09/02/2008

CAPÍTULO IV PESQUISAS PSICOLÓGICAS EM CIRURGIA PLÁSTICA

"Oh! Menina vai ver nesse almanaque, vai ver onde tudo começou... "
Chico Buarque de Holanda, Almanaque.

Desenvolvimento das pesquisas

A

pesar de a Psicologia e CP compartilharem de processos interativos recíprocos quanto à auto-imagem e auto-estima, poucas pesquisas da relação entre uma e outra têm sido feitas ou publicadas em

periódicos de Psicologia. Neste capítulo a diversidade de pesquisas ficará bem evidente, bem como a falta de unidade de significação entre elas. Também têm sido pouco estudados os impactos socioeconômicos em relação à procura da atração física interpessoal. (DEATON & LANGMAN, 1986; GIDDON, 1983). GIILLIES & MILLARD (1957), ao citarem ROE (1887) e KOLLES (1911), haviam relatado grandes alterações psicológicas nos pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos reparadores ou estéticos, além de uma evidente reintegração desses mesmos pacientes com o seu ambiente externo. Segundo BULL & RUNSEY (1988), ABEL (1952) estudou setenta e quatro pacientes que eram desfigurados faciais. Todos tinham a crença de que a deformidade era responsável pelos insucessos na vida. A grande maioria se queixava de discriminações no ambiente de trabalho ou em outras situações sociais. A atribuição de causalidade, neste estudo, é bem ilustrada. Os pacientes localizaram a fonte do insucesso: deformidade facial. MEYER (1964), estudando a psicologia de pacientes do sexo masculino que procuraram a CP, percebeu uma grande incidência de
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pacientes esquizóides e esquizofrênicos que esperavam da CP muito mais do que ela poderia oferecer concretamente. Tinham uma grande dificuldade de relacionamento familiar e desejavam desfazer se da identificação paterna através da retirada ou alteração de traços faciais. Segundo BULL & RUNSEY (1988), KNORR, EDGERTON & HOOPES (1967) pesquisaram as principais dificuldades de seiscentos e noventa e dois pacientes que procuraram CP 1. Os pesquisadores declararam que uma das mais freqüentes queixas feitas por eles foi a dificuldade quanto ao desenvolvimento de relações duradouras de amizade. Os pesquisadores HIRSCHENFANG et al. (1969) observaram que vinte e cinco pacientes internos e externos com paralisia facial tinham queixas quanto à dificuldade em fazer amizades. Todos alegaram falta de oportunidades para o casamento, fraqueza para constituir família e problemas quanto à obtenção de empregos (BULL & RUNSEY,1988). Segundo BULL & RUNSEY (1988), ANDREASI & NORRIS (1972) estudaram nove mulheres e onze homens severamente queimados (idades entre 18 e 60). Todos eles disseram que eram objeto de piedade e curiosidade. Também houve referência a certeza de que chamariam a atenção (atenção indesejada) e de que receberiam perguntas ou comentários malévolos. GOIN et al. (1976) realizaram um estudo prospectivo em vinte mulheres assintomáticas, sem distúrbios psiquiátricos ou psicológicos, que fizeram lifting, apontando que 60% dessas pacientes confessaram que os motivos declarados na avaliação pré-cirúrgica eram insinceros (falsos). A maioria delas apresentou o verdadeiro motivo no pós-operatório. Alguns desses motivos reais foram: medo de envelhecer, problemas no casamento, desejo de conquistar uma melhor posição profissional. Naquelas cuja motivação não mudou (sinceridade mantida), constatou-se que admitiram desde o início a intenção de modificar o padrão de relacionamento interpessoal, considerado de má qualidade. Esta descoberta importante de GOIN et al. (1976) de que existe uma diferença entre as motivações declaradas no pré e pós-cirúrgico está de acordo com as conclusões de THOMSON et al. (1978). O alto número de motivações falseadas (mascaradas) não interferiu na satisfação demonstrada
1Os

autores não discriminaram o grupo e o tipo de CP procurada. 2

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com o resultado cirúrgico. Exemplificando: uma paciente que, no fundo, pretendia uma ascensão profissional, mesmo sendo frustrada tal expectativa, não apresentou diminuição no grau de satisfação com o resultado cirúrgico. O aumento da CPE tem levado a uma crescente preocupação com seus aspectos psicológicos ou psiquiátricos, principalmente as motivações dos candidatos à CPE. THOMSON et al. (1978) consideraram o paciente de rinoplastia como um protótipo, pois a rinoplastia é um dos procedimentos cirúrgicos mais procurados. A posição centralizada do nariz no rosto e visibilidade de vários ângulos são as explicações mais razoáveis para essa procura. O nariz é elemento de destaque nas fotografias de perfil e a parte do rosto na qual tende a ocorrer um maior índice de somatização. Descobriram também que a grande maioria dos pacientes de rinoplastia (90 a 95%) está satisfeita/muito satisfeita com os resultados, apresentando melhoras na autoestima e nos relacionamentos interpessoais. Partindo da hipótese básica de que a CPE altera a posição de passividade e retração perante a vida, para a de atividade e participação, BELFER et al. (1979) estudaram quarenta e dois pacientes e perceberam correlação positiva entre a plástica e os eventos significativos da vida (casamento, ascensão profissional, maior aceitação social e divórcio). A grande maioria dos pacientes (36) apresentava forte dominação dos pais e necessidade de encerrar situações interpessoais conflituosas de forma rápida. Os autores observaram em sua amostra de pacientes uma exagerada preocupação com a aparência e que esta poderia melhorar após a CP. Revelaram que a maior parte dos pacientes de CPE a procuram para alterar traços ou feições que lhes causam constrangimento, atenção indesejada, comentários desagradáveis, ou ainda, para ganhar aceitação social ou aumentar suas oportunidades profissionais. Interessado interpessoal: 1) as características físicas exercem uma grande influência no mundo psicológico e social; 2) existem recompensas e tratamentos diferenciados para aqueles que são fisicamente atraentes;
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nos

efeitos

sociais

do

desfiguramento

facial,

MACGREGOR (1982) resumiu seus estudos sobre a atração física ou

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3) os conceitos de beleza e feiúra são variáveis de uma cultura para outra e de uma época para outra, mas existem "padrões" universais daquilo que é agradável para os olhos e para as mãos (RECTOR & TRINTA, 1990); 4) qualidades consideradas agradáveis aumentam a atratividade interpessoal, sexual, as oportunidades de trabalho e as oportunidades na vida; 5) indivíduos bonitos tendem a atrair para si julgamentos favoráveis sobre seu caráter, que seriam bem diferentes se eles fossem feios: por essa razão, as transgressões ou delitos causados por pessoas "belas/atraentes" tendem a ser avaliados de forma menos negativa (AMARAL, 1986). Outro exemplo refere-se ao comportamento de ajuda: indivíduos "bonitos" tendem a receber mais ajuda, comparados a outros não tão "belos" (GOLDSTEIN, 1983); 6) existe o estereótipo da atratividade: pessoas fisicamente atraentes são vistas como sendo de mais personalidade, com mais possibilidade de sucesso e com mais inteligência; 7) em função dos avanços técnicos da CP, não se é obrigado a ficar com o rosto herdado ou aquela aparência que a natureza "deu" ou algum acidente causou/estragou. O mesmo é válido para as posições dos dentes, através de correções ortodônticas. As feições faciais não são mais um "fato da vida" e sim algo que pode ser mudado para melhor; 8) existe o perigo de acreditar-se que a CP poderá resolver os problemas da vida, como panacéia para os conflitos humanos. Isso já foi discutido por AMARO (1985), que se referiu ao possível conluio entre o cirurgião e os desejos do paciente, na medida em que o primeiro queira ganhar dinheiro de qualquer forma. GIDDON (1983), preocupado com o alto custo das correções cirúrgicas e/ou ortodônticas, reforçou a necessidade de mais pesquisas na área. A sugestão oferecida pelo pesquisador é que haja uma correta compatibilização entre oferta e procura pelos serviços dos especialistas. Três formas de barateamento dos procedimentos são possíveis: 1) aumento do número de profissionais; 2) redução da demanda e 3) aumento dos impostos sobre os produtos voltados à Beleza.

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A arrecadação excedente do item 3 seria aplicada em pesquisas ou para permitir um aumento no número de cirurgias ou colocação de aparelhos para as classes menos favorecidas economicamente. GROENMAN & SAÜER (1983) escreveram que existem dois tipos básicos de pesquisas em CP: 1) Clínico-psiquiátrico (Reino Unido); 2) Clínico-psicológico (EUA e Europa). O primeiro está interessado no desenvolvimento de traços psicopatológicos, como a esquizofrenia ou dismorfofobia (CONNOLY & GIPSON, 1978); o segundo tipo de pesquisa investiga as motivações, expectativas, auto-imagens, ajustes pós-operatórios e satisfações com os resultados cirúrgicos, o que está de acordo com um dos papéis que o psicólogo pode desempenhar, já descrito (Capítulo II) por DEATON & LANGMAN (1986). AMARO (1985), dentro da Psicanálise Kleiniana, afirma que os testes psicológicos, as entrevistas, os estudos e as pesquisas poderiam fornecer elementos mais seguros para uma verdadeira cirurgia reparadora, entendida como aquela que tornará o paciente apto a desenvolver qualquer atividade humana, sem despertar atenção indesejada sobre sua aparência. Para AMARO (1985), as oposições estão presentes no mundo atual: bem x mal, esquerda x direita, igual x diferente e, no campo da estética, o belo e o feio, existindo uma oposição existencial do homem: luta-se para ser igual mas, ao mesmo tempo, para ser diferente. Existem diferenças com a conotação geral de desvantagem. Exemplos: um nariz torto, um lábio leporino ou uma orelha do tipo abano constituem um estado diferente com desvantagens frente aos "iguais", pois despertam atenção indesejada ou sentimentos de rejeição ou dó. Na opinião de AMARO (1985), existem pelo menos três soluções básicas para tratar dos problemas dos "diferentes": soluções cirúrgicas, psicológicas e sociais. Assim, por exemplo, um portador de lábio leporino encontraria na CPR a melhor forma de conduzi-lo ao grupo dos "iguais"; a fobia receberia o tratamento da dessensibilização sistemática na psicoterapia comportamental (WOLBERG, 1967) e, finalmente, os neuróticos, os alcoólatras e outras minorias sociais fundariam associações anônimas para
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não se sentirem "diferentes" e, dessa forma, terem a percepção de serem "iguais" 2. Por ser um artigo relativamente longo, é necessário extrair as idéias principais de AMARO (1985), quanto aos critérios na escolha de candidatos à CPR: 1) os candidatos devem ser examinados por uma equipe multidisciplinar; 2) os aspectos econômicos e sociais caracterizarão o candidato e o tipo de cirurgião que ele procurará; 3) a CPR tem por objetivo contribuir para a função reparadora da personalidade, ao mesmo tempo em que dá ao homem mais uma opção de reparação concreta; 4) é fundamental separar a verdadeira da falsa reparação e, para isso, o cirurgião deverá estar atento aos aspectos bio-psico-sociais de si próprio e do candidato à CP, atualizar-se cientificamente e estar com firme propósito de realizar uma verdadeira reparação que contribuirá para o desenvolvimento da personalidade do paciente. Com relação às abordagens dessas pesquisas, FONSECA (1985) classificou-as em três tipos: Fisiológicas, Fenomenológicas e Psicanalíticas. No tipo fisiológico, o conceito de imagem corporal é articulado com funções vitais. O segundo tipo considera o corpo tal qual é conhecido e vivenciado pela pessoa. As representações não serão vinculadas necessariamente com suas funções corporais, pois dependerão sempre do momento existencial da pessoa. A última abordagem, a Psicanalítica, tenta desvendar a imagem corporal que é desconhecida, inconsciente para o sujeito 3. A maioria das pesquisas psicológicas em CPE pertencem a essa categoria.
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BERSCHEID & WALSTER (1973) descrevem que algumas tentativas para verificar até que ponto as semelhanças físicas estão ligadas à atração interpessoal resultaram em correlações positivas, mas que é difícil interpretá-las como de causa-efeito. As poucas pesquisas realizadas indicam que as semelhanças são fatores atrativos e que as diferenças diminuem as possibilidades de estabelecimento de relações interpessoais. 3O teste da Figura Humana de Karen Machover foi utilizado em dezesseis crianças de 7 a 12 anos (de ambos os sexos), portadoras de asma, por KOLCK (1987), deixando supor que qualquer doença física ( alteração corporal ) sempre trará possibilidade de mudança na imagem corporal. Assim, as crianças com asma provavelmente farão desenhos com o pescoço e tronco (local dos pulmões) em destaque, evidenciando a área focal do conflito pelo qual ela passa; pessoas com problemas cardiovasculares poderão apresentar figuras com o coração ou área do peito em relevo. Pode-se ver, aqui, mais uma forma de pesquisa psicológica (teste projetivo), não ligada diretamente à CPE, mas envolvendo o corpo e sua representação gráfica. 407626.doc 6

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AMARAL (1986) fez um estudo que versou sobre a influência de diferentes graus de deformidades faciais, congênitas e adquiridas na autoavaliação (auto-conceito), na avaliação dos outros (hetero-conceito) e na realização acadêmica dentro e fora da escola. Foram sujeitos-alvo trinta e seis pré-adolescentes escolares, entre 6 e 12 anos, de ambos os sexos e nível econômico baixo. As crianças eram portadoras de deformidades faciais (face atípica) de diferentes graus e causas. Através da escala de diferencial semântico (DS), do desenho da auto-imagem e da imagem do outro, tentou deixar claro que: 1) a aparência física não é um indicador de traço de personalidade, não sendo, portanto, preditivo do comportamento; 2) a aparência física, para a Psicologia Contemporânea, é uma importante variável psicossocial; 3) a interação social é determinada sobretudo pela imagem da pessoa; 4) a imagem da pessoa (real ou idealizada) pode ser decomposta em: a) auto-imagem, b) auto-conceito, c) hetero-imagem e d) hetero-conceito; 5) para WRIGHT, citado por AMARAL (1986), a aparência física é uma característica de superfície, apontando para a necessidade de ir- se além dela; 6) a correção cirúrgica da deformidade pode ajudar na melhoria da auto e hetero-imagem; 7) os desempenhos dos estudantes não têm relação de causa-efeito com suas respectivas deformidades faciais; 8) a face atípica não pode ser considerada como um elemento de desfiguramento da personalidade; 9) todo preconceito de que a deformidade facial é estigmatizante deve ser eliminado. DEATON & LANGMAN (1986) afirmam que as pesquisas psicológicas na área da CP relacionam a auto-imagem, a auto-percepção e os sentimentos de auto-estima com a nova aparência. A CP teria a função de aumentar tais sentimentos. Os pesquisadores mostraram, dessa forma, que o papel do psicólogo pode ir além do recrutamento, seleção ou da terapia dos

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candidatos, pois podem aumentar a sensibilidade dos cirurgiões plásticos para os assuntos psicológicos. FONSECA (1988) realizou uma investigação, na abordagem psicanalítica, com vinte mulheres que passaram pela mastectomia, utilizando entrevistas e o Rorschach - teste projetivo clássico de personalidade e inteligência - em que pôde obter, entre outros elementos, dados de vivência corporal e da imagem do corpo. Concluiu que a retirada dos seios ou de apenas um, incluindo parte dele, é suficiente para desencadear fortes reações de perda ou luto nas pacientes. O autor relatou que a grande maioria das pacientes declararam alterações na identidade sexual. Para ele, esses dados só podem ser estudados pelos seus efeitos diretos (entrevistas) ou indiretos (projeção). Claro que a mastectomia não é uma CPE mas a investigação desse autor, bem como seu método, são apropriados na pesquisa da auto-imagem e vivência corporal. GODEFROY et al. (1988) consideraram o pedido por CPE como um sintoma histérico, apontando que 20 a 90% (SIC!) dos indivíduos que procuram esse tipo de intervenção sofrem de desajustes psíquicos que incluem uma má adaptação social e personalidade obsessiva ou esquizóide. Os pesquisadores hipotetizaram um movimento regressivo em torno da dimensão neurótica que está associado ao pedido por cirurgia estética, com a possibilidade de um narcisismo profundo que falhou em manter intacta a imagem do self. HANSSON et al. (1988) estudaram o estilo cognitivo e as defesas psicológicas de mulheres, em vários grupos compostos segundo a tabela 1: Tabela 1 - Composição dos grupos e resultados dos testes segundo HANNSON et al.(1988)4. ANOREXIA número de mulheres Teste de Dependência
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BULIMIA
29

MAMOPLASTIA REDUTORA
31

GRUPO CONTROLE
56

25

pouca

muita

pouca

dependência

A tabela é fruto de elaboração pessoal e tem como objetivo clarear os resultados do autor. 407626.doc 8

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Psicológica de Rod & Frame

dependência

dependência

dependência

média

Teste MCT (sinais psiquiátricos)

1- hipersensibilidade ao formato corporal e 2 - necessidade de repressão aos impulsos

1 - sinais de depressão e isolamento social (muito freqüentes) e 2 - pouco controle dos impulsos

1 - problemas relacionados à identidade sexual e 2 - freqüência de sinais de repressão semelhante ao grupo controle

não relatado

O grupo-controle também foi composto por sujeitos do sexo feminino. Todos os grupos foram submetidos ao processo de dependência psicológica com o Teste de Rod & Frame e ao Teste de Defesa Psicológica com o Meta Contrast Technique (MCT). Os resultados, indicados na tabela 1, mostraram que as bulímicas são as que dependem mais do campo do que os outros grupos. As anoréxicas e as que passaram pela mamoplastia redutora são mais independentes do campo. O MCT revelou ainda que é muito freqüente o sinal de depressão e isolamento nos sujeitos bulímicos, ao passo que os sujeitos anoréxicos mostraram sinais de sensibilidade para ficarem marginais. Esse dado pode ser compreendido como uma necessidade de isolamento social. As anoréxicas demonstraram menos sinais de repressão interna. As do grupo de mamoplastia assemelharam-se às anoréxicas no aspecto da manifestação mais freqüente de sinais de hipersensibilidade do grupo controle, mas não diferiram dele com relação à repressão. ROBIN (1988) submeteu onze homens e onze mulheres, todos adultos, pacientes de rinoplastia, e vinte e dois sujeitos do grupo controle ao General Health Questionaire, a fim de evidenciar a rede de repertórios, a escala de masculinidade e feminilidade. Os sujeitos de rinoplastia percebem suas aparências como similares e subestimam suas próprias aparências na mesma medida em que os sujeitos do grupo controle. Em relação à masculinidade e feminilidade, o pesquisador observou que os pacientes apresentam uma identidade sexual comprometida se comparados ao grupo controle, pois a grande maioria esperava aumento do ítens relacionados ao ser homem/mulher com a rinoplastia. Estes sujeitos-controle apresentam graus
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variados em relação a sintomas psiquiátricos. É sugerido que os sintomas psiquiátricos devem fazer parte da "síndrome do pedido por rinoplastia". Testes repetidos 6 meses após a cirurgia (inclusive no grupo-controle) e mostraram que uma melhora na aparência facial pode levar à uma redução dos sintomas psiquiátricos. Não houve mudança nos sujeitos-controle de rinoplastia. SCALINI et al. (1988) estudaram o psicodinamismo da CP com uma amostra de quarenta e dois sujeitos italianos (quinze homens e vinte e sete mulheres, com idade média de 22,5 anos), que solicitaram rinoplastia por razões estéticas. Todos os sujeitos sofriam de algum sintoma neurótico ou psicótico na personalidade, verificando-se a ausência de desordens semelhantes na amostra normal de controle. Enquanto a maioria dessas características permanecem subclínicas, o teste Rorschach provou ser um instrumento psicotécnico efetivo na clarificação dos motivos por CP. SIMON-CONSUEGRA et al. (1988) conduziram um estudo de quarenta mulheres entre 18 a 35 anos, sendo 35 delas casadas, que iam submeter-se ao processo de lipoaspiração e à mamoplastia corretiva. Os resultados mostraram que os sujeitos do estudo sofriam de feiúra psicopatológica (100%), complexo de inferioridade, ansiedade, tristeza, insônia e bulimia (93%). As candidatas manifestaram hipersensibilidade à críticas, o que as levava a não participar de eventos sociais e a não relacionar-se sexualmente. Essas atitudes resultaram, para os sujeitos, em uma vida de insatisfação e isolamento social. A questão de possíveis comportamentos suicidas, abordada pelos pesquisadores, sugere a necessidade de cuidados médicos, psicológicos e psiquiátricos para esse perfil de pacientes plásticos. YATES (1988) apresentou o caso de duas mulheres bulímicas (uma de 19 e outra de 20 anos) que fizeram CP com o objetivo de tornar seus corpos mais aceitáveis. A cirurgia foi significativa, mas seu efeito foi temporário no tocante à remissão dos sintomas bulímicos. SCHWEITZER (1989) fez várias avaliações psiquiátricas de pacientes na fase pré-cirúrgica de CPE ou reparadora facial. O resultado dessas investigações afirmou que aproximação flexível e criativa junto aos pacientes pode resultar em uma compreensão autêntica dos problemas relacionados com a auto-imagem e o corpo. O psiquiatra alertou para aquilo que ele denominou de “Problemas potenciais dos pacientes”, verdadeiros
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sinais vermelhos detectados no pedido de uma CPE. Esses problemas podem ser: defeito mínimo na aparência, pedidos recorrentes de cirurgias plásticas, sentimentos de perseguição ou diagnósticos psiquiátricos (esquizofrenia). O sigilo exigido pelos homens que procuram a CPE e o paciente em crise existencial são dignos de maior cuidado por parte dos cirurgiões plásticos, a fim de não errarem no diagnóstico. BIRTCHNELL (1990) procurou mostrar os fatores motivacionais para a mamoplastia, tanto de redução como de aumento do volume dos seios. O autor entrevistou quarenta mulheres entre 16 a 50 anos que estavam numa lista de espera para a referida cirurgia. O resultado da avaliação do questionário mostrou que o grupo que desejava mamoplastia redutora continha mais solteiras e mulheres que moravam sozinhas e que estavam longe de suas famílias de origem. No grupo, cujo pedido era a mamoplastia de aumento do volume, havia um contingente significativo de separadas e divorciadas. A motivação predominante era se sentirem menos envergonhadas e embaraçadas com suas roupas. Em ambos os grupos, as mulheres desejavam ser mais femininas. LE-GOUES (1990) explorou o psicodinamismo da CP, em particular a imagem do corpo e a auto-imagem e como esses conceitos aparecem antes da intervenção plástica. Neste contexto, o pedido de mudança corporal sempre teve dois aspectos: o anatômico e o psicológico, que devem ser separados para melhor entendimento. Esta divisão é que permite o oferecimento de ajuda e aconselhamento psicológicos antes da cirurgia. O autor mostrou que parte das vítimas de acidentes ou indivíduos com óbvios defeitos físicos procuram remediar os resultados advindos do desfiguramento. Esses indivíduos procuram uma nova identidade ou suporte psicológico através da mudança da imagem de seus corpos. Basicamente eles desejam CP a fim de: aparentar maior simpatia por si próprios, reparar uma ferida narcísica, mudar o aspecto corporal que é fonte de sofrimento ou possuir uma imagem corporal que traga prazer ou aumento da auto-estima. SCHOUTEN (1991) examinou a concepção estética da CP no contexto atual para determinar os motivos e auto-conceitos (dinâmicos) do comportamento do consumidor - o paciente plástico, no seu aspecto simbólico. A transição de papéis, as diversas identidades sexuais, as fantasias
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românticas, o controle do parceiro, a eficácia corporal e jogo de identidade são os elementos usados pelos pacientes (não informou o tipo de pesquisa, nem o número de pacientes que passaram pela entrevista) que procuram a CP. O autor mostrou que as atividades de consumo, entre as quais a consulta com o cirurgião ou realização de algum evento plástico, são importantes para o desenvolvimento e manutenção do status-quo e harmonia da concepção de si mesmo. No 1o CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOLOGIA HOSPITALAR (1992), realizado em São Paulo - Capital, houve a apresentação de dois trabalhos diretamente ligados à CP (mamoplastia), com estruturas semelhantes de pesquisa: ambos buscaram seus dados usando a entrevista semi-dirigida; o teste da Figura Humana (MACHOVER) e o Crown-Crisp Experimental Índex (CCEI) em pacientes que procuravam a mamoplastia (fase pré-cirúrgica) no Hospital da Clínicas (SP), a saber: 1) CURY (1992) avaliou cinco pacientes que passaram pela mastectomia e pôde concluir que é de fundamental importância a reconstrução mamária posterior (o seio é um atributo de feminilidade), independente da técnica reconstrutiva empregada; e 2) FARAGÓ et al. (1992), dentro do campo da CPE, avaliaram cinqüenta e três pacientes que se submeteram à mamoplastia primária, objetivando a caracterização psicológica dessas pacientes. Os resultados puderam evidenciar que a maioria das pacientes são jovens sem filhos, ou com um (no máximo), pessoas decididas e auto-centradas, com dificuldades na sua sexualidade e nas quais existe uma falta de confiança nos contatos sociais. O CCEI apontou resultado significativo para a "fobia" e "obsessividade", enquanto traços da neurose.

Comentários sobre as pesquisas
Uma rápida leitura deste capítulo nos mostrará um painel cronológico extremamente diversificado. O “desfile” de autores, bem como a diversidade de assuntos abordados por eles, não foi por acaso. Nosso objetivo

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foi também explicitar a complexidade inerente ao campo da aparência interpessoal 5. Desde que GROENMAN & SAÜER (1983) classificaram as pesquisas em dois grandes grupos (Psiquiátrica e Psicológica), poucos esclarecimentos teóricos foram feitos. As três abordagens dentro do grupo de pesquisas Psicológicas, propostas por FONSECA (1985), foram ampliadas, ao nosso ver, com os estudos de AMARAL (1986), pois trouxeram à área o quarto tipo: os estudos psicossociais ligados à deformidade facial, aparência física e desempenho acadêmico. A decomposição da imagem da pessoa (real ou idealizada) em quatro subcategorias representa um acréscimo teórico, pois articula conceitos individuais com o ambiente em que a pessoa está inserida (realização acadêmica). Muitos dos pesquisadores mencionados infelizmente não apresentaram, de forma clara, a teoria específica que os guiou. Alguns não tiveram o cuidado de divulgar o número de sujeitos que participaram da pesquisa, a metodologia ou teoria empregadas nos seus estudos. Essa ausência de clareamento metodológico tem resultado em estudos isolados, pesquisas pouco esclarecedoras e tentativas tímidas de compreensão do campo que, infelizmente, não têm continuidade no tempo e no espaço. A diversidade de pesquisas, bem como a variedade de técnicas empregadas (inventários, questionários, entrevistas, testes projetivos), e estudos prospectivos ou comparativos são indicadores positivos de que o estudo do comportamento, em Psicologia Social, ligado à primeira impressão é altamente complexo. Essa ampla gama de achados empíricos passa sempre pelos valores culturais e sociais em que a pesquisa é realizada. Apesar da complexidade, a grande maioria das pesquisas ou achados empíricos aborda as dificuldades encontradas pelas pessoas ou pelos pacientes no tocante à área das relações interpessoais, que passam pela aparência corporal ou facial. A ampla variedade de comportamentos derivados da deformidade facial ou daqueles que se sentem em desvantagens com relação à aparência foram descritos: atenção indesejada; distúrbios em relação ao primeiro contato com as pessoas; retraimento ou isolamento social;
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questionamento que sempre esteve presente durante a elaboração deste capítulo foi: até que ponto os pesquisadores estão sendo guiados pelas suas intuições ou por pressões implícitas ou explícitas da mídia que valorizam tais informações ou achados ?. 407626.doc 13

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dificuldades em fazer amizades ou em mantê-las, problemas sexuais ou profissionais e correlação positiva com sintomas psiquiátricos sub-clínicos. Segundo BULL & RUNSEY (1988), SORELL & NOWAK (1981) defenderam melhor comunicação entre os pesquisadores ligados à aparência facial ou corporal, com o objetivo de concentração e compilamento dos dados. Os autores discutiram que a diversidade de métodos, teorias, estilos de pesquisas e variação no objeto das mesmas (pessoa e sua deformidade, pessoa e sua auto-imagem, relação de amizade e casamento, motivação para CP ou estilo de enfrentamento da atenção indesejada) necessitam passar por comparações pesquisas. BULL & RUNSEY (1988) procuraram por uma estrutura teórica que pudesse abarcar os resultados das pesquisas na área da Psicologia da Aparência Facial. Estavam atrás de um esqueleto teórico que pudesse justificar os achados. Ficou evidente que, pelo menos por enquanto, tal estrutura não existe. Para os autores, nenhuma teoria merece ainda o primeiro lugar, pois não alcançou a base integrativa dos dados. Para os autores, as denominadas teorias explicativas e, entre elas a Teoria da Atribuição de Causalidade, merecem destaque por revisar os achados dos pesquisadores e também procurar uma unidade de significação entre elas. interculturais, esclarecimento teórico e continuidade de

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