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Fisiologia II

Data: 29 de Abril de 2008


Ei,
Docente: Prof. Mário Marques
Desgravada por: João André Silva, Lélio Amado, Ricardo Nogueira
Tema: Nefrónio. Filtração e débito renal.

Hoje vamos começar o aparelho urinário. Vamos começar por falar nas
funções globais do rim e muito particularmente na sua anatomo-fisiologia, na
filtração glomerular, no débito renal e quais são os mecanismos que controlam a
filtração glomerular e débito renal.
Os rins são órgãos retro peritoneais que correspondem em conjunto a cerca de
0,5 % do nosso peso corporal. Mas, e isto é extremamente curioso e importante,
recebem cerca de uma quinto do débito cardíaco. O débito cardíaco de um
adulto normal ronda os 5 litros por minuto, portanto. o rim é um órgão que recebe
quantidades enormíssimas de sangue relativamente ao seu peso. É obvio que isso
tem a ver com a sua função de remoção de produtos que se pretende eliminar do
organismo.
Temos uma zona cortical, temos uma zona medular e temos a artéria renal e a
veia renal. Mas, mais importante que isso, do ponto de vista fisiológico, é a
unidade funcional do rim. Existem fundamentalmente 3 órgãos que têm unidades
funcionais que são o pulmão, o rim e o fígado. Isto quer dizer que esses órgãos são
um somatório de unidades semelhantes, todas elas com uma função
relativamente semelhante.
A unidade funcional do rim designa-se por nefrónio e é constituída por uma
arteríola aferente, que vai dar origem ao glomérulo renal, depois arteríola eferente
e o líquido é filtrado para a cápsula de Bowman. Depois temos o túbulo
contornado proximal, a ansa de Henlé com a sua porção fina e a porção grossa e
depois o túbulo contornado distal e todo o conjunto de tubos colectores que vai
ter até ao bacinete.
Vamo-nos dedicar à questão do débito renal e da filtração glomerular. Chamo
a atenção para 2 aspectos que há dois tipos de nefrónios: um nefrónio superficial,
que penetra na medula renal mas de uma maneira não muito profunda; e
nefrónios que penetram muito mais profundamente no rim e isto vai ter influência
na concentração da urina.

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Quais são as funções fundamentais do rim?
• Filtro, removendo produtos do metabolismo e toxinas, que é fundamental, e
sem o qual não se consegue viver. Portanto, se os rins não estão a funcionar,
a única hipótese é ter “algo que substitua o rim exteriormente”, isto é, fazer
hemodiálise, com filtros ou fazer diálise peritoneal, que é meter liquido para
dentro da cavidade peritoneal e depois extrai-lo daí a umas horas porque as
trocas nos capilares do intestino também permitem a libertação de
substâncias do nosso catabolismo, e também toxinas. Muitos fármacos e
muitas toxinas, quando são hidrossolúveis, são eliminadas pelo rim e, portanto,
também é muito importante na eliminação de toxinas.
• Equilíbrio electrolítico e ácido-base. As concentrações iónicas, são
extremamente importantes. Por exemplo, é necessário manter uma
concentração de potássio dentro de valores bastantes restritos, porque,
senão, dá origem a vários problemas mas, nomeadamente, disritmias
cardíacas e, portanto, situações potencialmente muito graves. Todos os iões
têm de ter um equilíbrio estreito. Também em termos de pH, o sangue exige
um pH com umas variações muito estreitas e o rim tem um papel
fundamental no desempenho também desse equilíbrio.
• Produção de hormonas.
o Renina é muito importante para o controlo da pressão arterial a
médio/longo prazo. Os mecanismos nervosos são mais rápidos mas
a renina é muito importante para um controlo a médio prazo da
pressão arterial através do sistema Renina – Angiotensina –
Aldosterona.
o 25-dihidroxi vitamina d3, muito importante no metabolismo do
cálcio e do fósforo.
o Eritropoietina que está envolvida na produção de eritrócitos
o Prostaglandinas e bradiquininas ou bradacininas que são
substâncias vasodilatadoras e, portanto, muito importantes
também para a regulação da pressão arterial local e para outras
funções.

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Como é que se produzem os glóbulos vermelhos?
Ao nível do rim temos células que são sensíveis à pressão parcial de oxigénio e,
quando a pressão parcial de oxigénio baixa, elas aumentam a produção de
eritopoietina.
O que é que faz a eritropoietina?
É uma hormona que entra em circulação e vai a todos os locais do nosso
organismo. Mas, onde existe receptores, é nas células primitivas da medula óssea.
A eritropoietina estimula essas células para se diferenciarem para a linha eritróide
para produzirem maior número de eritrócitos.
Este mecanismo vai permitir que, quando baixa a pressão parcial de oxigénio,
haja um mecanismo compensatório para aumentar o número de glóbulos
vermelhos e de hemoglobina para tentar fornecer mais oxigénio.
Isto foi aproveitado pelos desportistas. Eles treinavam em altitude e, em altitude,
a pressão parcial de oxigénio é mais baixa, o que fazia aumentar a sua massa
celular de glóbulos vermelhos. Isto funcionava porque a vida média do eritrócito é
de cerca de 120 dias (4 meses). Na competição, em altitude normal, ainda têm
mais glóbulos vermelhos que o normal. Hoje, já não se usa esse método. Toma-se a
droga, principalmente por via injectável ou via oral.

(A GRAVAÇÃO FOI INTERROMPIDA NESTE PONTO)

(...) doença pulmonar restritiva onde as trocas gasosas são difíceis, vão fazer
com que baixe o pO2. E, como as células do rim não são inteligentes, quando
baixa o pO2, produzem mais eritroipoietina.
Os fumadores têm uma massa de glóbulos vermelhos superior à de um
individuo semelhante, numa população semelhante, não fumadora porque a sua
pressão parcial de oxigénio ao nível do rim é mais baixa e, portanto, produz mais
glóbulos vermelhos.

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Como é que se forma a urina?
Toda a filtração que passa para as cápsulas de Bowman tem que ser igual em
todos os glomérulos renais, menos a reabsorção, ou seja, todo o líquido e
substâncias que são reabsorvidas ao longo de todos os túbulos renais, mais a
secreção (produtos que são secretados para dentro dos túbulos renais pelas
próprias células dos túbulos renais, como alguns produtos do catabolismo e alguns
fármacos).
No fundo,
Urina = filtrado nas cápsulas de Bowman – subst. reabsorvidas + subt. secretadas

Das substâncias que são filtradas, existem 4 hipóteses diferentes do que pode
acontecer a essas substâncias:

1 – A substância pode ser apenas filtrada e, durante todo o seu percurso, não é
nem reabsorvida nem secretada para dentro dos túbulos renais, o que pode ser
muito útil para se ter uma ideia da taxa de filtração glomerular. Sabe-se que
aquela substância não foi transformada ao longo de todo o percurso nos túbulos
renais.

2- A substância é filtrada para dentro dos túbulos renais, mas é parcialmente


reabsorvida ao longo do seu caminho nos túbulos renais.

3- A substância é filtrada e é completamente reabsorvida, isto é, ela é filtrada


para dentro dos túbulos renais, mas não veio essa substância na urina, logo ela
não aparece porque foi toda reabsorvida, ao longo do seu percurso.

4- A substância é filtrada, não é reabsorvidas e é secretada.

Só falta uma hipótese, que é rara, mas que existe em alguns fármacos. São
substâncias que não são filtradas para dentro dos túbulos renais mas que podem
ser secretadas. Claro que a quantidade dessas substâncias é sempre mínima.

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Todos os produtos do catabolismo, aminoácidos, glicose, iões, etc, sofrem um
destes tipos de transformação.

A que é igual a taxa de filtração glomerular e qual a importância de ela ser


cerca de 180 L por dia?

Um individuo adulto normal, durante um dia manda para dentro de todas as


cápsulas de Bowman cerca de 180 L de líquido.
Como se sabe que a diurese média de 24h, isto é, a quantidade de urina
excretada por 24h, ronda os 1,5L a 2L, é fácil de perceber que se reabsorve cerca
de 99% de todo o líquido que é filtrado para dentro dos túbulos renais. Isto é de
extrema importância porque permite a excreção rápida de produtos que
dependem apenas da filtração para a sua excreção.
Por exemplo, imagine-se que se ingere um alimento que tem uma substãncia
tóxica qualquer, que é hidrosolúvel, e que apenas é excretada através da
filtração glomerular. Se a sua excreção fosse muito lenta podia-se morrer.
Portanto, como esta quantidade é enorme, permite que haja uma renovação
muito rápida de líquido e, portanto, que se consiga excretar substãncias que são
tóxicas para o organismo.
Se pensarmos que...
• ...o nosso volume de plasma é cerca de 3L, portanto a nossa volémia
(conjunto total de sangue que temos dentro dos vasos) ronda os 5L;
• ...o hematócrito (percentagem ocupada pelos glóbulos vermelhos ou
hemácias no volume total de sangue) é de 42-45%. Temos cerca de 3L de
plasma no conjunto;
• ...o que é filtrado para as cápsulas de Bowman é a partir do plasma (em
condições normais não passam células).
O que é que acontece?
Acontece que este líquido é processado cerca de 60 vezes por dia, ou seja,
processa-se o mesmo líquido cerca 60 vezes por dia, o que permite um controlo
rápido da volémia e da composição dos fluidos corporais.

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Se assim não fosse, haveria problemas tremendos em termos de desiquilibrios
iónicos e desiquilibrios de volume. Temos uma capacidade de adaptação
tremenda e muito rápida devido, exactamente, a excretarmos quantidades
enormes de líquido para dentro de todos os túbulos renais.

Quais são os determinantes da taxa de filtração glomerular?

A taxa de filtração glomerular é igual a um coeficiente de filtração glomerular


vezes a pressão de filtração glomerular.

Taxa de filtração glomerular = Coeficiente de filtração glomerular × Pressão de


filtração glomerular

E a que é que é igual a pressão de filtração glomerular?

Pressão de filtração glomerular = Pressão hidrostática glomerular

É a força que faz com que o líquido tenda a passar de dentro dos vasos, neste
caso logo a seguir à arteriola aferente, portanto no novelo de vasos há-de ter uma
pressão hidrostática, que é de cerca de 60 mmHg, menos a pressão hidrostática
da cápsula de Bowman.

P hidrostática do novelo de vasos = 60 mm Hg – P hidrostática da cápsula de


Bowman

É evidente que, se há liquido na cápsula de Bowman, há alguma pressão


hidrostática e, portanto, essa pressão é calculada em média em cerca de 18 mm
de mercúrio menos a pressão coloido-osmótica glomerular.

P hidrostática na cápsula de Bowman= 18 mm Hg – P coloido-osmótica


glomerular

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Como se sabe a pressão coloido-osmótica ou oncótica sanguínea tem muito a
ver com a quantidade de proteínas que temos em circulação, que tendem a reter
a água, e a tender que a água não saia dos vasos. Em situações de hipo-
proteinémia (de baixa de proteínas no sangue), um dos problemas que temos é
edema, que é a saída do líquido para o tecido intersticial.
Poderíamos perguntar porque é que não está nesta formula a pressão coloido-
osmótica da cápsula de Bowman. Por uma razão muito simples: ela existe, só que
o valor é perfeitamente negligenciavel em condições normais. Isto porque, no filtro
que existe entre os vasos e a cápsula de Bowman, em condições fisiológicas,
praticamente não passam proteínas. Apenas passam alguns aminoácidos,
proteínas não passam, e, portanto, a pressão coloido-osmótica da cápsula de
Bowman é considerada igual a zero. É um valor negligenciável e, portanto, o que
define são apenas estes três parâmetros.

Coeficiente de filtração glomerular


O coeficiente de filtração glomerular é uma medida do produto da
condutividade hidraulica e da área dos capilares glomerulares, isto é:

Coeficiente de filtração glomerular → é a maior ou menor facilidade com que a


membrana dos nefrónios deixa com que o líquido seja filtrado.

Ele não pode ser determinado directamente. Não temos medidas directas para
calcular o coeficiente de filtração mas, a partir da taxa de filtração glomerular e
da pressão de filtração gomerular, que se consegue calcular, pode-se obter
valores do coeficiente de filtração glomerular que rondam os 12,5 mm por minuto
por mm de mercúrio. Mas, por grama de tecido, por 100 g de tecido renal o
coeficiente de filtração é cerca de 4,2 ml por minuto por mm de mercúrio.
(Ninguém pergunta estes valores, é importante é termos esta noção).
Repare-se que o valor da maioria dos capilares que nós temos nos outros
tecidos é cerca de 0,01 mm por minuto por mm de Hg. Ou seja, o coeficiente de

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filtração glomerular é cerca de 400 vezes superior aos dos outros capilares Esta é a
razão porque se obtem quantidades brutais de filtrado durante 1 só dia.
Por isso é que se consegue 180 L de filtrado. As membranas/os capilares deixam
passar muito liquido; têm um coeficiente de filtração muito superior aos capilares
dos outros tecidos.

Outro aspecto a realçar é que, quando o sangue está a passar num novelo de
capilares, nem todo o sangue está em contacto com a parede do capilar! E,
portanto, é obvio que não é filtrado todo o plasma que está por lá a passar!
Em cada passagem de líquido, cerca de 20% da quantidade total do plasma é
que é filtrado para as cápsulas de Bowman, porque é o que está em contacto
com as membranas. Esse plasma é o que é filtrado; o outro passa pelo meio do
vaso, continua e vai ter à arteríola eferente.
(Importante! Não ficar com a ideia, que o sangue entra, é todo filtrado e saiem
só glóbulos. Nem pouco mais ou menos! Aliás, teríamos outro tipo de problemas se
isso acontecesse). Portanto, é cerca de 20 % de todo o plasma que lá passa que é
filtrado.

Algumas situações que baixam a taxa de filtração glomerular


Estas podem ser devidas a várias causas. Uma delas, é a diminuição do
coeficiente de filtração glomerular. Há duas patologia muito frequentes que
provocam o espessamento da membrana capilar e, portanto, vai havendo uma
dificuldade de passagem do filtrado. São elas, a hipertensão arterial e a diabetes.
É por isso que, ao longo dos anos, cada vez mais se diz aos médicos para
tratarem de uma maneira “agressiva” a hipertensão e a diabetes. Tem que se
fazer todos os esforços para o individuo com hipertensão arterial ou diabetes
colocar os valores nos limites normais. Isso é de extrema importância porque, a
longo prazo, vão ser causadas lesões ao nivel de orgãos alvo e um dos orgãos alvo
da hipertensão e da diabetes é, exactamente, o rim. Um dos grandes problemas
desses doentes é que eles vão acabar muitas vezes, especialmente se mal
controlados, com insuficiência renal crónica.

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A prevalência destas situações é tremenda na nossa população e, como se
sabe, a diabetes está a aumentar e, provavelmente, vai ser considerada como a
pandemia do século XXI, devido aos hábitos alimentares actuais.
Quanto ao aumento da pressão hidrostática na cápsula de Bowman, esta vai
dar origem a uma diminuição da taxa de filtração glomerular. Se tiver uma pressão
maior dentro da cápsula de Bowman a tendência do líquido para passar, é
menor, como se vê na fórmula.
Uma situação que pode provocar originar isto é a litíase renal (litos=pedra), ou
seja, os chamados cálculos renais.

Qual o grande problema dos cálculos renais?


Quando se soltam e encravam no uretero, vão causar dores tremendas. Estas
dores são causadas pela contracção violentíssima do uretero para tentar expulsar
o cálculo. O uretero contrai violentamente para expulsar o cálculo. Se não
conseguir, a pressão a montante aumenta e este aumento vai fazer com que
passe muito menos líquido para o filtrado glomerular.

[A litíase renal é uma das situações mais “brutais” de mudança de estratégia


terapêutica desde há 25 anos, principalmente nos últimos 7 ou 8 anos. A cólica
renal é um problema grave para o doente, porque este não tem posição para
estar. Uma das formas de diagnóstico é a dor na região lombar, com dores
violentas tipo cólica, ou seja, que aumentam e diminuem. Para se tratar esta
situação usava-se um anti-espasmódico, para diminuir as contracções violentas do
músculo liso do uretero, e mandava-se o doente beber muita água. Qual era a
ideia? Bebendo muita água, vai-se diluir um pouco aquilo que está a forma o
cálculo (os mais frequentes são de oxalato de cálcio, mas há vários tipos de
cálculos), evitando que mais sais se depositem naquele cálculo - o cálculo
começa com um núcleo e depois vão se agregando mais produtos àquele
núcleo.
Depois veio a descobrir-se que, às vezes, aliviava a dor mas o cálculo não era
expulso. Estava lá muito tempo e como o individuo estava a beber muita água a

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pressão a jusante da lesão do lado do rim ia aumentando de tal maneira que
podia inclusivamente lesar o rim, dar origem a hidronefrose e, depois, dar origem a
lesão renal.
Actualmente, trata-se a cólica renal com anti-inflamatórios não esteróides, para
tentar diminuir a inflamação na zona do uretero onde o cálculo está encravado, e
com restrição hídrica. Bebendo pouca água, se o cálculo não for logo expulso,
tem tendência, a médio/longo prazo, a lesar menos o rim. Apesar de qualquer das
duas ter a sua lógica, hoje prefere-se a última.]

Outra hipótese para diminuir a taxa de filtração glomerular é o aumento da


pressão coloido-osmóstica glomerular. Se se tiver uma hiperproteinémia, por
exemplo, tende-se a reter o plasma do lado de dentro dos vasos e, portanto,
tende a sair menos para as cápsulas de Bowman. Há um aumento das proteínas
plasmáticas. São situações relativamente raras, mas há algum tipo de neoplasias
sanguíneas, que são os plasmocitomas (leucemia de plasmócitos), que vão
produzir quantidades brutais e anormais de proteínas e, portanto, isso pode
provocar uma diminuição da taxa de filtração glomerular por essa razão.
A outra hipótese é a baixa da pressão hidrostática glomerular. Ela depende da
pressão arterial e das resistências das arteríolas aferente e eferente. Se aumentar a
resistência da arteríola aferente, para jusante a pressão é menor, portanto, diminui
a pressão hidrostática. Se, por outro lado, aumentar a resistência da arteríola
eferente, que está já depois de onde se dão as trocas, vai aumentar a pressão
hidrostática capilar.

Quais são as situações onde isto acontece?


Uma é a diminuição da pressão arterial. Esta situação, quando não é grave,
tem pouco efeito porque há uma autorregulação do próprio rim que é a
autorregulação miogénica normal, que temos em todos os órgãos. Esta vai fazer
com que haja um ligeiro de aumento do débito. Mas, em situações extremas de
hipovolémias muito rápidas, por exemplo de indivíduos que têm hemorragias
profusas e muito rápidas, um dos problemas graves é a eliminação da filtração

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glomerular. Esses indivíduos, muitas vezes, entram em enúria, que é não urinar,
para tentar manter o máximo de volume possível dentro dos vasos para aguentar
a pressão arterial porque, se não se tiver pressão arterial suficiente para irrigar o
cérebro, o indivíduo morre. O organismo tende ao máximo defender as coisas que
são prioritárias, como é evidente.
Temos também uma diminuição da resistência arterial da arteríola eferente. Isso
é causado por baixas na angiotensina II. Não é que essa baixa seja frequente
fisiologicamente, mas há fármacos usados para tratar a pressão arterial que são
antagonistas da angiotensina II, e que vão inibir a formação de angiotensina II.
Esse é um dos mecanismos muito importantes para diminuir a pressão hidrostática
glomerular.
E também o aumento da resistência arterial da arteríola aferente. Como está
antes, vai diminuir a taxa de filtração glomerular. Isto existe no aumento da
actividade simpática. Por exemplo, num exame, numa situação de grande stress,
é relativamente raro a pessoa ter vontade de urinar, isto porque há um excesso de
actividade simpática. A actividade simpática provoca vasoconstrição da arteríola
aferente e, assim, há uma diminuição do débito e da taxa de filtração glomerular.
Isto é importante também para a reacção de alerta, de alarme ou de pânico,
que é o melhor exemplo de uma estimulação simpática fortíssima. Por exemplo, no
trânsito, se se atravessar um individuo à nossa frente que tenha passado o
amarelo, e for preciso travar a fundo, começamos a buzinar e, se sai do carro um
indivíduo de grandes dimensões, o nosso instinto é fugir. Essa é uma reacção em
que o sistema nervoso simpático intervém ao máximo. Nessa altura não teria
lógica ter-se vontade de urinar. Nesse aspecto, o organismo funciona muito bem. É
por isso que, numa estimulação simpática muito importante, o aparelho digestivo
é praticamente todo inibido. Nessa situação há necessidade de usar a energia
armazenada rapidamente, pelo que não faz sentido que ela esteja a ser usada
para a digestão.

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Determinantes do débito renal

DR- Débito Renal


PAR − PVR
PAR- Pressão arterial renal DR =
RRVTotal
PVR- Pressão venosa renal
RRVTotal- Resistência renal vascular total

A autorregulação dos vasos renais faz com que se mantenha o débito quase
constante de pressões arteriais entre 80 e 170 mmHg. A autorregulação existe em
todos os territórios do nosso organismo e consiste em algo muito simples:
• Quando a pressão aumenta, o vaso tem tendência a fazer
vasoconstrição para diminuir essa pressão e, portanto, o débito;
• Quando há uma diminuição do débito, a tendência é a vasodilatação
para aumentar o débito.
Neste caso, como é que é controlada a filtração glomerular e o débito renal?
A activação do sistema nervoso simpático baixa a filtração glomerular e o
débito renal, mas apenas com estimulações simpáticas potentes e intensas
porque, se forem ligeiras, o efeito é relativamente escasso porque a
autorregulação sobrepõe-se.
Também a endotelina baixa a filtração glomerular e a taxa de filtração
glomerular. A angiotensina II contrai a arteríola eferente e, portanto, diminui o
débito renal, mas aumenta a taxa de filtração glomerular.

Débito renal ≠ Taxa de filtração


Débito renal- quantidade de sangue que passa
Taxa de filtração- quantidade de sangue que é filtrado
Pode passar muito sangue, mas se a pressão na arteríola eferente for baixa o
sangue passa rapidamente e pouco é filtrado.
O monóxido de azoto derivado do endotélio diminui a resistência vascular renal
e aumenta o débito renal e a taxa de filtração glomerular. Daí que se pense que o
NO derivado do endotélio é importante para a vasodilatação renal, logo muito
importante para manter o equilíbrio fisiológico no rim.

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Outros vasodilatadores como a bradicina e as prostaglandinas, principalmente
as prostaglandinas E2 e I2, dão vasodilatação, aumentando também o débito
renal e a taxa de filtração glomerular.
No fundo, o controlo da filtração glomerular e do débito renal está muito sujeito
à autorregulação. Para pressões arteriais entre 70 e 150 mmHg não temos grandes
alterações nem do débito renal nem da taxa de filtração glomerular. Isto é muito
importante porque a pressão arterial é pulsátil, isto é, não é um valor constante,
embora nos capilares seja praticamente constante. Mas, com alguma frequência,
há alterações da pressão arterial que autorregulamos. Não temos sempre a
pressão arterial exactamente no mesmo valor. É muito importante que, dentro dos
valores que cobrem a esmagadora maioria dos indivíduos normais, o débito renal
e a taxa de filtração se mantenham. Portanto, só em circunstâncias muito
extremas de hipertensões descontroladas ou de hipotensões graves, por exemplo
num indivíduo que sangra muito, é que há uma diminuição significativa do débito
e da taxa de filtração glomerular.

Por último, temos um controlo muito importante que tem a ver com a mácula
densa, que faz parte do túbulo distal e que está junto às arteríolas aferente e
eferente. Este controlo de autorregulação é muito simples. Quando há uma baixa
da pressão hidrostática glomerular, há uma baixa da taxa de filtração glomerular.
Quanto ao líquido que chega à mácula densa, como há menos líquido a ser
filtrado, vai também chegar menos NaCl e as células da mácula densa são
sensíveis à quantidade de NaCl que lhes chega. Quando essa quantidade diminui,
as células da mácula densa aumentam a produção de renina, que aumenta a
angiotensina II através da transformação de angiotensinogénio em angiotensina I,
depois, através de uma enzima conversora de angiotensina que existe
principalmente ao nível da circulação pulmonar, é transformada em angiotensina
II que é a substância vasoactiva. A angiotensina I e o angiotensinogénio, que é
produzido no fígado, não têm qualquer actividade vaso-reactiva, só a
angiotensina II é que a tem.

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Nos pulmões
Angiotensinogénio Angiotensina I Angiotensina II
(produzido no fígado) Renina enzima conversora
de angiotensina

Como consequência
• a arteríola eferente vai aumentar a sua resistência
• a arteríola aferente diminui a resistência

Aumento da filtração glomerular

Isto é um mecanismo de retro-controlo que começa por uma baixa de filtrado


glomerular e acaba numa subida da taxa de filtração glomerular. Este mecanismo
de autorregulação é extremamente importante, já que é com ele que se
controlam as taxas de filtração glomerular e, portanto, a quantidade de líquido
que passa para dentro do sistema tubular renal.
A autorregulação miogénica, que é outro tipo de autorregulação, é
semelhante em todos os territórios e é tão importante como noutros territórios,
nomeadamente, no rim.

Por último, existem outros factores, mais raros, que alteram e aumentam o
débito renal e a taxa de filtração glomerular. Um deles é uma dieta rica em
proteínas porque há uma reabsorção conjunta de aminoácidos e de sódio e essa
dieta tende a aumentar o débito renal e a taxa de filtração glomerular. Esta é
uma das razões porque é muito importante controlar a alimentação de indivíduos
com insuficiência renal crónica, já que isso pode contribuir para uma melhoria da
sua homeostase e do seu bem-estar.
Outra situação, é o aumento significativo da glicemia. A reabsorção da
glucose é feita conjuntamente com o sódio, pelo que o aumento significativo da
glicemia tende a aumentar bastante o débito renal e a taxa de filtração
glomerular. Aliás, um dos sinais do doente diabético é a sede e a poliúria (diurese
superior ao normal), pelo que é frequente os doentes diabéticos serem detectados
por ingerirem enormes quantidades de água, terem muita sede e excretarem
grandes quantidades de líquido.

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