CAPÍTULO II BELEZA, RELAÇÕES SOCIAIS E CIRURGIA PLÁSTICA

"Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel resolveu para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma...".
Fragmento da crônica "Restos de Carnaval", in A Descoberta do Mundo de Lispector, Clarice.

Ser Diferente
N

a mitologia grega, Apolo era a representação da beleza, verdade, inteligência e harmonia, enquanto Vênus era a deusa do amor sexual e da beleza. Eram

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seres que simbolizavam os desejos perfeccionistas dos humanos, possuindo tudo aquilo que era considerado bom, bonito, harmônico e com capacidade de despertar a inveja e o desejo sexual. Narciso contemplou o reflexo de seu belíssimo rosto nas águas da fonte, local onde fora refrescar-se. Vítima de vingança por parte de Nêmesis, em função de sua insensibilidade para com Eco, a qual se apaixonara por ele, Narciso ficou até a morte na fonte, encantado com seu rosto que via no fundo d’água. No lugar onde morreu, nasceu uma flor que recebeu o seu nome e hoje o termo narcisismo é usado com o sentido de gostar muito de si mesmo, com conotação egoísta. (GUIMARÃES, 1990). Estes dois trechos, retirados da mitologia grega, têm algo em comum: as imagens atribuídas aos seres são palco dos desejos humanos. Qual dos mortais, em algum momento, nunca pensou em ter uma imagem diferente daquela que o espelho lhe dá? Excetuando Narciso, talvez esse desejo seja unânime. Parece ser universal querer possuir outras qualidades consideradas de maior aceitação para si ou para os outros, quando outras necessidades já foram satisfeitas (MASLOW, 1954). Existem pessoas que, além do desejo de serem mais belas, tentarão, de diversas formas e práticas, obter essa "beleza" de forma efetiva, não só em função dos efeitos que ela traz, mas também porque o homem sempre teve uma certa aversão atávica e histórica por aquilo que é considerado feio, inestético ou assimétrico. Uma dessas formas efetivas de mudança corporal ou facial é a CP. Para alguns, a perda gradual da juventude é vivenciada como um encontro com a feiúra ou com a morte. Sobre esse assunto, o livro de Wilde (1975), “O Retrato de Dorian Gray”, conta uma história muito interessante em que o personagem principal (Dorian) fez um pacto com o diabo para não envelhecer, usando como elemento de barganha a sua alma. A figura do protagonista estava pintada em um quadro que, à medida em que o tempo passava, ela - a figura - ia envelhecendo no lugar de Dorian. O retrato foi escondido pelo mesmo, pois sofria alterações. O fato de Dorian sempre permanecer jovem causava estranhamento1 em seus amigos, os quais explicitavam tal sentimento. Um pormenor curioso é o fato de Dorian não envelhecer por dentro; seu nível de desenvolvimento emocional e intelectual
1Há

suposições e evidências, inclusives tratadas por críticos literários, da condição homossexual de Dorian. Em uma recente adaptação do livro para o cinema, Dorian, por diversas vezes, tem encontros “misteriosos” e evitava o casamento.

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ficaram paralisados desde o momento em que realizou o pacto. Tal obra mostra que a força pessoal denominada de vaidade é capaz de ser muito forte. Nem todas as pessoas, entretanto, terão como prioridade a conquista ou a manutenção da beleza. Indivíduos que se consideram com poucas particularidades de atração mais do física que tentarão outros compensar para obter essa maior "deficiência", esforçando-se

masculinidade/feminilidade, bens materiais ou maior rendimento acadêmico. (BERSCHEID & WALSTER, 1973; GIDDON, 1983; GOLDSTEIN, 1983). A palavra plástica vem do latim "plasticus" que deriva do grego "plastikós"; significando formar ou moldar. Depreende-se que o termo usual plástica não corresponde às suas origens etimológicas, pois, atualmente, o seu sentido mais preciso está ligado ao aprimoramento de formas ou alteração da proporcionalidade dos elementos corporais, dando o significado de tornar belo ou simétrico. (FARINA, 1946) O homem das selvas se utiliza, instintivamente, de diversos tipos de pintura em seu corpo, de acordo com as peculiaridades das características ecológicas do lugar específico habitado e do tipo de ritual. Em algumas sociedades tribais, a maquilagem desempenha um papel importante ao estabelecer o status do indivíduo dentro da comunidade, fornecendo-lhe uma “insígnia” cultural que permite rotulá-lo como pertencente a uma categoria social em particular. (ADLER, 1961). O comportamento estético é a busca da beleza para o próprio corpo, através da mudança do meio ambiente ou de uma simples compra de um objeto artístico, pois não se pode ignorar o modo como as pessoas passam e gastam o tempo considerado livre. Uma análise precisa indicará que o ser humano, principalmente o do sexo feminino, gasta muitas horas em frente ao espelho ou em atividades diretamente ligadas ao cuidado e/ou embelezamento corporal. Acrescente-se o fato de a beleza trazer recompensas diversas e terse-á uma ampla variedade de mudanças corporais que visam à estética. Uma dessas formas efetivas de mudança corporal (incluindo a face) é a CP. (MORRIS, 1977). MORRIS (1977) apontou o impulso taxofílico (amor à classificação) como o responsável pelo aparecimento do comportamento estético. Segundo o autor, trata-se de um poderosíssimo impulso humano para classificar os elementos ambientais, incluindo o próprio corpo ou partes dele. GIDDON (1983) acredita que cada cultura condiciona seus

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integrantes, no tocante à percepção, para pormenores ou fragmentos corporais que são considerados atraentes ou de rejeição. Existiria, então, uma motivação, baseada na aprendizagem, para melhorar a aparência. Assim, pessoas bonitas e bem sucedidas profissional ou economicamente seriam modelos positivos e seus sucessos atribuídos à beleza. Diante das angústias da vida pode-se atribuir à feiúra ou à algum traço do rosto/corpo que não esteja dentro dos padrões aceitos de beleza a responsabilidade pelos problemas que a vida traz. Essa atribuição de causalidade corporal poderá despertar o desejo da mudança do traço considerado ou da aparência física no seu aspecto global. (GALVÃO, 1978). A imagem que as pessoas têm de si (auto-imagem), a imagem que os outros têm dela (hetero-imagem) e a imagem que ela acha que os outros têm em relação a ela (detero-imagem) parecem elementos esclarecedores da maior parte das relações interpessoais. (BERSCHEID, E. & WALSTER, 1973). Em um estudo muito interessante sobre trocas de feedback, FRITZEN (1978) enfatizará as descobertas do psicólogo Joseph Luft e do psiquiatra Harry Ingham no tocante ao mapeamento do indivíduo no grupo. No relacionamento interpessoal existe uma forte parcela de determinação através da aparência física, apesar de as pessoas reagirem mais àquilo que elas acreditam ver do que efetivamente vêem. Assim, na tentativa de compreensão das interações pessoais, é mais importante a imagem que as pessoas possuem de determinado indivíduo do que a auto-imagem. A CP é considerada, para a grande maioria daquelas pessoas que a procuram, como uma possibilidade real de transformação, de ser diferente. Vivemos numa cultura do corpo, na qual ele é muito valorizado e idealizado, existindo a propagação, em parte, do perfeito: o "corpo, o "rosto". Em diversas revistas encontramos muitas receitas caseiras ou produtos milagrosos que tentarão, por exemplo, retardar o envelhecimento ou melhorar a aparência. O mundo parece impor a boa aparência como um pré-requisito fundamental para a conquista de afetos, de carícias ou do sexo oposto. Inúmeras seleções de pessoal colocam a boa aparência como critério de escolha para a montagem do perfil do candidato. No relacionamento interpessoal, existe uma forte parcela de determinação através da aparência física: as pessoas mais bonitas, segundo os estudos, parece que recebem mais atenção e afetos positivos do que os demais. (GOLDSTEIN, 1983; MACGREGOR, 1982).

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Dimensão Numérica
Existem indicadores que apontam uma grande necessidade de mudança corporal. Houve um aumento de 81% de 1981 a 1984 no número de CP nos EUA (DEATON & LANGMAN, 1986) e 80% das pessoas dos países desenvolvidos procuraram tratamento ortodôntico (GIDDON, 1983). O Instituto Gallup revelou que 62% das mulheres americanas, a grande maioria dentro da faixa normal de peso, desejam perder de 5 a 9 quilos (revista VEJA 1992) e isso pode explicar o grande desenvolvimento da lipoaspiração ou da lipoescultura. As CPE, que antes eram consideradas inacessíveis para as classes média e baixa da população, em função do alto custo envolvido, agora estão barateadas devido a vários fatores: a) o próprio desenvolvimento do conceito de CP é também responsável por essa maior acessibilidade, na medida em que as CPE não são consideradas de luxo, mas tão importantes quanto as CPR; b) a existência de serviços públicos gratuitos (quer para o treinamento dos residentes, quer para a pesquisa); c) o crescente número de novos cirurgiões plásticos para dar conta da grande demanda; d) o aumento de sub-especialidades da CP, bem como as facilidades econômicas decorrentes da competição entre os profissionais (parcelamento do pagamento da cirurgia). É comum notar pessoas próximas falarem que fizeram ou que farão determinada CP. Infelizmente, no Brasil, inexistem pesquisas comprovando esse aumento. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Estética e Reparadora revela um aumento do número de cirurgiões associados a cada ano, sem precisar o percentual. Apesar de a CP ser ainda considerada supérflua, a classe média tem conseguido acesso a ela através dos serviços gratuitos ou de clínicas particulares. Em geral, nos hospitais públicos, existe uma equipe composta por diversas especialidades que atende ao paciente. O financiamento da cirurgia, a prévia poupança ou a cobertura parcial pelo convênio da empresa (onde o interessado trabalha) são elementos facilitadores à CP2. Isso pode comprovar
2Algumas

empresas estatais e privadas permitem que o associado faça pagamento de 50%

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que existe toda uma rede social em expansão que favorece a prática de mudança corporal. Existem, segundo os próprios residentes, pessoas que até vendem objetos pessoais e/ou jóias (algumas com grande valor afetivo) ou fazem uma grande economia para ter acesso à CP. CERCIARI (1988) relata que uma senhora de 47 anos, vendedora autônoma de jóias, efetuou o pagamento ao cirurgião com cheque sem fundos a fim de conseguir um rejuvenescimento facial É sabido, também, que a imprensa, telejornais, rádio, revistas e livros especializados têm divulgados os efeitos da CP. Essa grande propaganda aumenta a difusão dos conhecimentos e técnicas utilizados pelos cirurgiões plásticos. Por conseguinte, há o aumento do desejo e a procura das pessoas por plástica. Na medida em que seus riscos vão ficando menores, haverá um aumento na prática da mesma. (ASSUMPÇÃO, 1990; CORREIA & ZANI, 1977; COTTINI, 1994; GALVÃO, 1978; RUZZANTE, 1986; SCHOR & FREITAS, 1992).

Grande Demanda
Se a CP ainda é considerada supérflua e ocasiona mudança corporal efetiva, podemos inferir que as pessoas assintomáticas ou com fatores sub-clínicos que procuram a modificação plástica, já passaram por várias etapas, desde a tentativa de auto-aceitação (deixar o corpo/parte como ele é) até o uso de cosméticos ou de métodos caseiros (verdadeiros testes de mudança corporal). Ao procurar a especialidade plástica, o paciente já venceu algumas barreiras internas e externas, logo, não é de se estranhar que existam forças poderosas que impulsionam os indivíduos a optarem pela CP (POLANYI, 1980). Ao assumir o desejo de mudança cirúrgica, o paciente enfrentará, entre outras coisas, o risco do insucesso cirúrgico. Existem fortes indícios de que a procura por CP seja muito grande se considerarmos que o paciente assume: 1) ausentar-se de suas tarefas e obrigações habituais. Exemplo : faltar ao trabalho, à escola ou tirar férias para realizar a plástica (prática
das despesas do cirurgião plástico. Algumas até parcelam essa metade, desde que o funcionário passe por uma avaliação social.

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predominantemente masculina e

com a intenção de esconder a cirurgia)

(Revista VEJA de 1 de abril de 1992); 2) percorrer longas distâncias para a realização da cirurgia gratuita ou por causa de um cirurgião famoso. Exemplos: Alguns pacientes latinoamericanos viajam em condições sub-humanas, por semanas a fio, objetivando a plástica no Brasil (PITANGUY, 1984); 3) enfrentar longas filas de espera para a triagem e entrevista com o cirurgião plástico (nos casos em que o candidato procura os serviços públicos gratuitos)3 ; 4) simular problemas de saúde diretamente ligados ao local onde se quer operar, fazer mutilações inestéticas ou provocar acidentes na parte do corpo a fim de conseguir uma operação reparadora. Exemplos: quebrar o nariz de forma proposital; demonstrar ter problemas respiratórios do tipo desvio de septo ou carne esponjosa para conseguir operá-lo através do INSS (que só realiza CPR) ou mesmo dizer que tem muitas dores na coluna por excesso de peso nas mamas e assim obter autorização oficial para a mamoplastia redutora (PAILLET & GATÉ, 1987); 5) oferecer diversos presentes, brindes, jóias ou mesmo dinheiro para cirurgiões de grandes instituições públicas com o objetivo de realizar uma CPE proibida pela instituição; pedir sigilo à equipe de médicos ou interdisciplinar no caso de uma CPE "proibida" ou não coberta pelo convênio médico do paciente (PAILLET & GATÉ, 1980); 6) realizar todos os exames pré-operatórios, quaisquer que sejam e independente do custo e tempo necessários (alguns são invasivos e outros causam grande constragimento ao paciente) (OTSUKA, 1992); esperar os resultados desses exames. Se algum deles for restritivo à cirurgia pretendida, como por exemplo a anemia ou longo tempo de coagulação sangüínea, o paciente insistirá para que os resultados sejam desconsiderados ou tentará corrigir tais fatores (PAILLET & GATÉ, 1980); voltar ao médico com os resultados e esperar novamente para ser atendido (caso de hospitais públicos ou hospital-escola); 7) submeter-se à entrevista coletiva em frente aos alunos da cadeira
3Em

São Paulo, existem pelo menos quatro locais que realizam CPE gratuitas a) Santa Casa de Misericórdia ; b) Hospital das Clínicas ; c) Hospital São Paulo e d) Hospital dos Defeitos da Face. Todas essas instituições possuem ambulatórios e uma longa fila de espera. A última delas pode ser considerada do tipo mista, pois realiza também cirurgias particulares remuneradas.

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de Cirurgia Plástica a fim de acelerar sua posição na fila de espera4; 8) cumprir os aspectos legais, éticos e psicológicos de determinada CP. Exemplos: obter autorização dos pais ou responsável (quando o paciente for menor); conseguir o respaldo junto a advogados ou juízes (casos de mudança de sexo); passar por psicoterapia breve nos casos de hemofobia 5, medo de hospitais ou pânico nas anestesias (FARINA, 1982); 9) tirar fotografias (tanto no pré como no pós-cirúrgico) da parte a ser operada sob vários ângulos, em tamanho natural e colorida, para efeitos éticos, didáticos e científicos. Essas fotografias, além de encarecerem o processo, ficam no acervo do cirurgião ou da equipe que operou o paciente. Exemplo: para realizar a CP íntima são necessárias algumas fotografias das áreas genitais (MÉLEGA et al, 1992); 10) marcar a data da intervenção cirúrgica e submeter-se aos procedimentos pré-cirúrgicos. Exemplos: jejum rigoroso de 24 horas nos casos de anestesia geral; em alguns casos de abdomenoplastia (CP no abdômen) é necessário o uso prévio de uma apertada cinta elástica ou de retirada sanguínea para reposição no próprio paciente. Em outros casos de abdomenoplastia, a paciente só será operada após ter tido o número de filhos que pretende. Tal requisito tem como objetivo não trazer complicações diversas no pós-cirúrgico (ASSUMPÇÃO, 1990); 11) enfrentar a ansiedade pré-cirúrgica; tomar anestesia e esperar pela cirurgia. É importante considerar que tudo isso poderia ser evitado (CARNEIRO-FILHO & ANDRADE-FILHO, 1988); 12) lidar concretamente com a cirurgia (a maioria feita com anestesia local), encarando os riscos, dores, gastos, constrangimentos e ajustes que ela provoca (CARNEIRO-FILHO & ANDRADE-FILHO, 1988; PAILLET & GATÉ, 1980); 13) colaborar intensamente durante o ato cirúrgico. Considerando que a grande maioria dos procedimentos são "agressivos" e “invasivos”, tais como: injeção de anestésicos, corte de pele e cartilagem, fratura de ossos, costuras plásticas e de sangramento ou edema (inchaço) durante o processo,
4Essa

possibilidade de “furar” a fila de espera para a cirurgia é oferecida, de forma bem sigilosa, para alguns candidatos que apresentam condições ideais de saúde, bom relacionamento médico-paciente ou equipe-paciente e cuja cirurgia possa ser extremamente didática. A colaboração e o nível baixo de ansiedades pré-cirúrgicas são fatores que fazem o candidato aumentar suas possibilidades de operação. Esses critérios são variáveis e não existe um consenso dentro da própria equipe. 5Medo muito forte de sangue (RINOPLASTIAS estéticas (filme-vídeo), 1992).

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os pacientes costumam passar por cima e ajudam os cirurgiões ou a equipe. Nos casos infantis de orelha de abano, tanto os pais quanto os cirurgiões ficam intrigados com a colaboração da grande maioria dos menores para a cirurgia. Muitas vezes, esses pacientes eram muito resistentes a um simples tratamento dentário (OTSUKA,1992); 14) suportar a recuperação gradual do pós-operatório. Exemplos: em algumas CP de nariz, o paciente terá de usar por algum tempo gesso, bandagens, curativos ou mesmo dois inconvenientes tampões que impedem o ressecamento das narinas. Durante o uso, a aparência desperta a curiosidade, além de ser incômodo (ASSUMPÇÃO, 1990; COTTINI, 1994); 15) suportar, em algumas cirurgias, a proibição pós-cirúrgica. Exemplos: dormir de forma a não pressionar o nariz, após a rinoplastia; dormir em decúbito dorsal a fim de impedir o tracionamento da região glútea; evitar sol por seis meses nos casos de abdomenoplastia ou peeling cirúrgico; abstenção de relação sexual após uma plástica íntima; usar uma touca de gaze em volta da cabeça, por aproximadamente uma semana, nos casos de correção da orelha de abano; dieta líquida no pós-operatório de um queixo inestético ou ficar com uma cicatriz inestética (no caso da mamoplastia 6), mas com seios reduzidos, aumentados ou alinhados (SCHOR & FREITAS, 1992); 16) lidar com os inevitáveis ajustes da nova imagem para si mesmo, para os outros e para a sociedade. Exemplos: destruição de antigas fotografias que "denunciariam" a CP realizada, evitar o convívio social com o grupo no qual está inserido através de férias, licenças ou viagens "comerciais", mudar de bairro ou cidade a fim de não ser alvo de curiosidade por parte da vizinhança; não querer conversar a respeito do assunto. Alguns pacientes operados chegam a negar a cirurgia usando argumentos pouco convincentes. Exemplos: "Fiz massagens nos olhos"; "Eu não uso mais bigode, por isso o meu nariz está diferente" ou "Fiz uma dieta muito forte que me deixou mais jovem” (Revista Veja, 12 de abril de 1992, pg. 54-55)7; 17) demonstrar a gratidão com os resultados da CP gratuita (Durante a realização das entrevistas, pude observar o grande número de presentes que esses profissionais ganham de suas pacientes em qualquer
6A

plástica das mamas também é conhecida como mastoplastia (FARAGÓ e Colaboradores, 1992). 7O cirurgião ADLER (1961) exemplificou essa necessidade de negação através de uma paciente por ele operada que, após o lifting, declarou que não havia realizado nenhuma plástica, mas tinha passado um excelente peeling à base de mel puro que rejuvenesceu a pele.

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fase do processo cirúrgico); 18) fazer novamente outra CP se os resultados não forem satisfatórios para si mesmo ou para o cirurgião. Na grande maioria dos casos, o paciente é obrigado a arcar, novamente, com os honorários de um procedimento complementar ou entrar na fila de espera. Em alguns casos, o paciente procurará outro cirurgião mais famoso e que cobra muito mais caro, na esperança de obter o resultado e qualidade desejados (PITANGUY, 1984); 19) considerar a CP como um "super-presente", quer para si mesmo, quer para o outro. Exemplos: Algumas pessoas procurarão a CP como se estivessem se presenteando (alegria interna). Pelo fato de a orelha de abano causar atenção indesejada e trazer dificuldades de interação na escola, vários pais têm a crença (reforçada pelos cirurgiões) de que a correção para seu filho será considerado um excelente presente. Assim, principalmente no Natal, a cirurgia é oferecida aos menores com esse intuito. Outras argumentam que os homens gastam uma fortuna fazendo a reforma da casa ou trocando de carro, por que razão não fazer uma “reforma” do corpo? (COTTINI,1994 e RUZZANTE, 1986); 20) realizar várias CP em qualquer parte do corpo. Exemplos: mulheres que sonham com a eterna juventude e fazem vários mini-liftings (CP que retira suavemente os traços/sinais de velhice sem dar a aparência de esticamento); ou mesmo submeter-se a duas ou mais técnicas cirúrgicas numa única intervenção, objetivando não só o barateamento do processo, mas também uma aproximação rápida com a imagem pretendida (CORREIA & ZANI, 1977); PAILLET & GATÉ (1987) abordaram o custo social da beleza indicando que várias CPE serão totalmente ressarcidas pela previdência social, dependendo da habilidade do cirurgião em apresentar um diagnóstico da cirurgia como necessária. Pode-se suspeitar que existam cirurgiões que farão um pacto com o paciente - um conluio - pois acreditam estar fazendo o bem para esses pacientes quando praticam uma CPE. A realização de "Campeonatos de Rinoplastia" ou mesmo de Congressos específicos de CPE, bem como o alto índice de audiência de programas de televisão quando o assunto tratado é CP8, também são indicadores do grande interesse existente por parte da população.
8O

mesmo que se observa na divulgação ou venda de cosméticos rejuvenescedores. (Revista Veja de 18 de março de 1992)

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O fato de que os cirurgiões plásticos sempre encontram, de forma fácil, voluntários para suas experiências ou pacientes que aceitam ser operados, quer para gravação de vídeos didáticos ou mesmo para treinamento de residentes, quer testando uma nova técnica ou aparelho, também é evidenciador da grande motivação. Exemplo: o início da lipoaspiração foi marcado pela corrida de um número, muito superior ao necessário para a pesquisa, de voluntárias obesas. Por tratar-se de "experiência", tal tratamento foi oferecido de forma gratuita9 (AVELAR & ILLOUZ, 1986). O desenvolvimento acentuado da CP, numa tentativa de responder às demandas de beleza dos pacientes, também é indicador de grande motivação. Exemplos: a microdermoabrasão com a promessa do fim rápido e indolor das estrias, manchas senis e cicatrizes deformantes (quelóides); a microcirurgia que permite a transferência de tecidos, retalhos miocutâneos e vasos para uma área de grande perda; a lipoaspiração hi-tech que abandonou o processo de retirada da gordura de forma mecânica (sucção) para incorporar o laser ou o ultra-som, que "derrete" a gordura antes de fazê-la sair; o uso de hidroquinona para clareamento da pele10; a cirurgia dos glúteos (ainda em fase de validação); o uso do carbonato de hidroxiapatita (substância derivada do coral que funciona como matriz para o crescimento do osso natural) na substituição do silicone para prótese e a criação de bancos de peles, ossos e cartilagens (CARNEIRO, 1991; COTTINI,1994; PITANGUY, 1990).

Tr a n s f o r m a ç ã o Te c n o l ó g i c a
Para MAISONNEUVE (1988), a Cirurgia Estética representa a última resposta que a tecnologia e a Medicina contemporânea fornecem ao indivíduo em termos de realização do cerimonial de transformação do corpo. Esta resposta tem muita semelhança com os rituais tribais de adorno, purificação ou
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mesmo aconteceu com uma técnica temporária de emagrecimento nos EUA, em 1986, que consistia no uso de bolha gástrica que impedia mecanicamente a ingestão em excesso. Foi abandonada pelos seus efeitos colaterais e pela necessidade do uso constante de antiácidos. (Folha de São Paulo, 03/05/86) 10De forma indireta, o privilégio que a Medicina Cosmética também possui, é indicador da motivação para a mudança corporal. Quando a Cosmetologia oferece, para experimentação, uma pomada ou creme, por exemplo, raramente encontra recusa em participação por parte dos sujeitos (avaliadores). Em alguns casos, faz-se necessária uma seleção ou sorteio dos sujeitos, não só por razões clínicas, mas pelo fato de o número de voluntários ser superior a real necessidade do experimento (Revista VEJA de 23 de julho de 1986).

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de ascensão na classe social. O indivíduo tem, então, mais um ritual de embelezamento corporal à sua disposição, que iria desde um simples controle alimentar, regime ou dieta, passando pelos banhos, ginásticas, cosméticos e vestuário, chegando ao requinte tecnológico e indolor das CP. Dentro dessa especificidade de um ritual que é a CP, as pessoas podem retirar sinais sociais de velhice, rejeição ou feiúra, sinais considerados de morte, mas com um preço psicológico a ser pago: o sentimento secreto de culpa por terem transgredido a ordem "natural" (fenótipo) do seu destino. Esse sentimento de culpa tem raízes na Idade Média, época em que os cirurgiões eram considerados entidades demoníacas por alterarem a lei divina. (SCHOR & FREITAS, 1992). A atração física, ou, em geral, a atração interpessoal pode explicar, pelo menos em parte, esse aumento da CPE, pois as pessoas estão preocupadas com a aparência, na crença ou na fantasia de que se forem mais bonitas e/ou mais atraentes, terão mais sucesso ou felicidade na vida. Aquilo que agrada aos olhos ou nos dá a experiência da beleza acaba exercendo uma influência de atração. (BERSCHEID & WALSTER, 1973). Para HEIDER (1970), o que é belo sugere ser bom. Talvez, mesmo sem a intenção de fazê-lo, a aparência física seja culturalmente programada. Para RECTOR & TRINTA (1990), as regras culturais têm uma grande relação com o próprio "eu" individual, isto é, a transformação do "eu" numa máscara socialmente planejada. Isto explica alguns comportamentos sociais ligados ao corpo: o vestuário como extensão do corpo e subordinado à moda11, sexo, classe social e nível de prestígio; a ginástica como forma de molde do corpo, o tingimento ou alisamento do cabelo como uma "camuflagem" temporária e o uso de perfumes como disfarce do cheiro do próprio corpo. Todas essas práticas são formas temporárias de mudança corporal. O corpo humano anuncia a identidade do ser, a aparência pessoal fica concentrada no rosto e subordinada aos cuidados diários, refletindo o estilo de vida da pessoa, adquirindo, pois, uma comunicação que se confunde com a própria vida. A boa aparência, além de fazer parte da comunicação nãoverbal, é uma necessidade básica das pessoas em interação com os seus
11Talvez,

ao receber um tratamento diferenciado ou discriminado com a conotação de bom ou melhor, a moda vá ganhando terreno em termos de imposição de formas de se vestir. Uma recente propaganda da televisão colocava que o mundo trata melhor quem se veste bem e vestir-se bem era usar as roupas da griffe em foco.

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semelhantes, sendo o rosto12 o instrumento mais expressivo dessa interação apesar das limitações culturais impostas pelo processo de socialização. (RECTOR & TRINTA, 1990). A CP seria, então, uma via de acesso tecnológico para se conseguir, por exemplo, um nariz mais afilado ou sem a possibilidade de despertar a atenção indesejada, um lábio mais harmônico, um olho mais atraente ou com traços orientais, um rosto mais jovial e alegre, seios mais sedutores ou simétricos, a mudança na cor dos olhos13, uma barriga menos protuberante, um queixo com aparência de masculinidade ou de agressividade, uma calvície de menor área ou uma virgindade perdida em um ato violento. Isso comprova o requinte tecnológico da CP e o quanto ela arbitra sobre o corpo.

Novas Relações Paciente-Ciru rgião
A telenovela O Dono do Mundo (Rede Globo, 1991) apresentou um personagem notável, interpretado por Antônio Fagundes, por ser extremamente ambicioso e ter como profissão a CP: Felipe Barreto. Tal personagem não vacilava ao ganhar dinheiro, fama e poder. Através do exercício profissional antiético, realizou uma CP completa para alterar a identidade facial de um criminoso. Mesmo sendo uma obra fictícia, essa telenovela indicou uma pequena dimensão da imagem negativa da CP, concentrada na figura do cirurgião plástico: ambição sem escrúpulos. Para que a CP exista, são necessários médicos que a escolham como especialidade. Cabe aqui um pequeno esclarecimento das motivações mais evidentes desses profissionais, que obtive em contatos pessoais e/ou telefônicos, durante a realização dessa pesquisa: 1) o desejo de ajudar o paciente com relação à sua imagem comprometida por malformações, defeitos congênitos e deformidades adquiridas (acidentais ou seqüelas); 2) a necessidade de ser reconhecido, de ter fama, quer através de
12Como 13A

já disse alguém: “o rosto é o espelho da alma”. mudança na cor dos olhos pode ser conseguida de duas formas: 1) uso de lentes cosméticas e/ou corretivas (descartáveis e cada vez mais finas); 2) cirurgia de transplante da íris (perigosa e caríssima). Uma outra forma de alteração da cor da íris que ainda está em fase de validação é o uso de um colírio colorante, que vai mudando, de forma lenta e gradual, os pigmentos da íris, como se fosse uma rinçagem. A interrupção do uso de tal colírio cessa os efeitos coloridos de forma rápida. (PAILLET & GATÉ, 1987 e PITANGUY, 1972).

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seus pacientes, quer através da consagração dentro da especialidade (participação nos Campeonatos de uma determinada cirurgia, grande satisfação em fornecer entrevistas para a mídia e necessidade de escrever cartilhas explicativas aos pacientes ou livros técnicos; 3) querer um enriquecimento rápido em função da grande procura por CP (cara, mas financiável); 4) não querer trabalhar em pronto-socorro, o que implicaria lidar com a dor emergencial, violências diversas ou com a morte (baleados, vítimas de trânsito, acidentes domésticos etc.); 5) saber que trabalhará, principalmente no âmbito particular, com uma clientela diferenciada da população que possui um certo nível cultural e financeiro; 6) querer tirar o preconceito, que existe na classe médica, em relação aos cirurgiões plásticos e à CP; 7) o trabalho profissional que exige uma habilidade artística, dom (motivação intrínseca) a favor dos pacientes; e 8) gostar de trabalhar mais no centro cirúrgico do que em clínica ou ambulatório (trabalho de equipe). Nas relações entre médico e paciente, deve-se mencionar que o candidato à CP apresenta características distintas de outros pacientes. Uma delas liga-se ao fato de que toda a CPE não é emergencial, significando que, tanto o cirurgião como seu paciente dispõem de tempo necessário para a entrevista inicial, pedidos de exames (caso haja indicação cirúrgica) e marcação da cirurgia desejada. O campo da CP se situa fora do perigo vital, não se ocupando do indivíduo com dor ou problemas de ordem somática/funcional, daí a denominação de cirurgia limpa: “Cirurgias limpas são todas aquelas que não partem de patologias, como úlceras, tumores etc. A Cirurgia Plástica estética oferece-nos apenas regiões sem doenças, portanto a Cirurgia Plástica estética é uma cirurgia limpa.” (COTTINI, 1994, PG 46) (negrito da autora) Assim, a especialidade não se ocupa com os indivíduos com dor ou problemas de ordem somática ou funcional. Abre-se o campo para negociações, barganhas, trocas simbólicas, conluio etc. A dinâmica mais comum desse relacionamento prevê que o paciente

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deverá procurar a especialidade, eleger um cirurgião plástico, investir na figura dele para dizer o que deseja alterar ou ter em termos de aparência facial ou corporal. Depois, o cirurgião deverá clarear o que é possível ser feito e o que ele efetivamente pode operar. (MÉLEGA et al, 1992). Essa investidura também pode ser denominada de expectativa. O fato de o paciente procurar e escolher seu cirurgião plástico, investindo na figura deste a vontade de melhorar a sua aparência, faz com que o paciente plástico aceite pagar um alto valor pela cirurgia em alguns casos, logo esperando algo de bom ou positivo para si. Outra diferença é possível apenas no âmbito particular, sendo que nos hospitais públicos, onde a CPE é oferecida de forma gratuita, o candidato à cirurgia submete-se inicialmente à equipe cirúrgica e só depois à um cirurgião em particular, o que não impede a investidura no cirurgião. Segundo PAILLET & GATÉ (1980), a grande maioria dos médicos da especialidade não cobram a consulta inicial e solicitam aos seus pacientes que acertem os honorários com a secretária porque o dinheiro costuma interferir negativamente na relação paciente-cirurgião. Delegar essa função parece, segundo os autores, que "limpa o campo" e retira o caráter comercial lícito da relação. Não é de espantar que existam cirurgiões plásticos famosos, procurados por estrelas internacionais ou que o jornal noticie que determinado paciente está processando tal cirurgião por se achar vítima de erro ou imperícia cirúrgica. (ASSUMPÇÃO, 1990; PAILLET & GATÉ, 1980; e RUZZANTE, 1986) Tais diferenças na relação cirurgião plástico - candidato à cirurgia, permitem a investigação das características e expectativas dos pacientes que procuram a CP, pois, sem dúvida, existem fatores motivacionais diversos que aparecem na procura do médico, da cirurgia e da instituição. A eleição de um desses elementos não pode ser desconsiderada do campo psicológico total e deverá levar-se em conta que o psicólogo pode assumir esse campo, trabalhando em colaboração com o cirurgião, dando assessoria psicológica no papel de consultor ou mesmo ajudando o paciente a clarificar seu desejo. (DEATON & LANGMAN, 1986). Claro que o desenvolvimento da CP passa a sensação de que é possível atingir um maior grau de beleza física socialmente compartilhada; basta ver, para comprovar esse desenvolvimento técnico, a lipoaspiração hi-

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tech, a lipoescultura, expansores de tecidos, pele e ossos, silicones para próteses sem riscos de rejeição, a substituição do ponto plástico pela cola de pele, enxertias, glândula-aspiração, microcirurgia, hiperpigmentação (dar a aparência de peito peludo ou reconstituição de sobrancelhas), a CP para a calvície, os fios de ouro contra o envelhecimento, CP do bumbum etc. A própria Informática está contribuindo para um maior refinamento da consulta e do diagnóstico em CP. Ao projetar no vídeo uma imagem do paciente, como se ele já estivesse operado, tanto o cirurgião quanto o paciente poderão fazer alterações de um pormenor. Esta técnica permite que o cirurgião chegue perto do real desejo de transformação do paciente e que ambos possam estabelecer opinião consensual quanto ao tipo de CP, minúcias a serem alteradas, suas extensões e dimensões. Paralelamente, os recursos da Informática permitem uma agilização do processo, pois o tempo de cadastramento fica reduzido com uma simples digitação dos dados do paciente. As fotografias obrigatórias do pré-cirúrgico, depois de inseridas no programa gráfico, poderão ser trabalhadas e ficam arquivadas no banco de imagens de pacientes. Essas atividades de última geração fornecem um aumento no poder de marketing da CP. É fundamental o consenso na fase de diagnóstico. Poder visualizar as alterações permitirá ao paciente saber quais são as CP tecnicamente possíveis, bem como se o cirurgião que o atende concorda com as alterações efetuadas e possui domínio da operação pretendida. Os resultados visíveis antes da operação deixam os pacientes ainda mais motivados para o evento, pois ajudam a sanar as dúvidas do pós-cirúrgico. Qualquer que seja a técnica do cirurgião para o diagnóstico, ele deverá lembrar ao seu paciente que qualquer cirurgia sempre terá uma parcela de risco e que nem sempre as alterações efetuadas no vídeo são possíveis de execução prática. (ASSUMPÇÃO, 1990; MÉLEGA et al, 1992). A indicação cirúrgica é muito importante, não só para o paciente, mas para a própria especialidade. Os resultados da CP, por enquanto, não são totalmente perfeitos, previsíveis ou confiáveis. Qualquer CP é feita em uma matéria viva (peles, cartilagens, ossos, gorduras e áreas que sofrem tração). Infelizmente, é consenso entre os cirurgiões que sempre existirão erros de diagnóstico, má aplicação da técnica, riscos no pós-cirúrgico e uma posterior avaliação subjetiva da mesma. (PITANGUY, 1992). Se algum dia a CP adquirir o grau de confiança que possui a

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Odontologia, que também realiza intervenções estéticas14, existirá mais uma vitória da especialidade: muitos a procurarão, se sentirem essa necessidade de transformação ou de manutenção da juventude e as pessoas que seriam beneficiadas com uma plástica e que ainda apresentam certa resistência em procurar tais serviços, terão de encontrar outros argumentos para a manutenção de tal atitude. O mesmo está acontecendo com a cirurgia de correção da miopia que, a cada dia, está sendo mais solicitada. Isto pode ser explicado pelo fato de a cirurgia estar conquistando a credibilidade popular: abandono do uso de óculos e de lentes, ausência de riscos ou complicações no pós-cirúrgico. (OTSUKA, 1992).

Procura do Paciente Plástico
A beleza, sendo considerada um ente abstrato, permite que o subjetivo apareça: cada indivíduo, em função de sua socialização e história de vida, bem como do excesso de divulgação de modelos, terá uma composição bem individual sobre aquilo que é belo ou bonito em termos faciais e/ou corporais (MELLO-FILHO, 1991). A CP é uma especialidade bastante divulgada e com grandes avanços técnicos. Seus procedimentos são indolores e prometem aumentar o grau de conforto físico e psicológico do indivíduo. O resultado mais comum é a grande procura por cirurgia estética e, por essa razão, é muito importante a correta seleção do paciente. O cirurgião plástico deverá conhecer aspectos bem pessoais de seus pacientes, pois, caso contrário, colocará em risco sua imagem, sem contar que poderá comprometer fisicamente o paciente para sempre. Negligenciar os seus aspectos psicológicos poderá marcar negativamente a especialidade. Para PITANGUY (1972), o trabalho do cirurgião plástico só é completo se for orientado para além de uma mentalidade técnica, levando-se em conta os aspectos psicológicos e sociais dos pacientes: vontade de perfeição física (Beleza), características étnicas e momento de vida. É
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Ortodontia, por exemplo, possuí eventos que necessitam muitas horas de intervenção. A própria especialidade Buco-Maxilo realiza operações com riscos pós-cirúrgicos tão grandes ou até maiores em alguns casos.

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necessário que fique bem claro, tanto para o cirurgião quanto para o paciente, quais os reais motivos da procura pela CP e sua viabilidade financeira e técnica. Mas, será essa a real expectativa do paciente? Isto é, ser mais belo ou atraente? Até que ponto uma psicoterapia não beneficiaria mais o paciente do que o bisturi? Será que os pacientes não procuram a CPE para um melhor relacionamento consigo mesmo e com outras pessoas? Quais seriam as forças pessoais e do ambiente que impelem os candidatos a procurarem a rinoplastia? Qual o peso que o candidato à rinoplastia dá aos fatores pessoais e/ou ambientais? Até que ponto um "novo" nariz lhe traria mudanças significativas? O córtex do homem apresenta grande parcela reservada para a visão e parece que é esse o sentido mais usado por ele, resultando no natural comportamento de adorno e/ou embelezamento corporal (BERGER, 1972). Assim sendo, a CP pode ser entendida como uma especialidade predominantemente visual que gerou novas modalidades de comportamento que vão, desde a simples curiosidade por assuntos ou novidades técnicas, até a procura e realização efetivas do ato cirúrgico desejado. Pode-se dizer que essas novas relações sociais são marcadas pela expectativa de adquirir um corpo ou parte dele atraente, belo ou competitivo por parte do paciente. O cirurgião, por sua vez, tem a possibilidade de efetivamente poder ajudar o paciente no aspecto corporal. (AMARO, 1985). WOLF (1992) advoga que as mulheres são vítimas do ideal de aparência ou da ditadura da beleza, citando a obsessão pelo fisiculturismo: corrida periódica aos salões de beleza, procura por tratamentos estéticos, compra excessiva de cosméticos, realização de esportes agressivos, dietas que levam à anorexia e procura incessante por cirurgias plásticas. Todas essas práticas, segundo WOLF (1992), resultam em um rebaixamento da autoestima feminina, impedindo-a de competir com o homem em bases igualitárias de tempo e dinheiro. Os comportamentos individuais, bem como toda a rede social montada em volta da prática de CP, demonstram que ela não pode ser considerada supérflua (POLANYI, 1980). Uma análise mais aprofundada das relações envolvidas esclarece que essa especialidade tem influências psicológicas e sociais que escapam de sua área de competência. Vários cirurgiões ficam intrigados com a grande colaboração dos pacientes no ato

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cirúrgico ou com os efeitos positivos na personalidade advindos de uma simples correção plástica. Pode-se concluir que o ato cirúrgico plástico está muito longe de ser apenas uma mudança superficial, uma frivolidade ou um procedimento ingênuo. (PAILLET & GATÉ, 1980).

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