Verbo
encarnado, que ele chegou:

“Em verdade vos digo que lançou mais do que todos, esta pobre viúva;
porque todos aqueles deitaram para as ofertas de Deus do que lhes sobeja;
mas esta, da sua pobreza, deitou todo o sustento que tinha” (Lc 21.3-4).

O segundo exemplo encontra-se em Lucas 18.9-14. A parábola fala de


dois homens que subiram ao templo para orar; um era publicano, e o outro,
um fariseu. O texto diz o seguinte:

“O fariseu, em pé, orava no íntimo: ‘Deus, eu te agradeço porque não


sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como
este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto
ganho’”.

Enquanto o publicano ficava à distância. Ele nem ousava olhar para o


céu, mas batendo no peito, dizia:

“‘Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador’. Eu digo que este
homem, e não o outro, foi para casa justificado diante de Deus. Pois quem se
exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado" (v.11-14).

Qualquer um a chegar ao templo, naquele momento, diria estar aquele


publicano irremediavelmente condenado, de forma a não alcançar o perdão,
não lhe sendo digno sequer permanecer naquele local. Pela sua própria
atividade e condição, pela maneira como oprimia o povo, extorquindo-o
através da prática abusiva de cobrar absurdos, na forma de impostos e taxas
(ainda que os romanos não considerassem essa prática criminosa), era visto
pelo povo como um pecador incorrigível, digno e merecedor da condenação
eterna, um daqueles impossíveis de escapar do inferno, estando-lhe
assegurado o juízo e uma estadia atribulada e prolongada junto aos demônios.
Para todos os efeitos, e diante de todo o povo, um publicano não era melhor
que um traidor, além de alvo do ódio, proporcional ao seu crime.

Em contrapartida, o fariseu era visto com contornos benévolos: um


homem respeitável, doutor da lei, alguém merecedor dos favores divinos,
cuja vida era devotada ao serviço e obediência a Deus. Como já dito, as
aparências enganam e nos levam a equívocos, muitas vezes. É o ensino desta
parábola. Somente Deus pode ler o coração dos homens e encontrar nele os
motivos para proferir o juízo correto. O que para nós está na superfície, muito
toscamente roçado por nossos sentidos e intelecto, Cristo, em sua perfeição e
santidade, consegue sondar nas camadas mais profundas da nossa alma, nos
lugares mais improváveis e inatingíveis, porque ele sonda e conhece tudo,
nada fugindo-lhe, pois, como diz o salmista, até mesmo “de longe entendes o
meu pensamento” (Sl 139.2).

O fariseu, em seu orgulho e presunção, não revelou qualquer


arrependimento, não se humilhou nem implorou o perdão, antes considerava-
se bom o suficiente para estar ali, diante de Deus, como um exibicionista
mostra-se diante da plateia, ou um ator, no palco, tem a atenção da plateia.
Ainda por cima, proferiu uma sentença contra o publicano, atentando
somente para as aparências (utilizando-se das armas prediletas do injusto).
Via a si mesmo como digno de apresentar-se “face a face” com Deus,
esquecendo-se de que ninguém pode fazer isso sem sucumbir à sua ambição.
Também pela aparência, considerava o publicano desprezível e sua simples
presença no templo como algo indecoroso, profanatório; sua condição e
natureza de ofício desabonava-o, sobretudo de comparecer diante do Senhor.
Pode até mesmo ter pensado que a atitude dele de estar no local santo, na
casa de Deus, tinha motivos inescrupulosos e ultrajantes, uma maneira de
insultar e escarnecer a Deus. Esse, definitivamente, não era o seu lugar!

Em vez de se preocupar com o estado do outro, auferindo-lhe virtudes ou


vícios, o publicano cingiu-se a si mesmo de vergonha, de opróbio,
reconhecendo-se um pecador, carente de graça e misericórdia divinas. Como
o Senhor alertou-nos:

“Porém muitos primeiros serão derradeiros, e muitos derradeiros serão


primeiros” (Mc 10.31)

E,

“Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores, ao


arrependimento.” (Lc 5.32)

Estes dois exemplos, revelam a não autorização de se avaliar a fé e o zelo


a partir das aparências, algo somente possível de ser medido por Deus.
Contudo, alguém pode dizer: “posso aquilatar a fé e o zelo de alguém pelos
frutos, pois a Bíblia nos diz que pelos frutos conhecereis a árvore” (Mt 7.15-
20), o que é verdade. Mas nem sempre os frutos de um crente podem ser
visíveis o suficiente para serem aferidos por nós. Há frutos que o seu próprio
autor desconhece, os quais somente podem ser vistos pelo Senhor. Se alguém
comete um ato reprovável, deve-se exortá-lo e chamá-lo ao arrependimento
pelo pecado cometido, mas jamais se pode condená-lo, no sentido de
equipará-lo a um incrédulo, considerando-o um ímpio ou não-salvo, ou de
pensar que queimará, irremediável, no fogo eterno. Isso é proferir uma
sentença ou, como Judas nos diz, pronunciar juízo, o qual implica em o
homem fazer-se Deus, tomando para si prerrogativas divinas, que não está
autorizado ou capacitado a exercer.

Darei, ainda, mais um exemplo, pois o julgamento é uma das doutrinas


menos compreendida e aceita na igreja, especialmente nos dias atuais onde o
individualismo, a autossuficiência, o narcisismo e a prepotência imperam
mesmo entre os cristãos. Isso constitui um insulto à natureza humana, capaz
de manter o pecado em seu estado intocado de destrutibilidade, de doença
incurável; na atitude deliberada e persistente de insurreição, de afronta ao
Altíssimo; em uma condição de arrependimento incompreensível.

Cristo, em Mateus 7.1-6, combate exatamente a hipocrisia daquele que


tem uma trave no olho, mas está preocupado em tirar o cisco do olho alheio.
Seria o mesmo que apontar o dedo para um irmão, acusando-o de pecado,
enquanto se vive no mesmo pecado; como se estivesse enrodilhado em um
furacão a exortar alguém quão destrutivo pode ser manter-se ali, enquanto
não faz nada para libertar-se. Primeiro, é preciso livrar-se do seu pecado (a
trave) para depois exortar alguém ao arrependimento (o cisco); de outra
forma, além de cometer um ato de hipocrisia, condenável e injustificável, não
há, no íntimo, o desejo de abandonar o vício, permanecendo-se no estado de
degradação espiritual. Essa atitude é deveras moralista e deve ser combatida
dentro da igreja com a força necessária à sua expurgação.

De forma alguma, Cristo proíbe o julgamento, pois ele mesmo nos exorta
a observar os frutos para se saber a procedência da árvore, ou seja, discernir,
avaliar, medir. Estas palavras são sinônimas de julgar, e ninguém parece ter
problema com elas, visto todo homem fazê-lo o tempo todo. A questão é:
estamos aptos a julgar corretamente? Segundo as Escrituras? Somos
chamados à prudência e diligência, a afastar-nos do pecado, do engano, e
aproximarmo-nos da santidade e bondade, vivendo uma vida na qual sejamos
luz em meio às trevas. Infelizmente, há uma boa dose de melindre neste
mundo, onde alguns termos e expressões são capazes de fazer aflorar a
irracionalidade e a teimosia em muitas pessoas, pois eles mexem exatamente
com a parte “negra” da alma, à qual estamos apegados, enraizados.
Afeiçoados a ela como a um troféu, exibimo-la sem o menor pudor,
considerando prova de sabedoria, quando não passa da mais vergonhosa
impostura.

Há um termo, criado por escritores distópicos[98], chamado “novilíngua”,


onde aqueles interessados em destruir a tradição judaico-cristã, o alicerce da
civilização ocidental, especializaram-se na corrupção dos termos e do seu
sentido, dando-lhe uma outra conotação, adulterando-lhe o nexo, numa
reconstrução arbitrária, doentia, subvertendo o seu significado com o fim
claro de confundir, de fomentar o caos. Visando construir um mundo
fantasioso de perfeição, contemplado apenas pelo ideal, e jamais
concretizado, pois não passa de ilusão ideológica, quiseram fazer da ilusão
um “messias”, um salvador, e assim destituir do trono o Deus vivo.

Nesse caso, nem a igreja está livre da ação malévola dos inimigos de
Cristo, os quais têm se infiltrado com sagacidade em seus limites, trazendo
consigo a mesma desordem da alma que os norteia, redefinindo o bem em
mal, e este, naquele. Se nos é dado o dom ou capacidade de distinguir, de
estabelecer conveniente diferença entre as coisas e pessoas, por que raios não
se pode julgar, visto ser a mesma coisa? Qual o problema com a expressão?
Há uma carga de potencial distúrbio do espírito, a incomodar, ocasionando a
sua rejeição?

Ao meu ver, o julgamento no qual ninguém está autorizado a aventurar-se


é o de proferir uma sentença, uma pena, um castigo a alguém, condenando-o
ao Inferno. Isto está muito além da capacidade humana, não sendo uma
prerrogativa humana, mas um simulacro da realidade, no qual o homem
pensa em assumir a condição de um deus, portando-se indevidamente, numa
tentativa frustrada de deter o poder divino, mediante o uso da injustiça.

O caráter dessa punição, sendo eterna, somente pode ser sentenciado pelo
eterno, infinito e onisciente, no caso, o Juiz supremo, o único capaz de sondar
os corações e operar a salvação nos eleitos, condenando os réprobos. Ao
homem, em sua efemeridade, cabe-lhe julgar as coisas temporais; assim como
há diversos graus de castigos: os aplicados pelos pais aos filhos, pelos
professores aos alunos, pelos magistrados aos criminosos, em que o
julgamento não é somente uma possibilidade, mas é imprescindível, sendo
que, sem ele, a subversão à lei e a autoridade seriam incontroláveis, tornando
o mundo um rematado caos.

Uma pessoa a viver na impiedade pode, pelo poder de Deus, ser resgatada
da condenação mesmo tendo cometido pecados hediondos, pois Deus pode
salvar o pior dos pecadores, enquanto o melhor dos homens não pode se
salvar.

É possível a qualquer um de nós surpreendermo-nos, na eternidade, com


o vislumbre e comunhão entre pessoas julgadas, como se já estivessem
condenadas e já fossem tidas como inevitáveis garantidoras de uma vaga no
Inferno. Com elas teremos uma união santa, compartilhando o mesmo louvor
e adoração ao único Deus e Senhor, cuja glória é eterna e inviolável, porque
essa é a sua vontade e por ela operou com amor, graça e misericórdia.

Há de se entender que, por conta da Queda e da natureza pecaminosa, o


julgamento humano é falho e fadado à injustiça, exatamente por sermos
imperfeitos, volúveis e sofrermos as consequências noéticas da transgressão,
nublando e distorcendo a percepção da verdade. Contudo, a Escritura nos
revela o que é o pecado (pela Lei Moral) e a necessidade de exortar o irmão
que está em pecado, sendo isso delineado pela Escritura e confirmado pelo
Espírito, cujas marcas imprimiu em nossos corações. Essa atuação ou ação
nunca deve caber a um indivíduo apenas, mas é uma prerrogativa dada por
Cristo à Igreja, onde as regras bíblicas claras vão norteá-la a disciplinar um
irmão enredado e que persistir no pecado, apesar das várias advertências e
apelos com o intuito de levá-lo ao arrependimento.

Pedro afirmou que o julgamento deveria começar pela igreja (1Pe 4.17); e
Paulo perguntou aos Coríntios se não havia ninguém sábio entre eles para
julgar os problemas entre os irmãos, ao invés de deixar as decisões nas mãos
de árbitros injustos (1Co 6.5). Portanto, Cristo está combatendo, com
veemência, a hipocrisia e não o juízo, o qual é instrumento do crente para
avaliar todas as coisas, não somente as ligadas ao mundo, mas também as
relacionadas à própria igreja, como guardião da sua identidade de noiva do
Senhor, defendendo a todo custo a santidade, a pureza doutrinária, o temor a
Deus[99]. Ou seja: todos os princípios bíblicos que nos foram entregues e todo
o relacionamento com o Criador devem ser pautados por discernimento,
sabedoria, avaliação e juízo, em assentir-se com o bem e a verdade,
repudiando o mal e a mentira.

O julgamento não é uma condenação humana, mas a condenação bíblica;


aos rebeldes ela revelará o seu pecado e a sua punição.

De qualquer forma, é um assunto complexo, de modo que reafirmo o que


disse: Em Mateus 7.1-6, Cristo combate a hipocrisia e o julgamento como
uma sentença condenatória acerca da salvação (se fulano é salvo ou não, não
nos compete cogitar). Há irmãos que entendem a afirmação de Jesus como
uma censura a todo tipo de julgamento, de maneira a não haver “brechas”
nem exceções em sua ordenação. Por exemplo, não nos compete dizer, acerca
desse ou daquele homem, se ele é ladrão, bandido, mentiroso, e por aí afora,
pois estaríamos infringindo a ordem do Senhor, sendo esta uma forma de
julgamento, de sentença.

Não concordo com esse conceito, pois, se assim fosse, não haveria uma
série de advertências quanto aos falsos profetas (muitos deles nominados por
toda a Bíblia), pois eles se enquadrariam no critério de estarem sendo
julgados. Se o julgamento é proibido, condenar a atitude maligna dos
fraudadores da fé estaria vedado e uma grande parte dos versos relacionados
a eles não deveria estar no texto sagrado, estando em contradição com a
sentença proferida por Cristo. Mas não é isso o que acontece, graças a Deus!
Chamar alguém, um comprovado ladrão, de gatuno, ou um fulano, declarado
mentiroso, de enganador, não é ser injusto, mas identificar a pessoa
subjugada pelo pecado, visando chama-la à realidade, mostrando a sua
condição de transgressor da lei e de inimigo de Deus e, também, protegendo
inocentes de uma eventual ação, no futuro, desses meliantes.

O pecado não tem vontade própria e não se realiza por si mesmo, como se
fosse uma entidade, uma manifestação espontânea de uma força autônoma e
independente do homem. O pecado somente se efetivará, tornando-se real, se
germinar e crescer na alma, gerando atitudes condenadas e reprovadas pela
Escritura. É claro, estou a falar de pecados como uma atitude, uma ação
pensada, maquinada e colocada em prática por um indivíduo. Não estou
falando do pecado como uma natureza herdada pelo homem, uma condição
inerente à nossa essência pós-Éden, mas consequência oriunda dela, na qual
todos os homens, sem exceção, são pecadores e condenáveis aos olhos
divinos. Nesse aspecto, seria redundante eu apontar para esse ou aquele
homem e dizer: “você é um pecador”; pois seria o mesmo que dizer: “você é
humano”, ou, “você é mortal”. No que se refere ao arrependimento, ninguém
o fará se não tiver consciência do seu pecado específico e se não houver uma
censura, de terceiros, a denunciar-lhe o vício.
O objetivo sempre será o de levá-lo, primeiramente, à contrição, à dor
profunda pela ofensa cometida contra Deus, e, em segundo lugar, contra si
mesmo e o próximo. Esse é o papel da igreja, como corpo, e do crente, como
membro do corpo: denunciar tudo o que atente contra a santidade e a
verdade. No entanto, reitero duas coisas: a primeira, que esse juízo está
ligado à questão do discernimento, a conhecer a diferença entre as pessoas,
entre as coisas, de maneira a não se misturar com nada que se oponha à fé
bíblica. Ou seja, a aplicação precisa se dar estritamente dentro do âmago
bíblico, uma relação na qual não existem tons cinzas, mas apenas preto no
branco. Aplicar conceitos psicológicos, pedagógicos ou relacionados com a
área comportamental acarretará na sua insuficiência.

Alguém poderá dizer que a minha visão é excessivamente pragmática


quanto à aplicação do princípio de julgamento cristão (bem como em tudo na
vida cristã), mas entendo que as regras estabelecidas por Deus são eficientes
em si mesmas e não carecem de acréscimos, de complementação, em especial
se formuladas por homens, muitos deles antirreligiosos ou inimigos
declarados dos fundamentos da nossa fé. Se Deus nos deu saber como agir, o
que pode ser melhor para a igreja do que obedecê-lo? Por que se faz
necessário o emprego de técnicas ou processos paliativos, complementares ou
substitutivos, aos preceitos divinos? Em que a “sabedoria” humana pode
suplantar ou agregar algo à sabedoria de Deus? Ou a “perfeição” humana
apurar a perfeição de Deus? E a nossa “santidade” corrigir o Santo? Estamos
no mundo, participamos do mundo, interagimos com ele, mas a luz vem de
Cristo e não de Belial. Sendo assim, ao passo que Deus aplica a correção e
disciplina temporal e momentânea para com os santos, ele reserva ira eterna
contra os ímpios.

O salmista nos exorta à separação; se não de direito, que seja de fato:

“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos


ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos
escarnecedores” (Sl 1.1).

Os princípios nos foram dados pelo Senhor; qualquer alteração, por


menor que seja, significará no descrédito da sua vontade como de si mesmo.
Negando-se um, nega-se o todo, e não há como defender a fidelidade a Deus
se não se defende a sua palavra. Não há como dizer conhecer a Deus se não
se conhece a sua palavra. Não há como dizer servi-lo se o serviço não tem
por prerrogativa cumprir a sua vontade. Qualquer explicação, portanto, fora
dos parâmetros traçados e revelados por Deus será inútil, ineficaz e dará
mostras da falta de relacionamento ou comunhão com ele. As ciências podem
explicar muitas coisas (ainda que de forma limitada e nem sempre
verdadeira), mas jamais poderão se interpor entre o Senhor e seus servos,
entre o Noivo e a sua prometida esposa; seria um abelhudo a dar pitacos onde
não é chamado, do qual nada entende e conhece.

Segundo, ao fazermos esse tipo de julgamento, não se pode compreendê-


lo como um ato de vingança, de hostilidade ou de mera represália a quem o
cometeu, mas com a nítida intenção de levá-lo ao arrependimento, a
reconciliar-se com Deus. Qualquer atitude do cristão em sentido contrário a
estes dois pontos significará o abandono da piedade e o amor fraternal.
Assim, ele agirá como um justiceiro, enquadrando-se na séria advertência de
Mateus: a de vir a ser julgado assim como ele mesmo sentencia o próximo,
sem a equidade cristã, sem a reta justiça, agravada pela explícita
desobediência ao Mestre.

Quanto ao caminhar na fé, dada uma vez aos santos, todos os crentes têm
o dever de zelar pela pureza da igreja, conforme nos é dado saber, pelo
Senhor:

“E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja,


considera-o como um gentio e publicano” (Mt 18.17)[100].

E, por Paulo:

“Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-
se irmão, for fornicador, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou
beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais. Porque, que tenho eu
em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro?
Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo”
(1Co 5.11-13)[101].

Como se vê, o ato de julgar é necessário e biblicamente válido, mas


sempre à luz da Revelação, e não da mente que arrogantemente se autovalida
e se envaidece e ensoberbece pelos valores seculares, pelas suposições ou
outros instrumentos alheios à palavra, que podem levar a se proferir
sentenças injustas, negando os verdadeiros princípios. Imprescindível, nesse
caso, é a santificação; sem ela age-se pela carne, como inquisidores ou
moralistas[102], e não em amor e fidelidade à verdade, tanto para com Deus,
quanto para com a Igreja e o próximo. O objetivo nunca deve ser o de
condenar, mas o de ser instrumento divino para trazer o pecador à santidade,
à reconciliação com Deus e os santos, em uma atitude reparatória, tirando-o
das trevas e trazendo-o à luz; sem que isso nos exima de aplicar a disciplina,
os princípios bíblicos da correção (como consequência do juízo bíblico), a
fim de não se contaminar o Corpo.

Para muitos, a advertência do próprio Senhor é negada ou desprezada em


favor da preservação de uma dignidade humana exigida, mas nunca praticada
ou ansiada, porque ela o seria se voltasse para a santidade. O mundo, como o
conhecemos, exalta a necessidade de justiça, de equiparação e igualdade entre
todos os homens, em uma busca alucinada pela nobreza ou valor, quando o
caminho traçado é diametralmente oposto: dando-se vazão aos instintos mais
sórdidos, aos desejos mais torpes, às ações mais vis, onde o pecador se
deleita em sua própria enfermidade mortal, ele se rebaixa ainda mais em seu
estado de desonra.

Não é difícil presenciar a maneira repulsiva como muitos cristãos se


sentem insultados quando se repete o dito por Deus, como se fosse uma
ofensa, um disparate a tudo o que o homem pensa e idealiza de si ainda que
sem nada a ver com a seu comportamento, caráter ou atitude. Deus castiga e
pune ao que ama!

“Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado.


E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos:
Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, e não desmaies quando por
ele fores repreendido; porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a
qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, Deus vos trata como
filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija?
Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois
então bastardos, e não filhos” (Hb 12.4-8)
Parece, seguindo essa teologia pessoal, que inexiste o desejo sincero de
serem filhos, havendo antes uma comparação à condição de bastardos,
espécie de autovalidação desse estado. Com o propósito de deterem uma
relação ilegítima com Deus, uma ligação baseada na impureza, da qual ele se
opõe e se afasta, rejeitando-a, tecem uma intimidade forjada, não sincera,
com o Criador. O único testemunho possível é o orgulho de serem postos de
maneira tão apreciada e desejada, que Deus não se negaria a reconhecê-los,
muito menos de aceitá-los, curvando-se inevitável ao apelo de suas criaturas,
para delas ter reconhecimento. Por isso a atitude de julgar aqueles que vivem
placidamente em seus pecados, como bastardos, é considerada pelo mundo
inadmissível e condenável, sendo que, na verdade, é uma condição
inaceitável enquanto a vivem por absoluto, na profundidade interior.[103]

O julgamento, a exortação e o conselho se transformam na forma mais


virulenta de malevolência e aversão, uma posição retrógrada e primitiva não
mais tolerável pela modernidade. Em contrapartida, o consentimento com o
pecado revela uma alma civilizada, e se negar o pecado, o será ainda mais.

Outro ponto, citado por Cristo, refere-se a: “com o juízo que julgares
sereis julgados”, um alerta para a não vaidade e o não se encher de soberba.
Ao aplicar-se equivocadamente essa norma, o resultado será um julgamento
hipócrita, aquele no qual o seu proponente tem em vista acusar no outro o que
ele mesmo faz, mas não quer que os outros saibam que faz. Em outras
palavras, é a camuflagem perfeita para aparentar uma santidade que não tem,
escondendo a pecaminosidade arraigada à alma. O hipócrita, via de regra, é
incapaz de reconhecer em si mesmo o pecado, mas é ligeiro em apontá-lo no
seu semelhante, com vistas a desviar a atenção de si e lançá-la ao próximo. É
a tática de acobertamento, dissimulatória, em que a acusação é a defesa
imediata a afugentar a própria condenação. Entre outros, visa tirar o foco do
hipócrita e transferi-lo ao outro, com o nítido objetivo de esconder os seus
pecados através da exposição dos pecados alheios, num tipo de “máscara” da
condição libertina que se pretende esconder à incriminação alheia, quando a
culpa deveria cair, primeiro, sobre o acusador, na forma de confissão e
arrependimento.

Segundo os seus critérios perversos, ele não está sujeito à dura e


inflexível vara do Juiz supremo. Pelo contrário, encontra em si as condições
para fazer-se juiz. Estando em pecado, pela hipocrisia do julgamento, peca
ainda outra vez ao assumir as prerrogativas exclusivas de Deus, fazendo-se
como ele, e invocando-se para si “a medida que medires”; ignorando receber
a sentença na proporção do pecado cometido, o qual será mensurado apenas e
tão somente por Deus. Ao se fazer de Deus, usando do privilégio que
somente ele tem, assumiu para si a conformidade da sentença, na relação
correta entre o pecado cometido e a punição correspondente, sofrendo os
agravos da sua atitude pela máxima sentenciada por Cristo: na “medida que
medires sereis medido”.

No entanto, o delator não está nem um pouco interessado em retratar-se,


perante Deus e a Igreja, permanecendo, deliberadamente, envolto em seus
pecados, acalentando-os como a filhos queridos, e nutrindo-os com a sua
falsa religiosidade e moralismo.

A evidenciada intenção de não arrependimento e não regeneração leva-o a


querer os olhares de todos voltados para o alvo do seu julgamento. Assim,
aos olhos humanos, ele se reveste de uma santidade que não possui, afagando
e alimentando dois dos pecados mais comuns e usuais no homem: a
autoidolatria e a vaidade, sem que eu saiba dizer qual é causa e qual a
consequência, parecendo ambas tão entrelaçadas e intrínsecas à alma que,
muitas vezes, passam desapercebidas. Entretanto, ao contrário da
transparência, ele se delicia na vergonhosa perversão, sequer se dando conta
disso, posto ter a mente enevoada por densas trevas. Não foi à toa que Jesus
condenou, com tanta veemência e assertividade, os fariseus, sacerdotes e
escribas, por representarem tudo de mais maligno e destrutivo a entrar na
igreja, com suas fingidas devoções, falsa moralidade e o culto a si mesmos,
tentando, a todo custo, não deixar entrar no Reino aqueles que estavam
entrando.

Em Mateus 23, ele proclama, em alto e bom som, as atitudes deles e os


seus destinos finais. Há pessoas que veem, na proclamação do Senhor, uma
prova de amor, entendendo existir, na reprovação aos líderes judeus, efeitos
positivos capazes de levá-los à correção dos seus caminhos tortuosos.

A meu ver, não consigo vislumbrá-lo amando-os, sobretudo se atentarmos


para a severidade e energia com as quais os reprovou. Ao chamá-los de
“raças de víboras”, “sepulcros caiados”, “condutores de cegos”,
“hipócritas”, “assassinos” (“a uns deles matareis e crucificareis; e a outros
deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em
cidade”), parece-me nítida a declaração de condenação, de juízo, a pairar
sobre as cabeças deles[104]. Senão, qual a razão de proclamar:

“Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do


inferno?” (v. 33).

Não parece evidente Cristo estar proferindo um julgamento contra os


fariseus e escribas, ainda que, dentre eles, um ou outro (como Nicodemos,
p.ex.) fosse exortado ao arrependimento, afastando-se daquelas práticas e
reconhecendo a verdade em suas palavras?

Na maioria das vezes, a reação dos fariseus foi a de maquinar, engendrar


planos para prenderem e matarem-no, revelando a disposição maligna de
empreenderem uma cruzada contra o Santo, fazendo jus à sentença ajuizada
por ele. Não vejo de outra forma. Não consigo perceber complacência ou
tolerância na sua confrontação. Também não há sinais de contrição dos
líderes; pelo contrário, confirma-se, em seus corações, o intento de levar a
cabo o assassinato, a destruição de Jesus, para levarem-no ao tribunal romano
ou judeu, desviando o foco de seus pecados e impudência com alegações
torpes e injuriosas de que ele era filho do diabo e blasfemava contra Deus. A
prova de que suas naturezas se opunham à verdade e à vida foi que eles
levaram à cabo suas ameaças, mentindo, caluniando, prendendo e matando o
Justo, o Santo, o Filho de Deus. Fizeram jus à condição de réus de juízo,
sendo, por ela, condenados.

Por fim, Miguel, mesmo disputando com Satanás, segundo as ordens de


Deus, “não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele, mas disse: O
Senhor te repreenda”. Sabendo que ele era seu inimigo, de Deus e dos
santos; sabendo de sua malignidade e os danos capaz de produzir, caso
pudesse usar a morte de Moisés a seu favor, o anjo ainda assim não se
considerou capaz ou “no direito” de amaldiçoá-lo, resignando-se em fazê-lo.
Ele sabia quais eram as intenções do inimigo, sabia que este deveria ser
derrotado. A disputa na qual fora introduzido tinha um objetivo escuso e
nefasto, sendo reprovável em todos os aspectos; porém, não lhe cabia, mesmo
fazendo o julgamento correto, distinguindo ser prioritário não lhe entregar o
corpo de Moisés, proferir uma sentença condenatória ao seu oponente.
Repetindo o trecho de Zacarias 3.2, pôs fim à contenda, deixando o
impedimento, refreio ou censura, a cargo de Deus. Miguel não estendeu a
querela, nem se aperfeiçoou nela, nem a tornou em uma luta pessoal, pelos
motivos errados, mas por estar a serviço do grande “Eu Sou”. Ao lidar,
litigando, com um ente sabidamente condenado, entendeu que não lhe cabia
qualquer sentença e que ela pertencia, em exclusividade, e por méritos
naturais, a Deus, na alçada própria da sua soberania, como essência ou
necessária prerrogativa da sua natureza. Do mesmo modo, isso foi
reconhecido por Paulo, ao dizer:

“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque
está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor" (Rm
12.19).

O anjo não se atreveu a fazer aquilo que não estava em sua alçada, fora
dos limites da sua competência, ainda que, porventura, quisesse, porque esse
não era o seu papel, nem a incumbência dada. Algo inglório seria assumir
uma prerrogativa exclusiva de Deus, numa tentativa de tomar-lhe o lugar à
força, nos mesmos moldes empreendidos por seu adversário. Certamente, ele
se lembrou da rebelião no céu, quando Satanás e os seus comparsas caíram,
sendo expulsos pelo mesmo motivo: desejar assumir o trono divino,
destituindo-o, caso houvesse, nessa tentativa, alguma possibilidade de êxito.
Satanás se enganou no próprio pecado, iludido com a ideia de que recebera
“poderes” suficientes para considerar-se vitorioso, em meio à mais flagrante
de todas as derrotas. Essa é uma das marcas vigorosas do pecado: fazer-nos
crer fortes enquanto caímos impotentes, sem qualquer força para nos
reerguermos, incapazes de redimirmos a nós mesmos. Por isso o Arcanjo,
temendo ofender ao seu Senhor, abriu mão de proferir uma condenação ao
réu dos réus.

Em sua reverência e temor (no sentido já explicado, em páginas


anteriores), mesmo sabendo da sentença e punição dos demônios; mesmo
estando investido da autoridade divina, humildemente entregou-se nas mãos
de Deus, deixando a vingança, o “troco”, para o supremo Juiz, único capaz de
punir a ofensa diabólica à sua autoridade e santidade, na medida exata do
delito praticado contra si.
Este é outro exemplo dado por Miguel, o de se submeter integralmente
aos desígnios e à vontade divina, sabendo que se está melhor, mais protegido,
sob a sua guarda, do que em qualquer outra condição, e, como tal, todas as
atitudes e ações, dos anjos e homens eleitos, devem também estar em sua
dependência, em obediência. Quão subordinadas e filiais são as nossas vidas
a Deus, no sentido de que, sem ele, não existiríamos, nem viveríamos, ou
teríamos o mais cobiçado e invejado relacionamento, a comunhão verdadeira
e santa, a satisfazer-nos e encher-nos de gozo imensurável. Os réprobos
apenas se darão conta da própria infelicidade e tormento, muito além do
castigo físico e da ira divina oprimindo-lhes a alma, quando da irremediável
separação ou morte eterna, privando-os da mais sublime, perfeita e desejada
união com o Criador.

Sendo assim, a nossa vontade também deve estar à disposição da


Majestade, tal qual os nossos pensamentos e ações; e não há nada a nos
alegrar mais, nem mais justo, duradouro e santo, incomparável e
infinitamente maior do que todos os tesouros do mundo, como provou-o
Cristo, rejeitando as ofertas e favores terrenos oferecidos pelo diabo, no
deserto, em favor da comunhão perene com Deus.
A Arma dos Ignorantes

No verso seguinte, temos a afirmação: “Estes, porém, dizem mal do que não
sabem”, revelando a completa ignorância dos homens em relação à verdade, à
realidade, e, sobretudo, ao conhecimento divino, que, em última análise, é a
verdade e a realidade, em seus aspectos mais absolutos, santos e eternos. São
tolos a acusar e proferir sentenças sobre o que não conhecem, o que lhes está
encoberto e que acusam pelo desvio de caráter, pela noção de estranhamento,
de incapacidade inerente à própria natureza humana a dominá-los, afastando-
os da sabedoria que vem dos céus, o que os leva a entregar-se alucinadamente
à loucura incontrolada de se opor a tudo o que é divino.

É muito comum encontrarmos pessoas opinando sobre aquilo de que


pouco ou nada entendem, ou ignoram por completo. Há uma falsa ideia de
que o homem pode se exprimir sobre qualquer coisa e está capacitado a fazê-
lo ainda que desconheça o assunto, nunca o tenha estudado, nem meditado
nele, fazendo crer na possibilidade de conhecimento se transmitir por
osmose. Tão rapidamente e de pronto nos metemos nos assuntos mais
complexos, como se o dominássemos à exaustão, como se houvesse um
poder na mente, intrínseco ao homem, de igualar um palpiteiro e um
estudioso meticuloso no mesmo patamar de idoneidade e compreensão.

Praticamente todos, hoje em dia, estão dispostos a exporem suas


sugestões independente de o assunto ser-lhes familiar ou inédito. Parece
haver uma necessidade de autoafirmação na qual a ignorância é anulada pelo
número de palavras articuladas, e não pelo seu significado. É comum
observarmos pessoas discutindo temas complexos e singulares apenas
utilizando-se do poder de intuição, como se o pressentimento, em si mesmo,
suplantasse a autoridade para estabelecer e definir a realidade.

Parece existir uma especialização, um tipo de generalização onde todos se


presumem Ph.D. em “achismos”, em que a adequação de uma situação ou
assunto é a única certeza, e, no fim, o único que importa. O simples fato de o
palrador acreditar em seu discurso é o suficiente para ter credibilidade,
mesmo incapaz de distinguir entre um pato e um avestruz[105].

Infelizmente, as mentes encontram-se tão intensamente obliteradas pelo


pecado que a mais estúpida e desmiolada afirmação pode ser confundida com
sabedoria, inteligência e razão. Vivemos tempos difíceis, nos quais a Queda e
o consequente afastamento de Deus têm tornado o homem uma imitação
grotesca de si mesmo. A degradação moral, intelectual e espiritual alcançou
os níveis mais abissais jamais antes tocados pela humanidade e continua
célere em direção ao fundo do poço. Então, falar asneiras, repeti-las e ganhar
eco entre os seus pares ignorantes faz com que muitos creiam no impossível:
serem uma nova estirpe de gênios e detentores da qualidade de criadores da
verdade, tal a arrogância com a qual adulam a si mesmos; em um
conhecimento inalcançável, posto não haver o sincero desejo de conhecer; em
um rompimento total com a verdade, pois ela os denunciaria como falsários;
em uma fuga da realidade, já que o vértice dos seus desejos é serem
postuladores de um novo mundo, de uma nova realidade, onde serão
aclamados como “deuses”, os “messias” da humanidade.

O desconhecimento próprio e de outrem é a arma a mantê-los ativos na


ignorância, como cultivadores de pragas, disseminadores de doenças,
destruidores inatos e perseguidores ferozes dos seus opositores. Por isso, as
sensações encontram-se tão em moda: são a razão e explicação para quase
tudo, e quanto mais radicalmente explícita e bizarra, maior será a sua
assistência, os seus seguidores, uma legião de inimigos da verdade.

O Cristianismo bíblico, e somente ele (pois há muitas formas de


“cristianismo” tão ao gosto do néscio), é capaz de causar uma comoção
violenta e uma reação despropositada nos ignorantes, naqueles afeitos ao mal.
Por desconhecerem-no, fazem conexões com tudo aquilo oposto e exterior à
fé, como se fosse a sua essência, enganados pela afetação de que, ao
detratarem a verdade anulam-na, impedindo outras pessoas de contemplá-la.
Não se importam em averiguar seus ensinos, estudá-los, medi-los, na
proporção adequada. Odiando a Deus e tudo o que provém dele, saem
atirando à esmo, refletindo apenas e tão somente o seu ódio e compulsão pela
mentira e a afrontosa calúnia. E, quanto mais insistem na impostura, mais
afastam-se da verdade, cavando, sob os próprios pés, a fossa onde serão
enterrados, esmagados pela futilidade e vanglória. Aquela máxima de “não
conheço, não quero conhecer e tenho raiva de quem conhece”, cai-lhes como
luva; uma desculpa emocional para a preguiça, a indolência, a apatia mental e
espiritual.

O salmista descreveu-os apropriadamente:

“Disse o néscio no seu coração: não há Deus. Têm-se corrompido,


fazem-se abomináveis em suas obras, não há ninguém que faça o bem” (Sl
14.1).

E, no que naturalmente conhecem, comportam-se como animais, ou seja,


o prazer santo é substituído pelo agrado do corpo, num desregramento
impetuoso da carne em todas as formas doentias, psicóticas e imorais, a fim
de corrompê-lo, como, por exemplo, o sexo desmedido, a glutonaria, a
embriaguez e inúmeras outras maneiras de se comportar e agir sem qualquer
moderação. Usam o que lhes é dado abusivamente; como ignorantes e
irracionais, acabam condenando não somente o próprio corpo, mas também a
alma. Sentem-se à semelhança dos sábios, os senhores da verdade, os mais
astutos entre todos os sagazes, e não passam de animais irracionais
controlados pela vontade, apetites e sentimentos desordenados, impuros e
depravados. Se conhecessem a verdade, sujeitando-se a Cristo, guiar-se-iam
por ele e refreariam os seus instintos pecaminosos, não se permitindo serem
dominados, escravos, de sua própria vontade enferma, culminando, muitas
vezes, em serem péssimos exemplos para os outros, instrumentos para a
queda e derrocada alheia, no que se contentam. Sob a regência do
comportamento indolente, incapaz de resistir às tentações e ao pecado,
induzem aqueles tão ou mais fracos a vacilarem, aprisionados em um círculo
vicioso onde corrompidos e corrompedores confundem-se em uma massa
disforme, maligna e ofensiva à santidade divina. Acabam por desconhecer a
afronta a si mesmos, não pelo que são, mas pelo que poderiam ser; já que,
feitos à imagem de Deus, refletiriam a luz somente emanada por aqueles
feitos templo do Espírito, os quais, por sua direção, almejam viver e guiar-se
segundo a sua santa vontade, cumprindo o propósito máximo do homem de
glorificar a Deus, em tudo, e para todo o sempre.
PARTE SEIS

TRÊS MESTRES FALSOS

"Ai deles!

Porque entraram pelo caminho de Caim,

e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão,

e pereceram na contradição de Coré."


Inércia Espiritual

A carta continua a descrever os falsos profetas que assolaram a igreja ao seu


tempo, censurando-os com veemência; significando, para alguns, uma ênfase
na proclamação de uma sentença. Não é o que faz. Conhecendo-os tão bem,
sobretudo a obra que realizavam na igreja, com o objetivo de desagregá-la,
corrompê-la e destruí-la, é natural serem comparados com outros exemplos
de homens e mulheres na Escritura, insidiosos e pervertedores da verdade,
seduzindo prosélitos para os seus ensinos falaciosos e sua causa diabólica,
levando-os a se rebelarem contra a sã doutrina, contra a autoridade da Igreja,
contra a revelação especial, contra Deus.

Observe que, desde o início, há uma doutrina sã, correta, divinamente


inspirada, a qual milhares de homens, durante séculos, seguiram e
obedeceram, não sendo, àquele tempo, desprezada ou reformulada, como a
mente carnal clama em afirmar[106]. O fato de haver uma acomodação da fé à
cultura, de maneira que esta define aquela, ao menos em seus aspectos
secundários, levando a um aprimoramento do secularismo dentro da igreja,
criando uma multidão de lobos ávidos em perseguir e extirpar as ovelhas, é o
ponto de enfraquecimento do Cristianismo, desbotando-o no que há de mais
vívido, o amor à verdade, a qual é Cristo, e sua busca intransigente. A
intenção é demonstrar, ou melhor, induzir a uma amostragem mentirosa, cujo
objetivo é fomentar uma espécie de cristianismo mutável, adaptável, sem
identidade e suscetível ao controle do mundo, de forma que nem mesmo os
seus fundamentos sejam considerados intocáveis. Não é estranho, portanto,
perceber um discurso falacioso entre as pessoas de mente secularizada
(inclusive um bom grupo delas dentro das igrejas), promovendo a ideia de ser
o culto primitivo simples (uma simplicidade inexplicável e inexplicada; sem
haver uma definição ou identificação) e de não possuir um corpo doutrinário
pelo qual os irmãos se orientavam e norteariam a vida cristã. Aqui
encontramos a explicação para o simples, uma fé rasa e caricata, sem
fundamentos ou princípios explícitos; contudo, adaptável aos ensinamentos e
dogmas estabelecidos por um líder, ou líderes, anulando a verdade e
colocando em seu lugar um conjunto falso de doutrinas, alegando serem
provenientes de Deus. Produzidos em seus corações pelo desejo de negação à
revelação divina, não fazem mais do que a oposição flagrante à verdade, em
sua “simplicidade” diabólica.

iOra, se não havia doutrina, qual a luz a guiá-los no caminho da verdade?


Se o próprio Cristo veio nos ensinar a vontade do Pai, formulada em
conselhos, exortações, normas e na Lei, como é possível distinguir uma
proposição contrária ou antagônica à doutrina entregue pelos profetas, Cristo,
e os apóstolos por verdade? Se não for a fiel palavra de Deus, será a palavra
de homens perversos e demônios!

Se não há doutrina, nada nos foi ensinado, nada pode ser aprendido e, em
questão de fé, tudo é válido, ao mesmo tempo que o nada também o é. Se não
há doutrina, a nossa fé não existe; é como um castelo de areia em meio à
tempestade. Se não há doutrina, não somos cristãos, nem seguidores de
Cristo, pois ele não veio aqui passear ou exibir-se, mas ensinar, comunicar e
pregar a obediência e o zelo para com o Pai, revelando-nos a sua vontade.
Dizer que a Igreja Primitiva não se guiava por doutrina e que esta somente
veio à existência séculos depois, é um absurdo, não apenas algo sem sentido,
mas fruto da pior de todas as ignorâncias, a presunção de se autoimputar uma
autoridade pela mera contestação, pelo desconhecimento absoluto, pela
indução mentirosa de alterar a realidade, tentando suplantá-la pela negação
insustentável. É como provar a existência das aves alegando não haver aves
ou que aves existem pela falta de penas e plumas na atmosfera.

Há uma frase, supostamente dita por Adolf Hitler, que resume muito bem
o pensamento herético e diabólico desse pessoal: "Torne a mentira grande,
simplifique-a, continue afirmando-a, e eventualmente todos acreditarão nela".

O déspota move seus súditos aos grilhões da rebeldia e da sublevação,


onde os únicos princípios existentes encontram-se no próprio rebelde e nos
seus sentidos, ou no seu sentir, em sua vontade, como o impulso maior a
guiar e dirigi-lo à revelia da verdade, buscando inutilmente por um alvo
inexistente: encontrar um deus morto, criado à semelhança do homem. Tal
encontro significará apenas mais morte, em uma sepultura larga a acomodá-
los, sendo o líder, ou falso mestre, o último a jogar a pá de cal sobre si
mesmo e os seus seguidores.

A alma indigente não tem, sinceramente, o desejo de buscar o Criador,


apenas se engana em andar por estradas errante atrás de uma imagem
produzida pela mente, desejosa de justificar e satisfazer-se na própria queda
ou ruína. É impossível achar o Senhor sem haver mudanças significativas no
espírito e na alma humana. Em seu estado natural, ela encontra-se como um
preso numa cela solitária, sem qualquer possibilidade de contato a não ser
consigo mesma, com a sua voz interior a gritar, ludibriando-a a fim de
acreditar na possibilidade de o impossível ser alcançado por seu esforço vão.

Entretanto, a realidade é outra, bem diferente: o homem é incapaz de


achegar-se a Deus porque é ele quem se achega ao homem. Não damos
sequer um passo em sua direção, mas ele atravessa completamente a linha
que nos separa dando todos os passos necessários. Foi o que Cristo fez de
maneira excelsa, amorosa, poderosa, efetiva e em santidade, dirigindo-se à
cruz como um cordeiro imaculado ao matadouro, possibilitando ele, somente
ele, a reconciliação antes intolerável, porém agora aceitável por seus
exclusivos méritos e mais nenhum, entre o homem e Deus.

Enquanto se teimar em crer na hipótese de haver, em si, a força e aptidão


necessárias para restabelecer a comunhão interrompida pelo pecado, o
homem estará a andar em círculos, perdido em sua própria vaidade, no
ridículo de perseguir, como o cão, o próprio rabo.

Enquanto Cristo for apenas um propiciador, como alguém a dar condições


ou meios para se alcançar o objetivo inatingível, no caso, a salvação, se estará
em completa perdição. É necessário que, para sermos salvos efetivamente, ele
tenha realizado a obra levando-a a termo, sendo um fato concreto e acabado,
imutável, não uma ação provisória ou temporária, como a maioria supõe,
suscetível às intempéries da humanidade caída, depravada. Algo eterno,
como a salvação, somente é possível pelas mãos do eterno e perfeito, o qual
não poderia trabalhar para um fim efêmero e incompleto; nem a certeza
humana poderia estar firmada em si mesma, no imediatismo; na variação de
humores ou inconstância; no ceticismo, a leva-lo cada vez mais distante da
realidade; na disposição ao engano, ao autoengano, opondo-se flagrantemente
à verdade.
Se ao mesmo tempo as falsas doutrinas afastam o homem ainda mais de
Deus, a falta de doutrina produzirá o mesmo efeito, conservando-o em um
estado de inércia espiritual. Qualquer uma delas o comanda e o conduz às
trevas mais densas, achadas em sua própria alma, sombria e lutuosa.
Pensando-se livre, autônomo, senhor da sua vida, acaba por se fazer escravo
de si mesmo e da idolatria, construindo um altar e um trono, muito próximos
da deposição, inacabados, a ruir antes de serem erguidos, assolados pela
finitude, pela vontade fugaz e dispersa do homem no tempo, em um
fragmento de tempo, abarcado pela eternidade infindável e perfeita, a suga-lo
como um aspirador gigante retém invisíveis partículas de poeira.

A existência humana, como a conhecemos, é uma fração irrisória na


história, e o homem um nada em relação à criação, quanto mais se comparado
a Deus. Não é estranho, portanto, o anseio obsessivo de, sendo nada, fazer-se
como ele e querer tudo?... Ah, maravilhas das maravilhas, enquanto o homem
tenta subir as escadas para o trono divino, em uma nítida intenção de invadir
e conquistar o Reino, Deus, em sua sabedoria, desceu aos porões da terra,
fazendo-se um de nós, para, assim, salvar o seu povo, os seus eleitos. E,
somente então, as portas do reino eterno foram-nos abertas, escancaradas,
para encontrarmo-nos com o Criador, Senhor e Salvador, e dele, e por ele, e
para ele, gozarmos por toda a eternidade. Não foi o homem quem subiu aos
céus, mas Cristo se fez homem, servindo-nos de escada, como uma ponte a
ligar o mundo perdido e baixo ao Reino venturoso e sublime, finalmente
alcançado, onde nos realizamos, filhos amados do Pai, pelos méritos
exclusivos do Filho.

Enquanto os ímpios se riem, pela própria tolice do coração.

É com todo o direito a fazer juízo, comparando-os aos exemplos alertados


pela Escritura, que Judas mostra-nos a relação existente entre eles e os
antigos, os quais, envoltos na incredulidade, em uma falsa espiritualidade e
na satisfação da carne, agora lembrava a Igreja do fim que lhes acometera, e
de que, também, ser-lhes-ia por derradeiro, se insistissem em seguir, e
prosseguir, na mesma desobediência.

Comparando-os, inicialmente, com os que entraram pelo caminho de


Caim. O que isto quer dizer? Qual era o caminho de Caim?
No Caminho de Caim

Em Gênesis 4, lemos sobre Caim encher-se de orgulho e ira por Deus ter
aceito a oferta do seu irmão e rejeitado a sua. Ao invés de procurar agradá-lo,
sendo que para isso teria de reconhecer o seu erro (com o fim de
arrependimento; para somente então ter nova chance), ele voltou-se contra o
seu irmão (por conseguinte, contra o Criador, também), matando-o. Se
pudesse ler a sua mente, provavelmente encontraria o motivo do seu ódio a
Abel e a Deus na rejeição da sua oferta e de si mesmo, tendo o orgulho como
o estopim para a consumação de vários crimes. Ao matar Abel, Caim queria
Deus adequado ao seu padrão moral, demonstrando não estar disposto ao
contrário; atestando a sua loucura.

Tal qual uma criança birrenta e mimada, disposta a fazer qualquer coisa
para satisfazer o seu desejo, rebelando-se contra a autoridade dos pais, não
aceitando os seus limites e os limites estabelecidos por seus progenitores ou
guardiões, Caim deu vazão a toda a sua rebelião juvenil, não aprovando os
termos estabelecidos por Deus, insurgindo-se contra o Criador e a criação, ao
consumar a vingança contra Abel. Assim, Caim viu-se derramando o sangue
inocente, pelo capricho do orgulho, pela insensatez da afronta (numa tentativa
de reparar uma agressão inexistente), opondo-se à justiça e retaliando contra
alguém que, supostamente, o prejudicou, quando ele era, em si mesmo, o seu
prejuízo, desonra e vergonha.

Caim foi, via de regra, seguindo o exemplo de seu pai, Adão, o primeiro
vitimista pós-Éden. Considerando-se injustiçado, não viu outro meio de
reparar a suposta injustiça a não ser atacando e destruindo aquele que foi o
alvo da justiça, o seu irmão. Em seu coração, não havia intenção de seguir os
princípios e valores invocados pela qualidade e caráter do Justo e Santo, nem
de se exercitar neles, mas de trilhar o caminho da paixão desenfreada, louca e
ilegítima por si e de si mesmo, punindo o inocente, fazendo-se juiz, quando
não passava de réu de condenação e morte.

Assim caminha a humanidade, onde o discurso de igualdade, fraternidade


e justiça é marcado pelas formas ainda mais virulentas de injustiça. Em nome
de uma reparação impossível e desnecessária, busca-se nada além da pura
vingança contra aqueles que nada fizeram para merecê-la; acusados sem
direito a defesa, pelo simples fato de serem brancos, homens, heterossexuais,
ricos, ou qualquer outro espantalho proposto para estigmatizá-los. Estes são
subterfúgios, artifícios para se alcançar um objetivo maior: o controle, a partir
do caos social, tirando de Deus a sua autoridade e fazendo do homem presa
fácil em um sistema de poder demoníaco. Se a alegação é a de que Deus e a
Bíblia são instrumentos de dominação, nada melhor do que anulá-lo por meio
de outro sistema de poder e dominação, não aquele sábio e perfeito, mas o
impetrado pela mesma paixão assassina de Caim: o ódio ao bem!

Esse é o tipo de amor alimentado pelo rancor e antipatia; um tipo de


justiça inflamado pela injustiça; um tipo de reparação amparada no dano, na
sede de desordem interior, pessoal e pública. É a busca de salvação na
condenação sumária; do alívio na dor; da cura abrindo-se novas feridas,
provocando fístulas irreparáveis.

Ao vitimizar-se, Caim abriu sob os seus pés um abismo profundo,


afundando-se nele a cada passo ou decisão tomada a partir da autopiedade,
esmerilhando o seu ego, abandonando-se na rejeição à dependência e ao
favor divinos, para tomar em suas mãos as rédeas mortais do autonomismo.
Cada homem a não compreender que o fim de todas as coisas é a glória de
Deus, devendo-se empenhar todos os esforços e meios para que a própria
vida resulte nisso[107], e cada homem incapaz de sacrificar-se em favor do
outro é um discípulo de Caim, um seguidor fervoroso e dedicado, assim
como ele o foi do diabo.

Não entrarei nos pormenores e explicações mais detalhadas de como isso


se dá. Talvez, em outro lugar mais apropriado, empreenderei uma análise
detalhada desse comportamento, que tem se tornado um modo de vida
moderno, essencialmente mortal. O objetivo, nesta seção, é analisar os
aspectos diretamente ligados ao texto de Judas, e, portanto, continuarei nele.

Quero fazer uma reflexão sobre o porquê de Deus se agradar da oferta de


um e não se agradar da oferta do outro.

A maioria tem por explicação o fato de o sacrifício de Abel ter sido com
sangue e o de Caim não; levando-se a crer que a escolha pelos primogênitos
das suas ovelhas e das suas gorduras (indicando morte, sacrifício de
inocentes, sangue derramado), remetiam ao futuro. Seriam como “sombras” a
indicar o sacrifício de Cristo, na cruz do Calvário, o Primogênito de Deus, o
Cordeiro imaculado, inocente, cujo sangue derramou para a salvação de
muitos, para terem seus pecados expiados; algo a acontecer milhares de anos
depois.

Entendo essa conclusão como sendo parcialmente correta. Ela aponta para
a necessidade de morte, como forma de se pagar os pecados, ao mesmo
tempo que ela é consequência deles, sendo o justo quem remirá o seu povo e,
somente assim, cada um dos eleitos será purificado de suas iniquidades e
libertado da condenação. Desse modo, serão inocentados quando não
passavam de criminosos, pelo santo e inocente a levar a culpa sobre si mesmo
daqueles antes condenados. Não parece uma contradição? Nós, pecadores
miseráveis e abjetos, fomos feitos santos e impolutos pelos méritos do
verdadeiro Santo, Cristo, o qual, para justificar-nos perante Deus, carregou
sobre si a imundícia, o horror e sórdido pecado, recebendo o castigo em
nosso lugar, justificando-nos, inocentando-nos, pelo amor infinito com que
nos amou. E não havia outro jeito, nem há! Se não fosse pela sua graça e
misericórdia, estaríamos no inferno irremediavelmente, contando o tempo de
adentrar aos umbrais do lago de fogo; no entanto, graças a Deus, por seu
Filho, que nos liberta dessa sina desastrosa, e pelos seus méritos exclusivos
nos transporta das trevas para a luz, do sofrimento eterno para uma vida
eternamente guardada no seu amor e graça!

Se levarmos em conta a existência de algo mais além da referência a


Jesus e o seu sacrifício, ainda algo persiste em fustigar a mente: aqueles
irmãos sabiam como ofertar ou não a Deus?

Há quem entenda esse conhecimento disponível a ambos, o necessário


para a tarefa se realizar de maneira correta; entretanto, ao meu ver, não! Há
elementos a serem tocados, meditados, para não reduzirmos este fato
histórico a uma simples alegoria. O texto não traz nenhuma referência de
como eles deveriam agradar a Deus; se conheciam ou não, de antemão, como
ofertar-lhe; apenas revelando que:

a) Eva deu à luz a Caim, e depois a seu irmão Abel (v.1-2);

b) Abel foi pastor de ovelhas, e Caim, lavrador da terra (v.2);

c) Caim trouxe do fruto da terra, e Abel tomou dos primogênitos


das suas ovelhas e da sua gordura, como ofertas a Deus (v.3-4).

Um adendo: algo a auxiliar o ponto específico levantado, é o de a Bíblia


informar o nascimento na ordem de primogenitura: Caim, depois Abel. Um
pouco mais à frente, ela cita a profissão de Abel, como pastor para, em
seguida, citar a de Caim, lavrador. Mais um pouco, e temos Caim ofertando
primeiramente que seu irmão, e este o seguiu, talvez respeitando alguma
preeminência de Caim, como irmão mais velho; de tal forma que, somente
após apresentá-la a Deus, Abel se dispôs a fazê-lo também. Tudo isso não
pode resultar em uma falta de significado, julgando-se serem detalhes
inexpressivos no contexto da história; antes, há fortes indícios de que não
lhes foi revelada a forma de melhor ofertarem, não lhes sendo ordenado, por
Deus, como agradá-lo. Isso aponta para escolhas espontâneas, visto serem
aquelas as suas atividades naturais, e nada mais natural do que darem o
melhor de si: suas habilidades, disposição, os frutos ou produtos advindos do
suor do rosto, algo realmente a orgulhá-los.

Não havia por que Caim desobedecer à ordem direta de Deus, não
sacrificando um cordeiro para recolher hortaliças, frutas e legumes (ainda que
fossem as melhores, mais bonitas e saborosas), e levá-las em seu lugar.
Seguindo o curso natural de suas atividades, a razão das ofertas está na
vivência de ambos, nos dons e capacidade dadas por Deus, distinguindo-os.
Daquilo produzido, e que tinham por ofício, inerente às suas vidas e
faculdades, dispuseram como oblação, sem poderem agir de outra maneira;
não podendo Caim dar outra coisa que os frutos do seu trabalho, assim como
Abel acabaria por empreender o mesmo[108].

Ambos pareciam sinceros, dispostos a agradar ao Senhor, uma vez que a


iniciativa partiu de Caim; não parece tê-lo feito por imposição, mas por uma
atitude voluntária. Assim, ao menos em princípio, descartarei a possibilidade
de qualquer inclinação rebelde ou má da parte do primogênito de Adão.
Numa perspectiva humana, queriam o melhor, dar o que tinham de
melhor, tanto de si mesmos como dos seus esforços. Agradá-lo era uma
forma de recompensa pelos seus trabalhos, pelo suor dos seus rostos,
revelando esmero e dedicação ao levarem as ofertas, em reconhecimento do
bem proporcionado por Deus e de quão bom ele era. Eles deveriam entregar-
se a essa tarefa destituídos de qualquer pompa, vaidade, ou reconhecimento
meritório, visto que, como mordomos, nada lhes pertencia; e, portanto,
deveriam fazer e doar o melhor de si, como mostra de gratidão a Deus, e não
como um objeto de disputa pessoal, em uma competição para se saber quem
era o melhor entre eles, na busca de engrandecimento, de autovalorização, de
sobreposição de uns sobre os outros, quando o chamado divino é para a
sujeição voluntária de todos que o servem.

Sendo Deus o doador de todas as coisas, sem exceção, desde a saúde e


vigor físico para o trabalho de sol a sol, passando pelo intelecto, a sabedoria,
a prudência, a aptidão, os meios para se chegar ao objetivo final, dons e
talentos, a própria subsistência sem a qual todos pereceriam, nada mais justo
do que reconhecê-lo digno de louvor, sendo, sobretudo, agradecidos por
tantos favores, pela infinita misericórdia com que tem sido paciente com a
ingratidão humana.

Nada é capaz de recompensá-lo pelo bem recebido, consistindo-se em


Senhor de tudo e todos; entretanto, cada homem, mesmo aqueles nos lugares
mais remotos do planeta, deveria se entregar ao serviço, ou culto, com o
coração cheio de graça, agradando-o naquilo que é possível, ainda que
insuficiente: a obediência e humilde submissão à sua vontade. Infelizmente,
não é assim, pois boa parte da humanidade, e até mesmo muitos cristãos,
consideram-se dignos do favor divino, e não raro pode-se encontrar alguns
que reputam a si mesmos credores, com direito a compensações pelo “nada”
feito; e honrarias pelo muito conquistado na luta obstinada em cavar, mais
fundo, um atalho para o inferno. Na presunção de seu direito, não é bastante a
ingratidão, mas a exigência de serem vistos por Deus como beneficiários,
como se fossem garotos travessos e, pegos na traquinagem, exigissem uma
guloseima como forma de reconhecimento pelo delito praticado.

Paulo nos diz que, mesmo se o homem fosse capaz de cumprir a lei, não
seria justificado, e não poderia exigir coisa alguma de Deus; sobretudo nós
que carregamos, como o personagem “Cristão” de John Bunyan, um saco de
cheio de pecados às costas (Rm 3.19-20). Se não somos gratos, se o nosso
coração não estiver transbordante de graça, o que somos? Se o único motivo
é a satisfação do orgulho, da arrogância e injustiça, não somos mais
merecedores da misericórdia de Deus, fazemo-nos abomináveis diante dele,
fazendo jus à eterna condenação, e atraindo a sua ira. E toda a rebeldia, seja
em qual nível estiver, será sempre uma maneira inequívoca de revelar o
quanto somos hostis a quem será sempre merecedor de toda a honra, e do
qual somos devedores.

Ao menos no caso de Caim, isso é possível, como uma inferência. Ele


queria ver-se reconhecido por “dar” a Deus o melhor da sua produção,
acreditando-se agradável por seus méritos pessoais, enchendo-se de
entusiasmo por si mesmo, uma forma de autoidolatria, não vislumbrando o
Senhor como aquele que lhe deu e capacitou-o a dar; antes, a sua oferta tinha
o caráter de autoexaltação, sendo orgulhosa, soberba e falha.

Outra defesa, advogada por muitos para Abel, é a de ser justo, por isso
sua oferta foi justificada diante de Deus, ao contrário daquela entregue por
seu irmão. E isso é uma verdade. Deus aceitou o seu sacrifício porque ele
ofereceu algo maior do que Caim (Hb 11.4), pela fé; e se a fé é um dom de
Deus (Ef 2.8), o próprio Senhor propiciou-o a dar, na medida correta,
exatamente aquilo que lhe seria agradável.

Não é interessante pensar que Caim poderia ser Abel? Se houvesse uma
roleta a determinar aleatoriamente a personalidade e a identidade das
pessoas? Poderia ser ele a pastorear ovelhas, enquanto o caçula lavraria a
terra, mudando o curso da história, a partir da troca dos personagens? No
entanto, aprouve a Deus, em sua soberania, predestinar Abel e Caim para
cumprirem os seus eternos desígnios, de maneira a transcorrerem os
acontecimentos assim como havia planejado; remetendo à questão apontada
no item “b”: a primogenitura foi “tirada” de Caim e entregue a Abel, assim
como também o foi em relação a Esaú e Jacó, muito antes de eles haverem
nascido e pecado, como afirma o apóstolo Paulo, em Romanos 9.10-14.

Alguém poderá dizer que o fato de a Bíblia citar o trabalho de Abel


primeiro é mera coincidência. Como não acredito em sorte, azar, acaso e
coincidências, mas apenas na providência divina de realizar tudo segundo o
seu santo e eterno decreto e vontade, a citação é indicativa de que também a
profissão seria um fator determinante para a oferta, pela própria escolha
divina dos postulantes, um a agradá-lo, enquanto o outro não. Quando o
Senhor predestinou Abel para ser um pastor, o fez com a nítida certeza de que
ele e a sua oferta lhe agradariam, no tempo certo, na proporção devida. Ao
determinar que Caim seria um lavrador, sua oferta já estava rejeitada, muito
antes de o mundo ser mundo e Adão vir a habitá-lo. Deus providenciou o
cumprimento de tudo conforme o seu querer, de maneira conveniente e
precisa, sendo Abel o escolhido e Caim o rejeitado. Fazendo a analogia com
Esaú e Jacó, podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que Deus amou a Abel e
odiou a Caim.

Entretanto, pode-se argumentar o equívoco da minha analogia; porque


Paulo estaria a falar de eleição para a salvação e de Deus tê-los escolhido
antes de fazerem o bem ou o mal. A aplicação da teologia de Paulo serve para
todos, sem exceção, em todos os tempos. Por isso, cabe muito bem aqui;
encontra-se em consonância com o texto sagrado, da mesma forma que nos é
dito ser Abel um justo (Hb 11.4), assim como Caim era um corrupto, ímpio
(v.11).

Ainda pode-se alegar a adequação ou não do tipo de oferta, se de sangue


ou da terra, para serem satisfatórias, no sentido de apetecerem-no. Há de se
lembrar que Deus aceitava ofertas voluntárias de gado, ovelhas e cereais (Lv
1 e 2), não sinalizando um impedimento a Caim. Não havia nada a proibi-lo
de oferecer dos frutos da terra, anulando-se assim o argumento. A questão se
volta, então, para Caim. Se o problema não foram os frutos, então a rejeição
de Deus recaiu sobre ele, não ao que tange a forma ou maneira de ofertar,
mas à sua disposição interior de fazer-se inimigo do Altíssimo.

Como cristãos bíblicos, reconhecemos o controle divino sobre todas as


coisas, visíveis e invisíveis, materiais e espirituais, inclusive sobre a nossa
vontade[109]. Abel e Caim cumpriram, a seu tempo, o eterno propósito de
Deus, consistindo em dirigir a história, em perfeição e sabedoria, em seus
termos, segundo a sua santa vontade. Não importa se Deus entregou-lhes
regras de como procederem à oblação, nem se Abel sabia e Caim não. Isso é
irrelevante, pois não invalida em nada a decisão divina de se agradar de um e
não se agradar do outro. O texto quer deixar evidente, e nos assegurar, o fato
de Deus se alegrar com um, e não se agradar do outro, assim como ele se
compadece e tem misericórdia de quem quer (Rm 9.15); compadece-se de
quem quer, e endurece a quem quer (Rm 9.1). A ideia de Deus ter se satisfeito
com uma das ofertas, rejeitando a outra, para depois se agradar de Abel e
recusar a Caim, é incongruente com os princípios bíblicos, apontando para
algo exterior a eles, quando a justificativa está no interior, a consciência, de
ambos; a operação do Espírito em um, Abel, e o abandono de Caim à própria
concupiscência. Considerar como determinante a oferta e não o ofertante,
nessa sequência, impõe uma condição de valor injusta, se examinada apenas
por este ângulo.

O texto indica, de maneira evidente, o agrado de Deus numa ordem


contrária à pretendida pela maioria, pois:

“Atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para
a sua oferta não atentou” (Gn 4.4-5)

A ordem não é primeiro o material e depois o espiritual; mas o ofertante


e, depois, a oferta. A aceitação da oblação está diretamente ligada à
aprovação ou validação de quem deu; não importando muito o oferecido, sem
desmerecer o valor simbólico, de remeter a Cristo (Abel é um “tipo” de Jesus;
o justo a morrer inocentemente); e, mesmo nesse caso, a referência não é
apenas e, em primeiro lugar, ao sacrifício, como não é à oferta, mas a Cristo,
uma pessoa, assim como o é Abel.

(Uma pequena pausa)

Caim poderia ter aprendido uma grande lição, a de como se submeter a


Deus; de como se sujeitar; de, seguindo o exemplo do seu irmão, agradá-lo.
Porém, em seu orgulho e tolice, irou-se fortemente, ao ponto de descair-lhe o
semblante (Gn 4.5). Estava nítido o desagrado de Deus para consigo, e o
Senhor lho manifestou. Bastaria reconhecer o seu erro e fazer a coisa certa,
dali em diante, resultando na confirmação da irrelevância das regras, nesse
caso.

Ao matar o seu irmão, Caim queria, pelo seu ato, comunicar ao Senhor,
mandar-lhe uma mensagem: “Não se agradou da minha oferta? Nem de mim?
Pois bem, agora terá de se contentar comigo, pois não terá outra a ser-lhe
oferecida; não há mais Abel, nem o sacrifício de Abel, ambos morreram. Ou
se agradará de mim ou de mais ninguém”.

De certa forma, Caim queria Deus adequado, submetido ao seu padrão


moral, ao seu desejo corrupto. Em sua represália, usou o irmão para atingir a
Deus, para atacá-lo como a um inimigo, demonstrando não estar disposto ao
contrário; tendo o seu coração anuviado e obliterado pelo ódio, primeiro ao
Senhor, depois a seu irmão, o escolhido de Deus.

Após o assassinato, Caim foi perguntado sobre Abel. Então, disse:

“Não sei; Por acaso sou guardador do meu irmão?” (v. 9).

Quando inquirido, de maneira afrontosa, provocativa, desafiadora,


respondeu com descaso, tencionando esconder o seu crime, em uma atitude
vergonhosa, malcriada e imprudente. Em seu tom é possível reconhecer a
ausência de arrependimento, o menosprezo pelo irmão, cuja vida tirou, e a
ousadia de se dirigir a Deus desafiando-o, como se fossem iguais. Caim,
como alguém fora da realidade, não percebeu em si, no seu ato, no mal
gerado e em seu estado rebelde, agravado por uma reação pueril e
despropositada (na qual muitas vezes somos especialistas), a indisposição
típica dos covardes, a irritação característica dos culpados, o raciocínio
desleal afeito aos maus. Pensando-se oleiro, esqueceu-se de ser barro, e,
como tal, foi quebrado, lançado fora, recusado.

Além de homicida, se fez, também, mentiroso; demonstrou arrogância,


irreverência, petulância e um tom desafiador. Como está escrito:

“Um abismo chama outro abismo” (Sl 42.7)

Caim experimentou, sucessivamente, várias formas de pecado, a partir do


orgulho de não reconhecer a autoridade divina, não se arrepender e afrontar a
Deus com a sua iniquidade. Ignorou, com isso, o fato de ser Deus quem
define o pecado, a partir da sua santidade, sendo ele que estabeleceu o padrão
moral a ser seguido e o imoral a ser evitado. Dessa forma, Caim não está
isento da responsabilidade; pelo contrário, ele é o único responsável pelos
seus atos, da mesma forma que Abel foi responsável por ser agradável a
Deus. Incoerência? Estou sendo contraditório? Não. Apenas revelando faces
de uma mesma moeda, cujo escultor é o próprio Deus.

Algo a se entender é a autoridade divina como única fonte a estabelecer o


que é e o que não é; o que tem de ser feito e o que não tem de ser feito; quem
é justo e injusto. Ninguém pode inquirir a Deus sobre isso ou acusá-lo de
qualquer injustiça, sob pena de acumular delitos contra si mesmo.

Caim queria ser aceito, à sua maneira, à revelia da santidade compulsória,


e não admitiu o não como resposta; não reconheceu o seu engano, nem
confessou proceder incorreta e reprovadamente. Não foi aceito por causa da
impiedade, do mal açodando-lhe o coração a não fazer o bem; antes, o pecado
estava a bater-lhe à porta, como lhe foi dito. No entanto, ele deveria ter
dominado sobre o seu desejo de proceder mal (Gn 4.7).

O coração ímpio é incontrolável em buscar o mal (Pv 21.10).


Infelizmente, de forma obstinada, Caim queria ser justificado, mas Deus é
quem justifica (Rm 8.33); queria ser absolvido sem arrependimento, sem se
retratar; queria os louros e a glória quando merecia o castigo; queria estar
acima dos princípios, da vontade divina, sendo outro exemplo de idólatra,
enchendo o seu coração de uma disposição independente de Deus, mas
impossível, assim como o alcoólatra crê ser capaz de tomar apenas um gole e
manter-se sóbrio. Em sua dureza e cegueira, cobiçou a honra que não podia
obter por seus próprios meios; fez-se provocador, culminando em receber a
justa condenação:

“Agora maldito és tu desde a terra... quando lavrares a terra, não te dará


mais a sua força; fugitivo e vagabundo serás na terra” (Gn 4.11,12).

Caim se tornou em um homem sem freios; inflamado pelo orgulho, pela


autonomia; sem amor, sem temor. Por isso, foi expulso de diante da face de
Deus (v.16).

(Fim da pausa)

Ainda paira uma dúvida: Não seria Deus injusto por rejeitar a oferta de
Caim, sem lhe mostrar o padrão adequado? Nesse caso, Caim não seria
desobediente e não poderia fazer nada a respeito, já que o seu conhecimento
era limitado? A questão não é se Caim obedeceu ou não, mas se Caim
agradou ou não (o texto não fala em obediência, no primeiro momento, mas
em satisfação). E não agradou. Coube a Abel comprazer o Senhor, mesmo
desconhecendo também o padrão desejado, o que, no geral, mostrou-se mais
do que justo. Importa saber a desaprovação divina em relação a Caim, depois,
a sua oferta; importa saber Deus rejeitar a Caim, antes mesmo de desaprovar
a oblação; pois, como diz o texto:

“Mas para Caim e para a sua oferta não atentou” (v.5).

No final, é o que conta.

Assim, Deus se agradou de Abel e não do seu irmão, de tal forma que
Abel, desde antes do seu nascimento, estava predestinado a ser o pastor de
ovelhas e a sacrificá-las, e a tomar-lhes a gordura, e oferecê-la como o
aprazível bom perfume ao Senhor. Da mesma forma, Caim foi predestinado a
ser um lavrador, a tomar dos frutos da terra para ofertar-lhe, irar-se, matar o
seu irmão, ser amaldiçoado e apascentar a si mesmo, seguindo o mesmo
caminho trilhado pelo maligno.

Esse é um exemplo bíblico de predestinação; revelando o poder divino


de, segundo a sua vontade, operar na vida, como também na morte.

Pode-se dizer que a alusão de Judas se refere ao desejo íntimo dos falsos
profetas em “matar” aos que eles chamavam “irmãos”? E, também, ao fato de
que Caim, ao matar Abel, tencionava punir a Deus por não ter sido ele o
escolhido?

Após o crime de sangue, cometeu outros ainda maiores, resultando no


castigo e condenação eternos, além da perda da progenitura:

“Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra. E
agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para receber da tua
mão o sangue do teu irmão. Quando lavrares a terra, não te dará mais a sua
força; fugitivo e vagabundo serás na terra” (v. 10-12).

O estado dos falsos-profetas é o mesmo, num processo de imitação


histórica e espiritual, replicando as práticas nefastas de seus pares: rebeldes,
insistem no erro, sem arrependimento. Considerando-se superiores, em sua
soberba, afrontam a Deus e a Igreja com suas perversões, em um contínuo
trilhar os rastros de sangue, morte e destruição deixado por seus consortes,
seguindo os passos do falso mestre, Caim. Este seguiu o caminho de
perdição, que não era apenas seu, mas de todos aqueles que não se
submeteram à vontade divina e ao serviço de glorificá-lo, embrenhando-se
mais e profundamente nas trilhas dos perdidos, aqueles desarraigados das
benesses eternas.
A Recompensa de Balaão

Em seguida, o autor cita os “que foram levados pelo engano do prêmio de


Balaão”. Qual foi esse prêmio? Encontramos, em Números 22, Balaque, rei
de Moabe, atemorizado em perder o seu reino, visto os judeus caminharem
em sua direção, após vencerem exércitos e povos mais numerosos do que
eles: os cananeus e os amorreus. Então mandou emissários a Petor, na
Mesopotâmia, a fim de trazerem Balaão, cuja fama o rei traduziu:

“Porque eu sei que, a quem tu abençoares será abençoado, e a quem tu


amaldiçoares será amaldiçoado” (Nm 22.6)

Então, eles chegaram com o preço dos encantamentos em suas mãos


(v.7).

Balaão, demonstrando alguma sabedoria e temor[110] pediu para


aguardarem uma resposta até que verificasse o pedido com Deus. Foi o que
fez, ao que Deus lhe disse para não ir com eles, nem amaldiçoar os judeus.
Balaão despediu-os, recusando a oferta.

No entanto, Balaque fez nova investida, enviando porta-vozes mais


honrados (o que significava pessoas mais influentes e persuasivas, e também
um aumento considerável no preço do encantamento), os quais disseram:

“Assim diz Balaque, filho de Zipor: Rogo-te que não te demores em vir a
mim. Porque grandemente te honrarei, e farei tudo o que me disseres; vem
pois, rogo-te, amaldiçoa-me este povo” (v.16-17).

Ao que Balaão respondeu:

“Ainda que Balaque me desse a sua casa cheia de prata e de ouro, eu não
poderia ir além da ordem do Senhor meu Deus, para fazer coisa pequena ou
grande; agora, pois, rogo-vos que também aqui fiqueis esta noite, para que
eu saiba o que mais o Senhor me dirá.” (v. 18-19).

Ora, muitos apontarão para uma nova prova de sabedoria de Balaão, e até
mesmo para o seu espírito piedoso. Se isso, supostamente, aconteceu na
primeira recusa, agora temos uma disposição contrária, de desafio a Deus.
Por quê? Sendo a palavra do Senhor somente uma, e sendo imutável assim
como ele é, por que o profeta haveria de consultá-lo novamente acerca de
uma decisão já deliberada? Não lhe era suficiente a resposta dada por Deus
na primeira vez? Somente o espírito de desobediência, ainda que velada,
dissimulada, poderia levar Balaão a repetir a consulta. Se lhe fora ordenado
não acompanhar os moabitas e amaldiçoar os judeus, por quais motivos ele os
receberia e os mandaria esperar? Não seria mais prudente e correto tê-los
despachado e recusado a nova proposta? A sua falsa piedade e obediência
dissimulava o seu real intento e propósito, algo que a insistência dos moabitas
havia despertado, ou melhor, estimulado em seu coração.

Se não bastasse Deus já lhe ter ordenado anteriormente o que fazer, ele
voltou a consultá-lo, numa clara indisposição à ordem recebida e, pior, de
insistência obstinada, teimosia inflexível. E o que é isso, senão o desejo
de impor a sua vontade diante de Deus, ao invés de se curvar a ela?

O profeta não pode ser condenado sozinho, pois, de maneira igual, nos
empenhamos em sobrepor o nosso desejo sobre o de Deus, numa luta insana
para sermos aceitos e reconhecidos como merecedores de seu favor,
acreditando ser tudo possível debaixo da expressão de sinceridade, de
motivação piedosa. Há uma nítida inversão de valores, uma distorção da
realidade, na qual nos fazemos de sábios em meio a provas cabais de
estultícia, como se Deus pudesse mudar seus desígnios perfeitos e santos
apenas para satisfazer-nos, bajular-nos, numa tentativa de buscar o nosso
afeto, e ser aceito por nós.

De alguma forma, em nosso inconsciente, cogitamos a hipótese de ele ser


um “Deus” frágil, choroso, com uma obsessão maluca de ser aprovado pelo
homem, intentando remediar o nosso desprezo, a volição para o desdém, a
incredulidade e bazófia, tal qual uma mulher de malandro que, mesmo
cansada das surras e humilhações, não se imagina distante do cafajeste. Uma
mente fraca, cuja vontade é determinada pelo limite imperfeito do desejo
humano. Ah, amarga ilusão de quem assim pensa, como foi a de Balaão! A
quem o verdadeiro profeta advertiu:

“E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua


vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há
quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?” (Dn 4.35)

Tal qual Judas escreveu:

“E foram levados pelo engano do prêmio de Balaão”.

Ele não queria entregar-se à obediência, pelo contrário, achava que


poderia demover o Senhor da ideia de abençoar Israel, autorizando-o a
amaldiçoá-los, empanturrando-se com os favores e tesouros de Balaque. Não
havia nele reverência, temor, mas uma muito bem orquestrada atitude de
repulsa, desprezo, amalgamada pela inveja e cobiça.

Consultado, de novo, Deus mandou-o ir com eles:

“Então Balaão levantou-se pela manhã, e albardou a sua jumenta, e foi


com os príncipes de Moabe. E a ira de Deus acendeu-se, porque ele se ia”
(Nm 22.21-22).

À primeira vista, não parece injusta a ira de Deus? Não foi esta a sua
ordem? De que ele fosse com os enviados de Balaque, e fizessem exatamente
aquilo negado, da outra vez? Balaão não agiu conforme a ordem recebida? E
ela não era um indubitável sinal de consentimento? Não é assim que, muitos
de nós, querendo o pecado, buscando o pecado, alimentando-o
sequiosamente, esperamos alcançar o consentimento divino para as ações que
ele reprova? Na ilusão de ele endossar a desobediência?

É comum ouvir cristãos dizendo: “Bem, se Deus não quisesse, eu não


faria isso ou aquilo; tal coisa não teria acontecido. Ele me impediria de
concluí-la. Logo, se fiz, foi porque ele quis!”.

Ainda que sejamos piores do que débeis mentais, incapazes de


distinguirmos entre a mão direita e a esquerda, precisando de cuidados
especiais tal qual um inválido, Deus nos deu a liberdade de escolha[111] e a
sua palavra para nos direcionar, como uma regra textual, a ser obedecida em
todos os momentos e aspectos da vida. Se não o fazemos, não podemos
imputar a ele a nossa culpa, nem o usar como argumento para desculpar a nós
mesmos do erro ou pecado cometido.

Balaão, ao insistir em rebelar-se contra um mandado, ainda que Deus


repelisse a sua disposição em pecar, não obedeceria[112], pois, como Tiago
nos disse, ele foi “atraído e engodado pela sua própria concupiscência”, e o
pecado já havia se consumado (segundo a sua decisão de transigir),
recebendo a morte como recompensa (Tg 1.14-15).

A afronta à santidade de Deus, aquilo que lhe é contrário, provoca a sua


ira:

“Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e


injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça” (Rm 1.18)

E,

“Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a
ira de Deus sobre os filhos da desobediência” (Ef 5.6).

Ora, Balaão, como muitos de nós, foi seduzido pelo pecado, pela revolta,
ainda que o próprio Deus o tenha alertado a não proceder assim. Incitado pelo
coração corrupto e a ideia de haver alguma possibilidade de demover, de
mudar a vontade divina, quanto mais motivado se sentia, com a perspectiva
dos favores e dádivas do rei, mais se insuflava à rebelião, a ponto de não ser
mais possível controlá-la, uma ideia fixa, como um tesouro conquistado, de
abarcar o ilícito, ambicionando o que não lhe era permitido. Quase é possível
vislumbrar os seus saltinhos de efusão logo após Deus lhe dizer: Vá, se
queres ir!

Contudo, em meio à confusão do profeta, nota-se o desagravo de Deus à


rebeldia e obstinação cada vez maiores de Balaão, a ponto de uma jumenta
reconhecer algo insuportável para Balaão, e do qual não escapou: o perigo da
teimosia, de perseverar no pecado:
“O anjo do Senhor pôs-se-lhe no caminho por adversário; e ele ia
caminhando... viu, pois, a jumenta o anjo do Senhor, que estava no caminho,
com a sua espada desembainhada na mão; pelo que desviou-se a jumenta do
caminho... então Balaão espancou a jumenta para fazê-la tornar ao
caminho” (Nm 22.22-23; grifo meu).

Ele estava cegado pelo seu desejo, a ponto de não ver os “sinais” da sua
insubordinação, persistindo no engano; e a cada desvio da jumenta, ele
respondia negativamente, irando-se contra o animal, espancando-o, e
retomando ao caminho erradio (Nm 22.25).

A visão da jumenta, na qual os seus olhos tiveram uma percepção


espiritual, impossível de ser observada pelo profeta, em completa cegueira,
apegado aos recursos materiais, disposto a recolher, neste mundo, os seus
tesouros, é mais do que um fato sobrenatural. Na verdade, aponta para o
homem contaminado, enfermo, pela depravação total, fazendo com que o
animal fosse muito mais sábio e prudente do que Balaão, aprisionado em sua
futilidade, no disparate do seu comportamento.

Foi necessário o anjo do Senhor interpor-se de maneira definitiva:

“Pôs-se num lugar estreito, onde não havia caminho para se desviar nem
para a direita nem para a esquerda. E vendo a jumenta o anjo do Senhor,
deitou-se debaixo de Balaão” (Nm 22. 26-27)

É assim, muitas vezes, a forma de agirmos, lutando contra Deus,


desrespeitando a sua palavra. E mesmo nos exortando a abandonar o caminho
de morte, nos revelando o caminho de vida, o qual, teimosamente, rejeitamos,
não o ouvimos, fazemo-nos de moucos. E desta forma, muitos julgam-se
avalizados por Deus, ao verem o seu desejo realizar-se, sem saber que “Deus
os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm”
(Rm 1.28), enchendo ainda mais as próprias medidas de iniquidade.

Balaão teve, enfim, os olhos abertos. Viu o anjo do Senhor e a sua espada
desembainhada na mão, “pelo que inclinou a cabeça, e prostrou-se sobre a
sua face” (Nm 22.31). Apesar da aparente reverência[113], não se pode
esquecer ou deixar de entender que o Senhor se agradará de nós apenas
naquilo em que formos obedientes. Não será qualquer coisa a satisfazê-lo,
mesmo estando envolta no mais profundo estado de sinceridade; mesmo
sendo lógica e aceitável, ou respaldada por sentimentos afetuosos; se estiver
em oposição à vontade revelada de Deus, não o agradará, e quem o fizer,
estará em pecado.

Interessante notar como a obediência se tornou algo “farisaico” ou


“legalista” nos dias atuais, parecendo que o Senhor nunca se referiu a ela
como algo desejado. Há um apelo quase obsceno para justificar o rebelde, em
sua teimosia, à não obediência. Chega-se a concluir que os mandamentos do
Senhor não são santos, e sim inadequados, sendo que cumpri-los, ou desejar
cumpri-los, significa prova de falso Cristianismo. O apelo à graça, como
validador do pecado, é de uma imoralidade tão indecente e ultrajante, que o
antinomista[114] se vê absolvido na acusação de ilegitimidade alheia. Ele, um
depravado, a defender obstinadamente a máxima de que “quanto mais se
peca, mais se manifesta a graça de Deus”, sente-se intocado no mero artifício
de condenar no outro o pecado que em si o inocenta. Para ele, mais vale o
muito pecar do que o refrear-se do mal.

Em alguns casos, a desobediência compraz-lhe mais, a ponto de a


obediência consciente, objetiva e voluntária, à palavra de Deus, ser
confundida com o fingimento, e acaba-se por alcançar, sem muito esforço,
uma justificativa para se transgredir a Lei, assumir a imoralidade, destruindo
os fundamentos do Cristianismo, e, sobretudo, aprofundar-se ainda mais nos
traços de inimizade com Deus. Os considerados e autonominados “cheios” da
graça, apenas reproduzem, em um nível superlativizado, a afronta natural à
verdade, desprezando-a, insultando-a, numa lógica falaciosa de, ao
desrespeitá-la, louvá-la, engrandecê-la. A ideia chega a um ponto tal de
doença, de miserabilidade da alma (e não há nada de inovador, moderno,
como veremos) que Paulo sentencia, a quem defende esse absurdo, ser digno
de morte ou, no mínimo, a viver uma existência fadada à ruina. Cristo não
somente explica, mas desenha:

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me


ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me
manifestarei a ele” (Jo 14.21).

O amor pressupõe a obediência, o respeito, o desejo insuperável de fazer


a vontade do outro, logo, pode-se deduzir, na fala de Cristo, que o
desobediente não o ama, pelo contrário, o odeia. Acontece que ele também
odeia a si mesmo, pois, ainda que observe a própria vontade e mova céus e
terra para satisfazê-la, ela não passará de uma vontade distorcida, deformada,
capaz de, em sua inadequação à santidade, leva-lo à morte inevitável.

Jesus prosseguiu:

“Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica,


assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha;
e desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram
aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha. E aquele que
ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem
insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e desceu a chuva, e
correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi
grande a sua queda.” (Mt 7.24-27)

Da mesma forma que o homem imprudente, o profeta curvou-se


fisicamente (assim como muitos honram a Cristo com palavras e não em
atos), porém o seu espírito encontrava-se empedernido, atrelado ao pecado.
Isso me leva a refletir se, na verdade, as nossas atitudes estão em
conformidade com aquilo que está posto em nosso coração (sendo isto um
fato e verdade bíblica), se o coração é de pedra ou carne (Ez 36.26); natural
ou espiritual; inclinado ao mal ou a todo o bem.

Novamente, o Senhor diz, falando dos hipócritas e dissimulados:

“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de
mim” (Mc 7.6).

Balaão prostrou-se numa atitude semelhante à adoração. O seu


comportamento subsequente demonstrou a intenção e disposição em resistir à
vontade divina, em levar a cabo o seu plano injusto[115].

Quando a Palavra é repelida, não há lugar para Deus no coração, mesmo


que se tente compensá-la com toda a sorte de manifestações procedentes da
alma natural, como a religiosidade, tradição e subterfúgios criados
unicamente para a satisfação pessoal. Então, restará apenas a ira de Deus, e
somente o arrependimento sincero, pelo poder no sangue de Cristo derramado
na cruz do Calvário, poderá aplacá-la.

No entanto, esse não foi o caso de Balaão. Após curvar-se diante do anjo
do Senhor, e ouvi-lo dizer que saiu como seu adversário, pois seu caminho
era perverso (Nm 22.32), assumiu ter pecado, sem haver a real disposição de
abandoná-lo; antes, o anelava como a um bem precioso, na incapacidade de
abortar o seu intento. Observe-se que o assumir é uma constatação, uma
demonstração exterior, não representando o necessário arrependimento, não
demonstrando o convencimento interior do vício, da transgressão, e a
necessidade de mudanças no caráter. Desse modo, Balaão insistiu em seu
plano, mesmo reconhecendo a desobediência; e, num descaramento
inominável, abusando cada vez mais da paciência divina, disse:

“E agora, se parece mal aos teus olhos, voltarei” (Nm 22.34).

Balaão é o protótipo do “cara de pau”, sempre com a mesma atitude


relutante, inflexível, dissimulada, de fazer cumprir aquilo que lhe é mais
estimado, de menosprezar os alertas, as advertências com as quais lhe é
anunciada a sua transgressão, assumindo o risco de morte, no propósito de
permanecer no conforto, na imobilidade do pecado, disposto a mantê-lo tal
qual o louco conserva uma fera faminta aprisionada consigo em um quarto
escuro e blindado, pois:

“Na verdade o rebelde não busca senão o mal; afinal, um mensageiro


cruel será enviado contra ele” (Pv 17.11).

E Deus, o que fez? Entregou Balaão à sua sanha injusta, à sua própria
corrupção e destruição:

“Vai-te com estes homens”; e ele foi a Balaque (Nm 22.35).

Cumpria-se não o desejo divino, mas a vontade transgressora do profeta,


de alcançar o alvo acalentado e persistentemente reivindicado.

Resumindo: Deus usou Balaão para abençoar Israel, fazendo irromper a


ira de Balaque sobre o profeta; e a cada nova recusa do Senhor em
amaldiçoar o seu povo, Balaão utilizava-se da “técnica”, ou ardil, de erigir
um altar, sacrificar em adoração a outros deuses, em um falso culto (são
erguidos dezenas de altares e mortos outras dezenas de novilhos e carneiros,
em vão), a fim de que Israel desagradasse a Deus, trazendo sobre a si a sua
ira, para que Moabe tivesse, enfim, o seu pedido cumprido. Como está
escrito:

“Certo é que Deus não ouvirá a vaidade, nem atentará para ela o Todo-
poderoso” (Jó 35.13).

Se há um tolo, esse foi Balaão. Como pode o mortal influenciar o Eterno?


Pode a criatura dizer ao Criador “por que me fizeste assim?” (Rm 9.20). Deus
está condicionado à vontade do homem, ou é sempre o homem a estar
subjugado à vontade de Deus?

Resta-nos a convicção de Jó:

“Mas agora te veem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo


no pó e na cinza” (Jó 42.5-6).

Balaão não pôde amaldiçoar Israel; mas conforme o seu coração ímpio,
usando de outro estratagema, de uma prática sutil, desferiu um novo golpe à
nação judaica (provavelmente para obter os favores de Balaque e incitar o
Senhor à ira contra o seu povo; unindo o útil ao agradável): levou os israelitas
a pecarem contra Deus, comendo dos sacrifícios da idolatria e fornicando
com as moabitas. Não inusitadamente, o Senhor chama essa maneira de
proceder de:

“Doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaque a lançar tropeços diante


dos filhos de Israel” (Ap 2.14; grifo meu).

Muitos são instruídos em princípios antibíblicos, a aplicar doutrinas


alheias à Palavra, assim como o povo de Israel foi seduzido ao pecado, e pelo
pecado, e para o pecado. Não é sem razão, mas justificável, Judas insistir, por
diversas vezes, na exortação de atentar e rejeitar os falsos mestres, os quais se
infiltravam na Igreja, lançando artimanhas, dúvidas e contradições,
objetivando a sua queda e destruição. Porém, o fim do perverso é cair em
seus caminhos (Pv 28.18), enlaçar-se nas obras de suas mãos (Sl 9.16), ser
preso pelas suas iniquidades e detido com as cordas do seu pecado (Pv 5.22),
sendo-lhes por prêmio a morte.

Respondendo então à pergunta inicial, qual foi o prêmio de Balaão?

Além de ser abatido à espada por Balaque e seus príncipes, morto pelos
filhos de Israel, como o Senhor ordenara (o mesmo que acometerá a todos
aqueles que persistem na desobediência, acreditando-se impunes e
abusadores da justiça), ele trouxe para si mesmo a condenação terrena, sendo
o culpado por boa parte da incredulidade e desobediência da nação israelita,
do próprio juízo eterno e de um lugar assegurado no Inferno.

Eis aqui o relato de um falso profeta, de um homem perverso, em cujo


coração não havia espaço para a sincera adoração e serviço a Deus, o que não
impediu o Senhor de utilizá-lo como instrumento para que se cumprisse a sua
vontade, usando-o como mensageiro para que a justiça alcançasse Moabe e
Midiã.

Oremos para que em nosso coração não haja engano, nem nos deixemos
ludibriar por pessoas, práticas e doutrinas antibíblicas, ainda que envoltas em
pretensa piedade, sabedoria e sujeição a Deus, mas que são antíteses ao
Evangelho de Cristo, nas quais não há salvação, apenas destruição, e, por fim,
morte.
A Incoerência de Coré

Quanto a Coré, além do que já foi dito anteriormente em relação a Caim e


Balaão, podemos dizer que eles eram desagregadores, arruaceiros, e queriam
conturbar e tumultuar o ambiente na Igreja[116], tirando-lhe a ordem e a paz.
Por isso, o autor refere-se aos falsos mestres como aqueles a perecerem na
contradição de Coré, sendo que a expressão “contradição” significa oposição,
rebeldia, contra a autoridade divina. Esses são os ímpios, que não
reconhecem a necessidade e o dever de serem obedientes a Deus e seus
ministros constituídos. Maldizendo Moisés e Arão, levantando-se contra a
autoridade deles, incitavam o povo ao motim. Como já foi dito, porém é
sempre bom relembrar, agindo dessa maneira, Coré e os seus seguidores
tornavam expressiva a sua insubordinação contra os homens escolhidos por
Deus para conduzi-los na fé e na jornada até a terra prometida. Também
ficava evidente o estado de rebeldia deles contra Deus, ao não reconhecerem
a sua autoridade, tanto em relação à escolha dos líderes como em tudo o mais
intimamente ligado ao seu povo. Eram homens irreverentes, destemidos,
abusivos e preocupados com a satisfação exclusiva dos seus ventres.

Em algum momento, antes do alvoroço, aqueles homens encheram-se de


inveja, e orgulhosos, entenderam que não mais permaneceriam sob as ordens,
decisões e orientações de Moisés e Arão. O ultraje e a injúria de Coré são
perceptíveis na afronta do seu questionamento:

“Por que, pois, vos elevais sobre a congregação do Senhor?" (Nm 16.3)

Moisés e Arão haviam comandado o êxodo de Israel do Egito pelo


deserto, libertando-o do jugo de Faraó, em direção à terra prometida, na qual
manava leite e mel. Através deles, Deus havia realizado muitos milagres,
entregando-lhes suas leis e afirmando serem o seu povo. Havia inúmeras
promessas, bênçãos futuras, mas o Senhor encarregara-se de dá-las também
naquele momento, livrando-os de seus inimigos, sustentando-os, guiando-os,
testemunhando a sua fidelidade, zelo e amor para com a nação eleita. Com
isso, ratificava todas as dádivas com as quais os agraciaria, transformando as
promessas em realidade, e, no futuro, em algo ainda mais esplendoroso.

No entanto, nada disso foi suficiente para convencer Coré e os seus


homens de que os líderes não eram impostores, pois eles não estavam
preocupados com a verdade, com a factualidade, mas em criar um pretexto
para manterem-se desobedientes, numa nítida atitude de ingratidão, de uma
traição mesquinha, rejeitando a verdade, em acintosa dissidência. Ninguém,
em sã consciência, estaria imune aos sinais realizados por Deus pelas mãos
de Moisés e Arão; porém, quando o pecado se encontra em um estado agudo
de obstinação, nenhum feito, por maior que seja, alcançará a devida reflexão
e terá o devido reconhecimento. Assim, mantém-se a alma cauterizada e
insensível à verdade; uma defesa intransigente do engano propositado. Era
mais fácil buscar uma desculpa, mesmo eivada na desfaçatez e imoralidade,
para a quebra de autoridade, do que reconhecer a sua legitimidade e, acima de
tudo, a sua sobrenaturalidade, posto que ela era de Deus para os homens e
não o inverso.

Restava-lhes o arrependimento pela ofensa cometida, mas os seus


corações estavam instilados em manter a resolução inicial de destituir os
irmãos a todo custo e à revelia do escrutínio divino. Enquanto Moisés, após
ouvir o insulto, “caiu sobre o seu rosto” (v.4), entendendo a gravidade da
situação, em atitude de profunda tristeza e humildade, eles se mantiveram
inflexíveis na empáfia. Propôs-lhes, então, um desafio, consistindo de
colocar-se a disposição para ser destituído do seu cargo, não pela
intransigência humana, mas pela decisão divina. Naquele ponto havia a
oportunidade de os insurgentes retrocederem; no entanto, não o fizeram, pois
era algo impensável, optando em levar o seu plano a termo, perseverando na
teimosia. Tinham os olhos vedados, cegados pela ambição, de modo que não
podiam ver, porque não queriam, incorrendo na possibilidade de
vislumbrarem a verdade, e terem de confessá-la. Sendo assim, mantiveram a
imóvel disposição, mesmo diante do alerta do profeta que lhes era lançado
em rosto:
“Assim tu e todo o teu grupo estais contra o Senhor” (Nm 16.11).

Em seguida, Moisés mandou chamar Datã e Abirão, filhos de Eliabe, os


quais se recusaram em ir até ele. Não satisfeitos, acusaram-no publicamente:

“Porventura pouco é que nos fizeste subir de uma terra que mana leite e
mel, para nos matares neste deserto, senão que também queres fazer-te
príncipe sobre nós? Nem tampouco nos trouxeste a uma terra que mana leite
e mel, nem nos deste campo e vinhas em herança; porventura arrancarás os
olhos a estes homens? Não subiremos” (Nm 16.13-14).

A resposta era algo despropositada, viciada em seus princípios e


contaminada pelo vírus da traição e indecência, de um amor psicótico aos
seus algozes, por aqueles que os tratavam não mais do que escravos, a
sujeitá-los e puni-los com rigor. É o amor obsessivo da vítima pelo bandido,
criando um afeto doentio como consequência de uma personalidade
estilhaçada, distante da realidade, um transtorno moral gravíssimo. Apenas as
mentes dispostas pelo caos não reconhecem a real autoridade, admitindo,
quando muito, o seu próprio desígnio de levar a si, e a outros, pelos caminhos
mais tortuosos da marginalidade. Ao rejeitarem Moisés como líder, faziam-se
líderes de si mesmos; ao rejeitarem o líder posto por Deus, negavam a sua
autoridade, fazendo-se deuses e senhores de si mesmos, de modo a se
tornarem homens sem a cabeça, Cristo (Ef 5.23).

Nada pelo que passaram, até aquele instante, serviu-lhes de ensino. Viam
apenas o propósito de seus corações, esquecendo-se da humilhação, sujeição
e escravidão, no Egito. Ao afirmar viverem no paraíso, às margens do Nilo,
negavam a realidade da vida de servidão, e o desejo insano de voltar ao
cativeiro; diante do deserto onde estavam, rejeitavam as promessas divinas,
mas também tudo que ele havia proporcionado ao seu povo, a liberdade, a
esperança, a fé, o sustento, uma nova existência onde a única exigência seria
confiar na sua vontade, rendendo-se, não à tirania do déspota, mas ao amor
misericordioso, à bondade infinita e ao cuidado providente do Senhor.

Outrossim, deixavam explícita a impaciência, fruto da descrença em


Deus, amparando-se na fé em si mesmos. Estando no deserto, não
acreditavam possível a herança da terra prometida; vendo com os olhos
naturais, não confiaram naquilo que não se vê; alcançaram apenas ao seu
derredor, a aridez do solo, a vegetação minguada, a água escassa, pela ideia
limitada sobre Deus, e exagerada sobre a própria importância. Eram
príncipes, a nata do povo e, orgulhosos, não se entregariam facilmente à
liderança de Moisés e Arão, os quais eram considerados um fracasso[117], por
levarem-nos a um lugar tão inóspito, quando a promessa era de uma terra de
fartura e beleza. Segundo o seu conceito utilitarista[118] (uma espécie de
hedonismo[119]), tudo que Moisés e Arão realizaram não foi suficiente para
garantir-lhes o bem-estar imediato; logo, não havia o porquê de
permanecerem na liderança, na espera de um futuro promissor que não
conseguiam entrever e vislumbrar. Acharam-se, então, capazes de levar o
povo à uma sensível melhora, como comandantes eficientes e idôneos, à
margem da vontade divina. Contudo, qual era a solução pleiteada? A volta ao
cárcere egípcio; o cão voltando ao vômito, como Pedro escreveria séculos
depois.

Interessante notar, nesse ponto, que todo o Israel apoiou o motim de Coré,
ajuntando-se à porta da tenda da congregação, contra Moisés e Arão. Deus
ordenou que estes se afastassem, pois iria destruir os demais; no que foi
dissuadido pelos irmãos que, prostrados, clamaram:

“Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a carne, pecará um só homem, e


indignar-te-ás tu contra toda esta congregação?” (Nm 16.22)

Um adendo:

Quando a Bíblia fala do arrependimento ou convencimento de Deus,


como neste caso, não quer dizer que ele tenha sido “persuadido” a mudar de
ideia, não saiba como proceder, ou, inicialmente, tenha se enganado. Nada
disto! Deus é imutável em todos os seus propósitos, e ninguém ou nada pode
demovê-lo de cumprir os seus intentos, decretados na eternidade. Todo o
relato da rebelião de Coré está em conformidade com o controle soberano do
Senhor sobre a história, fatos e homens, de modo que jamais ele será pego de
surpresa ou arrazoará ter-se traído. Em sua perfeição, imutabilidade e
santidade, toda a criação, suas ações e eventos estão milimetricamente
sujeitos à sua vontade, e este relato não é diferente.

Se entendemos ser o tempo uma subordinação da eternidade, no sentido


de este conter aquele, os indivíduos e criaturas, os fatos, decisões e vontades,
decorridos na instância temporal, também estarão sujeitos ao Eterno. Se
podemos dizer, ainda, não ser a eternidade algo exterior a Deus, no sentido de
ela encerrá-lo, mas de ele ser a própria eternidade, posto ser um atributo
inerente a si (não algo estranho, mas parte da sua essência), nada, nem a mais
mísera partícula de um átomo pode agir de maneira independente, como se
não dependesse do Eterno, mesmo em sua insignificância. Então, como
poderiam fatos e pessoas, alocados no tempo, ingerir ou modificar algo
existente na eternidade, e que é a própria eternidade?

Se o tempo está sujeito ao Eterno, pode ele, em sua perfeição e santidade,


ser modificado pela imperfeição e corrupção? Ou pode se enganar a ponto de
ser “corrigido” por pessoas e situações em níveis muito inferiores à sua
sabedoria? Incapazes de alcançar os degraus mais baixos de uma ponte
imaginária a levá-los ao conhecimento mais profundo do ser divino? Ou seja,
em seu ser, Deus poderia se enganar, equivocar-se, ser impedido de realizar a
sua vontade, ou, em último caso, deixar de ser o que é, e assim levar a sua
criação a um patamar ainda mais deteriorado, afeito à própria injustiça, para
livrar-se do estigma insolente e bravateiro, da acusação disparatada de ser um
tirano? Um Deus, agindo assim, não feriria atributos profundamente
arraigados ao seu ser, sendo injusto consigo mesmo? E como poderia ele
sentar-se em um tribunal e arbitrar a condenação e absolvição de um e outro,
sendo indigno e desonesto consigo mesmo? A questão passa a ser a seguinte:
Deus é ou não é Deus, não pode fingir sê-lo, não sendo. Portanto, qualquer
alegação a enfraquecê-lo, mesmo que diga ser ele a fazê-lo por si mesmo e
em si mesmo, é prova de descrença, uma tentativa sutil de despojá-lo de si, de
sublevar a ordem, a fim de galgar ao trono imerecido, mesmo sendo algo
apenas mental, não se realizando de fato, posto ser uma hipotética conquista.
No entanto, é capaz de efetivamente deixar o autor de tal afronta em uma
posição ainda mais desfavorável em relação ao seu estado de condenação e à
ira divina.

Perguntará alguém: Por que Deus disse que aniquilaria todo o povo e
voltou atrás em sua decisão, após o pedido dos irmãos, dando-lhes nova
chance?

Primeiro, temos de entender que tanto a motivação, como a súplica de


Moisés e Arão, estava determinada na eternidade. Lembra-se do decreto
eterno? Deus os moveria a tal, por uma série de circunstâncias alheias ao
controle humano, contudo, estabelecidas no âmbito do governo divino de
ordenar a história, não somente geral, mas pessoal de cada uma de suas
criaturas, e como tal agiram infalivelmente.

Segundo, há um propósito divino em todas as coisas, e ele certamente não


desejou, em qualquer momento, arrasar o seu povo, antes levá-los ao
arrependimento. É certo, também, decretar a ruína da tribo de Coré e seus
seguidores e não lamentar o insidioso plano de amotinamento. Ou seja, o
pedido de Moisés e Arão serviu como prova, para eles mesmos e não para
Deus, do amor e zelo dispendidos com o seu povo. Ali estava estabelecida a
verdadeira liderança, de conduzir a nação de Israel a reverenciar, honrar e
obedecer ao Senhor, à verdadeira espiritualidade, porque este desejo era a
solução perfeita e não um paliativo como haviam proposto os revoltosos.

Terceiro, Deus não poderia, jamais, ser derrotado pela união maligna de
demônios e homens, quanto mais pela insurreição de um dos grupos. O
Inferno existe como prova de não ser possível qualquer união contra Deus,
pois tanto anjos, quanto homens caídos estarão eternamente sob a sua ira. Era
necessário demonstrar para o povo que suas escolhas definiriam o resultado
de suas vidas. Se amassem, vivendo pelo Espírito e a serviço do Senhor, tudo
cooperaria para o bem, mesmo diante dos dissabores e infortúnios (Rm 8.28).
O contrário, inclinar-se para a carne, resultaria em morte, posto ser inimizade
contra ele (Rm 8.6-7).

Sendo um mestre paciente e dedicado aos seus alunos, Deus usou o


episódio para ensiná-los sobre si, sobre eles próprios e sobre a excelência da
sua vontade. Um Pai zeloso orientando seus filhos a caminharem em um
mundo repleto de aclives, declives, avalanches, e terremotos, e abismos, a
permanecerem no bom caminho, o da verdade, santidade e justiça.

Ouvindo o clamor de Moisés, todos os israelitas afastaram-se da


habitação de Coré, Datã e Abirão (talvez estivessem em um tabernáculo rival
ao de Moisés), em sinal de arrependimento pela loucura generalizada. Esses
homens tiveram ainda outra oportunidade, visto a “disputa” dar-se no dia
seguinte ao levante, e, caso as coisas não tivessem chegado a esse termo,
ninguém sofreria as consequências da ação tresloucada e carnal.

Após Coré aproximar-se da porta do Tabernáculo, Moisés disse:

“Nisto conhecereis que o Senhor me enviou a fazer todos estes feitos, que
de meu coração não procedem. Se estes morrerem como morrem todos os
homens, e se forem visitados como são visitados todos os homens, então o
Senhor não me enviou. Mas, se o Senhor criar alguma coisa nova, e a terra
abrir a sua boca e os tragar com tudo o que é seu, e vivos descerem ao
abismo, então conhecereis que estes homens irritaram ao Senhor. E
aconteceu que, acabando ele de falar todas estas palavras, a terra que estava
debaixo deles se fendeu. E a terra abriu a sua boca, e os tragou com as suas
casas, como também a todos os homens que pertenciam a Coré, e a todos os
seus bens. E eles e tudo o que era seu desceram vivos ao abismo, e a terra os
cobriu, e pereceram do meio da congregação” (Nm 16.28-33).

A contradição de Coré foi querer retornar à escravidão após sair das


garras egípcias. Vivendo sob os auspícios de Deus, não se mostrou grato,
nem reconheceu os favores recebidos, amotinou-se, negando a autoridade, o
governo, e a submissão a Deus. Aquele que experimentou a luz desejava
voltar às trevas. Aquele que experimentou a liberdade voltaria à escravidão.
Experimentou a vida, ansiando a morte. Ao sublevar-se, queria o indesejado,
contrariando o plano divino. Incitando os seus concidadãos ao pecado, viu-se
isolado juntamente com os demais mentores, sinal de que o seu barco estava
a “vazar água”.

A contradição era perder o apoio dos israelitas e tê-los por testemunhas


da sua derrocada. Esperando a vitória, recebera uma fragorosa derrota.
Querendo unir Israel em torno de si, viu-o afastar-se. Em troca das honras de
se tornar sacerdote, perdeu o posto de levita, precipitando-se na vergonha.
Sendo traidor e atraindo outros à traição, acabou traído pelo próprio pecado,
denunciado como um impostor. Fazendo-se de juiz, foi julgado pelo justo
Juiz. Planejando desarraigar Moisés e Arão do meio dos israelitas, foi ele
mesmo eliminado do seu meio. Supondo-se zeloso com o povo, ficou à mercê
do zelo e do castigo divino. Em suma, Coré e seus seguidores viram
materializar-se tudo que jamais esperaram, sequer em sonho, acontecer-lhes.
Tinham a sua fé posta em um altar errado: esperando serem bem-sucedidos,
amargaram a ruína, a derrota. Foram injustos pegos nas redes da justiça;
perversos alijados da congregação dos santos; traidores enganados pelo
orgulho de subtraírem a verdade pela mentira, a glória por um pedaço de
carne e pão. O sonho revelado pela vaidade e cobiça transformou-se em
terrível pesadelo, ao passo que a vida que julgavam ter se afigurou na morte
alcançada, efetiva.

Este relato coloca adequadamente o homem diante da realidade


insuperável da sua dependência completa de Deus. Se a reconhecermos e
entendermos como necessária e invencível, em nossa vida, agiremos como
sábios, prudentes e espirituais, colocando-nos nas mãos poderosas, santas e
perfeitas daquele capaz de não somente reconhecer o que nos é
imprescindível, mas também de realizá-lo por e para nós.

O contrário é a prova cabal de nossas deficiências, ainda que não


reconhecidas. Quem se entrega ao engano, ilude-se o suficiente para não
reconhecer a verdade, andando na lamacenta e fétida mentira, trazendo sobre
si mesmo as consequências de sua insanidade, o profundo afastamento de
Deus e o constante caminhar nas trevas, na miséria espiritual. Sem ele, cujo
mediador é Cristo, o homem encontra-se abandonado à própria sorte. Sem a
assistência divina, a sua providência, nada pode nos livrar das garras do mal e
de nossos delírios de autossuficiência, presunção e incredulidade.

Infelizmente, como nos demais relatos, encontramos o homem


insuflando-se contra Deus e sua autoridade. Com uma disposição obstinada,
torna-se inimigo da Igreja, batalhando insanamente contra a autoridade
investida a ela, por Deus.
PARTE SETE

A INFECÇÃO DO CORPO

“Estes são manchas em vossas festas de amor,

banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor;

são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte;

são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas,


desarraigadas;

ondas impetuosas do mar, e que escumam as suas mesmas abominações;


estrelas errantes,

para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas.”


O Labirinto do Eterno Cativeiro

Referindo-se aos falsos mestres, Judas diz que "são manchas em vossas
festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos
sem temor" (v. 12). Não há outro significado tácito no verso, a não ser o
explicitado pelo autor, de uma conduta não cristã, por parte deles, mas
também o de uma atitude de desprezo ao cristianismo, quase uma devoção
aniquiladora, por essas “manchas”. Eles estão no nosso meio, dizem-se um de
nós e, em alguns momentos, se parecem conosco, agem como se fossem
como nós, mas não são dos nossos, porque suas práticas levam o escândalo à
Igreja, e se mostram desprezíveis, imoderados e ofensivos, a trazerem
discórdia e divisão, quando o objetivo das festas era o contrário, apontando
para a comunhão, a unidade fraternal, na qual os crentes congraçavam-se não
pelo excesso, mas pela prudência, pela moderação, um sinal nítido do fiel.

Por outro lado, “as manchas” se esbaldavam desordenadamente,


ofendendo e desdenhado os irmãos, com o seu orgulho e superioridade; com
suas vergonhas e improbidades, suas heresias, mentiras e insultos; com sua
falsa piedade e dissimulação, emporcalhavam o ambiente onde deveria reinar
a paz e a concórdia. Motivados pela confusão, o pecado de não se sujeitar às
ordens e princípios cristãos estabelecidos por Deus, enchiam o ambiente com
o desatino, o histrionismo, a galhofa, denotando um espírito dissensor,
irreverente, cuja palavra central é o desdém, como modelo em seus
relacionamentos na igreja e com Deus. As suas atitudes não podiam ser mais
egoístas, satisfazendo eles apenas os próprios ventres, portando-se
indignamente, sendo ofensa à igreja, e tudo fazendo para a glória pessoal,
para dilapidar o Reino. Dizendo-se a serviço dele, opunham-se a ele das
formas mais indignas e perversas, com o único objetivo de desviar o foco
para a carnalidade, não somente por palavras, mas também por atitudes, a fim
de inviabilizar o mandato eclesiástico e a missão de se proclamar o evangelho
de Cristo (1Co 10.31-32).
Paulo, ao exortar os Coríntios sobre a importância de se proceder
adequadamente na Ceia do Senhor, aponta, ainda que indiretamente, para os
falsos mestres:

“Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a


Igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-
ei? Nisto não vos louvo.... Porque o que come e bebe indignamente, como e
bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por
causa disso há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem.”
(1Co 11.22; 29-30).

Havia, no seio da Igreja, homens entregues à comilança e à embriaguez


durante a Ceia, e se o faziam em um momento tão solene e santo, o que dizer
de outras situações festivas e sem o caráter sagrado da ordenança, no qual
podiam, como se diz de modo popular, “enfiar o pé na jaca”? Havia o
insinuado intento de transportar, mesmo em uma esfera microscópica, o caos
do mundo para dentro da igreja, misturando-o as práticas santas para, no fim
das contas, não serem distinguidos como falsários da fé. Dissimulando-se,
mas conscientes do papel a desempenhar e das consequências objetivas dos
seus atos nada sutis, pretendiam alcançar a honra de inovadores, originais, e
aperfeiçoadores da fé, tal qual os seus seguidores esforçam-se em realizar,
hoje, no seio da maioria das igrejas a mesma convulsão impetrada nos
primeiros séculos. Numa mostra de pretensão e astúcia, iludiam incautos e
rebaixavam a fé ao ritualismo pagão, tornando-a impraticável pelos santos.

Eles desprezavam tudo o que se referia ao Senhor e faziam questão de


evidenciar tal pecado. Então o apóstolo chama a Igreja para o julgamento de
si mesma, no sentido de não se entregar à dissolução dos corruptos, mas de
antes vigiar e zelar pela ordem e decência, a fim de não ser julgada e
condenada juntamente com o mundo (1Co 11.31-33).

Contudo, infelizmente, a tolerância com os insubordinados e desordeiros


é um mal agravado e um erro no qual a igreja tem permitido que a verdade se
torne relativa e a mentira seja reconhecida como legítima, em prol de uma
paz que os maus não querem. Cada vez mais sentem-se à vontade para
concretizar os desígnios dos seus corações, pela omissão dos verdadeiros
cristãos, ao permitirem os exageros de grupos e pessoas nada simpáticos à
verdade e a disciplina. Por trás desse comportamento está o desprezo e, por
que não, o ódio a Deus e tudo a ele ligado, em uma demonstração particular
de opróbio, desonra e vigarice.

É-nos prescrito zelar pela ordem, defendê-la, a fim de o nome de Cristo


não ser blasfemado entre os incrédulos. Porém, muitos acreditam ser esse
mais um ensino ambíguo de Paulo, talvez necessário no seu tempo, mas não
hoje, onde a modernidade (seja lá qual for o seu significado em relação ao
homem) não permite atitudes controladoras e autoritárias de ninguém.

Em nome do amor, daquele amor licencioso e permissivo com o pecado,


vozes se elevam impedindo qualquer tentativa de mover os crentes ao
cumprimento da vontade divina, impondo-lhes a balbúrdia, os conflitos, a
inépcia, a cauterização da consciência. Em favor de uma marginalização da
decência, da moral, do espiritual, fazem prisioneiros aqueles iludidos com o
apelo à “liberdade”, com a “senha mágica” de tudo ser agradável ao Senhor,
bastando ao homem encher-se de sinceridade, fazendo tudo segundo o
coração. Ora, o coração sincero não é condição para o amor, o respeito, a
devoção, porque, acredito, até mesmo Satanás é sincero em seu ódio a Deus e
ao homem; sincero em levar o mal as suas consequências mais nefastas;
sincero em se amotinar e manter-se rebelde; sincero em suas malícias e
armadilhas; ativamente sincero em seu coração empedrado. Nós, quando
pecamos, não podemos chamar em nossa defesa a insinceridade, posto ser
verdade desejar a transgressão a ponto de praticá-la; portanto, a sinceridade,
por si mesma, não aponta para a glorificação a Deus; na maioria das vezes
indica o contrário, a desobediência e o verdadeiro anseio em recalcitrar-se,
em prol de uma glória pessoal e de uma autonomia execrável. Neste caso, a
sinceridade será a aliada do pecado, como a tradução ou expressão daquilo
posto no coração e do qual ele está cheio. Por conseguinte, o homem natural
é sincero com a sua natureza caída, com o pecado, de modo que somente
Deus pode movê-lo ao bem, transformando-o em definitivo ou usando-o nos
momentos em que o bem se manifestará, ainda que esporadicamente, pelos
resquícios do Imago Dei que permanece em cada homem, mesmo no mais
depravado.

Por outro lado, a sinceridade, associada à obediência à verdade, sendo o


tesouro que o crente deve buscar primeiro, trabalhará em harmonia, com o
fim de cumprir a vontade divina, dando-lhe a devida honra, desempenhado
assertiva e propositivamente o ministério cristão de sujeitar-se e servir à
causa do Reino. Essa conversa de “mais amor, menos ódio, porque todos
somos filhos de Deus” funciona somente na mente fragilizada pelo pecado,
incapaz de contemplar a realidade: Deus é a autoridade suprema e, como tal,
todos, querendo ou não, se sujeitarão a seu tempo, colocando-se sob os seus
pés. Ou não foi dito:

“Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos
céus, e na terra, e debaixo da terra, e
toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus
Pai.” (Fp 2.10-11)

Parece algo banal, aos olhos modernos, a exortação de Paulo e Judas ao


desregramento e impudência dos rebeldes e desordeiros. Muitos a teriam
como exagerada, despropositada: afinal, que importância pode ter para a alma
a forma de se comer e beber? Acontece que, ao menos para os sensíveis,
pequenas ações denotam o caráter e propósito de quem as realiza e, por isso,
fica patente a denúncia de um estado de espírito que nada tem a ver com a
vida cristã e, ainda mais, que se opõe flagrantemente a ela. Ao procederem
assim ficava inequívoco os intentos dos seus corações de levarem o Corpo
para um caminho distante daquele traçado pelo Senhor Jesus; um caminho
diametralmente oposto ao da santidade. Ao desprenderem-se da ordem,
caminhavam céleres para o caos; ao avançarem para a mesa sem esperar os
demais, demonstravam rejeitar o próximo e exacerbavam o amor exclusivo a
si mesmos; ao agirem sem comedimento, satisfazendo os seus instintos,
revelavam o destemor daqueles que não zelam nem têm apreço pelas coisas
divinas. Eles se empenhavam na destruição, como já foi dito, e não se
escusavam em revelar claramente os seus interesses. Por isso, outra exortação
do apóstolo se faz tão necessária, ao iluminar-nos ainda mais com o cuidado
e a preocupação em relação aos falsos mestres:

“Não é boa a vossa vanglória. Não sabeis que um pouco de fermento faz
levedar toda a massa? Purificai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais
uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa
páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento
velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da
sinceridade e da verdade” (1Co 5.6-7).
Tudo começa com algo aparentemente sem importância, porém quanto
mais se está conformado a ela mais se desce os degraus da impiedade. É
como uma avalanche: pequena e quase inofensiva em seu início, torna-se
volumosa e destruidora à medida que lhe são acrescentados mais pecados.
Como o salmista assegurou-nos:

“Um abismo chama outro abismo” (Sl 42.7).

Pedro, assim como Paulo, utiliza a mesma severidade ao falar dos


dissensores na Igreja:

“Recebendo o galardão da injustiça; pois que tais homens têm prazer nos
deleites cotidianos, manchas são eles e máculas, deleitando-se em seus
enganos, quando se banqueteiam convosco” (2Pe 2.13).

É preciso dizer mais?

Porém, gostaria de meditar, um pouco ainda, em duas questões:

Primeira, hoje há irmãos suficientemente interessados, na Igreja, em


perceber que se é por demais gentil e condescendente com tais falsos crentes?
O que tem nos levado a aceitar passivamente o ataque dos lobos no recinto
das ovelhas? Não estaremos colaborando para a nossa própria destruição ao
nos unirmos aos ímpios, ouvindo-os, seguindo-os, sendo condescendentes
com suas práticas anticristãs e antibíblicas?

A verdade é que Satanás não foi chamado pelo Senhor de “pai da


mentira” sem motivos. Ele tem utilizado a tática da dissimulação, da
enganação, do fingimento, desde o Éden, sem precisar aprimorar muito suas
técnicas, já que elas resultam, em última instância, no alcance do seu sucesso
em ludibriar a alma tola do homem natural. Assim, ele envenena a igreja com
suas falácias, contradições e insídias, onde seus agentes infiltram-se e alguns,
muito tardiamente, são denunciados como traidores. No entanto, até a
chegada desse dia o estrago já está feito, sendo quase sempre irreversível,
para a maioria, uma volta à sã doutrina. Com isso, tem-se estabelecido um
novo estágio, uma nova categoria de crentes na igreja, sendo que muitos já se
fizeram mestres na autovitimização, onde o ato de criticar é visto como um
dom de poucos, enquanto estes permanecem imunes à crítica. Pode-se
criticar, mas jamais ser criticado. Seria engraçado, se não fosse trágico; é o
caso de se usar dois pesos e duas medidas ou aquele lema popular, “pimenta
nos olhos dos outros é refresco”.

Há algo por trás disso tudo, revelando um espírito de carnalidade, muito


em voga e em sintonia com o mundo moderno, um mundo afastado de Deus e
ensimesmado no orgulho e na impostura: a necessidade de se ser aceito. A
crítica ou exortação é-lhes apresentada, tomam por significado apenas a
rejeição, como uma ofensa pessoal, sem atentarem para o caráter caridoso e
útil da reprimenda. Para se agir com amor, na opinião deles, tem-se de
contemporizar e fazer vista grossa ao erro, como se a pessoa fosse um
incapaz ou uma criancinha desqualificada em compreender a verdade e
assumir seus próprios equívocos. Mas, ao que me consta, a Bíblia nos chama,
inúmeras vezes, à responsabilidade de exortar uns aos outros, como adultos e
maduros na fé, como responsáveis e auxiliadores do irmão embaraçado, e
como prova de amor fraternal que, no fim das contas, é o amor de Cristo por
sua igreja. Se ele nunca nos abandonou, resta-nos segui-lo como servos
dedicados, não abandonando nenhum necessitado, ainda mais aquele membro
que faz o Corpo padecer.

Infelizmente, o papel de vítima, agir como um bebê mimado e choroso, é


mais fácil. Esconde, da própria pessoa, as camadas de erros que ela não quer
ver, nem quer que os outros vejam. E o problema se agrava, ao trazer o
endurecimento, uma espécie de recalcitração, no qual tudo é permitido,
convindo ou não, e ao próximo nada lhe é dado além da indiferença e do
desprezo. Enquanto o homem não for esbofeteado e surrado pela verdade,
vai-se criando uma teia de desculpas, onde os fatos são grosseiramente
distorcidos, jogados para debaixo do tapete, levando a pessoa a dar vazão à
sua completa incapacidade de lidar com os problemas. Tal vitimização acaba
por impedi-la de reconhecê-los e de enfrentá-los, fazendo-se de si mesma um
zumbi, permeada pelo instinto de autopreservação moral a qualquer custo,
sem uma conexão ou vínculo com a moral cristã, a realidade e a fé. O
resultado sempre serão homens e mulheres sem arrependimento,
desnorteados, confusos, levando uma vida cujo modelo não é Cristo, mas tão
somente eles mesmos, uma prova cabal da própria fragilidade (a mesma que
alça a insignificância ao patamar da distinção). Seu ego, orgulho e vaidade
obliteram-lhes a visão, turvando-a, quando não a cegam completamente,
resultando em pessoas insufladas pela autopiedade a permanecerem
inamovíveis no pecado.

Outro ponto é a falta de maturidade para se tratar essas e outras questões,


e digo maturidade em todos os sentidos, moral, intelectual e espiritual. Todo
mundo anda melindrado demais, meio paranoico, vendo “cavalo com chifres”
onde não se tem, havendo tão somente a ausência de autenticidade e exatidão.
Cai-se em um acirramento de ânimos e nervos completamente desnecessário
e improdutivo, fruto de uma autopresunção e estima incapazes de acercarem
o indivíduo da realidade, antes mantendo-o alheio a ela, perdido em um
mundo delirante. Com efeito, então, o próprio egotismo revela-se a única
verdade.

Anda muito em voga fazer “tempestade em copo d'água”, como se as


coisas nos afetassem além da conta, de maneira exorbitante, ganhando
dimensões catastróficas, sendo tratadas com uma supervalorização e um
superpoder de atingir e incomodar, que elas não dispõem nem ocasionam
produzir. Seria o mesmo que, em um noticiário, o apresentador revelasse a
morte de centenas de pessoas em decorrência de uma guerra de mamonas
entre duas crianças.

Quando hiperbolizamos sentimentos e situações, nossas reações também


se tornam exageradas, ao extremo, e fugimos da realidade, criando para nós
um outro tipo de “realidade”, uma segunda ou terceira realidade, na forma de
ilusão e mentira. Assim, acabamos por nos afastar de Deus, do próximo e de
nós mesmos, ainda que a nós, e muitos dos “próximos”, todo esse extremo
seja incrivelmente real e benéfico, ampliando ainda mais as consequências
nocivas desse artifício sedutor.

Novamente, a imagem que me vem é a de crianças mimadas e


despreparadas, infantes a emporcalharem-se com a própria sujeira, como
porcos limpos a refestelarem-se no espojadouro de lama (2Pe 2.22). Boa
parte da culpa está nas pessoas ao redor que não vêm o que está acontecendo
ou não querem ver; se veem, fingem-se de cegas, fingem-se de mortas; se não
veem, suas mentes e corações permanecem obliterados pela autoidolatria,
onde se é capaz de ver apenas a si e mais nada. Isso é amor? Isso trará
crescimento? Até quando daremos tapinhas nas costas uns dos outros,
assentindo com as bobagens mais absurdas e levianas, vendo-os se destruírem
e caminharem céleres ao inferno?

Não sei, mas a nossa geração tem sido omissa, individualista e covarde
em vários aspectos, especialmente no auxílio ao próximo. E a recusa da
maioria em ser advertida faz com que muitos declinem de exortar, como se a
delicadeza, a omissão e a transigência com o mal, o engano e o pecado não
fossem práticas reprovadas pela Escritura, além de serem o atestado
comprobatório de um cinismo insuspeitado travestido de bondade e inclusão,
atendendo aos ditames do “politicamente correto”, uma praga secular a
dominar o ambiente cristão.

Criou-se uma redoma, uma bolha protetora, e coloca-se nelas as pessoas


como se fossem animais em exibição: vemos, mas não as tocamos, porque
não queremos ou porque tememos. Mantemo-nas em um mundo entrópico,
autodestrutivo, onde a fé cristã pode ser apenas um sinal, um símbolo,
pregado na parede, dependurado ou marcado no corpo, nunca uma direção de
vida, um sentido ou significação racional e espiritual.

De certa forma, alguns nichos evangélicos andam agonizando e, para


piorar a situação, pensam que são os salvadores da pátria, que a solução está
exatamente na agonia. Na verdade, a vida cristã é bem simples, mas requer
algo difícil demais para os homens: a submissão, em nome do amor, o que na
maioria das vezes significa humilhar-se, descer do pedestal autoerigido, o
patíbulo de areia, a desfazer-se na primeira intempérie, na mais tênue
adversidade. Por isso somos tão rudes, mal-educados, presunçosos, egoístas e
soberbos, sempre dispostos a virar a mesa, a “botar para quebrar”, a “rodar a
baiana”, quando a humildade deveria operar em nós e deixar que as críticas,
exortações e conselhos fizessem o seu trabalho de aperfeiçoar-nos. Queremos
autonomia como um artigo exclusivo, mas incapaz de ser aceita no outro;
pois o objetivo é ter o outro como um satélite a orbitar ao nosso entorno. É
uma virtude elas dependerem, mas transforma-se em vício a minha
dependência, de forma que vejo, em todas as situações, uma possibilidade de
autoafirmação, de reforço da identidade, mesmo não passando de uma
imagem distorcida, mal focada, da realidade e das inter-relações humanas.
Não ver o visível é o esforço de suplantá-lo com o ilusório, em que a
miragem assume status de real, e o real não é perceptivo. É neste ponto que
reside o grande problema: ser coerente com um discurso somente enquanto se
fala, mas jamais quando se ouve.

É temerário e triste observar parte da igreja, com toda a sua panaceia,


ministrar placebo aos seus membros, seja acreditando na sua eficiência, seja
ministrando-o dolosamente a fim de manter o doente incurável. O resultado
será sempre crentes fracos, sofrimento, dor e... tapinhas nas costas; afagos
que são como cutucar e reabrir feridas. Com isso não digo que temos de ter
respostas para tudo, nem responder a tudo, mas jamais dizer aquilo que nós
mesmos não queremos ouvir[120]. Se não é bom para mim, por que tem de ser
bom para o meu semelhante? Se não aceito, por que o outro deve aceitar? A
consequência é termos, cada vez mais, cristãos com discursos inflamados,
soluções “debaixo da manga”, críticas a torto e a direito e, se não bastar,
ofensas, injúrias, rudeza e crueldade, onde a piedade existe apenas como
prova de amor próprio, mas quanto ao próximo, soterrou-o o orgulho.

As experiências entre os crentes acabam por tornarem-se tão ou mais


difíceis do que com incrédulos, as quais terminam por revelar um caráter
mais humilde, disponível à crítica e à autorreflexão, tão necessário à
conversão quanto a uma vida cristã verdadeira. E fico a me perguntar: por
que eu e você somos tão orgulhosos? Por que chegamos a este ponto? Não
será por acreditarmos já termos chegado lá (mesmo não assumindo
publicamente a nossa “perfeição”), sermos os maiorais, os “bambambãs”,
enquanto desprezamos os sinais no meio do caminho e embrenhamos nos
desvios sem sermos capazes de reconhecer que estamos perdidos nas trevas?

De minha parte, voltarei léguas e léguas, se necessário, para retomar o


caminho do ponto onde Cristo me disse: “Vem!”. E eu fui!
Na Roda dos Escarnecedores

Em segundo lugar, o zelo para com a Igreja[121] não pode nos tornar fariseus
e homens que, sem amor, não sabem conviver com as diferenças. A defesa da
fé pode prescindir do amor e da piedade para com o próximo? Até que ponto
deve se chegar na defesa da fé?

A resposta aqui é muito mais complexa, pois a moralidade pode se


confundir com a legalidade, e a busca da santidade submergir à hipocrisia. É
fundamental saber distingui-los, pois, não o fazendo, corre-se o sério risco de
embarcar em uma luta perdida, em um campo de batalha onde o inimigo
encontra-se oculto e nós estamos a militar contra os “moinhos de vento”, ao
estilo de Dom Quixote de La Mancha. Faz-se necessária a prudência tanto
para fugir do ataque inimigo como para não envidar esforços em fustigar um
inimigo imaginário. Da mesma forma que não devemos desprezar ou ser
indiferentes para com ninguém, há de se cuidar para não ser envolvido nas
teias ou cadeias hostis dos falsos irmãos, cujo comportamento, além de
reprovável, é na maioria das vezes provocativo, desrespeitoso, traiçoeiro,
incitando à carnalidade. Tê-los ao nosso lado, nos banquetes, é uma afronta, e
mantê-los nessa posição pode significar uma concordância com suas
posturas, desregramentos, ofensas e a repulsa a Deus e a Igreja (ainda que de
maneira passiva e não tácita), podendo ser uma declaração de apoio ou um
estado de indiferença, mas que, em ambos os casos, denunciará o desvio, a
rebelião à fé cristã, os quais a omissão e ignorância não isentam.

Estar com eles e permitir que estejam em nosso meio é uma acintosa
infração, um descaso, para com a comunidade dos santos. Faz-se necessário
salientar que isso nada tem a ver com os incrédulos e a vida alheia à igreja,
no sentido de estar proibida a comunicação com “os de fora”. A exortação
bíblica é de não permitirmos esse estado de coisas na Igreja, em seu interior,
pois aqueles que assim agem são agentes da destruição, do escândalo e da
dissensão; como tais, não fazem parte do Corpo, antes buscam a sua morte.
As chances de esses homens ímpios se converterem é pequena, ainda que não
esteja em nosso âmbito cogitá-la ou negá-la. Tal qual Paulo escreveu aos
hebreus, é impossível que eles sejam:

“Outra vez renovados para o arrependimento; pois assim, quanto a eles,


de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério” (Hb 6.6).

Não seriam eles, também, os citados por Cristo?

“Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em


teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não
fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos
conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7.22-23).

Enquanto estiverem ali, com os seus desregramentos e desdém, sendo


aceitos como se fossem cristãos, ninguém poderá lhes ajudar, nem mesmo a
piedade e amor que lhes é devotada, pelo contrário, eles estarão ainda mais
motivados a entregarem-se por completo ao escarnecimento e à rejeição da
verdade. Há, muitas vezes, a confusão de o amor ser passivo e complacente,
quando ele deve ser exortativo, condenatório, a fim de levar o infrator ao
arrependimento ou, no mínimo, a refrear seus instintos abomináveis. Sendo
assim, caso não se arrependam, é preciso que sejam expulsos, aplicando-se as
etapas de disciplina ensinadas por Cristo em Mt 18.15-17, para que, lá fora,
se Deus quiser, sejam convertidos à vida, pelo poder do Evangelho e a ação
do Espírito.

Quando fazemos concessões, permitindo a desordem e a indisciplina,


estamos também sendo coniventes e participantes do pecado alheio e, como
tal, sujeitos à disciplina divina, se formos realmente filhos. Senão, a ira é o
que nos espera, como aguarda qualquer ímpio e infiel obstinado em sua
desobediência.

É claro que não haverá um corpo local isento de pecado e pecadores. A


vida cristã é algo maravilhosa pois ao mesmo tempo somos pecadores, ao
estarmos sob os efeitos da (ainda) nossa natureza, e também santos; não por
esforço próprio, mas pelo sangue e os méritos de Cristo, em efetivamente nos
fazer santos pelo seu poder e graça. Ao cumprir a Lei, vivendo imaculada e
retamente aos olhos do Pai, morreu na cruz, expiando, justificando e
remindo-nos da antiga condição de réus de juízo. Efetivamente, aos nos tirar
das trevas e levar-nos à luz, nos chamou e capacitou a ansiarmos uma vida
santa, a andarmos em seus passos, sendo aperfeiçoados dia após dia, neste
mundo, para a glória final daquele dia em que, como ele, seremos iguais em
santidade, e não mais pecaremos.

Essa dicotomia, santo versus pecador, é a nossa batalha interior, na qual


odiamos e desprezamos tudo aquilo que fazemos segundo a carne, ansiando e
amando tudo o que ainda não fazemos, segundo o Espírito; cientes de que o
prazer está em glorificar a Deus, sendo-lhe obediente, servindo-o em
conformidade com a sua vontade. Ainda somos pecadores, mas vivemos a
expectativa e a certeza da plena santidade do porvir, pois ele nos escolheu
antes da fundação do mundo, em um tempo onde não havia o tempo, em seu
propósito e vontade eternos e sublimes.

Então, a questão não é comparar o de fora com o de dentro, aquele que


está aquém ou inserido na Igreja, mas de reconhecer que as atitudes são
diferentes, motivadas por diferenças. Ainda que a origem dos pecados seja a
mesma, os objetivos e metas não são os mesmos, nem os mesmos executores.
Portanto, quem está aquém da Igreja não está sob a autoridade eclesiástica e a
ela não deve se submeter, enquanto aquele que está inserido nela está sob a
autoridade e proteção da Igreja. Aquele é chamado a se arrepender e a
participar do Corpo de Cristo, enquanto este, caso não se arrependa e
endireite-se, é exortado a sair até que o Espírito o trate e cure. Aquele não
assumiu nenhum compromisso de cuidar e zelar por quem o acolheu,
enquanto este já se tem incumbido dessa missão, contudo está como um
traidor, a descumpri-la ou negligenciá-la. E não é por isso que Judas, Paulo e
Pedro tratam-no com austeridade e rigor?

Através deste livro, venho meditando bastante na questão da Igreja. Não


falo da igreja nominal, a igreja apóstata, liberal, relativista, amoral,
emergente, e antievangelho de Cristo. Não! Desses não há muito o que falar,
além do dito por Judas e analisado neste texto: estão no mundo, se refestelam
nele, e não querem “largar o osso” de jeito nenhum...

“São cegos condutores de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego,


ambos cairão na cova” (Mt 15.14).
Para eles, tudo não passa de visão, de uma adequação ou
contemporização da verdade, Cristo, com o mundo que o rejeita e escarnece.
Não é difícil notar a rematada falta de visão, a cegueira completa, a escuridão
total em que o homem natural se encontra, em conluio com a carne que o
levará à perdição final (Gl 6.8), caso o Espírito Santo não lhe tire a venda e
revele-lhe a luz de Jesus Cristo. Há, da parte dele, um esforço doentio em
desmerecer a obra vindicadora do Senhor, às vezes como um exemplo moral,
outras vezes, como uma alegoria, e ainda outras como irreal, ao ponto de não
crerem na suficiência da Escritura, como um relato histórico verdadeiro, mas
mais do que isso, sequer cogitam-na como a revelação especial de Deus. Não
é, pois, estranha, dentro do âmbito da incredulidade parcial ou total, a defesa
de uma salvação meritória por parte desse homem, e, não raro, o
rebaixamento da encarnação e do sofrimento de Jesus ao nível de uma
encenação, esvaziando-a para que os egos inimigos se inchem a ponto de
explodirem.

A simples comparação de Cristo, colocando-o em pé de igualdade com


Confúcio, Buda, Gandhi, Dalai Lama, Chico Xavier ou outro líder religioso
qualquer, já é em si mesma o sintoma de um estágio avançado de
enfermidade da alma, um ponto crítico em que a cura é praticamente
impossível... E somente não o é porque, mesmo essas pessoas envoltas na
mais obscura e sinistra ignorância, podem ser alcançadas pela graça e
misericórdia divina. Sendo alcançadas, se antes eram inimigas da verdade,
após conhecê-la, defendê-la e vivê-la, tomaram-na por amiga fiel:

“Agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que


não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.1).

Não, não é desses que desejo falar, mesmo gastando algumas linhas com
eles, mas da Igreja verdadeira pela qual Cristo morreu. Vivemos momentos
conturbados que, no mínimo, nos levam a uma espécie de indecisão, mesmo
para os que procuram e querem servir a Deus. O mundo rejeitou
definitivamente qualquer opção de ouvir e obedecer à sabedoria divina. Pelo
contrário, tem prazer em se rebelar contra ela. Desprezam a Escritura e a sua
Lei; zombam do seu poder e glória; consideram-se sábios em sua arrogância,
pretensão e devassidão, quando não passam de tolos e loucos, porque:

“O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus,


porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se
discernem espiritualmente” (1Co 2.14).

Há irmãos sinceros que se esforçam em buscar e servir a Deus, ainda que


nenhum de nós possa ser chamado de útil, pois:

“Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer”


(Lc 17.10).

Mesmo assim, muitas decisões são tomadas precipitadamente, e outras


proteladas até o esquecimento. Deus nos deu a medida certa, o Espírito Santo,
e cada um deve pedir a ele sabedoria, entendimento e compreensão quanto à
sua vontade (Tg 1.5), ao invés de gastá-la com solicitações supérfluas e o
regalo. Neste momento, carecemos de ter a mente de Cristo e de sermos
guiados por ela, a qual é espiritual e discerne bem tudo, e por ninguém é
discernida (1Co 2.15).

Sei que as dificuldades são muitas: estamos na carne, somos imperfeitos,


incompreendidos, e temos um inimigo a se utilizar de armamento pesado
contra nós, que encontra, em nossa natureza pecaminosa, o terreno propício
para o ataque, visando minar-nos por dentro. Há lutas, perseguições e
injustiças; e se olharmos para outros lugares (em especial o mundo islâmico e
comunista), veremos crentes perdendo tudo: bens, família, e a própria vida,
por amor a Cristo e seu Evangelho. Diante desse quadro, e da possível
perseguição aos crentes no Brasil, como agir?[122]

Não importa o que eu penso ou qual é o desejo do meu coração. Não


importa se Fulano se autoexilou ou se há pastores detidos por pregar a
Palavra. É claro, fatos como esses nos perturbam, nos entristecem e, até
mesmo, nos causam indignação e algum sentimento de revolta, o que é
compreensível. Mas devemos ser guiados pelas emoções? Ou obedecer a
Deus? Devemos seguir os nossos instintos, como reza o senso comum da pós-
modernidade e antiintelectualidade deste século? Ou devemos buscar a
verdade e a sabedoria dada pelo bom Deus em sua palavra?

Eu mesmo me vejo numa “cruzada santa” contra todos os pecadores,


contra todos os blasfemadores, contra todos aqueles que afrontam a Deus e o
Evangelho. Entendo a necessidade de o cristão ser o guardião da verdade, no
sentido de buscá-la e vivê-la, propagando-a com o mesmo amor com que a
recebeu. Numa atitude distributiva, deve levá-la até o coração mais
empedernido, ignorante e enganoso, mesmo tendo a porta batida na cara, ou
ao sofrer outra forma de hostilidade, porque a verdade normalmente doí em
um primeiro momento, mas à medida em que ela penetra em nossa alma, o
gozo se torna indizível e duradouro.

Às vezes, esqueço-me de que, por muitos anos, fui inimigo de Deus,


blasfemei contra o meu Senhor e rejeitei-o, não apenas uma, nem duas, mas
em muitas ocasiões, com o que havia de mais insano e doentio em mim.
Porém, pela sua providência, ele me amou eternamente, e me preservou de
mim mesmo, guardando-me para o instante em que operou a transformação
no meu coração, regenerou-me, colocando-me aos seus pés, meu Senhor!

Questionei-me por que a Igreja estava esperando para agir, como se uma
parte substancial dela não estivesse vivendo as agressões, torturas,
perseguições e tantos outros crimes culminando na morte de milhares de
irmãos ano após ano, mundo afora. Por que mantemos uma atitude de inércia,
passividade, enquanto o mundo e o diabo querem nos destruir?

Por um instante, o meu calvinismo e o entendimento racional da


soberania de Deus não desceram ao meu coração e acreditei que devia tomar
as rédeas da situação com as próprias mãos, partindo para a contraofensiva, o
ataque frontal ao nosso inimigo comum. Esqueci-me de algo fundamental,
muito além de tudo, capaz de provocar, em minha alma, ondas de angústia,
de raiva, de vingança: Deus é soberano sobre tudo e todos. Nem mesmo um
fio de cabelo cai da cabeça sem que ele queira; ele não precisa de defesa, e
nem mesmo eu preciso de defesa; Deus cuida de mim de uma forma que
jamais poderei fazê-lo, tanto ativamente me protegendo, como na provisão do
caminho sábio no qual andarei, por sua graça, não por mim mesmo, como se
fosse fruto do meu esforço e obstinação independentes de Deus.

De maneira idêntica, ele está a cuidar dos irmãos em todos os cantos,


eras, situações, seja nas prisões, nos hospitais, nas ruas, florestas, desertos;
ontem, hoje e amanhã; homens, mulheres e crianças; no Sul e no Norte; no
Leste e Oeste; nos campos, planícies e montanhas; sob as águas e no ar; nas
profundezas ou em qualquer outro lugar; ele nunca nos abandonará, e
podemos contar sempre com o seu auxílio, consolo e fortaleza.
Como o salmista assegurou-nos:

“Tu me cercaste por detrás e por diante, e puseste sobre mim a tua mão”
(Sl 139.5).[123]

Então, o que devemos fazer? Protestar, ir às ruas, bloquear estradas,


queimar pneus, estender faixas, fazer abaixo-assinados? Pode ser que sim.
Mas sobretudo orar, para Deus nos capacitar a servi-lo em santidade.

Cristo nos deu dois mandamentos:

“Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua
alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o
primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu
próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes”
(Mc 12.30-31).

Devemos guiar-nos pela santa e bendita palavra de Deus, a qual nos


exorta a crer nele como o único a operar em todo o universo e crer que de
nada adiantará opor-se à sua vontade, conforme foi dito pela boca do profeta:

“Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o
Senhor dos Exércitos” (Zc 4.6).

Isso implica no fato de que tudo acontece conforme a ação do Espírito de


Deus, tanto o bem como o mal, sem que o homem possa intervir ou alterá-lo,
sendo simples instrumento do seu amor, justiça ou ira, de maneira geral. Em
nosso caso, somos alvos exclusivos do seu amor, o qual se manifesta mesmo
nas aflições, angústias e provações diárias, pois o Senhor usa-as como lições
pedagógicas através das quais reconhecemos a nossa completa dependência e
nos aprofundamos no relacionamento íntimo existente entre o Pai e seus
filhos.

Não estou sendo cínico ou insensível ao sofrimento de milhares de irmãos


que anualmente clamam por justiça; não é isto! Na verdade, não acredito na
utilização dos métodos e armas mundanas, os quais, ao invés de trazer a
justiça especializaram-se cada vez mais em negá-la, anulando-a com a
aplicação da injustiça. A humanidade, em geral, erra mesmo quando quer
acertar, porque o faz pensando em si mesma, com os seus interesses e
padrões, inerentes à sua concepção equivocada e insuficiente para distinguir
corretamente o certo do errado, e vice-versa. A história é pródiga em relatar
os constantes e permanentes desvios morais e éticos perpetrados por
sociedades cada vez mais corrompidas e distantes da verdade, criando sempre
um arremedo de realidade, algo a existir muito mais na mente e nos delírios
dos ideólogos e pedagogos do que na prática; flertando, às vezes dissimulada,
outras tantas, descarada, com o mal e suas recriações modernas, aparentando
sabedoria e piedade, quando se camuflam na imperiosa vergonha e
desregramento. Como o Senhor disse:

“Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a
mim.
Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois
do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia.
Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu
senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se
guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa” (Jo 15.18-20).

Quem nos convence do pecado? Da inimizade com Deus? Do sacrifício


salvífico de Cristo? De que somos justificados nele e por ele? O Espírito!
Quem nos revela a verdade, nos faz santos e nos conduz aos caminhos do
Senhor? O Espírito! O qual nos leva à Palavra, nos forja e transforma à
semelhança de Cristo. Seremos um dia ressuscitados? Teremos um corpo
glorificado? Seremos feitos santos, sem pecado? Louvaremos a Deus para
sempre? Pelo Espírito Santo é que somos novas criaturas, e por ele somos
guiados a entender que não temos mais parte com o mundo, e de que as
coisas velhas se passaram, eis que tudo se fez novo (2Co 5.17).

Não quero dizer que devemos esperar o próximo voo à Marte, mas, antes
de pegarmos em armas (aqui representando todo e qualquer método de
defesa, ainda que retórico), urge pregar e ensinar o Evangelho. Porque, se
como Igreja sofreremos, se essa for a vontade de Deus, que seja em
obediência, pregando e testemunhando a Cristo. De que adianta a apologia
sem Cristo? Não estaremos negando o que somos e voltando ao que éramos?
Ou tememos padecer, de modo que o sofrimento é nosso maior pesadelo, não
a desobediência?

Alguns dirão estar eu equivocado, alegando que o cristão não pode se


tornar um “alvo fácil”, um “boi-de-piranha”, como se diz por aqui, antes
deveria estar preparado para defender a si e a outros irmãos, a revidar
proporcionalmente quando diante de um ataque, uma agressão à sua vida,
estando, para isso, respaldado nas Escrituras. No outro extremo, temos os
defensores do “diálogo”, considerando possível um entendimento entre
algozes, verdugos, e suas vítimas. Normalmente são cristãos progressistas
dispostos a contemporizar as investidas do mal contra os crentes e, penso eu,
os primeiros a debandar das fileiras de Cristo, quando necessário. Fico
imaginando qual a tratativa se daria entre um muçulmano armado até os
dentes e com o Corão debaixo do braço diante de um cristão desarmado e
com a Bíblia à mão. Mesmo falando o mesmo idioma, para o muçulmano o
sangue cristão dispensaria qualquer argumento a favor de não o derramar,
enquanto o servo de Cristo estaria indisposto a pegar em armas para
defender-se, ainda que o preço a pagar seja a própria vida. Parece suicídio, e
muitos apontarão o Cristianismo como uma religião suicida. Entretanto, a
história confirma, seja no exemplo dos profetas, seja no testemunho de Cristo
e dos apóstolos, ou o martírio dos cristãos primitivos, que a fé cristã sempre
preservou a sua essência não belicosa ou guerreira, preferindo o sacrifício ao
extermínio.

Se atentarmos para o fato de apenas a partir da união Igreja-Estado, com o


advento do Cristianismo como religião oficial do Império Romano, por
Constantino, encontrarmos o envolvimento cristão nas beligerâncias
mundiais, o padrão utilizado e seguido pela maior parte da Igreja sempre foi
o da abnegação, da renúncia espontânea à conveniência e proveitos próprios.

Até mesmo a defesa mais simples e fácil, a de negar Cristo e adorar a


César, como forma de se absolver da morte, foi rejeitada pelo cristão,
preferindo o sacrifício ao indulto: se havia alguma violência a ser cometida
não seria por ele, mas por mãos de terceiros. No caso, a maior violência
contra o homem seria o próprio homem negar o seu Senhor e Salvador, que
não se furtou a subir à cruz, o justo e santo perecendo pelas mãos dos ímpios
para salvar o seu povo, numa demonstração de humilhação grandiosa por
amor. Somente o verdadeiro amor pode se sujeitar a um ato tão injusto, tão
ofensivo, tão vexatório e indigno, em favor do outro. Se ansiamos, em
verdade, ser como ele, devemos tirar de nosso coração qualquer sentido de
justiça pessoal, de reação ou vingança.

De forma maravilhosa, entendemos que a vida e a morte estão a serviço


do Senhor, e não há qualquer outro interesse o sobrepondo; antes, todas as
coisas estão sujeitas a ele, e o são para a sua honra, e glória, e louvor, jamais
para preservar ou favorecer aos nossos interesses. Afinal, eles não são nossos,
mas de Cristo! Em última instância, se não nos submetemos a Cristo, nos
submetemos àquele a nos afligir e impor a crueldade; aquele necessitado,
carente, despojado de tudo o que há de mais precioso, vital e eterno: a graça e
a misericórdia de Cristo, somente possível de ser alcançada por quem for um
eleito de Deus.

De outra maneira, por que a Bíblia insistentemente exorta-nos a militar o


bom combate no campo correto? E não entre fuzis e bombas, sangue e ódio?
[124]

“No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo
16.33).

Paulo, escrevendo a Timóteo, diz:

“Por isso sofro trabalhos e até prisões, como um malfeitor; mas a


palavra de Deus não está presa. Portanto, tudo sofro por amor dos
escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo
Jesus com glória eterna. Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele,
também com ele viveremos; se sofrermos, também com ele reinaremos; se o
negarmos, também ele nos negará; se formos infiéis, ele permanece fiel; não
pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2.9-13).

Podemos imaginar Paulo agindo como um covarde? Ao não se rebelar


contra a injustiça e crueldade humanas, tornava-se um homem acomodado,
medroso? Pode-se questionar a inteligência de Paulo? E sua sabedoria? E fé?
Não foi ele quem disse:
“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em
mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o
qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim?” (Gl 2.20)

Ou:

“E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram


contribuíram para maior proveito do evangelho; de maneira que as minhas
prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana, e por
todos os demais lugares; e muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo
com as minhas prisões, ousam falar a palavra mais confiadamente, sem
temor?” (Fp 1.12-14)

O sofrimento do apóstolo não era por Cristo e o Evangelho?

Pois bem, alguns afirmarão a necessidade de se contextualizar a fala de


Paulo com a sua época, já que agora as coisas são diferentes, os tempos são
outros, e nem tudo dito por ele é pertinente para o homem moderno. Mas,
pergunto, em quê ou quais aspectos? Se creio na infalível e inerrante palavra
de Deus, se quero viver por ela, e se penso ser igualmente bom para mim o
que era bom para os apóstolos, a Escritura não é suficiente para me
convencer? Preciso me agarrar a uma corda imaginária enquanto me vejo
cair? Não estarei usando os mesmos métodos do passado? De quando tinha
por pai o diabo? Desculpas para encobrir meus erros e não me fazer
obediente a Deus? Ainda que disfarçadas, dissimuladas, de uma pretensa
defesa da fé? Ou de um amor condescendente e pecaminoso?

A única defesa verdadeira do cristão é pregar e viver o Evangelho de


Cristo, e isso somente a Igreja pode fazer. Qualquer outro objetivo, desde a
realização pessoal à mais tênue ignorância, não tem nada a ver com a
Verdade, mas com aqueles que “pregam a Cristo por inveja e contenda” (Fp
1.15) e que mesmo citando a Escritura o fazem em pecado, para a própria
condenação. A guerra não é contra a carne e o sangue, mas contra as hostes
espirituais, como Paulo escreveu:

“Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra
os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste
século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.
Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia
mau e, havendo feito tudo, ficar firmes” (Ef 6.12-13).

Assim como duas paralelas não se cruzam e estão equidistantes, a Igreja e


o mundo jamais se convergem. Nada pode aproximá-los, pois não há ponto
em comum... não fosse uma similaridade: Cristo, ao morrer na cruz, salvou a
Igreja, e condenou o mundo.
O Silêncio Mórbido das Sepulturas
Tangíveis

“São nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte”.

É preciso entender a linguagem de Judas em mais uma metáfora. Nuvens


sem água são aquelas que, trazendo a esperança de chuvas durante a seca,
zanzam de um lado a outro até se dissiparem e não atenderem às expectativas
e propósitos prenunciados. Muito se espera delas, mas não são capazes de
trazer ou produzir algo de bom, pois estão vazias, estéreis. Em pessoas assim
não há fundamento, mas consideram-se como tais; em sua arrogância e
empáfia acreditam-se sábias e capazes em si mesmas, difundindo toda a sorte
de enganos, procurando arrastar para junto de si outros ainda menos
ajuizados. Prometem-lhes a verdade, a esperança, porém lhes dão mentiras,
ilusão, seduzindo-os à desobediência, anunciando-lhes o inferno como se
fosse o paraíso. Arvoram-se mestres, entretanto não passam de ignorantes,
desentendidos. Deles Paulo diz que são:

“Homens amantes de si mesmos, avarentos presunçosos, soberbos,


blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos. Sem afeto
natural, irreconciliáveis, caluniadores, intemperantes, cruéis, sem amor para
com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do
que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia
dela. Destes afasta-te... Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao
conhecimento da verdade” (2Tm 3.2-5; 7).

A dureza com que devem ser tratados esses homens não é injustificada,
nem excessiva, ou desproporcional. Certamente várias foram as tentativas de
admoestá-los e levá-los ao arrependimento (Tg 5.19-20). Foi-lhes descrito o
estado de insubmissão a Deus, o fato de que estavam a satisfazer os seus
deleites e nada mais. Foram-lhes proferidas palavras brandas de correção,
admoestando-os piedosamente (Gl 6.1), mas não se arrependeram, persistindo
em agravarem-se ainda mais no erro, extrapolando por completo o
significado de malícia, impiedade e degradação da alma; insistindo na difusão
de falsas doutrinas, na imoralidade, na perversão, no desprezo à santidade,
negando e escarnecendo-se da verdade. Somos exortados a apartar-nos e não
nos misturarmos com todo aquele que anda desordenadamente e não caminha
segundo a tradição, segundo a fé, para que se envergonhem (2Ts 3.6;14-15).
Paulo alerta-nos a assim proceder em “nome de nosso Senhor Jesus Cristo”,
e fazendo-o, estamos investidos da sua autoridade, delegada expressamente
pela sua pena, guiada pelo Espírito Santo de Deus.

É claro que há níveis de pecados, e nem todos devem ser tratados da


mesma maneira. Contudo a Igreja não deve jamais se omitir, tomando
cuidado para que atitudes assim não contagiem outros, contaminando-os com
os sussurros malignos e persuasões engenhosas dos filhos do diabo. Antes,
sejam severamente coibidas, de forma que a Igreja não seja reprovada naquilo
dado por Cristo como incumbência: a missão e o ofício de zelar pela fé e a
verdade, pois nos é ordenado intervir, como consequência do serviço e
responsabilidade investidos por Deus, segundo o ensino apostólico:

“Ao homem herege, depois de uma e outra admoestação, evita-o,


sabendo que esse tal está pervertido, e peca, estando já em si mesmo
condenado” (Tt 3.10-11).

Paulo orienta-nos a agir de maneira intransigente na defesa da fé e da


ordem, em oposição e desacordo a eles; obstruindo as suas bocas desairadas,
palradoras, vãs e enganosas:

“Homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém,


por torpe ganância... portanto, repreende-os severamente, para que sejam
sãos na fé” (Tt 1. 11;13).

Ora, qual de nós, por mais fiel que seja, admite reagir assim, em um
mundo em completo disparate, desviado da palavra de Deus? Onde a verdade
e a moral são afrontas, a mentira e a ofensa atrevida não envergonham nem
contrariam? Já que vivemos em um século cuja influência mundana tem
moldado o “viver cristão”, de forma que a nossa ação seja sempre a de
passividade e lassidão para com o pecado, podemos ousar combatê-lo? Não
em um prostíbulo, em uma reunião de criminosos, ou numa seção de
sadomasoquismo (nada nos impede de fazê-lo pacificamente, mas não
considero uma atitude prudente), mas em nossas próprias vidas, na vida dos
irmãos, na Igreja... Teríamos coragem?

Se cada vez mais nos apropriarmos da ideia de agradar o mundo, não


apenas transpondo os muros e pulando para o lado de lá, mas trazendo-o para
cá, enfeitado e perfumado (se é possível à excrescência embelezar-se), nos
afastaremos inexoráveis do padrão santo e perfeito revelado por Deus,
ensinado nas Escrituras e colocado em prática pelos santos em todos os
tempos. Por este motivo, muitas igrejas encontram-se enfermas e
moribundas, e outras tantas já morreram espiritualmente, ainda que estejam
com seus bancos cheios e sejam prósperas aos olhos humanos e segundo os
padrões caóticos e decadentes implementados pelos inimigos da verdade. Por
norma e essência, esse comportamento visa aproximar-nos, tornar-nos
amigos do mundo, iludindo-nos com os seus encantos, a fim de despertar o
ímpio agonizante em nossa alma.

Em contrapartida, não há uma investida cristã em dissipar as trevas (como


maioria, e de forma decidida, prática), expondo-a à luz do evangelho de
Cristo, mas, de certa forma, a iniciativa de forjar uma amizade ou associação
segundo o padrão secular e não o sagrado. Há aqueles a insistirem que não há
uma separação natural entre luz e trevas, entre o bem e o mal, entre o profano
e o sagrado, entretanto, se não há, por que raios a Bíblia gasta centenas e
centenas de páginas mostrando-nos a diferença entre um e outro? Se tudo
pode ser santo, ou no mínimo santificado, por que reiteramos a diferença
entre o Cristianismo e outras religiões quando o secularismo, em si mesmo, é
uma religião (posto ser um ídolo, uma forma de crença com seus dogmas e
rituais), e não o distinguimos do sagrado? Há uma grande e silenciosa
confusão na qual a Igreja está embrenhada porque assim quer, negando os
alertas para apartar-se e não buscar a unidade em esferas irreconciliáveis,
assim como a água e o óleo não se misturam, ainda que estejam em um
mesmo receptáculo ou ambiente.

Há, portanto, dentro da própria igreja, propugnadores da inocuidade do


mundo e da ideia de que a tolerância é a melhor forma de arrefecer os
ânimos, trazendo-os para o lado bom da “força”. “Baixando nossas armas”,
dizem, “eles entregarão as deles”! A realidade, contudo, é outra: a igreja
encontra-se em luta contra a morte, assolada pelos inimigos por todos os
lados e de dentro, resistindo unicamente pela graça e favor daquele que se
deu e morreu por ela na cruz: Cristo!

Alguém, por fim, dirá: “Mas, se estamos no mundo, como não viver no
mundo? Podemos prescindir das coisas boas do mundo e viver como um
amish[125], afastado de tudo e todos, como os monges medievais também
viviam? Se essa fosse a vontade de Deus, ele não nos teria arrebatado quando
da nossa conversão?”

Este é um pensamento racional, ainda que simplório e falho. Jesus Cristo


não pregava uma separação física do mundo, na qual não interagimos com
incrédulos, não ocupamos espaços físicos, não nos deleitemos com a Criação.
Tampouco devemos deixar de usufruir de seus benefícios e daqueles gerados
pelo desenvolvimento científico e tecnológico, dádivas e reflexos da bondade
divina para com o favor e gozo do seu povo, ainda que sejam pedras de
tropeço para o ímpio, uma vez que ele pode até se regalar no favor divino,
contudo sem a capacidade de dar-lhe graças, retribuindo-lhe pela benesse
imerecida. Seria de uma tolice atroz imaginar tal cenário para o cristão; pois,
assim como os monges não se separaram efetivamente do mundo, muito
menos os amish (eles dependem de favores externos à sua comunidade,
inclusive a venda e compra de produtos de subsistência provenientes do
“mundo exterior”). Desse modo, eles acabam inviabilizando, muitas das
vezes, a missão posta por Cristo para os seus súditos: ser luz e sal neste
mundo. Não o sendo, deixaram de cumprir a principal de suas ordens: ir e
levar o evangelho a toda criatura, fazendo discípulos e batizando-as em nome
do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19).

Não se defende um afastamento, um tipo de reclusão, em que o cristão


viverá isolado, incomunicável, como se estivesse em uma solitária, uma
masmorra. A separação está muito mais ligada ao mundo espiritual do que ao
físico[126], onde os valores anticristãos contaminam e se sobrepõem aos
valores cristãos. Por cristão elenco a moral e ética estabelecidas por Deus nas
Escrituras, emanadas dele, logo espirituais. A mente natural está em
inimizade contra Deus e sua vontade santa, em atitude de rebelião (ainda que
não se assuma como tal, muitas vezes), inflamando os corações a
perpetuarem o estado de beligerância contra o Criador, rejeitando a sua
palavra e vontade, fazendo-se a si mesmo um deus.

Há uma interação entre cristãos e não cristãos, e ela é necessária, pois a


“grande comissão” é exatamente o ir a todas as nações, anunciando o
evangelho de Cristo. Entretanto, não deve produzir o efeito contrário, o de
sermos cooptados para o mundo, envolvidos por suas distrações, de tal forma
que negligenciamos a vida cristã, o convívio cristão, a missão destinada por
Cristo ao seu povo, impedindo-nos de adorá-lo em verdade. A sutileza do
mundo está em tornar desinteressada a oferta do fulgor, suas artes,
tecnologia, ciência, ideologias, e uma série de outros elementos que, no
fundo, produzem um ascetismo espiritual e moral no cristão desavisado.
Encantado com as maravilhas deste e de outros séculos, acaba seduzido,
fascinado, culminando no abandono e desprezo pela simplicidade do
evangelho. Quando se dá conta, está intoxicado a ponto de não ser mais capaz
de respirar o “ar puro”, uma vez que os vícios o afastam diametralmente da
virtude, da fé dada aos santos.

Conheço casos de pessoas, e eu mesmo cheguei a ser uma delas, nas quais
não havia sinais de vida cristã, tal a profusão de literatura, música, filmes e
outras formas de arte seculares decadentes, depreciativas, inundadas de
perversão e ceticismo, muitas vezes acompanhadas pelo álcool, fumo e outras
drogas, como complementares a uma vida sem traços de Cristianismo, quase
uma volta ao vômito. Seus interesses estavam focados em tantas coisas
distintas da vida cristã que as tornavam “quase ex-crentes”. A disposição para
varar a noite em shows, campos de futebol, mesas de boteco, saraus, salas de
cinema e o “footing” em shoppings, não tinham a mesma correspondência em
relação à frequência aos cultos, em orações, na leitura e meditação da Bíblia,
na evangelização. De alguma maneira, a associação com o mundo inverteu-
lhes o sentido e a motivação; ao invés de iluminar e salgar o mundo, foram
absorvidos, sugados, pelo buraco negro das trevas.

Estou cada mais convicto de que o conceito do “mandato cultural”[127]


tem sido mais uma aplicação eficaz na secularização do cristão do que a
cristianização do mundo, dos incrédulos. De uma maneira surpreendente, o
antídoto foi anulado pelo veneno. Pelo barulho que a ideia do “mandato
cultural” tem feito em nosso meio, era para haver uma sociedade mais
claramente iluminada pela chama do evangelho. No entanto, o que se vê é um
amálgama de todos os delírios, subversões e excentricidades permeando a
mente dos cristãos, fazendo-os crer em uma vida impossível, na solução fácil
de que tudo é aceitável diante de Deus e que a separação é um ideal
fundamentalista e reacionário de parte da igreja, o qual nada teria a ver com o
Deus amoroso e permissivo idealizado por eles. Esquecem-se de que Deus é
amor, mas também santo, imaculado, puro. Sendo assim, a consequência
natural da ofensa à sua santidade, não redimida pelo sangue de Cristo na cruz,
é a justiça, na forma de punição e castigo.

A isso se esquecem, desconhecem-no, rejeitam-no, como uma maneira de


autopreservação nesta vida, de se evitar dissabores e negação ao mal que
habita no homem, uma herdade do Éden. Na tentativa insana de conservarem
a si mesmos na naturalidade impiedosa e inimiga de Deus, abominam a única
mensagem de vida, capaz de transportá-los para a amizade perdida, a
reconciliação com Deus: recusam a Cristo e sua palavra e entregam-se ao
silêncio mórbido das sepulturas tangíveis, ao qual suas vidas se resumiram.
Proselitismo das Trevas

“São como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas,


desarraigadas”.

Esta é outra comparação que deve nos levar à meditação, pois é o


complemento do estado em que os falsos mestres e profetas se encontravam,
os quais a Igreja não deveria ver com condescendência, transigindo e
agradando-os: eles estão duas vezes mortos, sem raízes, murchos, e nada de
bom pode vir deles, a não ser o exemplo de não serem seguidos. Quem se
aventurará a extrair alguma coisa de uma árvore morta? Ela não pode dar
frutos, nem seiva; não alimenta nem dá frescor. Resta-lhes apenas o fogo,
queimá-las.

A expressão “duas vezes mortas” remete ao estado em que, mortas uma


primeira vez pelo seu estado natural decaído, acham-se recuperadas pelo
Evangelho: dizem-se regeneradas, batizam-se, professam a fé, mas dão
provas de que não são verdadeiros cristãos. Ao aparentarem ser verdadeiros,
mas, em seu interior estarem distantes da verdade, opondo-se a ela, negam
intimamente aquilo que dizem afirmar. Com o tempo, exteriorizam o interior,
revelando a alma abominável através de atitudes pervertidas, elevando-se
contra a sã doutrina e a vida santa. Morrem uma segunda vez ao ouvirem a
verdade e dizerem abraçá-la, porém rejeitarem-na, introduzindo:

“Encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os


resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição” (2Pe 2.1).

“Ondas impetuosas do mar, que escumam as suas mesmas


abominações”.
A palavra escuma tem vários significados, mas no contexto de Judas ela
refere-se, ao meu ver, a agitar-se, excitar-se, no sentido de que esses homens
exalavam, fervilhando neles o ódio e o desprezo a Deus e sua palavra;
agitando-se barulhenta e impetuosamente, como ondas bravias e
desordenadas, criando inquietação e dissabor entre os que ouviam suas
sandices e viam suas vergonhas expostas ostensivamente.

“Estrelas errantes, para os quais está eternamente reservada a negrura


das trevas”.

Eles são homens sem curso, sem destino certo, podendo estar hora aqui,
hora acolá, vivendo na incerteza e angústia de suas próprias convicções[128],
como um macaco pulando de galho em galho, sem pouso firme, sem um
abrigo seguro. Misturando-se, sem fixar raízes, estão afeitos a todo o vento de
doutrinas, sujeitos a todo o tipo de ideologia. Acreditando-se “iluminados” e
pródigos em sapiência, incitavam o proselitismo ao erro, enveredando-se
mais e mais nele, ao ponto de não serem mais capazes de distinguir entre o
falso e verdadeiro. Havia tal confusão em suas mentes que a nitidez
necessária para se distinguir o certo do errado incapacitava-os de reconhecer
a verdade, ao passo que os tornava facilmente persuadidos pela mentira. E
assim, cegos de soberba e vaidade, não conseguiam perceber a própria
ignorância e ruína, levando-os à obsessão de arregimentarem um séquito de
estúpidos fascinados com a insensatez. São como aquele homem que
construiu a sua casa na areia:

“E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos e combateram


aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda” (Mt 7. 27).

Por causa deles, somos chamados a permanecer firmes na rocha, Cristo, a


qual é inabalável e inconfundível.

Por suas loucuras e desatinos, estão-lhes reservadas as trevas eternas, e


somente isso já seria suficiente para trazer temor, mas também prudência e
cautela, a todos que se afastam do Evangelho e de alguma maneira se veem
seduzidos pelas ilusões e desejos injustos.
Logo, a responsabilidade daqueles que são chamados ao ministério da
palavra e ao ensino é incomensurável. Deve-se ponderar muito bem antes de
se proferir algo, com o perigo de se tornar um agente da mentira, cujo pai
sabemos quem é. Há coisas e posições não tão relevantes na fé, como a
comida, o dia e a noite (Rm 14.2-3;5-6), mas há pontos fundamentais que, se
negligenciados, tornam-nos inimigos professos de Deus, sob pena de castigo
eterno. Assim, eles permanecerão em trevas constantes, tateando em busca de
segurança, e, caindo, precipitam-se no abismo no qual se encontram e de
onde não podem sair, a menos que Deus queira tirá-los. Por si mesmos, nada
podem fazer; mas se não estivessem cegados pela própria pompa e
insolência, clamariam ao Senhor por misericórdia e seriam atendidos, pois
Deus ouve ao que pede com humildade. Ao falsificarem a verdade,
entregaram-se ao viver perpétuo na mais completa ausência de luz, por
atalhos erráticos, cumprindo a pena imposta pela própria corrupção, em que
se deslumbravam negligentes, néscios postulando-se sábios, mas
alimentando-se no estupor, definhando pouco a pouco, até o ponto em que
não podem mais serem reconhecidos como cristãos. Se alguém insiste em
fazê-lo, pode, a si mesmo ser considerado como tal: um anticristão, a negação
de tudo aquilo para o qual o Senhor nos deu o caminho a seguir, onde os
erradios se perdem.
PARTE OITO

A JUSTIÇA INQUIETANTE

"E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo:

Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos;

para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios,

por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram,

e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele.

Estes são murmuradores, queixosos da sua sorte, andando segundo as


suas
concupiscências, e cuja boca diz coisas mui arrogantes,

admirando as pessoas por causa do interesse”.


A Parousia de Enoque

Novamente deparamo-nos com um texto acusado, injustamente, de apócrifo,


por muitos estudiosos. Sempre houve uma disputa histórica quanto à
veracidade e canonicidade do livro de Judas, exatamente por trechos como
este. Sendo, pois, um dos últimos livros a se integrarem ao Cânon, pela falta
de unanimidade entre os antigos pais quanto à inspiração divina. Entretanto,
Judas, ao citar a profecia de Enoque, não está nos remetendo ao livro não
deuterocanônico (que em seu capítulo primeiro e nono parece, à primeira
vista, ser a sua fonte), mas a algo muito superior, sobre o qual iremos falar
daqui a pouco, revelando uma unidade canônica impossível de se encontrar
nos escritos apócrifos.

Cópias do chamado livro de Enoque foram encontradas em Qmran, no


Mar Morto, escritas em etíope e com datação provável entre 200 a.C a 1 d.C.
Nem os judeus, nem os cristãos reconheceram esse livro como divino, ainda
que ele pareça, em alguns trechos, repetir verdades reveladas no Antigo
Testamento. Isso pode ocorrer com várias fontes, seja por assimilação de um
princípio bíblico, seja por constatar uma verdade, mas jamais como revelação
especial do Altíssimo, sem a qual nenhum texto pode alegar o seu caráter
sobrenatural e ser compreendido como a palavra fidedigna de Deus.

O fato de I Enoque, seus sucedâneos e antecessores, ser um livro


interessante não o torna divinamente inspirado, contendo distorções e
inverdades contrapostas ao escopo bíblico, distinguindo-o da Escritura, assim
como a água não se confunde e mistura com o azeite. Assim, ele configura-se
como uma obra meramente humana, um eco imperfeito da agonia da alma,
mas jamais possuidor, e merecedor, do esplendor recôndito da mensagem de
Deus para os homens.

Há de se salientar, no entanto: por que Judas citou uma profecia alheia à


Escritura, até então, para confirmar o juízo divino sobre os falsos mestres?

É possível a resposta em duas opções, a meu ver, nas quais devemos


meditar:

A primeira pode indicar a repetição de uma profecia transmitida


oralmente pelos judeus e inicialmente proclamada por Enoque, o verdadeiro.
Se atentarmos na existência de livros hebraicos, como o Talmud, por
exemplo, o qual foi presumivelmente escrito por Moisés, não da revelação
escrita dada por Deus, mas de uma revelação oral entregue ao profeta, é
possível conceber uma narrativa judiciosa atravessando os séculos até Judas,
que a registrou como revelação procedente do próprio Deus. Não sendo
assentada em forma escrita, perpetuou-se pelos séculos através da
transmissão oral, um assentamento memorável de uma verdade não textual.

Por que Deus não a colocou expressamente em forma de texto, antes de


Judas? Pode-se especular, sendo que a especulação sempre será uma
indagação, um questionamento não necessariamente capaz de levar à verdade
ou ao factível; mas é plausível o Senhor tê-la guardado para o momento
oportuno, o instante exato onde, segundo a sua vontade e propósito, deveria
ser revelada. Haveria momento melhor, do ponto de vista histórico, do que
aquele vivido pela igreja primitiva? Talvez houvesse um contexto idêntico,
mas não mais imprescindível do que este. Sob os ataques malignos
sucessivos e insistentes, a igreja poderia perder-se no cumprimento de sua
missão de proclamar o evangelho a todas as criaturas. Era algo mais do que
urgente e fazia o sobreaviso soar em alto e bom som nas mentes e corações
dos verdadeiros crentes, a fim de resguardá-los, precavê-los, das garras
afiadas dos intrusos, dos inimigos escalados pelo diabo para dispersarem,
usurparem e arruinarem o Corpo de Cristo.

Outra opção seria a de essa profecia ter-se perdido no decorrer do tempo,


e o autor, sob a ação do Espírito, tê-la novamente revelado, resgatando-a, a
fim de ser reconhecida e incluída no texto sagrado. Então, por fim, tornou-se
parte da Escritura, como de fato veio a acontecer, ainda que pelas mãos de
outro profeta, séculos e séculos depois, salvaguardando a verdadeira Igreja da
impostura, astúcia e intrujice dos falsos mestres.

Pode-se aventar outras hipóteses, como a de Judas ter utilizado a profecia


contida no livro de Enoque para validar uma verdade repetida por tantos
verdadeiros profetas: a vinda do Senhor, o consequente julgamento do
mundo, e a condenação dos ímpios. Na verdade, o livro de Enoque, por maior
aceitação que tenha obtido no século I e II d.C., era uma reprodução de
verdades saídas das bocas dos santos, aqueles homens que foram
instrumentos divinos para trazerem a este mundo a palavra do próprio Deus.
Ao serem usadas por Judas, elas ganharam o endosso divino, como verdade,
conforme Deus conduziu o escritor a incluí-las em sua epístola, conferindo-
lhe autoridade, a autoridade emanada de si e que está presente em todo o
Cânon.

Há de se ressaltar que esse fato tem levado alguns a negar a inspiração e


autoridade da Carta de Judas, exatamente por conter textos considerados
apócrifos, sendo isso algo infundado e com nítidos contornos de contradizer a
verdade, de plantar dúvidas não somente em relação a esse trecho, mas sobre
toda a Escritura. Desse modo, cumpre-se o anseio satânico de transformar a
verdade em mentira e vice-versa, tática repetida inúmeras vezes na história e
iniciada no Éden.

A exortação, com base na profecia de Enoque, está em conformidade com


outros textos bíblicos e em nada é discordante, mostrando-se intrinsecamente
ligada a eles e em perfeita coordenação e unidade, não havendo por que se
duvidar ou desacreditá-la. Certo é: Judas incluiu a profecia de Enoque no
Cânon, e a ele pertence, pelo poder do Espírito Santo, e ponto.

Mas, quem foi Enoque?

A primeira referência a ele está em Gênesis 5, que diz:

“E viveu Enoque sessenta e cinco anos, e gerou a Matusalém. E andou


Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou
filhos e filhas. E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco
anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus
para si o tomou” (Gn 5.21-24).

Ele era filho de Jerede, e pai de Matusalém; e como está escrito,


juntamente com Elias, foi a única personalidade bíblica que não morreu, mas
foi arrebatada diretamente aos céus por Deus.
A sua profecia é apocalíptica, levando ao conhecimento da segunda vinda
de Cristo o qual, juntamente com os seus santos, voltará para julgar o mundo.
Não há qualquer referência a quando se dará o advento, nem em quais
circunstâncias acontecerá. Sem entrar nos pormenores milenaristas, existe
apenas uma certeza, independente do viés escatológico: ele virá, uma segunda
vez, em glória, para ajuntar aos seus anjos os santos de todos os tempos (2Ts
2.2-12), tanto os vivos quanto os mortos, que serão ressuscitados e se unirão
com ele nos céus para todo o sempre.

Segundo Paulo, a volta do Senhor se dará após o surgimento do iníquo, o


homem da perdição, o anticristo (2Ts 2.3), o qual ainda não se revelou agindo
segundo a eficácia de Satanás, por algo ou alguém que o retém, não o
deixando manifestar-se.

É evidente, mais límpido do que água, o fato de a parousia[129], ou o


advento de Cristo, não estar atrelada à vontade de Satanás, e de ele não poder
retardá-la, nem qualquer outra coisa ou força, mas é somente o próprio Deus
a adiá-la em sua infinita sabedoria e perfeição, segundo o seu eterno
conselho. Ele detém, em suas mãos, tanto o início como o fim de todas as
coisas, de maneira que elas acontecem exclusivamente pelo seu poder,
segundo a sua vontade, dentro do seu propósito, a seu tempo. Não há nada a
subverter o seu desígnio, de maneira a realizar-se toda a sua vontade, no
tempo, no espaço, na vida e morte de suas criaturas. Ele é Deus! Ele governa
sobre todas as esferas da criação, tanto espiritual como material; seja nos
grandiosos ou nos mais insignificantes eventos; em todos os aspectos da vida
e da morte a sua regência é incontestável, plena e soberana, não existindo
evento a fugir-lhe da destra. Tudo lhe está sujeito, e ele sujeita todas as
coisas.

Abarcada na liberdade do seu ser, limitada pela sua santidade, bondade,


justiça e todos os demais atributos a lhe conferir a condição de Deus e Senhor
de tudo e todos, nada, nem uma mísera partícula pode subsistir e agir
independente da ordem e decisão estabelecidas na eternidade por ele. Não
será, portanto, uma de suas criaturas, o diabo, ainda que conferida de grandes
poderes, a cercear ou impedi-lo de agir segundo o seu domínio.

Cristo não terá o seu retorno retardado ou impedido por Satanás ou outro
qualquer; porém, como ele estabeleceu a sua volta somente após o
surgimento do anticristo para, com o assopro da sua boca, desfazê-lo e
aniquilá-lo com o esplendor da sua glória (2Ts 2.8), cumprindo-se assim o
seu desejo santo e perfeito, resta-nos orar e ansiar por esse dia, clamando em
alto e bom som, “Maranata, Senhor Jesus”, para estarmos com ele por toda a
eternidade. Então, se cumprirá o plano definitivo de fazer-nos um consigo
mesmo, de sermos transformados à sua imagem e semelhança, como foi
estabelecido previamente, muito antes da fundação do mundo. Foi como
aprouve a Deus fazer, e assim será, para a sua glória e louvor, e para o nosso
gozo inefável.

O foco desses versos é revelar, assim como o apóstolo João, que o


espírito do anticristo já estava atuando na Igreja (1Jo 2.18-19; 4.3), e urgia
aos santos atentar e precaver-se para o seu ímpeto destruidor. Por espírito do
anticristo podemos entender todo aquele que é ou está contra Cristo; o
apóstata está sempre em estado de rejeição e revolta contra a verdade; esta é
uma das características mais evidentes e perceptíveis do ímpio. É a forma de
burlar a compreensão do “modus operandi” desses homens, tornando-os
aparentemente inofensivos, fazendo, muitas vezes, o cristão vislumbrar
apenas a superfície, sem aprofundar-se nas camadas e mais camadas de
blasfêmia, de ofensa e despudor, soterradas por um discurso aparente de
caridade, de piedade, de interesses mútuos, quando na verdade tudo não passa
de um plano dissimulado, pérfido. Plano este de lançar o outro nas mesmas
trevas em que ele vive; de dissuadi-lo de andar na fé; de fazê-lo abdicar do
privilégio de buscar a face do único capaz de trazer gozo, paz e beleza a este
mundo deteriorado pelo pecado, de uma desordem tão corrosiva que consome
a si mesma, não restando onde se apegar ou segurar, antes de submergir no
escorregadio lodo espiritual. Seria o mesmo que dizer a um náufrago, colhido
por terrível e violenta tempestade, que tudo está bem, ele não se afogará, as
altas ondas não o tragarão, alegando que nada daquilo passa de uma aventura
despretensiosa, da qual se rirá, no fim das contas. A ideia permeadora deste
século, e de alguns rincões cristãos, é a de não haver abismos, desfiladeiros
profundos onde o homem natural, aquele a carregar a marca insidiosa do
pecado e rebeldia, passará a eternidade debaixo da ira divina.

Alguns apontam para a incapacidade de o Deus de amor irar-se e castigar


quem quer que seja. Porém, diante da sua santidade, qual homem, cuja alma e
corpo não estejam guardados por Cristo, pode resistir? A santidade é-lhe uma
explosão magnificente, ocasionando o arremesso do pecador, e seus pecados,
para uma distância proporcional à aversão provocada. A distinção entre esse
pecador e aquele permitido a aproximar de Deus é Cristo! Somente ele
transforma pecadores, impossibilitados de estarem na presença divina, em
santos achegados intimamente.

Sabemos que Cristo é a verdade (Jo 14.6), sendo o objeto de ira e aversão
dos que têm ódio e desprezo a Deus, preferindo iludir-se com a mentira,
enrodilhando-se em enganos e buscando levar outros ao mesmo estado de
delírio e condenação.

Judas alerta a igreja sobre algo terrível e inevitável a acontecer com os


desobedientes, os recrudescedores da fraude, os difusores dos tropeços, os
inimigos velados e declarados de Deus e da Igreja, cujas obras malignas
insurgem-se dia após dia, sem dar tréguas, contra o Senhor, a quem deveriam
glorificar. No entanto, pelo contrário, suas obras e palavras são viciosas,
insultos à santidade e majestade divina, cujo fim será receberem o justo
castigo, a condenação, por fim, de uma vida obstinada e em constante
resistência a Deus. A atitude deles não é a de descaso para com o Senhor, que
em si mesmo, já se configura um pecado, mas de teimarem e persistirem no
mal, na mentira, no ultraje, a tudo que lhe é intolerável, a despeito de todas as
advertências, culminando em se comprometer a vida para uma morte
anunciada. Ao contrário do que se possa pensar, está claro que tanto o
descaso quanto a teimosia apresentam-se ativos, como uma atitude, uma
demonstração claríssima de desrespeito e negligência, por configurarem a
postura e intenção de rebeldia a Deus.

Ressalte-se que os inimigos não somente fazem, mas proclamam


injuriosamente aquilo de que os seus corações estão cheios. São
murmuradores, queixosos, arrogantes; reclamam de tudo e todos,
considerando-se merecedores de toda a sorte de benefícios, por conta do
orgulho que não os deixa calarem-se. São insolentes, posto serem capazes de
proferir palavras duras contra o Cristo, pensando exclusivamente em si
mesmos e seus desejos e caprichos; egoístas, não se importam com ninguém,
alardeando uma quebradiça e inconsistente superioridade, a revelar-lhes
apenas uma alma escrava das próprias concupiscências, deleites, além de uma
imperiosa vocação para a transgressão.
Pensam que o mundo não os merece, de que são muito melhores e estão
muito acima dos demais mortais, em especial dos santos. Não os reconhecer
revelaria o quanto são incompreendidos, injustiçados, quão distante estão do
pensamento geral, ao ver deles, e de como as suas preeminências ficam
patentes pelo tamanho do abismo escavado, enquanto atiram-se confiantes
nele, na certeza de que nada será suficiente para tragá-los. O delírio desses
homens é tal, chegando a ponto de, nos seus mais tênues devaneios,
desprezarem a Deus com tudo o que há de mais insano e doentio em suas
almas, atraindo sobre si mesmos a condenação para a qual foram destinados.

A Escritura contrasta essa pretensa superioridade, uma deformação


conceitual, uma vez que a pretensão não está em conformidade com a
verdade de suas almas; elas se manifestam resultando em práticas e atitudes
levadas a cabo por um espírito mesquinho e abjeto, típico dos bajuladores, no
intuito de se obter proveito próprio. Tais pessoas têm o intuito de se
exaltarem por meio de outras falsas concepções, como sendo detentores de
um intelecto privilegiado, uma verve persuasiva, um espírito revolucionário,
uma alma inquieta, pudesse resultar em um cristão qualificado; mais do que
isso, consideram-se homens privilegiados pelo toque divino ao ponto de
desdizê-lo e apto para aperfeiçoar aquilo que Deus não soube ou conseguiu
fazer bem. Novamente o orgulho cega-os, ao ponto de rebaixarem-se com o
fim de satisfazer o que lhes é incontrolável: ceder sempre ao mal que os
subjuga, escravizando-os, na ilusão de enjaulados e presos, a desenvolverem
um tipo especial de liberdade apenas compreensível pelas regalias de suas
almas acorrentadas aos delírios provenientes de um autonomismo febril e
indômito, mas ainda assim vassalo de uma vontade subjugada pelo pecado.

Ao pensarem nessa liberdade ilusória, fruto da superioridade que julgam


possuir, entregam-se ao mais sórdido cativeiro. Indolentes, fazem-se surdos
aos alertas, confiantes em um julgamento no qual não há juiz, a não ser eles
mesmos. Supõem que a sentença sempre lhes será favorável, que ninguém,
no céu e na terra, poderá condená-los, porque a inocência é um atributo a
pertencer-lhes naturalmente, sendo que os outros podem buscá-la, mas não a
acharão, a menos que eles profiram o veredito. Por isso são incapazes de
reconhecer a autoridade divina e da igreja, ao tentarem, de todas as formas,
usurpá-la, ao fazerem-se deuses e senhores de si, quando não de outros a
abdicarem de suas consciências. Mesmo desavisadamente, no fim das contas,
é a esse trono que desejam galgar e apegar-se: serem senhores e árbitros de
tudo.

No entanto, a verdade está em atraírem para si a ira e a justiça divinas,


uma realidade que não esperam, nem estão preparados, iludidos em uma
pretenciosa imunidade, capaz de absolvê-los, ou melhor, incapaz de os
condenar, já que são merecedores não somente dos favores divinos, mas da
proteção a todo custo, mesmo deliberadamente atirando-se à imprudência, ao
descaso, ao risco desmedido, de afagarem escandalosos o pecado.

Apesar de proferir uma sentença negativa aos apóstatas, não podemos


esquecer, e devemos reafirmar, que a parousia traz para o crente, em um
primeiro momento, a esperança de estar eternamente com Cristo, e em um
segundo momento, a certeza de que, por sua justiça, realizada na cruz, pela
qual fomos feitos santos, infalivelmente estaremos envolvidos por sua
presença infinita e duradoura. Ao nos unirmos a ele, junto com todos os anjos
e homens eleitos, participaremos de uma herança que ninguém pode
imaginar; algo que está muito além de nossas concepções. Temos a
expectação de que a confiança jamais pode estar em nós mesmos, ao
contrário dos ímpios descritos por Judas, mas está inconteste em Cristo, o
qual nos predestinou, chamou, justificou e glorificou a sermos a sua imagem,
e de cujo amor nada ou ninguém pode nos separar (Rm 8.38-39).
Princípio Geral da Revelação

Outro ponto, deveras enigmático, é o fato de algumas distorções


interpretativas levarem ao desconhecimento e ao ocultamento do verdadeiro
sentido, dado por Deus, à sua palavra. De maneira regular, pode-se encontrar
afirmações em livros, sermões, aulas e conversas teológicas, sobre alguma
asserção imputada ao Senhor, na qual ele, porém, não pensou ou que não
registrou. Alguém pode perguntar-me: Qual a sua certeza para afirmar o que
Deus quis ou não dizer? E assegurar o equívoco alheio, em supor de Deus
algo denunciado como não proveniente dele?

Vários aspectos da interpretação podem nos dar a segurança de saber o


que foi ou não revelado por Deus, dentro do próprio texto sagrado,
comparando-o, contextualizando-o internamente, meditando, ouvindo e lendo
as conclusões alcançadas por outros santos na longa trajetória do
Cristianismo, aquilo estabelecido pela igreja como verdadeiro e fiel, da qual o
Espírito dá o seu testemunho também. Deve-se estar sempre disposto a rever
seus pressupostos, não a qualquer preço, ao custo da verdade, mas
especialmente se, em algum momento, Deus não for glorificado por eles.

Com isso, não estou garantindo que todos os dogmas e doutrinas


estabelecidos por denominações ou instituições cujo rótulo a palavra
“cristão” abarca são verdadeiros e garantidos por Deus. Não é isso, e nem
poderia sê-lo. Se entendemos que a igreja é um organismo composto por
homens, e estes imperfeitos, não há como assegurar a veracidade de todas as
declarações, porém sempre existirão elementos comunicáveis entre a
interpretação e a revelação bíblica, sendo esta a caucionar àquela e não o
contrário.

A igreja tem pontos em comum e fundamentais, defendidos e


estabelecidos no decorrer da história, sem os quais nenhuma instituição
poderá arvorar-se e autodenominar-se cristã e ascender ao Cristianismo. Ao
fazê-lo indevidamente, torna-se usurpadora, não havendo nada a legitimá-la,
mesmo que remova montes e os lance no mar.

Princípios tais como os professados nos credos apostólicos são as marcas


de autenticidade cristã de uma igreja: a fé em um único Deus subsistindo em
três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo; as duas naturezas de Cristo, divina e
humana; o seu nascimento virginal; a remissão dos pecados e a salvação
somente pela fé em Cristo; a ressurreição dos mortos, além de outras tantas
afirmações e certezas em plena conformidade com a Escritura. Se uma igreja,
por mais respeitada, laboriosa e reconhecida no âmbito social e religioso, não
professar essas e outras doutrinas, jamais será considerada cristã, a menos
que se recuse a negá-las, abandonando os ensinos heréticos e transformar
aquelas em alicerces da sua fé.

Não é possível considerar os Testemunhas de Jeová, Mórmons e


Kardecistas, por exemplo, como integrantes do cristianismo, mesmo eles
reivindicando esta primazia, pelo simples fato de não haver unidade entre
suas concepções doutrinárias e o revelado por Deus. A defesa de seus
princípios é a negação do princípio geral revelado à igreja, sendo impossível
qualquer associação espiritual, tornando-as pseudocristãs. A base dessas
religiões é a profecia ou revelação tardia, na qual um homem se levanta
dizendo-se profeta do Altíssimo, contudo negando-o ao dizer algo
diametralmente oposto ao revelado pela sua palavra. O que está posto é uma
maneira de reescrevê-la, partindo-se da confusão, da antítese, onde a verdade
é posta como mentira, e esta como verídica, a fim de se estabelecer
fundamentos contrários àqueles estabelecidos, anunciados e expressamente
firmados por Deus.

A unidade, especificamente a unidade de princípios que coloca um


membro como parte do corpo, se quebra, implicando, em primeiro lugar, na
refutação da verdade, em sua rejeição, substituindo-a por um engodo ou
heresia, arrancando-se a raiz que porventura o ligasse a Cristo, sobrando
apenas folhas e ramos secos a murcharem e se desfazerem sobre a terra, mais
cedo ou mais tarde. Desfeito o elo com o Filho, pode-se alegar qualquer coisa
em sua defesa, sendo que muitos alegarão o amor à verdade, a qual
destruíram em seu coração pelo amor à mentira. Não se ama o que se
desconhece, mas o amor é possível a algo familiar, com o qual trava
intimidade constante; como o mentiroso anseia a mentira, o enganador
alimenta-se do engano, o falsário da fraude[130], e assim por diante.

Há, contudo, desvios de interpretação que não quebram a unidade cristã;


divergências periféricas que, em si mesmas, não corroem ou descaracterizam
a verdade, não fazendo dos seus defensores pseudocristãos. A história é
pródiga em registrar muitas discussões fundamentais que asseguraram a
legitimidade da igreja, definindo-a como autêntico corpo e noiva do Senhor.
No entanto, houve muitas outras, cujas posições discordantes não feriram ou
provocaram ruptura em sua harmonia. Questões como a escatológica, o
estado intermediário dos santos, por exemplo, não impediu a comunhão entre
irmãos, nem fizeram dos seus proponentes hereges, a despeito das posições
contrárias.

É necessário tomar cuidado para não sermos injustos e proferirmos


sentenças condenando irmãos, amados por Deus e que o amam, no mesmo rol
dos inimigos e detratores da fé. Se estamos todos ainda sujeitos à influência
do pecado, inclusive na formulação e compreensão de certos aspectos
doutrinários (esta não é uma justificativa para os erros, mas a constatação de
um fato), exigir uma coesão na interpretação de tantas coisas complexas e
profundas como as reveladas na Escritura é, no mínimo, temerário, para não
dizer uma tolice. Não podemos nos fiar na infalibilidade da razão, afetada
pelos efeitos noéticos do pecado, nem mesmo do espírito regenerado, o qual
pode ainda cair, aqui e acolá, mas sempre será sustentado e incitado a
levantar-se novamente, pelo poder de Cristo em preservar os que são
membros do seu corpo. Quanto a esse grupo, daqueles equivocados em uma
ou outra interpretação, mas que são mantidos na fé por Deus, não quebrando
os fundamentos da sua palavra, gastarei algumas linhas.

Darei o exemplo de um texto, cuja interpretação, claudicante, alguns


irmãos defendem, chegando a uma conclusão não ratificada pela maioria; e
tendo a ver, de maneira direta, com a análise desta passagem da presente
epístola:

“Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará
para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a
enviei” (Is 55.11).
Deparei-me com este versículo, ao final de um texto, a tutelar a
perspectiva de um mundo melhor, no futuro, um mundo sempre a prosperar
até o dia em que todos, ou quase todos, se converteriam a Cristo, no dizer de
um teólogo[131]. Sempre, tão logo chegamos ao fim da leitura de uma defesa
pós-milenarista, somos questionados sobre a mudança de postura, de
abandonarmos o que chamam de “pessimismo escatológico” para assumir o
que denominam de “otimismo escatológico”, a ponto de uma série de textos
perderem completamente o sentido ao serem analisados pelas lentes
microscópicas da pós-milenaridade. A acusação visa, primeiramente, atacar a
nossa autoestima, fazendo-nos parecer crentes de segundo escalão, não
espirituais e de pouca fé. Mesmo reconhecendo a invalidade do argumento,
camuflado de uma superioridade dissimulada, mas ainda assim presente no
discurso, não foi uma nem duas vezes que me senti atingido por essa falácia,
pela arrogância atirada em rosto como se fosse piedade.

Mesmo a referência sendo escatológica, o meu objetivo não é estabelecer


uma refutação à proposta de doutrina do fim dos tempos (até porque não
estou habilitado a isso), mas, exclusivamente, tentar corrigir o caráter
“parcial” da dedução do articulista, esclarecendo que o profeta não o
declarou como uma única via, com o objetivo de indicar apenas os benefícios
da palavra ao homem, sem apresentar-lhe as consequências decorrentes da
não observância da mesma palavra. Ao utilizar o texto no sentido apenas
“otimista”, o teólogo equivocou-se, no mínimo, e, em última instância, usou-
o fora do contexto, forçando-o à exaustão, usando-o como argumento
comprobatório para a sua teoria, pois o verso não alude aos resultados de uma
conversão em massa, necessária, de uma resposta sempre positiva do homem
em relação ao Evangelho.

Andemos mais um pouco.

Muitos utilizam-no como prova da eficácia da anunciação do Evangelho,


no sentido de que, quanto mais for proclamado, mais pessoas se converterão,
mais benefícios serão agregados à vida do homem. Para eles há uma
progressão aritmética, uma relação proporcional que indicará a capacidade de
se produzir resultados numéricos em que os salvos pulularão por todos os
lados à medida que a palavra for proclamada. Como uma fórmula mágica,
bastaria aplicá-la para que os seus efeitos proveitosos sejam alcançados pelos
homens. O mais curioso é que o mesmo otimismo na consumação de
resultados práticos, com a pregação do evangelho, não é acompanhado da
disposição em pregá-lo; ao menos, boa parte dos defensores dessa ideia não
se dispõe a levar as Boas Novas aos perdidos, descansando na eficácia de um
conceito como conceito, sem atentar para o uso, sem torná-lo parte da rotina.

Veja bem, não duvido das consequências práticas da pregação, muito


menos de a sua exposição, aliada à ação do Espírito, trazer o convencimento
necessário ao ímpio, ao incrédulo, levando-o a compreender a sua condição
rebelde, de inimizade com Deus, e a necessidade desesperadora de
reconciliar-se com ele, de sua disposição pecaminosa voltar-se integralmente
à sujeição e obediência, por meio dos méritos exclusivos de Cristo,
produzindo santidade e um testemunho a influenciar outros. Apenas Cristo, e
mais ninguém, pode substituir-nos na morte, dando-nos e preservando a vida.
Esta é a verdadeira, eficaz e propositiva revolução, a transformação realizada
por um único homem, santo e perfeito, suficiente e capaz de satisfazer a
santidade e justiça divina, restaurando a comunhão dos homens com Deus,
perdida no Éden, a fim de fazer do seu povo o monopólio do seu infinito e
eterno amor. Pois, somos advertidos de que a Escritura é:

“O poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16).

Se não houver a proclamação das Boas-Novas, conforme sentencia o


apóstolo, como:

“Invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de


quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como
pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos os pés
dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas
coisas” (Rm 10.14-15).

Esta é a única forma do homem ser salvo e conhecer a Deus, qualquer


outra maneira não passará de paganismo, de um arremedo da verdade, um
jeitinho ou subterfúgio insuficiente e nulo na reabilitação do homem natural
por seus próprios meios, acreditando em seus méritos e na sua
autossuficiência. Isso implica em uma fé incapaz de produzir frutos, que leva
o homem à frivolidade espiritual, anulando qualquer chance de regeneração
enquanto ele acreditar na possibilidade de gerar-se a si mesmo, quando a
única coisa capaz de fazer é o aprimoramento, quero dizer, a especialização
em produzir, em si mesmo e a partir de si mesmo, os vícios a afastá-lo ainda
mais do supremo bem.

Não há outro método estabelecido capaz de levar pecadores à santidade;


inimigos à amizade; renegados à fidelidade; mortos à vida; autônomos à
dependência amorosa de Cristo, servis em reconhecerem o seu perfeito
senhorio; condenados em absolvidos pelo sangue derramado na cruz, pela
morte do Justo que levou sobre si a iniquidade de muitos, tornando-os livres
para servi-lo. Tal liberdade está em seguir aquele a quebrar as cadeias de
anéis que nos prendem a uma vida cujo sentido é a autodestruição; em não se
declarar impotente enquanto se escora em uma presunção de capacidade, que,
contudo, revela a própria altivez, a constatação de a vaidade ter alcançado o
seu ápice doentio.

Sei que estou a nadar contra a maré deste século, mas não se pode dizer
que nem mesmo a música tem poder evangelístico, como costumeiramente é
apregoada pelos sábios atuais, crédulos de que há poder em um pouco de
emoção, transformando-a em razão, em compreensão e arrependimento (a
menos que seja com extensos trechos bíblicos, como os Salmos). O mesmo se
dirá do teatro, como outros querem, e por mais verdadeira ou verdades
contenha a peça, ela ainda estará incrivelmente distante da verdade e
realidade do Evangelho. Talvez ele apresente extensos trechos bíblicos, quem
sabe, um monólogo; porém, a assistência, hoje, está mais preocupada com a
diversão, e nada disso, no padrão mundano, tem as feições de divertimento.
Nem o cinema pode fazer isso, a menos que seja mais auditivo do que visual,
o que se torna um empecilho, caso o projeto vingue, já que as pessoas estão
mais interessadas em movimentos e barulhos, como perseguições e
explosões, do que uma história verdadeira, contada com correção, tampouco
um discurso, a menos que esteja impregnado por extensas citações e
passagens bíblicas; o mesmo vale para quase todas as formas de arte e,
algumas delas, em relação ao evangelho, não significarão muita coisa, como a
pintura, escultura... Em relação à dança, nem é preciso falar da completa
ineficácia como meio de evangelismo.
O poder de Deus está na palavra, sendo ela o único meio de se proclamar
a verdade[132] e fazê-la chegar ao conhecimento do perdido. Há de se
entender a pregação como nem sempre trazendo frutos de obediência e
reconciliação com Deus, significando que nem todos que ouvirem o
Evangelho estarão aptos a se arrependerem, a compreenderem sua
mensagem, pois falta-lhes o agir do Espírito Santo. Sem ele, jamais
assimilarão as Boas-Novas, receberão a fé necessária para crerem e serem
regenerados e salvos, pois não há, em si mesmos, virtude a satisfazer a justiça
divina, a quitar o preço de uma dívida impagável, a qual somente é possível
por Cristo, sendo por ele fomentada. Afinal, os réprobos não têm suas vendas
tiradas, permanecendo os olhos vendados à luz, a tropeçarem nas tênues
sombras da escuridão de suas almas. Se o Senhor não operar por completo no
homem, nada será possível a ele, a não ser transitar forçosamente na inata
ignorância, na pretensão de vislumbrar algo, em si, enquanto se está imerso
no mais denso nevoeiro da ignorância.

Por isso está escrito a respeito de Cristo, sem o qual, e por sua exclusiva
vontade, nada pode ser feito. Se ele não quiser, não há quem queira; se
quiser, todos quererão:

“Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração, a fim de que não


vejam com os olhos, e compreendam no coração, e se convertam, e eu os
cure” (Jo 12.40).

Ora, não é assim, também, a declaração do profeta?

“Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço


do Senhor?” (Is 53.1)

O fato de o verso de Isaías 55.11 falar muito mais do que a maioria quer
ouvir, demostra quão difícil, mesmo para o crente, é compreender e aceitar as
verdades bíblicas, especialmente se elas mancham ou maculam de alguma
maneira o ego humano, colocando o homem em seu devido lugar: na
inaptidão completa, na total incapacidade de alcançar a paz com Deus, de
aceitá-lo e viver para a sua glória, por seus próprios méritos, pois o seu
opróbrio e mácula impedem-no de sequer cogitar uma reconciliação, quanto
mais operá-la. Em sua arrogância, autonomismo e presunção, ele não
encontrará motivos para buscá-lo, a não ser como parte da sua própria
satisfação, como uma virtude inerente a si, cuja conclusão está em harmonia
com o seu valor intrínseco, de reconhecer-se o único habilitado a busca-lo e
encontra-lo. Como já disse, o melhor homem do mundo não pode salvar-se a
si mesmo, mas Cristo pode salvar o pior dentre toda a humanidade.

A diferença está no fato de alguém se considerar bom o suficiente e


capacitado o suficiente para ir até Deus, sem que Deus o chame. Acontece
que no estado natural no qual somos gerados, como filhos do pecado e da
transgressão, nenhum homem, por melhor que seja e por mais qualidades que
possua, pode ao menos intentar aproximar-se dele. Via de regra, ele não o
fará, e se fizer, o fará da maneira mais estúpida e irresponsável possível,
sempre confiando em sua honra, encontrando nela as qualidades suficientes
para mantê-lo no controle da situação. Considera-se capaz de iniciar o
processo de reconciliação alheio ao conhecimento e vontade divinos,
acreditando glorificá-lo quando está mesmo a homenagear-se, numa espécie
de afago dissimulado do ego. A busca por Deus parte sempre do princípio de
sermos conhecidos dele primeiro, para depois, somente então, virmos a
aceitá-lo como Senhor e Salvador.

Antes, há em nós apenas um palpite, uma sensação, de quem ele é, assim


como supomos e inferimos algumas coisas sobre a galáxia de Andrômeda,
sem conhecê-la de verdade. Na relação com o Criador existe um obstáculo
intransponível para nós, um muro altíssimo e vigoroso: o pecado, o qual é
uma forma de orgulho, aliado ao autonomismo, criando uma estrutura
debilitante, reduzindo-nos a uma fragilidade mórbida, suficiente para não
desejarmos galgar o muro. Serve, antes, para manter-nos em um estado de
apatia e servilismo intransponíveis, mantendo-nos na segurança indecisa de
não tomar um lado ou decisão, quando nela já nos encontramos sepultados. A
incapacidade de escolher a Deus, de transpor os limites impostos pelo
servilismo ao pecado, resultou em se assumir uma posição, a de hostil e
contrário a Deus. O único capaz de destruir a fortaleza do pecado é Cristo, o
qual o põe abaixo, transformando-o em escombros, e assim podemos
ultrapassá-lo, ou melhor, somos transladados para o outro lado, a nos
encontrar com o Senhor.

O evangelho salva, mas também condena. Sem a ação divina, a palavra


não produz raiz, nem frutos, no ouvinte, ainda que, talvez, possa dar-lhe o
ensinamento capaz de lapidar a sua humanidade, limitar o seu desejo
pecaminoso, coibir-lhe o mal, fazendo-o um homem melhor diante de outros
homens. Entretanto, esse homem ainda estará a uma distância impossível de
Deus se este não o chamar, capacitar e dar-lhe um novo coração. Por melhor
que esse indivíduo seja, ainda será o pior possível. A busca por Deus não será
nada além de procurar a autossatisfação, de mascarar a sua incompetência,
fugindo da realidade que aponta para quem ele é, criando um estereótipo de
uma santidade ouvida, lida, percebida, mas jamais vivida: a autoidolatria, na
qual ele é o objeto de culto e o adorador, simultaneamente.

O texto profético está a nos dizer que a palavra de Deus nunca voltará
vazia. Mas em qual sentido? Apenas do ponto de vista positivo? De
absolvição do ímpio? Definitivamente, não!

O Evangelho, na medida em que detém poder para a salvação do tolo


(referindo-se tanto à salvação dos incrédulos quanto aos benefícios de
santificação, convencimento, instrução e ensino, dos mandamentos e da
vontade divina), ao mesmo tempo que o lança de imediato à sabedoria dos
céus, também serve de condenação ao mesmo tolo, confirmando o seu estado
de reprovação e lançando-o às profundezas do Hades. Negar os efeitos
negativos da palavra em relação ao destino final do homem, uma vez que ela
é sempre positiva, efetiva, tanto em salvar como em condenar, segundo o
eterno conselho divino, é o mais puro delírio. Trata-se de uma artimanha com
vistas a satisfazer a carne e o desejo beligerante da criatura com o seu
Criador, enquanto a proclamação da palavra torna inescusável o réprobo, para
condená-lo em sua rebeldia, para julgá-lo por suas transgressões, assim como
relatou a profecia de Enoque, descrita por Judas, preanunciando o julgamento
divino sobre o ímpio, tão logo ocorrer o advento do Senhor, em plenitude de
glória e poder.

O erro está em se ver apenas um lado da moeda, recusar-se a virá-la e


vislumbrar a outra face. Essa é mais uma influência do humanismo que
distorce e compromete o entendimento pleno do texto bíblico, deixando a
mensagem capenga, fragmentada, em que um dos significados se torna
superior a ponto de o outro não poder ser vislumbrado, ou simplesmente deve
ser ignorado. Da mesma forma, a interpretação equivocada resultará no
entendimento limitado de Deus e sua obra, no desmerecimento, ainda que
inconsciente, da sua vontade e propósito.

Não reconhecer o caráter condenatório da palavra é fazer “vista grossa” à


obra perfeita, acabada e irretocável de Deus, seja por negligência, ignorância
ou malversação da Escritura. Em muitos casos, pode ser sinal de
incredulidade também. Por isso, Cristo alertou-nos, incisiva e claramente,
para o distintivo absoluto da palavra:

“Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas palavras, já tem


quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último
dia” (Jo 12.48).

Parece-me límpido como água cristalina o fato de o Evangelho salvar e


condenar, de modo que me arrisco à seguinte analogia: em um cruzeiro, um
transatlântico singra os mares com centenas de cegos a bordo. Nem mesmo a
tripulação é formada por pessoas capazes de ver, mas por deficientes visuais
também. Apenas o Capitão, o Imediato e o Piloto enxergam perfeitamente.
Em um dado momento, o navio começa a afundar, e o número de boias ou
botes salva-vidas é suficiente para salvar todos. Então, o Capitão ordena a
presença dos passageiros no convés, onde embarcarão nos botes, mas, para
isso, é preciso que eles se dirijam rapidamente ao deque. Há um alvoroço no
navio; os passageiros assustados procuram atabalhoadamente alcançar o topo
e assim não morrerem. Mas muitos se perdem, afastando-se do local de
salvamento, migrando para os lugares mais remotos do navio, selando a sua
condenação. Num trabalho incessante, a parte da tripulação capaz de guiar os
perdidos até os barcos salva-vidas, os três comandantes, arrastam um a um
dos que conseguem alcançar até colocá-los em segurança fora do
transatlântico. Uma multidão consegue escapar, salva pela ação direta do
comando naval, mas um grande número de passageiros sucumbe juntamente
com o navio, quando este é envolvido pelas águas oceânicas e aderna em
meio às trevas do abismo submarino. Mesmo toda analogia sendo frágil
diante da grandiosidade divina, podemos entender o chamado do Capitão, ao
convés, levando a duas consequências (entenda a narrativa como algo a partir
da perspectiva humana, e não de Deus): para os exitosos, o resgate, a
salvação, à vida; e para os que não foram guiados à superfície, a condenação
e a morte proporcionadas pelo seu próprio estado de perdição, de
desorientação.
O mesmo equívoco encontra-se em João 3.16, onde se tem a falsa ideia de
que Cristo morreu por todos os homens indistintamente, dependendo
exclusivamente de esse mesmo homem aceitá-lo ou não como Salvador. É
um arroubo de pretensão; a vaticinação da autonomia e independência da
criatura do seu Criador, quando a dependência humana (e, por conseguinte,
de toda a criação), quer se creia ou não, é absoluta em relação a Deus. Como
se ele estivesse preso à vontade de suas criaturas, sujeito as variações de
humor, aos rompantes de estupidez, à soberba ignorante, à imoralidade e,
sobretudo, à natureza pecaminosa que guia o homem em toda loucura.

Contudo, quase ninguém se apercebe de que, dois versículos abaixo, está


escrito:

“Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado,
porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3.18).

O verbo crê e o substantivo condenado ligam-se diretamente no verso,


implicando que a condenação daquele que não crê não está no futuro, mas
aconteceu no passado, de forma que ele não crê porque está condenado, e está
condenado porque não crê. Este mundo não é um campo de provas para o
homem, assim como o protótipo de um carro é testado antes de ser fabricado
em série; não! Nesse ponto, o que não crê será completamente envolvido em
sua descrença, incapaz de desvencilhar-se de suas amarras, de desprender-se
da própria masmorra em que sua mente, coração e alma estão encerrados.
Acreditando na autonomia de fazer o que bem lhe apetece o nariz, ele
caminha e se move apenas no minúsculo espaço limitado pelo pecado,
reduzido em sua sina autodestrutiva, aguardando a justiça e a ira de Deus
serem derramadas sobre ele na eternidade.

O advérbio já revela que a condenação ocorreu de antemão, previamente,


não é algo a acontecer, nem algo que o ímpio poderá reverter, mas algo
inevitável, que foi preparado de antemão. Como está escrito:

“O Senhor fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios,
até o ímpio para o dia do mal” (Pv 16.4).

O objetivo deste texto não é discutir a eleição, mas afirmar a dupla


mensagem do Evangelho, o qual é suficiente para salvar e igualmente
suficiente para condenar, ainda que do ponto de vista temporal o ímpio esteja
condenado, ouvindo ou não o Evangelho, mas persistindo na reprovação pela
incapacidade de arrepender-se e compreender a verdade, optando sempre pela
morte ao invés da vida.

É verdade que a palavra sem fé não produzirá obediência, regeneração e


salvação, antes confirmará a sentença daquele que jamais será vivificado pelo
Espírito Santo. É o que se pode perceber, no dizer de Paulo:

“Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas
a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava
misturada com a fé naqueles que a ouviram” (Hb 4.2)[133].

De forma que a palavra da verdade produz frutos para a salvação, por


Jesus Cristo nosso Senhor, no qual fomos selados pelo Espírito Santo da
promessa (Ef 1.13). Assim, seja para a vida, seja para a morte, a palavra do
Senhor jamais voltará vazia.

Há ainda os que vão mais além e dizem que o versículo se refere à


necessidade de se agarrar à palavra, algo mais ou menos parecido ao termo
neopentecostal “tomar posse” e, assim, ela produzirá, em nossas vidas, uma
profusão de bens materiais nunca imaginados, e não voltará vazia mesmo,
pois encherá os bolsos, bolsas, sacolas, cofres e os recipientes necessários
para satisfazer a sanha carnal, na obscenidade dos deleites pecaminosos de
seus formuladores e patronos.

Bem, quanto a essa (im)possibilidade, recuso-me a comentá-la, tendo-se


em vista o seu nítido caráter corrompido, sua antibiblicidade e lógica
maligna. Não passa de mais uma artimanha, um subterfúgio, para satisfazer a
ganância e a vaidade de quem assim pensa, e a impostura de quem a segue.
Por isso é fácil concluir que essa não é uma palavra divina e nunca foi, mas
apenas o maldito vocábulo humano a levar o homem diretamente à
inexorável destruição, na qual ele diz, convicto: “estou vivo”, enquanto o
pecado o conserva imóvel no sarcófago da inércia mórbida, na tragédia
irresponsável da idolatria.
“Argumentum ad Divinum Enrustidus”

Um exemplo de arrogância, muito em voga nos dias atuais, proclamada e


disseminada pelos falsos mestres é a de perverter a Escritura, negando suas
afirmações e sustentando explicitamente o não reconhecido em suas páginas.
São tantos os equívocos e dolos que é impossível não imaginar uma mente
maligna por trás dos inúmeros caminhos sinuosos à disposição da
humanidade, a gerir e suprir de ideias melífluas e destrutivas as almas dos
homens. Não obstante um cem número de heresias a destilarem o mais mortal
dos venenos sobre os tolos e presunçosos, a ideia da não existência do
Inferno e, por conseguinte, da condenação eterna, tem ganhado cada vez mais
campo entre os chamados “cristãos modernos”[134], uma forma sinistra de
tentar levá-los à cura matando-os.

Pois bem, muitos, sinceramente, se perguntam se o Inferno existe. E dou-


lhes certeza, existe! Porque a Bíblia o diz. Não vou nem me ater a relacionar
versículos, pois eles encontram-se em tão grande profusão por toda a
Escritura que seria desnecessário. Se alguém lhe falar a respeito do Inferno
como uma “lenda”, “mentira”, “coação psicológica”, “opressão social” ou
“radicalismo teológico”, afaste-se dele, pois, o seu objetivo é único: destruí-
lo definitivamente, assim como ele mesmo se acha devastado, aniquilado pela
própria pretensão e ignorância.

Nos piores momentos de impiedade da minha vida, quando estava


escravizado pelo pecado, eu acreditava tanto num tipo equivocado de amor
divino, um amor engodado e subjugado, que não considerava o Criador capaz
de me condenar. Em minha loucura, achava impossível o Deus bondoso criar
um lugar tão terrível como o descrito na Escritura, onde os pecadores fossem
lançados e atormentados eternamente:

“Para o fogo que nunca se apaga, onde o seu bicho não morre, e o fogo
nunca se apaga” (Mc 9.43-44).

O meu coração estava tão corrompido pela autocompaixão e tão distante


da verdade, sustentado por um amor corrosivo, egoísta, impregnado de
dissimulada piedade. Era como uma espécie de escudo protetor a me
desobrigar de cumprir a sua palavra, de reverenciá-lo, de buscar a santidade,
a comunhão e o arrependimento, garantindo-me, em contrapartida, a
inviolável certeza de descumpri-la, mantendo-me enredado em um caminho
pervertido, distante no limite do infinito, onde qualquer aproximação sequer
pudesse ser considerada.

Não havia fronteiras, muros, abismos ou outra separação entre ele e eu;
havia apenas um ponto, eu. Ele, na melhor das hipóteses, estava sobreposto a
mim, como se fosse um ponto dentro do outro. Em alguns momentos,
considerava-o fora de mim, externo, mas apenas como uma emanação do
meu interior, alguém a poder distanciar-se sem, contudo, afastar-se, pois a
sua origem estava onde eu estivesse, por onde passasse, como se o seu
pensamento não pudesse se desvencilhar do meu, a sua imagem estivesse
guardada em mim, e, fora de mim, havia o reflexo de quem ele era: eu
mesmo.

Veja bem, eu não me considerava Deus, mas de maneira inexplicável o


Criador dependia tanto da criatura que a existência lhe era impossível sem o
homem; podendo ser eu ou qualquer um, o fato é que, em minha confusão
mental e espiritual, a sua vida e o seu ser não subsistiriam sem a humanidade.
Ele precisava de nós; por isso não havia chances de o Inferno ser uma
realidade, visto os próprios demônios serem, também, a causa da sua
existência.

Era um raciocínio sem pé nem cabeça, como os antigos diziam, mas


somente um entre tantos desatinos formulados pelo homem; em todos, a
síntese do Deus incapaz de viver sem suas criaturas, dependente e
intrinsecamente preso a elas, sem as quais sucumbiria em si mesmo, de fora
para dentro, assim como uma prensa hidráulica esmaga uma laranja.

É comum ouvir e ler as mais insanas objeções à justiça divina, com


alegações estapafúrdias do tipo: “Deus não pode fazer isso!”; “Deus é amor e
não pode negar a si mesmo, logo, o inferno não existe, porque Deus é amor!”,
“Se Deus é assim, não quero saber dele!”, “Como crer em um Deus que
condena alguém por toda a eternidade? Isso é injusto! Até mesmo o maior
criminoso não pode pagar uma dívida sem fim”, e outros tantos ou mais
circulares e inexplicáveis desatinos, o verdadeiro “samba do crioulo doido”,
no qual o homem procura desesperadamente uma saída para a sua própria
insensatez, para a rejeição a Deus, mantendo o estado de inimizade plena.
Chamo-os de “argumentum ad divinum enrustidus”[135], ou seja, no fundo,
para anular a justiça de Deus ataca-se o próprio Deus, ainda que se diga não o
fazer, mas ao contradizê-lo com os fatos e lógica bíblicas, ele simplesmente
diz ser incapaz de reconhecer Deus como sendo Deus, se ele for o Deus
revelado, o Deus da Bíblia. Temos então o “A.A.D.E.”, uma falácia, onde a
proposição “Deus é justo e juiz” é negada com a crítica “Se Deus é justo e
juiz, ele não é Deus”, seguindo-se algo ainda mais nefasto: “E não quero nada
com ele!”. Chegando ao cúmulo, alguns, de afirmar: “Mas graças a Deus,
Deus não é assim, ele é amor!”.

Acontece que a medida do amor divino estará proporcionalmente


diminuída, do ponto de vista hipotético, caso Deus aplique a sua justiça,
consequência da natureza santa e perfeita, a qual não admite contato nem
convívio com o pecado. Portanto, quanto mais o atributo do amor for
manifesto, mais improvável que o atributo da justiça se revele; e, se há uma
justiça absoluta em Deus, é impossível coexistir com o amor absoluto.
Entretanto, Deus é o absoluto, tanto em amor como em justiça, e uma coisa
não anula a outra; em especial se atentarmos para o fato de o amor divino não
se manifestar a todos, nem a sua justiça (no sentido condenatório, punitivo).
Se todos os homens fossem amados por ele, e também todos fossem alvos da
sua justiça, Deus seria um esquizofrênico, incapaz de amar e ser justo, e
todos os seus atributos seriam relativos, emanações de um espírito
contingente.

Entretanto, se houver uma separação entre amados e punidos, de maneira


que aqueles não estarão sob a justiça divina e estes padecerão a ausência do
amor, entenderemos porque Deus ama e não ama, condena e não condena,
pois são esferas distintas de atuação. Novamente, refiro-me à justiça divina
no sentido de punição, pois a nossa justiça, a qual deveríamos receber, foi
lançada sobre Cristo, o qual pagou o alto preço por nós e nossos pecados.
Por conseguinte, podemos dizer, com todas as letras, que Deus é
absolutamente santo, absolutamente amoroso e absolutamente justo; sua
santidade é plena; seu amor é pleno; e sua justiça também. Mas se há uma
dependência, tanto do amor, como da justiça, ela existe em relação à
santidade, a qual conduzirá o amor e a justiça a serem aplicados de forma
correta, com o fim correto, de preservá-la, mantendo-a intacta.

O meu objetivo àquele tempo, como os dos demais descrentes, era o de


manter intacta a iniquidade, não a arrefecendo em algum momento, e de
conservá-la prevalecente sobre o amor de Deus (não o verdadeiro amor, mas
o amor impostor, forjado pela mente delirante e avessa à verdade). Era como
o calço que equilibraria a mesa defeituosa e manca; uma muleta capaz de
fazer o coxo se arrastar sem que seja curado do seu mal.

Era preciso anular a sua justiça e, por conseguinte, o sacrifício de Cristo


na cruz do Calvário, com a ideia perversa de um amor contemplativo e inútil,
suficiente para manter o pecador em um coma irreversível, distante da luz, da
realidade, da compreensão e da distinção existente entre o vivo e o morto.
Isso é algo que o morto, por estar morto, em um sono profundo, não
apreende, nem reconhece, uma vez que é sustentado por imagens confusas e
involuntárias a fazê-lo crer na “realidade” das alucinações.

Voltando à realidade da teimosia, ela se processa, mais ou menos assim:

1-O conhecimento de Deus e de sua Lei Moral, inatos na alma, revelavam


os pecados, ainda que não se possa assumi-los como tal.

2-Para justificá-los, apela-se para o amor complacente, tolerante e


conveniente, o qual se julga divino, porém representa (uma distorção da
expressão sublime e perfeita da deidade, como a revelação estabelece. Uma
vez que o homem insiste em rejeitá-la, cria para si mesmo um significado de
“divino” estranhamente limitado pelo pensamento e pela forma humana,
quando não passa de uma tentativa desesperada de ser aprovado por Deus,
sem a necessidade de se arredar o pé, um centímetro, da antiga vida de
pecados, ofensas e desobediência a esse mesmo Deus.

3-Então suprime-se o Inferno e qualquer tipo de condenação, acreditando


mesmo, e em última instância, na absolvição do diabo em nome do amor
suspeito e “divinamente” humanizado. No fundo, não passa de uma tentativa
frustrada de demovê-lo da sua condição, de ser quem ele é, imutável e
perfeito e santo, ao considerá-lo volúvel e maleável, facilmente moldado por
qualquer coração perverso e estúpido o suficiente para se considerar capaz de
acomodá-lo, como se não fosse ele a formar o barro, mas o barro a formá-lo
(Jr 18.6).

4-Por fim, como a Escritura é categórica em relação ao julgamento de


Satanás e, também, do réprobo, opta-se pela sua não existência, ao passo que
as citações escriturísticas não passariam de apelos morais à consciência, no
sentido de o mal ser condenado e combatido na sociedade, sem que o pecador
o seja. É o mesmo que desejar fazer uma omelete com os ovos ainda no
interior da galinha, sem que ela os tenha botado. Ou seja, não dá para separar
as duas coisas enquanto a galinha não botou ou foi morta, e os ovos retirados.
Na relação pecador/pecado, acontece o mesmo, o pecado tem de ser tirado de
dentro do indivíduo, e somente Cristo pode fazer isto, ou nenhum pecador
será absolvido do seu pecado.

Desta forma, e para a infelicidade de todos os que se perderam em seus


supostos méritos, na ilusão de serem eles a estabelecerem quem é o Senhor,
quando ele os rejeitou pelo abuso de suas presunções e altivez, as criaturas
tornaram-se mais importantes do que o Criador. Então, o projeto de santidade
de Deus se transformou em uma mera obsessão ortodoxa, um delírio
teológico, legalista, coisa de fariseus, de opressores fanáticos.

Esquecem-se, contudo, de que suas vidas se tornariam piores se


simplesmente aceitássemos seus argumentos, mantendo-nos em silêncio,
deixando-os se estreparem. De forma inexplicável, possível apenas pelo amor
daquele que nos amou eterna e finalmente na cruz, não nos recolhemos à
quietude. Antes, ansiamos, oramos e clamamos a Deus para tirá-los das
trevas e levá-los à luz do Amado[136].

5-A expiação do Senhor, o tema central e corrente de toda a Escritura,


passou a ter também um apelo simbólico e moral, no sentido de se buscar,
seja na bondade, no serviço, na consciência, na integração social, o bem
existente em nós, sempre a vencer o mal. Somente desse modo a humanidade
evoluiria por seus próprios meios, à sua maneira, até finalmente alcançar a
perfeição, ganhando os aplausos divinos efusivos[137].

Assim, em progressão, vai-se afastando o homem da verdade, da


revelação especial, em detrimento de uma “revelação pessoal”, o “achismo”
dos tempos modernos, no qual o ímpio conforta-se com ideias de
autojustificação, de um salvo-conduto no pecado, culminando com o perdão
incondicional, caso se acredite no pecado, pois, do contrário, nem mesmo o
perdão é cogitável, desfazendo-se qualquer concepção, por mais tênue e
rudimentar, de arrependimento. Assim, fica preservada e intocada a sua velha
natureza, num exercício astuto de premiar a dissolução com o troféu da
desobediência, num jogo mental onde o homem estabelece uma astuta
brincadeira com Deus, a fim de derrotá-lo, de “passar-lhe a perna”; quando há
apenas um jogador, que está encurralado em seu próprio tabuleiro.

O novo nascimento, operado pelo Espírito Santo, primeiro, revela a nossa


condição imoral e iníqua. Sem a constatação do que somos, o reconhecimento
de estarmos verdadeiramente perdidos e mortos para Deus, não há
arrependimento nem salvação, nem entendimento. Tenho dúvidas daquele
que se diz crente desde sempre, sem haver um marco dístico na sua vida,
onde foi-lhe possível vislumbrar quem era, quem é Deus, e o necessário para
reconciliar-se com ele. Por menor que seja o processo de regeneração, por
mais tênue que seja a diferença entre a vida pregressa e a nova vida, há de
haver arrependimento, e isso se dá em um átimo da história pessoal. Mesmo
crentes nascidos em berços cristãos, cujos pais, avós e bisavós eram crentes,
terão de se deparar, mais cedo ou mais tarde, com os seus pecados, sendo
confrontados pela Palavra e o mover do Espírito em suas vidas, a fim de
saberem, compreenderem e certificarem-se da necessidade de arrependimento
para a reconciliação. Mesmo lendo a Bíblia inúmeras vezes, ouvindo
centenas de pregações e até chegando a graduar-se em um seminário
teológico, o Evangelho não passará de construções gramaticais, simbólicas ou
metafóricas, aos olhos e ouvidos do incrédulo; nada além de imagens,
palavras e frases sucedendo-se sem sentido, ou quando muito, confundindo-o.

Porém, quando Deus o confronta com a verdade e o Espírito Santo lhe


revela a condição rebelde, mostrando-lhe o estado miserável e remoto diante
da infinita e perfeita santidade e glória divinas, não há como resistir: somos
inapelavelmente abatidos na soberba, os olhos são abertos, a mente é
conformada à de Cristo, os joelhos se dobram, a cerviz se curva, e a
escravidão do pecado é arrancada a fórceps; reconhece-se Cristo como
Senhor, sendo eternamente salvo pelo seu perfeito amor.

Qualquer tentativa de se minimizar o novo nascimento, como a


transposição radical do reino das trevas para o Reino da luz, deve ser
combatida. Nada é mais diabólico do que rejeitar o novo nascimento, porque
sem ele o homem apenas será mantido no estado de impiedade, sustentando a
inimizade contra Deus, a sua condição de caído em Adão e a perpetuação da
sua natureza carnal conservando-se morto.

Sem a regeneração, não há salvação. Não adianta saber todos os


versículos de cor, nem ter uma vida de aparente piedade, nem estar a serviço
da igreja, nem dizimar e ofertar, nem participar da ceia, nem mesmo pregar a
palavra. Deus pode usá-lo de várias maneiras (e o usará quer você queira ou
não), e você pode até mesmo estar convencido da sua salvação, mas se a sua
fé não está em Cristo, como o único mediador entre Deus e os homens, e sim
em seus méritos próprios, saiba de uma coisa, definitiva: você está perdido!
Ninguém será justificado por obras de justiça própria; e como a sua fé não
está nele, mas em si mesmo, em seu esforço, e no grande cristão que você
aparenta ser; nada disso surtirá algum efeito, a não ser condená-lo. Ainda que
se considere bom o suficiente para receber a misericórdia divina, se não for
lavado no sangue do Cordeiro, não poderá chegar diante do seu trono
alegando qualquer outra justificativa, reivindicando algo que considera
inerente a si, quando nunca lhe pertenceu. O único mérito capaz de satisfazer
o Todo-Poderoso foi a expiação vicária de Cristo. Na cruz, ele nos substituiu,
justificou e santificou-nos para sempre; nela, nossos pecados foram
absolvidos; nela, a nossa morte fez-se vida, e vida abundante; nela, a nossa
incapacidade ficou patente, nosso fracasso declarado, a completa dependência
de Cristo estabelecida, ratificada.

Se nada disto lhe diz respeito, você não passa de um tolo! Convencido,
pretencioso, abestalhado! Não é salvo. E permanece sob a ira de Deus.

Se não houver aquele dia, em que numa ínfima fração de tempo você se
viu como realmente é e foi movido irresistivelmente pelo Espírito Santo a ser
como Cristo, você ainda está morto em seus delitos e pecados. De nada
adiantará espernear, alegar inocência, porque a obra de salvação é
completamente de Deus, e o homem bom que você se considera não poderá
auxiliá-lo em nada. Tudo é dele para o eleito; tudo é dele pelo eleito; e
somente assim se estabelece a sua glória, de ser aquele por quem somos
resgatados, vivificados, achados, não em nós, mas nele, por ele e para ele.
Deus se move de tal maneira em nossa direção, que somos atraídos necessária
e integralmente para ele. O seu conselho eterno se realiza no tempo, não
agora, mas na expiação proposital e limitada do Filho, a cabeça, pelo seu
corpo. Corpo este que foi destinado para a vida eterna, em sua presença,
apenas e exclusivamente por sua vontade, a despeito de todos os esforços
empreendidos pelo homem de minimizar os feitos e méritos divinos, seja por
uma teologia corrompida e herética, seja por uma vida descuidada e
incrédula. Tal atitude culmina na expressão verdadeira de que, quanto mais
ansiamos e nos convencemos do nosso autogoverno, mais patente e
inconteste está o nosso fracasso.

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para
que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado”
(Rm 6.6).

O réprobo somente faz produzir provas contra si, infringindo a Lei Divina
tantas vezes quanto a sua mente é capaz de se deleitar na marginalidade. Por
isso, muitos se recusam a crer no Inferno e na condenação. Afinal, não foram
regenerados, e se não foram, como acomodar os seus pecados ao Evangelho?
Não tem jeito! É impossível! Então usarão de artifícios para desqualificá-lo,
distorcê-lo, pervertê-lo ou recriá-lo. Certamente, assim agiram os falsos
mestres também no tempo da Igreja Primitiva, insuflando-a à mentira,
desviando-a da verdade, introduzindo-a no mais obscuro e letal ensinamento
às avessas da luz da revelação, onde a soberba e a arrogância obstruíam a sua
visão, compreensão e a possibilidade de reconhecimento da verdade.

Ao idealizarem o paraíso, contentavam-se em permanecer atolados no


pântano, como se fosse possível fazer dele um jardim sem remover toda a
lama. Queriam que brotassem flores no terreno estéril. Queriam exalar o doce
perfume de Cristo, quando estavam apodrecendo. Queriam-se vivos, quando
estavam mortos. Queriam respirar, quando estavam asfixiados. Como um
cérebro sem oxigênio... Um corpo sem alma... O leito de rio seco.

Assim é o ímpio.
O cadáver que a chuva molha.
O Suicídio Espiritual

A exortação, portanto, é para os irmãos não se deixarem seduzir pela


retórica de aparente piedade, de um amor inclusivo, de uma afeição
artificiosa e distraída, aplicada meticulosamente com o intuito de
desencaminhar o crente, levando-o a desviar-se por lugares errantes e
tenebrosos. As consequências seriam trágicas, culminando na sentença
divina, quando Cristo e seus santos vierem julgar o mundo, condenando-o
pelas profusões de erros, pela afronta e blasfêmia insistente ao seu santo
nome. Este é um pecado cometido pelo ímpio diuturnamente, algo que suas
mentes corrompidas laboram incansáveis, ainda que nem todos se deem
conta.

Chegamos ao ponto crucial, no texto, onde o autor descreve um tipo ainda


mais desprezível de cavilosidade: palavras injustas, disparatadas, proferidas
contra o Senhor. Nem é possível imaginar as aberrações, mentiras e ofensas
pronunciadas em alto e bom som contra Cristo, seja negando a sua divindade,
seja negando a sua humanidade, até mesmo a sua existência, ou coisas ainda
piores, como atribuir a ele o mal, algo existente apenas no coração entregue à
“Détraqué” de todas as loucuras, à profundidade abissal da infâmia. Alguns
o consideram um megalomaníaco, um farsante, um lunático ou
esquizofrênico, destilando um ódio inimaginável até mesmo para o pior entre
todos os homens, fruto do descomedimento intolerável a que os bárbaros são
afeitos. Não existindo razoabilidade em sua fúria, entregam-se ao sentimento
de descomedida vingança absoluta. Desse modo, a fúria torna-se cada vez
mais reprovável, à medida em que se esmera na provocação gratuita, numa
batalha incansável, e perdida, em relação ao santo, perfeito, sobrenatural e
unigênito Filho de Deus.

O fato de alguns afirmarem que Cristo não tenha se autodenominado


Deus ou tenha feito qualquer alusão à sua divindade, indica uma leitura
viciosa, no mínimo, e pérfida, fraudulenta, no geral. Não há, em toda a
Escritura, ninguém a reivindicar para si mesmo a crença e a fé de ser o Filho
unigênito de Deus, a não ser Jesus Cristo! Porque, de fato, ele é Deus, e
ninguém mais pode reclamar o direito à razão da fé do que o próprio Deus.
Entretanto, nem todos estão aptos a ver isso. Muitos não querem ver; odeiam
aqueles que veem, apelando para a loucura de todas as loucuras: um
cristianismo sem Cristo! Para um cristo sem Deus. Para um deus inútil ao
homem. Para um homem perdido, mas inexplicavelmente seguro por uma
salvação em que a própria humanidade é redentora, sem expiar nada ou
alguém. No entanto, muito pelo contrário, a causa da desordem, dos conflitos,
da injustiça e do mal a campear o cosmos tem origem no próprio homem, em
sua humanidade corrompida, abraçado à Queda como um naufrago lançado
ao mar preso à âncora de um transatlântico descai vertiginoso em direção ao
fundo, atestando o seu inexorável afastamento do Criador... Para um céu que
é de todos por direito, pois o inferno é possível apenas aqui, neste mundo.
Para pecados desculpáveis, quando o único pecado indesculpável é a justiça
divina. Para arrogar santidade, boas obras, mas sempre como um esforço
próprio, como um processo “evolutivo”, em que o homem interior
se autorregenerará progressivamente, enquanto a justificação imputada por
Cristo seria apenas o exemplo daquilo que se pode alcançar como
consequência da bondade inerente ao homem, uma espécie de autocriação do
bem à margem de Deus, o próprio e único bem.

Mesmo os maus não têm do que se preocupar. No fim das contas “Deus”
consertará tudo, e a maldade será recompensada pela impossibilidade de não
haver bondade, como uma “vitimazinha”, a “coitadinha”, que não tinha
consciência da sua perversidade, já que a ignorância quanto ao bem é o salvo-
conduto para se aperfeiçoar na prática do mal e escapar impune, ileso.

Nascer e viver no mal é uma boa desculpa para não fazer o bem e
continuar andrajoso pelos caminhos dissolutos. E tem funcionado, pois nunca
o mal foi tão amado, contemporizado e minimizado entre os cristãos, como se
não existisse e não passasse de uma fuga da realidade ou uma ilusão mental.
O contrário, conforme imaginam, se não bastasse ser irreal, é visto como
prova do amor à humanidade, a profusão da benignidade como se fossem
gotas aplicadas homeopaticamente em uma entidade do tamanho do Oceano
Pacífico. No fim das contas, isso se resume a uma esquizofrenia fugidia na
qual a verdade é o lapso pessoal em reconhecer-se como pecador e inimigo
de Deus, para se fazer merecedor por um tipo de bondade lúdica, quase um
chiste, onde as evidências são de uma alma egoísta e pretenciosa.

Dessa forma, ao contrário de Dorian Gray[138], mesmo diante do quadro


horrendo da sua maldade, eles veriam apenas uma beleza imperceptível, pela
negação psicótica da verdade, pela ocultação da alma cadavérica em um
disfarce de bondade impossível, a ponto de o pecado ser um sofisma, levado
a consideração por mentes doentias e retrógradas, contaminadas pela ideia
absurda de uma verdade atemporal, absoluta e objetiva.

Não é difícil ver cristãos defendendo o aborto, ou a pederastia, ou o


adultério, ou a mentira, ou a fraude, ou qualquer outro delito, o qual a Bíblia
nomeia por pecado, como sendo algo natural. No entanto, trata-se da
consequência de se viver em um mundo onde as pessoas são livres para
exercitarem a extravagância de fazerem tudo sem responsabilidade,
satisfazendo tão somente a egolatria e o cinismo, as formas mais
dissimuladas de justificativa na pós-modernidade. Assim, tais pessoas se
levam ao extremo de, acreditando na indulgência divina, pelo simples fato de
existirem como párias, sem qualquer nexo entre indivíduo e inclinação
benigna, empenharem-se em revelar uma alma desonesta, muito distante do
conceito acalentado para si mesmo, no qual o bem suposto e idealizado
produz em abundância o mal obcecado, em constante recrudescimento.

Deixando a digressão de lado, voltemos ao foco: Cristo! Como disse,


somente o Senhor avocou para si que os homens cressem nele; e a Bíblia
chama-nos à fé apenas em Deus. Então, ele afirmou:

“Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.


Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria
dito. Vou preparar-vos lugar”, pois, “Eu sou o caminho, e a verdade e a
vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim. Se vós me conhecêsseis a mim,
também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis, e o tendes
visto” (Jo 14.1-2, 6-7).

Esta simples constatação (simples em seu enunciado, mas intransponível


e complexa para a mente obliterada em relação a Deus) aglutina tanto a
natureza humana como a divina, as quais são o Cristo, cuja pessoa encontra-
se eternamente inseparável delas. De forma que, quem o vê, vê a Deus, ainda
que esteja detido a escrutinar apenas o homem.

Como Paulo resumiu, ao falar do Messias:

“O qual é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação...


porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse” (Cl
1.15,19).

De forma que Deus falou, nos últimos tempos, pelo Filho, o qual é o
resplendor da sua glória e a expressa imagem da sua pessoa, a quem
constituiu herdeiro de tudo (Hb 1.1-3).

Ora, mas há os que tentam invalidar a Escritura dizendo que Cristo não se
nomeou Deus e os autores inspirados jamais o proclamaram como tal. Eles
tentam nadar contra a maré, da mesma forma que um defunto pedalaria um
“velotrol”, subindo uma montanha-russa. Absurdo dos absurdos! Em suas
presunções, logram-se sábios quando não passam de loucos (Rm 1.21-22).
Para tanto, têm de rejeitar a inteligência, a lógica, a verdade, a fim de se
entregarem às artimanhas mais vis capazes de engendrar o espírito humano e
aprisioná-lo em uma redoma escura e apertada, na qual tem contato tão
somente consigo mesmo, sua limitação, e um coração disposto a leva-los à
negação da verdade inevitável.

Como resistir, por exemplo, às evidências da Escritura? Vamos a algumas


delas (uma parcela, não a totalidade do que dispõe o Cânon sobre o Senhor):

1- “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era
Deus” (Jo 1.1);

2- “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que


Abraão existisse, eu sou” (Jo 8.58);

3- “Eu e o Pai somos um. Os judeus pegaram então outra vez em pedras
para o apedrejar... não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela
blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo” (Jo 10.30-31,
33);
4- “E quem me vê a mim, vê aquele que me enviou” (Jo 12.45);

5- “Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos


incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de
Cristo, que é a imagem de Deus” (2Co 4.4);

6- “... e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo”


(Jd 4);

7- Jesus, vendo a fé deles, disse ao paralítico: “Filho, perdoados estão


os teus pecados”. E estavam ali assentados alguns dos escribas, que
arrazoavam em seus corações, dizendo: “Por que diz este assim blasfêmias?
Quem pode perdoar pecados, senão só Deus?” (Mc 2.5-7);

8- “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado


estará sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso,
Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6);

9- “Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito
Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele
resgatou com seu próprio sangue” (At 20.28);

10- “Dos quais são os pais, e dos quais é Cristo segundo a carne, o
qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém” (Rm 9.5);

11- “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se


manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos
gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” (1Tm 3.16);

12- “Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da


glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” (Tt 2.13).

Como é possível, diante dessas evidências, alguém ainda defender a não


divindade de Cristo? Sem falar que há um volume muito, mas muito maior de
textos na Escritura acerca dela, confirmando-a, explicando-a, elevando-a aos
céus para a glória de Deus Pai.

Entretanto, o pior, o inconcebível, são pessoas dizerem-se “cristãs” e


acreditarem, como ebionistas[139] e arianos, que Jesus é um homem muito
especial, um ser magnífico, mas criado, um deus menor, inferior; nada além
disso, não podendo jamais ser Deus. Ah, como se revolve meu coração de
compaixão por almas tão tolas, tão apartadas da verdade, que, se pudesse,
entregaria eu mesmo a minha vida por eles, para, crendo na morte de um
homem, creiam também na morte de Deus[140]!

O fato de Cristo vir buscar e salvar o que se havia perdido (Lc 19.10)
implicará automaticamente na condenação dos que não forem salvos e
mantêm-se dispersos no pecado. Não é difícil entender por que, ao ver deles,
é necessário desqualificá-lo, diminuí-lo, para, primeiro, anular o Juízo de
Deus, depois a redenção e, então, propor, à revelia da Bíblia, uma obra cujo
valor é apenas moral (sendo que um princípio imoral anula qualquer sentido
de moralidade), um exemplo de coragem, coerência e desprendimento para
todos os homens e seu esforço autorredentivo.

O reflexo direto desse posicionamento é a descrença. Primeiro, por não


levar em conta a revelação divina, no texto sagrado, e, em segundo, por não
levar em conta o próprio Deus. O que há é o desejo acalentado de atrair o
homem para uma liberdade incapaz de tirá-lo da escravidão (2Pe 2.19), um
tipo de liberdade onde o único sentido possível e imaginável é o cativeiro,
servindo ao pecado, em uma irrestrita disposição para a transgressão
descarada, um apelo à autonomia suprimindo qualquer possibilidade de
santidade, de reconciliação, arrependimento, e mudança de ordem interior. A
grande questão é que, abalando-se os fundamentos da fé, a noção de pecado
encontra-se tão corrompida pelo próprio pecado que não pareça pecado,
adquirindo ares de... não pecado, quase uma virtude.

Outro agravante ainda mais letal são os conceitos não cristológicos, ou


seja, não bíblicos, que estão sendo sutilmente propagados e infiltrados nas
igrejas e seminários. Pequenos desvios, quase subliminares; heresias
reformuladas e adequadas ao padrão de desconhecimento e pouco caso para
com a Escritura, a tradição e a história eclesiástica, refletindo uma espécie de
cultivo esmerado e tenaz da ignorância. Por consequência, a verdade é
substituída por mentiras travestidas de “meias verdades” como se fossem
verdade, e qualquer relação com ela resume-se à oposição recalcitrante e
repúdio explícito.
O discurso é aparentemente bíblico, denotando uma veracidade baseada
no academicismo, onde a credibilidade está associada à autoridade, no
princípio de que um estudioso pode suplantar em um livro ou, quiçá, um
artigo, a sabedoria da Igreja em séculos, mesmo sendo suas conclusões ou
argumentos apenas a transgressão, a sublevação da ordem, a negação
explícita da verdade, num ímpeto avassalador em destruí-la, pô-la abaixo,
criando o campo adequado para a proliferação do mal, sem freios ou rédeas,
do qual se vangloriam, como crianças travessas, por sua desobediência e
parvoíce.

Inexiste na prática, forma e conceito, qualquer tentativa de ecoar e se


aplicar os ensinamentos bíblicos. Transforma-se em voz dissonante e
contraditória a maioria dos ensinamentos, como se fossem verdades de um
calibre superior, avalizados pelo academicismo materialista e anticristão, e
propagados pelo atrevimento cético dos “sábios de plantão”. A descrença é
camuflada com um ou outro penduricalho a fim de fazerem-na passar por
verdadeira, adornando-a com distrações para desviar a atenção do real
intento, a difusão dela. Assim, a descrença adquire ares de relevância, de
sincera proposição, de questionamento honesto, como se alguém pudesse ser
considerado um expert apenas pela condição de ser avalizado pela própria
presunção e autoconfiança. Via de regra, não passa de um equívoco, um
embuste; o mesmo que “camuflar” um elefante com brincos e apresentá-lo
como uma dançarina de “vaudeville”.

Os hereges buscam uma proximidade e até se utilizam de expressões


cristãs para dissimularem suas reais intenções, seduzindo os tolos, fazendo
crer que o Cristo não revelado é o revelado. Aquele existente nos delírios e na
perturbação das suas almas tem a veracidade inexistente no testemunho dos
profetas, dos apóstolos, e do Espírito Santo; mas é a ele que creem, e a ele se
entregam, como pervertidos ao vício. Assim podem concluir sua obra
demoníaca de desmistificar o Deus-Homem, desconstruindo-o, seguindo o
método bárbaro de pôr em escombros tudo que possa afastar o homem da
ruina e leva-lo à uma redenção atípica e descabida, fatalmente incriminadora.

Pedro alertou-nos sobre eles:

“Haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente


heresias de perdição, e negarão ao Senhor que os resgatou, trazendo sobre si
mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos
quais será blasfemado o caminho da verdade” (2Pe 2.1-2).

No fundo, o homem natural apenas repete-se a si mesmo, em seus


múltiplos erros, acreditando na autonomia, na autossuficiência, em um poder
autorregenerador, impondo-o forçosamente a Deus, na esperança de, atirando
no escuro, acertar em cheio o alvo. No entanto, ele se encontra tão cheio de
si, achando possível encontrar um significado onde não existe (em si mesmo),
que erra enquanto acredita acertar, e perde a razão, tornando-se digno de
escárnio, uma figura burlesca e patética, um farsante orgulhoso dos seus
embustes; convencido de não ser um trapaceiro pelo simples hábito de
trapacear, preso em sua própria armadilha.

Por isso, Cristo disse:

“Morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que EU SOU,


morrereis em vossos pecados” (Jo 8.24).

E muitos já estão, sem sabê-lo, cometendo suicídio espiritual.


PARTE NOVE

A MARCA DA MALDADE

“Mas vós, amados,

lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos apóstolos

de nosso Senhor Jesus Cristo;

os quais vos diziam que nos últimos tempos haveria escarnecedores

que andariam segundo as suas ímpias concupiscências.


Estes são os que a si mesmos se separam, sensuais, que não têm o
Espírito”.
Dr. Jekyll e Mr. Hyde

Mais uma vez, o autor refere-se à igreja como amados, exortando-os sobre a
necessidade de lembrarem-se do que fora dito e predito pelos apóstolos de
Cristo e pelo próprio Cristo em um passado recente. Há uma reiteração
daquilo exprimido no verso 5, o fato de não se esquecerem da doutrina
entregue-lhes pelos santos de Deus, não abandonando suas mentes, não as
entregando ao desprezo por tudo aquilo revelado em tempos anteriores.
Antes, devem cultivar, como bons agricultores, os ensinamentos sagrados,
protegendo-os dos ataques inimigos, daqueles desejosos em destruí-los. Isso
vai de encontro à tradição apregoada por alguns, uma tradição maleável,
transitória, a qual se diz verdade pela boca dos homens, mas nunca pelos
“lábios” divinos, mudando ao sabor dos ventos e dos tempos, sendo
substituída por outra verdade de valor relativo, como uma resposta humana
ao grito interior avesso ao absoluto. Tal relativização visa a impedi-los de
darem frutos e de propagarem os ensinamentos da igreja, de serem
norteadores para uma verdadeira vida cristã. Uma vida na qual o cristão seja
capaz de abraçar a verdade, através da qual cada um dos eleitos se tornará
cada vez mais feito à semelhança, à estatura do nosso Senhor. Igualmente,
trata-se de uma vida na qual o homem não pode ser apenas um palpiteiro, um
palrador, capaz de se envolver em muitos estudos, em muitas conjecturas, em
destilar o seu conhecimento de quase tudo, ou de nada, se necessário. O
incrédulo, pelo contrário, sempre duvida, em última instância e no mínimo,
mesmo estando a autonomear-se um incansável “caçador de verdades”. No
entanto, ao encontrá-la, reluta bravamente, pois a pura e simples
concordância pela fé, passada pelo crivo racional, parece-lhe inconcebível e
muito distante da irracionalidade praticada e um tanto distante da razão na
qual os hereges de todos os tempos se empenham e exercitam à exaustão.

Se Satanás, desde o Éden, empenha-se obstinadamente em destruir o


homem e qualquer conhecimento possível de Deus, por que a igreja não seria
o seu alvo predileto? Por que ele não intentaria, junto com os seus servos,
minar a sã doutrina, impedindo que o pecador tenha conhecimento da
verdade e se arrependa, na expectativa de que o crente também se perca
através dos desvios arredios à santidade? E dilua a fé em práticas
aparentemente piedosas, aparentemente verdadeiras, aparentemente em
serviço a Deus? Quando está a confirmar tão somente o coração duro feito
pedra, a alma irreconciliável com o Criador, a obstinação doentia com o mal,
e a rejeição a todo o bem, a tudo que seja santo? Existe uma busca desleixada
por si mesmo, por aquilo que se é capaz de alcançar sem esforço: acreditar no
ídolo criado à sua imagem; pego na própria armadilha, cujo laço a apertá-lo
foi colocado e puxado pelo próprio ser humano.

Muitos não entendem a preocupação e o cuidado do autor ao esmerar-se


no alerta à igreja sobre a eventual destruição a que os falsos mestres se
disporiam, na expansão das fileiras lúgubres da perdição, a si mesmos e
àqueles a endossarem suas práticas anticristãs. Não compreendem o alerta
que os irmãos permanecessem cautelosos, em constante vigilância, pois era
certíssima a investida maligna, pelos intentos fraudulentos daqueles inseridos
inadvertidamente no corpo local, com o fim de trazer dissensão, dispersá-lo e
enfraquece-lo, levando-o à morte.

Certa vez, um amigo perguntou-me o porquê de Deus não santificar e


aperfeiçoar mais a igreja, como fazia antigamente. Respondi-lhe:

- Ora, porque ele não quer... Ao menos, do jeito que imaginamos ser.

Ele continuou:

- Mas Deus não deveria desejar o melhor para a igreja?

- Sim, respondi, e quem lhe disse que ele não está fazendo o melhor? O
problema é que esperamos apenas “boas” intervenções, no sentindo mais
humano do termo, quando todas as suas intervenções são boas, ainda que nos
pareçam más... Paulo não diz isto em Romanos?

“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem


daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu
propósito” (Rm 8.28)
Em outra ocasião, um irmão aproximou-se e, depois de algum tempo
conversando, disse:

- Bem que não podia haver as heresias.... Elas são a porta por onde muitos
vão para o inferno, e deixam outros bem próximos da entrada...

Entendi a sua inquietação, como alguém zeloso pelas almas e vidas


destruídas pela mentira, pelo embuste, pela camuflagem da falsidade em
verdade; mas não resisti, e respondi-lhe:

- Concordo, mas pense: esse não pode ser o instrumento de Deus para
purificar e santificar o seu povo? E, também, o instrumento para condenar os
ímpios? De qualquer maneira, bendigo a Deus pelas heresias e os heréticos,
pois, sem eles, a verdade não resplandeceria, e os santos não se ajuntariam.

É claro que temos a promessa de Cristo de que as portas do Inferno não


subsistiriam diante da igreja (Mt 16.17-18). A ideia transmitida é a certeza de
que as forças diabólicas, por mais investidas estejam de impetuosidade e
ofensividade e rebeldia, jamais alcançarão o objetivo de derrotar o corpo de
Cristo, pois ele mesmo o guardará, cumprindo-se a promessa de não
abandonar o seu povo, cuidando para a realização de cada uma de suas
vontades nele, a fim de que, por ele, o Filho seja glorificado.

Com isso não estou a dizer que, vez ou outra, as forças do mal não
vençam uma batalha aqui e acolá. A história nos mostra muitas delas onde o
triunfo inimigo acontece, lançando dúvidas sobre o efetivo e providencial
cuidado divino à igreja: a idolatria cresce; o destemor de Deus arrefece; a
infidelidade do homem se fortalece; o não arrependimento cauteriza a alma; e
a introdução de conceitos e doutrinas alheias ao Evangelho conquista
corações néscios; mentiras que atingem o status de verdade são proferidas e
defendidas por enganadores sagazes, que ludibriam os incautos com suas
palavras empoladas e cheias de malícia. Entretanto, engana-se quem tem
como incerto o zelo divino pelo seu povo; a expansão da impiedade é selo
visível da atuação satânica neste mundo, mas também é a marca invisível da
sua condenação, assim como daqueles engajados em sua causa, a inimizade
recalcitrante, chamando para si mesmos a ira vindoura.

Mas, então, se a igreja não será derrotada pelas hostes de Satanás, por que
muitas delas sucumbiram ao falso ensino, tornando-se igrejas do mal?

É uma questão deveras complexa, posto estar em um nível muito superior


ao entendimento humano. Mesmo o eleito sendo guiado pelo Espírito Santo,
no entendimento de toda a verdade, há coisas que, não sendo reveladas,
transformam qualquer afirmativa em conjectura. Por que em uma mesma
igreja temos joio e trigo (Mt 13.24-30)?

Assim como aquele irmão questionou, entender todos os propósitos


divinos, buscando uma resposta racional para os eventos, é a demonstração
de soberba, de um incansável desejo humano em acender ao nível divino,
fazendo-se como ele. Há questões nas quais a mente deve resignar-se e
entabular uma trajetória em direção à obediência, a aprimorar a fé, ao invés
de gastar-se em elucubrações artificiais e quiméricas. Ao contentar-se,
entregando-se à contiguidade com o real, com a verdade, e exercitando-se
nela, o crente não somente dá prova de sabedoria, mas, também, de santidade.
Por isso, a declaração de a fé ser a certeza das coisas não esperadas, dos fatos
não vistos, nos move para muito mais próximo do coração de Deus do que
promover uma busca em direção à mera satisfação da curiosidade, cuja
motivação está mais ligada à autoexaltação do curioso do que à glorificação
legítima do Senhor. Firmando-se na certeza de ele operar sempre para o bem
dos seus filhos, mesmo estando a compreensão mui distante, a alma do
homem deve satisfazer-se em Cristo e jamais na capacidade de entender este
ou aquele evento em particular. Se abandonamos o geral, a compreensão
adequada da glória de Deus e sua realização, não poderemos jamais entender
a realidade dos pormenores e ocorrências triviais, por mais que sejam
revestidas de banalidade.

É possível ao crente, regenerado e transformado à semelhança de Cristo,


apreender a realidade de situações complexas e transcendentes muito mais do
que um incrédulo se acerca da verdade em acontecimentos banais e
ordinários. E não há arrogância cristã nesta afirmação, mas a glorificação
daquele que torna possível todas as coisas, até mesmo a transformação de
seres tolos e depravados em santos. Algo que o homem insiste em não
entender, à custa de tornar-se refém da própria ignorância, negando a verdade
e satisfazendo-se com o ídolo reinando em seu coração, é: a resposta não está
no homem, e nunca estará, mas em Cristo, de quem herdamos a nova mente.
E, lembre-se, não é uma nova mente perfeita como perfeita é a mente do
Senhor. Contudo, ela está encaminhando-se para sê-la, de maneira que
naquele glorioso dia, nada perguntaremos. Já não haverá mistérios, ou
interesses tais que nos movam à pergunta. Cristo nos satisfará plenamente, e
nele não haverá lacunas, dúvidas ou inquirições.

Alguém proferirá: Mas Cristo não é homem?

Li, há algum tempo, a seguinte afirmação: “A Bíblia é antropocêntrica.


Afinal, quem é mesmo seu destinatário, sobre quem ela fala e a quem ela
propõe restauração?”.

Pois bem, se analisarmos o fato de os destinatários da revelação serem


homens, de seus autores serem homens, de falar do princípio ao fim de
Cristo, o qual é o Verbo encarnado, sendo uma de suas naturezas a humana, e
se o objetivo da revelação é a reconciliação dos homens com o Criador, não
parece haver dúvidas quanto a essa afirmação. Porém, o autor da frase comete
um grave erro, ainda mais de algo tão complexo e sobrenatural, ao resumi-la
através da sua passividade, ou seja, a quem é destinada, sobre quem fala e
propõe restauração, indicando uma posição reducionista e não completamente
verdadeira. Afinal, quem é o agente ativo de toda a Escritura se não o próprio
Deus? O qual é o seu autor primeiro; o idealizador e capacitador da
mensagem; aquele cuja vontade é proeminente e premente, sem a qual o
homem permaneceria em seu estado natural de corrupção e ignorância?

Entendo as intenções do autor, e não as reputo como incorretas, mas é


apenas uma fração da verdade, de modo que tentar enquadrá-la como toda a
verdade é algo presunçoso, ao alijar o caráter nitidamente divino da sua
mensagem, da condução da história, dos propósitos eternos, da vontade
eterna, da decisão eterna que resultou na realização no tempo. Não nos
esqueçamos do fato de, em Cristo, a preeminência divina fomentar e sujeitar
a natureza humana, na qual não se tem apenas um homem inspirado ou
sugestionado pela divindade, ou possuído por ela, mas o Deus-homem
formando uma única pessoa, duas naturezas que não se misturam, mas cuja
normalidade humana está em submissão à divina.

A passagem da tentação do Senhor no deserto, por Satanás, parece-me


uma evidência dessa “superinfluência” da deidade no homem. Ao ficar
quarenta dias sem comer, mantendo-se lúcido, santo e fortalecido em espírito,
diante das investidas maliciosas do inimigo, não há como não reconhecer o
fortalecimento do homem, um tipo de blindagem, por assim dizer, de Deus. O
homem santo está intimamente ligado ao Deus santo, não em uma convulsão
ou amontoado de personalidades, mas em uma única personalidade santa,
irretocavelmente santa, sem lugar para desvios, erros ou pecados.

Mais do que compreender a Bíblia como um livro antropocêntrico,


devemos entendê-la como teocêntrica, um livro no qual Deus se aproxima do
homem, manifestando sua graça e misericórdia sobre ele, declarando o seu
amor, projeto e missão, a fim de resgatá-lo. Lembre-se de que historicamente,
a começar pelo Éden, o homem é quem tomou a iniciativa de se afastar de
Deus. Mesmo quando aparentemente demonstra querer aproximar-se, nunca
se aproximará ao Deus bíblico sem que antes Deus o atraia a si. Não é difícil,
então, notar que, por mais que o homem seja o alvo, Deus é o proponente da
redenção; por mais que a linguagem, eventos, motivação e resultados sejam
sintetizados no homem, o poder criador, operante, ilimitado e
extraordinariamente manifesto é o divino, cujo fim é a sua glória.

Não entender a secundariedade humana, dependente da primazia divina, é


dar ao homem algum tipo de independência e importância inexistente em si
mesmo e somente possível em Deus. Esta é a diferença exata a fazer da
Escritura um livro teocêntrico, diferentemente de outros livros morais e
religiosos. Na Bíblia, Deus é exaltado e o homem colocado em sua real
condição e apenas encontra a glória naquele que glorifica, Cristo, à medida
que anseia ser como ele, trabalhar para ser como ele, afastando-se cada vez
mais de si mesmo e do pecado em direção à santidade dele, rejeitando a sua
mente para ter a mente dele, e, no fim, ser conformado à estatura do Filho.
Como João o Batista disse: “É necessário que ele cresça e que eu diminua”
(Jo 3.30). Esta é a essência da mensagem divina: somente há aceitação do
homem diante de Deus pelo sacrifício da pessoa do Redentor. Se dependesse
de nós mesmos, em última instância, haveria apenas e tão somente choro e
ranger de dentes, de toda a humanidade sem exceção.

Não tenho por objetivo tecer um tratado sobre cristologia, porque o foco é
outro. Apenas julguei necessário este adendo para não pairarem dúvidas
quanto a quem devemos honra e glória e louvor, mesmo quando diante do
espelho concluímos pela nossa beleza e majestade (não entenda como uma
afirmação, mas como uma provocação, por favor), que, contudo, é obra das
mãos divinas, da qual somos receptores e nunca fomentadores; da qual somos
agraciados e jamais doadores.

O alerta de Judas não tem outro significado a não ser o de tirar-nos da


soberba implementada pelos falsos mestres e fazer-nos voltar à realidade, da
qual não se deve abdicar, sob pena de incompreensão e delírio completo em
relação à verdade. Se todas as respostas estão em Deus, qualquer tentativa de
formulá-las partindo-se do homem em direção ao Criador, e não o contrário,
resultará na objeção da verdade; significando que não se quer conhecê-la,
mas mascará-la. Assim a importância estará na camuflagem, na construção
vergonhosa da mentira e na substituição do autêntico pelo postiço,
configurando-se no mais alto grau de idolatria, cujo cerne tem o objetivo de
destituir Deus e entronizar a criatura.

Se mesmo os acontecimentos factuais têm de ser vistos com os olhos da


fé, sem nutrir dúvidas quanto ao trabalho incessante de Deus em cumprir a
sua vontade, guardando-nos para o dia da glória de Cristo e entregando os
injustos à sua ira eterna, por que insistimos na autoglorificação?

As promessas divinas são eternas, cumprindo-se no tempo segundo os


propósitos santos e o conselho santo de Deus. Ele nos garante que assim
seria, bastando-nos aceitá-los como tal, mesmo não compreendendo, em
detalhes, o seu projeto. Seremos sábios e abençoados se o aceitarmos, no
geral, como fruto da complexa, mas perceptível sabedoria, perfeição, justiça e
santidade do Senhor.

Desta forma, sabemos que os ataques malignos não pouparão nem mesmo
o ambiente eclesiástico, e que, no mundo, esperam-nos coisas igualmente
piores, indicando ao lado de quem estamos, por que estamos. O objetivo
disso tudo é sermos arrastados para longe, à uma distância tão segura que
garanta a não realização da obra de Cristo em nós. Cristo nos garantiu que
seremos bem-aventurados, a despeito da guerra que o mundo trava contra
nós; a despeito da dor e aflição e injustiça com que o mundo nos vê e
persegue, existe a segurança, a esperança e o gozo nas palavras daquele que
nos capacita a torná-las vivas, ansiadas, em cada membro do seu corpo:
“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça,
porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados sois vós, quando vos
injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por
minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos
céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” (Mt
5.10-12).

Acontece que essa oposição é visível, de forma que nos é possível


vislumbrar o inimigo, sabendo quem ele é, e com quais armas empreenderá o
seu ataque. Ele estará declaradamente identificado como o adversário, como
aquele a militar antagônico à verdade. Saberemos o quanto é hostil e,
também, como enfrenta-lo, em uma luta manifestamente franca, na maioria
das vezes.

É possível utilizar-se de artifícios enganosos, a ludibriar e desviar-nos dos


verdadeiros interesses do inimigo. Podem-se empregar subterfúgios, no
princípio, a fim de se esconder os seus reais intentos, ao passo que, na igreja,
muitas vezes, o inimigo não é declarado e age como se fosse amigo. Ele tenta
arrastar-nos com uma falsa piedade, com mimos, apelando para uma espécie
de amor inclusivista e permissivo, uma forma de chantagem emocional, onde
o exclusivismo do cristianismo jamais poderá ser aventado e afirmado como
verdadeiro. Esses são apontados, por Paulo, como os que têm aparência de
piedade, mas negam a eficácia dela (2Tm 3.5). Assim sendo, é-nos difícil
conhecer seus ardis e muitas vezes somos impelidos, por sentimentos
enganosos, a transigir, a condescender com o pecado alheio, em nome da
irmandade, na qual supomos que ele está inserido. Quando acordamos para a
realidade, o estrago, quase sempre, está feito e, para alguns, é irremediável.

Houve casos de igrejas entregues à sanha demoníaca dos falsos mestres,


os quais agiram tão livremente nas comunidades, sem qualquer oposição
efetiva, que acabaram por destruí-las completamente, ocasionando a
dispersão entre seus membros, enfraquecimento da maioria, apostasia de
alguns, desmoralização de outros, perdição para quase todos.

Na verdade, alguns poucos saem fortalecidos e encontram-se preparados


para as investidas futuras dos inimigos, através das lutas vivenciadas e das
vitórias alcançadas por meio daquele que luta por nós.
O rastro, contudo, é devastador: homens e mulheres desigrejados,
dispersos em seu egoísmo e individualismo, entregando-se a um discurso
falso, do senso comum, de que estar só é melhor do que acompanhado. Eles
acabam esquecendo-se de olhar para o Senhor, cultivando e se justificando
em suas dores, frustrações e em um alívio impossível fora do evangelho e do
corpo local. No caso da igreja, essa é uma falácia terrível, maligna, repleta de
um formalismo devastador, o qual dizem combater. Tornam-se então presas
fáceis e são cooptados pelas seitas, feitos seguidores e instrumentos de
propagação daquele mal. Chega-se a odiar, no mais profundo do ser, tudo
relacionado a Deus, religião e igreja, buscando refúgio no gnosticismo - o
conhecimento como um deus -, e na interpretação equivocada como doença
mortal, dizimando o pouco do verdadeiro conhecimento que, longe de Deus,
enfraquece, tornando-se inócuo e pernicioso em si mesmo. Por ele, muitos se
arvoram sábios e senhores do saber, assumem uma arrogância e superioridade
diametralmente oposta ao viver cristão, o qual é modelado pela modéstia e
não vanglória. Novamente, é o veneno ministrado como se fosse antídoto.

Alguém pode alegar o exagero da minha afirmação, mas, de que


aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma (Mc 8.36)?

No entanto, como identificar seguramente um falso mestre ou profeta? A


resposta a esta pergunta definirá o quanto estamos ou não preparados para
enfrentá-los, lutando pela fé cristã.

Penso que só há uma maneira de combater o que é falso: apropriar-se do


verdadeiro. Sem ele, não é possível distinguir a fraude, a impostura e o
embuste. Se atentarmos para o fato de muitos cristãos, hoje, negligenciarem
as Escrituras, a proporção do avanço das falsas doutrinas está ligada, em
equivalência, ao desconhecimento bíblico, ao afastamento de Deus e a um
nítido desinteresse em conectar-se à realidade. Rejeita-se a realidade objetiva
em detrimento de uma inversão, uma reconstrução da realidade, existente
apenas e tão somente na mente abandonada ao pecado e distante da santidade.
Ou seja, tal pessoa tem apenas a força subjetiva de construir-se, assim como
um demente intenta lançar pedras, da terra, em direção a um avião a dez mil
metros de altitude, o qual sequer é capaz de avistar. Estes três elementos – o
desconhecimento, o afastamento de Deus e o desinteresse - convergem para a
completa ignorância do homem de si mesmo, de Deus, do presente, das
consequências futuras e daquilo a aguardá-lo na “outra margem do rio”.

Vivendo em uma atmosfera desalinhada com a verdade, ele cria para si


mesmo um edifício imaginário, no qual considera viver, hipnotizado pela
desordem mental originada por uma alma febril, enferma, e por um espírito
excitado pela indiferença e descaso, onde a meta é fazer dos caminhos
esburacados, dos declives e tortuosidades, uma estrada plana e reta.
Empenha-se desesperado, em uma busca psicótica, por uma fé alucinada,
cujo fanatismo apropria-se da máxima incoerência para a prática de
desatinos, fazendo-o perder, cada vez mais, o juízo até perturbar-se
completamente, agarrando-se à tolice como virtude. Tais homens são os
próprios ídolos de si mesmos e, tal qual todas as falsas divindades,
reproduzem em si mesmos aquilo que produziram nelas, uma mentira, um
engodo. Ainda assim, quem a formou confia em sua obra, como se fosse sua,
quando não passa de um sopro delinquente, o ecoar das artimanhas primitivas
a ludibria-lo, dando-lhe algum mérito, ansioso pelo autoengano ou um
empurrãozinho sutil como o sibilar da serpente no Éden...

Adão e Eva consideraram-se especiais e caíram porque, em algum


sentido, se sentiram desligados de Deus, capazes de cuidarem, por si mesmos,
da sua vida e desejo, de forma alheia, independente e autônoma da vontade
do Criador. Tão cheios de si, ignoraram e não atentaram para a marca
distintiva, o anúncio divino e sua realidade implacável. Em um momento
caótico, o resultado apresentou-se lhes um infortúnio, um flagelo, uma
existência cáustica em direção à morte. Mesmo mortos, morreriam
novamente; e foi necessário que o fruto[141] controlasse a sua vontade uma
única vez, não mais do que uma, para terem, a fustigar-lhes o paladar, o sabor
rançoso da recalcitrância e o gosto amargo da desonra.

Mesmo com doutores e discípulos teimando em afirmar o contrário, de


não haver nenhuma soberba em suas divagações, a exemplo do livro “O
Médico e o Monstro”[142], no qual o Dr. Jekyll e Mr. Hyde, criador e criatura,
se misturam de tal maneira que não são mais distinguíveis na mente seduzida
pela falsa ideia de onipotência, a falsa humildade a desencadeá-la é um ato
orgulhoso e de presunção, fruto de homens empenhados doentia e
malignamente pela ânsia de controlar a existência e reconstruí-la..
Novamente, tem-se a inversão da realidade, onde o real e o delírio se
misturam e produzem, no fim das contas, um monstro destruidor e devorador
de almas, a impingir a sua deformidade nos outros, produzindo sofrimento e
injustiça, e um estado de sujeição e fraqueza no qual a perfídia se alimenta, e
o pecado extrai delas os elementos para a sua consumação. Assim, o homem
chega a se tornar monstruoso e o monstro se transfigura em terrível
humanidade, a deformação da verdadeira humanidade[143], sobrando pouco
ou nada relacionado ao bem, proveniente do seu ser original, já que o seu
matiz é subversivo e conflituoso. Há a prevalência do mal, o qual imerge na
alma, desassossegando-a, levando ao tormento os poucos homens capazes de
resisti-lo, e à loucura os que a ele se associam.

Alguns dirão que uma ideia, seja qual for, existe em si mesma
ontologicamente enquanto parte do ser, no que posso concordar, sem,
contudo, ser verossímil. Se ela pertence apenas àquele ser, pouco me
interessa o seu conteúdo e suas consequências. Mas, se é algo a se disseminar
e a construir um padrão aleatório, a indispor-se com a verdade, arrastando-a
para o limbo da irracionalidade, a ideia se autoimplode, tornando-se
autocontestável. Por isso a Bíblia exemplifica, em várias passagens, a
associação dos tolos em proporem e seguirem suas tolices, sintetizadas por
Isaías:

“Porque os guias deste povo são enganadores, e os que por eles são
guiados são destruídos” (9.16).

Deus falou através do verdadeiro profeta acerca da estupidez infligida a


Israel, que parece regra e senso comum na atualidade, uma humanidade mais
e mais entrópica e que cultua a estupidez como (des)ordem:

“O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu


rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei” (Os 4.6).

De novo, essa situação é desgraçadamente real em um mundo que insiste


em ver aquilo que não está diante dos olhos, negando o que lhes aparece, até
ser consumido nas trevas, tateando, fazendo-se crer em uma manhã
ensolarada, incapacitado de reconhecer a destruição que se avizinha e a
escuridão que os cerca:

“Portanto o meu povo será levado cativo, por falta de entendimento; e os


seus nobres terão fome, e a sua multidão se secará de sede” (Is 5.13).

Há um exemplo que tipifica bem o que estou dizendo. Cristo foi


aprisionado e levado para diante de Pilatos. O governador queria entender
porque os judeus desejavam matá-lo. Então, fez-lhe algumas perguntas, às
quais o Senhor respondeu, deixando Pilatos ainda mais intrigado. Em dado
momento, perguntou:

“Logo tu és Rei?”

Ao que o Senhor respondeu:

“Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a
fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a
minha voz”.

Pilatos retrucou:

“Que é a verdade?”.

Então saiu e foi ter com os judeus (Jo 18.37-38).

Interessante o nível de incredulidade de Pilatos, a qual era tamanha a


ponto de não esperar, sequer, uma resposta. Talvez porque não acreditava,
assim como hoje, que exista a verdade; não uma, duas ou três “verdades”
conflitantes e a se anularem, exatamente por serem falsas, como o
pensamento geral na sociedade pós-moderna, que parece levar a uma
realidade fora da realidade, como se a semente do abacate estivesse fora do
fruto, e ao bater-lhe a polpa, fazer um suco, não tivéssemos uma “abacatada”,
mas uma limonada. Assim como o quimérico, o governador não reconheceu a
verdade indubitável, infalível, inquestionável: Cristo é Senhor e Rei!

Ele não esperou a resposta, talvez porque a temesse, também; disse “o


que é a verdade?”, como um arrogante e tolo, com desdém, rejeitando, não
somente a afirmação de Cristo, mas o próprio Cristo. Ali encontramos
evidenciado todo o pensamento antropocêntrico, em que o homem, por ser
incapaz de compreender e entender a realidade objetiva, apenas a despreza
por não ser digno de aceitá-la. Assim, se lança do abismo, à espera de um
chão que não seja duro, inexpugnável, mas que amorteça a sua queda e
acolha-o delicadamente. Esse homem já está morto, mesmo antes de saltar no
vazio, pois sua mente trabalha e trama apenas a morte, mesmo sem sabê-lo,
pensando amar a vida. É questão de tempo até ser tragado por completo pela
mentira, pela ilusão, de maneira a jamais considerar que está a tatear, sem
rumo, perdido nas trevas. Esta é a razão pela qual o Senhor sentenciou:

“Porque vos digo a verdade, não me credes” (Jo 8.45)

Como Pilatos, muitos não querem ouvir. Contentam-se com uma suposta
verdade que se revelará aniquiladora; contentam-se consigo mesmos; com
tudo o que são e imaginam ser, com tudo o que podem fazer ou imaginam
fazer, sem perceberem que estão “não-sendo” e “não-fazendo”, ou se são e o
fazem, é para a perdição. Afinal, sem Deus, há apenas o homem incompleto,
abandonado e autoprivado pela humanidade, entregue ao castigo e ao
sofrimento autoinfligido. Assim são descritos:

“Como o cão torna ao seu vômito, assim o tolo repete a sua estultícia”
(Pv 26.11)

Certa vez, conversando com uma pessoa querida, perguntei-lhe quem era
Jesus. Ao que me respondeu:

- Não sei! Não me importo com Jesus.

- Por que não se importa? - Perguntei.

- Este não é um assunto relevante para mim... Religião não se discute!

- Por que, não? Se política, sexo, esportes, moda e tantas outras coisas são
importantes e discutíveis, algo que se relaciona com a sua alma não é?

- Não penso nisso... Nem quero pensar. São coisas que não me interessam
conhecer! – disse, enfática.

- Bem, se você não quer conhecer é porque prefere o não conhecimento, e


o não conhecido tem como causa duas coisas: a primeira, você teme, tem
medo de conhecer; e a segunda, quer manter-se na ignorância, porque o não
conhecimento implica em ignorar o conhecimento a todo custo, e, em seu
egoísmo, apelar para o autonomismo, não se reconhecer dependente, e
apostar as suas fichas em uma autossuficiência impossível – eu disse.

Em um arroubo histérico, falou com a voz alterada:

- Vamos deixar esta conversa para lá!!

Essa é a atitude de muitas pessoas que dizem não querer se envolver em


religião ou consideram um perigo aproximarem-se de Cristo. Porém, não há
como ficar indiferente a ele, e sua ação na vida do homem é tão profunda,
intensa, transformadora e santificadora, que ninguém permanece imune. Não
apenas os salvos, mas também os perdidos. Os que se recusam a vislumbrá-lo
como o Deus encarnado acham-se na categoria do apedeuta, que quer morrer
abraçado à ignorância.

Cristo é a verdade, opondo-se à mentira. Cristo é real, opondo-se à ilusão


e irrealidade. Cristo é vivo, opondo-se à morte. Cristo é fiel, opondo-se à
traição. Cristo é certo, indubitável, opondo-se ao engano e à dúvida. Cristo é,
sem jamais poder não ser!

Desta forma, o conhecimento da verdade somente é possível através do


estudo, meditação e exame da Palavra. É por meio dela e da ação do Espírito
Santo que estaremos aptos a detectar a imitação, o chamariz. Paulo nos
adverte a manejarmos bem a palavra da verdade, a fim de não nos tornamos
seus inimigos, pervertendo a fé (2Tm 2.15-18). Ele também nos exorta a
estarmos atentos com os falsos profetas, os quais são “obreiros fraudulentos”,
que se travestem em servos de Cristo, passando-se por ministros da justiça,
quando são ministros de Satanás, ele próprio transformando-se em anjo de
luz (2Co 11.13-15), porque a sua maior arma é criar a ilusão, aproximando-a
do homem a fim de dominá-lo, prendendo-o na sedução. Essa é a forma de
engano, na qual homens ímpios fingem ser o que não são, que muitas vezes
ocorre por causa da nossa fraqueza, tanto no conhecimento da verdade,
quanto em aplicá-la convenientemente. Fazemo-nos desobedientes por
desconsiderar o nosso papel, a missão que nos foi dada, juntamente com a
responsabilidade negligenciada. É preciso que, como em Paulo, a verdade de
Cristo esteja em nós, do contrário seremos presas fáceis nas mãos dos
sedutores (2Co 11.10). Logo, somente assim é possível ser capaz de julgar,
não somente todo o tipo de ensino, mas também aqueles que são seus
difusores. Como nos é dito: pelo fruto, conhecemos a árvore (Mt 12.33).

Judas não atenuou nem se utilizou de eufemismo ao descrevê-los, mas


chamou-os de escarnecedores, os quais tinham uma atitude de desprezo, de
pouco caso, de zombaria, para com Deus e a igreja. Não há como nos
enganar: homens assim dizem servir a Deus, mas suas atitudes provam-se
contrárias a ele. É possível detectar o seu espírito desdenhoso em gestos e
falas aparentemente insignificantes. A necessidade é de estarmos atentos e
cautelosos aos menores sinais, pois podem revelar-nos a natureza a mover
esses homens em nosso círculo. E como a verdade não lhes é cara, passam a
tripudiá-la, sempre com o objetivo de inquietar a igreja e “transtornar o
evangelho de Cristo” (Gl 1.7), substituindo-o por um outro evangelho.

O apóstolo diz:

“Ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho
além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim como já vo-lo
dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro
evangelho além do que já recebestes, seja anátema” (Gl 1.8-9)

Muitas vezes isso se dá pelo simples fato de não querermos confrontá-los


com a verdade. Antes, preocupados em agradá-los ou não sermos contrários e
acusados de fundamentalistas, fanáticos, ou outro adjetivo proferido como
ofensa (incriminando sem apontar o crime), incorremos na covardia de
mantê-los em nosso meio, como lobos entre ovelhas, “andando segundo as
suas ímpias concupiscências”.

Por último, o autor afirmou serem eles sensuais, atraentes corruptores,


levando muitos ao erro. Com o seu fascínio, cativam e enganam, utilizando-
se de ideias contaminadas pelo vício, culminando em um estado ética e
moralmente negativo.

O Espírito Santo não está neles, e, persistentemente, insurgem-se contra


ele, trazendo sobre si mesmos a justa condenação. Ainda que sejamos
alertados quanto à presença e atitude deles na igreja, laborando contra ela,
devemos estar prontos para a batalha, permanecendo firmes, sem nos
perturbarmos e nos movermos facilmente do nosso entendimento. Ninguém
pois, e de maneira alguma, nos engane! E, pela graça de Deus, não nos
deixemos enganar (2Ts 2.2-3).
Novos e Velhos Fariseus

Há relatos de muitos tipos de falsos mestres na Escritura, mas gostaria de


ater-me, em especial, a dois deles, sempre presentes na história da Igreja e em
franca expansão, na atualidade. Comecemos pelos novos fariseus, a partir do
relato e exemplo dos velhos israelitas, no Evangelho de Mateus, os quais
foram condenados com veemência pelo Senhor Jesus.

É notório o fato de a Bíblia sempre estar presente nas mãos de judeus.


Porém, ainda que alguns grupos a estudassem diligentemente, não
compreendiam os reais propósitos divinos, escutavam muitas vozes, muitas
sugestões, muitas interpretações, mas a voz do Espírito Santo era-lhes por
silêncio. De forma diabólica, escribas e sacerdotes ouviam apenas a si
mesmos e aos seus pares, corrompendo e acrescentando à palavra de Deus
seus próprios conceitos, insuflando o povo a segui-los como se fosse o
conselho divino.

É como está escrito:

“Na cadeira de Moises estão assentados os escribas e fariseus. Todas as


coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não
procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem.
Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos
homens; eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los” (Mt 23.2-4).

Ao sentarem-se na cadeira de Moisés, os líderes do templo liam as


Escrituras, tanto a Lei como os Profetas, explicavam-nas e ensinavam-nas,
cumprindo o trabalho honrado de preservar e propagar a palavra escrita e
revelada.

Entretanto, a despeito da autoridade investida, visto que também eram


juízes no tribunal, onde a Lei Mosaica era a lei civil e penal, suas atitudes não
eram compatíveis com aquilo que proferiam. Eles eram “atores”
interpretando o papel de alguém que não é, não pode ser, ou não quer ser. O
hipócrita a apontar os erros e delitos alheios e condená-los, quando ele
mesmo os pratica, mas não é condenado por si, encontrando-se no mais
miserável de todos os estados, o de guiar os outros quando se encontra
completamente perdido. Não contente com a própria desgraça, quer difundi-
la, expandi-la, tornando os demais iguais, desgraçados e miseráveis, ainda
que se considere superior em algum grau, como fruto da própria incapacidade
de ver-se e avaliar-se corretamente, supondo ser o que não é. Fazendo
somente o possível pela própria soberba e pela imagem distorcida que tem de
si e dos outros, é incapaz de ver a própria ruína e inutilidade (ao menos no
sentido positivo de testemunhar a verdade). Por isso, Cristo exortou o povo a
ouvi-los, atentando para o dito, mas jamais segui-los[144].

Por diversas vezes, os chamou de hipócritas, insensatos, cegos,


assassinos, raças de víboras. Sempre há aqueles dispostos a suavizarem a fala
de Cristo, vendo nas palavras do Senhor uma admoestação branda, um apelo
amoroso para que os fariseus e escribas se convertessem da sua disposição ao
pecado e oposição a Deus. Entretanto, em Mateus 23, Jesus censura-os, dura
e veemente, através de uma série de “ais”, descrevendo pormenorizadamente
as suas atitudes pecaminosas. Não vejo, na contundência de suas afirmações,
nenhuma demonstração de amor para com o alvo do seu ataque. Antes, em
suas palavras, é visível a sentença condenatória e o alerta para os demais
judeus não repetirem o mesmo erro perpetrado pelos fariseus. Os exemplos
dados pelo Senhor são didáticos, revelando o verniz a cobrir com um brilho
falso uma madeira podre, deteriorada e imprestável. Era, a um só tempo,
admoestação para alguns e condenação para outros. Portanto, tentar extrair da
exortação de Jesus aos fariseus aspectos de amor além da urgente necessidade
de arrependimento, da recusa em continuarem agindo como hipócritas e de
fazerem-se pedra de tropeço para muitos, é açodar a sua advertência, não os
chamando à responsabilidade, denunciando a gravidade dos atos praticados
com obstinação à revelia da Escritura. Os escribas e fariseus apropriavam-se
de uma glória que não tinham e de uma justificação meritória, acumulando
para si mesmos ainda mais juízo e castigo.

A forma como os “ais” são proferidos mostra a nítida ira do Senhor para
com aqueles homens. Não há por que ser diferente, visto a Bíblia revelar a
soberana autoridade de Cristo para salvar e também para condenar. E é esse o
caso. Cristo está julgando os principais. Ele não se refere a eles como amigos,
mas como inimigos. Parece que, de certa forma, para alguns, se ele os está
julgando, está agindo injustamente. Mas, lembremo-nos de três coisas:

1-Cristo é Deus. É segunda pessoa da Trindade Santa; o Filho eterno,


nosso Senhor e Salvador, cuja morte na cruz propiciou a libertação e vida a
muitos; aquele pelo qual todas as coisas foram feitas e por quem o mundo
será julgado. Portanto, se há alguém com autoridade, justiça, santidade e
retidão para julgar qualquer pessoa ou evento no universo, esse alguém é o
Verbo encarnado: Jesus Cristo! Logo, apelar para qualquer amor
inconsequente, em nome da justiça, apenas resultará em injustiça e desamor.

2-A ira divina é santa. Ela é o reflexo da sua justiça. Portanto, dizer que
Cristo, ao mesmo tempo que se ira e condena o ímpio, o faz em amor ao
objeto da sua ira e condenação é, no mínimo, uma contradição. O problema é
que se espalhou pelo mundo a ideia de um Deus que ama a todos, sem
discriminação, quando, na verdade, Deus ama aquele que lhe obedece; aquele
que cumpre os seus mandamentos, que foi regenerado e lavado no sangue do
seu Filho amado; aos que o amam, anseiam e desejam ardentemente lhe
servir e a ele se sujeitar, os eleitos, pelo qual morreu e se entregou para que
fossem salvos. Quem se atreverá a rogar por aquele que Deus condena? Ao
fazê-lo, não estará questionando a sua justiça e santidade? E tentando se fazer
como ele? O “aí” de Cristo é uma assertiva inexorável, da qual não se pode
escapar, provando a inimizade e diametral oposição entre a santidade divina e
o transgressor indisposto a abdicar do seu mimo, o pecado.

3-Deus é justo e não pode ser questionado por ninguém. Foi o que Ele
disse a Jó:

“Porventura também tornarás tu vão o meu juízo, ou tu me condenarás,


para te justificares?” (Jó 40.8).

Isso não quer dizer, no entanto, que Cristo não tenha outro objetivo em
mente. O alvo do seu amor está implícito na maneira de condená-los, e, desta
forma, todos os eleitos lerão e ouvirão as suas palavras como alerta para não
incorrerem no erro, repetindo o exemplo dos fariseus, mas com o fim de
afastarem-se deles, de seus comportamentos insidiosos e da devoção fingida.
Enquanto condena os hipócritas, nas mesmas exortações alerta às suas
ovelhas a indisporem-se com o mal ou qualquer aparência do mal,
empenhando-se em produzir o oposto daqueles feitos realizados pelos líderes
de Israel. Em outras palavras, Cristo revela-nos toda a sordidez e vilania dos
fariseus e escribas, condenando-as, para que nós visualizemos o erro,
saibamos do desagravo de Deus a quem os comete e nos afastemos de suas
práticas. Sobretudo, não nos contentemos em ser servos de aparência, mas em
verdade, não buscando na glorificação mundana aquilo somente encontrado
na obediência a Deus, no serviço a ele, o culto racional, significando que toda
a glória a ele somente é devida.

O alvo da sua ira (e quem pode alegar injustiça divina na ira santa de
Cristo?) é a liderança judaica e seus seguidores; o alvo do seu amor, os
eleitos, podendo ser mesmo alguns desses líderes e seguidores, caso tenham
se arrependido, após ouvirem a voz, a exortação, do Santo.

Hoje, podemos afirmar que as coisas são diferentes? Não há milhares de


estudiosos mundo afora, Bíblias em mãos, examinando-a, assim como os
fariseus e escribas faziam? E, igualmente, não são guiados por suas mentes
pervertidas a rebelarem-se contra aquilo que dizem acreditar?

Vejamos alguns pontos:

1-Os fariseus e escribas tinham o conhecimento das Escrituras e sabiam


da chegada do Messias.

2-Cristo veio ao mundo e os fariseus e escribas odiavam-no exatamente


por ele se opor a tudo o que faziam contrário às Escrituras.

3-Os fariseus e escribas eram “obreiros fraudulentos” (2Co 11.13) e por


isso combatiam declaradamente o Evangelho de Cristo.

4-Eles se diziam servos de Deus, mas na verdade eram idólatras, pois


faziam “todas as obras a fim de serem vistos pelos homens” (v. 5).
Esculpiam ídolos de si mesmos e regozijavam-se em serem adulados pelo
povo.
5-Não eram humildes; usurparam e usavam o título que não lhes pertencia
(Rabi), considerando-se mestres, quando “um só é o vosso Mestre, a saber, o
Cristo, e todos vós sois irmãos” (v. 8).

O quadro dos “principais”, descrito pelo Senhor, em nada lhes é


favorável, ao contrário, é totalmente adverso, desventurado. Até hoje, muitos
discípulos dos fariseus e escribas estão a andar por aí, cheios de vaidade,
exibindo-se como pavões na cópula, a fim de serem vistos e engrandecidos
como se fossem deuses. A ferida na qual Cristo colocou o dedo é a vergonha
exposta por muitos crentes, não apenas pastores, presbíteros e diáconos, mas
muitos de nós estamos inchados por todo o tipo de cobiça, de vanglória, de
louvor, de adoração, ostentando títulos e honrarias usurpadas de Deus. Como
aqueles à época queriam ocupar o lugar que somente o Filho de Deus pode
ocupar, muitos se iludem com as falsas promessas de que podem ser “rabis
modernos”, mestres de uma legião de tolos e incautos, imprudentes que
arrazoam para si mesmos o motivo para a condenação.

Quem lhe deu olhos para ler? A mente para entender? O espírito para
discernir? E a vontade para obedecer? Quem lhe revelou o pecado? E a
salvação? Quem lhe deu a vida? Ou será que foi um deles a entregar-se na
cruz por seus pecados? Ou, onde estava quando Deus fundou a terra (Jó
38.4)?

Se atentarmos, veremos que nada do que temos é fruto do nosso esforço,


ou pode ser determinado por nossa vontade (no sentido do livre-arbítrio, de
uma neutralidade impossível), ou aconteceu por mérito. Provavelmente
haverá, no mundo, pessoas muito melhores do que eu, muito mais
inteligentes, sábias, talentosas e dispostas aos grandes feitos e obras, mas, de
uma forma inexplicável, Deus escolheu-me para si e não a eles. Por isso,
ninguém será justificado por obra de justiça que houver feito (Tt 3.5-6),
“para que nenhuma carne se glorie perante ele” (1Co 1.29), e “aquele que se
gloria glorie-se no Senhor” (1Co 1.31).

Paulo está nos dizendo que tudo é pela graça e misericórdia de Deus;
nada do que somos ou temos é fruto do nosso valor, mas é gerado em nós por
Cristo. Então, por melhor que eu seja, por mais bem situado social e
financeiramente, por mais poder e prestígio que tenha, nada disso foi me
dado por mérito, mas por graça; o que me torna duplamente responsável pela
forma como decido usar o que me foi entregue por Deus e pela maneira justa
ou injusta de reconhecer-lhe ou não o favor. Fazendo-o em sabedoria, guiado
pelo Espírito, serei instrumento de justiça, do contrário, de injustiça. E toda
injustiça será castigada, condenada, parafraseando Nelson Rodrigues[145].

Vem-me, à mente, a advertência:

“Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo o que me diz:


Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de
meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor,
não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos
demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi
abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a
iniquidade” (Mt 7.20-23).

Sem entrar na análise profunda deste trecho, fica evidenciado o fato de


muitos, mesmo sendo usados para a obra de Deus, não serem de Deus, nem
terem parte com ele. Fazem-na, estão nela, cumprem uma obrigação
específica determinada pelos céus, como todos no mundo fazem, crentes ou
não, mas não estão entre os escolhidos, não o conhecem, nem o reverenciam,
muito menos se sujeitam. Desse modo, revela-se, mais uma vez, o poder
divino de fazer o que quer, como bem quer, com quem quiser, sem a
necessidade de explicar-se, de justificar-se, porque ele é o padrão máximo de
soberania, justiça e santidade, para que em tudo o seu nome seja glorificado.
Ninguém pode enganá-lo, ou rir-se dele, antes é ele quem ri do tolo:

Porque “o tolo não tem prazer na sabedoria, mas só em que se manifeste


aquilo que agrada o seu coração” (Pv 18.2).

No fundo, os antigos e os novos fariseus orgulham-se das suas obras,


como uma espécie de manifestação das suas bondades pessoais, como o fruto
da aplicação e esmero de uma vida voltada para o serviço religioso e, com
isso, esperando serem justificados perante Deus, corrompem todo o bom
ensinamento doutrinário que porventura venham a realizar. O fariseu está tão
seguro de si mesmo, tão cheio de si, que mesmo desejando glorificar a
Deus[146], não consegue mais do que glorificar-se a si, em um trabalho de
autoexaltação e autorreconhecimento, revelando todo o caráter vaidoso e
soberbo que possui e o desprezo para com tudo o que não seja ele mesmo (Lc
18.11-12). Ainda que o dissimule diante de terceiros, a fim de parecer
humilde, sempre está buscando, no coração, o louvor e elogio, alimentando-
se do próprio orgulho e soberba.

Ele é um fraudador da fé cristã, um embuste, uma vergonha para a igreja,


pois diz o que está em conformidade com as Escrituras, mas age
diametralmente oposta a elas; está tão orgulhoso de suas obras (apontar os
erros alheios, como se ele mesmo estivesse imune aos próprios erros), além
de ensimesmado com seus dotes e atributos, com o destaque e proeminência
alcançados, que é incapaz de acusar em si mesmo os pecados apontados nos
outros[147]. Em suma, é o desobediente crônico: finge que é, mas não é; faz o
que não deve quando devia fazer o que diz fazer; é odioso ao criticar o
pecado de outrem, talvez por se ver nele e no seu pecado. Ele é um obstinado;
perseverante na teimosia, um verme a consumir a si mesmo.

Paulo descreve-o assim:

“Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas
que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar,
adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? Tu, que te
glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?” (Rm 2.21-23).

Esse é o pior inimigo da verdade, porque ainda que a proclame e muitas


vezes a aceite no nível intelectual (como um escudo invisível à própria
escuridão da alma), é incapaz de praticá-la, prefere viver a mentira deslavada,
e termina por blasfemar, com suas atitudes, o nome de Deus entre os
incrédulos (Rm 2.24).

Como diz o pregador:

“Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade” (Ec 1.2).

Porém, ao que “a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si


mesmo se humilhar será exaltado” (Mt 23.12).

Isso posto, quando tivermos a mente e o sentimento que houve também


em Cristo, o qual se humilhou e esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de
servo, achado na forma de homem, e obediente até a morte na cruz (Fp 2.5-
8), então, seremos como todos os santos, em todas as áreas:

“Irrepreensíveis e sinceros filhos de Deus inculpáveis, no meio de uma


geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no
mundo” (Fp 2.15).

Para isso, é necessário reter a palavra da verdade, algo que o fariseu não
consegue fazer. É-lhe um exercício impossível de per si, uma vez que,
rejeitando a graça divina, nega-se o poder de reter a palavra, cumprindo-a. É
preciso humilhar-se, o que significa considerar os outros superiores a si
mesmo; não atentar para o que é propriamente seu, mas também para o que é
dos outros (Fp 2.3-4). Para que isso aconteça, Cristo deve crescer, formar-se
em nós, enquanto diminuímos e finalmente morremos para nós mesmos (Jo
3.30; Gl 2.20), pois o nosso velho homem foi crucificado com ele para
desfazer o corpo do pecado, a fim de que não sirvamos mais ao pecado (Rm
6.6), e vivamos, enfim, completamente para a glória de Deus.

Cristo nos deu o exemplo: o maior se fez menor, para ser exaltado
soberanamente.
Tempos Difíceis

Na igreja, convivemos com os fariseus, conforme exposto acima, mas,


também, com um outro grupo, daqueles que têm o nítido interesse em
corromper a fé cristã: os apóstatas. Existem muitos trechos na Escritura que
os descrevem, mas, em especial, analisaremos 2Tm 3.1-7.

Paulo inicia falando dos tempos trabalhosos que sobreviriam nos últimos
dias (v.1). Esta é uma nítida evidência de que estamos diante de uma
profecia. Muitos alegarão que ele está a predizer um futuro distante, o que é
verdade. Mas, em especial, ele escreveu a Timóteo, o seu “verdadeiro filho
na fé” (1Tm 2), ou simplesmente “meu amado filho” (2Tm 1.2), com o
objetivo de instruí-lo e exortá-lo a permanecer na “fé não fingida que em ti
há” (2Tm 1.5). Portanto, Timóteo estava sendo alertado quanto aos filhos de
Satanás que se infiltrariam e provavelmente já estavam infiltrados na Igreja, a
fim de perverter o Evangelho, causando estragos à fé. Como dupla profecia,
ela serviu de alerta tanto para Timóteo e os irmãos da Igreja Primitiva, quanto
para todos os crentes em todos os tempos. Logo é um aviso para nós também,
o qual não pode ser negligenciado nem desprezado.

Os tempos difíceis referem-se não ao ataque externo, daqueles que


odeiam a fé cristã e estão dispostos a persegui-la, destruí-la se possível, mas
ao ataque sutil, malévolo, engenhoso, daqueles a se dizerem crentes, os quais,
em princípio, têm um comportamento parecido com o de um crente,
comprometendo-se em algum aspecto com a igreja, até mesmo professando
algumas verdades. Entretanto, em seu íntimo, enche-lhes o peito a mesma
aversão e ódio do que os de fora, chegando a ser, em muitos aspectos e ações,
ainda mais odiosa do que os inimigos declaradamente anticristãos, com o
intuito de, tal qual eles, destruir a fé cristã.

São traidores, ardilosos; lançam discórdias, plantam dúvidas, suspeitam


de quase tudo, espalham uma crença vacilante com o propósito de implantar
na igreja a perplexidade, a ambiguidade, de tornar o mal em bem e vice-
versa. Procuram fazer o Cristianismo parecer menos a revelação divina e
mais um amontoado de pontos indistintos cultivados pelos homens, estando
claramente dispostos a engendrar a confusão, o ceticismo, a rejeição à
Palavra, o ódio à verdade. Ao dar ouvidos a espíritos enganadores e a
doutrina de demônios, têm a consciência cauterizada e se entregam, de corpo
e alma, à proclamação da mentira (1Tm 4.1).

Eles trabalham como se fossem “missionários” satânicos, a espalhar o


antievangelho, convocando nas fileiras de bancos das igrejas uma nova tropa
de incrédulos que se unirão a eles e batalharão pela guerra perdida do seu
general; contudo, sem deixar de fazer sérios e grandes estragos.

É interessante como esse processo se dá:

1-A pessoa ouve a mensagem do Evangelho, é convencida pela verdade e


inicialmente se entrega a ela, parecendo capaz de ver a luz.

2-Ela entende e compreende a mensagem. Do ponto de vista intelectual,


ela é capaz de estabelecer os vários pontos da doutrina cristã de forma
correta, buscando o entendimento necessário para defende-la.

3-Ela professa aceitá-la; dando, em algum ponto, até mesmo o


testemunho da fé. Muitos são batizados, participam da Ceia, evangelizam e
têm cargos de liderança na igreja. Ganham a confiança e o respeito quando,
na verdade, são desrespeitosos e desconfiam de tudo e de todos.

4-Por fim, depois de algum tempo, rejeitam o Evangelho, visto que a


verdade não lhes desceu ao coração, não lhes envolveu a alma, mudando-lhe
a disposição. Antes, voltou-se contra o intelecto, destruiu a razão, minando a
consciência e dando acolhida ao velho homem imorredoiro, à eterna
depravação.

O estado final deles é tal qual Pedro relatou em sua segunda epístola:
prometem liberdade quando são servos da corrupção. Após terem escapado
da depravação do mundo, pelo conhecimento do Senhor Jesus, envolvem-se
novamente nela:
“E vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro.
Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça, do que,
conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado; deste
modo sobreveio-lhes o que por um verdadeiro provérbio se diz: o cão voltou
ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama” (2Pe 2.20-
22)[148].

Eles fingem-se cristãos para solapar o Cristianismo, o que os revela ainda


mais reprováveis, deploráveis, repugnantes, descobrindo-lhes a máscara de
ovelhas e revelando neles a figura do lobo. Afinal, dizem amar o que odeiam
e estão dispostos a tudo para sabotar a verdade, subvertendo-a, utilizando-se
da própria terminologia bíblica para adaptá-la à mentira. Assim, pretendem
inventar outro evangelho, redefinindo as doutrinas cristãs segundo os seus
padrões de malignidade, corroborados pelo silêncio tolerante da igreja em
nome do falso amor, ou de um amor sem apreço e hostil.

No fundo, são o que Judas sintetizou:

“Se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo
juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e
negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (v. 4).

Por que não são notados? E se são, por que a igreja se permite ser
envenenada? Alertada pelos sinais a denunciarem a apostasia, silencia-se,
cúmplice?

1- Porque a maioria não conhece, ou não se interessa em conhecer, o


Evangelho. Como antibereanos deixam-se levar por todo o vento de doutrina,
“pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Ef
4.14).

2- Porque a igreja amou mais dar satisfação ao mundo do que à Palavra e


a si mesma. Este é um ponto crucial em nossos dias, onde a ideia corrente de
que devemos dar satisfação ao mundo em prol da aceitação e de uma
necessidade de autoafirmar-se tem-na levado a conciliar o inconciliável, a
aceitar o inaceitável, a se tornar a antítese da verdadeira igreja, a qual Cristo e
os apóstolos estabeleceram.
3- Porque a igreja não está disposta à autocorreção. Estão tão inchados
em sua vaidade, em sua pretensa sabedoria, que ela os cegou por completo;
ou são tão covardes em reconhecê-la que não se dispõem a disciplina bíblica,
a expulsar o iníquo do seu meio, entregando-o a justiça divina (1Co 5.5).
Pensam que um pouco mais de comiseração, de tolerância, de fraternidade e
afagos, resultará no arrependimento e recrudescimento do apóstata. A igreja
espera que ele volte ao caminho, enquanto o vê cada vez mais trilhar os
atalhos que o levarão ao inferno, não apenas ele, mas outros a acompanhá-lo,
dada a oposição pífia e inexistente na defesa da verdade, do evangelho de
Cristo. Com isso, os rebeldes estarão livres para lançar as sementes da
dissolução, adubá-las, regá-las e colher os frutos para Satanás. Antes, já é
mais do que tempo de o julgamento começar pela casa de Deus (1Pe 4.17).

4- Porque a igreja desistiu de batalhar pela fé uma vez dada aos santos
(Jd 3); e decidiu não resistir mais, ao banquetear-se com o inimigo,
recebendo o galardão da injustiça (2Pe 2.13), e apascentando a si mesma sem
temor (Jd 12).

5- Por fim, o amor esfriou de tal maneira que tanto Deus como o próximo
se tornaram insignificantes diante do desejo humano de autossatisfação e
aceitação, em um mundo constantemente descontente consigo mesmo e
irreconciliável com quem quer que seja.

Via de regra, nos dias atuais, boa parte da igreja tem se bandeado para
uma união perigosa e destruidora com o mundo, sendo que não é ela a
influenciá-lo, mas o contrário. A igreja tem se mundanizado e secularizado de
tal forma que em muitos continentes, em especial o europeu e americano, boa
parte delas fechou as suas portas, pois o nível de atração e sedução
apresentado não alcançou os mesmos patamares oferecidos pelo mundo.
Além disso, convenhamos, em termos de diversão, no sentido mais baixo e
inconsequente possível - em harmonia com a grande maioria das pessoas,
entregues aos anseios do próprio ventre -, a igreja nunca poderá disputar, de
igual para igual, com o mundo. É uma competição desigual, na qual a
“amizade” funciona apenas em prol da destruição eclesiástica e a prevalência
do secularismo.

No fim das contas, os falsos mestres têm um papel fundamental na


irrelevância de boa parte da igreja neste mundo, pois ela abriu mão do que há
de mais precioso: a fidelidade a Deus, o amor à verdade, o exercício da
santidade. Eles se encarregaram de transformar em desnecessário o essencial,
o bom em mal, o certo em errado, o temor e a devoção a Deus em um
compromisso lânguido.

Ao amar mais as trevas do que a luz (Jo 3.19), sua escolha pelo suicídio
institucional e espiritual tornou-se evidente, resultando no sepultamento em
meio às festivas comemorações mundanas por sua supressão. A consequência
foi a transformação da sociedade ocidental, fundada pela tradição judaico-
cristã, em uma sociedade pós-cristã, sedimentada na crença ateísta-
materialista, terreno propício para os inimigos do homem implantarem suas
loucuras de modo a destruí-lo, como uma doença oportunista ataca
mortiferamente um enfermo e debilitado organismo. Se há uma falência
moral, ética e espiritual do homem moderno, essas forças se encarregam de
destruir o pouco que lhe resta: o corpo.

Os inimigos dizem “paz, paz, quando não há paz” (Jr 8.11) e arruínam-
na de dentro e por dentro. Desfraldamos a bandeira branca ao inimigo,
convidamo-lo para celebrar o armistício; chegamos mesmo a deixar que
governe a nossa casa. Entregamos nossas armas, deixamos que desfrute dos
nossos tesouros para, como bem-treinado terrorista e espião, atacar sutilmente
e deteriorar a sã doutrina e a vida cristã, introduzindo fraudulentamente os
desvios, os subornos que induzirão a um motim incontrolável na igreja. Paulo
descreveu-os em minúcias:

“Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela... que


aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade”
(2Tm 3.5,7).

Eles simulam piedade quando, na verdade, a negam completamente na


vida prática, não tendo o menor desejo ou intenção de se afastarem dos seus
pecados. Por mais que seja revelada a verdade, por mais que a vejam, ouçam,
ela lhes será inexpugnável, seus ouvidos continuarão surdos, seus olhos
cegos, suas mentes obliteradas, seus corações duros como pedras.
“Como está escrito: Deus lhes deu espírito de profundo sono, olhos para
não verem, e ouvidos para não ouvirem... a fim de que não vejam com os
olhos, e compreendam no coração, e se convertam, e eu os cure” (Rm 11.8;
Jo 12.40).

Hoje, para escândalo do Evangelho, muitos ditos “irmãos” sequer se


preocupam em manter as aparências. Eles não agem sutil nem
dissimuladamente, mas são explícitos e diretos em sua pecaminosidade, em
seus ataques, blasfemando contra Deus e insultando, ridicularizando, os
insones que os tiveram por irmãos e amigos. Fazem questão de mostrá-la em
alto e bom som para que todos vejam o quanto a sua alma é degradada e
batem no peito, garantindo que não mudarão, que terão de ser “engolidos”
assim como são. Demonstram a indubitável falta de sensibilidade espiritual,
dizendo a que vieram e por que estão ali: a arrogância, o desprezo a Deus e
tudo relacionado a ele. São verdadeiros “caras-de-pau”, mas ao menos
conhecemo-los o suficiente, pois não deixam nenhuma dúvida quanto aos
seus caracteres ímpios:

“Destes afasta-te” (2Tm 3.5).

Mas e quanto aos educados, tolerantes, encantadores, agradáveis, cultos e


revestidos de uma áurea inocente, com suas frases cheias de citações bíblicas,
aparentando serem espirituais? Não são os mais difíceis de serem detectados?
Aparentemente, sim. Contudo, Paulo os descreveu, mais uma vez, com
precisão:

“Estes resistem à verdade, sendo homens corruptos de entendimento e


réprobos quanto à fé” (2Tm 3.8).

Quanto mais nos afastamos da Bíblia, como a revelação divinamente


inspirada de Deus, quanto mais nos envolvemos com os conceitos
anticristãos, quanto mais damos ouvidos às sandices do mundo, tendo a
necessidade de nos justificar perante ele e de mantermos uma “aliança”
perigosamente mortal, mais facilmente seremos enganados. Enquanto
consideramos que o homem do presente século é muito diferente do homem
de dois mil anos atrás; enquanto nos enganamos com as promessas de que os
tempos são outros e de que a verdade pode ser relativizada e contextualizada
a ponto de não se crer na infalível palavra de Deus, tropeçaremos. Enquanto
não resistirmos a todas as tendências imorais, antiéticas e voltadas
unicamente para os deleites do homem, como objetivo premente, à revelia
dos princípios bíblicos; enquanto a fé for subjetiva em detrimento da
objetividade do Evangelho; enquanto estivermos mais preocupados com as
aparências do que com os fundamentos; enquanto estivermos adormecidos, e
os agentes do mal labutando; enquanto... Seremos facilmente enganados a
ponto de não reconhecermos mais a verdade. Então, seduzidos pelo engano,
teremos a mentira por fé.

Portanto, a Escritura é a única capaz de revelar o inimigo, suas táticas e a


maneira segura de pô-lo em retirada.

Somente assim não seremos confundidos:

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para o nosso ensino foi escrito,
para que pela paciência e consolação da Escrituras tenhamos esperança”
(Rm 15.4).

Não se deve desprezar o inimigo, mas deve-se saber que, por Cristo, ele
já foi e está vencido (Cl 2.15).

Os tempos são difíceis, porém, gloriosos.

Os tempos são trabalhosos, então, mãos à obra; porque “grande é, em


verdade, a seara, mas os obreiros são poucos” (Lc 10.2).

Judas alertou não somente o seu povo, mas todo o povo em todos os
tempos, quanto aos detratores da fé, os corrompidos que, travestidos de
ovelhas, são lobos vorazes a dispersar o rebanho. Não há neles nada além de
um discurso confuso, duvidoso e capaz de plantar no seio da igreja apenas a
desordem e o ceticismo. Como já vimos, Satanás, em vez de combater a
igreja de fora, com aqueles que odeiam frontalmente o cristianismo, decidiu
espalhar seus asseclas pela igreja. Vendo que o primeiro método não trazia os
resultados almejados (como um bom pragmático, Satanás acredita piamente
em resultados e metas alcançadas), e baseando-se na experiência do Éden e
pós Éden (a sua veia empirista é definitiva), ele inverteu sua estratégia, a fim
de tirar a força transformadora da igreja, em primeiro lugar, e destruí-la, em
segundo. Como um bom incrédulo, esqueceu-se, contudo, de que Cristo
morreu por sua igreja, e por ela viveria.

Esta é mais uma verdade que difere o cético do crente, o perdido do


salvo, a criatura do filho, o condenado do absolvido, o ímpio do santo.

Satanás, como muitos dos seus seguidores, é incapaz de perceber esta


verdade estrondosamente maravilhosa: a graça, a misericórdia e o favor de
Deus pelo seu povo são eternos, infinitos e imutáveis.

Trabalhemos pois, mais que eles; glorificando a Deus com o zelo do


Corpo, no qual estamos enraizados e do qual jamais seremos extirpados.
PARTE DEZ

NÃO À AUTOFILIA

“Mas vós, amados,

edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé,

orando no Espírito Santo,

Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia


de nosso

Senhor Jesus Cristo para a vida eterna.


E apiedai-vos de alguns, usando de discernimento;

E salvai alguns com temor,

arrebatando-os do fogo, odiando até a túnica manchada da carne.”


Servos Inúteis

Entramos agora, propriamente dito, na parte final da carta de Judas, na qual


a igreja é alertada quanto à edificação, ao construir-se o homem santo e
piedoso, refletindo a imagem de Cristo.

Novamente o autor refere-se aos irmãos como amados, reiterando que o


crente deve crescer fundado na santíssima fé. Primeiro, não podemos
entender a fé aqui especificada como um sentimento ou crença em algo, mas
como a doutrina e os princípios entregues por Cristo e os apóstolos ao seu
povo. É nela, pelo poder do Espírito, que seremos edificados, alcançando
sabedoria e o conhecimento de Deus e da sua vontade. É claro que, de certa
forma, o sentimento de crença, de acreditar na revelação como a voz do
próprio Deus, não pode ser descartado. Porém, a edificação não ocorre,
sequer como possibilidade, se firmada em um sentimento, que pode ser
verdadeiro ou não, mas, sobretudo, ela deve se sustentar em algo sólido e
absoluto, Cristo. Ele é a palavra, e é nela que seremos vivificados (Sl
119.50); nela seremos santificados (Jo 17.17); nela estamos firmados e nela
está a verdade (Sl 119.160). Logo, a fé na qual seremos edificados não é
outro alicerce ou fundamento senão Cristo; ele é chamado de a pedra de
esquina:

“Na qual todo edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no
Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de
Deus no Espírito” (Ef 2.20-22).

Contudo, muitos tentam pôr a sua fé em um Cristo que nada tem a ver
com o verdadeiro, o Cristo bíblico. Apelam para conceitos externos à
Escritura, de foro exclusivamente íntimo, para referências apócrifas, para a
tradição e um sem-número de afirmações completamente adversas ou
estranhas à Revelação Especial. Por isso a fé não pode ser depositada na
pessoa errada; qualquer crença em um Cristo não bíblico é negá-lo, o
verdadeiro, e, por conseguinte, negar a própria fé. É interessante como se vê
pessoas afirmarem ter uma fé em Cristo, mas desconhecerem os seus
ensinamentos ou, em alguns casos, rejeitarem-nos como não sendo dele,
quando o são. A ignorância faz o tolo se orgulhar de seus palpites ou opiniões
infundadas, sem respaldo bíblico, sem aceitação pela igreja, em completa
dissonância com tudo o que é santo e verdadeiro. Em sua soberba e
pretensão, ele despreza todos os sinais a apontarem a sua fé como uma
distorção e uma negação do cristianismo. Apega-se a uma religião incapaz de
levá-lo ao verdadeiro Deus, conservando-o na idolatria, na construção de uma
fé fundada como uma casa na areia, um edifício a ruir diante da primeira
confrontação com a realidade absoluta do Filho de Deus e seu evangelho.

Quase todos enquadram-se no grupo dos crentes místicos ou sincréticos, a


confiarem em si mesmos e em suas projeções (pecaminosas, diga-se de
passagem) como se fossem verdadeiras. Alheio à Revelação é impossível
conhecer a Cristo, o que leva muitos a recriá-lo como uma representação do
que são ou querem ser, numa espécie de colcha de retalhos teológica onde os
absurdos, esquisitices e anomalias são consideradas a mais pura essência da
fé cristã. No entanto, pergunto: como podem reconhecer o verdadeiro se o
desconhecem por completo? Ah, rejeitá-lo de pronto e negá-lo demonstra a
evidente oposição e rebelião do homem natural ao divino, refletindo um
coração de pedra tão corrompido que a menor menção à verdade o torna
ainda mais obstinado e disposto a combatê-la, mesmo sendo preciso agarrar-
se aos mais disparatados métodos e subterfúgios a fim de validar o seu
pensamento pagão e bárbaro.

Na verdade, não amam ao Senhor; antes amam a si mesmos e querem que


ele seja uma figura ou expressão limitada daquilo que são e não conseguem
deixar de ser. Negam o Verbo a partir da afirmação do eu, o eu caído e
desprovido de santidade, amante da perversão, e cultuam um impostor,
assumindo-o por “Deus”.

Qualquer ideia do crente edificando-se a si mesmo, em si, é inviável e


uma utopia demolidora daquilo que ele mais necessita: a reconciliação com
Deus. Nenhuma construção pode manter-se inabalável se não estiver firmada
na Rocha, se não tiver um alicerce firme. Essa é a fé uma vez dada aos santos
(v.3), que o autor reproduz, mais uma vez, como sendo a nossa santíssima fé.
Tal fé, inclusive, somos exortados a não esquecer, aplicando-a diuturnamente
como antídoto a todo o vento de falsas doutrinas e falsos mestres, a toda
ilusão formulada com vias de negar a realidade.

Sem a luz, está-se na escuridão; sem a verdade, assalta-o a mentira; sem a


revelação especial é-se mais ignorante acerca de Deus do que uma pedra; sem
a limpidez do Evangelho tem-se apenas confusão e ignora-se ou rejeita-se a
quem se diz conhecer. Como o Senhor alertou:

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me


ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me
manifestarei a ele... Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora,
a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” (Jo
14.21;24).

É estranho como alguns dizem conhecê-lo e mesmo serem íntimos,


quando não têm a menor noção dos seus ensinamentos; quando muitos têm
uma visão distorcida deles. Guardadas as devidas proporções, seria o mesmo
que um homem dizer amar a sua esposa sem que tenha uma e seja casado.
Incoerências assim fazem-me acreditar em um tipo de discurso ou conceito
baseado na autoridade humana, acima e alheia à autoridade divina. Se a
Escritura é a palavra autorizativa de Deus e é ela quem o revela, assim como
ao seu ensino, é possível ter um relacionamento ou comunhão simplesmente
por reputar ou considerar tê-los?

Apenas seria viável se a autoridade não estivesse em Deus e sua palavra,


mas naquele que diz ser factível o relacionamento sem a necessidade do
conhecimento. Em outras palavras, posso relacionar-me com alguém sem
jamais tê-lo visto ou ouvido, sem sequer ter lido algo escrito por ele,
unicamente porque investi-me do direito de, primordialmente, ser aceito sem
cumprir nenhuma exigência. Na verdade, estabeleci os princípios dessa
relação: de que ele está obrigado ao relacionamento mesmo que eu não tenha
qualquer interesse em conhecê-lo e, por tabela, me relacionar. Todo o ônus
cabe a ele, Deus, e apenas sou o beneficiário porque assim o quis e porque
investi a mim mesmo da autoridade que o subjuga e a quem imponho o meu
julgamento. Nestes moldes, faço-me juiz, e a Deus réu, ainda que tudo isso
seja permeado por uma falsa piedade e sujeição, que em momento algum se
revela factual.

Voltando ao exemplo anterior, apenas por contemplar-se casado, sem ter


uma esposa, muito menos um casamento, o homem deve ser reputado ou
considerado como tal? Da mesma maneira, alguém que diz ter um
relacionamento com Cristo, mas desconhece ou rejeita a sua palavra, não
passa de um embusteiro e mentiroso ao afirmar familiaridade com alguém
completamente estranho.

O modelo acima simplifica o próprio desconhecimento de Deus e a


negação de haver alguma edificação, pois ela é posta unicamente no homem.
Sua insuficiência de sequer colocar um mísero tijolo no edifício da fé aponta
para algo costumeiramente chamado de perseverança dos santos ou, como
prefiro definir, preservação dos santos. Na verdade, somos nós que
perseveramos ou é Deus a nos preservar na fé?

Há um consenso, entre os cristãos, durante os séculos, de que Deus nos


preserva na fé, ainda que se utilize, muitas vezes, o termo perseverança.
Contudo, tal ensino não se desenvolve na mente da maioria dos cristãos
atuais, tal qual a Bíblia nos ensina; por isto, farei um apanhado rápido desta
doutrina.

Como já foi dito neste estudo, a fé é um dom de Deus ao pecador, de


forma que ele seja capacitado a crer em Cristo como Senhor e Salvador. É o
que Paulo diz:

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é
dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; porque somos
feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus
preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.8-10).

A fé nos é dada por Deus, de modo que não há obras meritórias possíveis
de levar-nos à fé, para que nenhum de nós glorie-se de si mesmo. Então o
apóstolo diz algo ainda mais claro, que somos feitura de Deus, ou seja, feitos
por ele, não no sentido de criaturas meramente, assim como as pedras,
plantas, animais e a humanidade de maneira geral, mas feitos filhos, co-
herdeiros de Cristo e santos à sua imagem e semelhança. Somente este trecho
já seria suficiente para desmoronar toda e qualquer possibilidade de
autoexaltação do homem, já que não fizemos nada para merecer o favor de
Deus, mas, pelo contrário, o que somos, foi pelo poder daquele que nos fez
como tal. Complementando, Paulo afirma que fomos criados em Cristo, ou
seja, o novo homem somente pode nascer em Cristo e jamais fora dele. Não
há chance de eu, por mim mesmo, pelo meu esforço, crer para somente então
ser transformado. Não há como definir com exatidão como e quando se dá a
criação do novo homem, o homem regenerado, porém, evidencia-se a
impossibilidade de qualquer fé ou crença em Cristo surgir fora ou antes de
sermos criados nele. A fé pode ser simultânea, no que acredito, ou vir
imediatamente após essa criação, a do novo nascimento, mas jamais antes:

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo


justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo
Jesus” (Rm 3.23-24).

O homem natural não tem meios, por si mesmo, de buscar e ter fé em


Cristo, pois está impedido pela sua natureza pecaminosa, que é todo o
homem, afetando de várias formas o corpo, a alma/espirito, e controlando os
vários aspectos do seu ser, ainda que os resquícios do Imago Dei[149] aflorem
vez ou outra[150]. E mais, Deus não somente se encarregou de nos reconciliar
consigo, fato propiciado pela morte de Cristo, o qual nos justificou e chamou-
nos à fé, mas também preparou as boas obras para as quais fomos criados,
para que andássemos nelas e por elas refletíssemos a sua glória e senhorio.
Não temos aqui uma opção de andar ou não, como uma escolha que podemos
rejeitar ou aceitar: temos a certeza de que fomos criados para andar nelas, e
ponto final! Isso reforça todo o trabalho de Deus em prol de nos preservar e
manter firmes na fé, de maneira que não possamos cair ou desviar-nos dela,
já que esse poder reside naquele que conheceu, predestinou, chamou,
justificou e santificou-nos eternamente.

Interessante como o mundo atual, e boa parte da igreja, entende


diferentemente o ensino irrevogável da fé cristã de que Deus, em sua
misericórdia e piedade, dispôs, segundo o seu arbítrio ou vontade (e somente
dele, de mais ninguém), todas as coisas em favor daqueles que amou sempre,
levando-os para diante do seu trono de glória, como filhos queridos. É ele,
em todo o tempo, quem nos mantém firmados, perseverantes na fé, sem a
menor chance de virmos a demover-nos e cairmos novamente na
incredulidade (Rm 8.27-30). Sendo assim, nada, absolutamente nada, poderá
nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor (Rm
8.39), nem mesmo a incredulidade com a qual nasci, nem mesmo o pecado
com o qual fui gerado, ou o eu a gritar por soberania, em desespero e frenesi.

Neste ponto, farei um aparte. O conceito do “salvo uma vez, salvo para
sempre”, tem a ideia falsa e distorcida e capciosa, aventada por muitos, de
que isso acontece porque o homem “autorizou” Deus a preservá-lo da
condenação. Ora, essa visão é abominável! O homem, do qual o salmista diz
não proceder bem algum e em quem reside apenas a imundície (Sl 53.1-3),
não seria capaz de desejar e almejar algo tão santo quanto a preservação do
pecado e da condenação, como a busca pela santidade, como a obediência e o
serviço a Deus, desejando ansiosamente a sua vontade estar conformada à
vontade do seu Senhor. Não, não é possível ao homem, que em sua natureza
está em oposição a tudo quanto é santo e bom, reivindicar algo que somente
vem para si, e posteriormente emana de si, a partir do Eterno e Santo. Ou
seja, todo o bem produzido pelo homem tem origem no próprio Bem, Deus.

Apenas os tolos acreditarão no som da própria voz a dizer-lhe: “foi por


seu mérito, de mais ninguém!”. Por esse orgulho, foi que caíram Satanás,
seus anjos, Adão e Eva, todos nós. A preservação é algo que foge ao nosso
alcance e poder, pois, em nós mesmos, qual abrigo teríamos? Abrigar-nos no
mal? Apenas aquele que tem o lugar seguro, que é Rocha e Castelo Forte,
pode resguardar-nos e proteger-nos de nós mesmos, levando-nos, cada vez
mais a sermos semelhantes ao seu Filho Amado. É nele que buscamos
refúgio, fugindo de tudo aquilo que pode nos levar de volta ao próprio
vômito. E lembre-se: tudo isso somente é possível porque Cristo, o Verbo,
encarnou-se, fez-se homem e morreu na cruz em nosso lugar, transformando
o impossível em possível, para levar-nos à estatura do homem perfeito que
ele é.

Agora, vem a seguinte dificuldade: por que então Judas alertou a igreja
quanto à possibilidade de apostasia, proposta pelos falsos mestres, se somos
preservados por Deus? Por que a Bíblia insiste em alertar-nos de algo no qual
jamais cairemos?

Primeiro, devemos ter em mente que Deus usa a instrumentalização


humana e que não somos imediatamente alçados ao estágio de santos
enquanto vivemos em nosso corpo mortal. A santificação é um processo com
vistas a um objetivo final, tornar-nos semelhantes a Cristo, santos como ele é.
Como essa obra é divina, realizada em nós por ele, acontecerá infalivelmente.
É a afirmação de Paulo:

“Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa
obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Fp 1.6).

É Deus quem iniciou a boa obra, não nós; é ele quem a aperfeiçoará, não
nós, até o dia glorioso de Cristo. Deus age no homem, pelo poder do Espírito
Santo, nos capacitando, instruindo, disciplinando a fim de, numa linha
crescente e contínua, sermos aperfeiçoados à estatura do Senhor. Com isto
não estou a dizer que não haverá percalços, tropeços e quedas, pois eles
acontecerão. Entretanto, a obra de santificação realizada por Deus é um
aprendizado, no qual os erros significarão lições a fim de sermos
pedagogicamente orientados a evitá-los. Sim, pode parecer loucura, mas até
mesmo os pecados cometidos após a conversão são utilizados por Deus para
o nosso aperfeiçoamento; seja na lição de humildade em que reconhecemos
as fraquezas e insuficiências que nos levariam à exaltação; seja no ódio ao
pecado; seja na dependência e entrega total dos nossos desígnios àquele
unicamente sábio, perfeito e santo para nos guiar em meio aos tortuosos
caminhos da vida, nos conduzindo certeira e firmemente até o dia em que
alcançaremos a estatura de Cristo.

Segundo, a obra divina, em franca progressão no tempo e neste mundo,


foi consumada eternamente; para Deus, todas as coisas e momentos são o
sempre. Devemos lembrar-nos de que a mente dele é eterna, assim como os
seus pensamentos, planos ou desígnios. Ele planejou tudo de tal maneira que
o resultado final está diante dele, infalivelmente concluído, sem variações ou
percalços. Para ele, o que para nós ainda está em processo, encontra-se
definitivamente acabado, não porque existe essa possibilidade entre várias
possibilidades, mas por ser ele o Senhor de tudo e de todos, como soberano,
absoluto, supremo e dominador, não havendo sombras de variação em seu
ser. O plano divino é inevitável, realizando-se em seus mínimos detalhes,
numa sequência perfeita e harmônica. Ainda que aparentemente haja caos e
imperfeição, não passam de impressões formuladas por mentes limitadas e
defeituosas como a humana, cujo conhecimento é aparente e fracionado,
incapaz de conhecer o todo e seus inúmeros detalhes. Se para ele tudo está
diante dos seus olhos, nos é dado conhecer a realidade em progressão, numa
sucessão de fatos cujo resultado sabemos qual será pela fé, por aquilo que o
Senhor revelou. No entanto, em seu decurso, as várias linhas que o ligam são-
nos desconhecidas, o que se torna ainda mais complexo por não termos
acesso ao futuro e suas variáveis.

Se hipoteticamente tivéssemos o conhecimento absoluto e perfeito de


Deus, saberíamos exatamente o que ele sabe e veríamos exatamente o que ele
vê. Como isso não acontece, nossa compreensão está restrita ao que já
aconteceu ou está acontecendo, e, mesmo assim, não há qualquer garantia de
virmos a compreendê-lo com perfeição (os efeitos noéticos do pecado). A
resposta para se alcançar o objetivo final, do ponto de vista humano,
restringe-se a uma prática: obediência.

Como um pedagogo, Deus nos instrui mediante a sua palavra como agir
diante de um mundo perdido e caído da sua graça, em declaração explícita de
inimizade. É ele quem nos capacita às boas obras? Sim. É ele quem realiza as
boas obras? Sim, e não. Elas foram preparadas para nós por ele, mas nós é
que andamos nelas; pelo seu poder, mas também pelo nosso querer. Se antes
a vontade do homem era conduzida pelo pecado, agora ela é conduzida pelo
Espírito. Ele nos guia e impulsiona a querer sempre agradá-lo, ainda que, vez
ou outra, isso não aconteça, pois ainda estamos, de certa maneira, sob a
influência do pecado, não como o dominador absoluto, mas como aquele
derrotado que insiste em uma última investida e pode levar à baixa de um ou
outro soldado inimigo. O pecado vencerá algumas batalhas em nossa vida,
mas a guerra foi definitivamente vencida por Cristo. É isso que precisamos
entender. A vitória é dele, e somos o seu troféu, mas a impressão que temos é
de ainda não sermos completamente dele, quando, na verdade, sempre fomos.

Portanto, o Senhor usará os meios necessários para que sejamos


definitivamente feitos à imagem de Cristo. Como disse, o ensino, a disciplina,
o sofrimento, a sujeição, a obediência e, até mesmo a rebeldia, serão usados
para nos aperfeiçoar e não somente isso, mas nos preservarão da sanha
terrível do diabo, anteriormente disposta em nós mesmos, de nos
reconquistar.

Judas, então, não poderia utilizar outra maneira de proteger-nos das


investidas do maligno do que nos ensinar através da exortação, do alerta, dos
exemplos históricos que culminaram na derrota de muitos e em sua perdição
derradeira. Logo a sensação que temos é de, ao obedecermos, cumprir a
vontade divina, de modo que Deus está realizando a sua vontade em nossa
obediência.

Por isso, oramos no Espírito, não como uma forma de convencer a Deus
da nossa vontade, mas como a sua vontade cumprindo-se em nós. Paulo diz
que o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis, ajudando-nos
em nossa fraqueza:

“Porque não sabemos o que havemos de pedir como convém” (Rm 8.26).

Se nem ao menos sabemos o que pedir como convém, o que dizer de


fazermos o que convém para, por nós mesmos, mantermos a fé e a salvação?
Se me perco com as palavras, o que dizer dos atos que culminarão na
santificação e na transformação à semelhança de Cristo? É algo em que
devemos meditar a fim de não sermos injustos e considerarmo-nos autores ou
mesmo coautores da salvação. Afinal, o vento assopra onde quer, e não temos
nenhum controle sobre ele, pois é o Espírito a guiar-se (Jo 3.8), e não nós a
guiá-lo ou conduzi-lo.

Terceiro, Deus nos quer aqui, como servos a realizar a sua obra, com
todas as dificuldades e os percalços inerentes a ela, em um mundo
contradizente. Como testemunhas de Cristo, falamos a um mundo perdido
coisas incompreensíveis, não por sabedoria ou sinais, mas pelo poder do
Evangelho, que é sabedoria e presença divinas. Alegar que não há sentido em
fazer aquilo que se deve fazer, ou supor que isso em nada nos aperfeiçoaria,
visto a impossibilidade de se perder a salvação, é uma forma desesperada de
encontrar algum mérito onde não há. Ao chamar-nos de servos inúteis, o
Senhor disse que “fizemos somente o que devíamos fazer” (Lc 17.10), nem
mais, nem menos, apenas o necessário. Logo, não há glória e merecimento
em fazer o que é ordenado. Tratando-nos como o que éramos, seres caídos e
enfermos, o Senhor mantém-nos de pé e saudáveis, ensinando-nos, muitas
vezes, a nos levantar e a evitar certos perigos.

Concluindo, a Bíblia nos alerta e exorta a cuidarmos e agirmos de


determinada maneira (é o chamado à responsabilidade individual e cristã),
pois assim foi agradável a Deus nos aperfeiçoar e usar na execução do seu
plano eterno. Não há outra forma, portanto qualquer conjectura contra a
validade do seu propósito significará em atitude de rebeldia ou, no mínimo,
de incompreensão daquilo que o Senhor nos revelou integralmente. Na
próxima seção, voltaremos ao assunto e o abordaremos mais detalhadamente.
A Obra de Deus na Santificação

“Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus”...

Onde está o amor de Deus? Onde ele se manifesta?

“Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós,
sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8);

E, ainda:

“Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu
Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos” (1Jo 4.9).

Ora, o amor de Deus está manifesto em Cristo, e é nele que devemos


conservar-nos; no amor que nos une e pelo qual ele veio ao mundo nos
resgatar. O amor que nos faz obedientes; o amor que nos constrange, de
modo que deveríamos nos entregar a ele subservientes, em profundo
agradecimento pelo muito amor que nos tem dado e que não merecemos, nem
fazemos jus. Devemos ouvir a sua voz com atenção e desejar servir-lhe com
fidelidade; mas ainda que nada disso seja possível ou se realize em seus
mínimos detalhes, estaremos guardados e protegidos no seu amor, o mesmo
que o fez pedir ao pai:

“Aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam
comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste
antes da fundação do mundo” (Jo 17.24).

Cristo nos amou eternamente e é pelo seu amor que seremos preservados,
pois o amor do Pai pelo Filho é o mesmo que está em nós, levando o Senhor
a guardar-nos, recebidos nele e através dele pelas mãos do Pai, sem que
nenhum de nós possa se perder ou perecer (Jo 17.12; 26) ou achar-se como
um convidado que perdeu o convite e foi barrado na festa. Sim, usando esta
analogia, a Bíblia nos revela estar o convite nas mãos de Cristo, o qual nos
faz entrar nos lugares celestiais e ali nos assentar e nos fartar com as infinitas
bênçãos concedidas por Deus.

Na expectativa de estarmos preservados em seu amor, aguardamos


esperançosos o dia glorioso do Senhor, aquele dia em que, para sempre,
estaremos ao seu lado, uma vez que, vendo a nossa desgraça e miséria,
socorreu-nos, livrando-nos da condenação eterna. Porém, mais do que isto,
deu-nos o privilégio da comunhão triunitária, de sermos feitos filhos adotivos
do Pai por seu intermédio e co-herdeiros no seu reino celestial. Por isso, o
apóstolo assevera que conhecer o amor de Cristo, o qual excede todo o
entendimento, deixa-nos cheios de toda a plenitude de Deus (Ef. 3.19). Por
fim, esse amor culmina na vida eterna, a qual somente é possível pela
redenção que o Senhor proporcionou, como uma dádiva, a vida gratuitamente
imputada quando nos restava apenas a morte definitiva e nenhuma chance de
escapar através do triunfo pessoal. A misericórdia e a graça estiveram sempre
guardadas em seu amor; por isso Paulo diz que o amor nunca falha e que ele
é maior do que a fé e a esperança. É nele, pois, que somos preservados:

“Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória


do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” (Tt 2.13).

Se somos conservados no amor de Deus e o seu amor é eterno, significa


que também o estado de conservação o é. Mas, conservados como e em quê?

Ora, o amor divino é santo, impossível de coabitar ou relacionar-se com o


pecado e a impureza, logo somos guardados, mantidos, no seu amor em
santidade. O apóstolo afirma, de maneira categórica, sem qualquer margem
de dúvida:

“Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o


Senhor” (Hb 12.14).

Primeiro, vamos definir a palavra santo, que quer dizer separado. Como
Deus é santo, ele é separado de toda a sua criação. Existe a ideia errônea e
antibíblica de que a criação é a extensão de Deus, como se tudo o que veio a
existir pelo poder da sua palavra fizesse parte dele. Esta visão é pagã,
comumente chamada de panteísmo (grego: pan, “tudo”, + theós, “deus”), a
qual define ser Deus o todo e o todo Deus; uma espécie de universalidade dos
seres formando a divindade, onde o conjunto de todas as criaturas, materiais e
espirituais, a sua totalidade, compõem a unidade de Deus. O problema dessa
doutrina é que a criação e o Criador se confundem e se fundem, assim como
o infinito e o finito, o material e o espiritual, o que leva ao conceito de tanto
um como outro serem autocriados ou poderem ser criados por outra força.
Mas toda essa confusão é fruto de mais uma artimanha do maligno, sempre
promovendo a mentira, o qual:

“Não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele


profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da
mentira” (Jo 8.44).

A Bíblia nos revela o contrário: toda a criação, seja para o bem ou mal,
material e espiritual, está separada de Deus, não é uma “extensão” dele, nem
subsiste e vive nele, mas é sustentada e sobrevive por ele; bem diferente do
sistema proclamado pelos pagãos, anacrônico à Bíblia. Com isso, nega-se que
a criação existe, vive e se mantém pelo poder de Deus, segundo a sua
vontade, e nada além disso.

De certa forma, o entendimento errado dos atributos divinos leva até


mesmo alguns cristãos a cogitarem, inadvertidamente, uma espécie de
“panteísmo”. A confusão está na incompreensão da doutrina da onipresença
e onisciência, que diz não haver lugar no universo onde Deus não esteja. Isso
não significa que encontre-se a ocupar todo o espaço, visto estar fora
dele[151]; antes, tudo o que acontece, seja onde for, encontra-se diante de
Deus e é promovido por ele, considerando que também tem o conhecimento
perfeito de tudo, em seus mínimos detalhes, e nada pode escapar à sua
infinita presença.

Como o salmista diz:

“Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se
subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás
também” (Sl 139.7-8).
O que a Escritura diz, com clareza, é o fato de Deus estar em todos os
lugares; não há recôndito inalcançável para ele, o que, no entanto, é
diametralmente oposto à ideia de ele ser tudo, e tudo ser ele:

“Porventura sou eu Deus de perto, diz o Senhor, e não também Deus de


longe? Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja?
diz o Senhor. Porventura não encho eu os céus e a terra? diz o Senhor” (Jr
23.23-24).

Como criador de todas as coisas, ele conhece todo o processo


exaustivamente, desde o nascimento até a morte, da existência à destruição,
sendo que nada acontece sem que seja da sua vontade ou esteja alheio a ela:

“Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a


sua mão está estendida; quem pois a fará voltar atrás?” (Is 14.27).

O esclarecimento é necessário para não se ter dúvidas de que Deus está


separado da sua criação, de que está à parte dela. Trata-se de realidades
distintas, ainda que a criação seja completamente dependente de Deus e da
sua vontade, sem o qual jamais existiria ou sobreviveria.

Então Deus está separado de toda a criação, ainda que ela seja
consequência do seu atributo de onipotência. Porém, como Deus é perfeito,
puro e justo, é distinto da criação, que não possui a perfeição, a pureza e a
justiça divinas, sendo imperfeita, impura e injusta, se olharmos para tudo o
que existe depois da Queda.

As obras de Deus não são Deus, ainda que existam por e para Deus.
Logo, são pertencentes e sujeitas a ele (tanto para nascer, como viver e
morrer), sem que possam “contaminá-lo”, antes é o Senhor quem as santifica
ou não, segundo a sua soberana vontade.

Por isso a Bíblia afirma que todos pecaram e destituídos estão da glória
de Deus (Rm 3.23). Há uma separação natural entre o Criador e as criaturas
em virtude de suas naturezas distintas, agravada pelo pecado, distanciando as
criaturas ainda mais do Senhor. Por isso, do ponto de vista temporal, Deus se
aproximará daquelas salvas eternamente por Cristo e jamais se achegará
àquelas eternamente destinadas à perdição.
Do ponto de vista atemporal, Deus sempre estará próximo do eleito,
mesmo que, no tempo, ele ainda não seja convertido, pois a salvação
aconteceu no tempo, mas foi decretada na eternidade. Graças a ele, Cristo, o
Cordeiro sem pecado, o qual morreu na cruz e ressuscitou para levantar um
povo para si, diante de Deus, manter-nos-á mais alvos e mais brancos do que
a neve (Sl 51.7), sem nenhuma mácula, santos como santo é o nosso Deus:

“Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo” (1Pe 1.16).

No tempo, a santidade se inicia na regeneração que o Espírito Santo opera


em nós, como a boa obra de Deus iniciada e que atingirá o ápice na
eternidade (Fp 1.6), quando o nosso corpo corruptível se transformar em
incorruptível, e formos semelhantes a Cristo nosso Senhor (1Co 15.52-53);
quando não haverá mais morte, nem pecado. Ele operará a santidade através
da incorruptível “palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” (1Pe
1.23). Portanto, ser santo é algo inalcançável para o homem: somente o
Senhor é quem pode torná-lo e fazê-lo separado do mundo e ligado a ele.
Tirando-o do meio da sua criação, de entre as criaturas corruptíveis, torna-o
filho adotivo em Cristo, e assim será mantido pelo seu poder e graça,
preservado até o dia glorioso do Senhor.

Eternamente, já somos salvos antes da fundação do mundo, muito antes


do nascimento e queda do primeiro homem, pois o decreto divino estabeleceu
aos eleitos, em número certo e definido, serem tantos quanto Deus escolheu,
conheceu e predestinou para viverem conforme a imagem de Cristo (Rm
8.29). Desta forma, todos os eleitos, mesmo os que ainda não foram
regenerados no tempo, já são salvos e santos. Pode parecer estranho que um
homem em pecado, irregenerado, tenha comunhão com Deus. A Bíblia diz
que o Senhor abomina o pecado. Porém, como o Espírito Santo faria uma
obra de regeneração em um pecador? Haveria como Deus ter comunhão com
o ímpio? Segundo as Escrituras, não! A pergunta é: em que ponto o homem
deixa de ser ímpio? Como é possível ao homem sair da esfera pecaminosa
para a santa? Teríamos de concordar com sinergistas[152] de que somente
após escolher a Deus o homem poderá ter comunhão com ele. Ou seja, a
decisão humana o santifica ao ponto de ser capaz de reconhecer em Cristo o
seu salvador e, então, somente então, ter o privilégio de comunhão com Deus.
O que remeteria os méritos da regeneração ao homem, não a Deus. Mas há
uma profusão de textos bíblicos que desmentem essa hipótese. Paulo diz:

“Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; não há


ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram
inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” (Rm 3.10-12).

O dilema persiste: o homem não pode se tornar santo nem Deus ter
comunhão com o pecador. Logo Deus, que está fora do tempo, já nos tem
como santos, porque fomos santificados eternamente. Ao promulgar o
decreto eterno, sendo o Senhor imutável e garantindo que toda a sua vontade
se realizará infalivelmente, “pois nenhum dos teus propósitos pode ser
impedido” (Jó 42), mesmo sem ainda existir, o eleito já está salvo, já é santo.
A vontade e decisão em eleger um povo para si não aconteceu no tempo, nem
se deu necessariamente nele e por ele, mas muito antes de Deus o criar.
Também escolheu a forma de como o processo ocorreria, e, por nossas
limitações, tomássemos consciência da pecaminosidade natural, do estado
degradante, da morte iminente e incontestável caso ele não tivesse nos
escolhido. Pois a santidade divina é que nos impede de permanecer no
pecado, transformando pecadores em santos, aos nossos olhos, porém aos
seus olhos já fomos santificados pelo sacrifício de Cristo, muito antes de o
Senhor morrer na cruz.

A questão é de perspectiva: quando olhamos para nós mesmos, não temos


a visão do resultado (mesmo a Bíblia revelando o fim de todo eleito: a
eternidade diante de, e com Deus). O fato de estarmos no tempo revelará um
encadeamento de situações, as quais serão reveladas progressivamente,
indicando o estado de regeneração ou de corrupção. Mesmo assim, para
muitos, será impossível conhecer o real estágio em que se encontram e o fim
a aguardá-los; apenas no dia do Juízo tomarão conhecimento da condição
inevitável de morte. Morte esta anunciada, porém teimaram em não a
perceber, posto serem defuntos e terem apenas a escuridão diante dos olhos.
Assim, os não convertidos permanecem no mesmo estado em que adentrarão
no Tribunal de Cristo: mortos para Deus!

Em contrapartida, para o Senhor, não somente os fatos, mas todo o fim já


é do seu conhecimento; não um conhecimento prévio, como uma antevisão,
mas o conhecimento determinado, ordenado, por sua vontade e soberania.
Como tudo ocorrerá segundo o seu desejo, seguindo rigorosamente o decreto
eterno em que todos os detalhes, desde os mais insignificantes e desprezíveis,
já estão determinados, Deus conhece os seus escolhidos, e já os tem por certo
como seus. Ou seja, para nós, é um processo; para Deus, já está tudo
consumado. Não é o que o Senhor diz, de forma categórica e efetiva?

“Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira


nenhuma o lançarei fora... E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que
nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no
último dia” (Jo 6.37,39).

Certo é que somos nós a alcançar a santidade, não é Deus quem a alcança
por nós; já que ele é e sempre foi santo e não precisa alcançar nada. Ele é e
sempre foi o perfeito Senhor do universo. Deus nos capacita, nos habilita e
transforma para sermos santos, constituindo-nos parte do corpo do seu Filho
Amado, o qual é a cabeça. Assim, seremos um com todos os escolhidos, os
quais são justificados exclusivamente por Deus. A obra é dele, mas nós é que
somos feitos santos e mantidos santificados, portanto devemos sempre buscá-
la, clamar ao Senhor que nos transforme a cada dia, para que a boa obra seja
concluída.

Ao fim, como o próprio Senhor disse, seremos um com ele, assim como o
Pai é um com o Filho (Jo 17.21). Seremos separados para ele, por intermédio
dele, para a sua glória; definitivamente afastados do pecado, da morte, da
corrupção e do mal. Não se trata de panteísmo, mas do cristianismo bíblico,
porque as criaturas destinadas à perdição estarão irremediavelmente
separadas de Deus, na eternidade, ao contrário de nós.

Desta forma, não é porque o homem aceitou a Deus, em um momento


temporal, que a partir disso, e somente então, existe a comunhão entre eles. A
comunhão dos santos com Deus é eterna. Mesmo não a reconhecendo ainda,
mesmo que a minha vida demonstre o contrário, o Senhor está trabalhando
em cada um de nós, utilizando-se de toda a instrumentalização da criação
para, assim como o vento vai aonde quer, o Espírito nos alcance
definitivamente na transformação do coração, da alma, e da mente perdida e
corrupta, na mente de Cristo. Não é por nosso mérito que alcançamos a Deus
e temos comunhão com ele, mas é por seu amor que somos resgatados de nós
mesmos, saindo dos subterrâneos mortais e infernais para os mais altos céus,
e uma eternidade imperecível. Agora, por gratidão, não nos resta outra opção
a não ser amá-lo, glorificá-lo e bendizê-lo, porque ele é bom e a sua
benignidade dura para sempre. Perpetuamente estará conosco, assim como
sempre esteve.

Um pequeno alerta: nada do que disse seja mal interpretado; a santidade é


uma obra completa de Deus nos eleitos, mas se o homem não é santo e
despreza a santidade, não é eleito, nem “verá a vida, mas a ira de Deus sobre
ele permanece” (Jo 3.36).
O Funeral do Homem Natural

A Bíblia aponta-nos vários deveres como cristãos e membros do corpo local,


dos quais, destacarei alguns:

- Orar uns pelos outros (Tg 5.13-16);

- Exortar e edificar uns aos outros (1Ts 5.11, Hb 3.12-14). Exortar é uma
palavra que traz vários significados: aconselhar, persuadir; animar, encorajar,
incitar, sempre em relação à uma vida de fé genuína e santa ao serviço de
Deus;

- Levar as cargas uns dos outros (Gl 6.2);

- Sujeitar-nos uns aos outros (Ef 5.14-21).

Estes são princípios estabelecidos por Deus para o seu povo caminhar em
unidade e santidade, cumprindo o seu mandamento de amar ao próximo
como a si mesmo e levando a cabo o seu projeto de ajuntar para si um povo.
Na verdade, o ensino que temos, de amar o próximo mais do que a nós
mesmos, é superior, muito superior. Afinal, foi assim que Cristo agiu, o
Santo, o Justo, o Perfeito, o Eterno, ao entregar-se, sacrificar-se, fazendo-se
um de nós, para resgatar criaturas caídas, para reconciliar inimigos com Deus.
Ele nos amou com um amor superior, levando-o à cruz para que fôssemos
libertos do pecado e condenação: a morte eterna e definitiva. Devemos ter em
mente sempre o outro, especialmente o irmão, caminhando com ele, lado a
lado, em meio às tribulações, tristezas, sofrimentos e dores infligidas pelo
mundo, sustentando-nos mutuamente. Por isso, somos admoestados a orar,
exortar, instruir-nos em reciprocidade, além de carregarmos os fardos duros e
pesados uns dos outros, de forma que ele se torne mais leve para o irmão, o
qual também nos auxiliará a diminuir o peso das nossas cargas.
Sabemos que é pelo poder de Cristo, por sua bondade e misericórdia, que
recebemos o consolo e o alívio nas atribulações, pois, sem ele, nada seríamos
ou poderíamos realizar, a não ser conformarmo-nos com a condição de
perdidos, de rebeldes, um estado sequer detectado por nossa mente
deteriorada e à deriva em meio à perversidade da alma. Contudo, é
estimulante saber do interesse dos irmãos pelo nosso sofrimento e dores. Que
cada um, segundo o dom distribuído pelo Espírito, esteja disposto a
reconhecê-las como também sendo suas, já que os membros colaboram,
individualmente, para o bem de todo o corpo.

Creio também serem essas orientações dadas para não nos preocuparmos
além do necessário com os nossos problemas. Esse é o caráter pedagógico do
auxílio, não nos deixar entristecer em exagero, mais do que a tristeza
convém, além de, em certa medida, podermos nos alegrar no zelo e sustento
para com o irmão aflito. Parece contraditório, mas o sofrimento do outro nos
pode tirar do círculo vicioso em que muitas vezes nos encontramos, um
círculo não raramente vitimista, no qual a autopiedade, o “coitadismo”, nos
invade. Em meio aos problemas triviais e corriqueiros do dia-a-dia, temos a
dimensão exata da fragilidade e de como supervalorizamos as mazelas e
aflições. Igualmente, a nossa tristeza com a dor e angústia alheias pode
tornar-se alegria para o sofredor, ao não se reconhecer sozinho e abandonado
em sua luta, fortalecendo-o de forma que também somos fortalecidos. Na
física, este princípio seria chamado de “lei da ação e reação”, na qual o amor
e a piedade atribuídos retornam-nos de forma equivalente: o amor fraternal!

Acredito tratarem-se de pontos que não suscitam muitos debates ou


gerarem divergências e longas discussões. Normalmente são esquecidos ou
relegados ao nível do desinteresse, seja por considerá-lo algo trivial, reles,
sem muita importância, ou por certa soberba ao se achar já tê-lo alcançado,
pensando que as etapas a serem vencidas são outras. Ledo engano. Em um
mundo cada vez mais individualista e rebelde, a igreja também tem se
individualizado e se rebelado contra os preceitos divinos. De igual maneira,
cada vez mais, os crentes se consideram autônomos e donos dos seus narizes,
implicando em um sustento, auxilio e piedade escassos, quase invisíveis, no
nível da insensibilidade reinante no mundo secular, o qual a igreja,
perigosamente, tem absorvido e espelhado na formatação de um padrão mais
próximo do ambiente cultural existente. Ao fazê-lo, assemelhando-se ao
secularismo, ela perde o único valor capaz de tirar o mundo das trevas e
lançá-lo na luz, contentando-se na escuridão, tateando-a como um cego.

Não defendo o alardeamento, aos quatro cantos, do auxílio, ou consolo ou


sustento devotado ao próximo. Antes, o próprio estado das coisas, sejam
fatos, planejamentos ou idealizações, tem revelado o quão distante estamos
de viver uma vida plena de cristandade, nos moldes bíblicos. Quase ninguém
se interessa mais por uma prática cristã, no sentido de fidelidade à Escritura e
de dar os frutos produzidos no homem regenerado, pelo Espírito. Os
holofotes estão ligados e cada um quer a sua porção de luz, sem se preocupar
em ser ele próprio a luz. São os quinze minutos de fama, de atenção,
necessários para satisfazer os desejos mais pueris de uma igreja imberbe,
infante, acostumada ao leite aguado e pouco disposta em crescer e
amadurecer em espírito e verdade.

Com isto, não estou a proclamar a inexistência da igreja, aquela por quem
Cristo morreu, mas, como Judas, alerto para uma deterioração progressiva
dos princípios norteadores e fundamentais da fé cristã, o ensinamento de
Cristo e dos apóstolos, sem os quais a igreja sucumbirá como uma árvore
podre ou sem raízes. Infelizmente, boa parte da igreja tem se especializado
em absorver as inovações, práticas ou táticas mundanas numa tentativa
tresloucada de se fazer mais relevante. Para alguns, a relevância está em
terem o reconhecimento do mundo, seja do ponto de vista intelectual, moral
ou cultural, demonstrando pouca ou nenhuma convicção da fé, em um
titubear perigoso e mortal, no qual a vontade expressa de Deus, o ensino de
Cristo e dos apóstolos e a sua realização na igreja, no decorrer dos últimos
vinte séculos, parece muito pouco diante de todos os holofotes lançados sobre
a vivência não cristã. Como se esta fosse de qualidade superior, ela seduz
aqueles pouco familiarizados com a Escritura e a história da igreja, as quais
desprezam sem conhecimento, querendo substitui-las pela ineficácia daquilo
que se provou incompetente, mas sem atestar a validade da Escritura e da
igreja. Seja pelo desleixo comum do homem moderno com as coisas de Deus,
seja pela sedução a tudo que o afasta do Altíssimo, acreditam na efemeridade
e relativismo das “novas verdades” em detrimento da perene e absoluta
verdade, Cristo e suas Boas Novas. Erguem um altar ao autossacrifício, onde
o homem se imolará quantas vezes for necessário para demonstrar o quanto
está morto para Deus, sem estar vivo para si mesmo ou para o mundo. Nunca
a afirmação de que “o mundo inteiro jaz no maligno” (1 Jo 5.19) foi tão
apropriada para identificar uma boa parte da igreja cristã no presente século,
cuja associação com o paganismo, a imoralidade e o secularismo a tem
transformado em significativo meio de diversão e distração na direção do
pecado, na desobediência e inobservância dos preceitos divinos e em um
veículo de propagação e difusão do anticristianismo, do antibiblicismo, da
pós-modernidade, da libertinagem. Em suma, a igreja secularizada faz uma
oposição desembaraçada e escancarada a tudo que se refere a Deus, na ilusão
de que, agradando a si mesmo e a seus pares, quem sabe, Deus também se
agrade.

Há uma nítida e flagrante inversão da realidade, a qual parte do homem


para Deus, e não o contrário, culminando em uma boa dose de cinismo, quase
um escárnio, na repetição de chavões do tipo: “se Deus não impediu é porque
ele quis”; “se Deus não quisesse, nada disso aconteceria”; e uma infinidade
de desculpas esfarrapadas, estúpidas e indecentes. Tais afirmações geram a
ilusão de as adversidades serem aprovadas por Deus, uma vez que seriam
completamente rejeitáveis, mas nem por isso são impedidas de acontecerem.
Para o bem do verdadeiro crente, Deus o disciplinará por causa da tolice e da
imprudência, pois ele corrige ao que ama, e o juízo não lhe sobrevirá, pois já
veio naquele que tomou o seu lugar, pagando-lhe o preço da liberdade[153].
Entretanto, para o ímpio ou incrédulo, servirá apenas de medida extra quando
da manifestação da ira divina sobre ele, pois esse não será restaurado em seu
castigo, mas sentenciado à punição eterna, sem reabilitação.

Não é estranho, portanto, muitos reduzirem a vida cristã ao falar de Cristo


para as pessoas. Pessoalmente, já vi incrédulos repetirem versículos,
referirem-se a Jesus, como muito crente não é capaz de fazer, teme ou se
envergonha de fazer. Mas, então, tem-se um detalhe: ele fala bem, até mesmo
com probidade e correção, mas a sua vida pessoal não espelha sequer um
milímetro do seu pensamento comunicado como verdade. A falta de prática e
vivencia cristãs ou a heterodoxia, em oposição à ortopraxia[154], não anulam a
verdade, mas indicam, mui vergonhosamente, o simples fato de ela não ser a
realidade de suas vidas. Eles se dispõem a proclamá-la, porém jamais vivê-la,
contradizendo a si mesmos, testemunhando falsamente aquilo julgado como
fé, mas não ultrapassando o limite da idolatria. É este o ponto principal do
qual não podemos nos esquecer e sobre o qual o Senhor alertou-nos: pode
uma árvore má dar frutos bons e vice-versa (Mt 7.17-20)?

A parábola dos talentos assevera mais fortemente este ensino (Mt 25.14-
30 cf. Lc 12.42-48), no sentido de sermos mordomos das dádivas divinas, e
quanto mais ele as derrama sobre nós, mais devemos honrá-lo, produzindo os
frutos proporcionais à sua bondade, misericórdia e graça[155]. Ou seja, somos
ordenados a cuidar com amor, empenho e dedicação de tudo o que dispomos
e que nos é ofertado graciosamente. Não o fazer implicará em omissão,
negligência e desobediência, tendo por consequência a ordem proferida pelo
Senhor:

“Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos. Porque a


qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver
até o que tem ser-lhe-á tirado”. (Mt 25.29-30)

Assim devemos proceder em tudo, na vida pessoal, familiar, profissional,


e na igreja. Há quem pensa ser possível uma vida aparente ou “mínima” no
corpo de Cristo, mas engana a si mesmo, enrodilhando-se em um laço
indolente, tornando-se insensível diante da realidade e pouco afeito ou
estimulado a atuar como soldado em uma guerra feroz, porém ganha, na qual
pode se considerar vitorioso. A vida cristã tem de ser intensa em seu zelo,
amor e em produzir os frutos para a glória de Deus. É claro que tudo isto é
proporcional ao que Deus nos deu e nos capacitou a gerir, isto é, a boa obra
iniciada, em franca execução, e que culminará na excelência de sermos tal
qual o Filho de Deus. Ele não dará mais do que podemos suportar:

“Não veio sobre vós tentação senão, humana, mas fiel é Deus, que não
vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o
escape, para que a possais suportar” (1Co 10.13).

O verso se refere diretamente à tentação para o pecado, mas podemos, por


princípio, levá-lo a todos os aspectos da vida, pois Deus não dará um fardo
maior do que podemos carregar, já que, com o fardo, nos dará juntamente os
meios de suportá-lo.

Voltando à parábola dos talentos, um servo ganhou cinco moedas,


enquanto o outro duas, e o último uma. Quando o Senhor retornou, os servos
foram prestar-lhe contas. O primeiro devolveu-lhe dez talentos, o segundo
quatro, e o último o mesmo talento recebido. Ou seja, este não soube o que
fazer com o que Deus lhe dera, não soube aplicar o seu dom, ao contrário dos
demais. Por isso foi reconhecido como mau e negligente servo, sendo-lhe
tirado o dom (ou talento). A parábola nos remete a reconhecer Deus como o
doador de tudo, inclusive dos nossos talentos e dons. Aquele néscio ou
lânguido no trato das coisas divinas, ao não saber aplicar correta e
convenientemente os seus dons, é como se não os tivesse. É como um cego
que quer ver ou um surdo que quer ouvir, com o agravante de que ele tem
olhos e ouvidos bons, saudáveis, mas não sabe usá-los ou não os quer usar
(Rm 12.4-8).

Na igreja, devemos sempre buscar o melhor para nós e os demais irmãos


e sermos o melhor que podemos ser, inclusive para nós mesmos, sem nos
esquecer de que maior amor tem aquele que dá a vida por seu irmão (Jo
15.1). Parece um refrão de um cântico antigo ou um slogan publicitário, mas
para nós tem de ser uma bandeira pela qual vivamos... E, se necessário,
morramos.
Autofilia

Tornou-se comum, entre os crentes, proferir frases como a abaixo, com ares
de sapiência e autoridade autoinvestidas, mas não passando de um arremedo
inexplicável para algo não entendido, ou simplesmente distorcido:

“Não olhe para mim, olhe para Jesus!”.

Mas seria ela, e suas corruptelas, uma verdade?

Digamos... parcialmente, pois contém apenas uma fração da verdade; uma


fração que, dependendo do interesse de quem a proclama, pode ser
completamente corrompida, tornando-se uma arma letal para muitos cristãos
e muitas igrejas.

A segunda oração é verdadeira, “olhe para Jesus”. O apóstolo exorta-nos


a aplicá-la em nosso dia-a-dia, constante e ininterruptamente. Devemos olhar
sempre para o nosso Senhor, pois é ele quem nos dirigirá, revelando-nos,
segundo a sua palavra, a vontade divina, santa e eterna, para nós e nossos
semelhantes, sendo ele o Autor e Consumador da nossa fé (Hb 12.2).
Entrementes, isso não implicará, necessariamente, em deixar de olhar para os
homens ou aprender com seus exemplos, imitando os feitos bondosos, justos
e corretos (dentro da perspectiva moral bíblica). Por outro lado, é preciso
rejeitar de pronto, sem pestanejar, os erros cometidos, não incorrendo neles,
nem convertendo a sua ação perniciosa em utilitarismo. Devem ser usados
como exemplos de como não agir, fundamentado nos alertas, exortações e
conselhos expressos em sabedoria, à luz das Escrituras Sagradas.

Muitos se utilizam daquela frase com o nítido intuito de justificar seus


erros; alguns até mesmo para encobri-los, quando devíamos seguir o exemplo
de Paulo:
“Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores” (1Co 4.16).

“Oh, blasfêmia das blasfêmias!”, dirão muitos. “Como Paulo ousa


colocar-se na condição de Cristo, o único a quem devemos imitar, e sugere
que ao invés de ter o Senhor por modelo, seja ele, o apóstolo, o nosso
exemplo?... Por isso, olho apenas para Jesus, e nego qualquer coisa dita pelo
apóstolo! Um convencido e soberbo!”

Ora, estaria Paulo tão cheio de si mesmo que pronunciaria um insulto,


uma heresia? Comparando-se a Cristo? Haveria alguma confusão espiritual
capaz de envolvê-lo na vaidade e orgulho, a ponto de afirmar a necessidade
de os coríntios serem como ele? Qual o fundamento de Paulo para tal
afirmação? Não seria uma atitude louca, dominada pela autoexaltação, pela
soberba?

Vejamos algumas características do apóstolo:

Paulo estava crucificado com Cristo (Rm 6.6, Gl 2.20a).


Paulo tinha a mente de Cristo (1Co 2.16).
Paulo tinha o Espírito de Cristo (Rm 8.9).
Paulo era imitador de Cristo (1Co 11.1).

No mundo atual, todos se querem originais[156], mas são exatamente os


autoproclamados originais aqueles a descambarem para as esparrelas do
diabo, engendrados em seus velhos ardis, os quais parecem por demais
eficientes em seduzir, arrastando para o seu redil um sem-número de tolos e
pretensiosos (esses sim, cheios de vaidade e soberba e orgulho). Trata-se de
um esquema esperado e óbvio, que conta com um elemento infalível para
alcançar o seu objetivo: a capacidade humana de se autoiludir, caindo na
mentira, e sentindo-se exitoso em ser ludibriado.

Na pretensão de serem únicos, singulares, acabam por repetir de forma


vulgar, ordinária, o pior de todos os exemplos, cuja astúcia o homem devia
evitar de maneira resoluta. Assim repete o que fez Satanás ao se tornar o pai
da mentira, o primeiro a se autoiludir com um tipo de originalidade
inexistente[157], sem nunca se firmar na verdade, porque não há verdade nele
(Jo 8.44). Com isso, ele transforma-se em exemplo para aqueles a replicá-lo,
tornando-os filhos da mentira, mesmo sendo bastardos dispostos a navegar na
ilegitimidade, com a obstinação malograda do frango refém de um leão
faminto.

Essa mesma originalidade fez Adão e Eva caírem; fez Caim matar seu
irmão Abel, fez os homens construírem a Torre de Babel; desprezarem os
alertas de Noé quanto ao julgamento divino através do dilúvio; matarem os
profetas que proclamavam a Palavra de Deus; convenceu Davi a assassinar
covardemente um soldado a fim de adulterar com sua esposa; fez os
descrentes crucificarem Cristo; perseguirem a igreja e matarem os santos;
implementarem heresias, corrupções e formatarem os “antievangelhos”, com
o nítido objetivo de dispersar o rebanho do Senhor, como se fosse possível
espalhar aquilo ajuntado por ele, pelo poder do seu sangue na cruz (At 20.29).

Paulo não se envergonhava de ser como Cristo, pelo contrário, ele


desejava ardentemente sê-lo e trabalhava em espírito para se tornar como ele:

“Esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que


estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação
de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.13-14).

O alvo era viver para e pelo Evangelho, o qual chamou apropriadamente


de “meu evangelho” (Rm 2.16).

Quando li este verso à época da minha conversão, julguei-o


despropositado, e, em minha ignorância, supus Paulo estar exercitando a sua
vaidade. Porém, com o passar dos anos, e o amadurecimento na fé, não foi
difícil perceber que o Evangelho, para cada um de nós, os crucificados com
Cristo, é nosso também, tanto quanto do apóstolo, pois por ele fomos salvos,
vivemos, morremos e seremos glorificados eternamente.

Antes de jactar-se em si mesmo, Paulo estava a glorificar o Cristo,


arraigado no desejo de se parecer e ser semelhante a ele. Ora, o que há de
mais em buscar a perfeição, santidade e amor à verdade, imitando o seu
Senhor? E defender como sendo seu o Evangelho pelo qual vive, padece e
proclama as boas novas de vida ao homem morto e perdido em sua intocada
corrupção? Em vez de orgulho e vaidade, temos submissão e obediência, a
ponto de o termo “imitador”, algo tão desprezível em nossos dias, ser
apontado por Paulo como uma virtude, uma qualidade dos que estão em
Cristo e são guiados por ele.

Quando o apóstolo exorta a igreja a imitá-lo, o faz pelo privilégio de


pertencer a Deus; não somente por isso, mas porque vivia não mais ele, mas
Cristo nele, e a vida vivida na carne, vivia-a pela fé do Filho de Deus, o qual
o amou, e se entregou a si mesmo por ele (Gl 2.20b). O apóstolo tinha o
legítimo direito de admoestar os crentes a serem seus imitadores, assim como
ele era de Cristo, pelo amor com que ele o amou, em oferta e sacrifício a
Deus (Ef 5.1-2).

E nós? Podemos pedir para que os irmãos nos imitem assim como
imitamos a Cristo? Ou nossa consciência entra em polvorosa, correndo
apressada a dizer-lhes: “Não, não façam isso! Olhe apenas para o Senhor!”?

Talvez sejamos resistentes por sermos hipócritas em relação à vida; talvez


porque saibamos, mesmo inconscientes, as consequências danosas das nossas
ações como fruto de uma vontade controlada pelo pecado. “Por quê?”,
alguém pode perguntar desconfiado. E, talvez, venha à mente do arguido:
“Não será por que não sigo o exemplo de Paulo, em imitar o Senhor?”. Ou
estamos preocupados demais em tomarmos, a nós mesmos, por modelo,
quando reproduzimos, exercitando, apenas mentiras, orgulhos, vaidades,
pretensões e objetivos nitidamente antibíblicos? Falando do que o nosso
coração está cheio (Mt 12.34)?

Se Paulo não vivesse a verdade, seria facilmente confrontado, não teria a


autoridade apostólica reconhecida, nem suas epístolas citadas, por Pedro,
como parte das Escrituras. Se Paulo tivesse uma falsa vida cristã, seria
rejeitado pela igreja, a mesma igreja que o acolheu e reconheceu a
regeneração operada pelo Espírito Santo, naquele homem antes seu
perseguidor.

Na verdade, quando alguém afirma: “Não olhe para mim, olhe para
Cristo”, está rejeitando, em seu coração, o próprio Evangelho; está se
colocando vergonhosamente como alguém que não precisa seguir exemplos e
nem mesmo pode ser um. Considera-se autossuficiente, como alguém que
pode recusar qualquer conselho, exortação ou ensinamento, pois não se deve
olhar para mais ninguém. Nisso, muitos acabam erroneamente por segui-lo...
Contudo, Deus é um desconhecido para essa espécie de crente, o que nos
levará, inevitavelmente, à seguinte pergunta: como esse “super-homem”
pode olhar com exclusividade para o Senhor, conhecê-lo e à sua vontade, se
não se enquadra nas características de Paulo? Afirmando, com todas as letras,
não ser preciso imitá-lo?

Ele, o “super-homem” ou “crente-thor”:

Não está crucificado com Cristo;


Não tem a mente de Cristo;
Não tem o Espírito de Cristo;
Não é um imitador de Cristo.

É possível?

Como está escrito:

“Haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos,


soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos...
Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te”
(2Tm 3.2,5).

É assim que se constrói uma mentira, a de não seguir os homens, nem os


ouvir, nem os ler, nem se espelhar naquilo que fazem de bíblico. É a negação
da própria experiência cristã, na qual um irmão deve auxiliar o outro, onde há
exortação, disciplina, oração, discipulado, carregando cada um não apenas o
seu fardo, mas também o fardo alheio. Algo impossível de se alcançar, como
amadurecimento na fé e prática cristã, se ninguém olhasse para ninguém, se
ninguém seguisse ninguém, se ninguém aconselhasse ninguém, se não
houvesse socorro mútuo, ensino mútuo, comunhão que não prescinde da
troca de conhecimento e ações que permeiam a vida cristã. Se ninguém
pudesse vislumbrar como objetivo o bem operado divinamente através do
irmão, ao mesmo tempo considerando rejeitável todo e qualquer
comportamento avesso à doutrina, ao ensinamento apostólico, não haveria
igreja e o corpo de Cristo seria uma massa esfarelada e difusa, sem interação
e comunicação entre os seus membros.
Ao contrário dos irmãos de Bereia, que ouviam Paulo com atenção, mas
confirmavam se tudo dito estava em harmonia com as Escrituras, a maioria
está mais preocupada em viver uma vida à margem da Bíblia, autônoma, na
qual a experiência acumulada por outros é desprezada em favor da novidade
periclitante. Quase sempre, isso leva o homem ainda mais para longe de Deus
e sua vontade, aproximando-o mais e mais da condenação, numa sanha
irresponsável e inconsequente ao molde dos bandoleiros e usurpadores da
palavra, como se o testemunho cristão fosse algo irrelevante, descartável,
inalcançável. Nisso, tentam fazer de Deus mentiroso, para a própria
condenação.

É uma via de mão-dupla!

Não se segue ninguém, porque assim pode-se viver como quiser, à revelia
da Escritura, da unidade da igreja, sem que nada nem ninguém o leve a imitar
Cristo. A independência e a liberdade cristãs implicam em conhecer ao
Senhor e a sua vontade, empenhando-se em obedecer-lhe, cumprindo e
realizando-a. Ao contrário de muitos, a advogar uma “liberdade” livre de
Deus, engana-se o homem a supor-se independente em si, repetindo aquele
velho e surrado chavão dos prisioneiros: “Eu penso por mim mesmo, não sigo
ninguém; não sou como o boi em meio à boiada”. Tolo! Não sabe que a sua
alma está aprisionada, cerceada, limitada, ao pecado a habitá-lo? Pelo pecado
a dominá-lo? Esquece-se de ter uma mente contaminada, escravizada pela
iniquidade, e, como resposta, fará a vontade dela, a qual controla e orienta
sua mente e desejo? A simples ideia de autonomia da vontade é a
demonstração de como a mente trabalha em favor do pecado, iludindo-o com
a falsa afirmação de não estar preso, quando suas mãos e pés balançam bolas
de chumbo ligadas por correntes, arrastando-as em meio aos gritos de: “sou
livre!”. Como a minha sábia mãe dizia: “O pior cego é o que não quer ver!”.
Mas como enxergar, se há uma neblina a ofuscar-lhe as vistas, brumas densas
a mantê-lo na escuridão, enquanto repete, como um mantra, o jargão: “Sou
livre; eu vejo!”? Como, certa vez, me disse um irmão: “O desejo de
autonomia de Adão levou-o à prisão”. E todos os homens, depois dele,
aspiraram ao mesmo e alcançaram o que não queriam. No entanto, tornou-se
inevitável, pela desobediência a Deus e a rebeldia injetada no coração, serem
“donos dos próprios narizes”; culminando na afirmação divina, nos tempos
de Noé:
“A terra, porém, estava corrompida diante de Deus, e cheia de
violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a
carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra” (Gn 6.11-12).

Assim, não se corre o risco de ser imitado - sendo que já se é uma


imitação do primeiro homem, não antes em sua pureza primeva, mas na
corrupção posterior à queda. Tampouco é necessário aprimorar-se na palavra
e no conhecimento de Deus, satisfazendo-se em repetir um tipo de linguagem
incompreensível, que não significa nada além de uma presunção e completa
ignorância quanto ao próprio ser, e, ainda maior, quanto à natureza divina.
Tal pessoa acaba por constituir-se e manter-se como sempre foi, sem o temor
de ser importunada, reclusa em uma armadura destrutível, mas suficiente para
deixá-la imobilizada, capaz de olhar apenas para si mesma e ignorar o que
está ao seu derredor, como se bastasse de per si.

Ainda por cima, é possível:

Considerarem-se em tão grande conta, no seu orgulho, que desprezam a


igreja. Dizem: “Ela não é perfeita... ninguém é perfeito... então, por que devo
olhar para os homens?”

Esquecem-se do papel da igreja em julgar o mundo juntamente com o


Senhor, e de que, se não olharmos para ela, com seus erros e acertos, sendo
capazes de apreender o bem e rejeitar o mal, não haverá purificação, porque
Deus utilizará exatamente de meios humanos, os mecanismos que criou para
tal fim, para aprimorá-la, até naquele glorioso dia, quando se tornará
completamente santa e imaculada, sem haver nenhuma possibilidade de errar,
pecar e entristecer o Espírito. Devemos compreender a multiforme sabedoria
divina manifesta em nossos dias, conhecida dos principados e potestades nos
céus, através da igreja, “segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus
nosso Senhor” (Ef 3.10-11).

A falácia do “não seguir os homens” está em acordo com o


individualismo, o egoísmo e o humanismo obstinado e entranhado na alma,
envenenando a igreja, em especial, nos últimos tempos, como se o Senhor
não tivesse levantado outros homens, na história, para serem seguidos
convenientemente. Apenas para citar alguns: Abraão, Jacó, José, Moisés,
Josué, Davi, Neemias, Daniel, todos os profetas e apóstolos, os mártires
cumpriram, um a um, os ensinos de Cristo, assim como hoje homens santos
devem ser seguidos, ter seus testemunhos copiados, não como reflexo das
suas vontades individuais, mas pelo sentido dado por Deus às suas vidas,
moldando-as à imagem do Filho Amado. Devemos amá-los, honrá-los e
imitá-los não por si mesmos, pelos seus méritos, mas pelos méritos de Cristo,
capaz de transformar o pior dos homens no mais santo e fiel seguidor. Desse
modo, o pecador torna-se um espelho, no qual a imagem de Cristo está
cravada e visível a todo aquele que vê; reconhecível a todo que o conhece, foi
por ele transformado, salvo, santificado. Se há homens assim, e eles existem,
não lhes conferir o que são é negar a obra de Cristo e, por conseguinte, negá-
lo também. E se o negar, como pode segui-lo? Nesse ponto, suas próprias
palavras voltam-se contra eles.

Imagine se os discípulos do Senhor opusessem-se à ordem de seguirem


homens, visto ser Jesus homem (claro, sem se esquecer da sua deidade)...
Além de negligenciarem a revelação e o Senhor, o qual é a manifestação da
própria palavra, permaneceriam na ignorância, desprezariam a sabedoria,
subsistiriam sem santidade, tal qual muitos procedem, e se encontrariam na
mais flagrante e insidiosa desobediência.

Imagine se os discípulos, pelo fato de ele ser também humano,


desprezassem seus ensinamentos e mandamentos? E o seu testemunho? Por
onde, e a partir de quem, a igreja se iniciaria, progrediria, sendo pastoreada
por homens simples e incultos, como Pedro, Tiago e João, que, contudo,
tinham a sabedoria vinda do céu? Haveria uma Igreja de Cristo? Haveria
proclamação do Evangelho? Haveria salvação? Santificação? Cristo teria um
corpo? E o Noivo, a Noiva?

O Evangelho foi pregado por homens divinamente inspirados e guiados.


Pessoas viveram com intensidade a piedade, a santidade, sujeitando-se ao
Mestre, negando a si mesmos, humildes abraçados à verdade e à vida. Nada
mais, além da obediência, da servidão, ao Deus que os resgatou e livrou da
maldição do pecado, parecia-lhes razoável, e mais do que isto, o alcance da
vida perfeita.

Esvaziados deste mundo, cheios do Espírito, ansiosos pelo cumprimento


das promessas futuras, muitos doaram as suas vidas para a exaltação, louvor e
glória do nome de Cristo e para a salvação de outros que se encontravam
como eles, antes do chamado do Senhor. Há um sinal característico,
identificativo, de quem ama em verdade: a capacidade de doar-se, de
entregar-se, em favor do outro, não para a honra pessoal ou seguindo um
código rígido de disciplina ou moral[158], sem o qual não se interessaria em
dar-se como auxílio. Nada disso! Antes, ao fazer-se menor do que o próximo,
reconhecendo nele a superioridade que não há em si, merecedor do seu
sacrifício, da sua vida, é como se resgatasse um tesouro imensurável,
tornando-se um distintivo a identificar, a testemunhar a fé cristã. De certa
maneira, Jesus agiu assim também, dando-se, não por força ou outra
motivação além de ser agradável ao Pai, do mesmo modo que a si era
aprazível servir e dar-se como oferenda.

Ao anular a si mesmo, não estou a dizer que você deve deixar de ser
quem é, o que é verdade em vários aspectos, mas deixar o Espírito
transformá-lo em algo melhor, muito melhor, moldá-lo segundo a sua santa
vontade. Pois é a natureza humana, perdida e deturbada no Éden pós-Queda,
a ressurgir com vida da morte, tornando-se de novo como o Adão antes do
pecado, não em um estalar de dedos, como em um passe de mágica, mas em
um processo a culminar na pureza e santidade do homem criado à imagem e
semelhança de Cristo. Desse modo, o homem torna-se capaz de deleitar-se,
comprazer-se, e, finalmente, encontrar o verdadeiro homem perdido no
paraíso terrestre, mas encontrado no homem santo, imaculado, Jesus, cuja
imagem começou a formar-se no ato da conversão e se consolidará quando da
sua segunda vinda, em glória e poder, para levar a sua igreja e, com ela, na
eternidade, viver.

Desta forma, o nosso amor estabelece-se com Deus pela gratidão por se
humilhar, encarnar, viver, sofrer e morrer a morte maldita e humilhante pela
sua igreja, seu povo, do qual somos participantes. Assim, Cristo restitui-lhe o
amor na devoção, servidão, obediência a ele, Senhor e fidalgo das nossas
almas, mas, também, ao próximo, ao se fazer uma entrega voluntária, sem
benefícios, às vezes assumindo todos os prejuízos, porque assim nos alegra
viver, à semelhança do nosso Redentor.

Hoje, o Evangelho progride por homens igualmente inspirados e guiados


pelo Espírito Santo. Semelhantemente, devemos orar e clamar a Deus para
nos capacitar e aperfeiçoar a ponto de outros sentirem, da mesma forma, o
desejo de nos imitar. Não para a nossa glória pessoal, como dito
anteriormente, mas para a glória de Deus, a expansão do seu Reino e a
abreviação da glória vindoura. Se você não crê nisso, a sua fé está posta em
outro deus, não no Deus Vivo e Todo-Poderoso, e está contaminado pela
doença secular e natural da autofilia[159].

Não seguir os homens naquilo em que são bíblicos, fará seguir os que não
são bíblicos naquilo em que são diabólicos. Essa não é a vontade de Deus,
mas somente outra forma de o mal aprisioná-lo ainda mais.
Soldados na Guerra Virtuosa

Existe, no homem, algum poder, capaz de levá-lo à salvação? Mesmo


havendo crentes a acreditarem nessa hipótese, sabemos, do ponto de vista
bíblico, não ser possível alguém ter essa habilidade, inerente a si ou mesmo
adquirida do Espírito. Portanto, a resposta é: não! Somente Deus salva, é dele
a salvação (Jn 2.9), e ninguém pode aventar para si mesmo a alcunha de
“salvador”, a não ser o único capaz de salvar, Cristo. Mas, então, por que
Judas escreveu:

“Salvai alguns com temor, arrebatando-os do fogo”?

Primeiro, deve-se compreender, mais uma vez, que Deus utiliza-se da


instrumentalização humana, ou seja, o homem como meio e forma para a
realização da sua vontade, proclamando o seu evangelho, espalhando as boas-
novas, cuidando de levar aos outros a salvação. Não há como negar o papel
primordial de Deus na salvação, porque negá-lo seria negar a própria obra
redentora.

Infelizmente, a queda limitou nos homens não apenas o conhecimento de


Deus, mas o reconhecimento de quem ele é e daquilo que faz. Os efeitos
noéticos do pecado encheram os corações de vaidade e soberba, a ponto de
mesmo crentes não compreenderem adequadamente a complexidade e
perfeição da obra redentiva operada por Deus no homem. Não é o homem
quem salva, mas ele é o instrumento divino para a realização efetiva do seu
plano de salvação. Não é apenas uma ordem ou uma obrigação cumprida pelo
seu povo, mas um privilégio no qual cada um de nós deve se empenhar,
alegrar, e, por fim, agradecer. Não é fantástico que o Senhor tenha nos
escolhido para executar o seu plano? Deveríamos entender o nosso papel
como uma regalia, uma honra imerecida, que, entretanto, Deus se agradou em
nos conferir.

É necessária a pregação do Evangelho e de fato ele é pregado. Cristãos,


mundo afora, diariamente testemunham a sua fé em Cristo, muitos chegando
a pagar com a própria vida. A história da igreja mostra uma perseguição
insistente e contínua ao povo de Deus, sendo que, quanto mais é acossado,
mais evidencia-se o poder do Espírito agindo na realização do plano divino.
Nesses lugares, levanta-se uma oposição maligna, onde os cristãos não
somente são odiados e vistos como inimigos, mas difunde-se a necessidade
de eliminá-los, porque a ojeriza a eles é derivada do ódio ao Senhor Jesus.
Como discípulos do Mestre, atraem sobre si a mesma antipatia e repulsa que
levou Cristo à morte. Enquanto os inimigos pegam em armas para afligi-los,
os cristãos, em sua pacificidade, travam uma luta não contra a carne, mas
contra as potestades do mal. Não há como chama-los para uma batalha
desigual, na qual não manejam as armas terrenas, ao menos com a eficiência
assassina e despropositada dos seus algozes. São considerados ameaças,
perseguidos pelo Estado e a sociedade como povo hostil, quando, em seu
íntimo, têm o desejo de levar a mensagem de paz, amor e salvação,
transformando o inimigo em amado de Deus[160].

A animosidade dos incrédulos é motivada pelo medo, o risco de terem


suas consciências confrontadas com a verdade. Cristãos levam também
auxílio aos necessitados, consolo e amparo, dentre outras coisas relacionadas
à vida e ao seu próximo. Cristãos vivem segundo os ensinamentos do Senhor,
de modo que, por meio deles, inúmeras pessoas, incrédulas, são alcançadas
pelo entendimento dado pelo Espírito, salvas literalmente de si mesmas, deste
mundo, e para uma nova vida. Cristãos são injustamente tratados como
propagadores do ódio, o ódio que dizem nos pertencer, mas está atrelado à
conduta desproporcional e insana daqueles que promulgam leis, decretos e
atos com o único objetivo de nos impedir e proibir de levar o evangelho de
Cristo aos perdidos. Por terem um entendimento equivocado do amor, dizem
agir em nome dele, ou da justiça, quando desconhecem ambas. Sem Cristo,
qualquer ideia de amor e justiça não passará de cópias fraudulentas, a
camuflagem verbal de um sentimento profundamente odioso e mortífero. Ao
contender, seja tomando em armas ou fabricando leis para cercear ou
aniquilar o cristão, demonstram do que estão cheios os seus corações.
Colocando-nos como espantalhos em uma lavoura que dizem cuidar, mas
incendiaram e destruíram-na. Restou-lhes agir em oposição àquilo que seus
discursos apregoavam e, em flagrante contradição, consideram ser a melhor
resposta, a prova para um sentimento que não entendem, nem produzem.[161]

De outra forma não haveria porque o Senhor nos ordenar ao amor


fraternal, assim como amamos a nós mesmos, resumindo toda a doutrina e
vida em amar a Deus e ao próximo.

O amor “platônico”, como uma ilusão ou fantasia, e o amor psicótico são


distorções do amor verdadeiro e bíblico, no qual não há inércia,
acomodamento, maldade e vingança ou interesse alheio a servir
voluntariamente. Nenhuma forma de amor alheia à descrição e significados
revelados por Deus é verdadeira e real. Não passa de imprecisão, o
estereótipo da realidade, cujo paradigma é a própria corrupção do homem e
não a santidade do Criador. Se você não conhece a essência do amor, uma
leitura detalhada da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios, em seu capítulo 13, lhe
abrirá os olhos e, sobretudo, o coração para a sublime expectação do bem,
desconhecida do mundo, seja hoje, ontem ou amanhã. Ela está disponível
apenas aos cristãos bíblicos, aos homens nos quais o Deus de amor habita,
derramando sobre eles o seu favor e graça, para, então, serem capacitados a
experimentá-lo, vivê-lo, ansiar por ele e compartilhá-lo com o seu
semelhante. Somente pode dar-se aquele que recebeu de quem se deu
primeiro e definitivamente na plenitude do seu amor, Cristo. Qualquer outra
hipótese ou definição de amor pode até mesmo ser um reflexo do amor
divinal, uma imitação, mas nunca o será em essência, não passando de um
arremedo fugaz, uma cópia imperfeita, que tenta substituí-lo ou anulá-lo,
porém, sem sucesso.

Segundo, a palavra “salvar” tem várias conotações, podendo significar a


salvação da alma, o livramento físico da morte, a preservação, o escape de
um perigo etc. Por tudo estudado neste livro, não é possível ao homem salvar
outro homem da condenação e morte eternas; este papel é obra exclusiva do
Redentor e Senhor Jesus. Posto isto, volta-se à pergunta inicial: a qual
salvação refere-se Judas, então?

A palavra grega para salvar, usada pelo autor, é “sõzõ”, a qual tem vários
significados, tal qual sua sinônima em português. No contexto da carta,
entendo-a como expressão de “socorrer”, “auxiliar”, “acudir”, em
conformidade com o verso 22, no sentido de sustentação dos mais fracos,
daqueles claudicantes, vacilantes na fé, pelos mais maduros e experimentados
espiritualmente. A referência não é ao convertido, ao homem regenerado pelo
Espírito, mas àqueles que, estando na igreja, ainda não conheceram a graça e
a misericórdia divinas, permanecendo em seu estado caído. Diz respeito
também aos inconversos fora da igreja, homens vivendo segundo o padrão
mundano.

O texto faz uma distinção entre aqueles falsos mestres, os especialistas


em deturparem e corromperem os ensinos cristãos, desejosos de levarem a
igreja para os caminhos erradios e diabólicos do pecado e da apostasia, e
esses, duvidosos, inseguros, ainda não transformados pelo Evangelho nem
pelo Espírito, mas que não têm, em seu íntimo, o desejo de destruir a
congregação da qual participam, nem a odeiam, mesmo estando fora. Eles
não compreenderam adequada e corretamente a verdade, estão expostos a ela,
mas falta-lhes a essência: que lhes Deus restaure o espírito, mudando a
disposição das suas almas, fazendo-os capazes de entender as “boas-novas”
de vida; tirando-os da morte, ressuscitá-los-á para uma eternidade gloriosa.

É necessário que estes sejam tratados com paciência, com misericórdia,


com o labor cristão a fim de voltarem-se em integralidade para o Senhor, ao
contrário daqueles os quais a dura repreensão pode quebrantar
ocasionalmente, mas, de maneira geral, estão cegos e surdos para a verdade.
Seus ouvidos e olhos escutam e vislumbram a verdade, porém ela é
imediatamente silenciada e apagada de seus sentidos, anulada pela
irracionalidade, dando lugar ao que lhes apraz, do qual se agradam, a mentira,
a falsidade, como o anestésico temporário do pecado. Porém, quando a
realidade se lhes apresenta, as dores lancinantes e profundas da agonia e da
tristeza são os frutos venenosos a tomar-lhes corpo e alma de súbito, e, após a
queda da máscara, estarão frente a frente com a realidade de terem sido
ludibriados, não sem antes desejarem ardentes o engano. No entanto, não
acreditaram em suas terríveis consequências, desprezando-as, em favor de
uma autonomia aparente. Diante do malogro, é possível reconhecerem que
falharam, mesmo sendo tardias e irremediáveis as suas confissões; por outro
lado podem estar, também, tão arraigados ao orgulho, à presunção, que se
considerem injustiçados, não merecedores do castigo eterno a sobrevir-lhes.
O autor já falou, por demais, destes, e, agora, alerta a igreja a não se
descuidar daqueles que, mesmo não sendo ainda salvos (nunca é demais
alertar: do ponto de vista temporal e na perspectiva humana), carecem da
evangelização, da apresentação da sublime verdade, guiados, como bebês,
pelas mãos firmes dos santos, os ministros da salvação. Estes somos todos
nós, promotores das boas-novas, agentes a espalharem em todas as direções a
revelação: Cristo padeceu, morreu e ressuscitou, para formar um povo para
si.

Devemos alertá-los do engano, dos falsos ensinos promovidos pelos


servos do diabo, mostrando-lhes a trapaça do fogo hipnotizador que os arrasta
para si, trazendo, no seu encanto, o desejo perverso de consumi-los, tragando-
os em seu ardor néscio.

Não se pode esquecer, como clara demonstração de caridade fraternal,


que, em princípio, todos devem ser tratados com misericórdia, compaixão, e
o evangelho pregado a eles em amor[162]. Os obstinados, desordeiros e
blasfemadores devem ser tratados conforme a disciplina eclesiástica nos
orienta, para, assim, serem julgados por Deus, fora da proteção da igreja, e,
entregues a Satanás, tenham a sua carne destruída, para que o espírito seja
salvo. Não é demais lembrar que um pouco de fermento leveda toda a massa
(1Co 5.1-7).

Da mesma forma, faz-se urgente devotar o tempo na evangelização, no


discipulado, dentro e fora da igreja, a fim de, se possível, podermos tirar um
ou outro deste mundo perverso. Estou convencido, cada vez mais, de que o
otimismo em relação a este mundo é demência; então, se a luta não for para
tirar dele outros dementes (como fui tirado), de nada adiantarão nossos
esforços, intenções. Acabaremos nos acomodando às circunstâncias, crendo-
as inevitáveis, se não houver o sincero empenho de arrastar, se possível, o
pecador para longe do pecado, depurando-lhe a alma com a proclamação do
evangelho e levando-o ao entendimento de que somente Cristo, em sua graça
e poder, pode nos fazer ver o mundo com outros olhos, até mesmo otimistas.
Pois dele é o senhorio do tempo, das circunstâncias, das fraquezas, da
inaptidão, mas também da eternidade, da força, da capacitação, a ponto de,
esquecendo-nos das mazelas e tristezas, sairmos pelo mundo, em alegria,
confirmando aos descrentes, aos mortos, haver vida, e vida em abundância,
naquele que é o possuidor de tudo. Tanto nós, como os outros, todos estamos
em suas mãos e receberemos dele a eternidade, ao lado de Deus. Ainda que
fosse um presente não tão ansiado, nem desejado, quando éramos seus
inimigos, tendo-o, agora reconhecemos ser insuperável, a ponto de querê-lo e
desejá-lo como nada é capaz de nos mover a querer e desejar. Afinal, estamos
firmados no amor eterno com o qual somos amados e do qual não podemos
mais fugir, assim como ele também está em nós, e em nós permanecerá por
todo o sempre. Esta é a loucura do mundo “versus” a sabedoria de Deus!

Na ignorância, ansiávamos o temerário, ignóbil e vexatório, desprezando


o sublime, objetivando o reles e, como a raposa desprezou as uvas[163],
desdenhamos o intocável. Afirmamos que é desnecessário, quando, na
verdade, era-nos inalcançável. E se o temos por promessa, não se deve a
nenhum mérito que não esteja completa e totalmente em Cristo. Ele encurtou
a distância a nos separar de Deus, aproximando-nos dele. Por ele, para ele, e
nele pudemos achegar-nos, apalpar o intangível, deleitando-nos suave e
duradouramente em seu Espírito.

Se, envoltos na tolice, na estupidez, fomos levados das trevas à luz, pela
pregação e ação do Espírito Santo, por que outros também não podem receber
da mesma graça maravilhosa? Não há desculpas! Se por um lado é dever
denunciar os falsos mestres, é também obrigação resgatar da mentira, da
escuridão, irmãos que, como nós, vagavam (e ainda vagam) desorientados,
perdidos, em um mundo achado somente em sua desordem e vergonha.

Deus nos vestiu de túnicas brancas, mais alvas do que a neve, pelos
méritos exclusivos do seu Filho, substituindo as manchadas de carmesim, tal
qual os homens naturais se encontram, incapazes de notarem a corrupção do
seu estado. Por isso necessitam desesperadamente de Cristo, sendo que não
há como reconhecê-lo a não ser através da sua palavra e do nosso
testemunho, asseverando que tudo aquilo falado, não somente falamos, da
boca para fora, mas porque o coração está cheio da verdade, a ponto de exalar
da nossa pele e dos poros o seu bom Perfume. Devemos manifestar em todo
lugar a fragrância do seu conhecimento, mostrando que nada é imprescindível
a não ser ele, o Senhor (2Co 2.14-15).

Estejamos certos, então, de que não nos é permitida a omissão, nem a


preguiça, ou a indolência. Somos soldados em uma guerra incessante, mas
que chegará a bom termo, quando o Senhor, em glória e poder, descer dos
céus com seus anjos, para resgatar a sua igreja:

“Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras” (1 Ts 4.18).

Para finalizar, deixo as sábias e providenciais exortações de Paulo, o qual


não tinha dúvidas quanto aos detalhes e nuanças em relação à importância da
igreja, como edifício construído sobre o fundamento, a pedra de esquina,
Cristo. Não se trata apenas da reunião de irmãos, de uma associação, uma
confraria (algo legítimo), mas de crentes envolvidos e destinados a executar o
propósito glorioso de pôr em ação a obra de Deus, anunciando e vivendo o
evangelho, esperando aquele maravilhoso dia quando, vendo o Senhor face a
face, o conheceremos assim como somos conhecidos por ele:

“Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do
Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em
santificação do Espírito, e fé da verdade;
Para o que pelo nosso evangelho vos chamou, para alcançardes a glória de
nosso Senhor Jesus Cristo.
Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas,
seja por palavra, seja por epístola nossa.
E o próprio nosso Senhor Jesus Cristo e nosso Deus e Pai, que nos amou, e
em graça nos deu uma eterna consolação e boa esperança,
Console os vossos corações, e vos confirme em toda a boa palavra e obra
(2Ts 2.13-17)
PARTE ONZE

PRESERVADOS EM CRISTO

“Ora,

àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar,

e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória,

Ao Deus único, sábio, Salvador nosso,


seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre.

Amém”
Feitos à Imagem do Filho

Em recente conversa, foi-me perguntado qual o objetivo de Deus para o


crente. E, ele, antecipou-se: “Seria a salvação?”. Pensei alguns segundos, e
respondi quase de estalo: Não!

Mas, então, qual o propósito de Deus para as nossas vidas?

O fim de tudo é a sua glória: ele não quer nada menos do que isso, o seu
nome louvado por toda a criação e, em especial, pelo seu povo. Nisso está o
culminar grandioso de toda a sua obra esplêndida e magnífica, revelada pelo
seu poder, sabedoria, perfeição e santidade. Este é o objetivo final de Deus
para a sua Criação, devendo ela o exaltar, revelando-o como Senhor bendito e
glorioso de todas as coisas.

Alguns podem dizer: “mas ele sendo onipresente, estando em todos os


lugares, não estaria, portanto, também na Criação?”. Ao qual digo: Não!
Claro que não!... A própria infinitude divina impede-o de ser “contido” em
qualquer lugar; mesmo a sua presença sendo constante no universo, ele é
maior do que o universo, seu âmbito de atuação ultrapassá-lo-ia e a quantos
outros existirem, pois são obra das suas mãos. Esse é o primeiro impedimento
para considerarmos Deus como parte da Criação ou mesmo estando nela. O
segundo ponto é entendermos que, mesmo estando em todos os lugares,
mesmo os inimagináveis, ele não é o lugar.

De uma maneira limitada, vamos a outra analogia:

Quando estou passeando de carro em uma encosta, ou voando de avião, o


fato de ocupar um espaço não significa que eu, o carro ou o avião, e quem
mais estiver comigo, sejamos o espaço. A própria mobilidade dos veículos e,
por tabela, das pessoas que estão neles, implicaria em uma ocupação
temporária, fracional, pois não se estaria permanentemente naquele espaço,
mas apenas por um período de tempo. Da mesma forma, a minha
constituição, o meu ser, não é idêntico ao da encosta ou da atmosfera, assim
como não é igual ao do carro e avião, que, por sua vez, também não é a
mesma do lugar ocupado naquela fração de tempo. Sendo Deus Espírito,
completamente Espírito e necessariamente diferente do espírito dos homens e
dos anjos, ele é ainda mais díspar da sua Criação, não podendo jamais ser
confundida com ela. Ocupar um espaço não faz do ocupante o mesmo que o
lugar ocupado.

Terceiro, sendo Deus perfeito, santo, infinito, imutável, eterno, não há


como ser confundido com a sua Criação imperfeita, pecaminosa, finita,
mutável e temporal. A própria ideia de “criação” sujeita-a ao Criador, não
apenas como gerador, mas também como mantenedor, sustentador, sem o
qual ela sucumbiria. Pela ausência dos meios capazes de se prolongar por si
mesma, pela própria inadequação da criação, morreria quase
instantaneamente, dada a dependência necessária de quem a formou. Se fosse
abandonada, entraria em colapso, uma espécie de autoimplosão. O Criador
não apenas lhe daria a vida, em um átimo temporal, mas a conservaria o
tempo necessário, cumprindo os seus propósitos, segundo a sua vontade.

Tal qual um escultor não se confunde com a sua obra (mesmo alguns
reputando ser isso possível), visto a obra existir como objeto dependente, não
tendo o necessário para se auto gerar, ela não se confunde com ele, não é ele,
nem pode sê-lo, antes, carece da habilidade manual do artífice, consequência
da sua vontade e labor. Ainda que reproduza elementos distintos do seu autor,
como a aptidão, inteligência, engenhosidade, estilo, podendo, até mesmo, ser
uma síntese do criador, um reflexo da sua personalidade, por exemplo, ela é
uma obra, uma criação, não tem vida própria, e se sustenta apenas naquele
que a levou a existência.

Alguém pode objetar: “Seu argumento falha no simples fato de que,


morto o escultor, a escultura permanece, como, por exemplo, a pintura Mona
Lisa de Leonardo da Vinci”. Ah, eu lhe digo, a própria identidade da pintura
está tão ligada e dependente do pintor que você não citou a obra sem citar o
autor, não é!

Nenhuma obra permanece por si mesma. Ela existe pelo seu criador, o
qual, mesmo morto, faz-se presente nela e vive através dela: não nela, mas
através dela reconhecemos a sua genialidade, sua sensibilidade, seu intelecto,
precisão, vigor, ou seja, capacidade artística ou de criação. Mesmo alguém
desconhecendo a autoria da Mona Lisa, ao vê-la, perguntará, o óbvio: Quem
a pintou?... Porque ela não engendrou a si mesma, e, na verdade, vive às
custas do seu autor, na dependência dele, enquanto durar, para ser o que é,
não sendo nada além daquilo elaborado pelo trabalho e realização da mente e
ação do seu criador.

Assim, também, não tomada em sentido absoluto, a relação entre Deus e


sua obra, com características distintivas em relação ao ser divino, o qual é
potentíssimo, e, em sua plena soberania, não somente está em todos os
lugares, mas tem o conhecimento eterno de tudo feito. Com isso, ele se
diferencia do homem que, mesmo em vida, desconhece todos os pormenores
em relação à sua criação, ainda mais após vende-la ou presenteá-la - quando
seu conhecimento será ainda menor - ou após a sua morte, quando o seu
conhecimento a respeito dela será nulo. Contudo, sendo Deus eterno,
onipotente, onipresente e onisciente, não somente tem o conhecimento de
toda a sua obra, mas das partes que a compõem, das situações a envolvê-la.
Nada lhe escapa, não somente a ciência dos fatos, atitudes, mas das suas
naturezas, origem e consequências, como fruto da sua vontade. Ele não
apenas sabe, mas é a causa última de tudo, sem o qual nada viria a acontecer,
nem o princípio, seu transcurso ou desenvolvimento, nem o seu fim. Ele não
é um mero assistente ou espectador; além de criador, governa e dirige todos
os aspectos do que criou.

Acontece ser esta a resposta para outra pergunta, não aquela formulada no
início, mesmo podendo ajudar em sua delineação.

Em resumo, o propósito da existência humana é glorificar a Deus,


reconhecendo a nossa dependência de seu poder infinito e criador. Na
verdade, pode-se dar vários significados à pergunta inicial e abordá-la em
múltiplas formas e em diversos contextos. Desde a importância do cristão na
igreja, como parte do corpo e sua contribuição para a obra dos santos, como a
sua ação individual na família, no trabalho, na escola, na comunidade. Há
aspectos e áreas em que o crente atuará: nas artes, na cultura, na política,
filosofia e, sobretudo, na religião. No entanto, nada disso se configura o
objetivo divino, antes são os meios pelos quais o Senhor nos usará para
realizar a sua obra.

Igualmente, a redenção, salvação, santificação, não são os objetivos finais


para crente. Repito: Deus usará toda a sua obra para que o fim seja alcançado:
a sua glória! Da mesma forma serão usados meios para alcançarmos, ao final,
exatamente o que ele quer que nos tornemos. Por isso, farei um resumo da
Criação e Redenção, em alguns pontos específicos apenas, sem pretender ser
exaustivo.

Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1.26), não


significando a expressão “igualdade”, no sentido de sermos idênticos a Deus,
mas de haver em nós atributos pertencentes a ele, os quais lhe agradou
compartilhar conosco, para, de alguma maneira, sermos “parecidos” com o
Criador. Veja bem, não somos “deuses”, muito menos ele quis nos tornar
como tais, mas podemos perceber a sua generosidade em partilhar conosco
características singulares e divinas, pertencentes exclusivamente a ele, as
quais refletimos (ainda que maculadas, corrompidas, pelo pecado) como
prova da sua benignidade.

Adão era o "maioral" da Criação, a criatura perfeita, embora não em


sentido absoluto, como Deus, por ser isto impossível para seres finitos e
limitados, aquela a revelar o esplendor da glória divina. No entanto, Adão foi
incapaz de preservar-se a si mesmo e caiu no Éden (Gn 3.2-8). Com ele, toda
a humanidade morreu espiritual e fisicamente, de tal forma que tivemos os
olhos abertos para o pecado, o mal (Gn 3.7), e fechados para Deus e a
santidade. Neste aspecto, também houve uma separação entre o Criador e
suas criaturas, no sentido de comunhão, de relacionamento, onde o muro ou
barreira do pecado foi o divisor, impossibilitando ao homem ter intimidade
com o Senhor.

É interessante como a Bíblia revela que os olhos de Adão e Eva foram


abertos e a consequência foi reconhecerem sua nudez, necessitando
guardarem-na em vestes cosidas de folhas de figueira. Ao mesmo tempo, seus
olhos estavam fechados para a comunhão com o Senhor, o que os fez
esconderem-se de diante da sua face, entre as árvores do jardim (Gn 3.8).
Então, o relato mostra uma sequência de pecados cometidos pelo homem,
ainda vivendo no Éden, onde a mentira e a dissimulação surgiram quase
instantâneos. Mesmo reconhecendo o pecado, não o aceitaram, na tentativa
de enganarem a Deus e livrarem-se da iminente punição, ao transferi-lo ora
para o próprio Deus, ora para a mulher, e pôr fim à serpente. Dali em diante,
a constatação é a de que a humanidade se degradou progressiva e
rapidamente, a ponto de a sua maldade se multiplicar sobre a terra “e que
toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má
continuamente” (Gn 6.5).

É a afirmação de Paulo, também:

“Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus,


nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu
coração insensato se obscureceu” (Rm 1.21).

O restante da história, todos sabemos, ainda que alguns, por ignorância ou


recusa em aceitar e encarar a realidade, rejeitem o relato bíblico. É
impressionante como o homem é capaz de se iludir, não reconhecendo a
Queda e suas consequências históricas, permeando a existência de homens,
nações e povos. O descaso, ou melhor, a substituição por argumentos mais
suavizantes da verdade, em uma tentativa de torná-la um arremedo de si
mesma, para salvaguardar a integridade humana, apenas prova o quanto o
episódio do Éden é verídico, o quanto é incômodo. Apenas prova o quanto
aflige a consciência, sendo necessário fugir de sua significância; o quanto se
deve exorcizá-lo, lançando-o nos umbrais do esquecimento, a fim de não se
ser flagelado e colocado em seu devido lugar. Acontece, porém, que a recusa
em encará-lo de frente, como um problema real, faz com que o homem negue
a si mesmo a possibilidade de cura, afastando-se mais e mais da única
solução verdadeira: declarar-se culpado de rebeldia, arrepender-se e
reconciliar-se com o Senhor.

No entanto, o mundo preferiu a distância, e um distanciamento maior, e


um conhecimento de si e da situação ainda menor, contentando-se em afirmar
uma autonomia impossível e imaginável somente pela própria queda. Como
resultado, tem-se uma oclusão da alma, que torna o homem imóvel diante da
ruína pessoal, arrastando-se, quando muito, em direção ao foco da sua
desgraça... Não vendo, nem sabendo aonde ir, ele encaminha célere. Mesmo
na imobilidade salvadora, não há passo pequeno, ou deslocar-se mínimo, ou
obstáculo a impedir-lhe alcançar o alvo não esperado, de tal modo que,
apesar de não reconhecer o anseio de progredir, a cada momento da viagem o
percurso aproxima-o mais e mais das trevas profundas, da morte inapelável e
eterna.

Uma pausa:

Tudo no universo tem por objetivo revelar a Deus. O homem foi criado
para isso. A Lei, entregue a Moisés, também. Porém, somente Cristo, o Filho
Amado, foi quem o revelou (Jo 1.18). Muito antes de os céus e terra
surgirem, estava determinado que o Verbo se encarnaria, se faria homem
como nós, para que Deus nos fosse manifestado, conhecido. Muito antes de
Adão cair, estava certo que Cristo viria ao mundo, pois somente assim seria
possível conhecer o Pai na plenitude do Filho, “o qual, sendo o resplendor da
sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa” (Hb 1.3) mostrou-nos a si
mesmo, Deus!

Como homem perfeito, santo e imaculado, diferente do Adão terreno,


Cristo, o Senhor, o Adão celestial (1Co 15.45), encarregou-se de resgatar e
formar, pelo seu sacrifício, poder e vontade, filhos verdadeiros do Deus vivo.
Como está escrito:

“Mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos:


Aba, Pai.... E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros
de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para
que também com ele sejamos glorificados” (Rm 8.15, 17).

Novo parênteses.

Quando Paulo diz que com Cristo padecemos para que sejamos
glorificados, descreve-nos exatamente o acontecido ao Senhor. Era necessário
que o seu sangue fosse derramado para haver paz, e:

“Por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as


que estão na terra, como as que estão nos céus” (Cl 1.20).

Cristo humilhou-se e sujeitou-se à vontade do Pai, o santo fazendo-se


pecador; aquele que não pecou levou sobre si os pecados de muitos, para
congregar em si “todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos,
tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Ef 1.10). Com isso,
Paulo não está a afirmar a reconciliação de todas as coisas com Cristo, nem
todos os homens, nem todos os anjos. Não há perdão para Satanás e seus
demônios, nem para os ímpios, os quais não serão restaurados e nem
participarão do reino celestial. Há, todavia, a necessidade de uma redenção
cósmica, uma vez que todo o universo entrou em colapso e desordem por
causa da desobediência no Éden. Este será restaurado a seu tempo, visto a
criação gemer com dores de parto e estar sujeita à vaidade de quem a
sujeitou, o homem, esperando a libertação da servidão da corrupção para a
liberdade da glória dos filhos de Deus (Gn 3.17, Rm 8.19-22).

Mesmo tudo estando sujeito à vontade divina, na dependência direta de


existência e manutenção, o Cosmos “caiu” juntamente com o homem, não no
sentido de ele ter causado a sua própria queda ou ter colaborado para ela, mas
sendo a habitação do homem, cujo mordomo era Adão, o pecado deste
afetou-a profundamente. Trouxe a perda da ordem inicialmente estabelecida e
a corrupção de todas as coisas que, mesmo não sujeitas ao pecado, sofreram
suas consequências, estando sob a sua atuação. Deus, ainda assim, é aquele a
manter a ordem necessária, a fim de o universo não ser implodido, impedindo
a sua derrocada imediata. Mesmo sendo iminente, a restauração não é
precisada, já que o tempo, para Deus, existe em função das suas criaturas, não
para si, e o que é postergado, para nós, é imediato para ele, assim como mil
anos são-lhe como um dia, e vice-versa (2 Pe 3.8).

É o Senhor, pelo seu poder e misericórdia, a sustentar o cosmos. Porém,


ele clama aos céus pela volta da ordem, pela restauração do projeto inicial, no
qual havia apenas a harmonia entre tudo e todos, havia uma unidade pacífica
entre as esferas cósmicas, energéticas, físicas, químicas e espirituais. A
natureza, como a conhecemos, não é a perfeição, pelo contrário, está muito
distante disto, mas, quando o homem, o qual a corrompeu, for completamente
restaurado[164], ela também o será, ambos sob a atuação de um mesmo poder,
o de Cristo Senhor.

No grego, a palavra congregar é “anakephalaiomai” e tem o significado


de ajuntar tudo sobre um mesmo princípio unificador, ou seja, reunir os
eleitos, homens e anjos, debaixo da mesma cabeça, Cristo. Ele é quem nos
une, e nos manterá unidos sob a sua graça eternamente. O apóstolo, em
Romanos 8, não está falando de uma redenção universal, no sentido de que
todos serão expiados e salvos, serão justificados e remidos, mas de uma
redenção particular, somente para aqueles que o Pai entregou ao Filho para
que, por ele, o seu nome fosse manifestado aos eleitos (Jo 17.6).

Segundo, Cristo, humilhando-se a si mesmo até a morte, por Deus foi


exaltado soberanamente:

“Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos
céus, e na terra, e debaixo da terra. E toda a língua confesse que Jesus
Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.10-11).

Todos, sem exceção, santos e ímpios, anjos e demônios, se prostrarão


diante dele e proclamarão o seu reinado sobre tudo e todos, eternamente.

O universalismo se agarra a este verso como prova da salvação de todos,


sem distinções. Porém, atentando-nos a algumas particularidades da
Escritura, ela relata o fato de Nabucodonosor e Ciro serem chamados pelo
próprio Deus de seus servos. Ora, servos não são aqueles a fazerem a vontade
do seu senhor concordes, mas, mesmo discordantes, é-lhes exigido realizar
essa ou aquela tarefa. A ideia equivocada é a de, pelo fato de homens e anjos
dobrarem-se diante de Cristo, proclamando-o como Senhor, significará uma
atitude de bom grado, a fim de exaltá-lo alegres, em gozo, por tê-lo como
Senhor, existindo uma harmonia entre ele e os seus servos, de forma a todos
terem uma unidade de pensamento, uma unidade de espirito, um mesmo
propósito. Não. A questão é que muitos dos rebeldes e inimigos de Deus,
entre eles Satanás, apenas reconhecerão algo inevitável e insuperável a si
mesmos, a constatação de estarem sob as ordens, poder, glória e majestade de
Cristo. Reconhecerão que ele efetivamente é Rei e dominador sobre todas as
coisas, visíveis e invisíveis, não significando uma mudança de compreensão,
de postura ou entendimento, como se o aceitassem humildes, arrependidos e
resignados, sentindo o coração pulsante, amoroso e agradecido em servir-lhe,
em honrá-lo. Haverá apenas a confirmação do reinado de Cristo, mesmo
estando os seus corações inchados por ódio e oposição. No entanto, será algo
impossível de se furtarem, diante de sua majestade e glória. Certamente, entre
os inimigos, haverá o temor, a mortificação por terem se oposto a Deus, feito
homem, ressurreto, cuja mão poderosa os subjugará, condenando-os e
punindo-os exemplar e justamente para todo o sempre. São a arrogância ou
ignorância transformadas em aflição, em almas inquietas, afligidas pela
própria incapacidade de arrependimento, de arrazoarem o quão miseráveis
são e o quão santo, benigno e sublime é Deus. Querendo ser, em algum
momento, como ele, pela rebeldia a invadir e assolar-lhes os corações,
tornaram-se mais e mais eles mesmos - ou a profunda negação do Cristo, o
homem perfeito e santo. Fugiram por completo de qualquer possibilidade de
redenção, em uma obstinação doentia de se verem livres do Criador,
penetrando insistentes as algemas cruéis do próprio coração, nas quais estão
presos e não podem se libertar por si mesmos e às quais permanecerão
atrelados por toda a eternidade.

Em contrapartida, no caso dos eleitos, haverá uma submissão agradável,


correspondente ao amor eterno de Cristo por nós, uma forma de
expressarmos a gratidão por sua graça e misericórdia derramadas sobre
nossas almas quando ainda éramos seus inimigos e laborávamos contra o seu
Reino. Reconhecendo-o em vida, como Senhor, nos curvaremos humildes,
contristados, alegres e regozijando-nos por tê-lo como Rei, soberano de
nossas almas, podendo vê-lo finalmente face a face e desfrutando de seu
senhorio magnífico, justo e bondoso para sempre. Porque a quem podemos
honrar e servir senão àquele que, sendo Deus, fez-se homem, viveu, sofreu e
morreu na cruz, por mim e você? Seríamos ingratos, não reconhecendo o
mérito exclusivo dele em sacrificar-se por nós. Somente é possível
apresentar-nos diante dele limpos, imaculados e santos porque ele levou
sobre si todas as nossas manchas, mazelas e pecados, fazendo-se injusto, para
alcançarmos a justiça, a absolvição, inocentando-nos. Fomos justificados por
ele e somente a ele se devem render as honras dignas por levar um fardo
indecoroso, injusto, pesado diante da sua santidade e perfeição, mas que
finalmente resultou em nossa justiça e reconciliação.

Portanto, assim como Cristo, devemos padecer até o fim, seja na entrega
do espírito impiedoso à morte, seja na entrega do corpo temporal ao martírio,
na acolhida do bem, na mitigação do mal, a fim de sermos como ele é,
glorificados na vida temporal e eterna, por nossa sujeição, não à força, nem
por imposição, mas pelo seu amor e graça eternos.

Fim da pausa e do parêntese.

De volta à pergunta original...

Podemos afirmar, então, que a eleição, o chamado, a regeneração e


salvação e a santificação não são os objetivos finais de Deus, mas partes do
processo que culminará no objetivo final de que todos os seus filhos adotivos
se tornem e sejam a imagem do seu Filho Unigênito:

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem


conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre
muitos irmãos” (Rm 8.29).

Esta foi a resposta que dei, naquela ocasião, ao meu interlocutor. Deus
nos quer e sempre nos quis semelhantes ao seu Filho Amado, de forma que
tudo, desde o seu início, muito antes de criar céus e terra, tinha isto por certo:
fazer um povo que em tudo fosse da mesma qualidade, tendo a virtude das
virtudes, a santidade de Cristo, e pudesse reconhecer-se nele, como imagem
agora perfeita, santa e imaculada, assim como ele é. Assim como desfruta do
amor do Pai, também o desfrutamos, o lograremos, pela sua bondade infinita.
Somos participantes em tudo de que o Senhor também participa, a fim de que
ele seja tudo em todos. Nem menos, porque a perfeição e santidade somente
podem ser na medida exata de Cristo. Nem mais, porque é impossível
qualquer variação naquele que é, e se faz conhecido como o “Eu sou”.

E o que ele é, jamais pode não ser.


A Restauração Prometida

Ainda sobre a questão da separação e restauração, ou melhor, sobre o fato de


Cristo ser aquele a nos preservar do pecado, do mundo, da condenação, e das
consequências derradeiras da Queda, assisti a um vídeo e pude imaginar, a
partir das imagens mostradas, como seria o mundo se o pecado não o
adentrasse, se a ordem não fosse afetada e a pureza, corrompida. Um
fragmento daquilo a aguardar o povo de Deus quando do seu encontro com
Cristo, em que a ordem será restabelecida e a corrupção extinta pelo
esplendor da santidade, pela ausência do pecado, em um novo mundo onde
ele não terá mais vez e os homens poderão gozar plenamente de todo o bem,
o qual é Deus. Desfrutarão de tudo planejado e criado, segundo a sua
bondade e graça, para os seus eleitos, o povo que escolheu para si e que será
a imagem do seu Santo. Um novo mundo alheio à figura do mal, da
corrupção e da sedição, impossíveis de conviver com a luz fulgurosa a
irradiar o intenso brilho santo, impedindo qualquer possibilidade de
existência do mal, do pecado e das trevas a acompanhá-los. Enclausurados,
eles serão perdidos no tempo pretérito, apagados das lembranças, como algo
jamais acontecido, um vento sem sopro, derrotado, recluso eternamente na
calmaria prometida por Deus e concretizada pela sua providência.

Ainda que não seja o fulgor do porvir, esse vídeo, do YouTube[165], é


uma centelha da paz legítima, somente concretizada pelo Rei da paz e da
justiça, mas observável como uma possibilidade real a ser desejada, pela qual
oramos “Maranatha”, no anseio de uma morte em efetiva derrota, tal qual
uma doença erradicada por uma vacina se faz inofensiva, enquanto todos
estiverem imunizados. Porém, diferentemente da capacidade limitada do
homem, Cristo será capaz de proporcionar, pelo seu poder e graça, o
privilégio eterno de jamais sermos de novo subordinados aos efeitos da
morte, posto ter sido reduzida a nada, pela ressurreição do Senhor, o qual
também nos ressuscitará. Então, como ele, mas sobretudo por ele, a
derrotaremos em sua própria ineficiência e inutilidade.

Assistindo às imagens deslumbrantes, veio-me à mente o seguinte verso,


no qual quero meditar:

“E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará,


e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino
pequeno os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, seus filhos se deitarão
juntos, e o leão comerá palha como o boi. E brincará a criança de peito
sobre a toca da áspide, e a desmamada colocará a sua mão na cova do
basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte,
porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas
cobrem o mar” (Is 11.6-9).

Não entrarei nos meandros escatológicos, ainda que não seja possível
furtar-me de todo em adentrá-lo. Mais do que a discussão sobre os “fins dos
tempos”, quero revelar a minha imensa alegria com a esperança, a certeza da
concretização dessa promessa, como a de todas saídas das penas dos autores
inspirados por Deus, de a nossa paz estar firmada, concebida de maneira
nítida e real em Cristo, o Renovo (Is 11.1), a quem o profeta se referiu,
exaltando-o, muitos séculos antes do seu nascimento:

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está


sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro,
Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6).

Paulo confirmou-o, ao escrever:

“Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo
sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz” (Ef 2.13-14).

Não uma paz meramente retórica, alcançada por meios humanos; uma paz
enganosa, apoiada em subterfúgios, em malabarismo semânticos, em
distorções da realidade, em eufemismos culturais e sociais; não uma paz
fomentada em gabinetes e discussões infindáveis e inócuas; não uma paz pela
força, conquistada pelos quartéis e tropas, somente possível como conquista
de uns sobre os outros. Tampouco uma paz que humilha e corrompe, destrói e
expropria a alma; não uma paz a custo de arames farpados, grilhões,
perseguições e morte; não uma paz impossível ao homem, mas exequível, em
plenitude, pela pessoa do mediador entre Deus e os homens, Jesus homem. A
paz a nos alcançar é verdadeira, não se resumindo a promessas vazias e
delírios de perfeição ideológica calcados na imperfeição, na deformação de
um sistema convulsivo onde se tenta criar a partir da destruição. Não é uma
paz que existe como fomento, nem como desarranjo civilizatório, a barbárie
por fingimento. A paz estabelecida por Cristo está no amor ao seu povo, um
amor sem oscilações, sem o sobe e desce emocional característicos da
humanidade, uma humanidade caída, incapaz não somente de construir uma
paz verdadeira, mas de sequer desejá-la, pois não a conhecendo, não se é
capaz de busca-la. Quando muito, atiram a esmo na esperança de acertar o
alvo, tal qual um cego dispara seu estilingue em meio a um tiroteio. Isso está
muito distante e muito diferente da humanidade santa e perfeita do Filho
Amado de Deus, que, à medida que o conhecemos, leva-nos a buscar a paz, a
experimentá-la. Afinal, ele é a paz e o único capaz de revelá-la, trazendo o
seu sentido real, como uma dádiva a envolver toda a nossa alma, arrancando-
nos a aflição e a intranquilidade belicosa. A paz cavalga nos lombos do amor,
sendo que esse amor não somente é a resposta correta a uma pergunta, mas a
causa e o provedor da paz, num tempo vindouro em que a sua glória e
esplendor nos envolverão como em um abrigo hospitaleiro, aconchegante e
seguro.

Ainda que a promessa seja de que o mal e os malfeitores serão castigados


no fogo eterno (“Não há paz para os ímpios, diz o Senhor” (Is 57.21), o que
não é injusto, mas prova da justiça, a paz dada por Cristo não será forçosa,
muito menos enganosa, como aqueles incapazes de alcançá-la, que a
alardeiam aos quatro cantos como uma realidade provável no discurso, mas
inexecutável pelos meios naturais. A verdade é que a paz que Cristo dá não
será acessível apenas no futuro, quando será plena, mas é algo já entregue
para o seu povo e por ele experienciado em um nível irrealizável para a
humanidade. Porém, enquanto a alma humana se opuser fragorosa a Cristo,
eivada no delírio ideológico, os homens prometerão a paz sendo que seus
corações estão fincados na guerra, na convulsão e no sangue do próximo.
Eles são os que levianamente tentam curar a ferida do povo, dizendo:

“Paz, paz; quando não há paz” (Jr 8.11).


Na verdade, são tolos por promoverem o engano, acreditando cegamente
nele ou, fraudulentos, agindo dolosamente, com má fé, em conformidade com
a malignidade daquele a quem querem satisfazer os desejos, o diabo. Acerca
dele, o Senhor deu a seguinte descrição:

"Foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não


há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio,
porque é mentiroso, e pai da mentira" (Jo 8.44).

Creio firmemente que, como cristãos, devemos buscar reformular o


mundo a partir da Escritura, não a partir de movimentos sociais e políticos
(ideológicos e antropocêntricos), ainda que tenhamos o dever de participar,
como Igreja, nesses segmentos, como a luz de Cristo a brilhar em nós e,
como habitáculo dela, refleti-la em meio as trevas. Pode parecer incoerência
o que estou a dizer, mas digo-o na possibilidade de participação em quase
todos os movimentos artísticos, sociais e políticos, a fim de salgar e iluminar
o mundo. Porém, jamais devemos usar as lentes humanistas, pagãs, místicas,
mas sempre ter a mente de Cristo, firmados na Palavra, sem concessões,
relativizações ou associações com as forças do mal. O fato de haver a
hipótese de envolvimento nas causas seculares, utilizando-se da cosmovisão
cristã, não implica, necessariamente, na sua obrigatoriedade. Há uma ideia se
difundindo vigorosa, em nosso tempo, de que o crente forçosamente deveria
envolver-se nessas questões e, ao não o fazer, estaria em oposição ao
mandamento de salgar e iluminar o mundo, negligenciando o dístico
evangélico do “mandato cultural”, quase como um mantra a impulsionar os
cristãos em uma cruzada a fim de redimir culturalmente o mundo. Criaram-se
argumentos relacionados à ideia de reconstrucionismo ou dominionismo[166],
significando o esforço da igreja para o estabelecimento de um “Reino” agora,
não no porvir ou depois do retorno do Senhor, mas condicionando o seu
retorno à implantação desse “reino”, por meio da Lei Mosaica, cuja
implementação se daria pela evangelização e a “pressão” e persuasão política
junto aos legisladores. É uma petição de princípios, na qual o crente deve
reclamar a Terra para Cristo, não apenas no âmbito espiritual, mas social,
artístico, político, econômico etc., uma espécie de ativismo cristão com o
objetivo de erradicar o secularismo, já que o “reino de Cristo” está entre nós.
De forma que, se Cristo reina, devemos estabelecer o seu reino, porque ele
reina.
Mesmo que nem todos os defensores do mandato cultural sejam
reconstrucionistas, o fim lógico de suas atuações seria a “conquista” do
mundo para Cristo. Há uma série de implicações, divergências e conceitos
envolvendo essas ideias, e não é o objetivo deste livro apontá-las ou discuti-
las. Não obstante, em relação ao mandato cultural, os reconstrucionistas
defendem que se crie um ambiente cristão a partir da atuação social/política,
como a construção de universidade, escolas, hospitais e institutos de pesquisa
cristãos e a formação de partidos políticos, companhias cinematográficas,
teatrais, literárias, como consequência natural de uma evangelização e
discipulado eficazes e orientados pela igreja, nos quais as pessoas são
convertidas não somente a abraçarem uma causa, mas por amor a Cristo,
honrá-lo e glorificá-lo em todas as áreas e esferas da sua vida. Então, esses
organismos servirão como meio para criar-se um ambiente favorável para a
evangelização, sendo eles mesmos objetos de evangelismo, de maneira a
levar em profusão um estilo de vida cristão e, a partir dele, convencer as
pessoas das virtudes do evangelho e de aceitarem a Cristo.

Veja bem, em princípio, não há qualquer problema em se ter instituições


cristãs voltadas para as várias necessidades dos cristãos em um mundo
dominado pelo anticristianismo. É muito melhor, para um crente, colocar os
seus filhos em escolas cristãs do que os ver bombardeados pela militância
não cristã em escolas seculares que teimam e insistem em blasfemar contra
Deus e apregoar as mentiras mais escandalosas e fraudulentas como se
fossem verdades intocáveis. Da mesma forma, é possível ao crente se
beneficiar de filmes e livros cristãos ou com temáticas cristãs (sem a
necessidade do “selo” cristão), em vez de ser bombardeado pelo discurso
imoral e agressivo do mundanismo presente em quase tudo produzido na
atualidade. Não é difícil de se perceber o quanto as forças anticristãs operam
incessantemente a fim de destruir tudo aquilo construído pelos valores
cristãos, tais como a moral, ética, família, propriedade, igreja, educação, ou
seja, o que passou a se denominar de cultura ocidental.

No mundo pós-cristão, como na Europa, por exemplo, universidades,


escolas, igrejas e tudo mais que construiu aquela civilização durante milênios
com a chancela “cristã” foi colocado abaixo, literalmente, dando lugar a pubs,
prostíbulos, teatros, edifícios comerciais etc. ou se transformou em um
ambiente de completa hostilidade ao pensamento cristão, negando e
combatendo a sua origem com obstinado furor. Em certa medida, houve a
proeminência do secularismo mesmo no cristianismo, onde a atenção estava
voltada para as realizações sociais e políticas em detrimento do evangelismo
simples e bíblico, de pregar a Cristo crucificado. Assim, tais instituições e
estabelecimentos sucumbiram inexoráveis ao mundanismo, se tornando
células de combate ferrenho à vida e ao pensamento cristão.

Uma evidência indiscutível parece-me o caso da Holanda, berço do


Neocalvinismo[167], de onde surgiu o ideal de “mordomia cultural”, que agora
constitui uma sociedade completamente pós-cristã, materialista, imoral, ateia
e reduto do anticristianismo. Assim como em Israel, no tempo de Elias, Deus
reservou sete mil profetas que não se curvaram a Baal, não estou afirmando a
inexistência de cristãos sinceros na Holanda ou outro país europeu
assumidamente materialista, mas constatando um declínio tão acentuado
daquela sociedade que levou à quase total erradicação do Cristianismo. Ali,
até mesmo os símbolos são preservados, quando o são, como reflexo de um
tempo primitivo, como mostras de uma cultura ultrapassada, ou como obras
de arte de uma época longínqua, perdida no tempo e na história. Certamente
há igrejas bíblicas, mesmo em número reduzido, assim como Elias não estava
sozinho, nem era o último remanescente da linhagem dos profetas divinos.

Ainda, em fase intermediária, o mesmo está acontecendo nos Estados


Unidos, país fundado em bases cristãs, em cuja Constituição encontram-se
referências a Deus e à Bíblia. É possível notar organizações criadas com o
intuito de difundir os ensinamentos bíblicos e a prática cristã que se
encontram em um avançado estágio de secularização, nos quais não são mais
perceptíveis os traços iniciais de sua formação. Se imaginarmos o Brasil
como um país alegadamente cristão, mas surgido em meio às dúvidas e
confusões do “iluminismo”, ao qual a América também esteve exposta,
porém optando por incorporar apenas alguns traços, ao contrário de nós, e
envolto em sincretismo e na dicotomia “estado laico x religião”, pode-se
esperar algo como a construção de uma sociedade cristã?

O andamento da história revela-nos uma realidade equivocada, tal qual a


de colocar o carro à frente dos bois, a de se tentar criar uma sociedade cristã
sem a proclamação efetiva do evangelho, o testemunho cristão, a Lei divina
escrita em nossos corações e a mudança de mente, de alma. Nada disso pode
ser realizado através da ocupação do espaço cultural, mas apenas pela
pregação da palavra de Deus e da transformação interior promovida pelo
Espírito Santo. Dizer que a mordomia cultural é dependente exclusivamente
do mesmo Espírito e somente existe por ele, mas não produz os efeitos
decorrentes dele, é uma alegação atenuante, já em seu início, do fracasso
humano em implementar um conceito não fundamentado nas Escrituras. Com
isso, não estou afirmando nenhuma “malignidade” ou demonizando o
movimento e seus defensores. No entanto, há, ao menos para mim, uma
inversão de propósitos, no qual o evangelismo cede lugar ao ativismo sem o
poder e a afirmação individual do evangelho, sendo este a justificativa
daquele, e não o contrário, levando a uma falta de autenticidade e
descaracterizando o Evangelho como tal, o que gera uma estereotipação da
fé.

O conceito de “Graça Comum”[168], sustentado pela soberania divina,


resultaria em um tipo de redenção do homem dentro da sua humanidade
caída, limitado ao tempo histórico e ao espaço geográfico desta vida.
Significa que o homem natural alcançaria o ápice das virtudes sócio-
culturais-intelectuais, capaz de tornar a vida mais pacífica, profícua e
fraternal, aproximando-o ao máximo do “viver cristão”, de forma que os
pensamentos e realizações apontassem para Deus. Isso pode levá-lo ou não a
reconciliar-se com o Criador; entretanto, a sua vida dará testemunho
inequívoco do governo divino; uma seta apontando na direção do trono
celestial, para a sua glória!

Entrementes, sem efetivamente existir uma remissão de fato, na qual o


homem tenha a mente de Cristo, o que teremos é algo muito distante da
graça, sendo, em si mesmo, a negação da graça, posto que Deus agiria com
uma duplicidade de propósitos essenciais, nos quais, de um lado, há o favor
para com os pecadores salvando-os, e, por outro, há o seu favor com outros
pecadores, uma espécie de “compensação menor” ou “esmola” durante a vida
terrena, culminando por condená-los. De alguma maneira, esse é um favor
inferior, cumprindo os rigores de ser benigno para com o ímpio: uma graça
restringida à existência mundana, mas que, em seu momento derradeiro,
resultará na ira divina despejada sobre eles. Uma graça impossível de levar à
santidade; de reconciliar o homem com Deus; de transformar-lhe a alma, de
resgatá-la da perdição; de levar ao arrependimento. Uma graça
suficientemente capaz apenas de fazer o homem regozijar-se em si mesmo,
orgulhoso de sua capacidade intelectual em reproduzir através das artes, da
política, da economia, da justiça social, aquilo que jamais irá experimentar
efetivamente no espírito. É a busca de algo, dando alguns passos na direção
correta, mas sem alcançar a finalidade de seu empreendimento, posto não ser
esta a sua vontade ou vocação. Afinal, o homem natural não busca a
semelhança de Cristo, mas a reformulação, o aperfeiçoamento e, de alguma
forma, a revolução cultural, a fim de criar uma sociedade mais perfeita e justa
(um anseio íntimo, mas negado pelas ações exteriores).

Por mais que se tente entender o evangelho como a causa, o promotor


dessa visão, reputo-a dúbia, pois rapidamente o ambiente onde se propaga é
contaminado pelo secularismo, até não haver mais traços de cristianismo a
justificar a sua existência. O caráter contra evangelizador se converte, algum
tempo depois, em neófito do mundano.

Por isso, cada vez mais entendo o quanto é proibitivo se agir segundo os
padrões do mundo, segundo as diretrizes traçadas pelas mentes envoltas em
escuridão. O objetivo é que não sejamos confundidos com eles e venhamos a
tatear os umbrais da rebeldia, do desprezo à sanidade, tornando-nos loucos,
como eles em sua demência, em cujas almas a insensatez impera. Caso
contrário, nos esquecemos de que