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R E V I S TA P O R T U G U E S A

DE

CIÊNCIAS VETERINÁRIAS
Lisboa • Ano 108º • Vol. CIV • Nº 569-572 • pp 1 - 90 • Jan - Dez 2009

Propriedade Sociedade Portuguesa de Ciências Veterinárias


NIPC - 501 334 327

Fundador João Viegas Paula Nogueira

Director José Pimentel de Carvalho

Editor Yolanda Vaz

Co-editor José Alexandre Leitão

Conselho Editorial Cristina Lobo Vilela


José Robalo Silva
José Pedro Lemos
José Oom Vale Henriques
Luís Anjos Ferreira
Telmo Pina Nunes

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Publicidade Sociedade Portuguesa de Ciências Veterinárias

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Design Gráfico e Paginação Maria José Beldock

Pré-impressão e Impressão Direcção Geral de Veterinária

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Os trabalhos submetidos para publicação são analisados por especialistas


Papers submitted for publication are peer reviewed

A Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias foi fundada em 1902

Publicação Semestral
Tiragem 1000 exemplares
Preço 25,00 Euro
Índice

Artigos de revisão
Nutrigenômica: situação e perspectivas na alimentação animal 5
Nutrigenomics: state of the art and perspective in animal feeding
Fernanda M. Gonçalves, Marcio N. Corrêa, Marcos A. Anciuti, Fabiane P. Gentilini,
Jerri Teixeira Zanusso, Fernando Rutz

Abordagem clínica de feridas cutâneas em equinos 13


Clinical approach in equine skin wounds
Júlio C. Paganela, Leandro M. Ribas, Carlos A. Santos, Lorena S. Feijó, Carlos E.W. Nogueira,
Cristina G. Fernandes

Utilização de bloqueio anestésico para exodontia do dente carniceiro em cão 19


Block anesthesic used to do exodontia of canassial tooth in dog
Víviam N. Pignone

Memórias científicas originais

Transferência embrionária em bovinos leiteiros na Ilha Graciosa (Açores): programa 25


experimental de transferência de embriões sexados e congelados da raça Holstein Frísia
Embryo transfer in dairy cattle at Graciosa Island (Azores): an experimental trial of sexed
and frozen-thawed transfer of Holstein Friesian embryos
João Chagas e Silva

Exatidão da ultra-sonografia para diagnóstico de gestação aos 28 dias após inseminação 31


e sua contribuição na eficiência reprodutiva em fêmeas Nelore e cruzadas
Accuracy of the ultrasonography for pregnancy diagnosis at 28 days after insemination
and its contribution in the reproductive efficiency on Nelore and crossbred females
Adriana Gradela, Thiago Danieli, Tiago Carneiro, Denílson Valin Torres,
Cássio Roberto Gradela, Vanessa Sobue Franzo

Estudo do balanço eletrolítico alimentar para suínos machos castrados em acabamento 37


mantidos em ambiente de alta temperatura
Study of feed electrolyte balance of finishing castrated male pigs under high environmental
temperature
Anilce A. Bretas, Rony A. Ferreira, Patrícia C.B. Vale, Humberto P. Couto, Walter E. Pereira

Estudo casuístico de dermatites por reacção de hipersensibilidade em cães e gatos 45


Case study of dermatitis hypersensitivity reaction in dogs and cats
Sílvia Silva, Sara Peneda, Rita Cruz, Helena Vala

Parâmetros ecocardiográficos de cães cronicamente infectados com Trypanosoma cruzi 55


(Cepa Colombiana)
Echocardiographic parameters of dogs chronically infected by Trypanosoma cruzi
(Colombian strain)
João P.E. Pascon, Marlos G. Sousa, Aparecido A. Camacho

Caracterização de agressões entre canídeos (83 casos) 61


Characterization of dog-to-dog aggression (83 cases)
Sofia Mouro, Cristina L. Vilela, Manuela R.E. Niza
Avaliação bacteriológica de anéis de lula, Dorytheutis plei (Blainville, 1823) (Mollusca: 71
Cephalopoda), congelados e irradiados
Bacteriological evaluation of squid rings, Dorytheutis plei (Blainville, 1823) (Mollusca:
Cephalopoda), frozen and irradiated
Flávia A. A. Calixto, Robson M. Franco, Eliana F. M. Mesquita, Helio C. Vital, Erika Murayama

Comunicações breves

Redução de fenda palatina, secundária a tumor venéreo transmissível, com obturador 77


palatino
Reduction of cleft palate, secondary to transmissible venereal tumor, with palatal prosthesis
Liliana M. R. Silva, Fernando J. R. Magalhães, Ana Margarida A. Oliveira, Maria Cristina O. C.
Coelho, Sílvia V. Saldanha

Tronco celíaco-mesentérico em gato 83


Celiac mesenteric trunk in cat
Magno S. Roza, Fernanda M. Pestana, José M.F. Hernandez, Bárbara X. Silva, Marcelo Abidu-
Figueiredo

Electrocution accident in free-ranging bugio (Alouatta fusca) with subsequent amputation 87


of the forelimb: case report
Acidente elétrico em bugio de vida livre (Alouatta fusca) com consequente amputação do
membro torácico: relato de caso
Melissa P. Petrucci, Luiz A. E. Pontes, Fábio F. Queiroz, Márcia C. Cruz, Diogo B. Souza,
Leonardo S. Silveira, Ana B. F. Rodrigues
ARTIGO DE REVISÃO R E V I S TA P O R T U G U E S A
DE
CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Nutrigenômica: situação e perspectivas na alimentação animal

Nutrigenomics: state of the art and perspective in animal feeding

Fernanda M. Gonçalves*, Marcio N. Corrêa, Marcos A. Anciuti,


Fabiane P. Gentilini, Jerri Teixeira Zanusso, Fernando Rutz
Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil

Resumo: O objetivo desta revisão é relatar a situação de this area of knowledge will contributed for a better used of diets
estudos em nutrigenômica em sistemas de produção animal ingredients, which represented a considerable high cost in the
discutindo perspectivas quanto à utilização prática das inter- activity. The needed to offer natural and available ingredients in
ações entre nutrição e genótipo e os benefícios produtivos animal diets motivates research in animal nutrition and feeding
relacionados. A importância da nutrição para a saúde e sua into the explanation of the acting mechanism of the nutrients in
influência na ocorrência de doenças já é comprovada cientifica- organics systems in order to increase the performance and
mente por instituições de pesquisa. A conversão metabólica de sanitary condition of animals. According to that, this review will
componentes da dieta atua como um mecanismo de controle address the application of nutrigenomics concepts in animal
para a expressão genética. Desta forma, estudos em nutri- production systems and the research development in this field.
genômica têm despertado o interesse de cientistas, buscando
entender a maneira como a alimentação regula a expressão de
genes. O conhecimento de que a interação dieta-genoma possa
contribuir para resolução de doenças crônicas ainda é discutido Introdução
mundialmente, e o mecanismo de atuação de componentes
dietéticos em nível molecular, ainda não foi evidenciado. Em
sistemas intensivos de produção animal, esta área de estudos Em sistemas de produção animal que visam obter
contribuirá para um melhor aproveitamento dos ingredientes alimentos para consumo humano, a maior parte dos
das rações os quais representam um percentual considerável nos custos, independente da espécie animal a ser explora-
custos de produção. A necessidade em fornecer ingredientes da, concentra-se nas despesas com a alimentação dos
naturais e biodisponíveis em dietas para animais, motiva a pes-
rebanhos. Estima-se que tal despesa represente de
quisa em nutrição e alimentação animal para o conhecimento de
como determinados nutrientes irão atuar nos sistemas orgânicos 70 a 80% do total de recursos despendidos em um
e, conseqüentemente, melhorar o desempenho zootécnico e sistema de produção animal intensivo. A precisão
padrão sanitário dos efectivos animais. De acordo com o que foi na determinação dos ingredientes ideais que irão
descrito, o artigo de revisão abordará a aplicação desta ciência favorecer índices zootécnicos de interesse pode ser a
em sistemas de produção animal bem como os estudos já
solução para reduzir esse custo com alimentação
desenvolvidos nesta área.
(Berchielli et al., 2006).
Summary: The aim of this review is to discuss the worldwide Um adequado consumo de macro e micronutrientes
studies in nutrigenomics applied in farm animals systems, que considere a idade, a constituição genética e o
considering the perspectives about practical applications of metabolismo de cada indivíduo, permite uma melho-
nutrition gene interaction for animal health and the related
ria na saúde e na eficiência produtiva a um baixo custo
benefits. The value of nutrition for health and its influence in
many diseases is proved by researches laboratories and institu- em relação a outros procedimentos (Ames, 2004).
tions. The metabolic conversion of chemical elements of diets A importância da interação entre nutrição e saúde é
also acts like a control mechanism for genetic expression. evidente em um sistema de produção animal, ainda
Therefore, the interest of nutrigenomics researches appears to que fatores ligados a ambiente e manejo também
be stronger, were scientific communities searches for answers
influenciem o desempenho produtivo do indivíduo e
about how food can regulated gene expression. The evidences of
diet and genome interaction contribution for the wellness in do rebanho por conseqüência. Nesse contexto, alguns
chronic diseases conditions still remains in discussion, and the alimentos poderão apresentar-se como componentes
mechanisms by which nutrients perform molecular changes are bioativos na proteção do organismo contra enfermi-
still to be explained. In intensive animal production systems, dades que possam acometer os rebanhos (Afman e
Muller, 2006; Ferguson, 2006), sendo que alguns
elementos como, selênio, vitamina E, ácido ascórbico
e carotenos, por exemplo, já foram identificados como
agentes protetores.
*Correspondência: fmedeiros_fv@ufpel.edu.br Com o desenvolvimento de métodos bioquímicos e
Tel/fax: +55 53 32757274 de técnicas de biologia molecular, a elucidação dos

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mecanismos químicos de ação de constituintes da As informações obtidas a partir de estudos de nutri-


dieta, assim como seus efeitos subseqüentes em genômica poderão orientar para a elaboração de uma
mecanismos homeostáticos relacionados à condição dieta mais específica considerando a condição de
de saúde ou doença, está avançando de forma rápida e saúde dos animais e a composição nutricional dos
gradual. O mapeamento do genoma humano e ensaios alimentos, o que poderá proporcionar melhores
realizados em modelos biológicos também possibili- respostas metabólicas e, conseqüentemente, de
taram a condução de estudos e a identificação de produção. Esta nova ciência permitirá a prevenção de
genes responsáveis por reações específicas ligadas a doenças importantes em humanos como obesidade,
mudanças dietéticas em indivíduos susceptíveis a hipertensão e diabetes, bem como otimizar as terapias
determinadas enfermidades. Ainda que parte da para estas enfermidades. Em animais também poderão
informação sobre os genes que constituem o código ser prevenidas enfermidades prevalentes, em especial
genético, suas respectivas localizações no cromosso- àquelas ligadas a condição nutricional do indivíduo
ma, estrutura e função tenham sido identificadas, (Sedová e Seda, 2004), como é o caso da cetose, por
ainda serão necessários estudos sobre a forma exemplo, uma enfermidade de etiologia metabólica a
orquestrada em que os genes atuam no metabolismo qual acomete principalmente rebanhos leiteiros com
(Marti et al., 2005). Essas interações são estudadas condição corporal acima do preconizado no momento
pela genômica da nutrição, ciência conhecida como do parto (Ingvartsen, 2006). Desta maneira, poderão
nutrigenômica. O termo faz referência ao modo como ser prevenidas doenças de origem metabólica em
certos nutrientes interagem com os genes de um função de uma correta nutrição dos rebanhos
sistema orgânico em particular, favorecendo a síntese (Goodacre, 2007), através do mapeamento de genes
de proteínas de forma benéfica ao indivíduo. relacionados a expressão de determinadas característi-
Atualmente, muitas publicações na área de nutrição e cas da espécie, sexo, padrão racial, genético e que
saúde humana têm utilizado conceitos de nutri- potencialmente sejam suprimidos por componentes
genômica para estudar a prevenção e, em menor funcionais das dietas. Em aves domésticas, já foram
potencial, o tratamento de doenças multifatoriais descritas várias diferenças no pareamento de bases
(Sedová e Seda, 2004; Ferguson, 2006; Trujillo et al., (2,8 milhões) entre linhagens (International Chicken
2006). Assim, trata-se de uma área da ciência em Polymorphism Map Consortium, 2004), evidenciando
expansão e que ainda necessita de muitos estudos para a ampla diversidade genética em uma mesma espécie
que ações sejam adotadas a fim de maximizar os e, até mesmo, em um mesmo gênero.
benefícios do melhor entendimento das interações A utilização das ferramentas para a pesquisa em
gene-nutrientes. Ainda são escassos na bibliografia nutrigenômica permitirá estudar os mecanismo de
mundial, estudos ou revisões que procurem informar nutrientes ou alimentos bioativos sobre a expressão
técnicos e pesquisadores dedicados as áreas de (transcrição e tradução) e sobre o metabolismo de
ciências biológicas e agrárias sobre os conceitos e genes, especialmente sobre o mecanismo molecular e
aplicações da nutrigenômica em sistemas de produção requerimento de nutrientes (Jiang et al., 2004; Trujillo
animal. et al., 2006), bem como sobre a forma em que
O objetivo desta revisão é relatar a atual situação alimentos bioativos podem interagir entre si. Neste
de estudos de nutrigenômica bem como discutir contexto a nutrigenômica apresenta algumas premis-
perspectivas do conhecimento e entendimento das sas básicas (Trujillo et al., 2006):
interações entre nutrição e genótipo para a saúde - a dieta e os componentes dietéticos podem alterar
animal e, conseqüentemente, os benefícios produtivos o risco de desenvolvimento de doenças, modulando os
relacionados. processos múltiplos envolvidos com o início, a
incidência, a progressão e/ou severidade;
- os componentes do alimento podem agir no
Nutrigenômica: estado da arte genoma, direta ou indiretamente, alterando a
expressão dos genes e dos produtos destes;
A combinação de dados através de projetos - a dieta pode potencialmente compensar ou
para mapeamento do genoma das espécies, e a acentuar efeitos de polimorfismos genéticos;
disponibilidade de ferramentas de alta tecnologia para - as conseqüências de uma dieta são dependentes do
a investigação da expressão gênica, permitem o estado da saúde ou da doença e da genética de cada
esclarecimento sobre a complexa interação entre indivíduo;
nutrição e genoma a qual afeta diretamente a função - intervenções na dieta baseadas fundamentalmente
celular. Embora a nutrigenômica seja uma ciência no conhecimento das necessidades nutricionais e no
recentemente descoberta, o conhecimento de que genótipo, podem ser utilizadas para o desenvolvimen-
componentes dos alimentos afetam a expressão de to de planos nutricionais individualizados que
determinados genes e, por conseqüência, a expressão otimizem a saúde e previnam ou minimizem os efeitos
fenotípica, já esta claramente evidenciada (Bergmann das doenças crônicas.
et al., 2006). A possibilidade de adequar a alimentação às carac-

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terísticas do código genético de cada indivíduo, a fim Estas informações podem auxiliar a descoberta de
de prevenir o desenvolvimento de certa enfermidade novos biomarcadores para o diagnóstico de doenças e
identificada geneticamente, tem estimulado pesquisa- a predição de prognóstico, além de novas alternativas
dores de todo o mundo a aprofundar conhecimentos terapêuticas (Trujillo et al., 2006).
nesse segmento de pesquisa. Em estudos de labo- O surgimento dos estudos em nutrigenômica e em
ratório, pesquisadores já verificaram que a lunasina nutrigenética, dois campos com diferentes abordagens
encontrada na soja, influencia 123 genes envolvidos para a elucidação da interação entre dieta e genes,
no surgimento do câncer de próstata auxiliando a possui um objetivo final em comum: otimizar a saúde
interrupção no crescimento do tumor. Também foi através de uma dieta personalizada e fornecer
evidenciado que o brócolis estimula a ação de genes poderosa aproximação para decifrar a complexa
envolvidos na produção de antioxidantes que atuam relação entre moléculas nutricionais, polimorfismo
mantendo as artérias saudáveis (Moraes e Colla, genético e o sistema biológico por inteiro (Mutch et
2006). Assim como a soja e o brócolis apresentam al., 2005). A nutrigenômica descreve o uso de ferra-
efeitos benéficos para saúde humana, atuando como mentas para investigar um sistema biológico em
coadjuvantes na prevenção de doenças, outros particular, de acordo com um estímulo nutricional
alimentos poderão igualmente atuar como suportes que irá permitir o conhecimento de como nutrientes
em tratamentos de doenças crônicas em animais de influenciam mecanismos metabólicos e de controles
produção, uma vez que sejam estudadas e evidencia- homeostáticos. Por outro lado, a nutrigenética visa
das suas propriedades terapêuticas. Alguns alimentos compreender como o tipo genético de um indivíduo
têm sido estudados a fim de elucidar seus princípios coordena a resposta deste a uma dieta, e isto con-
ativos, entretanto, informações concretas de como siderando o polimorfismo genético. O polimorfismo
estes componentes nutricionais atuam no processo genético é reconhecido como um fator que pode
de síntese de aminoácidos e proteínas, em nível de alterar a resposta a componentes da dieta (efeito da
código genético, e a maneira como serão aplicadas, transcrição nutricional) por influenciar a absorção,
ainda não são totalmente esclarecidas. metabolismo ou sítio de ação (Kussmann et al., 2006).
Na área de clínica veterinária, alguns marcadores
biológicos têm sido utilizados como ferramentas para
diagnóstico definitivo de alguma doença ou, até A nutrigenômica em sistemas de produção
mesmo, como medida de profilaxia. Um exemplo, é a animal
utilização de biomarcadores para a detecção de
exposição à aflatoxinas (Lino et al., 2007), as quais Os estudos que estão sendo realizados na área da
inibem a síntese proteica e do DNA, promovem stress nutrigenômica são, em maior parte, desenvolvidos em
oxidativo, induzem a fragmentação do DNA e inter- humanos. Desta maneira, ainda serão necessários
rompem o ciclo celular (Lino et al., 2004). Nos estu- muitos ensaios para determinar e compreender os
dos em nutrigenômica, utilizam-se técnicas como o benefícios advindos de nutrientes que sabidamente
microarranjo para analisar as adaptações metabólicas são responsáveis por contribuir para um desempenho
que são induzidas pelas variações da nutrição (Bauer produtivo satisfatório, mas que ainda não foram
et al., 2004). O microarranjo (gen chip) é uma técnica consolidados em relação a possíveis interações com
experimental da biologia molecular que busca medir determinados genes em diferentes espécies. Neste
os níveis de expressão de transcritos em larga escala, contexto inserem-se os minerais, nucleotídeos,
isto é, medindo muitos (em alguns casos todos) aminoácidos, as vitaminas, dentre outros elementos
transcritos simultaneamente. O desenvolvimento da orgânicos que podem modificar a transcrição de genes
tecnologia de microarranjo permite aos cientistas uma com o potencial de alterar as respostas biológicas e
ferramenta para examinar sítios potenciais de ação de metabólicas envolvidas em processos como o cresci-
componentes alimentares e suas interações com vários mento e a diferenciação celular.
processos celulares. Com o uso desta ferramenta, Siske et al. (2000) observaram maior peso dos ovos
diversos genes e sua expressão relativa são avaliados quando utilizaram zinco e manganês, ambos na forma
simultaneamente em células normais e doentes, antes orgânica, nas dietas de aves produtoras de ovos. Em
ou depois da exposição a diferentes componentes uma primeira análise, não se observa uma correlação
dietéticos. Como exemplo de tal evolução, cita-se o entre a suplementação de tais minerais e o incremento
progresso do projeto do genoma suíno e de aves, o de solutos e líquidos na composição do ovo. No
qual apresentou consideráveis avanços quanto ao entanto, estes elementos atuam ativamente como
entendimento da seqüência de nucleotídeos associada co-fatores em processos enzimáticos importantes para
a genes específicos de suínos permitiu a produção o organismo. A enzima anidrase carbônica, por
comercial de microarranjos individuais (gen chip) que exemplo, necessita da presença de zinco para catalisar
podem ser utilizados para avaliação de 23256 a reação que produz ácido carbônico a partir de água
transcrições correspondentes a 20201 genes do geno- e dióxido de carbono (Slattery et al., 2004), necessária
ma desta espécie (Caetano et al., 2004). para a formação da casca. É possível que outras

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reações orgânicas sejam direta ou indiretamente e intracelulares contra espécies reativas que danificam
influenciadas por diferentes minerais, e que interações as células, conferindo, conseqüentemente, proteção ao
entre estes e o conteúdo genético do indivíduo conteúdo genético destas estruturas. Souza et al.
ocorram durante a exposição. A utilização de nutri- (2006) relataram efeitos positivos para força de
entes com maior biodisponibilidade ao organismo cisalhamento (força de corte) em músculos de frangos
poderá fornecer as quantidades ideais de um determi- de corte suplementados com níveis crescentes de
nado mineral após o estabelecimento da dieta gênica vitamina E nas dietas, atribuindo esta maior firmeza
para uma raça ou linhagem. à função de proteção da vitamina E às injúrias na
Em um experimento com cobaias, observou-se que membrana celular durante o processo de congelamen-
ratos alimentados com uma dieta pobre em selênio to. Contudo, tal resultado pode ser utilizado para uma
demonstraram um aumento na expressão de genes investigação mais profunda, associando a composição
envolvidos no processo de danificação do DNA, no estrutural muscular de frangos suplementados com
estresse oxidativo e no controle do ciclo celular e, vitamina mais firme à expressão de genes para a
ainda, apresentaram redução na expressão de genes síntese de proteínas estruturais da fibra muscular, por
envolvidos na detoxificação (Sreekumar et al., 2002). exemplo. Desta forma, uma avaliação genômica da
Blanchard et al. (2001) utilizaram arranjos de cDNA ação da vitamina E no organismo animal conduziria a
para demonstrar mudanças na expressão gênica intes- uma determinação mais específica sobre a função
tinal induzida por deficiência de zinco em roedores. estrutural deste nutriente.
Estes estudos indicam que o perfil de expressão Uma questão sobre o selênio interessante de ser
genética pode ser utilizado para a detecção de doses destacada é que estudos demonstraram que este
subótimas de micronutrientes essenciais utilizados mineral reduz a incidência de câncer no fígado,
nas dietas comerciais para as diversas espécies de próstata e nos pulmões de humanos (Clark et al.,
interesse zootécnico. 1996). Entretanto os indivíduos não respondem da
Os componentes do alimento com potencial bioati- mesma forma a suplementação com selênio, já que a
vo modificarão diversos processos simultaneamente. variabilidade genética consiste em um dos fatores que
Assim, um dos desafios no campo da pesquisa é a contribuem para o nível e o tipo de resposta. A
identificação de quais processos, ou a interação entre glutationa peroxidase é uma enzima dependente de
processos, serão mais importantes para proporcionar selênio que atua no sistema antioxidante da membrana
uma mudança fenotípica (Trujillo et al., 2006). Outro celular. Um polimorfismo no códon 198 da glutationa
aspecto relevante a ser observado é a identificação de peroxidase em humanos resulta em uma substituição
quais doenças poderão ser prevenidas ou debeladas de leucina por prolina, sendo este mecanismo associa-
por uma intervenção através da dieta. No estudo da do ao aumento do risco de câncer de pulmão (Singh et
relação nutrição-gene também deverá ser considerado al., 2006). Não foram identificadas neste estudo as
o fator ambiental como um agente modulador da causas que influenciaram este polimorfismo, no
resposta, a qual será única frente às variadas entanto, tal alteração pode estar relacionada a quanti-
condições ambientais. A progressão de um fenótipo dade de selênio que é necessária para otimizar a
saudável para um fenótipo de doença crônica deve atividade da enzima. A eficácia do uso de selênio com
ocorrer por mudanças na expressão de genes ou por diferentes alelos para a glutationa peroxidase não é
diferenças na atividade de proteínas e enzimas totalmente conhecida (Hu e Diamond, 2003).
(Kaput e Rodriguez, 2004), sendo estas ativadas ou A atividade da vitamina D constitui um outro
suprimidas por agentes extrínsecos ao animal. exemplo sobre os efeitos mediados pela expressão
Um grande número de componentes dietéticos pode genômica de receptores para a mesma. Por sua vez,
alterar eventos genéticos e, de tal modo, influenciar a expressão de genes para estes receptores são
a saúde. Além dos nutrientes essenciais, tais como dependentes dos níveis de cálcio na dieta e do
cálcio, zinco, selênio, folato, vitaminas C e E, existe consumo de Vitamina D (Slattery et al., 2004). Dada a
uma variedade de classes de nutrientes não essenciais importância desta vitamina nos mais diferentes
e de componentes bioativos que parecem influenciar processos fisiológicos dos animais, informações que
de maneira significativa a saúde. Estes compostos possam maximizar os benefícios de seus efeitos,
essenciais e não essenciais do alimento, sabidamente implicaram em novas aplicações de conceitos
modificam um número de processos celulares nutricionais na formulação de dietas para animais de
associados à prevenção de doenças, incluindo o produção.
metabolismo carcinogênico, o balanço hormonal, A nutrigenômica em nutrição animal promete ser
mecanismos de sinalização celular, controle do ciclo uma alternativa de grande utilidade principalmente em
celular, apoptose e angiogênese (Davis e Uthus, sistemas de produção intensiva, onde a alimentação
2004). A vitamina E, por exemplo, é um potente contribui, associada a outros fatores inerentes ao
seqüestrador de radicais livres e o mais poderoso ambiente e métodos de manejo, com uma parcela
antioxidante lipossolúvel da natureza (Souza et al., significativa para a melhoria do desempenho zootéc-
2006), sendo associada à defesa das membranas extra nico dos lotes, bem como na rentabilidade econômica

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das unidades. Para este aumento na eficiência como “um alimento em que está satisfatoriamente
biológica, a aplicação de novas tecnologias em demonstrado possuir efeito benéfico em uma ou mais
produção animal serão responsáveis por custos de funções fisiológicas alvo, para promover a saúde e
produção mais baixos e competitivos. Nos domínios bem-estar e/ou reduzir o risco de doença”. Um
metabólico, genético, reprodutivo e produtivo, novas alimento funcional deve assim configurar-se, e seus
técnicas que não apresentem riscos à saúde pública efeitos devem ser demonstrados em doses que possam
e que sejam eticamente aceitas pelo consumidor, ser normalmente esperadas em uma dieta. Embora
permitirão aplicar no próximo século e nos sistemas associado, este conceito não deve ser confundido
de produção intensiva, tecnologias de produção com o conceito de nutracêutico, o qual se refere a
que incrementem o setor primário de produção de um composto químico presente naturalmente nos
alimentos (Portugal, 2002). alimentos ou substâncias encontradas naturalmente
Os princípios de nutrigenômica a serem aplicados na natureza possíveis de ser ingeridas, como as
para animais de produção, poderão não ter somente o ervas aromáticas, por exemplo, que sabiamente são
objetivo de prevenir doenças relacionadas a alterações benéficas para o organismo humano na prevenção ou
genéticas, mas também correlacionar à utilização de tratamento de uma ou mais doenças, reforçando as
certo nutriente em uma dieta animal com o aumento reações fisiológicas.
de índices produtivos. As descobertas a serem reali- Embora, a maioria das substâncias de ocorrência
zadas na próxima década utilizando ferramentas natural benéficas a saúde originem-se de plantas,
moleculares, tais como os microarranjos, irão revolu- também existem diversos componentes fisiologica-
cionar nosso entendimento básico sobre a fisiologia mente ativos em produtos de origem animal que
dos rebanhos e auxiliarão a definir novos métodos devem ser destacados devido a função em potencial na
para o controle nutricional dos animais. Em longo promoção de saúde como, por exemplo, os ácidos
prazo, provavelmente a transcrição destes perfis será graxos conjugados encontrados em produtos cárneos,
capaz de fornecer diversas ferramentas elementares principalmente (Prates e Mateus, 2002).
para a avaliação do status nutricional e fisiológico de As recomendações nutricionais variam conforme
um indivíduo, animal ou grupo de animais (Dawson, a espécie, sexo, categoria linhagem ou raça e,
2006). As técnicas utilizadas para a elucidação da considerando estas características, diversos manuais
genômica nutricional não são diferentes daquelas são elaborados baseados em exigências específicas.
utilizadas nas pesquisas em genética molecular. Uma Em muitas situações a formulação das dietas não
rede integrada que simultaneamente examina a permitem a máxima expressão do potencial genético
genética e associa polimorfismo com doenças ligadas dos animais de produção, desconsiderando o manejo
a dietas (nutrigenética), nutrientes induzindo a nutricional como favorecedor do desempenho. A
metilação do DNA e a alteração da cromatina maioria das vezes, tal medida é realizada através
(epigenômica nutricional), nutrientes que induzem de ensaios que avaliam o desempenho dos animais
mudanças na expressão gênica (transcriptômica nutri- submetidos a uma dieta e também por estudos de
cional) que alteram a formação e/ou bioativação de digestibilidade que determina, através das excretas do
proteínas (proteômica) irá permitir um completo animal, a porção do alimento ingerido que realmente
entendimento da inter relação entre dieta e desen- foi aproveitada pelo organismo. Estes ensaios, comuns
volvimento de doenças (Davis e Milner, 2004). nos estudos de nutrição animal, necessitam de um
melhor aproveitamento de seus resultados, sendo
necessário o conhecimento do sistema orgânico que
Alimentos funcionais está sendo favorecido por determinado nutriente.
Nesse sentido, estudos de nutrigenômica permitiriam
O termo “funcional”, bioativo ou nutracêutico, vem o entendimento do efeito de alimentos bioativos nas
sendo aplicado como conceito de alimentos que diversas funções celulares.
proporcionam um benefício fisiológico adicional além Embora os estudos em nutrigenômica tenham
das qualidades nutricionais básicas. Tais alimentos progredido consideravelmente, a complexidade da
também são vistos como promotores de saúde, sendo interação entre nutrientes e genes promove questiona-
muitas vezes associados a um tratamento profilático à mentos ainda não esclarecidos, impossibililitando a
instalação ou retardo de alterações pré- estabelecidas aplicação dos benefícios relacionados a este novo
(Moraes e Colla, 2006). conceito nos sistemas de produção animal.
Variações entre os alimentos ingeridos não somente
influenciam o consumo de componentes bioativos
como alteram o metabolismo celular, influenciando os Conclusão
sítios de ação de ambos nutrientes essenciais e não
essenciais (Milner, 2004). Considerando o que foi relatado nessa revisão,
Segundo Diplock et al. (1999) foi definido consen- entende-se que a variação genética individual pode
sualmente o conceito europeu de alimento funcional influenciar a maneira com que nutrientes são assimi-

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lados, metabolizados, armazenados e excretados pelo Dawson KA (2006). Nutrigenomics: Feeding the genes for
organismo. improved fertility. Animal Reproduction Science, 96,
Certamente o estudo da nutrigenômica permitirá 312-322.
uma maior compreensão de fatores ambientais e Diplock AT, Aggett PJ, Ashwell M, Bornet F, Fern EB,
comportamentais que influenciam o fenótipo, possi- Roberfroid MB (1999). Scientific concepts of functional
bilitando a formulação de dietas que favoreçam a foods in Europe consensus document. Brazilian Journal of
condição de cada sistema de produção animal em Nutrition, 81, 1-27.
especial, personalizando estas unidades de produção. Ferguson LR (2006). Nutrigenomics – Interating genomics
O sucesso em aplicação deste novo conceito em approaches into nutrition research. Molecular Diagnosis
nutrição possibilitará a maximização dos índices de Theraphy, 10, 101-108.
produtividade e, conseqüentemente, a rentabilidade da Goodacre R (2007). Metabolomics of a superorganism. The
atividade agropecuária. Journal of Nutrition. Supplement, 137, 259-266.
Para tal, muitos estudos ainda precisam ser desen- Hu YJ e Diamond AM (2003). Role of glutathione peroxi-
volvidos a fim de identificar e validar o potencial dase 1 in breast cancer Loss of heterozygosity and allelic
de alimentos ou componentes nutricionais que deter- differences in the response to selenium. Cancer Research,
minarão características ou condições desejáveis 63, 3347-3351.
no organismo animal ou mesmo minimizar as não Ingvartsen KL (2006). Feeding and management-related
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11
ARTIGO DE REVISÃO R E V I S TA P O R T U G U E S A
DE
CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Abordagem clínica de feridas cutâneas em equinos

Clinical approach in equine skin wounds

Júlio C. Paganela*, Leandro M. Ribas, Carlos A. Santos, Lorena S. Feijó,


Carlos E.W. Nogueira, Cristina G. Fernandes
Universidade Federal de Pelotas – RS – Brasil

Resumo: Problemas cutâneos são comuns em eqüinos e ferimentos localizados nos membros locomotores.
freqüentemente determinam complicações e dificuldades O Hospital de Clínicas Veterinária (HVC) da
diagnósticas. Devido à alta incidência de lesões cutâneas em
eqüinos registrados no HCV no período de 2000 a 2008, e ao
Universidade Federal de Pelotas/RS disponibiliza
fato de que abordagem de feridas cutâneas em eqüinos está atendimento clínico a eqüinos provenientes da região
ligada à rotina dos profissionais especializados nessa espécie, Sul do Estado do Rio Grande do Sul. Os cavalos da
acredita-se na importância do estudo desse assunto. Assim raça Crioula e os cavalos de tração (carroça) compõem
sendo, o artigo tem por objetivo realizar uma revisão do tema a maioria dos atendimentos na rotina hospitalar. A
abordando os aspectos clínicos do processo cicatricial, compli-
cações na cicatrização e as principais formas de tratamento
partir de um estudo retrospectivo dos casos clínicos
alopático e fitoterápico, com o objetivo de auxiliar o profis- registrados no HVC entre os anos 2000 e 2008, pôde-
sional desde o manejo inicial da ferida até o completo reparo -se registrar alta incidência (37%) de afecções
tecidual. cutâneas entre os eqüinos atendidos. Destes, 63%
sofreram lesões que variaram entre lacerações,
Palavras-chave: feridas cutâneas, cicatrização, eqüinos
perfurações, incisões e contusões. Os 37% restantes
Summary: Skin problems in the horse are a common occur- foram acometidos por neoplasias, dermatites e prolife-
rence and can often be complicated and difficult to diagnose. ração de tecido de granulação exuberante. A grande
Due to the high incidence of equine cutaneous injuries, regis- maioria destas lesões evoluíram para cicatrização,
tered in Veterinarian Clinical Hospital, during the period of sendo que as neoplasias e as cicatrizes exuberantes
2000 to 2008, and considering that the approach of cutaneous
wounds in equines stand together with the routine of equine
foram as alterações com maiores complicações e
practioneers, its necessary to clarify this issue. In this way, clini- demora para resolução.
cal aspects about healing process, proud flesh complications Para alguns autores, a cicatrização da pele é alvo de
and the major allopathic or phytotherapic therapy are rewiwed estudos pelo interesse clínico, científico e econômico
with the aim to support practitioners conduct from the initial (Hussini et al., 2004; Ribas et al., 2005). Em geral a
manipulate of wound until the complete tissue repair.
cicatrização de feridas apresenta prognóstico favo-
Keywords: cutaneous wounds, proud flesh, equine rável, porém as feridas cutâneas freqüentemente
não evoluem do modo desejado. Neto (2003) cita o
exemplo de feridas localizadas nas extremidades
Introdução distais, as quais são, em geral, complicadas pela falta
de tecido de revestimento, má circulação, movimento
Devido ao comportamento ativo e de reações rápi- articular, maior predisposição para contaminação e
das, o cavalo está predisposto a traumatismos (ou conseqüente infecção.
agressões traumáticas ou lesões), principalmente Este artigo de revisão tem por objetivo descrever
quando sua função está associada a atividades esporti- aspectos clínicos da cicatrização por segunda intenção
vas ou de tração. Além dos fatores ligados a sua de feridas cutâneas na espécie eqüina, buscando
natureza, as pastagens sujas e instalações inadequadas contribuir para a definição da abordagem adequada
podem ser consideradas fatores de risco a ocorrência deste tipo de lesão na rotina clínica eqüina.
de feridas traumáticas. Segundo Neto (2003), os feri-
mentos de pele representam uma das mais freqüentes
ocorrências na clínica de eqüídeos, principalmente os Tipos de feridas cutâneas em eqüinos

A classificação das feridas é útil para a seleção do


tratamento apropriado, assim como para a previsão da
*Correspondência: j_paganela@hotmail.com recuperação final. As classificações que se baseiam no

13
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grau de contaminação microbiana incluem lesões fase, substâncias vasoativas, proteínas adesivas,
limpas, limpas-contaminadas, contaminadas e sujas fatores de crescimento e proteases são liberadas e
ou infectadas. Segundo Romatowski (1989) este sis- ditam o desencadeamento de outras fases (Terkeltaub
tema de classificação foi desenvolvido para humanos e Ginsberg, 1998). A vasoconstrição descrita neste
e classifica o nível de contaminação potencial tanto momento ocorre a fim de minimizar a hemorragia.
em feridas eletivas como traumáticas. Em seguida, o processo inflamatório inicia-se com a
Muitas feridas abertas em cavalos estão contami- vasodilatação, migração de células brancas e proteínas
nadas ou sujas no momento inicial do exame devido plasmáticas, propiciando uma barreira de defesa na
à natureza do animal e seu ambiente. Feridas ferida (Stashak, 1994). Nesta fase se consolida a
contaminadas são lesões traumáticas com menos de secreção de proteases como hialuronidase, colagenases
seis horas de evolução, na qual pêlo e outros fragmen- e hemolisinas são responsáveis por inibir a ação bacte-
tos teciduais estão presentes (Daly, 1985). Feridas riana durante a cicatrização, visto que as bactérias
sujas são caracterizadas pela presença de edema e agem prolongando a fase inflamatória (Hackett et al.,
supuração. Entretanto, o tempo entre a ocorrência de 1983)
exposição, aderência e subseqüente multiplicação e A proliferação é dividida em três subfases:
invasão bacteriana do tecido varia dependendo do tipo reepitelização, fibroplasia e neovascularização. Na
e quantidade de organismos presentes. Muitas feridas reepitelização ocorre a migração de queratinócitos
podem ser elevadas à categoria de limpas-contami- não danificados das bordas dos anexos epiteliais
nadas e fechadas após meticulosa limpeza e debrida- quando a ferida é de espessura parcial, e apenas das
mento completo ou radical (Romatowski,1989). margens epidérmicas em casos de feridas de espessura
Classicamente as feridas são divididas em abrasões, total. Os diferentes fatores de crescimento são respon-
contusões, hematomas, incisões, lacerações e per- sáveis pelos aumentos de mitoses e conseqüente
furações. As lacerações são provavelmente as mais hiperplasia do epitélio (Mandelbaum e Santis, 2003).
comuns entre os eqüinos. São geralmente produzidas A fibroplasia ocorre a partir de fibroblastos, os quais
por objetos angulares, tais como cercas de arame são células mesenquimais diferenciadas que proliferam
farpado e por mordidas. Os bordos deste tipo de lesão na região mais superficial da ferida. Concomitante-
são geralmente irregulares e o dano se estende aos mente há o desenvolvimento de novos capilares por
tecidos subjacentes. Outro tipo comum de ferida são brotamento endotelial (Stashak, 1994). A neovascu-
as perfurações, produzidas por objetos cortantes que larização verificada nesta fase fornece metabólitos e
se caracterizam por serem superficiais, pequenas e de oxigênio para nutrir tecido de reparação que prolifera
profundidade variável. São tipos especiais de ferida, na área lesional. A nova rede vascular expande-se
porque embora a perda tecidual seja mínima, a injúria para o centro da lesão proporcionando uma aparência
das estruturas mais profundas após penetração pode rosada e exuberante (Neto, 2003).
resultar em debilidade (Neto, 2003). Para Ribas et al. Neste momento, se estabelece o tecido de granulação
(2005) outro tipo comum de ferida na espécie eqüina que consiste primariamente em vasos sangüíneos neo-
está relacionada ao ambiente e ou tipo de instalação formados, fibroblastos e produtos de fibroblastos,
em que o animal está, tais como cercas, porta de incluindo o colágeno fibrilar, elastina, fibronectina,
cocheira, mata-burro, onde o animal coloca o membro proteases, glicosaminoglicanas sulfatadas e não sulfa-
em local estreito e a partir de movimento brusco, tadas. O tecido de granulação é produzido três a quatro
ocorre a laçada causando dano interno sem lesão dias após a indução da lesão como um passo inter-
externa aparente além da alopecia. Nestes casos mediário entre o desenvolvimento da malha formada
ocorre lesão de tecido subcutâneo com edema, exsu- por fibrina/fibronectina e a reestruturação de colágeno
dação e ruptura da pele. Berry e Sullins (2003). À medida que o fluxo sangüí-
neo e a oxigenação são restabelecidos, o principal fator
desencadeador da angiogênese é reduzido e os vasos
Processo (mecanismos) de cicatrização neoformados começam a diminuir (Neto, 2003).
A partir deste evento, inicia-se a fase de contração
A cicatrização é um processo corpóreo natural de das paredes marginais da lesão. Esta ação é realizada
regeneração concomitante dos tecidos epidérmico e pelos fibroblastos ativados, os quais se diferenciam
dérmico. Após uma lesão, um conjunto de eventos em miofibroblastos. Os miofibroblastos contêm fibras
bioquímicos complexos e orquestrados se estabelece intracelulares de actina e miosina e formam conexões
para reparar a o dano. Usualmente o processo cicatri- especializadas, ou fibronexus, com a matriz extracelu-
cial é dividido em cinco fases principais: coagulação, lar e outras células dentro da cavidade da lesão.
inflamação, proliferação, contração da ferida e remo- Segundo Borjrab (1982) estas propriedades possibili-
delação (Fazio et al., 2000; Mandelbaum e Santis, tam aos miofibroblastos contrair ativamente e gerar a
2003). tensão necessária para fechar o defeito. Os miofibrob-
A fase de coagulação marca o início do processo, lastos aproximam as margens da ferida, forçando as
imediatamente após o surgimento da ferida. Nesta fibras de colágeno a se sobreporem e se entrelaçarem

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e, desta maneira, dar o suporte para diminuir o tama- trização por segunda intenção no manejo de feridas
nho da lesão. são: o nível de contaminação, volume de tecido perdi-
A fase final do processo cicatricial consiste na do e situações em que a cicatrização por primeira
remodelação tecidual. Ao contrário das outras fases de intenção falhou (Neto, 2003).
cicatrização, a remodelação dos componentes do
colágeno e matriz, como ácido hialurônico e proteo-
Complicações na cicatrização cutânea em eqüinos
glicanas, persiste por longo tempo após o ferimento e
é o período no qual os elementos reparativos da cica- As complicações na cicatrização cutânea decorrem
trização são transformados para tecido maduro de de anormalidades em qualquer um dos componentes
características bem diferenciadas (Neto, 2003). básicos do processo de reparo e pode ser agrupadas
As várias fases da reparação não devem ser em: 1) formação excessiva de componentes do reparo;
consideradas como ações seqüenciais. Cada fase da 2) formação de contraturas e 3) a deficiência de
cicatrização deve contribuir com seu efeito no tempo formação de tecido cicatricial (McGavin e Zachary,
e intensidade certos (Fazio et al., 2000; Mandelbaum 2007).
e Santis, 2003). Os mecanismos moleculares que Em eqüinos são reconhecidas especialmente as difi-
regulam as diferentes fases da cicatrização ainda não culdades decorrentes da formação excessiva de tecido
são totalmente compreendidos, porém aparentemente, de granulação em feridas cutâneas localizadas em
as citocinas são mediadores celulares críticos. extremidades. Este aspecto constitui um desafio para
Citocinas são glicoproteínas sinalizadoras lançadas o médico veterinário que elege, para determinados
pela maioria das células nucleadas no corpo, que casos, a cicatrização por segunda intenção como
atuam através de receptores específicos na superfície método de tratamento, seja pelas condições locais e
celular para causar estimulação autócrina, parácrina e tempo decorrente da lesão ou pela falta de tecido para
ou endócrina causando migração celular, proliferação recobrimento.
e síntese (Theoret, 2005). A cicatrização por segunda intenção na porção
distal dos membros em eqüinos pode ser lenta e
Tipos de cicatrização complicada. Estas feridas curam mais lentamente que
aquelas no tronco por exibirem taxas relativamente
Cicatrização por primeira intenção baixas de epitelização e contração (Wilmink et al.,
1999). Berry e Sullins (2003) afirmam que o menor
A cicatrização por primeira intenção ocorre quando
suprimento sanguíneo, menor tensão de oxigênio,
os bordos da ferida estão próximos e se unem nova-
temperatura mais baixa e a presença de quantidades
mente com rapidez. Ocorre em feridas não contami-
insuficientes de citocinas determinam os diferentes
nadas (McGavin e Zachary, 2007).
padrões de cicatrização entre as diversas regiões
O manejo de uma ferida como passível de cicatriza-
anatômicas do eqüino.
ção por primeira intenção é indicada após incisões
Wilmink et al. (1999) relatam que há diferenças na
cirúrgicas, e consiste em aproximar os bordos da lesão
cicatrização entre eqüinos e pôneis. Feridas similares
por meio de suturas, favorecendo a cicatrização devi-
na região dorsal do metatarso cicatrizam lentamente
do a diminuição do tempo da fase inflamatória e de
em eqüinos se comparados com pôneis, devido à
remodelação do colágeno, obtendo uma melhor con-
contração da ferida nos pôneis ser mais intensa ocor-
tração da ferida e posterior reepitelização (Auer e
rer em maior. Análises histológicas das lesões
Stick, 1999; Mandelbaum e Santis, 2003).
mostraram uma fase inflamatória prolongada nos
eqüinos embora com menos organização dos miofi-
Cicatrização por segunda intenção
broblastos comparado com os pôneis (Wilmink et al.,
As feridas cujos bordos estão distantes, não 1999). As taxas lentas de epitelização foram atribuídas
apresentam uma aposição dos mesmos ou ainda que à inibição de células migratórias e inibição da ativi-
estejam contaminadas por agentes infecciosos ou dade mitótica pelo tecido exuberante de cicatrização
contenham corpos estranhos, geralmente cicatrizam (Bertone et al., 1985).
pelo processo de segunda intenção (McGavin e Embora não se possa definitivamente acelerar o
Zachary, 2007). processo de cicatrização, é importante entender que
A cicatrização por segunda intenção é complexa e vários fatores afetam adversamente a taxa de cica-
uma ferida é tratada como tal, quando a cicatrização trização das feridas. Entre estes fatores está a má
por primeira intenção não é justificável. Depende nutrição, hipovolemia, hipotensão, hipóxia, hipoter-
inteiramente da neovascularização e remodelação da mia, infecção, trauma e o uso de medicamentos de
matriz celular para restaurar a perda de tecido através ação anti-inflamatória (Neto, 2003). Vale lembrar que
da contração da ferida para restabelecer a tensão nor- para Blackford et al. (1991) o efeito de uma única
mal do tecido e reduzir o tamanho da cicatriz (Auer e dose de esteróides em cavalos pode não criar um
Stick, 1999). impacto nas diferentes fases de cicatrização, assim
Fatores que contribuem para a utilização da cica- como flunixina de megluminaqualitativamente não

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parece influenciar a fase proliferativa ou as fases gico, o qual consiste na remoção de tecido morto e
subseqüentes da cicatrização de feridas (Lefebvre- desvitalizado para reduzir os níveis de bactérias
Lavoie et al., 2005). patogénicas e oportunistas. A irrigação ou lavagem é
Sabe-se ainda que a presença de um número maior um meio comum para limpeza de feridas traumáticas.
que 105 bactérias por grama de tecido lesional Os benefícios gerais da lavagem da ferida incluem a
significa que, se a ferida não tiver assistência, não remoção de pequenas e grandes partículas endógenas,
cicatrizará por primeira nem por segunda intenção bactérias e tecido desvitalizado (Auer e Stick, 1999).
(Hackett et al., 1983). O uso de bandagens ou gesso minimiza a formação
de tecido exuberante de granulação pelo seu efeito de
imobilização e por evitar contaminações. O enfaixa-
Tratamento mento da ferida ainda protege contra traumas e
dissecação, além de aplicar pressão superficial e
Ainda que muitas alternativas diferentes de trata- manter o medicamento tópico na área lesionada.
mento sejam reconhecidamente satisfatórias para o As combinações de anti-inflamatórios esteróides e
manejo de determinada ferida, o método selecionado antibióticos tópicos diminuem marcantemente a
deve fornecer um ambiente favorável, permitindo produção de líquidos, permitindo trocas menos
progressão natural para não retardar processo de freqüentes de bandagens. Em estudo realizado com
reparação (Neto, 2003). um pequeno grupo de animais, as lesões tratadas com
Em relação à conduta clínica, a cicatrização por esteróides tópicos cicatrizaram mais rápido do que
segunda intenção é recomendada em função do tempo aquelas nas quais eles não foram utilizados (Barber,
decorrido, do grau de contaminação e da perda de 1989). São necessários mais estudos, com um maior
tecido lesado (Hussni et al., 2004). O tratamento número de animais para avaliar o seu benifício nestes
baseia-se na higienização da lesão e conseqüente- casos. Histologicamente, não se observou nenhuma
mente o curativo local com pomadas que favorecem a diferença entre feridas tratadas com combinação de
cicatrização. Existe uma variedade de preparações esteróides e antibióticos e aquelas tratadas de outra
tópicas para a cicatrização de feridas em eqüinos, maneira (Blackford et al., 1991).
porém, a escolha e composição do fármaco a ser usada
deve ser avaliada criteriosamente, já que muitos destes
Tratamento alopático
produtos são ineficientes e caros, ou prejudiciais à
cicatrização, por serem irritativos ou estimularem a Para o tratamento de feridas recomenda-se a
proliferação de tecido de granulação exuberante aplicação de antimicrobianos na lesão, no qual desta-
(White e Maltodextran, 1995). Além disso, é neces- ca-se o uso do iodo-povidine (Moens et al., 1980).
sário avaliar a localização anatômica da lesão para Soluções de iopo-povidine estão disponíveis comer-
estabelecer o prognóstico e tratamento adequado. cialmente em várias formulações (solução, creme,
Embora Wilmink et al. (1999) tenha mostrado que a spray). Diversos estudos in vitro realizados por Payne
melhor taxa de contração é a razão pela qual as feridas et al. (1999) evidenciaram a eficácia do iodo-povidine
no corpo curam significativamente mais rápidas do como um agente anti-séptico, já que seus compo-
que as localizadas nos membros de eqüinos, nenhum nentes possuem ação de amplo espectro contra
tratamento é ainda viável para superar os fenômenos bactérias, esporos, fungos, leveduras, vírus e proto-
particulares na cicatrização, tal como a proliferação de zoários. Este composto é disponível comercialmente
tecido de granulação exuberante. Hanson (2006) rela- em várias formulações como solução, creme e spray,
ta que para este caso é indicada a remoção cirúrgica sendo sua concentração ideal entre 0,1 e 0,2% (10-20
por ser um método simples e eficaz, comparada a ml p/ 1000 ml) para a lavagem da ferida, pois soluções
outros métodos como o uso de drogas cáusticas. mais concentradas podem ser citotóxicas para os neu-
Pomadas a base de Ketanserina são efetivas na trófilos (Stashak, 1994). Solução de iodo-povidine
prevenção da formação de tecido exuberante nos com açúcar cristal, combinados até atingir uma
membros dos eqüinos. Este princípio tem ação consistência pastosa, constitui um agente hipertônico
antagônica na indução de serotonina, um mediador da que age por osmose para retirar o exudato da ferida
atividade de macrófagos. (Berry e Sullins, 2003).
O manejo inicial é direcionado para isolar a ferida A água oxigenada tem sido amplamente usada como
de contaminantes de origem exógena e endógena e anti-séptico e desinfetante e é amplamente utilizada
preparar a pele vizinha para a manipulação durante o como anti-séptico na concentração de 3%, devido ao
tratamento e cicatrização. Na área ao redor da ferida seu largo espectro antibacteriano, principalmente para
deve-se realizar tricotomia e preparação antisséptica bactérias Gram positivas e algumas Gram negativas
para facilitar uma avaliação precisa da mesma e estru- (Drosou et al., 2003).
turas adjacentes (Auer e Stick, 1999). Soluções tópicas a base de clorexidina são fre-
O aspecto mais importante na preparação de feridas quentemente utilizadas no tratamento de feridas. Tem
traumáticas para cicatrização é o desbridamento cirúr- ação antibacteriana em Staphylococcus aureus,

16
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Pseudomonas aeruginosa e bactérias não esporuladas sem processos irritativos ou presença de secreções.
(Payne et al., 1999). Martins e Alves (2003) compararam o uso tópico de
A eficácia do tratamento a base de clorexidina não fitoterápicos na cicatrização cutânea em eqüinos,
é bem caracterizada. Em revisão feita por Drosou et avaliando as observações macroscópicas, histopa-
al. (2003), vários trabalhos relatam a utilização de tológica e a retração centrípeta do halo da lesão nos
clorexidina, porém o autor conclui que os resultados primeiros quinze dias. Esse estudo demonstrou que o
são insuficientes para afirmar sobre a melhora na barbatimão (Stryphnodendron barbatimao Martius)
cicatrização, principalmente em feridas abertas. teve efeito benéfico na cicatrização, seguido pela
Embora a nitrofurazona tenha efeito antimicrobiano calêndula (Calendula officinalis). Os resultados do
contra microorganismos Gram-positivos e Gram- grupo controle foram superiores ao confrey
-negativos, segundo Berry e Sullins (2003) não deve (Symphitum officinalis).
ser utilizada, já que demonstrou retardo na contração
da ferida, epitelização e reparação no geral.
O mel de abelha tem muitas propriedades, incluindo Considerações finais
um amplo espectro com ação antimicrobiana, ação
antiinflamatória além de estimular novos fatores de A elevada incidência de lesões cutâneas na espécie
crescimento de tecido. O efeito estimulatório do mel eqüina, demonstrada na rotina do Hospital de Clínicas
na cicatrização de feridas pode estar relacionado a Veterinária, mostra a demanda por técnicos capacita-
auto regulação de citocinas inflamatórias nos monó- dos, seja tratador ou cavalariço que realizem serviços
citos (Tonks et al., 2003). de enfermagem, tal como curativos. Pois o Médico
Os enxertos biológicos derivados de tecidos como Veterinário intervindo de maneira correta, na rotina de
pele ou placenta são relatados como promotores da clínica de eqüinos mostra que protocolos baseados na
cicatrização por retardarem a formação do tecido higiene diária, com limpeza das feridas, retirada do
exuberante de cicatrização, visto que induzem uma tecido morto, proteção e hidratação são efetivos na
resposta inflamatória branda, promovem e mantém um maioria dos casos, exceção nas neoplasia.
ambiente úmido que conduz a regeneração e migração E que apesar de a cicatrização, principalmente nos
de células epiteliais e agem como uma barreira membros locomotores dos equinos ser mais lenta
anti-bacteriana que protege a ferida contra infecções devido a fatores como: maior facilidade de contato
(Purna e Babu, 2000). com sujidades, pouco tecido e menor vascularização.
A orientação de pessoal treinado para seguir realizan-
do curativos diários é essencial para o sucesso do
Tratamento fitoterápico
tratamento.
A literatura refere o uso de fitoterápicos em
diferentes enfermidades com diversas indicações
terapêuticas, sendo alguns deles de uso consagrado e Bibliografia
pertencentes à farmacopéia (Heggers e Kucukcelebi,
1995). Auer JA e Stick JA (1999). Wound Management..in: Equine
Muitos estudos são realizados na tentativa de se surgery. Philadelphia: WB Saunders. 2ª ed., 937.
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colágenas e glicosaminoglicanas pelos fibroblastos. tion tissue formation in wounds of the distal aspect of the
De acordo com Souza et al. (2006) o uso do creme à limbs in horses. Am J Vet Res, 64, 88–92.
base de Triticum vulgare aumentou o número de vasos Bertone AL, Sullins KE, Stashak TS (1985). Effect of
sangüíneos neoformados encontrados durante o perío- wound location and the use of topical collagen gel on
do inicial da reparação das feridas tratadas em relação exuberant granulation tissue formation and wound
aos controles, demonstrando que o tratamento influen- healing in the horse and pony. Am J Vet Res, 46,
ciou de maneira positiva no processo de cicatrização. 1438–1444.
A babosa (Aloe vera) é um excelente cicatrizante e Blackford JT, Blackford LW, Adair HS (1991). The use of an
antinflamatório, devido aos seus constituintes, antimicrobial glucocorticosteroid ointment on granulating
principalmente os mucilaginosos, o que a torna uma lower leg wounds in horses. In: AAEP Proceedings.
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primeiro apresentou tempo de cicatrização menor, co-cirúrgico de feridas cutâneas agudas e crônicas.

17
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18
ARTIGO DE REVISÃO R E V I S TA P O R T U G U E S A
DE
CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Utilização de bloqueio anestésico para exodontia do dente carniceiro em


cão

Block anesthesic used to do exodontia of canassial tooth in dog

Víviam N. Pignone*
Associação Brasileira de Odontologia Veterinária (ABOV)
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Resumo: A utilização de bloqueios anestésicos pelos médicos Introdução


veterinários está sendo mais empregada na rotina, associada à
anestesia geral, especialmente na odontologia veterinária. Os
bloqueios regionais de nervos são os mais empregados,
O controlo da dor, tanto na medicina humana como
destacando-se aqueles realizados no nervo infra-orbitário, na veterinária, tem se destacado nos últimos anos. A
maxilar, mentoniano e alveolar inferior. O quarto pré-molar utilização de bloqueios anestésicos tem sido cada vez
superior, também conhecido como "dente carniceiro", é o maior mais empregada na rotina, associada à anestesia geral,
dente dos carnívoros, responsável por rasgar os alimentos. Por sobretudo durante os procedimentos odontológicos
ser um dente muito utilizado, é mais predisposto a afecções,
como fratura dental com ou sem exposição pulpar, lesão
em animais (Lopes e Gioso, 2007).
periapical e doença periodontal podendo o cão desenvolver uma A anestesia local apresenta alguns benefícios
fístula infraorbitária. Embora existam tratamentos que zelam destacando-se a diminuição da sensibilização central à
pela preservação do elemento dental, como cirurgia periodontal dor, a minimização da reação tissular inflamatória,
e tratamento endodôntico, muitas vezes os proprietários optam redução da quantidade de anestésico geral requerida
pela exodontia deste dente, sendo o custo do procedimento um
dos fatores limitantes. O presente artigo tem como objetivo
durante o procedimento cirúrgico, e diminuição da
apresentar as principais causas de exodontia do dente dose e freqüência dos analgésicos empregados no pós-
carniceiro, mostrando como é feita a exodontia mediante des- -operatório (Hellyer e Gaynor, 1998; Holmstrom e
sensibilização da área através de bloqueio anestésico. Frost-Fitch, 1998; Gross e Pope, 2002).
Os bloqueios regionais de nervos são mais comu-
Summary: The utilization of anesthetic blocks by veterinarians
is becoming more widely employed in the routine, pertaining to
mente empregados nos procedimentos odontológicos
general anesthesia, especially in veterinary dentistry. The em animais, sendo que os mais utilizados são o
regional nerve blocks are the most commonly used, especially bloqueio infra-orbitário e bloqueio maxilar, na maxila,
those performed on the nerves infraorbital, maxillary, mental e bloqueio mentoniano e bloqueio alveolar inferior, na
and inferior alveolar. The fourth upper premolar, also known as mandíbula (Lopes e Gioso, 2007; Holmstrom e Frost-
"carnassial tooth," is the largest carnivorous tooth, used for tear-
ing meat. Being a very used tooth, it is more prone to
Fitch, 1998).
affection, such as dental fracture with or without pulpal expo- Dentre os 42 dentes permanentes apresentados
sure, periapical lesion and periodontal disease, predisposing pela espécie canina, o quarto pré-molar, também
the dog to develop an infraorbitary fistula. Although there denominado "dente carniceiro", é um dos principais
are treatments which strive for dental preservation, such as dentes, responsável por rasgar os alimentos (Wiggs e
periodontal surgery and endodontic treatment, most of the times
owners opt for exodontia, being the procedure cost the leading
Lobprise, 1997; Harvey e Emily, 1993; Gioso, 2007).
factor. This article aims to show the main causes of carnassial Por ser um dente muito utilizado pelo cão, torna-se
tooth exodontia, demonstrating the exodontia technique through mais predisposto a afecções como fratura dental com
desensitization of the area through anesthetic block. ou sem exposição pulpar, lesão periapical, e doença
periodontal, podendo evoluir para uma fístula infra-
-orbitária (Wiggs e Lobprise, 1997; Bolson e Pachaly,
2004; Roza, 2004; Gioso, 2007).
Entretanto, apesar da existência de tratamentos
que zelam pela preservação do elemento dental, como
cirurgia periodontal e tratamento endodôntico, a
realização da extração dental, denominado exodontia,
ainda é uma das intervenções cirúrgicas mais fre-
*Correspondência: vividogodonto@gmail.com qüentes na clínica de cães e gatos, sendo o custo um
Tel: +55 51 33773900; 92499962 dos fatores limitantes (Gioso, 2007).

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Todavia, o quarto pré-molar superior, por se tratar minimizando os riscos de toxicidade anestésica
de um dente tri-radicular, necessita alguns cuidados (Cortopassi e Fantoni, 1999), além de prevenir ou
especiais, como conhecimento anatômico, além da minimizar a hemorragia no trans-operatório (Gross e
técnica de exodontia complexa (Gioso, 2007), sendo o Pope, 2002). Contudo, é importante ressaltar que a
bloqueio anestésico do nervo maxilar o indicado para toxicidade dos anestésicos locais está associada com a
a dessensibilização da área na realização do procedi- administração intravascular acidental ou a adminis-
mento (Wiggs e Lobprise, 1997; Lopes e Gioso, tração de altas doses do agente anestésico (Klaumann
2007). et al., 2007).
A escolha do agente anestésico varia de acordo com
o procedimento cirúrgico a ser realizado, período
Anestesia local hábil de analgesia e necessidade de controlo da dor
pós-operatória. A dose utilizada para dessensibiliza-
Os anestésicos locais consistem em substâncias ção dos nervos da mandíbula e da maxila varia de
químicas responsáveis por impedir geração e con- acordo com o porte do animal, porém preconiza-se o
dução de impulso nervoso de maneira reversível, por uso de volumes pequenos de anestésico, aplicados
ação direta na membrana da fibra nervosa (Muir e lentamente, evitando lesar pequenos ramos nervosos
Hubbell, 1995; Mclure e Rubin, 2005; Lopes e Gioso, (Holmstrom e Frost-Fitch, 1998; Cediel e Sanches,
2007). 1999).
Na odontologia veterinária, os anestésicos locais As dose dos anestésicos locais utilizados em cães
mais utilizados são a lidocaína e a bupivacaína, com citados anteriormente estão representadas na Tabela 1,
período de ação curto e longo, respectivamente (Lanz, exceto da articaína que não foi encontrada a dose
2003; Klaumann et al., 2007). Entretanto, outros para a espécie canina, sendo que em humanos, foi
anestésicos locais como a mepivacaína, a prilocaína e encontrada na literatura apenas a dose máxima deste
a articaína são amplamente utilizados na odontologia fármaco (7 mg/kg) (Lopes e Gioso, 2007).
humana e vêm sendo empregados na prática veteri-
nária odontológica, sendo estes com duração de ação
moderada (Fantoni e Cortopassi, 2002; Malamed, Bloqueio anestésico do nervo maxilar
2005; Mclure e Rubin, 2005). Além desses, ainda se
encontra a ropivacaína, caracterizada por apresentar A realização de qualquer bloqueio anestésico deve
período hábil e de latência semelhantes ao da bupiva- ser precedida de anti-sepsia tópica, com intuito de
caína, efeito vasoconstritor e menor toxicidade cardíaca diminuir transitoriamente a microbiota bacteriana
e no SNC (De Negrini e Ivani, 2005; Malamed, 2005; local (Malamed, 2005), sendo o gluconato de clorexi-
Mclure e Rubin, 2005). dina 0,12% o anti-séptico de eleição na prática odon-
A adição de vasoconstritores aos anestésicos locais tológica veterinária (Evers e Haegerstam, 1991).
possui a função de controlar as ações vasodilatadoras, O bloqueio do nervo maxilar é um método bem
retardando a absorção deste pelo sistema vascular, eficaz para promover dessensibilização de uma hemi-

Tabela 1 - Principais agentes anestésicos locais utilizados na odontologia veterinária na espécie canina
Agente anestésico Dose/volume recomendados Dose máxima Período de latência Período de duração
Lidocaína 2% 2 mg/kg 5 mg/kg 5 a 10 minutos 1h a 1h e 30min
Lidocaína com 0,1 ml de 1:1.000 ND ND 3h e 30min
epinefrina (0,1 mg epinefrina)
Bupivacaína 0,5% 1 mg/kg 2 mg/kg 20 a 30 minutos 4a6h
Lidocaína + 1 mg/kg + ND 5 a 10 minutos Efeito mais rápido,
Bupivacaína 0,25 mg/kg porém menor duração
Morfina 0,1 mg/kg ND ND Maior eficácia e
prolongamento da analgesia
Buprenorfina 0,01 mg/kg ND ND Maior eficácia e
prolongamento da analgesia
Mepivacaína 3% Não disponível 9 mg/kg 1,5 a 2 minutos ND
Ropivacaína 0,5% 0,5 a 2 mg/kg Não disponível 8 a 10 minutos ND
Fontes: Lopes e Gioso (2007); Egger e Love (2009). ND = não disponível.

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Lobprise, 1997; Gioso, 2007).


A doença periodontal avançada, a lesão periapical e
lesões iatrogênicas são as causas mais freqüentes de
fístula deste dente (Bolson e Pachaly, 2004; Roza,
2004). Na doença periodontal, a fístula resulta quando
uma bolsa periodontal maxilar profunda progride para
o ápice do dente, lisando o osso entre o ápice do
alvéolo e a cavidade nasal ou o seio maxilar (Hedlund,
2007). Essa afecção geralmente é causada por trauma,
fratura ou periodontite. Um trauma contusivo sem
Figura 1 - Técnica anestésica para o bloqueio do nervo maxilar em cão traumatismo evidente na superfície dental pode causar
na fossa pterigopalatino (seta preta). Notar a área dessensibilizada pelo necrose pulpar com abcesso periapical secundário
bloqueio em destaque. Fonte: Lopes e Gioso, 2007.
(Birchard e Sherding, 2003).
Os sinais clínicos apresentados pelo paciente com
alteração pulpar evidente consistem em dor à per-
cussão, fístula, fractura coronal ou radicular, escure-
maxila, reduzindo o volume dos demais fármacos cimento dental, sialorreia, além de dificuldade de
administrados (Malamed, 2005; Lopes e Gioso, 2007). alimentação e fricção do focinho no chão ou com a
Este bloqueio é efetuado a partir da administração pata (Wiggs e Lobprise, 1997).
do anestésico local na região da fossa pterigopalatina, O diagnóstico é baseado na anamnese, nos sinais
localizada caudalmente ao último molar superior clínicos e no exame físico. Entretanto, o diagnóstico
(segundo molar), ao final do processo alveolar do osso definitivo é feito através da radiografia intra-oral
maxilar (Figura 1). O bloqueio do nervo maxilar realizada com o paciente sob anestesia geral utilizan-
promove a dessensibilização dos ramos deste nervo – do a técnica da bissetriz (Gioso, 2007).
nervo infra-orbitário, nervo alveolar maxilar caudal, O tratamento frente a uma doença periodontal
nervo pterigopalatino e nervo nasal caudal (Cediel e avançada, lesão periapical extensa, presença de fístula
Sanches, 1999). infra-orbitária consiste na exodontia deste dente
O bloqueio também pode ser realizado através (Gioso, 2007).
da via percutânea. Neste caso a agulha deverá ser
introduzida através da pele formando um ângulo de
90 graus em direção medial, ventral a borda do arco Exodontia
zigomático e aproximadamente 0,5 cm caudal ao
canto lateral, e então avança para a fossa pterigo- A exodontia ou extração dentária é uma das inter-
palatina. Caso a agulha tocar o ramo da mandíbula, venções cirúrgicas mais freqüentemente realizada em
esta deverá ser direcionada para fora no sentido pequenos animais, sendo que o paciente deve estar sob
cranial (Egger e Love, 2009). anestesia geral, com ou sem bloqueio regional ou
O diâmetro da agulha para realizar o bloqueio deve anestesia local (Gioso, 2007; Lopes e Gioso, 2007).
ser de 25 a 29 G. A cabeça do paciente deve ser Para executar tal procedimento é fundamental o
elevada, fazer a aspiração da seringa antes de injetar conhecimento anatómico, bem como os princípios
e aplicar uma pressão digital sobre o forame, seguido básicos que devem ser tomados quando se realizar a
da administração lenta do anestésico local com a exodontia, seja por via alveolar (dente luxado dentro
finalidade de facilitar este movimento caudamente ao do próprio alvéolo) ou extra-alveolar, quando o
forame. Não é recomendável avançar com a agulha acesso se dá pela remoção do osso da face vestibular
dentro do forame, pois aumenta a chance de lacerar o (Wiggs e Lobprise, 1997; Gioso, 2007):
nervo (Egger e Love, 2009). - Lesar o mínimo possível as estruturas vizinhas;
- Separar a gengiva do dente antes de luxá-lo
(sindesmotomia) (Figura 2A);
Afecções no "dente carniceiro" - Realizar odontosecção em dentes multiradiculares
(Figura 2B);
O quarto pré-molar superior ou "dente carniceiro" é - Luxar o ligamento periodontal com alavancas;
o maior dente da arcada superior dos cães, responsável - Promover a avulsão total do dente com o fórceps,
por rasgar os alimentos. Por este motivo, fica evidente sem fraturar a raiz (Figura 2C).
sua predisposição a afecções, como a doença perio- O quarto pré-molar do cão é o maior dente da
dontal e os problemas endodônticos (Wiggs e arcada superior, e apresenta 3 raízes, a mesiovesti-

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bular, a mesiopalatina e a distal, considerada uma Discussão


exodontia complexa. Portanto, a separação das raízes,
denominada odontosecção, facilita a exodontia devido O emprego dos anestésicos locais para a realização
à divergência destas (Harvey e Emily, 1993; Wiggs e de bloqueios de nervos regionais tem-se destacado na
Lobprise, 1997; San Roman et al., 1999; Roza, 2004; odontologia veterinária, sendo a lidocaína e a bupiva-
Gioso, 2007). A odontosecção é realizada com uma caína os mais utilizados, embora já existam outros
broca diamantada FG (friction grip) acoplada a fármacos que possuem efeito mais prolongado e
caneta de alta rotação, devendo-se ter o cuidado de menor toxicidade, como a ropivacaína, que são
não lesar os tecidos moles (Gioso, 2007). utilizados geralmente em humanos (Fantoni e
Técnicas inapropriadas de extração do quarto Cortopassi, 2002; Gross e Pope, 2002; Lanz, 2003; De
pré-molar superior podem resultar em complicações Negrini e Ivani, 2005; Malamed, 2005; Mclure e
oftálmicas graves causadas pela penetração do eleva- Rubin, 2005; Klaumann et al., 2007; Lopes e Gioso,
dor na órbita ou no globo ocular, provocando celulite 2007).
orbitária, abscesso orbitário ou endoftalmite (Birchard O "dente carniceiro" possui importante papel na
e Sherding, 2003). alimentação dos carnívoros, porém na presença da
Após realizada a exodontia, recomenda-se a síntese doença periodontal não tratada, pode evoluir para uma
dos tecidos moles com fios absorvíveis, dentre eles a lesão perio-endodôntica, causando lesão periapical e
poliglactina 910 é a mais utilizada (Conn et al., 1974; desencadeando a fístula infra-orbitária. Esta lesão
Horton et al., 1974) (Figura 2D). promove muita dor e sinais clínicos muitas vezes
As complicações da exodontia que podem existir imperceptíveis pelo proprietário e pelo clínico geral,
consistem na fratura de raiz, hemorragia intensa, sendo tratada por longos períodos somente com a
infecção, alveolite seca, deiscência dos pontos, fístula administração de antibióticos, não removendo o
e corrimento nasal (Gioso, 2007). agente desencadeante (Wiggs e Lobprise, 1997;

Figura 2 - Passos da exodontia do dente carniceiro.


(A) Sindesmotomia; (B) Realizando odontosecção; (C) Avulsão dentária; (D) Síntese com fio poliglactina 910 (Víviam Nunes Pignone).

22
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Conclusão Gioso MA. Manole (São Paulo), 37-44.
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A utilização do bloqueio anestésico para a exodontia infraorbital and inferior alveolar nerves during noninva-
dos dentes é uma técnica fácil de ser realizada e muito sive tooth pulp stimulation in halothane-anesthetized
útil na rotina odontológica veterinária, contudo, é de dogs. J Am Vet Med Assoc, 211, 1403-1405.
suma importância o conhecimento anatómico da cavi- Harvey CE e Emily PP (1993). Oral Surgery. In: Small
dade oral, principalmente sua inervação, para evitar Animal Dentistry, 1ª edição. Editores: Harvey CE e Emily
complicações. PP. Mosby (St. Louis), 313-377.
Hedlund CS (2007). Surgery of the oral cavity and oropha-
A doença periodontal e as afecções endodônticas
rynx. In: Small Animal Surgery, 3ª edição. Editores:
são as patologias que mais atingem o quarto pré-molar
Fossum TW. Mosby Elsevier (St. Louis), 339-371.
superior, causando destruição do periodonto e abces-
Hellyer PW e Gaynor JS (1998). Acute Postsurgical Pain in
sos periapicais, que podem resultar em fístula Dogs and Cats. Compend Cont Ed Pract, 20, 140-153.
infra-orbitária. Nestes casos, a radiografia intra-oral Holmstrom SE e Frost-Fitch P (1998). Regional and Local
torna-se necessária para obter o diagnóstico definiti- Anesthesia. In: Veterinary Dental Techniques for the
vo. Um dos tratamentos mais realizados consiste na Small Animal Practioner, 2ª edição. Editores: Holmstrom
exodontia do elemento dental. SE, Frost P e Edward DV. Elsevier R (Philadelphia),
A realização da odontoseccção em dentes tri-radicu- 625-636.
lares, como o "dente carniceiro", deve ser relevante, Horton CE, Adamson JE, Mladick RA (1974). Vicryl
principalmente se tratando de raízes divergentes, Synthetic Absorbable Suture. American Surgery, 40(12),
facilitando a extração dentária, impedindo danos aos 729-731.
Kaurich MJ e Otomo-Corgel J (2003). Comparasion of
tecidos adjacentes, sendo indicado a realização de
Postoperative Bupivacaine with Lidocaine on Pain and
sutura gengival com fio absorvível.
Analgesic Use Following Periodontal Surgery. J Western
Soc of Periodont, 45(1), 5-8.
Klaumann PR, Woulk AFPF, Montiani-Ferreira F, Villani R,
Bibliografia Guedes RL (2007). Anestésicos Locais em Medicina
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24
RPCV (2009) 104 (569-572) 25-30 R E V I S TA P O R T U G U E S A
DE
CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Transferência embrionária em bovinos leiteiros na Ilha Graciosa (Açores):


programa experimental de transferência de embriões sexados e congelados
da raça Holstein Frísia

Embryo transfer in dairy cattle at Graciosa Island (Azores): an experimental


trial of sexed and frozen-thawed transfer of Holstein Friesian embryos

João Chagas e Silva*


Secção de Reprodução e Obstetrícia/CIISA, Faculdade de Medicina Veterinária,
Avenida da Universidade Técnica, Polo Universitário da Ajuda, 1300-477 Lisboa, Portugal

Resumo: A transferência de embriões obtidos in vivo These results show that it was possible, with success, to transfer
representa a 2ª geração das tecnologias reprodutivas e é sexed frozen-thawed Holstein Friesian imported embryos to
aplicada comercialmente, no caso dos bovinos, há mais de 30 virgin heifers recipients raised on local management conditions
anos. Actualmente, são transferidos em todo mundo, mais de of Graciosa Island.
meio milhão desse tipo de embriões, o que representa um
significativo negócio internacional. A Secretaria Regional da
Agricultura e Florestas do Governo da Região Autónoma dos
Açores, através da sua Direcção Regional do Desenvolvimento Introdução
Agrário, tendo em conta o elevado estatuto sanitário e o apre-
ciável efectivo bovino leiteiro da Ilha Graciosa, considerou-a
como cenário privilegiado para a execução de um programa Há mais de três décadas que a transferência de
experimental de transferência de embriões sexados e congela- embriões (TE) obtidos in vivo é aplicada comercial-
dos. Foram transferidos, ao longo de um período de 16 meses, mente nos bovinos (Thibier, 2005). Relativamente à
um total de 76 embriões congelados, 65 sexados e 11 não inseminação artificial (IA), apesar dos custos de apli-
sexados. Os resultados agora registados, face aos obtidos por cação serem superiores e a eficiência inferior, o futuro
outros autores, podem ser considerados bastante bons: 63,1%
(41/65) de taxa de gestação aos 45-60 dias para os embriões da TE encontra-se garantido, pois está intimamente
sexados e 63,6% (7/11) para os não sexados. Este facto revela associado a programas de melhoramento genético,
que, nas condições de maneio produtivo a que as novilhas da sendo de registar que a grande maioria dos touros IA
Ilha Graciosa estão sujeitas, é possível a transferência com de todo o mundo, são obtidos através dela. É igual-
sucesso de embriões sexados e congelados. mente ferramenta privilegiada para a conservação ex
Summary: Embryo transfer collected in vivo is the second situ de genes de espécies/raças ameaçadas de extinção
generation of reproductive biotechnologies and has been used e ainda, com o desenvolvimento de protocolos
on cattle farms for more than thirty years. More than 500.000 eficientes de congelação-descongelação, tem vindo a
embryos of these kinds are transferred worldwide annually, demonstrar ser a forma mais segura, em termos
which represents a great international trade. The Regional sanitários, de intercâmbio de genes entre regiões e
Secretary of Agriculture and Forestry from Government of
Azores, by the way of its Regional Direction of Agricultural continentes (Hasler, 2003; Thibier, 2005). Em 2002,
Development, considering the high sanitary level and the foram transferidos em todo o mundo, 538 312
number of dairy cattle females, chose Graciosa Island as the embriões bovinos colhidos in vivo (Thibier, 2002),
right location for the implementation of an experimental valor (ainda que sub-estimado, pois inúmeras equipas
program of transfer of sexed and frozen Holstein Friesian de TE não fornecem dados) que revela, desde 1975,
imported embryos. 76 frozen-thawed embryos have been
transferred, during a 16 months’ time period, 65 sexed and 11 uma tendência para estabilização (Thibier, 2005) e
non sexed. The results obtained in this experimental work may representa um expressivo negócio de cariz interna-
be considered good, compared to the field trials from others cional (Hasler, 2003).
workers: 63,1% (41/65) of 45-60 days pregnancy rate with Em Portugal, a bovinicultura leiteira valoriza muito
sexed embryos and, 63,6% (7/11) with non sexed embryos. mais as vitelas (para substituição ou para venda) que
os machos (quase sem valor comercial, com excepção
dos raros que são recrutados por Centros de IA). Os
vitelos obtidos por TE representam pois, globalmente,
*Correspondência: adnestorch@fmv.utl.pt um sério prejuízo económico para a exploração
Telef. +351213602053; Fax +351213652827 leiteira (Lopes da Costa et al., 2002).

25
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A utilização de embriões sexados permite aumentar provenientes de 13 diferentes emparelhamentos e


a eficiência económica dos programas de TE (Willett processados por 4 equipas de TE distintas; e 22 de
e Hillers, 1994) e a taxa de ganho genético, quer ao origem francesa, de 6 emparelhamentos, processados
nível de uma exploração, quer de um núcleo de por uma única equipa. Todos os embriões tinham 7
selecção (Colleau, 1991). A determinação do sexo de dias (dia 0 = dia do cio superovulatório - SOV).
embriões pré-implantação de bovinos com recurso à Adicionalmente, foram adquiridos 11 embriões não
técnica da reacção em cadeia da polimerase (PCR) e sexados e congelados para transferência directa, de 4
protocolo electroforético (Shea, 1999) ou não-electro- emparelhamentos diferentes, processados por única
forético (Bredbacka, 1998) é um serviço oferecido por equipa e pertencentes ao Núcleo OMTE (Ovulação
algumas unidades comerciais de TE, revelando ele- Múltipla e Transferência Embrionária) Juvenil da
vadas taxas de eficiência e de precisão (Hasler, 2003). extinta Divisão de Selecção e Reprodução Animal
Porém, a necessidade da obtenção de uma biópsia (Venda Nova-Amadora). Todos os embriões tinham
embrionária (6-8 blastómeros) exige um técnico 7,5 dias (dia 0 = dia do cio SOV).
experimentado (Hasler, 2003), eleva o risco de conta-
minação do embrião por agentes patogénicos
(Wrathall e Sutmöller, 1998) e diminui a sua viabili-
Animais
dade após a congelação (Shea, 1999).
Maneio geral das novilhas na Ilha
A Ilha Graciosa, uma das nove ilhas do arquipélago
dos Açores, situada no extremo noroeste do Grupo Na Ilha Graciosa, as fêmeas são enviadas para a
Central (Longitude 28º 05’ W e Latitude 39º 05’ N), pastagem ("os cerrados") a partir dos três meses de
possui um elevado estatuto sanitário, sendo considera- idade e aí permanecem até parirem. Durante todo ano,
da Ilha oficialmente indemne de brucelose (Decisão as novilhas alimentam-se dos pastos, sem qualquer
da Comissão nº 2002/588/CE, de 11 de Junho), suplementação, com excepção dos meses de Julho e
de tuberculose e leucose, facto que poderá estar Agosto. Nesse período, com os pastos secos, é-lhes
associado, até ao momento, à ausência de uma expres- fornecida silagem de milho ou de erva e feno de
siva importação de animais vivos do exterior. A azevém. Não é administrado concentrado.
importância de manter esse estatuto sanitário aliada à Em função da qualidade da pastagem, são visitadas
necessidade de promover o melhoramento genético, de 4 em 4 ou de 8 em 8 dias, para mudança das cercas
de uma forma rápida e sustentada, levou a Secretaria ou de pastagem. De uma forma geral, as novilhas são
Regional da Agricultura e Florestas, do Governo da beneficiadas por cobrição.
Região Autónoma dos Açores, através da sua Direcção As fêmeas seleccionadas para o programa eram
Regional do Desenvolvimento Agrário, a assinar um todas novilhas, na sua grande maioria da raça Frísia,
protocolo de cooperação com a Faculdade de com idades compreendidas entre os 14 e os 24 meses
Medicina Veterinária de Lisboa. Foi então, delineado e e pelo menos 350 kg de peso vivo.
executado, por um período inicial de 18 meses, um
Programa Experimental de Transferência Embrionária Profilaxia médica e sanitária
em Bovinos Leiteiros, naquela Ilha, com a finalidade
As novilhas disponibilizadas (n = 263), pertencentes
de aferir resultados do uso da técnica para a obtenção
a 20 produtores, foram desparasitadas com fenbenda-
de fêmeas de elite, a partir da aquisição de embriões
zole (7,5 mg/kg de peso vivo, administrados por via
congelados da raça Frísia Holstein (na sua grande
oral, em dose única, Panacur® Suspensão 10%,
maioria sexados), adaptadas às condições ambientais
Intervet Portugal-Saúde Animal, Lda.), vacinadas
locais, que poderão vir a contribuir decisivamente,
contra o IBR/IPV com a vacina viva e marcada
para o melhoramento genético dos efectivos leiteiros
Bovilis® IBR (2 mL de vacina reconstituída, adminis-
da região.
trados por via IM, Intervet Portugal-Saúde Animal,
Lda.) e sujeitas a uma colheita de sangue para
pesquisa do antigénio BVD para a identificação e
Material e métodos eliminação de animais persistentemente infectados.
Estas intervenções ocorreram sempre, a mais de 3
Os trabalhos decorreram entre Janeiro de 2008
semanas da data das transferências.
e Maio de 2009, distribuídos por 4 períodos de trans-
ferências embrionárias: Fevereiro de 2008, Abril de
Selecção das novilhas
2008, Janeiro de 2009 e Abril de 2009.
As fêmeas foram seleccionadas para o programa de
sincronização de cios em função da sua condição
Embriões corporal (≥ 2,25 e < 4) e ciclicidade (só foram
aprovadas, as fêmeas cíclicas) (n = 136).
Foram adquiridos 65 embriões sexados e congelados As novilhas foram sujeitas a um exame do estado
para transferência directa: 43 de origem canadiana, geral e a um exame ginecológico, tendo sido elimi-

26
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nadas todas as novilhas que não pudessem ser


admitidas no programa de sincronização ou que de
alguma forma inviabilizassem uma transferência
embrionária (n = 127).

Protocolo de sincronização e de detecção


de cios
O protocolo de sincronização de cios escolhido foi
o da dupla aplicação de dose luteolítica de um análogo
de síntese da PGF2alfa (2 mL administrados por via
IM, com onze dias de intervalo, Veteglan, Calier
Portugal, S.A.). Figura 1 - Transferência não-cirúrgica com recurso à cânula de trans-
A detecção dos cios teve início 24 horas após a ferência miniaturizada Cassou.
segunda administração do análogo de síntese da
PGF2alfa e prolongou-se por 3 dias (com, pelo menos,
três períodos de observação diários, de cerca de 30
minutos cada), tendo sido os respectivos proprietários Diagnóstico de gestação
os responsáveis pelo registo da data e hora dos
eventos comportamentais e físicos da fêmea em cio. O diagnóstico de gestação realizou-se por palpação
Só foram aceites para TE as novilhas com uma transrectal aos 45-60 dias (dia 0 = dia do cio da recep-
assincronia de +12 horas a –12 horas (n = 99), relati- tora) e foi efectuado sempre pelo mesmo técnico.
vamente à idade do embrião a transferir. Foi aconselhado aos proprietários de receptoras
sujeitas à TE que mantivessem o sistema de detecção
de cios para registo de eventuais situações de retorno
Transferência directa dos embriões ao cio, aos 12 dias após a transferência e por um
período de 5 dias. A detecção inequívoca de um cio
As transferências foram executadas sempre pelo deveria ser aproveitada para a beneficiação da fêmea.
mesmo técnico e tiveram lugar em 4 locais distintos: 2
explorações particulares, com "cornadis" como dis-
positivo de imobilização das fêmeas (pelo pescoço e Análise estatística
diante da mangedoura) e 2 estações de pesagem de
animais, dispondo cada uma delas do seu tronco Na análise dos dados foi usado um programa
balança. informático de estatística (SPSS® Statistics, versão
Todas as novilhas com cio detectado e registo de 17.0). Para além dos métodos descritivos (Média ±
reflexo de imobilização (RI) foram sujeitas a um E.P.) foi utilizado o Teste de Mann-Whitney U na
exame ginecológico prévio para a identificação, comparação de idades e de condição corporal entre
localização e avaliação de um corpo lúteo (CL) com receptoras aprovadas e rejeitadas para o programa de
desenvolvimento adequado, relativamente ao dia da sincronização de cios e entre as aprovadas e rejeitadas
TE (dia 7 do ciclo éstrico). para TE, em virtude da distribuição não paramétrica
As fêmeas seleccionadas (n = 76) foram imobi- dos dados. O Teste de Qui-Quadrado de Pearson foi
lizadas, com os membros anteriores elevados 35 cm, usado na comparação das taxas de gestação em função
relativamente ao pavimento e foram sujeitas a uma da origem do embrião sexado (Correcção de Yates) e
anestesia epidural baixa com cloridrato de lidocaína em função da época da TE. O nível de significância
(5 mL por animal, Anestesin®, Laboratório Sorológico, foi determinado para um grau de confiança de 5%
Portugal). (p < 0,05).
Os embriões foram descongelados de acordo com o
protocolo aconselhado pela equipa de TE responsável
pelo seu processamento e transferidos por via Resultados
não-cirúrgica com auxílio da cânula de transferência
miniaturizada Cassou (IMV Technologies, L’ Aigle, Das 263 novilhas pertencentes a 20 produtores, com
France), um por receptora, para o corno uterino idade e condição corporal médias de 18,01 ± 0,31
ipsilateral ao ovário com o CL, profundamente e sem meses e 2,60 ± 0,02, respectivamente, apresentadas
provocar traumatismo (Figura 1). Entre a desconge- para o programa de desparasitação e vacinação,
lação do embrião e o final da transferência foram apenas 136 (idade e condição corporal médias, respec-
dispendidos entre 5 a 12 minutos (7,63 ± 0,15 minutos). tivamente de 17,53 ± 0,37 meses e de 2,63 ± 0,03),

27
Silva JC RPCV (2009) 104 (569-572) 25-30

pertencentes a 19 produtores, foram seleccionadas para TE e as rejeitadas (17,46 ± 0,52 meses e 2,67 ±
para a fase seguinte. As causas para a rejeição de 127 0,04 versus 16,93 ± 0,66 meses e 2,57 ± 0,06, p >
fêmeas (idade e condição corporal médias, respectiva- 0,05).
mente de 18,52 ± 0,50 meses e de 2,55 ± 0,04) foram Por conseguinte, foram realizadas 76 TE, para as
as seguintes: gestação (39); anestro (31); deficiente quais se utilizaram 65 embriões sexados, 43 canadia-
condição corporal (27); free-martinismo (7); quistos nos e 22 franceses e, os 11 não sexados, de origem
ováricos (6); infecção por descorna (3); idade exces- portuguesa. Os dados relativos à eficiência do
siva (3); infantilismo genital (3); útero unicórnio (2); processo e as taxas de gestação aos 45-60 dias para
aplasia segmental (2); fotossensibilização (1); cada um dos tipos de embrião e para as diferentes
agenésia ovárica (1); fêmea repetidora (1); e luxação épocas de transferência são apresentados nos Quadros
da bacia (1). 1 a 3.
As receptoras aprovadas para o programa de Apesar de numericamente superior, a taxa de
sincronização revelaram, relativamente às não gestação obtida com embriões sexados de origem
aprovadas, diferenças não significativas quanto à canadiana (67,4%) não foi significativamente
idade (17,53 ± 0,37 versus 18,52 ± 0,50 meses, p > diferente da obtida com os de origem francesa
0,05), mas significativas quanto à condição corporal (54,5%) (p = 0,46). Não foram igualmente encon-
(2,63 ± 0,03 versus 2,55 ± 0,04, p < 0,01). tradas, diferenças significativas entre as taxas de
Noventa e nove das novilhas tratadas com PGF2alfa gestação em função da época de TE (71,4% x 64,0% x
(72,8%) foram detectadas pelos seus proprietários (n = 56,3% x 57,1%, p = 0,76), a despeito de as duas
17) como tendo revelado RI e a sincronia desejada. primeiras fases de TE terem revelado valores numeri-
Previamente à TE, todas elas foram sujeitas a um camente superiores.
exame ginecológico para ser avaliada a sua adequação
à condição de receptora, tendo sido eliminadas 23
fêmeas (23,2%) pelas seguintes razões: anovulação Discussão e conclusões
(n = 7); cobrições não desejadas (n = 6); quistos
ováricos (n = 5); anestro (n = 2); CL de desenvolvi- A rejeição de 48,3% (127/263) das novilhas para o
mento inadequado (n = 2; e deficiente condição programa de sincronização de cios resultou, essencial-
corporal (n = 1). mente, do elevado número de fêmeas gestantes, em
Não foram registadas diferenças significativas entre anestro e com deficiente condição corporal. Este
a idade e a condição corporal das receptoras aprovadas cenário sugere um medíocre controlo reprodutivo dos

Quadro 1 - Taxa de gestação em função do tipo de embrião


Tipo do Embrião Nº de Transferências Nº de Gestações Taxa de Gestação (%)
Sexado 65 41 41/65 (63,1)*
Não Sexado 11 7 7/11 (63,6)*
Totais 76 48 48/76 (63,2)
*
não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos (p > 0,05)

Quadro 2 - Taxa de gestação em função do tipo e origem do embrião


Tipo de Embrião Origem do Embrião Nº de Transferências Nº de Gestações Taxa de Gestação (%)
Sexado Canadiana 43 29 29/43 (67,4)*
Francesa 22 12 12/22 (54,5)*
Não Sexado Portuguesa 11 7 7/11 (63,6)
*
não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos (p > 0,05)

Quadro 3 - Taxa de gestação em função da época das transferências


Época das TE Tipo de Embrião Nº de Transferências Nº de Gestações Taxa de Gestação (%)
1ª Fase Sexado 17 13 13/17 (76,5)
Fev. 2008 Não Sexado 4 2 2/4 (50,0)
Totais 21 15 15/21 (71,4)*
2ª Fase Sexado 18 11 11/18 (61,1)
Abr. 2008 Não Sexado 7 5 5/7 (71,4)
Totais 25 16 16/25 (64,0)*
3ª Fase Sexado 16 9 9/16 (56,3)*
Jan. 2009
4ª Fase Sexado 14 8 8/14 (57,1)*
Abr. 2009
* não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos (p > 0,05)

28
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efectivos no que às cobrições indesejadas diz respeito Agradecimentos


e, igualmente, um aproveitamento por parte dos
proprietários do programa gratuito de desparasitação e O autor agradece ao Director Regional do
vacinação, com a apresentação de animais sem as Desenvolvimento Agrário, Eng. Joaquim Pires, o con-
condições ideais (por ex. idade e peso). O facto de a vite para elaborar um protocolo de colaboração entre
idade média das fêmeas reprovadas ter sido numerica- a Direcção Regional do Desenvolvimento Agrário e a
mente superior (ainda que a diferença não tenha sido Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, para o
significativa), em conjunto com uma condição que garantiu todas as condições necessárias à
corporal média inferior e significativamente diferente, obtenção dos resultados agora registados.
relativamente às novilhas aprovadas, parece ter dado Agradece igualmente ao Presidente do Conselho
maior evidência à eficiência do processo selectivo, Directivo da Faculdade de Medicina Veterinária,
quanto à eliminação das fêmeas menos capazes. Prof. Doutor Luís Tavares, a autorização para a
Por seu turno, a taxa de detecção de cios (72,8%) foi participação/execução da componente técnica do
indicadora de boa eficácia dos produtores no registo protocolo e pelo apoio a cada momento.
dos dados comportamentais e físicos das fêmeas que À Eng. Ana Luísa Pavão (DRDA) e ao Eng. Hélder
exibiram estro, tendo em conta as condições de Bettencourt (SDAG) pela colaboração na elaboração
maneio a que as novilhas estão sujeitas na Ilha. Porém, do protocolo, na selecção e acompanhamento dos
onze das eliminadas para TE (47,8%: anovulação – 7; produtores nas várias fases do trabalho de campo e,
anestro – 2; e CL de desenvolvimento inadequado – 2) sobretudo, pelo espírito de equipa que se estabeleceu.
poderão tê-lo sido em virtude de uma incorrecta inter- A todos os técnicos do SDAG que, de alguma
pretação dos sinais de cio. No entanto, na globalidade, forma, participaram no Programa, pois também a eles
os produtores demonstraram que foram capazes de se devem os resultados agora obtidos.
alterar a rotina habitual das suas explorações de forma A todos os produtores que cederam as suas novilhas
a respeitarem as exigências de um correcto protocolo para receptoras e que, interiorizando as exigências da
de detecção visual de cios. tecnologia, contribuiram activamente para o sucesso
São vários os trabalhos que referem resultados de desta fase do Programa
campo com embriões sexados e congelados: Chagas e Por fim, à Prof. Doutora Isabel Neto pela ajuda no
Silva e Cidadão (1997) obtiveram uma eficiência de tratamento estatístico dos dados.
54,5%, após a transferência de 22 embriões da raça
Frísia Holstein, importados do Canadá; Shea (1999)
registou uma taxa de gestação de 37% (91/244) entre Bibliografia
1992 e 1997 e atribuíu a baixa eficiência à falta de
experiência técnica, uma vez que, em 1998, ainda que Bredbacka P (1998). Recent developments in embryo sexing
com apenas 29 transferências, já tinham melhorado os and its field application. Reprod Nutr Dev, 38, 605-613.
resultados para 66%; Lacaze et al. (2007), após a Chagas e Silva JN e Cidadão MR (1997). Transferência
transferência de 205 embriões, ao abrigo de um directa de embriões sexados de bovino, importados do
Canadá. Em: Publicações do 1º Congresso Ibérico de
programa comercial, conseguiram uma taxa de
Reprodução Animal, 3-6 Jul., Estoril (Portugal), Vol. II,
gestação de 51,7%.
pp. 205-211.
Tendo em consideração os dados atrás referidos, o
Colleau JJ (1991). Using embryo sexing within closed
presente trabalho, com os registos de uma taxa de
mixed multiple ovulation and embryo transfer schemes
gestação global de 63,2% (48/76) e das parcelares de
for selection on dairy cattle. J Dairy Sci, 74, 3973-3984.
63,1% (41/65) para os embriões sexados e de 63,6%
Hasler JF (2003). Current status and future of commercial
(7/11) para os embriões não sexados, revelou elevada embryo transfer in cattle. Anim Reprod Sci, 79, 245-264.
eficiência. Lacaze S, Ponsart C, Humblot P (2007). Sexing and direct
Os resultados agora obtidos indicam que, nas transfer of bovine biopsied frozen-thawed embryos under
condições de maneio produtivo a que as novilhas da on-farm conditions in a commercial program. Em:
Ilha Graciosa estão sujeitas, é possível a transferência, Proceedings of 23rd Annual Meeting A.E.T.E., 7-8
com sucesso, de embriões sexados e congelados. September, Alghero, Sardinia, p. 188.
Porém, apenas foi ultrapassada a primeira fase do Lopes da Costa L, Chagas e Silva J, Diniz P, Cidadão R
Programa. Resta esperar que os proprietários, com a (2002). Preliminary report on sexing bovine pre-implan-
colaboração/supervisão dos Serviços, saibam recriar tation embryos under the conditions of Portugal. Rev Port
eficientemente, as fêmeas de elite que já estão a Ciên Vet, 97(542), 95-98.
nascer, de forma que as mesmas possam expressar Shea BF (1999). Determining the sex of bovine embryos
cabalmente o seu potencial genético, quer em termos using polymerase chain reaction: a six-year retrospective
de produção de embriões de 2ª geração, perpetuando o study. Theriogenology, 51, 841-854.
ciclo com menores custos, quer em termos produtivos. Thibier M (2002). A contrasted year from the world activity

29
Silva JC RPCV (2009) 104 (569-572) 25-30

of the animal embryo transfer activity – A report from the Wrathall AE e Sutmöller P (1998). Potential of embryo
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30
RPCV (2009) 104 (569-572) 31-35 R E V I S TA P O R T U G U E S A
DE
CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Exatidão da ultra-sonografia para diagnóstico de gestação aos 28 dias após


inseminação e sua contribuição na eficiência reprodutiva em fêmeas Nelore
e cruzadas

Accuracy of the ultrasonography for pregnancy diagnosis at 28 days after


insemination and its contribution in the reproductive efficiency on Nelore
and crossbred females

Adriana Gradela1*, Thiago Danieli2, Tiago Carneiro3, Denílson Valin Torres3,


Cássio Roberto Gradela4, Vanessa Sobue Franzo5
1
Universidade Federal do Vale do São Francisco, Campus de Ciências Agrárias, Petrolina-PE, Brasil.
2
Curso de Medicina Veterinária, Unicastelo, Descalvado, SP, Brasil.
3
DG Torres, São João da Boa Vista, SP, Brasil.
4
Médico Veterinário Autônomo. Naviraí, MS, Brasil.
5
Universidade Federal do Tocantins, Campus de Araguaína, Araguaína-TO, Brasil.

Resumo: Este estudo avaliou a acurácia do diagnóstico de reproductive efficiency. The accuracy of the method was
gestação em fêmeas cruzadas (G1) e Nelore (G2) aos 28 dias obtained calculating sensibility, specificity, positive and nega-
após inseminação e seu efeito sobre perdas embrionárias e a tive predictive values (PPV and NPV). Females that did not
eficiência reprodutiva. A acurácia do método foi obtida calcu- return to estrus between 18 and 24 days after the first insemina-
lando-se a sensibilidade, especificidade e valores preditivos tion (n = 170) were examined by ultrasound at day 28 and by
positivo e negativo (VPP e VPN). Fêmeas que não retornaram transrectal palpation at day 42 for confirmation of pregnancy.
ao estro entre 18 e 24 dias após a primeira inseminação (n= 170) The non pregnant received prostaglandin and a second insemi-
foram examinadas por ultra-sonografia no dia 28 e por palpação nation after viewing of estrus. Of 44% (22/50; G1) and 80%
transretal no dia 42 para confirmação da gestação. As não (96/120; G2) pregnant at first insemination, 0% returned to
prenhes receberam prostaglandina e uma segunda inseminação service, 0% showed embryonic losses and 0% had abortions,
após visualização do estro. Das 44% (22/50; G1) e 80% resulting in a calving rate of 69.4% (118/170). Of 100% (28/28;
(96/120; G2) prenhes à primeira inseminação, 0% retornou ao G1) and 100% (24/24; G2) pregnant at the second insemination,
serviço, 0% apresentou perdas embrionárias e 0% apresentou 0% returned to service, 0% showed embryonic losses and 0%
abortamentos, resultando numa taxa de parição de 69,4% had abortions, resulting in a calving rate of 100% (52/52). The
(118/170). Das 100% (28/28; G1) e 100% (24/24; G2) prenhes total birth rate was 100% (170/170) and the calving interval has
à segunda inseminação, 0% retornou ao serviço, 0% apresentou been reduced from 15 to 12.9 months. The sensitivity, specifici-
perdas embrionárias e 0% abortamentos, resultando numa taxa ty, PPV and NPV were 100% without any occurrence of
de parição de 100% (52/52). A taxa de parição total foi de 100% questions or errors. This study suggests that ultrasound at
(170/170) e o intervalo de partos foi reduzido de 15 para 12,9 28 days after insemination is accurate for the early diagnosis
meses. A sensibilidade, a especificidade e VPP e VPN foram de of pregnancy, does not cause embryonic losses and, when
100%, sem a ocorrência de dúvidas ou erros. Este estudo combined with resynchronization of estrus, contributes to the
sugere que a ultra-sonografia aos 28 dias após inseminação é increase in reproductive efficiency.
exata para o diagnóstico precoce de gestação, não causa perdas
embrionárias e, quando associada à re-sincronização do estro, Keywords: accuracy, ultrasound, sensibility, specificity, PPV,
contribui para o aumento da eficiência reprodutiva. NPV

Palavras-chave: acurácia, ultra-sonografia, sensibilidade,


especificidade, VPP, VPN
Introdução
Summary: This study evaluated the accuracy of pregnancy
diagnosis in crossbred (G1) and Bos indicus (G2) females at 28 O diagnóstico de gestação é um componente chave
days after insemination and its effect on embryonic losses and
dos programas de manejo reprodutivo de rebanhos
que visam melhorar o desempenho reprodutivo
(Thompson et al., 1995), pois contribui para a
diminuição do tempo para re-inseminação de vacas
vazias e, conseqüentemente, para redução dos dias
* Correspondência: agradela@hotmail.com abertos (Oltenacu et al., 1990). Ademais, o diagnósti-
Tel: +55 87 8812 9495 co precoce da gestação torna-se aconselhável quando

31
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protocolos para sincronização do estro com insemi- diagnóstico precoce de gestação, este estudo teve
nação artificial em tempo fixo (IATF) e transferência por objetivo avaliar a acurácia da ultra-sonografia
de embriões são utilizados. Nestes casos, os animais transretal aos 28 dias pós-IA e seu efeito sobre perdas
não prenhes podem ser alocados em novo protocolo de embrionárias e a eficiência reprodutiva em fêmeas
sincronização ou no rol de receptoras muito mais cruzadas e Nelore.
rapidamente, o que pode desempenhar uma função
chave numa estratégia de manejo reprodutivo para
operações comerciais com gado bovino. Material e métodos
Os benefícios econômicos do diagnóstico de
gestação dependem de vários fatores como: o período Foram utilizadas fêmeas Girolando (Bos taurus X
em que o diagnóstico é realizado após inseminação, a Bos indicus) (n=50, G1), em regime confinado de
acurácia do diagnóstico, seu efeito na mortalidade criação da parição até a secagem e sediadas no
embrionária, a eficiência da detecção do estro e as município de São João da Boa Vista/SP, localizada a
medidas adotadas quando as vacas são encontradas uma latitude de 21º 58´ 0´´ S, longitude de 46º 47´ 0´´
vazias (De Vries et al., 2005). Embora a palpação O e altitude de 767 m e Nelore (Bos indicus) (n= 120,
transretal seja ainda o mais popular método para G2), criadas em regime extensivo no município de
diagnosticar se vacas estão prenhes ou vazias, quando Naviraí/MS, localizado a uma latitude de 23º 8´ 0´´ S,
elas não são vistas em estro (Rosenbaum e Warnick, longitude de 54º 13´ 0´´ O e altitude de 362 m. Em
2004), o uso da ultra-sonografia vem crescendo a cada ambos os grupos, o intervalo entre partos (IDP) dos
ano (Fricke, 2002). A data para realização da ultra-so- animais era de 15,08 ± 3,90 meses. Após um período
nografia tem sido objeto de estudo (Pierson e Ginther, de espera voluntário da parição à primeira insemi-
1984; Boyd et al., 1988; Kastelic et al., 1989; Badtram nação de 45 dias, o trato reprodutivo de cada animal
et al., 1991; Szenci et al., 1995; Nation et al., 2003), foi examinado por palpação transretal e ultra-sono-
entretanto sem um consenso. Sabe-se que a acurácia é grafia para avaliação da involução uterina normal e
comprometida se os exames são realizados muito pre- condições de ciclicidade (presença de corpo lúteo).
cocemente (Kastelic et al., 1989; Badtram et al., 1991; Dez dias após esta avaliação, fêmeas cíclicas foram
Nation et al., 2003) e, embora melhores resultados submetidas ao seguinte protocolo de IATF: no dia 0
tenham sido observados após o dia 25 pós-IA (Fissore receberam um dispositivo intravaginal de liberação de
et al., 1986; Pieterse et al., 1990; Fricke, 2002), progesterona (CIDR®, Pfizer, Brasil) e uma injeção de
Nation et al. (2003) verificaram que diagnósticos 2 mg de benzoato de estradiol (Estrogin®, Farmavet,
realizados antes do dia 30 eram precoces e pouco São Paulo, Brasil) i.m.; no dia 7, 0,530 mg de
confiáveis, devido ao risco de perdas embrionárias. cloprostenol sódico (Ciosin®, Schering-Plough,
A diminuição da acurácia do diagnóstico pode levar Brasil) i.m e no dia 9, o dispositivo foi removido e
a conclusões errôneas, fazendo com que mais vacas 1,0 mg de cipionato de estradiol (ECP, Pfizer, Brasil)
verdadeiramente vazias sejam diagnosticadas como i.m., administrado simultaneamente. No dia 11 (48 h
prenhes (falso positivos) e mais vacas verdadeira- após a retirada do dispositivo) foram administradas
mente prenhes sejam diagnosticadas como vazias 400 UI de hCG (Vetecor®, Calier, Brasil) i.v. e a IA
(falso negativos) (Badtram et al., 1991; Szenci et al., realizada 12 h depois com sêmen proveniente da
1995; Filteau e Descôteaux, 1998). Erros no diagnós- Lagoa da Serra, Sertãozinho-SP, e por um insemi-
tico geram altos custos, pois um diagnóstico falso nador experiente.
positivo resulta em atraso na re-inseminação de vacas Animais que não retornaram ao estro entre 18 e 24
vazias (De Vries et al., 2005) e um falso negativo pode dias após inseminação (n=170) foram examinados por
levar a abortamento se prostaglandina é administrada um técnico experiente para diagnóstico da gestação
(Romano et al., 2004; De Vries et al., 2005). Como o por ultra-sonografia transretal (Aloka® Modelo SSD
custo de um animal prenhe ser induzido ao aborta- 500 e sonda de 5 MHz) no dia 28. A visualização da
mento é muito maior, um teste de prenhez deve vesícula embrionária, do concepto e de sua viabilidade
apresentar valor preditivo negativo (VPN) de 100% (Curran et al., 1986; Kastelic et al., 1988) através da
(De Vries et al., 2005). Ademais, altos valores de ecogenicidade do líquido amniótico e presença
sensibilidade e especificidade são desejáveis, devido de batimentos cardíacos (Fissore et al., 1986) foi
ao grande impacto econômico que causam, pois considerada como prenhez positiva. Aos 42 dias o
aumento da sensibilidade e especificidade de 95% diagnóstico foi confirmado por palpação transretal.
para 97,5% resulta num ganho de U$0,10 a U$4,70 Um animal diagnosticado como prenhe no primeiro
por vaca (Oltenacu et al., 1990), enquanto que uma exame, mas como não prenhe no segundo exame,
redução na sensibilidade e especificidade de 98% para devido à alteração da econogenicidade do líquido
92% reduz a receita líquida de U$0,10 a U$0,20 por amniótico e ausência de batimentos cardíacos (Fissore
vaca por ano (De Vries et al., 2005). et al., 1986), foi estabelecido como morte embrio-
Com base em dados da literatura e diante da falta nária. Quando o diagnóstico era negativo aos 42 dias
de consenso sobre a melhor data para realização do após a inseminação, os animais foram tratados com

32
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prostaglandina F2α (PGF2α) e inseminados após a visu- (52/170) como não prenhes e aos 42 dias esses índices
alização do estro. foram mantidos à palpação transretal. Aos 28 dias
Foram calculadas as taxas de prenhez, de morte após a segunda inseminação, as taxas de prenhez não
embrionária (total de prenhes aos 28 dias - total de diferiram (p>0,05) entre os G1 (100%) e G2 (100%) e
prenhes aos 42 dias/total de animais avaliados x 100); aos 42 dias esses índices também foram mantidos à
abortamento (total de prenhes aos 42 dias - total de palpação transretal.
paridas/total de animais avaliados x 100); de dúvidas As taxas de dúvidas, erros e acertos no diagnóstico
(diagnósticos inconclusivos decorrentes de artefatos precoce de gestação não diferiram entre os grupos
de técnica, animais inquietos e da dificuldade devido (p>0,05) tendo sido de 0%, 0% e 100% em ambos os
ao posicionamento do trato genital entre animais grupos. Deste modo, a sensibilidade, a especificidade,
cruzados e puros/total de avaliações x 100); de erros o VPP e o VPN foram todos de 100%, resultando
(total de falsos positivos e negativos/total de avaliações numa acurácia (proporção de prenhes e não prenhes
x 100) e de acertos (total de prenhes e não prenhes corretamente identificadas) de 100%.
corretamente identificadas/total de avaliações). Para As taxas de perdas embrionárias e abortamentos não
analisar os resultados foi utilizado o teste quiquadrado diferiram entre os grupos (p>0,05) tendo sido de 0% e
(X2) com nível de significância de 0,05%. Nas 0%, respectivamente, após as duas inseminações.
situações em que os valores foram menores do que 5 Deste modo, ambos os grupos apresentaram, após o
utilizou-se o Teste de Fisher. repasse da IA, taxa de prenhez total de 100% (p>0,05)
Os resultados ultra-sonográficos foram comparados e o IDP foi reduzido de 15 para 12,9 meses em ambos
calculando-se a sensibilidade, a especificidade e os os rebanhos.
valores preditivos positivo (VPP) e negativo (VPN)
usando uma tabela de contingência 2x2. A sensibili-
dade é a probabilidade que a vaca prenhe seja Discussão
diagnosticada como positiva pelo ultra-som, a especi-
ficidade é a probabilidade de que o ultra-som tenha Embora alguns estudos tenham sugerido a
detectado uma vaca vazia, o VPP é a probabilidade de possibilidade de diagnóstico de gestação usando
que a vaca detectada como prenhe está realmente ultra-sonografia transretal aos 25 ou 26 dias de
prenhe, enquanto que o VPN é a probabilidade de que gestação (Fissore et al., 1986; Pieterse et al., 1990;
uma vaca não prenhe é detectada como vazia pelo Barros e Visintin, 2001; Fricke, 2002), poucos abor-
método do ultra-som (Broaddus, 2006). daram a acurácia (sensibilidade, especificidade, VPP e
VPN) do método. Este foi o objetivo deste estudo que
também avaliou as conseqüências práticas do diagnós-
Resultados tico precoce da gestação, comparando-os em fêmeas
bovinas cruzadas e Nelore.
Os resultados dos exames ultra-sonográficos para O ultra-som foi capaz de detectar 100% das fêmeas
avaliar as taxas de gestação, perdas embrionárias, prenhes aos 28 dias após a inseminação, as quais
abortamentos e animais paridos após a primeira e foram confirmadas por palpação transretal aos 42
segunda inseminações são apresentados na Tabela 1. dias. A sensibilidade foi ligeiramente superior à relata-
Aos 28 dias após a primeira inseminação, as taxas de da por Pieterse et al.. (1990) entre os dias 26 e 33
prenhez foram menores (p<0,05) no GI (44%) do que (97,7%), Hanzen e Laurent (1991) entre 26 e 70 dias
no G2 (80%) e, das 170 fêmeas avaliadas, 69,4% pós-IA (97%), Nation et al. (2003) entre os dias 28 e
(118/170) foram classificadas como prenhes e 30,6% 35 de gestação (96%) e Real et al. (2006) entre os dias

Tabela 1 - Taxas de gestação, de perdas embrionárias e de abortamentos aos 28 (por ultra-sonografia) e 42 dias (por palpação tran-
sretal) após a primeira e segunda inseminações artificiais e taxa de prenhez total de fêmeas Girolando (G1) e Bos indicus (G2)
Grupos G1 G2 Total
IA
Categorias (n=50) % (n=120) % (n=170) %
Animais gestantes aos 28 dias pós-1ª IA 22 44a 96 80b 118 69,4
1ª IA Perdas embrionárias 0 0a 0 0a 0 0
Animais gestantes aos 42 dias pós-1ª IA 22 44 96 80 118 69,4
Abortamentos 0 0 0 0 0 0
Animais gestantes aos 28 dias pós-2ª IA 28 100 24 100 52 100
Perdas embrionárias 0 0 0 0 0 0
2ª IA
Animais gestantes aos 42 dias pós-2ª IA 28 100 24 100 52 100
Abortamentos 0 0 0 0 0 0
Animais paridos 50 100 120 100 170 100
a,b
Valores na mesma linha indicam diferença estatística (p < 0,05).

33
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26 e 30 de gestação (79%). Apenas Filteau e Bibliografia


Descôteaux (1998) após o dia 32 e Romano et al.
(2003) observaram resultados semelhantes aos 29 dias Badtram GA, Gaines JD, Thomas CB, Bosu WTK (1991).
pós-estro em vacas e aos 26 dias em novilhas. A Factors influencing the accuracy of early pregnancy detec-
especificidade foi de 100%, não tendo havido perda tion in cattle by real-time ultrasound scanning of the
da capacidade de detecção de fêmeas vazias, ao uterus. Theriogenology, 35(6), 1153-1167.
contrário de outros relatos da literatura (Pieterse et al., Ball PJH e Logue DDN (1994). Ultrasound diagnosis of
1990; Hanzen e Laurent, 1991; Real et al., 2006). pregnancy in cattle. The Veterinary Record, 134, 352.
Com isto, não foram observados falsos negativos ou Barros BJP e Visintin JA (2001). Controle ultra-sonográfico
positivos, reforçando a exatidão do método. Estes de gestações, de mortalidades embrionárias e fetais e do
resultados contradizem outros relatos (Barros e sexo de fetos bovinos zebuínos. Brazilian Journal
Visintin, 2001; Romano, 2004), que atribuíram a ocor- Veterinary Research and Animal Science, 38(2), 74-79.
rência de erros à maior dificuldade na interpretação Boyd JS, Omran SN, Ayliffe TR (1988). Use of a high
frequency transducer with real time B-mode ultrasound
das imagens quando os batimentos cardíacos não são
scanning to identify early pregnancy in cows. The
observados. A persistência de falsos positivos durante
Veterinary Record, 123, 8.
os estágios iniciais da prenhez pode explicar porque
Broaddus B (2006). A comparison of methods for early
a especificidade e o VPP nunca atingem 100%
pregnancy diagnosis. Disponível em:
(Romano, 2004). Neste estudo, a não ocorrência de
http://www.milkproduction.com/Library/Articles/
erros resultou em VPP e VPN máximos, fato apenas
A_Comparison_of_Methods_for_Early_Pregnancy_
observado por Filteau e Descôteaux (1998) e Szenci et Diagnosis.htm. Acesso em: 30 out 2008.
al. (1999) em relação ao VPN. Curran S, Pierson RA, Ginther OJ (1986). Ultrasonographic
No presente estudo, o exame ultra-sonográfico não appearance of the bovine conceptus from days 20 through
ocasionou morte embrionária (Ball e Logue, 1994; 60. Journal of American Veterinary Medical Association,
Hughes e Davies, 1989; Barros e Visintin, 2001), 189, 1295.
contradizendo o observado por Nation et al. (2003) e De Vries A, Bartolome J, Broaddus B (2005). What is Early
Vasconcelos et al. (1997), que consideraram, respecti- Pregnancy Diagnosis Worth? Proceedings 2nd Florida
vamente, os períodos de 28 a 35 dias e 28 a 42 dias Dairy Road Show (2005), 31-40.
após inseminações precoces para detecção segura da Facó O, Lobo RNB, Martins Filho R, Lima AF de M (2005).
gestação, devido à alta incidência de mortalidade Idade ao primeiro parto e intervalo de partos de cinco
embrionária. Isto se deveu à facilidade de visualização grupos genéticos Holandês X Gir no Brasil. Revista
dos batimentos cardíacos e à experiência do técnico Brasileira de Zootecnia, 34(6), 1920-1926.
em não ocasionar trauma à vesícula amniótica, pois Filteau V e Descôteaux L (1998). Predictive values of early
manipulações excessivas do trato genital foram evi- pregnancy diagnosis by ultrasonography in dairy cattle.
tadas, e sugere que aos 28 dias a técnica pode ser In: Proccedings of The American Association of Bovine
inócua para a detecção precoce da gestação. Practice Annual Meeting, 31, Spokane., WA, Anais… 31,
O tratamento de fêmeas não prenhes com prosta- 170-171.
glandina aos 42 dias após a IA diminuiu o intervalo Fissore RA, Edmondson AJ, Pashen RL, Bondurant RH
entre partos dos animais estudados, o qual foi inferior (1986). The use of ultrasonography for the study of the
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diagnóstico aos 28 dias após inseminação permite
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inferir que a PGF2α poderia ter sido administrada neste
Gonçalves JNS, Scarpati MTV, Nardon RF, Paredes MAR,
dia sem a necessidade de confirmação do diagnóstico
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aos 42 dias após IA, o que teria reduzido ainda mais o real e da capacidade mais provável de fertilidade real de
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dúvidas ou erros são eliminados se os batimentos Hanzen C e Laurent Y (1991) Application of ultrasonogra-
cardíacos fetais são visualizados, resultando em altos phy in pregnancy diagnosis and evaluation of embryonic
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35
RPCV (2009) 104 (569-572) 37-43 R E V I S TA P O R T U G U E S A
DE
CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Estudo do balanço eletrolítico alimentar para suínos machos castrados em


acabamento mantidos em ambiente de alta temperatura

Study of feed electrolyte balance of finishing castrated male pigs under


high environmental temperature

Anilce A. Bretas1*, Rony A. Ferreira2, Patrícia C.B. Vale1, Humberto P. Couto3,


Walter E. Pereira4
1
Laboratório de Zootecnia e Nutrição Animal – Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF)
Avenida Alberto Lamego, 2000. Campus dos Goytacazes-RJ CEP: 28013-600
2
Faculdade de Ciências do Departamento de Zootecnia Campus II – Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM)
3
Laboratório de Zootecnia e Nutrição Animal – Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF)
4
Centro de Ciência Agrária – Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

Resumo: Avaliou-se o efeito do Balanço Eletrolítico (BE) em with sodium bicarbonate (NaHCO3) with 250 mEq/kg; T3 diet
rações com diferentes níveis eletrolíticos para suínos na fase de supplemented with NaHCO3 and potassium chloride (KCl) with
terminação (acabamento) criados em alta temperatura. Foram 250 mEq/kg; T4 diet supplemented with NaHCO3 with
utilizados 200 suínos machos castrados com peso médio de 300 mEq/kg; T5 diet supplemented with NaHCO3 and KCl
68,8±3,4 kg, distribuídos em delineamento experimental 300 mEq/kg. Ten pigs and 4 replications were used per experi-
inteiramente aleatório, com cinco tratamentos: T1s/supl ração mental unit. The study was finished when the average weight of
sem suplementação de eletrólitos com 191 mEq/kg; T2 ração the animals was 110.1±2.6 kg. The performance parameters
suplementada com bicarbonato de sódio com 250 mEq/kg; T3 evaluated were the feed intake, the daily gain (DG), finished
ração suplementada com NaHCO3 e cloreto de potássio 250 weight, nitrogen intake, lysine intake (LI), efficiency of N
mEq/kg; T4 ração suplementada com NaHCO3 300 mEq/kg; e utilization for weight gain, efficiency of L utilization for weight
T5 ração suplementada com NaHCO3 e KCl 300 mEq/kg. gain (ELUWG) and the gain:feed ratio and physiologic
Utilizando quatro repetições, sendo 10 animais por unidade parameters to respiratory frequency and rectal temperature. The
experimental. No encerramento do experimento o peso médio average temperature was 29.34±2.06 °C with relative humidity
foi 110,1 ± 2,6 kg. As variáveis avaliadas foram consumo de of 70.4 ± 9.2% and black globe temperature of 31.59 ± 2.53 °C
ração (CR), ganho de peso (GP), consumo de nitrogênio (CN), and black globe humidity index calculated 80.98 ± 2.89. The
consumo de lisina (CL), eficiência de utilização de nitrogênio levels of EB improved (P<0.05) the DG, LI and ELUWG. The
para ganho (EUNG), eficiência de utilização de lisina para others performance parameters evaluated weren’t influenced by
ganho (EULG), conversão alimentar (CA) e os parâmetros treatments (P>0.05). The supplementation with sodium bicar-
fisiológicos frequência respiratória (FR), temperatura retal bonate and or potassium chloride with 250 or 300 mEq/kg can
(TR). A temperatura média manteve-se em 29,34±2,06 °C com be used to correct electrolyte balance under heat stress.
umidade relativa (UR) do ar de 70,4 ± 9,2% e TGN de 31,59 ±
2,53 °C e ITGU em 80,98 ± 2,89. Os níveis de BE melhoraram Keywords: electrolyte balance, swine, heat stress, sodium
(P<0,05) o GP, CL e a EULG. Os demais parâmetros de desem- bicarbonate, potassium chloride
penho avaliados não foram afetados pelos tratamentos (P>0,05).
A suplementação com 250 ou 300 mEq/kg com bicarbonato de
sódio e/ou cloreto de potássio pode ser usada para corrigir o
balanço eletrolítico no stresse calórico. Introdução

Palavras-chave: equilíbrio ácido-base, suínos, stresse calórico, A região Nordeste do Brasil possui um rebanho
bicarbonato de sódio, cloreto de potássio suíno com alto potencial genético, porém com produ-
tividade inferior em comparação às demais regiões do
Summary: The effect of Dietary Electrolyte Balance (EB) in
rations with different levels of electrolytes for growing swine país, em virtude, principalmente, das características
under high environmental temperatures was evaluated. Two climáticas da região (Carvalho et al., 2004). É impor-
hundred male castrated pigs with initial average weight of tante considerar a temperatura ambiente, como um dos
25,3±1.3 kg were allocated in five treatments, using a principais elementos climáticos não só por causa do
completely randomized experimental design: T1 diet without efeito direto sobre a intensidade das trocas térmicas,
supplemented electrolyte 191with mEq/kg; T2 diet supplemented
como indiretamente pela influência que exerce sobre
os demais componentes do bioclima.
Segundo Perdomo (1998), a adequação do meio
deve ter caráter permanente, independentemente da
*Correspondência: aabretas@yahoo.com.br maior ou menor habilidade genética do suíno, uma vez

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que a estabilização e melhoria do conforto térmico são Material e métodos


fundamentais para elevar o nível de independência das
edificações em relação ao clima, visando a otimização Foram utilizados 200 suínos cruzados (Landrace X
do desempenho. Large White) machos castrados, em fase de acaba-
A manutenção do equilíbrio ácido-básico tem mento, em delineamento experimental inteiramente
grande importância fisiológica e bioquímica, visto aleatório, cinco tratamentos com diferentes níveis de
que as atividades das enzimas celulares, as trocas mEq/kg de ração suplementadas ou não com bicar-
eletrolíticas e a manutenção do estado estrutural bonato de sódio e/ou cloreto de potássio e quatro
das proteínas são profundamente influenciadas por repetições, onde a unidade experimental foi composta
pequenas alterações na concentração hidrogeniônica por 10 animais na baia. Os animais foram alojados em
(H+) do sangue (Macari e Furlan, 1994). O balanço galpão (alpendre) de alvenaria, coberto com telha de
eletrolítico da ração pode exercer influência no fibrocimento em duas águas, sem forro, com piso de
equilíbrio ácido-básico e, consequentemente, afetar os cimento parcialmente ripado, dividido em baias iguais
processos metabólicos relacionados ao crescimento, à de 3,25 m x 2,60 m cada baia, provido de bebedouro
resistência a doenças, à sobrevivência ao stresse e ao tipo chupeta e comedouro fixo semi automático de
desempenho do animal (Vietes et al., 2005). concreto com cinco divisões.
Segundo Mogin (1980), o sódio, o potássio e o As rações experimentais (Tabela 1) foram formu-
cloreto são fundamentais na manutenção da pressão ladas seguindo as recomendações de Rostagno et al.
osmótica e equilíbrio ácido base dos líquidos corpo- (2005), preparadas à base de sorgo e farelo de soja,
rais. Como forma de prevenção para o desequilíbrio sendo que suas fórmulas serviram para satisfazer as
ácido básico a suplementação de rações através do uso exigências nutricionais de suínos machos castrados de
de compostos como bicarbonato de sódio (NaHCO3) alto potencial genético com desempenho médio na
e cloreto de potássio (KCl) tem sido utilizada em fase de terminação.
regiões de clima quente. Diante do exposto, este Foram utilizadas cinco rações experimentais T1
trabalho teve como objetivos avaliar o desempenho de (s/supl): ração sem suplementação de eletrólitos
suínos em terminação (acabamento) mantidos em formulada com 191 mEq/kg; T2 (supl B): ração com
condições naturais de calor recebendo rações com suplementação de bicarbonato de sódio (NaHCO3) ou
diferentes balanços eletrolíticos. (B) formulada com 250 mEq/kg; T3 (supl B+C): ração

Tabela 1 - Composição das rações experimentais


Ingredientes Tratamentos
1 2 3 4 5
Sorgo 72,680 71,900 71,415 71,484 70,479
Farelo de soja 19,600 19,600 19,600 19,600 19,600
Óleo de soja 3,400 3,400 3,400 3,400 3,400
Suplemento mineral:vitamínico2 4,000 4,000 4,000 4,000 4,000
Sal comum 0,220 0,240 0,225 0,230 0,235
L- lisina HCl 0,100 0,100 0,100 0,100 0,100
Bicarbonato de sódio - 0,760 0,760 1,186 1,186
Cloreto de potássio - - 0,500 - 1,000
Total 100,000 100,000 100,000 100,000 100,000
Composição Nutricional
Proteína Bruta (%)1 17,70 17,69 17,61 17,64 17,63
EM (kcal/kg)1 3,450 3,440 3,415 3,420 3,410
BE (mEq/kg)3 199 250 250 300 300
Lisina total (%)1 0,890 0,880 0,870 0,880 0,870
Cloro (%)4 0,190 0,260 0,250 0,270 0,280
Sódio (%)4 0,270 0,400 0,390 0,510 0,500
Potássio (%)4 0,530 0,590 0,600 0,610 0,630
Cálcio (%)4 0,700 0,702 0,701 0,703 0,701
Fósforo total (%)4 0,530 0,529 0,528 0,527 0,528
1
Composição calculada segundo Rostagno et al. (2005).
2
Conteúdo em kg: selênio 8 mg, flúor 485 mg, vitamina B12 520 mg, ácido fólico 8,8 mg, vitamina A 93.000 ui/kg, vitamina D3 24.000 ui/kg,
manganês 836 mg, fósforo 49 g, cálcio 190 g, ácido pantotênico 173 mg, promotor de crescimento (mananoligossacarídeos) 1.485 mg, vitamina
K3 53 mg, iodo 29,5 mg, cobalto 3,6 mg, vitamina E 106 mg, niacina 426 mg, riboflavina 71 mg, antioxidante (betahidroxitolueno-BHT) 9 mg,
tiamina 13,3 mg, sódio 58,5 g, cobre 2.126 mg, solubilidade de fósforo (P) em ác. Cítrico a 2% (mín) 90%, zinco 2.049 mg, ferro 1.820 mg,
piridoxina 13,3 mg, biotina 0,42 mg, qsp1000 g.
3
BE - Balanço Eletrolítico da ração calculado conforme Patience (1990), BE = (Na/23 + K/39 – Cl/35,5)x 1000.
4
Análises realizadas no Laboratório de Solos – Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).

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com suplementação de NaHCO3 ou (B) e cloreto de globo e umidade (ITGU) foi de 80,98 ± 2,89. A uti-
potássio (KCl) ou (C) formulada com 250 mEq/kg; T4 lização de índices bioclimatológicos na suinocultura
(supl B): ração com suplementação de NaHCO3 ou (B) permite a precisão de uma avaliação da situação
formulada com 300 mEq/kg; T5 (supl B+C): ração ambiental, e também uma comparação de animais
com suplementação de NaHCO3 ou (B) e KCl ou (C) mantidos em diferentes regiões (Ferreira, 2005).
formulada com 300 mEq/kg. Para a correção do Em pesquisa realizada por Whittemore (1980) foi
balanço eletrolítico, as rações dos tratamentos T2 e T4 observado uma faixa estreita de conforto térmico para
continham apenas bicarbonato de sódio (NaHCO3) e suínos na fase de terminação com valores entre 16 a
as rações dos tratamentos T3 e T5 continham 27 °C para suínos acima dos 50 kg de peso vivo. De
(NaHCO3) e cloreto de potássio (KCl), que foram acordo com Pointer (1978) e (Baêta e Souza, 1997), a
adicionados em substituição ao sorgo da ração, sendo temperatura de conforto térmico para esta categoria
os demais ingredientes mantidos em sua concentração. animal é de 25 °C.
Os valores de balanço eletrolítico (BE) das rações A temperatura média observada 29,34 °C foi
experimentais foram calculados, considerando o peso superior à temperatura máxima da zona de conforto
molecular de cada elemento químico, de acordo com térmico para os animais na fase de terminação, dessa
a recomendação de Patience (1990), por meio da forma há evidência que os suínos estavam em
fórmula: BE = (Na/23 + K/39 – Cl/35,5). condições de moderado stresse por calor.
As condições ambientais do galpão foram moni- O valor do ITGU obtido neste estudo demonstrou
toradas (7, 12 e 17 horas), utilizando termohigrômetro que os animais durante todo o período experimental
digital, termômetro de máxima e mínima e termô- estavam submetidos ao stresse por calor. Segundo
metro de globo negro, mantidos em uma baia vazia no Ferreira (2005), os valores de ITGU próximos de 80
centro do galpão à meia altura do corpo dos animais. podem caracterizar o efeito do stresse calórico para
As leituras dos equipamentos foram utilizadas para o suínos em fase de terminação. Outros valores de
cálculo do índice de temperatura de globo e umidade ITGU foram observados por (Tavares et al., 2000;
(ITGU), segundo metodologia de Buffington et al. Tavares et al., 2005), Kiefer et al. (2005), Ferreira et
(1981). Para o cálculo do ITGU foi utilizada seguinte al. (2007) e Orlando et al. (2007), sendo respectiva-
equação a seguir "ITGU = Tgn + 0,36 Tpo – 330,08", mente 81,1 e 79,7; 82,8; 82,2 e 82,9 caracterizando o
onde: ITGU = índice de temperatura de globo e umi- stresse por calor para suínos em fase de terminação.
dade; Tgn = temperatura de globo negro (em Kelvin); Os resultados de consumo de ração (CR), ganho de
Tpo = temperatura do ponto de orvalho (em Kelvin). peso (GP), conversão alimentar (CA), peso final (PF),
Foram realizadas as pesagens diárias das sobras e do consumo de nitrogênio (CN), consumo de lisina (CL),
resíduo de ração. As pesagens dos animais foram eficiência de utilização de lisina para ganho (EULG)
realizadas no início e no final do experimento, para a e eficiência de utilização do nitrogênio para ganho
avaliação do ganho de peso. Para cálculo do CN, foi (EUNG) são apresentados na Tabela 2.
considerado consumo de proteína bruta (PB) dividido Os resultados observados sobre o consumo de ração
pelo coeficiente 6,25. A eficiência de lisina e de (CR) não foram diferentes (P>0,05) entre os tratamen-
nitrogênio, ambos para ganho, foi avaliada através do tos avaliados.
consumo médio de lisina necessário para os animais Pelos resultados obtidos pode-se notar que a
converterem em ganho de peso. suplementação de eletrólitos melhorou (P<0,05) o
O modelo estatístico utilizado foi Yij = µ + ti + eij, ganho de peso (GP) dos animais. Observou-se que os
em que Yij (Completely Randomized Design) = efeito suínos que receberam a suplementação de eletrólitos
do tratamento i na repetição j, µ = média geral das var- nas rações apresentaram um aumento médio de 3,59%
iáveis, ti = efeito do tratamento i, eij = erro aleatório no ganho de peso quando comparado com os suínos
associado a cada observação ij. As análises estatísticas que receberam ração sem correção do balanço
de desempenho foram realizadas utilizando-se os eletrolítico.
procedimentos do SAS versão 7.0 (SAS, 2005), Silva (1999) relatou que elevadas temperaturas
efetuando-se a soma de quadrados dos tratamentos ambientais parecem ter efeito depressivo mais pro-
decomposta em contrastes ortogonais para análise dos nunciado em suínos modernos com alto potencial
efeitos de balanço eletrolítico sobre as variáveis de genético, uma vez que o ganho diário de peso é preju-
desempenho em 5% de probabilidade. dicado. Por outro lado, em um estudo conduzido por
Moreira et al. (2003), utilizando suínos com médio
potencial genético, o menor ganho diário de peso pro-
Resultado e discussão porcionado pela elevada temperatura foi compensado
pela melhora na conversão alimentar.
Durante todo o período experimental a temperatura Não foram observados diferenças (P>0,05) na
média manteve-se em 29,34 ± 2,06 °C, com umidade conversão alimentar e peso final dos animais, demons-
relativa do ar de 70,4 ± 9,2% e temperatura do globo trando que a suplementação contribuiu efetivamente
negro de 31,59 ± 2,53 °C. O índice de temperatura de para melhora de desempenho dos suínos.

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O balanço eletrolítico obtido pela suplementação O consumo de lisina diário é responsável pela
de sódio, potássio e cloreto nas rações (tratamentos deposição de tecido muscular na carcaça e o desem-
3 e 5) pode ter deprimido o apetite dos suínos. penho pode estar associado diretamente ao nível de
Provavelmente, em função de que as concentrações lisina nas rações (Oliveira et al., 2002).
de potássio (0,60 e 0,63%) e sódio (0,39 e 0,50%) Os resultados de consumo diário de sódio, do
ultrapassaram a tolerância dos animais. Rostagno consumo de potássio e consumo de cloro estão
et al. (2005) prescreveram, respectivamente, 0,52% demonstrados na Tabela 3.
de potássio e 0,17% de sódio para suínos de alto A correção do balanço eletrolítico da ração para 250
potencial genético e desempenho médio na fase de ou 300 mEq/kg proporcionou maiores consumos
terminação. (P<0,05) dos três elementos estudados. Uma vez que
Hannas (1999), em sua revisão, relatou que os o consumo voluntário de ração não foi influenciado
suínos em stresse por calor não apresentaram piora na entre os tratamentos, os consumos de sódio, de potássio
conversão alimentar, entretanto, os prejuízos econômi- e de cloreto variaram de acordo com a concentração
cos podem ser decorridos em função do maior número destes eletrólitos nas formulações.
de dias para que os animais atinjam o peso de abate. Dentre os animais que receberam ração suplementada
Os resultados observados para a consumo de com eletrólitos, aqueles que receberam rações com
nitrogênio (CN) e eficiência de utilização de 300 mEq/kg apresentaram maior consumo de potássio
nitrogênio para ganho (EUNG) não foram diferentes (P<0,05) em relação aos que consumiram rações com
(P>0,05) quando se utilizou a correção de balanço 250 mEq/kg.
eletrolítico. Contudo, os tratamentos 3 e 5 apresen- O teor de ingestão de sódio na dieta, a concentração
taram diminuição no CN, valores não-significativos, de sódio plasmática e a carga de sódio filtrado podem
quando as rações apresentaram suplementação com influenciar as taxas de excreção do potássio. Neste
cloreto de potássio (KCl). caso, o excesso de potássio na dieta provoca um
Provavelmente, o KCl pode ter ocasionado a aumento da eliminação deste e uma diminuição na
inclusão de compostos ácidos, dessa maneira propor- eliminação de hidrogênio (H+). Como os íons sódio e
cionando uma diminuição sobre o valor do balanço potássio aumentaram sua concentração em relação à
eletrolítico no organismo. A quantidade consumida concentração do cloreto, ocasionou dessa maneira
desses íons nas rações produz uma estreita relação uma diminuição da eliminação de H+, sendo esta
com os mecanismos compensatórios que envolvem a reação caracterizada como resposta à alcalose
mobilização desses íons fundamentais para o equi- metabólica provocada por uma alimentação aniônica
líbrio acidobásico. (Swenson e Reece, 1993).
Houve influência dos tratamentos (P<0,05) sobre o A taxa de excreção de K+ pela urina é variável,
consumo de lisina (CL) e eficiência de utilização de estando ligada à concentração plasmática de Na+ e ao
lisina para ganho (EULG). Pelos resultados obtidos estado de hidratação dos animais, sendo que as perdas
pode-se notar que a suplementação de eletrólitos podem ser causadas pelo aumento no consumo de
melhorou (P<0,05) o consumo de lisina (CL) e a água, já que o gradiente osmótico favorece o movi-
EULG dos animais. Observou-se que os suínos que mento de água do fluído intracelular para urina,
receberam a suplementação de eletrólitos nas rações podendo transportar o K+. O aumento de K+ resulta em
apresentaram um aumento médio de 3,24% no maior perda urinária, sendo que os suínos têm pouca
consumo quando comparado com os suínos que não capacidade de conservar o K+ corporal (Salvador et
receberam rações com o balanço eletrolítico corrigido. al., 1999).
Observou-se que os suínos que receberam a suple- O maior consumo de sódio apresentado pelos
mentação de eletrólitos nas rações apresentaram um animais que receberam rações com eletrólitos pode ter
aumento médio de 5,44% na eficiência de utilização influenciado o resultado observado para consumo de
de lisina quando comparado com os suínos que não cloreto quando comparado ao tratamento 1 sem suple-
receberam rações com tratamento do balanço mentação oferecido aos suínos apresentado na Tabela
eletrolítico corrigido. 3. Assim, caso ocorra no organismo excesso de sódio,
O valor obtido para o consumo diário de lisina 30,13 o excesso de cloreto acompanha a excreção de sódio
g/dia em rações com 0,90% de lisina, trabalhando com que será eliminado pela urina através da ação dos rins.
suínos machos castrados com 95 aos 122 kg obtido Este mecanismo do organismo tem como objetivo
por Arouca et al. (2007) foi superior ao obtido neste a manutenção do equilíbrio das quantidades de
trabalho (21,49 g/dia) onde os suínos receberam cátions-ânions (Del Claro, 2003; Pound et al. 2005).
rações com 0,89% de lisina. A ingestão de lisina total As necessidades de cloro para animais em terminação
exigida pelo suíno depende do apetite ou do potencial poderiam atingir 2,5 g/dia dependendo das condições
de ingestão de alimento, da taxa de deposição de carne ambientais, conforme NRC (1998).
magra e da eficiência desta deposição, o que poderia O aumento no consumo de Cl- deprime a excreção
explicar as diferenças observadas de acordo com de H+ e a reabsorção de HCO3- pelos rins. Isto pode
Hannas et al. (1999). contribuir com uma acidificação do sangue e esta

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Tabela 2 - Consumo de ração (CR), ganho de peso (GP), conversão alimentar (CA), peso final (PF), consumo de nitrogênio (CN),
consumo de lisina (CL), eficiência de utilização de nitrogênio (EUNG) e eficiência de utilização de lisina (EULis) de suínos em
terminação, mantidos em condições naturais de calor recebendo rações com diferentes balanços eletrolíticos
Tratamentos CR GP CA PF CN CL EUNG EULis
(g/dia) (g/dia) (kg) (g/dia) (g/dia) (gGP/g) (gGP/gLis)
1 (s/supl) 2.528 766 3,30 110,50 71,58 21,49 10,60 33,73
2 (supl B)
250 mEq/kg 2.536 811 3,13 111,19 71,60 22,31 11,33 36,36
3 (supl B+C)
250 mEq/kg 2.440 776 3,14 109,82 69,75 22,23 10,84 35,12
4 (supl B)
300 mEq/kg 2.557 821 3,11 112,69 71,18 22,30 10,69 34,14
5 (supl B+C)
300 mEq/kg 2.415 770 3,14 109,03 70,13 22,01 11,43 37,04
CV (%) 4,97 5,54 3,31 4,98 4,95 3,20 4,17 4,72
QMresíduo 0,187 0,355 0,298 0,187 0,290 0,197 0,426 0,153
Contrastes Significância
T1vs T2+T3+T4+T5 NS * NS NS NS * NS *
T2+T3 vs T4+T5 NS NS NS NS NS NS NS NS
T2 vs T3 NS NS NS NS NS NS NS NS
T4 vs T5 NS NS NS NS NS NS NS NS
* significativo 5% pelo teste T.

Tabela 3 – Consumos de sódio, de potássio e de cloreto por suínos em fase de terminação, alimentados com rações contendo difer-
entes balanços eletrolíticos
Tratamentos Consumo diário Proporção
Sódio Potássio Cloreto Na K Cl
1 (s/suplementação) 7,29 14,32 5,13 1,42 2,79 1,00
2 (B) 250 mEq/kg 11,15 16,45 7,25 1,54 2,69 1,00
3 (B+C) 250 mEq/kg 10,73 16,89 7,04 1,52 2,40 1,00
4 (B) 300 mEq/kg 13,55 16,21 7,18 1,89 2,26 1,00
5 (B+C) 300 mEq/kg 13,70 17,26 7,67 1,79 2,50 1,00
CV(%) 4,97 4,93 4,92 - - -
QMresíduo 0,956 0,683 0,901 - - -
Contrastes Significância
T1vs T2+T3+T4+T5 * * * - - -
T2+T3 vs T4+T5 * NS NS - - -
T2 vs T3 NS NS NS - - -
T4 vs T5 NS NS NS - - -
* significativo 5% pelo teste T.

parece ser uma resposta apropriada para a alcalose complementa com as necessidades de sódio.
(Salvador et al., 1999). Conforme observado pela proporção Na:Cl no trata-
As funções do cloreto estão relacionadas à regu- mento 2, esta foi a relação que mais se aproximou do
lação da pressão osmótica extracelular e à manutenção valor 1,58:1, recomendado pelo NRC (1998), para
do equilíbrio ácido-base no organismo animal esta categoria animal.
(Andrigueto et al., 2002; Bertechini, 2006). Os resultados referentes às respostas fisiológicas de
Os tratamentos 4 e 5 utilizando o balanço eletrolítico freqüência respiratória (FR) e temperatura retal (TR)
de 300 mEq/kg apresentaram maior relação Na:Cl que apresentados pelos animais estão apresentados na
os demais tratamentos. O bicarbonato de sódio tem Tabela 4.
sido usado na tentativa de minimizar as perdas pelo Os resultados observados para freqüência respi-
stresse calórico, particularmente durante o verão, além ratória (FR) e da temperatura retal (TR) não foram
de contribuir com sódio sem incorporar o cloro. diferentes (P>0,05) entre os tratamentos analisados.
As necessidades de cloro são inferiores às de sódio Os resultados encontrados pelos tratamentos indicam
e o uso de cloreto de potássio deve ser limitado até a que este mecanismo de controle homeotérmico foi
satisfação das necessidades de cloro, assim que este se eficiente nestes animais.

41
Bretas AA et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 37-43

Tabela 4 - Resultado de freqüência respiratória (FR) em movimento por minuto (mov/min) e temperatura retal (TR) em (ºC) de suínos
em terminação dos 68,8 aos 110,1 kg alimentados com rações contendo diferentes balanços eletrolíticos
Tratamentos FR (mov/min) TR (ºC)
1 (s/suplementação) 71,57 ± 0,73 39,49 ± 0,02
2 (supl B) 250 mEq/kg 70,64 ± 0,27 39,57 ± 0,07
3 (supl B+C) 250 mEq/kg 69,64 ± 0,20 39,59 ± 0,05
4 (supl B) 300 mEq/kg 70,00 ± 0,80 39,54 ± 0,17
5 (supl B+C) 300 mEq/kg 69,99 ± 0,38 39,35 ± 0,10
CV(%) 4,22 2,96
QMresíduo 0,322 0,561
Contrastes Significância
T1vs T2+T3+T4+T5 NS NS
T2+T3 vs T4+T5 NS NS
T2 vs T3 NS NS
T4 vs T5 NS NS

Ferreira (2005) citou que a FR de suínos poderá Agradecimentos


passar de 44 mov/min aos 21 °C, para 82 mov/min aos
32 °C. Os resultados encontrados neste estudo, tanto Aos funcionários, em especial, ao Gerente Geral o
de FR quanto de TR são característicos de suínos em Sr. José de Souza da Granja Agrolusa S/A, localizada
condições de stresse por calor. Os valores de TR em São Luis – Maranhão.
observados são semelhantes àqueles obtidos por
Tavares et al. (2000) (39,6 °C) e por Orlando et al.
(2001) e Tavares et al. (1999), (39,4 °C), sendo que
ambos estudaram suínos em stresse por calor. Bibliografia
O dióxido de carbono é o produto final da oxidação
completa de carboidratos, lipídeos e proteínas. Assim, Andrigueto JM, Perly L, Minardi I, Silva DC (2002).
o metabolismo animal gera, de forma contínua, Nutrição Animal: as bases e os fundamentos da nutrição
grandes quantidades de CO2 nas células, tornando a animal – os alimentos. Editora: Nobel (São Paulo), 380-
pCO2 tecidual mais elevada do que a pCO2 sangüínea. 395.
Dessa maneira, uma vez que existe diferença de Arouca CLC, Fontes DO, Baião NC, Silva MA (2007).
pressão, o CO2 difunde-se a partir das células para o Níveis de lisina para suínos machos castrados seleciona
sangue e o plasma. dos geneticamente para deposição de carne magra na car-
Os pulmões são responsáveis por uma maior taxa de caça dos 95 aos 122 kg. Ciências Agrotécnica, Lavras, 31,
excreção diária de ácido carbônico (H2CO3) e CO2 em 531-539.
comparação com os rins. Por essa razão, a ventilação Baêta FC e Souza CF (1997). Ambiência em edificações
alveolar e a excreção de CO2 têm grande influência no rurais: conforto animal. Editora: UFV (Viçosa, MG), 240-
equilíbrio acidobásico. O incremento da tensão de 246.
CO2 do sangue e a depleção de íons bicarbonato Bertechini AG (2006). Nutrição de monogástricos: suínos.
causam um aumento na profundidade respiratória. Editora: UFLA (Lavras – MG), 290-298.
Nesse caso, os suínos conseguem aumentar o volume Buffington DE, Colazzo-Arocho A, Canton GH, Thomas
de ar inspirado e expirado através do aumento da pro- YK (1981). Black golbe-humidity índex (BGHI) as con-
fundidade respiratória, ou seja, o ar inspirado penetra fort equation for dairy cows. Transaction of the ASAE, 24,
com mais profundidade nos pulmões, permitindo que 711-714.
o volume de ar seja trocado por números menores de Carvalho LE, Oliviera SM, Turco SHN (2004). Utilização da
movimento respiratório (Dibartola, 2007). nebulização e ventilação forçada sobre o desempenho e a
temperatura da pele de suínos na fase de terminação.
Revista Brasileira de Zootecnia, 33(6), 486-14
Conclusão Del Claro GR (2003). Influência do balanço cátion-aniônico
da dieta no desempenho de ovinos. Dissertação (mestrado
A correção do balanço eletrolítico em rações em Zootecnia) – Universidade de São Paulo – Faculdade
contendo 250 ou 300 mEq/kg, suplementadas com de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (Pirassununga).
bicarbonato de sódio e/ou cloreto de potássio influen- Dibartola SP (2007). Anormalidades de fluidos, eletrólitos e
ciou o desempenho para ganho de peso, consumo de equilíbrio ácido-básico na clínica de pequenos animais.
lisina e eficiência de utilização de lisina para suínos Editora: Rocca, 3ª edição (São Paulo), 659-660.
em terminação (70-100 kg). Os resultados encontra- Ferreira RA (2005). Maior produção com melhor ambiente
dos pelos tratamentos indicam que o mecanismo de para aves, suínos e bovinos. Editora: Aprenda Fácil
controle homeotérmico foi eficiente nestes animais. (Viçosa-MG), 368-374.

42
Bretas AA et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 37-43

Ferreira RA, Oliveira RFM, Donzele JL, Saraiva EP, Silva JEP, Menten JFM, Miyada VS (Eds). Simpósio Sobre
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43
RPCV (2009) 104 (569-572) 45-53 R E V I S TA P O R T U G U E S A
DE
CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Estudo casuístico de dermatites por reacção de hipersensibilidade em cães


e gatos

Case study of dermatitis hypersensitivity reaction in dogs and cats

Sílvia Silva1, Sara Peneda2, Rita Cruz1, Helena Vala1,3*


1
Escola Superior Agrária de Viseu, Instituto Politécnico de Viseu. Estrada de Nelas, Quinta da Alagoa, Ranhados,
3500-606 Viseu, Portugal
2
Hospital Veterinário do Porto, Travessa Silva Porto 4200-475 Porto
3
Centro de Estudos em Educação, Tecnologias e Saúde, Escola Superior Agrária de Viseu, IPV, Estrada de Nelas,
Quinta da Alagoa, Ranhados, 3500-606 Viseu

Resumo: Os autores apresentam um estudo das dermatites Keywords: Cutaneous hypersensitivity reaction, Flea Bite
causadas por reacção de hipersensibilidade em animais de Hypersensitivity, Urticaria, Angioedema, Atopic Dermatitis,
companhia, dando enfoque à sua distribuição por sexo, raça e Food Hypersensitivity, canine, feline.
idade, baseado na análise da casuística dermatológica do
Hospital Veterinário do Porto.
Num total aproximado de 1177 consultas de canídeos, 554
diziam respeito a consultas dermatológicas e, num total de 388 Introdução
consultas em felinos, 109 eram do foro dermatológico. Em
canídeos, foram diagnosticados 73 casos de hipersensibilidade As consultas de dermatologia em pequenos animais
cutânea e em felídeos foram diagnosticados 13 casos. Na popu- representam 25 a 30% do total das consultas
lação canina, a reacção de hipersensibilidade que obteve maior veterinárias, merecendo, cada vez mais, maior
número de casos foi a Dermatite Alérgica à Picada de Pulga,
tendo-se seguido a Urticária e o Angioedema, a Dermatite destaque na prática clínica diária, sendo objecto de
Atópica e, por último, a Hipersensibilidade Alimentar. estudos constantes devido, não só à sua incidência,
Em felídeos verificou-se maior incidência da Atopia, tendo-se mas também à relação de proximidade crescente entre
seguido a Dermatite Alérgica à Picada de Pulga e a Hipersen- animais e humanos (Machicote, 2005; Yotti, 2005;
sibilidade Alimentar. Brazis, 2007). Um dos motivos de procura de consultas
Palavras-chave: Reacção de hipersensibilidade cutânea, desta especialidade é o aparecimento de doenças do
Dermatite Alérgica à Picada de Pulga, Urticária, Angioedema, foro alérgico, cuja principal manifestação clínica é o
Dermatite Atópica, Hipersensibilidade Alimentar, canídeo, prurido. Nestas, incluem-se a Dermatite por Alergia à
felídeo. Picada da Pulga, a Dermatite Atópica, a Hipersensi-
bilidade Alimentar e a Urticária e o Angioedema.
Summary: The authors present a study of cutaneous hypersen-
sitivity reaction distribution in small animals, by age, sex and Apesar de existirem muitos factores imunológicos
breed, based on the dermatologic cases of the Veterinary que contribuem para as reacções de hipersensibilidade
Hospital of Porto. Among a total of 1177 examined dogs, 554 cutânea (Olivry et al., 2001), outros defendem a
presented dermatological findings, in 73 of which, cutaneous existência, simultânea, de uma relação directa com as
hypersensitivity reaction diagnosis was established, while in the reacções de hipersensibilidade retardada, associadas à
feline population, in a total of 388 cases, 109 dermatological
conditions were observed, of which 13 were hypersensitivity Imunoglobulina E (IgE), em resposta à exposição
reactions. In the canine population, the more representative directa (inalação, ingestão) a alergenos ambientais,
hypersensitivity was Flea Bite Hypersensitivity, followed by como o fundamento para o aparecimento deste tipo de
the Urticaria and Angioedema, Atopic Dermatitis and, for last, reacção de hipersensibilidade cutânea (Deboer, 2004;
Food Hypersensitivity. The feline population revealed larger Hillier et al., 2001).
incidence of Atopic Dermatitis, followed by Flea Bite
Hypersensitivity and Food Hypersensitivity. A Dermatite Alérgica à Picada de Pulga (DAPP) é a
reacção de hipersensibilidade com maior incidência
em Portugal, devido ao clima propício ao desenvolvi-
mento do ciclo da pulga, principalmente na Primavera
e no Verão, seguindo-se a Dermatite Atópica (DA),
causada principalmente pela inalação de alergenos
(Day, 1999; Medleau e Knilica, 2006).
A Hipersensibilidade Alimentar (HA) é a terceira
*Correspondência: hvala@esav.ipv.pt reacção de hipersensibilidade cutânea mais comum e

45
Silva S et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 45-53

tem como principal etiologia a ingestão de proteínas, Programa de Computador (QVET) do HVP.
nomeadamente a ingestão de carne bovina, a qual se A selecção de amostras de casos a considerar neste
encontra presente na maior parte das rações comerciali- estudo baseou-se na recolha de informações sobre o
zadas, podendo estas estar na origem do aparecimento animal, com base na análise dos questionários,
deste tipo de reacção de hipersensibilidade (Jeffers et disponibilizados pelo Serviço de Dermatologia do
al., 1994; Wills et al., 1996; Day, 1999; Medleau e HVP, aos proprietários dos pacientes com sintoma-
Knilica, 2006). tologia do foro dermatológico (Quadro 1), na
A Dermatite Alérgica de Contacto é o quarto tipo de anamnese, no exame clínico, na avaliação das lesões
reacção de hipersensibilidade mais frequente e é dermatológicas e outros eventuais sinais clínicos,
causada pela exposição directa da pele a materiais procedendo-se posteriormente à realização dos meios
de natureza variada que incluem desde materiais auxiliares de diagnóstico.
orgânicos, vegetais e urinários, até materiais sintéticos O diagnóstico dos casos de reacção de hipersensi-
(produtos de limpeza com base amoniacal, solventes, bilidade cutânea foi efectuado com base na anamnese,
fenóis, entre outros). Esta reacção de hipersensibili- no exame clínico e ainda com recurso aos seguintes
dade pode também ocorrer devido ao contacto directo meios auxiliares de diagnóstico:
com material plástico de bebedouros, tapetes e carpetes. Meios auxiliares de diagnóstico imediatos
A Urticária e o Angioedema são as reacções de hiper- a) Raspagens cutâneas: superficiais (Notoedes,
sensibilidade menos frequentes (Day, 1999; Medleau e D. gatoi) e profundas (D. cati);
Knilica, 2006) e neste trabalho serão analisadas em b) Observações com a Lâmpada de Wood
simultâneo. (O. cynotis);
São inúmeras as terapêuticas utilizadas na resolução c) Colheitas de pêlos (DTM - dermatofitose,
dos casos de reacção de hipersensibilidade cutânea Tricograma - alopécia auto-infligida);
que, de um modo geral, incluem desde o controlo de d) Escovagens de pêlos (observação de fezes de
ectoparasitas, no caso da DAPP, passando pelas dietas pulga);
de restrição alimentar, no caso da HA, até terapia e) Provas da fita adesiva (Cheyletiella).
médica com imunomoduladores, no caso da Urticária e Meios auxiliares de diagnóstico não imediatos [HI];
do Angioedema, bem como a utilização de autovacinas f) Culturas fúngicas;
e técnicas de hipossensibilização especifica na DA g) Biópsias cutâneas (Auto-imune/Neoplasia);
(Ackerman e Nesbitt, 1998; DeBoer e Hillier, 2001; h) Testes serológicos (Hipersensibilidade);
Scott et al., 2001; DeBoer, 2004; Medleau e Knilica, i) Dietas de restrição (HA);
2006). O principal desafio na abordagem terapêutica j) Controlo de pulgas (DAPP).
das reacções de hipersensibilidade cutânea é selec- O diagnóstico de reacção de hipersensibilidade
cionar a combinação farmacológica mais eficaz, de cutânea foi estabelecido após a exclusão do diagnóstico
forma a manter sob controlo todos os sinais clínicos de ectoparasitoses, incluindo sarna sarcóptica e demo-
específicos destas dermatopatias, contribuindo para a décica e quando, concomitantemente, se observaram
melhoria da qualidade de vida dos animais. lesões dermatológicas provocadas por auto-traumatis-
O presente estudo foi realizado no Hospital mo, bem como otites recidivantes, mesmo na ausência
Veterinário do Porto, durante o primeiro semestre de de prurido corporal.
2007, e teve como objectivo o acompanhamento das As dietas de restrição e o controlo de pulgas foram
consultas de Dermatologia de animais de companhia e mais utilizados como meio de diagnóstico terapêutico
o registo dos casos diagnosticados como reacção de de exclusão, devido ao seu baixo custo e à sua fiabili-
hipersensibilidade cutânea, de forma a aprofundar dade, enquanto os testes serológicos se realizaram
a sua distribuição nos utentes das consultas desta com o intuito de prevenir o contacto com os alergenos
especialidade num hospital do Norte de Portugal. e para eleger a composição alergénica, em caso de
implementação de imunoterapia específica do
alergeno (dessensibilização).

Material e métodos

Os dados apresentados foram obtidos durante o Resultados


acompanhamento das consultas de Dermatologia do
Hospital Veterinário do Porto (HVP), no período Foram diagnosticados 73 casos de reacção de
compreendido entre Janeiro e Junho de 2007. Neste hipersensibilidade cutânea em canídeos, ou seja,
período, foram realizadas um total de 1177 consultas 13,2% do total de casos que se apresentaram nas 554
a canídeos e 388 a felídeos, tendo-se registado 554 e consultas dermatológicas realizadas nesta espécie,
109 casos do foro dermatológico, em cada espécie, durante o período de realização deste trabalho.
respectivamente. Na espécie felina, foram diagnosticados 13 casos de
A informação respectiva foi recolhida através do reacção de hipersensibilidade cutânea, ou seja, 11,9%

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Quadro 1 - Questionário Dermatológico do Hospital Veterinário do Porto

Queixa principal Há quanto tempo surgiram as primeiras lesões? ___


Como iniciaram e evoluíram as lesões? ___
Existe história prévia de lesões de pele? ___
Prurido Tem prurido? Sim___ Não ___
Classificar na escala de 1-5: ___
Quando? Constantemente ___Esporadicamente ___À noite ___
Onde? Cabeça ___ Membros ___ Axilas ___ Região Lombar ___ Generalizado ___
Dieta O que come habitualmente? Ração enlatada ___ Ração seca ___ Restos de mesa ___ Carne___
Bebe mais água do que o habitual? Sim___ Não ___
Come mais algum tipo de alimentos (ex: vitaminas, tostas biscoitos)? ___
Variação das lesões Caso a dermatite ocorra com periodicidade anual, as lesões pioram: Na Primavera? ___ No Verão? ___
No Outono? ___ No Inverno? ___
As lesões estão presentes durante todo o ano? Sim ___ Não ___
Se sim, existem períodos em que se atenuam? Sim ___ Não ___
Existe algo que contribua para a melhorar ou agravar a sintomatologia? ___
Quando se iniciaram as lesões? E como evoluíram? ___
Há história prévia de lesões cutâneas? ___
Habitat Coabita com outros animais? Sim ___ Não ___
Se sim, com quais? Gatos ___ Cães ___ Aves ___ Outros ___
Tem conhecimento se algum destes animais teve ou tem problemas de pele? Sim ___ Não ___
Existem humanos coabitantes com problemas de pele? Sim ___ Não ___
Onde dorme o animal? ___
Banho e Pulgas O banho exerce influência? Melhora ___ Agrava ___ Indiferente ___
Que produto/champô utiliza? ___
Qual a frequência dos banhos? Semanal ___ Mensal ___ Semestral ___ Outra ___
Quando foi a última vez que observou pulgas neste animal? E nos cohabitantes? ___
Qual é o tratamento e a frequência que tem utilizado para controlo de pulgas? ___
O tratamento é instituído aos coabitantes? Sim ___ Não ___
Medicação Utilizou medicação prévia? Sim ___ Não ___
Se sim, qual o tipo de medicação? Champôs ___ Banhos ___ Injectáveis ___ Comprimidos ___
Cremes/Pomadas ___ Outro ___
Data do último tratamento: __/__/__
Resposta obtida: Nenhuma ___ Alguma ___ Boa ___

do total de casos das 109 consultas dermatológicas estudo, incluíram a DAPP (Figura 1), a DA, a HA, a
realizadas nesta espécie. Urticária e o Angioedema. A DAPP foi a que obteve
Em canídeos, as reacções de hipersensibilidade maior número de diagnósticos (n=35; 47,9%), seguin-
cutânea foram a quarta dermatopatia mais observada do-se a Urticária e o Angioedema (n=18; 19,1%), a
nas consultas de dermatologia, depois das doenças de DA (n=14; 16,5%) e, por último, a HA (n=6; 5,5%)
etiologia bacteriana, dos tumores e das doenças de (Figura 2).
causa idiopática. As reacções de hipersensibilidade A média de idades dos canídeos que se apresen-
cutânea em felídeos também foram a quarta taram à consulta de dermatologia foi de 4,5 anos.
dermatopatia cutânea mais verificada, em simultâneo Contudo, todos os casos de reacções de hipersensibili-
com as alterações de queratinização, depois das dade cutânea diagnosticados, surgiram em canídeos
doenças de etiologia fúngica, das doenças de causa com idades compreendidas entre os 8 meses e os 3
idiopática e das neoplasias. anos de idade, tendo sido a idade média de 1,55 anos.
Os casos com diagnóstico de Urticária e Angioedema
Caracterização da população canina com quadro (Figura 3) obtiveram a média de idades de 3 anos,
de reacção de hipersensibilidade cutânea seguindo-se a DA com a média de 1,5 anos e, por fim,
a HA e a DAPP que registaram as médias de idades
As dermatites causadas por reacção de hipersensi- mais baixas, respectivamente 8 e 9 meses (Figura 4).
bilidade, diagnosticadas na amostra de canídeos deste Dos canídeos consultados (n=554) durante esse

47
Silva S et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 45-53

período, houve maior incidência do número de Discussão


machos (n=298; 53,8%) do que de fêmeas (n=256;
46,2%). Esta predisposição sexual também se manteve No primeiro semestre de 2007, foram realizadas 554
nos casos diagnosticados como reacção de hipersensi- consultas dermatológicas a canídeos e 109 a felídeos,
bilidade cutânea (machos n=45; 61,6% e fêmeas representando, respectivamente, 47,1% e 28,1% do
n=28; 38,8%), conforme distribuição apresentada na total de consultas do HVP, o que significa que as
Figura 5. doenças do foro dermatológico mantêm elevada
A raça que evidenciou maior incidência de doenças expressão no número de consultas realizadas a
do foro dermatológico foi a SRD (n=286), tendo-se animais de companhia, o que está de acordo com a
seguido a raça Labrador Retriever (n=47) e a Pastor bibliografia (Mur, 1997; Ackerman e Nesbitt, 1998;
Alemão (n=42). Quanto aos casos diagnosticados Scott et al., 2001; Medleau e Knilica, 2006).
como reacção de hipersensibilidade cutânea, a SRD Os tipos de reacção de hipersensibilidade cutânea
(n=37) também foi a raça com maior incidência, obtiveram, em ambas as espécies de animais de
seguindo-se as raças Labrador Retriever (n=14) e a companhia, o 4º lugar entre as dermatopatias mais
Pastor Alemão (n=9). frequentemente diagnosticadas. Estes resultados estão
A raça que apresentou mais casos de DAPP e de de acordo com Brazis (2007), que referem que a
Urticária e Angioedema foi a SRD (n=29 e n=7, incidência desta doença, tal como na Medicina
respectivamente), a raça predominante na DA (Figura Humana, tem vindo a manter-se elevada (Deboer,
6) foi a Labrador Retriever (n=7) e na HA (Figura 7) 2004).
contabilizaram-se mais casos na raça Pastor Alemão Os canídeos observados apresentavam idades
(n=3), conforme distribuição apresentada no Quadro 2. compreendidas entre os 8 meses e os 3 anos de idade,
pelo que se encontravam enquadrados nas faixas
etárias descritas para as situações de reacção de
Caracterização da população felina com quadro de hipersensibilidade cutânea (Medleau e Knilica, 2006),
reacção de hipersensibilidade cutânea ao contrário de outras dermatopatias (Debraekeleer,
2006; López, 2007).
Os tipos de reacção de hipersensibilidade cutânea Nos canídeos, a DAPP foi a hipersensibilidade mais
diagnosticados em felídeos incluíram a DA (Figura 8), diagnosticada, o que está de acordo com a bibliografia
a DAPP e a HA. consultada (Day, 1999; Beugnet et al., 2009), que a
A DA (n=6; 46,1%), foi a que obteve maior número indica como a hipersensibilidade mais frequente,
de casos clínicos, seguindo-se a DAPP (n=5; 38,5%) devido às condições climatéricas favoráveis ao
e, por último, a HA (n=2; 15,4%) (Figura 9). desenvolvimento do ciclo da pulga, o que, conse-
Os felídeos com problemas do foro dermatológico quentemente, vai determinar a sua grande incidência
apresentaram uma média de idades de 3,9 anos. nos meses mais quentes.
A idade dos felídeos com casos de reacção de A média de idade obtida na DAPP foi de 8 meses de
hipersensibilidade cutânea situou-se entre os 6 meses idade, o que está de acordo com o facto da DAPP se
e os 2 anos de idade, tendo sido a média de idades de encontrar descrita em cães muito jovens, podendo, na
1,4 anos. A DA registou-se em felídeos com a média maioria dos casos, surgir em animais com menos de
de idades de 2 anos, a DAPP com a de 1,5 anos e a HA seis meses de idade (Ackerman e Nesbitt, 1998).
(Figura 10) com a de 6 meses (Figura 11). O segundo tipo de reacção de hipersensibilidade
Durante o período no qual decorreu este estudo, cutânea mais identificado foi a Urticária e o
registou-se um total de 109 felídeos consultados no Angioedema, contudo segundo Day (1999), estas
HVP, havendo maior incidência do número de machos reacções de hipersensibilidade deveriam ocupar um
(n=69; 63,3%) do que de fêmeas (n=40; 36,7%). lugar com menor destaque, uma vez que são conside-
Quanto aos quadros de reacção de hipersensibili- radas menos frequentes, contradizendo, desta forma,
dade cutânea diagnosticados, a espécie felina revelou os resultados obtidos. Julgamos que estes resultados
a predominância do número de fêmeas (fêmeas n=7; contraditórios se devem ao aparecimento de um maior
53,8% e machos n=6; 46,2%), conforme distribuição número de insectos provocado pelo volume crescente
apresentada na Figura 12. de resíduos urbanos produzidos na cidade do Porto e
Os felídeos que se apresentaram à consulta de também devido às temperaturas elevadas que se regis-
dermatologia eram maioritariamente da raça Europeu taram nos últimos anos.
Comum (n=103), seguindo-se as raças Persa (n=5) e A Urticária e o Angioedema foram observados em
Siamês (n=1). cães com a idade média de 3 anos, contudo os autores
Todos os casos de reacção de hipersensibilidade Medleau e Knilica (2006) referem que estas são pouco
cutânea em felídeos foram diagnosticados unicamente comuns em cães, podendo ocorrer em qualquer fase
na raça Europeu Comum. da vida do animal.

48
Silva S et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 45-53

40 35
35
30
25 18
20 14
15
10 6
5
0

DAPP

Urticária e
Angioedema

DA

HA
Figura 1 - DAPP Dermatite pruriginosa na zona dorsolombar acompa- Figura 2 - DAPP - Tipos de reacção de hipersensibilidade cutânea em
nhada de hiperqueratose, em canídeo (Fotografia gentilmente cedida canídeos.
pelo HVP, 2007).

Figura 3 - Urticária (à esquerda) e Angioedema (à direita) em canídeo (Fotografia gentilmente cedida pelo HVP, 2007).

4 40
3 35
3 30
25
2 1,5 20
0,9 15
1 10
0,8
5
0 0
Urticária e
Angioedema

DA

HA

DAPP

DAPP

Urticária e
Angioedema

DA

HA

Sexo F
Sexo M

Figura 4 - Média de idades dos canídeos com quadro de reacção de Figura 5 - Distribuição por sexo dos canídeos com quadro de reacção de
hipersensibilidade cutânea. hipersensibilidade cutânea.

Figura 6 - DA congestão e alopécia periocular em canídeo (Fotografia Figura 7 - HA eritema abdominal em canídeo (Fotografia gentilmente
gentilmente cedida pelo HVP, 2007). cedida pelo HVP, 2007).

49
Silva S et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 45-53

Quadro 2 - Distribuição por raça dos canídeos com reacção de hipersensibilidade cutânea
Diagnóstico Raça Sub-total Total
DAPP SRD 29
35
P. Alemão 6
G. Afegão 1
Labrador Retriever 5
Urticária e
Jack Russel 3 18
Angioedema
Pinher 1
Beagle 1
SRD 7
West Highland 4
White Terrier
DA
Labrador Retriever 7 14
Weimaraner 3
P. Alemão 3
HA Labrador Retriever 2 6
SRD 1

Para o caso da DAPP, assim como para a Urticária e Medleau e Knilica, 2006; Fraser et al. 2008).
o Angioedema, não foi encontrada nenhuma predis- A DA foi diagnosticada em canídeos das raças West
posição racial, uma vez que estas surgiram em animais Highland White Terrier, Labrador Retriever e também
de varias raças, o que está de acordo com Scott et al. a Weimaraner, o que é confirmado por Scott et al.
(2001), que defendem a não predisposição racial (2001), que referem as raças West Highland White
destas reacções de hipersensibilidade cutânea. Terrier e Labrador Retriever como as mais afectadas
Não se registaram casos de Dermatite Alérgica de por este tipo de reacção de hipersensibilidade e por
Contacto, no período em que este estudo decorreu, Pico et al. (2008) que referem a West Highland White
apesar de Day (1999) considerar esta reacção de Terrier.
hipersensibilidade como sendo mais frequente do A HA foi a quarta reacção de hipersensibilidade
que a Urticária e o Angioedema. Podemos atribuir a cutânea mais frequente, no entanto, segundo Jackson
ausência de registo de casos com este tipo de hipersen- (2007), esta dermatopatia é considerada o terceiro tipo
sibilidade à sua dificuldade de diagnóstico. de hipersensibilidade mais frequente.
A terceira reacção de hipersensibilidade cutânea Segundo Jackson (2007), os sinais clínicos da HA
com maior incidência foi a DA o que está de acordo tornam-se evidentes nos cachorros ou em adultos
com a bibliografia consultada, que a refere como jovens, antes dos 3 anos de idade, contudo, as
sendo uma das mais frequentes em cães (Day, 1999; primeiras manifestações podem surgir desde os seis
Medleau e Knilica, 2006). meses até aos doze anos de idade. Os resultados
A DA apresentou uma média de idades de 1,5 anos, obtidos enquadram-se neste intervalo, embora mais
o que está de acordo com alguns autores que defen- próximos do limite inferior, com uma média de idades
dem que os primeiros sintomas se manifestam entre o de 0,9 meses.
primeiro e o terceiro ano de idade (Scott et al., 2001; Neste estudo, a HA foi observada em canídeos das

8
6
6 5

4
2
2

0
DA

DAPP

HA

Figura 8 - DA lesão alopécica na zona inguinal de um felídeo. Figura 9 - Tipos de reacção de hipersensibilidade cutânea em felídeo.

50
Silva S et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 45-53

Figura 10 - HA queílite (à esquerda) e blefarite unilateral (à direita) num felídeo (Fotografia gentilmente cedida pelo HVP, 2007).

2,5 7 3
2 2 6
2
1,5 5
1,5 4
3 3
1 3
0,6 2
2
0,5
1
0 0
DA

DAPP

HA

DA

DAPP

HA
Sexo F
Sexo M

Figura 11 - Média de idades com quadro de reacção de hipersensibili- Figura 12 - Distribuição por sexo, dos felídeos com quadro de reacção
dade cutânea em felídeos. de hipersensibilidade cutânea.

raças Labrador Retriever, Pastor Alemão e SRD, como acontece na espécie canina, a DAPP é descrita
estando de acordo com alguns autores consultados como sendo a que afecta maior número de felídeos,
(Jackson, 2007) que referem a Labrador Retriever seguindo-se a DA e a HA (Day, 1999). No entanto, a
como a raça que apresenta um risco acrescido de diferença obtida entre o número de casos obtidos na
desenvolver este tipo de manifestação de reacção de DAPP e na DA não foi significativa, pelo que
hipersensibilidade, contrariamente ao verificado por podemos afirmar que os resultados vão de encontro ao
Picco et al. (2008) num estudo retrospectivo realizado que é defendido pela bibliografia.
na Suiça, em que estas três raças não foram registadas No que se refere à idade, verificou-se que as
como predispostas para este tipo de reacção de reacções de hipersensibilidade cutâneas afectaram os
hipersensibilidade. felídeos entre os 6 meses e os 2 anos de idade, contu-
Todos os casos de reacção de hipersensibilidade do, os autores defendem que, de um modo geral, estas
cutânea em canídeos apresentaram uma ligeira dermatopatias em felídeos podem surgir em qualquer
predominância do número de machos em relação ao idade (Medleau e Knilica, 2006).
número de fêmeas, contudo, estes resultados não estão Ackerman e Nesbitt (1998) referem que, em
exactamente de acordo com alguns autores que defen- felídeos, a idade do aparecimento da DA é variável,
dem que não existe predisposição sexual em nenhuma podendo surgir desde os seis meses aos oito anos de
destas reacções de hipersensibilidade (Ackerman e idade, embora, a maioria dos casos observados ocor-
Nesbitt, 1998; Matheus, 1998; Scott et al., 2001; ram em gatos jovens, com idade variável entre os seis
Jackson, 2007). A justificação pode ser encontrada meses e os três anos de idade. A média de idades obti-
devido ao maior número de machos que se apresentou da (2 anos) encontra-se na faixa etária, mencionada
às consultas de dermatologia. pelos autores, como sendo a mais frequente. Também
As reacções de hipersensibilidade cutâneas diagnos- as médias de idades obtidas nos casos diagnosticados
ticadas em felídeos registaram o total de 13 casos, como DAPP (1,5 anos) e HA (0,6 meses) se
tendo sido a DA a que obteve maior número de casos, enquadravam nas faixas etárias descritas para estas
seguindo-se a DAPP, e, por último, a HA. Contudo, tal reacções de hipersensibilidade (Medleau e Knilica,

51
Silva S et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 45-53

2006). maioritariamente gatos jovens, da raça Europeu


A espécie felina revelou a predominância quase Comum.
irrelevante do número de fêmeas, nos casos de A distribuição obtida encontra-se de acordo com
hipersensibilidade diagnosticados, o que está de outros estudos de casuística internacionais, ressaltan-
acordo com as várias referências bibliográficas da não do, contudo, o número elevado de casos de
existência de predisposição sexual (Ackerman e Angioedema e Urticária em canídeos, bem como a
Nesbitt, 1998; Guaguère e Prélaud, 1999; Jackson, ausência de casos diagnosticados de Dermatite
2007). Alérgica de Contacto e a DA com maior número de
A única raça afectada por estas reacções de casos registados do que a DAPP, em felídeos.
hipersensibilidade foi a Europeu Comum. Contudo, os
autores Guaguère e Prélaud (1999) referem que não
existe predisposição racial para nenhum tipo de
reacção de hipersensibilidade cutânea na espécie
felina. Como tal, os resultados obtidos podem Bibliografia
significar, apenas, que a raça Europeu Comum foi a
mais consultada, facto também verificado nas Ackerman LJ, Nesbitt GH (1998). Dermatology for the
restantes doenças do foro dermatológico. small animal practitioner, cap. 4, 71-88.
A abordagem terapêutica seguida nos casos clínicos Beugnet F, Chalvet-Monfray K, Loukos H (2009).
descritos consistiu numa terapia convencional conser- FleaTickRisk: a meteorological model developed to
vativa, que incluiu desde o controlo de ectoparasitas, monitor and predict the activity and density of three tick
passando pelo tratamento médico sintomático species and the cat flea in Europe. Geospatial Health,
(anti-histaminícos, anti-inflamatórios e suplementos 4(1), 97-113.
com ácidos gordos essenciais), com antibioterapia Brazis P (2007). Alergenos mais frequentes na dermatite
dirigida nos animais afectados com piodermatites atópica canina: Veterinary Medicine (Maio/ Junho),
secundárias, até à implementação de técnicas de 21-24.
imunoterapia alergeno-específicas, sempre baseada Day MJ (1999). Atlas en color de Enfermedades
num bom algoritmo de diagnóstico (clínico e Inmunomediadas del Perro y del Gato. Quadros clinicos,
serológico), de acordo com os manuais de dermatolo- Diagnostico y Tratamiento. Madrid, Grass Ediciones,
gia e artigos científicos (Ackerman e Nesbitt, 1998; 88- 96.
Scott et al., 2001; DeBoer e Hillier, 2001; DeBoer, DeBoer DJ (2004). Canine Atopic Dermatitis: new target,
2004; Medleau e Knilica, 2006). De acordo com estes new therapies. Journal Nutrition, 134(8 Suppl), 2056S-
autores, e com base nos fundamentos imunológicos, 2061S.
os testes serológicos realizados não devem ser utiliza- DeBoer DJ, Hillier A (2001). The ACVD task force on
dos na avaliação inicial do paciente como testes de canine atopic dermatitis (XVI): laboratory evaluation of
triagem mas sim após a obtenção de um diagnóstico dogs with atopic dermatitis with serum-based "allergy"
clínico definitivo, com o objectivo de identificar os tests. Vet Immunol Immunopathol, 81(3-4), 277-87.
alergenos específicos, com vista à realização de Debraekeleer J (2006). Prurido canino: o papel das proteínas
autovacinas (DeBoer e Hillier, 2001; Griffin e e dos ácidos gordos: Veterinary Medicine (Maio/Junho),
Hillier, 2001; Deboer, 2004; Prélaud, 2005) e da 28-30.
sua implementação, no âmbito de um programa de Fraser MA, McNeil PE, Girling SJ (2008). Prediction of
dessensibilização. Este programa consiste na aplica- future development of canine atopic dermatitis based on
ção, a um animal sensível, de doses gradualmente examination of clinical history. J Small Anim Pract, 49(3),
crescentes de extratos do alergeno, em intervalos de 128-132.
tempo predeterminados, na tentativa de reverter o Guaguère E, Prélaud P (1999). Guia practica de dermatolo-
estado de hipersensibilidade. gia felina. Merial. 9; 10; 11.
Foi possível concluir que as consultas do foro Griffin CE, Hillier A (2001). The ACVD task force on
dermatológico continuam a representar um número canine atopic dermatitis (XXIV): allergen-specific
muito significativo das consultas em canídeos e immunotherapy. Vet Immunol Immunopathol, 81(3-4),
felídeos e que as reacções de hipersensibilidade 363-383.
cutânea constituem um número significativo dessas Jackson HA (2007). Manifestações dermatológicas e
consultas (13,2%) no Norte do Portugal. controlo nutricional de reacções adversas a alimentos.
Em canídeos, a DAPP foi a reacção de hipersensi- Veterinary Medicine (Maio/ Junho), 71-80.
bilidade mais frequente, seguida do Angioedema e Jeffers JG, Meyer EK, Sosis EJ (1996). Responses of dogs
Urticária, da DA e da HA, afectando os animais mais with food allergies to single-ingredient dietary provoca-
jovens, pertencentes às raças SRD, Labrador Retriever tion. J Am Vet Med Assoc, 209(3), 608-611.
e Pastor Alemão. López JR (2007). Dermatopatías caninas y felinas (I y III):
Em felídeos, a DA foi a hipersensibilidade mais Consulta de Difusión Veterinaria (Maio): 47-53; 66-70.
frequente, seguindo-se a DAPP e a HA, afectando Machicote G, Yotti C (2005). Importancia de la historia

52
Silva S et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 45-53

clínica en la alergia: Canis et Felis. 75. Aula Veterinária, Prélaud P (2005). Dermatite atopique canine. EMC-
9-18. Vétérinaire, 2, 14-29.
Medleau L, Knilica KA (2006). Small dermatology: A Scott DW, Miller WH, Griffin CE (2001). Muller & Kirk’s
colour atlas and therapeutic guide (2ª Edição). Editora small animal dermatology (6ª Edição), Philadelphia. W.B.
Saunders, cap. 7, 160-182. Saunders Company: cap. 8, 561-635.
Mur ES (1997). Actualizaciones Veterinárias-Clínica de Wills J, Harvey R (1994). Diagnosis and management of
pequeños animales: Manual clínico de dermatologia en el food allergy and intolerance in dogs and cats. Aust Vet J,
perro y el gato (1ª Edição). Pulso Ediciones, S.A., 31-54.

53
RPCV (2009) 104 (569-572) 55-60 R E V I S TA P O R T U G U E S A
DE
CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Parâmetros ecocardiográficos de cães cronicamente infectados com


Trypanosoma cruzi (Cepa Colombiana)

Echocardiographic parameters of dogs chronically infected by


Trypanosoma cruzi (Colombian strain)

João P.E. Pascon1*, Marlos G. Sousa2, Aparecido A. Camacho1


1
Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinária, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, UNESP,
Câmpus de Jaboticabal – SP, Brasil
2
Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade Federal do Tocantins,
Câmpus de Araguaína – TO, Brasil

Resumo: No continente Americano, aproximadamente 15 Introdução


milhões de pessoas são acometidas pela doença de Chagas. O
cão é considerado modelo experimental, mas também é afetado
por essa doença ainda desconhecida pelos médicos veterinários.
A cardiomiopatia chagásica ou tripanossomíase
Desta forma, foram caracterizadas, as anormalidades ecoDop- sul-americana é uma doença que há muitos anos aflige
plercardiográficas de cães cronicamente infectados com a cepa o continente Americano. Evidências foram encon-
Colombiana do Trypanosoma cruzi. A ecoDopplercardiografia tradas em cadáveres mumificados, na América do Sul,
revelou inversão das ondas E e A mitral (0,71±0,17), dimi- com aproximadamente 4.000 anos de idade, contendo
nuição no tempo de relaxamento isovolumétrico e hipocinesia
septal, confirmando a disfunção diastólica presente nos cães
material gênico do Trypanosoma cruzi (Guhl et al.,
avaliados. Portanto, a caracterização ecocardiográfica destes 1997). Popularmente conhecida como doença de
cães, traz subsídios técnicos que possibilitam o reconhecimento Chagas, é provocada pelo protozoário hemoflagelado
desta afecção, que a despeito de sua importância é pouco Trypanosoma cruzi (Chagas, 1909abc), pertencente à
conhecida na espécie canina. ordem Kinetoplastida, família Trypanosomatidae,
Palavras-chave: Animal, cardiomiopatia, doença de Chagas
gênero Trypanosoma, seção Stercoraria, e transmitida
por intermédio das fezes dos vetores conhecidos
Summary: On the American continent, almost 15 million popularmente no Brasil como barbeiros, nos países
people are affected by Chagas disease. Dogs are considered to latino-americanos como “chinche” e nos Estados
be an excellent experimental model to study Chagas disease, Unidos da América como “Kissing bug”, pertencentes
and are also affected by although the disease is infrequently
recognized by Veterinarians. As a result, the characterisation of
à ordem Hemítera, família Reduviidae, subfamilia
echocardiograph abnormalities was performed in dogs which Triatominae (WHO, 1974).
had a chronic experimental infection with Trypanosoma cruzi Atualmente, 15 milhões de pessoas que habitam o
(the Colombian strain). The spectral Doppler echocardiography território compreendido entre o México e a Argentina
showed E and A mitral wave reversal (0.71±0.17), decrease são afetadas por esta doença (WHO, 2007), e 28
in the isovolumetric relaxation time and septal hypokinesy
confirming the presence of diastolic dysfunction present. In this
milhões vivem sob o risco de adquiri-la (WHO, 1991),
way, the echocardiograph characterisation of the animals in this representando assim um dos maiores problemas de
study increases the knowledge about this condition, increasing saúde das Américas do Sul e Central (Prata, 1994).
the awareness for recognition of this frequent and important Segundo Wanderley e Corrêa (1995), Marin Neto et
disease, but until now obscure for the canine species. al. (1999), a globalização imprime importante partici-
Keywords: Animal, cardiomyopathy, Chagas disease
pação na disseminação da doença, a exemplo da
estimativa sorológica positiva para doença de Chagas
em meio milhão de pessoas nos Estados Unidos da
América.
Nos cães, pouco se conhece acerca da real incidên-
cia e suas implicações clínicas ao longo do tempo, em
condições naturais. Estudos envolvendo 50 cães de
proprietários portadores da doença de Chagas, na cidade
de Botucatu-SP, e regiões próximas, indicaram 86%
*Correspondência: jpep23@yahoo.com.br de cães positivos para T. cruzi, em pelo menos um dos
Tel: +55 (16) 3209-2626 testes aplicados (xenodiagnóstico, hemocultura e

55
Pascon JPE et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 55-60

PCR), demonstrando a ocorrência do ciclo de trans- Previamente, os cães foram imunizados para os vírus
missão e disseminação da doença, ainda nos dias de da cinomose, hepatite infecciosa canina, parvovirose,
hoje (Lucheis et al., 2005). A prevalência sorológica rotavirose e dois sorovares da bactéria leptospira.
positiva em cães, na região rural do estado do Mato Durante os 10 anos de infecção, amostras sanguíneas
Grosso do Sul, foi recentemente descrita em 22,7% e eletrocardiográficas mensais foram coletadas, inter-
(Souza et al., 2009). Embora presente, menor pretadas e retratadas em publicação recente (Pascon et
prevalência foi observada nos cães do estado norte al., 2010). Entretanto, ao final do protocolo experi-
americano do Texas, com 2,6% de positividade mental (10 anos) e aquisição do recurso diagnóstico,
(Shadomy et al., 2004). os sete cães sobreviventes e assintomáticos foram
Clinicamente, os cães afetados apresentam vasta submetidos à avaliação ecocardiográfica única. Seis
gama de sinais clínicos, variando de assintomáticos à cães apresentaram morte súbita durante este período e,
ocorrência de óbito súbito, dificultando o diagnóstico. portanto, não participaram deste estudo.
Neste intuito, a ecocardiografia vem se mostrando
ferramenta fundamental, com capacidade de detectar
Ecocardiografia
alterações prévias a anormalidades eletrocardiográficas
ou radiográficas, auxiliando no diagnóstico e controle O estudo ecocardiográfico foi realizado por meio de
do quadro patológico. Em adição, a ecocardiografia aparelho de ecodopplercardiografia (Aparelho 300 S
é um exame dotado de singular sensibilidade, de Pandion Vet – Pie Medical). Os modos bidimencional,
execução rápida, não possuindo caráter invasivo modo – M e Doppler (pulsado, contínuo e de fluxo em
(Acquatella et al., 1980; Mady et al., 1997; Borges- cores) foram desenvolvidos com transdutor bifreqüen-
Pereira et al., 1998; Marques et al., 2006). Entretanto, cial de 5,0 – 7,5 MHz, sendo os dados armazenados na
o desconhecimento do clínico veterinário sobre esta memória do aparelho para posterior mensuração e
afecção, aliado a diferenças de comportamento natural cálculo. As variáveis ecocardiográficas analisadas
entre as cepas e a falta de estudos a longo prazo, incluíram: diâmetro interno do ventrículo esquerdo
subestimam a real incidência desta doença nesta (DIVE) e direito (DIVD), espessura do septo
espécie. interventricular (SIV) e espessura da parede livre do
Desta forma, concebeu-se o presente ensaio com o ventrículo esquerdo (PLVE), sendo todas as referidas
intuito de se avaliar as possíveis alterações ecoDop- variáveis verificadas no fim da diástole (d) e no fim
plercardiográficas de cães cronicamente infectados da sístole (s), somente o DIVD foi mensurado apenas
pelo T. cruzi, cepa Colombiana, na tentativa de suprir na diástole. As variáveis foram calculadas com base
parte da deficiência encontrada pelo profissional em imagens ecocardiográficas obtidas através do
atuante na cardiologia e clínica médica de pequenos modo-M da janela paresternal direita, em seu eixo
animais, bem como na conscientização dos mesmos transversal, no plano das cordas tendíneas, sendo
sobre a importância deste diagnóstico para saúde considerado como valor final a média de três ciclos
pública. cardíacos.
Os índices funcionais, como fração de encurtamen-
to [FS=(DIVEd-DIVEs)/DIVEd x 100] e fração de
ejeção (EF) foram calculados por meio do modo-M
Material e métodos (método de Teicholz), o débito cardíaco (DC), por sua
vez, foi obtido pela imagem espectral bidimensional
Indução da cardiomiopatia chagásica crônica e
do fluxo sanguíneo pulmonar, utilizando o recurso
cronologia experimental
Doppler pulsado. O tempo de relaxamento isovolu-
O T. cruzi (cepa Colombiana), cultivado em métrico (TRIV), também foi calculado na janela
camundongos albinos pelo Departamento de paresternal esquerda, corte apical cinco câmaras, pelo
Parasitologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas Doppler da via de saída do ventrículo esquerdo. O
de Ribeirão Preto, pertencente à Universidade de São diâmetro da aorta e do átrio esquerdo foram mensura-
Paulo – Brasil, foi inoculado, via intraperitoneal, em dos no modo bidimensional, na janela paresternal
treze cães, sem raça definida, fêmeas, com idade entre direita, eixo transversal, plano dos vasos da base,
um e dois anos e peso corporal médio de 11,64±3,5, e posteriormente foi calculada a relação átrio
na dose de 1.000 tripomastigotas por quilograma de esquerdo/aorta.
peso vivo. Antes e após três anos da inoculação, os Por meio da ecocardiografia Doppler, foram identi-
animais foram submetidos ao teste sorológico de ficados os fluxos sangüíneos no coração, grandes
imunofluorescência indireta (RIFI), na diluição de vasos e quantificados quanto à direção, velocidade e
1:20 até 1:5120. Cada soro-controle negativo foi turbulência, estabelecendo a presença ou ausência de
diluído a 1:40. insuficiência valvar decorrente de regurgitações
Os animais foram mantidos em canis individuais, (Möise, 1988, 1994; Bond, 1991; Henik, 1995; Kienle
higienizados diariamente, recebendo água e ração e Thomas, 1995).
“ad libitum”, durante todo período experimental. A função diastólica do miocárdio foi analisada pelos

56
Pascon JPE et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 55-60

parâmetros ecocardiográficos de TRIV, relação das Resultados


ondas E/A do fluxo mitral e observação dos padrões
de relaxamento miocárdico. As variáveis ecoDopplercardiográficas descritas na
metodologia acima, encontram-se organizadas sob a
Comitê de ética forma de tabelas (Tabelas 1, 2 e 3). A disfunção
diastólica foi alteração mais frequentemente observada
O presente estudo foi aprovado pelo comitê de ética e constatada pelo padrão invertido da relação Doppler
para o uso de animais, por respeitar os critérios adota- espectral transmitral das ondas E/A (Figura 1A e Tabela
dos pela Escola Brasileira de Experimentação (nº do 3), juntamente com a hiposinesia do septo interventri-
protocolo: 017551-07). cular (Figura 2) e diminuição do TRIV (Tabela 2).

Figura 1 - Imagens ecocardiográficas, obtidas de cães adultos, fêmeas, portadores de cardiomiopatia chagásica crônica. A, imagem paresternal apical
esquerda e fluxo Doppler transmitral espectral, ilustrando a inversão das ondas E e A (disfunção diastólica). B, imagem apical esquerda quatro câmaras,
evidenciando regurgitação em valva tricúspide em Doppler em cores e contínuo (setas).

Tabela 1 - Valores individuais, médios e desvios-padrão das dimensões ventriculares durante a sístole e diástole, atriais esquerdas,
aórticas e índices funcionais obtidos de sete cães adultos, fêmeas, portadores de cardiomiopatia chagásica crônica.
Animais
M8 R1 R2 M1 M4 M5 M10 Média±DP
DIVDd 0,47 0,81 0,34 0,4 0,36 1,03 0,72 0,59±0,26
SIVd 0,86 0,86 0,81 0,81 0,74 0,74 0,92 0,82±0,06
DIVEd 3,2 2,9 3,08 3,26 2,95 2,54 3,38 3,04±0,27
PLVEd 1,08 0,81 0,97 0,81 0,58 0,76 1,01 0,86±0,17
SIVs 1,12 1,1 1,03 1,08 0,99 0,99 1,62 1,13±0,22
DIVEs 1,55 2,09 1,82 1,89 1,6 1,84 1,89 1,81±0,18
PLVEs 1,15 1,26 1,19 1,35 1,08 1,03 1,44 1,21±0,14
EF% 84 56 73 74 79 56 76 71,14±10,96
FS% 52 28 41 42 46 27 44 40,00±9,25
dAO 2,21 1,94 2,34 1,8 1,55 1,53 1,33 1,81±0,37
dAE 2,35 1,99 2,48 2,1 2 1,75 2,32 2,14±0,25
AE/AO 1,06 1,03 1,06 1,17 1,29 1,14 1,74 1,21±0,25
Área AE 6,97 7,36 9,58 11,35 7,41 4,97 9,39 8,15±2,10
ES 0,29 0,31 0,22 0,29 0,45 0,4 0,25 0,32±0,08
Slope 7,3 12,1 1,01 5,3 5,9 12,2 10,1 7,70±4,06
Peso (Kg) 10,8 12 15,5 16,4 8,3 6,7 11,8 11,64±3,51
DIVDd - Diâmetro interno do ventrículo direito em cm; SIVd/s - Septo interventricular durante a diástole/sístole em cm; DIVEd/s- Diâmetro interno
do ventrículo esquerdo durante a diástole/sístole em cm; PLVEd/s - Parede livre do ventrículo esquerdo durante a diástole/sístole em cm; EF% - Fração
de ejeção; FS% - Fração de encurtamento; dAO - Diâmetro da artéria aorta em cm; dAE - Diâmetro do átrio esquerdo em cm; AE/AO - Relação AE/AO;
Área AE - Área do AE em cm2; ES - Distância do ponto E ao septo em cm; Slope - Slope da onda E mitral em cm/s; DP - Desvio Padrão.

Tabela 2 - Valores individuais, médios e desvios-padrão do DC, TRIV e PPE obtidos de sete cães adultos, fêmeas, portadores de
cardiomiopatia chagásica crônica.
Animais
M8 R1 R2 M1 M4 M5 M10 Média±DP
DC
L/minuto 1,08 2,61 2,1 2,34 1,25 1,15 0,84 1,62±0,70
L/kg 0,1 0,21 0,13 0,14 0,15 0,17 0,07 0,14±0,04
TRIV 69 54 64 61 42 54 58 57,43±8,6
PPE 61 58 61 61 64 70 75 64,29±6,04
Peso (Kg) 10,8 12 15,5 16,4 8,3 6,7 11,8 11,64± 3,51
DC - Débito cardíaco; TRIV - Tempo de relaxamento isovolumétrico em milisegundos; PPE - Período de pré-ejeção em milisegundos; DP - Desvio
padrão.

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Apenas um cão (M5) apresentou regurgitação


tricúspide com velocidade 3,23 m/s e gradiente de
regurgitação 41,8 mmHg (Figura 1B). As imagens
ecocardiográficas deste animal foram compatíveis
com o diagnóstico de degeneração mixomatosa de
valva tricúspide, não correlacionada à doença de
Chagas. Não foi observada cardiomegalia em nenhum
cão, a luz deste exame complementar.

Discussão

O exame auxiliar ecoDopplercardiográfico mostrou-


-se exequível e muito eficiente na observação da
Figura 2 - Imagen paresternal direita, eixo transversal, em nível cordal,
função hemodinâmica dos cães com cardiomiopatia evidenciando hipocinesia de septo interventricular (seta), obtida de cão
chagásica crônica. Embora existam diversos indica- adulto, fêmea, portador de cardiomiopatia chagásica crônica.
dores ecocardiográficos da função diastólica, os picos
de velocidades das ondas E (PEV) e A (PAV), a Neste contexto, a idade dos cães aqui avaliados exige
relação PEV/PAV e TRIV se destacam pela fácil cautela na interpretação dos resultados. Entretanto, a
realização e extrema relevância (Nishimura e Tajik, análise macro e microscópica do miocárdio dos cães
1997). No presente trabalho, a disfunção diastólica do infectados revelaram intensa fibrose cardíaca, não
ventrículo esquerdo foi principalmente evidenciada deixando dúvidas quanto à presença de disfunção nos
pelo padrão invertido da relação Doppler espectral cães deste ensaio.
transmitral das ondas E/A, corroborando os dados de Clinicamente, a disfunção cardíaca apresentada não
Barros et al. (2002), Alves (2003) e Carod-Artal et al. resultou em sintomatologia, exceto pela ocorrência de
(2003). Em menores proporções, o TRIV e a hipocine- morte súbita em seis dos sete cães estudados, em
sia septal também indicaram a presença de disfunção período de 30 dias (M10) há 13 meses (M5) após
diastólica. avaliação ecocardiográfica. Um cão (M8) foi sacrifi-
Segundo Schober e Fuentes (2001), a idade dos cães cado após tentativas terapêuticas mal sucedidas para
influencia inversamente nos índices PEV/PAV e TRIV. mastocitoma em região distal de membro torácico e
Pereira et al. (2009), porém, não observaram corre- pescoço, diagnosticado três anos após o fim do perío-
lação significativa entre a idade e o TRIV de cães. do experimental. Desta forma, assim como observado

Tabela 3 - Valores individuais, médios e desvios-padrão dos fluxos mitral, pulmonar, aórtico e tricúspide, obtidos de sete cães
adultos, fêmeas, portadores de cardiomiopatia chagásica crônica.
Animais
M8 R1 R2 M1 M4 M5 M10 Média±DP
Mitral
PEVm/s 0,45 0,5 0,43 0,46 0,55 0,43 0,57 0,48±0,05
PAVm/s 0,68 0,74 0,63 0,64 0,82 0,73 0,51 0,68±0,09
PEV/PAV 0,66 0,67 0,63 0,71 0,67 0,58 1,11 0,71±0,17
PPGE mmHg 0,8 1 0,7 0,8 1,2 0,7 1,3 0,93±0,24
PPGA mmHg 1,8 2,2 1,6 1,6 2,7 2,1 1 1,86±0,54
Pulmonar
VMAX m/s 0,5 0,7 - 0,74 0,84 0,84 0,64 0,71±0,12
GMAX mmHg 1 2 - 2,2 2,8 2,8 1,6 2,07±0,70
Aorta
VMAX m/s 0,78 0,9 0,65 0,87 1,04 0,86 1,02 0,87±0,13
GMAX mmHg 2,4 3,3 1,7 3 4,3 3 4,1 3,11±0,90
Tricúspide
PEVm/s - - - - 0,9 0,45 0,51 0,62±0,24
PAVm/s - - - - 0,55 0,65 0,25 0,48±0,20
PEV/PAV - - - - 1,63 0,69 2,04 1,45± 0,69
PPGE mmHg - - - - 3,3 0,8 1 1,70±1,38
PPGA mmHg - - - - 1,2 1,7 0,3 1,07±0,70
Peso (kg) 10,8 12 15,5 16,4 8,3 6,7 11,8 11,64± 3,51
PEV - Pico de velocidade da onda E; PAV - Pico de velocidade da onda A; PPGE - Pico do gradiente de pressão da onda E; PPGA - Pico do gradiente
de pressão da onda A; VMAX - Velocidade máxima do fluxo; GMAX - Gradiente máximo do fluxo; DP - Desvio padrão.

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Pascon JPE et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 55-60

para outras afecções cardíacas (Werner et al., 1993), chagásica experimental. Tese (Doutorado em Medicina
a disfunção diastólica comportou-se como indicador Veterinária), Faculdade de Ciências Agrárias e
prognóstico para cardiopatia experimental utilizada. Veterinárias, Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal.
Em seres humanos com cardiomiopatia chagásica, Barros MVL, Machado FS, Ribeiro ALP, Rocha MOC
durante o período assintomático, o exame ecocardio- (2002). Detection of early right ventricular dysfunction in
gráfico também se destaca por detectar alterações chagas’disease using Doppler tissue imaging. J Consult
diastólicas precoce às sistólicas, mesmo na ausência Clin Psychol, 15(10), 1.197-1.201.
de sinais clínicos ou eletrocardiográficos sugestivos Carod-Artal FJ, Melo P, Horan TA (2003). American
(Marin-Neto et al., 2000, Marques et al., 2006). trypanosomiasis (chagas’disease): an unrecognised cause
Embora as considerações descritas para seres of stroke. J Neurol Neurosurg Psychiatry, 74(4), 516-518.
humanos se assemelhem aos resultados aqui apresen- Bond BR (1991). Problems in veterinary ultrasonographic
tados, não foi observada disfunção sistólica, nem analysis of acquired heart disease. Probl Vet Med, 3(4),
realizada avaliação ecocardiográfica pareada que 520-554.
permitisse tais considerações. Borges-Pereira J, Xavier SS, Pirmez C, Coura JR (1998).
De acordo com Barros et al. (2002), a miocardite Doença de Chagas em Virgem da Lapa, Minas Gerais,
chagásica implica danos às fibras do miocárdio, Brasil. IV. Aspectos Clínicos e Epidemiológicos do
componentes do sistema de sustentação, interstício, Aneurisma Ventricular Esquerdo. Rev Soc Bras Med
sistema excitocondutor e integridade vascular, de Trop, 31(5), 457-463.
forma focal, podendo culminar em disfunção ventri- Chagas C (1909a). Nova tripanosomiaze humana. Estudos
cular, detectável por meio da ecocardiografia Doppler. sobre a morfologia e o ciclo evolutivo do Schizotrypanum
Possivelmente, a fibrose miocárdica promovida pela cruzi, n. gen., n. sp., ajente etiolojico de nova entidade
infecção experimental pelo T. cruzi, em sua fase morbida do homem. Mem Inst Oswaldo Cruz, 1(2), 159-
crônica, possa ser responsável pela disfunção diastóli- 218.
ca observada, bem como pela ocorrência de morte Chagas C (1909b). Uma nova tripanosomíase humana. Bras
súbita por arritmias ventriculares. Med, 23, 175-176.
Cardiomegalia pode ser percebida durante o exame Chagas C (1909c). Nova espécie mórbida de homem
ecocardiográfico de animais (Meurs et al., 1998; produzida por um trypanosoma (Trypanosoma cruzi).
Alves, 2003) e seres humanos com doença de Chagas Bras Med, 23(16), 161-165.
(Barros et al., 2002; Carod-Atal et al., 2003; Nunes et Guhl F, Jaramillo C, Yockteng R, Vallejo GA, Cárdenas-
al., 2004). Todavia, no presente estudo experimental, Arroyo F (1997). Trypanosoma cruzi DNA in human
não houve dilatação de câmaras, mostrando o com- mummies. Lancet, 349(9062), 1370.
portamento da cepa Colombiana envolvida, levando Henik RA (1995). Echocardiography and Doppler ultra-
principalmente a um quadro de fibrose do miocárdio, sound. In: Manual of Canine and Feline Cardiology, 2ª
resultando em disfunção diastólica. Hipocinesia de edição. Editores: MS Miller, LP Tilley. W. B. Saunders
septo interventricular foi detectada nos cães experi- (Philadelphia), 75-107.
mentados, corroborando os dados de Alves (2003) em Kienle RD, Thomas WP (1995). Echocardiography. In:
cães, Borges-Pereira et al. (1998) e Marques et al. Veterinary Diagnostic Ultrasound. Editores: T Nyland, JS
(2006) em seres humanos, portadores de cardiomiopa- Matoon. W. B. Saunders (Philadelphia), 198-255.
tia chagásica crônica. Lucheis SB, Da Silva AV, Araújo Jr JP, Langoni H, Meira
De acordo com as condições em que esse estudo foi DA, Marcondes-Machado J (2005). Trypanosomatids in
realizado, conclui-se que a cardiomiopatia chagásica dogs belonging to individuals with chronic Chagas`
crônica (cepa Colombiana), em cães, é caracterizada disease living in Botucatu town and surrounding regions,
sob o aspecto ecocardiográfico por disfunção diastólica. São Paulo state, Brazil. J Venom Anim Toxins Incl Trop
Desta forma, o presente ensaio ajuda a desmistificar a Dis, 11(4), 492-509.
doença de Chagas na espécie canina, chamando atenção Mady C, Ianni BM, Arteaga E, Salemi VMC, Silva PRS,
para sua característica ultrasonograficas, trazendo infor- Cardosos RHA, Ballas D (1997). Capacidade Funcional
mações singulares para o clínico veterinário. Máxima e Função Diastólica em Portadores de
Cardiomiopatia Chagásica sem Insuficiência Cardíaca
Congestiva. Arq Bras Cardiol, 69(4), 237-241.
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m-model and two-dimensional echocardiography in Crônica Cardíaca. In: Trypanosoma Cruzi e Doença de
chronic Chagas heart disease: a clinical and pathologic Chagas, 2ª edição. Editores: Z Brener, ZA Andrade, M
study. Circulation, 62, 787-799. Barral-Neto. Guanabara Koogan (Rio de Janeiro), 266-
Alves RO (2003). Avaliações ecodopplercardiográfica, 296.
eletrocardiográfica computadorizada e dinâmica (sistema Marques DSO, Canesin MF, Júnior FB, Fuganti CJ, Barreto
Holter) e clínico-patológica em cães com cardiomiopatia ACP (2006). Avaliação de Pacientes Assintomáticos com

59
Pascon JPE et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 55-60

Forma Crônica da Doença de Chagas através da Análise Prata A (1994). Chagas’disease. Infect Dis North Am, 8,
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60
RPCV (2009) 104 (569-572) 61-69 R E V I S TA P O R T U G U E S A
DE
CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Caracterização de agressões entre canídeos (83 casos)

Characterization of dog-to-dog aggression (83 cases)

Sofia Mouro*, Cristina L. Vilela, Manuela R.E. Niza


CIISA/Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade Técnica de Lisboa
Av. da Universidade Técnica, Pólo Universitário Alto da Ajuda, 1300-477 Lisboa – Portugal

Resumo: A agressividade é considerada um comportamento dogs was observed. At least 52.8% of the aggressors were
multifactorial, frequentemente observada em canídeos, dirigida re-incident, and 13.2% had previously shown aggressive
na sua maioria contra animais da mesma espécie. Este estudo, behavior patterns towards humans. The legally stipulated
que teve como objectivo fazer uma primeira abordagem restraining methods were not followed in 34.4% of the animals.
sistematizada das agressões entre canídeos, reuniu 83 casos At least 16.3% of the dogs were not immunized against rabies,
observados na Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade and the vaccinal status was unknown in 39.2% of the cases. The
Técnica de Lisboa, e na Clínica Veterinária Azevet, em Azeitão. multifactorial scope of dog-to-dog aggressions, with aspects
A informação foi recolhida através de um questionário aplicado related to the animal itself, to the owner and to the environment,
aos proprietários dos animais presentes à consulta, aqui consi- requires the establishment of multidisciplinary partnerships,
derados como "agredidos". Verificaram-se em média 7,5 which may allow for the design of efficient preventive
agressões mensais, tendo a maior parte ocorrido no exterior, measures.
quer na via pública (43,4%) quer no exterior das habitações
(42,2%). Do total dos canídeos envolvidos nas agressões, 54,2%
eram de raça pura, a maioria eram machos inteiros e 13,3% dos
agressores pertenciam a raças legalmente consideradas como Introdução
potencialmente perigosas. A maioria dos canídeos habitava no
exterior e tinha acesso à via pública. Observou-se uma proba- As agressões por canídeos são frequentes, geralmente
bilidade significativamente mais elevada de animais jovens dirigidas contra animais da mesma espécie (Kolata et
agredirem outros mais idosos. Pelo menos 52,8% dos al., 1974), embora a maioria das publicações se refira
agressores eram reincidentes e 13,2% tinham previamente
demonstrado agressividade dirigida contra humanos. As medi- sobretudo às dirigidas contra seres humanos (Goldstein
das de contenção legalmente estipuladas não eram cumpridas et al., 1978; Ordog, 1986; Feder et al., 1987; Griego et
em 34,4% dos animais. Pelo menos 16,3% não possuiam al., 1995; Freud et al., 1997; Garcia, 1997), sendo
vacina anti-rábica actualizada e em 39,2% o estado vacinal escassas as informações disponíveis na literatura
era desconhecido. As características multifactoriais da veterinária (Kelly et al., 1992; Griffin e Holt, 2001;
agressividade em canídeos, com aspectos inerentes ao animal,
ao proprietário e ao ambiente envolvente, requerem o estabele- Shamir et al., 2002; Meyers et al., 2007).
cimento de parcerias multidisciplinares, que possibilitem a A agressividade é considerada uma patologia
delineação de medidas preventivas eficazes. comportamental de origem multifactorial. O compor-
tamento padrão de um canídeo, a demonstração de
Summary: Aggression is a multifactorial behavior pathology agressividade para animais da mesma ou de outra
frequently observed in dogs, mostly directed to the same animal
species. This study, that aimed at performing a first evaluation espécie, e a reincidência como agressor ou como
of aggression between dogs, comprises 83 cases presented at the agredido, são importantes para a caracterização
Faculty of Veterinary Medicine, Technical University of Lisbon, comportamental dum animal (Overall, 1997). A deter-
and at a private practice (Azevet, Azeitão). The information was minação do local onde as agressões ocorrem, bem
gathered though a questionnaire applied to the owners of the como a caracterização dos animais envolvidos, são
dogs present to consultation, here considered as "bitten dogs".
The average number of monthly aggressions was 7.5, the essenciais para o estabelecimento de medidas preven-
majority of which (43.3%) took place outdoors, either in public tivas (Cornwell, 1997). Estes factores não têm sido
places or outside the houses (42.2%). From the total of dogs devidamente valorizados, pelo que se sabe muito
involved in the aggressions, 54.2% were from pure breeds, pouco sobre o comportamento dos cães envolvidos em
mostly intact males, and 13.3% of the aggressors belonged to agressões, havendo aspectos que necessitam ser apro-
breeds legally considered as potentially dangerous. The majori-
ty of the dogs lived in yards and had access to public spaces. A fundados. Não se encontram documentados numa
significant higher probability of younger animals to injure older base de dados nacional, o número e gravidade de
agressões infligidas por canídeos a seres humanos. No
entanto, dados recolhidos nos Estados Unidos revelam
um aumento do número e da gravidade destas
*Correspondência: sofiamouro@sapo.pt agressões (Sacks et al., 2000; CDC, 2003) o que,

61
Mouro S et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 61-69

aliado à maior divulgação mediática, levou a que acesso dos animais à via pública e, em caso afirmativo,
muitos países, incluindo Portugal, tivessem desen- a utilização de meios de contenção, nomeadamente
volvido legislação com o objectivo de diminuir a sua trela e/ou açaimo. Por fim, foi averiguada a existência
incidência. de história de envolvimento anterior em agressões, seja
Este estudo teve como objectivo fazer uma primeira como agressor ou como agredido e se, mesmo sem
abordagem sistematizada de agressões entre canídeos concretizar a agressão, os animais demonstravam sinais
cujos proprietários habitam nas regiões de Lisboa e de de agressividade em relações a outros animais e/ou
Setúbal. De entre os parâmetros estudados incluem-se seres humanos. O estado vacinal em relação à pre-
a determinação do local onde as agressões ocorreram, venção da raiva foi determinado com base no boletim
a caracterização dos animais envolvidos, o seu habitat, de vacinação; sempre que este não foi apresentado, o
o seu acesso à via pública e o seu eventual envolvi- estado vacinal foi considerado desconhecido.
mento prévio noutras agressões. Foi ainda avaliado o Os dados foram processados com o auxílio das
grau de cumprimento da legislação vigente quanto à aplicações informáticas EXCEL 2000 e SPSS 12.0 for
utilização dos métodos de contenção obrigatórios, e Windows. A análise descritiva foi realizada através da
estado de imunização contra a raiva. distribuição de frequências. A média foi utilizada para
caracterizar as tendências centrais das variáveis. A
análise estatística foi realizada através do teste t.
Material e métodos

Este estudo decorreu entre Outubro de 2004 e Resultados


Agosto de 2005 e incidiu sobre 83 casos de agressão
entre canídeos. As vítimas foram apresentadas para As agressões foram documentadas principalmente
consulta no Hospital Escolar da Faculdade de durante os meses de Fevereiro (16,7%), Novembro
Medicina Veterinária, Universidade Técnica de Lisboa (14,5%) e Janeiro, Maio e Junho (9,6% cada), como
(61,4%) e na Clínica Veterinária Azevet (38,6%), em explicitado no Gráfico 1.
Azeitão, Setúbal. A informação foi recolhida através As agressões ocorreram principalmente no exterior,
de um questionário, preenchido pelo médico veteri- quer na via pública (36/83, 43,4%) quer em proprie-
nário assistente em conjunto com o proprietário. Foi dade privada, no exterior das habitações (35/83,
obtido consentimento informado de todos os proprie- 42,2%). Os registos com caracterização completa
tários para a inclusão dos seus animais no estudo. Face de animal agredido e agressor corresponderam maio-
à impossibilidade de determinar com rigor qual o ritariamente a casos de canídeos pertencentes ao
canídeo que despoletou a agressão, o animal presente mesmo proprietário.
à consulta é aqui considerado como "agredido", e o Dos 83 canídeos agredidos, 22 (26,5 %) eram de
outro animal envolvido como "agressor". Assim, um raça indeterminada, 14 (16,9%) eram cruzados e 47
canídeo foi definido como agredido quando o motivo (56,6%) de raça pura. Estes últimos pertenciam a 20
da consulta foi a presença de lesões devidas à agressão raças diferentes (Gráfico 2a), estando mais represen-
levada a cabo por outro cão. Contudo neste estudo não tadas as raças Caniche e Labrador Retriever (ambas
foi averiguado se a agressão foi ou não despoletada
pelo próprio animal.
14
O questionário visou determinar o local onde
ocorreu a agressão e recolher dados referentes ao
animal agredido. Sempre que o proprietário assistiu à 12
agressão, foram também recolhidos dados sobre o
agressor. 10
Foi recolhida informação sobre o sexo, raça, idade,
estado reprodutivo e anterior envolvimento dos
8
canídeos em agressões, tanto contra humanos como
contra animais. Os canídeos foram considerados
cruzados quando descendiam de progenitores de raças 6
diferentes, podendo um deles ser de raça indetermina-
da. Foram considerados de raça indeterminada quando 4
definidos pelos proprietários do agredido como
"rafeiros". Os animais foram considerados de raça
2
desconhecida quando esta não foi determinada ou
reconhecida. A idade foi registada em anos completos.
Foram ainda registados o local da agressão e o habitat 0
Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago
dos animais envolvidos (via pública, exterior ou
interior das habitações). Outro dos dados colhidos foi o Gráfico 1 - Distribuição mensal das agressões entre canídeos (n=83).

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a)
INDETERMINADA
CRUZADA
CANICHE
LABRADOR RETRIVIER
HUSKY SIBERIANO
EPAGNEUL BRETON
ROTTWEILER
DOBERMAN
BOXER
FILA BRASILEIRO
CÃO ÁGUA
COCKER INGLES
COCKER SPANIEL
POINTER Gráfico 3 - Relação entre a idade do canídeo agredido e a do canídeo
FOX TERRIER agressor, em cada agressão (n=39).
GOLDEN RETRIVIER
PASTOR ALEMÃO
PASTOR BELGA
PEQUINOIS A idade média dos animais agredidos foi 5,5 anos (1
PERDIGUEIRO
PINCHER a 15), tendo a maioria menos de 5 anos de idade
SHAR-PEI (50/83, 60,2%) (Gráfico 3). A idade dos agressores foi
0 5 10 15 20 25 apurada em 39 casos (47%), sendo inferior a 5 anos
N em 30 animais (76,9%), e apresentando um valor
médio de 3,79 anos (1 a 12) (Gráfico 3). O teste t para
b) variáveis dependentes, efectuado a partir dos resulta-
INDETERMINADA dos das 39 agressões em que a idade de ambos os
DESCONHECIDA animais envolvidos foi determinada, demonstrou a
PASTOR ALEMÃO
PITT BULL existência de uma diferença estatisticamente signifi-
LABRADOR RETRIVIER
BOXER
cativa entre a idade do agressor e do agredido
CRUZADA (p=0,0211). Estes resultados revelam que, em cada
EPAGNEUL BRETON
GRAND’ANOIS agressão, o agressor é mais jovem do que o respectivo
HUSKY SIBERIANO agredido, de forma estatisticamente significativa
ROTTWEILER
SERRA DA ESTRELA A maior parte das agressões ocorreu entre animais
BRACO
BOUVIER FLANDRES
do mesmo sexo (n=47, 56,6%), principalmente entre
CÃO ÁGUA machos (n=37, 44,6%), na sua maioria inteiros (78,3%
DOGUE ARGENTINO
GOLDEN RETRIVIER
dos agredidos e 38,6% dos agressores eram machos
MASTIM PIRINÉUS inteiros) (Tabela 1).
MALAMUTE DO ALASCA
SHAR-PEI Dos 83 animais agredidos, a grande maioria
habitava em propriedade privada, 36 no exterior
0 5 10 15 20 (43,4%), e 26 no interior (31,3%) das habitações. O
N
habitat do canídeo agressor foi apurado em 55 casos
Gráfico 2 - Raça dos canídeos envolvidos em agressões intra-específi- (66,3%). Destes, a maioria também habitava em
cas (N=83). Distribuição de frequências para esta variável: a) dos propriedade privada, 35 no exterior (42,2%) e 11
agredidos; b) dos agressores.
no interior (13,3%) das habitações. Habitavam na
via pública um dos agredidos (1,2%) e dois dos
agressores (3,6%). A maioria dos machos inteiros
com 8/83, 9,6%), seguidas de Husky Siberiano e de envolvidos em agressões tinha acesso à via pública
Rottweiler (ambas com 4/83, 4,8%). A raça dos agres- (N=60); destes, 43 foram agredidos e 17 identificados
sores foi apurada em 65/83 (78,3 %) dos casos, sendo como agressores.
43 (66,2%) animais de raça pura, distribuidos por 17 Tinham acesso à via pública 56 dos 83 animais agre-
raças (Gráfico 2b). As mais representadas foram a Pit didos (67,5%). Destes, e de acordo com a informação
Bull e a Pastor Alemão, ambas com 7/83 (8,4%). Os dos proprietários, 22 utilizavam sempre trela (39,3%),
canídeos agressores de raça indeterminada foram 15 utilizavam-na esporadicamente (26,7%) e 19 nunca
responsáveis por 19 das agressões (22,9%). a utilizavam (34%), sendo o açaimo utilizado apenas

Tabela 1- Relação entre o sexo e o estado reprodutivo dos agredidos e dos agressores (n=83)
Agredidos Agressores
Macho Macho Macho Fêmea Fêmea Fêmea Desconhecido
inteiro castrado ? inteira castrada ?
Macho inteiro 29 0 6 3 0 2 25
Macho castrado 1 1 0 0 0 0 0
Fêmea inteira 1 0 2 5 0 2 2
Fêmea castrada 1 0 0 1 1 1 0

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em um dos canídeos agredidos (1,8%). Dos 36 Pelo menos 31 dos 83 animais agredidos (37,3%)
animais agredidos na via pública (43,4%), 12 não já tinham sido anteriormente vítimas de agressão
utilizavam trela (33,3%), e destes, apenas 11 a usavam por outros cães. Os agressores reincidentes corres-
sempre (30,6%) (Gráfico 4a); apenas um dos animais ponderam a 19 das 36 respostas válidas (52,8%). A
vítima de agressão na via pública utilizava açaimo. A manifestação prévia de agressividade pelos agressores
variável "acesso à via pública" foi apurada em 58 dos foi apurada em 38 (45,8%) casos. Essa manifestação
agressores (69,9%), tendo-se verificado 34 (58,6%) tinha sido dirigida contra outras espécies em 42,1%
respostas afirmativas. Observou-se ainda que 77% dos das respostas válidas, nomeadamente contra gatos
agressores de raça indeterminada com respostas (n=12), seres humanos (n=5) e outros (n=1).
válidas tinham acesso à via pública, comparativa- Em 65 dos 166 animais envolvidos nas agressões,
mente a 53,7% dos canídeos de raça pura. Dos 34 incluindo agressores e agredidos, não foi possível
agressores com acesso à via pública, a trela nunca determinar o estado vacinal contra a raiva de 39,15%,
era utilizada em 12 deles (35,3%). Este método de o que corresponde a 18,1% dos agredidos e 60,2% dos
contenção era sempre usado em 19 dos casos (55,9%), agressores (Gráfico 5). A vacinação dos canídeos
sendo-o esporadicamente em 3 dos canídeos (8,8%) agredidos estava actualizada em 50 dos casos (60,2%)
(Gráfico 4b). O açaimo era utilizado em 3 dos e desactualizada em 18 (21,7%). Nos agressores,
agressores com acesso à via pública (8,8%), quando verificou-se que 24 estavam vacinados (28,9%) e
aí transitavam. Dos 90 animais com acesso a esse 9 não estavam vacinados ou tinham a vacinação em
local, 34,4% (19 agredidos e 12 agressores) nunca atraso (10,8%).
utilizavam trela.

Sim Sim
a) Às vezes
b)
Às vezes
Não Não
Não responde

13,89

30,56
35,3

55,9
33,33

22,22 8,8

Gráfico 4 - Utilização de trela (%): a) nos animais agredidos na via pública (n=36) ; b) nos agressores com acesso à via pública (n=34).

Vacinado
a) Não vacinado
b) Vacinado
Não vacinado
Desconhecido Desconhecido

18,1
28,9

21,7 60,2 60,2

10,8

Gráfico 5 - Estado vacinal contra a raiva: a) dos agredidos; b) dos agressores.

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Discussão vigente desde 2004, reflectindo uma melhor conten-


ção dos animais ou uma maior consciencialização dos
Este estudo incidiu sobre 83 casos de agressão entre proprietários de outros cães, que os levará a evitar o
canídeos. Não foi possível estimar a incidência e contacto com animais de raças consideradas poten-
prevalência destas agressões nas regiões em estudo, cialmente perigosas. No presente trabalho, Pastor
uma vez que a amostra foi definida por conveniência, Alemão (8,4%) e Pit Bull (8,4%) foram as raças mais
incluindo apenas animais levados à consulta pelo seu representadas no grupo dos agressores. Estas raças
proprietário. Os resultados referentes à caracterização foram referidas como as mais implicadas em agres-
das agressões e dos animais envolvidos, correspon- sões fatais a humanos (Wright, 1991; CDC, 1997;
dem assim a frequências relativas face ao total da Sacks et al., 2000; Allen, 2001). Para determinar com
amostra considerada. rigor qual a verdadeira perigosidade de determinada
Devido a agressão, foram assistidos mensalmente, raça, é necessário conhecer não apenas o número
em média, 7,5 canídeos, valor muito semelhante ao de agressões perpetradas por cães dessa raça, mas
descrito na literatura (Kelly et al., 1992; Griffin e também o número de animais dessa raça que existe na
Holt, 2001; Shamir et al., 2002). Contudo, outros população em geral, e o tempo que estes têm de con-
trabalhos referem resultados diferentes, tanto no tacto com seres humanos e/ou com outros animais
sentido de valores superiores como inferiores, o que (Williams e Williams, 1992; Quinlan e Sacks, 1999).
poderá refletir diferenças existentes nos países onde A educação de um cachorro é de extrema importân-
os estudos foram realizados (Sherman et al., 1996; cia na modelação do seu comportamento (Roll e
Baranyiová et al., 2003). Unshelm, 1997). Contudo, alguns autores defendem
As agressões ocorreram ao longo de todo o ano, que a agressividade tem uma base hereditária, sendo
com picos nos meses de Fevereiro e Novembro (16,7% mais comum em certas raças (Abraham, 1995; Allen,
e, 14,5%, respectivamente), seguidos de Janeiro, Maio 2001). Outros, pelo contrário, alegam que os animais
e Junho (9,6% cada). Estes dados não estão em con- cruzados são os principais responsáveis não só pelas
cordância com outros, que reportam, nos Estados mordeduras a seres humanos (Wright, 1991), mas
Unidos, picos de agressão nos meses de Verão também pela maioria das mortes (Overall e Love,
(Langley, 1994; Kahn et al., 2003), o que foi atribuído 2001). São por isso necessárias algumas precauções
a um maior acesso ao exterior ou a alterações de habi- na interpretação dos resultados respeitantes à raça do
tat em períodos de férias, em que tanto os donos como agressor, uma vez que é consensual que a avaliação
os animais passam mais tempo no exterior (Shamir et da agressividade dum cão deve ter em conta outros
al., 2002). Os resultados por nós obtidos podem ser factores, sendo defendido que a variabilidade indivi-
devidos ao facto de haver um maior número de dual seria o factor mais importante (Clifford, 1984). A
animais com acesso à via pública durante todo o ano e eleição de raças perigosas depende, junto da opinião
ao facto de a fiscalização sobre o cumprimento do pública, mais da sua popularidade do que de estudos
legalmente instituído sobre meios de contenção ser epidemiológicos realizados em grande escala. Os
muito deficiente. meios de comunicação social têm, em muito, con-
Os canídeos agressores foram identificados em tribuído para a opinião generalizada de que algumas
78,3% das agressões, o que está de acordo com o raças de cães são inerentemente violentas (Wapner e
referido por outros autores (Kahn et al., 2003). Wilson, 2000). Tem sido contestada a imposição de
Em relação à raça dos animais envolvidos verificou- leis rígidas, baseadas apenas na raça do animal, com a
-se que a maioria dos animais envolvidos nas finalidade de prevenir situações de agressão, devido a
agressões era de raça pura, o que está de acordo com esta medida se ter revelado notoriamente insuficiente
outros autores (Beaver, 1993; Roll e Unshel, 1997; (Monti, 2000). Estas decisões são frequentemente o
Sherman et al., 1996; Griffin e Holt, 2001). No resultado de processos políticos pragmáticos, por
entanto, um número apreciável de animais agredidos vezes sujeitos a interesses económicos, nomeada-
(n=36, 43,4%) e de agressores (n=22; 33,8%) não mente por parte das seguradoras (Wapner e Wilson,
pertenciam a raças puras. Do total dos agressores, 2000). Acresce ainda que, a identificação de raças em
13,3% pertenciam a raças, ou cruzamentos de raças, canídeos se reveste de alguma complexidade, sendo
consideradas "potencialmente perigosas" pela actual necessário criar métodos práticos e objectivos para
legislação portuguesa (Port nº 422/2004), nomeada- este fim (Sacks et al., 2000). Não podemos ignorar
mente Pit Bull, Rottweiler e Dogue Argentino. Estes que o facto de determinadas raças serem consideradas
resultados poderão, à semelhança do observado perigosas se deve, sobretudo, ao seu mau uso ou
noutros países (Clifford, 1984; Wright, 1991; descuidada posse pelos proprietários de animais
Williams e Williams, 1992; Quinlan e Sacks, 1999; dessas raças, o que pode resultar em casos de morte
Monti, 2000; Sacks et al., 2000; Wapner e Wilson, inaceitável de cidadãos. Actualmente é difícil, em
2000), colocar em causa a discriminação racial dos termos legais, determinar quais os proprietários
canídeos patente na legislação. No entanto, os resulta- obrigados a cumprir legislação especial. Tal como a
dos poderão ter sido influenciados pela legislação maioria dos autores, defendemos ser mais importante

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penalizar o proprietário de um animal com comporta- grupo de controlo, os resultados sugerem que o local
mento agressivo, que seja cronicamente irresponsável, onde os animais vivem diariamente pode influenciar
do que os proprietários cujos canídeos pertençam a não apenas o seu carácter, mas também a probabili-
determinada raça (Monti, 2000; Sacks et al., 2000). dade do seu envolvimento em agressões.
Relativamente à idade dos animais envolvidos nas Dado que a maioria dos animais na nossa amostra
agressões, verificou-se que os agressores eram em tinha acesso à via pública, local onde ocorreu a maior
média mais jovens do que os agredidos, sendo patente, parte das agressões, considerámos importante avaliar
em ambos os grupos, um declínio do número de o cumprimento das disposições legais relativas à
animais com o avanço da idade. Este facto foi utilização de métodos de contenção. Verificámos que,
constatado por outros autores (Baranyiová et al., do total de animais com acesso a locais públicos
2003), podendo ser determinado não só pela distri- envolvidos em agressões, 34,4% nunca utilizavam
buição etária da população em geral, mas também pela trela, não cumprindo com as determinações legais.
experiência adquirida nos confrontos ao longo da Apenas 30,6% dos animais agredidos na via pública, e
vida, pela educação proporcionada pelos proprietários 55,9% dos agressores com acesso a este local,
ou pelos hábitos adquiridos com a idade, que podem utilizavam sempre trela. É possível que a maior fre-
com o envelhecimento conduzir a um menor contacto quência de utilização constante de trela em agressores
com outros animais. Na amostra em estudo observou- com acesso à via pública possa advir do facto de estes
-se um risco significativamente maior de agressão por animais serem reconhecidos pelos proprietários como
animais mais jovens a outros mais velhos, do que o mais agressivos, do que os pertencentes ao grupo dos
inverso. agredidos. No entanto, este resultado pode ter sido
Verificou-se que a maioria dos canídeos envolvidos afectado pelo número reduzido de agressores em que
nas agressões pertencia ao mesmo sexo e eram esta variável foi apurada.
machos inteiros, o que está de acordo com outras Verificou-se que apenas um pequeno número dos
descrições (Kolata et al., 1974; Hart e Hart, 1985; animais pertencentes ao grupo dos agressores
Beaver, 1993; Sherman et al., 1996; Overall, 1997; utilizava açaimo quando circulava na via pública.
Griffin e Holt 2001; Shamir et al., 2002; Baranyiová Estes canídeos pertenciam a raças consideradas poten-
et al., 2003). A castração, ao afectar a componente cialmente perigosas, nomeadamente Pit Bull Terrier
hormonal modeladora do comportamento (Overall, e Rottweiler, em que a utilização deste método de
1997), pode reduzir em 50 a 60% a agressividade contenção é obrigatória. Duas destas agressões
dirigida contra outros cães (Hart e Hart, 1985), pelo ocorreram no interior das habitações, e a outra no
que a legislação que determina a esterilização exterior, mas em propriedade privada. Estes agres-
obrigatória de canídeos, sempre que esteja em risco a sores só utilizavam açaimo na via pública, não o
segurança de pessoas ou outros animais (Decreto-Lei utilizando nos locais onde ocorreram as agressões.
nº 312/2003) pode ter algum papel preventivo destas Apenas um dos animais vítimas de agressão na via
agressões. pública utilizava açaimo. Alguns proprietários rejeitam
Foram recentemente introduzidas no nosso país a utilização de açaimo nos seus canídeos, alegando
determinações legais (Despacho nº 10819/2008), que a sua utilização, ao encontrar-se muito pouco
aplicáveis aos animais de raças definidas como poten- difundida no nosso país, pode impedir o animal de se
cialmente perigosas, bem como aos resultados de defender, o que conduzirá ao agravamento das lesões
cruzamentos daquelas raças entre si ou com outras sofridas em caso de agressão. No entanto, esta posição
(Portaria nº422/2004). A legislação actual obriga à sua será completamente indefensável assim que a
esterilização a partir dos 4 meses de idade, e proíbe a legislação for efectivamente cumprida por todos os
sua reprodução ou criação, se os animais não proprietários.
estiverem inscritos nos livros de origem oficialmente A análise dos resultados obtidos neste estudo
reconhecidos, bem como a sua entrada em território revelou que 52,8% dos agressores eram reincidentes.
nacional sem a autorização da Direcção-Geral de Uma taxa de reincidência de 88% é referida por Roll
Veterinária. Em Portugal, os canídeos machos não são e Unshelm (1997), realçando que 31% dos cães
castrados por rotina. Não é possível concluir no nosso envolvidos em agressões tinham sido previamente
estudo se os machos inteiros apresentam maiores reconhecidos pelos seus proprietários como "inimigos".
tendências agressivas, ou se apenas se encontram mais Estes resultados sugerem que as agressões entre
representados na população. canídeos não são um acontecimento esporádico,
Os resultados deste estudo revelam que 43,4% encontrando-se frequentemente associadas a compor-
dos agredidos e 63,6% dos agressores habitavam no tamentos declaradamente agressivos. Neste enquadra-
exterior. Esta variável não foi incluída nos outros mento, grande parte das agressões entre canídeos
estudos disponíveis na bibliografia. Apesar de não podem ser evitadas se os proprietários as prevenirem
ter sido possível incluir a variável "habitat" como um com base em comportamentos prévios (Roll e
factor de risco para o envolvimento em agressões, Unshelm, 1997).
devido ao tamanho da amostra e à inexistência dum De entre os animais em estudo, mais de um oitavo

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dos agressores tinham demonstrado anteriormente caracterização dos animais envolvidos, a avaliação
agressividade dirigida contra humanos. Apesar disto, do cumprimento das normas impostas legalmente,
verificou-se que 60% destes animais tinha livre para além da educação e responsabilização dos
acesso à via pública, e que apenas 20% utilizava trela proprietários no sentido de evitarem situações e
e nenhum utilizava açaimo. Estes resultados vêm comportamentos de risco. O presente estudo demons-
reforçar a importância da utilização dos métodos de trou que o risco de agressão é superior na via pública
contenção estipulados legalmente para quando os e que, as normas relativas à obrigatoriedade legal da
animais circulam em espaços públicos (Decreto-Lei utilização de métodos de contenção são raramente
nº 314/2003). A vigilância dos animais pelos proprie- cumpridas nos canídeos que circulam em locais
tários, quando circulam nestes locais, é também públicos. Outro facto que se constatou foi a presença
extremamente importante, porque os canídeos que de animais errantes ou vadios na via pública, o que
vagueiam na rua podem tornar-se mais agressivos do aumenta a probabilidade de ocorrência de agressões,
que os vadios (Overall e Love, 2001). No nosso estudo pelo que estes animais deveriam ser controlados de
registámos que 1,2% dos agredidos e pelo menos forma mais eficaz.
3,6% dos agressores habitavam na via pública. O Embora o nosso país esteja indemne de raiva, a
controlo dos animais vadios ou errantes é também vacinação dos canídeos não deve ser descurada, uma
essencial para diminuir o número de agressões, pelo vez que esta doença existe em alguns países europeus
que a lei vigente que estipula que esses animais devem (WHO, 2005).
ser capturados e recolhidos no canil municipal O número de agressões por canídeos poderá ser
(Decreto-Lei nº 314/2003) se reveste de uma extrema diminuído através do melhoramento dos serviços de
importância. controlo animal, da actualização e divulgação das
A possibilidade de transmissão da raiva através medidas legais existentes e de estratégias políticas e
de mordedura por canídeos constitui uma grande preo- educacionais que visem diminuir os comportamentos
cupação em termos de saúde pública. No presente inapropriados tanto dos animais como dos seus
estudo, não foi possível determinar o estado vacinal proprietários (Sacks et al., 2000; Keuster et al., 2005).
contra esta doença em 18,1% dos agredidos e em É urgente a realização de mais estudos sobre factores de
60,2% dos agressores. Acresce ainda o facto de, risco que possam contribuir para o estabelecimento de
mesmo com esta elevada taxa de vacinação desco- normas de protecção contra agressões, levadas a cabo
nhecida, 16,3% dos animais envolvidos em agressões por canídeos (Ozanne-Smith et al., 2001; Lakestani et
não estarem protegidos contra esta doença. Entre os al., 2005). A redução da incidência de mordeduras por
agressores, a vacinação actualizada foi confirmada canídeos requer o envolvimento activo de toda a
através da apresentação do boletim de saúde apenas comunidade, tendo os meios de comunicação social
em 28,9% dos casos, valor bastante inferior ao um papel essencial na divulgação de informação
descrito no estudo realizado por Freud et al., (1997), responsável que possa contribuir para a educação da
em que a taxa vacinal de canídeos que agrediram seres sociedade civil.
humanos foi de 67%. No entanto, nesse trabalho não São necessários estudos futuros, que avaliem os
é referido se a vacinação foi confirmada pela apre- motivos que despoletaram a agressão e o perfil dos
sentação do boletim de vacinas, ou se foi apenas proprietários dos cães envolvidos.
baseada na informação fornecida pelo proprietário. Face às características multifactoriais da agressivi-
Verificámos que, quando um canídeo é vítima de dade em canídeos, com aspectos inerentes ao animal,
agressão por outro cão, nem sempre é possível deter- ao proprietário e ao ambiente envolvente, o aprofun-
minar se o agressor está convenientemente vacinado damento deste tema só será possível através da
contra esta doença, não só pela ausência de confir- elaboração de parcerias multidisciplinares, que permi-
mação pela apresentação do boletim de vacinas, mas tam a compreensão da agressividade nas suas várias
também porque em alguns casos o agressor não pode componentes e assim possibilitem a delineação de
ser sequer identificado. Para manter o nosso país medidas preventivas eficazes.
indemne de raiva, a profilaxia realizada através da
vacinação é obrigatória para todos os canídeos.
Contudo não existem dados completos sobre a taxa de
vacinação contra a raiva. Bibliografia
A prevenção de agressões levadas a cabo por
canídeos é um tema polémico, muito discutido na Abraham B (1995). Recommends legislation for some pet
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determinação do local onde estas ocorrem, a AVMA: American Veterinary Medical Association - Task

67
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Force on Canine Aggression and Human-Canine 160-167.


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69
RPCV (2009) 104 (569-572) 71-75 R E V I S TA P O R T U G U E S A
DE
CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Avaliação bacteriológica de anéis de lula, Dorytheutis plei (Blainville, 1823)


(Mollusca: Cephalopoda), congelados e irradiados

Bacteriological evaluation of squid rings, Dorytheutis plei (Blainville, 1823)


(Mollusca: Cephalopoda), frozen and irradiated

Flávia A. A. Calixto1*, Robson M. Franco1, Eliana F. M. Mesquita1,


Helio C. Vital2, Erika Murayama3
1
Universidade Federal Fluminense/UFF, Faculdade de Veterinária, Departamento de Tecnologia dos Alimentos,
Rua Dr. Vital Brazil Filho n. 64 – Niterói, Rio de Janeiro 24230-340
2
Laboratório de Irradiação de Materiais da Divisão de Defesa Química, Biológica e Nuclear do Centro
Tecnológico do Exército (CTEx)
3
Médica Veterinária graduada pela UFF

Resumo: Cerca de 80% dos desembarques pesqueiros de according to the absorbed dose: 0 kGy (control), 1.5 kGy and
cefalópodes, na costa sul do Brasil, são de duas espécies de 3.0 kGy. The monitoring of the samples throughout the storage
lulas neríticas (Dorytheutis plei e D. sanpaulensis). Sabendo-se time was undertaken by microbiological (aerobic mesophilic
que pescado é um produto altamente perecível, exigindo and psycotrophic bacteria) analyses. A substantial reduction in
cuidados especiais na manipulação e preparo. O tratamento com the population of bacteria was found in the irradiated samples
radiações ionizantes destrói microrganismos existentes no (about two log cycles). Among the investigated doses, 1.5 kGy
alimento e inibe alterações bioquímicas decorrentes da deterio- proved to be most suitable for mesophilic while the dose of 3.0
ração. O objetivo deste trabalho foi avaliar a qualidade kGy was more efficient for psychrotrophic microorganisms.
bacteriológica de anéis de lula, Dorytheutis plei (Blainville,
1823), congelados e irradiados e comparar os resultados obtidos
entre o grupo controle e grupos irradiados. Foram analisadas 24
amostras, separadas em três grupos, de acordo com a dose de Introdução
radiação absorvida: 0 kGy (controle), 1,5 kGy e 3,0 kGy.
Realizaram-se contagens de unidades formadoras de colónias Moluscos cefalópodes são importantes recursos
bactérias heterotróficas aeróbias mesófilas e psicrotróficas para
a verificação da qualidade bacteriológica das amostras e com- pesqueiros. No Brasil, a sua captura é bastante signi-
parar os resultados obtidos com o uso da irradiação, analisando ficativa, quer seja feita de maneira indireta por rede de
a eficiência do processo. As amostras estavam abaixo do limite arrasto ou direta por linha. A principal espécie de
sugerido para degradação de pescado. Observou-se uma cefalópodes pescada na costa brasileira e comerciali-
redução acentuada (aproximadamente dois ciclos logarítmicos) zada é a Dorytheutis plei.
na população de bactérias mesófilas e psicrotróficas nas
amostras irradiadas em comparação com a amostra controle, Os cefalópodes podem ser consumidos de várias
sendo a radiação gama eficaz na melhoria da qualidade formas, seja fresco como "sashimi", seja após diversos
bacteriana, semelhante ao processo de pasteurização. Dentre as tipos de processamento como produto seco, enlatado,
doses investigadas, 1,5 kGy mostrou-se a mais apropriada para congelado e em alimentos à base de pescado. Possuem
os microrganismos mesófilos, enquanto que a dose de 3,0 kGy alto valor protéico e baixo teor de gordura, o que os
se mostrou mais eficiente para os microrganismos psicrotróficos.
torna elemento importante na dieta humana.
Summary: Approximately 80% of cephalopods captured along Quando beneficiada em anéis, a lula é muito
the southern coast of Brazil belong to two species of neritic manipulada, o que pode levar ao aumento da microbio-
squids (Dorytheutis plei and D. sanpaulensis). Due to their very ta contaminante, sobretudo se existirem deficiências
short shelf-lives, special procedures have to be followed in order nas Boas Práticas de Fabrico. Conseqüentemente, o
to handle and processe safely and adequately those products.
This work had evaluated the efficiency of irradiation in the tempo de conservação do pescado, que, em geral,
conservation of meat samples of Dorytheutis plei (Blainville, já é limitado, pode diminuir com o aumento da
1823). Its main aim was to study the effects of the exposure contaminação por microrganismos deteriorantes e até
to gamma radiation on the microbiological stability of frozen patogênicos, o que pode pôr em risco a saúde do
squid rings. Twenty-four selected samples were grouped consumidor (Germano e Germano, 2003).
O tratamento com radiações ionizantes tem como
finalidade prolongar a vida útil dos alimentos, pela
*Correspondência: faacalixto@yahoo.com.br destruição da microbiota ou inibição de alterações
Tel/Fax: +55 21 2629-9533 bioquímicas, sem que ocorra aumento significativo de

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Calixto FAA et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 71-75

sua temperatura (Ordóñez et al., 2005; Fellows, 2006). As análises bacteriológicas foram realizadas no
Em geral, a maioria das bactérias patogênicas não se Laboratório de Controle Microbiológico de Produtos
reproduz em temperaturas abaixo de 5 ºC, logo o de Origem Animal do Departamento de Tecnologia de
emprego combinado de conservação em baixas Alimentos da Faculdade de Veterinária da
temperaturas com a irradiação pode ser bastante Universidade Federal Fluminense (UFF), baseadas na
vantajoso (Herson e Hulland, 1980). Instrução Normativa da Secretaria de Defesa
O objetivo deste trabalho foi avaliar a qualidade Agropecuária nº 62 (Brasil, 2003).
bacteriológica de anéis de lula, Dorytheutis plei As análises foram realizadas sobre uma amostra
(Blainville, 1823), congelados e irradiados e comparar de cada grupo/dia, as quais descongelavam durante
os resultados obtidos entre o grupo controle e grupos a noite anterior. As análises foram realizadas com
irradiados. todas as medidas de assépsia, evitando contaminação
externa.
Foram retiradas, homogenea e aleatoriamente,
Material e métodos 25 g de cada amostra. De maneira asséptica, a porção
foi transferida para um envelope de polietileno,
Foram utilizadas 24 amostras de 250 g cada de anéis previamente esterilizado. A unidade analítica foi
de lula congelados, Dorytheutis plei (Blainville, homogeneizada em 225 mL de solução salina
1823), provenientes do Município de Cabo Frio, peptonada a 0,1%, necessário para obter-se a diluição
Estado do Rio de Janeiro, Brasil. As amostras foram inicial (1:10) com auxílio de "Stomacher"® em veloci-
transportadas em caixas de poliestireno expandido dade média por dois minutos.
para o Laboratório de Irradiação de Materiais da As diluições por miniaturização de cada amostra
Divisão de Defesa Química, Biológica e Nuclear do foram realizadas pela transferência, com auxílio de
Centro Tecnológico do Exército (CTEx). pipeta automática, de 100 µL, homogeneizada, em
As 24 amostras foram separadas aleatoriamente em microtubos tipo "eppendorf", estéreis e contendo
três grupos de 08 amostras e identificados: o grupo 900 µL de mesma solução diluente, produzindo a
controle (0 kGy), o grupo irradiado com 1,5 kGy e o segunda diluição (10-2). As diluições subseqüentes
grupo irradiado com 3,0 kGy. O grupo controle não foram obtidas da mesma maneira, transferindo 100 µL
foi submetido à radiação gama. Os outros grupos da diluição 10-5 (Franco e Leite, 2005).
foram expostos a uma fonte de Césio-137 (Cs137) no A contagem de bactérias heterotróficas aeróbias
irradiador de pesquisa do CTEx. mesófilas (CBHAM) e contagem de bactérias
O irradiador de pesquisa do CTEx é do tipo heterotróficas aeróbias psicrotróficas (CBHAP), por
"cavidade blindada" e sua fonte de Césio-137 (Cs137) sementeira por incorporação, foi realizada pela inocu-
de 46 kCi é capaz de suprir as duas câmaras de lação de 100 µL das diluições homogeneizadas, com
irradiação (cujo volume total efetivo é de aproximada- auxílio de pipeta automática, em placas de Petri esteri-
mente 100 litros) com uma taxa de dose máxima de lizadas e descartáveis, previamente identificadas com
1,8 kGy/h. o grupo de amostra, diluição e tipo de contagem. Em
As amostras a serem irradiadas com 1,5 e 3,0 kGy cada placa de Petri inoculada, foi vertido o meio de
foram inseridas em duas gavetas metálicas, as quais cultura Ágar Padrão para Contagem (APC) fundido e
foram posicionadas próximas do centro das câmaras arrefecido à temperatura de 45 ºC, em quantidade
de irradiação, no interior do irradiador. Todas as suficiente para cobrir a superfície da placa (cerca de
amostras foram posicionadas de forma a minimizar 20 mL). O inóculo foi homogeneizado com o APC
variações na taxa de dose. através de movimentos circulares suaves, em formato
Estima-se um erro máximo de ±10% na dose de de oito, por cinco vezes, no sentido horário e anti-
uma determinada amostra, atribuído principalmente horário, sobre superfície plana.
aos gradientes verticais e horizontais da taxa de dose Após a solidificação do meio, as placas foram inver-
presentes nas câmaras de irradiação (Vital, 2000). tidas e incubadas e em estufa, com temperatura a
O grupo controle permaneceu durante todo o 35 ºC, por 48 horas para CBHAM e em geladeira, com
processo armazenado em caixa de poliestireno temperatura próxima a 7 ºC, por 10 dias (APHA,
expandido, colocada do interior da sala do irradiador, 1985) para a CBHAP.
para que permanecesse em condições semelhantes Passado o tempo de incubação, as colónias
àquelas experimentadas pelos grupos irradiados. desenvolvidas foram contadas com auxílio de lupa
Imediatamente após a irradiação, as amostras foram em contador de colónias tipo Quebec®.
novamente acondicionadas nas caixas de poliestireno Na análise estatística foram utilizados métodos não
expandido para o transporte e posteriormente armaze- paramétricos pela não constatação da normalidade. O
nadas sob congelação, onde foram mantidas até a teste de Kruskal Wallis comparou mais de dois grupos
realização das análises. Para a realização das análises, de dados independentes simultaneamente e o teste de
as amostras foram descongeladas em geladeira de um Mann-Whitney foi utilizado para as comparações
dia para o outro. múltiplas.

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Tabela 1 - Descrição estatística dos resultados obtidos de CBHAM dos grupos de anéis de lula não irradiados (controle) e irradiados
com dose 1,5 e 3,0 kGy, expressa em Unidade Formadora de Colônia por grama do alimento (UFC/g)
Grupos Desvio Intervalo
n Média Mínimo Máximo Mediana
padrão interquartílico
Controle 8 1,2 x 106 2,1 x 106 3,1 x 104 5,2 x 106 2,0 x 105 3,0 x 106
1,5 kGy 8 1,1 x 104 2,1 x 104 0 6,0 x 104 2,5 x 102 1,7 x 104
3,0 kGy 8 4,2 x 105 1,2 x 106 0 3,3 x 106 5,1 x 103 1,0 x 104

Tabela 2 - Descrição estatística dos resultados obtidos na CBHAP dos grupos de anéis de lula não irradiados (controle) e irradiados
com dose 1,5 e 3,0 kGy, expresso em Unidade Formadora de Colônia por grama do alimento (UFC/g)
Grupos Desvio Intervalo
n Média Mínimo Máximo Mediana
padrão interquartílico
Controle 8 4,9 x 104 3,7 x 104 2,1 x 104 1,4 x 105 3,8 x 104 9,2 x 103
1,5 kGy 8 7,3 x 102 7,7 x 102 0 1,9 x 103 3,2 x 102 1,5 x 103
3,0 kGy 8 1,9 x 102 2,6 x 102 0 6,5 x 102 1,0 x 102 4,5 x 102

Resultados 7

A descrição estatística da CBHAM consta na 6

Tabela 1. As amostras do grupo controle teve a média


de contagem de 1,2 x 106 UFC/g. Nas amostras 5

irradiadas com dose de 1,5 kGy foi constatado uma


Log (UFC Médio)

média de 1,1 x 104. Os que receberam 3,0 kGy 4

tiveram valores superiores ao outro grupo irradiado,


encontrando média de 4,2 x 105. Apesar da diferença 3

entre os grupos não ser estatisticamente significativa, BAC FRIA


2
houve uma redução de até dois ciclos logarítmico nos Mes–filos
grupos de amostras irradiadas comparados ao grupo
1 Ps
controle. N= 8 8 4 7 5 5 Psicrotróficos
Na Tabela 2, encontram-se demonstrados os dados Controle 1,5 kGy 3,0 kGy
estatísticos da CBHAP. As amostras controle tiveram GRUPO
média de 4,9 x 104 UFC. O grupo irradiado com Figura 1 - Diagrama de caixa e hastes expressando os resultados em log
de UFC médio da CBHAM e CBHAP nos diferentes grupos.
1,5 kGy teve a média de 7,3 x 102. As amostras que
receberam dose de 3,0 kGy, apresentaram uma média mente significativas apresentadas no Quadro 1, onde
de 1,9 x 102. Os resultados foram decrescentes à medi- se comparou o grupo indicado na linha com o grupo
da que o alimento foi submetido ao processamento e indicado na coluna da tabela.
ao aumento de dose. Observou-se diferença estatisticamente significativa
Os valores em UFC/g foram convertidos para entre o grupo controle e os grupos irradiados, e inex-
logaritmos (log UFC) para caracterizar o crescimento istência da mesma entre os grupos irradiados, carac-
microbiano normal e levar a uma projeção de prazo de terizando uma eficácia na redução da CBHAM com o
vida comercial do produto a fim de analisar os dados uso do processo de conservação por radiação ion-
do ponto de vista da tecnologia e produção. A Figura 1 izante, independentemente da dose utilizada.
compara graficamente os dados dos três grupos. Quanto à CBHAP, o teste de Kruskal-Wallis, ao
O teste de Kruskal-Wallis, ao nível de significância nível de significância de 0,05, evidenciou diferença
de 0,05, evidenciou diferença estatisticamente signifi- estatisticamente significativa entre os grupos estuda-
cativa entre os grupos analisados (H = 16,838; g.l. = 2; dos (H = 14,330; g.l.= 2; valor p= 0,001).
valor-p = 0,033). O teste de Mann-Whitney, ao nível de significância
O teste de Mann-Whitney, ao nível de significância de 0,05, indicou as diferenças estatisticamente signi-
de 0,05, indicou as seguintes diferenças estatistica- ficativas apresentadas no Quadro 2.

Quadro 1 - Comparações múltiplas entre os três grupos de Quadro 2 - Comparações múltiplas entre os três grupos de
amostras para a CBHAM pelo teste de Mann-Whitney amostras para a CBHAP pelo teste de Mann-Whitney
Grupos 1,5 kGy 3,0 kGy Grupos 1,5 kGy 3,0 kGy
U=3 U=6 U=0 U=0
Controle valor-p = 0,028 valor-p = 0,045 Controle valor-p = 0,0003 valor-p = 0,002
SIM SIM SIM SIM
U = 8,5 U = 10
1,5 kGy ------ valor-p = 0,730 1,5 kGy ------ valor-p = 0,268
NÃO NÃO

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Da mesma forma que para a CBHAM, para a (Briceño e Bejarano, 2007) números superiores aos
CBHAP notou-se diferença estatisticamente significa- encontrados no trabalho, indicando que essas
tiva (Quadro 2) entre o grupo controle e os grupos amostras analisadas na Venezuela possuem um índice
irradiados, e inexistência de diferença estatisticamente mais alto de contaminação. Enquanto que, no mesmo
significativa entre os grupos irradiados, sendo o uso estudo venezuelano, a contagem média de bactérias
da radiação gama justificável assim como o referente heterotróficas aeróbias psicrotróficas obtiveram
ao da CBHAM. resultado ainda mais expressivos de 1,0 x 107 UFC/g
Portanto, em comparação com o grupo controle na Marca A e 1,4 x 107 UFC/g na B que indica que
houve uma redução estatística do crescimento logarít- essas bactérias podem deteriorar os alimentos sob
mico de UFC/g de dois e um ciclo nas contagens dos congelação (Briceño e Bejarano, 2007), valores muito
grupos irradiados a 1,5 kGy e 3,0 kGy, respectiva- mais elevados do que os determinados nesse ensaio.
mente. Com base nestes dados sugere-se menor carga Estudo realizado com Loligo [sic] plei armazenado
microbiana deteriorante no alimento, e conseqüente- em contato direto (CD) com gelo e sem contato direto
mente uma melhor qualidade bacteriológica dos (CI) com gelo, em CBHAP após um dia de captura
produtos irradiados. obteve o número de 8 x 102 UFC/g de amostra. Este
Comparando as médias obtidas nas CBHAM e número teve um crescimento após 12 dias de
CBHAP entre os grupos irradiados e grupo controle, a estocagem aparecendo 5 x 106 para amostras CD e 4 x
redução do logaritmo de UFC de mesófilas e de 106 UFC/g para CI (Lapa-Guimarães et al., 2005). No
psicrotróficas apresentou comportamento diferente. primeiro dia de análise Lapa-Guimarães et al. (2005)
Em CBHAM, observou-se uma redução de dois e um obtiveram menor contaminação desse pescado do
ciclos logarítmicos dos grupos irradiados a 1,5 kGy e que os desse experimento para os grupos controle e
3,0 kGy, respectivamente, sendo o grupo com maior 1,5 kGy, embora no segundo exame (após 12 dias)
dose de irradiação com resultado inferior ao de menor encontraram resultados superiores que pode ser expli-
dose. Diferentemente na CBHAP, houve uma diminui- cado porque o produto foi estocado refrigerado ao
ção de dois ciclo logarítmicos em ambos os grupos invés de congelado.
irradiados comparados com o controle, e ainda o Dias (2002) encontrou resultados positivos nas
grupo com maior dose de irradiação obteve melhor CBHAM e CBHAP comparando as amostras não
resultado. Esses dados refletem que a dose de 1,5 kGy irradiadas e irradiadas com 2,0 kGy de dose, resfria-
se mostrou mais efetiva para as bactérias mesófilas das e congeladas de ostra-de-mangue (Crassostrea
e a dose 3,0 kGy apresentou melhor dose para as rhizophorae), constatando um crescimento muito
psicrotróficas. significativo de microrganismos aeróbios mesófilos
em amostras do grupo controle observando eficácia
do tratamento na conservação do produto. Neste estudo,
Discussão Dias (2002) verificou nas amostras congeladas uma
redução média de 98,91% para as bactérias heterotró-
Segundo Forsythe (2002), a degradação de peixes ficas aeróbias mesófilas, resultado semelhante ao
ocorre ao atingir valores de contaminação de carga encontrado com dose de irradiação de 1,5 kGy nos
bacteriana superiores a 108 /g, assim, todas as amostras anéis de lula, contudo, os números determinados por
encontravam-se dentro do limite estabelecido, indican- CBHAP na ostra-de-mangue foram em insignificante
do que não presenciavam índices de deterioração. tanto para o grupo controle como para o irradiado a
Pelos padrões de limites microbiológicos da FAO 2,0 kGy, diferentemente dos psicrotróficos presentes
(2007), pescados podem ter até 105 /g de crescimento nos anéis de lula congelados.
de bactérias aeróbias mesófilas e moluscos até 5 x 105 /g Valente (2002), em estudo da eficácia da radiação
de crescimento de bactérias aeróbias, o que indicaria gama em mexilhões (Perna perna), encontrou nas
que o grupo controle encontrava-se fora deste limite amostras irradiadas com 2,0 kGy uma redução da
para as bactérias mesófilas. carga de bactérias heterotróficas aeróbias mesófilas
A radicidação, processamento de irradiação de ali- (57,95%) e psicrotróficas (91,18%) comparados aos
mentos com aplicação de dose entre 1 e 10 kGy, tem altos valores encontrados no grupo controle, esta
ação de pasteurização e é empregada em sucos de fru- redução foi inferior ao presente estudo tanto paras as
tas, carnes e pescado retardando a deterioração dos doses de 1,5 kGy quanto 3,0 kGy para mesófilos e
alimentos (Evangelista, 2005). A redução bacteriana uma redução superior a dose de 1,5 kGy aplicada aos
encontrada neste estudo assemelha-se ao pretendido anéis de lula e abaixo da encontrada na dose mais alta.
com o processo de pasteurização. Diferença expressiva de valores de variâncias é
Pesquisa realizada com duas diferentes marcas com relatada entre os diferentes dias de estocagem em
determinação de contagem média de bactérias refrigeração ou congelamento nas bactérias aeróbias
heterotróficas aeróbias mesófilas com Loligo [sic] psicrotróficas do grupo controle e irradiadas (Dias,
plei congelado na Venezuela teve como resultados 2002). Este trabalho não determinou a variação de
3,1 x 106 UFC/g na Marca A e 3,8 x 106 UFC/g crescimento entre períodos de estocagem.

74
Calixto FAA et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 71-75

Conclusão de Veterinária, Universidade Federal Fluminense, 89.


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Conclui-se, pelos resultados encontrados na análise Atheneu (São Paulo).
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a dose de 3,0 kGy mostrou mais eficiente para os Franco RM e Leite AMO (2005). Enumeração e identifi-
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COMUNICAÇÃO BREVE R E V I S TA P O R T U G U E S A
DE
CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Redução de fenda palatina, secundária a tumor venéreo transmissível, com


obturador palatino

Reduction of cleft palate, secondary to transmissible venereal tumor, with


palatal prosthesis

Liliana M. R. Silva1*, Fernando J. R. Magalhães2, Ana Margarida A. Oliveira1,


Maria Cristina O. C. Coelho2, Sílvia V. Saldanha2
1
Universidade de Évora, Portugal
2
Universidade Federal Rural de Pernambuco, UFRPE, Recife, Brasil

Resumo: Um canídeo, de raça Pastor Alemão, de 5 anos, lateralmente pelos sulcos palatinos, caudalmente
recebido na clínica cirúrgica do Hospital Veterinário da pelos forâmenes palatinos maiores e rostralmente
Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), apresen-
tava uma fenda no palato duro, central e longitudinal, de 15 mm
pelas fissuras palatinas. A artéria palatina maior
por 39 mm, secundária a um tumor venéreo transmissível emerge no forâmen palatino e dirige-se rostralmente
(TVT). Após a realização de duas cirurgias reconstrutivas sem pelo respectivo sulco. Como é uma estrutura vascular
sucesso, a fenda foi encerrada com um obturador palatino em fundamental para a mucosa, merece especial atenção
resina acrílica autopolimerizável, cuja confecção, em alginato, durante os procedimentos cirúrgicos, de modo a
foi feita com base num molde da maxila do animal. O aumento
do peso corporal, a ausência de sinais clínicos e a boa adaptação
garantir a sua integridade (Gioso e Carvalho, 2005).
do paciente ao obturador confirmam a eficácia do sistema obtu- A fenda palatina pode ser de origem congénita ou
rador palatino como alternativa à reconstrução clássica, com a adquirida. Constitui uma comunicação anormal entre
utilização dos tecidos regionais, para o encerramento da fenda as cavidades oral e nasal, permitindo a passagem de
palatina. alimentos e líquidos para a cavidade nasal (Santin et
Palavras-chave: fenda palatina, obturador palatino, placa
al., 2008). As fendas palatinas adquiridas podem ser
palatina consequência de traumas, infecções crónicas,
extracções dentárias ou outras odontopatias, ou ser
Summary: A 5 years old, German shepherd dog, examined secundárias a intervenções cirúrgicas anteriores,
at the surgical services of UFRPE ´s Veterinary Hospital, radioterapia ou neoplasias (Smith, 2000;
presented a cleft palate, central longitudinal with 15 mm by
39 mm, secondary to transmissible venereal tumor. After two
Sivacolundhu, 2007). As neoplasias estão entre as
unsuccessful reconstructive surgeries, it was occluded by a principais causas de lesão óssea palatina. Contesini et
polymethylmethacrylate palatal prosthesis, which was made al. (2004) referem que o mastocitoma, a epúlide
based on the animal´s maxilla mold. The body weight increase, fibromatosa, o fibrossarcoma, o fibromeloblastoma e
the lack of clinical signs and the patient´s adjustment to the o osteossarcoma são as neoplasias mais frequentes. O
prosthesis confirm the efficacy of reduction cleft palate with
palatal prosthesis.
tumor venéreo transmissível (TVT) foi descrito por
Papazoglou et al. (2001) como sendo causa de fenda
Keywords: cleft palate, palatal prosthesis palatina em 2 dos 6 cães presentes no seu estudo.
O TVT é um tumor de células redondas, cuja
disseminação ocorre principalmente por via venérea
Introdução ou por transplante directo de células neoplásicas
(Santos et al., 2008).
O palato duro separa as cavidades oral e nasal. É Está descrito como uma patologia cosmopolita,
formado pelos ossos palatino, maxilar e incisivo. principalmente em países tropicais e subtropicais, em
Dorsalmente é revestido por epitélio nasal e na face que existam cães errantes (Santos e Shimizu, 2004).
bucal por epitélio cornificado (Contesini et al., 2004). No Brasil, embora o TVT seja bastante frequente
Tem oito a dez rugas palatinas de cada lado da rafe (Lefebvre et al., 2007), existem poucos trabalhos que
mediana (Ellenport, 1998). O palato duro é delimitado avaliem estatisticamente a sua incidência (Dabus et
al., 2008).
Apesar da sua localização mais frequente ser o
*Correspondência: lilianasilva.mv@gmail.com aparelho genital externo de machos e fêmeas, pode
Tel: 93 730 36 50; Fax: 252 372 181 apresentar outras localizações, como o tecido subcutâ-

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neo (Santos e Shimizu, 2004), ou a cavidade nasal ou resistir ao stress mecânico induzido pela mastigação,
oral, justificado pelo comportamento social de lamber deglutição e movimentação traumática permanente da
ou farejar a genitália externa de outros animais língua no palato regional (Sivacolundhu, 2007).
(Papazoglou et al., 2001; Dabus et al., 2008). O prognóstico é favorável nos pacientes com peque-
Sousa et al. (2000) referem que o Labrador nas fendas (Tobias, 2006) ou nos pacientes em que são
Retrivier, o Rottweiller, o Pastor Alemão e o Boxer, corrigidas cirurgicamente, pois elimina-se o risco de
são algumas das raças mais predispostas. aspiração de alimentos para a via respiratória (Silva et
O diagnóstico definitivo é realizado por avaliação al., 2006). Animais que não sejam tratados cirurgica-
citológica, pois para além de ser uma técnica simples, mente geralmente são eutanasiados ou acabam por
minimamente invasiva e indolor, é realizada com morrer devido a pneumomia por aspiração (Corrêa,
rapidez e baixo custo, produz menos distorção da 2008).
morfologia celular, e tem eficácia de 90 % para o
diagnóstico de neoplasias (Dabus et al., 2008).
O sulfato de vincristina, na dose de 0,025 mg/kg Descrição do caso
(Santos et al., 2008) ou 0,5 a 1,0 mg/m2, adminis-
trado semanalmente por via endovenosa, durante 6 a 7 Um canídeo, de raça Pastor Alemão, de 5 anos de
semanas consecutivas, é eficaz para a regressão total idade, macho inteiro, foi referenciado para a clínica
do tecido tumoral, em todas as suas localizações cirúrgica do Hospital Veterinário da Universidade
(genital ou não) (Sousa et al., 2000; Papazoglou et al., Federal Rural de Pernambuco, por apresentar uma
2001). fenda palatina. O proprietário referiu dificuldades na
As fendas palatinas congénitas apresentam maior alimentação do animal e os frequentes espirros e
incidência em raças braquicéfalas (Tobias, 2006). secreção nasal mucopurulenta. Três meses antes, o
Uma vez que podem ser hereditárias, animais que as paciente tinha sido tratado com sulfato de vincristina
apresentem não devem ser utilizados como reprodu- devido a um tumor venéreo transmissível (TVT)
tores (Griffiths e Sullivan, 2001). Segundo Hedlund localizado nas cavidades nasal e oral. Após o trata-
(2007), as fendas palatinas adquiridas não apresentam mento e remissão do TVT, os médicos veterinários que
predisposição racial, sexual ou etária. o acompanhavam verificaram a existência de uma
Os sinais clínicos mais frequentes são rinite, fenda palatina, o que levou à realização de uma
descarga nasal serosa ou mucopurulenta, tosse, cirurgia reconstrutiva com um enxerto de avanço.
espirros (Lee et al., 2006), pneumonia por aspiração e Contudo, ocorreu a deiscência da sutura no período
perda de condição corporal (Tobias, 2006). pós-cirúrgico.
Várias técnicas cirúrgicas têm sido descritas para a Ao exame físico, o paciente apresentava as
correcção de defeitos no palato duro. Griffiths e constantes vitais dentro dos parâmetros fisiológicos
Sullivan (2001), Contesini et al. (2004), Hedlund e o peso corporal de 25 kg. Os exames hematológicos
(2007), Sivacolundhu (2007) e Souza et al. (2007) e as radiografias torácicas não revelaram alterações
referem a utilização de enxertos mucoperiosteais, de patológicas. Uma vez que o paciente não permitia
enxertos da mucosa palatal ou gengival ou lingual, a um detalhado exame da cavidade oral, procedeu-se à
aplicação de próteses de resina acrílica autopolimeri- tranquilização com acepromazina (0,1 mg/kg, IM) e
zável, de cartilagem auricular ou outras membranas atropina (0,044 mg/kg, IM). Para a anestesia
biológicas, ou de botões para septo nasal de silicone, administrou-se propofol (4 mg/kg, IV). Comprovou-se
entre outros. Recentemente Ophof et al. (2008) a presença de uma fenda central longitudinal no
realizaram um estudo sobre um implante substituto da palato duro, de 15 mm por 39 mm (Figura 1).
mucosa para a correcção de fenda palatina. Recomendou-se ao proprietário a administração de
A utilização de próteses de resina acrílica alimentação pastosa e prescreveu-se ampicilina
autopolimerizável está indicada em casos de recidivas (20 mg/kg, PO, TID, 7 dias).
de cirurgias correctivas (Smith, 2000; Roehsig et al., Na segunda visita (Dia 7) realizou-se um molde
2001; Lee et al., 2006). Roehsig et al. (2001) para se confeccionar um obturador palatino que
utilizaram a resina acrílica directamente no defeito do vedasse a fenda, até à realização de nova cirurgia
palato do animal para a sua obliteração, enquanto que reconstrutiva. O paciente foi sedado, utilizando o pro-
Lee et al. (2006) fixaram a prótese de resina com cola tocolo anteriormente referido, e entubado com sonda
instantânea e bandas plásticas no seu paciente. endotraqueal nº. 8,5. Previamente à moldagem efec-
As complicações mais frequentes deste tipo de tuou-se uma citologia por aposição, sendo negativa para
cirurgia estão relacionadas com a tensão da linha de a presença de células de TVT na amostra analisada.
sutura, hemorragia, infecção e retracção cicatricial da Utilizou-se um molde individualizado preenchido
ferida cirúrgica (Contesini et al., 2004). com alginato. Introduziu-se o molde no fundo de saco
O sucesso da cirurgia reconstrutiva depende, em gengivolabial até à tuberosidade maxilar, aplicando
larga escala, da preservação da vascularização dos pressão no sentido ventrodorsal, até completa gelifi-
enxertos (Smith, 2000) e da capacidade do enxerto cação do alginato. Removeu-se o molde da cavidade

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bucal do animal e preencheu-se com gesso pedra fixação. Neste caso, criaram-se 6 pontos de tensão (3
melhorado tipo IV, para obter o modelo de trabalho em cada aresta maior da placa), com fio ortodôntico
(Figura 2). Neste modelo foi aplicado isolante para duro elástico de 0,7 mm, em forma helicoidal, para
resinas acrílicas (seco com jactos de ar). O obturador garantir maior resistência da placa de resina acrílica
palatino foi confeccionado em resina acrílica autopolimerizável. O animal foi submetido aos
autopolimerizável e com grampos de retenção mesmos procedimentos descritos anteriormente até à
ortodônticos (Figura 2). fixação do obturador. Os fios de cerclage 0,6 mm
O proprietário continuou a administrar ampicilina foram introduzidos nos pontos de tensão do obturador
(20 mg/kg, PO, TID, 14 dias) e alimentação pastosa. e nos espaços interproximais, e apertados em torno
No 21º dia após a primeira consulta, procedeu-se a dos dentes 107, 108, 109, 207, 208 e 209 para fixar o
uma cirurgia reconstrutiva, utilizando uma membrana obturador (Johnstone, 2002) (Figura 4).
de pericárdio bovino conservada em glicerina a 98%, De forma a impedir o traumatismo da mucosa bucal,
e à colocação do obturador palatino. Após pré-medi- as extremidades dos fios de cerclage foram recobertas
cação e indução conforme acima descrito, a anestesia com resina composta fotopolimerizável. Utilizou-se
foi mantida com isoflurano. Para a cobertura da anal- pedra-pomes na face vestibular dos dentes pré-
gesia e antibioterapaia pré-cirúrgicas, administrou-se molares e molares para aumentar o atrito e remover
tramadol (2 mg/kg, IV) e ampicilina (20 mg/kg, IV). mecanicamente a placa bacteriana. Lavou-se com soro
O paciente foi colocado em decúbito dorsal e fisiológico e secou-se para evitar humedecimento da
procedeu-se à assepsia da fenda palatina, com face dentária. Aplicou-se ácido fosfórico a 37% no
clorhexidina a 2,0% e soro fisiológico, sob pressão esmalte dentário, por 15 s para promover o embrica-
com seringa de 10 mL, para remoção da secreção mento da resina fotopolimerizável. Lavou-se com soro
nasal mucopurulenta e dos resíduos alimentares fisiológico, secou-se a superfície e aplicou-se a resina
presentes (Figura 3). Para evitar falsos trajectos colo- fluída, fotopolimerizando-a em seguida. Aplicou-se a
cou-se gaze cirúrgica dobrada no pós boca. resina composta fotopolimerizável e polimerizou-se
Procedeu-se ao reavivamento dos bordos da fenda e de novo.
fixou-se uma película de pericárdio bovino, do mesmo Após a remoção da sonda endotraqueal, verificou-
tamanho da fenda, através de uma sutura interrompida -se a perfeita oclusão dentária, comprovando que a
simples com poliglatictina 910 com triclosan (Vicryl fixação com fios de cerclage não impedia a correcta
Plus 2/0). Após obliteração da fenda, provou-se e mastigação do animal. Indicou-se ao proprietário a
adaptou-se o obturador. Em seguida iniciou-se o continuação da medicação anteriormente prescrita,
processo de remoção mecânica da placa bacteriana na utilização de colar isabelino e reavaliação em 7 dias.
face vestibular dos dentes pré-molares e molares com Na reavaliação, 7 dias após a colocação do
pedra-pomes. Este processo permitiu ainda aumentar obturador, o animal tinha aumentado 1,5 kg de peso
o atrito da superfície dentária, para que aumentasse o corporal e o proprietário referiu a ausência dos sinais
grau de adesão do sistema obturador à região a inter- clínicos iniciais. Para uma mais cuidadosa e segura
vencionar. De seguida, procedeu-se à lavagem com reavaliação, realizou-se o mesmo protocolo de
soro fisiológico e posterior fixação da placa palatina. sedação já referido. Verificou-se que a porção cranial
A fixação dos grampos efectuou-se com ionómero de da fenda não estava totalmente encerrada pelo obtu-
vidro. rador, permitindo a passagem de alimentos líquidos
Depois da recuperação da anestesia, o paciente ten- para a cavidade nasal. Decidiu-se anestesiar o
tou remover o obturador com os membros anteriores. animal e corrigir o obturador palatino para perfeita
Verificou-se que os grampos ortodônticos interferiam obliteração da fenda. Depois de remover a cerclage
com a oclusão e optou-se pela remoção da prótese dos dentes 207, 208 e 209, limpou-se o obturador,
para correcção dos defeitos apresentados. Foi adicionou-se a resina acrílica autopolimerizável e
recomendado ao proprietário, mais uma vez, a admi- procedeu-se ao acabamento e polimento. Voltou-se a
nistração de alimentação líquida e fria. Prescreveu-se fixar o obturador como anteriormente relatado.
meloxican (0,1 mg/kg, PO, BID, 5 dias), metronida- Indicou-se ao proprietário que seguisse os mesmos
zole 125 mg e espiramicina 750.000 UI (12,5 mg/kg e cuidados pós-cirúrgicos anteriores e agendou-se
75.000 UI/kg, PO, SID, 7 dias) e higienização da reavaliação em 15 dias.
cavidade oral com gluconato de clorhexidina a 0,12%, Na visita seguinte, 21 dias após a colocação do
TID. obturador, o animal apresentava ganho de 1,0 kg de
Cinco dias depois, o animal regressou ao Hospital peso corporal desde a última reavaliação (26,5 kg),
Veterinário para colocação do novo obturador palati- continuava sem sinais clínicos e o seu estado geral era
no. O proprietário referiu que, durante este período, o satisfatório.
animal tinha espirrado frequentemente, causando a No último contacto com o proprietário (dia 36), o
ruptura da membrana biológica. Para a construção do paciente apresentava peso corporal de 29 kg, reve-
novo modelo palatino, seguiram-se os mesmos princí- lando um ganho de 5 kg desde a colocação do obtu-
pios do anterior, sendo modificado na sua estrutura de rador palatino modificado.

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Discussão do defeito ósseo e a interdigitação do acrílico com os


bordos irregulares do osso, o que favorece a sua esta-
No caso descrito, a fenda palatina surge como resul- bilidade, mas tem como principal desvantagem a
tado da natureza invasiva e localmente destrutiva do exposição dos tecidos à reacção exotérmica que
TVT (Papazoglou et al., 2001). ocorre durante a polimerização do acrílico (Goelzer et
Devido à comunicação entre as cavidades oral e al., 2003).
nasal e à possibilidade de ocorrência de pneumonia Devido à moldagem natural, após a adaptação e
por aspiração, considera-se importante para a avalia- fixação do obturador palatino, verificou-se a
ção pré-cirúrgica a realização de radiografias existência de uma pequena fenda não encerrada pelo
torácicas, que não revelaram alterações patológicas obturador, e que foi preenchida com resina acrílica.
(Lee et al., 2006). Segundo Lee et al. (2006), uma vez que este defeito
A limpeza das cavidades oral e nasal no período não era funcional e o paciente não apresentava sinais
pré-cirúrgico é indispensável para evitar contami- clínicos, não havia necessidade de correcção do obtu-
nação nos pontos de sutura e rinite (Silva et al., 2006). rador. Estes autores não corrigiram o defeito no seu
O anti-séptico mais adequado é a clorhexidina, por caso e o animal permaneceu com a prótese durante 30
ter uma acção antibacteriana e supressora dos meses, sem quaisquer sinais clínicos.
mecanismos adesivos das bactérias (Goelzer et al., A fixação do obturador palatino recorrendo a fio de
2003). cerclage constitui uma desvantagem desta prótese,
A cirurgia da fenda palatina está associada a uma pois é necessário anestesiar o paciente para a colo-
elevada taxa de insucesso, sendo a deiscência da cação e remoção da mesma, ao contrário da fixação
sutura a complicação mais comum no pós-operatório, adoptada por Lee et al. (2006) com cola instantânea e
entre o sétimo e o décimo dias (Souza et al., 2007). bandas plásticas, que permite os mesmos procedimen-
Para Smith (2000) e Griffiths e Sullivan (2001), a tos com o paciente consciente. Contudo, a fixação
tensão no local da sutura é a causa mais frequente de com fio de cerclage não interfere na oclusão, sendo
deiscência. O insucesso da correcção pode estar essa a sua principal vantagem.
também relacionado com a cronicidade da fenda A alimentação pastosa ou fluida nas primeiras
palatina, o estado de saúde do paciente (Souza et al., semanas no pós-operatório é defendida por Smith
2007) e a irritação e inflamação causadas pelo movi- (2000), Griffiths e Sullivan (2001), Contesini et al.
mento da língua sobre a ferida cirúrgica (Lee et al., (2004), Silva et al. (2006) e Sivacolundhu (2007). No
2006), como ocorreu no presente caso após a cirurgia entanto, Roehsig et al. (2001) referem a utilização de
reconstrutiva com a membrana biológica. O facto do sonda nasogástrica, orogástrica ou faringostomia, até
paciente ter acesso ao exterior da casa e a alimentos completa cicatrização. O acesso a objectos duros que
grosseiros e rígidos também contribuiu para a recidiva possam causar trauma, como brinquedos ou ossos,
da fenda palatina. devem ser evitados (Tobias, 2006; Sivacolundhu, 2007).
As complicações da cirurgia são minimizadas se A administração de antibiótico no pós-operatório é
forem considerados princípios básicos da cirurgia do importante para o êxito da reparação da fenda palatina
palato, como refere Sivacolundhu (2007). Estes (Contesini et al., 2004). A antibioterapia de largo
incluem: realizar enxertos de dimensões um pouco espectro de acção, como a associação metronidazol e
maiores que o defeito, manter a vascularização do espiramicina, deve ser administrada durante 10 a 14
enxerto, reavivar os bordos do tecido a suturar, evitar dias, especialmente se existirem sinais clínicos de
colocar as suturas sobre o defeito e manipular o rinite (Smith, 2000).
tecido delicadamente. A higiene da cavidade oral no pós-operatório deve
A escolha do tipo de fio utilizado na cirurgia de ser realizada com gluconato de clorhexidina a 0,12%,
reconstrução prendeu-se com o facto de ser o fio mais pois, como referido anteriormente, apresenta acção
adequado de entre os disponíveis no Hospital no antibacteriana e supressora dos mecanismos adesivos
momento da cirurgia. das bactérias (Goelzer et al., 2003).
A utilização de uma prótese palatal foi referida O uso do colar isabelino foi indicado para os
por vários autores. Lee et al. (2006) consideram-na primeiros dias após a colocação do obturador palatino,
efectiva na protecção da vascularização e da ferida para evitar que o animal tentasse removê-lo com os
cirúrgica. Neste caso, o obturador palatino encerrou membros anteriores.
completamente a fenda palatina como referido por A incompatibilidade da resina acrílica com tecidos
Roehsig et al. (2001). do organismo não foi encontrada na revisão de
A realização de um modelo de trabalho a partir do literatura, tal como descrito por Roehsig et al., 2001.
qual se confeccionou o obturador foi referido por Lee No paciente não foram registadas quaisquer alterações
et al. (2006), mas Roehsig et al. (2001) e Goelzer et dos tecidos em contacto com a resina acrílica. Foi
al. (2003) moldaram a resina acrílica, na sua fase de recomendado o acompanhamento do paciente a cada
massa plástica, directamente no defeito. Essa técnica 30 dias, para reavaliação do obturador palatino e do
apresenta como vantagens o completo preenchimento comportamento dos tecidos contíguos.

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Figura 1 - Mensuração de fenda palatina de canídeo, Pastor Alemão, de Figura 2 - Modelo de trabalho em gesso pedra melhorado tipo IV e
5 anos de idade, do sexo masculino. obturador palatino (seta amarela).

Figura 3 - Resíduos alimentares removidos da cavidade nasal, compro- Figura 4 - Obliteração da fenda palatina, secundária a TVT, com obtu-
vando a comunicação entre cavidades oral e nasal. rador palatino.

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82
COMUNICAÇÃO BREVE R E V I S TA P O R T U G U E S A
DE
CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Tronco celiaco-mesentérico em gato

Celiac mesenteric trunk in cat

Magno S. Roza, Fernanda M. Pestana, José M.F. Hernandez,


Bárbara X. Silva, Marcelo Abidu-Figueiredo*
UFRRJ – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro/Instituto de Biologia/Anatomia Animal. Br 465 Km 07 s/n.Seropédica

Resumo: Com o objetivo de relatar uma variação vascular não como fígado, estômago, baço, pâncreas e intestinos
descrita anteriormente em felinos, descreve-se neste trabalho a (Nayar et al., 1983).
origem comum das artérias celíaca e mesentérica cranial através
de um tronco comum em três gatos, sem raça definida, machos,
Esses vasos emergem da face ventral da artéria aorta
adultos e de porte médio. Esta variação denominada então de abdominal em sua porção mais cranial. Geralmente, a
tronco celíaco-mesentérico já foi descrita em algumas espécies artéria celíaca origina-se logo após a passagem da
de animais domésticos, como em cães, ovinos, caprinos, artéria aorta pelo hiato aórtico do diafragma,
bovinos, e também em humanos. Essa variação foi analisada, enquanto a artéria mesentérica cranial situa-se caudal-
medida e descrita no presente trabalho. O conhecimento da
presença do tronco celíaco-mesentérico em felinos contribuirá
mente em relação à primeira, afastando-se por
para um melhor entendimento das alterações anatômicas que milímetros de distância (Getty, 1981; Berg, 1978;
possam ocorrer na vascularização abdominal desta espécie, bem Evans e Christensen, 1979; Nickel et al., 1981; Dyce
como é de fundamental importância para realização de et al., 1997; Schaller, 1999; König e Liebich, 2004).
angiografias e procedimentos clínico-cirúrgicos que envolvam Vários autores estudaram a ramificação da artéria
esta região.
celíaca em animais domésticos (Sleight e Thomford,
Palavras-chave: tronco celíaco-mesentérico, gato, variação 1970; Enge e Flatmark, 1972; Borelli e Boccalletti,
vascular 1974; Schmidt et al., 1980; Bednarova e Malinovsky,
1984; Machado et al., 2000; Niza et al., 2003; Abidu-
Summary: With the intention to report a vascular variation not Figueiredo et al., 2005, 2008), demonstrando que seu
previously noticed in felines, this article describes the single
origin of the celiac and cranial mesenteric arteries through a
arranjo e ramificações são muito variáveis e que o
common trunk in three adult, cross breed male cats. This vascu- conhecimento exato desta variabilidade é de grande
lar variation is called celiac mesenteric trunk and was already importância no estudo prático e teórico, em animais
described in some species of domestic animals, such as dogs, de experimentação e domésticos (Bednarova e
sheep, goats, cows and also in humans. This variation was Malinovsky, 1984).
analyzed, measured and described in this report. The knowledge
of the presence of the celiac mesenteric trunk in cats will
Estudos sobre as diferenças da vascularização
contribute to a better understanding of the anatomical altera- abdominal existente entre ovinos, cães, suíno e coelhos
tions that may occur in the abdominal vascularization, and is demonstraram que as artérias celíaca e mesentérica
also important for angiographic and surgical procedures that cranial têm sua emergência separadamente uma da
involve this region. outra, sendo a primeira mais cranial (Nayar et al.,
Keywords: cat, vascular variation, celiac mesenteric trunk
1983). Entretanto, na literatura existem relatos de
casos em que as ambas as artérias tiveram sua origem
em um único ramo denominado de tronco celíaco-
Introdução mesentérico. Esta variação anatômica foi relatada em
ovinos (Langenfeld e Pastea, 1977); bubalinos
Dentre os ramos viscerais da porção abdominal da (Machado et al. 2000); caprinos (Ferreira et al. 2001);
aorta, as artérias celíaca e mesentérica cranial cães (Schmidti e Schoenaui, 2007) e humanos (Çavdar
possuem grande relevância em anatomia clínico – et al., 1997; Çiçekcibasi AE et al., 2005).
cirúrgica e nos procedimentos angiográficos, pois são Tendo em vista que esta é uma variação vascular
responsáveis pela irrigação de importantes vísceras rara em gatos, e que possui importância clínico-cirúr-
gica, relatamos a origem das artérias celíaca e mesen-
térica cranial por um tronco comum, denominado
tronco celíaco-mesentérico.
No decorrer das atividades práticas de dissecção
*Correspondência: marceloabidu@gmail.com realizadas nas disciplinas do Laboratório de Anatomia

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Roza MS et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 83-86

Animal do Departamento de Biologia Animal da


Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
(UFRRJ), observou-se alteração na origem da artéria
celíaca em três gatos.
Os gatos foram posicionados em decúbito lateral
direito. Em seguida, o tórax foi aberto e dissecado
para evidenciação da porção torácica da artéria aorta,
que foi canulada utilizando sonda plástica flexível de
aproximadamente 0,4 cm de diâmetro e 10 cm de
comprimento. Desse modo, o sistema arterial foi
"lavado" com solução fisiológica de NaCl a 0,9%,
sendo realizado a seguir a fixação com solução de
formaldeído a 10% conforme técnica anatômica
padrão. Os vasos foram preenchidos com solução de
Petrolátex S65 corado. As peças permaneceram acon-
dicionados em cubas com solução de formaldeído a Figura 1 - Fotomacrografia da origem comum entre as artéria celíaca
(ac) e a artéria mesentérica cranial ( amc ) formando o tronco celíaco-
10% por 5 dias para polimerização do látex. Os mesentérico (tcm) no animal 1.
cadáveres foram dissecados, rebatendo-se as vísceras aa = artéria aorta ; tcm= tronco celíaco-mesentérico ; amc = artéria
abdominais para a evidenciação dos ramos viscerais mesentérica cranial;
ac = artéria celiaca; ah = artéria hepática; tgl = tronco gastro-lienal ; age
da porção abdominal da artéria aorta. Com um = artéria gástrica esquerda; al = artéria lienal.
paquímetro de precisão, foram obtidas medidas de
largura e comprimento do tronco e de seus ramos, bem
como da distância entre a emergência do tronco até a vértebra lombar (L3). Apresentou 0,3 cm de compri-
emergência da artéria renal esquerda. Todas as mento e 0,4 cm de largura, desde a sua origem até a
fotomacrografias foram obtidas com máquina digital bifurcação nas artérias celíaca e mesentérica cranial.
Nikon coolpix 4300. A artéria celíaca apresentou 0,5 cm de comprimento e
Animal 1: Gato de aproximadamente três anos de 0,3 cm de largura e a artéria mesentérica cranial 3,1 cm
idade, mestiço, do sexo masculino. O tronco comum de comprimento e 0,3 cm de largura. Essa variação
denominado celíaco-mesentérico emergiu entre a vascular posicionou-se a 2,2 cm da artéria renal
segunda e terceira vértebras lombares (L2-L3). esquerda. Os principais ramos da artéria celíaca
Apresentou 0,3 cm de comprimento e 0,5 cm de observados foram a artéria hepática, seguida pela
largura, desde a sua origem até a bifurcação nas formação de um tronco comum entre as artérias
artérias celíaca e mesentérica cranial. A artéria celíaca gástrica esquerda e a lienal, o tronco gastro-lienal.
apresentou 0,5 cm de comprimento e 0,3 cm de
largura, enquanto para a artéria mesentérica cranial as
medidas foram 3,5 e 0,3 cm, respectivamente. Essa Discussão
variação vascular posicionou-se a 2,4 cm da artéria
renal esquerda. Os principais ramos da artéria celíaca Embora vários autores tenham descrito com
foram a artéria hepática, seguida pela formação de um uniformidade a artéria celíaca e os seus ramos, este
tronco comum entre as artérias gástrica esquerda e a vaso apresenta freqüentes variações, que podem
lienal, o tronco gastro-lienal. ocorrer em todos os níveis (Niza et al., 2003).
Animal 2: Gato de aproximadamente três anos de Em relação ao local da origem, o tronco celíaco-
idade, mestiço, sexo masculino. O tronco celíaco- mesentérico emergiu da porção ventral da aorta
mesentérico emergiu na segunda vértebra lombar abdominal, próximo ao hiato aórtico do diafragma,
(L2). Apresentou 0,4 cm de comprimento e 0,44 cm de concordando com os resultados obtidos por outros
largura, desde a sua origem até a bifurcação nas autores, que estudaram o comportamento da artéria
artérias celíaca e mesentérica cranial. A artéria celíaca celíaca em outros mamíferos e relataram que ambas as
apresentou 0,9 cm de comprimento e 0,3 cm de artérias celíaca e mesentérica cranial emergem da face
largura e a artéria mesentérica cranial 2,1 cm de com- ventral da aorta abdominal (Kennedy and Smith,
primento e 0,34 cm de largura. Essa variação 1930; Sleight and Thomford, 1970; Enge and
vascular posicionou-se a 2,2 cm da artéria renal Flatmark, 1972; Berg, 1978; Evans and Christensen,
esquerda. Os principais ramos da artéria celíaca 1979; Schmidt et al., 1980; Getty, 1981; Nickel et al.,
observados foram a artéria hepática, seguida pela 1981; Bednarova and Malinovsky, 1984; Dyce et al.,
formação de um tronco comum entre as artérias 1997; Schaller, 1999; Niza et al., 2003; König e
gástrica esquerda e a lienal, o tronco gastro-lienal. Leibich, 2004; Abidu-Figueiredo et al., 2005, 2008).
Animal 3: Gato de aproximadamente 4 anos de Machado et al. (2000) porém relatam que a origem da
idade, mestiço, sexo masculino. O tronco comum artéria celíaca em fetos de bubalinos ocorre em nível
denominado celíaco-mesentérico emergiu na terceira da aorta torácica, independentemente da artéria

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Roza MS et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 83-86

Figura 3 - Fotomacrografia da origem comum entre a artéria celíaca (ac)


e a artéria mesentérica cranial (amc) formando o tronco celíaco-mesen-
térico (tcm) no animal 3.
aa = artéria aorta; tcm = tronco celíaco-mesentérico; amc = artéria
mesentérica cranial;
ac = artéria celiaca; ah = artéria hepática; tgl = tronco gastro-lienal;
age = artéria gástrica esquerda; al = artéria lienal.

aquela alteração morfológica ou topográfica de certo


Figura 2 - Fotomacrografia da origem comum entre a artéria celíaca (ac) órgão, desde que não altere sua fisiologia (Sykes et
e a artéria mesentérica cranial (amc) formando o tronco celíaco-mesen-
térico (tcm) no animal 2.
al., 1963), embora Willam e Humpherson (1999)
aa = artéria aorta; tcm = tronco celíaco-mesentérico; amc = artéria correlacionem estas variações com predisposições à
mesentérica cranial; certas enfermidades. Já Sanudo et al. (2003), afirmam
ac = artéria celiaca; ah = artéria hepática; tgl = tronco gastro-lienal;
age = artéria gástrica esquerda; al = artéria lienal.
que anomalias e má formações acarretam de alguma
forma alterações na fisiologia do órgão. De acordo
com Didio (1998), pode ser considerada raridade toda
mesentérica cranial. estrutura que ocorra com uma freqüência de 1 a 2%
Variações na forma da emergência da artéria celíaca dentro de uma população.
têm sido relatada em outros mamíferos, como a Estudos complementares com número maior de
presença do tronco celíaco-mesentérico formado pela animais podem esclarecer em que situação se
artéria celíaca e mesentérica cranial em ovinos enquadra os gatos. A observação da emergência
(Lancenfeld e Pastea, 1977), búfalos (Machado et al., comum das artérias celíaca e mesentérica cranial por
2000), caprinos (Ferreira et al., 2001), bovinos um tronco comum observado em gato diverge da
azebuados (Peduti Neto e Santis Prada, 1970), cães origem individualizada dessas artérias mencionada
(Schmidti e Schoenaui, 2007) e humanos (Çavdar et por Getty (1981), Nickel et al. (1981) e Dyce et al.
al., 1997; Çiçekcibasi AE et al., 2005). Ainda no (1997).
homem uma ocorrência rara tem sido verificada, que
é a formação de um tronco único denominado tronco
celíaco-bimesentérico, formado pelas artérias celíaca, Conclusão
mesentérica superior e mesentérica inferior (Bergman
et al., 1988; Nonent et al., 2001). A emergência das artérias celíaca e mesentérica
Variações anatômicas, raridades e má formações são cranial por tronco comum em gatos é um achado
achados clínicos pouco freqüentes, e como os próprios importante, pois esta variação, mencionada por
nomes sugerem, fogem do padrão pré-estabelecido diversos pesquisadores em outras espécies, é rara em
para a espécie em questão, aquele que ocorre com gatos. A existência do tronco celíaco-mesentérico
maior freqüência, claramente conhecido como nor- nessa espécie tem importância significativa do ponto
mal. Na tentativa de adotar uma nomenclatura mais de vista clínico-cirúrgico, com aplicabilidade prática
esclarecedora possível, será considerada variação nos procedimentos que envolvam a vascularização

85
Roza MS et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 83-86

da região abdominal. Além disso, estudos futuros, – Linnaeus, 1758). Braz J Vet Res Anim Sci, 38(2), 69-73.
baseados na freqüência da aparição dessa alteração Getty R (1981). Sisson/Grossman. Anatomia dos animais
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86
COMUNICAÇÃO BREVE R E V I S TA P O R T U G U E S A
DE
CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Electrocution accident in free-ranging bugio (Alouatta fusca) with


subsequent amputation of the forelimb: case report

Acidente elétrico em bugio de vida livre (Alouatta fusca) com consequente


amputação do membro torácico: relato de caso

Melissa P. Petrucci, Luiz A. E. Pontes*, Fábio F. Queiroz, Márcia C. Cruz,


Diogo B. Souza, Leonardo S. Silveira, Ana B. F. Rodrigues
Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro – UENF
Hospital Veterinário da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro
Campos dos Goytacazes/RJ – Brasil

Summary: Bugios as well as other species of the Brazilian Bugios are primates placed in the family Cebidae,
fauna, are animals of wide geographic range which have been genus Alouatta, which occupy a large geographic area
included in the endangered species list. In Brazil, these
monkeys can be found in the Atlantic Forest, between the states
from Mexico to Argentina. In Brazil they can be found
of Bahia and Rio Grande do Sul. They are also known as in the Atlantic Forest, from the state of Bahia up to the
guariba or barbado according to the region they live. This report state of Rio Grande do Sul, and they receive different
describes a high voltage wire electric shock accident that names, guariba or barbado, according to the region
burned the left anterior limb of a six-month old bugio (Allouatta they inhabit (Silva, 1994; Silva et al., 1996). There are
fusca) that took place in the region of Campos dos
Goytacazes/RJ. After a clinical evaluation of the limb, loss of two subspecies known in Brazil, the Alouatta fusca
sensibility in the arm and forearm affected area was diagnosed, fusca, in the south part of the state of Bahia through
accompanied by a loss of muscular mass and overall superficial Espírito Santo, and Alouatta fusca clamitans, found in
necrosis. The muscle-skeleton damage to that member required the south of Espírito Santo up to the state of Rio
its amputation. After the animal recovery, it was reintegrated
into its natural habitat without any adaptation problems.
Grande do Sul and farther to the north of Argentina
(Buss et al., 1997).
Keywords: Bugio, Alouatta fusca, electric shock, burn As many other species of the Brazilian fauna, the
bugio is part of the list of endangered species
Resumo: Os Bugios, bem como outras espécies da fauna (IBAMA, 1989; Fonseca et al., 1994). Their habitat is
brasileira, são animais de distribuição geográfica ampla, que
foram incluídos na lista de espécies ameaçadas. No Brasil, esses distributed along the most populated areas of the
macacos podem ser encontrados na Mata Atlântica, entre os country, jeopardizing its survival due to hunting,
estados da Bahia e Rio Grande do Sul. Eles também são deployment of their environment and accidental
conhecidos como guariba ou Barbado, segundo a região em que killing in areas next to the cities. The ever expanding
vivem. Este relato descreve um acidente por choque elétrico em
fio de alta tensão que queimou o membro anterior esquerdo de
urban areas, mainly those related to non planed or
um bugio (Allouatta fusca) de seis meses de idade na região de illegal human settlements, is the most common cause
Campos dos Goytacazes / RJ. Após uma avaliação clínica do of devastation of these monkeys’ habitats (Buss et al.
membro afetado, foi diagnosticada a perda de sensibilidade no 1997). The negative impact becomes worse because
braço e antebraço e a área foi acompanhada por perda de massa the capture of bugios for pets is a common practice,
muscular e necrose superficial global. Devido ao dano ao
músculo-esquelético foi necessária a amputação do membro. since finding young orphan monkeys occurs frequently.
Após a recuperação do animal, este foi reintegrado ao seu habi- They are also victims of dog attacks, electrocution and
tat natural, sem quaisquer problemas de adaptação. gun shots.
Bugios are herbivore, thus their diet is made up of
Palavras-chave: Bugio, Alouatta fusca, choque elétrico,
fruit, leaves, seeds and flowers. They are mostly active
queimaduras
during the day and have the vocal communication as
their main characteristic. Like other species of the
genus Alouatta, bugios have large bodies, prehensile
tails and hairless faces. Male monkeys have a reddish-
brown color shifting to gold on the back and their
beards might be red or black. The females are usually
*Correspondência: eckhardtluiz@yahoo.com.br paler in color, going from dark brown to light yellow

87
Petrucci MP et al. RPCV (2009) 104 (569-572) 87-90

(Buss et al., 1997; Chiarrelo, 1992). Aside from the


differences between primates and humans, there are
similarities in the body structure related to posturing
and to the existence of five fingers on each hand
(Champneys, 1871; Di Dio et al., 2003). Differences
in structure, location, origin and insertion of some
muscles reflect the diversity among species (Aversi-
Ferreira et al., 2005 e 2006). Different species of
primates that live in distinct areas, there can be found
muscles of same anatomy and function, as in the
pronator quadratus that assists in pronation of the
forearm and hand (Champneys, 1871).
In September of the year 2006, a six-month old
bugio (Alouatta fusca) was conducted to the
Figure 1 - Superficial and deep muscle layer damages in the medial and
Veterinary Medical Center at UENF, the northern Rio
lateral regions of the limb of a bugio.
de Janeiro state university veterinary hospital. The
animal had severe electrical burns on its left anterior doing the debridement of the injuries, necrotic tissue,
member, caused by high voltage electrical wire contact. they were covered with bandages impregnated with
That monkey was found fainted on the ground, in a ointment containing silver sulfadiazine.
private rural land, within the vicinities of Imbé, in the The next step was the administration of enrofloxacin
city of Campos dos Goytacazes/RJ. According to what oral solution (5 mg/kg), once a day, during ten days
the people who found it said, the animal had the first and banamine (0.5 mg/kg), IM once a day for four
aid procedures done in a veterinary clinic. The days. The first evaluation took place after seven days,
injuries, caused by the electrical shock, were cleansed being necessary a new debridement procedure. The
and administered of enrofloxacin oral solution. The treatment, including the bandage, was carried out for
medication was administered for ten days showing no twenty one days. Since the wounds were not healed
obvious results. After that period, the bugio was taken after that period of time, the animal was sent to the
to the Wild Animal Research Center, "Núcleo de surgery center for the amputation of the affected limb
Estudos e Pesquisa de Animais Selvagens – NEPAS", (Figure 2). Intramuscular cetamin (15 mg/kg) and
at UENF. diazepam (1 mg/kg) were administered for the bugio
At the first physical examination the animal showed to undergo surgery, being necessary, afterwards,
signs of severe dehydration, anorexia, apathy, tachy- intravenous cetamin (2 mg/kg). For maintenance,
cardia and body temperature close to 37.9 ºC. A isoflurane administration was initiated, set at universal
clinical evaluation of the injured member indicated a calibration.
low temperature and any movements in the fingers, The limb was amputated near the umeral-radioulnar
lack of sensitivity on the arm and forearm, loss of articulation (Figure 2). As for the post-surgical treat-
muscle mass, dispersed superficial necrosis, pus and ment, carprofen was prescribed (4 mg/kg once a day
exposed epiphyses of the radius and ulna bones. for five days), enrofloxacine (5 mg/kg once a day for
Blood and urine samples were collected and ten days), both PO, and rifocin was sprayed over the
analyzed. The evaluation of the biochemical com- surgery wound for ten days. After the tenth day, the
pounds of the blood, including the plasma, did not
reveal any important alterations, but confirmed the
severe dehydration condition. Excrement examination
by sedimentation showed no endoparasites eggs.
A macroscopical examination of the wounded area
showed muscle-bone injuries throughout the carpus
region up to the body of the humerus. Superficial and
deep muscle layer damages in the medial and lateral
regions of the limb were also observed (Figure 1).
Parts of the humerus, radius, ulna, the carpus bones
and the interosseous ligaments of the forearm -
radioulnar, dorsal, lateral collateral and medial collat-
eral radiocarpal, ulnocarpal palmar and accessory
metacarpal - were affected as well, characterizing an
overall lesion of the member.
The bugio, who weighed 1 kg, was anesthetized
with cetamin (7.0 mg/kg) and diazepam (0.5 mg/kg),
followed by the debridement of the wounds. After Figure 2 - Amputation of the affected limb in the surgery center.

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stitches were removed and the proper cicatrisation,


according to the elapsed time, could be observed. The
surgical cut borders joined without the need for post
treatment.
Choosing to amputate part of the limb was a deci-
sion made because of the extent of the area affected by
the lesions - necrosed areas, muscular degeneration
and ligament ruptures - which were the cause of lost of
sensitivity on the extremity of the member (Figure 2).
Once amputated, the bugio was placed into a natural
habitat in the private propriety where it was first found
and was taken care of by the people of the area, who
gave it the right food and water. Its adaptation to a life
without one of the limbs, even living in the treetops,
was surprisingly faster considering the period between
the animal’s release, after the surgery, and the time it Figure 4 - Animal with the left limb amputated using the tail as a sup-
port and moving in telephone wires at the Hotel.
was last seen back into the propriety.
The main concern about the survival of wild
animals with amputated limbs is about post-surgical
stress and adapting to new circumstances. The bugio Bibliography
was adopted by the owner of the hotel "Bicho Souto",
located in an area of environmental preservation, Aversi-Ferreira TA, Aversi-Ferreira RA, Glória MF, Silva Z,
where it is being fed and monitored over the past three Gouvêa-E-Silva LF, Penha-Silva N (2005). Estudo
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