CAPÍTULO III CIRURGIA PLÁSTICA E PSICOLOGIA

"...Mire, veja, o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não são sempre iguais, ainda não foram terminadas mas que elas vão sempre mudando..."
Fragmento do romance de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.

Ser Inacabado

O

protagonista de Guimarães Rosa, Riobaldo Tatarana, colocou com suas próprias palavras a percepção do fato de o ser humano estar em constantes mudanças, como ser inacabado e sua emoção valorativa ("...o mais importante e bonito..."). A

Psicologia Sensorial revelou que tanto o ser humano quanto os animais não suportam a ausência de estímulos. É igualmente incômoda a não-variação do mesmo estímulo por muito tempo, o que resulta em uma busca constante de estímulos sensoriais diversos. (GOLDSTEIN, 1983; WERTHEIMER, 1976). Na atualidade, o elemento mais constante parece ser a mudança. Das diversas possibilidades de percebê-la, uma sempre pareceu ganhar mais destaque: a mudança corporal. Desde que é gerado até chegar à velhice, o homem passa por várias transformações, mudando não só sua aparência física, mas também sua percepção e interpretação do mundo (BERGER,1972). Em relação à Cirurgia Plástica, pode-se perceber seu caráter modificador através da sua principal forma de divulgação: as fotos do précirúrgico comparadas com as do pós-cirúrgico. Podemos verificar em muitas dessas fotos como existem alterações sutis, além da evidente modificação plástica: as pessoas são fotografadas no pré-cirúrgico em preto-e-branco e, em geral, suas feições não aparentam felicidade. No pós-cirúrgico as fotos são
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coloridas, as pessoas estão bronzeadas, mais magras e acentuadamente “felizes”. As modificações internas não possuem tanta evidência como as externas. A impressão de que uma determinada pessoa mudou internamente aparece quando observamos os seus comportamentos, principalmente os ligados à face. Não podemos excluir dessa crença as verbalizações, emoções e valores apresentados pela pessoa. FLUGEL (1966) estudando a Psicologia das roupas, concluiu que o homem se expressa também através de suas vestimentas. Além de as roupas terem 3 funções básicas: enfeite (atrair a atenção), pudor (impedir o nu) e proteção contra o frio e calor, elas ajudam a passar a primeira impressão e permitem que os outros façam uma certa previsão de comportamentos, pois qualquer roupa é indicadora de uma determinada classe social. O lado ambíguo das roupas aparece quando tenta exibir atrativos e ocultar as "vergonhas". De uma forma interessante, as roupas, principalmente dos ocidentais, não cobrem o rosto e as mãos, uma vez que são as partes mais expressivas de nossa anatomia. MORRIS (1977) enfatizou que as roupas fazem parte de nossa linguagem, tanto quanto gestos, atitudes e expressões faciais. A clássica dicotomia corpo x alma fez com que o homem tentasse estudar o corpo cientificamente, relegando a alma a segundo plano. Por não ser considerada um ente concreto ou passível de análise científica, a alma tornou-se objeto de estudo da Filosofia e da Psicologia (HEIDBREDER, 1981). O existir, entretanto, só adquire significado quando o ser humano se propõe a atingir estágios mais profundos de conhecimento de suas experiências. Os comportamentos de classificação e de estabelecimento de relações significativas entre os eventos pertencem ao estágio de reflexão da ação. Assim, o homem não está mudando por inércia, mas movido por uma permanente procura de aprimoramento de "estar-no-mundo". Ao atravessar estes estágios, o homem está mudando internamente, ao mesmo tempo em que, por pertencer ao mundo social, modifica as realidades.

Campo Novo de Trabalho A inserção do profissional psicólogo nos setores de internação
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costuma, em um primeiro momento, causar estranheza (quando não representa uma ameaça) junto aos profissionais que são considerados típicos de hospital, tais como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, etc. A imagem do psicólogo que predomina, principalmente entre os leigos, é aquela do psicólogo clínico que atende a seus pacientes nos consultórios particulares e que analisa através dos inúmeros testes ou sabe dos comportamentos mais secretos das pessoas. Tais estereótipos estão diretamente ligados à história da Psicologia, uma vez que tradicionalmente a especialidade sempre esteve vinculada às enfermidades psiquiátricas. (FERNANDES, 1986). Essa vinculação está diretamente relacionada aos princípios cartesianos estabelecidos no século XVII, de divisão entre corpo e mente. Baseado nesse modelo biológico, a doença era concebida como disfunção puramente somática. O resultado prático desse modelo eram pesquisas, práticas e conhecimento médico na cura de uma parte corporal que se acreditava responsável pela doença. (TUNDIS & COSTA, 1990). A partir do século XIX, diversos cientistas tentaram romper essa cisão corpo-mente e passaram a desenvolver estudos, buscando compreender a inter-relação existente entre o somático e o psíquico. Assim, a concepção de doença foi ampliada, na medida em que os cientistas começaram a perceber que o ser humano, ao fazer uso da linguagem, ao pensar e ao ter necessidades diversas, não é somente um corpo com funções pré-definidas, mas um ser que é capaz de refletir sobre si mesmo e dar significado às suas experiências. Estavam sendo considerados o lado humano, os aspectos subjetivos da doença e o início da psicossomática. (CASTEL, 1978; MELLOFILHO, 1991). Há muito tempo os psicólogos têm estado presentes em áreas não tradicionais. A Ergonomia, a Psicologia do trânsito, a Tecnologia Social e a Psicologia Hospitalar são alguns exemplos em que os psicólogos têm aplicado suas técnicas e desenvolvido novos conhecimentos (RODRIGUES, 1972). Os psicólogos podem usar seus conhecimentos teóricos e práticos para tentar atingir os objetivos estabelecidos em consenso com os colegas. Devem igualmente promover uma readaptação dos modelos clínicos usados junto à equipe interdisciplinar ou à própria organização na qual trabalha. Todo este esforço poderá resultar na criação de novos modelos de trabalho (LAMOSA, 1991). Por volta da década de 70, o paciente de CP que procurava os
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consultórios particulares não recebia a atenção psicológica especializada. Ele era visto apenas no seu aspecto somático que estivesse em consonância com as duas grandes correntes da CP: a reparadora e a estética. A indicação para uma entrevista com o psicólogo, antes de aceitá-lo para o evento cirúrgico, era considerada um procedimento delicado e arriscado. Primeiro, porque nem todo cirurgião possuía habilidades para abordar aspectos psicológicos de seus pacientes: lidar com a emoção, sentimentos ou fantasias, por exemplo, é caminhar por outras áreas do conhecimento para as quais os cirurgiões podem não ter tempo ou disposição. Segundo, que aumentando as tarefas do précirúrgico, o cirurgião estaria dificultando o acesso à cirurgia, sem contar que seria muito provável que o paciente desistisse da operação com determinado cirurgião e procurasse outro que fosse menos exigente (DEATON & LANGMAN, 1981). Hoje, após a grande evolução das técnicas cirúrgicas e também do aumento dos critérios de triagem e seleção dos candidatos, alguns cirurgiões plásticos, mais sensíveis aos aspectos psicológicos e dispostos a operar pacientes que sejam beneficiados com o evento cirúrgico, encaminham tais pacientes para o psicólogo. Também é possível que esses cirurgiões solicitem uma consultoria psicológica ou que o psicólogo participe da discussão de um caso em particular, na esperança de que recebam pareceres que os ajudem sobre as expectativas, motivações e características psicológicas dos candidatos que estejam diretamente ligados ao evento plástico. É comum o psicólogo realizar algumas visitas em conjunto com a equipe, a fim de revisar todos os casos em atendimento. Também poderá ser solicitado a realizar atividades didáticas, que podem esclarecer o seu papel e função junto à equipe. Todos esses recursos e práticas ao alcance do psicólogo permitirão que a equipe atinja seu objetivo fundamental: que o paciente tenha o melhor atendimento possível. (PITANGUY, 1990; SCHOR & FREITAS, 1992). O trabalho psicológico com pacientes encaminhados pelos cirurgiões plásticos requer alguns cuidados básicos. Segundo ANGERAMICAMON (1991), se o objeto do trabalho psicológico nos hospitais é a humanização do atendimento, o psicólogo poderá ajudar se existir uma preocupação com a qualidade do atendimento ao paciente e se a equipe interdisciplinar valorizar os aspectos emocionais individuais e grupais. É nítido que não basta o hospital se preocupar com a qualidade do
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atendimento e nem a equipe valorizar as emoções dos pacientes, se não houver uma atuação psicológica que marque positivamente a inserção do profissional na área. O trabalho psicológico, principalmente a entrevista psicológica e o atendimento breve, poderá ajudar o paciente e a equipe, com relação à grande demanda existente dentro do campo da CP. Assim, por exemplo, o psicólogo poderá oferecer um espaço em que o candidato possa trazer elementos de sua história de vida que não foram passíveis de uma atenção por parte dos outros membros da equipe. Esse procedimento proporcionará a precisão do diagnóstico, pois haverá dados adicionais do candidato à CP. À medida que as emoções, necessidades e atitudes básicas dos pacientes puderem ser acolhidas e, num momento posterior, discriminadas para o paciente, no tocante ao seu pedido por cirurgia, isso resultará em um melhor atendimento. A CP pode ser muito beneficiada com os conhecimentos advindos da Psicologia Social. A imagem facial que o indivíduo passa para os outros influencia diretamente a primeira impressão e o tipo de relacionamento interpessoal. Estudos sobre o desfiguramento facial mostram a importância que a face possui nas interações de amizade ou casamento. (BERSCHEID & WALSTER, 1973; BULL & RUMSEY, 1988). A necessidade de possuir um corpo que esteja em consonância com a auto-imagem e/ou padrões socialmente estabelecidos; o querer pertencer a determinada classe social e ter características físicas semelhantes ou que sejam representativas de elevação social ou de não despertar a atenção dos outros (verdadeiros obstáculos nas relações interpessoais) são algumas explicações teóricas que o psicólogo poderá usar. A CP não é avaliada em termos de cura de uma disfunção física. Seu trabalho é predominantemente superficial, sem prejuízo das funções e sensibilidades táteis da área trabalhada. A CP também não visa, a priori, à remoção de sintomas. Seu objetivo, nem sempre explicitado pelos cirurgiões, é beneficiar o paciente, dando-lhe um suporte corporal e/ou facial. A avaliação mais comum da CP ocorre em função do alívio de um desconforto do paciente ou de uma aproximação de padrões estéticos (satisfações). A CP é comumente avaliada por critérios subjetivos: aumento da auto-estima, melhora da autoimagem e/ou dos relacionamentos interpessoais e perda da atenção indesejada (DEATON & LANGMAN, 1981). Pode-se notar que todos os critérios comumente usados para a
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avaliação da CP são de relativa dificuldade quanto à quantificação, qualificação e objetividade. A complicação continua: muitos dos motivos ocultos (aqueles que não são explicitados pelos pacientes) de uma CP podem ser atingidos através de um atendimento breve, de um aconselhamento, de uma psicoterapia1 de grupo ou análise pessoal. Algumas intenções que não estão diretamente ligadas à correção ou à melhoria estética, tais como um aperfeiçoamento dos relacionamentos interpessoais, perda do sentimento de identificação paterna (algum traço masculino no rosto de uma mulher), ou um aumento das oportunidades sexuais e/ou profissionais são também passíveis de trabalho psicológico. Pode-se dizer que há uma confluência de objetivos nas áreas de trabalho das duas especialidades: ambas querem o bem-estar do ser humano, só que por caminhos e estratégias diferentes. Esse fim comum permite uma parceria de trabalho, mantendo-se as devidas especificidades. Assim, o psicólogo terá possibilidade de trabalhar em conjunto com o cirurgião plástico, desde as triagens e entrevistas iniciais (recrutamento e seleção de pacientes), nas diversas etapas da cirurgia (pré, intra e pós) e no follow-up de casos que requeiram acompanhamento a longo prazo. Em cada etapa ele terá funções ou propósitos específicos, de acordo com as necessidades dos pacientes. Os diversos papéis que poderá assumir deverão estar embasados teoricamente. Qualquer que seja a linha teórica do psicólogo, não lhe será possível trabalhar sem que vise a um aprimoramento da atenção ao paciente e à equipe. É igualmente verdade que os objetivos deverão estar em sintonia com a equipe de trabalho. Atualmente, a Psicologia Hospitalar discrimina a multidisciplinaridade da interdisciplinaridade; na primeira, os elementos da equipe têm funções e papéis definidos e qualquer tentativa de realocação é vivenciada como uma invasão de área ou perda da especificidade. Já na interdisciplinaridade, os papéis são intercambiáveis, o que significa que a equipe será dinâmica para atingir seu principal objetivo: o atendimento integral ao paciente e ao familiar participante (nos hospitais abertos), considerando os aspectos bio-psico-sociais, sem estereotipia de papéis (MUCCHIELLI, 1980). Alguns exemplos teóricos em cada fase: Nas entrevistas iniciais - ajudar no recrutamento (triagem), na préconsulta e na seleção dos pacientes mais indicados para determinada cirurgia
1Estarei

utilizando os conceitos de psicoterapia de WOLBERG (1956). 6 407619.doc

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tendo como base um perfil dinâmico elaborado em conjunto com o cirurgião plástico ou a equipe. Poderá estabelecer critérios ou indicadores dos pontos críticos para aceitação ou indicação cirúrgica e realizar palestras explicativas aos candidatos; No pré-cirúrgico - poder esclarecer comportamentos, emoções, cognições ou motivações ocultas dos pacientes, a fim de melhorar a relação com o cirurgião plástico (esta tarefa poderá ser oferecida a qualquer tempo cirúrgico), com a equipe ou para um encaminhamento à outra especialidade; poderá, não só esclarecer, mas também auxiliar os pacientes no tocante às tarefas e proibições que antecedem o evento plástico; No intra-cirúrgico - sua função é mais limitada, pois o paciente estará sendo submetido ao procedimento operatório (imobilizado e anestesiado). Mesmo assim, o psicólogo poderia acompanhar fisicamente os pacientes que não estão com seus familiares ou amigos ou ajudar algum outro profissional a fazê-lo. É importante que seja estabelecida uma base de apoio emocional (suporte) para o paciente; No pós-operatório - ter possibilidade de ajudar o paciente na adaptação à nova imagem, no fornecimento de suporte para lidar com as proibições temporárias ou no auxílio para aumento da adesão às recomendações pós-cirúrgicas; No follow-up - nos casos de mudança de sexo (transexualismo), a presença do psicólogo é recomendável em todas as fases do empreendimento cirúrgico, não só para contribuir com um diagnóstico mais preciso sobre a identidade sexual, mas também nas fases posteriores da cirurgia, nas quais será de fundamental importância uma boa adaptação à nova imagem corporal. As fortes alterações cirúrgicas efetuadas (mutilações) no corpo do paciente deverão ser integradas pela personalidade do mesmo, de forma harmônica. A retirada do pênis pode ter conseqüências imprevisíveis na vida do extransexual (reações de luto). O acompanhamento longitudinal do paciente é condição necessária ao sucesso cirúrgico. (FARINA, 1982).

Muitas Semelhanças
A CP compartilha termos semelhantes com a Psicologia. O tipo de
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motivação é o primeiro elemento psicológico que o cirurgião costuma procurar nos pacientes. Termos como "imagem do corpo", "auto-imagem", "percepção corporal" e "imagem corporal" são igualmente usados pelos cirurgiões, com o objetivo de melhor compreender a motivação e a percepção do corpo ou parte dele que o paciente quer diferente, com a conotação de belo, ou igual, nos casos de cirurgias reparadoras. É possível dizer que alguns psicólogos poderão trabalhar corporalmente com o paciente (a terapia reichiana é um exemplo), como o cirurgião poderá ter uma atuação bem próxima da “psicológica”. Cirurgiões que escutam atentamente a história de vida de seus pacientes antes de aceitação cirúrgica ou que estabelecem uma relação de confiança durante todo o processo da intervenção, estão tendo uma atitude psicológica para com eles. Cirurgiões que tentam persuadir seu paciente a perder alguns quilos antes de uma plástica no abdômen ou que solicitam uma melhora no relacionamento conjugal, antes de uma cirurgia de rejuvenescimento, estão, igualmente, atuando de forma psicológica. O resultado observado, nos casos exemplificados, é a suspensão do evento cirúrgico (prática que é comum ao profissional) e a atuação em outras áreas: mudança do hábito alimentar ou alteração do plano de relacionamento conjugal. Embora o trabalho em conjunto possa ser considerado ficção, não se trata de invasão de áreas, mas de complementação de atividades, que resulta em benefícios ao paciente. A ênfase é para o trabalho de equipe interdisciplinar, na qual os profissionais têm suas especificidades, mas não se sentem diminuídos quando precisam de profissionais de outras áreas. A contribuição é vista como uma ajuda efetiva, como uma forma de enriquecer o trabalho e de, efetivamente, oferecer o que existir de melhor e mais moderno para o paciente. Para tentar esclarecer que existem muitas semelhanças entre os objetivos secundários de uma melhoria estética e outros da Psicologia Social, é interessante escolher uma CPE e ver algumas possibilidades teóricas que existem para atingir os objetivos com a cirurgia e sem ela. Na ausência da CP, levaremos em conta as possibilidades de utilização dos recursos técnicos psicológicos: aconselhamento, psicoterapia breve ou de mudança das forças ambientais. O rejuvenescimento facial (lifting), que é uma CPE por excelência, pode ajudar os pacientes a ela submetidos nos seus relacionamentos
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interpessoais. ADLER (1961) citou um caso de uma senhora rejeitada explicitamente pela neta, por causa de suas rugas faciais. Antes do rejuvenescimento através da plástica, a senhora não se sentia nada bem em procurar interação com sua neta, entristecendo-se só com o pensar na possibilidade de uma nova rejeição. Após a cirurgia, segundo o cirurgião plástico, essa rejeição desapareceu e a senhora pôde ficar satisfeita com o novo relacionamento estabelecido. Vê-se, através deste exemplo sintético, que a "solução" de um problema de relacionamento com rejeição foi trazida pela operação plástica, pois o sintoma desapareceu. Mas pode-se pensar, como exercício de raciocínio, em algumas outras soluções não-cirúrgicas: 1) a senhora lidando de outra forma com a rejeição da neta: aqui, diversas atitudes podem ser tentadas, desde o "não-ligar" , usar estratégias de sedução, enfrentamento da rejeição, até uma maior assertividade; 2) lidar com os pensamentos, valores e crenças da neta diretamente relacionados à velhice, o que implicaria aumentar a socialização, ou fazer com que a menina passasse por uma ludoterapia; 3) inibir o sintoma: uma pressão dos pais para que a filha não demonstrasse rejeição ou expressasse afeição (inversão de sentimentos); e 4) uma combinação de soluções que iria desde a pressão paterna até a senhora tentar obter afeto da neta de outras formas. Essas outras soluções teóricas apresentadas têm algo em comum: estabelecem a mudança de algum elemento ou força (comportamento, atitude ou valor), dentro do plano das relações interpessoais, área predominantemente psicológica. Pode-se pensar em atuação combinada: Tanto o cirurgião plástico quanto o psicólogo estabeleceriam, em consenso, um plano de ação para o caso. Assim, a paciente, além de um rosto mais suavizado, poderia tentar as soluções descritas nos passos de 1 a 4. Uma aliança de trabalho psicólogocirurgião poderá resultar em uma potencialização dos esforços de cada profissional. Em primeiro lugar, porque a senhora poderá estar satisfeita em função do rejuvenescimento: sentir que houve um ganho em sua aparência facial e em sua auto-estima. Secundariamente, a senhora aprendeu, no processo psicoterápico, a lidar com a rejeição, não apenas da neta, mas também de outras pessoas, o que resulta em um acréscimo das funções psíquicas.
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É extremamente apropriado que muitos cirurgiões estejam também preocupados com as mudanças externas decorrentes das cirurgias. Apesar de o objeto de pesquisa da CP e sua análise serem o corpo, sua silhueta, suas linhas, sua esteticidade e harmonia, estas só fazem sentido se for considerada a agradabilidade individual, fator muito subjetivo, portanto sujeito a diversidade de opiniões. O indivíduo que a procura, pode-se acreditar, quer uma mudança em alguma parte do corpo que é vivenciada como "negativa" ou quer a manutenção do aspecto jovial ou sem rugas. O corpo é a base da explicação consciente de sua procura. A CP possibilita, nos casos onde existe indicação cirúrgica, a modificação, por exemplo, da parte corporal vivênciada como negativa ou que está sofrendo envelhecimento precoce. A aprendizagem comum que ocorre é, nos casos de sucesso cirúrgico, de que valeu a pena ter procurado a CP e efetuado a operação desejada. O grau de satisfação com os resultados e a necessidade do reajuste na auto-imagem são considerados fatores psicológicos decorrentes da cirurgia (ADLER, 1961). A CP é beneficiária direta dos conhecimentos psicológicos. Algumas dessas contribuições podem ser: 1) o reconhecimento, por parte da equipe, de que a atuação interpessoal está fortemente ligada à aparência física; 2) a classificação das diversas motivações para a cirurgia nem sempre baseada nas percepções corporais dos pacientes; 3) o desenvolvimento de habilidades interpessoais do cirurgião para que este consiga realizar uma boa entrevista com seus pacientes e 4) os conhecimentos advindos dos conceitos de "auto-imagem", "imagem-corporal" e "imagem do corpo", usados pelos pacientes e que têm relação direta com as identidades pessoais, culturais e de classe social. As técnicas cirúrgicas empregadas são cada vez mais sofisticadas, fruto do grande desenvolvimento, mas a base principal de atuação de qualquer cirurgião será sempre o corpo. Nos casos em que não há indicação cirúrgica ou em que o cirurgião plástico não esteja atualizado, resta-lhe a função de esclarecimento, confronto ou de encaminhamento para um outro profissional mais competente ou de outra área. Essas funções são semelhantes às de um psicólogo ou psicanalista, na medida em que o cirurgião adotou postura de oferecer o melhor atendimento possível ao paciente e vê a possibilidade de encaminhá-lo para outro profissional mais habilitado.
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DAVIDSON (1986) enfatiza que a opinião dos pacientes sobre os benefícios da CP são animadores (a CP representou um marco em suas vidas) e aconselha todos os médicos a ouvirem atentamente os pedidos de cirurgia plástica de seus pacientes. A atitude de qualquer médico que esteja fora da área não deve ser o desencorajamento ou o incentivo “cego” para a plástica, mesmo porque o cirurgião plástico pode dar outro diagnóstico frente àquilo que é esperado pelo paciente, o que poderia gerar um problema ético. DAVIDSON (1986) também recomenda o encaminhamento ao cirurgião plástico, embora a atitude que ainda predomina entre os médicos é que a CP é fútil e representa uma perda de tempo e dinheiro.

Poucas Diferenças
É evidente que, tanto o cirurgião plástico quanto o psicólogo, têm enfoques e condutas diferentes frente ao paciente plástico. Do primeiro é esperada uma boa avaliação das possibilidades de correção ou melhoria de uma determinada parte do corpo, inclusive a viabilidade cirúrgica e as condições físicas do paciente (contrato de resultado). O segundo, por suas próprias características profissionais, focaliza o aspecto emocional da procura do paciente e procura avaliar o grau de aceitação da ajuda (fundamental para o contrato psicológico) e comprometimento psicológico do candidato à CP. Pelo fato de a CPE ser um evento escolhido pelo paciente, é esperado do psicólogo que este esteja sensível em relação ao grau de conhecimento racional sobre a cirurgia pretendida2. O psicólogo pode tentar responder se é possível amenizar a angústia e ansiedade provocadas pelo sentimento de desvantagem na aparência, "defeito facial" ou pela parte do corpo vivenciada como defeituosa,

sabido que, em diversos casos, a informação racional costuma reduzir a ansiedade frente à cirurgia e aumentar a colaboração aos eventos traumáticos e invasivos (cortes, injeções, imobilizações e suturas). Saber sobre os passos de uma cirurgia pode representar uma conquista importante por parte do paciente, logo, é algo que o mesmo queira saber. Dos vários cirurgiões plásticos com que entrei em contato, o único que fornece um folheto explicativo é o professor dr. Roberto Farina. O psicólogo que não se incomodar com o fornecimento de instruções práticas para o candidato à CP, poderá fornecer, em muitos casos, informações técnicas ou sugerir livros da especialidade para leigos. 2/9/2008 11 407619.doc

sem passar por uma intervenção plástica3. Já foi abordado que a mudança externa é potencialmente desejada pelo paciente plástico. Sua meta, pode-se inferir, é ter suporte externo, se a primeira procura foi o cirurgião plástico. É na área corporal que ele (paciente) localizou a fonte do desconforto, insatisfação ou dificuldades pessoais e busca na CP a solução. Se esse paciente foi encaminhado ao psicólogo, com o objetivo de um diagnóstico mais preciso (diferencial), é porque houve uma atribuição "errônea", por parte do paciente, no tocante à localização real do problema. Na visão desse cirurgião plástico que encaminhou o paciente, o diagnóstico psicológico é um pré-requisito para uma provável cirurgia. Pode-se inferir que o médico precise de informações mais minuciosas do paciente a fim de tomar uma decisão cirúrgica mais acertada. Esses fatos deverão ser trabalhados de imediato, pois são a base de um bom trabalho psicológico: saber as causas do encaminhamento médico, verificar o nível de compreensão racional e aceitação deste, por parte do paciente, bem como a demanda que o cirurgião plástico impõe. Existem casos em que será necessário o encaminhamento do paciente ao cirurgião. A diferença fundamental que se espera que ocorra é que o psicólogo, antes disso, tenha chegado a um consenso com seu paciente. Independentemente do reconhecimento da necessidade ou da viabilidade cirúrgica por parte do cirurgião, o psicólogo poderá trabalhar os aspectos cognitivos, emocionais e as representações sociais da parte do corpo que foi “eleita” para a alteração cirúrgica do seu paciente, fazendo, dessa forma, uma preparação para uma boa consulta com o plástico. Uma possível indicação do psicólogo para uma paciente que tivesse um rosto masculinizado, por exemplo, seria uma plástica facial. Nessa cirurgia os traços masculinos poderiam ser suavizados ou mesmo retirados. A operação em muito ajudaria tal paciente que possui uma identidade sexual comprometida por excesso de hormônios masculinos ou herança genética4. A CP desenvolveu inúmeras técnicas de modificação corporal

importante considerar que existe, nos hospitais públicos ou hospitais-escola, uma fila de espera de mais de 5 meses aproximadamente e que toda e qualquer cirurgia deve ser criteriosamente avaliada por uma equipe, pois envolverá gastos com material, funcionários e risco de complicações intra e pós-cirúrgica (infecção hospitalar). Logo, tal avaliação permitirá o uso racional e adequado dos escassos recursos hospitalares em troca de um benefício real para o paciente, ainda que a médio ou longo prazo. 4Do mesmo modo a eletrocoagulação tem ajudado muitas mulheres que possuem pêlos e/ou barba em função de uma alteração genética ou disfunção hormonal, a ficarem livres desses pêlos, sentindo-se mais femininas. 2/9/2008 12 407619.doc

efetiva, usando o modelo experimental e validando seus achados e conquistas. Essas técnicas gozam de grande liberdade em função dos diversos tipos anestésicos que protegem o paciente da dor em qualquer intervenção cirúrgica. A abolição da consciência, nos casos de anestesia geral, pode representar uma grande submissão ao cirurgião e constitui um elemento psicológico a ser trabalhado na fase pré-cirúrgica. No campo psicológico, o mesmo não ocorre: o psicólogo não possui, até o momento, formas indolores de mudanças internas. Ao trabalhar com as emoções, os comportamentos, as representações da face/corpo e fantasias de alteração cirúrgica, não poderá lançar mão de "anestesia", tal como o cirurgião. O uso da hipnose, que poderia ser considerado um “anestésico” psíquico foi abandonado pelo próprio Sigmund Freud, que optou por tratar o paciente acordado, consciente e colaborador com o processo terapêutico. A fonte básica de trabalho psicoterapêutico é a mobilização de angústias, crenças irracionais, dificuldades de realização, sofrimentos e emoções não resolvidas, portanto mais um contrato de processo do que de resultado. Assim, os psicólogos não têm o mesmo grau de liberdade que os cirurgiões plásticos, no tocante às experimentações, intervenções curativas e divulgações concretas dos resultados psicoterápicos.

Possibilidades de Atuação
Grandes avanços nas técnicas em CP têm solicitado, cada vez mais, que o cirurgião plástico acompanhe esses desenvolvimentos e que seja capaz de selecionar, com sofisticação e critérios cirúrgicos rigorosos, os pacientes que mais se beneficiariam deles. Por tabela, o psicólogo motivado em trabalhar na área deverá estar preparado para complementar sua formação, se tiver como meta fornecer o melhor atendimento possível (CORREIA & ZANI, 1977). Estando preocupado com essas questões, é aconselhável que ele possua5: 1) um genuíno interesse em atuar no campo ou uma motivação para a tarefa de ajudar pessoas que estão angustiadas ou padecendo por causa de suas aparências, auto-imagens ou auto-conceitos ;
5Este

perfil foi elaborado segundo pontos críticos que pude detectar enquanto realizava a pesquisa. 2/9/2008 13 407619.doc

2) facilidade em estabelecer um rapport com os pacientes e não se deixar influenciar pela primeira impressão, pois lidará com pacientes desfigurados, queimados, acidentados ou que sofrem de rejeição social por causa da aparência ; 3) uma boa capacidade de relacionamento interpessoal, principalmente com a equipe. Para isso, deverá ter uma disponibilidade interna para o outro e habilidade em trocar feedbacks; 4) um arsenal de técnicas de triagem, recrutamento, seleção, entrevista, anamnese, aconselhamento individual e familiar e de psicoterapia breve que possam ser oferecidas aos candidatos/pacientes a fim de que estes tenham uma real visão de suas dificuldades, bem como formas de solucionálas; 5) habilidades para o estabelecimento de um espaço no qual o paciente ou o grupo consigam expressar emoções, sentimentos e fantasias, gerando um certo acolhimento; 6) conhecimentos mínimos sobre os procedimentos elementares da CP. Os diversos tipos de anestesias, a terminologia específica, as exigências pré, intra e pós-cirúrgicas, bem como os principais riscos operatórios são informações importantes para uma boa atuação na área; 7) facilidade para expor assuntos psicológicos de forma didática, pois poderá ser convidado pela equipe para esclarecer seu papel ou fornecer palestras para outros profissionais; 8) curiosidade sobre os novos procedimentos cirúrgicos, pois os mesmos são sempre divulgados pela mídia e alteram a demanda de candidatos à CP ; Os ítens de 5 em diante são facilitadores do trabalho interdisciplinar e não podem constituir-se como impeditivos de atuação na área. Subjacente a todos os critérios descritos, o psicólogo será beneficiado em seu trabalho se tiver passado por algum processo psicoterápico na qualidade de paciente e que esteja disponível para receber supervisão clínica de alguns atendimentos realizados6.
6Uma

boa capacidade de escrita e comunicação é adequada em qualquer profissão. No hospital, o prontuário representa o "carro-chefe" do atendimento, é a base do controle administrativo hospitalar e fonte de futuras pesquisas, tanto por parte da equipe, como por outros profissionais interessados. O psicólogo, assim como outros profissionais, não pode estar presente o tempo todo, logo, as anotações e recomendações à equipe deverão estar escritas no prontuário em uma linguagem clara e, de preferência, com o mínimo de ambigüidades. Ministrar palestras ou lecionar são atividades que, para uma adequada realização, requerem certa habilidade didática e que envolvem, igualmente, facilidade expressiva. Escrever artigos 2/9/2008 14 407619.doc

- Fases Cirúrgicas Não se trata aqui de invasão de campos ou de defesa da CPE em detrimento da psicoterapia, mas sim que os psicólogos podem e devem trabalhar em colaboração com os cirurgiões plásticos durante cada fase do empreendimento cirúrgico. Muitas pessoas poderão "escolher" o caminho da CPE para se sentirem melhor. Segundo PITANGUY, citado por BIONDO (1990): "Quem se sente feio deve procurar a ajuda do bisturi, pois o bem-estar das pessoas está relacionado com sua própria imagem." (BIONDO,1990, p. 6) Nesta afimação pode-se perceber um certo incentivo à CPE, mas também diz: "É comum ser consultado por pessoas que são absolutamente perfeitas do ponto de vista estético, e não se vêem com são por algum motivo." (BIONDO,1990, p. 7) Essa segunda assertiva revela, de forma evidente, que existem fatores psicológicos permeando a consulta ("não se vêem como são por algum motivo") e que se referem à auto-percepção. A atribuição não está clara para o cirurgião, pois, pela assertiva, não conseguiu identificar a fonte de alteração perceptiva. Os psicólogos podem ajudar, não apenas clareando as razões “ocultas” para a procura de plástica mas também no recrutamento e seleção de candidatos à CPE (fase pré-cirúrgica). Nesta fase, seu trabalho poderá aliviar de forma muito significativa a triagem, na medida em que uma boa divulgação facilita uma auto-avaliação por parte dos futuros pacientes e, portanto, uma auto-exclusão. Na época de seleção evitará perda de tempo com candidatos que estejam fora dos fatores do perfil, que não puderam ser divulgados por ocasião do recrutamento. Poderá fornecer pareceres negativos para aqueles pacientes que, comprovadamente, não se beneficiariam com o evento cirúrgico oferecido (uma nova imagem facial, por exemplo).
sobre as pesquisas realizadas é atividade muito bem vista no campo científico e, ainda mais, quando uma nova área está por abrir-se (Psicologia Hospitalar). 2/9/2008 15 407619.doc

BELFER e Colaboradores (1979) sugeriram alguns critérios para a autorização da CPE: 1) não possuir algum traço de psicopatologia significativa; 2) ausência de expectativas irreais em torno da CPE pretendida e 3) não possuir planos precipitados para mudança de vida após a cirurgia, tais como arranjar um novo emprego ou divórcio. Pode-se notar que todos esses critérios estão dentro da fase de seleção de pacientes e no plano subjetivo. Apesar de significarem uma preocupação com os aspectos psiquiátricos para a indicação cirúrgica, o psicólogo deverá ir além dos critérios impeditivos e ter também indicadores positivos7. É importante colocar que um parecer negativo do psicólogoconsultor para os candidatos fortemente motivados tem um peso de proibição, logo, é necessário muito tato e habilidade. Mesmo quando a recusa em realizar a CPE parte do cirurgião, o paciente vivencia o fato como um golpe em sua necessidade, exigindo-lhe longas explicações do porquê da recusa. Alguns pacientes, inconformados e/ou indignados pela recusa, procurarão outros serviços ou cirurgiões para, não só invalidar os argumentos apresentados pelo cirurgião anterior, mas também para provar a importância de seus pedidos de cirurgia, entrando, assim, em equilíbrio com suas cognições. É evidente que toda cirurgia apresenta limitações e que nem todo desejo do paciente terá indicações cirúrgicas. Esse aspecto deverá ser trabalhado com informações racionais sobre o procedimento desejado: "Os pacientes devem estar psicologicamente equilibrados. Eles precisam entender o que será feito, o risco que correm e quais os resultados que eles podem esperar". (DAVIDSON, 1986, p. 151) O mesmo cirurgião, mais sensível aos aspectos psicológicos de seus pacientes, preocupa-se com esses aspectos, em outro momento: "O paciente precisa reconhecer estas limitações. Todavia, nós,
7

Segundo minha própria experiência na área, há mais pacientes com temores, falsas expectativas e dúvidas do que com certezas, frente ao momento operatório. 2/9/2008 16 407619.doc

como médicos, podemos ajudar o paciente a cicatrizar seus ferimentos psicológicos, assim como nós ajudamos a cicatrizar seus ferimentos físicos". (DAVIDSON, 1986, p. 151) Ao ser reconhecido pela equipe por seus conhecimentos e habilidades, o psicólogo poderá dar pareceres negativos para alguns pacientes. Ao propor um adiamento cirúrgico para uma paciente que está pedindo rejuvenescimento facial, por exemplo, mas cujo objetivo oculto seja a recuperação do marido, o psicólogo deverá ter muita habilidade e tato para fazê-lo. Demonstrar à paciente que a psicoterapia é um procedimento aconselhável poderá trazer resistências e dificuldades em relação ao marido que ela pode não estar disposta a enfrentar. Um melhor esclarecimento das razões “ocultas” da plástica poderá ser um tópico abordado no aconselhamento. Um leque de possibilidades de atuação é possível, mas o assunto da separação, neste caso, é primordial para desfazer-se a "falsa" conexão cognitiva: de que a beleza, via CP, trará o marido de volta. Dentro dessa fase (Entrevista/Consulta/Anamnese) os psicólogos poderão encontrar pacientes pouco assertivos ou com graves problemas de comunicação, fazendo com que o cirurgião plástico não saiba qual é a verdadeira expectativa do paciente frente à CP. Aqui, qualquer técnica, que esteja dentro dos princípios éticos, utilizada pelo psicólogo para que o paciente expresse sua vontade operatória ou crenças é válida, dentro daquilo que o paciente espera e dentro daquilo que a CP pode oferecer de melhor8. Podem ainda os psicólogos aliviar ansiedades e temores frente à CPE indicada, o que vai requerer um certo conhecimento dos diversos tipos de CP, suas respectivas anestesias e procedimentos cirúrgicos aliados à habilidade didática (informar ao paciente). É importante uma afinidade com o cirurgião plástico, com o objetivo de trocar informações sobre todas as etapas do ato cirúrgico e sobre qual seria a melhor maneira de lidar com os comportamentos, crenças e emoções do paciente. Na fase intra-cirúrgica, pode ser necessário que o psicólogo
8PITANGUY

(1984) descobriu bem cedo que é muito importante o cirurgião plástico saber o que efetivamente o paciente quer que mude em termos corporais. Parece que não basta saber o tipo de cirurgia, mas detalhes extremamente pessoais. Para ilustrar essa importância, o famoso cirurgião citou um caso de uma moça italiana que passou pela mamoplastia de redução do volume dos seios. Após a retirada das ataduras, a paciente teve uma crise de choro ao constatar que seus seios estavam menores do que eram antes da cirurgia. O que ela efetivamente desejava era exatamente o contrário: que seus seios ficassem ainda maiores e parecidos com os de sua mãe. 2/9/2008 17 407619.doc

acompanhe o paciente ao centro cirúrgico. Nos casos em que a anestesia geral se faz necessária, sua atuação ficará reduzida em virtude de a maioria das técnicas psicológicas de ajuda estarem concentradas no plano verbal e na interação pessoal. Nos casos de anestesia local em que o paciente fica consciente, mas não sedado, os psicólogos poderão atuar com mais facilidade, desde que a cirurgia realizada não esteja mexendo com algum elemento facial. Pacientes que fazem uma CP sem nenhum parente ou amigo costumam solicitar a presença do psicólogo no ato cirúrgico, quando há um bom rapport e estabelecimento de um vínculo de confiança. As crianças, mesmo as que estão acompanhadas pelos pais, às vezes solicitam o acompanhamento psicológico até o pré-anestésico ou até o sono chegar, segurando na mão do profissional para tomar a injeção9. Segundo PITANGUY (1992), foi John Davis quem fez a primeira relação das alterações psicológicas no pós-cirúrgico e constatou que, inicialmente, no pós-operatório de qualquer cirurgia, são comuns as reações de apreensão, ansiedade ou depressão. O pormenor mais importante dessas reações pós-cirúrgicas é que o paciente arriscou uma mudança em sua identidade corporal ou facial para melhor. Assim, a necessidade de comprovação dessa melhoria é imediata e os pacientes solicitam o espelho ou querem ver a área operada. A apreensão vem do fato consciente de que sempre existem riscos em qualquer evento cirúrgico, mesmo quando em cirurgias eletivas. Trabalhando na fase pós-cirúrgica, os psicólogos poderão lidar com as emoções advindas do pós-anestésico ausência temporária da sensibilidade (bandagens, tampões, suturas e gesso que porventura existam), objetivando dar suporte para que o paciente consiga lidar de forma relativamente tranqüila com a natural depressão pós-cirúrgica. Aqui também existe uma confluência de áreas de atuação. O psicólogo facilita o trabalho da equipe de enfermagem, na medida em que clarifica e “limpa” emoções dos pacientes em interação com o material de curativos, bandagens ou injeções. As relações interpessoais com os enfermeiros também merecerão atenção, pois os pacientes internados interagem muito com eles. Num momento posterior, os psicólogos poderão trabalhar alguns
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crianças, muitos cirurgiões optaram pela anestesia geral, ou a local com sonífero, pela comodidade que traz ao evento cirúrgico. (RUZZANTE, 1986). 2/9/2008 18 407619.doc

dos inúmeros aspectos dos reajustes pós-operatórios que existem: 1) as restrições ou proibições temporárias em função do tipo de CP feita. Ex.: Touca de gesso nas CP de correção de orelha de abano, dieta líquida nos casos de redução da mandíbula e proibição de sol por três meses, após peeling cirúrgico; 2) adaptação a uma nova imagem para si mesmo. Ex.: Abandono da auto-imagem de mulher feia com seios assimétricos, com conotação de pouco atraente, para uma auto-percepção de mulher sensual com possibilidade de causar atração erótica; 3) a capacidade para lidar com as perguntas, comentários e atenção dos outros. Ex.: O rejuvenescimento exigirá do paciente habilidade para lidar com as perguntas que os outros farão para saber as causas e os procedimentos do evento cirúrgico realizado (lifting); 4) o sentimento de despedida (luto) da parte considerada envelhecida ou ruim. Ex.: A ambigüidade poderá aparecer nos casos de mamoplastia redutora. A mulher poderá sentir que foi beneficiada com um menor volume mamário mas que, em contrapartida, perdeu a atenção ou comentários masculinos advindos de seu antigo formato dos seios; 5) a readaptação social. Exemplos: A orelha de abano, quando resolvida cirurgicamente, não é garantia de que o paciente (a criança) queira voltar a estudar e a estabelecer novos relacionamentos com os antigos amigos de classe. Nos casos de desfiguramento facial, o fornecimento de uma base de apoio será essencial para o paciente; 6) a insatisfação derivada do fato de a CP não ter correspondido às reais expectativas do paciente10. Ex.: Existem pacientes que procuram uma determinada característica de personalidade, como firmeza ou agressividade, e acreditam que, por exemplo, um queixo mais proeminente ou um nariz com ponta e dorso altos poderão trazer tais atributos.

- Dismorfofobia
Trata-se de um novo termo psiquiátrico que designa pessoas que têm fobia a serem disformes, ou seja, elas têm um forte medo da assimetria corporal (sobras de pele, posição atípica dos dentes, estrabismo, diferentes tonalidades da pele etc). Para a CP, os pacientes que apresentam como
10São

casos nos quais houve erro de diagnóstico ou falhas dos profissionais envolvidos com o atendimento de tais pacientes. Outra hipótese é que eles próprios “ocultaram” seus reais desejos com relação à cirurgia. 2/9/2008 19 407619.doc

sintoma a dismorfofobia são aqueles que se queixam de particularidades mínimas superficiais e pedem uma plástica que as retirem ou consertem. (CONNOLY & GIPSON, 1987). BONALUME-NETO (1992) afirmou que a BDD - Body Dysmorphic Disorder é uma preocupação exagerada com um "defeito" imaginário na aparência de alguém, não sendo este defeito compartilhado com seus semelhantes. Historicamente, a BDD é conhecida há um século, mas faz apenas sete anos que entrou para o manual oficial da psiquiatria. Nas pessoas que têm um defeito real mínimo ou quase imperceptível, a BDD se manifesta como uma exagerada preocupação com ele, daí o uso freqüente de espelhos e cosméticos que "escondem" o defeito e as comparações incessantes com os "normais". As novidades para o tratamento da BDD são: os pacientes podem receber tratamento medicamentoso semelhante ao dos obsessivoscompulsivos (uso do medicamento específico chamado de clomipramina); abandono do uso de espelhos (ou sua limitação a níveis razoáveis); evitar comparações inúteis com outras pessoas e (talvez a parte mais difícil) aceitação de que o problema real é no plano psicológico (interno) e não tem correlação positiva com as formas corporais. (BONALUME-NETO, 1992). Já os pacientes que procuram fazer uma cirurgia plástica após outra, evidenciando procura por uma "imagem ideal", um corpo escultural ou uma certa fobia pelo envelhecimento, deveriam ser indicados para psicoterapia a longo prazo ou reconstrutiva. Tal encaminhamento permitirá que os conceitos de auto-imagem, imagem corporal e self sejam trabalhados com o objetivo de retirar o desejo compulsivo de transformação corporal pela CP.

- Psicoterapia
A psicoterapia breve poderia ser indicada para pessoas que, por exemplo, transformam problemas psíquicos em problemas corporais. Podem ser aquelas que "resolveram" procurar a rinoplastia de uma hora para outra, atribuindo a um novo nariz a responsabilidade de aliviar seus sintomas psicológicos. Outro exemplo seria oferecer a psicoterapia suportiva para pacientes que estão descompensados em função de uma grande mudança ambiental
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e

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tal

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Nesses dois exemplos citados acima, depois de um diagnóstico dinâmico, os pacientes poderão ser orientados em relação à plástica pretendida. Ajudá-los a somatizar o mínimo possível ou voltar ao equilíbrio homeostático anterior são tarefas que levariam a um questionamento da necessidade de plástica. (DEATON & LANGMAN, 1986). Não é de estranhar que algumas psicoterapias tenham, dentre os vários objetivos, a função de compreensão e possível modificação de crenças, valores, afetos e comportamentos. Claro que nenhuma linha psicoterápica negará tal evidência: a de que o paciente procurou tratamento porque quer resolver algum problema (quando não vários) e, ao resolvê-lo, estará em outro momento e condição. Não se pode esquecer de que houve um aprendizado cognitivo: descobriu um novo jeito de lidar com o problema e ampliou o repertório de experiências. (KNOBEL, 1986). Em alguns casos, a psicoterapia prévia será o melhor procedimento a ser oferecido ao candidato à CPE (AMARO, 1985; ; PITANGUY, 1990). É também verdade que, em alguns casos, a CPE poderá abreviar o tempo da análise pessoal ou mesmo substituir a psicoterapia a longo prazo. Um exemplo seriam as cirurgias corretivas em pessoas que tiveram alguma mutilação e que sofrem pelo estigma ou rejeição social a que estão submetidas. (MAISONNEUVE & BRUCHON-SCHWEITZER, 1981). Existem inúmeros casos em que a CP beneficiaria ou tornaria mais potentes os ganhos psicoterapêuticos. Para citar alguns: a obesidade, na qual as estratégias de mudança alimentar ou apoio por psicoterapia de grupo podem ganhar um reforço externo com a lipoaspiração ou lipoescultura. Casos simples de fobia escolar, cuja origem esteja centrada na aparência (orelha de abano ou lábio leporino) poderão ter uma solução adequada com a correção da deformidade. A depressão motivada pela perda de características estéticas ou eróticas (calvície ou barriga saliente) poderá ficar reduzida se o paciente passar pelo processo cirúrgico especializado. Pessoas que apresentam como sintoma a falta de desejo sexual, pelo fato de acharem pequenos ou inestéticos seus genitais, poderão fazer plástica íntima e possivelmente retirar a base biológica de suas crenças. (SCHOR & FREITAS, 1992). A CP íntima, usada em crianças ou adolescentes que foram estupradas ou que perderam a virgindade pode ajudar, e muito, no processo de reparação da violência de que foram vítimas. Ao voltarem ao seu "estado anterior", isto é, passarem (se for o caso) pela cirurgia de reconstrução do
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hímen ou ânus, terão mais suporte físico. Por outro lado, o psicólogo terá maiores oportunidades de trabalhar com os pacientes as emoções derivadas do delito e promover a reintegração social. Adolescentes, cuja fase é de discussão da identidade sexual, ou obesos masculinos com superdesenvolvimento mamário (ginecomastia) que causa a aparência de seios, um atributo feminino, são também muito beneficiados com a redução dos "seios" por lipoaspiração. (ASSUMPÇÃO, 1990; GALVÃO, 1978; SCHOR & FREITAS, 1992). Outro exemplo em que a CP poderia acelerar o tempo da análise e/ou psicoterapia, seria a lipoaspiração em pacientes que comprovadamente não podem ou não conseguem emagrecer além do que o seu biótipo permite. Queixo duplo, como resultado de excesso de gordura na papada, gorduras resistentes a dietas e ginásticas localizadas e alguns casos de celulite deixariam de ser “anexos” indesejados da pele. Nestes casos, a retirada cirúrgica daquilo que "sobra" (barriga em avental) ou que constitui um "peso" psicológico, pode abreviar todo o trabalho psicoterápico cujo objetivo fosse, por exemplo, diminuir a resistência do paciente em iniciar ou manter uma dieta hipocalórica. Outro objetivo seria a criação de uma auto-imagem mais aceitável para si e dentro dos padrões de saúde esperados para o indivíduo. (COTTINI, 1994; SCHOR & FREITAS, 1992).

- Consultoria
O trabalho de consultoria psicológica é relativamente recente e igualmente delicado. A presença de um psicólogo dentro de um hospital apresenta ambigüidades e particularidades que não podem ser desprezadas de forma alguma pelo profissional, pois ele corre o risco de ser excluído da equipe. Segundo FERNADES (1988), de um lado tem-se a idealização (onipotência) do psicólogo, como se ele fosse capaz de tudo resolver no tocante aos problemas de relacionamento com os pacientes, e, de outro, o descrédito (desqualificação) das funções e tarefas do psicólogo. Mesmo assim, é possível ter como objetivos: 1 - aumentar a discriminação de assuntos psicológicos, o que implica discutir o caso nos seus aspectos de motivação, personalidade, grau de maturidade, assertividade, nível de comunicação etc, a fim de esclarecer pontos obscuros da entrevista e contribuir para a ampliação do conhecimento do paciente por parte do cirurgião (FERNANDES, 1986);
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2 - acolher pacientes considerados pelos cirurgiões como difíceis, resistentes ou pouco colaboradores. Quando não existe indicação cirúrgica, mas a motivação do paciente é alta, é provável o aparecimento da recusa em aceitar a proibição. Alguns pacientes recebem o "rótulo" de pouco colaboradores quando tomam consciência das exigências do pré-cirúrgico (LAMOSA, 1991); 3 - sensibilizar pacientes para um trabalho psicoterápico posterior, quando a equipe interdisciplinar chegou a esse critério para aceitação cirúrgica (KNOBEL, 1986); 4 - encaminhar pacientes para outros cirurgiões plásticos ou instituições mais especializadas (DAVIDSON, 1986); 5- elaborar, em conjunto com a equipe ou apenas com o cirurgião plástico, o perfil de pacientes para cada tipo de evento plástico, o que resultaria num melhor recrutamento e seleção deles, já que o perfil é a base de qualquer processo de comparação e inclui os requisitos mínimos exigidos para a cirurgia plástica.

- Pesquisa
A CP é um campo vasto, cheio de sutilezas e minúcias. É uma área fascinante para pesquisas psicológicas e sociais. É evidente que o psicólogo poderá pesquisar em qualquer fase do atendimento ao paciente (pré, intra e pós-cirúrgica), bem como em qualquer fase ou etapa psicológica do paciente. Citaremos algumas, mas as possibilidades são muitas. O psicólogo poderá realizar pesquisa no tocante à validação dos processos de recrutamento, triagem e seleção de pacientes que são adotados no hospital. Poderá descobrir o tipo de divulgação mais eficaz para conseguir pacientes que, por hipótese, receberiam a indicação para determinado evento cirúrgico. De outra forma, poderá pesquisar o perfil dinâmico para cada tipo de CPR procurada, bem como quais os pacientes que efetivamente seriam beneficiados com a cirurgia. Um outro tipo de conhecimento que poderia ser conseguido referese às intervenções planejadas e a algumas emergenciais (CPR). É sabido, dentro da Psicologia Social, que a expectativa de um determinado comportamento faz com que a probabilidade de ele ocorrer aumente muito (profecia auto-realizadora) (GOLDSTEIN, 1983; KRÜGER, 1986). Será que os pacientes que procuram a CP espontaneamente tendem a considerar os
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efeitos da intervenção mais favoravelmente do que aqueles que se sentem pressionados a submeter-se à operação (vítimas de trânsito, por exemplo)?. Os pacientes da CPR têm mais expectativas irreais (aquelas que escapam da área da especialidade) do que os pacientes da CPE?, uma pesquisa comparativa entre os grupos poderia estar comprovando a hipótese anterior. Sendo pesquisador, o psicólogo poderá provar vários pormenores da área: 1) que a melhor época para se corrigir a orelha de abano é a de férias escolares, antes de a criança atingir a adolescência (RUZZANTE, 1986); 2) que o trabalho de entrevista prévia com o psicólogo facilita muito a consulta com o cirurgião (DEATON & LANGMAN, 1986); 3) que os pacientes que recebem tratamento psicoterápico paralelo à CPE são os que apresentam os melhores níveis de satisfação e de adaptação à nova imagem, em comparação com o grupo de controle - os que fizeram CPE e não receberam nenhum tratamento psicológico (GIDDON, 1983); e 4) que alguns sintomas psiquiátricos são impeditivos para a cirurgia. O psicólogo poderá listar esses sintomas incompatíveis e correlacioná-los com os eventos cirúrgicos, a fim de comprovar ou não esses impedimentos. (BELFER e Colaboradores, 1979). Pode-se também afirmar que a Psicologia se beneficiará das alterações corporais advindas da CP, se acompanhar pacientes que sofreram determinada intervenção plástica e observar, por exemplo, as fases de readaptação cognitiva ao novo corpo/rosto alterado (FARINA, 1982). Trata-se de uma possibilidade de discriminação de nuances da auto-imagem, resultando no enriquecimento da informação sobre essa faceta da personalidade. Os casos de arrependimento pós-cirúrgico deveriam receber uma atenção especial, pois podem ser utilizados como retroalimentação ao funcionamento da equipe que atendeu ao paciente. Poder-se-á saber se a expectativa plástica foi correspondida em sua totalidade.

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