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Era colonial brasileira: o

Barroco

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AULA
André Dias
Ilma Rebello
Marcos Pasche

Meta da aula
Apresentar o Barroco literário brasileiro, enfocan-
do-o dentro de um contexto histórico e estético,
relacionando-o a outras manifestações artísticas.
objetivos

Esperamos que, ao final desta aula, você seja


capaz de:
1. interpretar textos do Barroco brasileiro;
2. identificar traços estilísticos e formais do
Barroco.
Literatura Brasileira I | Era colonial brasileira: o Barroco

INTRODUÇÃO Tentar compreender os fenômenos artísticos e os da vida em geral por meio


de definições é desaconselhável, pois, em geral, a definição reduz aquilo
que é definido. Mas há vezes em que isso é minimamente possível, vista a
identidade fortemente marcada de certos fenômenos. Tal é o caso de um
estilo artístico conhecido como Barroco: se recorrermos a uma definição sua
por meio de três palavras, provavelmente as mais agudas e precisas seriam
contraste, angústia e exagero.
Não convém tentar entender a obra de arte sempre como um reflexo objetivo
dos eventos históricos caracterizadores do tempo no qual ela surgiu; mas
também é equivocado imaginar que a história não contamina os criadores
e suas criações, sejam eles favoráveis e entusiasmados com a época de que
fazem parte, sejam críticos e rejeitadores dela, ou, até mesmo, lhe sejam
indiferentes. Assim, é fundamental ter em mente que a arte barroca surgirá
como o ápice do cruzamento de tendências ideológicas radicalmente con-
traditórias: a tradição cristianista e a inovação renascentista.
Na aula de hoje, vamos estudar o Barroco em perspectiva histórica e estética.
Nossa intenção é dar a ver como esses dois âmbitos se interpenetram naquele
que é considerado o primeiro estilo da história da literatura brasileira.

GÊNESE BARROCA

No início do século IV, o Cristianismo foi liberado em Roma pelo


imperador Constantino, e, aproximadamente oito décadas adiante, foi
instituído como religião oficial do Império Romano. Nascia, então, o
Catolicismo, cuja visão da realidade é oposta à cultura clássica, represen-
tada especialmente pela civilização grega. Em linhas gerais, a diferença
principal dessas culturas se dá pela oposição entre fé (explicação da
realidade a partir da vontade divina) e razão (busca científica da com-
preensão lógica da existência de todo o universo físico).
Os historiadores situam a Idade Média entre o final do século V
e o início do VI, período de grande consolidação do Catolicismo. O
poder católico não se manifestava apenas numa esfera religiosa, visto
que as autoridades eclesiásticas atuavam diretamente na decisão dos
rumos políticos dos Estados cristãos e também em sua movimentação
intelectual, dirigindo os meios educacionais. Mas é claro que nem todos
os homens concordavam com as diretrizes católicas, e isso ficou mais
evidente séculos à frente, com a necessidade europeia de expandir seus

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domínios pela via marítima. Isso era, inicialmente, mal visto e até mesmo
impedido pela Igreja, à época alegando que a Terra não poderia ser

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circunavegada, e que os navegantes, ao cruzarem os mares em direção
ao horizonte, terminariam por cair em abismos onde seriam devorados
por monstros demoníacos.
Nas entrelinhas, o que se pode notar é que a Igreja temia, e por
isso bloqueava, tudo o que inspirasse a ideia de independência existencial
do homem, pois as religiões, via de regra, perpetuam sua existência e
poder por meio da subserviência intelectual de seus adeptos. E foi em
nome dessa tentativa de emancipação que despontou no século XV uma
tendência ideológica revolucionária no campo da filosofia, da arte e da
ciência: o Renascimento, que se difundiu e desenvolveu especialmente
na Itália, atingindo seu apogeu no século XVI, não por acaso o século
em que as grandes navegações tornaram-se cada vez mais constantes e
imprescindíveis para o enriquecimento europeu. Costuma-se dizer que a
Grécia representa o berço da civilização ocidental, ou seja, foi nela, em
seu período clássico, que se construíram e legitimaram ideias, valores e
costumes processados em todo o Ocidente durante séculos, e muito disso
vigora ainda hoje. Portanto, se uma corrente denomina-se Renascimento,
é sinal de que ela pretende resgatar valores e pensamentos próprios da
cultura do nascimento, o que se traduziu, também, pelo recuperar do
racionalismo em detrimento da fé cristã: se a Igreja medieval pregava o
teocentrismo, o Renascimento, inspirado pela cultura helênica, defendia
o antropocentrismo.

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Figura 20.1: Vênus de Milo (autor não identificado), símbolo da cultura e da


arte grega.
Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ed/0033_Louvre_Venus_de_
Milo.jpg

Além dessa oposição ideológica, no século XVI assiste-se a outra,


de caráter especificamente religioso, empreendida pela antiga Igreja
Católica e a iniciante Igreja Protestante, numa disputa marcada pelas
ações da Reforma e da Contrarreforma.
O Barroco surge, no século XVII, como um somatório dessas
tendências opostas e reciprocamente excludentes. Se o Maneirismo já
sinalizava uma nova forma de expressão artística, afastando-se gra-
dativamente das receitas renascentistas, o Barroco efetiva uma forma
absolutamente original de produção artística, precisamente por reunir,
de maneira harmoniosamente tensa, ou tensamente harmônica, aspectos
ideológicos e formais absolutamente contrastantes entre si.

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Figura 20.2: A dama do arminho (Leonardo Da Vinci). O
equilíbrio dos traços e das formas ilustra o racionalismo
renascentista.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dama_com_Arminho

Todos nós experimentamos, pelo menos uma vez na vida, a sensa-


ção de estarmos numa encruzilhada espiritual (o termo “espiritual” não
tem aqui conotação religiosa), visto gritar em nós o desejo por opções
que teoricamente não podem ser almejadas pelo mesmo ser ao mesmo
tempo. É o caso de nos apaixonarmos por pessoas de personalidades
muito diferentes, quando alguém calmo e outro explosivo nos desperta
atenção; é o caso de nos sentirmos muito bem tanto num ambiente urbano
como em um rural, a ponto de nos imaginarmos morando em ambos; é
o caso de querermos levar uma vida recatada e regrada, cuidando bem
da saúde e das tarefas, acordando cedo para caminhar, amando uma
só pessoa e, com a mesma intensidade, desejarmos uma vida liberta
e desregrada, cuja finalidade maior é a curtição de prazeres festivos,
gozando ao máximo de nossa juventude. Se você, que está lendo estas
palavras, ou alguém que você conhece teve uma dessas experiências,

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pode dizer de si própria ou da pessoa em questão que passou por uma


situação algo barroca, e essa contradição normalmente causa em nós
uma sensação angustiante.

Figura 20.3: Davi com a cabeça de Golias (1605), do


pintor italiano Caravaggio. A tela exprime o acentuado
contraste de luz e escuridão e também a dramaticidade
típicos da pintura barroca.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Caravaggio

No caso dos intelectuais barrocos, tal angústia foi basicamente


resultante da indefinição entre a devoção da prática religiosa e a eman-
cipação da conduta racional. Durante séculos a tradição religiosa foi
hegemônica, intimando o homem com as ameaças da condenação eterna
e seduzindo-o por meio das promessas de vida sem fim no convívio dos
eleitos. Em certo momento, o Renascimento aparece dizendo ao homem
que a tradição estava errada, e que era possível haver uma vida nova na
Terra, o que se mostrava verdadeiro na medida em que os grandes feitos
renascentistas se iam concretizando. Mas como se portaria o homem
diante disso? Em que discurso acreditar? Essas contradições e incertezas
são as questões fundamentais da arte barroca, daí o seu aspecto normal-
mente angustiado, dramaticamente dilacerado.

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Se o interior do homem barroco é impregnado de conflito, a
linguagem artística do estilo será a imagem exterior de uma carga

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intensamente passional. Seja na arquitetura, na pintura, na escultura, na
literatura, na música, no teatro e, mais recentemente, no cinema, a forma
barroca está sempre associada às antíteses e ao exagero discursivo, em
desacordo com a linearidade e a contenção da linguagem clássica. Em
geral, a obra barroca é uma opulência de imagens e símbolos, palavras
e sons, gestos e referências, evidenciando, desse modo, uma angústia
sempre prestes a explodir.

Figura 20.4: Tomé, o incrédulo (Caravaggio).


Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Tom%C3%A9

O BARROCO NO BRASIL

O Barroco é o primeiro estilo literário propriamente dito da histó-


ria do Brasil (não necessariamente o primeiro autenticamente brasileiro),
visto que a fase literária que o antecedeu, conhecida como Quinhentis-
mo, não foi caracterizada por textos efetivamente artísticos. Em geral,
quando se fala da arte barroca brasileira, remete-se imediatamente às
igrejas mineiras do século XVIII. Pode-se supor nisso certa incoerência,

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