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A caneta, nervosa, serpenteia em movimentos circulares nos dedos da mão.

O punho
esquerdo sustenta um tarol ritmado de um samba do nervosismo. Enquanto isso, os
olhos revezam tirolezas entre o relógio de parede e o tímido relógio digital empoleirado
no pulso anêmico.
Oi. Bom dia. Boa tarde? Nada presta atrás dos óculos refletidos no espelho do corredor.
Contato. Sorriso. Convite.
Agora eu que tenho que saber. Doutor? Volta tudo e começa de novo.
A garganta aperta e o ar se preenche de palavras e emoções transpiradas pela boca em
hipertensa maratona verbal. Se o paciente é a criança, talvez seja ela quem queira falar.
Porta. Até. Olá.
Aos poucos o tímido tatu-bola se abre e inicia jogos que nem eu, nem ele
compreendemos como fazer. Fala baixo. Pergunto. Responde. Não sabe. Não sei. Tudo
novo nesse silencio que faz barulhar o coração inquieto por aprender a escutar. Nem
fácil, nem óbvio. Nas massas de modelar, modelos desfilam as passarelas da mesa em
forma de cobras que não cansam de se desfazer, crescer e diminuir. Irmãos? Vários.
Maior é mais forte. Mas veja só! O pequeno e mais fraco, de repente, é o mais forte!
Vou dormir com meus pesadelos?
Talvez.
Até semana que vem.
O que parece ter soçobrado, no papel, emerge em questões e narrações que tecem um
fio soturno e solitário de início de um mosaico. Ninguém sabe se e quando ele acaba.
Mas ali está iniciado um texto de palimpsestos.
Em português, escrever é ver e rever. Ir. Voltar. Pensar, repensar. O lento assassinato do
lápis pelo papel faz sangrar, em palavras, garatujas de algo que ainda não é. Talvez
tenha sido no mês que vem, mas ainda não sabemos.
Em francês, écrire é rir (rire). Um regozijo de compreensão ao fragmentar aforismas
ficcionais de cenas que aconteceram de outro jeito. Uma associação livre e curiosa de
palavras que produzem um texto alinguístico e atemporal. Quiçá anacrônico e
paradoxal.
Sintoma? Neurose? Demanda?
Paciência, calma e apreensão.
Escrever, no fim, é desenhar um sentido sem direção. Ainda. É uma aposta, uma
organização, um lembrete, uma excitação. É, enfim, uma produção. De quê? De algo.
Algos. Algas. Lagos. Pode ser tudo, menos qualquer coisa.

João Miola