Nada se perde

Se você não quer contribuir para que o país continue jogando no lixo 30% de tudo que produz em alimentos, veja como comprar, fazer e comer sem desperdício
por Tatiana Achcar | fotos José Carlos França | Produção Samir Zavitoski

País de terras vastas e férteis, o Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do planeta. Ironicamente, somos também um dos campeões em desperdício. A matemática espanta: de tudo que se produz para comer, 30% vai pro beleléu - algo em torno de 16 bilhões de dólares. Segundo a Associação Paulista de Supermercados, 13 milhões de toneladas de frutas, legumes e verduras 23% da produção total - não chegam à mesa do consumidor. Daria para alimentar 35 milhões de bocas o ano inteiro. As perdas começam na lavoura, continuam no transporte, nas gôndolas dos supermercados e feiras livres. Na ponta da cadeia estamos nós, consumidores, às vezes flagrados em hábitos pouco exemplares, desperdiçando comida na compra, no fogão e na mesa. Quem paga a conta do prejuízo é o próprio consumidor, que vê os preços subindo toda vez que o produtor embute a perda no valor do produto final. Ou seja, esse vício de esbanjar mexe com questões econômicas, sociais, políticas e ambientais. Para solucionar o problema da má distribuição de alimentos sem deteriorar o planeta, é importante que todos tenham acesso não só à quantidade ideal de alimentos, como também à qualidade necessária para levar uma vida mais saudável e prazerosa. Para entender a corrente do desperdício (e começar a se mobilizar), saiba que o setor público, o privado e o cidadão são partes de um todo, e assim as atitudes de um implicam resultados, bons ou maus, para todos. Portanto, a ação do consumidor consciente é fundamental. "Ele pode influenciar políticas públicas e empresas privadas, privilegiando as mais éticas em detrimento de outras", acredita Aron Belinky, coordenador de projetos do Instituto Akatu, uma ONG de consumo consciente que acaba de lançar a publicação A Nutrição e o Consumo Consciente , disponível em seu site.

Com uma mudança de hábitos coerente e alguma imaginação, sua cozinha nunca será mais a mesma - nem você, nem os vizinhos, todo mundo que forma o todo do qual somos parte etc. Não dá pra jogar essa oportunidade no lixo. Primeiro, a educação Contribuir para o fim do desperdício e algo que começa em casa - é de pai pra filho. "A criança aprende por imitação. Se a mãe usa talos e folhas no preparo da comida, por exemplo, os filhos revelarão o mesmo hábito no futuro", diz José Augusto Taddei, professor de nutrição pediátrica da Unifesp. Educação alimentar se faz também com afeto e criatividade. As crianças devem aprender desde cedo que comer alimentos bem variados traz grandes benefício à saúde. Use as cores: um prato colorido é um prato saudável. Isso é bom na hora de elaborar um cardápio que chame a atenção da criançada. Na mesa, distribua tudo em tigelas e deixe que as pessoas sirvam-se sozinhas (cada um deve saber o tamanho da barriga que tem). E se no seu prato restarem pedaços de cenouras ou uma tirinha de frango, reserve para fazer adubo caseiro. Claro, tem ainda o velho e bom truque de enriquecer o rango do cachorro. Se você não tem jardim, hortinha ou cachorro em casa, bem... aí vai precisar redobrar esforços para que não sobre nada no prato mesmo. "Coma devagar, mastigando com atenção: isso dá tempo ao corpo para receber os nutrientes e mandar a informação de saciedade para o cérebro", diz José Augusto Taddei. Acerte na compra Fazer uma lista com o cardápio da semana norteia a compra e evita o ataque dos produtos desnecessários - os que "saltam' das prateleiras até o carrinho, mesmo quando o cheque especial já está no limite. Reinventando o ditado: é melhor acertar do que sobrar. Nunca, jamais, vá às compras com fome, sob pena de encher o carrinho com guloseimas. As famosas compras do mês valem para enlatados, congelados e cereais. Alimentos frescos devem ser adquiridos semanalmente, porque assim estão bem vivos e firmes. Dê prioridade aos produtos da temporada e da região, que tendem a ser mais baratos, mais saborosos e de melhor qualidade. Faça como sua vó fazia e compre mais alimentos a granel. Além de poder escolher tudo no pente fino, você compra na quantidade certíssima e ainda elimina a embalagem - um item a menos no lixo (aliás, esse é o assunto de nosso Morar desta edição, na página 52). Verifique a data de validade dos produtos e recuse pacotes furados ou latas amassadas: isso aumenta a vida útil do produto. Cuidado com promoções: pra que levar três se você só come um? Armazenagem esperta A forma de armazenar os alimentos também define seu tempo de vida. Vegetais ficam em sacos plásticos ou de papel na gaveta de baixo da geladeira, do jeito que chegaram da feira. Lave somente na hora do preparo. O pão não embolora quando guardado no saco de papel. Fique de olho na validade: depois de aberto, o prazo é mais curto do que o descrito na embalagem. Fazer bom uso do alimento é aproveitar ao máximo o que cada variedade tem a oferecer. Em geral, boa parte do que chamamos de lixo orgânico é fonte de nutrientes fundamentais. Cascas, talos, folhas e alimentos que sobraram de um dia para o outro são jogados fora simplesmente porque aprendemos que é lixo... o que não é. Mandioca com talos e folhas • 1 kg de mandioca cozida • 2 colheres (sopa) de margarina • 1/2 litro de leite

• folhas de beterraba, cenoura, couve flor, talos de espinafre, brócolis, nabo (enfim, use tudoo que houver) • 2 colheres (sopa) de óleo alho, cebola picadinha e sal Bata a mandioca no liquidificador, formando um purê, e leve ao fogo com a margarina até ferver, pondo sal a gosto. Faça um refogado com alho, cebola, talos e folhas. Em um refratário, coloque o purê de mandioca, espalhe o refogado por cima e, sobre ele, mais uma camada de purê. Uma pitada de queijo ralado e forno para gratinar. Este prato é fonte de vitaminas A, C e E, folato, potássio, fósforo, cálcio, sódio, ferro e magnésio. Receita do Programa Mesa São Paulo (Sesc) Tudo se transforma - a sobra da refeição de ontem pode ser a matéria-prima de hoje Praticamente todos os legumes e verduras que conhecemos - brócolis, agrião, couve-flor, cenoura, beterraba, nabo, salsão, rabanete - podem e devem ser usados da folha ao talo. Deixá-los fora da panela é um admirável desperdício. Estamos jogando no lixo a oportunidade de fazer sopas, refogados, farofas, bolinhos e saladas criativas, saborosas e nutritivas. O mesmo vale para as frutas. Batidas no liquidificador, as cascas de pêra, maçã, ameixa, pêssego, laranja, limão, abacaxi, banana e manga viram sucos, geléias, recheios de tortas e bolos. Suco de casca de frutas Junte 3 xícaras de cascas de frutas bem lavadas (aqui, manga e maçã) e bata no liquidificador com 1 litro de água. Coe e sirva. Farofa de folhas, talos e legumes Refogue uma cebola ralada em duas colheres de sopa de margarina ou óleo até dourar, acrescente as folhas, os talos e os pedaços de legumes já refogados e coloque, aos poucos, 2 xícaras de farinha de mandioca ou de milho torrada e sal, mexendo bem. Bolinho de casca de batata Ferva e bata no liquidificador 2 xícaras de cascas de batata, coloque numa tigela junto com 2 ovos, 2 xícaras de farinha de trigo, 1 colher de sobremesa de fermento em pó e sal. Esquente o óleo e frite as colheradas da massa. Pizza fingida Fatie o pão amanhecido, espalhe por cima molho de tomate temperado, orégano, mussarela e azeitona. Leve ao forno para derreter o queijo. Para saber mais Programa Mesa Brasil(SESC) www.sescsp.org.br/sesc/mesabrasilsp Instituto Akatu www.akatu.net FONTE: Site da Revista Vida Simples (a revista imprescindível em nossa vida!) http://vidasimples.abril.com.br/index.shtml

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