DEPOIMENTO DE UMA CANDIDATA

“...meu

pai... também tinha um nariz grande e sofreu por causa disso... ele me deixou com esse nariz de italiano... isso me deixa sentimentalmente magoada...meu irmão também tem um nariz como o meu, mas ele é homem e não sofre tanto como eu...porque sou vítima da sociedade. Nossa família inteira tem histórias tristes para contar por causa do nariz...vários nomes eu já recebi por causa do nariz: nariz de papagaio, nariz de tucano, tucanão... isso dói... ou nariz de Kubitscheck... não é uma invenção da minha cabeça, é um problema mesmo...Ah! na escola me chamavam de Narizinho, que era muito chato também... parece que sempre tem gente analisando o meu nariz, me olhando no nariz ou querendo fazer alguma piadinha dele... sempre há um engraçadinho que acaba mesmo falando algo do meu nariz. Isso me faz sentir uma pessoa defeituosa, eu sei que eu não sou, mas é como se eu fosse uma pessoa aleijada... é como se eu não tivesse uma perna ou tivesse três pernas... parece que eu tenho, é assim que eu me sinto, um olho vazado, alguma coisa muito ruim, mesmo ! de verdade ! Sabe o que é sentir que tem um problema na pele?... e que todo mundo tem de se afastar de você, porque parece que pode pegar?. É um problema da consciência, pelo menos para mim é assim: um complexo mesmo !... sabe que todo filho meu que nascia, a primeira coisa que eu queria ver era o nariz dele... se ele tivesse esse ossinho aqui eu já ia chorar... já sabia o
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que o meu filho ia passar e... também pensava em já ir guardando dinheiro para ele fazer plástica... aí, a palavra "plástica" nunca mais saiu da minha cabeça... ”
(Candidata n. 13, 43 anos, casada, 3 filhos, costureira e descendente de italianos )

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DEPOIMENTO PESSOAL

"... Mas por não se lembrar de acalantos a pobre mulher, me ninava cantando cantigas de cabaré... ( ) ...Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente, Minha mãe se entregou a esse homem, perdidamente..."
Chico Buarque de Holanda, Minha História.

omeçei esta dissertação com frases escolhidas do depoimento de uma das candidatas e agora com dois trechos musicais para mostrar que não se trata, pura e simplesmente, de cumprimento de mais um trabalho acadêmico. A matéria em pauta tem relação direta com minha trajetória pessoal e história de vida. O conteúdo abordado também expressa minha preocupação com o avanço teórico e técnico da Psicologia. Como toda dissertação de mestrado, ela está dividida em capítulos e estes, em seções. Durante este depoimento, faço uma pequena apresentação de cada capítulo ou parte dele no tocante ao conteúdo abordado e sua ligação mais significativa com aspectos pessoais. No capítulo I procurei mostrar a história e a evolução da Cirurgia Plástica, seus principais fundadores, sub-especialidades e o grande reconhecimento mundial da Cirurgia Plástica brasileira. Vê-se que a plástica no nariz (rinoplastia) é a mais antiga de todas as outras cirurgias plásticas e a que mais evoluiu. Acredito, contudo, que seja igualmente importante mostrar a minha própria história (daí a música de Chico Buarque) e através dela, agregar algumas considerações pessoais extraídas do contato com meus parentes, amigos, cirurgiões plásticos e candidatos à rinoplastia estética ou embelezadora. Venho de uma família em que a mãe, mulata, tem nariz sem dorso, com asas grandes e cabelos bem crespos. Meu pai tinha olhos azuis, nariz afilado e cabelos lisos, típico descendente italiano. Sou o primeiro filho e herdei muitos traços faciais maternos. A minha curiosidade pela Cirurgia Plástica é muito antiga e não consegui precisar o momento em que desejei ter um nariz diferente. Lembro-me, entretanto, de um fato quando tinha 6 anos e fui a um aniversário, em que uma criança da mesma faixa etária me ridicularizou no grupo porque eu era feio. Quando ingenuamente perguntei a razão, respondeu ironicamente que eu era "banguela" e que o meu nariz era muito grande, rindo muito após ter notado meu constrangimento. Fiquei extremamente incomodado e retirei-me do grupo. Chorei muito e, no banheiro, olhei-me no espelho. Sabia que estava acontecendo uma troca do dente-de-leite e tinha aceitado o "banguela", mas o outro motivo alegado o espelho se encarregou de confirmar: asas grandes e nariz sem dorso, semelhante ao materno. A minha auto-imagem era de uma criança feia e pobre, que cometia inúmeros erros de português quando se expressava. Tinha medo de falar, pois me achava sem direito, já que meu lar era extremamente ditatorial e criança era sempre relegada a um segundo plano. Também não

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podia brincar na rua e minhas perguntas infantis não eram respondidas em casa. Eu sentia que minha curiosidade natural incomodava muito minha avó materna e minha mãe. Hoje compreendo as razões desse incômodo: ambas não possuíam conhecimentos que pudessem dar explicações aceitáveis para uma criança e qualquer pergunta que fosse feita ficava "pedindo" uma resposta, para completar seu ciclo. Minha mãe defendia-se das minhas indagações usando a expressão: "Vê se não torra a paciência, menino! Vá brincar lá fora !“, enquanto minha avó, quando estava disposta, fornecia-me explicações religioso-místicas, para as quais eu tinha muita dificuldade de compreensão. Assim, desde que fui alfabetizado, os gibis, revistas e livros foram as melhores companhias que tive. Gostava muito dos artigos da revista “Pais & Filhos” cujas explicações e respostas aos leitores me convenciam internamente. Lembro-me de ter lido, na seção de perguntas e respostas, sobre uma mãe solteira indagando a respeito do estranho comportamento de seu filho. Senti-me identificado com a problemática daquela criança em três pontos: pai ausente, pouca brincadeira e muita leitura. Felizmente, a resposta da revista à mãe foi bem precisa: a criança deveria passar por um psicólogo para uma avaliação do caso e posterior orientação materna, não fornecendo, entretanto, nenhuma fórmula ou receita. Para mim, o exemplo da revista tornou claro que eu deveria procurar uma avaliação psicológica fora do lar, pois sabia que em casa não teria espaço para falar de minhas angústias e dificuldades. A extinta revista “Realidade”, bem ilustrada, informativa e de caráter geral, trazia assuntos variadíssimos. Lembro-me de que consegui ler um artigo sobre Cirurgia Plástica no nariz. Fantasiei, pela primeira vez, que uma operação poderia alterar de verdade o meu formato nasal e assim resolver uma das minhas pendências pessoais. Lembro-me, também, de um sonho no qual me vejo no espelho com cabelos lisos e nariz afilado, tal como meu pai. Eu era adolescente e queria muito ter os traços paternos, pois tinha a crença de que teria maiores oportunidades na vida se ficasse parecido com ele. Em 1977 comecei minha primeira psicoterapia, pois já tinha conseguido um emprego registrado e possuía dinheiro para arcar com os honorários das sessões. Recordo-me de ter expressado o desejo por rinoplastia para a terapeuta comportamental. Ela me convenceu, após algumas reflexões em conjunto, de que um treino em assertividade1 me abriria as portas, logo, teria o mesmo efeito esperado de um novo nariz (no Capítulo III volto a abordar nesse tema). Eu não tinha ficado totalmente convencido, mas resolvi aceitar o treino, mesmo porque ainda não possuía disponibilidade financeira para arcar com os custos de uma rinoplastia estética. Além disso, a psicoterapia era muito gratificante: ter alguém a quem pudesse confiar intimidades, sem receio de que o sigilo fosse quebrado; discutir problemas que eu bem escolhesse, ter um espaço e um horário pessoal para resolver pendências antigas. Isso me tornava muito menos angustiado e, desde então, a minha paixão pela profissão começou. Eu me havia identificado com o tipo e a natureza do trabalho psicológico: lidar com pessoas, suas angústias, seus comportamentos, com o objetivo de ajudá-las. Essas atividades tinham o efeito de ajudar a descobrir-me. O treino em assertividade não fez com que meu desejo por rinoplastia diminuísse ou desaparecesse. De uma forma contrária, acreditei que uma nova aparência me daria ainda maiores oportunidades interpessoais, sexuais e profissionais. Ter desenvolvido a assertividade facilitava ainda mais a vida. Sem saber, estava atribuindo ao meu nariz ou a minha aparência uma responsabilidade de sucesso no ambiente (volto a discutir essa atribuição no Capítulo VI).
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O termo assertividade pertence à psicoterapia comportamental. Segundo minha vivência de cliente da mesma, pode significar um modelo de comportamento a ser seguido. Teoricamente é uma combinação adequada de: ser preciso na expressão emocional, respeitar os direitos da outra pessoa e os próprios, ser breve e firme nas comunicações desses direitos. O objetivo é ter um comportamento que não tenha os efeitos colaterais da agressividade (aumento da punição e isolamento da pessoa considerada agressiva) e nem a auto-piedade ou baixa auto-estima dos comportamentos passivos ou submissos.

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Desejando seguir novos rumos, optei por terminar o processo psicoterápico comportamental de 5 anos. Essa opção estava baseada no fato principal de ter alcançado a maioria dos objetivos terapêuticos iniciais. Sabia que existiam outras linhas psicoterápicas (já estava na graduação do curso de Psicologia) e sentia uma certa atração por elas. No Capítulo III, abordo as possibilidades de um trabalho cooperativo entre a Psicologia e a Cirurgia Plástica. Mostro que existem casos nos quais a presença do psicólogo é fundamental para um trabalho de qualidade para o paciente e a equipe que o atende. Esclareço as áreas de interseção (termos comuns) entre as especialidades e de que forma o psicólogo pode contribuir no intrigante campo da Plástica. Mostro que o profissional deverá ir além de suas ferramentas psicoterápicas tradicionais (testes, entrevistas ou psicoterapia breve), integrando-se à equipe que atende ao paciente, realizando interconsultas ou pesquisas. O capítulo, contudo, não se presta a solucionar o radicalismo existente na pergunta "Psicoterapia ou Cirurgia Plástica?". Apresento, entretanto, alguns elementos que podem clarear a resposta. Por já ter vivenciado ambas, acredito que se trata de domínio pessoal a opção e procura por cirurgia. É responsabilidade da equipe a indicação cirúrgica e/ou psicoterápica. Há casos em que a Cirurgia Plástica é o procedimento que vai ajudar o paciente, enquanto outros a Psicoterapia se faz a melhor opção. Há, igualmente, casos interessantes em que será necessária uma combinação das duas especialidades: modificar o paciente na sua aparência física, na autoimagem e relacionamentos interpessoais. Assim, em 1983, ainda na graduação em Psicologia, procurei cirurgiões plásticos para realizar a rinoplastia estética. Por não temer a verdade, optei por não esconder essa procura e desejo, mesmo porque todas as pessoas notariam a diferença nasal, após a cirurgia. Essa coragem e a opção pela transparência da minha motivação, bem como pela realização da cirurgia (pré e pós-cirúrgico), trouxeram-me diversas facetas que, até então, eram invisíveis para mim e estão diretamente inter-relacionadas com o esclarecimento do campo psicológico da Cirurgia Plástica: questionamento, curiosidade e ironia. A primeira delas foi a tentativa familiar de fazer-me desistir da cirurgia (na época não havia escolhido um cirurgião). Tentaram, em momentos distintos, apelar para o risco de morte ou de infecção cirúrgica; questionaram o meu poder econômico para arcar com uma plástica (ainda não tínhamos casa própria). Tentaram inutilmente fazer-me resignado frente ao tipo de nariz que Deus me havia dado. Diziam que, caso modificasse meu rosto, eu estaria cometendo etnocídio (matando a minha raça). Argumentaram que a minha psicoterapia2 me transformara muito (namorava, tinha trabalho fixo e estava mais feliz). Assim, era de se esperar que eu me aceitasse mais e que não quisesse passar por um procedimento caro, perigoso e que ia contra a vontade divina. Infelizmente, essa pressão familiar foi aumentando. Em nenhum momento eu renunciei ao meu desejo dos tempos da infância. Ao contrário, continuava a ouvir atentamente meus familiares e contra-argumentava, usando os recursos assertivos: "a cirurgia era um risco que eu achava que valeria a pena correr"; "o projeto de uma casa própria era a longo prazo, ao passo que uma rinoplastia estava mais acessível". Em relação ao argumento de que a psicoterapia me havia mudado, eles estavam parcialmente corretos. Eu desejava, porém, ir além das mudanças comportamentais: queria ser mais bonito por fora. Com relação ao etnocídio eu não tinha argumentos válidos, pois estava, sem dúvida alguma, retirando traços familiares (modificando o nariz que a genética havia me reservado) e optava, no início, por desviar o assunto e, depois, concordava e afirmava que queria mesmo um nariz mais afilado. Assim, continuava a guardar dinheiro para o evento desejado e a consultar cirurgiões para saber a qual deles eu confiaria a "missão" de fazer o meu nariz mais afilado (comportamento de procura) e descobri duas coisas que me fizeram escolher o critério de confiança: 1) a maioria dos cirurgiões plásticos não cobrava a consulta inicial; e 2) não existia uniformidade ou consenso
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Fui o primeiro da família a procurar psicoterapia. Minhas conquistas motivaram alguns parentes a também fazerem o mesmo. Diversas vezes eu forneci endereços de psicólogos clínicos.

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frente à indicação cirúrgica, perguntas e explicações iniciais aos pacientes, honorários, postura, etc. A segunda faceta também pode ser considerada uma forma de pressão, só que ela não se mostra assim, num primeiro momento. Trata-se da curiosidade ou do questionamento dos amigos. Hoje bem sei que essa atitude de curiosidade é parte inerente do ser humano: querer conhecer para poder explicar, classificar e escolher melhor. Lembro-me de ter sido bombardeado por inúmeras perguntas, algumas de caráter técnico, com as quais as pessoas queriam informações sobre anestesia, tempo de internação, honorários, riscos cirúrgicos, cicatrizes visíveis, idade apropriada para a cirurgia, etc., talvez como expressão indireta de suas vaidades ou inveja. No plano mais objetivo, muitas pessoas desconhecem o que poderia ser feito, em termos técnicos, em seus rostos. Dentro dessa mesma faceta, algumas perguntas colocavam em dúvida minha percepção: "Você acha realmente seu nariz feio?", o que me fazia pensar e refletir de uma forma mais objetiva frente à rinoplastia. Outras questionavam a masculinidade: "Homem, que é homem, deve preocupar-se com a beleza?", ou "Homem também faz plástica?... desde quando?" . Respondia às perguntas por acreditar que se tratava realmente de uma curiosidade autêntica e não eram capciosas. Ilustrava minhas afirmações, citando homens que assumiram suas plásticas. Meu objetivo era trazer fatos evidentes, pois tais homens não receberam ataques às suas identidades sexuais. (Nos Capítulos I e II, trato com mais pormenores do paciente masculino que procura e faz plástica). Os efeitos pós-cirúrgicos também foram questionados: "O que vai mudar em sua vida depois da rinoplastia?" ou "Se não ficar do jeito que você quer, você terá coragem de fazer outra?". Para a pergunta referente às mudanças, respondia de forma modesta: "Quero gostar mais de mim" e para a segunda afirmava que, se fosse necessário, procuraria plástica novamente. Algumas pessoas, após perceberem minha obstinação pela rinoplastia, ficaram curiosas sobre os seus próprios narizes e pediram-me uma avaliação (quando não faziam uma auto-avaliação), tratando-me como se eu fosse um cirurgião plástico. Talvez essas pessoas estivessem demonstrando um apoio encoberto à minha cirurgia, à medida que se identificavam comigo. Intuitivamente, sempre respondia que era a própria pessoa quem poderia dar aquela resposta; o nariz era dela e tê-lo talvez mais harmônico não fosse prioridade nem necessidade (no Capítulo V existem várias considerações sobre o nariz). Sempre acreditei que a vida é um contínuo desafio. A aprendizagem é inerente no existir de cada um. Por causa dessas duas crenças sempre exigi da vida o máximo que ela pode oferecer e a faceta da curiosidade despertou em mim o desejo de conhecer aspectos reais e verdadeiros da Cirurgia Plástica. Descobri que a especialidade desperta muitas reações, curiosidade e fantasias nas pessoas e, às vezes, essas mesmas pessoas não têm oportunidade de saná-las ou de realizá-las. Mesmo para aquelas que vão em frente, existe um longo percurso e vários obstáculos, inclusive o risco de profissionais inabilitados para a cirurgia pretendida pelo paciente. O objetivo do Capítulo II é justamente tentar esclarecer essas curiosidades, perigos reais e fantasias, mostrando que existe uma procura em manter ou aumentar o nível de beleza individual, através de novas relações sociais: freqüentar academias informatizadas, salões de beleza, "spas cinco estrelas"; usar cosméticos rejuvenescedores ou pílulas de emagrecimento de última geração; leitura de artigos e livros sobre Cirurgia Plástica, procura incessante por cirurgiões plásticos e programação de diversas cirurgias em seu corpo, etc. A terceira e última faceta talvez seja a mais cruel, pois está situada na metalinguagem e requer perspicácia para sua correta interpretação e defesa: trata-se da ironia e ridicularização, quer dos desejos quer dos efeitos "perigosos" da cirurgia em si. Algumas perguntas são "doces", nas quais está incluída uma ponta de inveja e é fácil suportá-la. Exemplo: "Você quer fazer SUCESSO em tudo, não? Já não basta fazer USP?". Outras afirmações são mordazes: "Olha que você poderá ficar com nariz de boneca, arrebitadinho, e aí, eu não sei não...". Minha experiência

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indicava-me que em tais circunstâncias, a melhor alternativa era responder de forma rápida e agressiva. Não ficava contra-argumentando ao nível do conteúdo ou apelando para que a pessoa fosse mais generosa comigo. Respondia imediatamente, questionava o respeito e a qualidade da amizade que a pessoa me dedicava. Inquiria até que ponto poderia confiar-lhe novas intimidades, já que me sentia desrespeitado. Pelo fato de ter vivenciado a contra-argumentação e resistência dos familiares, bem como a curiosidade e ironia de colegas e amigos, referentes ao pré-cirúrgico, era cada vez mais nítido e forte meu desejo por rinoplastia. Considerando o stress envolvido nesse processo (além do trabalho e da faculdade), procurei na Psicanálise um suporte interno para as facetas que se mostravam mais fortes. Nesse segundo processo psicoterápico, encontrei elementos para elaborar o desejo de ter um nariz diferente. Descobri, na análise, que as respostas não chegam prontas, somos nós que construímos a nossa história: temer a análise é temer a si próprio. Em 1983, com 21 anos, encontrei um cirurgião plástico que me despertou confiança. Ele havia proposto um desenho nasal bem próximo da minha fantasia. Não queria uma mudança muito forte e temia uma alteração radical3. Nos exames pré-operatórios, em uma rinoscopia4, ficou evidente que também o septo nasal precisaria de correção. Tal cirurgia era coberta pelo meu convênio, o que barateava, em muito, a correção estética, pois eu não pagaria a internação nem o anestesista, apenas a intervenção plástica. Este fato fez com que mais uma barreira do ambiente fosse vencida. Meus exames pré-operatórios estavam normais e encontrei um respaldo psicológico na análise. Todos esses fatos me permitiam fazer a rinoplastia sem medo e sem culpa. Assim, marquei a cirurgia; tirei várias fotografias, em tamanho natural do meu nariz para efeitos éticos e de pesquisa (no Capítulo V existem esclarecimentos sobre as fotos do pré-cirúrgico da rinoplastia). Avisei todos meus familiares e amigos, mesmo aqueles que eu sabia serem radicalmente contra, talvez como uma forma de me sentir mais forte que eles, pois triunfaria na minha empreitada cirúrgica, ao mesmo tempo em que invalidava os argumentos apresentados com o intuito de que eu dela desistisse . Na véspera da cirurgia eu já estava fazendo jejum para conseguir ser operado na parte da manhã. Cheguei ao hospital com muita sede e comuniquei o fato à auxiliar que me atendeu. Suportei firme a proibição, pois havia desejado muito a operação. Posteriormente, descobri que a grande maioria dos pacientes que procuram o embelezamento corporal ou facial é extremamente colaboradora, inclusive crianças e adolescentes. Na pré-anestesia, eu recebi da enfermeira duas gotas de água na boca. Isso fez com que a minha sede psicológica diminuísse, pois parei de falar sobre água. A anestesia foi do tipo geral5 porque era necessário intervir no septo nasal. Não houve problemas ou complicações no intra-cirúrgico. No hospital, tive acesso ao meu prontuário com um simples pedido ao enfermeiro-chefe. Descobri o nome da intervenção cirúrgica: rinosseptoplastia. Recebi, em um vidro, mini-pedaços de cartilagens retirados do meu nariz. Lembro-me que isso me assustou muito e me fez pensar sobre o que tinha acontecido durante a anestesia geral. Em nenhum momento, imaginei os procedimentos que seriam praticados no evento cirúrgico. Não aquilatei o perigo que passaria durante a cirurgia, talvez como uma defesa ao meu desejo. Fui alvo de curiosidade, pois, no mesmo quarto havia mais três pacientes cirúrgicos e nenhum deles havia feito rinoplastia. Um senhor de meia-idade, o mais próximo ao meu leito perguntou: "Você caiu da moto e quebrou a cara, garoto?", pois estava com tampões nas narinas, gesso no dorso e com edema (inchaço) palpebral bilateral, logo, com aparência de vítima de acidente.
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Diversos candidatos relataram preocupações de alterações severas no nariz. Esse medo poderá ser visto no capítulo VIII, que aborda as discussões dos dados obtidos nas entrevistas. 4 Procedimento de diagnóstico interno do nariz. 5 No Capítulo V, volto a falar dos diversos tipos de anestesia, pois a rinoplastia pode ser feita com anestesia local, assim como a grande maioria dos eventos plásticos.

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No dia seguinte, já estava em casa, ainda com o gesso no nariz e não sentia nenhuma dor física, apenas a psicológica, pois só fui acompanhado pela minha mãe. Desde o pré-cirúrgico não recebi nenhuma visita de amigos ou parentes. Descobri duas coisas: 1- a solidão pode doer muito, mesmo quando a gente consegue algo que quer demais, mesmo quando as dificuldades são superadas com sucesso e 2- a Cirurgia Plástica está muito longe de ser um ato ingênuo ou inconseqüente. Quando mudei meu nariz, mudei também o meu rosto, minha expressão, minha imagem, minha própria estima e minha identidade. Obviamente, esta mudança foi um ato de escolha e conquista que possuía relações diretas com minhas necessidades mais prementes no momento desta decisão: a necessidade e/ou desejo de ficar mais parecido com meu pai, ter maiores oportunidades na vida e, indiretamente, ajustar-me aos valores socialmente reconhecidos de adequação estética, indo ao encontro do padrão cultural específico de minha época. De uma forma intuitiva, atribuí ao meu nariz a responsabilidade de modificar as relações com as outras pessoas e comigo mesmo. Existe uma parcela de responsabilidade na sociedade: ela possui forças efetivas para que seus membros se modifiquem, pois somos seres sociais por natureza. O ajuste a tais valores, obviamente, provocou-me um processo de reacomodação a um novo conceito de mim mesmo e a uma nova atitude: gostar mais de mim, ter facilitadas as relações interpessoais e não ter medo de modificar algo que precisasse de um certo aprimoramento. Até hoje me sinto gratificado pela cirurgia, não só quando olho no espelho, mas também quando as pessoas me fornecem feedback sobre minha aparência e tratam-me mais carinhosamente: "Você está mais bonito, Wálter... Eu não sei dizer por que... “ . Algumas ficam surpresas com a minha revelação de que passei pela rinoplastia e olham atentamente para o meu nariz tentando descobrir as alterações, mas não conseguem encontrar elementos denunciadores da cirurgia, indicando naturalidade (que é um dos critérios de sucesso cirúrgico). Outras ficam curiosas e pedem para ver uma fotografia minha, antes da rinoplastia, o que vai ao encontro da necessidade natural das pessoas de fazerem comparações e avaliações. Minha percepção, entretanto, é de que meu nariz precisa de uma rinoplastia secundária para delinear melhor sua ponta. Assim, desde o momento em que optei por não esconder que queria a rinoplastia, sabia que estava modificando a minha posição e papel dentro da família (não ter um nariz de asas grandes e sem dorso me tornaria ainda mais diferente dentro do grupo familiar) e social (as pessoas, colegas e amigos iriam tratar-me de modo diverso quando soubessem), mas optei também pela manutenção da curiosidade que cerca ainda hoje a Cirurgia Plástica. Ainda estimulado pela grande propaganda das conquistas e efeitos, nessa área, parti para a tentativa, com este estudo, de esclarecer, discriminar e hierarquizar as forças que impulsionam os candidatos a procurarem a Cirurgia Plástica. Por que será que a rinoplastia estética é procurada pelas pessoas?. Minha primeira crença era que, no fundo, elas queriam, não apenas um nariz mais harmônico ou bonito, mas melhorar suas relações interpessoais. Hoje, bem sei que a busca de uma melhoria nas relações é uma das muitas que explicam a procura por cirurgias estéticas. Para isso, descrevo a literatura científica das poucas pesquisas psicológicas dentro da Cirurgia Plástica no Capítulo IV. Nele, percebe-se a grande diversidade de abordagens, pontosde-vista, teorias e métodos de pesquisas. Há uma grande variação no próprio objeto da pesquisa, mesmo quando dentro da área da atração interpessoal ou Psicologia da Aparência. Descobri que o candidato de rinoplastia agrega todas as características psicológicas e/ou psiquiátricas, sendo, portanto, um paciente “protótipo”. Uma visão mais globalizante poderá dizer que os resultados das pesquisas compõem um interessantíssimo painel. Todavia, só haverá avanços significativos se houver maior esclarecimento conceitual e/ou teórico na área, bem como realizações de pesquisas interculturais e maior comunicação entre os pesquisadores. Dentro dessa necessidade de delineamento do objeto da pesquisa, elaborei a seção dentro Capítulo V, cujo título é “O Nariz”. Nela, poderá ser observado o grande destaque que o

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mesmo tem no rosto (forma e funções), para as pessoas e caricaturistas. Listo algumas frases populares que possuem a palavra “nariz” e teço considerações a respeito. Resumi a história de alguns personagens, dentro da literatura mundial, que ficaram famosos por causa do nariz (ou de sua ausência). O mais lembrado de todos é Cyrano de Bergerac (fig. n.1). Termino a seção apresentando um dramático caso clínico de suicídio que foi relatado pelo psicólogo Maxwell Maltz. Nesse caso, se o rapaz tivesse a possibilidade de fazer a rinoplastia, segundo o psicólogo, ele não teria colocado fim à própria vida. No mesmo Capítulo V abordo, em pormenores, o procedimento cirúrgico chamado de Rinoplastia Estética. Nele delineio os diversos tipos e formatos de narizes (vários figuras feitas no computador) e as técnicas cirúrgicas desenvolvidas pelo grande mestre Jacques Joseph, considerado o “pai” dessa cirurgia. Dentre as diversas teorias psicológicas sociais, uma me pareceu mais apropriada para o objetivo do meu estudo: a teoria cognitivista do psicólogo Fritz Heider. Uma das premissas dessa teoria diz respeito à existência de muita informação psicológica nas declarações ou explicações conscientes das pessoas. A literatura, os contos, as novelas, o teatro e as histórias e frases populares contêm, igualmente, bastante conhecimento psicológico e constituem um vasto material a ser pesquisado. Assim, acreditando nessa premissa e por achar que uma maneira fecunda de estudar a motivação humana é através da atribuição de causalidade, proposta inicialmente por Heider em 19446, fez sentido ter entrevistado candidatos à rinoplastia e ter descoberto as forças pessoais e ambientais que norteiam e explicam a procura pela cirurgia (O que poderá ser visto no capítulo VIII). Existe um trecho muito significativo de Heider que estabelece claramente uma ligação entre o “tentar” e o “desejo” das pessoas: “Certamente, uma freqüente razão para tentar fazer alguma coisa é o desejo da pessoa, e, às vezes, na discussão da tentativa, achamos útil empregar “desejo” como um caso especial de intenção.” (HEIDER, 1970, P. 130). O capítulo VI é dedicado ao esclarecimento das bases teóricas. A Psicologia do Senso Comum de Heider, assim denominada por preocupar-se em organizar o tesouro psicológico inesgotável que existe nas diversas manifestações humanas, foi explicitada com o objetivo de clarear como os dados serão vistos: com uma teoria subjacente. É impossível observar a realidade ou interpretar os elementos encontrados nas entrevistas, sem alguma hipótese ou sem uma teoria embasadora. Neste capítulo se pode ver que a Psicologia Ingênua possui dois principais conceitos: 1) teoria do equilíbrio cognitivo, que é reflexo direto das necessidades de explicação sobre os fenômenos e 2) teoria da atribuição de causalidade, a qual propõe classificações das relações de causa-efeito nas explicações dos fenômenos observados. Agimos em função das intenções que atribuímos às pessoas e das disposições que atribuímos a pessoas e coisas. Esses dois conceitos-chave são usados na tentativa de explicação e fracionamento da ação de procura por rinoplastia estética. Infelizmente, não pude testar minha hipótese inicial de que " As pessoas procuram a rinoplastia estética para melhorar suas relações interpessoais ", pois deveria elaborar um questionário fechado, saber a população na área plástica7 para poder retirar uma amostra representativa do grupo, o que teria validade estatística. Diversas dificuldades práticas fizeram-se presentes e tive de trabalhar dentro do campo com um objetivo mais restrito: mapear as forças explicitadas pelos candidatos para a rinoplastia estética com uma amostra não-representativa de
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O desenvolvimento dessa teoria foi publicada, posteriormente, em 1958. A tradução para o português foi em 1970, na qual o capítulo foi baseado. 7 Não encontrei, antes do período da pesquisa, estatísticas brasileiras na área de rinoplastia estética que permitissem saber a população.

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sujeitos. Optei por uma pesquisa exploratória do campo, para verificar o tipo de explicações causais da procura por rinoplastia. Para compreender os fatores psicológicos que pesam na busca por rinoplastia estética, entrevistei 32 candidatos de ambos os sexos, na fase pré-cirúrgica e antes da primeira consulta com o cirurgião plástico, mas apenas 26 foram selecionados para as análises. Tal cuidado vem de dois fatos importantes: os pacientes, após terem passado pela consulta com o plástico, estão cansados e pouco motivados para uma entrevista com o psicólogo. O outro fato está relacionado com os desejos de mudança nasal e/ou fantasias diversas que podem sofrer lapidação ou viés após consulta com o médico. Pode-se dizer que esses desejos já foram "operados" pela objetividade e viabilidade cirúrgica, nas quais a fantasia de ser diferente passa pelo crivo da realidade. No Capítulo VII, descrevo em minúcias os pressupostos da entrevista semiestruturada e, no anexo 1, mostro o roteiro utilizado. Com a opção de gravador, entrevistei 26 mulheres e 6 homens, entre 21 e 55 anos (idade média 31 anos e moda de 27 anos). Foram selecionados 26 candidatos, pois 06 entrevistas foram excluídas por não acrescentarem riqueza à pesquisa. Os candidatos estão situados na sua grande maioria na classe média (assalariados em geral) e todos procuraram o serviço gratuito de Cirurgia Plástica de um hospital público. Esses dados são descritos em pormenores no Capítulo VII sobre a metodologia. A caracterização dos sujeitos da amostra não-representativa (Tabelas 2 e 3 sobre caracterização dos sujeitos), encontrada no Capítulo VIII, permite supor que a procura por rinoplastia estética no hospital-escola é realizada por ambos os sexos, apesar de a grande maioria ser do sexo feminino e solteira. Dados dos sujeitos, como grau de instrução, classe social ou local do nascimento, estão distribuídos ao acaso. No último capítulo, concluo que as pessoas procuram rinoplastia por diversas forças pessoais e ambientais. É nítido que as forças ambientais favoráveis predominaram sobre as pessoais. A gratuidade do serviço e as pessoas que já passaram pela rinoplastia e estão satisfeitas com os efeitos cirúrgicos foram as razões ambientais mais explicitadas pelos candidatos. A base da procura, considerando as forças pessoais, pode passar pelo anatômico ou funcional, mas sempre foram apresentados, motivos de ordem estética ou de estratégia de vida, a saber: 1) querem retirar detalhes que são considerados inestéticos ou que provocam atenção indesejada; 2) desejam aumentar itens de beleza ou simetria em seus narizes; ou 3) pretendem algum efeito derivado da nova aparência. Um dado interessante é que todos os candidatos masculinos eram solteiros, o que pode reforçar a crença de que a cirurgia plástica masculina seja parte de uma estratégia de vida: através do processo de atribuição de causalidade, melhorar o nariz (causa) poderá trazer maiores oportunidades na vida (efeito). Finalmente, explicito no mesmo capítulo considerações sobre o trabalho do psicólogo na área da Cirurgia Plástica e alerto que, talvez, a tarefa mais importante seja realizar pesquisas que indiquem a ação futura dos psicólogos que se dispuserem a trabalhar na área.

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RESUMO
POLTRONIERI, W. V. A Procura da Rinoplastia Estética: Um estudo exploratório à luz dos processos de atribuição. (Dissertação de Mestrado). Área de concentração: Psicologia Social. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). 1995. Esta dissertação foi elaborada a partir de uma pesquisa exploratória, com o objetivo de discriminar os elementos que explicam a procura inicial por rinoplastia estética em um hospitalescola de São Paulo. Uma revisão das pesquisas relacionadas com a aparência corporal e facial ou com Cirurgias Plásticas mostrou que existe diversidade de pesquisas, teorias nem sempre explicitadas, metodologias que vão desde um questionário até a comparação entre diversos grupos de pacientes, investigações que não têm continuidade ou aprofundamento teórico. O objetivo principal deste trabalho foi explicitar as forças pessoais e/ou ambientais da procura da rinoplastia, à luz da teoria da atribuição de causalidade de Heider. Foram delineados outros fatores ligados a essa procura, tais como: tempo em que apareceu o desejo, expectativas frente à mudança nasal, significados pessoais ou representações sociais advindas do nariz, comentários e estratégias relacionados ao formato nasal, correlações com outras cirurgias plásticas (na própria pessoa e em outros) e hierarquia pessoal das razões apresentadas. Foi utilizadas a entrevista semi-estruturada com 32 pessoas, sujeitos voluntários, de ambos os sexos na faixa etária de 20 a 57 anos. Os dados foram organizados através de uma análise qualitativa, de duas formas: verticalmente e horizontalmente. Foi possível concluir que a motivação pela procura da rinoplastia estética, primária e gratuita, é muito forte e está presente em ambos os sexos. Os candidatos procuram rinoplastia estética por várias razões, sendo que a principal para a maioria deles, é acabar com a atenção indesejada, uma força do ambiente social. A ampliação das possibilidades sociais advindas da perda da desvantagem estética ou do aumento da beleza do nariz e também é uma explicação da procura. O caráter multifacetado da motivação por rinoplastia permite perceber que diversos candidatos a procurem, buscando solucionar problemas que a cirurgia plástica não pode resolver. Tais problemas são de outra ordem: problemas psicológicos, psiquiátricos e/ou sociais. Assim, fica aberta a possibilidade de outros profissionais atuarem conjuntamente com o cirurgião plástico. UNITERMOS: Atribuição de Causalidade, Beleza, Cirurgia Plástica, Cirurgia Plástica, Motivação, Nariz, Rinoplastia Estética. Expectativa, História da

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